Você está na página 1de 10

Pós-feminismo e cultura popular: Bridget Jones e o novo regime de gênero

Angela McRobbie(1)

Publicação Original:
In: CURRAN, James; MORLEY, David. Media and Cultural Theory. London/New York: Routlege, 2006, p.
59-69. Tradução: Márcia Rejane Messa

Introdução: complexificação ou backlash?

Este artigo apresenta uma série de possíveis quadros conceituais para um engajamento com o que
vem sendo chamado de pós-feminismo. Entende que o pós-feminismo se refere a um processo ativo pelo
qual os ganhos feministas dos anos 70 e 80 estão enfraquecidos. Propõe que, por um arranjo de
maquinações, elementos da cultura popular contemporânea são perniciosamente efetivos no apagamento
do feminismo, enquanto simultaneamente aparentam estar engajados em uma bem informada e até mesmo
bem intencionada resposta ao ‘feminismo’. Propõe que este ‘apagamento’, que pode ser percebido em todo
campo cultural, é composto por algumas dinâmicas na teoria sociológica (incluindo o trabalho de Giddens e
Beck) que parecem ser mais relevantes para aspectos de gênero e mudança social. Finalmente, sugere
que, com a ajuda das bandeiras de liberdade e escolha que agora estão inextrincavelmente conectadas
com as jovens, o feminismo está decididamente ‘datado’ e parece ser redundante. O feminismo está nas
sombras, onde no máximo pode esperar por uma sobrevida, onde há de ser considerado de forma
ambivalente por aquelas jovens que dele mantêm uma certa distância em lugares públicos pelo bem social
e reconhecimento sexual. Eu proponho, então, uma complexificação da tese de backlash que se tornou
corrente nas formas de jornalismo associados com feminismo popular (FALUDI, 1992).

O backlash, para Faludi, foi uma ação, uma resposta conservadora e arranjada às conquistas do
feminismo. O meu argumento é que o pós-feminismo positivamente faz uso do feminismo e o evoca7 como
algo a ser levado em consideração para sugerir que a igualdade está alcançada e, com isso, instalar todo
um repertório de novas significações que enfatizam que o feminismo não é mais necessário, que é uma
força perdida. Isto foi mais claro na coluna do jornal inglês Independent, The Bridget Jones’s Diary, e depois
um enorme sucesso nos livros e filmes que seguiram(2). Para meus propósitos aqui, o pós-feminismo
permite um exame minucioso de vários estudos conflituosos e convergentes. Permite-nos examinar
mudanças de direção dos estudos feministas, enquanto também leva em conta o aparente repúdio do
feminismo neste mesmo contexto acadêmico por essas jovens que são seus sujeitos (estudantes)
refratários. De forma geral, eu argumento que para o feminismo ‘ser levado em conta’ ele precisa ser
entendido como já morto. Este é um movimento detectável através da cultura popular, um espaço onde
‘poder... é refeito em várias junções dentro da vida cotidiana, (constituindo) nossa tênue noção de senso
comum’ (BUTLER et al.2000, p.14). Alguns breves comentários no livro de Judith Butler, Antigone’s Claim,
sugerem, ao meu ver, que o pós-feminismo pode ser explorado através do que eu descreveria como um
‘duplo enredamento’ (BUTLER, 2000). Isto implica a co-existência de valores neo-conservadores em relação
a gênero, sexualidade e vida familiar (por exemplo, o suporte de George Bush à campanha para encorajar a
castidade entre o público jovem e, em março de 2004, declarar que a civilização depende do casamento
tradicional) com processos de liberação em relação à escolha e à diversidade nas relações domésticas,
sexuais e de parentesco (por exemplo, casais homossexuais agora estão aptos a adotar, criar ou ter seus
próprios filhos e, ao menos no Reino Unido, tendo plenos direitos a ‘parcerias civis’). Também abarca a
existência do feminismo como algo que foi em algum momento transformado em uma forma de senso
comum gramsciano, enquanto também foi ferozmente repudiado, quase odiado (MCROBBIE, 2003). O
‘levar em conta’ permite uma ampla desconstrução das políticas feministas e o descrédito das
manifestações ocasionais para sua renovação.

O feminismo se descontruindo

O impacto deste ‘duplo enredamento’ que é manifestado na cultura popular e política coincide,
todavia, com o feminismo da academia descobrindo ser necessário a sua desconstrução. Nós podemos
dizer que 1990 (ou em meados de) marca um ponto estratégico, um momento de autocrítica definitivo na
teoria feminista. Neste momento, as reivindicações representacionais da segunda onda feminista foram
totalmente questionadas por feministas pós-coloniais como Spivak, Trinh e Mohanty, entre outras, e por
teóricas feministas como Butler e Haraway que inauguraram uma radical desnaturalização do corpo pós-
feminista (SPIVAK, 1988; TRIHN, 1989; MOHANTY, 1995; BUTLER, 1990; HARAWAY, 1991). Sob a
predominante influência de Foucault, há um deslocamento do interesse feminista dos blocos de poder
centralizados - por exemplo, o estado, o patriarcado, a lei - para espaços mais dispersos, eventos e
instâncias de poder conceitualizadas como fluxos, convergências e consolidações específicas da fala, do
discurso e atenções. O corpo e o sujeito passam a representar um ponto central de interesse feminista,
principalmente no trabalho de Butler. O conceito de subjetividade e os significados pelos quais as formas
culturais e suas interpelações (ou processos sociais dominantes) chamam as mulheres a ser, produzem-nas
como sujeitos enquanto ostensivamente apenas as descrevem como tais. Inevitavelmente, isto significa que
se trata mais de um ‘ela’ problemático e não um problemático ‘nós’, o que é um indicativo de uma virada
para o que nós podemos descrever como a política emergente do questionamento pós-feminista (BUTLER,
1999; 1993).
O começo dos anos 90 também marca um momento de reflexividade nos estudos culturais
feministas. Em seu artigo ‘Pedagogies of feminine’, Brunsdon questiona (o suposto) o valor de uso da
especialidade nos estudos feministas de mídia da oposição binária entre feminilidade e feminismo ou, como
ela coloca, até que ponto a ‘dona-de-casa’ e a ‘mulher ordinária’ foram concebidas como sujeitos assumidos
e merecedores de atenção pelo feminismo (BRUNSDON, 1991; re-edição 1997). Olhando para trás,
podemos ver o quão densamente este dualismo foi utilizado e também o quão específico era para os
arranjos de gênero para mulheres em sua maioria brancas e relativamente ricas (por exemplo, donas-de-
casa). O ano de 1990 também marcou o momento em que o conceito de feminismo popular ganhou
expressão. Andréa Stuart considerou a ampla circulação de valores feministas na cultura popular, em
particular em revistas onde, de repente, questões que eram centrais na formação do movimento das
mulheres - como violência doméstica, igualdade de salários, assédio sexual – passaram a ser endereçadas
a muitos leitores (STUART, 1990). A ampla disseminação de questões feministas foi também uma
preocupação chave em meu próprio trabalho naquele momento, especificamente a intersecção dessas
novas representações com o cotidiano das jovens que, como sujeitos (‘chamadas a ser’) pelo feminismo
popular, têm sobre si a expectativa de que corporifiquem as identidades então encorajadas (embora
também pudessem ‘fracassar’). Isto deu vazão à idéia do sucesso feminista. È claro que tão logo a palavra
‘sucesso’ é escrita, ela é questionada. Como isto pode ser avaliado? Qual seria o critério para julgar os
graus do sucesso feminista?

Sucesso feminino

Com certeza há alguma extravagância em minha reclamação do sucesso feminista. Podia ser mais
preciso demarcar o interesse entusiasta através da qualidade e da mídia popular (eles mesmos desejosos
de aumentar seu número de leitoras e de sua audiência feminina) nas idéias do sucesso feminino. Como os
valores feministas são tomados de uma variedade de instituições, incluindo o direito, educação, medicina,
assim como trabalho e mídia, o alto nível ou destaque alcançado das mulheres e jovens nestes setores
mostram que as instituições são modernas e estão ao lado da mudança social. Este é o contexto pelo qual o
feminismo é conhecido e é isso que quero dizer quando falo que o feminismo é levado em conta. O sucesso
feminista foi, até então, apenas descrito esporadicamente (em virtude das conquistas das jovens na
educação, ver ARNOT et al, 1999; e também HARRIS, 2003). Tanto eu quanto Brunsdon temos
considerado, dentro da mídia e dos estudos culturais, como que com o feminismo como parte integrante do
currículo (‘canonizado’) não seja surpreendente que ele seja contra-atacado, já que ele deve encarar as
conseqüências de suas próprias reclamações de representação e poder, e não ficar surpreendido quando
as jovens estudantes rejeitam o convite de se identificar como um ‘nós’ juntamente com suas professoras
feministas (BRUNSDON, 1997; McROBBIE, 1999a). Esta interface entre a academia feminista e o corpo
estudantil também vem sendo discutido nas revistas feministas americanas, particularmente no que diz
respeito ao declínio dos estudos de mulheres. De volta aos anos 90 (e seguindo Butler), eu vi este senso de
contestação por parte das jovens, no que eu chamaria de ‘distância do feminismo’, como um potencial, onde
um diálogo vivo sobre como o feminismo poderia se desenvolver tomaria forma (BUTLER, 1992;
McROBBIE, 1994). Na verdade, pareceu ser da natureza do feminismo alimentar esta não-identificação
como um tipo de condição para sua existência. Mas, ainda assim, parece que agora, mais de uma década
depois, este espaço de ‘distância do feminismo’ e essas expressões de não-identificação forçada com o
feminismo têm se consolidado como algo muito próximo do repúdio e não da ambivalência, e é essa postura
veementemente denunciatória que é manifestada no campo de debate popular de gênero. Este é o espaço
do pós-feminismo.
Neste contexto, requer-se tanto imaginação quanto esperança para argumentar que o repúdio
ostensivo, ativo e repetitivo ou a repressão ao ‘feminismo’ marcam também sua (ainda temida) presença e
longevidade (sobrevida). O que eu quero dizer com isso é que há diferentes tipos de repúdio e
investimentos em tal postura. As mais suaves denúncias de feminismo (como em O Diário de Bridget Jones)
co-existem, entretanto, com a estridente superação das jovens como uma ‘metáfora de mudança social’ nas
páginas da imprensa de direita no Reino Unido, particularmente no Daily Mail(3) . Esta aprovação anti-
feminista da individualização feminina é incorporada na figura da ambiciosa ‘loira da TV’ (McROBBIE,
1999a). Estas então chamadas garotas ‘A1’, são glamourosas e vencedoras, destinadas a chegar a Oxford
ou Cambridge e são geralmente imaginadas ostentando seus exames com notas máximas. Nós podemos
dizer que essas são as garotas ideais, sujeitos por excelência e também sujeitos de excelência. Essas não
são noções exclusivas de sucesso feminino nas representações de jovens do Ocidente rico. Como Spivak
argumentou, nas zonas mais empobrecidas do mundo, os governos e ONG’s também olham para as
mentes e corpos das jovens como para alguém para quem a educação é uma promessa de grandes
recompensas econômicas e demográficas (SPIVAK, 1999). As jovens são um bom investimento, elas
podem ser dignas de crédito, elas são sujeitos privilegiados da mudança social. Mas os termos desta
grande expectativa por parte dos governos é que as jovens devem vencer sem mais políticas feministas
autônomas. O que é compatível com isso é o deslocamento do feminismo como um movimento político. E é
esse deslocamento que é refletido na descrição penosa de Butler da sobrevida de Antígona. A sua
existência vaga e solitária sugere um tipo de efeito feminista fantasmagórico; ela tem que ser banida e
sepultada para que a ordem social possa ser novamente inteligível.

Feminismo não popular

A mídia se tornou a chave para definir os códigos de conduta sexual. É ela que lança julgamentos e
estabelece as regras em jogo. Em seus canais de comunicação, o feminismo é menosprezado. E por que o
feminismo é tão odiado? Por que as mulheres expressam ojeriza a uma simples menção de feminismo?
Parece que, para ser uma jovem hoje, é necessário este tipo de denúncia ritualística que sugere que o
desempoderamento do feminismo é uma estratégia que o inclui no passado e o marca como pertencente a
outra geração, logo, está ultrapassado. Seria muito simples traçar um padrão na mídia sobre a questão,
partindo do feminismo popular no início dos anos 90 (ou ‘prime time feminism’, a exemplo de L.A. Law), para
o seu lugar certo no meio daquela década (4’s Woman’s Hour, da Rádio BBC, e a Women’s Page no jornal
The Guardian), e então para um feminismo totalmente não popular (nosso século), como se isto mapeasse
o grande movimento de direita, como Stuart Hall certa vez colocou em um outro contexto (HALL, 1989). Nós
precisaríamos de um esquema conceitual mais desenvolvido para dar conta dessa simultânea feminização
da mídia popular com esta acumulação de respostas ambivalentes e temíveis. Nós teríamos que certamente
sinalizar os direitos adquiridos pelas mulheres no Ocidente, de todas as idades, como audiências,
consumidoras ativas da mídia e dos produtos que esta promove e que, com a educação, ganharam poder e
identidade de consumo, sendo legitimadas como um público-alvo. Nós teríamos que também estar aptos a
teorizar as conquistas femininas não como fruto do feminismo, mas do ‘individualismo feminino’, do sucesso
que parece agora ser baseado no incentivo para que as jovens se considerem livres para competir nas
instituições educacionais e no mercado de trabalho como sujeitos privilegiados de uma nova ‘meritocracia’.
É então a individualização feminina e a nova meritocracia às custas da política feminista o novo pacto do
novo partido para as jovens modernas?

Há vários lugares dentro da cultura popular onde este trabalho sutil de apagamento do feminismo se
torna visível (veja também BRUNSDON, 2005). O anúncio do Wonderbra, com a modelo Eva Herzigova
olhando para baixo, admirada com seu substancial volume nos seios devido ao efeito pirotécnico do
Wonderbra, foi exposta em outdoors, em meados dos anos 90, em locais estratégicos do Reino Unido. A
composição da imagem tinha um discurso de uma dimensão tão ‘sexista de anúncio’ que poderia ser
perdoada a suposição de uma certa familiaridade irônica tanto com os estudos culturais quanto com as
críticas feministas da publicidade (WILLIAMSON, 1987). Esta, de certa forma, levando o feminismo em
conta ao mostrá-lo como algo situado no passado ao provocativamente ‘representar o sexismo’ enquanto
simultaneamente brincava com os debates da teoria fílmica sobre as mulheres como objeto do olhar
(MULVEY, 1975) e até mesmo com o desejo feminino (DE LAURENTIS, 1988; COWARD, 1984). A figura
está em um preto e branco do tipo noir e se refere explicitamente, através de suas chamadas (como ‘Hello
Boys’ e ‘Or are you just pleased to see me?’) à Hollywood e às famosas frases da atriz Mae West. Aqui está
uma propaganda que retorna conhecidos aspectos dos estudos de mídia feministas, da teoria fílmica e
semiótica. Na verdade, quase oferece (sem disfarçar) àquele que a vê ou passa de carro por ela a teoria de
Laura Mulvey, na qual a mulher é o objeto do olhar, projetada como paisagem na forma de um outdoor.
Também nesta propaganda está a familiaridade do termo politicamente correto, a eficácia que reside na
garantia e no desencadeamento de reações tão efusivas contra um regime aparentemente tirânico de
puritanismo feminista. Todos, especialmente os jovens, podem respirar aliviados. Graças aos céus, o
anúncio parece sugerir, é permitido novamente olhar para o corpo das mulheres bonitas. Ao mesmo tempo,
o anúncio espera também incitar a condenação feminista como uma estratégia de gerar publicidade.
Conseqüentemente, as diferenças entre gerações são também produzidas e a jovem exposta ao anúncio,
juntamente com os jovens rapazes, educada na ironia e alfabetizada visualmente, não se enfurece com este
repertório. Ela aprecia os seus sentidos subentendidos; ela ‘entende a piada’.

Quando em uma propaganda para TV uma outra supermodelo, Claudia Schiffer (1998/9), tira as
suas roupas ao descer os degraus de uma escada de uma luxuosa mansão e se direciona para a porta de
seu Citroën, uma retórica similar está em jogo. Esta parece sugerir que, sim, isto é conscientemente uma
‘propaganda sexista’. As críticas feministas são convocadas. O feminismo é ‘levado em conta’, mas apenas
para mostrar que não é mais necessário. Por quê? Porque agora não parece mais haver exploração aqui,
não há nada remotamente ingênuo neste striptease. Ela parece estar fazendo aquilo porque quer e por sua
própria escolha. A propaganda trabalha com a premissa de que sua audiência sabe que Claudia é uma das
mais famosas e bem-pagas modelos do mundo. Mais uma vez uma sombra da desaprovação é evocada (o
striptease como um modo de exploração feminina), mas apenas instantaneamente, pois é logo dispensado
como pertencente ao passado, há um tempo onde as feministas costumavam se opor a esta imagem. Fazer
esse tipo de objeção hoje em dia seria correr o risco de ser ridículo. A objeção é pré-carregada de ironia.
Em cada um destes casos um espectro de feminismo é evocado para que então possa ser apagado. Para
os homens, a tradição é restaurada ou, como Beck coloca, é ‘uma certeza construída’, enquanto para as
jovens o que se propõe é um movimento além do feminismo, em direção a uma zona mais confortável, onde
as mulheres são então livres para fazer suas próprias escolhas (BECK, 1992).

Feminismo apagado?
Se prestarmos atenção em algumas das dinâmicas participativas de rotina e lazer das jovens,
vemos que elas endossam (ou que ao menos se recusam a condenar) a irônica normalização da
pornografia e mostram sua aprovação e desejo de ser garotas ‘pin up’ das páginas centrais das revistas
masculinas. Não é incomum ver as jovens com frases do tipo ‘Rainha Pornô’ ou ‘Pague pra Tocar’
estampadas em seus bustos e dançando alegremente em clubes de strip masculinos no Reino Unido (talvez
como uma prova de sofisticação e de ser ‘cool’). Somos testemunhas de uma hiper-cultura da sexualidade
comercial, cuja característica é o repúdio de um feminismo evocado apenas para ser sumariamente
dispensado (ver também GILL, 2003). Como uma marca de uma identidade pós-feminista, as jovens
jornalistas se recusam a condenar o enorme crescimento deste tipo de clube. Elas sabem dos debates e
das críticas feministas existentes através da educação (ou ao menos acredito nisto); como Shelley Budgeon
descreve em seu estudo sobre jovens, elas são cientes de gênero (BUDGEON, 2001). Conseqüentemente,
este novo sujeito feminino é, apesar de sua liberdade, chamado a permanecer em silêncio, conter as críticas
para que pareça uma mulher moderna sofisticada. Na verdade, esta contenção das críticas é uma condição
para sua liberdade. Há quietude e cumplicidade nas noções de ‘ser cool’ nas diferentes gerações e, mais
precisamente, uma relação não crítica com as representações sexuais dominantes produzidas
comercialmente que acabam por evocar ativamente hostilidade com posições feministas do passado ao
invés de endossar um novo regime de significações sexuais baseado no consentimento, na igualdade,
participação e prazer feminino, longe da política(4).

A individualização feminina

Ao citar o termo individualização feminina eu estou explicitamente fazendo uso do conceito discutido
exaustivamente por sociólogos como Giddens (1991), Beck e Beck-Gernsheim (2002), assim como de
Zygmunt Bauman (2000, 2001). Este trabalho é distinto de outras versões Foucaultianas encontradas em
Nikolas Rose (2000). Embora existam semelhanças entre estes autores - todos refletem sobre as
expectativas de indivíduos avidamente ‘auto-monitorados’ e que aparentam ter grande capacidade,
enquanto indivíduos, de planejar ‘suas próprias vidas’ – há também divergências. Beck e Giddens se
preocupam menos com a efetividade do poder sob o amigável disfarce de ‘consultor pessoal’ e dão ênfase
ao aumento de liberdade e de escolha, enquanto Rose vê estes modos de auto-governo como marcadores
das ‘formas de ser’ e, logo, como ‘modelos de uma forma de vida’ (ROSE, 2000). Bauman lamenta a
absoluta inviabilidade da individualização à medida que as fontes de socialidade (e bem-estar) são
dizimadas, levando o indivíduo a auto-punição quando o sucesso lhes escapa das mãos (É também
possível traçar uma linha política entre estes autores com Bauman e Rose à esquerda e Giddens e Beck
para além da esquerda e da direita)(5). A minha ênfase aqui é nos trabalhos de Giddens e Beck, uma vez
que parecem falar diretamente à geração pós-feminista. Nos seus textos há somente um eco distante (se é
que há) das lutas feministas que foram necessárias para a produção das liberdades descobertas pelas
jovens do Ocidente. Há um pequeno traço das batalhas enfrentadas, do poder de luta lançado ou das
duradouras disparidades que ainda hoje marcam as relações entre homens e mulheres. Tudo isto é o
esboço de uma existência que tem em sua base, como dizem, uma ‘política emancipatória’ no lugar de uma
vida política (ou, nos termos de Beck, uma sub-política de grupos de interesse único).
Ambos os autores fornecem uma visão sociológica da dinâmica de mudança social entendida como
‘modernização reflexiva’. O período anterior de modernização (primeira modernidade) criou um estado de
bem-estar e instituições tais como o sistema educacional, que permitiram que as pessoas na ‘segunda
modernidade’ se tornassem mais independentes e capazes, por exemplo, de ganhar sua própria vida. As
jovens, como resultado, estão agora sem vínculos com as comunidades onde os papéis de gênero estavam
estabelecidos. E, como as velhas estruturas de classes sociais desapareceram e perderam sua força no
contexto da ‘tardia’ ou ‘segunda modernidade’, os indivíduos são chamados a criar suas próprias estruturas.
Eles devem fazer isso interna e individualmente, então aquelas práticas de auto-monitoramento (o diário, o
plano de vida, a trajetória profissional) recolocam a confiança em seu devido caminho. Manuais de auto-
ajuda, consultores pessoais, guias de estilo de vida, gurus e todos os tipos de programas de TV auto-
incentivadores fornecem os significados culturais pelos quais a individualização opera como um processo
social. Enquanto a possante força da estrutura se apaga, a capacidade de agência, afirma-se, é
incrementada.
Os indivíduos devem agora escolher que tipo de vida querem levar. As meninas devem ter um plano
de vida. Elas devem tornar-se mais reflexivas a qualquer aspecto de suas vidas, desde tomar a decisão
certa sobre o casamento até tomar as rédeas de suas carreiras profissionais e não dependentes de um
trabalho a vida inteira ou da estabilidade e credibilidade de uma burocracia de larga escala, algo que no
passado teria dado aos seus empregados papéis específicos, e possivelmente, permanentes. Tanto Beck
quanto Giddens fornecem um diferente panorama sobre a modernização reflexiva e estes argumentos
aparentam ser diretamente compatíveis com os cenários e dilemas encarados pelas personagens femininas
das narrativas da cultura popular contemporânea (especialmente aquelas chamadas de ‘literatura de
mulherzinhas’). Há realmente, nestes textos, um distanciamento das profundas e perniciosas disparidades
de gênero (a maioria se manifesta através de mulheres mais velhas, dos mais diversos backgrounds, mas
também de jovens negras, asiáticas e trabalhadoras). Beck e Giddens quase não dão atenção às
dimensões reguladoras dos discursos populares de direito de escolha e auto-crescimento. A escolha é,
certamente, dentro do estilo de vida, um modo de coerção. O indivíduo é induzido a ser o tipo de sujeito
capaz de tomar as decisões certas. Isto significa que novas linhas e demarcações são desenhadas entre os
sujeitos que respondem ao regime de responsabilidade pessoal e aqueles que fracassam nesta tentativa.
Nem Giddens ou Beck constroem uma crítica substancial dessas relações de poder que funcionam de forma
tão eficaz que chega até no nível da personificação. Eles não têm o entendimento de que estes são terrenos
férteis para os novos domínios dos danos e injustiça.

Bridget Jones

O filme O Diário de Bridget Jones (um sucesso internacional) aborda tantos destes temas
sociológicos que quase poderia ter sido escrito pelo próprio Anthonny Giddens. Bridget é uma mulher de 30
anos solteira e infantil que trabalha e reside em Londres e gosta de se divertir em pubs, bares e
restaurantes. Ela é um produto da modernidade que se beneficiou das instituições que perderam seus laços
de tradição e comunidade para as mulheres, tornando possível elas se ‘desatrelarem’ e se realocarem na
cidade para ter uma vida independente sem vergonha ou perigo. Entretanto, isto também traz novas
ansiedades. Há o medo da solidão, por exemplo, o estigma de ficar solteira e os riscos e incertezas de não
encontrar o homem certo para ser o pai de seus filhos, como também seu marido. No filme, a primeira cena
mostra Bridget de pijamas preocupada de estar sozinha e no mercado. A trilha é ‘All by Myself’, de Jamie
O’Neal, e a platéia se diverte com ela neste momento de questionamento. Nós sabemos imediatamente que
ela está pensando em ‘E o que será se eu nunca encontrar o homem certo? Se eu nunca me casar?’
Bridget representa um espectro completo dos atributos associados ao sujeito auto-monitorado: ela faz
confidências aos seus amigos, mantém um diário, está sempre de olho no seu peso flutuante, anotando as
calorias do dia, planeja e tem projetos. Ela também é insegura em relação ao que o futuro lhe reserva.
Apesar das escolhas que tem, há sempre um número de riscos de que ela freqüentemente é lembrada; o
risco de que possa deixar o homem certo passar despercebido (por isso ela deve estar sempre procurando),
o risco de que não ter um homem até certa altura da vida significa que ela perderá a chance de ter filhos
(seu relógio biológico está batendo), e há também o risco de que, sem um par, ela estará isolada,
marginalizada do mundo dos casais felizes. Então haverá somente ela para se culpar se o homem certo não
for encontrado.
Com o peso da sua auto-gestão tão aparente, Bridget fantasia sobre formas tradicionais de
felicidade e gratificação. Depois de um rápido flerte com seu chefe (interpretado por Hugh Grant), ela se
imagina em um vestido branco, cercada por suas aias, ao que a platéia gargalha porque sabe, da mesma
forma que Bridget, que não é assim que as mulheres de hoje devem pensar. O feminismo interveio para
reprimir estes tipos de desejos convencionais. É, então, um alívio poder escapar desta política de censura e
desfrutar livremente daquilo que foi desaprovado. Portanto, o feminismo só é evocado para ser relegado ao
passado. Mas isso não é apenas uma volta ao passado; existem, é claro, diferenças dramáticas entre as
personagens femininas da cultura popular atual - de Bridget Jones até as ‘garotas’ de Sex and the City e
Ally McBeal - e aquelas encontradas nas revistas para as jovens e mulheres da era pré-feminista. A nova
mulher é confiante o suficiente para assumir suas ansiedades sobre um possível fracasso em encontrar um
marido, evita qualquer homem agressivo ou tradicional e aproveita descaradamente sua sexualidade sem
medo dentro dos padrões homem-mulher. Em suma, ela é mais que capaz de ganhar a sua vida e o
sofrimento ou vergonha pelo qual ela antevê em sua busca por um marido se contrapõe à sua auto-
confiança sexual. Não ter um marido não significa não ter um homem.
Com um tipo de entretenimento tão leve como este, tomado de ironia e dedicado a reinventar
grandes sucessos do gênero televisivo e cinematográfico para mulheres, qualquer argumento sobre o
repúdio ao feminismo pareceria demasiado pesado. Dificilmente isto é uma fanática tática anti-feminista.
Mas as relações de poder são feitas e refeitas através de textos prazerosos e de rituais de relaxamento e
abandono. Estes gêneros femininos são vitais para a construção de um novo ‘regime de gênero’ baseado
no duplo enredamento que eu já descrevi. Eles endossam completamente o que Rose chama ‘desta ética
de liberdade’ e as jovens chegaram à sua frente como sujeitos desta nova ética. Textos populares como o
de Bridget Jones normalizam as ansiedades de gênero pós-feministas para re-regular as jovens através do
discurso da escolha própria. Mas mesmo esta ‘bem-regulada liberdade’ pode sair pela culatra (a fonte d e
um efeito cômico) e isto, por sua vez, dá lugar a patologias bem marcadas (deixar para ter filhos muito
tarde, falhar na busca por um bom partido, etc) que cuidadosamente definem os parâmetros do que constitui
uma vida digna de ser vivida por estas jovens sem a emergência de um feminismo reinventado.

Notas
(1) N.T.: tradução para o português autorizada por Angela McRobbie.
(2) O Diário de Bridget Jones apareceu pela primeira vez como uma coluna semanal no jornal inglês
Independent, em 1996; sua autora, Helen Fielding, depois publicou seus diários em formato de livro. O filme
O Diário de Bridget Jones, dirigido por Shanon McGuire, estreou em 2001. Sua seqüência, Bridget Jones no
Limite da Razão, dirigido por Beeban Kidron, estreou em novembro de 2004.
(3) O Daily Mail tem o maior volume de leitoras de todos os jornais diários na Reino Unido. Suas mais
freqüentes estratégias para promover uma sensibilidade pós-feminista envolvem pagar feministas para que
reneguem suas posições e culpar o feminismo por todas as agruras das mulheres. Por exemplo, no dia 23
de agosto de 2003, um sábado, trouxe Fay Weldon em ‘Look what we’ve done’. O texto diz: ‘por muitos
anos as feministas fizeram campanha pela liberação sexual. Mas aqui uma de suas líderes admite que tudo
que elas criaram foi uma nova geração de mulheres para quem o sexo é totalmente entediante e vazio’,
pp.12-13.
(4) Sobre a normalização do pornô, ou ‘pornografia irônica’, eu estou me referindo ao popular senso comum
do que no passado era pornografia leve, fora do alcance dos jovens, colocada no alto das prateleiras da
banca. Em uma era pós-AIDS, com a franqueza sexual sendo um imperativo para a prevenção, a mídia
direcionada para os jovens no Reino Unido tem produzido uma quantidade enorme de material explícito
para a audiência adolescente; isto tem sido adotado, nos últimos anos, como uma estratégia para estar a
frente da concorrência e ser considerado ‘cool’. Com ironia e como uma marca registrada de saber sexual
vinculada ao ‘pro que der e vier’, eles não revelam nenhum medo ou criticismo devido à distância vinculada
pela experiência irônica.
(5) Anthony Giddens é o criador da política da Terceira Via que foi abarcada pela New Labour em sua
primeira concepção e foi esboçada em seu trabalho anterior “Para além da esquerda e da direita”
(GIDDENS, 1995, 1998). Como Ulrich Beck, tinha conexões com a Neue Mitte, na Alemanha, apesar da
‘Terceira Via’ alemã ter tido menos sucesso que a sua similar no Reino Unido.

Referências Bibliográficas

Arnot, M., David, M. and Weiner, G. (1999) Closing the Gender Gap, Cambridge: Polity Press.
Bauman, Z. (2000) Liquid Modernity, Cambridge: Polity Press. (Traduzido para o português
_________ (2001) The Individualised Society, Cambridge: Polity Press.
Beck, U. (1992) Risk Society, London: Sage.
Beck, U. and Beck-Gernsheim, E (2001) Individualisation, Cambridge: Polity Press.
Beck, U. Giddens. A. and Lash S. (1994) Reflexive Modernization, Cambridge: Polity Press.
Brown, W. (1997) ‘The impossibility of women’s studies’, Differences: A Journal of Feminist Cultural Studies
9:79-102.
Brunsdon, C. (1997) Screen Tastes: Soap Opera to Satellite Dishes, London: Routledge.
__________ (2005) ‘Feminism, post-feminism: Martha, Martha, and Nigella’, Cinema Journal 44 (2): 110-
116.
Budgeon, S. (2001) ‘Emergent feminst identities’, European Journal of Women’s Studies 8 (1): 7-28.
Butler, J. (1990) Gender Trouble, New York: Routledge.
_______ (1992) ‘Contingent Foundations: feminism and the question of postmodernism’, in J. Butler and J.
W. Scott (eds) Feminists Theorise the Political, New York: Routledge.
_______ (1993) Bodies that Matter, New York: Routledge.
_______ (2000) Antigone’s Claim: Kindship between Life and Death, New York: Columbia University Press.
Butler, J., Lacau, E. and Zizek, S. (2000) Contingency, Hegemony and Universality, London: Verso.
Coward, R. (1984) Female Desire, London: Paladin.
De Laurentis, T. (1988) Tecnologies of Gender: essays on Theory, Film and Fiction, Indianapolis: Indiana
University Press.
Faludi, S. (1992) Backlash: The Undeclared War against Women, London, Vintage.
Giddens, A. (1991) Modernity and Self Identity, Cambridge: Polity Press.
_________ (1995) Beyond Left and Right, Cambridge: Polity Press.
_________ (1998) The Third Way, Cambridge: Polity Press.
Gill, R. (2003) ‘From Sexual objectification to sexual subjectification: the resexualisation of women’s bodies
in the media’, Feminist Media Studies 3 (1):100-6.
Hall, S. (1989) The Hard Road to Renewal, London: Verso.
Haraway, D. (1991) Simians, Cyborgs and Women, London: Free Association Books.
Harris, A. (2003) Future Girl, New York and London: Routledge.
McRobbie, A. (1994) Postfeminism and Popular Culture, London: Routledge.
__________ (1999a) In the Culture Society, London: Routledge.
___________ (1999b) ‘Feminism v the TV Blondes’ inaugural lecture, Goldsmiths College, University of
London.
___________ (2003) ‘Mother and Fathers: Who need them? A review essay of Butler’s Antigone’, Feminist
Review 73, autumn: 129-36.
Mohanty, C. T. (1995) ‘Under Western Eyes’, in B. Ashcroft, G. Griffiths and H. Tiffin (eds) The Post-Colonial
Studies Reader, London: Routledge.
Mulvey, L. (1975) ‘Visual pleasure and narrative cinema’, Screen 16 (3):6-18.
Rose, N. (2000) Powers of Freedom, Cambridge: Cambridge University Press.
Spivak, G. (1999) A Critique of Postcolonial Reason, Cambridge, MA: Harvard University Press.
Stuart, A. (1990) ‘Feminism: dead or alive?’ in: J. Rutherford (ed) Identity, London: Lawrence & Wishart.
Trinh, T.M. (1989) Women Native Other, Bloomington: Indiana University Press.
Williamson, J. (1987) Decoding Advertisements, London: Marion Boyars.