NOTA À SOCIEDADE

Juiz determina suspensão de reintegração de posse da comunidade tradicional de
Canabrava, Buritizeiro-MG. Mas, o despejo foi cumprido por mais de 100 militares de MG.
...CONCEDO O EFEITO SUSPENSIVO requerido para determinar o recolhimento do mandado de reintegração de
posse expedido, devendo ser suspensas quaisquer medidas reintegratórias até o julgamento final deste recurso.
Para tanto, determino:
1. Oficie-se imediatamente ao juízo a quo, informando-o sobre a concessão do efeito suspensivo, nos termos acima,
e requerendo que preste informações a este egrégio Tribunal de Justiça.
2. Oficie-se ao juízo da comarca de Pirapora/MG.
3. Oficie-se à Polícia Militar de Minas Gerais, através de seu comando nesta capital e na comarca de localização do
bem, Pirapora/MG.
4. Outrossim, comunique-se à Defensoria Pública de Minas Gerais, por meio de seu Órgão Especializado de Direitos
Humanos, Coletivos;
5. Intimem-se os agravados, por publicação dirigida ao procurador constituído, para responderem o recurso, no prazo
de 15 (quinze dias), facultando-lhes juntar a documentação que entender necessária ao julgamento, por força do
disposto no art. 1.019, II, do Código de Processo Civil.
Cumpram-se todas as providências acima, em caráter de urgência. Ultimadas estas diligências, retornem os autos à
conclusão do eminente relator, Desembargador Antônio Bispo.
Publique-se. Intimem-se. Comunique-se, Diligencie-se.
Belo Horizonte, 17 de julho de 2017.
JOSÉ AMÉRICO MARTINS DA COSTA
Desembargador Designadoos e Socioambientais.

Em Buritizeiro, Norte de Minas Gerais, a comunidade tradicional pesqueira e vazanteira de Canabrava,
composta de 45 famílias às margens do rio e 30 famílias na Ilha Manoel Redeiro, sofreu violento ato de
despejo na manhã de hoje, efetuado pelo Comando do Batalhão da Policia Militar de Pirapora em favor de
Breno Gozaga Júnior, fazendeiro que, além de reivindicar posse de uma terra que estava sem função
social, quer se apropriar, também, das áreas da União, território que está em vias de regularização pelos
órgão competentes em favor da comunidade tradicional.
As famílias são dos municípios de Ibiaí e Buritizeiro, sendo o território em conflito, em Buritizeiro.
São famílias tradicionais pesqueiras e vazanteiras, que ao longo dos últimos anos foram perdendo o
acesso ao rio e às áreas de vazantes, devido à invasão de fazendeiros e empresas de turismos como os
clubes de pesca amadora. Estes não só ocupam as margens do rio, como proíbem com ameaças de
violência os pescadores e pescadoras, vazanteiros e vazanteiras. A situação é tal que, em Ibiaí, há vários
casos de fazendeiro destruindo, por conta própria, moradias de famílias pesqueiras e vazanteiras e até
caso de jogarem veneno nas plantações para afugentar estas famílias.
Por estas razões, em 2005, as referidas famílias, se juntaram a um grupo de camponeses sem
terra, apoiados pelo STR de Buritizeiro e montaram acampamento na fazenda de Breno Gonzaga que
estava sem função social e havia entrado em acordo com o INCRA/MG de fazer desapropriação para fins
de Reforma Agrária. Ocorre que, há um ano atrás, o INCRA arquivou o processo, deixando as famílias
sem horizontes. O fazendeiro, ignorando a condição das famílias tradicionais, entrou com processo de
reintegração de posse. As famílias começaram a se dispersar, ficando ali, as tradicionais, por não ter
aonde ir e pelo vínculo que possuem com aquele território pesqueiro e vazanteiro que lhes imprime modo
de vida e condição de viver.
Foram muitas tentativas de negociações políticas e judiciais para impedir o despejo marcado para
as 15hs do dia 18/07/2017, pois a comunidade tem encaminhamentos junto à SPU e órgãos do Estado de
MG para a regularização da área de domínio da União que é parte do seu território tradicional. A decisão
judicial saiu ontem no final do dia em favor da comunidade, mas, o comando da PM de Pirapora chegou
bem cedo na comunidade com mais de 100 homens, retirando as famílias. E agora? Quem vai se
responsabilizar pelo prejuízo das famílias que tiveram moradias e plantações destruídas, que
tiveram que pagar transporte para carregar seus pertences, que deixaram para trás suas criações e
que terão despesas para retornar e reconstruir tudo? Quem vai arcar com os custos destas pobres
e vulneráveis famílias, violentadas nos seus direitos mais básicos?
Conclamamos a toda a sociedade a manifestar apoio às famílias tradicionais de Canabrava e a
pressionar os órgãos competentes para que as famílias sejam reparadas dos danos sofridos e recebam o
amparo necessário para retornarem ao seu território, com garantia de efetivação da regularização
solicitada junto à SPU-MG, afim de que possam permanecer no seu lugar de vida e trabalho, criando seus
filhos dignamente, inclusive a Ana Júlia nascida a 03 dias – e já nasceu sendo despejada de seu território!
Buritizeiro, 18 de Julho de 2017.
Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP
E-mail: cppminasgerais@gmail.com

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