Você está na página 1de 6

Exclusão e Pobreza: Dois conceitos em evolução¹

Adriano Rodrigues de Oliveira²

Introdução

A associação entre os conceitos de exclusão social e pobreza parece um

fenômeno inevitável quando se discute e se analisa o tema da desigualdade social e

da separação dos indivíduos e grupos na sociedade, seja na contemporaneidade ou nos últimos séculos. Neste sentido, cabe não apenas refletir em que medida a pobreza gera exclusão e em que medida a exclusão corrobora a condição de pobreza, mas também quais significados esses dois conceitos trazem consigo e qual sua trajetória no pensamento científico, ou seja, é necessário compreender o que se entende por pobreza e exclusão.

A reflexão e análise aqui proposta segue a perspectiva de que a direção das

políticas públicas é influenciada pelas ideias. Os conceitos que se tem a respeito

dos fenômenos sociais carregam visões de mundo que se traduzem em decisões e ações a respeito destes fenômenos, sendo essas decisões, em muitos casos, protagonistas da mudança da realidade social ou até mesmo da permanência do status quo. Assim, a visão do Estado e também do conjunto da sociedade a respeito da realidade social de um determinado grupo de indivíduos, poderá gerar ações que combatem, mantém ou aprofundam as condições de produção e reprodução da exclusão social e da pobreza.

Os dois conceitos aqui tratados passaram e ainda passam por aprimoramentos e diferentes perspectivas no pensamento científico. Essas perspectivas partem desde visões muito restritas dos fenômenos até abordagens multidisciplinares que consideram estes como multifacetados. Será desenvolvida a seguir uma descrição sintética dessa trajetória apresentando algumas das principais abordagens e em seguida serão apresentadas as conclusões finais.

A evolução do pensamento sobre pobreza

A questão social da pobreza já foi tratada pelo Estado e pela sociedade de diferentes formas, desde a simples criminalização que perdurou até a década de 70 até se direcionar para uma visão complexa do fenômeno. A trajetória do pensamento sobre a pobreza reflete importância das ideias no direcionamento das políticas públicas para se combater, manter ou aprofundar situações presentes na realidade social.

Pode-se afirmar que o pensamento científico sobre a pobreza, ao longo da história, deixou de ser tratado como uma vertente da caridade ou simples criminalização em direção a novas perspectivas, sendo essa linha do tempo dividida em: a da subsistência, a das necessidades básicas, a da pobreza como privação relativa, a da pobreza como privação de capacidades e perspectiva da multidimensionalidade.

A perspectiva da subsistência define as linhas da pobreza através das quantidades alimentares mínimas de nutrientes e energia que asseguram a vida de uma pessoa, medidas em quantidade de pão ou dinheiro. Essa abordagem tem, portanto, a concepção de pobreza relacionada apenas à sobrevivência física. A principal crítica sobre essa concepção é de que as necessidades humanas não são predominantemente físicas e que “as pessoas não são apenas organismos individuais que requerem a reposição de suas energias corporais, mas seres sociais, que desempenham papéis de trabalhadores, cidadãos” (CODES, 2008)

A perspectiva das necessidades básicas parte ainda da lógica da pobreza condicionada ao mercado de trabalho e ao pleno emprego, pois relaciona a pobreza à distribuição de recursos. Há um caráter econômico da pobreza, sendo medida através de variáveis como o PIB e a renda per capita, que serviriam como indicadores do nível geral de desenvolvimento da nação. Essa concepção avança no sentido de considerar além das necessidades de sobrevivência dos indivíduos também a necessidade de certos recursos mínimos como condicionantes do desenvolvimento econômico, como serviços sanitários, saúde, educação.

Passa-se então para a perspectiva da privação relativa, na qual as necessidades são condicionadas por uma realidade socioeconômica. Logo, a pobreza passa a ser estabelecida por comparação das realidades existentes dentro da sociedade, e passa a ser definida como a incapacidade de desempenhar os papéis como membros da sociedade. O enfrentamento da pobreza passa então pela defesa dos direitos de cidadania, como uma questão consequente das desigualdades sociais e não simplesmente condicionada pela baixa renda como nas abordagens anteriores.

A perspectiva da pobreza como a privação de capacidades desenvolve o conceito de justiça social argumentando que não é a posse de bens uma medida para o bem-estar e o desenvolvimento, mas sim a capacidade de obtê-los. Assim, a pobreza é interpretada como a privação de capacidade básicas do indivíduo se desenvolver. A questão econômica não é abandonada, mas aprimorada ao passo que a privação de renda pode levar a uma privação das capacidades mínimas do indivíduo.

Na atualidade, a pobreza é analisada através de uma noção de multidimensionalidade. Cada vez mais critérios foram associados ao tema e hoje ele é percebido como um fenômeno de natureza complexa. A linha que limita a pobreza não concerne só a renda, mas à fatores como acesso aos serviços públicos, direitos econômicos e sociais, participação política e acessibilidade.

O conceito de exclusão e suas reflexões

A globalização econômica trouxe para a realidade não somente um paradigma neoliberal de organização mundial do capital, mas também transformou e também introduziu novas formas de relações. As principais transformações encontram-se no mundo do trabalho, com o aprofundamento do desemprego em massa e da precarização das relações de trabalho.

Assim, grandes grupos de indivíduos sofrem as consequências dessas transformações, em um contexto caracterizado pela crise da sociedade salarial. Conforme aponta Mariangela Belfiore Wanderley,

Surge, então, um novo conceito de precariedade e pobreza, o de nova pobreza, para designar os desempregados de longa duração que vão sendo expulsos do mercado produtivo e os jovens que não conseguem nele entrar, impedidos do acesso ao “primeiro emprego”. Ou seja, são camadas da população consideradas aptas ao trabalho e adaptadas à sociedade moderna, porém, vítimas da conjuntura econômica e da crise de emprego. (WANDERLEY,

2008)

Sob a realidade do capitalismo ocidental e da vida urbana, as formas de exclusão se expandem na medida em que a não inclusão é concebida como um fenômeno cada vez mais multifacetado. A exclusão pode ainda se efetivar através de diferentes mecanismos, tal como a desqualificação, a desinserção e a desafiliação.

Para Pugnam, a desqualificação está relacionada ao fracasso de integração do indivíduo, que passa essencialmente pelo emprego, sendo necessária a ação do Estado para a regulação e restabelecimento do vínculo social. A desinserção, trabalhada por Leonetti, não possui relação necessária com a pobreza, mas sim uma dimensão simbólica da exclusão, que define determinados indivíduos como “fora da norma” e sem valor social. Robert Castel relaciona a desafiliação à ruptura de vínculo social, ou seja, considera-se tanto a insuficiência material quanto a ausência de inscrição do sujeito em estruturas sociais que tem sentido.

Para Wanderley, as formas de exclusão que se observa no mundo contemporâneo são distintas das formas de segregação e discriminação já vividas em tempos passados. Na atual organização econômica mundial, há a criação de grupos de indivíduos considerados sem valor ou utilidade para a esfera produtiva, o que consiste em fortes dificuldades de inserção.

A Psicologia Social também traz elementos de análise da exclusão, sob a ótica da relação entre indivíduos e grupos na sociedade. Busca compreender como essas relações geram mecanismos de distinção e apartamento, abordando conceitos como preconceito, estereótipo, discriminação e identidade social.

Segundo a definição de Denise Jodelet,

O preconceito é um julgamento positivo ou negativo, formulado sem exame prévio a propósito de uma pessoa ou de uma coisa e que, assim, compreende vieses e esferas específicas. Disposto na classe das atitudes, o preconceito comporta uma dimensão cognitiva,

especificada em seus conteúdos (asserções relativas ao alvo) e sua forma (estereotipia), uma

)

dimensão afetiva ligada às emoções e valores engajados na interação com o alvo ( (JODELET, 2008)

O preconceito é uma forma de separação e distanciamento entre os

indivíduos através de um ideia pré concebida do outro indivíduo ou grupo, forma

esta já perpetuada na sociedade há séculos. Há ainda uma relação direta entre o preconceito e a noção de estereótipo.

Os estereótipos podem ser concebidos como “representações do meio social

que permitam simplificar sua complexidade” (JODELET, 2008). São desenhos que atribuem características ao indivíduo de determinado grupo ou categoria social, muitas vezes de forma distorcida e simplificada. Essa simplificação é característica do pensamento denominado senso comum, e corrobora as condições e lógicas de segregação que produzem e reproduzem a exclusão.

Conclusões

Conforme destaca Wanderley, pobreza e exclusão são faces da mesma moeda no Brasil. A alta concentração de renda no país reforça a distância entre os incluídos e os excluídos, ao passo que o preconceito, ainda muito presente, é o espelho de nosso passado escravista.

Para um combate lúcido de tais distorções estruturais é necessário que os gestores de políticas públicas, a esfera política e a sociedade civil assumam uma perspectiva multidimensional da pobreza e da exclusão, e também uma lógica multidisciplinar das análises e ações.

As políticas públicas e as decisões governamentais, bem como a visão da

sociedade sobre tais questões, está em permanente interação com o campo das ideias. Adotar a perspectiva que melhor atende às necessidades dos indivíduos e à

inclusão contribui para o desenho de políticas que melhor se adequa à realidade humana.

Notas

¹Trabalho realizado para avaliação final da disciplina Sociedade e Estado do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP, em 2017.

²Aluno da graduação em Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP. Nº USP

8919002.

Referências Bibliográficas

As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social / Bader Sawaia (Org.). – 8. ed. --. Petrópolis, RJ : Vozes, 2008

CODES, A. L. M. A Trajetória do Pensamento Científico sobre Pobreza: Em direção a uma visão complexa. Brasília: IPEA, 2008.