AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS

Opinião | Falas da Terra

As lições a retirar do colapso
de civilizações no passado
Chassez le naturel, il revient au galop!
Texto_João Paulo Soares [Consultor]
(Expulse o natural, ele volta a galope!)

Pacífico. Segundo Diamond, descobertas
recentes de arqueólogos, climatólogos,
historiadores, paleontólogos e palinolo-
gistas (especialistas em pólen) têm con-
firmado a suspeita de suicídio ecológico
não-intencional por parte das sociedades
que entraram em colapso.
Mas o autor não crê num cenário
apocalíptico de extinção da humanidade
ou da civilização industrial. "Tal colapso
pode assumir diversas formas, como a
disseminação mundial de doenças ou de
guerras provocadas pela escassez de re-
cursos naturais". Na sua "estrutura de cinco
pontos" de possíveis factores capazes de
contribuir para um colapso, quatro - danos
ambientais, alterações do clima, vizinhança
hostil e parceiros comerciais corruptos –
O discurso proferido sobre as alterações utilizadas novamente por indivíduos da pró- "podem ou não se mostrar significativos
climáticas em curso, o aquecimento global, pria espécie, está a modificar o ambiente para uma determinada sociedade. O quinto
pode incutir uma crença que é a vingança ou de forma "natural". Nada mais comum que fato - as respostas da sociedade aos seus
a revolta da natureza contra a artificialidade comer, e nada mais ilustrativo da destrui- problemas ambientais - sempre se mostrou
crescente do ambiente criado pelos seres ção micro-operada por cada célula viva: o significativo".
humanos e que o natural se reafirma com metabolismo transforma comida em restos, Fica também implícito, no que Diamond
força por meio das catástrofes. Furacões, produtos a serem excretados. diz, que confiar em tecnologias capazes de
ciclones, tornados, inundações e secas No entanto, há algo de peculiar no "tercei- salvar o mundo é uma abordagem temerária.
mostrariam haver uma natureza "lá fora", ro chimpanzé", o Homo sapiens, desde que Das civilizações que entraram em colapso no
de cujos ciclos o homem se faz vítima. No ele "desenvolveu a inventividade, a eficácia passado e as que correm risco de entrar no
entanto, como Jared Diamond defende no e as habilidades de caçador há uns 50 mil presente, muitas dispunham de sofisticados
seu livro "Colapso", parece mais razoável anos". A colonização humana de qualquer aparatos tecnológicos para os padrões de
pensar de outra forma: humanos, não-hu- grande extensão de terra virgem sempre seu tempo. No seu livro demonstra que as
manos, atmosfera, oceanos integram-se foi seguida de enorme impacto ambiental: civilizações que ainda perduram, região a
num nível sistémico, intrincado, complexo. derrube de florestas, extinção de grandes região, ilhas ou países foi devido ao facto
É o facto que o efeito-estufa ilumina. Não animais "que evoluíram sem temer os seres de encontrarem soluções de eficiência que
há vingança, e sim, revelação definitiva da humanos e foram facilmente abatidos, ou muitas delas passam por uma cultura e
quase organicidade da relação do homem que sucumbiram à mudança de habitat, in- atitude de conservação dos recursos naturais
com o meio. trodução de espécies invasoras e doenças e de precaução por parte dessas populações.
O "natural" é modificar o ambiente. Como trazidas pelo homem". A mesma história se Também não se deve entregar às indústrias,
bem frisou Richard Lewontin em "A Tripla repetiu na Austrália, na América do Norte, às empresas, às escolas, aos tribunais, à aca-
Hélice", qualquer espécie de ser vivo, ao na América do Sul, em Madagáscar, nas demia e/ou ao governo como os únicos que
utilizar recursos escassos do ambiente e ilhas do Mediterrâneo, no Havai, na Nova se comprometam a mudar de atitude: "nós, o
devolvê-los em formas que não podem ser Zelândia e em diversas outras ilhas do público, temos a responsabilidade final".

56 O Instalador Outubro 2016 www.oinstalador.com

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