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Se iat SOBRE AGENTES SOCIAIS, ESCALA E PRODUGAO DO ESPACO: UM TEXTO PARA DISCUSSAO Roberto Lobata Corréa Universidade Federal de Rio de Janciro Este capitulo. visa estabelecer algumas,relagies entre agentes sociais, escala produgio do cspaco. Subjacentes estdio.duasiteses, A primeira considera a produgio do cspago como decorrente da agio:de, agentes sociais concrcros, com papdis nao rigidamente definidos, portadores de interesses, contradigées ¢ priticas espaciais. que ora sio préprias de cada um, ora so.comuns. A segunda diz respeito a escala como dimenséo espacial na qual aagéo humana, scja qual for, efetivamente se realiza. O texto, de cariter exploratério ¢ com vistas a0 debate, divide-se em duas partes. Na primeira, discute-se brevemente o sentido ¢a importincia da escala, temdtica que necessita de aprofundamento, Na segunda, estabelecem-se algumas conexdes entre agentes sociais, suas priticas—que incluem uma escalaridade ca producao do espago. ‘Ao final, sugerem-se duas vias de investigacio para a temética da produgao do espaco. Escala: alguns pontos O conceito de escala envolve quatro acepgSes: escala enquanto tamanho (ecano- mias de escala); escala cartogréfica.(1:2.000, ou grande escala em mapa geogrifico); scala espacial, ou drca de abrangéncia de um pracesso ou fendmeno (local, regional, nacional, global); ¢ escala conceitual, ow as relagdes entre um objet de pesquisa, os questionamentos ¢ teorias pertinentes ¢ sua representaya0 cartogrifica. Sobre este polémico tema consulte-se, entre outros, Castro (1995), Corréa (2003), Sheppard ¢ McMaster (2004) ¢ Paasi (2004), Aqui, consideraremos as escalas espacial ¢ conceinual. ‘A cscala espacial constitui trago fundamental da agio humana, relacionada a priticas que se rcalizam em ambitos espaciais mais limitados ou mais amplos, mas nao A PRODUCAO DO ESPACD URBANO dissociados entre si. Envolvem distincias e superficies varidveis. Ambitos ou escalas espaciais, paraftaseando Berque (1998), si0 marcas e matrizes da acao do homem inseridas em sua complexa espacialidade, que envalve distintos propésitos, meios € sentidos. Pode-se falar em escalaridade, parte integrante da espacialidade humana, aqual, por outro lado, & dorada de uma temporalidade, no bojo da qual se definem se redefinem as escalas espaciais da acao humana. A globalizacao é, nesse sentido, entendida como o estégio Superior da escalaridade humana, eriada por poderosas corporages multifuncionaisi¢ multilocalizadas, cujas agbes levaram 3 compressio espage-temporal em nlyeié impensdveis hi 50 anos. conceito de edéala espacial emerge da consciéncia da dimensio varidvel, no espago, ‘da agdo humana, ¢ é til para compor a intcligibilidade dessa ago. Essa inte- apontam, entre outros, Castro (1995), Corréa (2003) « McMaster ¢ Sheppard (2004): a) Os fendmenos, relagdes sociais e priticas espaciais mudam ao se alterar a ‘scala espacial da ago humana, assim como se altera sua representagio carto- grafica, Uma implicagio desta assertiva reside na necessidade de se construir conceitos que possibilitem a incorporagio da escala cm sua construsio. Seriam conceitos escalarmente definidos. A nogao de falicia ecoldgica dos socidlogos urbanos americanos das décadas de 1950 € 1960 reporta-se a transposicao de resultados obtidos em uma-escala para outra. b) A base tedrica que permite explicar ou compreender fendmenos, relag6es € préticas ¢ alterada quando se muda a escala espacial. Isso implica a necessi- dade de teorias com distintos niveis de abrangéncia espacial. Exemplifica-se ‘com as formulacdes de Todaro, de um lado, ¢ Gaudemar, de outro, na expli- cagdo das migragées em escala nacional ou internacional. Ambas as teorias vornam-se pouco iiteis quando se considderam as mudancas de demicilio no espaco intraurbano (mobilidade residencial intrausbana), ©) Nio hd umacscala que a prion’ seja melhor que outra. Sua escalha, paraefeito de pesquisa, vincula-se avs propésitos do pesquisador, que constréi o seu objeto de investigacio. Nessa construgio, emerge a escala espacial apropriada, que Fessaltard alguns pontos do real, minimizando ou eclipsando outros. O objeto construido é, em termos geogrificos, escalarmente delincado. A escals espacial, além de ser elemento fundamental pata 0 gedgrafo, constitu parte integrante das praticas e¥paciais dos agentes sociais da produgio do espaco. A consciéncia de sua importincia parece ser maior, A medida que se amplia a escala dimensional do agente social. Almeida (1982), ao estudar os promotores imobilidrios na cidade do Rio de Janeiro, reporta-se & varidvel “escala de operagbes” ~ quantos iméveis uma dada empresa imobilidria “incorporava” simultaneamente — € 8 “escala espacial de auagio” —em quantos bairros uma dada empresa atwava simultaneamente. A rclagao entre ambas € direta e positiva. 142] SOBRE AGENTES SOCIAIS, ESCALA E PRODUGAO DO ESPACO ‘As multifuncionais ¢ multilocalizadas corporagdes globais, que emergiram do processo de concentragio-centralizagio do capital, sobretudo apés a Segunda Guerra Mundial, atuam decisivamente na (re)produgdo transformacko do espago, fazen- do isso em diversas escalas espaciais (local, regional, nacional, global). Mais ainda, articulam essas escalas, dando coeréncia ao seu “espago de atuago” (activity space). Veja-se, entre outros, Corréa (1997). ‘As duasescalas conceicuais consideradas aqui séo aquelas relativas’d rede urbana ¢ 20 espaco intraurbano. Reportam-se a fenémenos ¢ processos, assim como a repre- sentagées cartograficas diferentes, mas sio interdependentes, pais as agbes que ocorrem: em uma eseala afetam a outra (Corn; 2003), Mais recentemente, na reuniio do Simpésio Nacional de Geografia Urbana (Simipurb) em Floriandpolis, em 2007, Cor- 1a introduz a escala intermediaria da megalépole ¢ dos cixos urbanizados, na qual a tede urbana metamorfoseia-se em espagosintraurbano, ¢ este assume nitidamente 2 forma de segmento da rede urbana. ing Apontemos, finalmente, que teagltiiiismpordincia do; coneeitos de escala espacial ¢ escalla conccitual pata a Geogr negligenciaram essa temdtica, considerando-a como naturalmente dada € Aio vitica. A coletinea organi- zada por Sheppard ¢ McMaster (2004) teve (com suas excesies) € aponta a relevincia dos conceitos para a ss espaciais visando 4 producio do espaco e sua leitura. Consults | Marston (2000), Brenner (2000), Brenner (2001), 2 lébatem a temitica da escala, evidenciando sua forga € z ri reflexes tedricas, Se hd muitas quest6es sem: o'se transfor para'pes- quisa. Creio ser 0 caso das relages' ntes socials, excala’ prodiicao do espago. Agentes da producio do espago ‘A produgio do espago, s¢ja oda rede urbana, seja 0 intraurbano, ndo¢o resultade da “mio invisivel do mercado”, nem de um Estado hegeliano, visto como entidade supraorginica, ou de um capital abstrato que emerge de fora das relagées sociais. E consequéncia da agao de agentes saciais concretos, histéricos, dotados de interesses, estratégias € priticas espaciais préprias, portadores de contradigies ¢ geradores de conflitos entre eles mesmos ¢ com outros segmentas da sociedade. As Ciéncias Sociais em geral, ¢ a Geografia em especifico, descobriram ¢ tenta- ram sistematizar os agentes sociais da produce do espago ¢ suas priticas-espaciais, a exemplo de Form (1971 [1954]), ‘Capel (1972) ¢ Bahiana (1978), este tiltimo, centre os godgrafos brasileiros, sumariando a conttibuicéo de indimeros autores que abordaram essa temética. Os agentes sociais da produgio do espago estio inseridos na temporalidade «¢ espacialidade de cada formagio socioespacial capitalista. Refletem, assim, neces- 143) A PRODUCAO DO ESPACO URBANO sidades e possibilidades sociais, criadas por processos ¢ mecanismos que muitos deles criaram. E sio os agentes que materializam os processos sociais na forma de uum ambiente construldo, seja a rede urbana, seja 0 espago intraurbano, Afirma-se que processos sociais ¢ agentes sociais sio insepardveis, elementos fundamentais da sociedade ¢ de seu movimento. Quem séo os agentes sociais da produgio do espago? Sio ainda vilidas as tipologias elaboradas por Capel (1972), Bahiana (1978) ¢, mais tardiamente, por Corréa (1989). Este questionamento se justifica.dada a aparente dissolugao de tipos que cram bem definidos em termos de suas agées (estratégicas € priticas). Questiona-se se surgiram novos agentes sociais; com novas estratégias ¢ priticas. Questionam-se ainda as escalas de agio:dos:agentes sociais ¢ as configuragies ¢s- paciais (re)criadas por eless':3)): 0 >», iq Cetin Matt css “.O primeiro ponto diz respeito aos tipos ideais de agentes sociais da produgio do espago. Considera-se como tipologia, ao menos como ponto de partida, a proposigio de Corréa (1989), na qual os agentes sociais si quase sempre as mesmos de outras proposigées. Sao eles os proprietérios dos meios de produgio, os proprietirios fun- didrios, os promotores imobilidrios, 0 Estado ¢ 08 grupos sociais excluidos. A partir de sua aco, © espago & produzido, impregnado de materialidades, como campos cultivados, estradas, represas e centros urbanos com ruas, bairfos, dreas comerciais fabris, mas também pleno de significados diversos, come aqueles associados a estética, snatus, ecnicidade ¢ sacralidade. A excegio do Estado, esses agentes sao encontradas em sua forma pura ou quase pura. A literatura aponta para os proprietdrios de terras na periferia rural-urbana que esterilizam suas dreas agricultdveis & espera de valorizagio para fins de loteamento, Assinala também 0 caso de empresas industriais que contro- lam certa gleba para fins ligados & producio, como areas de mananciais de dgua ou para futuras instalagGes: essas empresas sio, como outras, essencialmente industriais ¢ sua relagéo com a terra é temporaria. Hi ainda empresas ligadas exclusivamente 8 promogio imobilidria, scja como incorporadora, construtora ou ligada a vendas. Essas empresas sio, via de regra, pequenas ¢ anénimas, como € 0 caso dos milhares de individuos que fazem parte dos grupas sociais excluidos e que produzem espago social em tettas ptiblicas e privadas. E caso ainda de pequenos promotores imobilidrios que, na favela, produzem ¢ vendem prédios de dois ou trés andares. Consulte-se, entre outros, Corréa (1989) ¢ Ribeiro (1996). Qual a importincia, no momento atual, desses agentes sociais na producto do espago? Seré a mesma nas diferentes éreas do espago intraurbano € nas cidades de distintos tamanhos demograficos, atividades econdmicas e lacalizagio no espago brasileiro? SOBRE AGENTES SOCIAIS, ESCALA E PRODUCAO DO ESPACO Exeratégias e pricas espaciais distintas e um tinico agente A literatura aponta que um mesmo agente social, por exemplo, uma empresa industrial, pode criar subsididrias ¢ investir na produgio de iméveis ow na criagéo de loteamentos. A construgio de bairros residenciais de expressive status social e dis- tantes do local onde a empresa industrial estd instalada € prética bastante corrente, resultanda na produgio de espacos diferenciados na cidade. A cerra urbana deixou de ser estranha ao capital industrial que, a principio, 4 considerava apenas como uma base necessdria ¢ insubstituivel para a produgio. Segundo Mingione (1977), terra urbana passou 4 capital industrial, constituinds, assim como a produgio: imobiliéia, 4 : | para acumulagio, deixando de ser meramente um investimento c de acumulagao. Conmilerss enue Set eee TOT que as estraté- gias das empresas de loreamento em Porto Alegre, no passado, visando valotizar suas propriedades fundidrias. Consulte-se, a respeito, Silva (1993). Estrarégias ¢ prdticas espaciais semelhantes e diferentes agentes Inversamente, diferentes agentes sociais, cada um centrado principalmente em estratégias ¢ priticas espaciais pertinentes as atividades que os caracterizam, como por exemplo, produsio industrial ou promogdo imobilidtia, podem, sob certas condig6es, descmpenhar outras cstratégias © préticas espaciais diferentes daquelas que os distinguem, mas que sio semelhantes entre si. A terra urbana pode ser objeto de interesse de promotores imobilidrios, de empresas industriais, do Estado ¢ de outros agentes. Priticas espaciais como a esterilizagio da terra, fragmentagio € remembramento, assim como loreamentos descontinuos na periferia, podem ser comuns a diferentes agentes sociais. O espaco produzido refletird essas estratégias ¢ praticas espaciais. Veja-se, entre outros, Deler (1980), Durand-Lasserve (1980) Cardoso (1989), esta iltima abordando a producto do espaga no bairro do Grajai, na cidade do Rio de Janeiro. Os miilsiplos papéis do Estado © Estado capitalista desempenha muiltiplos papéis em relagio 4 producio do ‘espago. Essa multiplicidade decorre do fato de o Estado constituir uma arena na qual diferentes interesses e conflitas se enfrentam. Segundo Samson (1980), a atuagao do Estado insere-se no contexte econdmica, politico ¢ social de cada momento da dindmica socioespacial da regio em que se situa, Ainda de acordo com 0 autor, 0 leque de possibilidades de ago do Estado inclui, entre ourras, as seguintes: + estabelecer © marco juridico (leis, regras, normas, posturas) de produgao uso do espaco; 145] A PRODUGAO DO ESPAGO URBANO + taxara propriedade fundidria, as edificagées, 0 uso da terra c as atividades produtivas: diferenciais espaciais dessa taxagao refletem c condicionam a diferenciagae socicespacial no espago urbano; © produziras condigées de produgaa para outros agentes sociais, como vias de crifego, sistemas de energia, agua ¢ esgotamento sanitério, assim como o prdprio espaco fisico da cidade, por meio de obras de drenagem, desmonte © aterramento: a cidade do Rio de Janeiro fornece exemplos conrundentes dessa ago; * controlar o mercado fundidrio, tornando-se, sob certas condic6es, proprie- trio de glebas que poderio ser permutadas com outros agentes sociais; * tormar-se promotor imobilidrio, investindo na produgio de iméveis resi- denciais em determinados locais do espago intraurbano para determinados. __£FUpos sociais — esta ago tende, via de regra, a reforcar a diferenciagio ~"intetna da cidade no que diz cespcito & segregagao residencial; . tornar-se produtor induseral, interferindo assim na produgao do espaso, por meio da implantacdo de unidades fabris, ¢ dos impactos, em outras 4reas, proximas ou longinquas, de suas instalagées industriais: conjuntos habitacionais, loteamentos populares ¢ favelas so criados, em parte, em decorréncia das induistrias do Estado, cuja agao interfere na divisio econd- mica do espago € na divisio social do espago da cidade, Essa multiplicidade de papéis também se efetiva na escala da rede urbana, Tan- to nessa escala como na do espago inttaurbano estabelecem-se relagdes com outros agentes sociais, como empresas industtiais ¢ de consultoria, bancos, empreiteiras, universidades ¢ proprietdrios de terra. Nessas relagdes entram em jogo mecanismos de negociago, coaptagio ¢ clientelismo, aos quais a corrupsao nio ¢ estranha. Dada acomplexidade da ago do Estado, envolvendo mileiplos papéis, com pesos distintos no tempo ¢ espago, torna-se necessério que novos estudos sejam realizados, tanto nas esferas federal ¢ estadual como na municipal. Estas esferas ou escalas espaciais podem implicar diferentes ages que, no entanto, nao devern estar desconectadas, Novos ¢ velbos agentes sociais Bancos, companhias de seguros, empreiceiras, empresas ferrovidrias e de bondes, fabricas téxtcis, firmas comerciais e de servicos, proprietérios fundidrios, grupos de previdéncia privada, grupos sociais exclufdos, individuos com investimentos e ordens religiosas participam, alguns hd muito tempo, em maior ou menor intensidade, do proceso de produgao do espago. A.agao desses agentes sociais — seja expressando tipos ideais puros ou desdobramento funcional de longa ou curta duracdo— estd inserida no processo de produgao, circulacao e consumo de riquezas no interiot de uma socie- dade que se caracteriza por set social e espacialmente diferenciada, A complexidade | [46] a ______TJN__l_NTT_Tm)TmTmN*?Azd*=~—Cr ni ___ SOBRE AGENTES SOCIAIS, ESCALA E PRODUCAO DO ESPACO do processo de produgio do espaco envolve, por exemplo, negociagdes entre agentes sociais tao distintos quanto as ordens religiosas ¢ as empresas do setor da promosaio imobilidria (Fripman, 1994). Ressalra-se aqui a produgao de um “espage vernacular”, efetivada por aqueles que invadem ¢ ocupam tertas priblicas « privadas, produzinda favelas, ou por aqueles que. no sistema de mutiraa, dio contetido aos lotcamentos populares das perifcrias urba~ nas, No processo de producao do “espago vernaculas”, entram em cena novos agentes so- ciais, como aqueles ligados & criminalidade ean setot informal de produgio de iméveis. ‘A terra urbana e a habitagio sdo objetos de interesse generalizado, envalvendo agentes sociais com ou sem capital, formal ou informalmente organizados. Estabelece-se uma tensio, ora mais, ara menos intensa, porém permanente, cm tomo da terra urbana e da habitagao. Se issa nao censtitui a contradigio bdsica, transforma-se, contudo, em problema para uma enorme parcela da populagio. O estudn das estrarégias ¢ priticas espaciais vernaculifes complementaaqueles valtados & agio de poderosos grupos capiralistss teste vitallprocessorde (Fe)predi do espago, a materialidade que é sinntitaniéaimenne maifed @ imiatria da huimanidade, Agentes sociais ¢ escala Indimeros agentes sociais operam nas duas esealas conceituais aqui consideradas. Em outras palavras, uma rua, um bairro, uma cidade, uma rede urbana ¢ seu contetl- do agrério, um pais ou 0 espago global constituem campos de atuagao de poderosas corporagées, como, entre outros, aponta Corréa (1997). A atuagao dessas corporagies & decisiva para a produgao de espaco, contribuinde para: + produzir ‘company towns”, bairros no interior de uma cidade, ou ainda apropriar-se, de fata ou simbolicamente, de cerros espagos piblicas: algumas cidades dependem de uma dnica empresa, que controla a maior parte dos empregas ali exiscentes, a exemplo de Turim (Fiat), Eindhoven (Philips) Searle (Boeing); * dar continuidade ao processe de descenrralizagao deatividades tercidrias, seja pela realocacio de unidades varejistas,seja pela criacao de novas unidades fora do centro: dese modo participam do process de perda econd mica ¢ simbélica do centro, contribuindo, assim, para a redivisdo econdmica do espagos + alterar a funcionalidade dos centros da rede urbana, seja pela criagao espa- cialmente seletiva de especializagécs produtivas, seja pela redugio de sua capacidade produtiva, ou, ainda, pela convergéncia de atividades, criando economias de aglomeragio ¢ crescimento urbano; + criar uma neva divisio territorial do trabalho, por intermédio da difusao de inovagses, envolvendo novos produtos (trigo, leite, soja, café, laranja 147] A PRODUCAO DO ESPACO URBANO etc.) € novos meios para a produgao (miquinas, depésitos, silos, usinas de beneficiamento e transformacio etc.); + através do Estado, impregnado de interesses seus, criar infraescrutura vid- ria ¢ energética que Ihe € benefica, ainda que possa servir a muitos outros agentes sociais e individuos. Que peso tem corporages como Nestlé, Souza Cruz, Bunge, Ermfrio de Moraes, Vale, Brascan, Unilever ¢ Mitsui na (re}configuracao econdmica do espago nas duas escalas aqui-consideradas? Consulte-se a respeito, entre outros, Coréa (2006) ¢ Silva (2003), que discutem, respectivamente, o papel da Souza Cruz e do grupo Maggi na produgio do espaco. ‘Temas para pesquisa A despeito do relativamente amplo conhecimento elaborado sobre as relagées entre agentes sociais da producao do espago, escala e conflitos (nao considerados neste texto), ha lacunas, controvérsias e inconsisténcias em rorno delas que sao simulta- neamente importantes em si ¢ submetidas a um intenso e, por vezes, contraditério dinamismo. O que segue sho duas propostas gerais para pesquisa sobre essas relagGes. Ressalte-se que estas propostas ndo so excludentes ¢.@ que levard 4 escolha de uma ou outra deriva da problematica que construirmos a respcito da realidade. Que proble- ‘mas te6ricos empiricos estae suscitando esclarecimentos? Isso significa que a priori nao hd proposta melhor que outra. A apresentada a seguir procura levar em conta a tradigao da pesquisa geogrifica, que estd alicercada em dois Angulos no dicotmicos de se “olhar” a realidade. Acredita-se que esses dois angulos, que se complementam, possam estar contidos nas pesquisas sobre agentes sociais, escala ¢ confliros. a) A primeira proposta estd focada no estudo de uma dada drea, seja ela uma rua, um bairro, uma cidade ou o segmento de uma rede tirbana. Esta dis- tingio; no: éntanto, nos ébriga‘a Considerar a escala espacial adequada. A produgio déssa drea resulta da acdo de um ou de diversos agentes cujas ages (estratégias e prdticas) podem sé superpor ou se justapor, side marcadas por complementaridade ou antagonismo, As resultantes espaciais podem ser numerosas, expressas na configuracio espacial, no conteiido social e nas contradiges € canflitos. O devir pode ser pensado, 20 menos em relagao a certo lapso de tempo, garantida a permanencia das priticas espaciais e da inércia espacial. Pense-se, por exemplo, na produgo de uma “company town”, ou num bairre como 0 Grajat, na cidade do-Rio de Janeiro (Carposo, 1989), ou na rede urbana e seu contetido agririo, do norte do. Paran4, ou ainda na cidade de Brasflia (Plano Piloro ¢ micleos em torno do Distrito Federal em Goids). Consulte-se, adicionalmente, Azambuja (1991), que estudou a cidade garicha de Ijui. [48] SOBRE AGENTES SOCIAIS, ESCALA E PRODUGAO DO ESPACO ‘Nessa perspectiva, consideram-se diversas manifestagdes de processos sociais mais amplos, da formagio social da drea em estudo, por insermédio de um ou mais agentes sociais em uma dada drea. Na Geografia, isso corresponde metodologicamente ao metodo regional, nao & proposigao hartshorniana, mas aquela que, entre outros, foi apontada por Berry (1971), suficientemente aberta para incorporar processos ¢ formas diversos. b) A segunda proposta diz respeito ao estudo da agio (estratégias e priticas) de um agente social em sua espacialidade multiescalar, pressupondo a constru- sao prévia, ou no decorrer da agao, de seu “activity space”, Pensa-se ¢ age-se com investimentos em uma rua, um bairro, uma cidade, um territério nacional ou toda a superficie terrestre. Como variam as ages desse agente em cadadrea, em cada escala? Que conflitos ¢ negociagies foram efetivadas para que determinados objetivos fossem alcangados? Que impactas sociais, econémicos ¢ politicos resultaram? Os impactos na (se)organizaciodo espaco so, nesse sentido, particularmente relevantess)Na perspectiva do agente social cm estudo, que relagdes existem entre ag'diversas'estalas espaciais de sua atuagio? Veja-se, a respeito, Silva’ (1995): " Essa proposta se insere na tradigio.da pesquisa sistemdtica cm Gcografia, na qual um tema ou agente é analisado.em.sua espacialidade. As descobertas c hipéte- ses verificadas podem ser numerosas € contribu(rem para a inteligibilidade da aio humana. Por outro lado, os resultados alimentam os estudos realizados segundo a proposicao anteriormente discutida e vice-versa. Ressalta-se que, na perspectiva em tela, no se produz, sem uma sélida teoria, um estudo de caso, mas estudos explora trios ou de verificagio. ‘Ao se comparar dois ou mais agentes sociais, introduz-se a premissa dos estudos comparativos (que também podem ser feitos considerando-se duas ow mais dreas), assumindo também um cardter diacrdnico, Mas tudo isso pressupde outras proble- muiticas associadas ao metodo comparativo, fora das intengGes deste trabalho. Bibliografia ‘Aumpias, Roberto Schmidt de. 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