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[DENTIDADEVIDENTIFICAGAO Histéria © romance: as duas categorias que Baudelaire propée para o retrato pictérico podem ser adotadas para a andlise do retrato fotografico, apesar das ressalvas feitas pelo poeta a imagem técnica, Enquanto historia, o retrato supoe a tradugio fiel, severa minuciosa do contorno e do relevo do modelo. Isso no exclui a possibilidade da idealizagao, ou seja, a escolha da atitude mais caracteristica do individuo © a enfatizagao dos detalhes mais importantes em detrimento dos aspectos insignificantes do conjunto. Enquanto romance, 0 retrato € sobretudo produto da imaginagio, mas nem por isto menos fiel 4 personalidade do modelo, cuja cabega pode estar integrada numa célida atmosfera difusa ou emergir ‘das profundezas de um crepiisculo”.! Acreditando que imaginacio sea fundamental na producio m retrato, © poeta atribui ao retratista uma capacidade divinatéria, uma vez que € sua tarefa adivinhar o que se esconde, além de captar © que se deixa ver. Por isto, nto hesita em considerar o retrato uma manifestagao dupla — simples e complicada, evidente e profunda —, ao atribuir-lhe uma caracteristica precisa: ser uma biografia dramatizada, ou antes, enfeixar “o drama natural inerente a todo homem’. Homem que o pintor deve conhecer e estudar em profundi- dade a fim de torné-lo alvo de uma segunda criagtio, no momento em que 0 evoca na tela? de sem diivida, na categoria do romance que Walter insereve as imagens de Hill, Julia Cameron, Nad: Jos vem cercados de uma aurt que confere plenitucte nga ao olhar, Se a aura é decorréneia da duragio da exposicdo que provocava um acréscimo de luminosidade na imagem, ela nto pode ser, contudo, dissociada da relagao dos modelos de Hill com algo inédito para eles — a objetiva. Diante dela, o modelo mostrava-se reservado ¢ timido. Isolado € estimulado a entrar num estado de concentragao tranqitila, © sujeito oferecia a cAmara um rosto ainda nao contaminado pela relacZo entre fotografia e atualidade, um rosto “cercado por um siléncio, dentro do qual o olhar repousava”.* David Octavius Hill dedlica-se 20 retrato logo nos primérdios da fotografia, preferindo o caldtipo, inventado por William Henry Fox Talbot, ao daguertestipo entao em voga. Como pintor, traz para a imagem fotografica aquelas qualidades plasticas que despertario a atengio de Benjamin: discricao diante do modelo, concepeio sdbria, expressio sintética e uma luminosidade que emerge da escuridao. A luz € a caracteristica fundamental dos retratos que Hill realiza com 0 auxilio do fot6grafo Robert Adamson entre 1843 € 1848; em funcao da cimara utilizada € das tomadas a0 ar livre, sombras poderosas dominam a composigio. Para abrandé-las Hill e Adamson langam mao de uma luz refletida por um espelho céncavo, conseguindo efeitos de claro-escuro, de unidade atmosférica ¢ um certo desfocamento, aos quais no sio estranhas a granulagao e a textura desigual do papel utilizado para a prova positiva A concepeao da fotografia como instrumento auxiliar da pintura, que esti na base do quadro comemorativo da primeira assembléia-geral da Igreja Livre da Escécia, no impede que os mais de quatrocentos retratos realizados em 1843 se diferenciem do painel pelos efeitos tonais, evocadores das atmosferas de Rembrandt e Turner. E sobretudo pela wutoridade espiritual conferida aos protagonistas do évento gracas 2 captacio de tima interioridade que emana do contraste dramatico entre a luz que os banha e a escuridao circundante. ‘Comparado com a naturalidade exibida pelos retratos, o painel final nada tem de sua tensio religiosa. E, nos dizeres de Scharf, “um amontoado de rostos amassados num espago mpossivel, confusamente iluminaco por fontes diversas”, cujas proporge 1 fatura & medfocre. As qualicades plasticas de Hill © Adamson explicitam-se is claramente nos retratos executados no atelié ao ar livre de Calton Hill, no Gemitério de Greyfriars (Edimburgo) ¢, sobretudo, no vilarejo de Newhaven, Seus modelos, captados ‘num ensimesmamento discreto, exibem as marcas da personali- dade individual, enfatizada por formas suaves, por um sentido de composigio cuidadoso, por tons amarronzados quentes suaves € por um poderoso claro-escuro.* A aura, que Benjamin detecta nas fotografias de Hill e ‘Adamson, esta igualmente presente naquelas cle Julia Margaret Cameron. A idéia do retrato como romance € defendida por ela numa carta a John Herschel. Ao buscar 0 desfocamento da imagem, aspira “combinar o real ¢ 0 ideal, sem sacrificio da Verdade pela possivel devocio a Poesia © Beleza". A relacao profunda com 0 modelo € mais um indice desta concepcao. Julia Cameron sente ter um “dever" para com cle, que a impele ‘a registrar “fielmente a grandeza do homem interior bem como as feicbes do homem exterior”, © desfocamento, tio criticado pelos contemporaneos € obtido gragas ao uso de lentes defeituosas, aproxima seus retratos das composicées de Rembrandt; muitas de suas figuras emergem dramaticamente da escuridio. O interesse quase exclusive pela expressiio do rosto € sublinkado pelo papel acess6rio desempenhado pelo vestuirio ¢ pelo fundo. Ao contririo da maior parte dos profissionais atuantes nas décadas de 1860 ¢ 1870, que conferem grande importancia 4 atualidade do modelo, Julia Cameron procura dotar os sujeitos que retrata de uma intérforidade espiritual, de acordo com sua concepeio da fotografia como “a encarnagao de uma prece” ¢, por isto mesmo, distante de toda circunstincia transitéria e anedética.’ © método de trabalho que Baudelaire advogava para.o retratista — relagho empatica com 0 modelo — esta na base da atitude de] Nadar perante a fotografia. Caricaturista € jornalista, converte-se & fotografia em 1853, transpondo para © novo meio aquela capacidade de captar a mobilidade do rosto humano pr6pria do desenhista perspicaz que havia realizado centenas de esbocos para realizar 0 Panteto Nadar (1852-1854). & a configuragio do Pantedo que leva Nadar a interessar-se pela fotografia. Articulado em quatro eixos utores te ltores & poetas; is; artistas plasticos; miisicos —, 0 Pantefo era uma visio satirica das glérias contemporineas, que exigia um longo trabs ho preparatério, © retrato dos personagens era antes desenhado de maneira séria; posteriormente, a partir de seu estudo, Nadar realizava uma série de transformagées até atingir a sétira Essa capacidade de penetrar na interioridade do ser humano transforma-o rapicamente no retratista predileto da Paris inte- lectual. Os mais importantes artistas passam por seu atelié — Honoré de Balzac (1854), Théophile Gautier (1854 ¢ 1857), Gicachino Rossini (c.1856), Gustave Doré (1859), Gustave Courbet (1861), Hector Berlioz (1863), Alexandre Dumas pai (1864), George Sand (1864), Jules Champfleury (c.1865), Jules Verne (1875), entre outros —, atrafdos por aquela “semelhanga intima” que 0 fot6grafo conseguia a0 entrar em comunhao com 0 modelo e formar um jufzo sobre seu carater. Por isso, Nadar estabelece uma distingio nitida entre a propria maneira de fotografar e o retrato banal, que considera lum produto da teoria fotogrifica, Se esta podia ser aprendida uma hora, seguida da aquisi¢io de conhecimentos técnicos durante um dia, © que nao podia ser aptendido era o ‘senti- mento da luz". Cabia ao fotégrafo-artista captar a relagio entre rosto e luz, pois dela derivava a possibilidade de obter “o entendimento moral do sujeito — aquela compreensio instantanea que © coloca em contato com o modelo, 6 ajuda resumi-lo, o ditige para seus habitos, suas idéias e seu carter € Ihe permite produzit nfo uma reprodugao indiferente, (..) ‘mas uma semelhanga realmente convincente ¢ empatica, um retrato intimo”. Nao € improvavel que esta concepcao de retrato seja também tributaria de uma formagao em Medicina, nao levada a termo, que the permitiu adquirir conhecimentos de anatomia Mas 0 que é, de fato, funclamental em sua retratistica € o clima que cria com o cliente, que faz com que este colabore ativamente na construgio de sua imagem. Uma imagem direta © espontinea, apesar do artificio da pose: 0 modelo era colocado geralmente de pé contra um fundo neutro, sob uma numa atitude alerta, congenial aquel n instantineo psicolégico, sublinhado pela gestuali- dade corporal colocada a servigo ca expresso do rosto. Atento observador do ser humano, imbufdo das idéias fisionmicas que circulavam no seu tempo, Nadar concentra no Fost0 a expressio do carter do individuo. Por isto estigmatiza 4 tum uso da fotografia que comegava a difundir-se em meados do século XIX, a propaganda politica. © que escreve sobre a distribuicdo de imagens dos “mercadores de palavreado” denota sua sintonia com aquele que Sekula denomina’o “paradigma fisiondmico”: “Que virtude de atracio podem, pois, atribuir a seus rostos vergonhosos, nos quais florescem todas as baixezas e todas as imundicies humanas, ¢ que exsudam a esqualidez, a mentira ignominiosa, € todos os sinais fisionémicos da falsidade, da cupidez, do peculato, da rapina?"” Nadar no usa, a principio, um recurso como o retoque, @ no ser para corrigir pequenas imperfeigdes técnicas. Inventada pelo suigo Johann Baptiste Isering, a técnica do retoque deixa logo de ser aplicada apenas 2 pintura das pupilas para tormar-se um instrumento de embelezamento do daguerrestipo que, gragas ao acréscimo cromatico, ganhava condigdes de rivalizar com o retrato pictérico € a miniatura. O alemao Franz Hampfstingl inventa posteriormente 0 retoque do negativo, dando inicio a um processo considlerado deletério por Giséle Freund, por despojar a fotografia de seu valor essencial de reprodugao fiel de uma realidade* O retrato daguerreotipico consegue superar o handicap de ser uma obra tinica pela novidade de que era portador, a qual o distinguia do retrato pict6rico — permitir uma visio fidedigna do ser humano em sua ‘verdadeira expressio" A “verdadeira expresso”, de que fala 0 médico € literato norte-americano Oliver Wendell Holmes, & atribuida por Benjamin a0 encontro de dois fendmenos no contraditérios: ima “técnica exatfssima”, capaz de emprestar a seus produtos, 1m “valor magico”, que nio se encontrava mais no. retrato pictorico, £ da pintura, no entanto, que o daguerrestipo deriva suas modalidades de representacao: 0 modelo esti, em geral; sentido e numa pose de meio perfil, recebendo uma ilumi- agio difusa, proveniente de uma clarabéia ou de jane laterais, © primeito fundo neutro — quase sempre escuro —, as ‘nitidez da imagem, € logo substituldo por ados ¢ verdadeiros cenirios com o intuito de produzit pitorescos, Da pintura, o daguerrestipo deriva uma outra aracteristica — 0 formato de 3/4 — que, desde o século XV, inferia individualidade ao modelo. Nao deixa de ser sintomético que os primeiros retratos | fotograficos adotem como parmetro visual uma tipologia estabelecicla no momento da emancipagio do género no ambito pintura. No século XV, da conjungao da generalizagao florentina com o detalhamento flamengo surge um modelo de Felrato de tendéncia internacional, que acaba logo adquirindo lum aspecto serial, assim descrito por Galienne Francastel: | Aptesentado sobre um fundo neutro, é tomado de ts quar aparece cortaclo um pouco abaixo cla 20 penteado. A cara 6 realista, sem excessiva abundancia de detalhes, mas apresenta, ‘em contrapartida, varios relevos sobre os qiiais € jogada u rapido surgimento de elementos decorativos nos primeiros daguerrestipos pode ser igualmente analisado 2 h evolugio do retrato renascentista. Se o fundo neutro permitia realear o individuo, conferia-lhe, contudo, um ar austero. Configura-se entao a idéia de que o homem nao era completo se estivesse dissociado do ambito de sua vida cotidiana, o fo por imagens Curais exteriores ou por representagdes de interiores. Estes clementos nao sto mais importantes que a presenga do sujeito: | © entorno integra-se com os dlemais atributos que caracterizam | ide do modelo, sem chegar a ter uma existéncia | 1e fora dado por Baudelaire. Por que sposta eloquiente a es ‘Um mau carter ado se esconde sob 2 simulagao de uma falsa amabilidade. O cariter queixoso dos sujeitos propensos 4 comiscragio € descoberto co mesmo modo que pelo tom da voz. A ansiedade do esforco para desennigar a testa no pode vencer as rugas bisbilhoteiras. & fraqueza prépria-lo indeciso edo parvo € dificilmente mascarada, mesmo que os bigocles escondam 0 centro da expressao. Apesar dessa proclamagio de fé na capacidade ‘espelho dotado de meméria”, a fotografia é fonte de mer provocadas pelo desejo da clientela de ter uma aparéncia fidedigna e agradivel. Nadar registra em suas mem6rias varios epis6dios nos quais a clientela poe a mostra, sem pudores, uma profunda vontade de icealizacao: o literato que reconhece na imeira prova o proprio olhar “bondaso... doce... leal... € inteligente”; © personagem famoso, que nao consegue pregar ho, por ter detectado na fotografia examinada na véspera m fio de cabelo fora da risca; atores ¢ oficiais tio tomados por sia ponto de exibirem uma grande fatuidade; 0 pastor anglicano maquilado com carmim, A vontade de idealizagio é levada tao longe pela que Nadar nao s6 aconselha os fotégrafos a adotarem — falar na possibilidade de uma “réplica” antes da tomada —, como inventa um expediente ardiloso — apresentar a0 modelo a prova de outra pessoa. O expediente 6, sem dtivida, ardiloso, porque o cliente, muitas vezes, se ece na fisionomia do outro. Esse truque € sugerido a ‘agho pontual: tela ma A opinito que cada um tem das proprias qualidades lisieas & tio benevolente que 2 primeira impressio de todo modelo dante das provas de seu retrato &, inevitavelmente, de desapontamento e de recusa (& supérfluo esclarecer que estou falando de provas perfeitas). tanta clareza a ponto de desagradar a clientela. O fot6grafo, afinal, nao podia recorrer a uma pritica corriqueira entre os pintores de retrato no século XIX. Estes, de fato, realizavam um croqui do sujeito e fixavam a composi¢ao sem a sua presenca, recorrendo, no raro, a outros modelos que repetiam a pose do destinatirio da obra Se a hist6ria que 0 retrato fotogrifico conta é menos evidente do que poderia parecer 4 primeira vista, ha uma outra modalidade de histéria que se torna dominante a partir da década de 1850, apés a invengio do formato cartio de visita por André Adolphe Eugéne Disderi. O alcance dessa descoberta — avassalador para a nascente fotografia — € des- ctito vivamente por Nadar: © sucesso de fato estrondoso de Disderi foi legitimamente devide a seu engenhoso achaclo co cartdo de visita, Sua intuigio de industrial tinha farejado bem ¢ no momento certo, Disderi tinha criado uma verdadeira moda que, de uma 56 ver, envolvia odos. E'mais ainda: virando pelo avesso a proporcao econd- mica valida até entio, isto ¢, dando infinitamente mais por infinitamente menos, tornava definitivamente popular a Foto agrafia, Enfim, necessirio reconhecer que a muitas daquclas Pequenas imagens, improvisidss com prodigiosa rapicez diante do interminivel desfile da clientela, nfo faltavam nem um certo gosto, nem um certo fascinio,”” O “efeito Disderi" nio pode ser dissociado de uma anélise da fungao social do retrato na sociedade oitocentista. Se, no século XIX, 0 retrato pictérico comega a ser questionado como género em funcao das transformacdes profundas pelas quais passa a arte moderna, nao se pode, porém, esquecer que esse mesmo século conhece um desenvolvimento extraordinario da representagao € da auto-representagao do individuo em conseqiiéncia dla crescente necessidade cle personalizagio burguesia. Sinal de distingao somente acessivel & aristocrac retrato comega a ser cultivado pela burgue reinados de Luis XV e Lufs XVI de u durante os Embora se inspire nas convengdes do retrato aristocritico, © retrato burgués nao pode, porém, adotar seu formato. Opta, entao, pela miniatura, regida pela idealizagao do rosto; pela silhueta, que consistia em recortar um perfil num papel espelhado; pelo fisionotraco, imagem mecAnica, obtida a partir do desenho dos contornos do rosto transposto para uma gravura em metal, que encanta a clientela por sua exatidao sem precedentes, tomada como sinal de autenticidade."* A descoberta da fotografia dard um impulso decisivo a esse desejo de representago, que nijo se contenta com a fixagio da imagem do individuo como entidade psicolégica, por visar antes de tudo o registro de um sucesso aleangado gragas & iniciativa pessoal, Por isto, mesmo que iconograficamente o retrato burgués lance mio das convengoes do retratd aristo- cratico, as duas manifestagdes nao se confundem em termos de destinagio social. Enquanto este visava inscrever um individuo na continuidade das geragdes, aquele se configura como gesto inaugural da criagao de uma linhagem em viriude do @xito de seu fundador.” 05 altos precos do daguerreétipo e das produgées de Fot6grafos como Nadar, Carjat, Le Gray colocam o retrato num Ambito social restrito, permitindo-Ihe atestar apenas a ascensa0 da alta burguesia. & para além desse cfrculo restrito que iri apontar a descoberta de Disderi, que pretence estender 0 dircito de imagem nao s6 & pequena burguesia, mas a0 proprio proletariado. Patenteado em.1854, 0 cartio de visita toma-se popular quatro anos mais tarde, marcando o ingresso da fotografia naquela fase de industrializagio, considerada um fator de decadéncia por Benjamin.® | A decadéncia|de que fala o autor alemao nao deve ser buscada evidentemente no barateamento da produgio foto- gtifica, proporcionado pela opgao por imagens menores regis- tradas numa chapa que permitia a tomada simultinea de oito clichés. Ela deve ser buscada na criagio de.uma série de esteredtipos sociais que se sobrepdem ao individuo, destacando o personagem em detrimento da pessoa. Disderi ria © modelo de um determinado retrato burgués, no qual o modelo — geralmente de pé vestido com suas melhores roupas — posa diante de um cendrio. Os ambientes, que ji se faziam presentes na fotografia dos primérdios, 840 (ransformados por Disderi num aparato ostensivo, no qu © individuo desempenha um papel predeterminado gragas a uma pose teatral, que nada mais € do que “o agenciamento policiado dos signos de sua integragio social", de acordo com a hip6tese de Christian Phéline.”” Nesse contexto de construgao de uma identidade social, acess6tios e cendrios nao devem ser analisados em termos de lustio realista e nem mesmo de busca de efeitos plasticos. Seu verdadeiro ambito € a simbologia social: cendrio e vestimenta constituem uma espécie de “brasio” burgués. Gistle Freund descreve com muita perspicécia esse verdadeiro ritual de teatralizacaio de uma identidade soci pena de ganso na mio direita, tornou-se ele proprio um acess6rio do atellé. © gesio patético de um senhor gordo ¢ fantasiado, que torce os bragos, tendo a seus pés um punhal, & suficiente para que se reconhega nele um primeira tenor da teatro de 6pers. O nome, mesmo quando célebre, ndo interessa mais. £ 0 tipo do cantor de pera que vemos, como 0 veer Disderi e, em seguida, o piblico. Para o pintor bastam um cavalete € um pincel. Um pesado cortinado forma um funda pitoresco, O estadista segura na mao esquerda um rolo de perga- minho. Seu brago direito esti apoiado numa balaustrada, cujas ccurvas macigas simbolizam seus pensamentos carregados de Fesponsabilidades. O atelié do fot6grafo torna-se, deste modo, 0 depésito de acessdrios de um teatro, no qual so preparidas as de personagens para todos 08 papéis sociais.” a do interesse pelo rosto do modelo, que era 0 10 caracteristico dos fotdgrafos que o haviam antecedido, Disderi prefere representar seus clientes de corpo inteirc tizar a teatralizagao da pose. Cria, para tanto, ul sistema preciso, no qual um papel todo 0 campo visual e a conservar os detalhes em preto; contrastes de claro € escuro sao distribufdos de modo equi brado para que © conjunto resulte unitério © imediatamente inteligivel © rosto torna-se_um elemento secundario, mas isto nao ignifica que Disderi no se preocupe em buscar uma omia agradivel-e em fugir de “contornos duros € pouco harmoniosos’, que poderiam desequilibrar a tio almejada unidade. Em nome da unidade 86 fotografa 0 modelo sorrindo com os olhtos. Se o sorriso fosse exterior, captaria apenas ma “contragao nervosa”, quando nao um “esgar’. Por isto, em seu credo estético “verdadeiro” e “belo” caminham paralelos: be ao fordgrafo “modificar, embelezar 0 modelo, mesmo, conservando seu cariter Se esses recursos ja fazem parte da esfera retérica, igual- \ente ret6ricos so o enquadramento, a escolha do tipo de representacao, a distribuigao dos acessérios, os fundos propostes para as diferentes personalidades, 0s trajes enver- ios pela clientela. © que Disderi e seus clientes almejam é / formar em imagem a estabilidade © a legitimidade da burguesia gragas a uma composicao ordenada € unitiria, que se wspira na pintura entdo em voge, marcada pela inteligibilidade nediata da representacio, pela desindividualizagao dos jodelos € por uma idealizacao que conferia a0 quadro aquela Giséle Freund define uma semelhanca média. Tanto no retrato fotografico quanto naquele pictérico 0 que importa € representar a individualidade de cada cliente, mas, orizados € legitimados pelos recursos simbélicos que se wserevem na superfic A idéia de Roman Gubern de que o empreendimento de™ Disderi poe a Ao entre democratizagao cultural | Ja imagem." ‘1 da imagem) pode ser aprofundada por uma investi- | > das possiveis relagdes do fotdgrafo com a histéria do estabelecimento; o filho Paul trabalhava como operador; dois auxiliares ¢ um rapaz incumbiam-se dos negativos; havia quatro profissionais encarregados da tevelagao, seis do retoque de negativos, trés do retoque das provas_positivas. Além disso, 0 ateli@ contava com trés mulheres que montavam as fotografias, duas que recebiam os clientes marcavam os compromissos e quatro servigais, numa clara demonstracao de que a dimensao artesanal nio era mais adequada a uma atividade mais ¢ mais regida pela légica de mercado. Nadar oferece uma explicagao para o fato de mulheres cuidarem do atendimento ao pitblico. Elas eram 0 “instrumento de preciso mais sensivel seguro para julgar, desde 0 momento em que transpée a soleira, se o cliente que chega é um cavaleiro ou um maleriado”, Nesse contexto, ele proprio desempenhava um papel espeeifico: ser 0 diretor artistico da equipe, encarre- ndo-se, quando muito, da pose dos clientes." © sucesso da formula de Disderi € também atestado pelas mas que 08 varios manuais propdem aos fotdgrafos. John owler transforma em preceito a estética do cartio de visita ecomenda que o modelo seja posicionado “de modo comodo gracioso, em pé ou sentado, apoiado num pilar, balaustrada pequeno pedestal, de modo que cada parte esteja igual- lente em foco, mas especialmente as miios, rosto € pés". Para cvitar o perigo da uniformidade, Towler ndo s6 desaconselha cterminadas poses, como destaca algumas que deveriam onferir naturalidade a0 modelo: tocar piano ou violao, colher ma flor de uma 4rvore, navegar num iate, Eastbrooke, por sua vez, arrola varios artificios para levar pose “da rigidez para a naturalidade”: colocacao do modelo suavemente inclinado numa bela cadeira; uso de uma luz frontal ¢ vinda de cima para abrandar as linhas do , de um telao em dégracié para dar 0 efeito atmosférico © yento para conferir “sombra ¢ brilho ao resultado”. © individuo de corpo inteiro sobre um fundo suntuoso, adornado com objetos significativos. £ sintomatico que um dos mais importantes representantes do género seja Anton Van Dyck, capaz como ninguém de adequar seu estilo a gosto da clientela: pinta retratos caracterizados por um fausto grandioso na decadente Reptiblica de Génova; torna-se sObrio na nativa Antuérpia; adapta-se & moda inglesa da relaclo entre figura © ambiente.” Apesar desse ecletismo, Van Dyck nio deixa de dotar seus modelos de uma majestade sutil. Esta emana de sua posigao social e das qualidades dramaticas e humanas que o pintor infunde numa representacao regida pela ide: busca simultanea de uma maior fidel modelo. Nada disto esti presente em Disderi ¢ em scus seguidores. O paralelo com 0 “retrato de ostentagio” nada mais faz do que evidenciar 0 carater caricato de um semelhante empreendimento, A auto-representagao que a burguesia realiza no cartio de visita nao passa de uma parédia da grande tradigto do retrato pict6rico, do qual emula partidos composi | tivos e poses, sem penetrar, contudo, em sua esséncia. Se ouvesse dividas sobre essa parddia, bastaria lembrar a voga do retrato fotografico eqiestre (lancado em 1861), que criava tum elo simbélico no s6 com um pasado mais recente, mas com a propria antighidade, assim descrito pela revista Moniteur de Ia Photographie: G. a fotografia equestre (..) nao se dirige apenas as pessoas que possuem, mas igualmente Aquelas que desejam parecer ter G. Nem todos podem ser fotografados sobre seu proprio pois, cavalo ou todos poderio, ‘mostrar © proprio retrato a cavalo ou numa carruagem, ‘que possam parecer pertencer i Ido nos campos de pose.” vez que © retrato € conseqiéncia de uma tratativa Lembrar que Disderi acaba morrendo na miséria re cliente e operador, Eastbrooke aconselha 0 | atestar 0 sucesso de sua formula. A maior parte dos fot adere ao formato carto de visita ou transforma 0 at fico numa verdadeira inddstr do abandono de seus postu 10 de seu atelié f 6 roupa para que o resultado “possa ter alguma pretensio artistica” A pretensto artistica, contudo, esta inserida num contexto claramente comercial, descrito com precisto pelo autor. Se 0 fotdgrafo deve atrair a clientela pelo bom gosto de seu atelié, deve ser ao mesmo tempo franco na tratativa comercial Se voce tem um grande negécio, preenche imediatamente um Formulirio com 0 pedido ¢ 0 prego que atingiti, fazenclo-o de modo claro e passando-o a ela para que possa ficar ciente do Pedido e do prego, solicitando-Ihe a mesmo tempo a di-lo a0 operador ov artista no estidio, quando ele for fazer seu retrat, Isso tem o propésito, em primeiro lugar, de sistematizar 0 rnegécio. Todos os pedicios devem ser feitos na mesa ou local ‘apropriaclo na sala de recepcao. Os pedidos devem see escritos em taldes ou bilhetes, com a quantia em dinhelso claramente cexpressa em cifas, de modo a no haver confusio em relagio a0 prego e seri também uma insinuago para pagamento adiantado Ga.) 0 dinheiro é recebido, quando entao 0 bilhiete é marcado [com] “pago’, e, sendo numerado, assegura uma sessio em favor dela Nao € por acaso que Towler aconselha o fotégrafo a estar atento 2 iluminagio nao apenas do rosto, mas também das aos ¢ dos pés. Apesar de os manuais falarem em dlversidade, a padronizagio de um certo comportamento impde-se a0 corpo todo, determinando posturas ¢ normas gestuais. A burguesia tenta imprimir dignidade a tudo o que faz, buscando a prépria ‘marca distintiva no menor gesto. As maos desempenham u papel decisivo_nessa_auto-representagao, como lembra Giséle Freund Alguns fazem-se cepresentar com a mao direita sobre 0 peit outros a negligentemente dobrada na cint pendendo ao longo da coxa. Aquele senhor brin berloques do relogi 1 autora propde uma relacao intrinseca entre o tempo de exposigo, que nao remete apenas a questo técnica, e o tempo al necessirio & fabricagio do corpo que se posiciona diante ara. A relagio entre essas duas temporalidades pode etectada num tratado de 1864, que ilustra sem rodeios © de construgao da identidade a ser oferecida 4 objetiva No atelier do fot6grafo, 0 modelo posa apenas meio minuto diante do instrumento. preciso que antes de entrar no salio de pose, ele tenha esquecido na sala de espera reocupae20 exterior: que ali, folheando os dlbuns, examinando fs retratos expostos, indagaaicla sobre © seu valor amtistico @ 0 iter de cada um deles, possa apreciar e captar a pose e a expresso que melhor Ihe convenha e que alguns conselhos do artista the idarko a assumir. Tudo deve ser Feito para distrair we uma expresso de calma € para fazer nascer em seu espirito idéias ageadaveis,, isonhs que, clareando os seus tragos com um dace sorriso, \pam desaparecer aquela expressio séria que a grande maioria tem tendéncia a assumir, ¢ que, sendo a que mais se exagera, ¢8 geralmente A fisionomia um ar de soffimento, de contragio: ou de tédio.” possivel discernir nas observagdes de Ken aquele \cesso de “imitagto por capilaridade” ao qual se refere a o retrato fotogrifico € uma afirmagao pessoal, moldada D processo social no qual 0 individuo esta inserido e do Jerivam as diferentes modalidades de representaao. Ao 08 Albuns, 0 individuo € colocado diante de um 0 codificado de atitudes gestuais, que impdem recendo sugerir) a pose mais digna, ou seja, a pose mais sua posigdo social. O proprio fato de a absoluta nao ser privilegiada nos retratos os nos ateliés fotogréficos € um indicador social: a la a ostentar aquela mesma assimetria © retrato pictérico no século anterior. ito bem essa disposigao numa charge de 1853, sempre uma atitude teatral. Colocar-se em pose significa inscrever-se num sistema simbélico para o qual sao igual- mente importantes 0 partido compositivo, a gestualidade corporal ¢ a vestimenta usada para a ocasiio. O individuo deseja oferecer 2 objetiva a melhor imagem de si, isto uma imagem definida de antemao, a partir de um conjunto de normas, das quais faz parte a percepgao do proprio eu social. Nesse contexto, a naturalidade nada mais é do que um ideal cultural, a scr continuamente criado antes de cada tomada* Em L'art de la photographie (1862), Disderi é bem explicito sobre os mecanismos psicoldgicos que estao na base do retrato. Embora advogue duas condigées essenciais para a obtengio de uma boa pose — harmonia com a idade, a altura € 08 habitos do individuo e desvelamento da beleza do modelo — e critique as atitudes compensatérias, estudadas de antemao diante do espelho, nao deixa de utilizar para esse recurso uma linguagem de derivagao teatral, que pode ser condensada na idéia de encenagao. © *conhecimento perfeito” da pessoa, que deveria ser proporcionada pela fotografia, é associado a escolha do estilo mais adequado a traduzir @ “pose caracteristica”, isto & aquela capaz de exprimir nao ‘um momento particular, mas “todos os momentos", o individuo em sua integridadle, O significado dessa associagao entre personalidade ¢ estilo € descrito sem rodeios pelo fotdgrafo: © aspecto do retmto devera despertar, antes de tudo e enquanto, cena (., idéias sérias e serenas; exprimiri a calma e a reflexto, Atitudes simples, uma luz de interior, distribuida-em massas trangailas, com amplos semi-tons, fundos severos, una grancle sobriedade de acessérios; a cabeca, sede do pensamento, saliente ¢ luminosa; eis © modo adotadlo, Um outro modo seria inverossimil, inconveniente e no saberia levar a essa seme- Thanga profunda e poderosa que buscamos, Se Disderi propde expurgar aquela “multidio de poses acidentais muito naturais’, que nao permitiriam obter uma completa da pessoa”, é porque concebe o reirato como uma composicao unitiria ¢ oticamente bela: Seri necessirio, pois, encontiar um movimento e um gesto o8 quiais obedecerto todas as outras partes (.) As grandes linhas principais do treo contrastarto com aqueles a Bessa eboy com a os onc contre 0 tisposgto dos membros os meios para ligar esses contases nite 8 agus ama sétie de linhas acessris, que Tembramn isc menos as linha principal. As vestments, os drpeidos, tm virude de suas pregas, oferecerio grandes recarsor pars nleangar essa harmonia © essa unidade de movimentos © de foumas que constinuem « belezs tics da pose © ritual inerente ao retrato fotogrifico no € diferente do al inerente ao vestudrio. Vestir-se é a0 mesmo tempo cestrutura e acontecimento: a0 combinar elementos sclecio- dos de acordo com certas regras, num reservat6rio limitado, ividuo declara seu pertencimento a um grupo social ¢ za um ato pessoal. Ato de diferenciagao, vestir-se ¢ essencialmente um ato de significagao, pois afirma ¢ toma visiveis clivagens, hierarquias, solidariedades de acordo com um cédigo estabelecido pela sociedade. Para a burguesia ritocentista, © papel significativo da vestimenta é mais, mportante que o papel funcional, pois confia a aparéncia a lurcla de afirmar sua posiclo dominante ¢ afastar qualquer welhanga com a classe operiiria, © triunfo do preto, no 10 do traje masculino, € testemunha da legitimidade social que a burguesia havia conquistado, por vir acompanhado das rogdes de decéncia, esforgo, correo, seriedade, moderacao, scontrole, respeitabilidade. Em contrapartida, a ostentacao vestimenta feminina transforma a mulher num signo de \eza, num valor decorativo a atestar © poder daquele que deseja afiemar-se pelo “ser”, € sim pelo “ter”. © repert6rio fotogedfico oitocentista traz claramente as ‘cas dessa cultura da aparéncia, dentro da qual homem ulher desempenham papéis diferentes. Ao analisar as fias de familias importantes do Vale do Paraiba, Ana 1 Mauad Essus chama justamente a atengao sobre a nea que permeia a representagdo dos universos ino ¢ feminino. A simplicidade € a marca distintiva que posa para a cimara: terno escuro, camisa nea, colete preto, gravata borboleta fina, ou geavata reta © grossa, Unica j6ia permitida, a corrente do rel6gio de bolso. pora a mulher brasileira exiba igualmente os_sinais da dade — vestido negro, com detalhes discretos em mniganga, renda ou pregas e uma jéia —, nio deixa de repre- Sentar no ritual fotografico o papel de ostentagio da riqueva gerada © gerenciada pelo marido,* A relagao profunda entre retrato fotogrifico ¢ vestimenta como elementos constitutivos de uma cultura da aparéncia pode ser detectada a partir de outros indices: a desenvoltura ‘em usar as vestimentas da prdpria classe oposta a0 constran- gimento daqueles que envergam roupas emprestadas, ou a dicotomia entre os trajes bem cuidados de escravos negros ¢ seus pés clescalcos, registrada pela camara dos fotdgrafos Christiano Jr. & Pacheco e dos operadores da casa Leuzinger na década de 1860. Se os cartes de visita dos escravos denotam uma dicotomia significativa entre vontade de idealizagio ¢ realidade concreta, 9 mesmo pode ser dito da diferenca apontada por Carlos Lemos no primeiro caso." Mangas muito compridas, uma cintura apertada, um chapéu desproporcional 0 tamanho da cabeca daquele que deveria usé-lo, um moclelo de vestido que no corresponde a situagzio social de quem 0 enverga so sinais da busca de uma distingio iluséria que a fotografia poe a nu, apesar dos truques do atelié e do recurso ret6rico da pose. © que falta a muitos desses retratos € justa- Mente aquela naturalidade construida, exibida pelo retrato burgués enquanto afirmagio de uma identidade antes social do que individual. Representagao honorifica do eu burgués, 0 retrato foto- grilico populariza e transforma uma fungio tradicional, ao subyerter os privilégios inerentes a0 retrato pictérico. Mas o retrato fotografico faz bem mais. Contribui para a afirmagao moderna do individuo, na medida em que participa da configu- ragao de sua identidade como identidade social. Todo retrato € simultaneamente um ato social e um ato de sociabilidade: nos diversos momentos, de sua histéria obedece a determinadas normas de representagao que regem as modalidades de figu ragtio do modelo, a ostentagao que ele faz de si mesmo e us miiltiplas percepgdes simbdlicas suscitadas no intercimbio © modelo oferece a objetiva nao apenas seu corpo, igualmente sua maneira de conceber o espago material © > inserindo-se em uma rede de relagdes complexas, quais 0 retrato € um dos emblemas mais significativos. A burguesia, que havia impulsionado as duas tevolugdes we transformaram profundamente 0 século XVII —a tecno- igica € a politica —, a0 tomar 0 lugar da velha aristocracia, ypropria-se de um de seus privilégios simbdlicos mais ostensivos, ao qual confere de imediato um significado de vuto-afirmagio individual ¢ coletiva. Ao afirmar-se burgués, 0 niodelo do retrato fotografico declara contemporaneamente cu pertencimento a um grupo, cujos valores registra na perficie da imagem, Nao € contradit6rio com este quadro releréncias 0 Fato de os primeiros modelos iconograficos, rem do repert6rio do retrato nobiliar. Na constituicao sua auto-imagem, a burguesia langa mao dos mesmos rectts0s ret6ricos que caracterizavam o género pict6rico, pois, sleseja difundir no intercambio social aquelas normas de decoro € conveniéneia nas quais se estribava sua ética. Se a alta burguesia manifesta uma preferéncia simbdlica pelos modelos derivados do Renascimento, os intelectuais, hao deixam de inspirar-se igualmente no universo das artes isticas. Houdon, David, Ingres, que enfatizam em seus modelos um estado de atengao captado de maneira instan- 10 colocados por lan Jeffrey na base da estética de Nadar, fo teria levado a termo aquele naturalismo intimo, ie a retratistica francesa desde o final do século XVII, ) acrescentar a dimenstio do cariter A vivacidade anterior. s modelos estio sempre atentos. Além disto exibem o prio carter — caprichoso, irascivel, carrancudo, genial ivel —, de acordo com as disposigdes individuais.** Nao se pode esquecer que 2 imagem fotografica é conferido papel moral, que transforma o retrato no exempio visivel de virtudes e comportamentos a serem partilhados pela socie~ dade, Se assim nao fosse, como explicar a moda dos retratos de celebridades, que deveriam fornecer os necessirios exemplos morais a seus contemporineos? Desde a descoberta do daguerreotipo configura-se um comércio alicercado na ins de personalidades pablicas, que atinge apogeu com 0 cartio de visita, © novo formato possibi- icos, que tanto podem se determinados pelo colecionador, quanto ff vie prontos, como € 0 caso da Galeria dos americanos ilustres, organizada pot Mathew Brady na década de 1850. O caradter fidedigno atribuido & fotografia explica o sucesso desse vetor especifico do retrato, como testemunha Ralph Waldo Emerson: "f. certo que o daguerrestipo é o verdadeiro estilo de pintura repu- blicano. O artista coloca-se de lado e deixa que vocé pinte seu retrato, Se uma cabega sai mal, a responsabilidade é sua, niio dele." Ao transforma o modelo no yerdadeiro autor do retrato fotogrifico, Emerson coloca em primeiro plano o processo de idealizagao da propria imagem, do qual deriva aquele descompasso entre autopercepcao e resultado final tio viva- mente descrito nas memérias de Nadar. Modalidade de auto- Tepresentacdo, o retrato fotografico pode ser analisado a luz da dialética social proposta por Phéline: 0 sujeito que se deixa fotografar 6 a0 mesmo tempo pessoa € personagem, individuo © membro de um grupo, singular e conforme as normas de uma comunidade. Neste sentido, ¢ sobretude a partir da divulgagao do carto de visita, o retrato torna-se uma foto- grafia de identidade gragas a qual o individuo identifica a propria personalidade subjetiva e 0 grupo ao qual pertence.* Se 0 retrato enquanto fotografia de identidade identifica 0 eu burgués e 0 direito & imagem por ele conquistada, existe um outro aspecto desse proceso que nio pode ser considerado um privilégio, e sim um fardo imposto a todos os individuos que no se conformavam as normas vigentes. A sociedade do século XIX, ao conferir 4 imagem fotogrifica o papel de atestado de uma existéncia, faz do retrato um instrumento de Fecenseamento generalizado, que tanto pode exaltar os feitos do individuo, quanto apontar A atencio pablica aqueles que apresentam desvios patolégicos. Nao € por acaso que o retrato Fotografico seja aplicado desde os primérdios & esfera judicial eA esfera médica, pois era nelas que se concentravam aqueles individuos que punham em xeque a satide social Dois anos depois da invengio do daguerrestipo, tem-se noticia da organizagio de um arquivo de retratos de suspeitos € delinquentes pela policia de Paris. O uso do retrato para fins policiais é documentado desde 1843-1844 no caso de Bruxelis € desde a década de 1850 em Birmingham na Suiga, Se os \eiros daguerrestipos comprovam rapidamente a eficécia novo instrumento de controle, eles apresentam, porém, uma icterfstica que no pode deixar de ser analisada: 0 modelo ympositivo que estava na sua base permitia decodificar a mensagem de que eram portadores no interior de um sistema fechado, no qual o individuo era classificado como perigoso. los desse contexto, no poderiam fornecer informac&es yecisas, pois as efigies neles registradas em nada diferiam retrato burgues. Os ambrétipos fealizados pela policia de Birmingham nas lécadas de 1850 e 1860 nao se caracterizam apenas pelas po- ces simples e diretas: as imagens s20 colocadas em molduras \entais ovaladas que nao destoariam em qualquer pequeno-burgués. Os retratos realizados pela policia risiense na década de 1860 apresentam a mesma variedade lc formatos exibidos pelos similares honorificos — corpo ro, meio corpo € busto. As poses so igualmente variadas: Iclo pode estar de pé ou sentado, com o brago apoiado mesinha ou no espaldar de uma poltrona, oferecendo \ objetiva um meio perfil ou uma frontalidade absoluta. a tais imagens, Phéline aventa a hipétese de que seus ‘cedentes devem ser buscados na representagao de modelos extragao popular, pois nao haveria nelas aquela colabo- updo entre sujeito e fotdgrafo prépria do retrato burgués. do que apresentar-se, os modelos populares e os madelos Uo retrato policial estariam sendo representacios a partir de 1 designio exclusive do fotégrafo, no qual se mesclavam a ngio dada a fisionomia € um certo cuidado estetizante na josi¢ao. A anéilise de algumas dessas imagens nao parece mar a hipdtese de Phéline: se alguns sujeitos se mostram os © constrangicos, outros exibem um ensimesmamento uma solenidade casual que faz pensar muito mais naquele librio instivel” de que fala Schaeffer. Se, de fato, 0 aco pode ser escamoteado pela vontade estetizante do f pode também servir-se dele para criar uma imagem isista de si, tornando-se o falsario de sua propria vida.” Nao se pode esquecer que a policia, nto dispondo, cipio, de um servigo fotografico préprio, recorria 2 colaboragio de profissionais. Estes utilizavam na confecgio a burgués, o que explica a dificuldade de decodificagio imediata de um produto que s6 ganha pleno significado quando inserido em seu contexto especifico. Avulso, 0 primeito retrato policial é mais um retrato, é mais uma interagao do individuo com a sociedade, a qual nio faltam elementos ficcionais forne- cidos tanto pela pose quanto pelo cendrio no qual o modelo esti inserido. Medidas para aperfeigoar o retrato policial ¢ diferen- cié-lo do modelo burgués sio logo sugeridas. Em 1854, 0 engenheiro de minas Eugene Beau propée um retrato de frente ede perfil, acompanhado de uma medida métrica que serviria de escala para calcular as dimensOes do individuo suspeito. A Comuna de Paris oferece uma nova oportunidade para uma codificacto mais efetiva do retrato policial, Eugene Appert, que em sua pritica de atelié recorria a uma trivializagio dos procedimentos de Nadar, deixa de lado qualquer truque 20 fotografar, em 1871, os vencidos da Comuna. O retrato ganha uma funcionalidade até entao desconhecida: 0 modelo esta sentado numa cadeira diante de um fundo claro.-De frente ou de meio perfil, olha para a objetiva colocada acima da linha dos olhos. O enquadramento escolhido, que corta o corpo na metade, permite captar a gestualidade particular de cada modelo — mo na cintura ou na coxa, bragos cruzados, polegar no colete etc. © formato adotado por Appert tem sua razio de ser: além de conferir individualidade ao rosto, permite evocar a estatura do individuo © a gestualidade corporal que Ihe € peculiar. Embora reconhe¢a nos retratos de Appert um apriorismo estético, determinado por uma visio politica oposta aquela dos retratados, Phéline nao detecta nessa série aquela mesma diferenca que atribui ao primeiro retrato policial. A distincia que Appert estabelece em relaco a seus modelos forcados que o leva a adotar uma atitude cientifica perante eles, nao é capaz de obliterar a subjetividade de cada prisioneiro e, muito menos, transformé-lo numa representago da ideologia dos “tipos sociais” entio em voga. Apds a criagio do Atelié Fotografico da Policia de Paris (feverciro de 1888), generaliza-se o sistema global de identificagao proposto por Alphonse Bertillon, que con: de um duplo retrato fotogrifico, do registro ométricas ¢ de uma descrig&o rigorosa do individuo, icacao do retrato, ensaiada nas décadas anteriores, € vaca por Bertillon as Gltimas conseqiiéncias. Ao retratar 0 \uspeito e/ou infrator de frente € de perfil, obtém-se dus vis0es de sua fisionomia: a frontal, que corresponde 20 que € umente reconhecfvel no individuo; a lateral, que remete representagao morfol6gica precisa, posto que o contorno neca no sofre modificagdes com o passar dos anos. As poses codificadas no sistema de Bertillon remetem a ira pré-fotogréfica e devem ser analisadas em seus iynilicados simblicos anteriores, uma vez que o sistema no passam a ser inseridas vira pelo avesso as conotagdes \dicionalmente associadas frontalidade e & lateralidade. Desde a configuragao da nogio moderna de individuo, 0 ato honorifico nao se caracteriza pela frontalidade absoluta, ‘© ¢ propria de uma cultura popular e campesina. Para os nies dessa cultura, posicionar-se frontalmente no centro gem significa apresentar-se a0 outro sob o melhor m movimento psicolégico no qual respeito \to-4espeito caminham paralelos. O retrato de perfil, que » desuso nas thimas décadas do século XV, é, a0 iio, apandgio simbélico da elite. A ele sio atribuidos nificados: indice de razio e moderagiio, no caso do simbolo de virtude e pertencimento a um grupo niliat, naquele da mulher. No que sto transformadas tais estratégias pelo duplo retrato No diagnéstico visual de uma personalidad crimi- 1c se torna objeto de um método cientifico de classifi- jo tipologica, gragas ao qual sao constitudos repertGrios radios de suspeitos e indiciados. Se a representagio frontal (ia a normas cerimoniais no Ambito de um grupo e se a jesentagao de perfil dava conta de um tipo idealizado, 6 Isto que se faz. presente no duplo retrato de Bertillon. we ele prope inscreve-se plenamente numa pratica tfpica lo XIX: derivar da descricfio de um corpo os sinais da Ma dalesl@aglease do grapo.sodaliag qual pertence o, resultado de um fendmeno social uma massa andnima no territério © surgimento ¢ gimento de uma nova ¢ le — © propic visual, € descrita com mui Courtine ¢ Claudine Haroche: propriedade por Jean-Jacques Desenvolve-se o anonimato do niémero, aberto e flutuante ‘A certeza quanto as identidades esbate-se. Desenba-se um medo do desconhecido que incita a manter-se & distancia de outrem ses socials enfrentam-se pelo olhar: cada um investiga 0 desconhecido no outro. Na multidao eas ras, & preciso saber a quem se fala. Estamos a lidar com um burgues 4 com um proletiio? Com um cidadao pacifico ou com um hhomem perigoso? Com uma mulher honesta out com amma mulher de ma vide? (.) E se acontece ao burgués analisar 9 homem do povo com a distincia do desdém, este dine encara-o por sua vez! as classes sociais observam-se,julgamse © defrontamrse 4 partir das suas aparéncias fisicas, dos tragos inscrtos nos seus cOrpos € nos seus rostos como se se tatasse de caracteres raciais, em que o olhar procura adivinhar o vestigio dos carac- teres mo: Assim, 0 anonimato da multid2o, mesmo que proteja, inquieta outro tanto; obtiga a decifar a personalidade. € preciso poder distinguirse, © 0 corpo de outtem torna-se uma colegio de detalhes a destacar, de indices a interpretae. Acentua-se deste modo 1 divisio dos corpos e dos rostos na constituigio © no antagonismo de um Mio popure de um fico burs de ave do retiato, a caricatura de 1c do individuo. Nesse contexto, a ciéncia fisionomi mente destaque, pois se acreditava que era possivel > homem interior gracas 2 andlise de seus tracos. Se ia permitira criar 0 homem novo — republican > —, ela permitiré igualmente determinar aquelas ‘alteradas” e “degradadas” que Lavater atribui aos aos imbecis e aos estiipides, num exercicio de ao das classes sociais.® No século XIX os estudos fisiondmicos multiplicam-se. 2 Filosofia da expressio (Bell, 1806), A fisiologia nismo do rubor (Burgess, 1839), Sistema cientifico ¢ fisionomia (Piderit, 1859), O mecanisimo da fi ana (Duchéne, 1862), Sobre a fisionomia ¢ os movi- 1 expressio Gratiolet, 1865), além de Os prineipios da pencer, 1855), esto na base de uma obra funda- jes Darwin, A expressao das emogdes no homem introspecgao. A observagao ¢ a descrigio da ana supdem uma distingao nitida entre aquele e aquele que € observado. A expresso deste, ir da observacilo experimental, é também inscrita, 05 tragos.# jexto que estabelece uma relagio entre o homem e Por isso, © principio constitutivo da se encontra na linguagem, mas no organismo.** procedimento, que se torna generalizado no século XIX, deriva do interesse em decifrar 08 rostos da multidao, que vinha se configurando desde 0 século anterior. Courtine © Haroche buscam em autores como Diderot e Mercier 0 surgi mento do paradigma da identificagio. A multidao d nomias, que se anuncia no século XVIII, torna d percepeio das identidades: 03 Ensaios sobre a pintura (1795), de Diderot, trazem consideragdes sobre as lisionomi iferentes ier € Gall para a descrigao dos delingientes, » do romance policial, para o qual Conan Doyle \dvinda de sua formagao em Medicina — descobrir um criminoso a partir da obser- 1s superficiais, entre as quais 0 rosto. A wente presente nas paginas dos s crimes, levando A configuragao de profundamente enraizada no imagi- A antropologia criminat pos, conieriri um novo que se confunde com dentro € 0 calor expressivo das camadas populares. As dil categorias nao se distinguem apenas pelos tracos fix co ‘mas também pela morfologia: Mercier atribui um “corpo exiguc aos individuos perigosos. O século XVI entre ovo € pericu Bertillon é parte integrante dessa cultura, para a qual traz uma contribuicao significativa em termos iconogrificos: dat uma base cientifica aquela transformagio que o retrato fotografico estava sofrendo sobretudo a partir dos anos 1880. Modalidade de exclusio, de diferenciacao, de hierarquizacao em sua verso honorifica, 0 retrato torna-se uma imagem disciplinar 4 qual toda a sociedade deverd se sujeitar, a principio, para citcunscrever anormalidades ¢ desvios, ¢, Posteriormente, para atestar o pertencimento do individuo 0 corpo social. Ao estabelecer uma relaclo intrinseca entre identificagao fisiondmica ¢ identidade pessoal, Bertillon nao pretende estabelecer uma relacao entre individu e espécie, ¢ sim isolar um individuo dentro da espécie. Para tanto, elabora um sistema classificatétio no qual ordena casos individuais dentro de um conjunto segmentado.” Entre os instrumentos utilizados para a constituigao desse sistema — anttopometria, duplo retrato fotogrifico, descticio fisiondmica, estatistica —, cabe ao segundo um papel determinante como prova conclu- siva no processo de identificagao. E por isso que Bertillon decide adotar um cédigo neutro para o retrato policial, despo- jando-o das convengdes artisticas que se faziam presentes nos primeiros tempos ¢ instituindo um modelo de tomada sistematizada dos tragos distintivos da fisionomia A tomada de frente ¢ de perfil é apenas um dos elementos do sistema fotografico idealizado por Bertillon. Dele fazem Parte ainda varias normas que deveriam possibilitar a criagao de um tipo gracas 2 eliminagao de qualquer fator circunstancial no momento da tomada. As condi¢des de iluminacao do gabinete fotografico, a distdincia focal e aquela entre 0 operador € 0 modelo forcado sto normalizadas. A uniformidade da pose € conseguida por um enquadramento baseado nu uniforme, capaz de dar conta da largura dos ombros, e pot uma cadeira deliberadamente desconfortavel que obi individuo a adotar uma postura reta ¢ centralizada. Gi um complexo mecanismo de rotagao, o modelo é foto, de frente ¢ de perfil, conservando a mesma esc Desse odo, Ber \lotadas pelos modelos; os signos sociais los pela gestualidade € pelo vestuirio, O retrato reduzido a um mapeamento sistemético dos tragos ivos da fisionomia, implica também a eliminagio do para no pér em risco suas qualidades mais impor- — objetividade informativa ¢ exatidao.* wlo de Be llon € resultado da intersecgio entre € estatistica: a primeira, associada 4 antropometria lescrigo normalizada do individuo, permite consticuir imicroscépico”; a segunda possibilita a inser¢io 1 de fotografia e estatistica esté também na base ra modalidade de imagem tipolégica, 0 retrato Francis Galton, que se tornaré mais conhecido minoso que se diferencia da individualizagio iente no empreendimento de Bertillon pela busca finido em termos estatisticos. as idéias de Lombroso, Galton decide aplicar elaboraca por Quételet em 1835. Se 0 "homem médio" do cientista 1 fruto da regularidade de incidéncias tomadas como determinadas leis sociais, 0 “ctiminoso médio”, € resultado de uma abstragdo tedrica e visual ue 08 criminosos partilhavam uma série de micos, Galton justapoe retratos de diversos im de conseguir uma imagem sintética baseada édios do grupo por ele circunscrito. 's derivadas de tabelas estatisticas, cu deveria possibilitar a mensuragio da “tendéncia 10 desvio em relacio 20 tipo central", Em ava fixar 0 dominio do tipo no tentro ‘argens uma fungao subalterna, uma ir idiossinerasias individuais. O retrato compésito — como o préprio Galton escreve — nao representa nenhum individuo em particular, e sim “uma figura imagindria que possui os caracteres médios de um determinado grupo de homens’, No livro Investigagdes sobre a faculdade humana (1883), apresenta alguns retratos comp6- sitos derivados de medalhas ¢ moedas gregas e romanas, buscando na imagem resultante a fisionomia desaparecida da raga superior, Em outras imagens tenta determinar 2 influén hereditiria, ao justapor retratos de diferentes membros de Ao sujeitar a0 proprio método retratos de prisioneiros, chega a determinagao de um tipo que acaba por abolir qualquer fronteira entre © criminoso e 0 trabalhador das camadas inferiores da sociedade. Galton fala, com efeito, de ‘uma “humanidade comum de um tipo inferior", cuja preclesti nagio biolégica estava inscrita na abstragao representada pela justaposigio das imagens.” Os pressupostos que regem o retrato policial esto igualmente na base da aplicacao da fotografia nos campos da etnografia € da medicina. Em 1884, Eugene Trutat propoe aplicar os recursos que Apert utilizara no registro dos derrotados da Comuna de Paris para a documentacao dos tipos étnicos: iluminago uniforme, fundo neutro, pose centr: cla, distincia focal determinada entre a cimara € o mod! No campo da psiquiatria, o doutor Hugh Welch Diamond, desde 1851, utiliza 0 cal6tipo no recenseamento dos pacientes do hospital de Springfield (Inglaterra). Membro ca Real Socie= dade Fotografica, apresenta, em 1856, um trabalho s “a aplicaco peculiar da fotografia no delineamento d insanidade”. Diamond acteditava que a fotografia era um precioso auxiliar no tratamento: os pacientes demonstra ‘em geral, interesse pelo proprio retrato, sobretuc nele estavam registradas as marcas do progresso € por outro lado, ajudava o médico a formular seu di a realizar uma andlise fisionémica: do compo (..) © Fotégrafo capta num momento a nuyem re, a tempestade passageira ou o brilho da alma, ¢ ‘0 metafisico a testemunhar e esborar a conexio entre ‘el € 0 invisivel num samo importante de suas pesquisas losofia da mente humana, - fotogrifico, finalmente, proporcionava um registro indica o exato ponto alcangado na escala da infelici- © a primeira sensagdo e seu patamar mais elevad mond considera 0 registro fotogrifico “conciso’ reensivo" € porque sujeita a tomada fotogrifica a precisas — fundo neutro, pose frontal ou de semipertil cho do rosto e das mios. O cédigo iconogrifico lo de antemao: suas fontes devem set buscadas nas 's de deméncia estabelecidas por Pinel, nas tipologias nia e da frenologia do século XVIII, nas ilustragoes »s como Sobre as doencas mentais (Esquirol, 1838) € da doenga mental (Morrison, 1838). bm 1852, 0 doutor Guillaume Benjamin Duchenne de nteressado em investigar 0 mecanismo da fisio- ia, comega a fotografar, com a colaboragao de uurnachon, pacientes submetidos a um estimulo ogico. Dez anos mais tarde, publica Mecanismo humana, no qual agrupa as oltenta ¢ duas um grande arquivo fotogrifico, de acorde com um classificat6rio que estabelece relagoes de identidade ntes (1873), m-se dois empreendimentos similares: \sio do Novo tratado elementar e pritico das doengas (Dagonet, 1876), ilustrado com retratos de doentes, e Kol6gico vivo, cujos recursos © médico no usa por acaso o termo cestética para a representagio do ataque histérico, reconduzido um tipo. A fotografia desempenha um papel primordial nessa encenagao induzida pela hipnose. E testemunho e acabamenta final de uma imagem criada, gracas & qual a paciente afirma sua existéncia enquanto espeticulo.® Produto da mesma ldgica indiciaria, o retrato de identidade herda do retrato policial uma série de caracteristicas: pose, ‘enquadramento ¢ formato. Apesar disso, Phéline tributa uma certa margem de liberdade a mais esse produto so possibilitar a presenga de uma habilidade artesanal, fruto daquela diferenciacio social, que é, a0 contrario, a prépria razio de ser do modelo policial. Mesmo um procedimento como a fotografia automatica, que leva as tltimas consequéncias o sistema de Bertillon — climinando, por fim, a figura do operador — € analisado por Phéline por um prisma diferencial. Em termos técnicos, a fotografia automatica produz um retrato profundamente impessoal, posto que as caracteristicas da imagem ja sio dadas de antemao pelo mecanismo que regula a cabine. No entanto, a diferenga do retrato policial, sempre imposto, retrato automidtico solicita 0 consentimento ¢ a colaboracao do cliente que cesempenha a um 6 tempo os papéis de fotografo © fotografado: No breve instante que precede 0 disparo do flash, 0 su ainda retificar a posig2o, procurar sua melhor expresso, fez, numa submissio fatalista ow por alguma vi Ao negar, assim mesmo, a possibilidade de qualquer id zag4o, 0 retrato automatic impde uma nocio identidade, ancorada na corporeidade, na absoluta sep: fisica de outras pessoas, na finitude da propria existén pessoal. burgues n_processo de le do sujeito. 10 social a0 qual todos se devem sujeitar para estado de existéncia, numa clara demonstraca0 ino apontado para o retrate é quase sempre contudo, nao deixa de ser uma questi central lo individuo com a propria imagem. Produto do ssonalidade para afirmar-se ¢ tomar consciéncia nit de Gisele Freund, 0 retrato fotogrifico , por Schaeffer como uma imagem que, longe sto-suficiéncia do eu, remete para a auséncia © porque a fotografia confronta o modelo com a identidade humana em sua individualidade psicolégica ¢ social, situando-a na esfera do reflexo. de fato, ativa um mecanismo cultural que faz 0 lcangar a propria identidade gracas ao olhar se opde 0 retrato ao auto-retrato, esquece-se freqtente- todo retrato € também virwalmente o auto-retrato {que se reconhece nele, @ para quem desempenha protese visual, permitindo-lhe assegurar-se da lentidade (..) por intermédio de um olhar exterior, uele mecdnico, da fotografia automética * tivo da consciéncia social de si, 0 retrato » € fruto de uma relagio que ordena de maneira ivo da tomada, 0 olhar do operador, 0 9 para que deles resulte a imagem de uma > se confunde com 08 tragos fisiondmicos.* que permite construir uma nogio de i exterior, nem sempre coincidente jagem, desencadeia © desassossego de presenga Fisiea, mas nunca utras caras, Go anos. Pareco inas que aqui se rednem em corpo todos os dias est tal qual € — 0 largo rosto prazenteiro e duro, olhar enos fins eujo ultimo intuito $6 o segredo dos Deuses firme, o bigode rigido completando. A energia, a esperteza, do. homem — afinal to banais, e tantas vezes repetidas por tantos, milhares de homens em todo © mundo — so todavia escritas rnaquela fotografia como num passaporte psicolégico. (..) Até ‘© moro — reparo sem poder reprimit um sentimento que busco supor que no é inveja — tem uma certeza de cara, uma expresso direta que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria (© que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma pelicula no era? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem, sou, para que seja assim? Contudo... E 0 insulte do conjunto? ‘ocia-se do grupo, a0 reconhecer a verdadle dos 4 propria identidade, que se apaga diante le do patrao e da monotonia do chefe. A camara a diferenca de quem se sente m contexto que, porém, Ihe atribui uma identi- segura? Ou, ao contririo, como parece insinuar judo seguido de reticéncias, a cimara nao te |4o que 0 proprio sujeito seria incapaz. de enxergar desencadeando um mecanismo de cefesa? Pessoa no se reconhece na propria imagem refletida pela mAquina porque atribui ao olho da cimara um poder de usurpaglo, incapaz, contudo, de penetrar na interioridade do individuo. Ao nao se considerar co-autor da propria efi © poeta parece transferir para 0 aparato tecnolégico a respon sabilidade pela configuragio de uma identidade falsa, por banal e superficial. Ao mesmo tempo, porém, reconhece no retrato de grupo a identidade social de seus companheiros de escrit6rio, claramente estampada no rosto de cada ‘um movimento psicolégico que confere legitimidade & image exterior e oficial ¢ estabelece uma equivaléncia absoluta entre fotografia e semelhanga fisica e psicolégica Esse jogo duplo pode ser lido & luz dos mecanismos que regem o grupo €, conseqtientemente, o retrato de grupo. grupo proporciona um contexto identitério para os indivi condicionando a auto-apresentagao de um 2 presen¢: ‘outros, Ao integrar um grupo, o individuo partilha uma no de identidade bem mais ampla do que aquela do set ria, sem diivida, pela segunda hipétese, pois 10 fotogriifico a capacidade de fornecer infor- Imente perceptiveis num rosto: ido para um retrato, parece que vemos apenas onhecemos, sempre igual a st mesmo. Mas um. nos mostm um aspecto completamente diferente, jutamente reconhecivel. Depois um terceizo, & 10 olhas, nos convencem le que nosso amigo 1 muitos, tanto na aparéncia quanto nas atituces quais sua nacureza intima se apresenta 1 fotografia € uma “meméria de ma marca, O sujeito retratado numa foto: de sua presenga. Ao contririo, 0 “eu” 10 de imagem nada mais ¢ do que nica dos sais de prata. (...) nao sou eu presenca nas marcas que deixo, € a € 08 equilibrios que serio transpostes para a fotografia la como contetido indiferente de sua Na representagio simbélica, 0 conjunto prevalece sobre o ha presenga somente no interior de seu indivicuo, sem apagar, porém, a personal grante, como Pessoa percebe: 4 fato que seri ‘grafo alegre, contra 2 barreira branca si la pelos fotdgrafos ao estudo madeira frgil, 0 escritério geral do gi pone ¢ Kes intervengoes no oe weno da reve mn Pa © uso que Picasso faz de alguns retratos parece confirmar esta hipétese. Entre 1917 € 1920, o pintor realiza uma série de desenhos a partir de fotografias, enfatizando justamente 0 que nao fazia parte da gramética da nova imagem, linha e cor. Os dois recursos esto presentes em A familia de Napoleao IIT (2919), cujo ponto de partida € um cartio de visita do Estiidio Leviteky: a linha permite-Ihe chamar a atengio sobre os torsos das figuras ¢ sobre o circulo formado por seus olharcs ¢ suas ‘maos; as tintas pastel aplicadas de maneira plana, longe de conferirem um maior realismo 4 composi¢ao, acabam por evocar a construgao ingénua das imagens de Epinal. n ttabalhos como Serge Diaghilev e Alfred Selisherg (1919, inspirado auma fotografia de Jean de Strelecki), Homem de Pé (1920, cuja referéncia € um cartlo de visita do Esttidio Antonin) e Retrato de familia (1919, derivado de um cartio de visita de Feulard), 0 uso exclusivo da linha confere uma nova densidade corpérea as figuras, que ganham um gigantismo inexistente na imagem original. A linha, por outro lado, cenfatiza ainda mais a bidimensionalidade inerente a fotografia, criando uma adesio imediata entre o desenho ¢ o papel que © abriga. Do mesmo modo que em A familia de Napoledo Ill, Picasso confere um lugar central & representagaio das maos, evocando aquelas notmas gestuais que estavam na base da codificagao do retrato oitocentista. Nao € apenas a essa norma que o pintor recorre nesse conjunto de obras. A desproporcito de Retrato de familia permite falar, de um lado, num uso parédico da distancia focal, que era uma das regras basicas da boa fotografia. E lembra, de outro, uma convencio fundamental do retrato familiar, alicercada em relagdes de hierarquia, autoridade subor- dinacdo. © gigantismo das figuras paterna e materna contrasta com a cabega diminuta que encima 0 corpo desproporcional da filha, desmistificando aquele recurso ret6rico que se inscrevia na superficie da imagem: a apresentagao da familia como um grupo isento de tensdes € contrastes. A harmonia sempre presente nesse tipo de tepresentacio, é problematizada lo apenas pelo contraste proporcional, mas também pelo tratamento dado @ cabeca da menina, que Anne Baldassari aproxima das ilustragdes oitocentistas e da colagem:"! a estratégia picassiana pode sugerir, desse modo, uma leitura do género pelo avesso gragas 4 superexposi¢ao dos meca- nismos simbélicos que regiam construgo da imagem. Picasso no realiza uma operagio formal apenas com esse tipo de imagens. Mesmo os retratos realizados no momento analitico e baseados em fotografias que ele mesmo executava em seu atelié trazem essa marca. © que menos interessa a0 pintor € a concepgao do retrato como signo de uma identidade. ‘Ao contratio, os retratos desse periodo podem ser vistos como suportes de uma especulagio puramente plastica, na qual a fragmentacto do ser ganha reforgo gracas a0 uso de signos derivados de diferentes imagens, redistribufdos ¢ reorgani- zados sem qualquer consideragio pela realidade empirica do modelo. Se o retrato ndo passa de uma forma pode-se ainda falar em retrato? Se for aceita a hipétese de Francastel, nao. Para ele, o retrato s6 existe quando o artista estabelece uma distingio Consciente entre suas prdprias percepcoes ¢ a intencio delibe- rada de tornar sensivel a aparéncia de uma individualidade diferente da propria. A partir de Cézanne e, sobretudo, com os cubistas, so destruidos os pressupostos sobre os quais repousava o género, uma vez que ganha primazia a andlise das representagdes do espirito gerador de signos sem qualquer conexio com a realidade operacional. retrato fotogeifico est, sem diivida, na base da crise ¢ a transformagao do género pictérico no qual se inspira e do qual deriva boa parte de seus recursos representativos. Mas € impossivel no perceber que cle proprio coloca em crise uma definigao de identidade que remontava ao Renascimento, a0 criar um paralelo absoluto entre fisionomia ¢ personalidade e ao escamotear o individuo por tris do tipo, A identidade do retrato fotogritico € uma identidade construfda de acordo ‘com normas sociais precisas. Nela se assenta a configuracao de um eu precirio e ficcional — mesmo em seus usos mais normalizados —, que permite estabelecer um continuum entre 0 século XIX € 0 século XX, entre uma modernidade confiante na ideologia do progresso e uma modemiclade problematizada pela desconstrucao pés-moderna. 55