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= «Simulacros e Simu- lagio», escrito em 1981, ‘mantém-se como um dos ‘mais inovadores livros de Jean Baudrillard, socié- logo e fildsofo francés de reputagio intemacional. Nesta sua obra, através de exemplos dos novos cenizos de espectaculos, hipermercados, acidentes rucleares e novas tecno- logins, Baudrillard aborda a questdo dos simmulacros e da simulagio. Esta no setiajé a de um teritério, Ge um ser referencial, ou de uma substincia, mas a geracho, através de mode- Jos, de um real sem origem nem realidade. SIMULACROS E SIMULAGAO ANTROPOS SIMULACROQS E SIMULAGAO jean Daudrillard RELOGIO D'AGUA Scan by JH. “Livem-se das vhs eategoris do negativo (aime, a: esatsrse, set, soeana que por tants tempo o pensamento cedentalconaderou sogredse, como fon de Poder emoea se seen reasnde, Praiom 0 a €porivo hilt, adierengsbuntormicade, as funos As uncses, 0: {geneamentos movels os sistemas” Bb — as Spo Rabe, 15 © Bins Cae, 3981 Tir Siac eSimuago Tino rg Siac simulation Avo fem Burland ‘Trlr Mai Js da Conta Pres Cap: Femando Mateos logo Aga. 1991 veg gtr Fine Nees La, Sant Mara a ei Depa egal n® 75/9 JEAN BAUDRILLARD SIMULACROS E SIMULACAO ANTROPOS indice ‘A precessio dos simvlacros enna 7 ‘A historia: um centio tO. 59 Hot2caU30 en za 7 (China Syndror - oom oT Apocalypse Now: = ” ‘Octet Beaubourg. implosi edesuasio.. vse: BI Fipermercado e hipermereadotia 7 ‘A iemplosao do sentido nos medi 103 ublicidade absoluta,publiidade zero 13 Clone story. - covnunninnnn 1B Holograms i 133 Crash # : 139 sSimulagao ¢ficgo cientifca ~ 151 Os animals, teritério € metamorfoae 8 O resto vn sien ~ 1% O endiver em expt neon - 188 0 hime tango do var wr Sobre o nile ae 195 A precessao dos simulacros (0 sinudaoro munce € 0 que cute @ verdade ba verdade que ota qu ato ete ( silaer é tradi O Feusisres Se outrora pudemos tomar pela mais bela alegoria da simelagso a fabula de Borges em que es cartégrafos do Império desenham um mapa tio detalhado que acaba por cobrir exactamente o territrio (mas © declinio do Império ‘assiste a lento esfarrapar deste mapa e sua ruina, podendo ainda localizar-se alguns fragmentos nos desertos — beleza ‘metafisien desta abstraccio arruinada, testemunha de win ‘orgulio & medida do Império ¢ apodrecendo como uma ‘carcaga, reressando & substincia do solo, de certo modo ‘como'0 duplo acaba por confundir-se com o real a0 enve- Thecer) — esta tabula esté terminada para n6s e tem apenas fo discreto encanto dos simulaeros da segunda categoria®. "J ring, cage smb ot a mor, sone des si tac Pais Galan 1975. 4 Simul eSimulagio Hoje @ abstracgio jé nio € a do mapa, do duplo, do cexpelho ou do conceit. A simula ja ndo €a simulagao de tm territrio, de um ser referencial, de uma substincia. Ba sgeracio pelos modelos de um real sem origem nem realidad: Fiper-eal O terntori fn precede o mapa, nem Ihe sobre- vive. Eagora 0 mapa gue precede o terrtério — precessio {dos simulacros —é ele que engendea 0 teritrio cujos frag, ‘mentos apodrecem lentamente sobre a extensto'do mapa. & real, eno. mapa, cujos vestigios subsistem aqui eal, nos desertes que nao s80 08 do Império, mas o nosso. Odeserto 0 prépro re. De fact, mesmo invertda, a fabula @inutilizavel. Talvez suibsista apenas a alegoria do Império.Pois ¢ com o mesmo Imperilismo que os simuladores actuaistentam fazer coinc dio teal, todo o real, com os seus modelos de simulagio. ‘Masi ndose trata de mapa nem de eritéro. Algo desapare- eure diferenga soberana de um para 0 outro, que constitula Dencanto da abstracgdo, Pols é na diferenca que consiste a poesia clo mapa e oencantodoterstorio, a magia do conceito Co encanto do real. Este imaginsrio da representagao, que culmina e 20 mesino tempo se afunda no project louco dos Cartgrafos, de uma coextensividade ideal do mapa edo ter ‘tra desaparece na simulgio — cj operational: © senéticae f ndo expecclar ecliscursiva. E toda a metafisica {fue desaparec. Ja-n30 existe 0 espelho do sere das apart las, do real da seu conceit. Jé nao existe coextensividade imaginaria: a miniaturizagio genética que & dimensio da ‘simulagio, O real éproduzide a partir de c&hules minaturiza~ das, de matrizes edememérias de modelos de comando —e pocieserreproduzido um nimeroindefinidode vezesa partir, fai, J nto tem de see racional, pois f nfo se compara com. neninuma instancia, ideal ow negativa, E apenas operacional. Navverdade, no 6 rea, poisja ndoesté envolio em nenkum imagindrio. E um hiper-real, produto de sintese iradiando modelos combinatérios num hiperespaco sem almesfera ean Baudrillard ° [Nesta passagem a um espaco cuja curvatura ji no éa do real, nem a da verdade, a era da simulagto inicia-se, pois, ‘com uma liquidacio de todes os referenciais — pion. com a sua ressurreigio artificial nos sistemas de signos, material ‘mais duetil que 0 sentido, na medida em que se oferece a todos of sistemas de equivaléncia, a todas a5 oposicdes bindrias, a toda a algebra combinatéria, Jé nfo se trata de imitagio, nem de dobragem, nem mesmo de parédia,Trata “se de uma substituicBo no real dos signos do real, isto €, de Juma operagio de dissuasao de todo o processo real pelo seu duplo operatério, méquina sinaltica metaestavel, progra- ‘matica, impecivel, que oferece todos os signos cio real eIhes| curto-ireuita todas as peripécias. O real nunca mais teré| ‘oportunidade de se produzir — tal 6a funcao vital do modelo ‘am sistema de morte, ow antes de ressurreicio antecipada {que no deixa|é qualquer hipdtese ao proprio acontecimento a morte. Tiper-teal, doravante ao abnigo do imaginario, no deixando lugar senao A recorréncia orbital des modelos €€8 geragio simulada das diferencas. A inreferéncia divina das imagens Dissimular éfingir nao ter o que se tem. Simular 6 fingi tero que nio se fem. O primeiro refere-se a uma presenca, 0 segundo a uma auséncia, Mas émais complicado, pois simular rio é fingi: «Aquele que finge uma doenca pode simpies- mente meter-se na cama e fazer crer que esta doente. Aquele {que simula uma doenca determina em si proprio alguns dos respectivos sintomas> (Litt) Logo fingit, ou dissimular, deixam intacto o principio da realidade: a diferenca continua fa ser clara esté apenas disfarcada,enquanto que a simulacao ‘poe em causa a diferenca do «verdadeiro» e do «falso», do 0 Sinulacros e Simulate areal» edo simaginério»,O simulador esté ou nao doente, se produz «werdadeiros» sintomas? Objectivamente nao se pode traté-lonem como doente nem como nac-deente. A psicologia ea medicina detém-se af perante uma verdade da doenca que jf nio pode ser encontrada, Pois se qualquer sintoma pode ser «produzido» e jé nao pade ser aceite como um facto da natureza, entao toda a doenca pode ser considerada simuldvel e simulada e a medicina perde o seu sentido, uma vyex que s6 sabe tratar doencas «verdadeiras» pelas suas causas objectivas. ‘A psicossomtica evolui de maneira incerta nos confins do principio da doenca. Quanto & psicandlise, ela devolve 0 sintoma do dominio orgénico ao dominio inconsciente: este de novo suposto ser «verdadeiror, mais verdadeiro que o ‘outro — mas por que & que a simulagto se deiém as portas, do inconsciente? Por que é que o «trabalho» do inconsciente ino hé-de poder ser =produzido» do mesmo modo que ‘qualquer sintoma da medicina clissica? Os sonhos ja 0 $30. Claro que 0 médico alienista faz crer que «para cada forma de alienagio mental existe uma ordem particular na sucessio dos sintomas que o sirmulador ignora ecuja auséncia rao poderia enganar 0 médico alienista». Isto (que data de 1865) para salvar a todo 0 custo o principio de uma verdade dir a interrogagio que a simulagao coloca — ou seja, que averdade, a referencia, a causa objectiva deixaram de existir. (Ora que pode fazer a medicina com © que paira aquém e além da doenca, aquéme além da sate, com a reiteracio da ddoenca num discurso que nao & nem verdadeiro nem falso? ‘Que pode fazer o psicanalsta coma reiteracio do inconsciente num discurso de simulagéo que nunca mais pode ser desmascarado, jé que também nao é falso®? 2. E quanto 6 suscptiva de reslusao na tansparéncia fo encedar| testes dois ncurses que toma a peandie Interminave. Jean Baudrilart nm Que pode fazer 0 exército com os simuladores? Tradi- cionalmente desmascara-os e pune-os, segundo um principio Claro de localizagSo. Hoje 0 exército pode dar como incapaz para o servico militar um bom simulador como sendo exac- famente equivalente a um homossexval, a um cardiaco ot um louco «verdadeiros». Até mesmo 2 psicologia militar recua diante das clarezas cartesianas ¢ hesita em fazer a istingio do falso e do verdadeiro, do sintoma sproduzido» fe do sintoma auténtico, «Se ele imita tio bem um louco € porque o é.» Endo deixa de ter razdor neste sentido todos os Toucos simulam e esta indistingio &a pior das subversbes. & contra ela que a razio cléssica se armou com todas as suas categories. Mas é ela hoje em dia que de novo as ultrapassa ce submerge o principio de verdade. Para além da medicina e do exército,terrenos de eleigio da simulagio, a questio prende-se com a religido e com 0 simulacro da divindade: «Eu proibi a existéncia nos templos de qualquer simulacro porque a divindade que anima a natureza nfo pode ser representada.» Na verdade pode sé “To, Mas em que é que se torna quando se divulga em icones, ‘quando se desmultiplica em simulacros? Continua a ser a {nstancia suprema que simplesmente se encarna nas imagens, numa teologia visivel? Ou sera que se volatiliza nos simulacros que, $6 eles, ostentam o seu fausto e poder de fascinagto — com o aparato visivel dos fcones substituindo: se a Ideia pura e inteligivel de Deus? Era disso justamente que tinham reccio os iconoclastas, cuja querela milenéria é ainda hoje a nossa®. E precisamente porque estes apresen- tavam esta omnipottncia dos simulacros, esta faculdade que témde apagar Deus da consciéncia dos homens e esta verdade {que deixam entrever, destruidora, aniquiladora, de que no fundo Deus nunca exist, que nunca existiu nada sento 0 3. GEM, Persil, ln, Visions, Sima, pig 99. 2 ‘Simulacros Simulagio simulacro € mesmo que © proprio Deus nunca foi sendo 0 seu proprio simulacro— dal vinka a sua raiva em destruit a3 imagens. Se eles tivessem podido acreditar que estas apenas ‘ocultavam ou disfargavam a Ideia de Deus segundo Platao, ‘do haveria motivo para as destruir. Pode viver-se com a ideia de uma verdade alterada. Mas 0 seu desespero meta- lisico provinha da ideia de que as imagens nao escondiam absolutamente nada e de que, em sums, ndo exam imagens ‘mas de lacto simulacros perfeitos, para sempre radiantes no seu fascinio proprio. Ora ¢ preciso conjutar a todo 0 custo esta morte do referencial divino. ‘Vernos assim que os iconoclastas, acusados de desprezar © negar as imagens, eram os que hes davam 0 seu justo valor, ao contrétio dos iconolatras, que nelas apenas viam reflexos se contentavam em venerar Deus em filigrana ‘Mas podemos dizer, contrariamente, que os conolatras foram ‘ espiritos mais modemos, mais aventureiros, uma vee que, sob a luz de uma transparigio de Deus no espelho das imagens, representavam jf a sua morte ¢ a sua desaparigio xa epifania das suas representagies (das quais talvez sou- bbessem que ji no representavam nada, que eram um jogo puro, mas que era esse precisamente o grande jogo—sabendo fambém que € perigoso desmascaras as imagens, é que elas issimulam que nao ha nada por detris delas. Assim far8o. 6s Jesuitas, que fundardo a sua politica sobre a desaparigio virtual de Deus ¢ a manipulacio mundana e espectacular ddas consciéncias — desvanecimento de Deus na epifania do poder — fim da transcendéncia que j4 no serve sendo de alibi a uma estratégia completamente livre das influéncias © dos signos. Por tras do barroco das imagens esconde-se a eminéncia parda da polttica Assim a questdo terd sempre sido 0 poder assassino das imagens, assassinas do rea, assassinas do seu proprio modclo, ‘come os icones de Bizancio o podiam ser da identidade divina. A este poder assassino opde-se o das representacoes Joan Bausriland 8 como poder dialéctico, mediagao visiveleinteligivel do Rea ‘Toda a féea bos féocidental se empenharam nesta aposta da ‘epresentagdo: que um signo possa remeter para a profun- didade do sentido, que um signo possa tracarse por sentido fe que alguma coisa sirva de caucio a esta troca — Deus, ‘certamente, Mas ese o préprio Deus pode ser simulado, isto 6,redzir-. O poder Mutua Como a moeda, como a linguagem, como a torias A critica cra negatividade sio as unieas que segregam ainda um fantasma de realidade do poder. Sose esgotarem por uma ot sta raz80, 0 poder nao terd otra soso Sendo ress las atificiamente,alucin-las. 6 Simulacros e Simulagso FE deste modo que as execugbes eapanholas server ainda de estilo a uma democracia liberal ociental,a um sistema de valores democrético agonizente. Sang fresco, as POF , Critic, mado anaitico — distingao da causa e do efeito, do activo e do passiva, do sujeito © do cbxcto, do fim e dos tneion-E sobre este moro que pode cierse a elevisso oa “hos, televisho manipula-nosatelevso informa-nos...Em {do st fcase tibutirio da concep analitica don me, a concepeio ce um agente exterior aco efca2, a concepctO deuma informacio eperspectivas tendo como ponto de Fuga oo horizante do real e do sentido, ‘Orn hi que eonceber a televinio segundo o modo ADN, como un efeto onde se desvanecen os polos adverses Sha determinagio, segundo uma contacg8o, uma retracgho ruclear do velho esquema polar que anttta sempre uma Clstinea minima enire una causa € in efit, entre aim sujeto.e um abjecto-precisamente a dstancia do sentido, 0 Gesvio, a diferenga, © menor desvio possvel (MDP! ire- ditivel, sob pena de renbsorcao num processo aleatério e {ndeterminado edo qual o discurso nem sequer pode dar Conta, i que € ele proprio uma categoria determinada ‘Simulacres ¢ Simagao E este desvio que se dilui no processo do céidigo gené- tio, ondea indeterminacio nfo ¢tantoa do acaso dan tll culas como a do aboligao pura e simples da waa), No processo de comando molecular, ue «vain do micleo ADN A ssubsancia» que ele «informa ndo hé eneaminhamento de umefeto, de uma energia, de ma determinagio, de une ‘mensagem. cOrdem sina impo, mensagem: tado iste tenta dar-nos a coisa ineligivel mas por analog, etrans Grover em termes de srg, de vcore desc ‘Ho, uma dimensio da qual nada sabemos-—jé nem sequer una sdimenstor ou talver seja essa'a quarta dimenseo ta qual se define, de eo om ravi einstein, pela absorcio dos pélos distintos do espaco ¢ do tempo) De facto, todo este processo no pade ser entendde por 1nés sendo sob forma negative jf iada separa um polo a ‘tro, oimicial do terminal, hi uma especie de esmagamente eum se o eu, deeahament fants e fa amento de um no outro des dois polos tradcionais:implo- ‘Sir sbsorglo do modo radiate da cawatigade, do toto referencial da determina, com a sua electeidade post tiva e nogativa —implosio do sentido Ea! que a simulagto i nada circa de todo. Quanto mais os enterramos em ditecgio ao inte Figs, menos cicula. Bo oposto de Roissy, onde de um cent fatrista com disign espacial» iradiando para cataitss, ete. se chogn, muito terenamente a.. aviees tradicionas, Mas a incoeréncia mesma. (Que se passa como dinhiro, ‘esse ont aida, quese passa como sew moo de ertlacto, de emulsto, de rtaida em Beaubourg?) ‘Amesma contracigio se verifie ate nos comportamentos «do pessoal destinado ao expago epelvalentene sem espace privado de trabalho. De pe e em movimento, as pessoas Scam wm comportamento cml, nas sb, sito design, daptado a cestruturas de ui eapago «moderna». Sentados no sew canto, que nem sequer € verdadeiramente fo, um Canto, apotenese egreganclo uma solid artificial, a efazer Stsua cbolha. Bela actica de ditsuasao af também’ sto com enados a empreger toda a sa energia nesta defensiva ind vidual, Coriesmente, vollamos a encontrar assim, a mesina “Em inglés mo orignal (N. dT) ea Baaritart 8 contradigio que ¢ da coisa Beaubourg: um exterior mével, omitante coo! e moxierno— um inteioscrspado sobre 08 velhos valores. i. ste espaco de dissuasio,articulado sobre aideologia de visiildade, ce tensparénea, de polivalenci, de consenso € de contacto, ¢virtualmente hoje em dia o cas relacbes sons Todo o discurso social est af presente e neste plano, coano no do tratamento da cultura, Beaubourg 6 em total contra dich com om seus bjetiyosexpictos tim momimento genial da nossa mnodernidade, Edom pensar que ideia nav veio co espirity de im qualquer revolucionario mas sim a0. dos logicas da orem estabelecida, desttaidos ce qualquer esp rio cic e, logo, mais proximos da verdade, capzes, na fa obstinagio, de pGr em Funcionamento uma maquina no fondo incontolave, que Thes escapa no seu proprio Exo, © que @ 0 relexo mais exaeto, até mas sas contradigdes, do Gstado de coisas acta Claro que todos os contetidos culturais de Beaubourg, so anacrOnicos porque a este involucro arquitecténico $6 poderia ter correspondido © vazio interior. A impressso eral & de que tudo aqui esti em coma profundo, que tudo. Se quer animacio e no é mais que reanimagao e que esté bem assim, pois a cultura morreu, o que Beaubourg des- creve aclmiravelmente, mas de maneira vergonhosa, quando se deveria ter aceite triunfalmente esta morte ¢ ter erigico um monumento ou um antimonumento equivalente A inanidade félica da Torre Fiffel no seu tempo. Monumento & desconexao total, & hiper-realidade e a implosdo da cultura = feita hoje em dia para nbs como um efeito de circuitos transistorizados, sempre espreitados por um curto-cincuito igantesco. Beaubourg é jé uma compressto & César — figura de ‘uma tal cultura que ¢ esmagada pelo seu. proprio peso — como os méveis automoveis congelados de repente dentro “ Sinulncrs e Simudagao de um sélido geométrico. Tal como as carripanas de César saidas sem beliscadura de um acidente ideal, jé nao exterior, mas interno a estrutura metilca e mecaniea e que teria feito ‘uma grande quantidade de ferro-velho cibico em que 0 caos Ge tubos, alavancas, carrogaria, metal e carne humana n0 interior 6 talhado a medida geométrica do mais pequeno ‘espaco possivel — assim a cultura de Beaubourg esta fractu- rada, torcida, cortada e prensada nos seus mais pequenos elementos simples — feixe de transmissdes ¢ metabolismo defunto, congelado como um mecandide de ficeao cientifica. Mas em vez de partir e de comprimir aqui toda a cultura nesta careaga que de todas as maneiras tem oar de uma com- presio, em ver disso expae-se César. Expie-se Dubuftet ea contracultura, cuja simulagdo inversa serve le referencial & cultura defunta. Nesta eareaga que poderia ter servide de mausoléu a operacionalidade intl dos signos, reexpiem-se as maquinas efémeras e autodestruidoras de Tinguely sob 0 Signo da cternidade da cultura. Assim se neutraliza todo 0 conjanto; Tinguely é embalsamado na instituigao do museu, Beaubourg € abatido sobre os seus pretensos contedidos antisticos Felizmente todo este simulacro de valores culturais & aniquilado com antecedéncia pela arquitectura exterior". ue esta, com as suas redes de tubas e o seu ar de edificio de exposighes ou de feira universal, com a sua fragilidade (cal- culada?) dissuasiva de toda a mentalidade ou monumentali- dade tradicional, proclama abertamente que o nosso tempo nunca mais serd 0 da duragio, que a nossa temporalidade é a do cielo acelerado e da reciclagem, do circuito edo transito dos fluides. A nossa tiniea cultura no fundo é a dos hidrocar~ 1. Anda outra coisa aniqulla projecto cultural de Beaubourg: as pip mann gut aien pro pst latent pnto as Joan Bauder 5 bonetos, da refinacao, do eracking* da particho de moléculas clturais © da sua recombinagio em produtos de sintese. Isto, Beaubourg-Museu quer escondé-lo mas Beaubourg scareaca proclama-o. E € 0 que constiti profandemente a beleza da carcaga & 0 fracasso dos espacos interiores. De todas as manciras, a prépria ideologia da «produgto cultu- ral» & a antitese ce toda a cultura, como a de visibilidade e de espaco polivalente: a cultura é um lugar de segredo, de sedugao, de iniciacio, de uma troca simboliea restritae alta- ‘mente ritualizada, Nada a fazer. Tanto pior para as massas, tanto pior para Beaubourg. Mas que haveria, pois, que pdr em Beaubourg? Nada. O vazio que significasse o desaparecimento de toda a cultura do sentido e do sentimento estético, Mas isto ainda demasiado rumantico e dilacerante, esse vazio teria ainda 0 valor de uma obra de arte de anticuleura, Talvez. um rodopio de hizes estroboscpicas e giroscd- picas, estriando espago do qual a multidso teria fornecido elemento movel de base? De facto Beaubourg ilustra bem 0 facto de que uma cate- goria de simulacros no se sustenta seno com o alibi da categoria anterior. Aqui, uma carcaga toda de fluxos e cone- x0es de superficie da si propria como contetido uma cultura tradicional da profundidade. Uma categoria de simulacros anteriores (a do sentido) fornece a substincia vazia de uma categoria ulterior que, ess, jd nem conhece a distingao entre © significante e o significado, nem entre 6 continente © 0 conterido, A pergunta: «Que se cleveria por em Beaubourg?» & pois, absurda, Nao se lhe pode responder porque. distingio t6pica + Proceso de trasformapio de petsSeo em derlvades por melo de calor e presso, Em ingles no orignal (N. da 7)