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170 wis FeurE micueL de partida, até alcancar a situaglo atual —e as posigées que pretende alcangar. Como hipdtese geral, é possivel dizer que, quanto menor ‘yolumede capital politico (ou quanto mais marginal for posigao no campo politico, oque significa a mesma coisa), maior a dependéncia em relagio a midia. Quanto maior for a marca midiatica no capital politico (isto é, uma carreira alicergada na popularidade obtida no xamo do entretenimento ou do jornalismo televisivo), menores as chances de éxito em disputas por cargos-chave. E quanto mais clevadas as posigdes de poder que se pretende aleancar, maior a necessiddade de visibilidade nos meios de comunicacéo. A relagio se torna mais complexa na medicla em que o préprio no € auténomo, pois incorpora, em parte (si hjetivos derivados do campo econdmico. O efrculo se fecha com a percepgio da influéncia miitua entre os campos politico e econémico —cujas expressoes mais evidentes s20 0 finan- lobby empresarial, para aagéo no sentido da economia para a politica, e 0 eftito das medidas de politica macroeconémicae dos contratos governamentais, no sentido inverso, A compreensdo dessa rede de influéncias cruzadas permite entender a utilizagao da midia como forma de presséo politica em busca de objetivos econémicos, um fenémenocomum, por exemplo, em estadas periféricos do Brasil, onde jornais ou emissoras de radio e TV podem estar a servigo de empreiteiras ou concessionarias de servigos publicos, mas observvel também em centros maiores ou em ambito nacional. Neste caso, a colonizacao da empresa de midia pela légica econdmica nao ocorre na forma da luta pelo mercado, ‘mas da perseauigdo deliberada de detetminados resultados politicos. A tarefa de desvendaro jogo politico atual pass pelo entenc- 0 reconhecimente dis temsoesIatentes (pot vezes até express, que marcam a complexa conjugagio entre as influéncias miituas, resisténcias, composigdes, ajustes delicados e anseios por autonomia que animam os diversos agentes de cada campo. A ACCOUNTABILITY ELEITORAL E SEUS LIMITES Iba primeira dimensdo da representacio politica, a dimensio da 1 de poder decisério, que recebe a maior atencio 0s. Muita literatura trata dos sistemas eleitorais, epende da mecanica de transformacio de votos em cargos, mas do (erroneamente) que essa dimensio esgota o problema, antes sistemas eleitorais proporcionais e majoritarios sto wos tendo em vista sua influéncia no sistema partidario ena \3o das bancadas parlamentares, Os valores que balizam av anilises so a governabilidade ~ a capacidade de formacéo de as fortes e estaveis de sustentaco ao governo — e a represen- lade, entendida como a presenga, nos organismos decisérios televantes, de todas as posigbes politicas relevantes, com peso razoa- ‘yolmente similar & sua presenga no eleitorado. Dada a tendéncia de equivaler disputa politica e disputa partids ‘costuuma tratar representatividade como a equivaléncia entrea pro- ‘porgiio do voto popular nos partidos em competigio e a proporgio das cadeiras parlamentares concedidasa cada um. Governabilidadee tepresentatividade aparecem, assim, como polosantaghnicos, que , essa literatura as que produzem maiorias governamentais mais folyadas lo aqueles que reduzem a representacdo das minorias partidarias, 172 wisFeuPeMicueL Para as visdes focadas na governabilidade, a democracia € um problema; nio é a toa que a palavra se popularizou a partir do relat6rio a Comissio Trilateral, em que se denunciava o excesso de demandas da participagio popular ao Estado (Crozier, Huntington ‘Watanuuki, 1975), Regimes autoritérios produzem suas maiorias com maior facilidade gragas a manipulagio, intimidagao e repress. A apreensio da representatividade como espelho da forga eleitoral, por sua vez, ndo vé além do momento em que o povo delega seu poder a um conjunto de representantes. Permanecem irrespondidos os desafios a serem enfrentados pela democracia representativa para garantir que seu componente democratico permanega ativo, apon- tados na Introducao: a separacao entre povo e governo, a formaca0 de uma elite governante permanente separada da massa dos gover- nados, a autonomizacaio da vontade dos representantes, a distancia, entre o momento do voto popular eo exercicio do mandato. ‘A resposta que as instituigées democraticas tendem a dar para esses problemas é a mesma: accountability, Entendida de forma ampla, a accountability significa que devemos responder e ser res- ponsabilizados por nossas ages. Assim, na filosofia de John Stuart, Mill, por exemplo, é crucial a distingao entre as ages que s6 dizem. respeito a propria pessoa, pelas quais ela nfo é accountable, jé quenao precisa responder a ninguém, eas ages que afetam interesses alheios ou coletivos, pelas quais cada um deve ser accountable (J. S. Mill, 1991 [1989], p.137). © conceito pode ser estendido de individuos a empresas ou . ¥ ‘A accountability politica indica, entio, a obrigacio que os poderes piblicos tém de se responsabilizar por seus atos. Isto se refere a0 controle que os poderes estabelecidos exercem uns sobre os outros (accountability horizontal), mas, sobretudo, & necessidade que os representantes tém de prestar contas e se submeter ao veredicto da populagao (accountability vertical), Uma definigo mais formal indica duas dimensdes da accountability, seja ela horizontal ou vertical: a answerability, isto €, a obtigacao de justificar seus atos, respondendo aos questionamentos sobre eles, eo enforcement, a sub- missio ao veredicto daquelas a quem sio prestadas contas (Schedler, DEMOCRACEREPRESENTAGAO 173 | p.l4-5). Entendido dessa forma o conceito, a accountability intal € apenas um elemento entre outros dos “freios e contra- ima vez.que mecanismos como a capacidade de veto miituo poderes ou as casas legislativas, por exemplo, funcionam Latina. Ela seria exercida pela midia e por zagdes nao governamentais. A supervisio permanente sobre iontios publicos, eleitos ou nao, representaria uma forma de certo, Porém, nao ¢adequado equivaler accountability a itrole social, um conceito bem maisamplo, Faltaa essa dimensio macidade de aplicagio de sangées; suas adverténcias e deniincias um efetividade apenas quando sensibilizam algum dos poderes idos, em especial o judiciario (accountability horizontal), ou ‘orado (accountability vertical) Julgo relevante entender -mpenhado pela midiae pelas ONG's no funcionamento niio ocorrer — funcionérios pabl ‘eondenados, podem ou nao ser r so de Luiz Ineio Lala da Silva em 2006, Seja coma for, 5" prépria do que seria a accountability social no forte 0 176 Wis Feure sven O ponto culminante da accountability vertical € a eleigao que, assim, ocupa a posigio central nas democracias representativas, cefetivando os dois mecanismos centrais da representacio politica ‘democratica: a autorizaao, pela qual o titular da soberania (0 povo) delega capacidade decisoria a um grupo de pessoas, accountability. As esperangas depositadas na accountabi cal), no entanto, nfo encontram mais do que uma pélida efetivacao na pritica politica. A capacidade de supervisio dos constituintes sobre seus representantes € reduzida devido a fatores que incluema complexidade das questées piblicas ofraco incentivo a qualificacdo politica eo controle sobrea agenda. forna-se necessario, entiio, entender 0 quanto se pode esperar da accountability vertical como instrumento de vinculagao entre representantes e representados. © primeiro passo é um aprofunda- mento da discussi do conceito, sobretudo no sentido de diferenciar ‘omecanismo da accountability eleitoral dos objetivos que ele busca implementar, evitando, desta maneira, a confusio, comm na lite- ratura, de tratar 0 mecanismo como um fim em si mesmo. E praticamente um lugar comum observar que accountability no possui traducio precisa para o portugues (e para outras linguas neolatinas) e, dai, extrair conjecturas sobre a qualidade (baixa) de nossas democracias em comparagao com as an lirio da cigncia politica em lingua portuguesa no Br ‘oAurélio quanto o Houaiss registram apenas o adjeti ‘mas encontra razodvel curso nos escritos da area, “Responsividade”, entretanto, corresponde mais de perto a0 conceito. muito préximo, mas ainda dis- diz. respeito a capacidade deosconstituintes imporem sangdes aos governantes, notadamente reconduzindo ao cargo aqueles que se desincumbem bem de sua 1 si, funcionitiospiblicos de seus cargos, como a vertical pode faze Stokes (1999, 9-10} DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 175 e der lui a prestacio de contas dos detentores de mandato e o vere- jopular sobre essa prestacdo de contas. E algo que depende -mecanismos institucionais ~ sobretudo da existéncia de eleigdes spettivas periédicas —e é exercido pelo povo. Jéaresponsividade tefere a sensibilidade dos representantes & vontade dos repre- de outta forma, a disposigio dos governos para icas preferidas por seus governados A primeira vista, a distingao entre os dois conceitos € ind: 1 disposigio dos representantes para respeitar as preferéncias ‘constituintes (responsividade) depende da possibilidade que dlispdem de premiar ou punir 0 comportamento dos tomado- de deci “Trata-se de algo que esta na base da fugio das instituig6es dos regimes constitucionais modernos: ‘confiar na bondade dos governantes e, ao contrério, estabe- ‘um sistema de controles sociais sobre eles, tanto ivinio de poderes) quanto vertical jenciagao entre os conceitos ganha maior uti adiante — quando entram em cena propostas de ampliagao da msividade por meio de mecanismos que minimizam ou igno- ‘ accountability suindo os que possuem desempenho insatisfatério. accountability ganba destaque sdacies populosas, extensas, complexas ¢ especializadas como. contemporineas, Ela apresenta um modelo mais sofisticado © relagies entre representantes e representados do que as icas do “mandato livre” e do “mandato imperativo”, ‘Uma visdo ingénua da representacao politica tende a considerar wyentante como delegado de seus constituintes, cabendo- ‘apenas expressar, nos foruns decisérios, a vontade iw base, fa ideia de “mandato imperativo”, que, no (o representante & posicio de um emissério. Quando muito, jpoderia negociar solugdes de compromisso, que, no entanto, iam ver referendadas pelos representados, como costuma 176 wis Feure nave. ocorrer na representacio sindical. No primeiro caso, 0 representante- -emissério cumpre fungéo mecéinica , a rigor, com 0 avango das tecnologias de comunicario, chega a ser dispensivel, No segundo, © representante-negociador retém recursos de poder sobretudo na medida em que combina capacidade d (externa) com lideranes excessivamente mor0so, sa), mas processo decisério torna-se indo miltiplasrodadas de negociagaoe deassembleias de base. Nao é um modelo viavel para arepresentaczo multifuncional, em caréter permanente, nas complexas sociedades contemporaneas, Em oposi¢do ao mandato imperativo ha a ideia de “mandato ” — formulada com clareza exemplar, na segunda metade do século XVIII, por Edmund Burke (1942 [1774]) ~ que triunfou nas democracias representativas. No famoso "Discurso aos elitores de Bristol”, o pensador inglés alinhou dois argumentos principais para justificara autonomia'dos representantes em relacioa seus eleitores. primeiro diz respeito a natureza da representacao: um deputado representa a nacdo, nfo seu distrito em particular, muito menos s6 aqueles que sufragaram seu nome. © parlamento, diz ele, nao é “um congresso de embaixadores que defendem interesses distintos € hostis", mas a “assembleia deliberante de uma nago, com um interesse: 0 da totalidade” ‘O segundo argumento esta ligado 4 competéncia. Além de serem, escolhidos por suas qualidades distintivas, os deputados so coloca- dos numa posigio que lhes permite compreender melhor as questies piiblicas, gracas as informagéies a que tém acesso, as discusses no proprio parlamento e a especializacdo na tarefa legislativa. Burke enfatiza que legislador nao age com base na vontade, mas na razao — uma resposta a Rousseau que, anos antes, n'O contrato social, escrevera que a reptesentagio politica era inadequada porque nio é possivel representar a vontade. ‘A doutrina burkeana permite responder a célebre critica plat- nica ao governo popular, garantindo a expertise dos tomadores de decisio. Compatibiliza a democracia com a “liberdade dos moder- 1nos", focada na vida privada, prépria do liberalismo, que Benjamin W7 DDEMOGRACIAE REPRESENTAGAO. te da populacdo pode (e deve) dedicar-se quase que exclusi- te a seus assuntos pessoais, enquanto a minoria cuida dos intos de governo, Especializagio e expertise, als, so duas faces ‘uma s6 moeda: uma leva a outra. ~ No entanto, o mandato livre que Burke preconiza nfo concede 8 interlocugio dos representantes com os represen rimos resta um papel predominantemente passivo. ty como uma espécie de “termo ‘entre o mandato livre e o mandato imperativo.' O represen- te nao esta preso as preferéncias expressas de seus constituintes, s idealmente deve decidir da forma que eles decidiriam caso usessern das condicdes ~ tempo, informacao, preparo ~ para inculo hipotético € resgatavel a qualquer momento, deve estar pronto para responder aos qu tos do puiblico. © representante deve explicar as decisies ie oma aos seus constituintes, convencendo-os do acerto de seus namentos A luz das informagdes que possuia, mesmo que a vista possam parecer incotretos ou desconectados de seus ases, E.€0 piblico quem decide o quio convincente foram suas es, pronunciando-se nas eleigdes seguintes. de uma descrigdo engenhosa do funcionamento da as € necessério abordar com mais cautela os diversos a sua efetivagao. Entre eles, as lacunas de informagao por wrado} ou, enti, a intermediacao de grupos de interesse ,capazes de controlar o comportamento dos representan- tam troca de financiamento de campanha ou visibilidade, como corporaydes profissionais ou conglomerados de in. Seja como for, as promessas da accountability sio efetivadas imperfeita.* Jobsticulo mais crucial esta ligado ao fato de que a represen- nas sociedades modernas é multfuncional; ou seja, no clissico estude de Pithin (1967) 1997). 178 wis FEUPE wicuEL ‘0 mandato concedi to no executive quanto no legislativo, abrange uma quantidade indeterminada de questdes. O mandatario ppossui poder de decisio sobre os temas mais diversose tipicamente, ‘ao longo de seu termo, participara de centenas de diferentes pro- cess0s deliberativos. Os custos de informagio para os eleitores se tornam altos, sobretudo porque, por definicio, eles podem dedicar ‘is questies pablicas apenas uma pequena parcela de seu tempo de sua atencio. lade da representagio plas for deve nio apenas ser capaz de acom- panhé-las, na medida de seu interesse, como de dar a cada uma ‘eu justo peso no momento de produzir uma avaliagio global do desempenho do governante. Aofinal, oeleitor possui um tinico vato, que, idealmente, deveria refletir a resultante desse processo plural de avaliagdo do mandato-em relagdo as inimeras questdes nas quais ele esteve envolvido, chegando a conclusio de reconduzir ou néo recondurir 0 representante a seu cargo, ‘ De fato, aqui se trava uma das batalhas politicas funcdamentais nos regimes concorrenciais. Coverno e oposigao buscam atengao publica para uma ou outra questo, conforme se julgue que 0 desempenho dos atuais ocupantes das posigées de poder & ‘melhor ou pior—corrupgio no Estado ou desempenho da economia, sseguranga publica ou relagdes nternacionais. A expectativa é que as ‘questées de maior visibilidade terdo mais peso na decisio dos votos individuais. Aqui, uma vez mais, os meios de comunicagao de massa de spenham um papel central, como édemonstrado pelaliteratura fa ao chamado media priming (Iyengar, 1991, p.133). Diante disto, € frequente que se recomendem estratégias de reducio dos custos de informacio, o que facilitaria 0 exercicio da accountability. Tais estratégias podem ser divididas em dois gru- pos. © primeiro busca a simplificagao do jogo politico. Quanto mais fécil for a identificagao da responsabilidade pela tomada de decisées, melhor; essa clareza seria uma condigo sine qua non para © proprio ex (Powell Jr., 2000, p.50-1), Se ‘uma decisio é resultado de uma barganha entre miltiplos agentes, io da accountabil DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 179 bre as decisdes, a interlocugao sobre as alternativas pol jdlerin ser transformada em mera avaliagdo impressionit mo no modelo de Downs (1957). A responsabilizacdo dos agen governamentais seria obtida mesmo com baixa informacio por smendado, ja que além de simplificar as opgées apresentadas 20 ido também conduz.& produgao de maiorias nitidas. Sistemas torais de votagdo majoritéria em circunscrigdes uninominais sehamado “voto dis seria o duplo mérito de favorecer 0 rismo e fazer com que cada eleitor precisasse acompanhar » paises como o Brasil, por exemplo, em que os distritos pplurinominais e cada eleitor de cada unidade da federacio esta representado simultaneamente por 8a 70 deputados federais). federativos fortes sa0 contraindicados, dada a sobreposicao "A igor, esse modelo caminha na diregio de uma democracia igativa, em que o sistema de freios e contrapesos entre os pode- wuado. A démarche realista que exige menor capacidade de ica por parte dos cidadios comuns é, também, ‘eayos em que a busca de maior accountability trabalha contra a jvidade. Cidadaos que devem escolher entre poucos candi- mais chance de optar “corretamente” com um minimo de fio, mas menos chance de encontrar alguma alternativa que que corresponde a sua visio de mundo e seus 180 Ws FELIPE wicveL (O segundo grupo de estratégias reduz o escopo da accountability, Jimitando-a, em particular, a formas de controle sobre a corrupsio, cexilando de vez aapreciagao de politicas substantivas, o queaparece, por exemplo, em documentos do Banco Mundial (1999) ou influen- ciados por sua perspectiva (Shah, 2007). papel dos cidadios deixa de ser ode formulacao da vontade coletiva para ser o defiscalizagao do Estado, a partir de um cédigo moral compartilhado, Sio estratégias que tornam mais fécil a efetivagao da accounta- bility, mas ao preco de rebaixaro sentido da democracia, na medida tem que abrem mio da ideia de governo popular. Caso esse valor seja resgatado, as exigéncias se tornam muito maiores. O funcionamento da accountability vertical vai depender da existéncia institucional de sangdes efetivas sobre os representantes, da proviso de informagio adequada e plural (ndo apenas sobte a atuacio dos governantes, mas sobre o mundo social de forma geral) e deinteresse pela politica disseminado nos diferentes grupos da populacio. ‘Atualmente, os regimes considerados democréticos garantem sangGes de tipo eleitoral para os governantes, mas falham, ef maior ‘ou menor grau, nos demais quesitos. © pluralismo dos meios de informagio é limitado, seja pelos constrangimentos profissionais, seja pela pressio uniformizadora da concorréncia mercantil; ou, ainda mais importante, devido aos interesses comuns dos proprieté- rios das empresas de comunicagdo de massa, que, als, formam um, mercado cada vez mais concentrado (Bagdikian, 1997; McChesney, 1999). Varios indicadores mostram que o interesse sua vez, é em geral baixo, conforme visto no capi sées da representacio”. Mais grave ainda, é distribuido de forma muito desigual; via de regra, pessoas pertencentes aos grupos de menor poder politico, como trabalhadores, mulheres ou minorias étnicas, sio também as que revelam menor interesse pela politica (demonstrando que o interesse &, a0 menos em parte, fungio das aportunidades de participacio efetiva abertas pelo sistema politico) Cabe acrescentar um tltimo critério para o bom funcionamento da accountability: os representantes devem ter poder efetivo para 2 implantagio das politicas que preferem. O sentido do controle DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 181 ppular fica comprometido quando parte significativa das deci- es é determinada por entidades externas, nao sujeitas as sangbes eterminadas pelo eleitorado, sejam elas organismos multilaterais (Nages Unidas, Unio Europeia), agéncias de finan- iamento (Fundo Monetétio Internacional, Banco Mundial), grupos ‘econdmicos privados com forte poder de chantagem (0 mercado”) ‘0\ mesmo Estados estrangeiros. Se tais organismos tém acapacidade de bloquear alternativas, esta pouco espaco para o exercicio da sobe- lar, Fica claro que o processo de globalizario complicou ‘io da accountability, sobretudo nos paises periféricos, que formar a ponta mais vulneravel da ordem globalista, claro que uma compreensio adequada dos entraves & accoun- ty no pode s ica, Bles tém a ver também com os mecanismos de controle da onda, com a dificuldade de acesso a discussio publica e com os ypedimentos & producio auténoma das preferéncias por parte dos {grupos dominados. Deste ponto de vista, a questio que se coloca (tanto a redugao das exigéncias de informagio para os eletores, ‘nas a ampliagao da capacidade de interlocucao entre representantes “representados, coma diminuigdo da distancia que os separa. Istoé, ‘nll se trata de “educar” a populagéo, mas de transformar a divisio Iho politico, o que promoveria a qualificagio poli rado. 's problemas da representagdo politica nas democracias eleito- tém levado ao surgimento de propostas inovadoras, tais como {ntroducao de determinado grau de aleatoriedade na escolha dos intantes ou a reserva de espagos para grupos considerados los (por meio de cotas eleitorais, por exemnplo). De maneiza itar & primeira dimensio da representagao )ampliagdo da representatividade mimética do corpo deciséio, nat os governantes mais parecidos com os governados; da pluralidade de vazes e perspectivas presentes 182 wis FELPEMIGUEL (4) ampliagio da rot acristalizagio de uma el ‘Todos os quatro objetivos tém em comum o diagndstico sobre qual se apoiam. A separagao entre uma minoria governante, relati~ ‘vamente homogénea em suas caracteristicas e tendendo a ocupar de forma permanente as fungoes de poder, e a massa governada gera vieses no processo de tomada de decisdes que comprometem seu idade nos cargos decisérios, impedindo cariter demoeratico e que 0s mecanismos formais de supervisio sobre os representantes ndo so capazes de sana. Entre as criticas geralmente apontadas contra tais propostas dlestacam-setrés. A primeira se vincula ao possivel cerceamento da liberdade do eletor-cidado, jé que sua escolha seria limitada por critérios prévios de representatividade de determinados grupos ou mesmo descartada em favor de uma elegSoaleatéria. Esse 0 ponto destacado por Andrew Arato (2002 [2000]), em sua condenacio sumaria da representatividade descritiva, No entanto, a critica incorre numa circularidade: mecanismos derepresentacéo descritiva visam exatamente garantir a presenca de grupos que tendem aficadl ausentes, dados os constrangimentos estruturais que incidem sobre asescolhas “livres” do eleitorado. ‘A segunda critica foca a provivel redugio da competéncia dos governantes, que levaria tanto a diminuigdo da efetividade da agio governamental quanto a ampliacio do poder das burocracias de Estado, A valorizagdo da especalizagdo funcional se coloca, assim, contra o principio democratico de rotagio entre governantes e governados. Ao mesmo tempo, o foco na competéncia pressupte aque exista um critério para avalié-la que seja independente dos interesses dos grupos. O focona representagio democritica impede que capacidades einteresses sejam tratados como questdesdistintas, ‘A critica mais importante, porém, diz respeito 4 redugio da accountability. Na medida em que o acesso aos postos de decisao depende menos da vontade dos governados ~ e mais de regras prévias de distribuigdo das vagas entre grupos ow ent, no caso de selegdo lotérica, da sorte -, a responsividade dos governantes a vontade popular estaria seriamente comprometida. DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 183 A forma mais radical de transformago dos mecanismos repre- que tem sido explorada por diferentes vias por teéricos , €a introdugao de mecanismos aleatérios para.o preenchi .gos piblicos, recuperando um procedimento proprio tla democracia classica. Sorteios garantiriam a igualdade absoluta tntre os cidadios. Em relagao a outros instrumentos de garantia de tespago para grupos em posigdo subalterna, como as cotas eleitorais, posstuem vantagens indiscutiveis. Cotas exigem uma decisao prévia sobre quais grupos devem ser beneficiados, 0 que é uma decisao Complexa e polémica. Ao determiné-los, politicas de cotas tendem ‘a perpetuar a relevancia politica das diferencas, que, no entanto, se desejava abolir. Sea porta para o ingresso no parlamento diferencia homens e mulheres, por exemplo, fica mais dificil imaginar um futuro em que o sexo seja irrelevante para predizer as chances de ‘cesso cle uma pessoa na carreira politica. Por fim, as cotas se pres- tam bem a aplicagao sobre varidveis discretas, como sexo ou renga 1eligiosa, mas no sobre variéveis continuas, como cor, classe social 1993, p.100) propostas de utilizagao de so no entanto, »pulus” proposto por Robert De tinico poder efetivo seria a ” ‘Trata-se, a rigor, de fazer funcionar um corpo ‘de representantes lotéricos, mas sem capacidade decisoria, que ‘ofletiria a vontade dos representados e obrigatia os representantes do pettencimento secttio, Mas essa € uma questo que deixo de lado, 30 do que patsouasechamar"DelberativePolling™" nto comercal-politico-mididtico-académico,e 184 Luis FeUPE wicueL cleitos a responderem a essa vontade. Ou seja, um mecanismo de aprimotamento da accountability. Resta saber se, na auséncia de interesse prévio e de poderefetivo, haveria incentivo suficiente para @engajamento adequado dos escothidos nas tarefas esperadas dessa cimara consultiva, Emordem crescente de radicalidade, temos a "votaco lotérica roposta por Akhil Reed Amar(1984), em quecada candidato teria tantas chances de ser sorteado quanto os votos que recebeu (como forma de incentivar a participacao politica eleitoral); um sistema bicameral, com uma camara legislativa eleita eoutra sorteada, como a proposta de Ernest Callenbach e Michael Phillips (1985); 0 com- plexo mecanismo da "demarquia” de John Burnheim (1985), com vrios érgios decisérios formados por sarteio, cada um decidindo sobre um Gnico tema; e, por fim, a utopia de Barbara Goodwin (1992), de uma sociedade em que tadas o8 recursos sociais ~ e no ‘apenas o poder politico — sao distribuidos por sorte. Muitas dessas propostas guardam contato com a ideia de democracia deliberativa, discutida no capitulo “Os limites da deliberasio". Os cotpos de cidaclios selecionados aleatoriamente seriam espasos de trocas argumentativas sobre as questdes publidgs, que resolveriam os problemas de escala, préprios da esfera pablica ampla, sem cair nos - Nos termos de Fishkin, existe hoje um dilema: ou as decisées so tomadas de forma igualitria, pela massa, que é incompetente, ot de forma competente, pela elite, mas com desigualdade (Fishkin, 1991, p.1-2). A solugdo seria a instituicio de espacos de discussao compostos aleatoriamente. Ao contrério do que acorre nas pesquisas de opinio, que indicariam aquilo que o povo pensa, nesses espacos seria possfvel saber aquilo que o povo pensaria se pudesse refletir sobreas questdes (Fishkin, 1991, p.81) As propostas de sorteio se defrontam com quatro objegées baisicas. A primeira —e que repercute de maneia mais intensa no senso comum —éa descrenga na premissa democratica da igualdade entre todos; 0 sorteio deixa de lado o caréter seletivo do processo eleitoral. E a critica platénica da democracia, sustentada na ideia DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 185 we existem diferengas significativas de competéncia entre os individuos e que, portanto, a condugao do governo deveria \ada aos melhores dentre eles. Numa parabola famosa, 375 a.C.], p.248-9). Tratar-se-ia, portanto, de: reroriherer jumanidade é desigual e de dar ocomando aos individuos mais dos, deixando de lado. fantasia perniciosa da rotasio entre governantes e governados. Ao optarem pela elei¢do como forma de selegao dos governantes, ‘04 fundadores dos regimes eleitorais —na Inglaterra, na Frangaenos XVIILe XIX —mostravam-se sensiveis a. dda democracia direta em sociedades extensas, mas como forma de Jgerar um corpo governante superior, em qualidade, ao conjunto ido povo — uma aristocracia, Isto nao quer dizer que propostas de “representacao descritiva', sto é, do corpo de representantes como 35", Alexander Hamilton expressa su confianca na sub-tepresentagao das classes trabalhadoras: "Mecinicos € manufatureitos sempre estarao inclinados, com, poucas excecdes, a dar seus votos para comerciantes, de preferéncia i pessoas de suas proprias profissdes ou ocupacdes” (Hami Madison e Jay, 1990 [1788], p.113). Outra formulagio do pris ‘ocritico aparece no “Federalista n° 57”, atribuido a Hamilton ‘ou James Madison: “O objetivo de qualquer constituigdo politica 1, ou deve ser, primeiro, conseguir, para governantes, homens que ‘possuam mais sabedoria para discernir, e mais virtude para perse- ituir o bem comum da sociedade”” (Hamilton, Madison e Jay, 1990 1788], p.176-7). 186 wis FeLPE MIGUEL ‘io ha tensio entre a distingao de classe, presente na primeira citagao, ea de sabedoria e virtude, na segunda: os aitores segura mente acreditavam que as ‘ais virtuosas. Seja como for, 0 corpo de representantes do povo. E um corpo selecionado, em que se apresenta ndo um retrato da sociedade, mas aquilo que nela haveria de melhor. O regime representativo, portanto, seria superior & democracia direta. E posstvel, como faz Ellen Meiksins Wood, ler 0 argumento dos escritos federalistas pelo avesso da interpretagdo corrente: nio € a representacio que ¢ necesséria porque a repiblica é extensa, mas ica extensa que ¢ desejavel por tornar a representagao 1 (Wood, 1995, p.216). ‘A defesa da superioridade intrinseca do governo representativo, devida, entre outros motivos, ao seu caréter seletivo, no século XIX, no pensamento de John Stuart Mill. Ni perceptiveis as tenses entre os aspectos democrticos e aristocra. ticos da combinacio. Fiel maxima utilitarista de que cada um €0 ‘melhor juiz dos proprios interesses, ele precisa dar espaco & parti- cipagaio politica de todos. Por outro lado, hé 0 medo "que se traduz.concretamente n edominancia de trabalhadores manuais no eleitorado = do “padrio demasiadamente baixo da inteligéncia eda "legislacao de classe" (J. 8. Mill, 1995 a representacio deveria favorecer as minori ‘minoria especifica: as classes proprietirias (e cultas. ‘A segunda objeco esté ligada a ideia da eleigao como autorizarao ‘para qué orepresentante aja em nome dos epresentados, oqueaselegio leatoria nfo contemplaria. A rigor, essa nfo é uma objegzo muito séria, jf que hoje se considera que a autorizagao € dada mesmo por aqueles que votaram nos candidatos decrotados. Ou seja, a pattici- Pago no processo eleitoral significaria que ha concordancia quanto 4 justeza do processo de escolha, independentemente dos resultados ‘A terceira e mais importante objecio se refere & accountability, isto €, 0 fato de que 08 representantes sio responsiveis perante seus DEMOCRACIAEREPRESENTACAO 187 tes. Ela seria eliminada se os governantes nio devessem {us mandatos a vontade expressa da maioria da populacdo, mas a0 Inples acaso. Seria grave a auséncia da disputa eleitoral quando os feandidatos enunciam seus pontos de vista, e, mais ainda, da san¢io tla aos cidadios, que é a possibilidade da nao recondugio de resentantes 20 cargo. {que todas as propostas de reintrodugéo fleitoral. A busca da eleigao e da r sensiveis a vontade do cidadao comum, & wes” ~ controladores de méquinas p Jrrupos de midia e financiadores de campanha. Por outro lado, mitado que o sistema concede ao simples cidadao, condenado solver seu voto em meio a milhares ou milhdes de outros, no promover a participagdo ativa visada por Stuart Mill, mas como de fato ocorreu, o desinteresse € a passividade. Com o sorteio, o escolhido deixa de depender dos grupos pode- 10905, que perderiam influéncia politica. O contra-argumento & ‘que, sem a sangio da nio reeleicgo, o governante estaria muito ‘nis exposto as tentagdes da corrupsao e do exercicio do poder em beneficio proprio. A resposta, em parte, estatia em outro beneficio teperado do sorteio: o rodizio de cidadaos nos cargos de governo. ‘Um dos problemas relacionados a democracia representativa é pre- ‘ fato de que os representantes, ao se especializarem nessa wolvem interesses particulates, diferentes daqueles de slo, Robert Michels sesse em médio e longo prazos nao é 0 interesse do governante, ‘lo governado que em breve voltaré a set. Esse era um elemento 188s FeUPE wicueL cidadao jé teria cumprido um mandato ou estaria na expectativa de’ cumpri-lo. Entre seus familiares, na vizinhanga ou no seu ambiente de trabalho, encontraria muitos outros na mesma situagdo. Isto gera- ria 0 interesse e a qualificagio politicas que se contrapdem a apatia € passividade proprias dos regimes eleitorais.? Essa qualificacao difusa da cidadania éa resposta pi ainda a quarta objegdo a escolha de representantes por parecem ser um meio insuficiente de estimular a qualificagao politica, a auséncia delas representa um incentivo a ‘menos para o debate sobre as questdes ptiblicas entre 0s cidadios ‘comuns. Sio ois problemas estreitamente vinculados, Por um lado, ‘ desinteresse pelas formas de acio politica que ocorrem fora das instancias representativas. Por outro, a premissa implicita de que ha ‘uma identificagio automitica entre a posicio social e os interesses ‘queo individuo possui, Istoé, qualquer mulher sorteada estara capa~ citada @ falar em nome do conjunto das mulheres; qualquer negra representa os interesses das negras e assim pordiante. Noentanto, a prépriaideia de que existem interesses objetivamente identificaveis, ligados as diversas posigdes sociais, équestionavel. Mulheres, negros couintegrantes de qualquer outro grupo social, subalternoou mesmo dominante, podem discordar sobre quais s4o seus reais intesgsses ‘ou qual tipo de medida politica as beneficia. Falta as propostadtle sorteio, portanto, a reflexio sobre a construgio das identidades 7 Bbem verdade que aextensio dos mandatos, a dimenséodos corpos de repre- sentantes ea tamanho da popalagioincidem quanto a impacto esperado desta riedade do voto), bem como a manutengio dos atuais mandatos e bancadas ios Deputados e no Senado, cada cidade alguma ver na vid DEMOCRACIAEREPRESENTAGKO 189 jas, Sem uum espaco no qual os grupos sociais possam pensar wesmos e as politicas que desejam, a legislatura aleatoria nao ‘passard de um punhado de individuos atomizados. Uma altima vantagem da 8 ria seria a garantia de ‘epresentatividade (no sentido mis da populagao. Com base nw lei dos grandes niimeros, ¢ possivel afirmar que haveria uma proporcionalidade aproximada dos diferentes setores no corpo jyovernante. A procura de uma proporcionalidade mais estrita, com ago de técnicas de amostragem, coloca problemas graves ~ |dénticos 20s das cotas-— ja que teriam que set definidas a priori tanto is clivagens sociais relevantes quanto a alocasio de cada individuo “dentro dos grupos. | De todas as propostas de transformagao dos mecanismos de legdo de representantes, o sorteio a que avanga de forma mais, cidida em diregdo aos quatro objetivos citados acima, embora uo custo de maiores perdas de autoridade para a populagdo “comum. Outras medidas poderiam resolver ow minorar cada um jos problemas enfrentados pelas democracias representativas. @otas de representagio podem melhorar a participacéo de grupos icamente minoritirios. Restrigées a reeleigio, inclusive para 6 logislativo, contribuiriam para impedir a formagio de estratos ‘ligarquicos. Uma legislacio severa de financiamento piiblico de obstaculizaria a agao do poder econémico, Apenas 0 sm, parece capaz de prover solugdes a todos esses aspec- ia 0 método ideal para promover a so ale :ncia de compromisso do sorteado em relacdo les que deveria “representar” toma aalternativa pouco atraente. cecala local, onde ha.a possi populagio, a selegéo aleatéria talvez possa alcancar resultados ssantes, Para além disso, significa abrir mao do fiapo de sobe- popular ques regimes competitivos ainda conservam, Mesmo We dos beneficios que a selegao lotérica possa trazer, parece um Alto demais para ser pago. 190 wis FELIPE MIGUEL Ascotas leitorais representam uma abordagem mais moderada, ‘mas mais factivel. Elas t8m impacto pequeno, embora nao nulo, no quarto objetivo (ampliagao da rotatividade entre governantes © governados), mas prometem avangos sigr Jos no que se refere aos outros trés. Ao contratrio da selecdo aleatéria, que levaria ‘4 melhoria da representatividade mimética dos corpos de ‘mas cujo procedimento inicial éa atomizagao dos cidadiios, as cotas, estio ligadas ideia de representaco de grupos, ‘Afinal, um dos principais problemas identificados na represen a contemporanea diz respeito a sub-representacao de determinados grupos sociais. O grupo dos governantes, em rela- «40 a0 conjunto da populagio, tende a ser muito mais masculino, muito mais rico, muito mais instruido e muito mais branco~ uma observagao que vale para o Brasil e para as democracias eleitorais em geral. A expansdo da franquia eleitoral, com a incorporacio de novos grupos, como as mulheres, os trabalhadores e os analfabetos, ‘cidadania politica, nao modificou de forma substantivaa situagao, ‘Como observou Anne Phillips (1999, p.35), nio basta eliminar as, barreiras incluso, como no modelo liberal: 6 necessério incorporar explicitamente os grupos margi A afirmacao da relevancia politica dos grupos sociais leva a uma ruptura com 0 individualismo abstrato que marca 0 pensamento liberal (e, por intermédio dele, 0 ordenamento constitucional das democracias ocidentais). © rompimento com essa tradigdo vai ser embasado teoricamente por uma miriade de pensadores, que, no entanto, oscilam desde a exaltagio a diferenca de grupo, com 0 abandono de qualquer perspectiva unificadora, como nas formu lagées iniciais de Iris Marion Young (1990a), até a busca de um. compromisso com o reput sidade de as pessoas perceberem o: diante “da comunidade mais ampla a qual todos em tltima andlise pertencemos", que é a posigao de Anne Phillips (1993, p.106) ede obras posteriores da propria Young (2000). principal mecanismo institucional da promoséo da participa- sto politica de grupos subordinados ¢ a adogdo de cotas eleitorais DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 191 Embora por vezes elas sejam adotadas para proteger minorias én cas, em especial grupos indigenas, a maior parte das experiéncias de cotas eleitorais beneficia as mulheres (como acontece no Brasil), «que passam a ter uma reserva de cadeiras no parlamento ou de can- didaturas as eleigdes. A efetividade da medida real da presenca feminina nos foruns decisérios ~é influenciada por sto &, o aumento diversos fatores, notadamente o sistema eleitoral, a fragmentagdo partidaria ea magnitude dos distritos, No caso brasileiro, a combi- nagio entre o sistema eleitoral de listas abertas, a possibilidade de que 03 partidos lancem mais candidaturas do que vagas, a auséncia de provisdes para equalizar recursos de campanha e, em especial, a falta de sangdes para os partidos que nao apresentam a quantidade ‘minima de candidatas mulheres fez. com que o impacto das cotas cleitorais na presenga feminina nos parlamentos fosse reduzido iguel, 2008b, 2012b). Embora tenham se tornado uma experiéncia banal, tentada em dliversos paises e em geral discutida mais a partir da sua efetivi- dade esperada do que dos principios que punha em movimento, as cotas eleitorais colocam em cena diversas questées merecedoras de atengao, do ponto de vista da teoria politica. Elas representam uma rupturacom elementos de base doordenamento politic liberal ~além, é claro, de uma manifestagio de desencanto com a possibilidade de we esse ordenamento seja capaz. de incluir, nos seus préprios ter- os, 08 grupos hoje deixados a margem. Durante muita tempo, 2 luta das minorias ~ termo que ins ta yém as mulheres, j@ que se refere a uma inferioridade social e politica, ndo numérica ~ foi pelo acesso aos direitos individuais e politicos prometidos pelo liberalismo e pela democracia, Desde Mary Wollstonecraft até as sufragistas, essa foi uma bandeira essen- I, sendo a bandeira essencial, dos movimentos de mulheres. Os ios do liberalismo nao eram colocados em questio: 0 que se ava era sua insuficiente aplicagdo prética e a exclusio de sez la sociedade, como mulheres, negros, indigenas etc. Quando se perde a fé nos instrumentos da democracia liberal, os principios que passam a ser repensados (Mendus, 1993). 192 ws eure wisuet Uma fecunda corrente da teoria politica, vinculada ao feminismo, procura demonstrar que um viés sexista contamina os conceitos da democracia a partir de sua origem e que é necesséria uma ruptura igdes anteriores de pensamento. De maneira mais, o afirmativa so a demonstragio de queela perpeta, reco- bree, em iltima analise, legitima a desigualdade substantiva, Mas a defesa de cotaseleitorais, em particular, revela também outro fato: a valorizacio dos mecanismos institucionais de representacao, o que, a0 menos em parte, é devido ao colapso dos projetos da est revoluciondria, Um dos argumentos das criticas de tais pol alis, € que elas promovem uma reacomodagao dentro do sistema politico vigente que pocle obscurecer a necessidade de transforma- ‘gdes estruturais mais profundas (Varikas, 1996 [199: © conflito dessa posicao com 0 liberalismo politico reside na defesa do direito das mulheres ou de outra minoria — isto &, de um. grupo ~ a terem seus interesses representados na arena p Embora a filosofia liberal clssica nio negue, em abstrato, a possi- lade de um interesse de grupo (sempre redutivel aos interesses le seus integrantes), ela nega que os grupos possam ter direitos. O Xinico sujeito de direito € 0 individuo; se as mulheres, por exemplo, querem se fazer representar, cada individuo do sexo ferninino deve fazer sua opgao nesse sentido, sem qualquer constrangimento 4a priori. Se as mulheres desejam ver mutheres candidatas, elas que ingressem nos partidos politicos, participem das convengdes conquistem seu espago em “igualdade de condigdes” com os homens, Esse individualismo é um trago constitutivo do liberalismo desde seus primérdios. Quando Hobbes e Locke, por exemplo, formulam suas teorias do contrato social, no século XVIT, eles também deli- neiam uma imagem atomistica da sociedade (Hobbes, 199 Locke, 1998 [1690]). Seu fundamento é 0 bem individ consideragao pela comunidade (palavra,aliés, desprovida de sentido para os dois autores). O nico mével para a constituigao da socie- dade politica éa vantagem pessoal —a preservagao da vida, no caso radical comas pratica, os mecanismos de que a mera igualdade formal ¢ insu DENOCRACIAEREPRESENTACEO 193 de Hobbes, ou da propriedade, no caso de Locke, ambas ameagadas pela auséncia de poder coercitivo imperante no estado de natureza. ‘onvém notar, mesmo en passant, que para ambos a igualdade (existente no estado de natureza) esta na raiz dos conflitos. Para que a convivéncia entre humanos seja harménica, ha a necessidade de introduzir a desigualdade —com a instituigdo do poder soberano absoluto, como em Hobbes, ou de magistrados que monopolizam o direito de julgar e punir, como em Locke. Rousseau faz com 08 contratualistas anteriores o que Marx dizia ter feito com Hegel: vira- 10s de cabeca para baixo. Ele mostra que € a desigualdade que gera conflitos (Rousseau, 1964b [1755]). Mas af nio so mais embates entre individuos isolados, como na “guerra de todos contra todos hobbesiana ou seu sucediineo lockeano, e sim entre grupos ~ ricos contra pobres, poderosos contra oprimidos ete, E por isso que Rous. seau extrapola por completo os limites do liberalismo, ao contrério de seus ilustres predecessores, Com Hobbes, ha um desvio na diregéo do absolutismo, Em Locke, porém, a doutrina liberal encontra uma expressio inicial bastante satisfats as linhas mestras que guiariam o liberalismo pol seguintes. O pressuposto indispensivel é individuais, em geral considerados naturais abrir espago para a concep¢ao 08" (salvo quando sio entendidos como a mera agregacio de dircitos de diferentes 108). Basta observar a tensdo permanente entre o chamado de autodeterminagio dos povos”, um direito coletivo por exceléncia, ¢os direitos humanos individuais imazia do direito individual e da participagao politica indi- ida possui um subtexto de que cada pessoa determina quais sio seus préprios interesses melhor do que qualquer outra (tal como foi discutido no capitulo “As dimensoes da representacao"). Quando da luta pela conquista litarista, com o entendimento 194 wis FELIPE MIGUEL do voto feminino, esse foi um dos argumentos utilizados, j4 que 0 malabarismo de James Mill (1992 [1820]) para excluir as mulheres da franquia eleitoral (com a alegaciio de que seus interesses estariam subsumidos nos de seus pais ou maridos) feria seu proprio dogma utilitarista. Uma vez.que as mulheres tenham conquistado o direito 1 voto, porém, o argumento se volta contra qualquer forma de ago afirmativa, Se cada qual € quem melhor discerneo préprio interesse, nto as mulheres elegeriam outras mulheres para o parlamento ou para o poder executivo, sem necessidade de nenhuma medida além da mera igualdade politica formal, caso isso fosse realmente a sua vontade. Se nao as elegem, é porque nio o desejam, Portanto, qual- quer justificativa para uma politica de cotas implica o rompimento arista de formagao dos interesses. ticas de cotasa Isso nao significa que seja possivel justificar partir de uma compreensaio simplista dos interesses compartilhados das integrantes de grupos minoritirios. Usando as mulheres ~bene- ficidrias da maior parte das experiéncias de cotas eleitorais do mundo —como exemplo: 0 que justifica a concessio de reserva de candida ‘turas ou de vagas no parlamento para as mulheres? H, em primeiro lugar, uma questéo de justia intuitiva: nfo pode estar certo que metade da populagio seja representada por apenas 5% ou 10% dos integrantes do Congresso. Mas isso ¢ insuficiente. Existem outras sub-representagées (as criangas, os adolescentes, os muito idosos, os deficientes mentaisetc. esse senso de justiga. Portanto, oargumento, por sis, estélonge de ser decisivo. ‘Uma segunda resposta esta baseada na ideia de que as mulheres ‘trariam um aporte diferenciado a esfera politica por estarem acostu- madas a cuidar dos outros, a velar pela familia, enfim, devido ao seu papel de mie referido como “politica do desvelo” (care politics) ou ‘ento "pensamento maternal”. A ampliagdo do espago das mulhe- resno poder significaria um abrandamento do carter agressivo (tido como inerentemente masculine) da atividade politica e uma valori- {Para uaa critica, of: Miguel (2001). DEMOCRACILEREPRESENTACAO 195 ‘ago da solidariedade eda compaixo, com uma maior preocupacio em relagao a areas como amparo social, side, educagio ou meio ambiente, No lugar d pelos outros, a tolerancia e a sensil 1981; Elshtain, 1981, 1992, 1995; Ruddick, 1989; Baier, 2004 (1994)). Responséveis pela protesio e pelo crescimento dos mais {égeis (as criangas), as mulheres veriam nessa tarefa um imperativo moral, que transportariam para suas outras areas de atividade, O resultado seria uma atividade politica mais ética e generosa, voltada para.o bem comum, em vez da crua disputa pelo poder. Entretanto, a experiéncia de mulheres no poder mostra que essa Muitas vezes, esse & 0 tinico nicho disponivel ico (Miguel e Feitosa, 2009). O discurso da insula as mulheres nesse nicho e, desta forma, mantém a divisio do trabalho politico, uma divisto que, mais uma vez, destina aos homens as tarefas socialmente mais valorizadas, Ao mesmo tempo, torna impossivel que se cobre dos homens a sua parcela de respon- idade na educagao das criangas ou, em termos mais gerais, para com as futuras geragdes. i ‘Trata-se de um entendimento essencialista, que apresenta ‘eterno feminino” (associado as tarefas de cuidar dos outros) e, 2 atribuigdo dos pa uais. A mulher éagente deuma “politica dodesvelo” opostaa ade interesses” porque é caracteristica sua preocupar-se mais com aqueles que a cercam do ‘que consigo propria, O que existe, na verdade, 6 negagio do direito dda mulher a possuir interesses préprios (Phillips, 1991, p.49) —uma negacdo imposta pela sociedade patriarcal, emblematizada na dda mae que se imola pelos filhos, e incorporada e exaltada por essa corrente da teora politica feminista, Dessa forma, a subalternidade émantida e mascarada por um véu de “superioridade moral” A terceira ~ e mais interessante — via de jus ‘ampliagao da representacdo feminina parte de premissas opostas. As mulheres devem se fazer representar nao porque sejam os vetores de 196 wis FEUPE micuEL ‘uma “politica desinteressada”, mas, ao contrério, porque possuem, interesses especias, legitimos, ligados 20 género, que precisam ser levados em conta. Quando o sistema politico esta estruturado de forma tal que veda ou obstaculiza a expressio desses interesses (ou de quaisquer outros), ele se revela injusto, Esta subjacente, ai, visio de que as mulheres serdo as melhores advogadas de seus proprios interesses. Somente quando essa crenca se dissemina & que a sub-representagio feminina passa a ser con- siderada iniqua —_o que ajuda a entender porque, em geral, ndo se acha errado o déficit de representacio de grupos como criangas ou doentes mentais, cujos interesses seriam melhor representados por outros (embora tal afirmagio merega ser relativizada). (© problema é que, colocada desta forma a questio, parece que as mulheres, apenas por serem mulheres, terdo sempre interesses idénticos. A accountability seria desnecesséria porque ocorreria sspontinea entre as agdes das representantes ¢ as, as ~ uma visio que “pretende substituir 0 vontades de suas e! acordo em torno a ideias politicas pela confianga que [1994], p.79), A citagao mostra que, por Anne Phillips (1995) entre uma “politica de muito dificil simplesmente abrir mao desta ‘ltima em favor da primeita i Contra a visio ingémua de coincidéncia imediata de preferéncias, hi. fato de que os individuos ocupam, a0 mesmo tempo, diferen- derepresentado sao, elas proprias, posigdes divergentes que podem impactarnos interesses dos agentes. Por outro lado—eesseé um dos pontos fortes da arguimentagao por uma politica de ideias, em vez de presenga -, pertencer a um grupo nio significa expressar suas demandas. Mulheres candidatas nio precisam ter comprometimento com a questo feminina. Enfim, conforme foi DEMOCRACIAEREPRESENTACAO 197 discutido no capitulo “As dimensdes da representagao”, é ques tiondvel a propria ideia de que existem interesses objetivamente identificdveis, ligados as posigdes sociais, Neste sentido, ¢ ttil o deslocamento proposto por Iris Marion Young (2000), que fala em “perspectiva social” em vez de “inte- resse”. O acesso das mulheres as deliberagaes piblicas seria hecessério no porque elas compartilham das mesmas opinides interesses, mas porque elas partem de uma mesma perspectiva certos padres de experiéncias de vida. A palavra se de um ponto de partida, niio de chegada. A 6 significativa: formulagdo de Young nao ¢ isenta de problemas, que serao discutidos com certo detalhe no préximo capitulo. Anda assim, sua abordagem importante, pois mostra que a necessidade da presenca das mulhe- res (como de outras minorias) na arena politica ndo é suprimida caso seencontrem outras formas de proteger seus “interesses”, qualquer ‘que seja a forma pela qual eles sejam concebidos. presenga’” das eriticas correntes nogio de representacao descritiva ~ presentes jé na prépria Hanna Pitkin -, adkmite que essa politica rasce da desilusio com a accountability vertical, que se mostrou incapaz de proteger as minorias. No entanto, como visto, a ruptura promovida pela adogdo de cotas é muitas vezes menos dréstica do que a da selecio lotérica. A reserva de vagas para integrantes de determinados grupos sociais nao exclui a necessidade de que todos 0s representantes passem pelo proceso eleitoral, respondendo aos cidadios comuns. A compreensio corrente da accountability, na ciéncia politica, assume que @ interlocucéo entre representantes e representados 6, sobretudo, individual ¢ os interesses dos constituintes aparecem como prévios a relagdd de representagio. ff por isso que, como visto antes, um ponto central de preacupagio é com a quantidade de informarao colocada & disposigdo dos eleitores, mas no com a qualidade das trocas comunicativas em que eles podem se engajar. A interlocugao entre representado erepresentante é vista sempre nos 198 wis FELPE MIGUEL moldes de perguntas e respostas, nao de uma discussao ativa. Se as preferéncias do eleitor sao entendidas como dadas, o importante € queele tenha clareza sobre as opgbes que 0 mercado politico Ihe ofe- rece, para assim decidir de forma correta. A “informagao” ~ sobre o comportamento pretérito dos candidatos eas expectativas presentes, que geram ~é, assim, oambiente no qual um eleitor “fixo" (quanto as suas ambigoes, anseios, vontades) se situa. No entanto, se a representacao é compreendida em suas miilti- plas dimensées e com atengio a seu carter constitutivo, adinamica vertical da accountability precisa ser entendida como acoplada aos processos horizontais de construgdo das preferéncias dos represen- ‘tados, Em vez de ser uma relacao entre dois interlocutores, € uma relagao entre miiltiplos agentes, relativa a produgdo dos interesses coletivos, na qual um deles ocupa a posicao especial de “represen- tante”, Desta forma, a reserva de vagas pata minorias politicas pode ser compreendida também como uma maneira (mas nao a tinica) de reconstruir os mecanismos de accountability vertical e doté-los, de efetividade, garantindo que grupos soci estejam presentes no processo, Mas, para isso, alm da primeira dimensao da representacao politica (a transferéncia formal de poder decisério). ‘A definigdo de quais grupos merecem ter garantida a presenga nos espacos decisérios torna-se, assim, uma questo politica de primeira grandeza. No principio da politica eleitoral, 0 local de moradia era apresentado como a divisio mais importante, 0 que |, raga ou cor, género, orientagio sexual, religiao, deficiéncia fisica. Ou entio a altura, a cor do cabelo, o time do coragdo. A fixagao dos cortes sociais ticamente relevantes nao é uma tarefa “técnica”; ao contréri ‘em si, fruto da luta politica Em vez de pensar num critério com ambigio universalizante, é mais interessante entender as politicas afirmativas como reparado- ras de padrdes de injustica concretos a serem identificados em cada formacao social. Vale, aqui, introduzic @ contribuigo de Melissa DEMOCRACIAEREPRESENTAGAO 199 198, p.15-6), que define os “grupos marginalizados imputados” como sendo aqueles que sofrem com padres de desi- ‘qualdade estruturados de acordo com o pertencimento de grupo —0 «qual nfo é experimentado como voluntério, nem como mutével -¢ ‘quandoa cultura dominante atribui um sentido negativoa identidade do grupo. Séo esses os grupos que podem reivindicar representagio mais efetiva. Além disso, acrescenta Wi a forca moral da aio esta vinculada aos processos histéricas que levaram a cexclusdo: “Os grupos em mais profunda desvantagem na sociedade contemporinea também foram sujeitosa exclusio legal dacidadania 8 discriminagao patrocinada pelo Estado" (Williams, 1998, p.17) Bum jue inclui trabalhadores, mulheres, negros, indigenas chomossextas, pela menos, ‘Tanto as propostas de selecio aleatéria dos governantes quanto as de reserva de vagas para grupos marginalizados revelam descon- {entamento como funcionamento dos mecanismos de accountability vertical. As sangdes de que os constituintes dispdem ~ ¢ que se resumem, para todos os efeitos, ao poder de retirar ou manter os representantes em seus cargosa catia eleicao— parecem insuficientss para garantir a responsividade de suas decisdes. A representativi- ‘dade mimética surge como uma aposta para prover tesponsividade sem necessidade de accountability; em seu lugar, entra a ‘As decisdes politicas poderiam corresponder a vontade dos comuns porque seriam tomadas por pessoas similares a eles. No caso das cotas, a similitude € um complemento & accounta: bility — os representantes continuam dependentes do voto popular, mas as perspectivas de determinados grupos serio levadas em ‘conta gracas & presenca de um contingente de seus integrantes nos espacos decisérios. No extremo, a accountability se realizaria exclu sivamente entze semelhantes, como se depreende da proposta de Iris Marion Young (1990a, p.184-7) de conceder poder de veto aos 9. Offormalismo de boa pars da teora democriticaconvencio zarestetipo de colocago, que, no entanto, extava bem pe ‘maneias) mum pensamento sen em Rousseau ou em Tocquevi tendes desore 200 wis FEUPE wicuEL representantes das minorias, naquelas questdes que as afetam. A maior parte dos autores, porém, prefere evitar tal passo que arrisca uma fragmentagdio excessiva da sociedade, isola os grupos entre sie abandonaaesperanga de construgao de wma unidade social minima. A proposta foi, posteriormente, abandonada pela propria Young (2000) Jéosortvio, por sua logica intrinseca, leva ao abandono completo vertical, entdo substituida (e nfo apenas comple- mentada) pela similitude. O sorteio reforga a similitude também na medida em que promove a rotagao nos cargos publicos. Isto é, quem exerceo poder decisério sabe que em breve voltaré A condigao de cidadao comum; a posigao de governante, sendo tra criaria interesses duradouros, diferenciados de sua posigaenquanto integrante do povo. ‘Do ponto de vista pritico, no entanto, essa continua sendo a objegdo mais forte contra a aposta na similitude, Sem os freios e incentivos que oferece a possibilidade de imposicao de sangBes, tanto positivas quanto negativas, pelo pove comum, os detentores do poder decisério dificilmente resistiriam a tentagio de pier seu beneficio particular. O resultado seria ou 0 descalabro ow o incha- mento dos organismos de controle, istoé, 0 reforgo da accountability horizontal a expensas da vertical. Deum jeitoou de outro, éreduzida a soberania popular: Do ponto de vista teérico, ha outro problema grave. Quando a ‘vida politica é pensada apenas em termos da promogao de interesses, como em geral se faz, formulas que visam garantir a presenga de determinados grupos nas esferas de poder perdem | forga. Afinal, os eleitores manifestam seu interesse através do voto. Accita a premissa do interesse individual esclarecido, os grupos hoje marginalizados clegeriam representantes para os cargos decisdrios sem necessidade de nenhuma medida além da mera igualdade -a formal, caso isso fosse realmente a vontade de seus integrantes. Por outro lado, se 08 inidividuos esto submersos na “falsa consciéncia” €encontram obstaculos para a identificagao de seus interesses verdadeiros, tais fenémenos de alienacao continuariam presentes, independente- ‘mente do acesso de tais ou quais pessoas ao poder. Por isso, @ noggo DeMOCRACIAEREPRESENTAGA 201 de “‘perspectiva social” se mostra itil para abrir novos caminhos de investigagao. Rousseau (196¢a [1757], p-429), em sua famosa condenasio & afirmava que nao se pode representara sobe- itade (geral) ea vontade absolutamente ndo se representa”, E razosvel dizer quea perspectiva também néo se representa ~ no maximo, € compartilhada, O que nao significa que ela esgote © problema do exercicio do poder nas sociedades contemporéneas. Prosseguindo com Iris Marion Young 4-6), ela observa que a representacao envolve tanto inte jgamentos) quanto perspectivas. Mecanismos representativos adequados devem envolver facetas. © bom funcionamento da accountability verti- cal, que exige formas de empoderamento dos cidadéos comuns, & imprescindivel para que interesses e opinides dos diferentes grupos sociais estejam presentes nas esferas decisGrias; mas as perspectivas nao sao contempladas desta maneira. Elas demandam. ppresenca politica; se integrantes dos diversos grupos néo partici- pam do debate, os aspectos da real sensiveis, por conta de suas experiéncias de vida, néo sera levados em consideragio. Instrumentos que promovam a responsividade de forma inde- pendente da accountability podem set importantes para garantir a ppresenga das diferentes perspectivas sociais nos locais de discuss40 ¢ decisao politica. E 0 que justifica a adocdo de cotas eleitorais, medida que o individualismo liberal pode aceitar na prética, mas € ineapa, deassimilar em seu corpo doutrinario. As propostas de sorteio pade- com de contraindicagées mais sérias; suas fragilidades sao bastante .de aos quais eles se tornaram importantes, que merecem ser levadas em consideragio, a respeito do funcionamento da representacio eleitoral e, em particular, da accountability