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ComunicacAo E REPRESENTACAO ‘A concepsao ampliada da representacio politica concede cen- tando nossas circunstnciaslocais a processos de abrangéncia muito mais ampla. Hegel observara que, no mundo moderno, a leitura los jornais substituia a prece matinal (apud Schudson, 2003, p.68) Ridio, televisio e internet ampliam ainda mais o impacto da comu- nicago de massa na via cotidiana, constituindo oambiente no qual visto intemet), Em pequenss comunidades autérquicas, épossivel imaginar quecada pessoa obtenha todas as informagées significativas cde que precisa para tocar sua vida através de sua vivéncia cotidiana ou do contato pessoal com testemunhas. No entanto, a medida que essa sociedade cresce e amplia suas trocas com comunidades proximas (e 138 Ws Feure wicueL remotas), as informacdes significativas deixam de estar diretamente disponiveis. E a partir do momento em que aumenta o dinamismo dessa sociedade, com o abandono de praticas tradicionais, cada indi- viduo passa a precisar de um volume maior de informagio. Como se diz num romance de E. L, Doctorow (1996 [1995], P.82), “o jornal s6 aparece quando comecam a acontecer coisas que as pessoas ndo podem ver com seus préprios olhos”, ou seja, quando ‘acondugaio da nossa vida passa a depender de informagées distantes, O jomnalismo supre essa necessidade; resumidamente, 0 trabalho jornalistico consiste em recolher informagées dispersas (através de uma rede de repérteres), “empacoté-las” através de determinados processos técnicos (jornal, rédio, televisio, internet) e, enfim, tribuir o produto final a uma audiéneia diversificada. Uma abordagem desse fendmeno pode ser feita a pattir do ”, de Anthony Giddens. Para o socié- ogo inglés, uma das caracteristicas marcantes das sociedades contemporiineas éo fato de que vivemos num mundo matcado pela “desencaixe” (disembedding) das relagdes sociais. No lugat das anti- gas comunidades face a face, nossas vidas hoje esto, de forma cada vex mais diteta e abrangente, ligadas e condicionadas por grupos de pessoas que nunca vimos —e que, na verdade, em sta grande ‘maioria, nunca veremos. As relagées sociais sio deslocadas de seus contextos locais e reestruturadas “através de extensées indefinidas de tempo-espago” (Giddens, 1990, p.21), Embora ndo gio da contemporaneidade, esse desencaixe pode ser legitimamente considerado um dos seus tracos definidores, pelo grau de generai- 2zagio e profundidade que alcangou. O mecanismo mais importante de “desencaixe” é a influéncia, cada vez mais onipresente, do que Giddens vai chamar de expert systems, expressdo que as tradugées brasileiras tém vertido como “sistemas peritos” ou “sistemas especialistas”. © conceito, que ela- bora motivos weberianos, serefere a “sistemas de exceléncia técnica (ou expertise profissional que organizam grandes éreas dos ambientes ‘material e social em que nés vivernos hoje” (Giddens, 1990, p.27), incluindo saberes, priticas e artefatos. DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 139 is sistemas possuem dois tracos caracteristicos principais. O ito €0 elevado grau de autonomia em relacio aqueles que lhes :bmetidos. Ocliente ou consumidor do sistema perito, sendo jo desprovido da exceléncia técnica e da competéncia ional especificas daquele sistema, possui uma capacidade itoreduzidade influencis-lo~a rigor, sua influéncia se dé apenas através dos mecanismos de mercado, Ele pode deixar de adquirir certos produtos ou de contratar certos profissionais, iniciativa que, uma vez agregada a decisdes similares de outros consumidores, seguramente provocard uma reago. Mas é6. A segunda e talvez mais significativa caracteristica dos sistemas peritos é quie eles implicam, da parte dos clientes ou consumidores, ‘uma crenga em sua competéncia especializada. Assim, quando alguém vai ao médico, via de regra nao tem condigdes de avaliar acor- 1ua incorregdo do tratamento que lhe érecomendado. Apenas 10 conhecimento especializado de que o médico é portador. mesmo vale para quem contrata um engenheiro, um psicélogo, um. cletricista ete, e também para aqueles sistemas peritos quese encon- tram objetivados em maquinas: um passageiro comum que embarca num avido acredita no conhecimento especializado materializado lc aparelho, conhecimento cuja precisio ¢ incapaz de avaliar Computadores, viadutos, automéveis, medicamentos, televisores, pipoca para micro-ondas: mais uma vez, a listagem ¢ interminével, ‘A confianga recebida pelo médico é, em muitos sentidos, idéntica { depositada pelo individuo da sociedade tradicional no feiticeiro a0 «qual recorre em busca de cura, Mas ha distingSes significativas. Os ‘especialistas posstiem um conhecimento que pode parecer‘misterios0 para o paciente (ou consumidor), mas que é, em principio, acessivel jue se disponham a aprendé-lo; mais ainda, sua esfera de atividade, os peritos ‘estilo reduzidos & posigio de leigos. Jé o “guardio da tradicio”, como diz, Giddens, dispde de um saber arcano, no comunicavel ‘aos outros, que Ihe concede “um istinto e generalizado na jladle, como um todo” jamais se torna uma “pessoa iddens, 1997 [1995], p.83-4e 110). 140 urs FeLPE Miu. abe observar ainda que oconceito guarda pelo menos duas dife- rengas fundamentais com a nosao de “discurso” de Michel Foucault, que Ihe é, em alguns sentidos, préxima (Lash, 199 p44), Em primeiro lugar, 0 conceito de Giddens, incorporando no s6 discursos e praticas, mas também artefatos tecnolégicos, é muito mais abrangente que o do filésofo francés. Além disso, Giddens valora de forma bastante positiva os sistemas peritos, promotores de bem-estar e de racionalizacdo, enquanto Foucault vé os discur: i srumentos de controle e de dominagao. Na ‘em que o progresso da autoconsciéncia alavancaria a ampliagdo da liberdade, O inverso da visio de Foucault, na qual os saberes/ poderes promovem 0 disciplinamento e sufocam a autonomia dos individuos. Explicado, em linhas gerais, o conceito de Giddens, nao dificil perceber de que maneira 0 jornalismo—entendido em sentido amplo, como produgao e veiculagao de noticias por quaisquer meios — pode ser visto como um “sistema perito” que inclui uma pratica especifica eum produto final. O leitor/ouvinte/espectador, no papel de con- sumidor de noticias, mantém em relacao a0 jornalismo ume atitude de confianga, similar & dos outros sistemas peritos, que pode ser dividida em trés momentos: (1) confianga quanto a veracidade das informagées relatadas; (2) confianga quanto a justeza na selegao e hiecarquizagio dos elementos importantes ao relato; ¢(3) ‘quanto a justeza na selecao e hierarquizacao das noticias diante do estoque de “fatos” disponiveis. ‘Aqui intervém uma primeira caracteristica distintiva do jorna- lismo: a relativa incapacidade de comprovacao da corregio dessa confianga. Segundo observa Giddens, a crenca nos sistemas peritos no é gratuita. Ela 6 sustentada pela experiéncia cotidiana, que nos diz. que tas sistemas funcionam: como no ditado inglés, “a prova do pudim esté em comé-lo”, A crenga do passageiro comum no conhecimento materializado no avido nao € mantida com base em. algum saber especializado, que ele nao possui, mas também nio é DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 141 {nracional, Apoia-se no fato de que, via de regra, os avides chegam a seus destinos; a crenga no engenheiro se mantém quando se observa "que seus edificios nao desabam. Em geral, ossistemnas peritos deve passar por isto que poderia ser: ‘chamado de “prova de efetividade”.' ‘Ascaracteristicas proprias do jornalismo, porém, impéem sérias restrigdes a tal prova, O primeiro momento: da crenga do consumi- dor {formagao ~ a veracidade do relato ~ permite a verificagao ‘apenas em certos casos. £ claro que se um jornal noticia que em dleterminado cinema esta passando o filme X e, ao chegar lo leitor ‘confere que a informagao nao procede ¢ esta em cartaz 0 filme Y, a credibilidade desse veiculo é abalada, Mas se a noticia for ‘sobre um terremoto destruiu uma cidade no Sri Lanka, um ntimero muito: teduzido de leitores terd condicées de comprovar a exatidio da infor- magiio.” Dado esse fato, que é congenial a0 prdprio jornalismo, a estratégia para obter acredibilidade, sobretudo na televisio, € impor ‘como indiscutivel o fato que se relata, em grande medida através da apresentagio de imagens “que ndo mentem jamais” ‘A verificagao do segundo momento da crenga no jornalismo—a correta selegio dos elementos que compéem anoticia—éigualmente dificil. Sua comprovacaa (ou nao) exige o conhecimento intimo de realidades completamente alheiasa vivenciado consumidor de nfor- magio. Como saber, por exemplo, se orelato de uma reunio politica hnio deixa de fora aspectos relevantes, quando essa informagao € 1 Hicacain 6 sitemaps que anim prong tempoaconfaga cst neue eomovayo ene es efetidade, A sae des reo nando coterie 8 o 1ado “caso da Escola Base” revela que a dificuldade na comprovacio repute derconsumieres nie dpe data epacal ined uma pt ele Sto Po foam heaipod ec grou eae har os responsiveis. Mais tarde, comprovou-se que 8 ~ mas essa informasiatambinidependeu dojomalisme te tornar disponivel. Velculos de comunicagio, como a Rede Globo, 08 Fotka de S Paulo Estado de S. Paulo ea revista Ist foram poste Fioementecondenados a pagar indenizagées aos envolvidos no caso. 142 is FeuPeMicue. nossa tinica via de acesso a tal reuniio? Essa a justificativa da existéncia do jornalismo como veiculo especializado de transmi sto de informagoes: o fato de que nossa vida cotidiana nos poe em. ‘ontato com uma parcela bastante restrita das informagdes de que podemos precisar. Da mesma forma, a verificagdo do terceiro momento, a erenga 1a correta sclecio das noticias, diante do estoque de “fatos” dispo- iveis, € inacessivel para a esmagadora maioria dos consumidores de informagao. As vezes, uma vivéneia pontual pode levar ao ques- wamento dos critérios de selecao da imprensa. E 0 que ocorre com aqueles que, por alguma eventualidade, se veem envolvidos em algum acontecimento que consideram de envergadura (uma [Passeata, uma greve, uma vernissage) e, com espanto, percebem que foram ignorados pela midia. Ainda assim, eles nao terao condigio de questionar globalmente a selegdo das noticias, jé que o universo de fatos dos quais tomam conhecimento independentemente da imprensa € muito restrito rigor, na maioria das vezes nao se trata da corrego ou incorreya0 na escolha das noticias, mas da imposigdo de um conjuntodecritérios. AAimprensaimpéea sociedade seus critérios de selec de informacées. Frutos de constrangimentos profissionais especificos, esses critérios is. Assim, ojorna- lismo exerce uma violéncia simbdlica origindria, que é exatamente estabelecimento daquilo que hi de " A influéneia dos meios de comunicagao também é particular mente sensivel num momento crucial do jogo politico, a defini de agenda. A pauta de questdes relevantes, postas para a delibera- sao publica, é em grande parte condicionada pela visi cada questo nos meios de comunicacéo. Dito de outra mica possui a capacidade de formular as preocupagies piblicas. O impacto da definigio de agenda pelos meios de comunicacia é per- ceptivel ndo apenas no cidadao comum, que tendea compreender as ‘questdes destacadas por eles como mais importantes, mas também. no comportamento de lideres politicos e de funcionarios piblicos que se veem na obrigacdo de dar uma resposta aquelas questdes. snes amammpnintl DEMOCRACAEREPRESENTACAO 143 Cumpre observar que a midia nao se limita adefinigao de agenda, no sentido de apresentagao “neutra” de um elenco de assuntos, como por vezes transparece nos trabalhos pioneiros sobre o tema Sohen, 1969, p.13; McCombs e Shaw, Assim, a ideia de definigio de agenda sera complementada pela nosdo de “‘enqua~ dramento” (framing), adaptada da obra de Erving Goffman (1986 [1974] ia fornece os esquemas narrativos que permitem interpretar 05 acontecimentos; na verdade, privilegia alguns desses ‘esquemas em detrimento de outros. Ha, porém, uma dificuldade para operacionalizar o conceito: como trabalhar com o que no esta ‘posto, isto é, com os enquadramentos alternatives? Como ver aquilo aque niose di visibilidade? Como peresber o que amidia ndo mos- trou, se é a midia que nos mostra o mundo? Mas & necessério observar que o jornalismo vai além da deter- minagio dos temas que compéem a “agenda ptiblica”. Os jornais € 08 noticidrios de radio e TV elegem temas, apresentam os fatos relevantes para a compreensio de tais temas e ainda, num processo mais complexo e em longo prazo, ajudam a estabelecer 08 valores ‘que presidirdo a apreciagao dessa realidade construida, Se o tema “desempenho da economia", por exempla, é colocado em destaque na agenda publica, torna-se necessério identificar os indicadores relevantes (taxa de inflagdo, crescimento do PIB, ni lade, desenvolvimento ou redistribuigio ;prensa~ sempre entendida em sentido amplo,ecom predo: ‘minancia sensivel da televisio ~desempenha igualmente um papel nada negligencidvel na producto de ce crédito social, que permitea certos individuos ocuparem posigdes de atatoridade em determinados campos (Bourdiew, 1980, p.203-4). De maneira mais especifica, a formacio do.capital politico passa, cada vez mais, pela intermediagao do jornalismo. E uma realidade que os agentes politicos jf percebem, intuitivamente, ha bastante tempo, as serem, cada vez mais, (endo acontrivio, como demonstra o fato de as ages p 144 wis FeuPe micuer isto é, jomalistas correndo atrés de “fatos” que tém existéncia inde- pendente, como 0 consumidor de informagio tende a acreditar) Eevidente que o joralismo e mesmo midia como um todo no pPosstiem um controle absoluto sobre construcio da agenda, darea- lade e dos valores —conforme mostra a ocorréncia de mobilizagdes politicas de grande envergadura feitas contra os meios de comunica- ‘sio mais importantes. Mas éinegavel que, por sua posicao estrutural de agregador/difusor de informagao, 0 jornalismo esta habilitado a ‘cumprir um papel chave nesse processo. A disseminacdo das novas tecnologia de informagao, baseadas na internet, leva por vezes ao entendimento de que ha um recuo da centralidade do jornalismo. De fato, nao € possivel ignorar 0 impacto crescente das novas tecnologias ~ embora ainda muito diferenciado de acordo com clivagens de geragéo e de classe ~ nos padrées de sociabilidade e na produgio das identidades, algo que, ‘luz do exposto no capitulo anterior, possui evidente peso politico. A internet tem fomentado novas formas de ativismo, muitas vezes ‘marcadas por seu cardter individualista com foco na autoexpress4o, ‘mas que representam um fendmeno importante a ser estudado. £ uma ferramenta de comunicac2o primordial para novos e velhos movimentos sociais, grupos minoritarios e organizagdes contra- -hegeménicas, proporcionando compartilhamento de informacio de forma quase instanténea e a baixo custo. Mas o jornalismo, em particular, e 08 contetidos simbélicos da grande midia empresarial, em geral, continuam ocupando uma posi¢ao central (O jornalismo permanece sendo 0 grande alimentador da infor- magio, gracas exatemente a sua condigio de “sistema p Redes de ativistas podem cumprir um papel importante na dis- seminagio de visdes de mundo alternativas, mas é 0 jornalismo profissional que esta equipado para distribuir informagdo abran- geral, de forma permanente. Os grandes conglomerados de ocupam a posigao de principais provedores de informacdo no préprio espaco da internet, por meio de portais que aprovei- tam a sinergia oferecida pelas estruturas de produgio de noticias para os meios convencionais; seus contetidos so, com enorme DEMOCRACIAEREPRESENTACAO 145 frequéncia, ap dentro da rede. Assim, ‘pal ou mesmo sinica fonte de outros emissores -sconglomerados seguem sendo capazes de gerar o ambiente social de informagio compartilhada, isto 6, agenda comum do pit 08 grupos alternativos permanecem has posigdes (importantes, mas secundarias) de comentaristas que reagem a essa agenda, de ativistas que tentam influencié-la ‘partir das margens ou de comunidades de gueto que mantém uma {aixa propria, paralela, com pouco ou nenhum dialoge como piblico ‘mais amplo. E 2 diferenca entre uma pagina qualquer da internet ~ a todos, mas de fato procurada apenas par ‘um grande portal que concentra fluxo de tes e cujo contetido € acessado, comentado e reproduzido inimeras veres. Nao custa lembrar, ainda, que a tecnologia nao se desenvolve de forma automética. Ativistas buscam brechas para utilizar fer- ramentas como a web, o Google, o Facebook ou 9 Twitter, que, no ‘entanto, ndo foram projetadas para estimular a mel izac . mas sim para usos coms ou a pluralizagio de inform: ‘Ao contrario dos utopistas ddesenvolvema tecnologia sio "profetas armados” dispéem de meios para implementar suas previsbes na realidade As utopias iniciais de uma nova era em que os meios de comu- nicagdo estariam pulverizados eram também utopias de um salto numa politica pés-representativa, em que todos poderiam se fazer ouvir e sentir de forma direta, pléstica e “molecular”, como di nos anos 1990, seu principal arauto, o francés Pierre Lévy (1994, , aparece muito mais a ideia de uma representagio em que cada um se coloca Pporta-voz nas. «que se une a ideia de uma pluralizacéo selvagem das fontes de informagio. Mas, sem negar relevancia as miltiplas apropriagbes alternativas dos novos meios, a importincia crescente da internet continua ocorrendo dentro do modelo da comunicagio fernet, 08 grupos empresariais que so da concepgdo de represntagio politica que analiso no capi- a autorizagio & advocacy”. 146 wis reve wicueL de massa, em que uns poucos centros emissores sio capazes de ir conteitdos sim! icidade de receptores Sao desses centros emissores que falo ao me teferir ao jorna- lismo como sistema perito, E é possivel, agora, dar um passo além nessa caracterizagio, A {6 no sistema perito, afirma Giddens, nio € baseada apenas na experiéncia pritica de seu funcionamento. Sustenta-se também em. aagéncias reguladoras acima e além das associagdes profissionais, planejadas para proteger consumidores de sistemas peritos — orga- nismos que licenciam maquinas, supervisionam os padres dos Tiddens, 1990, p.29) fabricantes de aeronaves, eassim por diante. Na verdade, nao é dificil perceber que tais forgas reguladoras atuam como “‘metassistemas peritos”, uma vez que aatituide do con- sumidor leigo em relaglo a sua fiscalizagao e a seus certificados de qualidade é novamente de crenga em conhecimentos especializados que nio possui. conceito de metassistema perito, aqui introduzido, pode ser ampliado para abranger todos os mecanismos que favorecem a universalizagao da crenga — ou descrenga — no funcionamento de dos consumidores. E.0.caso, por exer cuja agio Giddens ignora sistematicamente. O discurso publ rio, embora voltado para a promogao de marcas especificas, sempre afirma a eficécia e/ou utilidade de toda a sua classe de produtos (e izados).* Um antincia de uma companhia aéreaé, por exemplo, além do louvor daquela empresaem particular, areafirmagio da confiabilidade da aviacio como meio de transporte. A influéncia da publicidade, que se pode dizer onipresente nas dos saberes nela mate: “4 Gabe observar que a peopaganda comercial, enquanto metassstema pert contribui apenas para a afiemagio da crenga nos sistemae peritos de que fala, © no paraa disseminacio de uma atisude de descrenga(ressalvadas as exceybes de pea DEMOCRACIAE REPRESENTAGAO 147 sociedades contemporineas, denuncia os aspectos de controle social presentes na “modernizacio reflexiva”, que a obra de Giddens insiste em desconhecer. Um outro tipo de metassistema peri scisamente o jorna- lismo. O contato cotidiano com as noticias ajuda a confirmar ou cdesmentir as crengas estabelecidas na fiabilidade dos diversos siste- ‘mas peritos ~ pelo simples fato de que o consumidor de informayes |jénao conta somente com sua experiéncia pessoal, mas também com. aquelas que Ihes sao relatadas. Um exemplo bastante imediato & 0 impacto que noticias de acidentes aéreos tém na venda de passa gens, um impacto efémero, mas sensivel. © jornalismo, portanto, € um foro informal e cotidiano de legitimagao ou deslegitimagao dos diversos sistemas peritos. abe perguntar quem cumpreo papel de metassistema em rela-