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A IMPORTÂNCIA DA TANATOLOGIA NA FORMAÇÃO DO PSICÓLOGO

RESUMO

1 Carlos Henrique de Aragão Neto 1

2 Cláudia Aline de Brito Oliveira

2

O presente artigo trata da importância da Tanatologia para a formação do psicólogo. Para desenvolver tal trabalho, partimos da constatação de que as Faculdades e Universidades brasileiras não incluem como disciplina obrigatória a disciplina de Tanatologia. Tal reflexão é relevante na medida em que, independente da abordagem e do ambiente terapêutico, o psicólogo se depara com situações de perdas, lutos e assuntos relacionados à morte. Nesse sentido, é necessário percebermos a importância da preparação do psicólogo para enfrentar tais situações com um suporte teórico apropriado, além de um estágio obrigatório em hospitais, clínicas, ambientes onde se vivenciam diretamente os referidos processos. Desse modo, o objetivo deste trabalho consiste em fomentar uma reflexão no âmbito acadêmico que leve à obrigatoriedade da inclusão da disciplina específica de Tanatologia.

Palavras-chave: Tanatologia. Capacitação profissional. Psicologia.

INTRODUÇÃO

Vivemos de perder, abandonar, e de desistir. E, mais cedo ou mais tarde, com maior

ou menor sofrimento, todos nós compreendemos que a perda é, sem dúvida, uma condição

permanente da vida humana. (VIORST, 1988).

A partir do raciocínio acima e ao considerarmos a morte como a maior das perdas para

o homem, poder-se-ia pensar que a sociedade lida com esse fenômeno natural e inexorável, de

uma forma consciente, aberta, dialogada. Ao contrário! O movimento de negar a morte, desde

o século passado até a atualidade, tomou uma dimensão assustadora. Becker (2007), ao falar

sobre a negação da morte, diz que de todas as coisas que movem o homem, uma das

principais é o seu temor terror, como prefere chamar - da morte. Esse temor, por ser a

expressão do instinto de auto-preservação, deve estar presente por trás de todo o nosso

funcionamento normal, mas não pode estar presente de forma constante no funcionamento

mental do indivíduo, pois se assim fosse, o organismo não funcionaria.

1 Graduado em Administração de Empresas pela FASP/SP. Especialista em Tanatologia pelo CTAN/CE. Acadêmico do Curso de Psicologia da FACID. 2 Acadêmica do Curso de Psicologia da FACID.

Por trás dos sentimentos de desânimos e depressões, das neuroses de angústia, das diferentes fobias e muitas esquizofrenias, se esconde o medo da morte (ZILBOORG, 1943, apud BECKER, 2007).

Elias (2001) esclarece que, na verdade, não é a morte, mas o conhecimento da morte que cria problemas para os seres humanos. Lembra ainda, que idéias de morte e os rituais correspondentes tornam-se um aspecto de socialização.

Etmologicamente, a palavra Tanatologia origina-se do grego Thanatos (figura da mitologia grega que representa a morte) e Logia (do grego Logos: estudo, ciência). Portanto, o significado literal seria o “estudo da morte”. Todavia, ampliaram-se os campos deste estudo. Vários estudiosos redefiniram a Tanatologia: Kastenbaum e Aisenberg (1983) ciência que estuda os processos emocionais e psicológicos que envolvem as reações às perdas, ao luto e à morte -, similar ao de Kolinsk (2007) ciência que estuda o fenômeno da morte, bem como os processos que envolvem as reações à morte, ao morrer, luto e perdas -, avançando até o conceito de Biotanatologia, de Evaldo D`Assumpção (2005) - ciência que estuda a vida através da ótica da morte.

A Tanatologia é ainda uma ciência muito recente (ESCUDEIRO, 2007). Apesar de ter o médico canadense William Osler como um pioneiro com a publicação A Study of Death, de 1904, foi após a Segunda Guerra Mundial que se deu efetivamente o desenvolvimento da Tanatologia. A obra de Feifel, The Meaning of Death, de 1959, constituiu um marco importante que caracterizou esse período (KOVÁCS, 2003).

Uma visibilidade maior veio através de Elisabeth Kübler-Ross psiquiatra suíça radicada nos E.U.A. - nos anos de 1960, com as publicações de seus trabalhos realizados com pacientes em fase terminal de câncer, principalmente com a obra Sobre a Morte e o Morrer, de 1969, quando analisa os estágios pelos quais passam as pessoas no processo de terminalidade - negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação (KÜBLER- ROSS, 1998).

Wilma Torres foi a primeira psicóloga brasileira que se dedicou à sistematização da área da Tanatologia no Brasil, criando em 1980 o programa pioneiro de “Estudos e Pesquisas em Tanatologia” no ISOP/ Fundação Getúlio Vargas, com o intuito de realizar pesquisas na área e publicar os relatórios das mesmas (KOVÁCS, 2003).

A despeito do pouco tempo de estudos e desenvolvimento da Tanatologia - especialmente no nosso país, considerando que menos de três décadas é ínfimo para a

consolidação de uma ciência -, ela vem, paulatinamente, ocupando seu espaço sem, contudo, fazer parte de um ramo específico do conhecimento (KOLINSKI, 2007), perpassando por várias áreas do saber como as ciências da saúde e ciências humanas.

A partir da constatação anterior pouca idade dessa ciência poderemos começar a tentar entender o motivo de a Tanatologia ser preterida na grade curricular dos cursos de graduação da área de saúde em todo o país, o que nos parece, no mínimo, uma atitude paradoxal, visto que os temas abrangidos neste estudo são de uma importância incontestável para uma formação mais completa, humanizada e substancial dos profissionais. A respeito disso, verificamos que são pouquíssimas as instituições de ensino superior de psicologia, que disponibilizam uma “disciplina optativa” de Tanatologia, destacando-se a Universidade de São Paulo USP, que já em 1986, através da iniciativa da psicóloga Maria Julia Kovács, criou a “Psicologia da Morte”; em sua obra Educação para a Morte: Desafio na Formação de Profissionais de Saúde e Educação, de 2003, Maria Julia Kovács fala sobre o motivo pelo qual não pretendeu tornar a referida disciplina obrigatória

Pensava originalmente que deveria ser disciplina obrigatória para todos os profissionais de saúde, já que certamente vão se confrontar com o assunto em suas atividades cotidianas; entretanto, torná-la obrigatória poderia tirar um de seus valores fundamentais: o de cada aluno poder explorar e se aprofundar no tema segundo sua necessidade como deveriam ser todas as atividades didáticas envolvidas na formação do psicólogo, com exceção das discussões sobre ética (2003, p.72).

De fato, é importante a liberdade do aluno ser exercida nas suas escolhas e preferências, aspecto do estado democrático; no entanto, como a própria autora disse das discussões sobre ética, julgamos ser também indispensável a inclusão da disciplina de Tanatologia na grade curricular dos cursos da área de saúde como disciplina obrigatória, especialmente em psicologia, objetivo maior desta reflexão.

Encontramos vários aspectos para lastrear nosso pensamento. Começamos com a idéia de que todo indivíduo que se proponha a cuidar no sentido mais amplo da palavra - de vida humana, deverá estar munido de ferramentas que lhe permitam uma intervenção eficaz. Yalom diz que o instrumento mais valioso do terapeuta é o seu próprio self:

Devemos demonstrar nossa disposição em entrar em profunda intimidade com o nosso paciente; processo esse que exige que sejamos adeptos de explorar a melhor fonte de dados confiáveis sobre o nosso paciente nossos próprios sentimentos (2006, p.51).

Essa visão é comungada por Kovács (2003) ao dizer que na formação do psicólogo, e ampliando aos demais profissionais de saúde, é preciso lembrar que um dos instrumentos que utiliza é a si próprio, ou seja, o próprio self.

Outro aspecto relevante é a pouca idade da maioria dos alunos; a cada geração, é menor a média de idade no ingresso do curso. Atualmente, podemos ver indivíduos, às vezes, ainda adolescentes sob o ponto de vista psicossocial, que têm pouca ou nenhuma experiência de elaboração de perdas significativas, experiência de vida mesmo.

O fato de ter a disciplina como parte integrante da grade curricular obrigatória, fará com que estes jovens alunos possam entrar em contato com o tema, e, no mínimo, suscite reflexões acerca das discussões e uma provável melhor preparação para o enfrentamento da profissão. Leviton (1975) fez um estudo com 300 alunos na Universidade de Maryland que freqüentaram um curso de Tanatologia e 90% afirmaram que este afetou-os a forma de encarar a morte, de lidar com os próprios medos e enfrentá-la de uma maneira mais tranqüila (KOVÁCS, 2003).

Portanto, o profissional deve ter uma preparação pessoal e acadêmica que lhe dê suporte para enfrentar situações difíceis com segurança. Adiante trataremos dessas situações nos variados espaços terapêuticos.

DISCUSSÃO

A Tanatologia abarca temas diversos, entre eles os fenômenos ligados à morte física em todos os estágios do desenvolvimento humano, tipos de perdas que poderíamos chamar de mortes simbólicas -, os processos de luto, bioética, comunicação de más notícias e cuidados paliativos. Sabemos que nos cursos de graduação, observando as possíveis variações de uma instituição para outra, muito pouco se aborda dos referidos temas, senão em disciplinas de Psicologia Hospitalar caso o professor tenha formação em Tanatologia, e mesmo assim, são vistos alguns desses temas un passant e, quando existe, em Bioética. Sabemos que todos esses estudos requerem mais tempo e profundidade para o estudante do que são dados nas instituições.

Falemos deles. Perdas são fenômenos que ocorrem inúmeras vezes ao longo da vida de cada indivíduo, não necessariamente ligados à morte física, costumam despertar sensações de

angústia, medo e solidão, análogas à morte, e contém em seu bojo sofrimento, dor e tristeza. Podem vir por separação, perda de emprego ou aposentadoria, nas mudanças de fases do desenvolvimento da pessoa, outras mudanças (de residência, de cidade ou país, de escola, etc.) e nas escolhas quando se faz uma escolha, se perde outra possibilidade. A maneira de reagirmos às perdas é influenciada por vários fatores como: faixa etária, desenvolvimento cognitivo e emocional, as circunstâncias da perda, dinâmica familiar, cultura e fatores sociais (KOLINSKI, 2007).

Luto é um processo inerente a uma perda: toda perda significativa pressupõe o luto, um processo que visa retirar a energia fixada no objeto perdido e redirecionada para outro objeto (FREUD, 1917, apud ESCUDEIRO, 2007). Envolve uma sucessão de quadros clínicos

que se mesclam e se substituem; têm impacto sobre o indivíduo e a família, muitas vezes a longo prazo. Esse impacto necessita ser adequadamente avaliado, para que sejam identificadas

as medidas de intervenção que serão propostas (PARKES, 1998).

O luto pressupõe fases, segundo Bowlby (2004): Entorpecimento, Anseio e busca da

figura perdida, Desorganização e desespero e Reorganização. Pressupõe tarefas, segundo Worden (1998): Aceitar a realidade da perda, Elaborar a dor da perda, Ajustar-se ao ambiente,

Reposicionar emocionalmente a pessoa falecida e continuar a vida.

Os cuidados paliativos constituem um campo interdisciplinar de cuidados totais, ativos

e integrais, dispensados aos pacientes com doenças avançadas e em fase terminal

(SAUNDERS, 1990, apud FLORIANE e SCHRAMM, 2004); visam oferecer um modo de morrer que acolha o paciente, seu cuidador e sua família, dando-lhes amparo para enfrentar este momento difícil de suas vidas, amparo este, estendido até a fase de luto.

A comunicação de notícias ruins é uma das tarefas mais difíceis encontrada pelos

profissionais de saúde. Requer tempo disponível adequado, sensibilidade e privacidade. É uma arte! Algumas técnicas são recomendadas, como evitar dar uma má notícia para uma pessoa de pé, usar linguagem acessível, dar o direito ao paciente de saber as suas condições, entre outras.

O estudo da Bioética que pode até ser encontrado eventualmente na graduação de

algumas instituições traz uma série de discussões muito importantes para o psicólogo,

atualíssimas, como a Eutanásia, Distanásia, Ortotanásia, Obstinação Terapêutica ou Tratamento Fútil, conceitos de vida e de morte.

pela

Tanatologia, façamos algumas reflexões sobre a morte na nossa sociedade, e adiante,

especificamente na área da saúde.

Para

finalizar

essa

breve

conceituação

dos

principais

aspectos

tratados

A forma de lidar com a morte mudou no decorrer da história. Motivo de reflexões filosóficas por muitos dos grandes pensadores ao longo do tempo desde a Grécia Clássica, foi pública, domesticada, mas com o avanço da industrialização e do capitalismo no século XX, passou a ser encarada como fracasso, vergonhosa, proibida. Tornou-se o grande tabu, desbancando o sexo, como assinala Maranhão

No espaço das últimas cinco décadas, assistimos a um fenômeno curioso na sociedade industrial capitalista: à medida que a interdição em torno do sexo foi relaxando, a morte foi-se tornando um tema proibido, uma coisa inominável. Numa sociedade como a nossa, completamente dirigida para a produtividade e o progresso, não se pensa na morte e fala-se dela o menos possível (1998, p.09).

Assumiu uma conotação de algo “não natural”, encarado com preconceito, como algo impronunciável ou no qual não se pode falar (KOLINSKI, 2007).

Quanto mais a morte é negada e reprimida, mais afastamos as experiências difíceis que nos pertencem, criando certa ilusão de imortalidade.

Essa noção de imortalidade decorre do fato de o inconsciente humano não admitir o falecimento e a idéia de uma destruição total do ser, quando se trata dele mesmo. A morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos (KÜBLER -ROSS, 1998, apud COMBINATO E QUEIROZ, 2006).

Pronunciar a palavra morte é motivo de pavor até mesmo para indivíduos com formação em nível de pós-graduação, como professores atuantes em cursos de graduação, mestrado e doutorado, que dizem não se acharem preparados para discutirem tal temática (MELO, 2007); além disso, a morte é um determinante na vida de cada um de nós e a possibilidade de trabalho direto com pessoas, como é o caso da psicologia, traz o confronto diário entre a vida e a morte (KOVÁCS, 2003).

Unanimidade entre os estudiosos e pesquisadores da Tanatologia, é o fato de que profissionais de saúde, numa atitude inconsciente de autodefesa, reduzem suas atuações aos procedimentos técnicos exigidos, deixando o apoio emocional, humano, bastante deficitário. O paciente passa a ser uma estatística, coisificado relação eu-isso de Martin Buber -, quadro

que clarifica o despreparo emocional dos profissionais em lidar com a finitude alheia, porque

os faz entrar em contato com a idéia das suas próprias finitudes.

O despreparo destes profissionais de saúde para lidar com as situações de morte, física

ou simbólica, cuidados paliativos, lutos, questões da bioética, enfim, aspectos da Tanatologia,

são largamente citados na literatura com base em pesquisas científicas. Uma das

conseqüências possíveis é a síndrome do esgotamento profissional, burn-out, apenas um

exemplo a que está sujeito o profissional da saúde que lida com o sofrimento alheio, sem,

contudo, estar preparado para enfrentá-lo. Vejamos algumas dessas citações:

Maranhão, ao relatar que os moribundos, quando transferidos para os hospitais, são

providos de todos os recursos técnicos, porém lhes falta o apoio e cuidados humanizados

A essa situação se acresce o problema da própria formação acadêmica dos profissionais ligados à área de saúde. Percebe-se que grande parte de nossas faculdades, devido a uma distorção curricular, está unicamente preocupada em qualificar pessoas aptas para curar, tratar e prolongar a vida, porém bem pouco aptas para assistir psicológica e humanamente pacientes que não vão se recuperar. A única instrução que recebem que têm algo a ver com a morte e o morrer, é como preencher um atestado de óbito (1998, p.40).

Melo (2007), ao fazer uma pesquisa em escolas para abordar o perfil do profissional

de educação e a educação para a morte, constata o despreparo dos professores

Quanto à sua formação acadêmica e os conhecimentos sobre a temática da morte, apenas G.I.Q.S. aponta ter tido acesso ao assunto, afirmando assim:

lembro de um professor ter falado de forma superficial sobre a morte, mas não fez nenhum aprofundamento.

A fala dela vem confirmar o pensamento de Kovács (2003) de que profissionais que

podem presenciar a morte no seu cotidiano, com maior facilidade do que em outras

profissões, ainda carecem de reflexão e aprofundamento sobre esta temática, como é o caso de

médicos, psicólogos, enfermeiros e professores. Nesse sentido, o trecho “é por isso que nós,

professores, não temos esse preparo para falar de morte” indica a necessidade de uma

formação mais direcionada, advinda dos cursos de formação e graduação.

Júnior; Rolim; Morrone (2005) pesquisando como é o preparo de profissionais de

saúde em relação à comunicação com familiares sobre a morte, constataram que apenas

18,9% dos profissionais consideram a formação acadêmica sobre o assunto adequada; a

formação deve ser melhorada, pois reflete diretamente sobre a forma de lidar com familiares,

complementam.

A comunicação do diagnóstico não é função do psicólogo hospitalar. Entretanto, na

participação cada vez maior do psicólogo nas instituições hospitalares e com a distância

mantida pela equipe médica em relação ao moribundo discussão feita anteriormente , é

cada vez mais freqüente o psicólogo ter que transmitir a má notícia com todos os requisitos

necessários para isso.

Inúmeras são as situações cotidianas, em todos os ambientes terapêuticos, em que os

psicólogos têm, obrigatoriamente, que lidar com os eventos ligados a aspectos da Tanatologia,

como demonstrado acima. A cada dia outras áreas de trabalho são criadas de acordo com a

necessidade de mercado e da própria dinâmica da sociedade.

Vejamos o que nos diz Kolinski (2007) através do Manual de Tanatologia do

Conselho Regional de Psicologia CRP da região 08, ressaltando a importância do preparo do

psicólogo em Tanatologia de acordo com diversas áreas de atuação profissional:

- Escola: A escola pode ou não funcionar como um local de acolhimento às vivências de luto dos alunos e funcionários, dependendo da disponibilidade e capacitação dos professores e funcionários. Tais vivências vão, inevitavelmente, aparecer no dia-a-dia escolar. A qualquer momento um funcionário pode não conseguir a promoção que aguardava; um membro do corpo docente pode estar passando por um processo de separação, um aluno pode perder um familiar próximo.

- Empresa: Além das funções mais corriqueiras desenvolvidas por um psicólogo organizacional recrutamento e seleção de candidatos, programas de treinamento, integração de novos funcionários, entre outros - outras demandas podem surgir, como tratar um comportamento “fora do padrão empresarial” - ausências freqüentes, improdutividade, desmotivação, depressão -, reorientação de carreira, preparação para a aposentadoria, reabilitação funcional, resgatar o respeito e dignidade de quem teve a vida profissional atrapalhada por doenças graves como AIDS, drogadição, além das perdas por morte física de familiares e amigos de trabalho.

- Clínica: Nos meandros da prática clínica nos deparamos freqüentemente com questões relacionadas a perdas e lutos, que podem estar apontadas explícita ou implicitamente na queixa inicial daqueles que procuram um tratamento psicológico. Atualmente, têm-se observado um significativo aumento de casos cuja problemática refere- se a um aceno à morte. Entende-se por morte, não apenas a física, mas diferentes formas de interrupção de vida. A incidência de fenômenos

como transtornos alimentares, tentativas de suicídio, depressão, solidão

e violência, apontam para essa problemática.

- Hospital: Lidar com pacientes é uma tarefa que exige um grande

desprendimento e capacidade de suportar frustrações e dor no entrechoque constante entre a vida e a morte, que se passa no corpo e na mente destes pacientes. É um dos trabalhos mais difíceis, seja do ponto de vista médico, seja do psicológico, familiar ou social. Contribuir no processo de adesão do paciente ao tratamento, comunicar más notícias, facilitar a participação do moribundo no seu próprio processo de morte tornando-a mais digna, acompanhar o paciente e familiares no decorrer do tratamento com o objetivo de possibilitar e facilitar a expressão de sentimentos identificando a fase em que transita para melhor intervir, são exemplos de demandas nesse trabalho. Uma vasta relação de circunstâncias não citadas existe para a atuação do psicólogo preparado para o hospital.

- Saúde Pública: Perdas familiares e da estrutura social, privações de

necessidades básicas, obstáculos de realização pessoal, perda de emprego, separações, viuvez, amputações, perda por morte violenta e inesperada, tentativas de suicídio, gravidezes precoces ou de risco, doenças sexualmente transmissíveis, drogadição, alcoolismo. São exemplos de perdas a serem trabalhadas por psicólogos na saúde pública com muita freqüência. Num universo tão heterogêneo de usuários, as atividades da equipe de psicologia tendem a ser também diversificadas. Na maioria das vezes, estes usuários estão circundados por uma intensa dor, quer física, quer emocional ou ambas, necessitando de atenção, afeto e escuta.

- Esporte: Na vertente da Tanatologia, a Psicologia do Esporte lida com

os lutos e perdas dos atletas e das equipes, quer pessoais, quer dentro do próprio grupo.

- Jurídica: A interface da Psicologia Forense com a Tanatologia se dá

através de seus pareceres nas questões que envolvem perdas, sejam elas materiais, de pessoas ou mesmo de direitos, nas questões de doação de órgãos, de propriedade e de custódia.

- Trânsito: Acidentes de trânsito podem reportar a perdas, e no caso de lesões graves e morte, é preciso realizar um trabalho referente à imagem corporal perdida, às modificações na vida diária, perdas e lutos a elaborar.

Fica nítida a demanda da psicologia nas diversas áreas do campo profissional. Não

menos clara, é a necessidade de aprofundar conhecimentos teóricos e vivenciais em

Tanatologia, para subsidiar as ações e intervenções destes profissionais nos atendimentos,

tornando-os eficazes, atingindo objetivos.

CONCLUSÃO

Para o homem ocidental moderno, a morte passou a ser sinônimo de fracasso,

impotência e vergonha.

Kolinski (2007), enfatiza a necessidade da reinserção do fenômeno morte em nossa cultura. A finitude humana torna óbvio o valor de sabermos mais sobre os processos de morte, de morrer, bem como o luto e as perdas.

Sabe-se que, ao longo do curso de graduação em Psicologia, os temas citados aparecem superficialmente em raras disciplinas, não sendo suficiente para a demanda que certamente virá em qualquer área que o psicólogo irá atuar, seja clínica, empresa, hospital, escola, comunidade, serviços públicos de saúde, esporte, penitenciárias, instituições de menores infratores, etc.

O debate sobre a morte e o morrer pode levar profissionais de saúde a uma mudança de conduta, alterando positivamente o quadro atual, onde o profissional da saúde é formado para curar a doença e não para lidar com a pessoa, modelo biomédico e biologicista.

Segundo Vygotsky, é preciso, contudo, entendermos o sentido e o fazer do profissional a partir do significado de morte atribuído pela cultura, assim como a influência dessa cultura na sua formação profissional.

Ora, se a nossa cultura é de negação da morte e hedonista, podemos então entender porque a sociedade repele este tema, o que respinga nas instituições, inclusive as de ensino, no que se pode chamar “fenômeno da tanatofobia” – medo do componente morte.

É fundamental que ocorra previamente a capacitação dos profissionais no que se refere à Tanatologia ainda durante a graduação, para evitar que estes, ao encontrarem-se atuando com as realidades de perda e luto, busquem um aprendizado superficial.

O caráter diretivo da Tanatologia confere mais flexibilidade aos psicólogos em acompanhamentos de alguns pacientes, como ir aos leitos de hospitais e visitá -los em suas residências, o que difere da maioria das abordagens da psicologia, de caráter não-diretivo.

Enfim, sugerimos a inclusão da disciplina Tanatologia na grade curricular obrigatória no curso de graduação em psicologia, com carga de 90 horas - teoria e vivências - para que sejam dados tempo e espaço adequados para o aprofundamento do aprendizado. Obviamente, não desejamos afirmar que esta proposta por si só resolva a integralidade do problema do enfrentamento da morte e seus fenômenos por parte dos alunos; no entanto, estaremos fortalecendo a formação de profissionais capazes de lidar com o indivíduo em sua plenitude.

ABSTRACT

Thanatology is the science that studies the phenomenon of death, contemplating the process of dying, the mourning and the losses. The death, especially in western capitalist societies, became forbidden, undergoing a process of increasing denial from the twentieth century until today. Our work focus the premise that the distance of the themes concerning the Thanatology extends to graduate courses in health in general, but here the focus is the psychologist education. We have reflected about the concepts of death, loss and mourning, we also have seen how the society deals with it today, and we have confirmed that health professionals, including psychologists, go to the different working places unprepared to face in a safe and appropriate way, the challenges of caring the patients, family and they themselves, regarding the aspects related to Thanatology. From what was found during the development of this article, we propose a curriculum review to include a Thanatology subject in the graduation course of psychology, aiming better training these professionals to give the patients in its fullness,fullcare.

Keywords: Thanatology, Professional capacitation, Psychology.

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