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© mesmo tempo em que coloca NOVO questionamentos, a obra de Pierre Bourdieu fOIniGell respostas originais, renovando o pensamento sOCglOgiem sobre as fungdes ¢ o funcionamento social dos Sian: de ensino nas sociedades contemporaneas, @ SO Mh relagdes que mantém os diferentes grupos socials CHIN escola e com a saber. Conceitos e categorias aniallleal por ele construidos constituem hoje moeda corel Ui) pesquisa educacional, impregnando, com seu alte POGmE explicativo, boa parte das andlises brasileiras SOD a condigdes de producao e de distribuicao dos bens culturais e simbdlicos, entre os quais se incluem’ obviamente os produtos escolares. Este livro foi organizado com o intuito de oferecer, Wit lingua portuguesa, a um piblico de pesquisadores, estudiosos e especialistas em educagao, uma selegh He alguns dos mais importantes escritos do autor em mall de educagao e de ensino, que ainda nao estavam disponiveis em nosso pai publicados originalmente na revista Actes de la Recherelil en Sciences Sociales, criada por Bourdieu em 1975, 6 ali hoje por ele dirigida” boa parte dos quais Maria Alice Noguallll Atrénio Catan) EDITORA ISBN 978-85.326-200800 so TIN om N75 8532020548 PIERRE BOURDIEU ESCRITOS bE EDUCACGAO OVSVINGA 39 SOLINDSS ° a = 2 S b oluenpy ‘e11anBoN 2: Orqaninagdo: MARIA ALICE. NOGUEIRA ohm RANIO'CATANI = 14}. [ale@rs me bsp Ir “Bspera-se do socidlogo que, A medida do profeta, d& respostas tltimas © (aparentemente) sistemdticas fis questiies de vida ou de morte que se colocam no dia- a-dia da existéncia social, E Ihe € recusada a fungio, que ele tern direito de reivindicar, ‘como qualquer cientista, de dar respostas precisas & verificéveis apenas as questdies que esti em condigdes de colocar cientificamente: quer dizer, rompendo com as perguntas postas pelo senso comum € também pele jomnatisme, Nao deve entender-se com isto que ele devia assumiro papel de perito ao servigo dos poderes.,. Doravanic, a sociologia estar tao segura de si mesma que diri aos politicos que no podem pretender governar em nome de universos dos quais ignorem as leis de fimncionamento mais, clementares.” Pierre Bourdien CoLECAO CaBNCIAS SociAIS DA EDLCACAO. Coordenacores: Maria Alice Nogueira @ Léa Pinko Paixao = Osujelto do educagao “Temaz Tad de Siva (org) = Neoliberalismo, qualidade total « educagdo Tomaz Tadeu ds Siva e Pablo Gentil igs) Teoria critics ¢ educagéa Bruno Puce ora.) Curricula ~ Teoria € historia Inor F. Goodsen, ~ Fsoritos de educagio Maria Alice Noguera e Afrénio Catan fogs.) ~ famia e escola - Trajet5rias de escolarizacéo em enmiadas médias & populores ‘Mata Alice Noguota, Geraldo Romanelli o Nediv Zago forge) A excolarteagdo das elites ‘Ana Mata Fonseca de Atmeida ¢ Maria Alice Nogueta (orgs.) omen pital - Or deteninantes da aco [gy Coan Bomard Lahire ao Tombe ne 4 153 Gls 22055-4 Cutter CEG 4 Seas aaa = rrago_BE uk vel Dados Internacionais de Catalogacio na Publieagio (CIP) (Camara Brasileiva do Livvo, SP, Brasil) Eserilos de aducagie / Meria Alles Nogueina ¢ Alrinio Catan (organizadores), 9, ed, —Petrépolis, il: Vozes, 2007. — [Ciencias socials da educagac), ISBN 978-85-326:2053-8 1, Educagio 2. Sociolagia eckieacional 1. Catani, Airénio, A. Nogueira, Mavia Alice, UL. Titulo. IV. See 96,0345, €Db-370.19 Inleos para: dogo sstematice 1, Seciologla educactonal 370,19 PIERRE BOURDIEU ESCRITOS DE EDUCACAO Seles, organizagao, introducio e notas ‘Maria Alice Nogueira, ‘Afrinia Catan y EDITORA VOZES Potrépolis Pierre Bourdieu © 1998, Editora Vozes Lida, Rua Frei Luis, 100 . 25689-900 Petrépalis, RI Internet: huep://wwrw, vozes,com.br Brasil Todos 0s direitos reservados, Nenhura parte desta obra podera ser reproduzida ou transritida por qualquer jorma ¢/ou. quaisquer meios (dletronico ou mecinico, ineluindo fotocopia e gravacSo) out arquivada etn qualquer sstema ou banco de dados sem permisséo eseria da Eaitora “Et ouvrage, publié dans Je cadre du prograrmme de participation a la publication, bénéficie du soutien du Ministére frangais des Alfeires Etrangéres, de I'Ambassade de France au Brésil et de la Maison Francaise de Rio de Janeiro.” “Este livro, publicado no ambito do programa de parlicipagao a publicagao, contau com © apoio do Ministerio francés das Kelacdes Extericres, da Embaixada da Franca no Brasil ¢ da Maison frangaise do Rio de Janeiro’. Editoracdo ¢ oro. titeréria: daime Clasen Cape: Susana Cellegari (SBN 978-85-326-2053-8 Este lvro foi compasto e impresso pala Falitora Vozes Ltda Sumario Uma sociologia da prodhgio do mundo cultural 2 escolar (Maria Alice Nogueira e Afrénio Catan), 7 Preficio: Sobre as artimanhas da raeso imperialista, 17 1. Método cientifico @ hierarquia social dos objetos, 33, I A escola conservadera: as desigualdades frente a escola e a cuitura, 39 Ill, © capital social ~ notas provisdrias, 65 IV. Os trés estados do capital cultural, 71 V, Futuro de classe 2 causalidade do provavel, 81 VIO diploma e 0 cargo: relagbes entre o sistema de predugao @ 0 sistema de reprodugio, 127 VIL Clascificacao, desclassiticacao, reclassificacéo, 145 VII. As categorias do juizo professorel, 185 IX, Os excluidos do interior, 217 X. As contradigées da heranga, 220 XI, Medalha de ouro do CNRS 1993, 239 Anexo I: Quadro comparativo dos sistemas de ensine ~ Brasil/Frange, 249 Anexo Il: Significaclo das sialas, 251 taynnet one Usa SOCIOLOGIA DA PRODUCAO, DO MUNDO CULTURAL E ESCOLAR IAA cists du 60 yore ser exhale Sa Oe ae Gi@ncias sociais francesas: 1m acelerado processo de desenvolvimento, expresso sobretudo na ampiiagéo do namero de pesquisedores @ no exescimento do volume da produgio cientifica, levou ao aparecimento de ppensadores como Pierre Bourcleu (1930), cujo nore Gesponta iniciaimen- te como criador, em 1967, do Centro de Sociologia da Educacio ¢ da Ctura (CSEQ, sendo autor, juntamente com Jean-Claude Passeron, do livo Les Héritiers (1964), ume des principais fontes inspredoras dos estucantes universitarios tebeledlos em malo. de 1968," Destle entao, as andlises dle Bourdieu decicadas & sociologie de educegio ¢ da cultura ‘marearam getagées de intelectuais e canharam rapidamente natoriedade nacional e internacional ‘Ao mesmo tempo en que colocava noves questionamenios, tia obra fomesia respostae originals, eenovando © pensamento sociologico sobre as fungces ¢ o funcionamento social dos sistemas de ensino nas sociedades eontempordineas,e scbreas relagSes que mantém os diferentes grupos socials com a ascola e com o saber. Conceitns e catagorias analicas por ele cors- {nutdos, constituem hojemoeda comenteda pesquisa edicactonal, inpregnane do, com seu ako poder explicativo, boa parte das andlises brasleras sobre as eondigbes de producdo e de distrbuicao dos bens cukurais ¢ simbeliecs, fentre os quai 3¢ inchiem obvia mente os produtes escolar, Esie lio fol organizetlo com o intuito de oferecers em fingue porte guesa, a um pitolico de pesquisadores, esiurliosos e especialistas ern ecli- eacdo, uma selecao de alguns dos mais importantes escrtios do autor emt ‘matéria de edacagdo € de ensino, que ainda nio estavam disponivels ert 1. Raynor Aros exereva que re de Benin @ te Paseo. Les Herter. mouse yor "sin oe ten vo de absceiydox etude ce main ct Memes tad, Cau Aes Vall Ris de lane, Nove Front, 2, 1986. 621 ‘nosso pais — boa parte dos quai publicades originalmente na revista Acti de fa Recherche en Sciences Socicles (ARS), criada por Bourcieu em 1978, e até hoje por ele cirgida* Em se tratando de obra Jo extensa, era forgoso operar escolhas, 0 que provavelmente nao fizemos sem certa dose de arbitrariedacte, Guiou nos, enlrelento, a intengio de evitéle ao maximo € 9 propésito de selecionar na obra, inicialmente, aqueles momentos fortes do pensamento, ‘marcacios por textos que tiveram vasta repercussao e influencia na area, Um outro evtério levournos & opede por trabalhos que tentassem cobrir os diferentes aspetos da cuestéo educacional que ocupatn oautor, visando obter uma certa representatividade do conjunte do pensamento. ‘A dsposigo dos textos « partir da ordem cronoligica de pubiicagdo do nos parece corveriente, porque quebraria a saqiitncia temtica. A ela pra ferimos uma estratégia de apresentagio que os agnupasse segundo os diferentes aspecies da problemética de Bourdies no campo da educagio, Trata-se, pois, de textos redigidos em momentos diferentes @ em cistintos, contextos, 0 que toma no minimo amiscado falarse de urn corpus unificedo, Integram assim a presente coletanca onze textos precedidos de um prefacio do autor ¢ acrescidos dos anexos [ell que fomecem, respectivar mente, as equivalancias entre os graus ¢ as series dos sistemas de ensino frances ¢ brasilelo, © 0 significado das siglas educaciorais francesas que aparece nos textos “Método cientica e hierarquia sncial dos objetos” (1975) 6 um artigo de. abertura, especie de ecitoral, pubiado orginalmente no priveiro miner de ARSS. Para Bourdiou, a existancia nos campos de procugéo simbélica de uma hierarquia dos objetos legos, leatimavers ou ndigros ccnstturse em. uma das mediagSes por meio dos quais se impde a censura expecifica de um ‘determnaciocampo No sau entender, “a delinigao dmirante das coisas boas de se dizer e dos temas digoos de interesse € um dos mecanismmos ideologicos que fazem com que coisas tambsém mutto boas de se dizer no sam aitas @ com. que temas nao menos dignos de interesse no interessem a.nmguem, Ol 56 possam ser tratados de modo envergonhade ou vicioso". Ea bierarquiados objelos que, consciente ou inconscienternente, ovenia 10s inuestimentos intelecuais dos agentes, mediselos pela estnmura de operti- nidades de luero material € sinboico. Assim, os proculores que trabelham 2. Anco por sy fits» apie dae condioe de vcepro do chen cle Burt Bel 9 fang so se fs Lak Whesuane pars se Cason Udo, cm ello “Beta ares on heen hpurition of sacl hey” ta CALLIOUN, C, LIPUMA FE ePOSTONE M. larg! Boursien Creal Penpwciues, Cambs Fay Pes, 1993) Mas dsl a € piv stgee qu, ere mie wfc 0 mesmo fnmans do descorhark mero d> orn carts ce aries eveineasseliadas pes eoacraaes« elas Bourtios evactndas ra ronla Actes de i Recherche on Steneee Soto ‘wom objetos consileracos “desvalonizados" esperam de um outro campo a6 recompensas que o campo cientifice hes recusa de antemic, Apenas quatro anos antes de A Reproducéo, o artigo “A escola onsenvadora: as desigualdades frente a escola & cuitura” (1966) assinalou lume etapa decisiva nia exploragao das fungSes escolares de repradugao ‘ltural e de conservacéa socal Rompendo com as explicagses fundadss em aptid’es naturais e Individuals e ensejando ~ de moxio praticamente pioneira ~ a exitica do Mito do “dom", o autor desvenda es condicBes sociais e culturals cue Jermitram o desenvolvimento desse mito. E desmnenia também os meca- Inlsmos através des quais o sistema de ensino transforma as diferencas Ihielais ~ resutsdo da trensmissio formar da heranga cukural ~ em esigualtades de destino escolar. Nesse momentoda obra, j6 despontavam elementos que ido se revelar @uradouros no persartenio, conquanto tenarn side ulterormente melhor ‘osenvolvides ou mais rgorossmente demonstrados, Eo caso, por exem lo, da enfase conferia & relacao com o saber (em detrimento do saber ‘asl mesmo} comic uma das caracterstcas principsis da teoria bourdicusiana. ‘Os educandos provenientes de familias cesprovidas de capital cultial apre- ‘wentardo uma relagao com as cbras de cultura veiculadas pela escola quetende ter Interessada, Iaboriosa, tensa, esforgada, enquanto para of indisdvos ‘Orlgindrios dle meios culturalmente privileglados essa relacao esta marcada dictantismo, docenvotura, clagincia, facllade verbal ‘natural’. Ocorre be, ao avabar 0 desempenho dos alunos. a escola eva em conta sobretido © comclente ou inconscientemente ~ esse modo de aquisigao (e uso) do fabier 08), em catras palavras, essa relagio com o sabar © Os tras estados do capital cultural” @ “O capital social ~ notas pro: las” opareceram em ARSS, respectivarente, ern 1979 @ 1980. Sao fandamontais para a compreensao dos esquemas explicativos senvoividos por Bourdien, Ele formulcu 0 conceito de. capital cultural, ia dar conta da cesigualdade de desempenho escolar de crlancas jinclas de diferentas classes socials, procurando zelacionar o “sucesso lon” (sto &, os beneficios especificos que as criengas das diferentes losses © fragées de classe podem obter no mercado escolar) com a infouleao desse capital expecfico entre as classes ext frages de classe I jostira significa “ume raptuta com os pressupostos inerentes, tanto & Wino comm que considera 6 scesso ou fracasso ascolar como eleilo das “piidoes’ naturais, quanto as teorias do ‘capital humano™ O capital cuitural existe sob tres formas, a saber: a) no estado in- ‘eorporado, sob a forma de disposigces diséveis do organisa. Sua §¥tulnulagaio esta igada ao corpo, exigindo ineoypoxagéo, demanca terrpo, Jeupdeum trabalho de inculcagao e assimilagdo. Esse tempo necessixio dove ser invostido pessoalmonte pelo receptor ~ “tal como 0 bronzeamen 9 to, essa ineorporacio nao pode efetuar-se por procuracto”, bIno estado objetivade, sob a forma de bers aulureis (quadlos, lives, dicionsrios, instrumentos, méquinas), transmissiveis de maneira relativamente instan- tanea quanto & propriedade juridica. Todavia, as condicoes de sia apro- ppiagio especfica submeter-se és mesmas leis de transrriseso do capital cultural em estado incarporado: c) no estado institucionalizado, consol ando-se nos titulos ¢ cerificados escolares que, da mesma manera que fo dinheiro, quardam relativa independéncia em relagdo a0 portador do titulo. Essa certidac de competéncia institui o capital cultural pela magia coletive, da mesina forma que. segundo Merieau-Ponty. os vivos instituem seus morlos através dos titos do lnto’. Por mein dessa forma de capital cultural & possivel colocar a quesido das fungdes socials do sistema de censino e de aprender as relagdes que mantém com 0 sistema econdmico, © capital sociel &, pare Bourdieu, o conijunto de recursos (atuaie ou potenciais) que esto ligados a posse de uma rade chravel de relagoes mais ‘ou menos institucionalizades, em que os egertes se reconbecem como pares ov como vinculados a decerminadals) grupois). Tais agentes 380 dotados de propriedades comuns e, também, encontranse unides alraves de hgagées permanentes €tteis, Assim, 0 volume do capital social que um agente individual possui depende da extensao da rede de retacoes que pode ou consegue mobilzar e do volume do capital (econémico, cultural ou simbélico) que é posse exclusiva de cada um daquieles a quem esta ligedo, Bourdiaat escreve que a repreducéo do capital social @ trintavia de Ansttuicoes que visam fevorecer “es trocas legtimas © a exclalr as trocas flegitimas, preduzindlo ocasiies (rallyes, cruzeivos, cagadas, saraus, recep: oes ete), hugares (baitros chiques, escolas seletas, clibes etc.) ou praticas fesportes chiques, jogos de sociedade, ceriménias culturais ete.) que einem, de maneita aparentemenie fortuta, incviduos 140 homogeneos quanto possivel, seb todos os agpectos pertinentes do ponte de sista da oxisténcia 2 pertinéncia de: grupo: Talreproducéo paga trbuto,igualren- te, a0 trabalho de sociabiliade, de uma competéncia especfica eonheck mento das relagdes genealégicas e das igacées reais e arte ce utiliza), de um dispendio de tempo e de esforcos para manté-la ~ além, netural mente, de capital econdmico, “Futura de classe e causalidade do provavel” (1974) apareceu na Revue Francaise de Sociologie, sendo republicaco em parte no Ivo La Distinction (1979), No entender de Bourdieu, as prétices econdmicas dog agentes scciais depencem cas possibilidades cbjetivas com que se assegura © capital, em um dado momenio, a uma dasse especifica de agentes. Tal siuagéo & determinada pelas disposiches durdvzis, habitus, principio gerader de estratégias objetives. De manelra mais precisa, tals praticas econémicas “dependent da estrutura das possbilidades diferenciais de aproveitamenta que se olerecer a essa classe, levando-se em conta © volume ea esirutura de seu capital’, como taribém “a estrutura do sisterna 10 de estralégias de reproducto que uitlizam para melharar ou manter sila pposicao na estnutura socal” ‘A “causalidade do provavel” @ 0 resultado dessa especie de dialetica @mire © habitus, cujas antecipagses priticas repousam sobre toda e experiencia antetior, e as “signiticacdes pravaveis”, ou sea 0 dado que ee tome como percepgéo seletiva e uma apreciagéo obliga ios incicaclor os do futuro, Assim, “26 préticas aparecem come 6 resultado desse encontro entre um agente predisposto e prevenidlo, € um mundo presur ido, isto &, o tinico que Ihe & dado conhecer’. © sistema de estratégias de reproducéo pode ser definido como seqténcias ordenadas e orientadas de praticas cue todo grupo produr para eprocuzir-se enquanto grupo. Merecem desiague, dentre putras, para © ‘lor, a¢ estratégias de fecundidade, limitando-se o niimero de filhos.¢, ‘eonseqiiontemenie. reckizindo o ‘otal de pretendentes 20 patrimdnio; cu, tide, as estratésles indiretas de limitagSo de feeundidede, como © casa- mento tardio ou o edlibalo. As estratégios sucessérias tém por fim a ttansrisséo do patrmonio, com a menor possibiidacte de degradagao. de lina geracio a outra. As estrategias educativas, conscientes @ ineanseien: ls, sio investimentos de longo prazo que, em geral, nao séo pervebidas ‘eomo tais pelosagentes. Estratégias matrimeniaisexistem para assegurar f reproducso biclégica do grupo, tratando-se de evitar uum “casamento dlesigual’ e de prover, através da allanga com um grupo ao menos equ Valente, a manuiengao do capital de relagies sociais. As estratégias Ieoloaices, por sua ver, visa leqitimar os privilegios, naturalizandecs. Igso sem mencionarmos os estralégias propriemente econémices, de Investimenia social, profititicas ete © futuro de classe & determined pela velacio entie 0 patriménio {considerado em seu volume ¢ composig&o) ¢ os sisiemas dos instrumentos tle vepraducio. Nosso santo, os detentoros de capital no podem manter ia posicao na estrutura social (ou na de um dado campo, como por wemplo 0 artistico ou © juridiec) “senéo 20 preco de reconversées das “especies de capital que detém, em ontras especies mais rentaveis e/ou ‘Thais Jegitinas no estado considerado dos insirumentos de reptoducao", O texto “0 dlipioma e o cargo: relactes enire o sistetra de producto e 0 tibterma de reproduc" (1975), escrito em colaboragio com Lue Boltanski, {fol originalmente concedita como nota proviséria de trabalho, cus finaidade Glveria ser a se langar o clebate sobre urna série de hipoleses « tespeito das twhbes entre a sistema de ensino jo diploma) ao sstoma prositve [6 cargo}, {ema que na década de 70 mobilzava no apenas cs autores mas grande 8.61 BOURDICY, P., BOCTANSKE 1. SAIVEMARTIN, ¥. “As ett de rsonvene ines S30 € oer de enn I: DURAND, CG (Org) Educa e Hegemarta de (Classe a des eotfeas de escla Kode saveka, Zaks. 1979, 105176, Te Parle dos socidlogos da educagio franceses. Esse programa de estudos ‘eré prolongamenio no artigo “Classficagio, desclassifcagio, reclasslice, <0" (1978), \gualmente publicado na revsta ARS e posterormente treorporedo ao segundo capitulo do livro Le Distinction, No primero trabalho, os autores limitamse a focalzar a defasagem ‘esotente entre, de um lado, as transformagdes que alctam continurnens 4 @stnitura das protissées e, cle outro, a producéo de pradutores palo vstema ‘Scolar, qual, em razio de suas funges mais gerais de reprocugao socal fe ‘io apenas de reproduydo técnica ede sua autonamia rlatva, nao ee ohite Sendo de modo muito imperfeito as demandas do mercado de ttabalha, ossiblitando 0 fenémeno da “inflagda de diplomas" 6 ne astgo de 1973, Bourn estonde a andlice & exhatégles empre- gacas pelos dilerentes grupos socais para obter 0 maior rendimento poctivel de seus investimentos educativos ode seu capital escolar. Segundo a posicio ue ccupam no espaco social, es52s diferentes grupos travam, em tome do. diploma, uma verdadkia lta por aun classficaGio, para nao se desclaceicn, em ou para se redlassicarem. daclo que, com 0 mesmo rivel de diploma, ocupa-se postos cada vez mencs elevados na hierarauia octipaciorl Esso oleite de depreciagio relatva, ortundo da multipicagso do con: tlogerte de ciplomados, lova'a uma intensificacéo da utiizacao da escola, Por parte das categoria J4 ~ anteriormente ~ utlizadoras dela, @ a una Gesilisdo, nor parte dos novos utilendores, no que se refer as aspiragdas ‘que nutriam em relacéo as eredenciais escolares obiidas, E no sein destes Lltmes aque © processo de dewvalotizaéo faz sues miciores viimae, pois te, ei Geral, sé0 privados de cutras expéeies de capital (am partcular, © capital social), capazes de rentabilizar seu certiicado esccler. No artigo “As categoites do juizo professoral" (1975), examinando os Considerandos anotados pelos professores & mrangem dos trabalhios asco, lares de 154 elunas de flosofia de um cursa preparatério & Escola Nona Superior de Paris, nos enos 1960, Pierre Bourdieu e Monique de Sein. Martin constalam que tanto os julgamentoe mais favoravels quanto esnotag clovam se & media em que se eleva a posic8a social da elena, embora Drimeito elemento osteja mais fortemente cosrelaconado a origem social do quea nota Bem mals televante, entretanto, @ sua demonstracdo de que nada escape ao julgamento operado pelo dacente na hora de avaliar o predate do trabatho discente, Ac lado, ou para além, dos “cillerios internes"de nas esi at mas rabdho" wa vee Brame, ria doen eave des le Home Acaremsue Pat Mi, 1984), Bane se mass roo da nal a fla, “cal scar et ase ae oe cae evolves vis om eee dos ate, eis nop ease profes, poe xotge prtslres he catlig lores et, 216 2 avallacao de um determinado tipo de conhecimento (dominio do campe vocabulitio tecnico, entre outros), levam-se em conta, sobretudo, “criterios extemos" tais como: nostura comporal, maneiras, aparéncia fsica, diogac, sotaque, estilo da linguagem oral e escrita, cultura geral ete. Descudam o sistema de classiearao que orienta a apreciagao do mestre, ® quia se expressa através de uma “taxionomia proprlamiente escolar” que idstingue (e poe) qualicades supericres como britho, originalidade fineza, sulleza, elegéncia, desenvoltura, de vitudes inferiores ~ ou, até mesmo “negativas” — camo esfargo, seriedade, presiséo, modéstia, correcao, Mesmo se hoje em dia, maisde vinte anos apsés e publicaco desse argo, (95 sociblogos n8o mais se peinitem exxergar nos processos socials de avalagio escolar apenas 9 agéo inexorivel de um mecanismo, de uma ‘maquina declégica" de trarsformar heranga cultural em eapital escolar, do Impede que a imaginagio criadora ea demonstracio sociolégica dos autores conserve, até hoje, 0 ménito de ter decfrado as classificagCes escolares como, formas ce classiicacio social e. principalmente, a valor haurisioo de ter fmiueado ¢ nomeado o universe fino e sutlde elementos impiatas eocultos ue poveam a apreriacdo prolessoral. E preciso pois render a esse texto a coreligdo de picheito no terreno da sociolocia da avaliacdo escolar Bem mais recente, 0 artigo “Os excidos do interior”, publicado ore ginalmente em ARSS (1992), e reproduzido, um ano aps, no luro La Inisere du. monde (L993), trata da constitiico de novas formes de desigualdade eseclar, Se, alé fins da década de 50, a grande clivagem se fazia entre, de um lado, os escelarizades, e, de outro, 08 exchiidesda escola, hoje em dia ela opera, de modo bem menos simples, através de uma Segregacéo intema ao sistema eckicacional que separa os educandos segundo © ilinerdrio escolar, 0 tipo de esturlas, 0 estabelecimento de snsino, a sala de aula, as opgées curriculares. Exclusao “brenda”, “cont hua’, “Insensivet”, “despercebila" A escola segue pois excluindo mas hoje tla 0 faz de modo bem mass dissimulado, conservando em seu interior 0+ excludes, pastergando sua elminagéo, e reseivando a eles o$ setores escolares mas desvalorzados. Taher sea esse artiga de 1992, escrito em cohborsqio com Patrick Champagne, 0 texto que melhor deita ver a renovagao do pensamento dle Bourdieu no que se refete ao papel da escols. Das primeires obras dos anos @ a0 memento atual, @ andlse se atuaiza em fungao da nova conjuntura ‘escolar ¢ também ideoligica. Mas no renuncia ao riicleo da teorla: a escola permanece uma das instituigdes princinais de manutongao dos privilégios. De modo semelhante, 0 texto “As contradigées da heranca” (1993) ‘extraido do livre A Miséria do Mundo, propoe novas maneiras de aborday 15. Ln edo pala Vases, com tte: sre mad 197) © peso da instituigao escolar na vida dos incividuos, notadamente 0 pepel ue podem ter seus veredicics nos processos de transmissio da heranca farnilar, Seus efetos de mudanca nas posicbes e disposicdes dos agentes fncidem poderosamente sobre a construgéo cas identidecles indivicuas Numa perepectiva meis proxima da intimidede dos sujetes, @ autor reflete sobre as formas de “sofrimento social” que tém a familia ea escola em sua origem. Cita come situago exemplar 0 caso de pais originanios de meios desiavorecidos cuja relagéo com a escolaridade prolongada ¢ o sucesso esccler do filho € marcadla por uma forte ambivaléncia: a0 mesmo tempo em que desejam que este se diferencie dleles tomarclo-se alguém bem sucedida escolar @ socialmente, temem a inevitével distancia dos packdes populares ~ ¢ portant de si mesmos ~ que ial processo acarretaria para 0 filho. Cumprindo um destino de “trénsfuga’, este tikimo, por sua vee, enfrenta uma dilacerante contradicao en relacao a si mesmo: ter sucesso eulpabilica pois signilica tir suas origens: reruncier a ele também, pois representa decopeionar expeciativas pateras. “Medalha de ouro do CNRS 1993”, titime artigo desta coleténea, constiutse basicamente em um “texto de combate” em cue 0 autor realiza uma defeca apaixonada da sociologia, des sociélogos. do métier de sociblogo e das condicéies de institucionalizacao desse cigncia, em especial na Franga, Bourdieu agradece ao Ministro do Ensino Supertor e da Investigacdo pela léurea que Ihe Toi corferHlae, a0 mesmio tempo em que enfatiza que a socivlogta francesa é “universalmente reconheclda como tuma das melhores do mundo", cobra das autoridades “as vantagens sltmbélicas e materials” associadas a fal reconhecimento. Deiende a idea segundo a qual a scciologia deva ser sobretudo rellexiva, que tome a si prbpria por objeto, com o trabalho se desenvol vendo em equipes integradas ~ resultados dosca postura podem ser encontrades em Home Academicus (1984) € nas acbes que culminaram na edicéo de A miséria do mundo, na revista ARSS @ no seu suplementa internacional, Liber. Recusendo-se a “pregar ans converios", Bountieu merguiha na sociologia do universe centifico, perseguinco a “psicalogia do esphito cienifiea” preconizada por Bachelard, desvelarelo 0 invisivel, 0 naa dito, as censuras, a Jogica dos determinantes socials da exciuséo, dos comites de selegdo, dos critérios de avalio¢do, das condigdes socisis do recrutamen toedo comportamento dos aciministradores cientiicos etc. Fle vaidissecar a Logica inerente de um espaco social especifico, quer dizes, © campo cleniifco, situando © sociblogo em seu interior, “este pequeno profata privilegiado e estipendiado pelo Estado”, nas palavras de Weber, (Nesta sua fala de quase cinco anos aéras, Bourdieu faz a defesa do Estado ~ “que representa a inica liberdade diante dos constrangimentos do mercado” -, direcionanda sus artiharia conera a atual manoira de 14 proceder dessa estera, que cada vez mais pauta suas acdes e services em matérla de cutura, de cidnca oa de literatura, pela “tirania do maniceting, das sondagers, de audimat e de todos os ragistins” que se supéem legtimos face as expectativas do maior nimero, da quantficagao absolute’. Uma palavra deve ser dita, ainda, com relacao ao texto “Sobre as aitimanhas da rezéo imperilista”, publicedo criginalmente em ARSS (1998) e tendo coma co-autor Loic Waequant. Esta coletinea ja estava com todos os textos tradizides e nos encontravainos a espera do preficio de Bourdieu quando, em carta de meados de junho de 1998, 0 ator nos sugeriu que fosse esse trabalho, “de grande importéncla para socibiogos de diferentes paises", transformado no artigo inicial — sugestio que ineorporamos de imediato. Marta Alte Nayuera Alrinia Mendes Cotant Belo Horitonts - Séo Pauio Agoste1998 6. Ser, 0 rexel, ss lias Sur fa (lism Pari, Liber Eales, 2997) Cantre eux (Pars ‘Sou T8081 bers cra denned sus éeacbnamesta: ra arine ‘Aman inheral” is Mast Ratha de 8, Pio, 12/72 1998 Preracio: 7 SOBRE AS ARTIMANHAS DA RAZAO IMPERIALISTA. PIERRE BOURDIEU E LOIC WACQUANT Tradusdo. Guu tieas Joao ot Fatrins Text, Fesisdo teemee: MAA ALCL NOCLEEA Fan: Bout Pere © Rcquan Loi, “Sw les rss dela ‘aun lapse" yulesdo enckaumerie mn Aefos de lt recherche en seltnort. 122, mao de 1968p, 109-108, = Pars 12 O serine esa yep per donna a pt jsmi03 associados a uma trade histrica singuler, comando-os itrecorhect vieis com tas! Assim, lo mesmomede que,no século XIX, umn carte ntonero de questtes dita flosoticas debatdas como unversas, etm toda a Europa e para alérn dela, tnham sua origem, sogundo foi muito bem demorstrado por Fata Ringer. nas particiariades (e nos confitos) hisionicas propries do Universo singular dos professcres universtérios alemies’, assim também, bore erm dia, numerosos tépicos eriundos diretamente de confrontos intelectuais assucladas & pariculaidade social da socledace ¢ das universkdades america nas impuseram-se, sch formas aparentemente desistoriciodas, ac planeta inlexo, Esses fugares:cormuns no sentlo aristctdico de nogoes au de teses ‘com os quais se argumenta, mas sobre as quais nao se argumenta ou, por ao 6 ahs da antreniown + b nade € sis ets! Jo que a creerszo oo Mish OM Fas fo mun, ley dso. asemerssagto 11 Pat tr falar see, de sida ga Srecsemeni, 4 uretslaare de ura parc shox a 26 ula, mats mtandy, yar otros campos ¢ pales (perepaienie, a Frama dP. Bou, Do mpssatines Ge Tunverse” nC Fars eT Suap ed), kmeige dos Frngais Pas, FE Frm Ber, 192) Alor, The Declive of the Mandanos, Cntaidge, Conbrrhge Crier Fees, 136, at uttas palauras, esses pressupostos da discusséio que permanecem indis- catidos, devan una pate de sua forya de conviceéo 20 fato de que, cireulando de colieuios universtérios para livros de sucesso, de revistas semi-eruditas para relatoros de especialistas, de balangos de comssGes para capas de magazines, esto fresertes por toda parte ao mesmo tempo, de Berim a Toquio e de Milao 2 Mexico, sio sustentados e intermediados de tuma fona poderosa por esses especos pretersamente neutros como so ps organsmos intermacionais (tais coma a OCDE te os ceniros de estuxlos ¢ essessorie pera pultieas piblicas (tal como o Adam Smith Institute ¢ a Fendation SaintSman}’ A nautralizacio do contexto histirieo que resulta da circulagao inter- nacional dos textos e do esquecimento correlato das concigées historicas Ue origem produz uma universalizacio aparente que vem duplicar 0 srabalho de “tecrizacic”, Espécie de axiomatizagao fieticia bam feita para produzir a ilisio de uma genese pura, 0 jogo das definigoes previas e das edhigées que visam substitu a contingéncia das necessidades sociolégicas negadas pels aparéncia da necessidade lagica tende a ccullar as raizes historicas de um conjunto de questoes e de nocdes que, segutxlo 0 ceenipo de acalhimento, sexdo consideradas flosdtica. poltieas, Assim, planeterizados, rmundializados, no sentido estrtarmente geogralico, pelo desenraizarienta, a0 mesmo tetnipo que despaxticularizar dos pelo efeito de falco core que produz a conceitualizacdo, esses luga res-camiuns da grande vulvata planetaria transformacos, aos pouces, pela insisléncia miditice em senso comum universal chegam 0 fazer esquecer que tém sua origem nas realidades complexas e controvertilas de uma sociedade hist6rica particular, constituida tacttarente como modelo e medida de todas as coises, Eis o que se passou, por exernplo, com o debate impreciso € in consistente em torna do “multiculturalismo’, terme que, na Europa, foi uiizdo, sobretudo, para desqnar o pluralisino cultural na eslera civica, eG red que a icin dea MED Sasa eine bs point dente 2 jrtiada ete de A, Bloom The Cling of the Amery Mind Dawa Wor, Sie ‘Scout, 1967) tact etanrse om a moma ame ttesorrge LGBT} © parle erzavnclo do mia avtano neoconsenader fe bog?ab RReagnh mast do Manan etre D. DiSonz,Hlbee Eduoaton The Pals of Ro ted Ser on Carmpur Nova Yow The Fice Pres 1991), acts em fared cor 8 ila E'Educaion cone thx Nionon Pron, Gabe Cobia is Masenger) 1093. Um dor tncloves ines ura Kenta a Gtx or pcg esse tn Som eal coz peter plondana € a celedads, aakamerse inal. rom # el sto Fades © fubleadss fo exter trot, cm comprago cm as cs eae). Parana visio Fitna hecenjnn cor meso epcssenes pofeworss tists ameriaroscushne te urs nasete inno da felon eorsignes 2 "The Ametean Acne: Prfeshst 126 cater de 1997, ywinciones te. Clr, Sel Wile Difernt Woste TreUeigens tnd Tbs of Pxmacan Acidanic Pokeskns” p, 21-42. ¢ P Alec, “Aa teasoxal ‘Akademie Cos? he Aevean Pilesorate wn Compute Pespetve’ p. 1338 18 enquanto, nos Estados Unidos, ele remete és seqiielas perenes da exchisio dos negiose & crive da mitologia nacional do “seno americano", correlacio- nada 20 crescimento generalizado das desigualades no docorter das its has décadas’. Crse que 0 vocabulo “muticultural” encobre, confinando-a atic ¢ excusivamente a0 microcosmo universitério e expressando-a em Lum registro ostensivamente “énieo" quando. afinal, dla tem come principal ‘quesiao, nao o reconhecitnento das culturas rarainalizadas pelos cénones acodémicos, mas 0 acesso aos instrumentes de (rejprecluc&o das classes média ¢ superior ~ na primeira fila das cuais figura a universidade ~ erm umn contesto de descompromisso macigo e multiforme do Estado" Através desse exemplo, ve-se de passagem que, entre os produtos cultures cifundidos na escala planetivia, 08 mais insidlosos 180 si0 os teotias de aparéncia sistemtica (como a “fim da hist6ria” cua “globaliza- 0") € 08 vis6es do mundo filoséficas (ou que pretendem ser tais, como 0 posmedernisto"), no final de contas, féceis de serem identificedas, mas sobreludo deterninados termos icolaos com aparéncta téenica, tals como a “flexbildede” (ou sua verséo britanica, a “empregabsiade”) que, pelo fto de condensarem ou veicularem uma verdedeira flosofia do individwo e da organizacéo social, adaptam-se perletamente para funcionar ecmo vverdadeiras palavres de order polticas (no caso conereto: “mencs Estar do”, redueao da cobertura social e aceitagio da generalizagao da procario- dade salarial como uma fetalidede, inclusive, urs berelicic). Poderse-ia analsar também em todos os seus detalhes a nocéo fortemente pelissémica de *mundializagéo” que ter com eteto, para nde dizer fungdo. submergir no ecumenismo cultural ou no fatalismo econo~ rmista os efeitos do imperialism e fazer aperecer uma relacao de forca transnacional como urva nacersidade natural, No termo de uma revirevolia simoolia baseatle na naturaliza¢ao dos esquemas do pensamento neotioe- ral, cuja dominagio se impds nos Gitimos vinte anos, gragas ao trabalho de-sapa dos think tanks consewadores e de seus alados nos campos 4.0 Massoy H.Detmor, Ametiean puri arb, Descares eC, 1995, ong. de 2993) \Watzs Ethnic Gptane (Bekele. Unversity of Calms Press. 1930 DAL Henge Prsieihnic Amonco Nava Yovk. Base Saoks. 1905) 1 Heckech, Facing up ta th rears Race Cass and the Sot of the Navan Prbceten, Pion Une B34, amen anid cunganadorer guseber ee com tin, olsen eminent 1 anearago rocamdea Helens D. Lazer, Le Coe ue Fhsentiecrneesne: Dus ‘ting pot ov mteuttarame Pr, Faja, 1997) 5. Salva © Imperato de reanheriment edtu,C. Tan, Mutialtuatzrs, Beam oleie of Recogniom Prncstan DusetrsUriverty res, 1094) eos txts cl frente rT. Gers) Matcuturaion: A Crea Reade (contrge Blt {99st os ertravs bs exrarogas de prpeace ch fast ma os Esa Ue | cant, La gérdmsaton de estcuree sae en Amey etucrsins entrees sterseée eproducon oda a Actes le rachecheenscencessoies 11, denn $e 1986, 7. 65-79, 0 pati waar ch clase nce srwrcana bein det por Neuman, erlnirg Portanss tN Vers, Bose Books, 199, oT) poltico @ jomalistico’, a remodelagem das velagéer sociais © das priticas culturais: das sociedades avancadas ern conformicade com o padréo norte-americano, apoiado na pauperizacéo do Estado, mercantilzacéio des bens:pitblicos @ generalizag3o da inseguranca social, é acetta atualmente ‘cam resignagéo como 0 deslecho obrigatério das evolucoes nacionais quando nao é calebrada com um entusiasmo subserviente que faz lembrar estranhamente a “ebre’ pela América que. hé meio século, 0 plano Marshall tioha suscitada em uma Europe devastade’ Urn grarcle niimeso de teres conexos publicedos recentemente sobre 4 cena intelectual ouropéia ¢, singularmente, parisiense, ateavossaram assim 0 Atlantico, seja 85 claras, sea por contrabando, favorecendo a volta da influgncia de que gozam os prochtos da pesquiso americana, teis como © “poiiticamente comreto”, utlizado de forma paradaxal. nos meips intoloc- tuais franceses, como instrumento. de reprovagao € repressio contra qualqier voleidade de subversio, principalmente feminista ou homosse: xual ou 0 panico moral em tomo da “quetoizacdo” des bairros ditos “imigrantes", ou aitcla 9 moralismo que se insinua por toda parte através de uma visio ética da poitica, da Faria. ete., condurindo a uma expecta de despolitizagao “principiele® dos problemas socials e politicos, assim desembaracadlos de qualquer referéncia a toda espécie de dominacio ov, enjim, a oposleao que se tomngu candnica, nos setores do campo intelectual thats proximos do jomaliseo cultural, entre o "modernismo" eo "pis-ric- demisno” que, baseada em uma releiture eclética, sincrética e, na maioria das vezes, desistoricizada bastante imprecisa de umn pequeno nimero de autores franceses e alemées, asta om vias de se impor, em suia forma americana, aos proprios europeus", Sera necessério atriburr um ligar 4 parte e conferir um desenvoli mento mais importante ao debate que, atualmente, apse os “lberais” aos efensores da comuntlade™ (outres tantos termos drretamente transeré- (6. Gearon, eutes ue rye euros Peis ars. Ja, 1989; elonce de Vance mar feCongrs poor Sere de ature Pas Pal Fg 1995.18 Sth The es Erskets Think Tents atthe He of tha No ey Ete Reve Vek, The ee re 1901, clk Mach ib, 32, ett de 1997. 6 cle 2 “nuptiaisio” gone “projo amerana", N.Plstery, "Rbtrius et rats de atin” Actes deloreckewhe wo seuecrsceslee, 119 sles do 1997p ‘schre 0 Inia anbivlate pala Amin ne porta apée » quors L, Bolom ‘Amari, Ameria... Le pla Marsal ot Fier hae m1 Aes de Be cherie et stencossoetis 38, 1989, p, (941, ef, Kus SedbetingtheF wench Te Diismna gy Amencivzanan Berwey vety ef Calla Pree, 1993, 18. Noo wot doco cao anque. pau pain que mann dw een es ince satin. no ne dW os Eade Uns era mseen ‘entero ouriveea, 9 comer ps Epa Taam lores ce emp seme (cen come a formas ris wards ch ttsie 9. Pos ea bigs do meee What, wr; Philosophy & oa! eta, 9/44, 14, 1988 ‘sec se, Uvsnlsn s,commubtananh crtemporary deeaas in ets. 20 40s, € ndo tratuzxlos, do ingles), tistragao exemplar do efeto de falso corte ¢ de falsa universalizagéo que produz @ passagem pata a oxdem do discurso com pretensdes filos6licas: efinicdes fundadoras que marcam ‘ume ruptara aperente com oy particularismes bistbricos que permanecem no segundo plano do pensamento do pensador situado e datado do ponto de visia bistérice (por exemplo, como seré possivel ndo ver que, como ja fo sigoridlo muitas vezes, 0 caréter dogmatico da argumentegic de Ravls «em favor da prioridade das liberdades de base se explica pelo fato de que cle attibui tacilamente aos parceiros na posigée original ur ideal latente ue nao @ outto senao 0 seu, ode tum professor universitario americano, apegado a uma visio ideal da democracia americana?)""; pressuposios antropolégicos an‘ropologicamente injusfieivois, mas dotades de toda a ‘eutoridade social da tecrla eoondmica neomarginalista 4 qual sao tomados de empréstimo: pretensio & dedugéc rigorosa que perite encadear formalmente conseauercias inialsificavels sem se expor, em nenhum mo- mento, & menor refutagdo empirica,alternativas vituais, « iisSries, entre atomistas-individualistas e holstes-coletvistas, 0 to visivelmente absurdas na medida em que obrigam a inventer “holstas-indhidualsias” para ‘enquadrar Humboid, ou ‘atomistas-colatvistas” e tudo isso expresso em lum extracrdindro jargdo, em urna tertvel lingua franca internacional, que permite inchir, sem levi-ias om consideracio de forma conscionte, todas as particularidadtes ¢ os particulaisinos assocadas as tradicoes filosdficas @ politicas nacionais (sendo que alguém pode eserever liberty entre parentases apes a pabira liberdade, mas aceitar sem problema determi- nades barbarisitos conceituais come a opesigéo enue o “procedural” «0 substancil’). Esse debate ¢ as. "teorias” que ele onde, @ entre as quais seria init tentar introduzir uma opede poltica, dever, sem divida, uma parte de seu sucesso entre os filbsoios, principaimente conservadores ia em especial, caiclicas) ao fato de que terndemn a reduzira poltice & moral 6 imenso diseuxso sabiamente neutralizado ¢ polticamente desrealizado que ele suscita velo tomato kiger da grande tradicao alema da Antropo- logic filosdfica, palavra nobre © falsamente profunda de denegacio (Vernetnung) que, durante mito tempe, serve de anteparo e obstcuio = pot toda parte em que a filosotia (lem) podia afirmar sue deminagéo ~ a qualquer anSlse cientifica do mundo social" Em um campo mais préximo das tealdades paitcas, um debate como: oda “raga” e de identidade dé lugar a semelhanies intrusdes emocentrices. Una representagao historiea,surgila do fata de que a tradigo americana 10. HELA, Har "Rawk en Like anl ts PBoay" InN Davies i), Renda Rawls Nova Yok Bos Beals, 1973 9. 288259, 11, Dose pont de us. auacamerte secon deg eve daw « Habeas = + wspeto ds yasio exanstce alr que, an eecao abraksbolotefca, shotstiie cavalo: = baltareniesenfencuotel pox exenpo) Habormas."ooreiston thee Pic se ‘af Roasen: aman on Pai eral”. Zacral of Paitoeopy. 1986.3,» 105931 21 calca, de maneira arbitréria, a dicotomia entre brancos e negtos em uma realidad infinilamente mais complexe, parle até mesmo se impor em paises em que oF principios de vio e diviso, cocificrdos ou patios, das diferencas étnicas s80 completamente diferentes & em que, como 0 Brasil, ainda eram considered, recéntemante, como contra-examplos do “medelo americano™, A maior parte das pesquisas recentes sobre a cesiguakladle etvonacial no Bresll, empreendtdas por americans ¢ lhtinoamericanos formades nos Fstados Unidos, esforgatn-se em provat que, contrariamente & imagem que os brasiltos tem de sta nagio, © pa das “irs tistes regas" Gndigenas, negros descendontes cos escravos, brancos ortundos da coloniza Go @ das vages de imigraréo europtias| nao @€ menos “rack” do que os ‘outros; além disso, sobre esse capitulo, os braslcires "brancos” nada tém 2a invejar em réacao aos primos norte-emmericanos. Alnda plor. 0 racismo mascarado & brasileira seria, por definicdo, mais perverso [a que dissin lado e negaco. F 0 que ptetende, em Orpheus and Power, o clentisia palitico afro-americano Michael Hanchard: a0 aplicar as cateyorias racials norte-americanas a situagio brasileira, 0 autor erige a histona particular do Movimento em favor dos Direitos Civis como paddo universal da iuta dos grupos de cor oprimides. Em vez de considerar 2 constituigio de ordem etnorracial brasileita em sua logiea propa, essas pesquisas contentarm-se, nna meforia das vezes, em substituir na sua totalidade © mito nacional da ‘democracia racial’ (tal como € mencionada, por exempio, na obra de Gilberto Freire"), pelo mito segundo © qual todas as sociedades so ‘racistas”, inclusive aquelas no seio das quis parece que, a primeira vista, 2s relagdes “sociais” so menos distanles ¢ hosts, De utensil aneliico, 9 concerto de racizmo toma-se um simples instrumento de acusagéo: sob pretexto de cigncia, acaba por se corsolilar a logica do provesso (garerr tindo o sucesco de livraria, na falta de um sucesso de estima}! Emm artigo cléssico, publicado ha tinta anos, 0 antropélogo Charles Wadley mostrava que a concepgao da “raga’” nes Américas adrnite varias delinicdes, segundo 0 peso atribuido a ascendéneia, A aparéncia fisica (que ndo se limita & cor da pele) e 20 status sociocultural (atoissa0, montante 12, Sopulo esd lescodsC Dealer Nether Black Nor Whte Siaseard Race Relations in Bra ad te Und Stes, Mazon, Uso Wer Prost. 7995 ri yla 13.0, Handa Orpheus ed Power The Mouimenia Negro af to de Jenene nd Sdo Poo, 1945-1948, Pereson, Pioclon Unsarsiy Press, 694. Lm podetoso antcto 2a venens tteocrice edb ess tra rceitren cha da Athy Morn, Matirg Reve ond Noto {A Comparon of the Linked Sater, Soh Africn are? Bri (Cameo, Canbras Unters Pres, 1998) gue donut eam ass vaca Sty wafctamenie bs do isona pobics ologien do pas cosserado,sendo que cada Eada ic, Se agua tonne qe de vora" qe lhe come, 14.6 Fave Me 15. Quando ser pla um la rt "0 ras ait anni 0 etl dca som 9 ino cntfeaneri ingrcsvl "La ance cee, de ur ocogo (anes mak en "expects do comp orale do ue complies de realdede? se excawes, Paes, Gard, 1976. 22 aera, diplomas, regio de origem, etc, etn furcdo ta historia des reagoes «dos confitos enire grupos nas diversas zones”. Os norte-americanos $20 os Linicos a defnir “vaca” a partir somente da ascendlencia e, exchiswvamente, em relacdo acs afre-americanos: em Chicago, Los Angeles cu Atlanta © pessoe & “negra ndo pela cor da pele, mas pelo fato de ter um ou varios parentes Sdentificados coma negros, isto €, no learn da regiessdo, coro escrevos, Os Estados Unidos constituom a tinica sociedale medema a aplicar a “onedeop rule” ¢ 0 principio de “hipodescendéncia”, segundo o qual os fihos de ma Unio mista so, automaticamente, stuades no grupo inferior faq os negrce). No Brasil, a identidade racial definese pela reeréncia a um continuum de "cor", 16-2, peh aplicacéo de umn principio lexivel ou imprectso que, levendo em conseleracdo tragostsleas como a texts dos cabelos a fora dos labios e do narlz e a posigio de classe (ptincipalmerte, a rerda ea educacdo), engendram um grande niimero de categorias intermedirias (mais de uma centena {cram repertonadas no censo de 1980) nao implicem osiracizagao radical nem eatigmatteagéo sem remédio, Dao testemunho dessa stuaeo, por exemplo, 08 indices de searecaeso exftlos peas cidades brasletras, hitidamente inferiores 203 das mebsopoles norte-americanaa, bem como a ‘aixéncia virtual dessas duns formas tiicamentenoite-armericanes de violencia racal como sd00 inchamento eo motiv urbano’’. Pelocontiaiv, os Estados Unidos no existe categnria que, sociale legalmente, seja reconhecida coma “ mestigo"™. As, temos a ver com uma diviséo que se assernelha mais & das castas definitivamente definidas delimitadas (como prova, @ taxa excepcionalmente baixa ce intercasementos: menos de 2% das aftorame rieanas coniraem uni6es "mistas’, em contrapasicio & metade, aprenia camente, das mulheres de crigem hispanizante e asiatica que o fazer) que se tenia dissimular, submergindo-a pela “'globaizngao” no universo das visies diferenciantes. Coma explicar que seiarn assim elevadas, tacitamente, & posigho de pparao universal emrelagao ao quel deve ser analiseda e avalinda tds sitaecao cdo dominaggo éenica®, determinadas “teorias” das “rolagées raciis” que sio transfiquragdes conceitualizedas e, ncessantemente, renovailes plas ey, Othe Concert of Sor ace inthe Ama, OB, Heath aed RIN Aas ‘ads Contemporary Cultures and Sacltes in Late Antica, Nua York Peer: Howse 3065, SBL-508 17, EE Teles, Race. Cas, nd Spice Brann Cts ntemacone! Rowinal Rewaich, 193 sett de 1995. p, 395416 «CA. Red, Si Poole 188 {988 Mesto, Ler ol cor Pre, 1992 18.1, Des, io ack? One Maton’ ule, era Pork, Peescania Sai Press. 1991 Cl Villarson The Mew Pexple, Mlcepenaien ard Mareoes he Unde States, Nowa Vink New Yak Unity Pee 1080. wea ot Urban end and Whites 19. Ee eto Ge pari union de“menitene de Gree sm rasa 2a gu so waka ‘anges ¢ 08 avaies, oF “atcaiios" «2% “nodemisres” ja vanguateh) © unt da vio unoea daqls ae camitaey smbolcmimte am uve Ce P. Casares ni neonate de daira, Pai 187). 23 nevessidades da alualizagao, de esteredtipos racitis de uso comum que, ‘em si mesmos, no pacsam de justifieagSes primarias da dominagio dos brancos sobre os negros"? O feto de que, no decorrer dos tikimos anos, 2 sociodicéia racial (ou racist) tenha conseg.ido se "mundialzar’, perden do 20 mesmo tempo suas caractersticas de discurso justificator para uso inter ou lca, é, ser chivida, uma das confimmagées mais exemplares do império e da influbncia simibdtioos que os Estados Unidos exercem sobre toda especie de producdo enulita e, sobxeiudo, semiheruta, er particule, através do poder de consagragdo que esse pais detam e dos benclicios materials ¢simbélicos que a adesdo mets ou menos assurida ou vergonhosa ao medelo noste-americano proporeiona aos pe:quisedores dos paises dom+ nalos. Com efato, & possivel dizer, com Thomas Bender, cue os procures da pesquisa americana adutrrars “uma estatura internacional ¢ um poder de stracdo" comparaveis aos "éo cinema, da miisca popular, dos programas de informatica e cio basquetebol americanos"". A violencia senbélice nunca se caxerce, de fato, gern uma forma de curnplicidade (extorquida) daqueles que a soirem @.a “globalizacso"dos temas da doxa social americana ou de sua transeriga0, mais ou menos sublimada, no discurso serni-enudito no seria possivel sem a colaboracao, consciente ou mconsciente, cirata ou indie tamerte interessada, néo 35 de todos os “passadores” ¢ importadores de produtos cultirais com grife ou “dégrites” editores, diretores de mstitur Ges cullurais, museus, Speres, galerias de arte, revistas, etc.) que, no pro prio pafs ours paises-alvo, propdem e propagam, muitas vezes comm toda a boarlé, os produtos cullurals americarios, tnas também de todas as ins ‘nia eulturais americanas que, sem estarem explicitamente coorcenadas, acompanham, orquestram ¢, alé por vezes, organizam 9 process de nova Maca simbslica®” conversio colali Mas todos esses mecanismos que tam como afoito favorecer uma vertadeira “globalizacao’ das problematicas americanas, dando assima razdo, em um aspecto, & renga amercano-cénttica na “globalizacso' entendida, simplesmente, como americanizacao do mundo acidental e, aos poucos, de todo 9 univers, no so sulicientes para explicar a 20, Janes Meee damon. una 2 vz, em 8 chrvmest, Seislnyond the ce Pebiom ‘The Pare nf a Poripanine fbann atl hina, sey of Une Press. 1988) ror inde mts tes for are esto daisinirdade cll don magico, por cure Que sense reehwem stigderoene napes pace pred 6 depis sper anstzagae naga do jena cos Rats aca dos a 60 a, ‘Plo Itlot, the Ameren evi 2045-1005" Dron 126 ere 597, p18 canes inpetaet ea emt do gute no rceie Fete a or a tes ules Ween Pere or aur owaghe ds ote ls fore e bore es Stelaresore nr 92, een de 152.9. 2030, 22. Vien descigio exemple do proceso de tranlerinch do oder de orsngrte da Pans Fi ‘Nove York en sata de ae de vangiatda eortse no no csc de Serge Gulane Fou New Yor Sots the kes of Modern Art Aaitoet Impress War Cheage, The Unvesty of Crieass Pres, 1983, 24 tendéncia do ponte de vista emericano, erudite ou semni-enuito, sobre o mundo, para se impor como ponto de vista universal, sobretudo, quando se trata de questdes, tals como @ da "raca” em que @ particulatidade da situagdo americana & panicularmente flagrante ¢ est4 particularmente longe de ser exeriplar. Poder-se-i ainda invocar, evidentemente, o papel motor que desempenham as grandes fundagées americanas de filantropia € pesquisa na difusio da doxa racial norte-americana no seio do campo uuniversttério bresileno, tanto no plano des representagGes, quanto. das praticas, Assim, a Fundacéo Rockefeller financia um programa sobre “Raca ¢ einicidade" na Universidade Fedaal do Rio de Janeiro, bem como 0 Centro de Estudos Afro-asistions (2 sua revisia Estudos Afro-asiéticos) da Universidade Candido Mendes, de maneira a favorecer o intercémbio ¢e pesquisadores e estudantes. Para a cbiencéo de seu patiocinio, a Fundagio Jenp0e como condigao que as equines de pesquisa obedegam nos criterios de affirmotive action & maneita americana, 0 que levanta problemas espinhosos j que, como se viu, a dicotomia branco/negro & de aplicagio, no minimo, arriscada na sociedacle brasieive Alem do popel das fundacdes filantropicas, devese, enim, colocer “entre 0s fatores que contibuem para a cifisso do “pensamanto US' nas cléncias socials a internacionalzacto da atWvidade editorial universitana. A integragSo crescente da digo dos livres académicos em lingua inglesa (doravante vendidos, irequertemente, peias mesmas editoras nos Estados Unidos, nos eiforentes paises de antiga Commonwealth bitiniea, bem como nos pequenos paises peligltas da Unido Européia tais como a Suécia &.a Holanda, e nas sociedacles submetics meischretamente &dorninacao cultural americana) e 0 desaparecimento da fronteira enire atividade oditorial vniversitiria e editoras comerciais contriouiram para encorajar a crculagao de termos, temas e tropos com forte divulgagéo previsia ou constatada, ‘que, por rieochete, clevem seu poder de atracao ao simples fato de sua ampla difusio, Por exemplo, a grande editora ¢emicomercial, semi-univer sitaria (designada pelos anglo-saxces comio crossover press), Basil Biack- well, néo hesita em impor a seus autores determinades titulos em consongncia com esse novo senso comum planetirio para a instalacao do ‘qual ela tent dado sua coniribuigée sch pretexio de repercuti-y, Assim, & coletinea de textos sobre as novas formas de pobreza urbana, na Europa na Amnérice, reunidos en 1996 pelo sociblogo itllano Enzo Mingione, foi dado o titulo Urban Poverty and the Underclass, contra 0 parecer de seu sesponsavel e dos diferentes colaboradores uma vez. que toda a obra tende a demonstrar a vacuidade da nocd de underclass (Backwell cnegou. mesmo a se recusar a colocar 6 tertno entre aspas)®. Em caso de reticéneia, 28.E Mogae Ubon Posey ait ie Undertes A Ravior Oxo Ral Bachna, 1956, Ni so toi dan iets tole creamer sriane ese eign sl poor, 9 en Os fonpreen on cnt to Gon os bev Rea von Rempene Pee Marie in desueese:sadiquan bed sinelycletu, she Pantone Ci, pra lobia Cie 25, domasiado grande por parte dos attores, Basil Blackwell esté em condicdes de pretender que um ittulo atraente ¢ 0 tnico melo de evtar uin prego de verda elevadc que, de qualquer modo, iquidariao livro em questio, E assim que certas dacisies cle pura comercialzacao ecltornl orlentarn a pesquisa ¢ 0 ensino universilétios no sertide da homogeneizacdo e da submissio as imedas oriundas da Amerca, quando née acabam por crier, claremente, detorminiacdas “disciplins’, tals como os cultural studies, campo hibrido, rnascido nos ano: 70 na Inglaterra que dave su difusio intemacional @ uma politica de propaganda ediiorial bem-sucedida, Deste modo, o fato de que essa “discipline” estsja ausente dos campos universitéria @ intelec: tual franceses no impediu Routiedge de oublicar um compendium intr edo French Cultural Studies, segundo 0 madelo dos British Cultural Studies (existe tarnbem ura temo de German Cutural Studies, E podese ppredizer que, em virude do principio de partenogénese étnice-edtorial em ‘voga atvaimente, ver-ce-& om breve aparecer uma manual de French Arab Cultural Studies que venba a consiitait 0 par since de sea primo do alémrMancha, Black British Cultural Studies, publicado em 1997, Mas todos esses fatores reunidos ndo podem justficar complatamente a hegemonia que a producdo exerce soote o mercado mundial, Ea razao pela qual € necessario levar em considezagéo 0 papel de alguns dos responsive polas astratégias do import-export conceitual mistficadores rmistificados que podem veiculr, sem seu conhecimento, a parte ocuita ~ @, muitos vezes, makita ~ dos produtos eulurais que iazem circular. Corn feito, 0 que pensar desses pesquisadores americancs que v20 a0 Brasil encorajar 0s Ileres do Movimento Negroaadotaras taticas do movimento afro-americano de dofesa ds direitos civis e denunciar a categoria pardo (terme inrermediario entre branco @ pyeio que desiana as pessoas de ‘paréncia fisice mista) a fim de mobilzar todos os brasilares de ascendéncia africana a parlir de uma oposicao dieotomica eatre “airo-brasileiros” ‘brancos" no preciso momento em que, nos Estados Unidos, 0° individuos de arigem mista se mobilizam a fim de cue o Estado americano (@ comecar pelos Institutos de Recenseaments) reconher2, oficialmente, as america nos *mesticos’, deinando de os clacificar & forga sob 2 etiqueta exclusiva de “negro’?" Semelhantes constatacces nos aulorizam @ penser ue 4 descoberla tao recente quanto repentina da “globalizagio da raca! restita, nao de uma brusca convergéncia des modos de dominacio etnorracial nos diferentes peises, mas antes Ga quase universalizacSo do “The Mid Race Moseren’ in Amst, Nowa Yor "Remoting ee" Socal Beer rd epee i, Tose Ge dened, Universe de Cann, 24,6 Spencer, The Now Coto Po 25, Hie “Rac! Foation ae Lagerony, Glo eal Lacal Dogma” in 8. Ratan nts, Westuool ale} acon, dehy, Eve, On, Bos ackve, 1994, « dere ical Conditions Nurneapots. Uber cesta Pres, 1995, 26 folk concept neste-amesicano de “raga” sob o efeito da expportagao mun- dial das categorias enuditas americanas. Poler-scia fazer a mesma demonstragao propéeito da difussio intemacional do verdadetto-falso conceto de underclass que, por um efeito de allodoxia transcontinental, foi importado pelos sociélogos do \velho continente desejosos de consegurem Uma seginda juventide inte- lectual surfando na onda da popularidade dos conceitos made in USA. Para avancar rapido, os pesquisadores europeus ouvem folar te “classe” © acraditam fazer referencia a uma nova posiggo na estrutura do espaco soral urbano quando seus colégas americanos ouvem falar de “under” ¢ ppensam cambada de pobres perigosos ¢ imorais, tudo isso sob uma 6ptica Geliberadamente vitoriana ¢ racstéide, No entanto, Paul Peterson, profes sor de cidneie politica em Hanvard e diretor do “Comité de pesquisas sobre ® undercloss urbane” do Social Science Reseaich Council (ambém financiado pelas Fundagées Rockefeller e Ford), naa doive subsistir qual {quer equlvcco quando, cor 0 seu aval, resume os ensinamentos extraicos de um grande ccléquio sobre a underclazs realizado, em 1990, em Chicago, nesies termes que nao tém necessidade de qualquer comentan: “O sulixo ‘class’ 0 componente menos interessante da palavra, Embora amplque uma relacdo entre dois grupos socials, os termos dessa relacio ppermanecem indeterminados enquarte néo for acrescentada a palavra mais familiar ‘under. Esta sugere algo de baixo, vl, passivo, resignado o ‘20 mesmo tempo, algo de vergonioso, perigoso, disruptive, sombrio, maléfico, inclusive, demorfaco. E, além desses aiributos pesscais, ela implica a idéta de suiomisséo, subordinaggo e miséria"”. En cada campo intelectual nacional, existem “passecores” (por vezes, Lum $6; otras uezes, varios) qua retomam esse mito erudite e reformulam nesses tetas alieneclos a questa das reagdes entre pobreva, imigracao ce sagregacdo om sets paises, Assim, ja no 6 possivel cortar o niimero de artigos ¢ obras que tem como objetivo provar - ou negar, o que acaba sendo a mesma coisa ~ com uma bela aplicagio positivista, @ “existéncia® desse “arupo” em tal seciedarle, cidade ou bairro, a partir de indicadores empiricosna maiotiadas vezes malconstruides e mal correlacionados entre sf Ora, colecar a quesiao de saber se oxiste uma underclass {terme que 1, por Jekn Weatrgsd em si sich da ‘rsh Socobjea fscaacan{ Aouad Besond th UreraseSonve Nore oh lt ol eSorsl Gmateon Briss Soonigy Toda in Sorology, 264, jbo seertne de 3 S758. 27. Caleh P,P fl Th 28, Es és axomlos,enrarmaos 7 Rolla, "An Emerging Plc Liverlnsin th Neher? Some Empiiea Balarce™ ty News Communiy 191, oaubes de 1982, p. 120141. J Danchot~Gancertrar of vera de Lanacapes ol emoun Hoa The een lation Urbs Unde? sn Urban Studies, 3-77 ogedade 1998, p. LL si-i1¥7, eC ‘hein. "Manaatzation Depron, and Fain the Reb of Fens Cae ner dass Pespectnes" 2 Eurepean Sodaleizal Reve, 12. mao de 1956, p. 33.51 a alguns sccidlogos franceses no hesitaram em traduzir por “subclasse", na expeetativa, sem divide, de introduzir © conceito de sub-homens) em Londres, Lyon, Leiden ou Lisboa € pressupor, no minimo, por um lado, que. terme 6 dotado de uma certa consisténcia analitea ¢, por outro, que tal “grupo” existe realmente nos Estados Unidos”, Ora a noyéo serio nalistiea © semi-enudita de underclass 6 desprovida nao s6 de cveréncia semantica, mas tambem ce existéncia social. As populacdes heterechtas que 6s pesquisadores americancs colocam, habitualmente, sob esse termo = beneiciarios da asesioncia social, desempregedos cronicos, maes soltel- ‘a5, farnlas monaparentais, reetedos do sistema escolar, cricninosos € membros de gangues, drogades e sem tetd, quanda no sto torlos os habitantes do gueto sem distingdo ~ devem sua incluso nesse categoria fourre-tout" 20 fato de que so percobidas come outros tantos desmienti- dos vivos do “sonho americano” de sucesso individual O.‘concetc aparentado de “exchis6o" é comumente empregado, na Frangae em certo ‘nlimero de outros paises europeus (principalmente, sob a influéncia da Comissio Européie), a fronteira dos campos politico, jornalistico ¢ Sentiico, com fungdes similares de desistoricizagio e despoltizacéo. Isso dé uma ideia da maridade da operagao que consbte em retredudir uma, nogio inexistente por uma outra mais do que incerta” Com efeito, a underclass néo passa de um grupo fieticio, produzio no papel pelas praticas de classificagdo dos enuditos, jornalistes e outros eapedialistos em gestio dos pobres {negros urbanos) que comungam da orenca em sia existéncia porque tal arupo & consttuido para vokar a dar ‘2 algumas pessoas uma legtimidade cientilica €, a outras, un tema polticamente compensador” Inapto © inapfo no caso american, © concetto de tmportacao nao iraz nada ao conhecimento das sociedades européias, Com efeita, os insirumentes e as madalidades do governo da miséria esto longe de ser icnticos dos dots lados do Avlantico, sem falar des divides fanicas ede seu estatuto police”. Segue-se que, nos Estados Unidos, a definic’o @ 0 tratamento reservados as “populagées. com problemas” diferem dos que sto adotedos pelos dverses paises do velho mundo. E, sem divida, o mais extraordinanio & que, segundo um parsdoxo: 29, Tends sete acta paro agli ura etna Sao, 6 fab Be gre 0 cue Uncerclossnio we scab des Fates, Capen Ave cca efor 9 wn. rec Seen aie ern option Exc ao Laauesion de’ unsecesede dows oi ee et tron 30°, abl da 188, p 211-237), 30,1, Hein -Llumdeclase ears sovilosieanalne: excision sacle parser Rowe francaise da oseleaie, 348, heselenbr de 1593.9. 421-499 cique amis’. n S. manent 199, 208-262 S51. Woeyare, °\undackstoine dens gare soa es rugs et. L exclusion (eta des sasors, Pars rors La 32 os iene ty evndson pretudes pede hse, crn inna ats conta ‘de ahaine de ruta Proc Miia Kaz: Poco Gower lamer question fen Frans 178184 Pa Sl, 1993, eM. Naz. Irie Sbacov ef he Foorhoe tn of Wife i Arete, Na nk: asc Books, 1997, nov ogo 28 j@ encontrado a propasto de outros falsos concelios de wulgata mundial, essa nogao de underclass que nos chesa da América surgi na Europa, berm como a de aieto que ela tem por uncao ocuitar em razac da severa censure poltica que, nos Estodos Unidos, pesa solze a pesquisa a respeto da dest gnuaklade urbana e racial. Cem efeito, tal nogéo fnha sido foiada, nos anos 60, 0 partir de pelavra sueca onderklass, plo economista Gunnar Myrdal Mas sua intengdo era, nesse caso, doserever © processo de marginalizgée dos segmenios inferiores ca classe operéria dos paises ros para clicar 2 ideologia do aburguesamento generetizade das sociedades capitalisias™. V2-se como 0 desvio pela Améica parle transformar uma idéia: de umn conceito estrutural que vsava colocar em questo a representagao dommante surat ‘uma categoria behaviorsta racortada sob medida para zeforgéle,mputan- do aos comportamentos “ant-socils" dos mais desmuunidos a responsabi- lidade por sua despossessio, Esses ma-entendidos devemse, em parte, ao feto de que os “passa- ores" transatfnticos dos diverses campos inielectuais importadores, que produzem, reproduzem @ faze creular todos esses (elses) problemas, retirando de passagom sue pequena parte de benelicio material cu simbé= lio, est80 expostos, pelo fato de sta rosigso e de seus habitus enuditos & politicos, 2 uma dupla heteronomia. Por um ledo, olharn em dieséo da América, suposto ntielen da (pde)"medemidade* sociale cienifica, mas ales proprios so dependentes dos pesquisedores americans que expor- 1am para o exterior doterminadoe produtosintelectuais (multas vezes, nem tao frescos) i que, em geral, nfo tem conhecimento dlreto e espectica das inatitulgées e da cultura americanas. Por outro ledo, indlinan-se pata o jomalismo, para as sedugfes que ole prope e 08 sucesscs imediatos que ele propoiciona, ¢, a0 mesmo tempo, pare os temas que afloram ra in\ersaqao des campos midibtica e poltica, portanto, no ponto de rendi- mento maximo sobre o mercado exterior (como seria mostrace por um rezenseamento das resenhas complacentes que seus trabalhos ecebem nas revistas em voga). Dai, sua precilegdo por problemsicas soft, nem verWaleiramente jomalistices festéo guamecidas com concetes), nem completamente aru (orguham-se por estarem em simbiose com “a Ponto de vista dos atores") que nao passarn ca retraducdo semierudita des problemas sociais do momento em um idioma impettade des Estates Unidos (etnicicade, identidade, minorias, comunidade, iragrrentacao, otc) que se sucedem segundo uma ordem e timo ditados pela midia: ju vende dos subiubios, xancfobia da classe operéria em cedinio, dasajue tamento dos eshidantes secundarstas e universilaros, violéncias urbanas, te. Esses soci6logos jornalistes, sempre prontos a eomeniar as “atos cke sociedad”, em uma lnguager, a0 mesma tempo, acessvel ¢ “modernis- 33.G_Mul, Challe to-Afuene, Nove Yea Pantheon, 1963. 2 1a’, portanto, muitas vezes, ppercebida como vagamerte progressista (em referéncia aos “areatsrnes” do velho pensemmento exxopeut, eonbibuem, de manera particilarmente paradoxal, para a imposico de tna visio do mundo que esté longe de ser ncempativel, apesar das aperencias, com as que produzem ¢ veicalam os grandes think fanks irtemacionais, mais ou menos diretamente plugados as esleras do poder econdmico e pati. (Quanto aos que. nos Estados Unidos, esto comprometicas, muitas vezes sem seu conhecimento, nessa imensa operagéo intemacional de import-export cultural, eles ocupam, em sua maioria, uma posigao domi nada no campo de poder americano, e até mesmo, muitas vezes, no campo inielectual. Do masmo modo que os produtores da grande indstria cultural americana como 0 jazz ou 6 rap, ou as modas de vestuario e alimentares rls eomuns, como o jeans, devem uma parte da sechigdo quese universal que exercem sobre a juvertide ao faio de que sho profuricas e utiizadas ‘por minorins dominadas"", assim também os tépicos da nova vulgata mun- dial tram, ser dvida, uma boa parte de sua eficécia simbslica do ‘ato de ‘que, utlizados por especialstas de disciplines percebidas como marginals, subversivas,tais como os culfural studies, os minority studies, os gay studies ou os women studies, eles assumem, por exernplo, aos olhos dos escritores das antigas colénias ouropéias, a aparéncia de mensegens de Hbertacao, Com efeito, o imperiatismo cultural (american ou outro} ha de se impor sempre melhor quando é servido por intelectuais progressistas (ou “de cor”, no caso da desigualdade raciaD, pouco suspeitos, aparerte- mente, de promover os interesses hegeménicos de um pais contra o qual esgrimem com a arta da critica social. Assim, os diversos artigos que compoem o némera de verdo de 1996 da revista Dissent, orgac da “velha esquerda” demecratica de Nova York, consagrado 2s “Minorias em hita hho planeta: direitos, esperancas, ameacas”®, projetam sobre a humanidade inteire, com a boa consciéncia humanista caracteritica de certa esquerda academia, nao 56 0 senso comium fiberal norte-americeno, mes a nocdo de minority (seria necessirio conservar sempre a palavra inglesa para lembrar que se trata de urn concetto native importado na teoria ~ ¢ aincla ai, crigindtio da Europe} que pressupde aquilo mesmo cuja existenele real ou possivel deveria ser domonsiraca®, @ saher: catogorias vecortadas no 34, Fonts, “roping ar Notlng: Te Mean of Fa-Fond! and Cer Amencan Cul [Geode m Fine’ The TecquesleRewess 187. 2984, p 788, 235, “End Mino be: Ris, Hopes, Tat, Dieser seeds 1996 36. reoblaa da nga, evoca de nasiagrs, & um doe ait eines. Tens cache das proses tomadae pele tebgoe na totus ds gabe ata, © enbora tba teem coos tos Uenaien mb ® por eve vera de reer, Foals ns step que celormisasoy pofesns dae eile sors povsem sta Ingungee certs cnn tunis "isos ages teancos taseades ro unpes deca eicole- ‘a ininarsy. miverdede,profeson, aaa lal ete} se observer ha eas bales ‘erfolegiamenta gers exo sopaveee yr ina deren ety sian scorn sera ‘oqualtonm prods oa ove sera ne inl ea snl nach, Oe na npn 30 seio de determinado Estaio-nacio a partir de tracos “etsturais” ou “étni 03" tém, enquanto teis, o desejo e 0 direito de exigir um reconheeimento civien ¢ politico. Ora, as formas sob as quais os indiiduoe procuram fazer seconhecer sua existencia e sea pertencimento pelo Estado variam sequnda + higares e os momentos em funcao das tracieSes bistéricas ¢ consfituem sempre um motivo de hitas ta historia. E essim que uma andlise compa: rativa aparentemente rigerosa e generosa pode cortribuir, sem que seus autores tentam consciéncia disso, para fazer aparecer como universal urna problemitica feta por e para ameticanes, Chegerse, assim, a um duplo paradoxo, Na huta pelo monopdlic da predugéo da visio do mundo social universalmente reconhecida como universal, na qual os Estados Unicos ccupam atualmente uma poscio emi notte, incisive dominant, esse pais é realmente excepcional, mas seu excepcionalismo no se stra exatamente onde a sociclogia @ a ciéncia social pacionais estio de ecordo em situélo, isto é, nia Muider de uma oxdem social que oferece opertunidades extraordinarias (prneipalmente, em comparagio ‘com as estuturas soctaisregclas co veto continent) mobilidade: os estudos ‘comparativos mais igotoses estdo de acordo em concur que, nesce aspect, {8 Estados Unidos ni dliferem findamentalmente das outras nagées indus. tvalzadhs quando, afm, o leque das desiguaklacks & a ritidamente mois aberto™. Se os Estados Unidos sio realmente excepcienais, segundo a velha ‘emitica ‘ooquevliana, ncansavelmente retomadla e periodicamente reatua- liada, @ antes de tudo pelo dualismo rigido das divises da ordem social Joa to iso amigo” so, esenteneni, ones gece, garners, km na lrg. mastanbm parc ra rac dsveres leo anedles mclegiom mana seme anne, ns to yor slo oe extern ina pat po his. Ato ensanal: 2 chen, carom pce de btn deli Hagen ran, spo. for ee es denen arn, monn ee Eid Pr Sale ae Mary Bue. ee quote tse to roca ec grays ce Rat sa Univzatide do Gace ‘cia, ees pordemas aeaties, ieceupnies i Psat emer ery carseaca as espestie nros hitnivn, ns ethos mers por amin fe eervenes aman @ sate dane alter ot hee Eiced conn ae id rc ene eeu, ano cong {Cauca Era ingore que 9 a0 des eaces careers eas italien eh ead hi mis eyo e # at ands comperadon, 0 letemuris ase stuncdo a isis deri sto ta unease ce teva srs deCtaes Minny. exports Nant te gett tact tari ds Tete Uo de na por sitcom sea 2 ema dh “epee” Set esloerclds vn rela Sr sud san au seguido pest de Tony Bla, deve ser toss eteasuse i de mor” ee pebres ca sysicic asses, eee fb Xo Clan ory aos yee 6a mien nave de 1°96 97. om pariay R. chin J. Gallus. The Carstan Fac: A Study of Hobie linda! Scena, Oxon, Cenk Pres, 1992, ak Ot Ng chege a aa veal ‘om ats mtocgiemanentertete em Cless Caen nCiass far. Cabri Pans. Cabernet Pres Eats sme. 1997: obreos daernitaetes potas da scl as desu roe tao ee lo dont oe ciae dus dec, © Packs ef, requ by Desge the Bol Core Meh, Pets, Phineas Unie Press 1996 3) Eainda mais por sta capacidade para impor como universal 0 que ven de tiais particular, 30 mesmo tempo que fazem passar por excepcional o que tam de mais comurn So 6 vordadle que # desistoricizagdo que resuika quase inevilavelmente da migracao das idéins través das froneiras naclonals & um: dos ftores de destealizagio e de falsa universalizag3o (por exempla, com os “falsos amigos” tedricos), entéo somente uma verdadeita hisidria da, genese das ideas sobre o mundo social, associada 2 uma andlise dos mecanismos socias da circulagao internacional dessas idéias, poderia conduait os eru- dios, tanto nesse campo quanto alhures, a um controle mals aperfetgoado dos instrumentos com os quais argumentam sem ficarem inguietos. de mio, em argumentar a ptoposito dos mesmos™. Lad essere pra alr pesmerte nin sa pase de Ineonsceme stanco cues thr Teena nis cu mers necoivcele cena sckreive nas eee ens de timate 97058 sishann sealimce anekerouna pete Oe so xtra fers ne piene onvrcanes crea so re etesogh) at concvue de i 8p te das diay compensa cao done nits mv sesso aaa tare o desma a eat ma. The Onan of Arvrtean Soc Selene, Cankrdze i Doss clngnae hanacoro cue aed ets se tea ot lage pies swleyggemocnsivccnie deur datorasodelies {o's ttt csi Ge Tec Paso deere ina "toa vlna ea ae to octamrenle,barasurgent d eae dea de essen accel « ents ae sea tea daariseio” ue eo sr pvthas sale oestica da lang sci 8 bps ducudas spe Sopra Grn Mon que, alrente fers eto ween oe dos per eos $2 Método cientifico & hierarquia social dos objetos PIERRE BOURDIEU “rete Dee Rosin CATAN ACRANO MEWS CATAN ca, Math ALE NOSLERA Font: Bante, Phe, “Mace xeniqee toc 2 neds chats, punto oagnamunten Ate def Tochenhe er soerees sacle Pos, 2. uo de 1915 9 4 Que Parmignides indaga a Socrates, pare enibaragérlo, se ete elmite a existencia de “formas” de coisas “que poderiam parecer at@ mesmo insignficantes, como um tio de eabelo,¢ larne, a sujelra, ou qualquer cutee cbjeto som importéncia nem valor”. Sécrates confessa que nao pode dedidir-se a fazer so, pois tem medo ce resvalar para um “abismo de bbesteiras”. I, diz Parménies, é porque ele ¢ jovern e novo er iilosofis, e preocupa-se ainda com a opinio cos homens: a flosofia vai apaderar-se dele umn dia e the ford ver a inutlidade dessas arregéncias das quais a ldaice nao participa (Parménides, 130 d). A filesofia dos professores de filosofia no releve suficentemente a Igdo de Pamignides e ha poucas traligdes onde seja mais marcada a distinedo entre os objetos nobres @ os objetot fandbels. ou entye as maneitas igndbers @ 2s maneiras nobres ~ isto @. atamente “teéricas”, logo idealzadas, neutralizades, euferizades ~ de tratarlos, Mas as proprias disciplines clentificas nao icnoram os efeitos desoas cisposicbes hierarquieas que afasiam os estudiosos dos géneros, objetos. métedos ou teorias menos prestigiosos num dada momento do tempo. Assim foi possivel mosirar que certas revolucées ciertilicas foram © prodtito da importacza para dominios sociaknente desvalorizades das lsposigdes correntes nos dominios mats consegrados!. A hiietarquia dos dbjeios legiti¢nos, egitimveis cu indignos @ urna clas mediacdes através das quaic so impéo a consura especitica de um campo determinado que, no caso de um campo cula independéncia esta ral alimada com selagéo és demandas da classe dominante, pede ser ela prépria a mascara de uma censura puramente politica, A definicio ominante das colsas boas de se dizer dos temas dignos de interesse & um dos mecanismes ideolbgicos que fazem cor que coisas também muito bboas de se dizer nao sejam ditas e com que temas néo menos dianos de interesse no interessem a ninguém, ou 36 possam ser tratadas de modo enverganbado ou viciosa E isso 0 que faz com que 1472 livros sobre Alexandre, 0 Grande tenham sido eseritos, dos quais apenas dois sertam necessinios, caso ve acredite no autor do 1473" que, a despeito de seu furor iconoclasta, est mal sitvado para se nerguntar se Um listo sobre. 1, J BEN DAUD & R, COLLINS, “Secs Factors inthe Ons of Now Sian Te Ceo Puchelogy, a Arcarcan Sectlageal Reston SIM, again de 1966, p. 462 AG5 2. RL POX, Alwonder la Grace, Levis, on Lam, 1973, Sen drei doce ae wa Sulacio sltnartaturcoal=ds ata doustado hvinaness ede perpen doit, Geidanenrte~ unsecure cr por ain venllesdfou cert» cea ers fa Se ware decane an aang tsetbaeata ena Setan est, a5 Alexandre é ounio necessirio, ese a radundéncia observada nos dominins mmais consagrados nao éo preco do sikéncio que patra sabre outros objetos. A hierarquia dos dominios @ dos objetos ortenta os investimentos intelectuais pelo mediagéo davestrutura das oportunidades (rtiae) de lucro material e simbdlico queela contritut para delinir. O pesquisador participa sempre da importancia e do valor que 360 comumente etrfouidos eo seu cbjeto © € pouco provivel que ale no leve em conta, consciente ou ‘in: conscientemente, na alocacao de seus interesses intelectual, 0 fato de que 6 trabalhios (cientificamente) mais importantes sobre os objetos mals *insignificantes’ ‘8m poucas oportmidaces de ter, ads olhos daqueles que interionizaram 0 sistema de classificagao em vigor, lanto valor quanto 03 trabelhos mais insignificantes (cientiicamente) sobre os cbjotos mais “im: porlantes” que, com freaiencia, sao xgualmente os mais nsignificantes, isto &, 08 mais anédinos'. E por isso que aqueles que abordam 08 obietoe dosvalorizados por sia “futiidade” ou sua “indigniade’ , como o jornals ‘mo, a moda oW as histérias em quadrinhos, freqiientemente esperar de turn outro campo, esse mesmo que ees estudam, as gratificagdes que o campo cientiico Ihes recusa de antemao, @ is0 nao contiibul para indind:los a uma abordagem cientific. Seria necessirio analiser « forme que assume a divisio, adrnitida come patural, am dominios nebres ou wolgares, sérios ou fiteis,interessantes ou iiais nos dhferentes campos, em diferentes momentos, Certamente se Gescobriria que © campo dos objatos de pesquisas possiveis tende sempre a organizarse de acordo com duas cimersées mdependentes, Sto ¢. segundo o grau de legitimidadle ¢ segundo o grou de prestigio no interior dos imites da definigéo. A aposicao entre 0 prestigioso e o ebscuro que pode dizer respeito a dominios dos géneros, obje:os e formas (mais ou 08" de acordo com as taxicnomias reinartes) 60 proxtulo da aplicacao de critertos dominantes que determina graus de exceléncia no interior Go universo das prétices legiimas. A oposigac enire os objetos (ou o¢ dominios, etc.) criodoxas e os cbietos com pretensio & consagragao, que podem ser considerados de. vanguardla ou herétices conforme se situem ao lado dos delensores da hierarquia estabelecida ou a0 lado dos que tentam impor uma nova detinicado dos objetes legitimos, rhanifesiaa polarizagi que se estabelece em todo cermpo entre instituizoes ‘ou agentes que ocupam posigées opostas na estrafura da dlstrisuicéo do capiial especiico, Isto quer dizer, evidentemente, que os teres desses 3 leis cole panel agen eG BACHIELARD bo hone mnornel Bae PLE 1839. 216} ara rar zn ruta co cnn gin pede sor > da chithon obithare eins “ssaiacte” 01 porate” x stan ‘Slovene econo coments aeigatcantas nance orate lp 0 {othe aa exo que denn erg, run sbtera ce ome, de burt sa tndnas aia cents soMO. era eh 36 ‘oposigBes sf0 ralativor & estruture do campo considerada, mesmo que © funcionamento de cada campo tenda a fazer com que eles ndo possem ser pereebidos como fais e aparecam a todos aqueles que interiorizerem 05 sistemas ce classificacio que reproduzern as estruturas ebjativas do campo como intrinseca, substancial ereelmnente importantes, mteressantes, vulca reo, chiques, cbscuros ou prestigiosos. Bastard, para balizar esse espaco, Imarear alguns pontos com exemplos tomaclos das ciéncias socials, Porurn lado, temrse a grartle sintese teésica, sem oulio ponto de apolo na realdade a néo ser a releréncia sacralizante aos textos canénicos ou, na melhor das hipoteses, aos objetos mals importantes ¢ mais nobres do mundo subhinar, isto &, de preferéncia “planetarios” e constituides por uma tradicao antiga. Por outro lado, terse a monogratia provinctana, duplamente infima, pelo objeto ~mindsculo e socialmente inferior - & pelo m@iodo, wulgarmante empirico. Oposta a uma e outra, tem-se a anslise semiolocica da fotonovela, dos semanarios ilusiracos, das historias em quedrinhos, ou da moda, aplicagéo bastante herética de um método legtimo, para attair os prestigins do vanguardismo a objetas condenarlos pelos guaidlides da orcdonia que esiéo predispostos pela atengdo que recebem nas fronteirasdo campo intelectual edo campo artstico ~a quer fascinam todas as formas do kitsch ~ a apostar em estrateglas de reabiltacdo que aio tanto mais rentiveis quanto mais ariscadas’. Assim, ‘0 confito ritual enire a grande ortodoxia do sacerdécio acacémico © a heresia notivel dos independentes inofensivos faz parte de mecanismos que contribuem para manter 2 hierarquia dos objetos @, ao mesmo cernpo, a Iverarquia dos grupos que dela tiram seus licros matenais e simbélicos, A experencia mostra que 0s cbjetos que a representacao dominant trata como inferiores ou menores atsaem freqlientemente nqueles que esto _menes preparados para tratiios, O reccnhecimento da inclignidace demni- ra ainda equeles que se aventuram no terteno provide, auardo ees se crdem obrigades a exiair uma indignacao de toyeur puritano, que deve -ondenar para poder consumur, ou uma preccupacao de reabittacao que supe a submissio intima @ hierarquia das legitimicades ou, ainda, uma hhabil combinacdo de distancia @ patticinacdo, de desprezo ¢ valorizacéo que permite brincar com fogo, 3.moda do aristocrata que se abastattla, A, Gieneia do objeto tem por contigao abschita, aqui como em outros casos, a cloncia das diferentes formas da relaao ingena com 0 objeto (dentre as quais a que o pesquisodor pode manter com ele na prética comam|, isto 2. a céncia da posicdo do objeto estucado na hierarquia objetiva dos graus, co legs sts Gonna erie ‘igen! sond 4b BOUFDIEG. POLANSKI CP NALOITAER. La deers ex snp nforration sures sciences ssc, 10/8) 1973) ¢ prokivel que «even pa tmpu ete pont Ho espace dos cates de puis exe 37 de legitimidace que comanca todas as formas de experiencia ingentia, A ‘mica maneira de escapar & réagdo ingérua de absolutizacdo cu de contra-absolutizagio consiste, de feto, em apreender como tal a estrutara objetiva que comanda essas disposigoes. A cércia nao toma partido na lula pela mantengéo ou subbverséo do sistema de clsificagio dominante, la o toma por objeto, Ela nfo diz que a hierarquia dominante que tata a pbintura concesual como uma arte ¢ as historias em quadrinhes como ur modo de expressio inferior & necessiria (a nio ser sociologicamenta), E nem diz que a hierarquia cominante & arbitraria, como aqueles que se atmam do relativismo pare destrui-a ou modificéJa mes que, 20 final, nd faze senio acrescentar mais um grav, 0 titiwo, a escala das praticas culturais consideradas legitimas, Em suma, a céndia néo opbe um julgar mento de valor a outro jalgamento-de valor, mas constata o fato de que a referéncia a uma hierarquia de valores esta objetivamente mscita nas praticas e, em particular, na luta da qual esse hierarquia € 0 objeto de dloputa ¢ que se exprime em julgamentas de valor antaginicos, Campos situados em uma posicéo inferior na bierarquia das legitimi- ladles oferecem a poiemica da razéo cientifica uma ocasiao priilegiada de texercer-se, com toda liberdedle, e de atingir por procuragdo, com base na homologia que se estabelece entre campos de legitimidade desiaual, os mecanismos socials ‘etichizados que também funcionam sob es censuras fas maccaras de autoridadoe no Universo protagido da alta logitimidade Dat 0 ar de parodia que tomam todos os atos do culto de celebragdo quendo, abandonande seus objetes habituats, filbsofos pré-socraticas ou poesia malarmaica, voltam-se para utr objeto to ral situado na bierarquia ‘em vigor quanto as his6rias em quadrinhes, tairdo a verdade de todas as acumulagies enuditas, E © proprio eleito de dessacralizacao que a ciéncia deve produzir para se constiulr e reprocwir para se conunker & mals fecilmente obtido quando se vé obrigada a pensar o universo por demizis prestigioso e por demais familier da pintura ou da iteratura mediante uma andlise da alquimia Snibdlica pela qual o universo da alta costura produz aa fé no valor insubstivivel de seus prodatos. 38 A Escola conservadora: as desigualdades frente & escola e 4 cultura PIERRE BOURDIEU Traduodo ApMRECICA JOLY Gowen Reviofo téeniea, Manta AuCE NEGLERA Fonte: Botner, "Lécole conser, Les negates dre Fee eh cular publicado enpratzone in Ferue francaise de socobale, Pas, 7 3, 1986.2 658 tomando 0 sisteme escolar como um fator de mobilidacke social, segundo a Ideologia da “escolt libertadora”, quando, ao contririo, tudo tende « mostrer que ele é um dos fatores mats eftcazes de conservegio social, pois fornece a aparéneta de iegitimidade as desi gualdades sociais, ¢ serciona a heranga cultural eo dom social tratado como dom natural dstemente porque os mecanismos de eliminagso agem durante todo © cursus*, Glegtimo apreender o efeito cesses mecanismos nos araus mas clevades da carrera escolar. Ora, vé-se nas opertunidedes de acesso a0 ensino superior 0 resultado de uma selegao cirota ou indirta que, ao longo dda eseclaridade, pese ccan rigor desigual sobre os sujetos clas diferentes lasses sociais. Um jovern da camada superior tem oitenta veces mois chances de entrar na Universidade que o filo de um assaleriado agricola quarenta vezes mais que um flho de eperdrio, e sues cherices 520, zinda, duas vezes superiores aquelas de uum jovem de classe médlia'. E digno de note o fato de que as insltuigGes de ensino mals elevadas tenbam também 0 Yeertilamento tna aristocrética: assio, of filhos de quadros superiores ¢ de profissionais lberais constituen 57% dos alunos da Escola Poittécnica, 54% dos da Escola Normal Superior (reatientemene citada por seu re- crutamento “demoeritico"), 47% dos da Fscala Central 44% dos do Instituto de Estudos Poiticos Mas néo ¢ suficente eruinciar o fato da desigualdade diante da escola, & necossério descrever os mecanismos objetivos que determinam a climinagso continua das criancas desiavorecidas. Parece, com efeito, qe a explicaro soxiolégica pode esdlarecer completamente as diferengas de éxito que se atruem, mais freatientemente, és diferencas de dons. A ago do privlégio alu s6 & percebida, na melor parte des vezes, sob suas formas mais grossoiras, isto &, como recomandagéas cu relogdes, luda no trabalho escolar ‘cu ensino suplementar, mnformacao sobre o sistema de ensino e as perspec- tivas profissionsie, No realdade, coda familia transite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, un certo capital cultural e um earto ethos, “INT, Offomes nor mantra waa. a expresso lan Yes ‘dsigato presse nai ex masse ange noite eu noqusle reno Se ess tea an te ‘sabelaimert) sfehinds per chs ao loge de ats ease sce 1.CI, P:BOURDEU eds©: PASSERON, Les Merion, Pars Flos ie Me, 1964p, 14-21 41 sistema de valores implicitos ¢ profundamente inlerlor¥ados, que contribul pata defini, entra coisas, as atitules face ao capital cultural e & insttuicho escolar, A heranca cultural, que difere, sob os dois aspectos, sequndo as cchsses sociais, & 9 responsével pela diferenca inicial das criarcas dhante a experiincia escolar e, corsoqilentemente, pelas taxas dle axite, A TRANSMISSAO DO CAPITAL CULTURAL A inlluencia do capital cultural se detxa aprender sob a forma da relagio, muilas vezes ecnstatada, entve © nivel exltxal global da foarilia © © exito escclar da crianca, A parcela de “bons alunos” em uma amosira da quinta siri¢oresce em fungao da renda de suas fomilas. Paul Clere mostiou «que, com dploma jqual, a renda nao exerce nenhuma infuencia propria sobre © Gatto escolar ¢ que, ao contréri, coms renda igual, « propurgao de bons alunos varia de maneta significative sequtrlo 0 pai néoseje diplomas cuseja bachelier*, o que pentite conclar que a ago do meio familiar sobre 6 éxito escolar & quase exchisisamente cuitural. Mais cue os diplomas obtidos pelo pai, mais mesmo Jo que o tive de escolaricace que ele seguiu, é o nivel cilia! global do grips familar que mantém a relagéio mais ostreita com éxito escolar da crianca, Ainda que o €xto escolar pareca ligado igualmente Ao nivel eultaral do pai out da mie, percebem-se ainda variaeses significa tivas no éxito da ctlange quando os pats sio de nivel desiqual A apalse dos casos emi que os nivets cultura dos pais s40 desiquais nto deve fazer osquccer que eles se encontrar freqlientemente ligndes (em razio da hemogamia de classes) © 2s ventagens culturais que estio asseciadas a0 nivel eutural dos pois sio cumulatives, como se vé na quinla série, em que 05 filhos de pels teulares do. baceatauréat obtérn uma taxa de dxito de 77% contta 62% para os fihos de um bochelier e de uma pessoa sem aetna, tessa diforonca se marifeta mais ritilamente oinda nos graus mais clevadas do cursus, Lima avaliagio precsa das ventagens e das desvantagens transi: tidas pelo meio familiar Geveria levar em conta ngo sornente o rivel cultural do pai ou da mée, mas também o dos ascerelentes de um ¢ outro ramo da farnha(e eibém, sem dlivida, 0 doconfunte dos mernbros da famita extensa). ‘Assim, © conhecimento que o5 estudantes de lelras tm do teatro fmedido pelo nimero de pecas de teatra vistas) se hierarquiza perfeitamente segundo a categoria sccioprolissional de pai ou do avd seja mals elevata ow! A medida que a categoria socioprcfissional do pai e do avd eo clever, cs recurs ¢trwense te cal trong ere IVT No stoma ras, pesson gu ete Fert, porase da"scatasiot (an f ee va Eacares ‘inlonnconlero so fn a 2° cade eras de® site P-CLERC. "La ‘ante at agers posi’ cre, Erte de us 1983 ars ats (9) amadovsceniee de 1964. 64S, a2 Conjuntamente; mae, por outro lado, para um velor fixe de cada urna dessos variavels, a outa tende, por si s6, a hierenquizar es escores", Assim, om virlude da lentidéo do. proceso de acukuracio, dferengas sits ligedas 2s antighidedes do acesso & cuitura continuam a separar individues aparente- mente iguals quanto ao exito social e mesmo ao éxito escolar. A nobroz cultural também tem seus graus de descendéncias Além disso, sabendo-se que a residéncia perisiense ou provinciane (ola propria fortemente higada & categoria socioprofissicnaldo pai) esti tamisérn associeda ds vantagens e desvantagens cullurais culo efello se nota em todos ossetores, quer se trate de resultacas escolares anteriores, de pratieas @ de conhesimentos culturais (em matérla de teatro, musica, jazz, ou Chnema) ou ainca da factiace Engiistics, vé-se que a consideracho de um corjunto relativamente restrito de varidvels ~ a saber, o nivel cultural dos antepassados cla primeira e da segunda goragSo, ¢ a residéncia - permite cexplicar as variagées mals importantes do éxito escolar, mesmo em um nivel elavado do. cursus E até mesmo possivel quo a combinagio dosses critévios permila compreender as vaslagGes observadas no interior de arupos de estudantes homogénaos em retacéo a categoria socioprofissional de ovigern: @ assin que os jovens das cemadas superires tencem a obter regularmente resultados que se distribuem de mancira bimodal, isso tanto em suas prailoas e seus conhecmentos culturais quanto ra sia capacidade para a compreensio © o manejo da lingua (um tarco deles se distingue pelos desermpenhos nitilamente superiores ao rosta da categoria). Uma andlise mutivariada, levando em canta no somente o nivel cultural do pai ¢ da fe, o dos avés patemos & matemos @ a residéncia no momento dos esitslos superiores e durante a adlolescéncla, mas também um conjunto de carecteristcas clo pasado escols, como, por exemplo, 0 ramo do curso sexundério (eissco, medemo ou culo) ¢0 tipo de estabelecmento (colegio ‘ou Ficeu. instituigso pitblica ox privade), parenite explicar quase inteirarsen tecos diferentes graus de éxito obtitos pelos diferentes subcrunos defiidos pela combinegio desses critérios: @ isso som apelar, absolitamente, para es lesigualdades inaias, Consequentemente, um modelo queleve em conta essas diferentes variiveis - e também as coractersticas demograticas do ssrupo familar, como o tamanho da familia — perwitira fazor umn céleulo muito preciso das esporaneas de vida escolar. Da mesma forma que 08 jovens das camadas superiores se distinguom por cferencas que pocem estar ligadas a diferencas de condic&o social, também os fihos das classes populares que chegam até o ensino superior parecem pertoncer a farilias que diferem da média de sun categoria, tanto por seu nivel cultural global como por seu tamanho: dado que, como se Vit, as chances objetivas do chogar a6 ensino syzerior ado quarente vezes '8.CI.P. BOURDIED #.)-C, PASSERON, Les i our ses, 29 pte, 6-97 hi mais fortes para um jovem de camada superior que para um filh de operétio, poder-se-ia esperar encontrar, numa populacao de estudantes| investigad, a mesma relagao (40/1) entre o nimero médio de individuos com esturlos superiores nas familias de estidantes flhas de operdrios enas familias de estudantes das carnadas superiores. Ora, numa amnostra de ‘etudantes de medicina, o nimero médio de membros da familia extensa {que fizeram ou fazem estudos superiores nio varia senao de 1 a4 entre {0s estudantes oriundos das classes populares 2 os estudontes oriunclos das camadas superiores, A presenca no circulo familar de pelo menos um parente que tena feito ou esieja fazendo cusso superior testemunha que casas familas apresentam uma situago cultural original, quer tenharn sido afetadas por uma mobilidade descendente ou tenham uma attude frente A ascensio que as distingue do conjunto das familias de sua categoria. Prova indlreta do falo de que as oportunidedes de cheanr ao ensino secundério ou superior @ as chances de ser bem sucedlido sio funcao, fundamentalmente, do nivel cultural co meio familar no momento da entrada na quinta série (sto é quando a agio homogencizante da escola e do meio escolar nao se exerceu por routto tempo) temnc-ta no fato de as Uesigualdailes de éxito entre criangas francesas ¢ crienges estrangeiras serem quate tolalmenta explicéveis pelas diferences na composicao social dos dots grupos de familas. Com nivel socal igual, as criangas estrangetias tém um nivel de éxito sensivelmente equivalente aqucle das criangas fran cesas: com efeito, se 45% dos filbos de aperdrios franceses contra 38% dos filhos de operdrios estrangeiros entram na quinta série, pode-se supor que urna boa parte dessa dilerenca (relativarmente minima) & impuavel 20 fate de que os cperdrios estrangeiras tem uma taxa de qualficagso menor do que os operévios franceses* Mas o nivel de instrugo dos membros da farniia restrita ou extensa cu ainda a residéneia so apenas indicadores que permitem situar 0 nivel cultural de cada familia, sem nada informar sobre 0 contetxlo da heranga que as familias mais cultas transmitem 2 seus filhos, nem sobre as vies de tronsmissao, AS pesquisas sobre os estuxlantes das faculdades de letras tendem a mostrar que a parte do capital cutural que é 2 mais diretamente rencével na vida escolar @ constituida pelas informagSes sobre © raurclo Universitario e sobre o cursus, pela facilclade verbal e pela cuitura livre adquirida nes experiéneias extra-escolares, As detigualdades de informagao so por demais evidentes ¢ conhect das para que hela necessidade de recorcéstas mais longemente. Conferme Paul Clere, 15% cas familias deakmos dos C.E.G. (colégios de ensino geral ajo recrutamento é mais popular que 0 dos iceus) ignoram o nome do Yoreration slain toe de ane an aire. Lae n ass aoeanivo de 1964, 9. 871 ALP, CLERC, "Noses des fees de ratonaleeargire sia Fos 44 liceu mais préximo, atingindo essa taxa 36% entre as familias dos alancs da chsse de fim de estuclos primarios. O liceu nia faz parte do universo concrete des farntias populares, ¢ @ necesséria uma série continua de sucessos excepcionals © concelhos do professor ou de algum membro da famita para que se cogite de enviar para laa crianga, Ao contrério, & todo um capital de informagées sobre o cursus, sobre a sigificagao das grandes escolhas da cuinta série, ca sétima ow das classes teminais do ensino ‘secundavio, sobre as carreltas futures e sobre as orientacoes que normal: mente conchizem 3 elas, socal vane, eaentemerte,segudo as castes sors awa pra.os nerixos doses inkerites das cass mils 0 becvieuéet parece = pecele, ais ce extn 0 ea oral és esi por toe denice po Tata denen, mest Sam div, orp axerpropadae coe adres mis ten aieguetogor ox atone cents 4. experiment » leben denn boners certo cal -y ee spare tt We tes aes nos upures as chines rally ¢ 45 cesses supetors tore ina epee exame dé ta ara eit super: tah epresenagioc cour poor exlem pr que is agar @ de quaies mbes reuse, ems onorctes patients veda 3 rosea sas estore do tccatara $1 natureza ao fato de que a selegdo que eles aofrem é desigualmente severa, 1s vantagens ou desvantagens socials s80 converlilas progressiva- mente em vantagens e desvantagens escolares pelo jogo das orienlacces presoces, que, diretamante igadas & origem social, substittiem @ redobrar a influencia desta uitima. Sea acéo compensadora que a escola exerce nas motérias diretamerte ensinadas explica, ao menos pardelmente, que a vantagem dos estudantes otiundos das classes superiores seja tanto mas marcada quanto mals se se afasta dos dominios culturais clretamente ensinades @ totalmente controlados pela escola, semente o eleite de compensacéo ligado a superselecéio pode explicar que, para um compor- tamento como o uso da lingua escolar, as diferengas tenclam a se atenvar ‘a0 maximo e mesmo a se inverter, pois que os estudantes altamente selecionedos das classes populares ober, nesse dominio, resultados aquivalentes aqucles dos esiuclantes das classes aitas, menos fertemente selecionados, ¢ superiores aqueles dos estudantes das classes médias, igualmente desfavorecidos pela aimostera lingiistica de suas farniias, mas menos fortemente selecionarlos"” Da mesma forrra, o coniuinto de carac= teristicas da cortelra escolar, as segbes ou os estabelecimentos, so indicios da influéncia direta do meio familiar, que eles tyaduzem na lagica propria: mente escolar: por exemplo, s2, no estado atual das tradicdes e das tecnicas pedagégicas, um maior dominio da lingua cinda & encontrado entre os estudantes de letras que optaram, em sets estudcs sectindivios, pela secéo de linguas antigas, € que a formacio clissica & a mediagdo pela qual 5e exprimem @ se exeream outras influéncias, como a infornacso dos pais sobre es secdes € 2s carreiras, o sucesso nas primeiras etapes do cursus, ou, ainda, a vantagem constituida pela entrada nos ramos de ensino em que‘ sistema recarhece a sua elite. Procurendo recobrar a lagica segundo qual se opera a transroutagdo da heranga socal em hetanga escolar nas diferentes situagdes de classe, observar-se-d que a ascolha da seco ou do estabelecimento e os resultados obtidos nos primeiros anos da escolaridade securslivia eles préprios ligados a essas escolhes) condicionama ulilizagio queas criancas dos diferentes meics podem fazer de sua herance, postive ‘ou negativa, Sem clivida, seria tmprudente pretencerisolar, no sistema de relagdes que sho as carreiras escolares, fatores determinantes ©, « jortior wun fator predominante. Mas, se 0 éxito no nivel mais alto do cursus permanece muito fortemenie: Hgaco 20 passado escolar mais longinauo, ha que se admitir que escalhas precoces comnrometem muita fertemente as oportunidades de atinair ta} ou tal remo do ensino superior ¢ de nele iriunfar. Em sintese, as eartas so jogedas muito cedo. 16, CI, BOURDIEL, J.C, PASSERON 6M doSAINTMARTIN, be et. Pato malt comolets Twerte slo do copia rgishes, tmaseiiostebeees, revs de tudor sxparmertah brabore anus resandce por Berson se ex eloscessiqaalves ene asinine da Tngut fasch for @asyp, Hua empleo) eo esto dm cktos detios que nao aque: fds eetscs Berio andes neagiae aad), por enna a alent © FUNCIONAMENTO DA ESCOLA E SUA FUNCAO DE CONSERVACAO SOCIAL Concordar-se- facmerte, ¢ talver até facilmente demais, com tudo o que precede. Mes restingirse asso signifcaria abicarrnos de nos intertogar sobre.a reeporsabilidade do ezecla na perpetuagso das cesigualdades socias, Se essa questio & raramente colocada, € porave 2 Hlecloaia jecobina que inspira a rraior parte des crticas dirigilas ao sisterna universitévio evita leva em conta realmente as desiqualiades frente aa sistema escolar, ern virtue do apeyo a urna clefinicao social de eqakderle nas oportunidad cle escolanizaa Ora, se conciderarmos scriamente as desigualdades socialiente condiciona- das diante da escola e da cultura, somos obricatios a concur que a ealidade formal & qual cbedece todo. sisterna escclar @ injusta de fato, e que, em toda sociedade onde se proclamam ieais democréticas, ela protege melhor os piilégoss do que a transmissio aberta des priilesios, Com efeito, para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desta- vorecidos os mais desiavorecidos, & necessévio ¢ suficiente que a escola ignore, no Ambita des conteidos do ensino que transmite, dos métodos \enicas de transmisso dos critérioy de avellagio, 69 desigualdades culturais ontre.as eriancas das dilerentos elassos socinis, Em cutras palavras, tratando todos os educandos, por mais desicuals que sejam eles de fato, como igueis em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sengéo as desigialdades iniciais ciante da cultura. A igualdade formal que pana a prética pedagégiea serve.como mascara ¢ justificagio pare a indiferenca no que diz respelto as desiguatlaces reais chante do ensino e da cultura transmitida, ov, melhordizendo, exigiia. Assim or exernpio, a “pedagocia’” que € utilzaca no ensino secuntario ou superior aparece objelivernent2 come uma pedegogia "para o desperter", como diz Weber, visando a despertar os “cons eclormecidos em alguns individuos cxcopcioncis, através de téonicas encantatBrias,tais como a proeza vertal dos, imestres, em oposiéo a uma pedagoga tecional e universal, que, partirlo do zero e nao considerando como dedo 0 que apenas alguns herdavamn, se obrgara a tudo em favor de tovlos e se orgenizaria metorlcamente ern referencia ao fan explicto de dar a todos os meics dle ackuiniraquilo que no 6 dado, sob a aparéncia do dom ratural, sendo as criancat das classes pililegiades. Mes o fata ¢ que a tradicto pedogbalca so se dtze, por tras das idias inquestionéveis deSgualdade ¢ de uriversalidade, 20s ecucandos que esto no caso particular de deter urna heranga cultural, de acordo com as exigéncias culturais de escole. Nao somente ele exciui as interrogagées sobre os meics mais elicazes de transmitir@ todos os conhecimentos @-as habilidades que a escola exige de toxics e que as diferentes classes socials s6 trensmitem de forma desigual, mes ela tende ainda a desvalorizar como ‘prmarias’ (com o duplo sentclo de primttivas e vulgeres| e, paradoxal ments, como “escolares”, as agées pedagdgicas voliadas para tals fins 53 Nao € por acago que 6 ensine primirio superior, quando concorria com 0 eau clissiza, constitu um munde menos estrarho do que o lice ppara as criancas oriundas das classes populares, atraindo, assirt, o despre zo dos dlites, precisamente porque era mais explcits © metocicamente escolar. Sao também duas concepgtes de culture que, sob interesses corporatives, se exprimem ainda hoje nos confltos entre os restres provenientes do ensino primério e os professores tradicionais des escolas secundarias”, Seria preciso que se indagasse também sobre as fungSes que exerce junto aos professores e membros das classes culivadas © horror sagrado a “bachotage"™, em oposicao a cuura geral. O “bachotage” nao © mel absolute, quando consiste téo-somente em reconhecer que se prenara as alunas para 0 baecalouréat, @ cleterminélos, por isso mesmo, a reconhecer que eles estéo se preparando para o “bachot”. A desvalort zagio das téenicas néo 6 senio 0 reverco da exalkagic da procza intelectta, a qual tem afinidade estratural com os valores des anupos privilegiados do ponto de vista cultural, Os detentores estatutérios das "boas manciras* ‘stio sampre ineinados a desvalorizar como laboriosas e laboriosamente adguiridas as quaidades que nao valem sendo sob as aparéncias do inate. Produtos de um sisiema voltado para a transmissdo de uma cultura avistoerdtica em seu contetido ¢ expirto, os aducadores inclinam-se 9 desposar os sexs valores, com mais ardor telvez porque the devem 0 sucesso universitrio ¢ social, lem co mais, como nao integrariam, mesto esobretudo sem que disso tenbam consciéncia, os valores de sou meio de forigem ou de perteneimentc as suas maneitas de julgar ¢ de ensinar? Assim, no ensino superior, o8 estudantes originsrios das classes populares ‘emédine sardo julgadas segundo a escals de valores das classes privilegiar das, que numerosos educaclores dever @ sua origem socal e que assurnerm de bom grado, sobretudo se 0 seu pestencimento a elite datar de sua ascensio 20 magsiério, Da-se uma inversao das valores ~ a gual, acraves de uma mudanea de signo, transforma 0 sério om espitits de sério ¢ a valorzacio do eslorga em uma mesquinharia indigerte e laboriosa, suspel- ta de compensar 2 auséncia de dons ~ a pantir da momenio em que 0 ethos pequeno-burgués @ julgada segundo o penta de vista do ethos da alite, ou sea, afericdo pelo difetantisero do homer culto e bem nascido. De medo pesto, o diletantisme que os estudantes das classes favoretidas exprimem em virias cordutas ¢ 0 proprio estilo de stas relacdes com uma cultura que ees nao deve jamais tolakrente & escola, resporxlem as 19, Ver, este meso mene, o aga de V. BAMBEKTIAMNI, “La nae dre ster haze cla at iste ce els, p, 30D, + NT Por “techome” ancrlese tak prcareséo retail utltila vane Rermenis & sngio‘en erase conewsze (fra, et gel de eas" eexpatkres proses, Opoest, poviarta, co dicatio fertia deste. O temo dea de "bahote’, gun, $2 frases, smlen rasar pelo "bach", tat. peo "aes expectativas, freqiientemente inconscientes, dos mestres @, mais ainda, 8= exigencias objetivamente insentas na insttuigao. Néo ha indicio algam de ppertencimento social, nem mesmo a posture corporal ou a indumeatiia, © estilo de expresso oi 0 sotaque, que nko sejam objeto de." pequenas percepgies’ de casse & que néo conitiouam para crienter ~ mais freqilente- mente da mancira inconseiente ~ 0 juigamenio dos mestros™. O professor que, a0 jugar anarentemente “dons inatos’, mede, pelos enterios do ethes ch eile cultivada, condutes inspiradas por um ethos ascético do tabelho execiladatehorioxe edificiimenta, onde dois tines derelagao comms culra 4. cual individuos de melos socils diferentes estéo desiqualmente destinades desde o nascimento, A cultura da dite é tio préxima da cultura escolar que as eriancas origirias de um meio pequeno burgues (ox, @ fortiort, campones © operitio) no podem edauiir, sendio penosernente, o que & herdadlo pelos {ilhos cas classes cutiverias: 0 esilo, o bom-gosto, 0 ialento, emsiniese, esses atitudes e aotidbes que so parecer naturals ¢ naturalmente exigiveis des marbros da chsse cultivada, porque constituem a “cultura’ (no sentido empregadlo pelos etnélogos| dessa classe. Nao recebendo de suas famiias pada que hes pose servi em sun alvidade escolar, a ndo ser uma espécie «ke boa voolade cultural vazia. os filhes das classes mécies sao forcadios a tudo esperar e a tudo receber da escola, ¢ sujeitos, ainda por cima, a ser repreendidos pala escola por suas conchtas por demais “escolares E uma cultura arstocratica & sobretudo uma relagio aristocritica com essa cultura, que o sisterma de ensino transite @ exige", Isso nunca fica tito claro quanto nas relagSes que os professores mentém com linguager, Pendendo entxe um uso carismatico da palavra camo encantamento destinaco a colocar 9 aluno em eendligdes de “receber a qraca” e um uso tradicional da linguagem universitéria como veiculo consagradlo de uma ‘cultura consagrada, os professores patter da hipotese de que existe, entre © ensinente € 0 ensinado, uma comunidad lingiistiea e de culture, uma ‘cumplicdlade prévia nos valores, a que # ocarre quando a sistema escolar es ris a pai peencem edasears prev caloure mele fwem desesstinoelen > colagio dees dow canine o 9 ade ers sec8 neh ecelaee 2A. No certo cl de>czo mais aeonal Ge era et, sam divi. a stg en o cot ‘hrc tn seco ssbetun a eben oben ierereioch ose se so. sero ‘aul ques cringe heel de um reo eatin Ho €somente una ‘av con end ela eam eure que pra precsarerte dy moe de aqua ‘a ea gto qe wo mona cama cin dct fe molec {os as stas expenreas cubes) ¢ prtano, rly oursnos “es, bhatt Sela", “a, "dln Yon". sageco a rondnies mie aie ets ‘thr: m sperdaagan cures lin fvorcta unn exper de "hrsharsnde? oneda nto omar, un merengue exslr soe pees js lomese carla oat, Vee, esa iy cat ase flaga0 en als ean wale Oeste Islogies as ertertng poche eo ila), escola focwece ox ms tone, 55 eeté lidando com seus praprios herders, Fazendo como se a Enguagam do ensino, linaue fella de alisdes e cumplicidade, fosse naturalaos sujetos "inteligentes” e “clotados", os eckicadores poclerse poupar 0 trabalho de controler teenicarente seu manejo da linguagem # a compreensio que ek tem os esiclantes, Eles podem também experienciar, como estrita- mente equirimes, as avalagées eseolarcs que eonsagram, de faio, 0 privileaio cultural, Com efeito, como linquagem ¢ a parte mais inatingwvel ea mais atuante da hecance cultural, porque, enquanto sintaxe, ele fomece lum sistema ce posturas mentais transfertveis, soldéries com valores que dominam toda a experncia, € como, por outio lado, a Unguegem Uuniversitéria 6 muito desigualorente distante da lingua efetivamenie falada ppelas diferentes classes soziais, nio se pode conceber educendos igus em direitos e deveres frente & lingua universitévia ¢ frente 20 ws0 universitério dda lingua, sem se condenar a creditar ao dom um grande. nimero de desigualiades que séo, antes de tudo, desigualdades socials. Alem de um lagen e da uma sintoxe, cada individuo herda, de sou meio, uma carta atiudde em selagdo as palavras @ ao seu uso quie 0 prepara rrais ou menos para €s jogos escolares, que so sempre, em parte, na tracigSe francesa de ensiva literérin, jogo de palavras. ssa ligactio com as palavras, reverencial ot livre, artificial ou familar, sobria ou intemperate, nao € nunca tao manifesta quentonas provas oral, tas quais os prolessores, conseiente ou inconscientemente, diferenciara a faclidade “natural”, constituide da facildade de expresséo e de desenvcl tura elegante, da destreza “forgada’, ireqilente nos estudantos das claeses populares ¢ inédias, e aue trai o esforeo para se conformar (@ custa de disscnfncies e de um certo tom artifical) és notmas do discurso univ tario, Essa false destraze, em que desponla a ansiedade de se impor, deixa toansparecer por demais sua fungde de sutovalorizagao, para nao ser sispeita de vulgaridade interessada, Em sintese, a “certitudo sui" dos professores, que nao se exprime nunca lao bem quanto no prestigio do eurso magistal, alimenta-se ce um “otnocentrismo ce ciasse", queautoriza tanto umn uso deterrinado da lmquagem professoral quanto certa atituce em relagdo aos usas queos educendos fezem da linguagem e, em particular, dh linguagem professoral Assim, a que es: implicte nessas rolacdes com a fnguagem & tedo0 sigulficado que as classes culkas conferem ao saber erudilo e inslituiedo encarragada de perpolué-loe ransmit-lo, So asfun;oes lalentes que essas asses atribuem 4 institugéo escolar, a saber, organiza 0 culto de uma callura que pode ser proposta a todos, porque esté reservada de fato aos membros das chsses 4s quais ola pertence. E a hierarquin dos valores Intelectuals que da aos manipuiadores prestigiosos de palavres © ilies supetiaridade sobre os homies servidores das tSenicas. E, enfim, a logiea propria de um sstema que tem por fungao objetiva conservar 05 valores que fundamentam a ordem social. Mois profundamerte: & porque o ensino tradicional se dirige objetivar mente aquelas que davem ao sou: meio o capital ingtistico cultural que ele exige cbjetwamente & que esse ensino pode permiir senao explictar suias exiagncias e niio se dbrigar a der # todos os meios de salisfazt-las. A moda de um direto ccnsuctudinario, a traciggo universitria preve aneras indrogdes e sangSes partivleres, sem jamais expliciar os prinefpios que as fundamentam, A verdade ce um tal sistema dave sex, entio, encontrada ras suas exigencias implctas e no caréter immplcto de suas exlcencias. Assim, tomando-se 0 exemplo do cxame, percebe-se evidentemente que, quavte mais as provas escitas propostas se apeximam de um exercico etérica mais tradicional, mais fevordvel & exbicao de qualidedes imporderéues, tanto no estilo quanto na sintaxe do pensamento ou nos conhecimentos mcbilizados, i “dissertatio de omni re sefbil’ que domina os arancles concursos lterérios (6 que sinda desempenha um papel importante nos eoncursos cientifices), tnais elas marcam as diferencas existentes entre os candidatos de diferentes dorigens socieis, Segundo a mesma l6gica, os “herdelras” so mais fevore- cides nos exames orais do que nos escritos, principaimente quando © exatnie oralse tora explicttamente aquilo cue ele sernpre € implictamente, a saber, o teste das mancizas cultivadas e distinias™ Nota'se, evidentemente, que um sisteme de ensino como este sb pode Jancionar perfeitamente enquanto se limite a recruiar @ a selecionar os eclicondos capezes de salislezerem as exigéreias que se lhe impoer, objetivarmente, ou seja, enquanto se dlrja a inclvickuos dotados de capital ‘cuitural (eda apticéo para fazer frutiicar esse capital) que ele pressupée © consagra, sem exigilo oxplicitamente e sem transmii-lo metodicaente. ‘A Gniea prova de que ele nossa realmente se ressentir nao é, como se ve, a do méimero, mas 2 da qualidade cos edtucandos. O ensino de massa, do qual se fala tanto hoje em diz, opde'se, ao mesmo tempo, tanto ao ensino seservado a um pequeno niimero de herdeires da cultura exigida pela escola, quanto ao ensino reservado @ um pequeno ntimero de indvidios ‘quaisquer. De fato, o sistema de ensino pode acolhes um nimeto de ecicandos cada vez maior ~ ecmojé ocomeuna primeira metade do século XX ~ sem ter que se transformar profundamente, desde que os recem-che- sgados sejam também portadores das aptid5es eociakmente adquitidas que @ escola exige tradicionalmente. Ac contrario, ele esta condenado a uma ‘rise, perccbida por exemple como de “quedo de nivel’, quardo recebe um numero cada vez maior de edlucandes que nao dominam mais, no ‘mesmo gra que seus predecessores, a heranca cultural sua classe soclal (como acantece quando as taxas de escolnizacao socundaria ¢ superior 22 Araneta doy pofewerey an regi 8 “Saco” [NT Ese tea desig, em Lenco siti distinc ey leas de enc den coterie rat snk, regi a tsforco pra inzonatas as reso ete ngs qe deaeranareuststehas) se neta nesrecertenats worst eto sree daca cs bec inde eek ino eictve ns aroetes ice cd ral dope tees 87 das classes tradicionalmente escolnizarles crescem continvemente, cainde a taxa de sclagSo paralclamente}, ou que, procedendo de classes sociais culturalmente clesfevorecidas, sao desprovidos de qualquer heranga cult a. nimeros transforacées por ave passa atualimentec sistema de ensine séo imputavels aos determinismos propramente morfologicos; assim se compreende que eles nfo teqiiem no esseneial e que se questione tic poco nos programas de reforma, bem como nas reivixlicagées dos educadores # aducarclus, a espetiicdade do sistema escolat tradicional © de cau funcionamanto. Everdade que a derocratizagao do acesso a quinta série constitulra, sem davida, uma prove decisive, capaz de impor ume transformagio profunda zo funcionamento do sistema de ensino no que ele tem de mais especifico, se a segregacac das crlancas, segundo a hierarquia dos tipos de estabelecimentos e des sees (dos colégios de tensino geral ou de ensino técnico as secbes classicas dos liceus), nao fomecesse go sistema umm protegia de acorlo com a lagiea do sistema: as criangas das classes populares que nfo empregam na atividade escolar nem a boa vontade cultural das criangas das classes mésias nem 9 capital ‘cultural das classes superiores refugiam-se numa ospécie de atitucle nega tiva, que desconcerta as educadores e se exprime em formas de desordern até entio desconhecides. Evidentemente que, nesse caso, ¢ suficionte Ihisser-faire” para que aluem com @ maior brutallade os “handicaps” cultureis, € para que tudo retome & order, Para responder verdadetramen tea exse dosafia, 0 sistema esceler devotia dotar-se dos meios para realizar um empreendimerto sistemdtico € generalizado de aeulturagao, do quel cle pode prescindir quando se dirige 2s classes mais favorecides”™. Seria, pois, ingénuo esperar que, do fncionamento de um sistema que define ele proprio seu rectutamento (impondlo exigencias tanto mais clicazes talvez, quanto mais implicitas) surgissem as contradig6es capazos de determinar uma transformacao profurda na Jogica seoundo a qual Funciona esse sistema, e de impedir a instituigSo encarregada da conserva io 0 da trancmissio da cultura legitima de exercer suas funcoes de corservagio social, Ao alribulr avs inuividuos esperancas de vide eseclar estiitamente dmensionadas pea sua posicdo na hicrarquia social, & ‘operando uma selecao que ~ sob as aparéncias da eqiitdade formal ~ sanciona ¢ consagra as dezigualdades reais, a escola. contribui pata perpeluaras desiqualdades, 2o mesmo tempo em que as legttima, Confe- sindo uma sangfo que se prelende neuro, © que € eltamente recenhecida como tal, a apfidées socialmente ccniicionadas que trata como desigual 28. passin ss denn serwnien poss voc Yoneornctes din? Padeseconeer ats a= Sonik chiles wale aay we neslader da qusdioe sam amps eoradva ‘Nene use ecttanesndcrata sete nivenida do eo ape, Com lo, so ‘Sescocmy ape entenrasde sts o ese er de econaldclca pode st rt Frcs, conve os ingerthos di ists eta, tos cases ca eae speal rs rem Co fina clr edger dese fen, deny erga de acta 58 dades de “dons” ou de merit , ela transforma as desiqualdades de fato em desigualdedes de direito, as dferencas econdmicas e sociais emi ‘dislingie de qulidacle’, ¢ leghima a transmissao da heranca cultural. Poy iss, ela exerce uma fungie mistifcacora. Além de permit & ellt2 se fustificar de ser 0 que &, 2 “ideologia do dom”, chave do sistema escolar e do sistema social, contibu para encerrar os membros das clesses desiavorecias no destino que a scciedade Ihes assinala, levando-os a pereeberem como inaptidoes naturais 0 que nao @ senao efeito de uma condicio inferior, & persuadindo-os de que eles deve © seu destino social (cada vee mais estreitamente ligedo ao seu destino escolar, 4 merida que a sociedade se raclonalize) ~ sua nitureza individual e sua falta de dons. © sucesso excepcional de alguns indlvsdues que eseapam a0 destino coletive dé uma, aaparencta de ‘egltmidade & selecao escolar, edi crédito ao mito da escola libertadors junto aqueles prépriosindviduos que ela eiminou, fazendo exer ‘que o sucesso @uma simples cuestao de trabalho e de cons, Enfim, aqueles que @ escola ‘liberou", mesires cu professores, colocar sua fé ne escola linertadora a servigo da escola conservadara, que deve ao mito da esecla livertadora uma parte de seu poder de conservacéo. Assim, o sistema ‘escolar pode, por sua légica propria, servir & perpetuagdo dos privilegios calturais sem ue os priilegicos tenham de se servr dele. Conformdo as desigualdades cuiturais uma sangio formalmente conlorme aos desis, emoeratices, ele fomece a melhor justlcativa para essas desiguaidades. AESCOLA E A PRATICA CULTURAL Porque utn fendmero de moda intelectual leva a reconhecer em todo lugar os sinsis de uma homagencizacdo da sociedade, numerovos autores pretender aue as distancias cakurais entre as classes tendotn a se edu intra as mitolosies da homegeneizagio cultural que (entre oulras coisas, @ Sem que se precse jamais a parte que cabe a tim ou a oiltro fator] © entraquecimento das diferencas economicas ¢ das bameiras de classe, por tn lado, & a aco dos meios modemos de comunicacéo, por cutro, determinatiem, 3 nesquisa cientifica masira que.o acesso As obras culurais permanece como priviégio das classes cultivadas, Assim, por exernplo, a freqiiéncia a museus (que ~ eemo se snbe ~ esté fortermente ligada a todos 1 outros tipos de priticas axturais, assisténcia a concertos ou freniioncia a teatros) depende esttetamente do nivel de insteugdo: 9% dos visiiantes sd0 desprovidos de qualquer diploma; 11% si0 titles do CEP., 17% do CAP. odo BEP.C., 31'% sdo bacheliers e 21% sio Rcenciés", 0 ‘NT: Peon portadors do diphanm uses de “hee de eres eine o 1" ¢ 6 ‘eles tor spent 59 que significa que os vstantes com 9 baccalauréet cu um diploma mais elevado constituem mais da metade do publice total ‘A oxisténcia de uma ligncdo tdo forte entre a instiugéo @ a frenbencia a museus mostra que s6 a escola pode crlar (ou desenvolver, segundo 0 ccaco) a aepragio 3 cultura, mesmo a cultura menos escolar”, Falar de “necassidaces culturais", sem lembrar que elas sao, difereriternente das "necessidades primérias', produtos da edueagéo, &, com fet, o melhor meio de dissimular (mais ulma ver vecorrendo-se: ideologia do dom) que as desigualdades frente és obras da cultura erucita ndo 580 senéo ura aspetto ¢ um efelto das desigualades frente escola, que cria a necessi dade cultural ao mesmo ternpo em que da edefine os metos de sausfaze-la, A privagio em materia de cuitura nao & necessariamente percedida como tal, serdo o aumento de privacéo acompanhado, a0 contrévio, de tum enfraguocimento da coneei@ncia da privacio. O privilégia tem, pois, Todos os sinais exterior2s da legttimidade: nada & mais acessivel que o> museus, € 08 obstéculos econémicos, cuja acdo so deika pereeber em cuiros dominios, 580 aqui menores, de modo que parece ter-se mais fundamento, aqui, para invocar a desigualdede natural das necessidades cakursis. O'carater autodestrutivo dessa ideolagia @ to evidente. quanto sua funcao justficadora, Verifice-se, mats urna vez, gue as vanitagens ¢ desvenlagens so ‘camulativas, Assim, s80 0¢ mesmos individuos que tém oportunidades mais, ‘numerosas, mais curadouras e mais extensas de freqencar os museus, por ceaside de giros tursticos, us que séo também dotedas da culkura, sern a ‘qual as viagens turisticas nao enriquiecm em nada (ou somente por acaso @ sem maiores conseqilencias) a prética cultural Da mesmamanetza, como se procurou mostrar nas anlises preceder tes, 08 individuos que tém um nivel de instrugo mais elevado 13m as maiores chances de ter crescido num meio culto. Ora, nesse dominio, 0 papel das inctax oes lifusas propiciades pelo meio familar &particulersnen- to determinante: a mataria clos Vistantes faz sua primeira vista an musett antes da idacle de quinze anos e a parte rdatva das vistas precoces eresce, regularmente, & medida que se se eleva na hierarquia social, tat sper cont anloga, ea rin a0 enema, consleralo ats tua fs sopuor tomtes usta desg elo stasis wchls cessed de 82% pa fecparboc sinner sashes de pmoksens Ineo Pym as anges OF nam os Glornee of pura ce pazasce prepretmns CE Due GUETIA, ‘Le en norbrd a ice scertifque 2 dezanba de 196A, 9.30, 24,0 pico do 25. ean de aralecine virion alg afer properste racers” este ase ‘mtu coma abe aon le "erate ctrl” Discrrsv snags dala €35 80 mrchiag sev doe enquteal ds srehduttnter seandenece sxc ut JOT jie Je @unent ede Geour sun cams © robiese de 1 soon den er pa de asp m0 sta Quo pesca condioes era 60 Se a cdo indireta da escola (predutora dessa cisposigia goral diante de todo tipo de bern cuhurel que define a attude “cula’) edeterminante, a aca direta, sob a forma do ensino axtisico ou dos diferentes tipos de incitagao & pritica (visitas organizadas, etc}, permanece frara: detxando de dar a todos, através de ume educagéo metédlica, aguilo que alguns devern ao seu meio famiter, a escola sanciona, portanto, aquelas desigualdades que somente cla podera reduar. Com efeita, somente uma institucdo cuja funcéo esneciica fosse transmiir oo moior niimero possivel de pessoas, pelo aprendizadlo © eo exercicio, as atinides e as antices que fazem o hamem “att”, poderia sompenser (pelo menos parclalmente| as desvantagens daqueles que n&o encontrar em seu meio familar a incitacdo & pratica cultural So as dasiqualdades néo sio jamais tao aconfuselas quanto diante das obras de culura erutita, elas permanecem, todavia, muito fortes nas praticas culurais que ume certa ideclogia apresenta como mais universais, poraue mais largamente acessivels. Por exemplo, as enqudies sobre a auigreia radiofénica mostram gue a posse de aparelhos de ratio € telovisso & muito desigtal entre os diferentes incilos pennitemn inferir queas desigualdades se refleen nao somente na dos programas vistos ou ouvidos leseaha que depende streita- mente do nivel de mstucéo, tanto quanto a fteqéncia a museus ou a concertos), mas também, ¢ sobretudo, no tipo de atengéo dedieado. Sabe-se, com efeito, para usar a linquagem da teoria da comunicacéo. que a receacéo adequeda de uma mensagem supée urna adequagio entre as aptid6es do receptor {aquilo que charmamos grosseiramence de sia cultura) © 4 nalureza mais ov menos oMiginal, mais ou menos redundente, da mensagem. Essa adlequacio pode, evidentementa, roalizar-se em todos os bihveis, mas ¢ igualmente evliente cue o conteiklo infcrmative @ escevco cla mensagom sfalivamente recebila tem tanto mais chances de ser mais, pobre, quanto a “cuitura’” do receptor for ela propria mais pobre, ‘Como toda mensagem @ objeto de uma recepcao diferencial, segundo 28 caracteriticas sociais e euiturais do receptor, nio se pode afirmar que ‘8 homogeneizacio das mensagens emitidas love a uma homogeneizacso chs mensagens recebidas, @, menos ainda, a um homogeneizacdo dos receptores, E preciso denunciar a fiecio segundo a qual “os meios de omuinicagao de massa” seriam capazes de hamogenelzar os crupos socials, transmitindo uma “eultsra de massa” idéntica para todos e xlent camente percebida pox tedos E preciso, também, pdr em diivida a efiedcia de todas as téenieas cle agdo cukurel dieta, desde os Centros Cuturais™ até os empreerelimentos do edueacio popular. Quer esioja apoiada nurs rauseu, cone no Havre cu nium ceatro, como em Caen, © Centro Cultural atrata e reagnupou ~ ¢ HT Noort otsons de culture ol ‘5:0 4 ésuficionte parajustficar sua existéncia ~ aqueles cuja formacao escolar ou meio social haviam preparado para a pratica cultural, Se a agao de organizagSes profissionas, esportivas ou familanas procxistentes pode incitar uma parte das dasses medias @ uma minora das classes populares a ura pritica cultural que néo he: era familiar, o Centro Cultural se viu imediata- ‘mente investido das caractersticas das insiicdes, teatros oumuses, que eke pretencia duplicar ou substitir: es membros da classe “cute” se sentem no diteito @ no dovor de froqiientar esses altos centros de cultura, dos quais (08 outs, por falta de unie cultura suficiente, se sentem exeuides. Longe de proencher a funcio que uma corta mistiea da “cultura popular” the atnibuiu, o Centro Cultural continua sendo a Casa dos hornens culos. E como podetia ser diferente? Se se sabe que o nteresse que um ouvinte pode ter por uma mensagem, qualquer que seja da, ¢, mais ainda, a sempreensio que dela venha ter, 880, deta e estritamente, funcao le, sua culura’, cu seo, de sua eclacagao ecle sea meio cultinal, nda se pode sendo duvidar da oficacia de todas as téenicas de aco cultural direta, desde os Certros Culturais até os empreendimentos de educago popular, que, et quanto perdurarem as desigualdadas frenta & escola {inica insttuigo capaz de criara attude cutiveda), apenas contabuirao para dsfarcar as desiaualdades culturais que no conseguem reduzir realmente ¢, sobretelo, de maneira duracoura, Nao hi atabios no cammiho que leva as obras ca cultura ¢ as cencontios artificialmerte arranjodos edliretamente provocados no tem futuro. ticarin isso que exes emprecndimentos <6 poderdo tor alguma elicicia se se dotarem tos meios de que a escola clspde? Com efetto.alem do fato de que toda tentativa de impor tarefas ¢ sciplinas escolares 203 ganismos margak de cifusdo cultural encentraria resistencias ideologi- cas por parle dos responsévels por esses organisms, pademos ainda crrogar-nios sobre a verdadoia fungio da polica que consiste em on: ajar e sistertar tals Organismos marginals e pouco alicazes, enquanto nde s¢ tver feito tudo para obrigar © autorizar a instituigao escolar a desompenhar a furcao que the cabe, de fate ¢ de diretto, cu seja, a de volver em todos os mersbces da scciedade, sem distingSo, a aptid3o: para as praticas eutursis que a seciedade considera como as mais nebres. [Nao estarfatsos nbs no direto de formular essa questo, uma vez que esid cstabolocido cienicamente que, a urn custo equivalente, a extensia da eccolandade cu o aumento da parte corsagrada nos progianias escolates ‘20 eisino attistco levariam, a lorgo prazo, aos museus, teatras e concer tos, wea niimers incomparavelmente maior de indvidnos que todas as técnicas de agio direra reunidas, quer se trate de animagdo cabal ou de pblicidade afraves da imprensa, récko ou televisia?” 26. BOURDIEY eA DARSEL, Laine ce, ex masse et leur publ, Pas, Eins de ‘inut(al"Lesons cezsmun, 2865 ez Como © deciframenta de ume obra da cukura enudita supse o conheciment 40 cécigo segundo o qual ela esia codiiicada, pode-se considerar que os fendmetios de difusao culural s30 urn caso particular da teoria da comunicago. Mas o dominio do cécigo s6 pode ser adquitida mediante 0 prego de uma aprencizagem metocica e organizada por uma o expressemente ordeneda para esse fim. Ora, assim como a cemunicacio que se estabelece entre as obras da cultura enudita @ © especiaclor depende da mtensidade ¢ da modatidace da cultura (no senticlo fubjetivo) deste ditimo, da mesma maneira a comunieagéo pedagdgica deperde estretamente da cultura que o receptor deve, nesse caso, a seu meio familiar, detentcr e trersisisseor de wine cultura {no sentide etnolagico) mais ou menos préxima, om seu contotido o valores, da cultura erudita que a escola trensmite e dos modelos lingisticos e culturais segundo 0s quais, ‘essa troncmissio &feita, Seé verdad quea experiencia das obrasda cultura, ‘enudita @ & aquisicdo instiucionalizada da cultura que essa experiéncia pressupoe obelecem & inesine lOgica, enquantc fendinenos de ecmunica- <0, compreende-se.o quanto e difiel romper o processo citeular que tende a perpetuar as desiquallades frente & cukura leaitma, Plaido relata. no fim de seu lvro A Repabiiea, que as almas devem empreender uma outra vida; dever, elas mesmas. escolher seu destino entre modelos de vida de todo tipo. centre todas as vidas animais © hurmanes possivels = e que, feta a escolha, elas devem beber a agua do tio Amélds, gua do escuaciment, antes de retomarers & Terra, A tunes de Lecdlictla que Plato confere ao mito compete. em nossas sociedtaces, 203 tribunais tniverstivios. Mas é necessévio citar Plato mais uma ved “Quando eles chegaram, tiveram que se opresenter imediatamen- 1e a Lachésis. E primeiro um hierofante os elinhou em ordem, depois, opanhando sobre 03 joellios de Lachésis destinos e modelos de vide, ido e gritou: “Proclamagao da virgem Lachésie, filha da Necessidade, Almas efémeras, ices comecar uma nova carreira jo mortal, Nao seré um genio que hi de vos sortear, Sais ds mesmas que escalhereis ussso génio. O primeira designade pela sorte esvotherd, enw primetio lugar, a vida d qual ficard ligado pela necessidede (..). Cada qual é responsével pela sua escetha, diuindede nao e responsavel" © renascer na cond Para que os destinos seam metamorioseados em escolhas lives, & salicente que a escola, ieraferte da Necessidace, consiga convencer os indivichios a se submeteram an seu vorerkicto @ porsiadilos de que eles mesiios escolheram os destinos que thes haviam sido a priori atbuidos, A partir desse momento, a divindade goctal esté fora de questio. 27. PLATAQ, A Repl, Glen ad 63 ‘Ao mito phténice da escolha inicial dos dostinos ee poderia por aguole que propée Campanela na Cidade do Sol: para instaurar imedi tamente uma stuacdo ce mobilidede social perieita © assegurar a inde pendéncia absolita entre 2 posigao do pai e a posigo do fio, interditando-se a transmissao do capital cultural, é necessitio ¢ suliciente ~ como se sabe — afaster, desde o nascimento, as criangas de sous pais, Esso 9 mito da mabilidade perfeita que os estatisticos"” invocam immplici- lamente, quando constroem indices ce mobililade social referindo a situnedo empiricartente observada 2 uma situagao de ndepencdéncia completa entre a posicao social dos hercleires e dos genitores, Sera chivida, dices que ele permite construir, uma @ preciso ciributr a esse mito, e a0s i ‘ode critica, pais eles concorrem para desvencar a faliade covrespoo- dencia entre os ideals democraticos ¢ a realilade soclal. Mas mesmo © exeme 1 10 descas abstragées supe o desconhecimento dos custos sociais e das candicoes sociais da possibfidade de un alto grau de nobiidade”. superiicial mostraria que a considera: Assim, a melhor manetra tle provar em que media ¢ realidede de uma sociedade “demoerdtica’ esta de acardo com s: em mediy as chances de acesso o9s instrumento: ascensio social e de salvagéo cultural que cla concede aos indivicuios das diferentes classes sociais?” Somos levactos, entao, a reconhecer a’ rigidez’ exirera de uma orden social que autotiza as classes sociais mais favore: cidas a monopolizar a utlizagic da instituicao escolar, detentora, como diz ‘Max Weber, do monopého da tnarapula¢ao dos bens cukurais e dos inatitucionais da tural ignos 28. CL Maile SOODAK, “Calien in ose eames A ayo mera! devdepment’ Sees Studies col Vio, 1 jmp de 1959, p. F155: ainobikbe ra de pate ca io ues rvicha hn secede ure enalzacho perleia clas 64 © capital social — notas provisérias PIERRE BOURDIEU Troduedo DENCE Baan CATANI AERAMO MENDES CATAN, Revindo téenice: MARA ALICE NCL, Fonte: anti, Pere "Le capil pustralo eagralnese Aci Pon, je de 18D. 23, (eo) ml =) Ee a a re] A nnogao de capital social impos-se com o Unico meio de designar 0 fundamento de eleitos sociais que, mesmo sendo dlaramente compreendi dos no nivel dos agentes smgulares — em que se situa ineviiavelmente a pesquisa estatistica -, no so redutiveis ao conjunto das propriedades, Individuais posstiddas por um agente determinado. Tais efeitos, em que a sociologia espuntanea recomhece de-born grado e a¢éo das “relagSes”, 380 partieularmente visiveis em todes os casos em que diferentes individuns obiém um rendimento muito desigual deum capital econGmico ou cultural ‘mais ou menos equivalente, segundo o graui am que eles podem mobilza, por procuracae, o capital de um grupo familia, antigos alunos de escolas de “elite”, chibe seleto, nobreza, etc.) mais ou menos censtituide como tal le mais ou menos provido de capital. © capital social & o conjunto de recursos atuais ou potenciais que esto ligadas & posse de uma rede durdvel de relagdes mais ou mens insttuci- nalzadas do intercorhocimento ¢ de intor-raconhacimento ou, em outros termos, d vinculacdo a um grupo, como conjunco de agentes que nao somente so dotados de propriedades comuns (passiveis de serem perce- bdlas pelo observador, polos outros cu pot eles mesmes), mas tambem sao tnides por ligagées permanentes e tteis. Essas ligacdes s80 irechtveis 8s relagdes objetivas de proximidade no espaco fsico (eeoaricc) ou no espaco ‘eccndmico e social perque so undead ern trocas inseparavelmencermaieriais ‘esimbélicas cujainstauragao e perpetvacao supdem 0 re-corhecimentodessa proximidade. O volume do capital social que um agente individial possul depende entéo da extenséio da reste de relagdes que ele pode eletivamente mobilizar ¢ do volume do capital (econémico, cultural ou simbélice) que & posse exclusiva de catla tri daqueles a quem es ligaclo. 1380 significa que, cembora sea rdativamente Fraduivel ao capital econémico cultural possuide por um agente determinado out mesmo pelo conjunto de agentes @ quem ests ligado (como bem se vé no caso do nove rie), © capital social néo é jarnais completamenteindependentedoles pelo ato ceque astracas que instituem 9 Inferteconheciniento supoem o reconheclmento de wim anipimwo de homogencidade “objetiva” e de que ele everce um eleito muliplicador sobre 0 captal possuido com exclusividade. Os hicros que o pertencimento.a um grupo proporciona estao na base dla solidariedade que os tora possivel. O que néo significa que eles sejam, cconscientemente perseguides como tas, mesmo no caso dos grupos que, ‘como 05 clubes seletos, sa expressamente arranjeclas com vistas 2 concen rar 0 capital social e obter assim o pleno bencticio do efeito muliplicador or implicado pela concentragio ¢ assegurar os lueros proporcionados pelo pertencimento ~ lueros materiais como todas as espécies de “servigos' assegurados por relagSes ites, e heros simbélicos tais como aqueles que esto associatlos & participagao num grupo rare e prestigioso. A existncia de uma rede de relagies néo @ um dado natural, nem ‘mesmo um "dado social”, constituido de uma vez por todas e para sempre or tum ato social de insttuicSo frepresentedo, no caso do grupo familiar, pela definicao geneatogica das relacoes de parentesco que é caracteristica de uma fermacéio social), mas © produto do trabalho de instauragéo ¢ de mamutencao que é necessario para produrit e reprodkizir xelagées durévoie @ tteis, aptas a proporcionar luctos matericis ou simbdlicas. Em outras paras, a rede de ligegdes & 0 produto de esiratigias de irwestimenta social consciente cu inconscientemente crientadas para a lnstitulcdo ou & reprockigao de relagdes sociais diretamento wtilzivels, a curto ou longo prazo, isto 2, orlentacas para a transiormacae de relacées contingentes, ‘somo aé relagSes de vieinhango, de trabalho ou mesmo de parentesco, em relacoes, 2omestno tempo, necessirase eletivas, que implicam obrigagées durdveis aibjetivamente sentidas (sentimentos de reconhecimenta, de respeito, deamizade. etc.)ou instituconalmente garantidas (direltos). Esso graces & eluimia da troca (le palavras, de presentes, de mulheres, etc, Como comunicagio que supde © produz o conbecimento e o reconhec mento mitues. A toca ttansforma as colses trocadas em sianos de reconbecimento e, mediante 0 reeenhecimento mito o reconhecimento da inclusao no grupo cue ela implica, procduz 0 grupo e determina a0 ‘mesmo tempo os seus limites, isto & 08 hmites além dos quis a troce consttutiva, Comercio, comensalidade, casamento, nao pode ccorrer, Cada ‘membro do grupo encontra-se assim mstitido como guatdiio des limites do sgtupo: pelo iato de que a delinicdo de critéris de entrada no grupo esther jogo em cada nova incluso, um novo membio poderia modiicar 0 grupo ‘mutando os limites da troca legima por uma forma qualquer de “casamento dlesigual’. E por isso que a reprodugao do capital social ¢ trbutéra, por um, lado, de todas as insituigées que visam a favoreeer as trocas legiimas e a, excurr as trocas lleafinas, produaindo acasioes (ralives, eruzeircs, cacades. saraus, recepgSes, etc), lugares [baros chiques, excolas seletas,chibes, et ‘ou praticas esportes chigues, jogos de sociedacle, cerménias cutvrais, etc) ue retinem, de maneira aparentemente fot ieividuos fo hornegeneas Quanto possvel, scb focos os aspects pottinantes do ponto de vista da exstércia ¢ da persistencia do grupo, Por out lado, a reprodagio do capil social tambim é trbutara do trabalho de socabildade, sine continua de trocas, once se afirma e se teafma incessantemente 0 reconheciniento eque supce. aléts de uma compeléncia espect'ca conhecimentoclas relagSesgerealégicas ds ligacoes reais @ arte de uliizalas, etc) e de uma disposicao adquiida para obter ¢ manter essa competéncia, um dispéndio constante de tempo @ esforcos (que tem seu ecuivalente em capital econémiea) e também, mutta freqdentemente, de capxtal econdmico. Orencimenio desse trabalho 8 de acurulagao e manutercao do capital soctal¢ tanto maior quanto mais importante for esse capital, sendo que o limite € represeniado pelos detentores de um capital social herdado, simbolizado por um sobrename importante, que nao tem que “relaclorar-se" com todas os seus "conhec que sie canhecidos por mais pessoas do que as que conhecem ¢ gue, sendo procurados por seu capital social, e tendo valor porque ‘conhecidos” (cl. "eu 0 eonheci bem"), esido em condigio de transformar {odas as relegdes citcunstancinis em ligagoes durave's. Enquanto néo howver insttuicdes que permitam concentrar nas maios cle um agente singulor a totalidade do capital social que funda ¢ ex'sténcia lo gnipo (familia, nacao, mas também assoriagao out partide) © delegivlo para exercer, graces a esse capital coletivamente possuido, um poder sem relagio com sua contribuigao pessoal, cada agente deve participar do capital coletwo, simbolzaco pelo nome da fatnia ou da linhagem, mas na proporcio cireta de sua contribuigao, isto 6, na medida em que suas agées, suas palavras e sua pessoa honrarem 9 gnipo iIrversemente, enquanto a delegacao institucionalizada, que é acompanhada de uma definigSo expii- cita das responsabilidades, tende a limitar as conseniéncias de faihas individuals, a delegacéo difuse, correlata do pettencimento, impée conse aientemente a todos os membros do grupo, sem dstingao, a cauzae do capital coletivamente pessuitlo, sem colocérlos a salvo do deseréclto que poe ser acarretado pela conduta de qualquer um deles, © que explica que bos “grandes” devar, nesse caso, empenhar-se em defender a honra coketiva na henra dos membros mais desprovides do sou grupe). Certa mente, @ o mesmo principio que produz o grupo instituide com vistas a concentragéo do capital e a cencorréncia, no interior desse grupo, pea apropriacdo do capital social produzido por esta concentracéo. Para cireunscrever a concoréncia interna em bimites além dos quais ela com prometeria a acumulacao do capital que funda 9 gripa, 0 grupes devem regular a dissiouigao, entre seus membros, do direito de se instituls como delegado do gnipo (mandatério, plenipotenciério, representante, porta- voz}, de engajar 0 captal social de todo © gnipo, Assim, os grupos instiuidos delegam seu capital social a todos os seus membros, mas em araus musto desiavais (do simples leigo ao papa ou do miltante de base 20 secretirio-geral), poclendo todo o eapital coletive ser individualizado rum agente singular que 0 concentra e que, embora tenha todo seu poder ortundo do grupo, pode exercer sobre o grupo (e em certa medida conta o.gmipo) 0 poder que o grupa Ihe permite concentrar. Os mecanismos de delegagao ¢ de representagao (nto dunk sertido co teaito e de direite) que se impdem ~sam dinzda, tanto mais ngorosarnente quanto reais numer9e0. for 0 grupo ~ come uma das condizdes da concentracae do capital social lentre ouitras razdes porque permitem a numerosos agentes diversos dispersos agir “como tum tinico homem” e uthranassar os efeitos da finitude ‘que.03 liga, através do seu corpo, a.um luger &a um termpo) contérn, asst, © principio de um desvio do capital cue eles fazem exist 6