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04 Alberto Vieira, Cláudia Faria, Graça Alves EU TENHO UMA CARTA ESCRITA Cadernos de divulgação
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Alberto Vieira, Cláudia Faria, Graça Alves

EU TENHO UMA CARTA ESCRITA

Cláudia Faria, Graça Alves EU TENHO UMA CARTA ESCRITA Cadernos de divulgação do CEHA. Projeto “Memória

Cadernos de divulgação do CEHA. Projeto “Memória das Gentes que fazem a História” / SRETC / DRC | N.º 04. VIEIRA, Alberto, FARIA, Cláudia, ALVES, Graça, Eu tenho uma carta escrita

EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita

EU TENHO UMA CARTA ESCRITA

[Do acervo de Cândido Pamplona Forjaz e Maria do Livramento Lacerda Mesquita Abreu,

no período de 1924-1933]

Alberto Vieira, Cláudia Faria, Graça Alves CEHA-SRETC-MADEIRA

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ÍNDICE

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Apresentação

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Escritas do eu

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Para a construção de uma história

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Do discurso amoroso

61

Da história dos dias

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Questões políticas nacionais e insulares

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Dados para um diálogo entre a História oficial e a outra História

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Conclusão

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Documentação

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Bibliografia

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Anexos

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Agradecimento

Os autores deste estudo agradecem aos familiares de Cândido Pamplona Forjaz e Maria do Livramento Lacerda Mesquita Abreu, nomeadamente ao Dr. Jorge Eduardo de Abreu Pamplona Forjaz, a cedência dos originais das cartas e a possibilidade da sua digitalização.

Mais reconhecem e manifestam gratidão pela confiança demonstrada ao grupo de trabalho de “Memó- rias das Gentes que fazem a História”, do Centro de Estudos de História do Atlântico.

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APRESENTAÇÃO

E ntende-se quase sempre que a História é aquilo que está nos manuais, a última palavra dita pelo Historiador, a partir de um estudo e da análise aturada das fontes oficiais. Ora, isto pertence ao passado, pois, na atualidade, a História abriu-se a uma diversidade de fontes e democratizou-se, permitindo a todos serem interventores.

Vem isto a propósito do espólio de cartas trocadas entre Cândido Pamplona Forjaz e Maria do Livra- mento Lacerda Mesquita Abreu, no período de 1924-1933, que nos permitem sentir o quotidiano de outros tempos, a agitação política que precedeu o 28 de maio de 1926 e que teve nas ilhas forte impacto político, com a revolta de 1931.

Os estudos que temos realizado no âmbito do projeto “Memórias das gentes que fazem a História” vão nesse sentido e pretendem resgatar uma outra História, não diferente, mas complementar da que temos como referência. Desta forma, quisemos dar um passo em frente e transformar o HOMEM no verdadeiro cen- tro e motivo da História, valorizando-o nas suas múltiplas dimensões e trazendo-o para o palco da História, como o protagonista de direito.

Neste processo de mudança, a História Oral, as Histórias de Vida e a Autobiografia são importantes, pelo que evocamos o Dia Internacional das Histórias de Vida, como um apelo a esta consciência da mudança de operador.

O Homem assumiu definitivamente o palco da História, onde todos têm lugar. A História não é apenas de alguns, mas de todos e para todos. Há diversos caminhos que podemos percorrer no método biográfico, que implicam opções de trabalho distintas. Assim, fala-se dos chamados biogramas que pretendem amostragens, usando o tratamento quantitativo; os relatos de vida, que aprofundam aspetos e etapas da vida e, finalmente, as Histórias de Vida, que pretendem, de forma total, constituir o percurso de vida do indivíduo.

Em termos concetuais, o debate tem permitido múltiplos esclarecimentos, em torno desta realidade e metodologia. Assim, Norman Denzin (1989) diferencia as vidas “vividas”, “experimentadas” e “contadas”. No primeiro caso, sinaliza-se os acontecimentos vivenciados, no segundo, as imagens, sensações, sentimentos ou desejos destes acontecimentos, enquanto as “vidas contadas” são a narrativa, que sofrem influências de padrões culturais e da forma como se apresentam ao público. T. Pineau (1999: 343) define a “biografia” “como escrito da vida do outro”, enquanto a autobiografia, segundo C. Josso (1991: 343) será o “escrito da

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própria vida”. C. Bertaux (1981: 7-9) diz-nos que “enquanto as autobiografias escritas têm um único autor, as estórias de vida gravadas são o resultado de uma interação social”.

As histórias de vida ganharam hoje um estatuto importante e estão na ordem do dia. Os caminhos e metodologias para a sua concretização estão apurados. Recorde-se que as Histórias de vida não são um ramo da História Oral que se limita à narrativa ou escrita na primeira pessoa, juntando-lhes, então, uma diversidade de documentos que lhes dão forma, expressão e visibilidade, como autobiografias, diários, cartas, fotografias e objetos pessoais. Minayo (2008: 226) define as Histórias de Vida “como uma entrevista prolongada com interação entre pesquisador e informante, combinando observação, relatos introspectivos de lembranças re- levantes e roteiros mais ou menos centrados em algum tema”, enquanto C. Víctora (2000: 67) diz-nos que “a metodologia de história de vida busca compreender o desenvolvimento da vida do sujeito e traçar com ele uma biografia que descreva sua trajetória até o momento atual”.

O método biográfico vem já da Grécia Antiga, mas teve um novo élan, a partir do século XIX, com a afirmação da história social como disciplina. Este caminho cativou diversos especialistas conhecidos, como Michel Foucault, Fernand Braudel, Lucien Febvre ou Carl Ginsburg. Hoje, a autobiografia ganhou um impor- tante terreno na história social, dando ênfase ao quotidiano, pessoal, privado, familiar e às representações e apropriações que cada um retém.

Segundo F. Ferrarotti (1988: 31), “cada indivíduo não totaliza diretamente uma sociedade global, mas totaliza-a pela mediação do seu contexto social imediato, pelos grupos restritos de que faz parte, pois estes grupos são por sua vez agentes sociais ativos que totalizam o seu contexto, etc. De igual modo, a sociedade totaliza todo o indivíduo específico por intermédio de instituições mediadoras que a focalizam cada vez mais pontualmente para o indivíduo em questão.” Mais afirma F. Ferrarotti (1988: 37) que “o nosso sistema social encontra-se integralmente em cada um dos nossos atos, em cada um dos nossos sonhos, delírios, obras, com- portamentos”. Halbwachs (2004) reforça e afirma que “a história deste sistema está contida por inteiro na história da nossa vida individual. A memória autobiográfica apoia-se na memória social, pois toda a história de vida faz parte de uma história geral”. Rapidamente, o puzzle da História compõe-se e estrutura-se de for- ma distinta, com pessoas, sentimentos, cheiros e uma vida que gera proximidade. É certo que Pierre Bourdieu (1985) não poupa críticas àquilo que chama “ilusão biográfica”, mas, sem dúvida, que a História a cores ganha outra importância e atenção na nossa sociedade, cativando todos porque todos se identificam e se sentem retratados e parte desta memória comum.

As histórias e narrativas ganham cada vez mais expressão no quadro do nosso projeto. Os heróis de carne e osso apresentam-se na primeira pessoa ou por testemunho de outros. E, aos poucos, os quotidianos recentes ou passados ganham outro colorido e ambiência e tornam-se mais claros na nossa reconstituição dos passados. Tudo isto porque saímos do amparo e conforto das bibliotecas e arquivos, e partimos à desco- berta das pessoas, redescobrindo as suas memórias e narrativas de vida.

Paulatinamente, a História, que se constrói quase só com reis, príncipes, princesas, capitães do donatá- rio, governadores e homens-bons, passa a ser de todos e protagonizada por todos. Partimos nesta descoberta da outra História, da História vista debaixo, a partir das entrevistas e testemunhos dos próprios ou dos que os presenciaram ou guardaram as suas memórias e narrativas.

Para os mais distantes de nós e os que deixaram de estar presentes para podermos atestar de viva voz as narrativas, restam os documentos pessoais, as cartas, os diários.

Devemos, ainda, assinalar que, hoje, a História se faz a partir de uma multiplicidade de fontes, quer pú- blicas, quer privadas. Cada vez mais nos tempos que correm, a História Tradicional vai dando lugar à Pequena História ou à História do Quotidiano e da Vida Privada. Estamos perante uma valorização das fontes de in- formação aquém da oficial, elaborada pelas instituições públicas. Desta forma, os arquivos privados ganham cada vez mais importância na escrita da História.

Na reconstituição do quadro da correspondência, podemos distinguir três tipos: a oficial, a privada e a

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comercial. Apenas a primeira se torna pública e alvo privilegiado dos historiadores. Para as duas restantes, o acesso restringe-se quase só aos seus interlocutores. A nossa presença e acesso sai fora do circuito normal e é, sem sombra de dúvida, uma forma de devassar a intimidade e privacidade, ou então de penetrar em alguns segredos dos negócios. Aqui, temos acesso, não autorizado, à outra História que se apresenta como um es- pelho ou retrato do quotidiano, a expressão de algumas formas de intervenção ilegais, como o contrabando ou o jogo de influências.

O interesse desta correspondência privada prende-se com as informações que podem testemunhar so-

bre aspetos inéditos do quotidiano. A carta é um elo que prende dois interlocutores e que testemunha um movimento de ideias, produtos e gentes. Ela foi, durante muito tempo, um meio de contacto entre duas pessoas, servindo para transmitir afetos, noticiar aspetos pessoais do quotidiano ou como um instrumento comercial que une dois portos e dois intervenientes, num processo de compra e venda de produtos.

A informação destas missivas apresenta um caráter intimista, alheio aos protocolos da correspondência oficial e institucional. Nestas últimas, o formalismo quebra essa intimidade e desumaniza o conteúdo. Já nas primeiras, remetente e destinatário são humanos e, como tal, na carta, em qualquer circunstância, transpare- ce esta realidade. De acordo com o grau de parentesco ou de relação entre ambos os interlocutores, a escrita ganha maior ou menor intimidade, podendo mesmo ser expressa de forma codificada.

O segredo, um dos importantes caminhos de sucesso nos negócios é, muitas vezes, contornado pela

necessidade de se socorrer de um tradutor, pelo desconhecimento da escrita. Para muitos, esta situação com-

plica-se, por falta do domínio, não só da língua, como da escrita. É preciso buscar alguém capaz de a escrever, alguém com quem temos de partilhar os nossos sentimentos e desejos, alguém que seja capaz de passar para

a escrita aquilo que pretendemos comunicar aos nossos parentes.

As cartas que escrevemos encontram-se quase sempre junto dos destinatários. Raros serão os casos em que alguém decide preservar uma cópia da sua missiva. O registo fica na memória de cada um e a resposta ganha sempre sentido, sem necessidade de confronto com uma qualquer cópia. A expressão dos sentimen- tos, desejos e outros anseios perdura na nossa memória. Já para o mundo institucional e dos negócios, a

realidade é distinta. É necessário um copiador de cartas para registo do que se enviou e para o confronto com

a resposta. Aqui, os interesses saem do domínio pessoal e necessitam de outra forma de registo. Desta forma, seremos confrontados, muitas vezes, com uma situação particular em que as cartas originais e pessoais de que dispomos se encontram, quase sempre, do lado do destinatário. Já nas outras situações assinaladas, ao original do destinatário, temos a felicidade de encontrar o registo da sua cópia no remetente.

Hoje, a nossa atenção será direcionada para esta correspondência que tem registo em copiadores. É dentro do mundo dos negócios que esta prática será corrente, permitindo o acesso a muitos destes documen- tos, com maior facilidade, no sentido em que estão organizadas e registadas, de forma ordenada. Já do outro lado, aparecem avulsas e sem critério de organização, o que dificulta, muitas vezes, a nossa avaliação atual.

Para a Madeira e o espaço atlântico, no período dos séculos XVII e XVIII, temos um acervo significativo de cartas comerciais que permite, em muitas situações, reconstituir a História e o quotidiano das instituições, a que falta documentação oficial 1 . Esta situação tem continuidade no século XIX, com o setor do vinho. A falta

1 BOXER, Charles, 1975, “The commercial letter-book and testament of a Luso-Brazilian merchant, 1646-1656”, in Boletín de Estudios Latino-A- mericanos y del Caribe, n.º 18 (Junho), Amersterdão, pp. 49-56. Cf. Lilly Library (Indiana University, Bloomington). 1972, Brazil from discovery to independence: an exhibition commemorating the 150th anniversary of the declaration of Brazilian independence on September 7, 1822. Lilly Library, Bloomington. O Referido manuscrito pertence à Lilly Library/Indiana University/USA, tendo a seguinte referência: 1646-1656 Portugal History MSS. Portuguese Commercial Letterbook. Cf. Curto, José C., 2002, Alcool e escravos: o comércio luso-brasileiro do álcool em Mpinda, Luanda e Benguela durante o tráfico atlântico de escravos (c. 1480-1830) e o seu impacto nas sociedades da Africa Central Ocidental, Editora Vulgata. Edição 3 de Tempos e espaços africanos; Dutra, Francis A., 1980, A guide to the history of Brazil, 1500-1822: the literature in English, ABC-Clio. VIEIRA, Alberto, 1996, O Público e o Privado na História da Madeira, Funchal, CEHA. VIEIRA, Alberto, 1998, O Público e o Privado na História da Madeira, Funchal, CEHA; SIMON, A. L.,1928, The Bolton Letters- 1695-1714 , vol. I. Londres, t. Werner Laurie, Ltd. (republicado em português por Aragão, António, coordenação, a Madeira vista por Estrangeiros, Funchal, DRAC, pp.225-394, Republicado em SILVA, António Marques, 2008, Passaram pela Madeira, Funchal, Funchal 500 Anos, pp.40-47); SIMON, A. L., 1960, 1960, The bolton Letters.The Letters of an English Merchant in Madeira. 1701-1714, vol. II, Funchal, Produced by Graham Blandy. SILVA, Maria Júlia de Oliveira e, 1992, Fidalgos-mercadores no século XVIII. Duarte Sodré Pereira, Lisboa; VIEIRA, Alberto (coordenador) e SANTOS, Filipe, 2005, João Higino Ferraz, copiadores de cartas (1898-1937), Funchal, CEHA.

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de documentação oficial permite, em certa medida, reconstituir algumas das teias da rede comercial e de negócios atlânticos nesta época, com origem ou não na Madeira.

A possibilidade de acesso a este espólio de cartas de Cândido Pamplona Forjaz e Maria do Livramento Lacerda Mesquita Abreu, que cobrem o período de 1924-1933 2 , permite reconstituir quotidianos insulares e continentais e abrem-nos portas para essa outra História que nos ocupa na atualidade. E é sobre isso que nos propomos dizer algo.

AV. 10.04.2017

FREITAS, João Abel de, 1935, Carta ao Dr. Oliveira Salazar, 28 de Março de 1935, in Vieira, Alberto, 2001, História da Madeira, Funchal, pp.335- 336, Disponível na integra em VIEIRA, Alberto (coordenação), A AUTONOMIA: História e documentos, Funchal, CEHA, 2001 (DVD).

2 Recorde-se que este espólio de cartas foi-nos cedido temporariamente pelo Dr. Jorge Forjaz, a quem aproveitamos para agradecer esta possibilidade de acesso, fazendo parte do arquivo de Cândido Pamplona Forjaz que, em 12 de agosto de 2016, foi doado à Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro.

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ESCRITAS DO EU

(para uma teorização)

La connaissance de la vie nous introduit à la vie de connaissance d’une façon extraordinairement intime.

Edgar Morin

E m 1999, Lígia Maria Leite Pereira veio recordar que se tem assistido a um renovado interesse pelas trajectorias individuais (…) quer no campo das ciências humanas e da literatura, tanto no cenário nacional como internacional (Pereira, 1999: 117). Contardo Calligaris, sublinhando que o indivíduo ao sobrepor-se à sociedade e ao conceber a vida como uma aventura a ser inventada (Pereira,

1999: 117), contribui largamente para o reforço desta noção. Apesar da consciência de que sempre se escre- veu histórias de vida, Callagaris faz notar que a ideia de que a vida é uma história surgiu com a era moderna.

Igualmente em 1999, o neurocientista António Damásio, ao defender que a consciência se inicia quando o cérebro adquire o simples poder de contar uma história, veio dar razão ao postulado universal de que hu- man beings are storytellers by nature (Bruner, 1986). As histórias existem, na medida em que as pessoas as

contam. São pois um fenómeno social. [o modo de contar depende das normas e expetativas de cada socie- dade]. E, na realidade, as histórias fazem muitas coisas, desde entreter, educar, inspirar, motivar, revelar, orga- nizar e até mesmo abalar. Porém, uma das suas mais importantes funções é a integração (Habermas & Bluck, 2000). Do ponto de vista psicológico, as histórias de vida ajudam a tornar tangíveis ideias, acontecimentos

e sentimentos díspares ou contraditórios. É nesta linha de pensamento que Dan MacAdams evidencia a im-

portância da reação de quem conta uma história, já que qualquer reação, por mais hostil que seja, é sempre melhor à apatia. Fica, aqui, por um lado, implícito que o contar da historia vai para além das palavras que são proferidas, já que os gestos, o olhar, o silencio, o riso, as lágrimas e até os não ditos ajudam a compreender melhor o que é dito, e, por outro lado, fica também sugerido que a mesma historia é contada de modo dife- rente, consoante o público e/ou intenção.

Dan P. McAdmas, em 2008, sublinha que as histórias de vida deixaram já de ser um futuro promissor,

já que personal narratives and the life story have arrived (McAdams,2008: 242), isto é, são já presente, pois

o século XXI trouxe para a linha da frente a narrativa nas suas mais diversas leituras, sendo pois unamine a

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aceitação de que the self comes to terms with society through narrative identity (McAdams,2008: 243).

Não pode haver dúvidas de que esta espécie de retoma do género (auto)biográfico se fez acompanhar pela revalorização da História Oral e dos arquivos privados, entendidos como fonte, método e técnica com- plementares às Ciências Sociais, e como fontes históricas ricas e capazes. Aliás, quer Rioux quer Joseph Goy defendem que as histórias de vida consentem uma maior flexibilidade, ao permitir uma exploração mais am- pla de vários ângulos da “fonte viva”, um arquivo suis generis que, no entender de Goy, mistura o verdadeiro, o vivido, o aprendido e o imaginário (Rioux, 1983:30). Na realidade, as fontes primárias, além de suscitarem um debate sobre o público e o privado, sobre o individual e o coletivo, são elementos cruciais para a com- preensão da superfície social na qual o individuo actua a cada momento (Silva, 2009: 342).

Mas então o que é uma história de vida? Todas as vidas são histórias?

A história de vida, sendo um relato de um narrador sobre a sua existência através do tempo, conta com a intermediação de um pesquisador, pelo que deve ser entendida como um trabalho de caráter coletivo. Esta particularidade, per si, poderá ser causadora de algum conflito/tensão, na medida em que a relação narrador- -intérprete, tal como toda a espécie de relação, não é nem neutra nem isenta.

Importa notar que é o próprio Levi que nos relembra a complexidade da relação entre um trajetória de vida e a história social, já que o individuo não só reflete sobre o social como se apropria, filtra e projeta a rea- lidade, de acordo com a sua própria subjetividade, isto é, cada indivíduo representa a reapropriação singular do universo social e histórico que o circunda (Pereira: 121).

Porém, existem algumas dificuldades. Peneff, por exemplo, explica que a maioria dos relatos de vida são meras apologias, episódios contados com uma única voz, sem contradições, sem oponentes, sem fracassos nem fraudes, além de que partes inteiras da vida podem ser completamente esquecidas, em particular os momentos de dor, ou questionáveis, do ponto de vista moral. É por esta razão que Maurice Catani acusa o modelo de história de vida de ser uma síntese autobiográfica de uma vida exemplar, cujo melhor exemplo são as Confissões de Santo Agostinho. Contudo, Lejeune acredita que, apesar de tudo, as histórias de vida oferecem um retrato com nuances (…) e por isso mesmo mais próximo do individuo real: com contradições, limites, defeitos e qualidades (Pereira, ?: 124). Na verdade, a entrevista ao fazer-nos ver ao mesmo tempo um homem tal qual ele se vê a si mesmo, e tal qual alguém o vê (Lejeune, 1980:198) oferece uma competência insubstituível.

A palavra diário deriva da palavra grega “ephemerides” que vem de hêmera - dia. Em latim, a palavra “diarium”, proveniente de dies, significa o mesmo. Consideramos, então, diarística, a prática ou o ato de es- crever um diário.

A definição de diário, além de ser ambígua, não é consensual. Optamos pela definição de Philipe Le- jeune para quem o diário é um relato fracionado, escrito retrospetivamente, mas com um curto espetro de tempo entre o acontecido e o registo, em que um “eu”, com vida extratextual comprovada ou não, anota periodicamente, com o amparo das datas, um conteúdo muito variável, mas que singulariza e revela, por escolhas particulares, um eu-narrador sempre muito próximo dos factos.

Na realidade, nesta espécie de “pensamento em voz alta escrito num papel” (Yipner y Clark, 1988,176, Angulo V. 1988,201), o diarista vai registando os factos à medida que vão acontecendo, mas também retros- petivamente, criando uma ilusão de espontaneidade, por meio de fragmentações e elipses. Ao registar o quotidiano, anotando factos, pensamentos e procurando conter a passagem do tempo, o diarista organiza, a priori, o que não é subordinável, pelo que se entende que a base do género diarístico é a tentativa de racio- nalização das experiencias de vidas.

Durante muito tempo, estas narrativas escritas na primeira pessoa foram consideradas menores, estan- do, por conseguinte, excluídas do cânone literário. Todavia, já na Antiguidade, surgem vários exemplos de exames de consciência, assim como das várias técnicas para aperfeiçoar o diálogo consigo mesmo.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita A par destes diários espirituais/ religiosos, temos notícia dos

A par destes diários espirituais/ religiosos, temos notícia dos registos de conta e, já no seculo XIV, dos chamados livros de família, nos quais os mercadores registavam as compras e as vendas, organizando e fazen- do um balanço diário. Importa notar que se tratam essencialmente de documentos coletivos que perduram durante a Antiguidade e toda a Idade Média, mas que, dada a sua fragilidade, acabaram por se perder. Em Roma, as famílias mais abastadas mantinham dois registos, um de contas e outro de crónicas.

No final do século XVIII, a diarística surge como prática educativa, como elemento de formação moral, conceito divulgado na obra Essai sur l’emploi du temps (1810) de Marc-Antoine Julien. Aliás, na França e durante o século XIX, promoveu-se a escrita de diários que eram controlados por tutores e professores. Só a partir da Renascença, se poderá falar em diário íntimo, hábito largamente difundido graças à chegada do papel. A literatura íntima começa a fortalecer-se a partir do estabelecimento da sociedade burguesa e da difusão da noção de indivíduo, ou seja, quando, no Ocidente, o homem adquire a convicção histórica da sua própria existência. Textos centrados no sujeito sempre houve; porém, somente a partir do século XVIII, se pode pensar em género confessional ou em literatura íntima. Segundo Alain Girard, antes da ideia de indiví- duo, não é correto falar neste género e o diário é uma consequência da exaltação dos sentimentos e da moda das confissões que assolaram a Europa antes da eclosão do Romantismo.

O aumento da população, a maior acessibilidade ao papel com custos mais reduzidos, o facto de a religião perder força e a ciência não responder a todos os anseios do homem, abriram campo para o de- senvolvimento da subjetividade e para a descoberta do “eu”. A burguesia desencantada parte, então, em busca de tudo o que possa esclarecer este “novo mundo” interior. É na sequência da conquista da noção de privacidade, tal como nos fala Peter Gray, que a literatura íntima passa a registar o eu como presença singular no mundo (Gray, 1998: 24). Assim sendo, é possível dizer que, até ao século XIX, o diário tinha uma função

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utilitária, sendo, regra geral, um confessionário, uma catarse. Entendido como resultado de um circuito de comunicação fechado, o diário não era lido por outrem nem tão pouco objeto de publicação.

O diário é âncora, porto de abrigo, refúgio, podendo ainda ser, e tal como sugere Dumas fascinação, maleficio, narcótico (Dumas: 127). Aceitando o autoconhecimento como a primordial premissa da escrita do diário intimo, somos obrigatoriamente levados a concordar que esta busca pelo autoconhecimento pressu- põe pois corrigir um eu, sentido muitas vezes como defeituoso e por isso doloroso (Dumas: 128). Aliás, Philipe Lejeune, aceitando a função pedagógica e social da (auto)biografia, insiste, na ambivalência destes relatos que, longe de serem meros transmissores de memória, devem ser entendidos como o lugar onde se elabora, reproduz e transforma uma identidade (Lejeune, 1980: 252). E tal como defende o teórico francês, não há ne- cessidade de separar o literário do não literário, uma vez que é a narrativa que determina a nossa existência enquanto sujeitos, sugerindo, numa maior abrangência que não há como separar a vida da literatura [nem a literatura da vida].

Enquanto prática de escrita e de leitura – exercício de estar no mundo (Maciel, 58), o diário assume-se como uma narrativa paradoxal que oscila entre ficção e não ficção. Fábio Figueiredo aponta para a necessida- de do autor estrangeirar-se da sua própria língua, produzindo novos eus, para assim se narrar e se reconhecer (Figueiredo, 2010: 178). Tal como refere Maurice Blanchot, quem escreve um diário busca, de algum modo, o amparo dos dias comuns e/ou um escudo contra o caos. Assumindo, eventualmente, os contornos de uma obstinação (registo metódico do quotidiano), o diário é, para Sheila Maciel, uma das formas mais interessan- tes e válidas da literatura, pois incide directamente sobre o próprio homem, iluminando-o (Maciel, 60). E Irene Lucília, nossa conterrânea, em Um Lugar para os dias, fala precisamente nessa incidência sobre o homem, quando diz “Eu sou dum tempo silencioso em que se falava das brisas como paradigma de tranquilidade, e acabei por verificar que esses silêncios poderiam gerar turbulências, ao soltarem inesperadamente sobre nós, para nos calar, a força brutal e indomável das ventanias” (Andrade, 2013:17).

Flávio Aguiar, sublinhando a incerteza da permanência, sustenta que escreve um diário aquele que não sabe se ou como vai durar (Aguiar, 1997:166). A escrita diarística é igualmente uma luta contra a escuridão do inferno dantesco, isto é, contra o castigo do esquecimento (Weinrich, 2001) e será talvez por isso que Irene Lucília desabafa que só assim se justifica este longo estendal em que me exponho (Andrade, 2013: 25), acres- centando, num misto de ilusão e esperança que tomei a decisão de escrever-te diariamente, uma maneira de ir tentando libertar o tempo da sua alienação… (Andrade, 2013: 10).

O século XX, enquanto século da memória por excelência, assistiu à proliferação da literatura intima e, os diários tornaram-se o produto de consumo preferido dos leitores com apetite de voyeur, levados a acredi- tar poder aceder à intimidade e devassar os segredos do autor. No entanto, Luana Soares de Souza, alertando para o facto de o século XX ter sido um tempo conturbado, palco de conflitos e desentendimentos de vária ordem, chama a atenção de que a escrita do eu pode ser definida como uma forma de salvação do homem dos nossos dias (Souza, 1997: 126). Na realidade, estas últimas décadas foram invadidas por relatos que plas- mam o panorama incerto e instável dos nossos dias, onde abundam não só múltiplas direções mas também interpretações varias e/ou contraditórias.

Em Portugal e, de acordo com Clara Rocha, “a escrita da vida” encontra-se plasmada nos mais variados géneros literários: diários, memórias, cartas e biografias. Todavia, e já no século XX, são vários os autores que produzem textos de caráter biográfico. Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Miguel Torga, Vergílio Ferreira e Ruben Andersen Leitão são os exemplos mais notórios e comprovam que são os escritores de char- neira os responsáveis pela valorização do género. Na realidade, Catherine Dumas entende que o diário íntimo publicado por estes autores de renome serve a obra literária ao ponto de estes confundirem o questionamen- to existencial e o questionamento poético (Dumas, 1994: 126).

Todavia, e tal como sustenta Paulo de Medeiros, a escrita do eu, seja em forma de diário ou de carta, é continuamente entendida como uma escrita secundária, inferior e doméstica, assumindo uma posição de pa-

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita

EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita raliteratura, porque fora do cânone. No entender do supra mencionado

raliteratura, porque fora do cânone. No entender do supra mencionado autor, este pouco interesse pela escri- ta do eu deve-se, também, à falta de preservação deste tipo de documento e, no caso particular dos diários, Paulo de Medeiros está convencido de que o número reduzido de textos anteriores ao século XIX indica que foram destruídos, contrariando, assim, a ideia de que eram inexistentes. Esta noção é igualmente corrobora- da por Baptista, quando sustenta que há uma tensão permanente, ao considerar o diário um género literário já que este está aquém da literatura (Baptista,1997:70), ilustrando aquilo que ele considera ser o tormento essencial da exigência literária (Baptista,1997: 70) já que, na visão deste autor, o maior valor do diário reside no facto de ele se desdobrar na interrogação sobre si mesmo (Baptista, 1997: 70).

Importa notar que apesar de, atualmente, estarmos perante um crescente interesse pela escrita intimis- ta, o estudo de Clara Rocha datado de 1992, Máscaras de Narciso, continua a ser pioneiro, confirmando-se assim o caráter marginal das escritas da vida.

Nos dias que correm, a discussão sobre a dimensão literária da escrita diarística é ainda calorosa, sobre- tudo dentro da academia. Esgrimam-se argumentos de ambos os lados, uns procurando evidenciar a vulne- rabilidade da escrita intimista, outros sublinhando o enraizamento do relato confessional e (auto)biográfico da sociedade. Aliás, Leyla Perrone-Moisés, defendo a escrita confessional, acredita que a moda das escritas do eu acabam por revelar mais do que apenas uma contemplação narcísica do “pequeno eu”, sem pretender ou conseguir dar o salto proustiano para o universal (Moisés, 1998: 178). Fica claro que manter o diálogo com uma folha de papel, redigir uma confissão ou simplesmente rascunhar uma ideia, poderá ser o tão almejado fio de Ariadne que, no labirinto do nosso quotidiano, se nos escapa entre as mãos.

Não sendo, agora, oportuno o nosso envolvimento nesta polémica, somos, contudo, levados a notar que se um texto literário é aquele que toca a essência humana, então o diário, enquanto forma de escrita voltada para a condição humana e para o sentido da vida, pode e deve ser incluído no corpus literário que redimensiona a existência através da linguagem (Freixas, 1996: 12).

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Caraterísticas do diário: Na escrita diarística, sublinha Ana

Caraterísticas do diário:

Na escrita diarística, sublinha Ana Caballé, o mesmo indivíduo ocupa a posição de protagonista, narra- dor e autor (Caballé,1995:37). Efetivamente, Philipe Lejeune, ao defender que o eu autobiográfico é um diá- logo de múltiplas instâncias, mostra que o um que escreve, é sempre várias pessoas, mesmo quando escreve a sua própria vida (Lejeune, 1996:34). Aliás, Lejeune, considerando a escrita do diário uma prática banal, acrescenta, contudo, que não há nada de mais misterioso do que um diário pessoal (Lejeune,1989: 30). Será este mistério a chave para o sucesso dos diários?

Marcello Duarte Mathias relembra que a memória é o elemento primordial da escrita do eu que privi- legia o olhar individual, numa vocação que é ao mesmo tempo refúgio e afirmação pessoal (Mathias, 1995:

41). Ao discorrer sobre as caraterísticas do diário, Mathias considera o diário como uma página aberta a que se recorre consoante as circunstancias ou as motivações de momento. E em qualquer idade… (Mathias, 1995: 45). Trata-se portanto de uma escrita livre, sem regras nem horários, numa linha descontínua, errante:

o tempo a emergir e sumir-se (Mathias, 1995: 46). Sugerindo que o diário é um balanço final ou uma traje- tória, Mathias realça o padrão saltitante e irregular (Mathias, 1995: 46) da escrita diarística, que se edifica afastado do mundo dos outros (Mathias, 1995: 46), enquanto libertação do olhar dos outros (Dumas, 1994:

129), tal como desabafa Irene Lisboa, sendo, todavia, um grito contra a solidão que o mina (Mathias, 1995:

47). Uma vez que o diário não tem um capítulo final porque todos os são e nenhum o é (Mathias, 1995: 46) é, pois, uma construção repetida e inacabada (mesmo se interrompido pela morte do autor), frequentemente um testemunho mudo das insuficiências e fraquezas do seu autor (Mathias, 1995: 47) … um livro que nunca será (Mathias 1995: 46), motivo que explicará a frequente publicação de diários a título póstumo. Porém, e tomando o diário como um ato de resistência ao esquecimento de si, outras questões se levantam, nomea- damente se estaremos perante um ato literário frustrado. Em primeiro lugar, esta assunção só faz sentido, se entendermos que o diário íntimo tem uma intenção de publicação, o que por si só, contradiz o propósito genericamente aceite de que o diário não visa, nem a publicação nem a partilha. No que diz respeito ao sen- timento de frustração eventualmente atribuído à escrita diarística, Dumas chama a atenção para o facto de que toda a escrita, fruto da dor, contém o seu quinhão de prazer. (Dumas, 1994: 131), enfatizando, ao invés,

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita a função libertadora da escrita íntima, ao sustentar que

a função libertadora da escrita íntima, ao sustentar que paradoxalmente, o diário intimo – exercício cons- trangedor na sua quotidianidade – liberta o escritor (Dumas,1994:131). E, na verdade, liberta-o, ao ponto de Dumas, relembrando Pessoa - desapoquento-me escrevendo (Pessoa, 1986:91), considerar que a escrita do eu não só é grata como gratificante.

Entendido como forma de contar a experiência humana, o discurso confessional é inevitavelmente en- trecortado por ficção. É nesta sequência que Sheila Maciel frisa que qualquer discurso, por mais realista que pretenda ser, contem trópicos (Maciel: 2), corroborando a noção de que são várias as maneiras de retratar um acontecimento.

Outra das caraterísticas do diário é o facto de o texto acompanhar o compasso do calendário. Sheila Ma- ciel nota que ao registar o quotidiano, anotando factos, pensamentos e emoções, o diarista quer organizar o que, a priori, não é subordinável (Maciel: 10).

Maurice Blanchot evidencia a liberdade de formas que o diário possibilita, já que o registo do quotidiano alberga pensamentos, sonhos, comentários, ficções, acontecimentos importantes, detalhes insignificantes, ou seja, tudo o que que lhe é conveniente dentro da ordem e desordem (Blanchot, 1971: 271).

Lejeune, Blanchot e Senay são unânimes ao considerar que o diário pertence ao diarista, já que sendo múltiplas as razões que o motivam a escrever – lembrar, compreender, narrar, construir, descobrir - não há dúvidas de que o diarista escreve para si próprio. É neste sentido que Blanchot adianta que ali [diário] nar- ra-se o que não se pode confidenciar: narra-se aquilo que é real demais para não arruinar as condições da realidade comedida que é a nossa (Blanchot, 1971:271).

Esta questão abre caminho para uma das polémicas mais incisivas em torno da escrita diarística – a sin- ceridade do diarista, versus a veracidade do relato. Na realidade, esta dicotomia alimenta, de forma alargada, as discussões em torno do diário, havendo uma tendência para confundir o que está escrito com os factos

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita ocorridos. Tal como alerta Lejeune, mesmo havendo falta de veracidade no

ocorridos. Tal como alerta Lejeune, mesmo havendo falta de veracidade no registo, esta não põe em causa o pacto de sinceridade do autor. Usufruindo da liberdade que a escrita do eu proporciona e dando largas ao seu poder criativo, o diarista pode discorrer sobre os seus sonhos, sobre os seus ideais, compor poemas ou até mesmo esboços, e mesmo que seja hábil na arte de dissimular, não deixará, porém, de ser sincero. O diário não conta a verdade (absoluta), mas a verdade possível [a do diarista]. Sheila Maciel, em tom provocatório, sustenta que, em larga medida, todo o diário é imaginativo e, eventualmente, puramente ficcional, já que é impossível passar para o papel a realidade nua e crua, porque o género facilita o pendor criativo do autor e ainda pela dificuldade em identificar com precisão onde se misturam o desejo de relatar uma realidade com o impulso criador e/ou com os ímpetos do labirinto da memória (Maciel : 3).

Na verdade, os cadernos ou até mesmo as folhas soltas podem conter máximas de caráter generalista, citações de autores conhecidos, poemas, canções, recortes de revistas e jornais, fotografias, flores secas entre tantas outras coisas que ajudam a dar coerência aos acontecimentos relatados, e é nesta combinação entre a sua própria vivência com outros enunciados que ocorre, como sugere Foucault, a hypomnemata 3 , isto é, a constituição de si a partir da recolha do discurso dos outros (Foucault, 2000:152).

Este detalhe guia-nos para outra característica do diário que é ser desprovido de autocensura, sendo um exemplar único, normalmente manuscrito, mantido em diversos cadernos e até folhas soltas. A escrita do diário é, pois, uma prática obscura, caraterística da adolescência e do feminino. No entanto, e tal como sustenta Lejeune, esta é igualmente uma prática dos homens e dos adultos.

Tidos como um discurso descontextualizado, os diários discorrem sobre sentimentos, reações, lembran- ças que, regra geral, evocam diretamente o que não se denomina nem se quer denominar (Zen:2). Estão ain-

3 Memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas.

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da repletos de banalidades que escapam ao entendimento do leitor, uma vez que não apresentam quaisquer pistas. São também monotemáticos.

O próprio processo de escrita de um diário resulta numa modificação, quer dos acontecimentos narra- dos, quer das sensações vividas. É disso que Suzanne Bunker nos fala quando refere que cada entrada surge embebida em subjetividades várias e resulta de um dado momento. Além do mais, Bunker, reconhecendo dificuldades quanto ao estatuto do diário, nota que o diarista, ao criar e projetar uma persona, procura não apenas reconhecimento mas também aceitação. No caso particular dos diários escritos por mulheres, a teóri- ca norte-americana sugere que a flexibilidade da escrita intimista promove, tout court, a incorporação fantasy selves, ou seja, modelos, regra geral, subtraídos às grandes figuras heroicas (Bunker: 257).

Arthur Ponsoby nota que outra das características do diário é a acessibilidade, isto é, qualquer pessoa pode pegar numa caneta e numa folha de papel. Seja qual for a idade, o estatuto social e/ou académico e a nacionalidade, qualquer um de nós se pode aventurar no registo do quotidiano. A liberdade da escrita in-

timista, distante dos constrangimentos formais e linguísticos e, acima de tudo, a não obrigação de fornecer qualquer tipo de explicação são aliciantes para esta prática que teima em ser feita nos bastidores. Notando que o diarista está focado em si mesmo, alerta e desperto para tudo o que lhe diz respeito, para trivialidades [que contam muito mais que acontecimentos importantes], Ponsoby explica que they [diarists] are watching themselves journeying along the road of life (Ponsoby:23), adiantando ainda que, apesar do relato apológico do quotidiano ser (intencionalmente ou não) quer incompleto quer parco em explicações, nervertheless na explanation is there (Ponsoby : 25). O diarista, seguindo a regra de que não há regras, escreve o que pensa e

o que sente, já que, e tal como advoga Ponsoby, it is not the style or the subject, it is the personality behind which counts (Ponsoby:28).

Os temas:

Para Abel Barros Baptista, o diário é, em primeiro lugar, um género de data e depois um género de per- sonalidade. O primeiro, porque a ligação com a data é essencial e o segundo porque quem escreve, escreve em seu nome (Baptista: 65).

O diário é o exercício da introspeção, o escavar do insondável dentro de nós (Mathias, 1997: 48). Nas linhas escritas, quase sempre em segredo, num lugar recatado e no momento em que o dia se finda, surgem

os mais variados temas: a felicidade, a tristeza, a saudade do que ficou para trás, o sonho, o desejo, o sagrado,

a morte, os dias que correm, a monotonia, o fulgor do inesperado, de onde emerge, (in)conscientemente a

interpretação e interação com o mundo. Cada entrada, uma declaração: estou aqui neste exacto momento (Fothergill, 1974: 9). É aqui, neste dialogo entre uma página em branco e o lusco-fusco da memória (Mathias, 1997: 48), neste palco alquímico que tudo transfigura e cristaliza (Mathias, 1997: 49) que o insignificante se torna soberano, num (in)constante ritmo de avanços e recuos, sobressaltos, acaso por caminhos sem saída (…) desbravando palmo a palmo, o terreno que é seu (Mathias, 1997: 49). Um caminho solitário, ou [é] a mi- nha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém, no dizer de Maria Gabriela Llansol (Mathias:

130). De notar que a nossa protagonista, Maria Livramento se insere na linha de Amiel e Leautaud já que o seu diário está, com frequência, imbuído de queixume e amargura. Além do mais, para a noiva de Cândido, a sorte dos outros pouco lhe interessa (Mathias, 1997: 49). E mais, Maria sofre de saudade, uma saudade que fere. Uma saudade egoísta, até, pois prova maior de amor. Na realidade, Mathias sustenta que não há diarista que não dê mostras, aqui e ali, de um qualquer autocomprazimento (Mathias, 1997: 49).

Em jeito de conclusão e aceitando que a escrita diarista é peculiar, que os diários nem sempre são fáceis de ler nem interpretar dada a falta de regras tanto na forma, como na linguagem e conteúdo, que as repe- tições afadigam o leitor, que as omissões criam ansiedade, que as manchas de tinta ou os rastos do tempo

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aumentam a agonia de quem busca decifrar os mistérios plasmados nas páginas de um velho diário, não temos qualquer dúvida acerca do valor destas narrativas e tomamos, como nossas, as palavras de Ponsoby:

anything, therefore, which contributes to a knowledge of humanity, not only prominente humanity but hum- ble humanity, ought not writing to be ignored by historians, or indeed philosphers and psycologists (Ponsoby, 1923: 29). Discutir o valor literário do diário é já secundário. Se Cinthia Gannet nos assegura de que quem escreve, fá-lo seguramente em busca …de si e dos outros, Rosa Montero não tem dúvidas de que para ser, te- mos de nos narrar e nessa história de nós mesmos (…) mentimos, imaginamo-nos, enganamo-nos (Montero, 2017:8). E criamos pontes, dizemos nós, embalados nas palavras da poetisa Irene Lucília:

Que farei Destes breves momentos longos Entre o dia e a noite? Uma ponte que ligue à tua margem A minha impetuosa solidão 4 .

O projeto Memória das Gentes que fazem História, levado a cabo pelo CEHA desde 2012, assume a char-

neira dos estudos sobre histórias de vida e sobre arquivos privados na Região Autónoma da Madeira. Tendo por guião as linhas orientadoras e ferramentas da história oral, desenvolvida essencialmente na Inglaterra por Paul Tompson, a equipa do Memória tem vindo a resgatar todo o tipo de documentação e objetos guar- dados em arquivos particulares, procedendo igualmente a entrevistas, cujo primordial objetivo é dar voz aos

anónimos, que, apesar de não terem tido uma ação direta no curso da História, foram observadores, estan- tes, pensantes, opinadores, ou seja, igualmente construtores da memória coletiva da Madeira.

Caraterização do Espólio

O espólio alvo do nosso estudo é composto por um conjunto de cartas escritas por Cândido Forjaz e

Maria do Livramento, enquanto namorados e, depois, noivos.

As cartas abarcam os anos de 1924 a 1933 e foram escritas pelos enamorados, de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, onde viviam, de Lisboa, do Funchal, de S. Miguel e de algumas cidades que, um e outro foram visitando.

De Maria do Livramento:

- temos, para o ano de 1926, um envelope com uma foto enquanto em 1927, surge uma carta avulsa da- tada de 4 de novembro, 1 poema, 7 cartas avulsas não datadas e as cartas-diário datadas entre 10 de setem- bro e 19 de dezembro. Em 1928, a correspondência resume-se às cartas-diários escritas entre 4 de janeiro de 1928 e 1 de janeiro de 1929. Neste ano de 1929, a correspondência de Maria do Livramento inclui uma foto datada de fevereiro, dois poemas do dia 2 de janeiro, um poema de 8 de março, um poema de 19 de março, um poema de 19 de abril e outro de 3 de novembro. As cartas-diário abarcam as datas de 4 de fevereiro a 31 de dezembro, que são pois retomadas no ano seguintes, entre 3 de janeiro e 20 de dezembro de 1930. No ano seguinte, abundam as cartas avulsas, mais concretamente 13 cartas, escritas essencialmente em abril, maio, julho e setembro. Uma dessas cartas está escrita em papel timbrado da Companhia Insulana de Navegação e contem duas fotos.

Em 1932, temos também 2 cartas avulsas, a primeira de 30 de janeiro e a segunda de 14 de julho, assim como 5 bilhetes-postais escritos entre 22 e 29 de setembro. Em 1933, Maria do Livramento escreveu para o seu noivo, 6 cartas avulsas essencialmente datadas de junho. Tal como haviam prometido, mantêm a troca dos diários que abarcam a vida dos dois entre 4 a 21 de julho.

4 Irene Lucília Andrade, 1969, Hora Imóvel, Edições Panomara, Lisboa.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita De Cândido Forjaz: - o ano de 1924 contem 3 cartas

De Cândido Forjaz:

- o ano de 1924 contem 3 cartas avulsas escritas entre março e junho, enquanto no ano seguinte temos uma nota avulsa escrita numa tira de papel e mais três cartas avulsas, a primeira de 7 de outubro, a segunda de 26 e a terceira de 27 do mesmo mês. De 1926, chegou até nós apenas uma carta avulsa com data de 7 de abril e do ano seguinte temos oito cartas avulsas escritas entre maio e outubro. De notar que a carta de 14 de julho foi escrita em papel timbrado do liceu de Angra do Heroísmo e contem uma foto. As cartas-diário foram escritas entre 12 de agosto e 1 de janeiro de 1928. Na realidade, o diário é retomado a 10 de janeiro e foi escrito até o final do mês de dezembro. Ainda em 1928 Cândido enviou para a sua amada quatro cartas avulsas, sendo uma delas escrita em papel da Empresa Insulana de Navegação (a bordo) e ainda um bilhete datado de 19 de outubro.

O ano de 1929 inicia com uma carta avulsa datada de 2 de janeiro, seguida por outras três enviadas en- tre março e junho. O diário abarca o dia 8 de janeiro e o dia 7 de janeiro do ano seguinte, sendo que o diário de 1930 foi iniciado a 8 de janeiro tendo terminado a 7 de janeiro de 1931. Em 1930, o total de cartas avulsas foi de 9, às quais se juntam uns versos escritos a 27 de fevereiro.

Em 1931, o número de cartas avulsas decresceu para 4 e as cartas-diário datam de 10 de janeiro a 6 de janeiro do ano seguinte. O diário de 1932 começa no dia 8 de janeiro e termina no dia 7 de setembro do mesmo ano. É em 1932 que surgem dois esboços de uma conferência datados de 16 de janeiro, assim como 4 tiras de papel com notas soltas. As cartas avulsas totalizam o número de 4, sendo duas delas escritas a bordo de navios, uma a 8 e maio e outra a 7 de setembro, o mesmo dia em que termina o diário privado.

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Em 1933, temos 5 cartas avulsas. Novamente uma escrita a bordo mas sem data e 4 cartas escritas entre 3 e 8 agosto de Entre-Os-Rios, Douro. As cartas-diário iniciam-se em maio e terminam em julho.

Esta descrição permite de imediato confirmar a bulimia da escrita, termo cunhado por Henrique Rodri- gues, referindo-se às cartas da guerra, mas que se aplica igualmente neste caso em que o amor é urgente.

Os pedidos para contar tudo, para escrever contando todos os pormenores são insistentes de parte a parte. Porém, se Cândido é mais expansivo e talvez dotado de um maior domínio da escrita, já Maria do Livramento

é mais comedida sendo notório, sobretudo inicialmente, algum cuidado com o que passa para o papel, quer por caracter quer pela educação e pressão social à qual o sexo feminino estava sujeito.

O par deita mão a vários suportes para poder comunicar um com outro. O papel é ora grande, ora médio ou até mesmo uma pequena tira de papel. O propósito é enviar nem que seja uma breve saudação, um beijo, uma saudade, uma falta. Maria do Livramento tem o hábito de escrever a lápis o que dificulta a leitura de Cândido 5 , que se queixa do tempo que leva a decifrar o que está escrito. Também partilhamos esta dificulda- de com ele.

Cândido oferece-lhe um lápis como presente de ano novo 6 , vincando que o importante era mesmo man- ter esta corrente de escrita. Cândido, por seu turno, usa a caneta e, por vezes, até com tintas de cor diferente, porque o importante era escrever… fosse como fosse. Ficou patente que quer um quer outro precisavam com frequência de repor o material de escrita. Outra questão levantada por Cândido está ligada á manutenção do sigilo, da privacidade daquilo que partilham um com o outro, pelo que insiste que Maria lacre o envelope. Aquilo que segue escrito, de lá para cá e de cá para lá, só a eles pertence. Vivem de e para a escrita, numa antecipação da felicidade futura. Tanto Cândido como Maria do Livramento sublinham palavras e expressões, ilustrando um código de entendimento que sentirão, naturalmente, os dois, como seu. A pontuação acom- panha o fôlego e o bater do coração, usando, em alguns momentos, aquilo que à época se chamaria “pontos de admiração 7 ”.

Em relação à ocupação do espaço, isto é, à gestão da folha de papel propriamente dita, importa notar que quem escreve mais folhas é a Maria. Porém, isto não significa que escreva mais. Aliás, Cândido, em jeito

de brincadeira, explica-lhe que reescreveu uma carta que ela lhe enviou e que com sua letra esta tinha dimi- nuído para menos de metade do tamanho original. Portanto, a caligrafia de Maria do Livramento, de maior tamanho e mais “deitada”, ocupa maior espaço nas linhas, fazendo com que gaste mais papel e aumentando

o número de páginas de cada carta.

Tanto Maria do Livramento como Cândido Forjaz respeitam os protocolos do género epistolar e são igualmente detentores do “know-how” da escrita em geral. As cartas iniciam com as fórmulas de saudação de abertura e terminam igualmente com uma despedida e com a respetiva assinatura. No início, o arranjo da escrita é mais cuidado, isto é, a caligrafia mais bem desenhada e, por isso, mais legível, aos poucos e to- mados pela emoção da própria escrita, pela vontade de tudo partilhar ou até mesmo envolvidos pelo relato dos acontecimentos e dos sentimentos, quer Cândido quer Maria do Livramento deixam de preocupar-se tanto com a caligrafia. Assim, é possível notar um ritmo que, se no início é mais calmo, mais comedido, se vai tornando mais acelerado, menos equilibrado, sofrendo assim a influência direta do estado de alma dos escreventes.

Regra geral, Maria do Livramento, à medida que a carta se encaminha para o fim, procura arrumar mais palavras em cada linha, numa visível emergência de poder contar mais qualquer coisa, de não deixar nada por dizer. Deste modo, prejudica a legibilidade da sua escrita. O último parágrafo da última página é frequentemente “espremido” a tal ponto de Maria do Livramento escrever na margem do fim de página. Na verdade, este espaço marginal e elemento formal por excelência é preenchido, às vezes com cerca de 5

5 Cf. Carta de Cândido de 13/11/927.

6 Cf. Carta sem data de Cândido, que atribuímos a 1927.

7 Cf. Carta de Cândido de 26/1/929.

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2020
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linhas, umas em cima das outras, nas quais Maria do Livramento reitera as saudades, a falta que ele lhe faz, os beijos que lhe quer dar, para que nunca se esqueça “da tua Maria”.

Cândido, por seu turno, é mais respeitador do suporte que utiliza. O ritmo da sua escrita é mais constan- te, mais equilibrado. Do início ao fim da carta, sente-se um domínio do que está escrito e de como está escri- to, evidenciado sobretudo no final da epístola que termina de forma serena e seguindo o protocolo esperado. São raras a vezes em que Cândido usa as margens. Apenas quando o barco está já de partida e acrescenta um P.S., com um recado, uma recomendação. Cândido é menos urgente na finalização, dá tempo ao espaço que a folha de papel lhe oferece e, muitas vezes, ficam linhas por preencher depois da sua assinatura. Seguem vazias.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Cândido e Maria do Livramento PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA
EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Cândido e Maria do Livramento PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA

Cândido e Maria do Livramento

PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA

De categorias (possíveis) de uma narrativa de vida

E nquanto género literário, a narrativa pode ser definida como um relato de acontecimentos que re- metem para o conhecimento do Homem e das suas relações no mundo; enquanto texto, pode ser entendida como um encadeamento discursivo dos acontecimentos que relata, permitindo a comu- nicação entre o discurso do narrador e a história recriada.

Neste caso que ora nos ocupa, a narrativa acontece, sendo possível isolar as categorias próprias do texto narrativo, personagens, agentes da narrativa em torno dos quais gira a ação; tempo (cronológico, histórico, psicológico), espaço (físico, social, psicológico) e uma ação central definida pelo curso dos dias con- tados e outras ações que se encadeiam, que se encaixam e que se alternam, como se um romance se tratasse.

Assim:

Personagens: ela, Maria do Livramento Lacerda, nascida Mesquita Abreu, em 1907, em Santa Cruz da Graciosa, filha de Eduardo Pereira Abreu e de Maria Cecília de Pereira Abreu, nascida Limas e Stuart de Mes- quita Pimentel; ele, Cândido de Menezes Pamplona Forjaz de Lacerda, nascido em 1901, na Sé, em Angra do Heroísmo, filho de Jorge Pereira Forjaz de Lacerda e de Maria do Carmo de Ornelas Bruges Pamplona Corte- -Real.

Outras personagens fazem parte desta construção epistolar: gente que ambos conhecem, relações no- vas que vão chegando às vidas de cada um, pretextos para histórias que alimentam centenas de páginas

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escritas pelos dois correspondentes.

O tempo: guardado nas palavras. Entre 1927 e 1933, os dois trocaram cartas e “diários de amor”, pois

Cândido vai para Lisboa, para a Faculdade de Letras, cursar Filologia Românica. Dos três anos anteriores, al- gumas cartas dele que ela, naturalmente, guardou. Poucas.

O(s) lugar(es): a Terceira e Lisboa, sobretudo, com escalas no Funchal, entre as viagens e com incursões em outras ilhas, nomeadamente S. Miguel e lugares do continente português que Cândido visita, que Maria visita e cujos pormenores descrevem um ao outro.

A ação: a vida, o amor, o quotidiano, a saúde, a vida social, a cultura, em Angra do Heroísmo e em Lis-

boa, a preparação do casamento e da casa que há de ser dos dois, a política que teima em angustiar-lhes os dias, nomeadamente durante o ano de 1931, em que a Revolta dos Deportados ou das Ilhas (dos Açores e da Madeira) toma conta das folhas de papel que os navios levam e trazem entre a Terceira e Lisboa.

O(s) narrador(es): ele e ela. Subjetivos. Participantes. Autodiegéticos. Não omniscientes, porque narram

a vida, ao ritmo em que ela acontece.

Trata da vida, este acervo. E do amor. Trata-se de um conjunto de cartas ou de diários escritos para um outro [um confidente que, neste caso, é de carne e osso], que não nós, sem outra preocupação que não seja

o dizer do amor e da saudade e o de tornar o outro parte dos dias de quem escreve. E esse facto implica a noção de que, de algum modo, a intimidade dos correspondentes está a ser devassada.

Ora, trazer o particular que é a carta ou o diário para a cena pública é transformá-la em literatura. Ou em documento histórico. É esse olhar pessoalizado que se pretende acrescentar às fontes oficiais. É o sentimento de quem vive os acontecimentos – e este acervo contém acontecimentos que a História oficial contou – que nos permite compor um outro lado, mais humanizado, mais concreto, mais vivenciado.

Nestas folhas que o tempo amarelou, mora a essência da vida e dos sonhos dos dois jovens que contam os dias que faltam para não precisarem de escrever. Reservam espaço para as angústias, sobretudo para as de não estarem juntos, ou de não saberem um do outro, rompem silêncios, saciam diálogos imaginados, so- licitam cartas longas, diários exaustivos, querem saber “novidades”, os “mexericos” da terra, querem falar de si, querem falar de si no outro ou na falta que o outro faz.

Da história

“Parece-me bem que apesar de não termos inventado o Amor, a verdade é que sempre fomos um pouco diferentes dos outros, senão de todos, pelo menos de muitos que conhecemos 8

Aquela que nos parece ser a primeira de todas (“me voilà en train de t’écrire une première lettre”), datada de 28 de março 1924, escrita em francês, estabelece um protocolo que explica o facto da utilização desta língua fluente para os dois: Maria do Livramento tê-la-á naturalmente estudado - o pai é Cônsul da

8 Carta de Cândido, de 4/5/928, maço 11, doc.17.

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França na Ilha Terceira – e Cândido, à altura desta correspondência, professor de francês no liceu de Angra do Heroísmo 9 .

Cândido escreve esta primeira carta na urgência de ter de escrever, sem mesmo saber bem a razão. Fá-lo em francês e explica as razões por que o faz, num Post Scriptum com duas alíneas: caso a carta fosse apanhada, mais dificilmente seria compreendida; ela seria obrigada a responder-lhe em francês, o que lhe permitiria, certamente, praticar:

Não resiste a corrigi-la, sempre que ela dá erros, aproveitando para dar uma aula de francês: “on ne dit

aproveitando para dar uma aula de francês: “ on ne dit CEHA, Forjaz , maço 3,

CEHA, Forjaz, maço 3, doc.7

pas… / on dit, “on écrit” 10 .

Apesar de, em alguns traços do discurso, um e outro utilizarem expressões em português. Para que nada se perca na mensagem do coração: “Sinto-me tão só, no meio destas casas estranhas. Só a ideia de que tu estás no fim da estrada me anima” 11 . Faltam-lhe as palavras em francês para dizer aquilo que só a língua materna sabe dizer. Ou ao contrário, deixando passar, em português, estruturas sintáticas francesas: “(…) que o cabelo curto te vai muito bem 12 ”, num claro paralelismo com o “te va três bien”, francês.

Escrevem-se em francês durante alguns meses, outras vezes, alternam as línguas, como se se tratasse de uma brincadeira (quer “vacances de sustos”), outras inserem palavras em português (“não te babes!”) ou em francês no meio do discurso. É Cândido o primeiro a escrever em português. E explica-o:

9 “O tempo foi correndo até que em Março-Abril de 1926 o Dr. Braga Paixão, em exercício de Reitor do Liceu de Angra, me chamou e perguntou-me se eu queria ser professor provisório de Francês. Respondi-lhe que nunca ensinara Francês e portanto não me sentia habilitado para o fazer. Disse-me que não me preocupasse: iria uns dias seguidos a casa dele, à noite, para ele me ensinar como se ensinava Francês. E foi assim que, completado o meu «estágio“, fui nomeado professor provisório e entrei em exercício no dia 30 de Abril desse ano” (Forjaz, 1984: 31).

10 Carta de Cândido, de 26/1/928, maço 11, doc. 10.

11 Carta de Cândido, de 25/10/927, maço 11, doc. 4.

12 Carta de Cândido, de 26/10/927, maço 11, doc.15.

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“Aqui está porque deixei de te escrever em francês, porque começava a fazer tal con- fusão que acabava por escrever palavras francesas mas redigidas em português 13 .

No entanto, porque os momentos de escrita – desta escrita – têm de ser solitários, é ao Francês que recorrem quando se sentem observados. É o caso das cartas que Cândido escreve no Funchal, geralmente sentado no Golden Gate, com um criado a espreitar.

Para Maria, não parece fácil escrever o amor e a saudade em Português. Pelo menos no início. Di-lo abertamente ao namorado:

“25-10-927 – Hoje para satisfazer o teu pedido vou escrever-te em português. Fran- camente não me dá geito nenhum mas vou experimentar e tu depois me diras em que língua gostas mais (…).

26-10-927 – (…) Moi je préfère toujours écrire en français (…) “ 14 .

Não conhecemos as razões que o coração lhe dita para escrever nesta que não será naturalmente a sua língua materna. Não será esta a língua do coração de Maria do Livramento? Não será esta a primeira língua do amor dos dois?

“Não sei se já reparaste que insensivelmente começo a escrever em português. Pa- rece que me começa a dar mais geito ao contrario do que do que me sucedia ao princípio. E isso não admira porque até tu já começas a escrever em português ex- cepto contudo certas e determinadas frases…” 15

Ou continuará insegura no medo que os diários sejam apanhados e lidos? A verdade é que, já em 1930, depois de já se ter habituado a escrever em português, há um diário cuja primeira parte (entre 20 e 28 de janeiro de 1930) está em francês: Maria está instalada na casa de Manuela, em S. Miguel, pelo que “Je préfère l’écrire en français car, ici, je n’ai aucun tiroir fermé16 .

Resolvida a questão do segredo, foi necessário delinear estratégias: de como poderão ver-se, de como

poderá entregar-lhe as cartas, de quem poderão vir a ser os emissários… Daí o título que demos a este estudo

– «Eu tenho uma carta escrita”, numa clara colagem aos versos do cancioneiro popular açoriano 17 , “Pezinho da vila”.

Em cartas não datadas, há alguns elementos que nos permitem reconstruir as preocupações de Cândido

relativamente àquilo que sonha ser o futuro. Queixa-se da frieza dela (“un petit morceau de glace” ou “coeur de glace 18 ”) e pensa nas “petites grandes difficultés” que será preciso ultrapassar antes de lhe poder chamar

– com propriedade – “ma femme, ma petite femme chérie 19 ”.

Cândido sabe que não lhe poderá oferecer uma vida como a que ela tem e pergunta-lhe [apenas adi- vinhamos a resposta] se ela já terá pensado que, depois de casada, ela poderá ter necessidade de trabalhar para o ajudar: “je veux être très franc pour toi e je ne voudrais d’aucunne façon qu’après ton mariage (et quand je dis ton mariage, je dis notre mariage) tu aies une desilusion20 . Que só lhe pode oferecer o grande amor que lhe tem. Mais nada. Pede-lhe, em troca, “un peu d’amour” e muita sinceridade.

É em nome desse amor e da vontade de se casar que Cândido decide ir estudar para Lisboa. Valeu-lhe,

13 Carta de Cândido, de 28/4/928, maço 11, doc. 17.

14 Carta de Maria, maço 19, doc. 1.

15 Carta de Cândido de 20/3/928, maço 11, doc.13.

16 Carta de Maria, maço 10, doc. 7.

18 Carta de Cândido, s/d, maço 3, doc.13. Esta expressão “de glace” será utilizada pelos dois, sempre que, por qualquer motivo, não podem exprimir livremente as suas opiniões, os seus sentimentos ou o seu desejo.

19 Carta de Cândido, s/d, maço 3, doc.13.

20 Carta de Cândido, s/d, maço 3, doc.13.

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ainda o incentivo do Dr. Braga Paixão: «Você tem jeito para o ensino; vá para a Faculdade de Letras e tire o curso de Românicas 21 “.

Cândido decide ir. Mesmo que custe. Mesmo que a ausência doa – e doerá durante cinco longos anos em que só vem à Ilha durante as férias de verão. É na carta de 30 de julho de 1927 22 que se tem conhecimento dessa resolução. Esta é uma carta fundamental neste acervo. Percebe-se que terá sido de Maria do Livramen- to a ideia de se escreverem um diário. Assumem, desta forma, um pacto de verdade um com o outro, porque a verdade é a base da escrita diarística, tal como sugere Philipe Lejeune.

“Quand tu m’écris tu laisses parler ton coeur e tu me dis vraiment tout ce que tu penses et tout ce que tu sens 23 ”.

Olhamos, então, pelo buraco da fechadura, numa atitude voyeurista de quem espreita a intimidade deste género de correspondência. Espreitamos os encontros secretos e os gestos proibidos que trazem a Maria um sentimento de culpa e de pecado. Escutamos as promessas de bom comportamento e de “juízo” e os arrufos dos silêncios ou dos gestos mal interpretados. Conhecemos a atitude de Maria do Livramento que, perante ele, cala o que a incomoda mas que escreve, na liberdade que só o diário íntimo permite, imprimin- do, no seu texto, a ilusão de que está escrevendo para si, usando, a 3ª pessoa quando se refere a Cândido. Como se aquele escrito não lhe fosse entregue, por mão própria ou por portador. Como se ele nunca viesse a saber dos seus medos mais secretos. Como se ele não tivesse as mesmas ilusões.

A escrita do diário assume-se como a autenticação dos sentimentos. No fundo, hão de acreditar que

escrevem só para si, pelo não podem mentir, o que coloca nas palavras a chancela da verdade. Por outro lado,

sabem que escrevem para o outro. Por isso, haverá naturalmente, de parte a parte, um jogo de sedução – entre o que se pode dizer, o que se deve dizer e o que o outro quer ouvir.

A partilha dos dias é muito importante para quem está longe. Mesmo quando a distância se consubstan-

cia em tempo, também: “Há talvez 3 vapores que faço uma pergunta sem resposta” 24 .

Cândido dirige à namorada as páginas do seu diário, desde o início. Como se fosse uma carta. Ela não. Isso só começa a acontecer quando Cândido sai da Terceira.

Ir estudar para Lisboa será então uma prova de amor. Ela sabe disso, mas sabe sobretudo da dor que a ausência dele lhe vai causar. Falam disso por escrito, porque o tempo de estar-junto é demasiado breve para falarem de coisas tristes. Percebemos, então, que Cândido sabe que o que ganha não será suficiente para construírem o seu futuro. Sabe que precisa de mais para poder receber Maria como sua esposa. Precisa de se tornar “Senhor Doutor 25 ”. A aceitar ajuda de alguém seria do pai, do dele, porque dos dela só quer que lhe deem o que mais quer no mundo: ela (“ma petite femme chérie, adorée, bien aimée”; mon petit amour”, “ma petite chose”). Quando terminar a licenciatura, e se preparar para estagiar, toma a seguinte decisão: “Eu não me caso sem colocação certa 26 ”.

No início, Cândido pede-lhe algum segredo relativamente à sua intenção de voltar a estudar. No entanto, parece-nos haver algum receio daquilo que ele chama ironicamente “les bonnes langues”, sublinhando, ele próprio, o adjetivo, quando a decisão de ir para Lisboa for conhecida:

A

imposição 27 que tes parents m’auront fait pour consentir à notre mariage, etc. (…)

le

seul motif qui me fait partir : notre grand amour et aussi (desculpa a franqueza e

21 Forjaz, 1984:32.

22 Carta de Cândido, s/d, maço 3, doc.29.

23 Carta de Cândido de 30/7/927 : maço 3, doc 24.

24 Carta de Cândido de 12/1/930 : maço 5, doc 19.

25 “(…) j’aimerais bien mieux de te voir mariée à un «Senhor Doutor“ qu’à un petit employé de rien… “ Carta de Cândido de 30/7/927 : maço 3, doc 29.

26 Cf. Carta de Cândido de 26/7/933.

27 O sublinhado é do autor da carta.

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a fraqueza) mon orgueil qui n’est pas moins grand“ 28 .

Os primeiros textos de Maria revelam a dor do amor, o sofrimento, o desespero, as lágrimas, a loucura, o ciúme. Depois, com a aproximação da partida, a antecipação da saudade, do «como-posso-viver-sem-ti?“.

“Que ferai-je quand il ne sera plus là ? Comment pourrai-je être si-longtemps loin de lui ? Et jamais je ne trouve aucune réponse à ces deux questions-là. L’autre jour, j’ai entendu dire ces vers : «Quem inventou a partida / Não sabia o que era amor/ Quem parte, parte sem vida/ Quem fica, morre de dor“. Ne crois-tu pas eu c’est bien vrai? On dirait qu’il a été fait pour nous 29 “ .

A partir de então, os diários que cruzam o Atlântico levam e trazem os quotidianos. De Angra e da sau- dade. Do continente e da saudade. Ao ritmo dos diários, isto é, ao ritmo dos barcos – do S. Miguel, do Lima, do Carvalho Araújo, de outros – vão contando o presente preparatório do futuro.

A história vai tomando forma. Namoram, primeiro às escondidas, suspensos no medo de serem apanha- dos. Escondem os escritos em locais inacessíveis aos olhares dos outros, porque são coisas deles. No dia do seu vigésimo aniversário, Maria fala com a mãe. E ela diz que sim:

« Comme j’avais décidé hier, j’ai parlé à Maman. (…) Elle me donne la permission de causer avec lui (…) mais je suis presque convaincue que, si elle me donne cette liberté, c’est que Papa sait déjà quelque chose 30 “.

Podem, então, encontrar-se, quando ele vem à ilha, no verão. Mas podem, sobretudo escrever-se e, desde modo, aprenderem-se, um ao outro, aprenderem-se, um no outro. Vão percebendo o valor que tem o ciúme numa relação assim. Os dois mantêm a vida social e cultural que costumavam ter: teatros, cinemas, concertos, touradas, bailes… E contam: onde vão, com quem vão, com quem dançaram, as conversas, os mexericos…

Um exemplo. Apenas.

Maria: 26-11-928 – Amor querido, prepara-te para ouvir uma novidade extraordi- nária, incrível, inacreditável, inverosímil, estupenda e muito mais coisas ainda. Aí vai ela: talvez (…) vá a S. Miguel.

(…)

29-11-928 (…) A mamã e a Senhora Adelaide dizem que com todo este luxo eu faço tenção de ira arranjar por lá algum noivo, tanto mais que isso é costume das meni- nas da Terceira, mas pode o meu amor estar bem descansadinho que o coração da sua mulherzinha é daqueles que só se dão uma vez na vida.

(…)

30-11-928 – (…) demorar-me lá um mês ou mês e meio, conforme estiver ou não disposta a passar lá o Carnaval. Tenho medo que (…) me queiram levar a todo os bailes, o que é uma grande maçada, a não ser que nessa ocasião me dê a telha para me divertir (…). E o meu amor que diz a isto? Acha pândega demais ou como disse na sua ultima carta tem confiança bastante na sua mulherzinha? 31

28 Carta de Cândido de 13/8/927: maço 3, doc 24.

29 Carta de Maria de 6/8/927: maço 3, doc.16.

30 Carta de Maria de 7/9/927: maço 3, doc.21

31 Carta de Maria: maço 4, doc 16.

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Cândido: “Com que então você agora deu na pândega? Já não se contenta em ri todos os serões ao tennis, ainda quer ir pôr o pésinho para fora da terra. Já viram!? Acho que fazes muito bem em ir passar uns tempos a S. Miguel. (…). A este respei- to, contudo vou diser-te uma coisa, e digo-o com aquela franqueza que costumo ter para contigo. Ou antes vou fazer-te um pedido e que só satisfarás caso isso te não contrarie ou desgoste. Eu até tenho vergonha (…) lembras-te daquela célebre confissão do José da Câmara quanto aos rapazes de S. Miguel como se portavam nas salas? Pois foi o suficiente para eu lhes ficar com um azar de morte e – aí vai a confissão – veio aumentar ainda a minha dificuldade em ver-te nesses bailes (…) sujeitando-te assim a que qualquer desses mariolas possa depois dizer alguma coisa desagradável. Talvez chames a isto ter ciúmes. É possível que assim seja mas não me envergonho, porque “on est jaloux de ce que l’on aime” e eu amo-te (…) Perdoa- -me amôr falar-te assim (…) diz-me bem sinceramente, com o coração nas mãos se não ficaste zangada ou ofendida comigo (…) 32 .

Arrepende-se, depois, destas palavras. Mas já estavam escritas. Faziam parte do diário que começara no dia 8 de dezembro, donde se prova da autenticidade dos sentimentos. Tinham prometido dizer tudo um ao outro.

No dia seguinte, não escreve. Diz que teve um ataque de sono. Porém, no dia 14, penitencia-se: “de todo aquele aranzel que te fiz a respeito da tua ida a S. Miguel. Já pensei em rasgar tudo aquilo, mas depois reflecti melhor e resolvi mandar-to. Assim saberás tudo o que que eu pensei então à primeira impressão”. E escreve mais: “Venho sim plenamente dizer-te que não deixes de forma alguma de ir a S. Miguel (…) Asseguro-te que terei muito prazer em que te vais divertir um pouco ao menos para variar dessa vida monótona que aí levas 33 .

Cândido diz conhecê-la: “Sei perfeitamente que governarás o barco segundo a tua maneira de pensar (e a minha…) 34 .

Constroem a relação com base da certeza do amor do outro e, sobretudo, na confiança. Por isso, escre- vem, contam a sua “vidinha, hora a hora, minuto a minuto”:

“não compreendo que duas pessoas que se estimam como nós hesitem em confes- sar um ao outro mesmo alguma coisa que possa não ser agradável, simplesmente para manter inalterável uma confiança que é a base de toda a felicidade. 35

A confiança é, afinal, a base desta relação que, tendo começado presencialmente, tem obrigatoriamente de continuar à distância, mantida por estas pontes de papel que unem as ilhas à Metrópole e que levam e trazem afetos:

“Parece-me que até as coisas de família te tenho contado e se alguma coisa ficou para trás, foi por esquecimento. Então por ventura para nós há segredos? (…) em ti confio cegamente como é da minha obrigação. Ouviste bem? Cegamente” 36 .

Maria sabe de tudo a respeito de Cândido. Vai acompanhando o modo como o noivo se instala em Lis- boa: conhece, pelas palavras dele, um primeiro quarto, em casa de uma senhora que diz “Caramba!” e que trata o marido como um criado, depois um outro, numa pensão perto da Faculdade, cuja dona é uma velha com cabelo “à la garçonne 37 ”. Conhece o quarto da Calçada da Estrela e consegue imaginar-lhe os passos e os lugares por onde ele anda, onde estuda, onde dorme.

32 Carta de Cândido de 12/12/928: maço 12, doc. 6.

33 Carta de Cândido de 14/12/928: maço 12, doc 6.

34 Carta de Cândido de 14/12/928: maço 12, doc 6.

35 Carta de Cândido de 20/3/928: maço 11, doc 13.

36 Carta de Cândido de 8/4/928: maço 11, doc 16.

37 Carta de Cândido de 3/11/927: maço 11, doc.4.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (Maço 12, doc. 9) “O teu quarto é tão pequeno que

(Maço 12, doc. 9)

“O teu quarto é tão pequeno que seria difícil acomodar lá o meu amor todo 38

Em Lisboa, Cândido faz tudo o que está ao seu alcance para fazer o curso no tempo certo. Já não é novo. Tem de acabar o que começou, aos 26 anos 39 . Leva a Universidade a sério, estuda muito e preocupa-se com as notas e com o facto de “politiquices”, greves de estudantes e ameaças de revoluções poderem, de algum modo, pôr em risco o plano traçado para a sua vida: terminar o curso, arranjar colocação, casar com Maria do Livramento. Aproveita umas aulas no Colégio Minerva que lhe dão muito trabalho, muita preocupação por causa da indisciplina dos alunos 40 , um pouco na ilusão de que esse trabalho lhe trará algum dinheiro extra para a sua vida de estudante, em Lisboa.

38 Carta de Cândido de 1/7/933: maço 1, doc.37.

39 Carta de Cândido de 30/7/927: maço 3, doc.39.

40 “Tive de fazer um sermão (…) sobre a maneira de estar na aula. Mas é muito difícil manter a ordem em tais circunstâncias porque o Director, que devia ser o primeiro a dar-nos força é precisamente o primeiro a ter medo e a ceder perante os rapazes. Por minha parte, não vou no bote e ou eles entram nos eixos ou eu me faço à vela que não estou para aturar garotos.”(Carta de Cândido de 5/12/928: maço 12, doc.5).

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (Planta do quarto para onde Cândido vai viver em 1931. Maço

(Planta do quarto para onde Cândido vai viver em 1931. Maço 1, doc. 33)

Enquanto isso, sonham 41 : um com o outro, com a casa que terão, com os filhos que – ele sabe – ela edu- cará na perfeição 42 . Ele pode olhar o retrato que ela lhe mandou.

Colocou-o ao lado da cama para a olhar e vira-o para si, quando se deita para “pouvoir (…) te voir quand je m’éveille et quand je m’endors 43 ”.

Maria esforça-se para o ver feliz. Prepara-se para ser o que ele espera de uma mulher. Esforça-se por aprender a cozinhar, tem lições de culinária 44 para estar pronta para quando for a hora. Fá-lo por amor. “(…)

41 « Ainda me parece mentira, se me apanho na rua da Sé (…)”(Carta de Cândido, de 4/5/928, maço 11, doc.17).

42 Carta de Cândido de 15/12/927: maço 11, doc.7.

43 Carta de Cândido de 26/1/928: maço 11, doc.10.

44 “(…) aujourd’hui, j’ai commencé à franchir le seuil de la cuisine. Oui, Monsieur, j’ai eu ma première leçon de l’art culinaire “ (Carta de Maria, 7/3/928:

maço 9, doc 11).

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Quand je sais qu’une chose peut te faire plaisir, elle finit

Quand je sais qu’une chose peut te faire plaisir, elle finit par me faire plaisir a moi-même 45 .

Juntos, por palavras que os navios levam, vão antecipando os dias do resto das suas vidas:

“Tu, por acaso concebes o que seria eu a fazer o meu pedido de casamento? (…) evi- taria todas essas cerimónias de participações e visitas de gala(…) E depois, a minha primeira ida a tua casa! Estou a vêr todas as pessoas a olhar para mim com cara de caso e sempre a fazer polícia para não nos deixarem sós… 46 ”.

E ela :

“le jour le plus heureux de ma vie sera celui où j’aurai vraiment le droit de t’appeler mon mari“ 47 .

As tias de Cândido já falam dela, como de parte da família (“Livramento, para cá, Livramento para lá…48 ) e nas “Mercês” como local do casamento.

E há a casa. Que imaginam. Que preparam. As lojas de Lisboa atraem os olhos de Cândido que idealiza

os espaços onde farão “o ninho 49 ”; procura catálogos de mobílias que não encontra, vai à procura de objetos

que ela lhe encomenda.

45 Carta de Maria, 7/3/928 : maço 9, doc 11.

46 Carta de Cândido de 29/5/928: maço 11, doc.18.

47 Carta de Maria, 12/6/928 : maço 9, doc 19.

48 Carta de Cândido de 25/11/928: maço 11, doc.18.

49 “Quando saio, ficam-se-me os olhos por essa cidade em tudo o que vejo e a que me ponho a dar destino, caso pudesse ter em tudo, na nossa casinha que, volta e meia, me ponho a idealizar” (Carta de Cândido 23/11/928: maço 12, doc 5).

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (Maço 2, doc.11) Em Angra, Maria do Livramento borda o enxoval,

(Maço 2, doc.11)

Em Angra, Maria do Livramento borda o enxoval, passa fios em lençóis, prepara o Palácio, manda-lhe amostras para que a decoração da casa seja uma coisa dos dois.

O pedido tinha sido feito a 19 de julho de 1930. 50 A mãe bem queria que ela mandasse fazer um vestido

de seda para o momento, mas ela conseguiu dissuadi-la, afinal, “fazer as coisas sem aquele ar especial do

pedido já não é tão aborrecido, não te parece?” 51

O ano de 1933, o último destes diários, é sobretudo ocupado nos arranjos da “nossa casa”: é ela que fala

com o pedreiro, com o pintor, com o eletricista; é ela que vai desencaixotar a mobília (“Como vês, vou bata-

que vai desencaixotar a mobília (“ Como vês, vou bata - 50 “ Faz hoje três

50 “Faz hoje três anos vieste cá todo enfrascado fazer o tão simpático pedido!” (Carta de Maria, 19/7/933 : maço 2, doc 17).

51 Carta de Maria de 23/5/930: maço 10, doc.22.

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lhando o mais que posso 52 ”); é ela que vai tratando, no lugar onde hão de ficar, daquilo que terão combinado os dois, porque a 1ª pessoa do plural habita constantemente estas missivas, com expressões como “onde nós queríamos“ou “o que tínhamos pensado”. Em Lisboa, Cândido vai fazendo o que pode, comprando o que falta, fazendo o resto dos preparativos para o regresso:

“Este ano, se Deus quizer, virás cá buscar o que então pediste e, como só pediste a mão, só a mão levarás… Achas pouco? Então porque não pediste logo tudo? 53

pouco? Então porque não pediste logo tudo? 5 3 ” 52 Carta de Maria de 2/6/933:

52 Carta de Maria de 2/6/933: maço 2, doc.15.

53 Carta de Maria, 19/7/933 : maço 2, doc. 17.

(maço 2, doc. 3)

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A 26 de agosto, Maria escreve: “Acabam-se as viagens e com elas os diários. Se Deus quiser nunca mais

teremos ocasião de escrever estas grandes cartas 54 ” .

A história que os diários contam não diz o resto. Apenas uma carta. De Cândido:

contam não diz o resto. Apenas uma carta. De Cândido: A História deixou o resto escrito:

A História deixou o resto escrito: casaram-se a 27 de setembro de 1933, na capela da Quinta das Mercês.

54 Carta de Maria, 26/8/933 : maço 2, doc . 20.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Casamento de Cândido Pamplona Forjaz com D. Maria do Livramento de

Casamento de Cândido Pamplona Forjaz com D. Maria do Livramento de Mesquita Abreu (com a Maria Teresa de Castro Abreu, Bébé, que levava as alianças). Quinta das Mercês.

E depois, depois, uma vida inteira.

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DO DISCURSO AMOROSO

“Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética: o mito socrático (amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos) e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão)” Roland Barthes

Da matéria:

E ntre 1924 e 1933, Cândido de Menezes Pamplona Forjaz de Lacerda e Maria do Livramento Mesquita Abreu trocaram palavras de amor. São cartas, diários, rascunhos e bilhetes, num total aproximado de 320 documentos, alguns com mais de 12 páginas. São histórias contadas ao ouvido e palavras mur- muradas, num segredo que o tempo desvendou. São fragmentos de duas vidas que a distância não

deixou separar.

O amor é o objeto de grande parte destes documentos. A situação é a de alguém que fala de si diante do outro, o objeto amado, sem que a resposta seja imediata, condicionada pelo estado do mar, pela periodicida- de dos vapores que ligam as ilhas açorianas a Lisboa, pelas contingências políticas que sobretudo os anos 30 hão de trazer. Escrevem-se mutuamente [passe a redundância] e contam-se, contando os seus dias, contando o que sentem durante os seus dias, contando a falta que o outro faz para que os seus dias sejam mais felizes.

Os protocolos de escrita são conversados. Em segredo, primeiro, mais abertamente depois. É assim traçado o discurso destes anos de ausência em que os dois escrevem para fugir à morte de estar-um-sem- -um-outro. E dizem (-se) que hão de escrever todos os dias, sobretudo quando ele parte para Lisboa. E dizem (-se) que hão de contar (-se) tudo. E dizem (-se) que nunca se hão de perder um do outro.

Ao escreverem, ouvem-se, veem-se, imaginam-se um ao outro. São cartas-diários que têm de ser guar- dadas em lugar seguro. Porque de um e de outro. Porque de um para o outro.

Onde guardar as cartas, lidas e relidas, lidas e respondidas, lidas e perguntadas?

«Je me demande souvent comment vas-tu t’arranger pour cacher ces lettres. Les dernières je sais qu’elles sont en lieu sûr (Que je voudrais être lettre pour être là si longtemps !), mais celles-ci elles seront tellement encombrantes que tu ne pourras les y garder à la fin on remarquerait et ce serait fort peu élégant 55 “.

55 Carta de Cândido de 1/8/927: maço 3, doc 28.

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Ele próprio 56 diz-lhe já não ter espaço para guardar as cartas que ela lhe escreve. A gaveta – fechada à chave, naturalmente – é demasiado pequena para guardar toda a correspondência dela: que vai comprar uma caixa para as guardar, que lhe vai oferecer uma mala para que ela tenhas as suas, ao abrigo dos olhares.

Não terão pensado os correspondentes-amantes que destes seus escritos se iria fazer um livro. Não te- rão pensado que, um dia, estas cartas seriam lidas e dissecadas, à procura do tempo, da História e do modo que as décadas de 20 e de 30 do século XX tinham de dizer “amo-te”.

Trazer o particular deste casal para a cena pública é, de um certo modo, transformar estas cartas em literatura. É isso que nos resguarda do pudor de devassar a sua intimidade.

Mas olhemos para a forma. São cartas. Diárias. Chegam ao destinatário quinze dias depois [“até ama- nhã (ou até de hoje a 15 dias, como quiseres), se Deus quiser”]. Começam como começam as cartas de amor:

Meu amor” ou similar 57 . Anseiam o futuro e verbalizam esse anseio: assinam “ton petit mari” ou “ta femme chérie”. Falam da vida e da saudade. Acabam como acabam as cartas de amor: com gros, com beijos, com saudades.

Pelo meio, o jogo da sedução. O discurso amoroso tem dois lados: o poético e o manipulador:

“O discurso do amor não está desprovido de cálculos: medito, por vezes conto, seja para obter tal satisfação, para evitar tal mágoa, seja para impor interiormente ao outro, num m omento de humor, o tesouro de artifícios que delapido para nada em seu favor (ceder, esconder, não ferir, divertir, convencer, etc.). Mas estes cálculos não são mais que impaciências (…)” (Barthes, 1977:11).

Porque o amor é assim. E o discurso amoroso tem, como finalidade, chegar ao coração do amado. É por isso que o momento discursivo se fecha nos dois participantes. Não era suposto esta correspondência ser lida por outros que não o destinatário. E mais: sendo grande parte desta coleção constituída por páginas de diá- rio, seria, antes de mais, uma escrita sem possibilidade de um leitor. Ou melhor, a função do narratário seria desempenhada pelas folhas de papel, o que não acontece neste particular, porque assumidamente dirigida àquele que se ama, garantindo, deste modo, a verdade do que é escrito.

Porém, com a revelação destes diálogos – com o enunciador, com a folha de papel, com o co enuncia- dor – o leitor [que não era previsível existir] acredita nessa verdade, sem necessidade de ir verificar os factos, mesmo sabendo que se trata de um discurso subjetivo, reformulado, repetido, porque se trata da expressão genuína – não encontramos motivos para que fosse de outra maneira – do modo como o sujeito vê o mundo.

Os diaristas – Maria do Livramento e Cândido – compõem o mosaico do amor, eivado de informações reveladoras de situações que, de algum modo, se imiscuem no seu relacionamento. As datas, obrigatórias, situam-nos em tempos e em lugares que ajudam a explicar palavras, atos e omissões. E fazem-no, assumi- damente, para o outro. Com a verdade do compromisso assumido – escrever um diário onde contam a vida, os dias comuns e aqueles que fogem da rotina, penitenciando-se, quando, por um motivo qualquer, não o fazem:

“De joelhos e de mãos postas, peço perdão para a minha falta de hontem (…) eis as minhas mãos estendidas para o castigo esperando que nelas caia alguma coisa que eu depois possa levar à boca” 58 .

Ou ainda, quando há motivo para o silêncio:

“Pela primeira vez desde que estás fora daqui, estive dois dias sem te escrever e, infelizmente, por um motivo bem triste. Nem preciso de te pedir que mo perdoes,

56 Carta de Cândido de 20/8/927: maço 3, doc 24.

57 “Meus amores queridos”, “Ma petite femme chérie”, “Meu amor querido”, “Querido amor”, “Mon cher petit mari”, “Meu amorzinho”…

58 Carta de Cândido de 4/5/28: maço 11, doc.17.

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pois basta que to diga para compreenderes porque o não fiz” 59 .

to diga para compreenderes porque o não fiz” 5 9 . (Maço 3, doc.1) Maria escreve,
to diga para compreenderes porque o não fiz” 5 9 . (Maço 3, doc.1) Maria escreve,

(Maço 3, doc.1)

Maria escreve, efetivamente, o seu diário, nos primeiros meses de 1927. Conta o que sente e refere-se ao namorado na 3ª pessoa. Como se aquelas páginas escritas a lápis não fossem lidas por ele. Cândido, não. Desde o princípio que assume que os diários são conversas, são desabafos, são relatos dos dias, pintados de pensamentos, de sentimentos, de opiniões, de outras vozes:

“J’écris mon journal comme si c’était une lettre, en m’adressant toujours à toi : c’est que je pense que je ne l’écris que pour toi, donc que je peux bien le faire comme si je parlais avec toi” 60 .

O tom coloquial do « comme si je parlais avec toi… “ é frequente nestas escritas. Cândido usa uma variedade lexical para definir este tipo de comunicação usada pelos dois para que o outro saiba da vida, conheça os passos, faça parte. Apenas algumas expressões que nos fazem propostas de interpretação:

relatório de hoje, palestra diária, mandato, missão diária, conversa de todos os dias, cavaqueira de todos os dias, testamentos, escritura, escrituração diária, ou ainda, com um toque de humor, muito presente nas missivas dos dois sujeitos: “vamos lá à «cumbersa“ que está em dívida.

Escrevem como se falassem. Como se se ouvissem 61 . Como se estivessem em presença.

59 Carta de Maria de 4/4/929; maço 4, doc 18.

60 Carta de Cândido de 7/8/927 : maço 3, doc. 26

61 “Pendant près d’une heure j’ai eu un peu l’illusion de cause r avec toi, d’entendre toutes les petites histoires…” (Carta de Cândido de 13/11/927 : maço 11, doc. 5).

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita De Carta de Maria de 22/2/930: maço 10, doc. 11 Ou

De Carta de Maria de 22/2/930: maço 10, doc. 11

Ou ainda: “Mais il faut continuer avec tes grands et charmants journaux et puisqu’on ne peut tout avoir à la fois quand je les lirais je penserais que je suis tout près de toi ou quand je serais près de toi je me figurerais que je les lis” 62 .

A(s) resposta(s) chegarão a seu tempo, completamente desatualizadas. Ao momento da receção e leitu-

ra

dos diários, já a dor passou, já a febre baixou, já se sabe que a revolução não aconteceu. Isso não importa.

O

que importa, verdadeiramente é dar parte. Para que o amado saiba. Para que amado sinta. Para que o

amado participe.

Apropriamo-nos daquilo que Milan Kundera chama “a paixão de conhecer” 63 e que tem, como objetivo primordial, a proteção contra o esquecimento, porque, no fundo, esta correspondência tem essa função – não deixar morrer, no amante, a presença do amado.

Os momentos de escrita são determinados pelo tempo livre ou pela possibilidade de estar só, “posto em sossego”, de modo que o tempo seja apenas para o outro. É geralmente à noite, quando as casas sosse- gam e quando a possibilidade de serem interrompidos é mais remota. Às vezes, porém, acontece e a carta é escondida sem secar e vai com borrões; outras vezes, porque tem de ir escondida, vai amarrotada.

Trata-se sempre de momentos solitários, íntimos, em que um e outro se “despem” e se “entregam”. O uso da língua francesa ajuda neste segredo. Relativamente aos outros. Relativamente a si próprios.

Para Barthes (1977:111), “a linguagem é uma pele. (…) é como se tivesse palavras dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras”. Para eles, é o que lhes resta, sobretudo depois da separação. Por amor, ela também.

Ler transforma-se num ato de prazer. 64 Tal como a escrita, a leitura exige silêncio, exige disponibilidade, exige, quase sempre, uma segunda leitura, menos ávida, mais racional, capaz de gerar outras escritas.

Há uma ordem na leitura das cartas. “As de casa são as primeiras, as de amor são as últimas,” (os últi- mos são os primeiros), à laia de sobremesa, para me fazer a boca doce, a tua.(…) aquela hora de leitura foi uma hora de sonho. Sentia-te ali ao pé de mim 65 ”. Por estas pontes marítimas feitas de papel e lápis, os dois conversam, ouvem-se, sentem-se, cheiram o perfume que o outro tem.

A chegada das cartas representa os verdadeiros momentos de felicidade: “quando recebo as tuas cartas, crio alma nova e encontro assunto muito mais facilmente 66 ”.

Esperam, com ansiedade, a chegada dos vapores ou o sinal de que ele chegou. 67 E quando ele demora,

62 Carta de Cândido de 26/8/927: maço 3, doc. 4.

63 “A «paixão de conhecer“ (aquela que Husserl considera a essência da espiritualidade europeia) apoderou-se então dele [romance] para que pers- crute a vida concreta do homem e a proteja contra o «esquecimento do ser“, para que mantenha o «mundo da vida“ sob uma iluminação perpétua. (Kundera, 2002:18)

64 “C’est si bon de lire tes lettres”, carta de 12/8/927 : maço 3, doc. 24.

65 Carta de Cândido de 12/12/928: maço 12, doc. 6.

66 Carta de Cândido, 23/1/929: maço 12, doc. 10.

67 “Não me lembrei, como de costume, de olhar para Santos, a ver se estava a bandeirinha anunciadora da chegada do vapor” (Carta de Cândido de

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je saute, je craque, je fais explosion. Je suis jaloux de tout le monde qui se promène avec leurs femmes ou leurs fiancés à côté. “ 68 E esta é uma questão muito importante no concernente a epistolário amoroso: quem espera, desespera. E isto é válido, neste caso particular, para os navios que trazem notícias e para o tempo que falta para o casamento. Ver os casais juntos torna-se, para os dois, um tormento, invejando essa possi- bilidade que eles não têm.

Reclamam o tamanho das cartas. Pedem cada vez mais folhas. Competem a ver qual deles escreve mais. Cândido reclama da letra dela, do facto dela escrever a lápis:

“Por Deus te peço, não me escrevas mais a lápis. Asseguro-te que passei trabalhinhos para decifrar essas partes, sobretudo as palavras que estavam nas dobras do papel 69 ”.

Efetivamente, sentimos, por vezes, nós também, essa dificuldade. O tempo – já se passaram oitenta anos – fez clarear o carvão do lápis e complicar a leitura de muitas cartas de Maria do Livramento que escre- ve, em alguns meses, sobre um papel brilhante, o que ainda dificulta mais o ato de ler este passado dos dois.

Assegurar a comunicação de afetos funciona, neste como em qualquer outra correspondência da mobi- lidade – que esta também é – como uma obrigação, sim, mas, sobretudo, como uma razão de viver. Receber notícias alegra, dá ânimo, proporciona pequenas fugas à rotina. Escrever recria o momento do encontro com o amado, a ternura do bem-querer, a memória do outro, da pele do outro, do cheiro do outro (Cândido reco- nhece as cartas de Maria pelo perfume do envelope), dos beijos do outro.

de Maria pelo perfume do envelope), dos beijos do outro. (Maço 23, doc.2) Escrever diariamente e

(Maço 23, doc.2)

Escrever diariamente e ler para continuar a viver o amor foi a fórmula encontrada por este casal de noivos que assinam, em alguns momentos, como “ton mari”, ou “ta petite femme adorée”, garantindo, deste modo, a presença na separação.

25/1/929: maço 12, doc. 10.

68 Carta de Cândido, 25/12/927: maço 11, doc. 8.

69 Carta de Cândido de 12/12/928: maço 12, doc. 6.

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Da essência:

“O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é desse silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo”.

Ferreira, Vergílio, Pensar, 1992.

De que se fala, quando se fala de amor? É essa agora a nossa procura, nas cartas-diário que escrevem uma relação à distância. De que modo se ama por correspondência entre os anos 20 e 30 do século XX? Que “figuras 70 ” (usando a nomenclatura de Roland Barthes) se usam nestas escritas? Que fragmentos se juntam para formar este discurso que ultrapassa o de meras cartas de amor, “ridículas, como todas as cartas de amor”, como diz o poeta?

Tentaremos, então, isolar, estes pedaços do discurso amoroso, usando, sempre que necessitarmos, as “figuras” propostas na cartilha de um dos pensadores franceses do século XX, Roland Barthes (1915-1980): o abraço, o acanhamento, a angústia, a ausência, as lágrimas, o ciúme, a declaração, a espera, a noite, a sauda- de, a sedução, a solidão, etc.

Os sujeitos não são personagens, nem heróis de romances. São pessoas, frágeis, inseridas em contextos socioculturais específicos, detentores de uma cultura que lhes permite falar de livros, de filmes, de confe- rências, mas também de mexericos, de assuntos de família, de questões políticas. Tudo isto sem nunca se perderem o olhar do que os faz, efetivamente, viver esta “bulimia” de escritas e de leituras do outro e para o outro: o dizer do sentimento amoroso.

Emprestamos, então, o tempo à inocência do imaginário dos sujeitos apaixonados. É ele que nos perdoa a indiscrição e uma quase-violação da intimidade. É ele que nos deixa observar, com a frieza possível, o modo como se estrutura esta correspondência. Nestes casos, pouco importa que o discurso nem sempre flua, que as frases, às vezes, se atropelem na urgência de serem ditas. Pouco importa que o texto não seja sempre con- sistente e que haja dias de muitas coisas para contar e dias de nada – “só para um beijo”, “só para dizer que te amo”. O que interessa no discurso amoroso é que passe o afeto, o desejo, a vontade de construção de um qualquer futuro, a falta do outro nos dias que passam.

“Quant à moi, mon chéri, “cada vez me conformo menos com a minha sorte”. Evi- demment, je parle de ma situation envers toi, Je t’assure que je me désespère en pensant qu’il faut attendre encore si longtemps avant pouvoir nous marier. Avec mon caractère, je crois que ce sera difficile de tenir si longtemps “. 71

Aqui, porém, não nos podemos esquecer de que Cândido foi (e é) professor e que não perde o “vício” de corrigir a namorada 72 ou de, numa das “historiazinhas” que se contam – numa espécie de “mise-en-abî- me” - se dê ao trabalho de transcrever uma carta de amor, tornando-os eles próprios voyeurs de outro casal:

«(…) en regardant un livre qui était dans la salle à manger, j’ai trouvé le brouillon d’une lettre d’amour de la fille de la patronne à son fiancé. (…) si tua voyais la lette ! C’est tordant, depuis la forma jusqu’à l’orthographe (…) Elle écrit par exemple :

«Ceridinho“ (queridinho !) Afonso (c’est le fiancé)vem dare-me o teu amore. O meu amore por ti é em finito. Perdõa me meu ceridinho“. Et maintenant, le clou:”Eu

amo-te até ao céu, eu adoro-te até ao fundo do mar. Qu’en dis-tu à une pareil lettre d’amour? Je t’assure que j’ai ri comme un fou (…) 73 “.

70 “Uma figura é fundada se ao menos alguém puder dizer: Como isso é verdade! Reconheço esta cena de linguagem! (Barthes,1977:12).

71 Carta de Cândido, 12/2/928: maço 11, doc 11.

72 Carta de Cândido, 4/2/929, por exemplo, em que lhe explica que uma “aguia em ouro” não é o mesmo que uma “aguia de ouro”.

73 Carta de Cândido de 31/12/927: maço 11, doc.8.

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O vocabulário do amor gira à volta de muitos “amo-te”, de muitos beijos, de muitas saudades. A cons- trução do discurso, porém, é muito mais complexo. E os enunciadores são efetivamente muito pródigos nas diversas formas de dizer o que sentem.

Apropriamo-nos do “mito socrático” citado por Roland Barthes (1977) para justificar este conjunto de textos de amor: “amar serve par criar uma multidão de belos e magníficos discursos”. Bastaria, talvez, nos fixarmos na variedade de formas com que Cândido encerra as suas cartas, em 1928, por exemplo:

6/4/928 – Beija-te e abraça-te, enternecidamente, o teu noivo.

8/4/928 – (…) do teu noivo que te ama loucamente, adeus meu amor muito querido, minha mulherzinha adorada a quem eu quero tanto.

9/4/928 – Se sonhares com alguém que seja comigo. Muitos e muitos beijos do teu para sempre, Cândido.

11/4/928 – Muitos e muitos beijos mais saudoso do que o costume, por serem de ainda mais longe.

17/$/928 - (…) milhares de beijos muito ardentes e saudosos.

21/4/928 – Manda-me tantos e tantos beijos como te mando daqui.

23/4/928 - Muitos beijos, muito saudosos, por conta dos que te há de dar quando tiver ocasião para isso o teu noivo que muito te quer.

26/4/928 – Mil beijos do teu do coração. Adeus, meu amor adorado, até amanhã se Deus quiser.

7/5/928 - Um beijo (no logar preferido).

13/5/928 – (…) daquele Candido que a quere com toda a sua alma.

20/5/928 – Do teu, só teu e sempre teu.

26/10/928 – Do teu noivo, sempre noivo, porque te amará como te ama hoje.

30/10/928 – Do teu noivo que aspira a poder assinar “teu marido”.

13/11/928 - O teu noivo, cujo maior desgosto é não poder ser promovido a …mari- do.

20/11/928 – Uma dúzia acrescentada de beijos mas daqueles dados com toda a alma como só eu sei dar. Teu C.

22/11/928 - Muitos beijos recheadinhos de saudades e ardentes, ardentes até mais não poder.

21/12/928 – Até amanhã (ou até de hoje a 15 dias, como quiseres), se Deus quiser.

Por estas frases finais, passa a saudade, a devoção traduzida no verbo “adorar”, o desejo, a eternida- de do amor (que, como diz o poeta, é eterno, enquanto dura) e que se consubstancia em “para sempres” e “até mais não poder”; a perceção de Cândido relativamente à intensidade da paixão: afirma que, mesmo depois de marido, será sempre “noivo”, o que nos leva a pensar que, do seu ponto de vista, com o tempo e

o casamento, o amor acaba (26/10/928 – Do teu noivo, sempre noivo, porque te amará como te ama hoje),

a memória de alguma privacidade, de beijos “no logar preferido” que, ao longo dos textos, de um e de outro se assume como “”.

Cada entrada dos diários dos dois acaba com uma despedida, exatamente como se se tratasse de uma

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carta. Funciona, geralmente como um beijo de boas-noites, depois de terem partilhado os dias, os quotidia- nos, as dores e as alegrias, algumas histórias, enredos de filmes, pedaços de conversas.

Num diário em que Cândido diz que vai enviar um compêndio de Metrificação a Maria do Livramento que escreve versos e quer aperfeiçoar a forma, um N.B. de Cândido mostra a criatividade que a paixão lhe confere:

Cândido mostra a criatividade que a paixão lhe confere: (Carta de Cândido de 6/12/928: maço 12,

(Carta de Cândido de 6/12/928: maço 12, doc. 5)

O discurso amoroso torna-se, então, uma coreografia. Objetivo: chegar ao coração do outro. Para isso, os amantes (ou co enunciadores ou sujeitos) fazem uso de uma gramática amorosa que se rege por uma su- cessão de fragmentos que acaba por nos facilitar – a nós, que espreitamos o que só aos amantes diz respeito – a construção de uma história de amor epistolar que prioriza o discurso em detrimento da narrativa.

Da narrativa, apenas um apontamento. Cândido sistematiza o namoro, como se um parágrafo bastasse para explicar a evolução de uma história de amor que havia de durar a vida inteira:

“Et j’en suis tellement content (…) quand je pense à toutes les étapes de notre vie depuis 3 ans – et il y a précisément 3 ans que l’on a commencé à s’aimer. D’abord tu te moquais de moi quand je plaignais de tes façons, puis, pendante si longtemps ! tu n’as pas voulu m’écrire ; ensuite tu m’as refusé quelque chose (un tout petit gros !) que je t’ai demandé le tout premier jour qu’on s’est rencontré et puis ce sont toutes ces rencontres charmantes dont je garde un si tendre et émouvant souvenir. Et maintenant ? Maintenant il ne nous reste qu’attendre la fin. À quand la fin ? On n’en sait rien mais j’espère qu’avant 10 ans on sera mariés 74 “.

Procuremos, então, fragmentar o discurso amoroso, à moda de Barthes, usando algumas das figuras 75 por ele propostas, de forma a tentar tentando responder à questão primeira deste capítulo: de que se fala quando se fala de amor?

74 Carta de Cândido de 28/1/929: maço 11, doc. 10

75 As figuras, segundo Barthes (1977: 12, 13), são frações de discurso, que ocorrem em circunstâncias ínfimas e aleatórias. São lufadas de linguagem do enamorado em ação: é apreender o gesto. Para se constituir a figura, é necessário apenas o sentimento amoroso.

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Do próprio amor

Em te vendo, vejo a Deus, ai vejo a Deus, Não sei se perco, se não, Trago a Deus dentro do peito, ai no meu peito, E a ti no meu coração.

(Charamba, Pop. Ilha Terceira)

É preciso definir o amor. É preciso dizê-lo. É preciso escutá-lo. É preciso escrevê-lo acompanhado de advérbios que o intensificam: muito, loucamente, desesperadamente…

No discurso amoroso, a declaração ganha uma importância muito grande. Barthes define-a como a “pro- pensão do sujeito apaixonado para falar abundantemente, numa emoção querida, com o ser amado, do seu amor, dele, de si, de ambos” (Barthes, 1977: 98).

A abrir os diários, o amor é dito: Cândido é, sobretudo, o “meu(s) amor(es) (muito) querido(s)”, Maria

do Livramento é a “minha querida mais que tudo”, a “minha Maria muito querida”, “mon chéri”, entre tantos outros vocativos que abrem este conjunto epistolar.

O tempo do amor é um tempo suspenso. A distância obriga-os a manter intactos os fios que os ligam,

pelo que aproveitam para, de forma mais ou menos explícita, explicar o sentimento. Maria havia prometido ser meiga e terna, apesar de, por vezes, se manifestar uma pouco seca 76 . E Cândido teoriza o amor, dizendo que “il ne faut pas seulement aimer une personne, il faut savoir l’aimer – et c’est cela que j’attends de toi - lui épargnant tout ce qui pourra la froisser ou lui faire de la peine77 .

E não se cansa de lembrar a noiva que fora ela a causadora das mudanças da sua vida. É necessário que

o amado / a amada reconheça estas provas de amor. Se ganhasse a lotaria (e Cândido joga, na esperança da sorte. Em vão), largava tudo para ir buscar “quem foi a causadora de toda esta resolução na minha vida, aquela por quem tenho feito coisa que nem pelos meus faria 78 ”.

O sonho faz parte da escrita do amor. Um e outro sonham com o tempo em que serão livres e terão

a sua casa, o “ninho” onde cuidarão dos filhos que contam ter 79 . A verbalização dessa imagem faz parte da

definição desse querer. E, para Cândido, a palavra-chave do sucesso deste relacionamento (desta paixão com

o mar a meio) é a confiança:

“Ter uma companheira querida com quem se desabafa e em quem se confia mais do que em si próprio (porque a verdade é que eu confio mais em ti do que em mim!) e tudo isto dentro de uma casinha modesta que fosse, eis o meu sonho e julgo que não é ser muito exigente 80 ”.

De que matéria é feito aquele amor? Em 1928, numa carta de fevereiro, ele pergunta-lhe se ela lhe teria dado um qualquer filtro misterioso 81 para o sentir sempre perto dele…

76 Foram-lhe dizer que ela era “má” e “fria”, mas ele sabia que ela seria a pessoa certa. Cf. Carta de Cândido de 11/10/927: maço 3, doc. 27.

77 Carta de Cândido de 11/10/927: maço 3, doc. 27.

78 Carta de Cândido de 26/4/928: maço 11, doc. 17.

79 “(…) quando me lembro de que ainda está tão longe o dia, em que eu, quando recolher, ter alguém que me receba com um bocadinho de carinho, que me anime (…). (Carta de Cândido de 24/4/928: maço 11, doc.17).

80 Carta de Cândido de 24/4/928: maço 11, doc.17.

81 Carta de Cândido de 3/2/928: maço 11, doc.11.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Maria também fala de amor. E do espaço que ele (objeto

Maria também fala de amor. E do espaço que ele (objeto amado) foi ganhando no seu coração. Numa carta sem data, Maria assegura-lhe que o ama com todo o seu coração. E pensa esse amor. Conta-lhe até onde o poderia levar:

“Te rappelles-tu un jour que tu m’as dit que tu voudrais une petite place dans mon cœur et que je t’ai dit que tu l’avais tout entier? Parfois je pense que c’est mal ain- si. Il y a Maman et Papa et ma sœur enfin tant de monde que j’aimais avant toi et maintenant c’est toi qui as la meilleure part. D’ailleurs ce n’est pas bien ainsi parce que Maman et toi, par exemple, je crois que je vous aime autant tous les deux, mais d’une façon si différente mais (…) je te suivrai n’importe où… 82

Aliás, os discursos, ao longo do tempo, acabam por aproximar-se. E Maria diz-lhe, com a abertura, que a escrita autoriza, “le bonheur d’avoir ton amour vaut tous les autres. 83 ” Porque todas as outras alegrias decor- rem desta felicidade. Porque, no amor, a vida só faz sentido quando quem se ama está junto.

Os namoros dos outros servem, também, para, de algum modo, sistematizar o modo de olharem para o sentimento que os une: Maria conta casos de gente conhecida dos dois que, na pequenez de Angra, são mo- tivo de observações e coscuvilhices. Ele também. Há açorianos em Lisboa, com quem Cândido mantem rela- ções. Os casos dos outros servem para limar as arestas do seu próprio caso: “Oxalá que nós ambos tenhamos

82 Carta de Maria, s/d: maço 3, doc 19.

83 Carta de Maria de 5/4/928 : maço 9, doc. 13.

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sempre juízo para não fazer figuras tristes, mas principalmente para sermos um para o outro o que devemos ser 84 ”. O dever amoroso implica, a avaliar pelas torrentes de escrita destes enunciadores, respeitar e confiar.

Maria é mais contida nas palavras de amor. É mulher. Deve, certamente, ter sobre si os preceitos de educação que se exige de uma senhora 85 . No entanto, é-lhe mais fácil escrever. Maria assume o seu orgulho e tem consciência dele ou da sua vergonha em dizer certas coisas, mesmo sabendo que poderá confiar ple- namente no seu noivo:

“(…) c’est toujours ce terrible orgueil qui m’empêche de montrer ce que je sens vrai- ment et surtout de le dire car ma mine fâchée parle peut être pour moi (…) c’est quelque chose que je ne sais pas expliquer comme si j’avais honte de dire ce que je pense 86 “.

Ele sabe: “E quanto aos teus desabafos, querida, não penses nem por um minuto que eles me podem desagradar. Expande-te à vontade comigo, (…) a única coisa que eu ainda tenho pena de não ter conseguido é que tu, falando, sejas comigo tão expansiva como és nas tuas cartas 87 ”.

É assim: as palavras que o amor inspira trazem a vida por dentro. Mesmo quando dizem que não têm nada para dizer, porque o nada 88 que têm é para o outro. E só isso lhes basta. É importante, pois, o dizer do amor, o “je t’aime”, muitas vezes “à la folie”, espera devolução. O discurso do amor espera, de volta, outro discurso do amor. E basta dizê-lo, para que ele seja verdade.

Do corpo (ou da “science du parler89 )

Suspiro por ti, meu bem, Mas que vale suspirar? Quanto mais por ti suspiro, Menos te posso lograr.

(Bela Aurora, Pop. Açores)

A análise deste fragmento implica espreitar, com alguma impudicícia, o segredo dos encontros reconta- dos nos diários, como se deles se fizesse memória. São breves alusões a momentos, beijos, abraços, muitas vezes indicados em código, nas cartas: “bonjour” e “au revoir”, nem sempre significarão “olá”, “adeus”.

São os primeiros textos (1927) que nos levam a imaginar a intimidade possível, sempre aflita, no medo de ser descoberta. Sonham com o dia em que, casados, ficarão livres desses sustos. Percebemos, quer pelo diário de Maria, quer pelos comentários do namorado, algum embaraço, o medo de “estar a fazer coisas mal feitas”, o juízo (a “sagesse”) ou a falta dele, o peso da culpa e do pecado de fazer o que não pode ser feito, apesar do desejo de o fazer:

84 Carta de Cândido de 16/3/928: maço 11, doc. 14.

85 “Je voudrais bien te dire des choses bien gentilles que je pense tout bas, mais je ne peux pas, surtout si je suis tout près de toi “ (Carta de Maria, s/d :

maço 3, doc. 19

86 Carta de Maria, 99/4/928: maço 9, doc. 14.

87 Carta de Cândido de 26/4/928: maço 11, doc. 17.

88 Barthes, 1977: 59.

89 Carta de Cândido de 27/8/927

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Maria, 2 de agosto : « Moi qui m’étais promise de passer une soirée bien sage près de lui et voilà que j’ai fait encore pire que l’autre pour maintenant je crois que le seul moyen d’empêcher ces choses-là serait de ne plus se rencontrer. Mais je n’ai pas le courage de le faire souffrir, d’autant plus que moi-même je les attends anxieusement ces moment-là. Que je l’aime, mon Dieu, que c’est bon d’être tout près de lui, de l’entendre me dire des choses si gentilles. Et moi, je voudrais lui crier mon amour, lui dire combien je l’aime mis je ne pense pas, je ne sais que me serrer bien contre lui et lui donner mes lèvres pour ses b. si doux, si tendre qui me font perdre la tête. Je voudrais m’enfuir, ne pas faire une chose que je sais parfaitement être mal, mais il y a quelque chose qui m’attire chaque fois plus près de lui qui me fait désirer qu’il me serre chaque fois plus fort dans ses bras (…) Comment attendre que le Bon Dieu écoute mes vœux après ce que j’ai fait aujourd’hui ? 90 “.

Cândido, 2 de agosto: «merci, merci de tout mon cœur (…) promesse (…) un peu difficile de la tenir (…) Et c’est si bon, mon amour adoré ! Mais, écoute chérie, je vais te parler franchement et sérieusement, si tu veux mardi prochain je ne te dirai même pas bonjour. Je ne dirai qu’au revoir car tout le danger est là : on a commencé, il faut finir “ 91 .

Cândido, 4 de agosto: “On ne se dira pas bonjour et quant au au revoir tu feras ce que tu voudras. Je tacherai d’être sage mais si tu veux bien me dire un gentil petit « au revoir “ je ne dirai pas non, bien au contraire (…) toute la joie qui peut me faire le fait d’être si près de toi et surtout de pouvoir avoir à moi pendant une minute tes petites lèvres chéries et de te sentir venir te serrer bien contre mon cœur 92 “.

Maria, 3 de agosto : « il me parle de notre soirée d’hier et lui aussi il croit que nous avons fait mal (…) il me propose de, si je l’exige, être très sage (…) et partir sans même me dire au revoir (…) Moi je ne veux pas cela (…) Donc, ce sera seulement au revoir, pourvu que mardi prochain on tienne un peu plus sa parole(…) “. 93

Há dias que sim, outros que não. A iminência da partida de Cândido impele-os a aproveitar o tempo possível, sempre com medo de serem apanhados, sempre com medo do “mal feito”.

Apesar da vontade de estarem juntos, apesar do prazer que esses instantes de eternidade lhes trazem, a verdade é que eles nunca são isentos de perturbação. Veja-se, por exemplo, o diário de Cândido:

90 Carta de Maria de 2/8/927: maço 3, doc. 30.

91 Carta de Cândido de 2/8/927: maço 3, doc. 26.

92 Carta de Cândido de 4/8/927: maço 3, doc. 26.

93 Carta de Maria de 2/8/927: maço 3, doc. 30.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (maço 3, doc. 24) Neste excerto, as memórias de um serão

(maço 3, doc. 24)

Neste excerto, as memórias de um serão doce e bom, a felicidade dele, em oposição às lágrimas dela, a confissão de um “arrependimento” que terá valido a pena.

A carta dela desse dia começa assim: “Mon Dieu qu’ai-je fait aujourd’hui?”

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (Carta de Maria: maço 3, doc 21) Hão de arranjar meio

(Carta de Maria: maço 3, doc 21)

Hão de arranjar meio de falar destes “avanços”, de forma mais ou menos velada. Cândido reconhece a Maria os “progrès que tu fais dans la science du “parler94 . Fala-lhe das suas « artes “:“En ce moment je vois les yeux que tu me faisais hier en rentrant. Il avait bien l’air de demander quelque chose mais je ne sais pas quoi, de peur de me tromper 95 “.

À distância, a lembrança destes momentos faz manter vivo lume da paixão, a referência ao caramanchão

e a um certo “divã” também. Ao olhar para outros namorados, Cândido e Maria pensam em si, em “outras soirées 96 ”. São, muitas vezes, os sonhos que lhes permitem reviver momentos passados ou antecipar o futu- ro:“(…) que durmas bem e que vais sonhando como me aconteceu que já estávamos autorizados a não ter juízo 97 ”.

Enquanto isso, as saudades – das palestras e de outras coisas… que o discurso não especifica, porque não são assuntos de especificar. Ficam, apenas, pistas que o outro recolherá: gros…, beijos dados lá… e este “lá” é muitas vezes sublinhado. Porque ele sabe o endereço. Ela também. E ele sabe que ela sabe. Fica o de- sejo suspenso nas palavras da espera:

“Voltaremos ás nossas palestras, no Caminho do Meio, por uns pequenos passeios até ao caramanchão, e, lá de tempos a tempos, uns passeios até mais longe. Nem quero pensar em tudo isto que me faz crescer água na boca. 98

A felicidade reside na promessa de o futuro reproduzir esses pequenos momentos de outras coisas. A

felicidade é o objetivo de quem ama. Construir uma relação feliz é o que mais almeja quem ama.

94 Carta de Cândido de 27/8/927: maço 3, doc. 24.

95 Carta de Cândido de 27/8/927: maço 3, doc. 24.

96 Cf. Carta de Cândido de 5/2/928: maço 11, doc. 10.

97 Carta de Cândido de 15/11/929: maço 12, doc. 4.

98 Carta de Maria de 5/2/929: maço 4, doc. 9. O sublinhado é da signatária.

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Da dor do outro

Os meus olhos de chorar ai de chorar, fizeram covas no chão choram por ti, os teus por quem chorarão?

Pop. Açores

As cartas de Cândido e de Maria do Livramento trazem a dor suspensa nas palavras: sofrem a ausência do outro, sofrem a perplexidade dos sentimentos, sofrem o medo de serem apanhados nesta descoberta de si, do outro, do seu corpo, do corpo do outro, sofrem o silêncio do outro, o ciúme, o medo de se perder, sofrem, pronto.

Sobretudo os primeiros diários de Maria do Livramento revestem-se de lágrimas, de “desespero”, de uma tristeza imensa, de uma grande solidão, do enlouquecimento 99 dos apaixonados: “Je deviens folle, mon Dieu, vraiment folle100 .

No seu diário (que é para ele), explica-lhe essa dor que o amor lhe provoca, porque é preciso que ele saiba, que se preocupe com a sua angústia, que entenda os seus recuos, que perceba os seus silêncios. “As lágrimas são signos, não expressões”, explica Barthes (199:74), pelo que é importante referi-las, na medida em que elas revelam muito mais do que as palavras.

Apesar de não chorar (“um homem não chora!”), Cândido sofre também. Diz-se “jazendo nesta apagada e vil tristeza 101 ”, num momento em que espera dela um qualquer sinal que tarda em chegar. A dor que escreve traduz-se em doença: tem dores de cabeça, está constipado, tem “desarranjos intestinais”, vai ao médico, o médico vem a casa, tem de fazer dieta, faz a lista dos medicamentos, fica com a “telha”, de vez em quando, diz “jazer em estado comatoso” e afirma a sua vontade de largar tudo e de se ir embora 102 para o pé dela.

Escrever a dor e a doença é uma característica do discurso amoroso. Temo-lo encontrado em outros acervos 103 . Os sujeitos amantes elaboram um mito de dor que resulta em angústia, no sentido que Roland Barthes lhe dá:

“O sujeito apaixonado, por esta ou aquela contingência, sente-se arrastado por um medo de um perigo, de um mal, de um abandono, de uma alteração – sentimento que exprime pelo nome de angústia” (Barthes, 1977:38).

É o medo de que o outro se perca de si, exigindo, deste modo, de forma mais ou menos clara, que passe a viver em função da preocupação que lhe tem, que ocupe o seu espírito com a presença do outro.

Cândido expressa o medo de a perder, usando de estratégias narrativas que visam ocultar a sua verda- deira intensão. Revela-lhe, então, conversas de outras pessoas que dizem tê-la visto a divertir-se, explican- do-lhe que não, que não tem ciúmes, mas… E é dentro desta conjunção adversativa que mora o medo e a instrução.

Conta-lhe a angústia de um pesadelo 104 em que ela tinha fugido com outro, mas sublinha-lhe a confiança

99 “Estou louco por estar apaixonado, não o estou por poder dizê-lo, desdobro a minha imagem: insensato aos meus próprios olhos (conheço o meu delírio), simplesmente despropositado aos olhos de outro a quem conto calmamente a minha loucura: consciente desta loucura, alimento a conversa sobre ela” (Barthes, 1977:186).

100 Carta de Maria de 2/8/927: maço 3, doc. 30.

101 Carta de Cândido, s/d: maço 3, doc. 13.

102 “(…) tenho estado com uma disposição terrível. São dos tais dias em que perco a coragem: Nem imaginas o desânimo que sinto, dá me vontade de mandar os livros e tudo para casco de rolhas, meter-me num vapor e ir-me embora”. (Carta de Cândido de 2/4/928: maço 11, doc. 110).

103 Cf. Cartas no Intervalo da Guerra, CEHA, 2015; “Tens saudades minhas?” (em preparação).

104 “(…) j’ai eu cette nuit un cauchemard horrible. Tellement horrible que je me suis éveillé encore tout angoissé. (…) on me dit que tu étais parti à S. Miguel

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que, aliás, é apanágio desta relação. E escreve-lhe. “Pour calmer mon esprit”, explica-lhe ele, porque as cartas têm também esta função balsâmica, no sofrimento.

Ele quer que Maria saiba da dor que sentiria se, por um qualquer motivo, ela o abandonasse. Ele quer que ela saiba que, se ele está longe, é porque a ama, é por ela, é um sacrifício em nome do amor que lhe tem:

“(…) j’aurais bien du chagrin si je voyais que tu ne m’aimais plus (…) Ce serait bien malheureux de ne pas aimer qui t’aime tant, qui a fait le sacrifice de venir étudier aussi longtemps pour pouvoir t’avoir comme sa femme 105 “.

O resto é solidão. A que o amor confere aos amantes. A que é preciso dar conhecimento a quem se ama:

Não ter uma pessoa de quem se receba um carinho, uma palavra de alento, nada! 106 ”, ou ainda quando o que falta é demasiado longe, “(…) j’ai besoin d’avoir quelqu’un à coté de moi pour me soutenir et ce quelqu’un ne peut être autre que toi: je t’assure que c’est triste être tout le temps seu.” 107

O resto é desespero. A de não ver o tempo passar. O “je me desespere”, porque a hora de pôr fim ao

sacrifício não chega.

A tristeza é, muitas vezes, aumentada pela alegria dos outros. Maria do Livramento afirma-se, por exem- plo, culpada pelo facto de ter inveja da alegria de outras raparigas (a irmã e Mª de Lourdes):

“(…) et moi, mon petit, je voudrais aussi pouvoir être gaie (…) ravie de ces fêtes (…) quoique je fasse je n’y trouve aucun plaisir, je ne fais que constater une fois de plus comme je souffre de ton absence 108 ”.

Há um momento, nestes discursos, que potencia a dor do outro: a partida. Antecipam essa dor. Sofrem- -na, mesmo antes dela começar a doer. O apito dos barcos que, numa ilha, é sinal de mundo, passa a ter o som amargo da partida – “dans deux mois ce bateau l’emportera pour si loin de moi109 . Enquanto pode, tenta (um pouco em vão) acreditar no milagre. Pode ser que não seja preciso ele ir; pode ser que aconteça qualquer coisa e ele não vá, pode ser.

O discurso amoroso é também feito destas ilusões: “C’est extraordinaire comme on aime à se faire des

illusions, mais je ne parviens pas à me convaincre de ton départ 110 “.

Os primeiros diários (os de Maria, sobretudo) refletem palavras que se disseram ao vivo. Sabemos, por- que ela no-lo diz – o que conversaram e, mais, a forma como (Maria, sobretudo) reage às palavras ditas. Da- mos por nós, uma vez mais, a escutar às portas, a espreitar o casal e a ouvir as suas conversas. (Mea Culpa!):

“Tu me parlais de ton départ et de notre amour d’une façon qui me bouleverserait (…) Comment m’habituer à l’idée que pendant de longs mois je ne sentirai pas ton regard sur moi? “ 111

Maria do Livramento conta os dias. Di-lo. A 14 de outubro de 1927, com a chegada do barco de Lisboa, começa a contagem decrescente. Os dias correm mais depressa e o tempo psicológico toma conta dos dias:

C’est presque fini, mon chéri (…) C’est si triste de se séparer “. 112

A dor do amor derrete a coragem (« mon beau courage d’autrefois que malheureusement m’a presque

avec un autre. J’en ai ressenti une telle angoisse que je me suis éveillé tout de suite et je n’ai pas réussi à m’endormir. (Carta de Cândido de 19/1/928 :

maço 11, doc 9)

105 Carta de Cândido de 19/1/928: maço 11, doc.9.

106 Carta de Cândido de 20/1/929: maço 12, doc. 9.

107 Carta de Cândido de 12/2/928: maço 11, doc. 11.

108 Carta de Maria de 5/4/928: maço 9, doc. 13.

109 Carta de Maria, 3/8/927: maço 3, doc. 30.

110 Carta de Maria de 6/8/927: maço 3, doc. 30.

111 Carta de Maria de 13/8/927: maço 3, doc. 5

112 Carta de Maria de 15/10/927: maço 3, doc. 21.

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complétement abandonné “ 113 ). As lágrimas tomam conta do discurso. São ditas por ela. Foram comprovadas por ele: “j’ai été faible jusqu’au point de ne pouvoir retenir mes larmes devant toi 114 ”.

ne pouvoir retenir mes larmes devant toi 1 1 4 ”. (De Maria : maço 3,
ne pouvoir retenir mes larmes devant toi 1 1 4 ”. (De Maria : maço 3,

(De Maria : maço 3, doc. 18)

Cândido também sofre com a partida: “Je t’assure que ce départ a mis mes nerfs dans un tel état que la plus petite chose peut provoquer une détente 115 . Apesar de, naturalmente, lhe doer a dor dela, perturbar-se pelo facto de ela estar a sofrer, há um certo comprazimento nessa angústia: se ela sofre é porque o ama. E isso é bom.

“Encore hier quand on s’est dit au revoir je te voyais là toute penché sur moi et je sentais que tu m’embrassais malgré la distance qui nous séparait, et toute la ten- dresse que tu avais dans ton regard et dans tes paroles et encore ces larmes que je devinais dans tes yeux, tout cela m’a bien troublé, mais en même temps ça m’a fait plaisir car c’est encore une preuve – dont je n’avais pas besoin, d’ailleurs – de tout ce que tu m’aimes 116 “.

Ao partir, Cândido deixa os seus olhos presos na impossibilidade de a consolar . Escreve-lhe, já de Angra, a caminho de Lisboa:

É ele que parte. Tem novos desafios pela frente. O horizonte revela-se o princípio de outra coisa, diferente, onde terá de sobreviver sem a presença dela, mas com a noção de que um outro mundo se há de abrir. Cândido tem objetivos traçados, com clareza.

É ela que fica. À espera. Tecendo a vida à espera que ele regressa para cumprir o prometido. É Penélope que aguarda o tempo em que Ulisses possa regressar das suas aventuras. Na teoria barthesiana do discurso

113 Carta de Maria de 15/10/927: maço 3, doc. 21.

114 Carta de Maria de 15/10/927: maço 3, doc. 21.

115 Carta de Cândido de 11/10/927: maço 3, doc. 23.

116 Carta de Cândido de 16/10/927: maço 3, doc. 23.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (Maço 11, doc. 2) amoroso 1 1 7 , é a

(Maço 11, doc. 2)

amoroso 117 , é a mulher que, historicamente, suporta as palavras da ausência, são as palavras dela que choram a perda do amado. Mas Cândido é um homem apaixonado. E há de escrever, também a dor e a saudade, a ausência dela, do olhar dela, das mãos dela, da sua voz.

a ausência dela, do olhar dela, das mãos dela, da sua voz. (maço 12, doc2) 117

(maço 12, doc2)

117 “Historicamente, o discurso da ausência é suportado pela Mulher; (…) É a Mulher que dá forma à ausência, elabora a ficção, pois tem todo o tempo à sua disposição (…). (…) todo o homem que fala da ausência do outro declara-se do lado feminino: este homem que espera e que sofre está miraculosa- mente feminizado. Um homem não é feminizado por ser invertido, mas por estar apaixonado” (Barthes, 1977: 52,53).

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“(…) o meu moral no dia do embarque e ainda hontem não era muito de gabar, a tal ponto que deu nas vistas. Não era para admirar. Deixei-te por uns meses crescidos. Durante eles não te tornarei a ver, não terei mais a minha mãozinha e do mesmo modo fico sem a esperança de receber um petit gros, lá de mez a mez. Adeus con- versas até ás 10 da noite, em noites com e sem lua! (…) Eu levo isto em ar de brin- cadeira mas tu sabes bem o que no fundo eu sinto (…) um grande desgosto com a nossa separação 118 ”.

Este soluço é transversal a toda a correspondência, não obstante, um e outro, ocuparem os seus dias, de forma a minimizar, o mais possível, a sua angústia. Como prova desta situação, os domingos. Nos diários de Cândido e de Maria do Livramento, são os dias mais difíceis de passar. E sofrem, na lonjura do outro, “pois isto vai se tornando cada vez mais difícil de levar só a cruz 119 ”.

A dor do outro só é aplacada quando o vapor chega e, com ele, notícias do lugar onde mora o coração.

Ou então, quando os olhos se pousam nos retratos 120 que enviam e que ajudam a ilusão da presença.

Do ciúme

“Conheço muitas esposas Com marido ciumento Tal não te acontecerá Maria do Livramento” 121

A figura do ciúme faz parte do discurso amoroso, na medida em que de, acordo com Littré que serve de

epígrafe a Roland Barthes, é o “sentimento que nasce do amor e que é produzido pelo receio de que a pessoa

amada prefira o outro” (Barthes, 1977:77).

Ora, nestes diários, o ciúme é um assunto pouco tratado. A relação entre Cândido e Maria do Livramen- to terá naturalmente de ser estruturada com base na confiança e de algum espaço par poderem tomar as decisões que cada um considerar certa. Falando de outros namorados em situação semelhante à sua – “lui n’a pas de position pour pouvoir se marier” - Cândido aproveita para lhe dizer aquilo que , de modo nenhum, quer que aconteça: “voilà un conseil pour toi: comme je ne peux pas me marier tout de suite, tu as la liberté de faire ce que tu vaudras 122 “.

Conhecem-se um ao outro, de forma a perceberem que os dois têm uma vida sociocultural intensíssima, quer nos Açores, quer no continente; que têm amigos e compromissos. O facto de se terem comprometido com a verdade leva-os a contarem um ao outro onde foram, o que fizeram, com quem estiveram. Cândido, por exemplo – o facto de ser homem confere-lhe, obviamente, outras liberdades – não se coíbe de contar à noiva, quando sai sozinho com outras mulheres, vai a Sintra, ao teatro, a um qualquer concerto. E pede-lhe que faça o mesmo.

Só identificamos o ciúme num diário de dezembro de 1928, quando ela lhe conta os planos de passar o

118 Carta de Cândido de 20/10/928: maço 12, doc. 2.

119 Carta de Cândido de 24/4/928: maço 11, doc. 17

120 “Quand tu seras trop triste regarde un peu mon portrait et pense que je t’aime bien tendrement, que tous les jours je prie le Bon Dieu pour nous, que je serais une petite femme bien tendre, amoureuse, que nous serons infiniment heureux “ (Carta de Maria de 1/3/928 : maço 9, doc. 10).

121 Carta de Cândido de 4/2/930: maço 5, doc. 20.

122 Carta de Cândido de 19/2/928: maço 11, doc. 10.

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Carnaval em S. Miguel, sabendo que, lá, terá muitos bailes e muitos convites para festas. Cândido reconhece o seu ciúme, reflete acerca dele, chama “pedido pueril” ao sugerir-lhe que não vá e pede-lhe desculpa pelo facto de ter tido semelhante sentimento.

“Tenho muito gosto que te divirtas e apareças. Estamos separados porque assim é necessário (…) não há razão nenhuma para nos enclausurarmos como se um des- gosto irreparável nos atingisse” 123 .

Cândido chega mesmo a brincar, ao escrever acerca de um Sr. Antão, um bom partido 124 , acrescentando

que, com ele, Maria não precisaria de esperar cinco anos para se casar. Diz-lhe que quer saber todos os pre- tendentes dela. Conta-lhe das meninas que o gostariam de ter como noivo, provoca-a: se tem de se preocu-

par, se tem rivais, “com esse bom gosto e essa carinha de Sainte (Nitouche ? e ainda por cima com a veia poética a trabalhar…” 125 ?

)

Maria responde à provocação do noivo. Usa, ela própria, as palavras para o fazer :

do noivo. Usa, ela própria, as palavras para o fazer : Diz que se vinga por

Diz que se vinga por causa dos ciúmes que tivera por causa da Alice, que ela achava que estaria inte- ressada nele… Brinca, claramente, com a situação, usando, para tal, os sublinhados, a pontuação excessiva…

No discurso destes textos, portanto, o ciúme não será uma figura muito cuidada. Talvez não seja preciso. Talvez o amor ultrapasse, neste caso concreto, o medo.

Da recordação

“je voudrais emporter avec moi le plus de souvenirs possible e je t’assure que rien qu’à penser à nos rendez-vous et qu’évoquer ces souvenirs-là, je deviens tout à fait fou de toi 126 “.

No discurso amoroso, a recordação traz ao presente lapsos do passado. A memória dos tempos felizes ou de momentos em que, juntos, terão descoberto rasgos de felicidade - “Tive a felicidade de ver um cantinho do céu e não posso lá entra. 127

123 Carta de Cândido de 27/1/929: maço 12, doc. 10.

124 Carta de Cândido de 11/2/928: maço 11, doc. 11.

125 Carta de Cândido de 27/1/929: maço 12, doc. 10.

126 Carta de Cândido de 21/8/927: maço 3, doc. 24.

127 Carta de Cândido de 16/8/927: maço 3, doc. 24.

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Nos dias em que as cartas ainda não resultam da distância, mas com o dia da partida já à vista, Cândi- do 128 afirma querer guardar todos os momentos, colecionar recordações para poder ir buscar mais tarde, para poder sonhar com elas, como faz quando está sozinho.

Ir à procura da memória de momentos felizes é típico dos momentos infelizes. Escrever isto numa carta de amor, é assumir a imperfeição dos dias sem o outro. É uma vez mais dizer que a vida sem a presença do amado é incompleta. O dizer “sinto a tua falta” significa, na gramática deste tipo de texto, “quero que sintas a minha”. Recordar e escrever a recordação é uma forma de fazer o outro recordar também e, deste modo, manter intacta a conexão.

Há, ainda outra coisa: os objetos que, de algum modo, estiveram na mão do outro, os presentes amo- rosamente pensados 129 . Pelo aniversário de Cândido (13 de agosto), Maria manda-lhe um porta-retratos. Cândid o beija a carta 130 e o pacote como se se tratasse dela. Cândido oferece um anel a Maria do Livramento. Como se fosse de noivado. Para que se lembre dele. Mesmo que não o use (não poderia, não estavam noivos, namoravam ainda às escondidas, que o usasse quando pudesse ou quando não houvesse perigo de o fazer), será em Cândido que ela pensará sempre que o olhar, que tocar nele, que o beijar.

Não deveria ter sido por acaso que Maria tenha guardado um envelope onde terá vindo um livro por ele enviado.

um envelope onde terá vindo um livro por ele enviado. (Maço 9, doc. 1) Só amor

(Maço 9, doc. 1)

Só amor permite organizar a vida dos amantes separados em torno da memória: dos encontros, dos instantes felizes. E, usando a fórmula de Ricoeur, “lembrar para não esquecer”. A recordação amorosa não é,

128 Carta de Cândido de 21/8/927: maço 3, doc. 24.

129 « (…) o objeto metonímico é presença (gerando a alegria) ora é ausência (gerando a angústia)”: Barthes, 1977:208.

130 “je lui ai donné un b. (…) comme si c’était toi) - Carta de Cândido de 12/8/927 ( maço 3, doc. 24).

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então, um simples registo factual (Furtado, 2008:50, 51). Ela transforma esses episódios em capítulos de uma história que há de ser contada, no futuro.

Dos (re)encontros

As cartas não contam como foram. Não se sabe o que disseram um ao outro, o que sentiram, o que fizeram. As cartas, porém, permitem-nos conhecer o tumulto da espera, a antecipação do momento em que Maria do Livramento e Cândido se encontram, depois de nove meses de separação – “pendant 5 ans, on n’au- ra que deux mois chaque année. Deux mois de bonheur pendant tout une année c’est vraiment très peu 131 “.

A espera é penosa, pelo que é a antecipação do regresso 132 que ajuda a passar o tempo que é contado e descontado: faltam… meses para as férias; faltam … meses para estarem juntos. Cândido explica o motivo da ansiedade - “preciso de ir aí buscar “calor” junto de ti, que é como quem diz coragem e incitamentos para continuar133 que quererá dizer, uma vez mais, sem ti, isto não tem qualquer sentido.

As saudades apertam desde o princípio. Em janeiro já imaginam o encontro do verão. Talvez ela lhe mande um bolo todos os dias, para mostrar as suas artes culinárias 134 . Talvez ela consiga antecipar o regresso. Talvez.

Barthes (Barthes, 1977:133-136) explica que existe uma cenografia da espera. O apaixonado sonha-a, manipula-a, imagina o momento em que ela terá fim, prepara-a como se se tratasse de uma peça de teatro.

fim, prepara-a como se se tratasse de uma peça de teatro. (Maço 11, doc. 21) Cândido

(Maço 11, doc. 21)

Cândido e Maria imaginam e antecriam o momento do reencontro: “já estou a ver a tua cara quando me vires aí de plantão em frente da tua janela (…)135 . O noivo tinha-lhe mentido quanto à data do regresso:

esperava poder apresentar aos teus olhos alguma coisa melhor do que uma carta pois queria apresentar-te

131 Carta de Maria, de 10/9/927: maço 3, doc 21.

132 “C’est déjà heureux d’attendre 6 mois pour aller te revoir et rester près de toi pendant 3. Vois-tu, ces 3 mois me feront l’effet que faisaient ces petites pro- menades à « caramanchão“ (Carta de Cândido de 19/12/927 : maço 11, doc. 7.

133 Carta de Cândido de 23/4/928: maço 11, doc. 17.

134 Carta de Cândido de 31/1/928: maço 11, doc. 10.

135 Carta de Cândido de 11/6/928: maço 11, doc. 21.

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o autor dela, em pessoa 136 ”. Os dias de se verem, de estarem um com o outro, fazem esquecer os dias de espera.

Custa-lhes, depois, a partida. Não sabem dizer-se adeus. Tudo volta ao princípio. Até que chegue o gran- de dia, sonhado e esperado pelos dois, muitas vezes, contra toda a esperança.

Da manipulação amorosa

“O amor é mudo, só a poesia o faz falar”

(Novalis)

O discurso amoroso é, no fundo, um jogo de sedução. Escreve-se amor, para se ler amor. Escreve-se sau- dade, para fazer saudade. Escreve-se beijo, para se receber beijo. O grande objetivo do enunciador é chegar ao coração do seu interlocutor, ele próprio, enunciador, também.

Segundo a gramática de Barthes que temos seguido para analisar estes textos, “o discurso do amor não está desprovido de cálculos” (Bartjes, 1977:111).

Cândido é mais hábil na construção destes documentos E vai dizendo o que pensa acerca das coisas e da vida, construindo, deste modo, a imagem que Maria terá dele e, sobretudo aquilo que ele pretende que ela seja para ele, enquanto noiva, esposa e dona de casa. E deixa claro que a decisão de partir para Lisboa, para estudar e voltar como Sr. Dr. é por ela.

Cândido assume-o, desde o princípio: que é ele que tem derretido o seu coração de gelo 137 ; que gostava que ela fosse menos fria e menos orgulhosa, que está contente porque ela decidiu aprender a cozinhar 138 . Esta, por sua vez, fá-lo acreditar que é por ele e por causa do amor que lhe tem que faz o que (muitas vezes) lhe traz algum sentimento de culpa, que aprende a fazer o que nunca pensou aprender, que mudou, apenas para agradar ao noivo e para não lhe dar desgostos.

Esta “manipulação” acontece quando falam de outras pessoas, dos defeitos de outras pessoas, de ami- gos desavindos, por não terem sabido comportar-se à altura do outro, por não saberem respeitar a vontade de quem diziam amar.

Na entrada do diário de 23 de dezembro de 1927 139 , Maria copia parte de um artigo que encontrara numa revista antiga de «Brasil Portugal“, “Os Mandamentos da Esposa”, escritos pela rainha da Roménia:

que a mulher nunca comece uma discussão, mas que, se achar que tem razão, lute, de forma a “elevar-te na opinião do teu marido”; que nunca se esqueça de que casou com um homem não com um Deus; que não fale muito dinheiro ao marido, “procura arranjar-te com o que ele te dá”; que o cative pelo estômago, para lhe chegar ao coração, “com manjares muitos bem condimentados”; “de vez em quando (…) mas não muito amiúde, deixar-lhe-ás a última palavra”; “serás os jornais por inteiro sem te limitares às histórias da sociedade e escândalos”; “não serás descortês” nas discussões “não te esqueças de que algumas vezes o julgaste pouco menos que um semi deus”, entre outros…

O que Maria pretende, no fundo, é que Cândido reaja: “Je suis sure que esse d’accord avec quelques-

136 Carta de Cândido de 11/6/928: maço 11, doc. 21.

137 “Car il faut que tu m’aimes (…) pour que tu réussisses à transformer ton caractère comme tu l’as fait “. (Carta de Cândido de 14/10/927 : maço 3, doc.

23).

138 “Pour te faire heureux j’essaierai de devenir une bonne cuisinière “ (Carta de Maria de 15/11/927 : maço 9, doc. 2).

139 Maço 9, doc. 5.

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uns… mais les autres je ne crois pas qu’ils te plaisent”.

E ele reage : primeiro diz que concorda com todos. E sublinha “tous”. Depois, no dia seguinte, utilizando uma expressão que é frequente nas suas cartas, “revenons à nos moutons 140 ”, vai dissecando a matéria, qua- lificando-os de “sages” e aproveitando para lhe explicar que não é um deus, que tem fraquezas e que há de precisar do seu perdão.

que tem fraquezas e que há de precisar do seu perdão. (maço 11, doc. 9) Já

(maço 11, doc. 9)

Já ele tinha andado a ler um livro intitulado “Nos Caminhos da vida”, de um autor americano que en- sinava a viver a vida de casado. Cândido, numa espécie de resposta ou de despique amoroso, transcreve os 10 mandamentos que esse autor propõe: nunca se opor à vontade da esposa; cumprir “gostosamente” os deveres para com ela; nunca ser rabugento; nunca a olhar com maus olhos; providenciar para que os seus desejos não a repugnem; estimular a sua piedade; ajudá-la a suportar a sua cruz; dissimular os seus defeitos; protegê-la e defendê-la em todas as circunstâncias; rezar por ela, concluindo, como se se tratasse de uma moral: “Assim, mercê de Deus, seremos sempre felizes 141 ”.

Acabam, deste modo, de dizer o que esperam um do outro. As histórias que contam terão, também, naturalmente, essa função. Ele não quer que ela seja como M.D. Ela quer continuar a confiar nele.

Às vezes (poucas, porque Maria do Livramento sabe escrever o que ele quer ler e o namorado tem a consciência de que “as mulheres transformam os homens em seus escravos 142 ”), diz que não gosta disto ou daquilo 143 : que não quer que ela ande a galope, nos passeios a cavalo ou que não gosta que ela use sapatos altos.

“Eu não me importo, mas…” – talvez se possa definir deste modo, a “manipulação” amorosa destas mis- sivas de amor. Fazem-no os dois.

Da matéria e da essência

Estes diários-cartas reúnem, deste modo, aquilo que se deve a um discurso amoroso. O comportamento discursivo de Maria do Livramento e de Cândido Forjaz segue o ritual da conquista e da manutenção da pai-

140 Cartas de Cândido de 11/1/928 e de 12/1/928: maço 11, doc. 9.

141 Carta de Cândido de 25/10/927: maço 11, doc. 4.

142 Carta de Cândido de 3/3/928: maço 11, doc. 12.

143 Carta de Cândido de 24/11/928: maço 12, doc. 5.

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xão à distância: escolha, aproximação, desejo, sedução, exagero, bom humor, atenção, elevação.

Haverá, ainda, outros “fragmentos” para inventariar. Há linguagens ocultas que se entreveem nos sub- linhados, na pontuação, na forma como as folhas são ocupadas, na justificação encontrada pelos enunciado- res-sujeitos-amantes para escreverem a lápis, a caneta, a tinta vermelha, para mandarem retratos, nesta ou naquela ocasião.

Objetivo: que esperem um pelo outro, até o dia em que o casamento dará corpo ao imaginário amoroso dos contos de príncipes e de princesas: “casaram-se e foram felizes para sempre”.

Entretanto, enquanto o dia não chega e, com a proximidade do regresso definitivo, a vontade de escre- ver é menor, escrevem-se beijos. Corporizados: “Tiens! Tiens! Tiens encore144 !

144 Cf. Carta de 25/11/927.

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DA HISTÓRIA DOS DIAS

Saudades da nossa terra Desta “Ilha dos Amores” Sempre bela entre as mais belas Das nove ilhas dos açores (…)

E vendo-a, fará ideia O povo de Portugal Da beleza das mulheres De Angra, a Nobre e Leal

(Versos de Maria: 6/4/932)

O s diários trocados entre Cândido e Maria são miosótis quotidianos arquivisticamente guarda- dos, por entre juras de amor e sonhos de um casamento feliz.

Foi graças a uma ideia de Maria do Livramento de registarem, um para o outro, tudo o

fazem, tudo o que veem, tudo o que sentem, que se conhece os quotidianos de dois jovens angrenses de classe media alta, quer na terra – e há informações da Terceira e de S. Miguel – quer em Lisboa, pela boca de Cândido que vem estudar para a Faculdade de Letras, quer de Maria do Livramento, nos anos

30, aquando de uma viagem ao continente.

Enquanto juntos, durante alguns meses de 1927, sobretudo depois de saberem que Cândido tem de sair da terra para se fazer doutor e, desse modo, arranjar colocação efetiva e poder casar, sabe-se dos dias comuns: De Maria, que vai à missa, que vai à costureira, que vai ao ténis, ao cinema, ao teatro, ao “garden party”, ao chá a casa de alguém, que passeia a cavalo, que vai às corridas de toiros 145 , que conversa com as amigas, que borda, que tem aulas de inglês ou de italiano, que aprende a cozinhar, que participa em pedi- tórios a favor dos tuberculosos 146 . De Cândido, da vida em Lisboa, dos teatros, dos concertos, da faculdade, do estudo, das explicações, dos professores, das viagens, dos trabalhos que tem de fazer, dos textos que escreve…

Abre-se, deste modo, uma janela para a forma como se passam os dias, nos anos 20 e 30 do século XX,

145 “Acabo de chegar da Terra Chã, onde fui ver as touradas. Segundo o costume os touros não são grande coisa, mas ainda assim, este ano foi dos melhores. Felizmente não houve quinto toiro!!!” (Carta de Maria de 5/6/933: maço 2, doc. 5.

146 Carta de Maria; 2/6/932: maço 8, doc.24.

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mesmo que, pelo caminho, se cruzem revoltas, que tenha lugar o reviralho, que nos sejam apresentados no- mes que a História de Portugal colocará em maiúsculas.

Em Angra do Heroísmo, a vida de Maria do Livramento segue o costume. Os dias passam iguais.

Maria do Livramento segue o costume. Os dias passam iguais. (Maço 10, doc. 21) Cumpre os

(Maço 10, doc. 21)

Cumpre os dias do modo habitual, com uma ou outra festa que conta ao namorado, com pormenores de toilettes, coscuvilhices dos amigos, alguns escândalos, conversas escutadas. Conta-lhe o que sofre pelo facto de ter programas sem ele ou do quanto se diverte porque sabe que ele gostaria que assim acontecesse.

As cartas de Maria abrem, deste modo, um caminho para o conhecimento das formas como se organi- zam os dias, na Terceira. Um percurso a fazer, naturalmente.

No intervalo que dura esta correspondência, Cândido (e nós, agora) acompanhou o modo como a Ter- ceira reagiu à Revolta e, de uma cidade pacata onde pouco acontece, Angra, transforma-se num lugar onde o medo impera, onde os bens faltam, onde a vida fica suspensa e as ruas se despem de gente civil. No Monte Brasil, o por-do-sol continua lindo: “estava uma coisa maravilhosa e tive a (…) sensação de pequenez, de me sentir esmagada por toda aquela beleza 147 .”

Angra altera a sua face, ao longo destes anos: a Praça Velha começa a ser restaurada, a iluminação da

147 Carta de Maria de 14/1/932: maço 8, doc. 13.

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita (Maço 8, doc. 24) cidade é inaugurada, se bem que adiada,

(Maço 8, doc. 24)

cidade é inaugurada, se bem que adiada, por causa da Revolta de abril de 1931, o coreto enche-se de música depois do jantar, no Pico das Cruzinhas já se iniciam os trabalhos de um padrão comemorativo do Quinto Centenário:

Cândido também conta à “sa petite femme” o modo como os dias correm. Prometera-lhe e cumpre a sua promessa. Frequenta o Curso de Filologia Românica, prepara-se para o exame de estado e estagia em Lisboa.

Sobre esse quotidiano, escreve. Com pormenores. Pedindo desculpa quando, por uma qualquer razão, salta um dia ou tem de interromper a sua escrita, porque o chamam para jantar, porque está muito cansado, porque a luz faltou…

A primeira viagem marca um momento importante na escrita destes correspondentes-parceiros-aman- tes. Será, assim, encarada como uma espécie de ponto zero.

Cândido sai dos Açores com a mãe que só se levanta no Funchal. Essa escala na Madeira 148 vem trazer muita “movida” ao Lima: há excursionistas que tomam conta do barco e ocupam todas as cadeiras 149 ; há Miss Elder, a “aviateur-femme” que faz a viagem com ele e que é descrita como um homem, “avec sa casquette, ses cheveux coupés et la cigarrette au bout des lèvres”, que dança ao som da vitrola de um rapaz, de 18 ou 19 anos, que entrou na Madeira, que tem um ar de desdém e que só bebe champanhe.

De acordo com o relato de Cândido, o Lima leva estudantes da Madeira para Lisboa. E conta a Maria as brincadeiras dos jovens que seguiam para o continente, para as universidades. Numa espécie de praxe, “des

148 Carta de Cândido de 23/10/927:maço 11, doc.3.

149 “Tous les excursionnistes avaient pris d’assaut tout le convez et la salle, Ils s’asseyaient presque les uns sur les autres et moi, ayant loué 2 chaises au départ de Terceira ne m’y suis assis que pendant quelques minutes “ (Carta de Cândido de 23/10/927: maço 11, doc.).

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EuEu tenhotenho umauma cartacarta escritaescrita Ruth Elder (

Ruth Elder (http://www.ctie.monash.edu.au/hargrave/images/elder_2_500.jpg)

étudiants de Madeira (les vieux étudiants) voulaient couper les cheveux aux jeunes qui venaient des Açores 150 “. Cândido já estava preparado para mostrar a sua identificação como professor do liceu. Explica, então, que se tratava de uma “blague”, um modo de se divertirem ou de criarem pontes, sobretudo com aqueles que – talvez pela primeira vez – saiam das ilhas para o continente.

Cândido conta tudo: das tuas de Lisboa e da procura de um quarto para viver, da instalação da mãe num hotel, das tias e das amigas que, eventualmente, os podia apoiar naqueles primeiros tempos

Já em Lisboa, percorremos com ele as ruas, à procura de um quarto 151 para viver, já que instalou a mãe provisoriamente num hotel.

De Lisboa, o relatório para Maria do Livramento englobava tudo: a ”pândega”, as solidões, as visitas, as compras, os gramas engordados ou perdido, as obrigações, a comida – desde almoços “bestiais” de sardi- nhas, carne guisada, batatas fritas, etc. 152 , a lanches com massa sovada e doce de batata doce 153 , por exemplo, sobretudo quando vinha alguém dos Açores e trazia um bocadinho da terra para matar saudades.

Falam dos dias – os comuns e os extraordinários. Falam do pensamento e das mentalidades. A dele e a dos outros, contada a Maria para que ela pudesse avaliar…

150 Carta de Cândido de 24/10/927: maço 11, doc. 4.

151 Preço por mês, 450$000, com pensão completa. (Cf. Carta de Cândido de 3/11/927).