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quando peg tecer vei até ao amanhecer Uma estoria de amor eaworep (Festa de Manuelzao) © teen vai até ae ‘amanhecer..." (@atuque dos Gerais.) a haver a festa. Naquele lugar — nem fazenda, 56 um reposto, um currais-de-gado, pobre e novo ali entre o Rio ea Serra-dos-Gerais, onde o cheiro dos bois apenas come- ava a corrigir o ar dspero das ervas e irvores do campo-cerra- do, ¢, nos matos, manbi ¢ noite, os grandes macacos roncavam como engenho-de-pau moendo. Mas, para os poucos morado res, € assim para a gente de mais longe ao redor, vivente nas veredas ¢ chapadas, seria bem uma festa. Na Samarra. Benzia-se a capela— templozinho, nem mais que uma guari- ta, feita a dois quilémetros da Casa, no fim de uma altura espli, de donde a vista se produaia. Uma ermida, com paredes de taipa-de-sebe, mas caiada e entelhada, barrada de vivo azul e tendo 4 testa a cruz. Nem um sino, A imagem no altar sorria sem tamanho e desjeitida, uma Nossa Senhora(feia))Nossa Se ahora do Perpétuo Socirro, Mesmo Manuelaio achara de ins- 154 Joke Gormant crever na parte de fora a invocagio, em desastradas letras, que iam nio cabendo na empena exigua. Dentro, dez pesséas talvez nio pudessem estar, ainda apertadas. Mes, revezando-se, mexia- se por li multidio de mulheres, que colocavam os adornos. Chi- fres de boi, dos bruxos, como vasos para flores; estampas; ban deirolas recortadas de leve papel; toalhas de crivo; colchas de bilro de Carinhanha, brancas como sal e agiicar. Manuelzio, ali perante, vigiava. A cavalo, as mios cruradas na cabega da sela, dedos abertos; s6 com o anular da esquerda prendia a rédea. Alto, no alto animal, ele sobrelevava a capeli- nha, Seu chapéu-de-couro, que era 0 mais vistoso, na redonde- za, 0 mais vasto, Com tanto sol, e conservava vestido o estreito jaleco, cor de onca-parda. Se esquecia. “Manuel Jesus Ro- drigues” — MANUELZAO J. Rolz: — gostaria pudesse ter escrito também debaixo do titulo da Santa, naquelas bonitas letras com o resto da tinta que, no por pequeno prego, da Pira- pora mandara vir. Queria uma festa forte, a primeira missa. ‘Agora, por dizer, certo modo, aquele lugar da Samarra se fun- dava, Mas Manuelzio menos entendia 0 mover-se das mulheres, surgidas quase de repente de toda parte, muitas ele nem conhe- cia. Mau 0 acordo com que elas se juntavam, semelhavam bata- Thao de mutirao. A sonsa, queriam afasté-lo? Enquanto fora obra de rogar a marca, torar madeira ¢ carrear o materiame, fincar os esteios, levantar os oitdes, ¢ terminar — ele mestreara. Mas homens, seus homens. Agora, as mulheres tomavam con- Eran algum jeito?A que fugiam de Sencar, sonsez vam, —*Fala uma pia de égua benta..."-—ele reparava, de su- pelo, na vox de comandar mil bois. E elas se arredando, siias asticias, que nem um excomungado ele Fosse. Fechava entio 0 silencio, para ser como uma vanga. Depois, tomava cuidado ¥ de dirigir-se a Leonisia, ou a alguma das dos vaqueiros. Aincla essas, sem perder-lhe o respeito, em curto respondiam, meio sem paciéncia, pareciam s6 pertencentes 20 bando de todas No, ninguém lhe faltaria com o respeito, ali na Samarra cle cra “o chefe, $6 que no percebia os expiritos do mulherio reunido; aquele arremate para a festa tinha de ser de muitas mios. As- sim como nio achava senso nas;prendas que 0'povo aportava, para oferecerem & sua Nossa Senhora da capela: Eles eram es pantantes. » Gu 2 ‘Todos traziam, sorrateiros, o que devia ser de Deus. Ovos de _gavio — cor em cor: agudos pingos ¢ desenhos — esvaviados a faro de alfinete. Orquideas molhadas ainda do mato, agarradas a seus bracos de pau apodrecido. Balaios com musgos, que su- iam vago incenso no seco das madeixas verde-velho. Blocos de cristais de quartzo réseo ou aqualvo, Pedras nio conhecidas, rminerais guardados pelo colorido ou raro formato, Um boné de oficial, passado um lacio de fita. Um patacio, pesda moeda de prata antiga. Uma grande concha, gemedora, tirada com as rafzes, vinda parar ali, tio longe do mar como de uma saudade.— E 0 couro, sem serventia e agourento, de um tamandud inteiro, Preto, o tinico que desse pélo jf se achara visto, e que fora mata- do no Dia-de-Reis. Apareceu mesmo um jarro de estanho, pi- chel secular, inexplicivel; e houve quem ofertasse dois macha- dos de gentio, iss e agumiadas pesas de silex, semelhando peixes sem caudas, desenterrados do chao de um rogado mon- tés, pelo capinador, que via-0s 0 resfrio de raios caidos durante as tempestades do equindcio. Deixados para o leilio, presta- ‘yam, junto com um frango-d'4gua sonolento — que um meni- no capturara a borda do brejo e atara pelos tarsos com fibra de buriti — e uma cabaga com mel de abelha urussii, docemente Acido, extraido de colméias subterraneas. Assim a idéia da cap: 6 3 cue lae da festa longo longe andava, de fé em £8, pelas corovacas da regio. Manuelzio mesmo se admirava,_ Que povo, o desse tain, dum gertio\as brenb! De onde tiravam as estirdias alfaias, ¢ que juizo formavam da ser, da missa na Samarra, na capelinha feita? lascas de pedra-de-amolar, uma buzina amarela de cagador, um bacamarte boca-de-sino todo ferrugem, uma oitavada lan- terninha, rosérios de fava-vermelha, santa-rita e mariola; um rabudo — armadilha de ferro, de pegar tati em entrada de bu- raco; punhados de penas de arara, um dente de gente com pon- to de ouro, ume fraseo azulado, as velhas cartas dum baralho; ¢ esteiras, cestos, sacolas, caixinhas, tapas — tudo que da folha do buriti se fabricava. E até um grosso livro de contas, todas as paginas preenchidas, a tinta descordvel, e que de certo fora, em tempos, de algum grande fazendeiro lavrar em limpo seus negocios. E mais até uma mortalha de homem, de ganga roxa, ‘que nunca servira, porque a tinham costurado com despropo- sitada urgéncia, mas o corpo do defunto, afogado no rio, no se achara. Criancice duma béa gente, que remexia em.seus tras- tes, alguma coisa tinham de trazer, menos as mios vazias. Serk ‘emiais, quando compareciam com aquela trenzada — por no ter safda em comércio, nem nenhum outro seguro custo? Ma- nuelzio, em sutil, desconfiava deles. Sobre que se sabia o mais forte, dava de ombros, entretanto, assoado, Sua animagio o levava, crescents, Nio que descuidasse, por uma hora sequer, « governo do mundo dali: determinar aos campeiros e agregados a fazecio de cada dia. Mas, desde uns dois meses, quando principiara, media rude impulso, o fervor gue 0 influfa era aquele. Primeiro, ter a capelinha pronta —— uma ago durivel, certa. Daf, gastando um prazerzinko, tomara flego. Mas no bastava. Carecia da sagracio, a missa, A festa, uma festal Por si, ele nunca dera uma festa. Talvez mesmo nun- a tivesse apreciado uma festa completa, Manuelzio, em sua vi- da, nunca tinha parado, nfo tinha descansado os génios, seguira um movimento 86. Agora, ei, esperava alguma coisa. Por tudo, mesmo sem precisio, ele nio safa de cima do cava- Jo — estava com um machucio num pé— indo e vindo da ca- pela, sola sol vinte vezes, dez vezes, acompanhado sempre pe- lo rapazinho Promitivo, Nao esbarrava. Nao sabia ée esforgo por metade. Vai agoritiha, um exemplo, deixava as mulheres na arrumagio € tocava para a Casa, a ver a chegada de mais povo. Ativo € quieto, Manuelzao ali a porta se entusiasmava, piblico ‘como uma érvore, em sua definitiva ostentacio, Embora dois dias para a véspera ainda faltassem, as pesséas de fora jé eram em nt te de surrao ¢ bordio, romaria. Alguns, tio , que antes de apear do cavalo “TBvocavam em alta voz oTouvor a Cristo-Jesus e esperavam de olhos quase fechados o convite para entrar com toda paz ¢ mio rma na hospitalidade geral. Outros, contando alguém doente em sua comitiva, imploravam licenga para armar as tipéias ou latadas I mesmo, na rechi descampada e ventosa, nio distante da capelinha. Outros tangiam adiante cabegas de gado, sobradas para vender, pois também uma boiada estava-se ajuntando, devendo sair logo depois dos dias santos, conforme o grande aviso que Manuelzio difundira. —“.. Si, sé, mesmo agui mesmo ue Simorra £2" — sempre sabiam. Pgbres lazarados queriam ajudar em algum servigo, por devogdo e esperanca de comi- da, Até aleijados, até yultos ciganos, ms mulheres, lindas mo- 28 = do rumo do Chapadio tudo possivel. Havia quem de “hp A & & Joke Guimanies Ron precisasse da caridade de agulha e linha, para recoser suas rou- ‘pas, urtigadas contra os espinheiros, no atravessarem trechos de caatinga. Um ou mais de um, trés vezes armado no cinturio com chapéu-de-couro claro quebrado adiante, nio ditava de es- conder sua mi meniio de brabo sertanejo, capaz de piorar as- suntos; ¢ Manuelzio, tanto quanto conseguia disfargar um des- gosto, acolhia-os proferindo que nio era bem ele, mas sim a Nossa Senhora do Socérro, quem os agasalhava, aos que vinham para a respeitar e venerar. Principalmente mulheres, de trowxa 4 cabega e pondo para a frente seus meninos, desciam @ encos- ta-—uma extensa encosta aladeirads, rachada de grotas de chu- vva roer, ¢ pela qual se espalhavam, em quantidade, galhos verdes cortados de érvores, dos que os carreiros nas descidas usam para acorrentar & traseira de seus carros-de-bois, a guisa de freios. ‘Aquém, no tergo baixo dessa aba, era a Casa. {- Sua casa, Sempre pudesse ser. Mas ld, a Samarra, no era dele. Manucko trabalhava para Federico Freyre — adminis- trador, quase sécio, meio capataz de vaqueiros, certo um em- pregado. Porém Federico Freyre nem bem uma vez por ano se lembrava de aparecer, ¢ Manuelzao valia como tinico dono visi- vel, ali o respcitavam. As horas, quando na béa mira dum so- rho consentido, ele chegava mesmo a se sobre-ser, imaginando {quase assim ja fosse homem em poder € rico, com suas apa- nhadas posses. Um dia, havia-de, Sempre puxara por isso, a duras mos € com tengo teimosa, sem um esmorecimento, uma preguica, s6 lutando, Ele nascera na mais miserdvel po- bbrezazinha, desde menino pelejara para dela sair, para por a ca- bega fora d’gua, fora dessa pobreza de doer. Agora, com per: to de sessenta anos, alcangara aquele patamar meio confortado, espécic de comego de metade de terminar. Dali, ia mais em ri- ba. Tinha certeza, E na Samarra todos enchiam a boca com seu nome: de Manuelzio. Sabiam dele. Sabiam da senhora sua Mie, dona Quilina, falecida, Sua mie, que, meses antes, velhinha, viera para aquele ermo, visitando-o. Pudera ir buscé-la, enfim, era a primeira ocasiio em que se via sediado em algum lugar, fazendo de meio-dono. E ela pensara até que ele fosse dono to- do, A mie apreciara aquilo, o Baixio da Samarra, a Vereda da Samarra, 0 territério, No tempo de adoecer, ela mencionara a mesa-de-campo como o ponto ideado para se erigir uma cape- linha, a sobre. Ela estava a se pensar? Li mesmo Manuelzio a enterrou, confechando quase 4 borda da chi um cemiteriozi- mho, razoivel, cercado de arceiras, moirdes que podiam durar sem acaba, e coberto pelo capim duro do cerrado, no qual, no raiar das madrugadas, o orvalho é azul e mata a sede. Ao lado, ergueu a capelinha, Enquanto péde uma folga, na lida. O prin- cipal da idéia da capelinha entio tinha sido de sua mie. Mas cle cumprira, E ele inventara a festa, depois. Na Samarra, alids, Manuekzio conduzira o inicio de tudo, havia quatro anos, desde quando Federico Freyre gostou do rin- ao e ali adquiriu seus mil e mil alqueires de terra asselvajada. — "Te entrego, Manuelzio, isto te deixo em mio, por des- bravar!” E enviou o gado. Manueleio: sua mio grande. Sua por- fia, Pois ele sempre até ali usara um viver sem pique nem pouso — fazendo outros sertées, comboiando boiadas, produzindo retiros provisérios, onde por pouquinho prazo se demorava — sabendo as poeiras do mundo, como se navega. Mas, na Samar- ra, ia mas era firmar um estabelecimento maior. Sensato se ale- _grara, Mordeu no ser. Arreuniu homens € veio, conforme acos tumad uumas araraquaras, ATerra do Boi Solto. Chegaram, em Wis de maio, acharam, na barriga sere, 0 sitio apropriado, ¢ assextaram a sede, © que aquilo nio Ihes tirara, de coragens 160 Joke Guiman de suor! Os currais, primeiro; e a Casa. Ao passo que faziam, sempre cada um deles recordava 6-fnodo de feitio de alguma jeitosa fazenda, de sua terra ou de suas melhores estradas, ¢ 0 queria remedar, com 0 pobre capricho que © trabalho muito duro dé desejo de se conceber; mas, quando tudo ficou pronto, no se parecia com nenhuma outra, nas feigdes, tanto as pa- ragens do chio e 0 desuso do espago sozinho tém o seu ser ¢ poder. Dal, esperaram as grossas chuvas. Era a Casa, grada, com muitos cémodos de chao batido ¢ 6 um quarto de assoalho; em dado nio passava, bem dizer, de uma casa-rancho, mas com teto complexo, de madeiras, por sobrecima as talas e palmas de buriti. A rebaixa — um alpendre cereado —; 0 rancho de car- ros-de-boi; outros ranchos; outras casinhas; outros nisticos pavilhdes. Contiguavam-se os currais, ante esse conjunto, dele distanciados por um pitio e pelo eirado, largoso, limpo de vege- tagio, porque o gado nele malhava, seu pisoteio impedindo Ali eno pitio, onde os homens ¢ animais formavam convivén- ia, algumas érvores mansas foram deixadas — gameleiras, tin- guis com frutas pardas maiores que laranjas, e cagaiteiras, ora fem flér. Os longos cochos, nodosos, cavados em irregulares troncas, ficevarn 3 sombra dclas, Enquanto os bois comiam, as florinhas e as folhas verdes cafam no sal. Mas desde 0 comeso Manuelzio conheceu que, para fundar lugar, lhe faltava o necessirio de alguma espécie. Sentiu-o, va- garosamente. 86, solteirio, que ele era. Antes, nunca tinha pen= sado nisso com motivos. Pensou. Scus homens, mais ou menos velhos conhecidos, com ele vindos do Maquiné, para apego de companhia nfo bastavam? Ele calculou que nio. E resolveu um recurso. A mic, idosa, ¢ que nunca aceitara de sair do lugarejo do Mim, na Mata do Andrés, no Pium-{, no Alto Oeste, nio era pessoa para vir aguentar as ruindades dum principio tio ser- tancjo assim. Mas Manuelzio se lembrou de um filho, que tam- cee Esse, ilho natural, nascido de um curto acaso, no Porto An- dorinhas, e ali deixado, Manuelzio nfo 0 vira, a0 todo, mais de tumas trés vezes. E ele estava agora com perto de trinta anos, se chamava Adelco de Tal, e era um rapagio cabeludo, escurado, 4s vezes feio até, quando meio zarolho remirava; com Manuel- io nada se parecia. A mie morrera pontual, Manuelzio nio se lembrava do nome dela. Mas esse Adelgo se casara, tinha sete ‘meninos pequenos, a mais velha com sete anos, ¢ trabalhava para toda lavoura e gado, numa fazenda pompeana, beiras do Cérrego Boi Morto, depois noutra, entre o Cérrego Queima- Fogo e o Cérrego da Novilha Brava, depois noutrano Cérrego Primavera ou dos Porcos, lugar chamado o Barra-i-Barra; de- pois noutra, final, no Buriti-do-Agude, Pois Manuclzio foi bus- ciclo, E ele veio, com todos. Os tempos estavam ruins em to- da a parte, e nao era facil alguém resistir a um convite assim de ‘Manuelzio, tio forte a agdo dele prometia & gente lucro de pro- {gTesso, seu énimo arrastava empés seguintes ¢ comparsas— era um condio, ele mesmo sabia disso. Por que os trouxera? Talvez na casio tivesse imaginado que a Samarra ia ser seu esteio de pouso, termo de destino. E ele mesmo, nas entradas, se louvou de ter conseguido reunir para si aquela familia de tardezinha. Estivesse, naquela hora, denun- ciando cabeceira de velhice? No pensava, Nem agora chegava a mudar de parecer, do que tinha feito nio se arrependia, Essas coisas ocorrem puns escuros)¢ custoso de saber se agente deve se aprovar ou confessar tim arrependimento: nos carocos da- quele angi, tudo tio jmisturado, o ruim ¢ o bom, Mas ele nio punha em pé o pesar.(Estavam de bem, s6 que, em qualquer no- vidade, nesta vida, s¢ carece de esperar o costume, para o ho- + o mem ¢ para o boi. Manuelzio era 0 das forgas, nio se queixa- va. Os meninos, bem-criadinhos, bonitos, uma cisma achar que dele no gostavam, pois que sempre estava no estatuto de ser 0 av, A mal que nio sabia os gestos, nem tinha habituegio para 1 pequenez deles, 0 rebulico; mas adiava vagos intentos: aque- les netinhos ainda iam crescer, dar-the distintas alegrias. Jé 0 Adelgo, esse, se encobria de nfo se conhecer sua propensio, criatura de guardadas palavras ¢ olhares baixos, Mas nio enga- Tava a Manuelzo: era mesquinho e fornecido maldoso, um ho- mem esperando para ser ruim. S6 punha toda estima em sua mulher e nos Blhinhos, das outras pessoas tinha uma raiva sur- dada, Sempre aquela mitida dureza, sem teta de piedade ne- ‘Thuma. Por ora, obedecia a Manuelzio — de que outro jeito ia poder proceder? Mas obedecia soturno, Um dia ele chegasse a mandar, e 4i do nitindo. Tinka a maldade dum co mau? Ma- nuelzio se aborrecia, por fora do assunto, Nio queria detestar © filho, Seria, porém, aquele, um saido de seu sangue? Se as- sustava quase, de ter gerado e estar apurando um sujeito assim, desamigo de todos. Sua culpa. Se entio, mais valesse 0 rejeitar ‘utra vez e enxotar para os passados -— feito a gente esté pes- cando ¢ dé na peneira uma serepente: um cospe um ndjo ¢ de- iste logo aquilo no movimento das éguas ligeiro, no rio, de don- de veio! A vida cobra tudo. Mas a mulher do Adelga, Leonisia, era béa, uma sinhé de exata, s6 senbora. Aquela tinha sinal de tum sabido anjo-da-guarda — pelo convivio que ela encorajava, geréncia de companhia, Ela e seu irmio dela, de uns dezoito anos, vindo também, 0 Promitivo, Sé que esse Promitivo era de- clarado em vagabundo. A ser, os desiguais: que 0 Adelgo era ‘mouro trabalhador, de aferro; era, isso. E, Leonfsia, Manuelaio ‘mesmo respeitava. Fla ficara sendo a dona-da-casa. Da Caja — de verdade, que ali formava seu conchégo firme sertangjo. Todavia, num senio, o situado escolhide nio dera ponto. Por tanto, podia merecer nome outro: o de “Seco Riacho”, que 0 velho Camilé falou. O velho Camilo tivesse idéia para esse falar, ‘era duvidoso; e alguém acusara por ele, Mas Manuelzio sabia, © inventante tinha sido mesmo 0 Adelgo, que censurava, que es- carnecia. Por conta de um erro, E de quem tinha sido 0 erro? ‘Mas que podia acontecer a qualquer um mestre de mais sertio, pess6a perita nas soliddes e tudo. Porque, dantes, se solambendo por uma grota, um riachinho descia também a encosta, um fluviol, cocegueando de pressas, ara ir cair, beni em baixo, no Cérrego das Pedras, que acaba- vano rio de-Janeiro, que mais adiante fazia barra no Sao Fran- cisco. Dava alegria, a gente ver o regato botar espuma e ofere- ccer suas claras friagens, e a gente pensar no que era o valor daquilo. Um riachinho xexe, puro, ensombrado, determinado _no fino, com rogojeio e suazinha algazarra — ah, esse nio se ‘Geonomizava: de primeira, a Agua, pra se beber. Entio, deduzi- ram de fazer a Casa ali, tragando de se ajustar com a beira dele, ‘num encosto fécil, com piso de lajes, a porta-da-cozinha, a bom de tudo que se carecia. Porém, estrito a0 cabo de um ano de li se estar, e quando menos esperassem o riachinho cessou, Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos es- tavam dormindo, Mas cada um sentiu, de repente, no coracio, 2 estalo do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, cochorroslatram, Al, todos se lenantaram, cosaram o quintal, salram com luz, para espiar 0 que nio havia, Foram pela porta da-cozinha, Manuelzio adiante, os cachorros sempre latindo. — "Ble perdeu o chio...” Triste duma certeza: cada vez mais fando, mais longé nos siléncios, ele tinha ido s'embora, o riachi- ho de todos. Chegado na beirada, Manuelzio entrou, ainda o 4 molhou os pés, no fresco lameal. Manuelzio, segurando a tocha de cera de carnatiba, o peito batendo com um estranhado dife- rente, ele se debrugou e esclareceu. Ainda viu o derradeiro fia- po d’agua escorrer, estilar, cair degrau de altura de palmo a der- radeira gota, o bilbo. E o que a tocha na mao de Manuelzo mais alumiou: que todos tremiam mégoa nos olhos. Ainda esperaram ali, sem sensatez; por fim se avistou no céu a estrela-d’alva, O riacho soluco se estancara, sem resto, ¢ talvez para sempre. Se- cara-se a lagrimal, sea boquinha serrena. Era como se um meni no sozinho tivesse morrido. Dera de ser também nessa época que um argueiro, um broto de escripylos, se semeara no juizo de Manuelzio? Quem sabe nio fosse, Se ele mesmo As vezes pensava de procurar assim, era -mais pels previsio de achar um comeso, de separar alguma data ‘a montante do tempo. De todo nao queria parar, nfo quereria suspeitar em sua natureza propria um anincio de desando, 0 desmancho, no ferro do corpo. Resist. Temia tudo da morte. Pensou que estivesse com mau-olho, Pensou no riachinho secado: acontecimento assim tio costumeiro, nesses campos do mundo. ‘Mas tudo vemn de mais longe. E se lembrava. Um dia, em hora de pio imaginar, falara 4 me: — “Aqui junto falta & uma igre... ‘Ao menos um cruzeiro alteado...” Dissera isso, mas tio sem rompante, tio de graga, que a mie mais tarde nem recordou aquelas palavras, quando ela criou a idéia da capelinha ma chi. Desse jeito, a8 coisas se emendavam. Depois, Manuelzio, quan- do era de estar esmorecido, planejava a capela, a missa; quando ‘em outros melhores Animos, projetava a festa. Muitos assuntos ele mesmo néo sabia que neles nfo queria pensar. Mas aquela ‘manincia da grota, de ladeira abaixo suas Aguas, se acabara. Secara, ¢, de agora, desde os trés anos, toda manbi, cada por dia, o Chico Carreiro atrelava suas quatro juntas de bois, e des- cciam até s Pedras, 0 carro cheio de latas, para buscar a égua do usivel, Sempre as criangas 0 acompanhavam; ¢, &s vezes, 0 ve- Iho Camilo. Restavam as duas filas de pequenas érvores, se trangando por cima da deixa do riacho, formando escuro um tubo fun- do, onde as porcas jam parir seus leitdes ¢ as guinés punham ovos, Nio se podia derrubar aquela linha de mato, porque, um dia quem sabe, o riachinho podia voltar, sua vala ficava a espera, protegida.’Mas, por ora, quem descia 4 noite, do espigio, do alto campo — quando sabiam que o vento nijo estava sopran- do no rumo de levar o cheiro deles ao faro dos cachorros — eram a raposinha rouca e algum ourico predador; esses se ‘encontravam, caminho em meio, com a mitida irara, zangada, ‘¢.com o gambé-d’égua, que subiam do valezinho orestal do Cérrego das Pedras, por sede do sangue quente das criagdes do galinheiro, E, nas copas do arvoredo, as rolinhas fogo- ‘apagou pregueavam seus ninhos. ‘A rola f6go-apagou cantava continuado, o dia, mesmo na ca- lada do calor, quando dormiam os outros passaros. Seu canto sabe sempre sc fingir de longe, ¢ cla esta perto. $6 aser que de- seje domesticar-se, mas Ihe faltando um pouquinho mais de valentia necessiria, ou conhecendo que nio a irdo aceitar assim. ‘A mie de Manuelzio gostava delas, das f6go-apagou. Gostava de todas as criaturas inofensivas ¢ vulneriveis — os meninos, a roltha pedrés, 0 velho Camilo, yy cyt Por mesmo, se soube que o velho Camilo, sem contar a nin- ‘guém, tinha ide rezar na sepultura dela, levar flores, o que no comum nem era muita regra se fazer — flores do campo, pen- cas douradas do pau-déce, ¢ a do pacari, que é a mais linda que tanto espanta, ou uns simples ramos de assapeixe, que agora Cem maid era quadra de se abrirem, o rosado e o branco, por to- a da beira de estrada. Manuelzio isso escutou, € no intimo se agradara, Mas nfo o deu a entender, nio disse palavra, Sua laia de chefe no 0 consentia, Ele tinha de ser sério severo nos exemplos, O velho Camilo podia estar com aquelas ages sé por caduquice; 05 outros, a boca-do-povo, podiam ndo achar decén- cia naquilo, mexer maldade, falario; alguém tinha sobra para dizer que 0 velho Camilo estivesse solando de adulagio, cada uum caga e coga. Também ficava injusto aceitar com reconheci- mentos aquela lembranga, assim diante dos outros, que na labu- ta do didrio se cansavam, sem tempo nenhum para miudezas, cenquanto que o velho Camilo era apenas uma espécie domésti- ‘code mendigo, recolhido, invalido, que ali viera ter e fora ado- tado por bem-fazer, surgide do mundo do Norte: —Ele asséste mais € aqui. As vezes descasca um milhozinho, busca um balde d’égua, Mas tudo na vontade’ dele, Ninguém manda, nio.. A Samarra ia virando uma fazenda, ¢ toda fazenda abrigava uum coitado desses, raramente mais de um. Porquanto eles en- tre si geravam édio, atreitos 4 tonta ciumeira, Ali mesmo pri- meiro tinha vindo um mulato surdo-mudo, a quem néo se sabia cchamar de que nome — como se descobrir a graga de um sur- do-mudo? Chamaram-no entio de José de Deus. E esse um era irritadigo ¢ mandrigio, mesmo sendo como sendo mogo de porte, com arcado para trabalhar; por isso todos aconselharam Manuelzlo a que o acertasse na lida mandada, bem podia. Mas, ‘quando assim a nora de Manvelzio the deu a entender, o sur- do-mudo se enfureceu, ¢ rompeu embora, para 0 outro lado do rio, ¢ dai para.o reel longe, a ponto le dele nunca mais se saber. Fora-se gesticulando, aos gungos ¢ guinchos, entendendo-se dissesse que, para trabalhar, entfo seria em lugar outro, onde iio o tivessem desfeiteado. Tio logo depois apareceu o velho Camilo, Tempo entrante, ja rodara pelo arredor, asilindo-se em ranchos ou cafias mal abandonadas no campo sujo. Era digno e timido, Olhava para as mios dos outros, como quem espera comida ou pancada. Mas as vezes a gente fitava nele ¢ tinha a vontade de tomar-lhe 2 bengio. Quando vit que o surdo-mudo se fora, chegou-se. Vi- tha s6 para poder receber o que Ihe dessem. Mas mandaram- Ihe que viesse definido ¢ ficasse. ‘Ao que ficou. Deu o nome, que experimentou escrever, mas nio soube, nio se alembrou mais, experimentou atéa, com a ponta de um ticio preto numa régua do curral. Parou triste. Ca milo José dos Santos... E informou idade de oitenta anos para fora: tinha uns oito ou dez, na Alforria do Cativeiro, Nascera no Riacho dos Machados e acabara de se criar em Coragao de Je sus de Inconfidéncia. A vista, no se percebia fosse tio idoso. Desde os pés espalhados, ele vinha para cima retaco, baixote, poucos fios de barba no queixo, poucas carquilhas nos cantos do rosto clareado austero, fundos olhos aziis, calvicie nenhu- ma, e regularmente grisalho o cabelo, tosado baixo, Seria talvez de todos os homens dali o mais branco, ¢ o de mais apuradas feigoes, talvez mesmo mais que o Manuclao. A vida nio the desfizera um certo decoro antigo, um siso de respeito de sua figuragio. Quem sabe, nos remotos, o povo dele nio tinham si- do homens de mandar em homens e de tomar é forya coisas de- mais, para terem? Para a festa, tinham-he feito uma roupa nova, de riscado es- curoso, paleté, camisa e cala do mesmo pano éspero, muito durivel. Ele nada pedira. Mas apreciara-a, que nem que um mi- lagre o tivesse envolvido. Ficou com as mis sobrando, mudou ‘co modo de sua seriedade, se alisava. Nao sabia como se perma- necer. A nora de Manuelz3o mandara costurar a roupa, ¢ tudo a Joko Guimandes Rosa correntio, sem mengéo, sem avisos, como fizera para o marido, © sogro, os filhos, ninguém podia ficar sem terno novo para a festa, a Garidede formava suas regras num estipéndio vezeiro. Como podia, o velho Camilo ajudava. —“Minha gente, vies desapear, samo’ chegar!" — convocava Manuelzio, acolhendo 08 forasteiros. Sem um sorriso, sem se ressair, 0 velho Camilo oferecia auxilio, no desarrearem a montada. — “Seré diivida?” —requeria sempre. A mesma formula, usava-a, um tom, as ho- ras de comer, quando, deixando-se por ultimo, se dirigia afinal 4 porta-da-cozinha, para receber seu prato feito: —“Serd divi- da?” E 0s meninos nio sabiam aperres-lo, nem estimé-lo, nem o respeitar diretamente. Os vaqueiros também no, Riam sério dele. ‘Aos mais, pessbas chegovam, sendo a véspera.A casa e 0 pitio rebuliam de gente composta. Também, a cavalo, veio o padre, da Pirapora. O padre estrangeiro, frei Petroaldo, alimpado e louro, com polfinas e culotes debaixo do guarda-pé, com 0 cé- lice e 0s paramentos nos alforges. Homens seguiam-no, por muitos lugares, um afi em estradas, para demorar a virtude da stria presenga, para ouvirem mais das primeiras-miseat. O pa dre a pér suas vestimentas direito, ¢ 08 vaqueiros voltando do campeio, esses demitiam seus trabalhos, por dois dias. O eira- do se acacheava de burros e cavalos. Num galho da gameleira, se balangava a raspadeira, pendurada para 0 pronto. — “Seo Camilo, o senhor dé conta de tirar aquele ferro ali, p'ra mim?” — “Com certeza.” No aparecer a cavalgata do padre, a mando de Manueledo o Promitivo tinha soltado seguidos trés foguetes. ‘A.voz do povo levantou um louvor, prazeroso. Via-se, quando se via, era mais gente, aquela cheganga, que modo que sombras. Gente sem desordem, capazes de muito tempo calados, mesmo no tinham viso para as surpresas. Apartavam-se em grupos. Mas se reconheciam, se aceitando sem estranhice, feito diver- 303 gados, quando encurralados de repente juntos. Todos que- riam a festa. Manuelzio se esquecia do pé doente, desejava con- versar os sublimes com 0 padre, que o padre fosse servido pelas mulheres, tomasse café, com muito conforto. Mas o padre no apresentava um encoberto de ser, nenhum ar de prestigios € peniténcias, que a gente estremecesse. Era um padre com san- guinea saiide, diabo de mogo, muito pritico em todos os atos, de certo jé acostumado com essas andadas no sertéo, ¢ que tu- do fazia como por firme oficio — somente indagava quantas criangas havia de ter ali, de bom batizar, quantos homens ¢ mulheres morando em par, para irem logo no sacramento — e diligenciava de no perder tempo nenhum; o mais seria de- pois. Para ele 0 povo minticio olhava; constantemente estavamn se lembrando de Deus. ‘Mesmo tinha viajado de yjrali;estirdio, um homem-bicho, para visumbrar a festal SJofo Urigemy que nunce ninguém enxergava no normal, que nio morava em vereda, nem no bai- xJo, nem em chapada, mas vevia solitirio, no pé-de-serra. Des- de nfo se sabia mais, desde moo, quando o acusaram de um forte, que depois se veio a expor que ele nio executara — ti- nha ido viver sozinho no pé-de-serra, onde o urubii fiz casa nas grotas ¢ as corujas escolhem sombra, onde hé monte de mato, ‘estas pedras com limo muito molhado, fontes, minadouros de ‘gua que sobe da terra a0s borbos, jorra tesa, com forga,o intei- ro ano, Joio Uniigem, que morava numa choupana em drvoves ‘e méitas, que os degraus de sete lajedos — cada laje mais iarga e cchata — separavam da beira da lagda, onde o jacaré-de-cabega- azulada pie o focinho fora d’égua, quando o sol sai tarde, e es- pirra mau-agouro ¢ olha mau-olhado. Joo Uriigem fedia a mi- Viera de Id, por conta da fesia da capela— isso se Joio Guimantus Rosa entendia, Ele nio sabia mais falar corretamente com os outros, parece que chorava pensando que estava se rindo. Pegara por li essa doenga de malcheirar, quem sabe também o que ele nto ‘comia? J4 no devia de se lembrar mais da culpa do furto, se es- quecera. Olhado do jacaré. Quem se aproximava para ver 0 to- co da lingue dicle, jacaré, ele devorava a meméria da cabega da pesséa. Joio Uriigem sentava no chao, punha as palmas das mios abertas encostadas em terra, que nem para se esquentar ‘ou esfriar. Tinha os olhos cor de Agua, igual os dos grandes ca- cchorros onceiros de um homem na Vereda do Liroliro. Dizian aque ele nao sala daquele lugar no pé-de-serra, porque Id tinha actado uma mina de ouro, no queria que ninguém tomasse. Daquelas brenhas sai é 0 gavido-pé-de-serra, que & o maior de todos, réxo-escuro, peito branco, muito grande, unhas grandes, se diz que é a Aguia; esse gaviiozio, ele roda por Gerais, por Baixfo, mas mora mesmo é no pé-de-serra, em pareddes de montanha: de ld ver voando, o corpo todo cheio de ar. E pois, aquele Joio Urigem, por um assorabroso, conseguira ter informagio da festa, e agora estava ali, na Samarra, se aposen- tando no matinho para ld dos currais. Mesmo assim, os cachor- ros estranhavam o indicio dele, iam para la, latir, Joxo Uriigem tinha ajuntado perto de si um monte de pedras, jogava nos ca chorros quando precisava. Manuelzio instava 0 povo para rezarem o tergo, a mando do padre, As mulheres comegavam, As mulheres sempre iam se acrescentar todas de uma banda do pitio, se desmisturando dos homens. A reza era mais delas. Houve um declarado de res- peito, os outros abrindo espago para caminho, quando chegou © senhor doVilamio, de barba and, o cabelo total embranque- ido, trajado de vestimenta que nfo se usava mais em parte ne- nhuma, ¢aroi — sobretudo preto, com sobre-capinha que ba- tia no cotovelo, Manuelaio sabia quem era ele, homem de muitas posses, de longes distincias dentro de suas terras. Ma- nuclzio 0 veio receber, levar pra entrar. © senhor do Vilamio ja estava quase cego, tdo velhinho para andar, parecia todo de vidro, pensava que os que falavam com ele estavam era pedin- do esmola: respondia que Deus desse, que ele na hora nio ti- nha, Manuelzio explicava que isso nfo era, convidiva, pronun- ava palavreado de mais escélha, mais bem lembrado. Mas aquele se inteirara mesmo anciio, reperdido na palha de uma velhice. Assim mal enxergava as pesséas, s6 supunha. Mas re- presentava os altos gestos, talento de sucintos, o estado-mér de fidalguia. Tao esvaziado de si, de ser homem, no tinha mais os temperos do corpo, © que ainda persistia nele era o molde do muito aprendido, E Manuelzio, que 0 acompanhara adentro da casa, algantes estandartes, de repente sentia a dér de uma fer- roada no machucado do pé, esbarrava no instante, sem querer se abaixar nem soltar meio-gemido, Avistava 0 Adeleo, perpas- sante no fundo do corredor — ah esse nao dava préstimo de vir acomodar os héspedes, nas coisas da festa nem ajudava em na- da; por certo, o Adelgo tinha sofismado sempre a idéia da fes- ta, mesmo sem disso palavra dizer! E chegava também o Léi, um Léi, que nio era mais vaquei- ro, da Vereda do Liroliro, uns tempos tinha vivido de cagar on- 425, tinha estado pago para matar onga até na beira do Rio Bar- rada Egua, Cérrego Curral de Fogo, que sio do Paracatii; mas no atualmente ele negociava em mulas ¢ burros. Esse Léi, vesti- do com a boeta — um capote feio de bacta, vermelho de dando chama, de espantar boi até. O Promitivo era que espiava para aquilo, com maior atengio de inveja, o Promitivo cada ver real- ‘ava mais sua exata vocagio para vagaz, o vagivel sem remédio; ‘mas, pelo menos, ele era auxiliador nas pequenas coisas, gosta- Joko Gurmankes Ross va de ser agradivel gente, ¢ demonstrava todo sentimento para o acontecer da festa, agora era o que se queria, E a gente ia rezar com 0 povo, Que rezavam a continuagio do tergo, can- tado: as mulheres entoavam, os homens no cantarol baixinho, uns desferindo falseté, a vozeada junta semelhava linguagem de baiano, do Bom-Jesus. Esses que podiam, como o senhor doVi- lamio, o L6i, é que tinham capotes, capas, agora que estava che- gando 0 meio-do-ano, o vento mudando pra vir quase s6 dos nascentes, solo e suo, mais de cima ou mais de baixo — ban- da de Corinto, de Buendpolis ou de Montes-Claros — e forte com frieza, um vento que zune nos altos das chapadas do Ge- ras, e judia com a gente nas estradas, e corta: viajor, i até von- tade de chorar. Manuekiio mesmo pensava, carecia de se des- fazer da dele, jd velha, de baeta azul-clara, comprar uma capona gaiicha, honrosa, Mas — imaginava — aqueles jé estavam che- gados ali, no tinham preciso de ficar com os balandraus nas costas, Nio eram o padre. Até ofendia aos pobres, que nem no tinham direito com o que se cobrir, com bom pano. Bom, mas que nio se usava mais, era o cavi, como o do senhor do Vi- lamio: jeitoro para se montar a cavalo, porque se abria bem; tinha © mantelete por cima, a capeta de abrigo, que se enrola- va nos bragos. Desde menino, Manuelzio sempre curtira von- tade de ter um cavii daqueles, mas que nio era vestimenta para ‘gente pobrezinha, nem o pai dele Manuelzo nunca tinha con- seguido possuir um. Agora, que ele para isso conseguira di- aheiro arranjvel, nio adiantava nada, porque 0 cavi nfo exis- ‘tia mais, de nenhum jeito, para se comprar, nem costureira nfo fazia, mem alfaiate em cidades. Sé 0 senhor do Vilamio era quem ainda aleangava competéncia de usar um, seu dele, resguardado em to rica velhice, o derradeiro cavour que nesse mundo s0- brara, E Manuelzio se extremava, achava nobre gentileza em in. sistir com eles para se porem 4 vontade, tirarem os agasalhos, que ld dentro tinha guardado onde se dependurar sobretudos. Davam demais na vista. ‘Nem também nio era hora de vaqueirama chegar cantando abbio, em véspera de festa ndo se trabalhava. Tinha dado ordens. Quem era, quem, gritando assim, de ecba-cio? Boiada chega- ‘ya? Nio, boiada nenhuma, s6 o Simio Fago, mais seu irmao Je- nufrio, e outros, voltando daf de rumos, depois de semana. Va- diavam. Traziam gente de fora. —"Eh, Manuelzio, jé foros, ji viemos..."Tinham conhecido, de companhia, um siticiro abas- rado, chamado seoVevelho, com seus filhos, tocadores de misi- ca. Esse homem arribava de longe, passou 0 rio, com sua comi- tiva, muito em cima, no Porto-do-Pontal-do-Abacté. Viera, por precisar de festa. Traziam seus mantimentos, no incomo davam: — “Refi, refiro...”“— Pois & 36 se chegar, patricio amigo, vosmect com seus rapazes. Fico muito satisfeito.. A fes- ta é da Santa... Aqui tem bebidas déces ¢ bebidas bravas...”Ah, todo 0 mundo, no longe do redor, iam ficar sabendo quem era ele, Manuelzio, falariam depois com respeito, Dai por mais em diante, nas viagens, pra Hi do mais pra la, passaria numa fazen- da, com seus homens, ¢ era a fazenda de um tal, ou filho dum tal, na quebrada dum morro, e o dono saindo na boca da estra- a, para convidar; — “Viva, entra, chega p'ra dentro, Ma- nuelzio! Semos amigos velhos, Eu estive li na sua Festa...” Di- nheiro era para se gastar. Sua mie, saudosa velhinha, amelhor das de lé no Céu, havia de estar gostando, de muito aprovar. Era a festa dela, Aquele dia, ela estava juntinha com Nossa Senhora. E esses dois, Simio e Jenusrio, por que tinham tido de demorar assim tanto, em animais bons, sos de sade, com paga na al- gibeira? — Manuelzio, a gente nio puderam vir antes, este seo Vevelho dava testemunha: um boiadao que chegara ¢ esbarrara, Joke Guimankes Ron pra travessar o rio, trés mile seiscentas cabegas, boiadama dis- mensa, cortada em doze golpes, trés mil e seiscentas reses, pra jogar n'dgua, na barra do Abaeté. nto até pediram ajuda, pa- garam bem. Gado do Uructia e gado goiano, dois boiadées que se tinham ajuntado, amor de viajar juntas, ld por entre o Coto- velo e a Forquilha, pra cf de Fréis. Tinham pedido ajuda. Cinco donos compradores diferentes esperavam, com seus automé- vais, na barra do Abaeté. Depois de atravessar o rio, iam repartir © de cada urn, Tinham pedido ajuda, Mas os vaqueiros deles ti- nham ido adiante, no Porto-Boi e no Porto-do-Cavalo, beira do Paracati, encontrar com os outros, receberam 0 gado todo. Os vaqueiros do Goids pegaram seu dinheiro ganho, fizeram os si- nais-da-cruz ¢ deram a despedida, botando os cavalos para tris, voltando pra suas longes terras. A mogama do Uruciia, tam- bém, Contaram que com esses estava o vaqueiro Uapa —o rei de todos, montado em seu mais bonito alazio, Tinha mais trés outros cavalos, ¢ todos obedeciam a ele, afalados, amadrinha- dlos,,sabiam 0 querer de scu assovio. Tecios cavalinhos bons, fi- Ihos de cavalos ¢ éguas de Sio Romo, cada qual mais faceiro, de crinas finas, Aquilo, cle tocava, montado num, ia cantando, a cara dele lumiava, 0 cavalo agradecendo; ¢ os outros cavalos dele galopavam, vinham li de trés, para em volta dele, num con- tentamento, pediam para dansar, até rinchavam! Boiada em que ele entrasse, nio dava trabalho. Todo fazendeiro queria ter em sua fazenda ao menos um campeiro que ja tivesse compa- nheirado algum tempo com o Uapa. Mas, tinha coisas, ld de suas certas, que ele mesmo aos outros nao podia ensinar. Os goianos falavam pouco, voltaram todos, da beirada do Paracati; eles ¢s- tavam com saudade das casas. Boiadio desconforme. Enchiam as varzeas, os bois todos andando, p’r'acolé, p'r’acoli, nunca se ouviu berraria tao bonita. Semelhava que iam comer para uma vez 0 capim dos pastos, rapar o verde dos campot, Estercavam 0 sertio todo, Na tombada de um morro, inda do lado de li, mas depois de esbarrarem, a gente veio dar ajuda. Ea apartagio final. Diziam esse Uapa tivesse podido vir acompanhar, entio nem se carecia de ajuda, Uma fartura duma beleza. Hora in- teira, o gadame pastando, nfo se acabava. E esse senhor fazen- deiro, seo Vevelho, ¢ 0$ filhos, ficaram na beira da portcira, tocando 0s instrumentos. Seo Vevelho tocando a sanfona. Boi berrava, ado berrava, ¢ passava, escutavam quietos, sem toda tristeza. Os filhos de seo Vevelho com 0 bandolim ¢ a viola. Boiada e mais boiada e mais boiada — passava adiante. © mun- do grande! Mineréis, mirigdisl... Até a gente. Manuelzio, como os dois campeiros escutava, nao conscguia ser mais forte do que aquelas novidades. — “Estorial” — cle disse, entio. Pois, minhamente: 0 mundo era grande. Mas tudo ainda era muito maior quando a gente ouvia contada, a narrasa0 dos outros, de volta de viagens, Muito maior do que quando a gente mesino vajava, serra-abaixo-serra-acima, quando a maior parte do que acontecia era cansativo e dos tristonhos, tudo tra- batho empatoso, a gente era sofrendo e tendo de aturar, que nem um boi, daqucles tangidos no acerto escravo de todos, sem soberania de sossego. A vida nio larga, mas a vida nfo farta, SO se feito 0 Jodo Uriigem, revertido ao sempre, cabelama caindo pelos ombros, o uit, s unhas. Para esse 0 tempo podia passar, aque nio adiantava. Quieto num canto, virado bicho. Mas um existir assim os olhos dos outros nao mediam. Ele, Manuel J. Rofz, vivera lidando com a continuagio, desde o simples de ‘menino. Varara nas iguas. Boiadeiro em cima da sla, dando al- tas despedidas, sabendo saudade em beira de fégo, frias noites, nos ranchos. Até para sofrer, a gente carece de quietagio. Para sofrer com capricho, acondicionado, no campo de se rever. Via- Joko Guimankes Rosa geiro vai adiando, $6 0 medo da miséria do uso — um medo constante, acordado e dormindo, anoitecendo, amanhecendo, J& o’pai de Manuelzio tinha sido roceiro, pobrezinho, no Mim, nna Mata. Todas terras tio diferentes, tio longe daqui, tao dife- rente tudo, muita qualidade dos bichos, os paus, os passaros, ‘Mas o pai de Manuelzio concordava de ser pobre, instrufdo nas resignages; ele trabalhava e se divertia olhando s6 para 0 chio, ‘em noitinha sentava para fumar um cigarro, na porta da chou- pana, e cuspia muito, Tinha medo até do Céu. Morreu. De desde menino, no buraco da miséria, Divisou a lida com gado, transitar as boiadas, Mas, agora, viera bem chegado, &- «quele aberto sertio, onde havia de se acrescentar, onde esque- cia 0s passados. “Ld é Crist e cd ist..” Tinha a confianga de Federico Freyre, era expedito no leal. Tinha vindo em oco: —"E desci ci p'ra baixo, como se diz, como diz 0 negécio: pe- indo ¢ roubando,..” Mas ali trabalhava, lei de seu bom sentir. E prosperava, —"Nés jé espichemos por af uns duzentos, trezen- tos rolos de arame...” Mais havia de redondear aquilo, fazenda grande confirmada, Cerca de arame de trés fios; ¢ levavam ga- do, Com a banda béa da sorte. Sorte: a Capelinha e esta Festa davam a melhor prova! Sertio, © lugar era bonito, O ctu subia mais ostentoso, mais avistado do que na Mata do Oeste, azuloso com uns azinhavres, ali 0 céu parecia mesmo o Céu, de Deus, dos Anjos. E o pasto reinava bom, sem carrapator, sem moscas de berne, sem pra- gps.Ao bater daquela enorme luz, oar um mar seco, Em setem- bro ou outubro, o gado aqui estava mais gordo do que no Maquiné; porque os fracos, mesmo, morriam logo. O frio se engrossava bom, fazia para a saiide. E 2 gente, bom povo. Nao falavam mole, como os do Centro, nem assurdado remanchea- do feito os do Alto-Ocste, sua terra, Falavam limpo duro. Eram diversos. Povo alegre, ressecado. Manuelzio era que, no meio deles, as vezes se sentia mais capiau. E, no comego, ele mais sua meia-dizia de pessoal trazido do Maquiné, quase que muita coi- sa nio entendiam bem, quando aqueles dali falavam. Linguajar com muitas outras palavras: em vez de “segunda-feire”, “terga- feira", era “desamenha é dia-de-terga, dia-de-quarta", em vex de “parar”, s6 falavam “esborrar"— parece que nem sabiam o que & que “parar” significava; em ver de dizerem “na frente, li, ali adiante”, era “acold’, e “acold-em-cima”, €“p'r'ocolé”,e “acoll,p'' col —quando era para tris, ou ali adiente de lado... Estimavaro por demais o nhambii, passaro que tratavam com todo carinho, que diziam assim: “a nhambuzinha”,.. Gente de béa razio, seja com o chapéu-de-couro seja com chapéu de seda de buriti — cles no se importavam muito com as maldades do tempo. Manuelaio nos usos deles jé se ajeitava. Aquele poder de gente, por ali, chegando, para a festa, todos o olhavam com admiragio aspecto, Mundo grande! Mas, ainda muito maior, quando a gente podia estar em sua casa, ¢ os outros vinham, empoeira- dos de sete maneiras, por estradas sertanias — e pediam um café, um gole d’dgua, Cada um tinha visto muita coisa, e s6 con- tava o que valesse. — "Ld chore, e cd corre..."A gente mesmo, na estrada, no acostuma com as coisas, nio dé tempo. Para bem narrar uma viagem, quase que se tinha necessidade de inventar a devogio de uma mentira. E gabar mais os sofridos — que de si jf eram tantos. —“Eh, mundao! Quem me mata é Deus, quem me come é 0 chao!..."— como no truque. Arre, o ruim, o duro da vida, é da gente.’Nio se destroca. Tudo tinha de ir junto, Como no canto do vaqueiro: "— Ew mais 0 meu companheiro vamos bem emporelhados: Jodo Garmantes Roca eu me chamoVira-Mundo, ¢ ele é Mundo-Virado...” Que nem o velho Camilo, até vinha 3 idéia. Por que era que ele, Manuelaio, derradeiramente, reparava tanto no velho Ca- milo? Quem dir, afora mesmo ele, somente 0 velho Camilo es- taria advertindo em sua mie, senhora, enterrada ld no alto, pe~ ‘gado a capelinha — mas a alma dela, seu entender de tudo, parava era no Céu, Embora, sentimento por dentro, que Manuelzio pensava, era 0 de um sendo-sucedido estirrdio: que esse velho Camilo, no disrio dos dias, ali na Samarra, se pertencia justo, criatura trivial; mas, agora, descabido no romper da festa, ele perdia o significado de ser — semelhava um errante, quase um morto, Porque, assim, clareada uma festa, o velho Camilo se de- ‘monstrava a pesséa separada no desconforme pior: botada so- zinha no alto da velhice e da miséria, Para lé, para a Capela, e parecia até que para o Céu, partiaa procissio noturna, formada em frente da Case, demoradamen- te, ¢ subindo, ladeira arriba; concisns caminhavam. A lua min- ‘guava, mas todas as pesséas seguravam velas de sebo, Uma das filhas de Leonisia c Adelyo, menina mais velha, vestidinha de branco, toda francesinha, se divulgava de mais longe, carregava, a imagem da Santa. la perto do padre. Ninguém ainda nio sabia se aquela imagem tinha destino de ser Santa milagrosa, nem se ‘ lugar da capelinha dava para prestigios. Era o que 0 povo pe- dia, De li da frente — jé a distincia de uma pedrada de Ma- nnuelio— uns inventavam um canto, ensinado por Chico Bria- béz, o preto da rabeca. Chico Braabéz, que tinha feigies finas de mouro, nariz pontudo, Ele recendia a aguardentes, mas ti- nha muitas memdrias: as misicas, as dansas, as cantigas, Os ou- tros acompanhavam, sustendo, 0 coro estremecia aquela tis- teza corajosa: —“... A Senhdoora do Socééo-rrit..."—; 0 restante era um entéo sem conseguidas palavras. Até os cles vinham la- deando, disgramados, sarapulando, escrapulando, em confusio de correria, Passou-se resvés de um curral, donde se escutava © sopro surdo dos zebiis, o bater de suas imensas cartilagens. Embolavam as cabegas, no escuro, num rude aconchégo. Chei- ravam a fazenda enriquecida. Gado apartado, i-mio, para se su- prir na boiada somante. ...d Senhora do Socérra... Quando s terrompia o cantar, os cachorros zangados latiam. Dal os grilos enchiam com seu grilirfu os espagos. Ladeira acima, 10 corpo da noite, a dupla fila de gente, a voz deles, todos ado- rando 0 que no viam. Primeiro as mulheres, em seguida os homens, as chamazinhas tremeleiando, © cortejo ia aos altos, trangando as curvas. A poeira sala da escuridio, correndo uma neblina amarelada. Assim aquela procissio, ela marcava o prin- ipio da festa? Mas Manuelzio, que tudo definira e determinara, no a tinha mandado ser, nem previra aquilo. Quem entio ima- ginava o verdadeiro recheio das coisas, que impunham para se executar, no sobre o desenho da ordem? Nao embargando que ele Manuelzio fosse acolé adiante, acelerado, nem se importa- va que 0 pé doesse, mas devia de vigiar o seguimento de tudo, E agora tinham esbarrado, para o padre baixar comando. Uma mulher carregava no colo uma criancinha toda nua, sé trespas- sada no peito uma fita azul — por devota promessa. No frio apertado da noite, a menininha esperneava, que nem sabia falar, choramingava. A momento, encostou a miozinha no fogo da vela que era da mle, se queimou, rompendo um choro mau. O povo cantava, a mie da meninazinha cantava, Rogavam para o rugoso Céu, com estrelas, mas cheio de sobrolhos, se serena do na estrada-de-santiago. Manuelzio se retardava para tris, deixava que seguissem sem ele, Retomava seu posto, na culatra entiio, Joho Guimankes Rosa — conforme cumpria nas boiadas — os costumes de respon- sabilidade. Pudesse, sem falta de respeito, ¢ ele teria vindo a cavalo, para se saber, para sentir aquilo melhor. Arrastava um pouco a perna, arfava um pouco, Chegava-se 4 Capela. Sem nin- sguém mandar, s6 somente, cada um ia colocando sua vela act- ssa no topo de cada mourio do cemitério, Tudo alumiava. En- toava-se o Bendito. Louvado Deus seja, que sé tira de mim, sb me di o porfim. Manuelzio se apressava adiante, por ali, de es- tabana mas se precatando — o inflamado do pé dofa um pouco, nele no esbarrassem —; carecia de estar perto do padre! O povo the dava caminho, & sua altura, a sua pess6a. © povo espe- rava, inteiravam a festa, a festa eram essas necessidades. ‘Mas, sob um sibito, Manuel2io nio queria, nfo podia entrar no estreito da Capela: ele estava afrontado na boca dos peitos, aquelas énsins. Arquejava, da subida? Tomou félego. Nao, nada no de ser, As més idéias passavam, Sé — quem sabe — no se- ria mesmo melhor ele renunciar de sair com aquela boiada grande, que iam pér na estrada, logo uns trés dias depois da fes- ta — para a Santa-Lua, Aconselhivel era deixar de lado a opi- de orgulho, ¢ voltar atris no arrazoado com o Adelgo, mman- dar 0 Adelgo ir em seu: lugar. Enquanto isso, ele ficava ali em Casa, em certo repouso, até a sade de tudo se desameacar. Po- dia? Ah, mas nisso, consigo mesmo nao concordava. Sade béa, de sempre; s6 que, nos derradeiros dias, ele tinha dormido pouco, pensar em todas as minticias da festa deixava a gente nu- manervosia. Sabor disso, de rogar ajucla e voltar atrés num tra- to, ele a0 Adelgo nao dava. Onde era que 0 Adelgo se amoita- va, naquela hora? Nao devia de estar dentro da Capela, com 0 padre, 0 sacristio, Leonisia, o senhor doVilamio, seo Vevelho ¢ 0s filhos, as outras pessdas de primeira vantagem. O Adelgo era © contririo da festa, Mas a festa se merecia. Por ora, hoje, ain- da cra véspera. Mas, amanhi, com a missa, a festa em verdade ‘comerava, Para respirar mais a solto, e descansar o pé, Manuel- 220 se afastava um espago do resto do povo, Enternecia um pou- co, assistir is chamas saltantes, que aguentavam a aragem, nos aus da cerca do cemiteriozinho, Manueldo néo o procurara ‘ver: mas, luz, redonda, de uma daquelas velas, a cara do ve~ Iho Camilo se descobria, dobrada sua palidez, diferido. Sem ser forte, mas com voz conhecivel, ele também cantava. Nem era de nio se saber que cle podia cantar e competia, Por si, 0$ assuntos — que era s6 alguém pedir, ¢ ele desplanta- va de recitar, em qualquer dia de servico, ali no eirado, 3 beira de um cocho: — “0 bicho que tem no campo, o melhor é sariema: que parece com as meninas, roxeando as cor morena...” Sempre nio sorria, nunca, ¢ mesmo rir nio ria; teria constantemente receio de que 0 tomassem por menos. Repetia ligeiro as coisas de- moradas: — “Suspiro rompe parede, rompe peito acautelado; também rompe coraro, trancado ¢ acadeado...” Um que ouvindo, glosava: —"Isso ele decifra de ida...” Mas nlo-tirava de idéia, no, no desinventava. Aprendera, em qualquer parte. Aqui e ali, pegara cessas lérias, letras, alegres on tristes, pelas voltas do mundo, es- sa5 guardara, mas como tolas noticias, —“Al rem um ropazinho, calga preta, remendada: & bestagem, rapazinho, que aqu! néo arranja znada!..."Por umas ¢ outras, em nenhuma nio se sentia que elas assoprassem da lembranga cenas passadas, que fossem s6 dele, velho Camilo — que jé tinha sido mogo, em outras terras, no meio de tantas pessbas. —“Minhe cabepa té doendo, meu corpo doenga tem. Quem curar minha cabega, cura meu corpo também...” Aquilo era como se beber café frio, longe da chapa da fornalha, © velho Camilo instrufa as letras, mas que no comportava por den- tro, nio construfa a cara dos outros no espelho. $6 se a gente ‘guardasse de retentiva cada pé-de-verso, entéo mais tarde era que ASTIN ace rac