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Direito do Trabalho II (Dia) Exame final – 12 de Junho de 2017 Duração: 1h30m

I

Na Fábrica de Vidros X foi decretada uma greve para todas as sextas-feiras, com início

a 1 de Janeiro de 2017. Do aviso prévio de greve não constava qualquer proposta de serviços de manutenção dos fornos, que têm de se manter em laboração 24 horas. Armando e Bruno eram ambos filiados no sindicato que decretou a greve, mas

Armando, na sua qualidade de dirigente, tinha o seu contrato de trabalho suspenso. Na sexta-feira, 2 de Junho, os dois organizaram um piquete de greve e exigiram entrar na empresa. Perante a recusa do guarda (segurança de uma empresa contratada pela Fábrica), Bruno agrediu-o e o piquete entrou na empresa. Uma hora depois, estando os membros do piquete de greve sentados num muro junto à zona de cargas e descargas (o que era proibido) a fumar uns cigarros, uma palete com garrafas de vidro caiu em cima da perna de Armando.

a) A Fábrica podia impedir a entrada dos membros do piquete nas suas instalações?

(2)

b) A agressão perpetrada por Bruno permite a abertura de um procedimento disciplinar tendo em vista o seu despedimento? (2)

c) Armando pode exigir reparação do dano que sofreu ao abrigo do regime de acidentes de trabalho? (3)

d) Custódio, que aderiu à greve em todas as sextas-feiras desde 1 de Janeiro, recebeu uma nota de culpa tendo em vista o seu despedimento por dez faltas injustificadas durante o ano de 2017. Quid iuris? (2)

II

A Fábrica de Vidros X foi comprada pela sua concorrente Fábrica de Vidros Z no dia 1

de Junho e o responsável pelo pessoal da empresa adquirente, que vai gerir as duas

empresas, pretende saber se:

a) Pode aplicar aos ex-trabalhadores da Fábrica X o acordo de empresa de Z, sabendo-se que na Fábrica de Vidros X vigorava um contrato colectivo negociado por uma associação de empregadores que Z não integra? (3)

b) Sabendo-se que Z não está filiada na associação de empregadores outorgante do contrato colectivo, pode continuar a aplicar aos ex-trabalhadores de X o referido contrato colectivo? E pode estender a aplicação deste contrato colectivo aos trabalhadores de Z (sabendo-se que na Fábrica Z vigora um acordo de empresa)?

(3)

c) Pode encerrar os serviços administrativos da Fábrica X, despedindo os trabalhadores? (1,5)

d) Pode encerrar um dos fornos da Fábrica X, transferindo os trabalhadores afectos a esse forno para a Fábrica Z, como alternativa a um despedimento? (1,5)

Acrescem 2 valores de apreciação geral.

Tópicos de correcção

I.

a)

Questão controversa, mas a segurança das instalações, mesmo em período de greve,

incumbe à empresa.

b) O facto de o trabalhador se encontrar em greve, ser membro do piquete de greve e

dirigente sindical não o exime de certos deveres laborais, como o previsto na alínea a) do n.º 1 do art. 128.º do CT. De igual modo, o facto de a agressão ter sido perpetrada em relação a um trabalhador de outra entidade (empresa de segurança), que cumpria ordens

do empregador (Fábrica X), não desresponsabiliza o trabalhador.

c) A questão é controversa em dois planos. Primeiro, se, estando o contrato suspenso

por ser dirigente sindical, o trabalhador beneficia do regime de acidentes de trabalho e,

segundo, se a suspensão decorrente da greve permite que os trabalhadores grevistas beneficiem do regime. Admitindo que Armando beneficiaria do regime de acidentes de

trabalho haveria que ponderar a eventual exclusão da responsabilidade por ter entrado na empresa sem autorização e se encontrar em local proibido.

d) Tendo em conta que o aviso prévio desrespeitava o n.º 3 do art. 534.º do CT, importa

apurar se se aplica ao trabalhador grevista os efeitos da greve ilícita. Neste pressuposto,

cabe analisar o fundamento do despedimento, no âmbito do art. 351.º do CT.

II.

a)

O acordo de empresa de Z não vincula, de imediato, os trabalhadores de X.

b)

Apesar de Z não estar filiada na associação de empregadores que outorgou o contrato

colectivo, até ao termo da sua vigência o CCT pode ser aplicado aos trabalhadores de X (art. 498.º do CT). Pode estender a aplicação do contrato colectivo aos trabalhadores de Z mediante um acordo de adesão, mas pode suscitar-se seguidamente o problema de

concurso entre IRCT.

c) Pode, desde que se verifiquem os pressupostos para o despedimento colectivo; serão

em princípio motivos estruturais relacionados com a desnecessidade de sobreposição de

trabalho administrativo.

d) Tal possibilidade resulta das negociações prévias ao despedimento colectivo, cujas

vias são exemplificativas (art. 361.º do CT)

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