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FUNDAGAO EDITORA DA UNESP Presidente do Conselho Curader Mério Sérgio Vesconcelos LUIS FELIPE MIGUEL DEMOCRACIA E REPRESENTACAO TERRITORIOS EM DISPUTA 96 wis FEUPE wicueL Como foi dito na Introducao desta obra, na Antiguidade a democracia era vista como o governo dos pobres. Por muito tempo, essa percepgao ecoou no pensamento politico, fundamentando, em primeiro lugar, a oposigZo ao regime democratico ou a necessidade de complementé-lo com salvaguardas para os privilégios das mino- rias, Apenas no século XX, o sentido da democracia foi asseptizado, «sua vinculagao com a promosao dos interesses dos grupos desta vorecidos foi apagada. E 0 movimento que leva a separacio entre 0 governo democratico e a nogdo de soberania popular, encabecado por Schumpeter. Enecessério recuperar esse sentido, que faz da democracia uma forma de governo com contetido, no um campo neutro. A partir daf, € possivel entender a democraci acabada de > governo, mas como um projeto de enfrentamento das estruturas de dominagto vigentes numadeterminada sociedade. Formas democri- como uma, por@ovos reclamos dem movimentos de acomodagao-€ oligarquizagio, por outro, em um pprocesso sempre inacabado. Entendida a democracia dessa maneira, 0 que esti em jogo ndo € a aceitagao consensual de determinados valores ético- gras do jogo” que seriam neutras, masque, dada aseletividade das instituigdes, nunca deixam de favorecer determinados interesses Da posigao dos dominados, o contetido da democracia é a busca da supetagio da dominagio, que nao ¢ uma expressio abstrata, nem. ‘uma férmula de uso geral, pois a dominagio assume formas concre- tase variéveis nas diferentes sociedades humanas.”* O antagonisma entre dominantes e dominados pode se expressar ou pode ser esca- moteado, mas nao ha formula retorica que o faga ser transcendido, 26 Eo queme distingue da nog de liberdade come nia daminasio, do rep biicanismo de Philp Petitou Quentin Skinner, que, categoria “dominaeao”,acabam per se revelarcompatives com formas dedominasioefetivas. oatribuirnenhuma AS DIMENSOES DA REPRESENTAGAO Emboraa expressio “democracia representativa" sejaaceita hoje com naturalidade, ha uma tensio permanente entre 0 substantivo, que remetea um ideal de igualdade politica entre todosos.cidadios, jetivo, que introdiuz um diferencial de poder entre aqueles que decisdes (08 representantes) e aqueles que esto apenas submetidos a clas. Como visto nos capitulos anteriores, a represen ‘ago € um mecanismo crucial para a manutengo do conffito social emniveis manejaveis, mas o prego que se paga é um desvio constante entre as agbes dos representantes e as vontades dos rej scoresentadon Neste capitulo, sustento que a recuperacéo dos mecanismos representativos depende de uma compreensio ampliada do sentido da propria representagdo. Na medida em que os grupos subalter- nos obtém éxito no que se refere a incluso politica ou, ao menos, demonstram uma consciéncia mais aguda do problema, as tenses 98 WIS FELIPE MiGuEL presentes no campo politico se ampliam. Um modelo representative i 1 com mais cuidadoas questde ‘aos meios de comunicagao de ma: ‘Uma aproximagio p sma parte da aparente con- tradigao entre aceitagdo quase universal do valor da democracia ea crescente deterioragao da confianca em relacio as instituigdes repre- sent que deveriam efetiva-la. £ possivel detectar uma crise do sentimento de estar representado, que compromete os lagos que idealmente deveriam ligar os eleitores a parlamentares, candidatos, partidos e, de forma mais genérica, aos poderes constitucionais. O fenémeno ocorre por toda a parte, a partir das ss décadas do. século XX, de maneira menos ou mais acentuada, atingindo novas e velhas democracias eleitorais. jo genérica— uma crise disseminada da repre- , em novas e velhas democracias ~ é de diff evidéncias relativas: (1) ao declinio do comparec a ampliagao da desconfianga em relacé surveys; € (3) a0 esvaziamento dos parti (Osdados mais objetivos dizem respeito ao primeiro ponto: o aumento na quanti- dade das abstengdes, comparativamente as duas ou trés primeiras décadas do pés-guerras. Nem sempre ésimples interpretar os nime- ros, uma vez que em muitos paises ocorreu, no periodo, a ampliagio da franquia eleitoral a novas categorias da populagao (mulheres, na Suga; negros, no sul dos Estados Unidos; analfabetose jovens entre 16¢ 18 anos, no Brasil, para citar apenas trés exemplos), bem como a transigdo de sistemas de voto obrigatério para voto facultative Porém, é mais ou menos generalizada a tendéncia a reduga0 no comparecimento as urnas.' DEMOCRACIA EREPRESENTACAO 99 as em idade de votar desprezaram 0 +a nova presidente da Repi com mais detalhe adiante, nos anos 1960 e 197 lnterpretasio que via na abstengio cleitoral "thas de vitalidade da democracia represent «om o funcionamento das instituigdes. s#econstréiesse sent feréncias adaptatvas, uma visio miope sobreas pri preciso ir tiolonge. A baixa participagdo politica é lida mais corretamentecomo ‘xpressiode uma sensagio deimpoténcia eestranhamento~"a politica ilo é para gente como eu” — do que de contentamento com a _@hiabelecida, Os dois outros conjuntos de evidncias sobre tepresentacao politica corroboram essa percepedo. ‘As pesquisas de opinido publica sobre a confiabilidade das ins e de contentamento ‘vel questionar como nto desatisfacio que, por vezes, éefeito de pre- sido de uma moldura lado. Impondo categorias ¢ preocupagies istados ~ e também postulando uma relaca: io, opinito firmada e comportamento-, tum caso paradigmatico daquilo que Bourdieu (1997, p.63- 100) chama de “erro esca ‘0 qual o pesquisador transfere [para os outros agentes sociais a sua maneira de pensar e a unto, em vez deapresentarrespostas, como: As surveys fornecem indicios que devem ser co! Dara que se alcance alguma conclusio. ‘Alem desse problema metodolbgico de fundo, os resultados das surveys encontram outras dificul dades de interpretasio, uma vez.que 100 wisFELPEMauEL silo raras as séries histéricas mais longas com dados compariveis. ‘Ainda assim, é possivel postular uma confianga baixa nas institui- ges representativas, mesmo nos paises em que o comparecimento as eleigdes permanece elevado. De acordo com 0 Eurobarémetro (em pesquisa de 2011), em média 33% dos entrevistados, nos paises da Unio Europeia, respondem que confiam nos seus parlamentos nacionais; quando pergunta é sobre os governos nacionais, a média € de 32%, E ainda menor a confianga nas instituigdes europeias supranacionais; apenas 30% julgam que tém alguma influéncia na condugio da Unio Europeia. Longe de ser apenas efeito da crise do euro, tais ntimeros refletem uma desconfianga de longo prazo, jé indicadas nas pesquisas dos anos 1990.? Nos Estados Unidos, as surveys do National Opinion Research ‘Center mostram, de 1973 1993, uma queda acentuada na confianga popular no poder executivo (de 29% para 12%) e, ainda maior, no Congresso (de 24% para 7%), com uma ligeira subida na primeira década do século XI" No caso do Brasil e dos outros paises rede- ‘maocratizados da América do Sul, as pesquisasadotam, muitas vezes, pressupostos fortemente normativos, associando a desconfianga nas instituigdes representativas & adesio a valores autoritarios.* (O quadro geral sustenta a mesma impressao da Europa e Estados ‘Unidos: uma crise disserninada do sentimento de estar representado 1no governo e no legislativo, com repercussées na legitimidade das instituigdes Enfim, trata-se de um fendmeno que no esta restrito a uma rea geogtifica ou a democracias eleitorais de tal ou qual grau de consolidagao, Uma pesquisa de abrangéncia mundial, realizada no 2. Astabelasestioem