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Fichamento do texto “A ética do discurso e a comunicação mediada e editada pelos

Mass Media”, de Wilson Gomes.

- A ética do discurso e a comunicação

A ética do discurso decorre da expressão e da interação linguística. A linguagem
impõe ao seu uso determinadas regras diante de uma comunidade de falantes em
ato de comunicação. (p.339)

“As situações comunicativas que inspiram a formulação da ética do discurso (...) é
representada por debates discursivos com que [os falantes] resolvem, de forma
argumentativa, os seus conflitos práticos ou as suas pretensões normativas”. (p.339)

- A comunicação mediática e os problemas de uma ética do discurso

A comunicação mediática age de forma colonizadora, que acaba com a interlocução
direta ao invadir “a privacidade das interações comunicativas, (...)impondo sua lógica
específica, fundada nos princípios do entretenimento e da espetacularização”.
(p.340)

A exposição da intimidade e de fatos obscuros da política diante da esfera pública
feita pelos media, assim como o poder que têm de alterar e implementar valores e
contravalores socialmente compartilhados, são alguns dos problemas de uma ética
voltada para esse campo da comunicação midiática. (p.340)

- A dependência cognitiva dos indivíduos em face dos mass media

“Os meios de comunicação não representam a única forma de satisfação da
demanda cognitiva da sociedade”, mas tornaram-se indispensáveis ao
conhecimento pontual sobre a atualidade, que é um outro tipo de demanda
cognitiva. (p. 341)

Esse conhecimento sobre mundo pode ser dividido em duas dimensões de acordo
com as nossas experiências: “mundo tangível”, “conjunto de coisas, acontecimentos
e relações de que temos experiência por imersão corpórea”; e “mundo tout court”,
um mundo remoto feito por “um outro conjunto de coisas, acontecimentos e relações

(p. (p. a publicidade e a “privacidade” (indivíduos desprovidos de poder. só tomamos conhecimento através do que os mass media nos mostram. . 345) Os meios de comunicação contemporâneos promovem a instauração de uma outra forma de esfera pública em que “as posições se verbalizam para convencer. (p. Todo o que ultrapassa o mundo tangível. o que acontece na esfera pública. que são posteriormente oferecidos ao consumo quotidiano após serem “inseridas num conjunto de molduras voltadas para a sua contextualização e. mesmo que essa esfera pública seja em grande parte dependente da mediação dos meios de comunicação.344) A política mediática é transformada pelos media “numa política espetacular. cujo valor se dá pela argumentação) são características de uma esfera pública política. 342) É na esfera pública que se estabelece o nosso conhecimento fundamental sobre a atualidade.Os mass media e o mundo-media Os mass media “são um sistema institucional que congrega e controla tais instrumentos e procedimentos técnicos. de forma que o que chega até nós através desse sistema nada mais é que um “mundo-media”. 343). 342. escassamente argumentativa e decisivamente teatral ou dramática”.342) Os mass media “compilam materiais informativos sistematicamente organizados acerca do mundo-quotidiano”. (p. não . por conseguinte. esfera pública e a democracia A democracia se constitui pelo discurso e pela argumentação.Política. Os meios de comunicação despertam em nós o desejo de saber o que se passa nesses dois mundos. o que na verdade é um mundo-media. mas que sabermos que existem”. desde a fase da produção de materiais informativos até a sua teledifusão pelo planeta”. 342) . 341. o mundo-media (p. A discursividade e argumentação. organizada segundo princípios de sedução. (p. num quadro de tendências interpretativas” que têm por finalidade nos fazer considerar um mundo real mostrado por eles (os mass media).que escapam desta possibilidade de experiência.

negando-se a responder e a dar razões dos próprios argumentos e . e da qual o debate e a racionalidade estão excluídos. 347) Os meios de comunicações de massas constituem a esfera de visibilidade pública e formam um fórum ou espaço de disputa de interesses públicos.346) .. 346.para demonstrar argumentativamente”. enquanto parte interessada. participantes e parceiros da negociação ao lado de outros parceiros”. usa de estratégias e lógica de ataques e contra-ataques cujo objetivo é “a imposição da opinião particular como opinião do público (. (p.345) . (p. que são donos de um patrimônio prático e argumentativo que “frequentemente não resistem à tentação de. (p. eles próprios. (p. o que causa uma desigualdade na capacidade de expressão dos interesses pretendidos. instituições. regula a entrada de pretensões no circuito da negociação. Os mass media promovem uma situação interativa e possuem uma vantagem persuasiva que em que outras vozes não podem ser ouvidas. se constituírem em sujeitos de pretensões. (p.347) Os meios de comunicação se constituem por sujeitos de interesses e de pretensões. por ser mediática. ao mesmo tempo esse fórum se torna também um interlocutor de sujeitos de interesses particulares e. sendo que o Estado exerce apenas um poder regulador. sendo que a “comunicação política”.) e a imposição ao público da imagem planejada de sujeitos e posições políticas”.A ética e os meios de comunicação A “democratização das comunicações” se traduz como “reivindicação de direito à posse de media e direito à emissão de mensagens de massa” em sociedades cujos meios de comunicação são essencialmente privados. enquanto instituições.Política e opinião pública “Formar a opinião pública significa fazer com que quantidades demograficamente importantes de públicos tenham uma certa opinião sobre atores. temas e questões”. 347) O sujeito “meio de comunicação” se torna um déspota na medida em que apresenta suas pretensões de validade e desconsidera as objeções dos outros parceiros da negociação..

. injusta e deve ser rejeitada do ponto de vista ético. (p. e a discursividade. (p. 349) A ética da comunicação exige um sentido das ações e das enunciações. a verdade através do debate discursivo. 350) A situação ideal do discurso público se dá pelo cumprimento de duas exigências morais: a “exigência de garantia da expressão veraz e sincera de todos os participantes da argumentação” e a “exigência da garantia da igual faculdade de iniciar e continuar situações interativas”. (p. exige uma veracidade ou sinceridade. 349. (p. na qual quem argumenta se submete às regras normativas da interação. (p. sendo que qualquer introdução de vantagens ou prejuízos à equidade fundamental é iníqua. já que há normas reguladoras das interações na disputa e no conflito de interesses.) por grupos de interesse e sujeitos de pretensões políticas”. uma correção normativa. 348) . 352) . e a situação interativa ideal exigida por uma ética da dimensão pública. nota-se um descumprimento das exigências éticas de publicidade e equidade de condições.. já que “a ética da argumentação supõe que o interesse se converta pelo menos em opinião exposta para que ela possa funcionar como injunção linguística e discursiva”.350) .A ética argumentativa aplicada à comunicação política midiática Duas condições são fundamentais para que a ética do discurso faça sentido: a discussão. (p. ainda.escolhas.Problemas éticos da interação política contemporânea Um dos problemas éticos diz respeito à situação interativa política ideal. os pressupostos ético-pragmáticos de toda comunicação política. A ética da argumentação pública exige. sendo juiz do próprio comportamento e do comportamento dos outros.352) Com relação às propagandas políticas eleitorais. já que há uma “posse privilegiada dos meios de comunicação (. exige também. de quem argumenta. 349) Uma ética interativa contempla três movimentos importantes: a normatividade da ética em sua própria existência. 351. (p.

de tal forma que a retórica não se elimina em ambiente de competição política discursiva. seja no que tange às exigências ético- pragmáticas da argumentação”. 356) A ética prescreve as condições da justiça e limita a estratégia política persuasiva.“A regulação ética da locução exige do meio. estão a pretensão de verdade e a pretensão de veracidade. (p. Trata-se do problema ético da conversibilidade de esferas sociais. desta vez considerado enquanto sujeito da negociação. que geram a obstrução e clausura dos espaços mediáticos. exigências da ética da discussão pública. que não permite que todos os interessados possam interferir na argumentação e assimetrias provocadas pelo fato de que vantagens financeiras (.. seja no que se refere à situação interativa ideal. persuasiva e de uma estratégia conotativa que a caracteriza. 357) . (p. da política de opinião e imagem. Mas a propaganda política mediática está em contradição com esses pressupostos. (p. 353) .) se convertam em vantagens argumentativas”.” A comunicação política está relacionada aos “altos custos da telepropaganda. submetendo-se à lógica do consumo em que as posições ou candidatos políticos são “vendidos” em suas propriedades e qualidades conotadas. usa de uma linguagem enfática.. a responsabilidade argumentativa. sendo que “a estratégia se choca com uma das fronteiras da ética do discurso. (p. 354-356) Dentre os pressupostos ético-pragmáticos da argumentação.A comunicação política mediática cria um problema ético A comunicação política mediática usa o modelo de linguagem da publicidade e se aproxima da comunicação comercial.