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O discurso feminista e os estudos dos media:

em busca da ligação necessária


Maria João Silveirinha
Universidade de Coimbra

Índice ao significado e à identidade, Melucci re-


alça o significado da comunicação e da infor-
1 Introdução 1 mação, defendendo que a sua globalização
2 Os estudos feministas dos media 3 criou novos espaços de acção colectiva, pelo
3 Os estudos feministas sobre a esfera que coloca uma forte ênfase no papel da in-
pública 6 formação na mudança da natureza da acção
4 Em busca da ligação necessária 8 colectiva no final do século XX. (Melucci,
5 Bibliografia 14 1996). Na verdade, os movimentos contem-
porâneos têm de funcionar em sistemas que
1 Introdução se constituem como redes de relações entre
estruturas diferenciadas e relativamente au-
No contexto da discussão acerca das identi- tónomas e, nas sociedades onde a informa-
dades e em particular no contexto da acção ção se tornou um recurso crítico, a acção co-
dos novos movimentos sociais, o campo do lectiva, concebida como forma de mudar as
comunicacional emerge como um espaço de formas como o discurso público é estrutu-
luta política decisivo e não apenas comple- rado, tornou-se tanto ou mais poderosa do
mentar de outras instâncias em que se en- que a acção dependente das forças materiais.
cerra a dinâmica histórica. Para Alberto Me- A crescente importância dos recursos simbó-
lucci, teórico destes movimentos, os desen- licos e informacionais leva-nos a definições
volvimentos de formas de acção colectiva as- do poder e da desigualdade que não podem
sociadas ao feminismo, radicalismo ecoló- ser medidos apenas em termos de distribui-
gico, separatismo étnico e outras formas de ção dos recursos económicos: “A análise dos
políticas de identidade, não podem ser re- desequilíbrios estruturais na sociedade deve
duzidos a simples expressões de uma divi- referir-se mais a uma diferenciação de posi-
são estrutural. A acção colectiva produz ori- ções que atribui a alguns um maior e mais
entações e significados que os actores reco- específico controle sobre os códigos, sobre
nhecem e, por isso, haverá que dar priori- os poderosos recursos que estruturam a in-
dade analítica à construção activa da identi- formação (...). O acesso a estes códigos pri-
dade colectiva. Ao dar precedência à cultura, mários não está distribuído ao acaso e corres-
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ponde a uma distribuição das posições soci- ções alternativas das suas necessidades en-
ais” (Melucci, 1996:179). Em nossa opinião, raizadas em cadeias alternativas de relações
isto não significa que baste fazer uma aná- instrumentais. Terceiro, criam novos discur-
lise das desigualdades estruturais de acesso sos públicos a partir dos quais tentam disse-
aos recursos simbólicos, ainda que esta seja minar as interpretações das suas necessida-
de importância fundamental. Nem tão pouco des por uma vasta gama de diferentes discur-
significa que se possam dissociar as políticas sos públicos Finalmente, canalizam, modifi-
de reconhecimento das políticas de redistri- cam e/ou deslocam elementos hegemónicos
buição ou sequer neglegenciar as injustiças dos meios de interpretação e comunicação”
da distribuição político-económica, a desi- (Fraser, 1989: 171).
gualdade material, o diferencial de poder en- Os movimentos sociais vêm-se pois cada vez
tre grupos, e as relações sistémicas de domi- mais imersos numa luta simbólica pelo sig-
nação e subordinação (Fraser, 1997). Mas, nificado e pelas interpretações, articulando-
ao nível simbólico, é sem dúvida necessário se num espaço público, no qual os media,
repensar o campo social contestado, identi- devido ao seu papel central nas sociedades
ficando novas formas de poder não só nas modernas, vêm também a ocupar um lu-
próprias respostas e construções discursivas gar determinante (Gamson, 1989). Identi-
dos actores dos movimentos sociais como no dade, media e espaço público parecem as-
campo de mediação onde operam essas mes- sim inextrincavelmente ligados. Mais do que
mas construções. É precisamente na inves- simples lugares de representação, os media
tigação deste campo que surge a ligação en- constituem-se como práticas significantes e
tre os discursos e as práticas dos movimentos sistemas simbólicos públicos pelos quais os
sociais identitários, os discursos e as práticas significados são produzidos, posicionando-
simbólicas da sua representação e uma reali- nos como sujeitos, criando novas possibili-
dade simbólica que pode ser objecto de per- dades do que somos e do que podemos vir a
cepções diferentes. O princípio da disputa e ser. O movimento das mulheres, como ou-
as lutas que ocorrem neste campo tem vali- tros movimentos identitários, na luta pelo re-
dade não só no caso das reivindicações, mas conhecimento público dos seus direitos e ne-
também relativamente aos recursos, oportu- cessidades, não deixou de prestar atenção ao
nidades políticas e resultados da acção co- facto de as mensagens em grande parte de-
lectiva cuja dimensão pública tem uma im- terminarem o que consideramos saber, que
portância que não pode por demais ser su- saber privilegiamos, que valores abraçamos,
blinhada. Como diz Nancy Fraser, “ao in- que poderes se estabelecem. Além de todas
sistir em falar publicamente sobre necessi- as práticas significantes envolverem relações
dades até então despolitizadas, ao reclamar de poder, incluindo o poder de definir quem
para estas necessidades o estatuto de ques- e como é incluído e quem e como é excluído,
tões políticas legítimas, essas pessoas e gru- as feministas estão bem conscientes de como
pos fazem várias coisas ao mesmo tempo. os sistemas simbólicos oferecem formas de
Primeiro, contestam as fronteiras estabeleci- fazer sentido da experiência, das divisões so-
das separando a ’política’ da ’economia’ e do ciais e das formas de exclusão e estigma-
’doméstico’. Segundo, oferecem interpreta- tização de alguns grupos. Assim, em ter-

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mos gerais, poder-se-à dizer que uma parte vidas, em termos de vertentes de investiga-
da acção feminista consiste, por um lado, em ção, vão desde as formas de propriedade e
avaliar criticamente os discursos construto- controle, às questões do emprego (feminiza-
res de uma teia de significado, de uma visão ção da profissão), às práticas e formas nar-
do mundo socialmente construída, que his- rativas dos media, às questões das audiên-
toricamente têm excluído ou secundarizado cias. Longe de se pretender fazer uma tipolo-
a experiência das mulheres e, por outro, em gia exaustiva – tarefa, aliás, impossível dada
avaliar aquilo que, nos seus termos, pode ser a circularidade, interelacionamento e com-
considerado ’o mito do acesso universal’ à plexidade dos próprios processos culturais
esfera pública. Nessa avaliação, podemos que impedem a identificação linear das suas
identificar duas linhas de investigação que ’etapas’, - podemos, no entanto, sistematizar
parecem percorrer caminhos paralelos e nem algumas vertentes de investigação feminista
sempre convergentes: uma, de certo modo dos media.
vasta e dispersa, que reuniremos sob os estu- Uma primeira vertente de investigação –
dos feministas dos media, e outra de investi- pouco desenvolvida - está ligada à socio-
gação e reflexão em torno da esfera pública. logia da notícia. Em termos da sociologia
dos emissores, mesmo reconhecendo aspec-
tos tão importantes como ’media frames’,
2 Os estudos feministas dos
’valores-notícia’, ’rotinas jornalísticas’, ou
media em geral, o carácter não-neutro de uma cons-
Nesta linha de investigação, o discurso fe- trução social, as questões de género estão
minista tem-se articulado com a questão dos frequentemente ausentes. Nos estudos feitos
meios para construir uma definição da ’re- na matéria – geralmente associados à femini-
alidade’ das relações do género que pre- zação da imprensa - conclui-se de uma forma
valeça sobre outras definições alternativas. geral que, no que toca aos valores profissio-
Em causa está o próprio sistema ou o con- nais e à produção das jornalistas, não há di-
junto de formas de entendimento, valores ferenças entre os sexos (van Zoonen:1994).
e formas de comunicação, com base nos Uma explicação para isso pode residir no
quais se organiza a nossa sociabilidade e pe- próprio modelo Iluminista de racionalidade
las quais aprendemos a viver em sociedade. do jornalismo em que, para poder represen-
Num mundo em que as mensagens mass- tar uma suposta ’neutralidade’ e ’objectivi-
mediatizadas oferecem as estratégicas mais dade’, as diferenças terão de ser apagadas e
poderosas e tecnológica ou retoricamente so- reunidas numa só estrutura racional e univer-
fisticadas para moldar a realidade cultural, e sal de representação.
em que as oportunidades para criar e rece- Em termos da acção feminista, no entanto,
ber mensagens mass-mediadas são tão avas- têm-se também tentado mudanças na segre-
saladoras como as oportunidades de abuso, gação vertical e horizontal dentro da estru-
a comunicação mass mediatizada assume-se, tura organizacional das indústrias dos me-
nas questões do género, como uma das pre- dia. Subjacente a essa acção está o pressu-
ocupações centrais. As problemáticas envol- posto que um aumento da participação das
mulheres a todos os níveis organizacionais

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nas indústrias dos media conduzirá inevita- ção dos conteúdos dos media é matéria de
velmente a uma mudança inovadora na co- dissonância cultural. Quando as minorias
dificação do discurso dos géneros, resistindo culturais desafiam a criação e o retrato de
assim à tendência histórica nos media de re- uma realidade social, a batalha sobre as news
forçar a dominação masculina. Trata-se, no frames transforma-se num processo político
entanto, de um pressuposto que tem sido (Norris, 1997). Uma segunda vertente de
posto em dúvida por alguma investigação pesquisa foi marcada pelo trabalho de Gaye
(Creedon, 1993:13). Liesbet van Zoonen, Tuchman que estabeleceu uma agenda de in-
por exemplo, defende que não é o número de vestigação ligada às representações em si do
mulheres ou homens no jornalismo que de- feminino, das relações de género e da do-
termina a forma das notícias, mas é a trans- minação patriarcal nos textos mass mediá-
formação do género noticioso, para formas ticos (Tuchman, 1978). Desde o início do
cada vez mais impulsionadas pelo mercado, movimento do feminismo de segunda vaga,
levando ao interesse por ’histórias de inte- que se começaram a expressar fortes críti-
resse humano’ e de investimento emocional cas sobre os estereótipos na cultura popu-
– para as quais, aparentemente, as mulheres- lar, sobre a forma como os media noticio-
jornalistas são mais sensíveis – que cria no- sos cobrem os papeis das mulheres e mesmo
vas oportunidades para as mulheres: “[é] o sobre o retrato das preocupações feministas
conteúdo e estilo das notícias que está a de- no feminismo organizado (em que tantas ve-
terminar se as mulheres ou os homens irão zes ’feminista’ equivale a ser uma mulher
trabalhar no jornalismo – em termos simples de êxito). Os resultados destas investiga-
– e não os homens ou mulheres jornalistas ções apontam normalmente para formas de
que determinam qual o conteúdo e estilo das realce da aniquilação simbólica das mulhe-
notícias”. (van Zoonen, 1998: 45). A ponte res nos media, ou da forma como estes cons-
para uma segunda vertente de investigação tituem um sistema patriarcal que representa
está ainda no interior da sociologia da notícia e reforça a dominação e o poder masculino.
onde um importante corpo de estudos se de- É, aliás, também nesse sentido, que os pró-
dicou aos chamados ’media frames’ que, tal prios relatórios oficiais têm repetidamente
como Gitlin os define, são “esquemas persis- expressado preocupações sobre as imagens
tentes de cognição, interpretação e apresen- das mulheres nos media que reforçam bar-
tação, de selecção, ênfase e exclusão, a par- reiras culturais e papeis tradicionais. Numa
tir dos quais os gestores de símbolos orga- terceira vertente de investigação – sem dú-
nizam o discurso, verbal ou visual” (Gitlin, vida a mais poderosa - os estudos feministas
1994:7). Entendidos pelos jornalistas ou pe- dos media interessaram-se pelas audiências,
los profissionais dos media como de ’senso pelo exame das práticas sociais da mulher
comum’, e com base no pressuposto de que em relação aos textos mediáticos: consumo
a sociedade partilha de um consenso cultu- cultural, leitura feminina, contextos quoti-
ral comum a uma vasta audiência, as dispu- dianos da recepção, etc. No seu conjunto,
tas surgem precisamente porque essa audi- há alguns temas assumidos e/ou revitaliza-
ência é, ela própria, dividida por clivagens dos que, nesta linha de investigação, ganha-
de género, raça e classe, em que a interpreta- ram maior importância, como os estereóti-

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pos, a socialização do género, a ideologia e a estabilidade das categorias biológicas e a


a pornografia (van Zoonen, 1994). Mais re- construção de opostos. Historizou-se a ex-
centemente, os movimentos contemporâneos periência, realçando as diferenças entre gru-
centram-se numa teorização de como o gé- pos marginalizados como alternativa à ’uni-
nero, em si, é construído dentro de textos versalidade’ da opressão. No interior da te-
e como as representações do género exer- oria feminista, surgiu o confronto com uma
cem poder sobre os ’leitores’. O resultado divisão entre o que se chamou o feminismo
desta mudança de prioridade foi o questionar da ’igualdade’ e um emergente feminismo da
da linguagem, da subjectividade e da repre- ’diferença’. A demarcação entre estas duas
sentação. Numa leitura dos media associada diferentes versões baseia-se na forma como
ao pós-estruturalismo, condenando a tendên- cada uma delas entende a ’justiça’ e como
cia para pensar no poder como uma entidade cada uma pretende reintroduzir um novo sig-
monolítica que é detida por alguns grupos nificado de ’igualdade’ (’equidade’ de gé-
e não por outros, muitos autores centram- nero). O discurso da ’igualdade’ defende que
se na multiplicidade das relações e nos re- é importante para as mulheres serem con-
sultados da subordinação sobre as subjecti- sideradas iguais aos homens, e considera a
vidades das mulheres abertas a uma plurali- ’diferença de género’ como uma forma de
dade de significados, permitindo diferentes sexismo. O discurso da ’diferença’, pelo
implicações políticas e desafios directos às contrário, considera que é impossível usar
representações patriarcais. Neste contexto, a medida de ’igualdade’ conceptualizada do
emerge uma nova dimensão na compreensão ponto de vista masculino, pelo que o que
dos media, em que a interacção entre o pro- é preciso para superar esta perspectiva par-
dutor e consumidor já não pode ser enten- cial é recuperar as qualidades ligadas à ’dife-
dida em termos de uma relação entre domi- rença’ das mulheres. A ’diferença de género’
nador e dominado, dado que os consumido- tornou-se, assim, a estratégia selectiva activa
res são, eles próprios, os produtores de sig- para lidar com uma reavaliação das mulheres
nificado. A atravessar muitos destes estudos, e o que passou a estruturar uma parte do seu
estão as próprias ambivalências e tensões do movimento foi não só a igualdade dos direi-
interior do feminismo e das chamadas ’polí- tos mas o direito à diferença.
ticas de identidade’. Confrontando a ques- É neste sentido que, à medida que as fe-
tão do essencialismo da identidade e da sua ministas lutam com desafios políticos e teó-
fixidez como ’natural’, isto é, como cate- ricos a qualquer entendimento fácil da cate-
goria biológica, as ’políticas de identidade’ goria "mulher ", as questões do que é uma
transformaram-se “...não numa luta entre su- identidade e como ela se constitui têm con-
jeitos naturais. É uma luta pela própria ar- duzido a diferentes respostas teóricas. Al-
ticulação da identidade, em que se mantêm gumas destas respostas passam pelo afasta-
abertas as possibilidade dos valores políticos mento das formas humanistas de análise que
que possam validar tanto a diversidade como partem de uma identidade feminina ’essen-
a solidariedade” (Weeks, 1994:12). As po- cial’, para adoptar a ideia de que a femini-
líticas de identidade procuraram assim cons- lidade não é mais que um orquestrado con-
truir uma política da diferença que subverta junto de práticas representacionais que pro-

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duz uma coerência do género feminino como de classe. Teóricas feministas como Nancy
simples e naturalizado (McRobbie, 1997). Fraser, Seyla Benhabib, Iris Marion Young,
Noutras, realça-se o facto de o sentido de Mary Ryan, Carole Patman e Joan Landes
identidade colectiva ser alcançado pelo reco- tentaram revelar as exclusões constitutivas
nhecimento de uma opressão partilhada ba- da esfera pública burguesa, tanto na sua di-
seada no género, obscurecendo as desigual- mensão normativa como histórica. Em causa
dades materiais e suspendendo outras formas está a própria ideia de um público civil inte-
de diferença. riormente coerente, homogéneo, que atinge
a sua unidade banindo a sua própria parti-
cularidade. Mesmo as teóricas críticas fe-
3 Os estudos feministas sobre a
ministas que mantêm a procura de um pro-
esfera pública jecto emancipador fundado no modelo dis-
Os estudos feministas sobre a esfera pública cursivo de Habermas e na tentativa de fazer
ligam-se também, de algum modo, a esta avançar a democratização das normas sociais
questão. Em causa está um poderoso corpo e relações sociais igualitárias, não deixaram
de investigação sobre a identidade feminina de fazer críticas ao modelo de esfera pública
e sobre a forma como essa constituição é proposto por este autor. Criticaram não só
tematizada nos discursos culturais da socie- a real exclusão das mulheres na esfera pú-
dade civil. O elemento empírico desta cor- blica burguesa, mas também o facto de Ha-
rente de investigação dá lugar a um questio- bermas não reflectir criticamente sobre essa
namento sobre a dinâmica da opinião pública exclusão. Em substituição do modelo Haber-
por forma a que a tematização das identida- masiano, as feministas propõem uma esfera
des possa levar a noções mais amplas de jus- pública (ou esferas públicas múltiplas) onde
tiça. Fundamentalmente, reconhece-se aqui são reconhecidas e apreciadas as diferenças,
que o movimento das mulheres, como outros procurando uma base normativa para o par-
movimentos identitários, na luta pelo reco- ticularismo como fundamento da democra-
nhecimento público dos seus direitos e ne- cia. Questões como o género, a raça, a et-
cessidades, se joga na esfera pública e que nia, a idade e a preferência sexual constituem
esta deverá ser objecto de investigação, crí- diferenças que não podem ser ’suspensas’
tica e reordenamento. Um dos núcleos dessa para constituir uma expressão do interesse
investigação foi, primordialmente, a crítica geral e objectivo, ainda que este tenha um
da esfera pública burguesa Habermasiana, objectivo eminentemente emancipador. Ha-
criticada quer nas suas condições ideais - um bermas, embora não discorde que, apesar das
espaço caracterizado por indivíduos discur- suas reivindicações ideológicas, a esfera pú-
sando livremente, pondo entre parênteses ou blica burguesa funcionou para excluir a vasta
suspendendo, o estatuto, identidade colec- maioria de sociedade, encontra o potencial
tiva e consenso, - quer nos seus ’termos re- correctivo destas exclusões nos ideais iguali-
ais’ – um retrato que deixa de fora os capi- tários encarnados nas instituições e nos dis-
talistas concorrentes, as desigualdades ma- cursos desta esfera. É pela constituição de
teriais, as restrições de género e a divisão uma arena discursiva conceptualmente dis-
tinta do estado e da economia oficial que os

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seus participantes podem discutir questões masculina, que funcionou de modo a legiti-
de interesse comum, criticar o estado e de- mar uma nova forma de domínio de classe. A
bater como cidadãos e não como consumi- esfera pública não está separada das questões
dores. A emergência de um processo de for- financeiras e das questões do poder. No caso
mação de um consenso democrático pela ar- da violência doméstica as relações de subor-
gumentação crítica só foi possível por uma dinação do género são reproduzidas quando
clara distinção normativa das esferas institu- o problema é remetido quer para a esfera do
cionais pública e privada tal como ocorreu doméstico quer para enclaves públicos es-
numa fase inicial das sociedades capitalis- pecializados - como o direito familiar ou a
tas. Porém, esta reivindicação enfrenta vá- sociologia e a psicologia do ’desvio’ (Fra-
rios poderosos desafios no trabalho das femi- ser, 1989: 168). Por isso, há que separar o
nistas. Mesmo reconhecendo a utilidade das conceito de esfera público da sua forma li-
distinções entre sistema e mundo da vida, beral, usando-o como uma crítica da demo-
público e privado, consideram que Haber- cracia enformada pelas experiências e neces-
mas, ao excluir por exemplo o lar e a econo- sidades articuladas pelos movimentos soci-
mia da esfera pública, suprime sistematica- ais do século XX. Baseada no exemplo de
mente a questão da gestão democrática das contra-públicos subalternos - os públicos al-
relações homem/mulher e das relações de ternativos constituídos pelas mulheres, ope-
produção. A crítica não é tanto relativamente rários, pessoas de cor, homossexuais e lésbi-
às linhas que separam o público do privado cas - Fraser defende o movimento feminista
mas sobre aquilo a que elas conduzem: a jun- como o exemplo mais notável de actividade
ção de ’homem proprietário’ e de ’cidadão’ de contra-públicos do fim do século XX, no-
leva às noções de ’homem público’ e ’mu- tando a sua orientação publicista na dissemi-
lher privada’, circunscrevendo as mulheres nação das reivindicações feministas por diá-
para o domínio privado e assim legitimando rios, livrarias, editoras, filmes e cadeias de
a sua opressão e exploração nesse domínio. distribuição vídeo, conferências, centros de
A concepção burguesa e masculina da esfera pesquisa, programas académicos, etc. Por
pública, como diz Nancy Fraser, remete as outro lado, uma concepção pós-burguesa da
mulheres para um "reino a-político"de inti- esfera pública, com maior paridade de parti-
midade e isolamento, erguendo novas barrei- cipação, exigiria retirar dos parênteses as de-
ras à sua participação dentro das estruturas sigualdades sociais e fazer uma tematização
políticas formais. Além disso, a privatiza- explícita dos marcadores de desqualificação
ção das questões das mulheres como ’pesso- a que o liberalismo é cego. É, aliás, nesse
ais ou domésticas’ não deixa ver que “a iden- sentido, que Nancy Fraser cita, com aprova-
tidade de género é vivida em todas as arenas ção, as tendências reveladas pela actual im-
da vida: trabalho assalariado, administração portância e dinamismo do chamado multi-
pública, cidadania, relações familiares e se- culturalismo, das políticas de identidade, e
xuais” (Fraser, 1989: 127). Para esta autora, dos novos movimentos sociais que pode ser
a concepção burguesa não é tanto um ideal visto como um progresso em direcção a esse
utópico irrealizado, como é para muitos críti- modelo. Fraser tem por referência a esfera
cos da Habermas, mas uma noção ideológica pública política enquanto constelação de are-

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nas de diálogo, pelo que, na avaliação da es- tuem como escudos e como substitutos de
fera pública habermasiana, não explora a es- debate público das questões” (McLaughlin,
fera pública mediatizada. Num trabalho pos- 1998: 81). Como ’acontecimento mediá-
terior, porém, a autora propõe que uma teo- tico’, o caso Simpson ilustra o confronto en-
ria adequada da esfera pública tem que dis- tre o debate racional e o espectáculo. Um
tinguir entre diversas esferas públicas e tem dedo numa das principais feridas da teoria
que incluir esferas públicas governativas ofi- dos media hoje.
ciais, esferas públicas mass-mediadas, esfe-
ras de contra-públicos e esferas públicas in-
4 Em busca da ligação necessária
formais na vida quotidiana, mostrando como
alguns destes públicos marginalizam outros Como se disse, as linhas de investigação que
(Fraser, 1997). Fraser inclui, nesta lista, es- ligam o feminismo, os media e a esfera pú-
feras de públicos mass-mediadas, sobretudo blica parecem percorrer caminhos paralelos
para reforçar a ideia de que os media consti- e nem sempre convergentes, ainda que atra-
tuem o apoio material à circulação de visões vessadas não só pelas mesmas problemáti-
de propriedade privada e operadas pelo lu- cas, como pelas mesmas dificuldades e ten-
cro, e portanto, não estão disponíveis a gru- sões em torno da formação de uma identi-
pos sociais com poder desigual. dade colectiva que, como Melucci aponta,
Lisa McLaughlin, porém, vai mais longe produz orientações e significados que os ac-
na sua análise e apresenta-se como uma das tores reconhecem em democracia. Mas a de-
poucas feministas que tentam fazer a liga- mocracia é algo mais que um regime polí-
ção entre as preocupações das críticas de tico: é também uma forma de organizar o es-
Habermas e a forma como as diferenças paço público, o espaço da comunicação. E,
são produzidas e como circulam pelas prá- no entanto, a recíproca atenção aos media e
ticas de selecção, avaliação, ordenamento à esfera pública nem sempre parece fazer-se.
e enquadramento dos media (McLaughlin, Nos estudos sobre a relação dos movimen-
1998). O ’espaço do acontecimento mediá- tos sociais com os media parece prevalecer a
tico’ constitui-se como um espaço público noção de que estes estão associados à ero-
“mais contemporaneamente relevante, me- são da opinião pública, designadamente no
nos frágil, talvez mesmo conceptualmente esvaziamento das suas estruturas de comu-
mais material, onde as diferenças são hoje nicação, destacando-se o seu lado manipula-
geridas” (McLaughlin, 1998: 73). O seu es- dor. Por isso, a identificação dos meios de
tudo do caso da cobertura mediática do caso comunicação como instrumentos intrinseca-
O. J. Simpson mostra como este “oferece mente manipuladores, levou a abandonar um
uma extraordinária oportunidade para anali- espaço privilegiado do processo de constru-
sar como os acontecimentos mediáticos po- ção social a não ser numa perspectiva emi-
dem abrir um forum para discussão pública nentemente instrumental, em que os media
de preocupações antes ’privadas’, como a vi- são apresentados como simples veículos para
olência doméstica, e, ao mesmo tempo, per- a disseminação de discursos, mesmo que a
mitir que a representação espectacular do relação seja de necessidade mútua. Numa
assassínio e do poder e da celebridade ac- revisão da literatura sobre a ligação entre os

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media e os novos movimentos sociais, por zadas do mundo da vida são uma área cru-
exemplo, Gamson e Wolfeld descrevem a re- cial e negligenciada pela pesquisa dos media
lação como sendo de interdependência. Do e pelos estudos culturais (Garnham, 1989).
seu ponto de vista, os movimentos sociais Questão importante, tanto mais que as vá-
precisam dos media para mobilizar os seus rias dimensões dos novos movimentos soci-
membros, estabelecer a sua credibilidade por ais envolvem uma relação reflexiva para com
validação exterior e alargar o alcance da dis- os mundos objectivo, subjectivo, e social, na
puta, incluindo mediadores na discussão. Os medida em que tematizam questões de iden-
media precisam dos novos movimentos so- tidade pessoal e social, contestam a interpre-
ciais para lhes fornecer notícias interessan- tação social das normas, criam e acordam co-
tes. O facto de este não ser um casamento municativamente novas normas e propõem
de iguais pode contribuir para distorções sis- formas alternativas de se relacionar com os
temáticas da mensagem de um movimento, contextos. É nos complexos processos de
seja pelas próprias acções dos movimentos mediação, com base nas experiências comu-
sociais, seja pelas pressões internas dentro nicacionais e das identidades formadas em
das organizações noticiosas. Daí que mui- seu torno, que chegamos às opiniões e acções
tos estudos apontem para as distorções das mais abertamente racionais e políticas. Pa-
mensagens, quer pelo lado dos próprios mo- rece, pois, importante, na análise dos diver-
vimentos sociais que pretendem obter cober- sos movimentos sociais e nomeadamente nos
tura, quer pelo lado dos media, em função da estudos feministas, retomar a análise dos me-
sua própria lógica de funcionamento (Gitlin, dia em termos das suas estruturas comuni-
1980). Se do lado dos emissores a pesquisa cacionais enquanto elementos da esfera pú-
não tem sido profícua, é-o no lado dos recep- blica, e não como simples sistemas técni-
tores. No entanto, as análises de recepção cos e económicos de produção, distribuição
o próprio centramento sobre os conteúdos e consumo de informação.
limitam-se frequentemente a valorizar cada No caso do feminismo, em causa deverá
actividade privada de consumo como oposi- estar não só o estudo das questões de repre-
cional e resistente, com a consequente reafir- sentação do género, mas a comunicação en-
mação dos discursos dominantes que, de al- quanto estudo do papel da comunicação na
guma maneira teriam perdido o controle das vida política e do espaço em que se trocam
suas mensagens. Embora se valorize a medi- os discursos discrepantes dos actores que,
ação da experiência do mundo da vida, onde em democracia, têm oportunidade de se ex-
reside a ideologia, nem sempre se tem dado pressar publicamente. Os media põem em
a devida atenção ao facto da existência da jogo referentes interpretativos para as sub-
ideologia assentar na não-transparência do jectividades. Mas poderão esses referen-
mundo da vida, numa não transparência que tes dissociar-se da forma da sua circulação
torna a interpretação sempre difícil e provi- nos media nomeadamente enquanto simples
sória. Como Garham chama a atenção, as di- ’soundbites’? Será a comunicação dos me-
nâmicas deste processo e o relativo peso den- dia uma forma de expressão e discussão que
tro dele das determinantes dos sistemas raci- mantém uma ligação aos contextos dessa ex-
onalizados e das experiências não racionali- pressão pública? Reterá a sua dimensão po-

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lítica? Na verdade, o velho slogan feminista dutoras de um saber prático que desafia as in-
’o pessoal é político’ corre no risco de assu- terpretações oficiais e hegemónicas. Nas re-
mir, nos media, dimensões particulares – da centes discussões sobre as possibilidades de-
simulação à privatização - que urge pensar. mocráticas dos novos media, o ambiente pa-
Refiram-se, a título de exemplo, os retratos rece ser de um optimismo generalizado, mais
da vitimização das mulheres e da sua ausên- uma vez em torno da formação de comunida-
cia de poder que enchem os media. Noti- des e de novas formas de contra-públicos.
ciários, talk shows, jornais, videos e filmes Mas, na verdade, essas análises não são
escrevem os seus próprios textos com as pa- muito diferentes do tratamento as tendências
lavras e imagens do discurso feminista. Os hegemónicas dos media como aproblemáti-
talk shows e as telenovelas, em particular, cas. O que lhes falta é a dimensão pública
estão cheios de preocupações originalmente dos textos, dado que as representações em
articuladas pelas feministas radicais: viola- causa, por exemplo da violência sexual, sur-
ção, pornografia, incesto, abuso sexual, etc.. gem como individualizadas e privatizadas.
Pode ver-se, nesse discurso, uma oportuni- Enquanto as feministas radicais ligaram o
dade para referir temas que dizem respeito pessoal ao político, nestas análises não há
às mulheres e essa é a posição de muitas política no pessoal porque o pessoal é pri-
análises. A apropriação dos media dos te- vatizado e as ’políticas do sexo’ naturaliza-
mas feministas e os prazeres da resistência das. O privilégio patriarcal é despolitizado
na leitura das mensagens dos media tem le- por uma imensidão de tragédias femininas
vado a uma considerável produção, nomea- individualizadas. Com isso, os media pode-
damente no seio dos estudos culturais. São rão chamar a atenção das mulheres, mas não
análises normalmente associadas os prazeres mudam a sua vida. Pelo contrário, escondem
da cultura popular e de que são exemplo al- as complexidades do feminismo.
gumas análises de telenovelas que colocam Na verdade, a retirada para práticas de
a ênfase sobre o trabalho criativo efectuado consumo ’privadas’ e a celebração de ale-
pela audiência na produção de leituras nego- gadas ’comunidades’ resistentes constituídas
ciadas e oposicionais, celebrando a polisse- por fãs de alguns conteúdos mediáticos pode
mia do texto e a resistência da audiência. Em conduzir ao encorajamento do consumismo e
termos gerais, defende-se que embora mer- à não participação, perpetuando os discursos
gulhados no idioma do sensacionalismo e hegemónicos enraízados em práticas exclu-
numa linguagem que em tudo se opõe ao mo- sionárias, pondo em perigo a democracia e a
delo racional-crítico de Habermas, os ’talk mudança social, mascarando formas de do-
shows’ constituem foruns públicos que arti- minação e suprimindo grupos oposicionais
culam discursos não técnicos, não burgueses, com base no género, raça e classe. Às fe-
sobre o social e o político, constituindo as- ministas competirá repolitizar o que os me-
sim um contra-público capaz de contestar as dia despolitizam. A questão torna-se, então,
instituições que impõem a sua desvantagem saber até que ponto as políticas de identi-
(Carpignano, 1993). O argumento é que as dade são, na sua actual forma, minadas pela
formas espectaculares de publicidade se tor- natureza aparentemente a-política da esfera
naram mais interactivas e democráticas, pro- pública mediatizada. Até onde se pode le-

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O discurso feminista e os estudos dos media 11

var uma política de identidade dado o facto geral. Mas estas críticas não impedem as vir-
de que, dentro da esfera pública contem- tudes do impulso gerado pela abordagem ha-
porânea mass-mediada, a identidade cultu- bermasiana. Quando, como vimos, muito do
ral pode ser interpretada como uma forma estudo dos mass media na perspectiva femi-
de desempenho, uma forma espetacular de nista é excessivamente centrado apenas nos
auto-construção? Como Garham chama a próprios media, a virtude da abordagem pela
atenção, o tipo de espaço público produ- esfera pública é focar a ligação indissolúvel
zido pelos media difere das esferas públicas entre as instituições e as práticas da comu-
discursivas oferecendo também uma forma nicação de massas e as instituições e práti-
diferente de publicidade. No seu interior cas da política democrática. O problema da
constróem-se formas mais ambíguas de pu- representação dos media, no sentido media-
blicidade e a possibilidade de uma comuni- dor da palavra, limita-se, em grande parte,
cação estruturada em redes que não estabe- a colocar a questão em termos de como os
lece o mesmo grau de responsabilidade mú- vários media reflectem, bem ou mal, o equi-
tua e reflexividade típica da comunicação na líbrio existente das forças políticas, a agenda
esfera pública. “Mais do que um espaço, política e o seu efeito sobre a acção polí-
os media globais formam uma rede. Nessa tica e sobre a auto-compreensão das mulhe-
rede temos publicidade sem uma esfera pú- res. Mesmo sendo questões importantes, são
blica”, diz Garnham (Garnham, 1989: 212). questões que falham a questão essencial e
Em vez de constituírem um público, os me- mais urgente que é a levantada pela relação
dia podem ser usados para criar uma audiên- emergente entre os media e as identidades,
cia agregada, mais ’anónima’, onde se não sendo eles próprios uma parte central e in-
faz necessariamente o uso público da razão tegral da estrutura e do processo político de
e onde, como tantas vezes se tem vindo a formação dessas mesmas identidades. A par
afirmar, reside o perigo de, em vez de cida- do potencial emancipador, por exemplo das
dãos, termos consumidores passivos de ima- questões de agenda e da tematização, – re-
gens. É aqui que entram de novo as análi- presentar é também re-apresentar, apresen-
ses feministas da esfera pública, nomeada- tar algo que está ausente - é preciso pen-
mente pela noção contra-público, Questio- sar que os media têm também uma lógica
nando a pretensão a universalismo na esfera de visibilidade fragmentária, dispersa e in-
pública, as oposições binárias rígidas usa- dutora de consumo privado. Por outro lado,
das nos discursos que dividem a associação a omissão dos media nos estudos feminis-
de mulheres com a esfera privada da asso- tas sobre a esfera pública resulta, essencial-
ciação de homens com a esfera pública, e mente, do seu enfoque frequentemente sin-
a dicotomização das experiência e racionali- gular no funcionamento interno, oposicio-
dade, como vimos, o encontro das feministas nal da contra-esfera pública feminista. Isto
com o trabalho de Habermas funde-se com tem o efeito de alargar a noção de esfera pú-
a crítica feminista mais vasta aos projectos blica, em princípio, para permitir a participa-
que iluminam a parcialidade do género den- ção dos antes excluídos, ou de definir esfe-
tro da distinção público/privado da teoria li- ras públicas múltiplas, alternativas que pro-
beral e dentro da filosofia política mais em cedem a sua actividade discursiva própria,

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12 Maria João Silveirinha

igualmente valiosa, para espaços que se afas- que os participantes não são apenas ’pessoas
tam da esfera pública oficial. Mas, mais do privadas’ no sentido abstracto, mas pessoas
que uma expansão numérica, essa inclusão particulares com vários papeis sociais e ins-
cria também um espaço socialmente diferen- titucionais em virtude dos quais se dirigem
ciado. Os cidadãos participam nele como aos outros. Esta mediação na comunicação
portadores de diferentes interesses, identida- significa que as igualdades universais já não
des culturais, papeis sociais e conhecimento podem ser garantidas: “numa situação de co-
diferencialmente distribuído. No entanto, municação mediada, o acesso tanto aos ca-
o exclusivo centramento em cada uma das nais como aos meios depende da mobiliza-
identidades tem a consequência de focar na ção de recursos materiais escassos, cuja dis-
identidade interna, oposicional, à custa de tribuição depende das próprias estruturas de
uma consideração do papel dos media e, por- poder económico e político que os proces-
tanto, dificultando o estabelecimento de um sos democráticos de debate pretendem con-
espaço representativo necessário para a de- trolar” (Garnham, 1989). Mais importante
mocracia. Como já referido, a situação tem- que a celebração da diferença pela diferença
se vindo a complexificar com os chamados e resistência pela resistência é a politização
"dilemas de diferença"que têm atravessado das diferenças dentro da esfera pública pela
os discursos públicos, em torno da constitui- localização do seu potencial transformador.
ção das identidades, passando pelas práticas Para que as interpretações sejam influentes
académicas e políticas de feminismo, origi- nas relações de poder, é a vida pública, não
nando divisões entre as ’anti-essencialistas’ a retirada para o consumo privado, que abre
que são cépticas sobre identidade e diferença possibilidades de formas transformadoras de
considerando-as como construções discursi- resistência. É na esfera pública que se dis-
vas por um lado e os ’grupos multiculturais’ cutem experiências e situações de vida di-
que celebram e promovem todos os tipos de ferentes, estando em jogo as nossas visões
diferença e identidade de grupo. Por vezes, do mundo. É assim, não só porque as ex-
estas divisões parecem constituir um sopro periências do sujeito precisam de algum tipo
fatal para a política feminista e para o seu de reconhecimento, mas porque é apenas na
potencial de desenvolver relações de solida- esfera pública que se é capaz de fazer exi-
riedade que façam a ponte entre identidades gências com bases na necessidade de rever
diferentes das mulheres, reconhecendo-as e velhas e tradicionais interpretações da lei e
legitimando-as. Se as pretensões à diferença noções de justiça. É pelo processo da luta
forem levadas ao extremo, o risco é o de uma de levar os outros às discussões na arena pú-
fragmentação dos movimentos em segmen- blica que se podem proteger os interesses
tos auto- assertivos e fechados. Sem dúvida próprios como pessoas autónomas privadas e
que o uso público da razão é agora instan- como cidadãos portadores de direitos legais.
ciado nas capacidades de comunicar numa Habermas, apesar das críticas que lhe foram
esfera pública socialmente diversa e com- feitas pelas feministas, oferece uma teoria da
plexa. Mais do que um espaço neutro e abs- ética discursiva com base na constituição in-
tracto, a esfera pública torna-se diferenciada tersubjectiva da identidade e originada e me-
por identidades culturais e papeis sociais, em diada pela comunicação e, ao ligar a esfera

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O discurso feminista e os estudos dos media 13

pública a uma teoria do discurso, a utilidade pois, em encontrar uma relação adequada
da sua teoria não está só no facto de permi- dos movimentos com o duplo carácter destes
tir um diagnóstico político da modernidade. desenvolvimentos institucionais. Como diz
Ao reconceptualizar radicalmente o sujeito João Pissarra Esteves, os movimentos soci-
e ao marcar a formação intersubjectiva da ais, dinamizados pela própria lógica mediá-
auto-identidade, ele oferece um ideal norma- tica que favorece a segmentação das audi-
tivo das relações Eu/Outro e dos contextos ências “convergem na aspiração comum de
discursivos em que elas são negociadas, fa- atingirem uma expressividade pública rele-
zendo a ponte entre o público e o privado, o vante. Esta dinâmica social repercute-se nos
pessoal e o político. Mas, de facto, fica por media, sob a forma de uma pressão objec-
resolver o problema específico da mediação: tiva sobre estes mesmos media com vista à
como é que a comunicação mediada muda sua abertura a novas formas de expressão,
a natureza da interacção discursiva, permi- que assume, de forma geral, uma forte li-
tindo certos modos de acção social e impe- gação aos contextos mais imediatos da ex-
dindo outros? As interrogações sobre a es- periência e às interpretações da vida quoti-
fera pública procuram, em parte, responder diana” (Esteves, 1998:240). Uma considera-
a esta questão, mas, na medida em que não ção dos media, vista como um problema con-
tematizam especificamente os media, muito tínuo e com possibilidade para a democracia,
fica por responder. O próprio veredicto de é central a uma consideração da esfera pú-
Habermas nestas questões é ambíguo. A sua blica. Os meios de comunicação de massas,
caracterização do declínio, do que ele chama tal como estão presentemente organizados,
a "refeudalização"da esfera pública, centra- constituem uma esfera necessária para a co-
se justamente no ressurgimento da identi- municação não distorcida e debate racional
dade ou da particularidade, na forma da exi- que é essencial para a constituição de uma
bição teatral e auto-apresentação das figuras democracia baseada na capacidade de recon-
públicas dentro dos media - a substituição da ciliar identidades múltiplas frequentemente
política pelas técnicas de administração de conflituantes e entender, criticar e viver com
imagem. Na sua opinião, como a política interpretações contraditórias de identidade?
se faz nesses contextos organizados em torno Ou as forças económicas das indústrias de
do consumo e se torna sujeita às suas regras cultura global significam que o tipo de dis-
e normas interpretivas, o público perde a sua curso racional descrito como característico
função crítica e transforma-se numa simples da modernidade só constitui media ’figurais’
audiência de espectadores e consumidores de onde a identidade ou a particularidade só se
imagem. Por outro lado, Habermas vê os afirma na forma da exibição teatral, proce-
mass media como fenómenos ambivalentes dendo à substituição da política pelas técni-
que contêm potenciais autoritários e eman- cas de administração de imagem? Os estu-
cipadores. Embora estejam ao serviço da dos dos media têm o potencial para ajudar
manipulação, mantêm-se media de comuni- imensamente a crítica feminista, problema-
cação e nunca estão completamente protegi- tizando o ’carácter público’ do movimento.
dos contra a capacidade dos actores discor- Haverá que explorar o seu potencial de de-
darem (Habermas, 1994). A tarefa estará, senvolvimento para avançar causas oposici-

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14 Maria João Silveirinha

onais e explorar o desenvolvimento even- gender in contemporary social theory,


tual dos media estruturalmente transforma- Cambridge, Polity Press, 1989
dos, sem perder de vista o papel dos media
na hegemonia e as formas de mediação se- Fraser, Nancy, "Rethinking the Public
leccionadas e organizadas pelas suas práticas Sphere: A Contribution to the Criti-
hegemónicas. Daí, a necessidade, como de- que of Actually Existing Democracy,"in
fende Lisa McLaughlin, de “uma teoria fe- Calhoun, C., (ed), Habermas and the
minista da esfera pública que responda pe- Public Sphere, Cambridge, Blackwell,
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