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Maria Fernanda Baptista Bicalho *

Capítulo IV

Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas. História e historiografia

Este artigo pretende discutir e problematizar o significado do termo elites num contexto colonial da Época Moderna, e, portanto, marcado pelo mercantilismo. Por outras palavras, em uma colônia ou conquista cujo sentido era comercial e a sociedade escravista. Contexto singular, que produziu personagens específicas em relação ao conteúdo e à experiência das elites que viveram e se constituíram no cenário europeu de Antigo Regime, como em Portugal. Neste, as elites eram formadas, sobretudo, por membros das casas nobres, que tinham no sangue, na ascendência e na casa, sua melhor identificação 89 . Certamente, também em Portugal pode-se decompor o termo ou o conceito de elites, ao tratarmos das elites mercantis 90 , ou das elites administrativas 91 , constituídas por nobres, por eclesiásticos 92 e por letrados 93 .

* Universidade Federal Fluminense.

89 Cf. Nuno Gonçalo Monteiro, «As Elites nobiliárquicas em Portugal na Época Moderna».

90 Cf. Jorge Pedreira, «Elites mercantis. Ponto da situação historiográfica», e Leonor Freire Costa, «Elites mercantis do século XVII e a Restauração: novas propostas de análise».

91 Cf., Mafalda Soares da Cunha, «Os governadores coloniais do Atlântico português (séculos XVI-XVIII)».

92 Cf. José Pedro Paiva, «Definir uma elite de poder: os bispos em Portugal, 1495-

-1777».

93 Cf. José Subtil, «Os desembargadores em Portugal, 1640-1820».

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Pode-se, ainda, pensar em uma elite camarária, concelhia, em uma nobreza da terra, ou nobreza civil e política encarregada da governança das localidades 94 . No outro lado do Atlântico, na América portuguesa, produto de relações mercantis e escravistas, as elites ganharão um outro sentido. Podemos conceituá-las a partir de um critério econômico, de acordo com o qual as elites coloniais seriam os segmentos que mais riquezas teriam acumulado. Certamente o acúmulo de riquezas é garantia de status e de poder na sociedade colonial 95 . Como escrevera Antonil, «o ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos. E se for, qual deve ser, homem de cabedal e governo, bem se pode estimar no Brasil o ser senhor de engenho, quanto proporcionadamente se estimam os títulos entre os fidalgos do Reino» 96 . No entanto, a constituição das elites no ultramar passava pelo serviço do rei, não tão diferente do que ocorria também em Portugal. Nesse sentido, a conquista e a defesa da terra, o serviço do rei, a ocupação de cargos administrativos e as mercês régias recebidas em retribuição aos serviços prestados podem aqui ser evocados como critérios de formação e de definição das elites coloniais. Porém, o que a situação e a experiência coloniais tinham de específico era o facto de suas elites serem escravistas. Tratar desse tema na América portuguesa dos séculos XVI ao XVIII não é tarefa fácil. Só muito recentemente as elites vêm sendo objeto de estudos mais pormenorizados por parte dos historiadores brasileiros. Esse artigo se propõe a tecer uma leitura da historiografia sobre o Brasil colonial que incorporou e desenvolveu a discussão sobre o lugar e o papel das elites coloniais. Iniciarei pelas análises sistêmicas, estruturais, de cunho marxista, que se inspiraram no sentido da colonização, proposto por Caio Prado Júnior, no livro Formação do Brasil Contemporâneo, cuja primeira edição é de 1942, e que se constitui, ainda hoje, em uma das obras referenciais ou clássicas no seio da historiografia brasileira. Segundo esse autor, a expansão portuguesa, assim como a colonização do Novo Mundo ter-se-iam dado fundamentalmente por motivações de caráter econômico, apresentando-se enquanto uma decorrência do desenvolvimento comercial europeu. Dentro

94 Cf. Joaquim Romero Magalhães, «Os nobres da governança das terras».

95 Cf. Fragoso, João, «Algumas histórias dos homens de negócios do Rio de Janeiro:

século XVII e princípios do século XIX».

96 André João Antonil, Cultura e Opulência no Brasil por Suas Drogas e Minas,

Introdução e comentário crítico por Andrée Mansuy Diniz Silva, Lisboa, CNCDP, 2001, p.

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desse contexto a colonização do Brasil teria como objetivo precípuo atender aos interesses mercantis da metrópole portuguesa 97 . O livro de Fernando Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), aprofunda esta interpretação e o próprio conceito de pacto colonial, já formulado por Caio Prado. Este conceito fundamenta-se na prática do exclusivo metropolitano, ou monopólio colonial, mecanismo essencial de explicação da relação de dependência e de subordinação da

colônia à metrópole, e de favorecimento dos grupos de comerciantes reinóis no processo de acumulação primitiva de capital que marcou a economia mercantilista dos Estados europeus nos Tempos Modernos. Tal mecanismo, ao conferir sentido ao processo de colonização, apresenta-se enquanto chave de entendimento do antigo sistema colonial que, em termos políticos, fundava-se nas relações entre «dois elementos: um centro de decisão (metrópole) e outro (colônia) subordinado» 98 . Segundo o autor, «a estruturação das atividades econômicas coloniais, bem como a formação social a que servem de base, definem-se nas linhas de força do sistema colonial mercantilista, isto é, nas suas conexões com o

não só a concentração dos fatores produtivos no

fabrico das mercadorias-chave, nem apenas o volume e o ritmo em que eram

produzidas, mas também o próprio modo de produção definem-se nos

Ora, isto obrigava as economias

coloniais a se organizarem de molde a permitir o funcionamento do sistema de exploração colonial, o que impunha a adoção de formas de trabalho compulsórias ou na sua forma limite, o escravismo» 99 . Afeito à lógica do sistema, o tráfico negreiro abria um novo e importante setor do comércio colonial. Novais inova ao afirmar que «é a partir do tráfico negreiro que se pode entender a escravidão africana colonial, e não o contrário» 100 . Também afeito a uma visão estrutural e marxista, embora estabelecendo um recorte imperial e atlântico, uma das contribuições do livro O Trato dos Viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro consiste numa nova abordagem do pacto colonial, estabelecido entre o colonato brasílico e a Coroa portuguesa. Sua análise desloca o eixo de

mecanismos do sistema colonial. [

capitalismo comercial. [

]

]

interpretação do sistema colonial do binômio colônia/metrópole, Brasil/Portugal, para o Atlântico-Sul, «espaço econômico e social bipolar, englobando uma zona de produção escravista situada no litoral da América do Sul e uma zona de reprodução de escravos centrada em Angola». Seu intuito

97 Caio Prado Júnior, «O sentido da Colonização», in Formação do Brasil Contemporâneo, 15.ª edição, São Paulo, Editora Brasiliense, 1977.

98 Fernando Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial, 1777- -1808. São Paulo, Hucitec, 1979, p. 62.

99 Idem, pp. 97-98.

100 Id. ibid., p. 105.

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é demonstrar «como essas duas partes unidas pelo oceano se completam num só sistema de exploração colonial» 101 . Uma das contribuições do livro de Alencastro baseia-se no argumento de que a colonização não surge acabada, tendo, ao contrário, decorrido de múltiplos aprendizados. O autor afirma que «a presença de colonos num território não assegura a exploração econômica do mesmo território». Só a partir do momento em que «os colonos compreendem que o aprendizado da

podem se

coordenar e completar a dominação colonial e a exploração colonial» 102 . Sua

tese consiste no argumento de que o tráfico atlântico de africanos «modifica de maneira contraditória o sistema colonial. Desde o século XVII interesses

cristalizam-se nas áreas

escravistas sul-americanas e nos portos africanos de trato. Em contraponto ao intercâmbio direto das conquistas com a Metrópole, carreiras bilaterais vinculam diretamente o Brasil à África Ocidental». Tal argumento o leva a afirmar que, «realizando a reprodução da produção colonial, o tráfico negreiro

se apresenta como um instrumento da alavancagem do Império do Ocidente. Pouco a pouco essa atividade transcende o quadro econômico para se incorporar ao arsenal político metropolitano». Portanto, «o exercício do poder

equaciona-se no âmbito do tráfico negreiro».

Responsável pela transmutação da escravidão em escravismo, o tráfico negreiro, segundo Alencastro, não se reduz ao comércio de negros: «De conseqüências decisivas, na formação histórica brasileira, o tráfico extrapola o registro das operações de compra, transporte e venda de africanos para moldar o conjunto da economia, da demografia, da sociedade e da política da América portuguesa.» 103 Seguindo a mesma chave interpretativa de Fernando Novais, embora em estudo que tem como objetivo analisar a constituição do Estado imperial brasileiro no século XIX, Ilmar R. de Mattos propõe uma análise do relacionamento entre os agentes da colonização, sobre a qual se baseou a inteligibilidade de toda uma geração de historiadores acerca dos distintos segmentos que compunham a sociedade colonial. Segundo o autor, na face metropolitana da moeda colonial, «o monopólio produzia o colonizador; este o reproduzia, ao ditar a política colonial que visava a assegurar a transferência da renda para a Metrópole». Colonizadores eram todos aqueles elementos ligados à esfera administrativa, leigos e eclesiásticos. Eram também, e, sobretudo, os comerciantes, especialmente os negociantes de grosso trato ou homens de negócio.

imperial no Atlântico [

luso-brasileiros ou, melhor dizendo, brasílicos [

colonização deve coincidir com o aprendizado do mercado [

]

]

]

101 Luiz Felipe de Alencastro, O Trato dos Viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 9.

102 Idem, pp. 19 e 22.

103 Id., ibid., pp. 28-29.

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Na face colonial, marcada por sua configuração regional, surgia o colono, «pois se a colonização é, antes de tudo, a montagem de uma estrutura de produção, o colono aparece como o primeiro produto da produção colonial, o agente gerador de uma opulência». O colono é, assim, o proprietário colonial, aquele que detinha o monopólio da mão-de-obra, de terras e dos meios de trabalho. Ambos colonizadores e colonos detinham, portanto, monopólios específicos. O compromisso entre eles, baseado numa relação assimétrica, fundava o pacto colonial. Esses dois agentes da colonização distinguiam-se, na visão do autor, dos colonizados. Estes «sofrem a exclusão que a existência do monopólio supõe», identificando-se tanto com a «vasta gama constituída tanto pelos escravos – ‘da Guiné’ ou nativos – quanto pelos agregados, quer pelos ‘homens que servem a outros por soldada’, quer pelos índios bravos» 104 . Embora Mattos defina as elites coloniais colonizadores e colonos em função de sua posição enquanto um desdobramento do monopólio, eixo estrutural do sistema, alça-os à posição de sujeitos e protagonistas do pacto colonial: «A relação metrópole-colônia, no momento considerado, funda-se no pacto colonial, ou seja, no compromisso recíproco das partes, embora em proporções desiguais. Deste modo, o colono está obrigado ao cumprimento do monopólio que distingue o colonizador, há muito o sabemos; o colonizador, por seu turno, está obrigado a resguardar o monopólio do proprietário, fato nem sempre evidenciado pela historiografia.» 105 Ao compreender os colonos enquanto agentes ativos do processo colonizador, confere maior complexidade às relações econômicas e políticas estabelecidas entre os dois pólos constituintes do pacto colonial. Este deixa de ser estabelecido entre a metrópole enquanto centro de decisão, e a colônia enquanto elemento subordinado, passando a resultar de um compromisso recíproco, embora assimétrico, entre as partes de um todo consensual e dinâmico. Embora rompendo com a visão do monopólio entre metrópole e colônia 106 enquanto eixo que confere dinâmica ao sistema, Alencastro recupera o colonato brasílico como sujeito, agente modificador das determinações legais

104 Ilmar R. de Mattos, «A moeda colonial», in O Tempo Saquarema, São Paulo, Hucitec, 1987, pp. 26-27.

105 Idem, p. 27.

106 «No século XVIII, quando as estatísticas passam a ser mais acuradas, se verifica que apenas 15% dos navios entrados no porto de Luanda vinham da Metrópole. Todo o resto da navegação para Angola muitas vezes carregando mercadorias brasileiras (mandioca,

cachaça, etc.) e não européias (tecidos asiáticos) saía do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife. De Salvador zarpavam também os barcos com o tabaco baiano, que dominava o trato da Costa da Mina. Escusado dizer que uma percentagem maior ainda desses barcos

Resultam dois fluxos de troca bilaterais que não

voltava direto para o litoral brasileiro. [

correspondem à continuidade mercantil e marítima do alegado ‘comércio triangular’ – unindo os portos europeus à África e às colônias antilhanas e norte-americanas», cf. Alencastro, op. cit., pp. 28-29.

]

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e exclusivistas emanadas da metrópole. Se assim é em termos econômicos, o

mesmo pode-se dizer em termos políticos. Analisando a reconquista de Angola em 1648 dos Holandeses, protagonizada em larga escala por luso- flumi-nenses provenientes do Rio de Janeiro, remete-se à constituição de um novo pacto político entre a Corte e os guerreiros ultramarinos. A tentativa de conceituação desse novo pacto político tem sido um dos

elementos marcantes, nos últimos anos, de um conjunto significativo de trabalhos da historiografia brasileira. Alguns deles têm como objeto o imaginário político no qual se baseava o sentimento de pertença dos colonos entendidos enquanto súditos e vassalos ultramarinos à monarquia portuguesa. Esta nova perspectiva historiográfica, que apresenta um deslocamento interpretativo e conceitual em relação aos termos colônia e

colonos 107 , tem nos estudos de Evaldo Cabral de Mello seu ponto de inflexão

e de renovação. Em Rubro Veio, Mello analisa as representações dos pernambucanos ao rei, pedindo-lhe honras, mercês e cargos em troca de seu empenho na reconquista da capitania e na expulsão dos Holandeses, «à custa de nosso sangue, vidas e fazendas» 108 . O imaginário político que deu corpo a esse discurso fundava-se, segundo o autor, numa concepção contratual ou pactícia

107 Em artigo que propõe a substituição do termo ou conceito de colono pelo de vassalo para caracterizar as elites coloniais, Gabriel Almeida Frazão afirma que «a discussão acerca do termo vassalo, recorrente na documentação sobre o período colonial,

torna-se de fundamental importância para a compreensão dos mecanismos que fundamentavam o sentimento de pertencimento dos habitantes, ou súditos ultramarinos, e do próprio imaginário político que integrava esta complexa rede sobre a qual se estabelecia o império português». Sobre as diferentes proposições teóricas da historiografia acerca da utilização dos mesmos conceitos, o autor conclui: «consideramos que elas têm como

grande mérito o fato de terem trazido [

revigorado, que não mais se restringiria somente às relações econômicas, mas abrangeria

Acreditamos que a utilização do

conceito de vassalo pode contribuir para essa nova concepção do pacto colonial, que possa dialogar com a própria noção corporativa de sociedade presente em Portugal, e, consecutivamente, no império português. Noção esta que também incorporaria as próprias relativizações no tocante ao poder «absolutista», principalmente com relação à constante

Deste modo, o pacto agora pode ser compreendido enquanto

algo próximo a um contrato onde podemos visualizar com maior clareza os direitos e os

deveres das partes que o integram. [

enquanto agente passivo do processo decisório do período colonial, visão concebida por modelos dicotômicos que enfatizam a subordinação, deve ser revista através de análises que, utilizando-se seja do termo não do conceito tradicional colono, seja do termo vassalo, concebam os habitantes do Brasil como ‘súditos de Sua Majestade’ detentores de voz ativa no processo colonizador», cf. Gabriel Almeida Frazão, «Colonos ou Vassalos? Novas perspectivas para a análise da relação Brasil-Portugal nos quadros do Império

tendemos a concluir que a concepção de colono

prática da negociação [

também os aspectos políticos administrativos. [

à tona novamente o conceito de pacto-colonial

]

]

].

]

Atlântico Português», artigo inédito. 108 Evaldo Cabral de Mello, Rubro Veio. O imaginário da restauração pernambucana, Rio de Janeiro, Topbooks, 1997, pp. 105-152.

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que não era estranha à teoria do direito ibérico no Antigo Regime 109 . Em contrapartida a demonstrações de empenho e vassalagem na manutenção e na defesa dos territórios ultramarinos, os naturais de Pernambuco reivindicavam para si uma série de distinções e um acesso privilegiado ao governo das conquistas. Ao retribuir os feitos de seus vassalos, a Coroa reafirmava o pacto político que unia os súditos reinóis e ultramarinos a si própria. A partir desses valores, noções e práticas típicas do Antigo Regime, os pernambucanos assim como os Paulistas, os Fluminenses, os Mineiros e os naturais das diversas capitanias do Brasil dispunham suas vidas e fazendas em prol de uma causa que não era apenas sua ou dos grupos que representavam; tornando-se, enquanto vassalos do rei de Portugal, agentes da construção da soberania lusa no Atlântico Sul 110 . A trajetória que pretendo, inicialmente, traçar aqui é a do deslocamento teórico e conceitual entre o que a historiografia brasileira de cunho marxista classificou de colono ou colonato, e o que uma outra vertente da historiografia, que privilegia o imaginário e a negociação política dos súditos ultramarinos na construção das relações entre centro e periferia, vai perceber como constituintes das elites coloniais. Mais uma vez, a meu ver, o autor que reintroduziu na historiografia brasileira um novo padrão de classificação e de discussão das elites coloniais foi Evaldo Cabral de Mello. Tal facto não se deve apenas à sua perspectiva teórica calcada na visão contratualista que fundava os vínculos entre vassalos ultramarinos e Coroa portuguesa, mas, e, sobretudo, ao mérito de ter resgatado um corpus documental desdenhado pelos historiadores marxistas:

os tratados e as obras de genealogia. Exemplo dessa démarche é o livro O Nome e o Sangue, que o próprio autor classificou como uma «parábola genealógica, tanto no sentido geométrico de percurso ou trajetória quanto na acepção literária de conto moral» 111 .

109 Em Rubro Veio, o autor afirma: «da restauração [de Pernambuco e expulsão dos holandeses] alcançada ‘à custa de nosso sangue, vidas e fazendas’, tirava-se o corolário da existência de um pacto entre a Coroa e a ‘nobreza da terra’, o qual teria estabelecido em favor desta um tratamento preferencial, um estatuto jurídico privilegiado, um espaço de franquias, que a pusera ao abrigo das inferências reinóis, legitimando sua hegemonia sobre os demais estratos sociais da capitania, em especial, sobre o comércio português nela estabelecido», idem, p. 127. Em A Fronda dos Mazombos, retomando a questão, escreve que «essa noção contratualista nada tinha de novidade teórica nem de conteúdo revolucionário, prendendo-se às já então arcaicas concepções constitucionais do escolasticismo tardio», cf. E. C. de Mello, A Fronda dos Mazombos. Nobres contra Mascates. Pernambuco, 1666- -1715, São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p. 139.

110 Cf., sobre a noção de pacto, Maria Fernanda B. Bicalho, «Centro e Periferia: pacto e negociação política na administração do Brasil colonial», in Leituras. Revista da Biblioteca Nacional, n.º 6, Primavera de 2000, pp. 17-40.

111 Evaldo Cabral de Mello, O Nome e o Sangue. Uma Parábola Familiar no Pernambuco Colonial, 2.ª ed. rev. Rio de Janeiro, Topbooks, 2000, p. 16.

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Já em Rubro Veio, publicado anteriormente, no capítulo intitulado «A metamorfose da açucarocracia», Mello afirma ter sido «na segunda metade do século XVII que os descendentes dos restauradores passaram a reivindicar o estatuto de uma ‘nobreza da terra’», a ponto de, nos começos da centúria seguinte, os naturais de Pernambuco serem acusados de «se quererem quase todos inculcar por nobres» 112 . A metamorfose da açucarocracia em nobreza da terra é descrita pelo autor a partir de três manifestações conexas. A

primeira consistiu no uso generalizado da expressão; a segunda, no aparecimento de um discurso e de uma prática genealógicos; e a terceira, no surgimento de «um dos mais caros topoi do imaginário nativista, o do caráter aristocrático da colonização Duartina» 113 . Discute inicialmente a substituição do termo principal homens principais, os principais moradores, os principais de Pernambuco pelo termo nobreza ou nobreza da terra. Em suas palavras, o termo principal «denotava riqueza, afluência, a posse de grandes cabedais». Era também aplicado «ao indivíduo que detinha uma parcela do poder político, seja por

aos da ‘governança

desta terra’, seja devido ao fato de dispor de uma clientela ou de um séqüito de homens livres e de escravos (o termo adjetivo ‘principal’ também era empregado para nomear os chefes indígenas), seja por tratar-se de religiosos ou de patentes militares, seja finalmente por ocupar uma posição proeminente» 114 . Identifica o termo nobre sobretudo durante o período holandês, utilizado no sentido de dar um esboço de coesão e de solidariedade aos «nobres de Pernambuco». Afirma que esta terminologia viera «sobrepor-se à bipartição que distinguia os moradores nascidos na capitania, os ‘naturais da terra’, dos originários de Portugal e ilhas, os ‘naturais do Reino’», servindo para distinguir mazombos e reinóis. Com o fim da dominação holandesa, nobreza da terra tornou-se o novo coletivo adotado pelos descendentes dos antigos principais, uma vez que a açucarocracia pernambucana passou a apostar na promoção estamental como forma de legitimar sua dominação política, social e econômica da capitania. Nesse sentido, a autodesignação de «‘nobreza da

terra’ abrangia a dupla origem social da açucarocracia: a de ‘nobreza do Reino’ transplantada para Pernambuco; e a de nobreza gerada em Pernambuco durante o século e meio da sua colonização, mediante a seleção social dos filhos e netos de indivíduos que, embora destituídos da condição de ‘nobres do Reino’, haviam participado das lutas contra os holandeses, ascendido à posição de senhores de engenho ou exercido cargos civis e militares, os chamados ‘cargos honrados da República’» 115 .

ocupar os cargos públicos da capitania e de pertencer [

]

112 Mello, Rubro Veio

113 Idem, p. 160.

114 Id. ibid., pp. 161-162.

115 Id. ibid., pp. 165 e 167.

,

cit., p. 153.

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Em relação à segunda questão, Mello afirma que «a metamorfose da açucarocracia em ‘nobreza da terra’ não era apenas uma questão de palavras; exigia também um discurso e uma prática genealógicos que legitimassem o status pretendido». O seu surgimento se deu na segunda metade do século XVII, entre a restauração de Pernambuco em 1654 e a guerra dos mascates, em 1710. Data deste período a noção ou a invenção do caráter aristocrático da colonização duartina, a versão de uma arribada de fidalgos do Reino, quer com Duarte Coelho, quer nos anos iniciais da conquista da capitania. A crônica anterior, como os Diálogos da Grandeza do Brasil (1618) apontavam para a modéstia que caracterizava os primeiros contingentes de povoadores. Não obstante, desde Duarte Gomes Carneiro, cronista do Estado do Brasil (1673) até Rocha Pita (terceiro decênio do século XVIII), a noção das origens aristocráticas do povoamento de Pernambuco recebeu «foros de verdade histórica» 116 . Ao discutir essa parábola genealógica coletiva, Mello cita o regimento do Senado da Câmara de Olinda, de 1730, segundo o qual ela constituir-se-ia de pessoas «limpas de sangue e de geração verdadeira, nobres, infanções, fidalgos da Casa Real e descendentes dos conquistadores e povoadores da terra, que ocuparam cargos civis e militares, e os perpetuaram em suas famílias». E conclui: a noção de «‘nobreza da terra’ compreendia, portanto, duas categorias principais de indivíduos: os colonos de ascendência nobre no Reino e os moradores descendentes dos primeiros troncos, socialmente depurados pelo exercício dos ‘cargos honrados da república’, isto é, de funções locais administrativas e militares» 117 . Quanto à questão do nativismo pernambucano, Mello afirma que a nobreza atribuída à segunda categoria de colonos decorria da antiguidade na capitania, o que correspondia à sua fixação durante o período anterior à invasão holandesa (1630-1654). E conclui: «O sentimento nativista tendeu previsivelmente a reforçar o critério de antiguidade em detrimento do da nobreza reinol, de modo que, ao longo do século XVIII, valorizar-se-á mais o fato de se descender de um colono duartino, de um herói das guerras holandesas, de um vereador de Olinda ou de um provedor da Santa Casa de Misericórdia do que de um morgado minhoto ou de um fidalgo da Casa Real.» Muitas vezes, «à invocação dos serviços prestados na conquista da capitania, na sua restauração ou na sua governação, acrescentava-se agora o título adicional que consistia no fato de ser a ‘nobreza da terra’ o produto racial do cruzamento de troncos reinóis com mulheres indígenas» 118 . Porém, como acrescenta o autor, «desde que, por trás deles, opere, ao menos inicialmente, a fortuna familiar, a posse de ‘grossos cabedais’, mesmo

116 Id. ibid., pp. 169 e 176-179.

117 Id. ibid., p. 181.

118 Id. ibid., p. 187.

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quando encarnados na modéstia relativa que já era então, e provavelmente foi sempre, a da grande maioria de senhores de engenho». Isso porque, «numa sociedade monocultora, escravocrata e latifundiária como a da mata do Nordeste, à propriedade açucareira é que correspondia, em última análise, a função de filtrar e de decantar, ao longo do tempo, as pretensões nobiliárquicas e as posições sociais» 119 . Quem melhor traduziu esta afirmação, resgatando a importância e a centralidade da escravidão na constituição das elites coloniais, foi Stuart Schwartz, ao defender a especificidade da América portuguesa enquanto sociedade escravista colonial. Segundo Schwartz, «o Brasil-colônia foi uma sociedade escravista não meramente devido ao óbvio fato de sua força de trabalho ser predominantemente cativa, mas e principalmente devido às distinções jurídicas entre escravos e livres, aos princípios hierárquicos baseados na escravidão e na raça, às atitudes senhoriais dos proprietários e à deferência dos socialmente inferiores. Através da difusão destes ideais, o escravismo criou os fatos fundamentais da vida brasileira». Por intermédio da descrição da economia da grande lavoura na Bahia, do caráter das relações sociais da produção açucareira, e da propriedade e indústria dos engenhos, o autor se propõe a demonstrar que «um tipo peculiar de sociedade desenvolveu-se» 120 . No que diz respeito especificamente à constituição das elites coloniais no Recôncavo baiano, Schwartz afirma que «a primeira geração de senhores de engenho da Bahia tinha origens sociais muito menos ilustres do que as propaladas pelas gerações subseqüentes. Se bem que houvesse homens de famílias nobres ou com altos cargos públicos como Mem de Sá, proprietário do engenho Sergipe, ou Antônio Cardoso de Barros, filho do tesoureiro régio da Bahia e fidalgo da casa de El-Rey, muitos dos primeiros senhores de engenho vinham de origens menos eminentes. Talvez um terço dos engenhos do Recôncavo na década de 1580 fosse propriedade de comerciantes que haviam facilmente trocado o comércio pela atividade açucareira; alguns continuaram a exercer as duas ocupações simultaneamente». Afirma ainda ter sido comum a existência de cristãos-novos entre os primeiros senhores de engenho baianos. De 41 engenhos cujos proprietários puderam ter suas origens identificadas no período 1587-1592, 12 eram cristãos novos. Os autos de 1618 da Inquisição mencionam 34 engenhos, dos quais 20 possuíam cristãos-novos como proprietários. Nesse sentido conclui que «as origens de classe dos senhores de engenho baianos, a despeito de suas pretensões aristocráticas posteriores, apresentaram-se eivadas de elementos da burguesia

119 Id. ibid., pp. 181-182.

120 Stuart Schwartz, Segredos Internos. Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial, São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p. 209.

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comercial e de cristãos-novos, dois grupos cujo status na sociedade portuguesa era decididamente inferior» 121 . Na primeira metade do século XVII, entre 1620 e 1660 surgiu uma nova leva de aspirantes a senhores de engenho. Devido à crise temporária do açúcar na década de 1620, causada por baixas em seu preço e pela luta contra os Holandeses, algumas propriedades foram destruídas, outras faliram ou foram vendidas a preços relativamente baixos. Seus compradores eram jovens provenientes dos vários contingentes militares enviados ao Brasil durante a guerra contra os Holandeses, ou de famílias que fugiram de Pernambuco com seus escravos e capitais. Surgiram, neste período, linhagens como as dos Brandão Coelho, Ferrão e Argolo e Pires de Carvalho. Entre 1680 e 1725, 56 senhores de engenhos baianos (70%) eram nascidos no Brasil, 22 eram filhos de imigrantes, crescendo, assim, a preponderância dos naturais da terra, embora seus laços com a Europa permanecessem fortes. Os imigrantes que adquiriam propriedades açucareiras haviam exercido anteriormente ocupações mercantis ou profissões qualificadas, como a de advogado ou juiz da Coroa. De acordo com Schwartz, «era comum os senhores de engenho imigrantes continuarem as praticar sua profissão anterior concomitantemente à posse do engenho, o que parece ter ocorrido em escala bem menor com os proprietários nascidos no Brasil» 122 . Conquanto na primeira metade do século XVII a classe de senhores de engenho da Bahia se encontrasse bem estabelecida, coesa, unida por casamentos entre seus membros, havia sempre lugar para elementos exógenos, recrutados principalmente entre magistrados régios, outros funcionários governamentais ou comerciantes de Salvador 123 . Sobre este «amálgama» composto por casamentos, alianças e negócios entre senhores de engenho e comerciantes, podemos citar Rae Flory e David Grant Smith 124 . E voltamos, portanto, à questão da definição do termo elites coloniais. Segundo os autores, a dicotomia comerciante versus proprietários de terras e plantadores de açúcar, então corrente na historiografia, propõe uma divisão excessivamente rígida, que não corresponde ao complexo e quase sempre ambíguo relacionamento entre estes segmentos no conjunto do estrato superior da sociedade baiana. Embora a composição social do Recôncavo da Bahia tenha sofrido pouquíssimas mudanças no tempo de uma centúria, e apesar dos reajustes na economia colonial, o conceito de elite que perpassa todo esse período deve ser revisto, no sentido de incluir certos tipos mercantis

121 Idem, pp. 224-226.

122 Id. ibid., p. 226.

123 Sobre a aliança entre magistrados régios e as famílias de senhores de engenho baianos, cf. Stuart Schwartz, Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial. A Suprema Corte da Bahia e seus Juízes, 1609-1751, São Paulo, Perspectiva, 1979.

124 Rae Flory, e David Smith, «Bahian Merchants and Planters in the Seventeenth and early Eighteenth century», in Hispanic America Review, vol. 58, n.º 4, 1978, pp. 571-594.

84

Óptima Pars

no mesmo patamar das famílias agrárias. Os autores avaliam que a ascensão dos homens de negócio na primeira metade do século XVIII reflete não tanto a consolidação de uma classe mercantil, e sim a integração bem sucedida de imigrantes no seio de uma elite estabelecida, processo que já pode ser percebido ao longo do século XVII 125 . Afirmam que a comunidade de mercadores baianos, tanto no século XVII, quanto na centúria seguinte, se constituiu, com poucas exceções, de imigrantes provenientes do Reino e, em menor número, das ilhas atlânticas. Uma vez radicados em Salvador, embora em sua grande maioria mantivessem seus negócios mercantis, aqueles comerciantes traçavam para si, ou para seus filhos, uma ampla estratégia de enobrecimento que aliava o investimento na aquisição de terras e na consolidação de laços matrimoniais vantajosos com filhas de grandes proprietários estabelecidos. Mas não só. Um caso exemplar citado tanto por Flory e Smith, quanto por Schwartz, é o de João Lopes Fiúza, português que deixou Viana do Castelo rumo a Salvador, para juntar-se ao irmão, o próspero comerciante Nicolau Lopes Fiúza. Ao chegar a Bahia, na década de 1690, João encontrou sua carreira facilitada pelas ligações do irmão com a aristocracia do Recôncavo, pois este se casara com uma filha dos Moniz Barreto. João seguiu-lhes os passos, casando-se com a cunhada, tornando-se, com o casamento, proprietário do Engenho de Baixo, em Paramerim. Tempos depois comprou mais um engenho, na paróquia de Rio Fundo. Quando de sua morte, em 1741, João Lopes Fiúza possuía patente militar, era membro da Ordem de Cristo e das Ordens Terceiras dos franciscanos e carmelitas e havia sido vereador na Câmara de Salvador. Seus filhos distanciaram-se da carreira mercantil, herdando as propriedades agrícolas do pai, tornando-se senhores de engenho, entrando para a Companhia de Jesus, ou casando-se com filhas de proprietários de terras e engenhos 126 . Era comum, portanto, que a grande maioria dos comerciantes residentes em Salvador (cerca de 90%) se casassem com mulheres naturais da Bahia, o que lhes ajudava a consolidar a propriedade e o capital, conferia-lhes um certo grau de respeitabilidade e os introduzia numa rede familiar preexistente e já consolidada. Tal estratégia de enobrecimento não era muito diferente do que ocorria em outras conquistas ibero-americanas 127 . Nesse sentido, os comerciantes transformavam seu sucesso econômico em aceitação social e influência política, através de múltiplos requisitos que os faziam adentrar o coração da elite baiana: residência permanente, fortuna, um bom casamento, a

125 Idem, p. 572.

126 Id. ibid., p. 576; Schwartz, op. cit., p. 227.

127 Os autores citam, como exemplos, os trabalhos de David Brading, Miners and Mer- chants in Bourbon México, 1763-1810, Cambridge, 1971; e de Susan M. Socolow, «Eco- nomic Activities of the Portobelo Merchants: the Viceregal Period», HAHR, 55, Fevereiro de 1975.

Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas

85

posse de propriedades territoriais e, não menos importante, o ingresso em prestigiosas irmandades, como a Santa Casa de Misericórdia e a Ordem Terceira de São Francisco, a obtenção de patente militar, sobretudo nas Ordenanças, e o acesso ao Senado da Câmara. O acesso dos mercadores a cargos camarários aumentou significativamente no período de 1700-1739 em relação a 1660-1699, o que pode ser explicado tanto por uma mudança sofrida na economia colonial, quanto por certas inovações institucionais. Quanto a estas, os autores relacionam o maior controlo do governador sobre o processo eleitoral do Senado e a indicação mais corrente de homens de negócios para ocuparem tais cargos. Eles eram capazes de prover fundos e serviços substanciais aos projetos governamentais isto é, metropolitanos na capitania. À mesma conclusão chega Evaldo Cabral de Mello, ao afirmar a existência de uma aliança entre governadores de Pernambuco e mascates de Recife 128 . De acordo com Flory e Smith, a participação mercantil no Senado da Câmara nos permite uma outra compreensão acerca da composição e formação da elite baiana. Famílias tradicionais como os Araújo-Aragão, Moniz Barreto, Argolo, Góes-Araújo e Dias de Ávila, cuja presença, poder e investimentos agrários datam do século XVI, nunca foram suplantadas por comerciantes adventícios, embora admitissem esses homens em seus clãs, desde pelo menos meados do século XVII. O grande problema dos mercadores era a constatação de sua limpeza de sangue e o fato de serem cristãos-novos, e não propriamente o de serem reinóis ou exercerem a atividade mercantil 129 . Os autores concluem que, embora se tornassem proprietários de terras e desenvolvessem atividades agrárias, muitos homens de negócio na Bahia continuavam exercendo atividades mercantis, o que lhes conferia uma

128 «Tendo enriquecido por meio do crédito usurário que arruinara a nobreza, os

mascates terminaram por acessar a privança dos governadores e intervir nos negócios

públicos». «[

ele enveredou, como foi

crescentemente o caso, pela promoção do ingresso de mercadores do Recife, a cujas aspirações políticas as autoridades régias tornavam-se particularmente receptivas nesse final do século XVII, em função de parcerias, nem sempre discretas, nos negócios, da pura e

simples solidariedade de reinóis ou do préstimo que encontravam neles para o serviço d’El

Rei», Mello, A Fronda dos

129 Os autores afirmam que, diferentemente de Lisboa, onde os cristãos-novos constituíram grande percentagem da comunidade mercantil, na Bahia do século XVII a maior parte do segmento mercantil era constituído por cristãos-velhos. Argumentam ainda que, embora os cristãos-novos não pudessem, legalmente, ser admitidos na Câmara, estiveram inúmeras vezes presentes e atuantes em juntas convocadas pelo Senado ou pelo governador para tratar de questões importantes na capitania. Smith e Flory, op. cit., p. 585. A constatação de que o facto de serem reinóis não foi entrave para a absorção de

mercadores na sociedade agrária baiana contrasta profundamente com o que ocorrera em Pernambuco, como demonstra Evado Cabral de Mello, no capítulo intitulado «Loja x

Engenho». Cf. Mello, A Fronda dos

a interferência do governador e de outros agentes da Coroa nas eleições da

Câmara de Olinda passava a ser intolerável quando [

]

]

,

op. cit., pp. 133 e 162-163.

, cit., pp. 123-187.

86

Óptima Pars

identidade social intermediária formavam um tipo social híbrido que pode ser traduzida por proprietário de terras-mercador ou mercador-proprietário de terras 130 . Ainda no que diz respeito à Bahia, o artigo de John Norman Kennedy, «Bahian Elites, 1750-1822», recoloca o problema da conceituação das elites coloniais. O autor considera como elite baiana do fim do período colonial os mais opulentos proprietários rurais, comerciantes, aqueles que ocupavam os mais altos postos da burocracia fiscal e administrativa, e os que figuravam nas fileiras mais elevadas das forças militares regulares e locais. O que unia a todos era o fato de utilizarem as estruturas econômicas e burocráticas coloniais no sentido de fortalecer e aumentar sua posição econômica e social 131 . A novidade deste estudo em relação ao de Flory e Smith além do período enfocado ser mais tardio é que Kennedy analisa e comprova a hipótese de que uma das estratégias de enriquecimento, de consolidação e de aumento do status dos segmentos que formavam a elite baiana consistia no exercício do poder formal e informal no serviço régio, ou seja, nas estruturas governativas da sociedade colonial: no Senado da Câmara, nas tropas e milícias e nas altas posições da administração colonial. Admite, no entanto, que o poder formal e informal daqueles homens era também exercido por intermédio de uma cooperação favorável com as autoridades régias: a troca de favores, o compartilhamento de interesses econômicos e, ainda, o estabelecimento de laços matrimoniais forneciam oportunidades para a elite influenciar as decisões administrativas. Tal poder indireto constituía-se numa peça importante para garantir e acrescentar honrarias, indicações para postos, venda de ofícios e monopolização de contratos comerciais. Disputas em torno de terras e da demarcação de fronteiras entre as propriedades poderiam igualmente ser resolvidas através de conexões informais com membros do sistema judicial. Através do estabelecimento de alianças vantajosas, Kennedy chama a atenção para a utilização, em benefício próprio, do poder e da estrutura governamental pelas elites. Seu estudo volta-se, sobretudo, para a atuação de grandes comerciantes, uma vez que o comércio, numa economia colonial de caráter marcadamente mercantil, era tido como a «alma do Estado». Analisa de que modo tais elites comerciais usaram o governo em proveito próprio, como no caso, por exemplo, de desempenharem cargos na Câmara, implementando políticas e regulamentos que limitassem ou eliminassem a concorrência em seus negócios. Aponta para interesses comuns entre administradores e comerciantes coloniais. Oferecendo vantajosas oportunidades de investimento às autoridades régias na colônia, em certos casos através de laços

130 Flory e Smith, op. cit., p. 582. 131 John Norman Kennedy, «Bahian Elites, 1750-1822», in The Hispanic American Historical Review, vol. 53, n.º 3, Agosto de 1973, pp. 415-439.

Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas

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matrimoniais, mercadores de Salvador poderiam diminuir o prazo de cobrança de suas dívidas, obter contratos, burlar o pagamento integral de taxas e impostos, ter suas atividades de contrabando ignoradas e, eventualmente, aumentar seu prestígio social. Mas talvez a análise mais inovadora ao menos para a época em que foi escrito do estudo de Kennedy seja a sua percepção da importância da arrematação, por membros da elite baiana, de postos e ofícios intermediários do governo local. Ao defender uma rede de patronagem controlada por naturais da Bahia, Kennedy rompe com a visão dualista que separa e até mesmo opõe o que pode ser entendido por colonizadores e colonos. Em outras palavras, o autor vislumbra, embora não aprofunde, a existência de uma rede clientelar ligando autoridades régias, reinóis e naturais da Bahia. Chama a atenção para a desvantagem relativa do cargo de governador diante dos demais ofícios régios na capitania, como os de justiça, fazenda e milícia, na medida em que aqueles que ocupavam o governo da capitania dispunham de uma pequena flexibilidade e de uma reduzida patronagem (talvez por serem nomeados teoricamente pelo prazo de três anos). Se, neste argumento específico, segue determinadas proposições defendidas por C. R. Boxer em seus estudos sobre as câmaras municipais no império português 132 , desconhece, no entanto, outros trabalhos que remetem, como veremos a seguir, às redes clientelares tecidas e às inúmeras conexões estabelecidas pelos homens que administraram sobretudo os governadores as diferentes regiões não só do Brasil, mas de todo o império. O trabalho que vem sendo desenvolvido por Maria de Fátima Silva Gouvêa acerca das práticas administrativas implementadas por Lisboa no governo Atlântico Sul, tem como objeto, especificamente, as trajetórias administrativas de cinco oficiais régios que governaram, entre 1645 e 1777, tanto o Brasil, quanto Angola 133 . Analisando simultaneamente as estratégias administrativas levadas a cabo pela Coroa portuguesa nos dois lados do Atlântico e a origem social dos governadores, Gouvêa desvenda as redes

132 C. R. Boxer, «Conselheiros municipais e irmãos de caridade», in O Império Colonial Português, 1415-1825, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 263-282; Portuguese Society in the Tropics. The Municipal Councils of Goa, Macao, Bahia, and Luanda, 1510-1800, Madison and Milwaukee, The University of Wisconsin Press, 1965.

133 Entre eles, João de Lencastre, governador de Angola (1688 e 1691), governador- -geral do Brasil (1694-1702); Luís César de Meneses, governador de Angola (1697-1701), governador do Rio de Janeiro (1690-1693) e governador-geral do Brasil (1705-1710); Lourenço de Almeida, governador de Angola (1705-1709), governador-geral do Brasil, (1710-1711); Rodrigo César de Meneses, governador de Angola (1733-1738), filho de Luís César de Meneses, governador de São Paulo; Antônio Almeida Soares e Portugal, 1º marquês do Lavradio, governador de Angola (1740-1753), pai de Luís de Almeida Soares Portugal, 2.º marquês do Lavradio, governador da Bahia e vice-rei do Brasil; Antônio Álvares da Cunha, conde da Cunha, governador de Angola (1753-1758), vice-rei do Brasil (1763-1767).

88

Óptima Pars

clientelares tecidas e constituídas ao redor deles, assim como as relações de poder, alianças familiares, negociações e conflitos jurisdicionais entre grupos de interesses no interior dessa extensa clientela. Em artigo que apresentou recentemente privilegia o argumento de que o exercício do governo no ultramar e a acumulação de conhecimento dele decorrente constituíram faces de uma mesma moeda, na qual as ações daqueles indivíduos podem ser compreendidas enquanto vetores de produção e de transmissão tanto de poder, quanto de saber. Poder e saber que se consubstanciaram numa memória administrativa que, operacionalizada por Lisboa, serviu como instrumento de implementação de um conjunto de políticas imperiais. Tais políticas são vistas pela autora como resultado da ação conjugada de governadores ligados entre si não apenas pelo mero fato de serem funcionários da Coroa portuguesa, mas também por estabelecerem, através de casamentos, laços familiares e clientelas políticas 134 . É necessário ressaltar que tais redes clientelares são constituídas tanto no Reino, quanto no ultramar, tecendo-se, portanto, a partir do que a autora denomina conexões imperiais, responsáveis, entre outras coisas, pela formação de elites igualmente imperiais. Exemplo disso é o casamento de Ignez de Lencastre, filha de Luiz César de Meneses e sobrinha de João de Lencastre, com Diogo Correia de Sá, 3.º visconde de Asseca, filho de Martim Correia de Sá e neto de Salvador Correia de Sá e Benevides 135 . Em trabalhos recentemente publicados 136 , João Fragoso discute a formação da sociedade colonial no caso específico do Rio de Janeiro dos séculos XVI e XVII e de suas elites senhoriais, a partir da dinâmica de

134 Maria de Fátima S. Gouvêa, «Instruments de Connaissance et Pratiques Administratives dans l’Atlantique sud portugais. XVII e -XVIII e siècles», artigo apresentado no Colóquio «Pouvoir et Conaissance», Paris/Nanterre, Novembro de 2002.

135 Sobre as redes de parentesco e redes clientelares tecidas por estes governadores, incluindo o exemplo citado, cf. o instigante e pormenorizado estudo de Marília Nogueira Santos, «Parentes-Clientes ou somente Parentes? Uma reflexão sobre parentesco e redes clientelares no Atlântico sul português, séculos XVII e XVIII», artigo inédito. Marília Santos argumenta que Diogo Corrêa de Sá descendia da poderosa família que «durante boa parte do século XVII controlou a administração da capitania do Rio de Janeiro. Além da influência política, os Sá eram importantes senhores de engenho, assim como traficantes de escravos, com conexões inclusive com as províncias espanholas da região do Rio da Prata». Lembra, ainda, que «entre 1690 e 1693 Luiz César de Meneses, pai de Ignez de Lencastre, esteve à frente do governo do Rio, podendo já nesta época ter iniciado a construção da relação que se concretizaria quatro anos após a sua saída do governo, coincidindo com o início de sua gestão em Angola».

136 João Fragoso, «A Nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro (séculos XVI e XVII)», in Topoi. Revista de História, n.º 1, Rio de Janeiro, UFRJ, 2000, pp. 45-122; e João Fragoso, «A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite senhorial (séculos XVI e XVII)», in J. Fragoso, M. F. Bicalho & M. F. Gouvêa (orgs.), O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa, séculos XVI-XVIII, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, pp. 29-71.

Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas

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práticas e de instituições regidas pelo ideário da conquista, pelo sistema de mercês, pelo desempenho de cargos administrativos e pelo exercício do poder municipal. De acordo com o autor, cerca de 45% das famílias senhoriais proprietárias de engenhos do Rio de Janeiro, no século XVII, teve origem em um oficial ou ministro régio. Tais famílias foram constituídas, em sua grande maioria, entre 1566 e 1620, em meio às lutas contra franceses e tamoios. Descendiam, portanto, de conquistadores dos tempos heróicos de fixação dos primeiros colonos na região: «alguns desses conquistadores vieram do norte de Portugal e das ilhas do Atlântico; outros, antes de chegarem ao Rio, passaram primeiro por São Vicente». Seriam «esses homens que fogem da pobreza, procedentes da pequena fidalguia ou egressos da ‘elite’ de uma capitania pobre na qual se dedicavam à procura de metais e ao comércio de gentios da terra –, que se transformaram, por intermédio de seus ‘serviços’, nas ‘melhores famílias da terra’» 137 . Coloca-se, portanto, a questão de como surgiu ou como foi acumulado o capital que seria investido na economia de plantation fluminense. Fragoso chama a atenção para o facto de que a montagem da sociedade colonial no Recôncavo da Guanabara deu-se no momento de atlantização do Império luso. Embora Portugal passasse por dificuldades financeiras e enfrentasse problemas militares, «seria neste ambiente nada auspicioso que se daria a acumulação primitiva da economia da plantation e o ponto de partida de 60% da elite senhorial do Rio de Janeiro seiscentista» 138 . Torna-se interessante comparar as conclusões a que chegam Fragoso e Schwartz, respectivamente, sobre a montagem da economia e da sociedade coloniais no Rio de Janeiro e na Bahia. Este último afirma que o financiamento dos primeiros engenhos baianos originou-se da acumulação mercantil. Embora tentadora, na medida em que a historiografia como, por exemplo, os trabalhos de Boxer 139 e de Alencastro insistem na importância da relação comercial entre o Rio, Angola e o estuário do Prata tal hipótese é descartada por Fragoso, que insiste no caráter incipiente do núcleo urbano e do grupo mercantil do Rio de Janeiro seiscentista. Suas investigações o levam

a concluir que «1/3 de todas famílias que, ao longo do século XVII, se

converteram em donas de engenhos de açúcar, tiveram por origem ministros ou oficiais do Rei. Eram provedores da fazenda, escrivães da alfândega, capitães de infantaria ou governadores». Argumenta que «as famílias senhoriais derivadas de ministros e oficiais do Rei são as que possuem, no correr do Seiscentos, o maior número de senhores de engenho, a maior

estabilidade no tempo, a maior capacidade de gerar outras famílias senhoriais

e, portanto, são as que têm maior capacidade de absorção de estrangeiros.

137 Fragoso, «A formação da economia

138 Fragoso, «A nobreza

, cit., p. 50-52.

»,

pp. 36-37; e «A nobreza da

, pp. 50-52.

139 C. R. Boxer, Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686, São Paulo, Editora Nacional / Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.

90

Óptima Pars

tais famílias no núcleo principal da

primeira elite senhorial do Rio de Janeiro». Nesse sentido, defende a tese de que «na administração da coisa pública, ter-se-ia também administrado a construção da referida elite» 140 . No caso da Guanabara a dupla metamorfose de conquistadores em administradores, e de administradores em núcleo da elite colonial do Rio de

Janeiro é reforçada, segundo o autor, quando se percebe que ela é

acompanhada de dois outros movimentos: «O primeiro diz respeito às alianças políticas, via casamentos, que desde cedo vão existir entre estes conquistadores/ministros». O segundo movimento deve-se ao fato de estes «conquistadores e seus filhos, entre o exercício de um e outro posto na administração imperial, também terem ocupado postos no Senado da Câmara,

[ao qual] cabia garantir o bem-estar da República e isto, entre outras

coisas, significava fiscalizar o abastecimento da cidade (preços e qualidade dos gêneros), intervir na fixação dos preços, administrar impostos etc. Em suma, cabia a ele [Senado da Câmara], em nome dos interesses da República, intervir no mercado» 141 . Fragoso assevera que, além do caso paradigmático da família Corrêa de Sá que gerou 6 governadores, entre efetivos e interinos, e pelo menos 12 senhores de engenho ao longo de todo o século XVII alguns outros postos do governo eram estratégicos no controlo do que chama poupança colonial, como as funções que davam acesso à cobrança e guarda dos impostos, assim como aos bens dos órfãos da capitania: «Em um ambiente pré-industrial, como o colonial, onde prevaleciam as dificuldades de crédito, os ministros teriam acesso privilegiado a tal caixa, ou melhor, tomariam ‘empréstimos’ desta poupança colonial.» 142 Afirma que «até 1660, parte do domínio dos Sá sobre o Rio era garantida pelos dons e contradons com homens do Rei: militares e oficiais, na maioria vindos de fora da cidade. Ao mesmo tempo, os casamentos da família Sá eram feitos, principalmente, com pessoas estranhas ao Recôncavo, porém estratégicas na alta administração imperial» 143 . Após 1660, com a volta de Salvador Correia de Sá para o Reino, pessoas pertencentes a seu grupo conseguiram, segundo o autor, «assegurar ou reconquistar a hegemonia na sociedade local através de uma complicada engenharia política». Tal engenharia pressupunha casamentos e dotes com tradicionais famílias da nobreza da terra, fornecimento de serventias de ofícios dos quais eram proprietários como os cargos de provedor da fazenda e de juiz de órfãos , o que implicava numa proximidade e cumplicidade de seu grupo com integrantes da alta administração colonial. Forjava-se, assim, uma rede de

Este conjunto de traços transforma [

]

] [

140 Fragoso, «A nobreza

141 Fragoso, «A Nobreza da

142 Idem, p. 81.

143 Fragoso, «A Formação da economia

, cit., p. 59.

», op. cit., pp. 62-63.

», op. cit., pp. 55-57.

Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas

91

alianças econômicas, políticas e clientelares que ultrapassava as fronteiras do Rio de Janeiro, ramificando-se pela capital e sede administrativa da América portuguesa, podendo mesmo chegar a Lisboa 144 . Um dos resultados práticos dessas redes fora o envolvimento direto do segmento dessa elite senhorial, aliada aos funcionários régios, no estanque dos gêneros, no uso da arca dos órfãos e na arrematação de impostos. Um outro desdobramento da mesma teia de relações teria sido a influência dessas famílias no exercício do poder local, nomeadamente no Senado da Câmara 145 . Portanto, nos primórdios da colonização do Rio de Janeiro, um conjunto de conquistadores circulou entre as duas instâncias máximas do governo da cidade: as administrações imperial e municipal. Serão eles os chefes das famílias que, ao longo do Seiscentos, tornar-se-ão donas de engenhos de açúcar, convertendo-se na nobreza da terra. Nas palavras do autor, «Em meio

a este cenário, a solução para a formação das estruturas produtivas do Rio de

Janeiro seria dada pelo já conhecido receituário do Antigo Regime português. Qual seja: a conquista de terras e de homens; o sistema de mercês; e o Senado

da Câmara. Caberia aos conquistadores, agora transformados em funcionários do Rei e em camaristas, dirigir a gestação da nova sociedade nos trópicos. E nisto eles se superariam. Através dos seus cargos, de suas redes de parentesco

e de clientela, eles (e seus descendentes) construiriam engenhos e com isto se

transformariam na primeira elite senhorial da sociedade escravista e agro- -exportadora do Rio. Na verdade, através da carreira destes senhores e da economia da qual eles eram mandatários pode-se perceber um dos preceitos básicos da velha sociedade lusa. Isto é, uma hierarquia social profundamente desigual permitindo a produção e, via política, a apropriação de parte da riqueza social» 146 . Voltando à Bahia, em sua pesquisa para a tese de doutoramento, Honras e Mercês. A criação do Governo Geral e a Formação da Elite Colonial, Rodrigo M. Ricúpero apresenta resultados muito semelhantes aos de João Fragoso para o Rio de Janeiro. Ricúpero parte do argumento de que no processo de colonização do Brasil, «a Coroa utilizava recursos humanos e financeiros particulares para viabilizar seus projetos, sem que lhe coubesse nenhum ônus, cedendo, em troca desse apoio, terras, cargos, rendas e títulos». Afirma para o Recôncavo de Salvador assim como Fragoso fizera para o da

144 Exemplo disso é o casamento, mencionado acima, de Ignez de Lencastre, filha de Luiz César de Menezes e sobrinha de João de Lencastre, com Diogo Corrêa de Sá, 3.º Visconde de Asseca, filho de Martim Correa de Sá e neto de Salvador Corrêa de Sá e

Benevides, cf. Santos, «Parentes-Clientes

op.

cit., pp. 98-100. Dos 107 oficiais do senado estudados por Fragoso no período 1565 e

1620, 46 ou 43% deram origem a famílias senhoriais. Entre estes mesmos 46 oficiais,

encontrou 37 que, no período considerado, exerceram postos na administração imperial.

», op. cit.

», op. cit., pp. 55-57; e «A nobreza da

145 Fragoso, «A formação da economia

»,

146 Fragoso, «A nobreza da

», op. cit., p. 101.

92

Óptima Pars

Guanabara que no momento de «montagem do processo de colonização, o acesso a cargos e benefícios foi a base de consolidação do patrimônio econômico, que levaria à constituição da elite baiana. Cita o exemplo de

Garcia D’Ávila que, enquanto feitor do Armazém Real de Salvador, recebeu terras, tornando-se um dos maiores latifundiários da colônia 147 .

A partir dos dados biográficos dos principais proprietários do Recôncavo,

tirados da obra de Gabriel Soares de Souza 148 , Ricúpero tece a estreita ligação

entre a posse de um cargo administrativo e a constituição do patrimônio da elite. O autor chama a atenção para a relevância das relações familiares entre estes indivíduos, no sentido de permitirem a transmissão e o controlo de determinados cargos por certas famílias, o aumento do poder e de prestígio que isso acarretava e as possibilidades que oferecia, como a consolidação do patrimônio e a ascensão na hierarquia da administração colonial.

O trabalho de Ricúpero desvenda, ainda, a rede de alianças e a patronagem

tecidas pelos governadores da Bahia, contrapondo-se aos argumentos de John Norman Kennedy, de que os governadores constituíam-se, dentre os oficiais régios nas capitanias, em os menos capazes de tecerem redes clientelares. Um de seus argumentos, reafirmando o grande poder detido pelo governador, é o da centralidade de seu papel no controlo do acesso à mão-de-obra indígena. Baseando-se no Regimento de Tomé de Sousa, afirma: «visando proteger os índios amigos, fundamentais para a defesa da colônia, e combater os inimigos, diversos artigos do regimento do governador geral versavam sobre a relação com os índios, dando o controlo de tais relações ao governador que podia ou não autorizar o contato e as trocas com os nativos.» 149 Outro aspecto interessante da análise de Ricúpero é a confirmação da inclusão em cargos administrativos de parentes ou de criados dos governadores nomeados para a Bahia, possibilitando-lhes acumular poder, riquezas e ascender à categoria de elite local. Conclui, afirmando que, «ao associar a elite ao governo, além de dividir as tarefas da colonização com os colonos, a Coroa reforçava os laços de solidariedade, garantindo a fidelidade à metrópole. A elite colonial era, em última instância, o verdadeiro sustentáculo do Império no Brasil, e a afinidade de interesses entre a Coroa e

os colonos seria tão grande que a riqueza e o poder de ambos cresciam num

147 Rodrigo M. Ricúpero, «Honras e Mercês. A criação do Governo Geral e a formação da elite colonial», texto apresentado no Simpósio Regional da ANPUH (núcleo São Paulo), em 2002 (inédito).

148 Gabriel Soares de Souza, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, 5. a ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1987. 149 Ricúpero, op. cit. Para o Rio de Janeiro, Fragoso chama a atenção para a importância, não só do controlo da mão-de-obra indígena, mas ainda da aliança de facções da elite com os mesmos índios. Analisando as lutas internas a diferentes «bandos» da elite fluminense, demonstra o poder e o potencial de intimidação que tais bandos conquistavam, caso comandassem, no interior de sua parentela, séqüitos de índios frecheiros.

Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas

93

mesmo sentido». Desta forma, a necessidade objetiva da colonização portuguesa, exigia, como parceiros, vassalos enriquecidos, que pudessem ser associados de corpo e alma ao aparelho governamental. Esse tipo de «sociedade» entre vassalos ultramarinos e Coroa portuguesa é

o ponto de chegada de um estudo sobre a região das minas na primeira metade do século XVIII. Nesse trabalho, Maria Verônica Campos propôs-se, em linhas gerais, a examinar a forma pela qual a Coroa impôs em Minas uma

estrutura administrativa e fiscal para o recolhimento de direitos e tributos, assim como para o controlo da região produtora de ouro. O objeto central de sua pesquisa consiste na análise do processo de centralização monárquica cuidadosamente tecido por intermédio da nomeação de governadores, da separação da capitania de São Paulo e Minas da do Rio de Janeiro, da disputa entre os governadores-gerais na Bahia e os do Rio pelas nomeações, pelas doações de sesmarias, pelo controlo dos caminhos de migração, pela arrematação de contratos e imposição do fisco na região mineradora. Dialogando com a recente historiografia que privilegia a análise da construção de redes imperiais, Maria Verônica Campos demonstra a existência de diferentes pólos de poder local no interior da vasta região mineradora, pouco conectados entre si, embora profundamente relacionados,

e até mesmo geridos, por centros de poder e parentesco, ou seja, por redes

clientelares constituídas fora da capitania. Nesse sentido, afirma que os conflitos entre as elites potentados ou poderosos locais e as autoridades régias em Minas extrapolavam os limites da capitania, tendo origem e se conectando a redes de poder e clientela em outras regiões coloniais e, inclusive, em Lisboa. Tais conflitos, não obstante, eram capitalizados pela Coroa, que acabaria por tecer equilíbrios favoráveis à afirmação da autoridade e do poder régios. Ao administrar as divergências das facções intra e supracapitanias, a Coroa implantava e reforçava paulatinamente as redes articuladas em torno de burocratas e dos governadores das Minas, que tinham a origem de seu poder nos órgãos da Corte e, em última instância, no rei. Tal estratégia política fazia que a concorrência, assim como as alianças entre a elite local e os agentes

régios só se tornassem eficazes se conectassem redes igualmente extensas. Mas não apenas as alianças políticas seguiam essa dinâmica clientelar, conectando Minas às demais capitanias e ao centro do império. Igualmente os motins, tão freqüentes nas minas, não se restringiram, segundo a autora, a conflitos entre elites locais versus funcionários régios, ou a revoltas meramente fiscais e localizadas; encontrando, ao contrário, uma grande ressonância em Salvador e Lisboa, com o envolvimento de membros do governo-geral, do Conselho Ultramarino e de facções da nobreza portuguesa. Portanto, ao analisar os conflitos administrativos e de jurisdição entre governadores das diversas capitanias, a autora deslinda a intrincada rede de interesses, alianças e parentescos que se teciam através do império português,

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desde Minas, passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, chegando até a Corte em Lisboa. Campos afirma, nas páginas finais de seu trabalho, que a historiografia, em geral, presta pouca atenção ao sentido da palavra colono e ao seu significado no processo de colonização. A seu ver, os súditos e primeiros povoadores de Minas não se viam como colonos, mas como sócios na empresa colonizadora. O rei, por seu turno, arrogava-se o direito de senhorio. Nesse sentido, Maria Verônica Campos procede, juntamente com os demais estudos citados aqui, a uma reconceituação do termo colono, o que demonstra um novo recorte teórico-metodológico das recentes análises sobre o Brasil colonial 150 . Em artigo que publicamos recentemente, em co-autoria com João Fragoso e Maria de Fátima Gouvêa 151 , fizemos uma crítica à abordagem que durante muito tempo prevaleceu na historiografia brasileira: ao conceito de pacto colonial centrado numa visão dicotômica, na ênfase numa profunda dualidade entre metrópole e colônia e na contradição de interesses entre colonizadores e colonos. O renovado contato que os historiadores brasileiros estabeleceram com a historiografia portuguesa, assim como com os estudos sobre o império ultramarino português, levou a que incorporassem em suas reflexões uma noção alargada da dinâmica imperial 152 . A noção da constituição de redes imperiais comerciais, políticas, parentais, em suma, clientelares que

150 Maria Verónica Campos, «Governo dos Mineiros: ‘De como meter as minas numa moenda e beber-lhe o caldo dourado’ 1693 a 1737». Tese de Doutoramento defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, 2002.

151 J. Fragoso; M. F. S. Gouvêa e M. F. B. Bicalho, «Uma leitura do Brasil colonial:

bases da materialidade e da governabilidade no Império», in Penélope. Revista da História e de Ciências Sociais, n.º 23, 2000, pp. 67-88. 152 A historiografia portuguesa contemporânea atrela a existência e a lógica da colonização moderna ao movimento da Expansão ultramarina européia. Expoente nesta vertente explicativa, e influente na produção acadêmica que se impôs nos dois lados do Atlântico, destaca-se a obra de Vitorino Magalhães Godinho. Seguindo os seus passos, a contribuição dos cinco volumes coordenados por Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri, História da Expansão Portuguesa, Lisboa, Círculo dos Leitores, 1998, avança nas conexões entre Portugal e os territórios ultramarinos aprofundando questões relacionadas à política, à administração, à religião e às formas de pensamento no império português. A noção de império, que aparece nesta obra teve em C. R. Boxer um de seus maiores historiadores. A abordagem de Boxer fez escola, distinguindo alguns de seus discípulos, como A R. J. Russell- -Wood, cujo livro Um Mundo em Movimento. Os Portugueses na África, Ásia e América, 1415-1808, Lisboa, Difel, 1998, é uma contribuição fundamental à historiografia. Os estudos sobre as articulações imperiais dos Portugueses frutificaram, e, em certa medida, especializaram-se nos seus diferentes circuitos geográficos. É o caso do livro de Sanjay Subrahmanyam, O Império Asiático Português, 1500-1700. Uma História Política e Econômica, Lisboa, Difel, 1995, ou ainda da coletânea De Ceuta a Timor, Lisboa, Difel, 1994, de Luís Filipe Thomaz. Consolidou-se, assim, uma nova chave interpretativa com a qual os historiadores brasileiros só muito recentemente passaram a dialogar.

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uniam as diversas partes do império ultramarino português vem se impondo e norteando os recentes estudos sobre as elites coloniais, sejam elas mercantis, administrativas ou agrárias. Esse novo viés interpretativo tem provocado uma revisão não só no seio da historiografia brasileira, mas igualmente nos estudos sobre os impérios ultramarinos da Época Moderna. Exemplo disso é o livro do historiador norte-americano Jack Greene, Negociated Authorities. Essays in Colonial Political and Constitutional History. No intuito de examinar as dinâmicas de governo dos impérios coloniais europeus sob a luz da nova historiografia acerca da formação dos Estados modernos, Greene defende que o modelo de Estado centralizado, do qual emanaria uma política imperial baseada na coerção, mostra-se impróprio e a-histórico. Propõe, ao contrário, um modelo consensual que enfatize a importância da negociação e o significativo papel dos poderes e das elites locais na construção da autoridade central 153 . Introduz seu argumento criticando os conceitos de colônia e de colonos cunhados a partir da noção de sujeição, subordinação, dependência, dominação, inferioridade, incapacidade, alteridade. Contrapõe-se à perspectiva segundo a qual colônias teriam constituído territórios e colonos teriam representado populações sobre as quais os Estados nacionais teriam exercido um controlo hegemônico. Os historiadores que defendem esta tese aplicam retrospectivamente, a seu ver um modelo de organização imperial coercitivo e centralizado, muito mais afeito ao imperialismo contemporâneo dos séculos XIX e XX, do que à dinâmica política sobre a qual se baseou a estruturação dos Impérios na Época Moderna. Dialogando com a historiografia sobre o império espanhol, citando os trabalhos de J. H. Elliot, Greene desenvolve o argumento de que, até às reformas bourbônicas em meados do século XVIII, as elites da América hispânica foram hábeis em reter um amplo controlo sobre questões ligadas ao governo local. Por intermédio dos seus órgãos municipais, do princípio da consulta às periferias ao longo do processo legislativo do monarca, e do movimento de creolização da burocracia real, as elites coloniais conquistaram, segundo Elliot, um grau substancial de autogoverno, mesmo que sob o comando e a direção do rei. Certamente a Coroa sempre detivera uma larga autoridade para tomar toda sorte de medidas referentes ao império. Não obstante, ao implementar tais medidas, os funcionários régios nas conquistas adaptaram-nas às variadas circunstâncias definidas pelas elites e pelos interesses locais. Em suma, o poder de barganha entre metrópole e colonos produziu um ajuste e uma combinação de autoridade dividida e

153 Jack Greene, Negociated Authorities. Essays in Colonial Political and Constutional History, Chalottesville e Londres, The University Press of Virginia, 1994.

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negociada que parece ter sido uma das características dos impérios nos Tempos Modernos 154 . Capacidade similar de negociação e de incorporação dos vassalos coloniais tem sido tema recorrente dos novos estudos sobre o Brasil. A. J. R. Russell-Wood, em artigo recentemente publicado, reavalia a visão sedimentada da historiografia brasileira de décadas anteriores. A seu ver, «a noção de um governo metropolitano centralizado, a formulação de políticas impermeáveis à realidade colonial e implementadas ao pé da letra por agentes da Coroa, de uma Coroa insensível e de atitudes metropolitanas rígidas voltadas para o Brasil, demanda revisão» 155 . Insiste, ao contrário, no potencial para negociação das elites locais, afirmando que «a história do Brasil colonial fornece numerosos exemplos de como os colonos foram capazes de exercer suficiente pressão sobre as autoridades metropolitanas no sentido de evitar ou modificar totalmente as políticas propostas, de atrasar a implementação de ações prescritas, ou de negociar um acordo menos ofensivo aos interesses coloniais» 156 . Em suma, o que aqui se pretendeu discutir ou defender é que para se resgatar as elites coloniais enquanto objeto de estudo, torna-se preciso proceder a uma reavaliação do sentido da colonização no contexto histórico da Época Moderna. E reafirmar que, no âmbito da América portuguesa, as diferenças ou singularidades das elites regionais só podem emergir ao ser resgatada a complexidade das relações entre poder central e poder local. Embora voltado para a análise das relações entre centro e periferias na Europa do Antigo Regime, creio ser possível citar aqui a discussão igualmente historiográfica tecida por Xavier Gil Pujol. De acordo com ele, «Estado e sociedade, capital e territórios, centro e localidades são esquemas binários úteis apenas por referência a um marco de relações, imprescindível para o conhecimento da vida política de uma colectividade; contudo, nenhum destes termos, destes binômios, são conceitos fechados, acabados e suficientes. Pelo contrário, cada um influi no outro conforme sejam os agentes políticos, os interesses, as pautas de conduta, as circunstâncias. Utiliza-los como instrumento analítico rígido pode provocar reducionismos lamentáveis» 157 . Pretendeu-se, por fim, discutir, neste balanço historiográfico acerca do conceito e da composição das elites coloniais, a dificuldade de recortar e

154 John H. Elliot, «The Role of the State in British and Spanish Colonial America», unpublished paper, April 27, 1990, apud Greene, op. cit., pp. 18-19.

155 Russell-Wood, «Centro e periferia no mundo luso-brasileiro, 1500-1808», in Revista Brasileira de História, vol. 18, n.º 36, São Paulo, ANPUH / Humanitas, 1998, p.

202.

156 Idem, p. 206.

157 Xavier Gil Pujol, «Centralismo e localismo? Sobre as relações políticas e culturais entre capital e territórios nas Monarquias européias dos séculos XVI e XVII», in Penélope. Fazer e Desfazer a História, n.º 6, 1991, p. 127.

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contrapor segmentos que se definem unicamente pelo fato de terem se constituído enquanto elites agrárias, elites comerciais ou elites administrativas. Espero ter conseguido defender o argumento de que, por intermédio de uma intrincada teia de relações econômicas, político- administrativas, clientelares e parentais ligando os mais remotos rincões da colônia entre si, a outras partes do império e ao centro do poder e dos negócios na Corte, se constituiu a partir do movimento da conquista, da ascensão a postos administrativos, da obtenção de terras e mercês uma elite que pode ser entendida, dependendo do recorte historiográfico, como colonial, ou, mais apropriadamente, a meu ver, imperial.

No entanto, o que a colônia, no caso do Brasil, ou o império atlântico português possuíam de específico e que dotava igualmente suas elites de uma singularidade em relação às elites européias do Antigo Regime era o facto de terem-se gerado numa sociedade escravista, que se gerou por sua vez na dinâmica do tráfico negreiro. Resgato aqui, para concluir, as afirmações de Stuart Schwartz, de que o «escravismo criou os fatos fundamentais da vida brasileira» 158 , e de Luiz Felipe de Alencastro: «De conseqüências decisivas, na formação histórica brasileira, o tráfico extrapola o registro das operações de compra, transporte e venda de africanos para moldar o conjunto da economia, da demografia, da sociedade e da política da América portuguesa.» 159

158 Schwartz, op. cit., p. 209. 159 Alencastro, op. cit., p. 29.