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& 1 FCL — UNESP/Araraquara — Departamento de Literatura — Area de Literatura Brasileira Um panorama da poesia brasileira contemporanea Prof. Dr. ANTONIO DONIZETI PIRES, Preliminares Primeira gerago modernista (1922 — 1930): Fase de Destruicao: 1. Segunda gerac4o modernista (1930 — 1945): Fase de Consolidacao: I. a. a, Rejeigdo das normas estéticas consagradas por meio da irreveréncia, do humor, do sarcasmo, da parédia, do poema-piada, dos manifestos. Essa primeira fase, de demolig’o dos arraigados valores académicos, é antiparnasiana e antipassadista. Ou, conforme frisa Gilberto Mendonga Teles, em seu ensaio “O processo da moderna poesia brasileira”: “O modernismo surge entdio como um processo de ruptura com o passado préximo, acentuadamente parnasiano-simbolista. E, neste sentido, o grande restaurador do romantismo, mas um romantismo repensado, ampliado ¢ atualizado numa nova visdo estética [¢ critica] da cultura brasileira” (TELES, 1996, p.56). Ainda segundo o critico, isso explica “a ambigilidade fundamental do modernismo: 0 rompimento com o pasado, enquanto o passado significa fechamento cultural; mas é também transformagdo das forgas mais auténticas da cultura brasileira” (p.56) Influéncia das vanguardas europeias (Futurismo, Cubismo, Dadaismo, smo, Espirito-novismo, Surrealismo), deglutidas_ critica’ € jente; stética: prosa vanguardista, critica e carnavalizada: poesia marcada pelo uso de versos livres e brancos; recusa das formas fixas tradicionais; temas do cotidiano; coloquialismo: parédia, humor, ironia: Linguagem inventiva: rupturas sintatico-semanticas; palavras em liberdadi imaginagao sem fios; estilo eliptico ¢ alusivo; metéforas insdlitas; neologismo: simultaneismo/instantaneismo/polifonismo; montagens; colagens: Prevaléncia estética; busca da originalidade e da novidade; individualismo; Nacionalismo critico; valorizagao dos _primitivismos _ brasileiro: antropofigica (Oswald de Andrade). teoria Florescimento do romance regionalista nordestino, de tematica social (Neo- Realismo critico); Modernismo moderado, pois h4 o abandono do experimentalismo excessivo; Prevaléncia ético-ideolégica; tendéncia mais geral e universalista; ampliacdo temitica: Na poesia, énfase para o Neo-Simbolismo espiritualista da revista carioca Festa (1927), da qual fizeram parte Cecilia Meireles, Vinicius de Moraes, Tasso da Silveira e outros: Ha ainda o cultivo de uma poesia de tens&o ideolégica, conforme é patente nos livros Sentimento do mundo (1940) © A rosa do povo (1945), de Carlos Drummond de Andrade: Ainda no ambito da poesia, citam-se Jorge de Lima e Murilo Mendes, cujas obras apresentam insélita notagao surrealista: 7. Alguns langamentos de 1930: Alguma poesia (Carlos Drummond de Andrade): Libertinagem (Manuel Bandeita); Passaro cego (Augusto Frederico Schmidt): Poemas (Murilo Mendes); Remate de males (Mario de Andrade): 8. Segundo Joao Cabral de Melo Neto, em “Critica literdria” (1952), “No caso da literatura brasileira, se € verdade que prevalecem as reformas radicais, elas tm acontecido mais no ambito de movimentos literdrios do que de geragdes literdrias. [...] Uma gerag&o pode continuar a outra” (MELO NETO, 1998, p. 73). De acordo com o poeta pernambucano, foi o que se deu em relacdio & geragiio de 30, quando contraposta 4 de 22: “Os poetas de 1930 encontraram 0 terreno mais ou menos limpo [...] Deixando de lado os tiques e vicios do estilo quase polémico nascido dos combates da Semana de Arte Moderna, mas aproveitando os direitos que aquela revolta tinha posto em suas maos, tais poetas puderam entregar-se livremente a escrever sua poesia” (p. 75). IL — Poesia brasileira contemporanea (1945 —...)" Primeiro momento: 1945 ~ 1964: 1. Na poesia, alguns acontecimentos merecem mengao: funda-se em Sao Paulo, em maio de 1948, 0 Clube de Poesia de Sao Paulo (modelo para outros Clubes de Poesia, como o de Brasilia, Fortaleza, Sto José dos Campos...), que promove, ainda em 1948, juntamente com a Revista brasileira de poesia (surgida em 1947), 0 Primeiro Congreso Paulista de Poesia, aberto por Antonio Candido. Dentre outros, participaram André Carneiro e Domingos Carvalho da Silva, o autor da expresso “Geragdo de 45”: “A poesia da hora que passa nao é uma heranga legada pelo passado ou presente, é uma conquista da nova geragao. Estamos diante de uma nova poesia, profundamente, radicalmente diversa da que prevaleceu até poucos anos atras. O Modernismo foi ultrapassado” (SILVA apud CARNEIRO, 1995, p. 157). O Clube de Poesia, conforme Milton de Godoy Campos, “tem sido um dos organismos representantes da Geragaio de 45” (CAMPOS, 1966, s/p.), promovendo cursos e conferéncias e editando publicagdes como os Cadernos do Clube de Poesia (Colegio Novissimos) ou a Antologia poética da Geragdo de 45, organizada por Milton de Godoy Campos em 1966. O grupo, que reunia poetas de outros estados, se autodenominou “Geragio de 45” ¢ congregava os poetas Péricles Eugénio da Silva Ramos, Lédo Ivo, Geir Campos, Domingos Carvalho da Silva, Bueno de Rivera, Alphonsus de Guimaraens Filho, Cyro Pimentel, Max Martins e muitos outros. A “Geragao de 45”, grosso modo, renega as conquistas da Geragio de 22 e procura dar uma diccio mais nobre ¢ mais classica A poesia, ao mesmo tempo em que se preocupa com os temas metafisicos, a métrica, a rima, as formas fixas, 0 vocabuldrio seleto, a fuga a0 prosaismo, a definigo aprioristica de temas posticos (vide BOSI, Alfredo. Histéria concisa da literatura brasileira, p. 464/8). Mas os poetas desta “geragio” também se valeram de conquistas formais modernistas, como o verso livre e 0 poema em prosa, Milton de Godoy Campos, em “A geragdo de 45 e © Pamasianismo” (1995), procura desfazer a relagdo negativa de sua geragao com o Parnasianismo, afirmando que “um dos ideais de 45 é restabelecer 0 apuro formal e vernacular; a mundividéneia que preside seus poemas ¢ a dicgdo que a expressa representam, inclusive, 0 nosso tempo. A angiistia existencial, 0 choque de pensamentos contraditérios, as ameagas de v destruigaio, os problemas de linguagem, as dentincias das mazelas sociais outros problemas do homem de nossos dias esto gravados na produgio dos poetas de 45, demonstrando que seu Wellanschauung [visio de mundo; cosmovisdo] é o da segunda metade do século 20 ¢ nao o do final do século 19 dos poetas do Parnaso” (CAMPOS, 1995, p. 162). Dentre as influéncias estrangeiras da Geracdo de 45, citam-se T. S. Eliot, Fernando Pessoa, Paul Valéry ¢ R. M. Rilke; . Joao Cabral de Melo Neto, em “Critica literaria”, numa série de quatro artigos sobre a “Geragao de 45” (1952), afirma: “O fato de constituirem uma geragao de extenséo de conquistas, muito mais do que uma geragao de invengao de caminhos, é 0 que melhor me parece definir os poetas de 1945” (MELO NETO, 1998, p. 74). Assim 0 critico-poeta nega que os representantes de 45 tenham criado “uma nova diregdo estética para a literatura brasileira” (p. 72), ou que estes sejam portadores “de um espirito de renovagao radical, silencioso mas evidente por si mesmo” (p. 74), pois “as possibilidades do terreno aberto pelo modernismo longe esto de esgotadas” (p. 73). Portanto, “os poetas de 1945 encontraram ja uma determinada poesia brasileira, em pleno funcionamento, com a qual era impossivel nao contar” (p. 76-77). Ainda conforme Melo Neto, “uma renovagao & possivel” (p. 78), no sentido de “luta pela libertagao” (p. 79) das conquistas formais, tematicas e estéticas das geragées anteriores': . Joao Cabral de Melo Neto participou das varias antologias citadas, e talvez seja por este motivo que os manuais o inserem, talvez gratuitamente, entre os representantes da “Geragao de 45”, fato este que foi (re)negado pelo proprio poeta. Chama a atengao, inclusive, o nimero de poetas considerados por Godoy Campos como partidarios da “Geragao de 45”: Ferreira Gullar, Augusto ¢ Haroldo de Campos, José Paulo Paes, Hilda Hilst. Estes, como 0 proprio Jotio Cabral, trilharam caminhos prdprios ¢ deram contribuigdes personalissimas & poesia brasileira contemporanea: . Outras revistas: Orfeu (Rio de Janeiro; 1948/53) — “de grande importancia para a hova corrente”, segundo Milton de Godoy Campos (CAMPOS, 1966, p. 12) — e Jouguim (Curitiba: jas: em 1951, no Rio de Janeiro, & publicado 0 Panorama da nova eira, por Fernando Ferreira de Loanda (do grupo Orfeu). © mesmo autor langa, em 1963, a Antologia da nova poesia brasileira, que congrega poemas dos principais representantes da “Geragdo de 45”: Mauro Mota, Bueno de Rivera, Domingos Carvalho da Silva, Péricles Eugénio da Silva Ramos, Alphonsus de Guimaraens Filho, Joao Cabral de Melo Neto, Paulo Mendes Campos, Marcos Konder Reis, Darcy Damasceno, José Paulo Moreira da Fonseca, Lédo Ivo, Geir Campos, Fernando Ferreira de Loanda, Afonso Félix de Sousa, Thiago de Mello, Ferreira Gullar e Octavio Mora; Pessoalmente, considero positiva a “extensio de conquistas” (formais tematicas) da chamada “Geragdo de 45”, pois isto vai repercutir, por exemplo, na recuperagao personalissima do soneto (Drummond, Jorge de Lima, Murilo Mendes...) ¢ na claboragao de temas mais universais (0 Drummond de Claro enigma, 1951, e Fazendeiro do ar, 1954); Décio Pignatari, no artigo “A situago atual da poesia no Brasil” (1971), afirma: ‘Creio poder situar com razoavel clareza a poesia atual, considerando-a atual a partir do apés-guerra ou mesmo um pouco antes, quando comecam a manifestar-