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show

O Teatro Mágico POR PIERO VERGÍLIO

infinitas possibilidades,
FOTOS VINÍCIUS CAMPOS

ao alcance de todos
Teatro Mágico está cres- depois, já havia se tornado uma Música para baixar
cendo porque as pesso- das mais baixadas. Mas, neste palco, a missão do palhaço
as estão colaborando. não é apenas encantar. Ao mesmo tem-
Elas nos ajudam a Bagunça organizada po em que ele diverte e faz rir, estimula
compor, e podem tirar Fernando lembra que essa proposta discussões importantes, permeadas com um
fotos e gravar vídeos existe desde o surgimento do grupo, com- ativismo ora ferrenho, ora poético. “O Te-
para o nosso site. Para posto atualmente por 12 pessoas. “A gente atro Mágico não pode simplesmente achar
nós, essa interação começou fazendo sarau; que, assim como a que é suficiente pelo que já está fazendo.
é muito importante: internet, tem uma natureza essencialmen- A gente busca coisas novas, está sempre se
o público alimenta a te colaborativa: alguém chega com uma reciclando e se agrupando a causas sociais:
trupe e a gente responde. poesia, outro com uma música, então um vai movimento estudantil, em prol do meio
É essa a fórmula que faz somando e potencializando o talento e o tim- ambiente, dentre outros”, analisa.
acontecer”. É desta maneira bre do outro. E isso jogado em cima do palco Numa época marcada pela convergên-
que Fernando Anitelli resume a trajetória de se transforma nessa bagunça organizada que cia de mídias, O Teatro Mágico é símbolo
“O Teatro Mágico”, projeto que teve início em é O Teatro Mágico”. de vanguarda ao debater, na rede, questões
2003, ano em que ele gravou seu primeiro CD, E ele tem razão. O espetáculo tem como a reforma da lei de direito autoral e
“O Teatro Mágico: Entrada para Raros”. uma base, mas também há espaço para o o movimento MPB (Música Para Baixar).
Inicialmente um álbum solo – cujo título é improviso. “A trupe tem ideia de onde quer Sob essa perspectiva, o Twitter tornou-se
referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, chegar, mas não sabe de que maneira isso decisivo para a difusão de ideias e mo-
do escritor alemão Hermann Hesse – pos- vai acontecer. Se alguém na platéia pede, de bilização de pessoas. “A internet é uma
teriormente acabou se transformando na brincadeira, ‘toca Raul [Seixas]’, a gente vai ferramenta capaz de fazer isso, pois elimina
Companhia Artística. “Quando eu li sobre lá e ‘Pluct – Plact – Zum’. Aí um palhaço a presença do atravessador cultural, aquele
o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era surge do nada, uma boneca aparece fazendo que vai cobrar mais para o público ter
justamente aquilo que eu gostaria de montar: uma coisa diferente, enquanto brincamos de acesso ao artista, autor ou compositor.
um espetáculo que juntasse tudo numa coisa roda ou ciranda”, descreve. Podem piratear, jogar no YouTube, fazer
só, malabaristas, atores, cantores, poetas, Alguns minutos após o encerramento download: o que a gente quer é estar cada
palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha de nossa conversa – Fernando recebeu a vez mais ao alcance de todos”, incentiva.
imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é reportagem da ZZZ no camarim, momentos O discurso audacioso e pioneiro em de-
um lugar onde tudo é possível”, conta. antes de subir ao palco na Festa Junina de fesa da música livre e da arte independente
Se as possibilidades são infinitas, a meta, Votorantim – este jornalista pôde comprovar fez com que Fernando resistisse ao assédio
no entanto, é uma só: estabelecer uma cone- tal afirmação. Era bonito e também conta- das principais gravadoras do país. Certa
xão transparente entre o público e a obra. Para giante observar o envolvimento das pessoas vez, ao ser questionado sobre essa decisão,
alcançar esse objetivo, Fernando defende que com as coreografias, realizadas em perfeita usou uma analogia bastante interessante
é essencial que o artista fique cara a cara com sincronia, ao mesmo tempo em que assistiam para explicar seu ponto de vista. “Eles
as pessoas, pois, dessa maneira, elas criam encantadas as performances circenses. oferecem uma Ferrari e você só tem uma
em si próprias uma fidelização – que o cantor Fazendo valer a premissa de que a bicicleta. Mas, como eu acredito no ET,
classifica como fabulosa – porque sentem que poesia prevalece, a Companhia explorava o faço minha bicicleta voar”.
o projeto não está sendo empurrado “goela lúdico, brincando com os conceitos de músi- Partindo deste princípio, O Teatro
abaixo”. ca, teatro, circo e fábula. Para chegar a este Mágico segue seu caminho, custeando, sem
De fato, a participação da “platéia” não resultado, Fernando conta que o primeiro patrocínio, as gravações de suas músicas
fica restrita a um discurso teórico. Em agosto passo é o ensaio somente com os músicos. em estúdio. Mesmo assim, a trupe faz
do ano passado, cerca de 400 internautas A seguir, ele leva uma gravação ao pessoal questão de manter os preços populares de
acompanharam a gravação da primeira versão do circo para ouvirem o CD e explorarem seus produtos (CDs, DVDs, livro, camisetas)
da música “O que se perde enquanto os olhos as possibilidades de cada música. “Todos se comercializados ao final das apresentações
piscam”; transmitida ao vivo pela rede. A can- encontram somente no dia do show: para no stand “Lojinha TM” – montado no local
ção – composta em parceria com os usuários ser mais exato horas antes do espetáculo, dos shows – e também por meio do site do
– foi disponibilizada no site e, pouco tempo durante a passagem de som”, confessa. grupo, além das Livrarias Saraiva e Cultura.
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O Segundo Ato
Atualmente, a trupe percorre o país divulgando o mais novo DVD,
que chegou ao mercado recentemente e foi batizado de “O Segundo
Ato”, mesmo nome do segundo CD. Produzido em parceria com o
Itaú Cultural, possui o selo “Creative Commons” – que permite a
A Companhia explora o livre circulação, exibição, veiculação e cópia das imagens e do áu-
lúdico, brincando com os dio, na íntegra – e é um compilado de uma maratona de apresenta-
conceitos de música, tea- ções realizadas em São Paulo, em maio do ano passado: foram 18
tro, circo e fábula; recen- sessões durante uma semana, sendo três shows por dia.
No repertório, as canções desenham a realidade do país sem disfar-
temente, O Teatro Mágico ces, mas com pitadas de poesia, em meio a arranjos bem elabora-
esteve na Festa Junina de dos: “Cidadão de Papelão” traz à tona “o cara que catava papelão,
Votorantim, onde recebeu sem terno, nem tampouco ternura, à margem de toda rua, sem
a reportagem da ZZZ identificação”. Já em “Pena”, a dificuldade do artista em sobreviver
ao mercado é entoada: há muita “música rara em liquidação”.
“Xanel n°5”, por sua vez, reflete sobre o amontoado de informações
que absorvemos, muitas vezes sem perceber, assistindo aos progra-
mas de TV. Em determinados trechos, ficam

Proposta da trupe é agregar expostas as contradições do país. “O sistema


é nervoso, mas te acalma com a programação

elementos musicais, circenses e


do dia: na tua tela, querem ensinar
a fazer comida uma nação que
não tem ovo na panela”,

de teatro no mesmo palco, sempre registra Fernando, num


dos versos.

com a colaboração do público


Por fim, ele aponta
aquela que julga
ser a principal
contribuição do
seu trabalho. “O legado está justa-
mente naquilo que eu canto ou falo,
CurtaZZZ de O Teatro Mágico

•Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, na minha presença orgânica nas ma-
Fernando Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os nifestações, não somente de uma manei-
13 anos. ra virtual: tem que comparecer, “dar as
•Formado em Comunicação Social, já foi caricaturista de um jornal caras”, participar das oficinas e debater.
diário e trabalhou na produção visual de um banco. Durante esse Acredito que seja essa a questão-chave:
período, ele aprendeu a administrar um negócio. o artista tem uma responsabilidade
• Acumulou ainda a experiência como ator, trabalhando com social gigante e, por isso, deve servir de
diretores como Oswaldo Montenegro, Ismael Araújo e Caio An- exemplo. E esse o caminho que eu
drade, que lhe deram as noções básicas de expressão corporal, procuro seguir”.
domínio de palco e outros elementos de teatro, indispensáveis
em seus shows.
•Foi eleito o Melhor Show Nacional de 2007 pelo guia da Folha
de São Paulo.
•Ainda naquele ano, a trupe foi responsável pelo recorde de público
na Virada Cultural em São Paulo: 40 mil pessoas assistiram ao
show.
•Em junho de 2008, o lançamento do segundo CD, intitulado de
“O Segundo Ato”, foi um acontecimento inusitado: Fernando e
Companhia participaram de uma caminhada pela Avenida Paulista,
com megafone em punho, encabeçando um movimento pacífico
em prol da música livre e dos artistas independentes.
•Anitelli comparece ao Fórum Social Mundial 2009 e é convidado
pelo MST e pela Marcha Mundial das Mulheres para cantar na
cerimônia de recepção aos presidentes: Hugo Chavez (Venezuela),
Fernando Lugo (Paraguai), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa
(Equador).
•Convidados pelo diretor de núcleo Jayme Monjardim, O Teatro
Mágico grava uma participação especial na novela “Viver a Vida”,
da Rede Globo.
•Mesmo disponibilizando todo seu conteúdo audiovisual, livre e
gratuito, na web, a trupe osasquense já vendeu mais de 200
mil cópias do primeiro CD, 80 mil do segundo e 50 mil do DVD
“Entrada Para Raros” – primeiro da banda.
•Além de Fernando Anitelli (voz, violão e guitarra), fazem parte da
trupe: Fernando Rosa (contrabaixo), Nene dos Santos e Miguel
Assis (bateristas), Willians Marques (percussão e malabares),
Galdino Octopus (violino e bandolim), DJ HP (pick-ups e sonoplas-
tia), Kleber Saraiva (teclado), Silvio Depieri (sax e flauta), Rober
Tosta, Gabriela Veiga e Mateus Bonassa (artistas circenses).

O Teatro Mágico na internet: site: www.oteatromagico.mus.br


LINK: twitter: www.twitter.com/oteatromagico
www.twitter.com/Fanitelli (Fernando Anitelli)
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