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Bernardo Tavares dos Santos

Uma confissão

“Estão todos distraídos no umbigo do mundo. Na História, corrigir a


tiros quem está errado; e é tão fácil ver quem está errado, e atirar
para todos os lados; e uma saraivada de tiros no presente, e outra no
futuro (se não para outra coisas, apenas para matar o tempo). As
vidas ingênuas, massacradas, deslumbradas, com sua saúde obscena,
devem atacar o quanto antes as oligarquias governamentais de velhos
doentes que babam na camisa e soletram imbecilidades. As pessoas
devem pedalar uma bicicleta meio sagrada em direção à imundície
para se chocarem contra o Mostro e destruí-lo o mais rapidamente
possível, cortá-lo com os cacos de suas vidas por ele estragadas.
Quebrar tudo ou não tocar em nada. Matar o assassino para contrair
sua doença, ou ser morto por ele. Como é difícil passar o tempo!
Como as solicitações são uma só! Escolher uma posição do
caleidoscópio e lutar por ela até à morte. Exige-se uma máquina de
métodos para descobrir motivos em meio a uma tempestade de
piparótes.”

(Raul Fiker - http://www.scribd.com/doc/2677920/O-Equivocrata)

Eu confesso! É perturbador, mas confesso. E o faço sem alimentar

qualquer esperança de absolvição. Admito minha falta esperando apenas ser

alvo de puro desdém, ou então de pena, como aquela que se sente por

quem, uma vez estando na total miséria de qualquer natureza sabe-se não

poder almejar nada além disso. Pois é exatamente esta a deplorável situação

em que me encontro. Pena também, do tipo da que se manifesta em nós

quando deparamo-nos com o sujeito cuja consciência de estar submerso no


lodo das próprias fraquezas não o impede de continuar afundando. Eu possuo

tal consciência e, assim mesmo, não paro de afundar. Se é grave o delito do

qual me declaro culpado, então, ele também é triste, e nisto é importante

reparar. E não apenas ele o é, como as condições de sua execução também o

são, do começo ao fim, dada a sua natureza. Tudo do que se vai falar daqui

por diante é da mais absoluta tristeza, insisto em advertir, para que não haja

surpresa ou demasiado horror quando da confissão efetiva (pois se o leitor

destas próximas linhas não fizer funcionar a todo vapor seus dutos lacrimais

quando ler este documento, será por ter nada menos que uma máquina de

bombear sangue no lugar de um coração). E se é momento, ainda, para fazer

certas declarações preliminares, me parece necessário, também, esclarecer

que não falo desta forma para implorar misericórdia ou para tornar-me digno de

alguma. Quero apenas fazer notar o caráter singular deste crime: a

simultaneidade do ato criminoso em si e do suplício (mas, mesmo assim, ao

confessar-me, disponho-me a cumprir qualquer outra pena suplementar que

meus juízes façam pesar sobre mim; por isso mesmo estou a confessar-me:

exatamente por pensar não ser a tristeza inerente à prática criminosa, punição

suficientemente justa). Não, eu não cometi homicídio, não roubei, nunca obtive

vantagens apoiado no prejuízo de quem quer que fosse, nunca iludi ninguém.

Tudo o que fiz foi às claras e, pelo que me lembro, jamais fui capaz de causar o

mal diretamente a terceiros - garanto que pelo menos não de forma intencional

(e de qualquer modo, se não recordo, mas mesmo assim fiz mal a alguém em

algum dia no passado, não há de ter sido nada do porte do que descreverei a

seguir, do contrário me recordaria sem dúvida). O crime que confesso é muito

simples, e criminosos como eu se encontra por aí aos montes, como se


encontra pulgas nos pelos de um cachorro de rua. Mesmo que não haja réus

acusados por isso nos tribunais; mesmo que não se fique sabendo que, a meu

exemplo, outros marginais se arrependam e decidam-se por confessar a

atrocidade cometida. E já basta de deixar a vergonha para depois...

Eis, sem mais demora, o delito do qual sou culpado: minha existência,

toda ela, no que concerne o sublime movimento das coisas, é um completo

desperdício. É este o motivo pelo qual, agora, o mínimo que devo fazer por um

Universo traído em sua infinita beleza é demonstrar alguma hombridade e

assumir a responsabilidade - quem sabe até pedir desculpas (sem esperanças,

evidentemente, de que isto faça a diferença que eu nunca fui capaz de fazer).

A verdade é que, em contato comigo, a matéria gira em falso, os objetos

perdem a utilidade, os pensamentos não levam a lugar nenhum, se acumulam,

orbitam ao redor de uma meia dúzia de sentimentos mesquinhos (vaidade,

medo, vergonha, culpa...) até se confundirem com eles. As melhores idéias não

frutificam no solo apodrecido da minha consciência. As boas intenções

conduzem a verdadeiros martírios. As sensações, as experiências se

desconectam de mim rapidamente sem dar em nada, se transformam em

lembrança. Contento-me em fazer delas mera referência do que foram, ou

deviam ser; ao invés de vivê-las em seu "aqui e agora", torno-as disfarces para

os sentimentos de sempre. Sou dominado por fantasmas, os mais diversos -

um novo por dia, mas nem tão novo assim: apenas uma nova apresentação

para o antigo problema. Ah! Como é triste ter uma sensação ou um

acontecimento para relembrar ao invés de uma plataforma de onde saltar para

um lugar diferente e desconhecido! (E quantas plataformas atravessaram meu

caminho nesta vida para serem ignoradas...) E que falta grave constitui nunca
ser capaz de fazer diferente. Pois eu preferia esquecer tudo para poder, pelo

menos, tornar a fazer (não que já tenha realizado algo de importante, mas

estive vivo, respirei, tive idéias, conversei, fiz favores, é algo a se considerar,

podia ter feito muito a partir daí...). Faria todas as coisas repetidamente sem

culpa, contanto que não me recordasse de já tê-las feito antes e da mesma

forma sem chegar a lugar algum, e que não mais soubesse de nada quando

tudo brecasse ao meu redor. Pior mesmo que tudo isto é ainda ter gente à sua

volta para compartilhar e fazer presentes as lembranças, dividir a memória

fracassada das suas realizações - que, por sua vez, só se sabe serem suas na

medida em que você se lembra delas, e não porque elas se façam presentes

nos seus feitos atuais; dos quais, de alguma forma, elas deviam fazer parte, ao

menos cumprindo o papel de ponto de partida, ou então de inspiração ou

motivação (o que já seria muito). Mas aqui não é lugar de me lamentar, e sim

de me fazer julgar. E caso não tenha ficado bem claro, repito que é

precisamente isto que me propus a fazer quando comecei a escrever esta

confissão: reconhecer, perante o Cosmo, o benevolente juiz universal, e

perante qualquer outro que tenha acesso a estes parágrafos e que acredite-se

digno de julgar-me, que em mim as possibilidades abortam ao invés de se

multiplicarem, a beleza sublime do movimento sucumbe (breca ou acelera) em

direção à sua própria abolição. Sou culpado de fazer o contrário do que nos é

designado enquanto entes que habitam o Infinito. Se dependesse da minha

pessoa, admito, talvez o Universo nunca tivesse deixado a forma de um

minúsculo aglomerado de matéria. Eu deixo tudo como está. Sorte para nós

que a Existência não é senão o próprio movimento de sua autotransformação...


Pela falta referida, mereço, sem sombra de dúvida, o maior dos castigos,

que é, com efeito, a tristeza inerente à vida que levo. Meu pedido por uma pena

suplementar, portanto, não visa piorar o meu suplício (isso é impossível!), a

intenção é apenas tornar meu delito público, fazê-lo ser reconhecido por todos

como aquilo que é: uma falta grave contra o que há de mais maravilhoso, um

pecado contra a vida de todas as coisas. A questão aqui, para mim, é a de uma

condenação social e da aplicação de uma punição exemplar. Escrevo para

cobrar providências da sociedade! Porque se ainda posso realizar algo que

amenize a degradação generalizada que produzo desde o berço, é fazer com

que outros temam ter o meu destino. De modo que, não apenas me entrego,

como exijo ser investigado e julgado culpado pelos crimes cometidos. Depois

disto não restará outra alternativa senão punirem-me severamente. Mas, se

assim for, é forçoso que, como parte do processo, se investigue também meus

cúmplices. Sim, eu tive cúmplices. (Não se faz tamanha maldade sozinho.)

Alguns foram apenas coniventes com os crimes que cometi, com outros sujei

as mãos em parceria. E eles foram tantos... A começar pelos habitantes da

minha casa materna, com quem passei anos a encenar o mesmo ato - vez ou

outra até o repetimos, adaptando-o, é claro, aos dias atuais. Juntos,

envergonho-me em admitir, nós escrevemos e distribuímos os papéis mais

simples e os mais complexos, com seus conflitos e evoluções, marcamos as

posições a serem ocupadas, ensaiamos as cenas exaustivamente, tornamo-

nos peritos em não ser nada além do que era previsto. Nada fugia, nada

haveria de se transformar. Todos os meus impulsos infantis mais criativos,

todas as minhas perguntas absurdas e o mundo de possibilidades que se abria

a partir delas, por exemplo, tornavam-se "coisas de criança". E havia, por


oposição e derivação, as "coisas de adulto", as "coisas de moço" e as "de

mocinha", "do irmão mais velho", "do pai", "da mãe", "do tio neurastênico".

Havia, portanto, posições a se almejar, mas nada a criar. Até as travessuras,

os erros, as faltas eram executadas como tais e não podiam ser outra coisa

senão isto mesmo que eram e em relação direta com as posições ocupadas

pelos personagens envolvidos. Esclareço, no entanto, que não tive uma

infância triste, como posso estar dando a entender. Minha vida "de criança" era

alegre e movimentada como é próprio dela mesma sê-lo (e não poderia ser de

outra forma!). Mas já neste período, tudo se movia sem sair do seu devido

lugar.

E como seria diferente na escola, então? E não era apenas na relação

com os professores ou com o que dizia respeito ao processo pedagógico em si

- que se sabe bem poder ser absolutamente opressivo, mesmo em ambientes

escolares ditos avançados. Pois não demorou a ser da mesma forma com os

colegas (tanto com os rivais, como com meus melhores amigos). É que,

embora fôssemos capazes de provocar os maiores desatinos entre nós e de

compreender os maiores absurdos daquilo que nos ensinavam, acabamos por

preferir manter cada coisa em sua posição determinada: os conteúdos das

disciplinas, os professores, os diretores, os bedéis, o primeiro da classe, o mais

simpático, a mais bonita, os bagunceiros ou as eternas vítimas das

traquinagens. O processo pedagógico resumia-se a aprender e criar os lugares

apropriados de tudo; se algo - ou alguém - ainda não possuísse, para nós, um

lugar que lhe correspondesse, nossa missão enquanto estudantes era entender

que havia um a ser descoberto, em detrimento de qualquer dificuldade. Mesmo

para as travessuras, os erros, as faltas, as rebeldias... Nesta época lembro-me


de já pensar sem querer: "ora bolas, mas são as regras que definem o jogo ou

o jogo que determina as regras?". No entanto, nunca cheguei, evidentemente,

a ter a verdadeira vontade de mover-me a ponto de mudar algo do lugar. (Em

algum lugar da minha memória, agita-se agora a imagem de um professor com

quem era diferente. Ouço suas palavras: "Seríamos capazes de viver uma

verdadeira revolução se se deixasse as crianças pensarem em paz". Me

parece que ele estava protegendo algum aluno inconformado quando disse

isto, mas foi escutando dizê-lo que me senti inspirado pela primeira vez na vida

- o que, obviamente, acabou por não fazer a menor diferença, para a vida e

para mim.)

Não estou falando de um trauma de infância, quis apenas remontar ao

mais distante possível. Da mocidade em diante não foi diferente. O

pensamento e a ação não se esquecem nunca como é correr livremente, por

mais que o sujeito em que eles se manifestem esteja condicionado pelo hábito

até as profundezas. Há, evidentemente, os que se transformam em autômatos,

não posso negar, mas mesmo estes veem-se atravessados por situações que

não respondem às posições dadas, às formas de conduta pré-concebidas, à

interpretação correta das coisas. Acontece que fica cada vez mais fácil

encaixar estes acontecimentos do lado da ilusão, da inexperiência, do

idealismo ou da compreensão errônea dos fatos, qualquer coisa assim. Mesmo

as travessuras, as rebeldias... Sempre se falou de criação, de liberdade, do

poder de transformar, de fazer cada vez melhor. Ouvi os mais belos discursos

sobre isso. Qualquer um que tenha vivido nas últimas décadas do século

XX ouviu. Mas estou divagando, isto é demasiado geral e aqui trata-se de

colaborar com as investigações do meu crime, de apresentar suspeitos de


cumplicidade com ele, dar ideia de como as pessoas se envolveram. Falarei de

alguns sem citar nomes, o que pretendo fazer em hora oportuna, quando dos

interrogatórios que me forem impostos. Há, por exemplo, as mulheres que amei

e que me amaram, e com quem deixei de penetrar no mundo de inspiração e

auto-descobertas que só a vida a dois pode proporcionar para me estabelecer

em "relacionamentos", com suas devidas posições. Cenas de ciúme e juras de

amor, programas de casal. "Você prometeu que não faria isso nunca

mais!" Toda uma forma de proceder que nunca fugia às "coisas de

namorados": "de namorado" e "de namorada". Nada mais que isso. Mesmo os

erros, as travessuras, as traições... As regras definindo o jogo.

Uma visita à Universidade onde me graduei com certeza revelará mais

uma longa lista de faltas e seus respectivos coloaboradores. Inquieto com as

coisas do mundo, interessei-me pelas Ciências Humanas. Queria descobrir

como, de tempos em tempos, a humanidade troca tudo de lugar, como a

verdade muda de mãos e de posição; queria, eu mesmo, poder alterar também

a ordem das coisas; o plano era muito simples: mudar o mundo. Admirava os

que o tinham feito no passado e pretendia fazer como eles. Mas em pouco

tempo eu, meus colegas e professores estávamos convencidos, com toda a

volúpia, de que pensar desta forma era ilusão. Nossa verdadeira missão como

intelectuais era, então, combater este tipo de entendimento ingênuo e perigoso,

conhecer a verdade intrínseca às coisas e colocar cada uma em seu devido

lugar de direito (a ser decidido e demarcado, evidentemente, pelo nosso

veredicto). Fizemos isto e nada mudou. Havia as teorias certas a se discutir,

posições a adotar. "De que lado você está?" era a pergunta que mais fazíamos.

Demo-nos por satisfeitos. Fomos aplaudidos em cada conferência. Orgulhamo-


nos. Estávamos empolgados, até acreditávamos ter feito algo? Mas, no íntimo,

eu pressentia que não. Não sei se hoje eles se arrependem como eu.

Dediquei grande parte da minha vida ao jornalismo e, como é de se

esperar, nesta profissão também colaborei para minha ruína e a vergonha do

Universo. Nos arquivos de funcionários dos jornais e portais de internet onde

trabalhei, há de se identificar mais uma porção dos meus ingênuos cúmplices:

editores, fotógrafos, repórteres, colunistas (e há, ainda, as fontes, os leitores,

os proprietários das bancas de jornais... a investigação será longa, sem

dúvida!). Aprendi rapidamente a maneira mais apropriada de compreender as

coisas e informar os fatos. O fiz com esmero e dedicação. Dei uma porção de

furos. Desmascarei esquemas fraudulentos de políticos (informado por seus

adversários, culpados dos mesmo delitos que a mim denunciavam, é claro).

Ganhei prêmios e ascendi na profissão. Orgulhei-me e a todos que por mim

nutriam alguma simpatia. Mas como não seria fácil para mim destacar-me?

Seria outro o princípio da imparcialidade jornalística senão "não tirar nada do

lugar"? Nisso eu sou perito! E como contribui para a minha culpa nesta época...

Mas como tivesse muita gana por transformar as coisas, ainda fiz-me voluntário

em uma ONG, desta vez para fazer valer minha sina em nome da inclusão

social. Tirávamos as pessoas dos lugares onde elas não deviam estar, de suas

situações de risco, suas posições indignas e desumanas, e colocávamos nos

lugares certos, nem um milímetro além, as incluíamos. Que orgulho poder fazer

um semelhante desfavorecido ascender à minha posição. Para tanto, é claro,

era preciso haver normas, regulamentos: não dávamos o peixe, explicávamos

o jeito certo de usar a vara e a utilidade real do rio. Das regras mais

importantes, uma era a de não dar nunca a impressão de que se era superior
ao que se pretendia ajudar. "Eu não sou melhor que você, sou apenas o que

você deveria ser. O mínimo, aliás." O universo de pessoas envolvidas nisso -

todas as elas devendo figurar nos autos do processo que há de se realizar

contra mim - é incontável! A lista dos meus melancólicos comparsas passa por

colegas, diretores, patrocinadores e mesmo por aqueles que era nossa missão

atender e recolocar adequadamente.

Há ainda os políticos, por exemplo, com quem colaboro para que se

continue a pensar que é isto mesmo que é política: eles lá, eu aqui e pronto.

Cobrar e representar, eis aí nossas respectivas funções. Nada saindo do lugar

novamente. Mas é melhor parar por aqui, pois não é o caso de se fazer já uma

lista dos envolvidos. O processo há de correr. Existem cúmplices demais. E

também há os delitos que realizei sozinho, sem qualquer colaboração, e que

precisam ser devidamente apurados: simplesmente deixei as idéias morrerem,

as intenções tornarem-se hipócritas, as sensações virarem lembranças, a

vontade se transformar em vergonha, o inconformismo terminar numa conversa

de bar. Esclareço ainda, a respeito dos outros participantes dos meus delitos,

que nenhum deles é mais culpado nisso tudo que eu. Ao contrário, eu é que

sou pior que eles, pois sempre tive consciência, por menos clara que fosse de,

que se podia - e em certa medida se devia - fazer diferente. Sempre desconfiei

do compromisso que cada um de nós tem com o sublime movimento das

coisas, a ligação íntima que travamos com a transformação no Universo (talvez

por causa daquela frase do antigo professor - isto sim deve ser um trauma de

infância). Deste ponto de vista pode-se dizer que sou culpado primeiro pelos

meus crimes, mas também por não ter impedido que meus cúmplices

realizassem os seus. É como se os tivesse, praticamente, incitado - embora


todos eles tenham feito tudo por livre e espontânea vontade, e que seja

possível, inclusive, que tivessem feito tudo igual sem mim. Entretanto, minha

participação em seus crimes suaviza sua culpa e intensifica a minha. Por isso

entrego-me na qualidade de criminoso principal tendo todas essas pessoas

como meus colaboradores e nada demais, todas agindo sob minha tutela e

responsabilidade, embora fosse impossível que soubessem disto. Meu

compromisso com o caráter exemplar da minha pena, no entanto, me impele a

cobrar que eles também não sejam alvo de misericórdia e paguem por seus

crimes. Pois se é preciso que as futuras gerações temam o meu destino,

também é preciso que temam o dessa infinidade de sujeitos distraídos, com

seus diferentes graus de culpa e suas respectivas penas proporcionais.

Tenho, por fim, alguns pedidos de desculpa a fazer. Primeiro a todas as

coisas que existem, existiram, ou ainda existirão. Não sou digno de

compartilhar com elas o mesmo Universo e o admito envergonhado. Espero

que este meu último ato desesperado favoreça seu movimento e sirva de

reverência à sua infinita e sublime beleza. Em segundo lugar, peço desculpas

aos que comigo serão julgados e condenados. Se os delatei foi visando um

bem muito maior que a nossa reles e malsucedida passagem pelo mundo. De

alguma forma, sei que me compreenderão um dia (quem sabe ao verem quão

belo há de ser o mundo em que ninguém mais ignore toda maravilha que se

pode realizar em harmonia com a dinâmica Universal). Em terceiro e último

lugar, me desculpo com aqueles que forem incumbidos de fazer valer a justiça,

pois terão muito trabalho. Nesse sentido desculpo-me por mim, mas também

por todos os outros a serem investigados. Não tenho dúvidas de que atitudes

poderiam ter sido tomadas no passado para impedir que esta rede de crimes
se estendesse tanto, o que evitaria que o processo se emcompridasse

infinitamente. Quero que cada noite que passem em claro, envolvidos no

processo, conte como um agravante no momento da emissão da minha

sentença (mas não nas penas dos meus irresponsáveis colaboradores). Peço

ainda que haja seriedade e ímpeto na realização do processo que se seguirá,

pois ele há de ser muito longo, uma vez que cada um dos meus crimes -

individuais ou em conjunto - há de revelar toda uma rede de marginalidade que

tende a expandir-se infinitamente, um cúmplice levando a outro e, quem sabe,

se chegue, neste tortuoso caminho, a mais criminosos do meu porte, que

possuirão, sem dúvida, cada um uma outra rede de crimes a que se vinculem.

Compreendo que não se pode fazer justiça às pressas, mas dever-se-á

conduzir muito agilmente as investigações, do contrário pode ser que os

acusados já estejam mortos quando do fim do processo, ou então que o

número de criminosos cresça mais rápido que o de suspeitos no inquérito. É

possível que se deva fazer leis de efeito retroativo que deem conta de

condenar a mim e aos outros, por isso peço boa vontade também aos

deputados e senadores. De qualquer forma, deve haver na jurisprudência

casos que colaborem para me sentenciar, uma vez que atentei não apenas

contra a vida das pessoas, mas de todas as coisas. Os juízes do supremo

certamente saberão como intervir. Peço desculpas a todos novamente e

infinitamente. Meu arrependimento é do tamanho da beleza da Existência.

Aguardo ansiosamente que se faça justiça. Para que me encontrem

basta me procurarem no endereço do qual remeto esta correspondência. Não

estou certo se devo me entregar, pois não sei bem em que jurisdição se

encaixa o meu delito, de modo que esperarei aqui mesmo até que alguém se
mova a me buscar e encaminhar para o lugar de direito. Esta confissão será

enviada, portanto, a cada habitante desta cidade, cujo dever, perante o Infinito,

é cuidar para que a Justiça cósmica seja feita. Aquele que se recusar a

colaborar para a minha autuação em flagrante se converterá, automaticamente,

em mais um dos meus cúmplices.