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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA A INFLUÊNCIA DE APARECIDA NO PENSAMENTO DO PAPA FRANCISCO E OS

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CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA A INFLUÊNCIA DE APARECIDA NO PENSAMENTO DO PAPA FRANCISCO E OS DESAFIOS

A INFLUÊNCIA DE APARECIDA NO PENSAMENTO DO PAPA FRANCISCO E OS DESAFIOS DA MISSÃO CONTINENTAL

Pe. Dr. Luiz Alves de Lima, sdb*

Resumo Abstract - O Episcopado português, querendo ter uma maior compreensão do pensamento do latino-americano Card. Jorge Bergoglio, eleito Papa Francisco, chamou o autor desse artigo para duas palestras durante as Jornadas Pastorais, realizadas em Fátima (Portugal) de 16 a 20 de junho de 2014. Aqui se apresenta a íntegra da primeira palestra, em cinco pontos: o evento Aparecida, a eleição do Papa Francisco, a cultura do encontro, os desafios da Missão continental e a igreja sonhada por Aparecida e pelo Papa Francisco. Mostra-se o protagonismo do Card. Bergoglio na redação do documento de Aparecida, assim como a influência dele no seu magistério pontifício, sobretudo a partir da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. É considerada também, em suas linhas gerais, a Missão Continental e as orientações que o Papa Francisco dá ao Episcopado Latino Americano durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (julho de 2013).

Palavras chaves: catequese latino-americana, catequese evangelizadora, catequese e Aparecida, Papa Francisco e a catequese, Pensamento pastoral do Papa Francisco, Missão Continental

Introdução

Primeiramente, agradeço o convite para participar desta importante assembleia episcopal 1 . Venho de uma Igreja, de além-mar, que muito deve à Igreja Mãe de Portugal, pois foi através dos primeiros missionários que recebemos as sementes do Evangelho e a implantatio Ecclesiae em terras de Santa Cruz.

Embora nesses mais de cinco séculos a nossa Igreja brasileira tenha tomado um caminho próprio, sobretudo depois da República (1889) e mais ainda após o Vaticano II, contudo no seio da religiosidade popular, tão enaltecida no Documento de Aparecida (DAp) e pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (EG 122-126) como um verdadeiro locus teológicus, pulsa ainda hoje muitas das tradições recebidas do catolicismo português entre nós. E não as recebemos somente dos grandes missionários, como São José de Anchieta, Pe. Nóbrega, Pe. Vieira e outros gigantes da evangelização e catequese, mas também através do povo simples, dos trabalhadores, desbravadores, colonizadores portugueses, e ainda da multidão de migrantes lusos em todos os tempos.

* P. Luiz Alves de Lima, sdb, é doutor em Teologia Pastoral Catequética, assessor de catequese na CNBB e CELAM, membro fundador da SCALA (Sociedade de Catequetas Latino-americanos), conferencista, professor no Campus Pio XI do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, nas PUCs de Curitiba e de Goiânia (Campus Goiás), e no Instituto Teológico Latino-Americano (ITEPAL) de Bogotá; editor adjunto da Revista de Catequese, coordenador de redação do Diretório Nacional de Catequese. Participou do Sínodo dos Bispos de 2012 e do Seminário Internacional de Catequese em Roma (março 2014).

1 Palestra pronunciada dia 17 de junho de 2014 durante as Jornadas Pastorais do Episcopado português realizadas em Fátima (Portugal).

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Venho, com muita humildade, apenas partilhar nossos desafios e preocupações

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Venho, com muita humildade, apenas partilhar nossos desafios e preocupações

Venho, com muita humildade, apenas partilhar nossos desafios e preocupações pastorais no árduo, mas jubiloso trabalho de Evangelizar, de anunciar Jesus Cristo nesse tempo

que nos é dado viver, não como época de mudanças, mas como uma mudança epocal.

Cabe-me falar das influências da grande reflexão teológico-pastoral da Igreja Latino- Americana e do Caribe expressa, sobretudo no assim no DAp, no pensamento e atitudes do Papa Francisco, assim como dos desafios da Missão Continental proposta também nesse documento.

A Igreja Latino-Americana já possui um rico magistério, sobretudo a partir do pré e pós

Concílio. No dizer de um abalizado teólogo, o Documento de Aparecida é o ponto mais alto do Magistério da Igreja latino-americana e caribenha. É o melhor documento produzido até hoje pelo nosso episcopado e talvez por qualquer outro episcopado regional” (Clodovis Boff). Desenvolveremos 5 pontos: o evento Aparecida, a eleição do Papa Francisco, a cultura do encontro, os desafios da Missão continental e a igreja sonhada por Aparecida e pelo Papa Francisco.

1. O EVENTO APARECIDA

A V Conferência da CELAM realizou-se na cidade Aparecida do Norte (SP) de 13 a 31 de

maio de 2007, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, com a presença de Bento

XVI que a abriu. Seu tema: Discípulos Missionários de Jesus Cristo para que, nELE, nossos

povos tenham Vida” e ainda: o encontro pessoal com JESUS CRISTO vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade na América. O evento Aparecida é considerado como

um verdadeiro Pentecostes para a Igreja na América Latina e Caribe. Seus participantes

procuraram ouvir a Palavra de Deus e centralizar todas suas preocupações na evangelização. Quatro elementos significativos do logotipo: Terra, Mar, Jesus Cristo e Maria simbolizam um continente de Cristo e de Maria. Como em todas as assembleias os bispos trabalharam em comissões e plenários, sempre apoiados pela oração do povo que, dia a dia, se revezava em oração.

O texto do Documento Final possui três grandes partes que seguem o método de reflexão teológico-pastoral ver, iluminar e agir. Esse esquema tripartite está alinhavado por um fio condutor em torno à vida, em especial a vida em Cristo, e está tecido transversalmente pelas palavras de Jesus, o Bom Pastor: “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

1.1. Alguns números:

21

Conferências Episcopais de toda a América latina e Caribe enviaram sugestões e

relatórios. Também vieram contribuições dos Departamentos do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), alguns Dicastérios romanos e outros organismos e eventos continentais.

2.400 é o total de páginas recebidas, durante a preparação, com valiosa contribuição.

188 é o número de páginas do Documento de Participação: Síntesis de los aportes recebidos para la V Conferencia General del Episcopado Latinoamericano.

266 é o total dos participantes, sendo: 162 delegados, 81 convidados, 8 observadores e

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA • Sobre os países participantes (soma total da realidade católica no

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA • Sobre os países participantes (soma total da realidade católica no

Sobre os países participantes (soma total da realidade católica no continente) 2 :

800: Dioceses e Arquidioceses;

1300: Cardeais, Arcebispos e Bispos;

39.000: sacerdotes diocesanos;

22.950: sacerdotes religiosos (ligados a congregações e ordens religiosas);

4.700: diáconos permanentes;

40.650: religiosos das diversas Ordens e Congregações;

112.100: religiosas em todo o Continente;

500.370.000 é o número aproximado de católicos

600.900.000 população em toda a América Latina e Caribe.

1.2. Alguns Destaques

Há um dinamismo apostólico subjacente à V Conferência. É uma tomada de consciência por parte da Igreja, de que a época da cristandade já passou, e a Igreja não pode se limitar a uma pastoral de manutenção daquilo que já tem. Numa sociedade pluralista e secularizada é necessária de uma postura mais ativa na proclamação de sua mensagem. De Aparecida surge uma Igreja marcada pela missionaridade, em estado de missão (é o sentido do tão sonhado projeto Missão Continental).

Relevância dos Leigos: havia uma concordância de que a ação pastoral de leigos e leigas será decisiva para o futuro. Assim, boa parte do texto final é dedicada à identidade do discípulo de Jesus Cristo, sua formação, missão e inserção na Igreja. O Sacramento da Reconciliação precisa ser revalorizado.

A missão concreta da Evangelização realiza-se na Paróquia que precisa ser profundamente renovada no encontro imediato com as pessoas. A religiosidade popular precisa ser valorizada, pois é um grande caminho de evangelização.

O pano de fundo de Aparecida: 1) a Palavra de Deus, que a tudo deve preceder, provocando uma "conversão pastoral" e uma Igreja "em estado de missão", 2) o Vaticano II e 3) o Magistério da Igreja.

Os eixos iluminadores do DAp: a Vida plena em Jesus Cristo e o Discipulado Missionário. Daí, duas linhas de forte impacto no texto: 1. A convocação para uma vida plena em Jesus Cristo (Vida de nossos povos; Vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários e Vida de Jesus Cristo para nossos povos). 2. O fortalecimento da identidade do discipulado. Assim, fica estruturado conceptual e vivencialmente o documento final. De fato, após um olhar sobre a realidade (cap. 1 e 2), os Bispos apresentam o Evangelho como boa notícia para o mundo de hoje, começando pela Vida e a Dignidade Humana (cap. 3); depois refletem sobre o fortalecimento da identidade dos discípulos/as do Senhor em sua vocação (cap. 4), na vida de comunhão (cap. 5), em sua formação (cap. 6) e em sua missão (cap. 7 a 10).

Tanto os temas da Vida como o do Discipulado são transversais em todo documento. Após olhar para a vida de nossos povos (cap. 1-2), ilumina-se a “vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários” (cap. 3) partindo do pressuposto que os discípulos devem viver em

2 Esses dados, que naturalmente evoluem continuamente, correspondem ao início de 2014, ano da realização da V Conferência (13 a 31 de maio).

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Jesus, a partir da dimensão vocacional, comunional e formativa (cap. 4-5-6).

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Jesus, a partir da dimensão vocacional, comunional e formativa (cap. 4-5-6).

Jesus, a partir da dimensão vocacional, comunional e formativa (cap. 4-5-6). Finalmente na parte da missão, se trata de entregar a “vida de Jesus Cristo para nossos povos” e se destaca o sentido da missão dos discípulos a serviço de uma vida plena (cap. 7).

A missão é vista como o resgate da dignidade humana, a partir da opção pelos pobres (cap. 8), centrada na promoção e defesa da vida em família (cap. 9) e projetando a missão em direção de uma cultura da vida plena para nossos povos (cap. 10).

Na conclusão, essa utopia de uma igreja missionária concretiza-se numa Missão Continental: é um despertar missionário na forma de um projeto; necessita de ações concretas quer por parte do CELAM como de cada diocese em particular (cf no. 551) cujas linhas fundamentais foram examinadas pela V Conferência e pela subsequente Assembleia Plenária do CELAM em Havana logo depois. Requererá a decidida colaboração das Conferências Episcopais e de cada diocese.

2. A ELEIÇÃO DO PAPA FRANCISCO

Vivemos numa Igreja peregrina, a caminho. Passam-se séculos, estruturas, modelos eclesiais, pessoas e a Igreja continua a caminho. Nessa já bi-milenar trajetória, temos a graça de hoje viver um tempo novo. Não somente pela mudança de época, mas mormente porque nos conscientizamos mais de que a vida da Igreja não depende de nós. É sempre “Deus que está agindo”. A eleição do Papa Francisco pode ser considerada uma ação do Espírito Santo que fecunda e transforma a Igreja, como também o gesto histórico e nobilíssimo de Bento XVI ao deixar o Ministério Petrino. São sopros do Espírito que vivemos.

Hoje já estamos acostumados a essa “normalidade” do Papa Francisco, mas no dia de

sua eleição parecia que assistíamos um milagre ao vivo e a cores! O milagre de um Papa latino- americano, jesuíta, que saúda com uma “boa noite” e se inclina diante do povo de Deus para

Naquele momento, lembro-me bem, diante de

pedir sua bênção antes de abençoá-lo

estudantes de teologia e seus formadores que ouvíamos extasiados a narração televisiva, não tive dúvida (como também outros) de me levantar e estender as mãos em direção à tela da grande TV e invocar sobre o neoeleito as graças divinas. Momento emocionante, prelúdio de

uma série de gestos, atitudes, imagens, decisões portadoras do odor do Evangelho.

Desde então, nas bases, na cúpula e nas instâncias intermediárias se fala de “revolução,

reforma, mudança, novos ares, tsunami, primavera

natureza non facit saltus), mas com uma mudança de rumo evidente na continuidade

Somente o nome escolhido pelo novo Papa já falou muito mais do que se

escrevesse uma erudita encíclica explicando a que veio

entendeu! É mais que um nome: é um programa, uma referência evangélica para todo o Povo de Deus!

E, bem no estilo de outros pastores (infelizmente, não todos), deixou pompas e circunstâncias próprias do cargo pontifício há séculos, para passar ao papel de papa pároco 3 ,

E todo mundo, também fora da Igreja,

descontínua

Tudo sem ruptura (a Igreja, como a

”.

3 Em entrevista ao jornal catalão La Vanguardia o Papa Francisco disse: "A dimensão do pároco é a que mais mostra a minha vocação. Servir as pessoas é algo que trago dentro… mas, me sinto também Papa… não brinco de ser o Papa-pároco. Seria imaturo… quando chega um Chefe de Estado, tenho que encontrá-lo com dignidade e o protocolo que merece”, embora com o mesmo protocolo diga ter “não poucos problemas”…, como os protocolos de

E acrescentou:

segurança: muitas vezes são um obstáculo para seu o impulso natural de aproximar-se das pessoas

"Não me sinto um iluminado!(HENRIQUE CYMERMAN [jornalista entrevistador], Descartamos a los jóvenes, por un

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA desses párocos de aldeias e cidades que, por longos anos, conhecem

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA desses párocos de aldeias e cidades que, por longos anos, conhecem sua

desses párocos de aldeias e cidades que, por longos anos, conhecem sua gente pelo nome e sobrenome, compartilham como próprias suas tristezas e alegrias, e, a partir do barro da vida compartilhada, alentam, dão esperança e pregam!

Ele já vinha de uma “cultura do encontro” que muito cultivou nos anos de pastoreio numa das maiores metrópoles mundiais, Buenos Aires, e que expressou sobejamente na primeira viagem internacional, de grande sucesso em todos os sentidos, ao Brasil, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), há quase dois anos. O encontro de pessoas é um dos fundamentos do cristianismo e do cristão, que tradicionalmente recebe o nome de amor,

Para Francisco, nesse encontro tão humano quanto

central na vida de todos os seres humanos, é que se encontra a tarefa determinante da Igreja,

como já havia expressado São João Paulo II, com Santo Irineu de Lion: “o ser humano é o

caminho da Igreja” (RH 14). É um caminho novo que Francisco está abrindo para que, avançando por ele, sendo-lhe fiel, logo nos tornemos uma Igreja renovada, fiel sobretudo ao

projeto de Jesus

Mesmo para Bento XVI havia chegado a hora urgente de mudanças ingentes, talvez não tantas e tão profundas como vem sendo sinalizadas por Francisco: mudança de ótica e de rumos; reformas institucionais, a começar pelo próprio papado e seu órgão mais imediato, a Cúria Romana; uma verdadeira “conversão pastoral” sonhada e proposta por Aparecida (365- 370) para a Igreja como um todo, retomando a renovação do Vaticano II e da tradição da América Latina, outro perfil de clero, especialmente de papa e de bispos. Uma Igreja que deixe de ser “autorreferencial” e saia às ruas. Num discurso do Card. Bergoglio, durante as sessões da Congregação dos Cardeais que antecederam o conclave, e posteriormente “vazado” pelo Card. Jaime Ortega, de Cuba, profeticamente apontava para “um homem que, desde a contemplação e a adoração de Jesus Cisto, ajude a Igreja a sair de si em direção às periferias existenciais, ajude a Igreja a ser mãe fecunda e que viva a doce e confortadora alegria de evangelizar” 4 .

serviço, doação, caridade, koinonia

uma Igreja que sonhamos!

Esse novo modelo de Igreja não é uma improvisação do Papa Francisco. Em toda Igreja encontram-se germens que vão brotando e florescendo mundo afora. A América Latina, por sua pujança eclesial e pastoral, impulsionada pelas 22 conferências episcopais do continente, e congregada no organismo CELAM, certamente muito contribuiu e contribui para tal florescimento. Sua expressão máxima é o evento e o DAp, como já vimos acima. Esse evento de suma importância teve como um de seus corifeus de primeira grandeza, o Card. Mário Jorge Bergoglio. Ele foi nada menos do que o Presidente da Comissão Redatora, que concretizou num documento de transcendental importância, a imagem dessa Igreja de discípulos missionários. Nele há muito do Card. Bergoglio, porém ele também se sentiu impulsionado mais ainda pelo DAp nos sete anos (2007-2013) que separam o documento de sua eleição como Bispo de Roma.

O Papa Francisco é um grande crítico da Teologia da Libertação, principalmente da mais conhecida, que usa das ciências sociais e até do instrumental marxista para a análise da realidade, representada por Gutierrez, L. Boff, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino e outros. Na

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Argentina floresceu outra vertente da Teologia da Libertação, conhecida como

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Argentina floresceu outra vertente da Teologia da Libertação, conhecida como

Argentina floresceu outra vertente da Teologia da Libertação, conhecida como Teologia do Povo, que tem como representantes Lucio Gera, Rafael Tejo e Juan Carlos Scanone, discípulo de Karl Rahner e professor de Bergoglio. Essa teologia se baseia na sabedoria da religiosidade popular e não nas categorias ou diagnósticos das ciências sociais. É uma hermenêutica a partir do povo pobre, carente de riqueza material, mas não do saber inteligente; as ideias são alimentadas a partir da vida, onde não há esquerda nem direita, mas a busca de uma vida melhor.

A ilustração, ou nossa cultura erudita, muitas vezes está longe da realidade dura dos pobres. A Teologia do Povo toma a sério o sentido da espiritualidade popular e aprofunda a piedade tradicional do povo comum; alguns teólogos da libertação da linha mais social e politizada olham a religiosidade popular como obstáculo para o progresso, fenômeno de massas incapaz de provocar mudanças revolucionárias. A teologia do Povo, conforme Scannone, encontra forte inspiração na Evangelii Nuntiandi de Paulo VI: rechaça categoricamente substituir a proclamação do Reino de Deus pela proclamação de formas de libertação meramente humanas. Fala-se do povo como sujeito histórico-cultural, e da religiosidade popular como uma forma inculturada de fé cristã católica no povo argentino e latino-americano. É uma linha que privilegia mais a análise histórico-cultural do que a sócioestrutural 5 . Como arcebispo de Buenos Aires, sempre apoiou os padres que trabalhavam com o povo mais pobre e frequentemente estava entre eles.

Vamos refletir sobre um conceito muito próprio de Aparecida e do Papa Bergoglio, a cultura do encontro, e depois vamos percorrer algumas características dessa Igreja que sonhamos para os novos tempos. Ao mesmo tempo, servimo-nos de um dos grandes acontecimentos vividos pelo Papa Francisco como protagonista primeiro e que lhe deu especial projeção, ou seja, a XIII Jornada Mundial da Juventude realizada no Rio de Janeiro (Brasil) em julho de 2013. E para completar, servimo-nos de sua primeira exortação apostólica, escrita independentemente por ele, pois a anterior Lumen Fidei teve, como se sabe, feitura significativa do Papa Bento. Refiro-me à incomparável carta A Alegria do Evangelho, uma espécie de síntese entre dois dos maiores textos eclesiais produzidos nos últimos anos (no nome e no conteúdo): a Gaudium et Spes e a Evangelii Nuntiandi, simbiose que recebeu o nome que tem a Boa Nova de Jesus na sua essência: Evangelii Gaudium. Ela não só recolhe conclusões da XIII Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, mas é também uma espécie de programa do Pontificado do Papa Francisco. Tive a graça de participar desse Sínodo, assessorando um dos círculos menores de língua portuguesa e castelhana, nos quais estavam bispos portugueses e de paises lusófonos. Embora em seu título não apareça a palavra “pós-

5 Perguntado: Quais são as características da teologia do povo? Scannone respondeu: "Assim como a teologia da libertação, ela utilizar o método ver-julgar-agir, liga práxis histórica e reflexão teológica, e recorre à mediação das ciências sociais e humanas. Mas privilegia uma análise histórico-cultural em comparação com a socioestrutural de tipo marxista. É uma reflexão que surgiu no período pós-conciliar imediato, a partir de uma fonte dupla: o no. 53 da Gaudium et Spes, em que se fala da cultura como modo de vida de cada povo, lido na convicção de que a primeira evangelização havia contribuído muito para forjar a cultura argentina que se manifestava especialmente no catolicismo popular; as teorias da sociedade nascidas na Universidade de Buenos Aires nos anos 1960 e fundamentadas sobre as categorias de povo e de antipovo, que reconheciam a injustiça, mas enfatizando a unidade do povo em vez do conflito, como teria ocorrido se se usasse o conceito de classe. Por isso, essa corrente sublinha a importância da cultura, da religiosidade e da mística popular, afirmando ao mesmo tempo que os seus intérpretes mais autênticos e fiéis são os pobres, com a sua espiritualidade tradicional e a sua sensibilidade pela justiça" (cf in http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520470 acessado em 15/04/15).

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA sinodal” , como nas anteriores exortações apostólicas, o Papa explicitamente

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA sinodal” , como nas anteriores exortações apostólicas, o Papa explicitamente

sinodal”, como nas anteriores exortações apostólicas, o Papa explicitamente diz ter recolhido nesse texto os seus resultados 6 .

3. A CULTURA DO ENCONTRO

3.1. Encontro: ideia-chave no documento de Aparecida

Com facilidade se reconhece em toda a mensagem da V Conferência de Aparecida a centralidade do termo encontro: é uma das chaves de compreensão do texto. Os fiéis são convidados a um «encontro pessoal com Jesus Cristo»; são indicados lugares onde particularmente se dá esse encontro e indicam-se caminhos para que o encontro com Cristo se projete numa rede de encontros com os outros, gerando vida para os nossos povos.

A palavra bíblica mais usada na Tradição é o termo koinonia comunhão. Foi São João

Paulo II, que, começou a dar importância a essa categoria encontro em sua Exortação Apostólica Catechesi Tradendae: “A finalidade da catequese é a de fazer com que alguém se ponha, não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo” (CT 5). E Bento XVI repetiu várias vezes, desde sua primeira carta encíclica: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est 1). O próprio DAp cita este texto explicitamente, mais de uma vez e em momentos-chave (12, 243,

etc.).

O discurso inaugural de Bento XVI de Aparecida já estava marcado pela centralidade do

encontro com Cristo, destacando o valor desse encontro para a formação da cultura do nosso povo. Tal discurso não só encontrou eco, como marcou muito Aparecida e a palavra encontro foi a escolhida para expressar a experiência de união com Deus e dos homens entre si. Se na Conferência de Puebla (1979), a relação com Deus e entre os homens foi mais enfaticamente definida como de comunhão e participação, em Aparecida preferiu-se falar simplesmente de encontro. Está presente nada mais do que 89 vezes ao longo do documento e nos contextos mais diversos, desde o encontro com Cristo (cf DAp 32, 99, 257, etc.) até o encontro com os irmãos (cf 145, 278) e outros (cf 181, 236). Na longa reflexão sobre o caminho de formação dos

discípulos missionários, novamente a perspectiva do encontro aparece como central (cf 240); o mesmo se diga quanto ao caminho da iniciação cristã: ela começa com a busca existencial do ser humano por um encontro mais profundo consigo, que só se sacia plenamente no encontro com Jesus. Este o conduz ao encontro com os outros (cf 278).

O DAp indica ainda os diversos lugares onde se dá esse encontro com Cristo: a Igreja, a

Palavra de Deus, a Liturgia, os Sacramentos, a oração, o próximo (em especial os mais pobres e aflitos), a piedade popular, Maria e os santos. Fala-se de uma “atitude permanente de encontro, irmandade e serviço”, que se manifesta em “opções e gestos visíveis” (394). Para o episcopado reunido em Aparecida não passa despercebida a importância desses lugares e desses encontros para a formação da cultura.

A conversão pastoral, à qual Aparecida conclama nossas comunidades eclesiais, também é definida como um sair ao encontro do outro’; ela implica a passagem de “uma

6 Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais [da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã cf 14] para redigir esta Exortação. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do Sínodo.” (EG 16).

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA fazendo com que a Igreja se manifeste como uma mãe que

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA fazendo com que a Igreja se manifeste como uma mãe que sai

fazendo com

que a Igreja se manifeste como uma mãe que sai ao nosso encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária” (370). Essa ideia de “saída” será central também para o Papa Francisco; em muitas ocasiões insistiu na urgência de uma “Igreja em saída” (cf EG 20-23). Embora o documento da V Conferência não use a expressão cultura do encontro, ela está em seu centro, sob a influência do Card. Bergoglio, que depois, a ampliará em seu magistério como Bispo de Roma.

pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária [

]

3.2 Cultura do encontro nos discursos do Papa Francisco

Estabelecer quando Jorge Mario Bergoglio começou a usar a categoria encontro é assunto ainda a ser estudado 7 . Faz parte do seu estilo, de sua forma de governo e pastoreio. Mais recentemente, ainda como arcebispo de Buenos Aires, começou a usar explicitamente a expressão e difundi-la quase que programaticamente como uma categoria pastoral (cf., por exemplo, o discurso ao CELAM durante a JMJ).

Como Papa, na vigília de Pentecostes junto aos movimentos eclesiais (18 de maio de 2013) 8 , Bergoglio falou claramente por que considera importante a categoria encontro. Após falar de sua decisão vocacional aos 17 anos no encontro com um sacerdote no Sacramento da

ir ao encontro das periferias

existenciais”. Neste movimento de saída, pode ser que ela se acidente, mas o Papa prefere mil vezes isso a uma Igreja doente por estar fechada em si! Ele recorda o livro do Apocalipse que apresenta Jesus como aquele que está à porta e chama, que bate para entrar no coração (cf. Ap 3, 20). E explica porque considera importante a palavra encontro: “esta palavra, para mim, é muito importante: o encontro com os outros. Por quê? Porque a fé é um encontro com Jesus, e nós devemos fazer o mesmo que Jesus: encontrar os outros”. Em seguida, Francisco coloca o tema em um contexto cultural mais amplo, confrontando-o com nossa cultura fragmentada do desencontro. A cultura do encontro é a antítese da cultura do desencontro ou do descarte, da mesma forma que a cultura da vida é a antítese da cultura da morte, tantas vezes mencionada por João Paulo II e Bento XVI. Na verdade, a cultura do encontro é uma dimensão da cultura da vida, uma dimensão que, segundo o Papa, deve ser especialmente acentuada nos tempos de hoje.

Penitência, Francisco insiste: “a Igreja deve sair de si mesma

Sem dúvida, a JMJ foi para o Papa uma oportunidade privilegiada para o anúncio, difusão e, em particular, para a vivência dessa cultura do encontro, que a sociedade e a Igreja de hoje tanto necessitam. A exemplo de outros Papas que deixaram impulsos marcantes e programáticos, agora o Papa latino-americano promove a cultura do encontro, uma categoria

7 Pe. Alexandre Awi Mello, que foi um dos secretários da Comissão de Redação de Aparecida presidida por Bergoglio, relata: “tive acesso, a um manuscrito não editado, enviado pelo próprio Card. Bergoglio, com o título Propuesta de Aparecida para la Pastoral de la Iglesia en Argentina, com data de 15.06.2009, no qual o então Arcebispo de Buenos Aires desenvolve toda a sua argumentação em torno da categoria do encontro. Ali afirma que ‘a vida plena que propõe Aparecida se ilumina a partir da categoria de encontro’. E dá essa justifica: primeiro porque esta é «a categoria antropológica mais utilizada no documento» e «porque nosso pecado principal como povo [argentino] é o dos desencontros». O apreço do Cardeal pela categoria encontro vem, portanto, de longa data!”. MELLO, A. Awi, Jornada Mundial da Juventude: experiência e promoção da cultura do encontro in Revista de Catequese 36 (2013) no. 142, jul./dez p.6-22. Nesse meu texto, faço amplo uso também deste artigo.

2015:

8

Esse

discurso

se

encontra

no

seguinte

site

oficial,

acesso

em

15

abril

de

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA pastoral que condensa uma série de valores característicos do agir cristão

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA pastoral que condensa uma série de valores característicos do agir cristão e

pastoral que condensa uma série de valores característicos do agir cristão e da sociedade que ele quer formar.

“As palavras movem, mas os exemplos arrastam” (verba movent, exempla trahunt), já dizia a sabedoria antiga. O Papa Francisco deu sobejos exemplos, durante a JMJ, de ir ao

encontro, nos acenos, no cumprimento, no sorriso franco, no abraço e no beijo, no fixar o olhar com o interlocutor (São João Paulo II não poucas vezes cumprimentava uma pessoa olhando

para outro lado

no Brasil e porque escolheu um papamóvel aberto dos lados: “Eu não poderia vir visitar este

povo que tem um coração tão grande, por trás de uma caixa de vidro. E nesse automóvel, quando ando pela rua, baixo o vidro. Para poder estender a mão, cumprimentar as pessoas. [ ]

Comunicação pela metade não faz bem. [

Tocando-as”. 9 No fundo, queria se comunicar, encontrar-se de coração a coração com as pessoas que veio visitar.

Testemunha o Pe. Alexandre Awi Mello, que o acompanhou em Aparecida: “Nas vezes que o acompanhei no papamóvel pude perceber de perto seu profundo desejo de encontro; doía-lhe não poder abraçar nem dar atenção a todos. Ao mesmo tempo, as pessoas estavam sedentas de encontro e faziam de tudo para se aproximarem do Papa por meio dos gritos e os pedidos de bênção, além das muitas cartas, terços, camisetas, bandeiras e tantas outras coisas arremessadas para dentro do papamóvel. Francisco procurava corresponder a tantos gestos de carinho e proximidade”.

Também suas palavras, como os gestos, foram claras e unívocas. O seu refrão não foi outro: “Creio que é preciso estimular uma cultura do encontro, em todo o mundo”. Falando para as lideranças sócio-políticas da Sociedade e comentando a inculturação (encontro do Evangelho com as culturas), qualificou esse fenômeno como “um processo que faz crescer a humanização integral e a cultura do encontro, do relacionamento10 . E ainda: “este é o modo cristão de promover o bem comum, a alegria de viver”, pois nesse encontro entre fé e cultura convergem “a dimensão religiosa com os diversos aspectos da cultura humana”, já que “o cristianismo une transcendência e encarnação”. Assim, a cultura do encontro favorece o diálogo, o respeito e a mútua fecundação entre as religiões e a as culturas: “ou se aposta no diálogo e se aposta na cultura do encontro, ou todos perdemos”. 11

Aos bispos do Celam refletiu sobre o fundamento antropológico-teológico de uma cultura pautada pelo encontro: o homem só se possui a si mesmo quando está em referência a outro, seja ele Deus ou o próximo: “Não admite a autorreferencialidade: ou se refere a Jesus Cristo ou se refere às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. Sujeito que se transcende. Sujeito projetado para o encontro: o encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e o

Vim ver gente, e quero tratá-las como gente.

Em entrevista explicou porque manteve os vidros abertos do carro utilizado

).

]

em:

10 Esse discurso encontra-se em http://papa.cancaonova.com/discurso-do-papa-a-classe-dirigente-do-brasil/ acessado em 15/04/2015 (grifo nosso).

11 Ibid.

Francisco,

9 CAMAROTTI

Gerson,

Entrevista

com

o

Papa

em

29.07.2013

(Rede

Globo).

Disponível

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA encontro com os homens que esperam o anúncio”. 1 2 No

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE

CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA encontro com os homens que esperam o anúncio”. 1 2 No encontro

encontro com os homens que esperam o anúncio”. 12

No encontro com os bispos do Brasil falou da colegialidade e solidariedade entre os bispos como mais uma expressão da cultura do encontro, agora no interior da própria Igreja. Para falar da comunhão eclesial, usou a imagem da teia (rede) que é tecida com paciência e perseverança. Recorda que durante a V Conferência se cultivou essa atitude colegial capaz de congregar a diversidade de ideias e de experiências para pôr em movimento uma dinâmica vital. Insiste, contudo, que todo encontro também o que se dá nas conferências episcopais tem sua origem no encontro com o Cristo Ressuscitado. A cultura do encontro, proposta por Francisco, não é uma mera filosofia ou simples experiência humana; ela é sempre teologal e cristológica 13 . Iríamos longe se quiséssemos analisar a recorrência desse tema da cultura do encontro nos demais pronunciamentos durante a JMJ, o que, aliás, o Papa continua fazendo até hoje 14 .

4. DESAFIOS DA MISSÃO CONTINENTAL CONFORME O PAPA

Em discurso aos Dirigentes do CELAM 15 o Papa afirma que a Missão Continental está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática. A missão programática consiste na realização de programas de índole missionária. A missão paradigmática, por sua vez, implica colocar em chave missionária a atividade habitual e quotidiana das Igrejas particulares e isso levará a uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. A mudança de estruturas (de caducas para novas) não é fruto de um estudo de organização do sistema eclesiástico, de que resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica da missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente o espírito missionário tão proposto e propugnado DAp.

A Missão Continental exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa vontade. O discípulo de Cristo não é alguém isolado em sua espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a Missão Continental implica pertença eclesial.

12 Encontro com os dirigentes do CELAM, Sábado, 28 de julho de 2013, no. 2 e 5. O texto completo pode-se encontrar em http://papa.cancaonova.com/discurso-do-papa-francisco-aos-dirigentes-do-celam/; original castelhano:

_27092013_304pm.pdf acessados em 15-04-15. Ou ainda: Encontro com a Comissão de Coordenação do CELAM (28.07.2013) in Palavras do Papa Francisco no Brasil. São Paulo: Paulinas.

13 Cf FRANCISCO. Encontro com o Episcopado Brasileiro (27.07.2013), in Palavras do Papa Francisco no Brasil. São Paulo: Paulinas, p. 102.

Em 12 de junho de 2014, o Papa enviou uma mensagem pela abertura da Copa Mundial de Futebol organizada pela FIFA e realizada no Brasil. Afirmou: “o futebol pode e deve ser uma escola para a construção de uma cultura do encontro, que permita a paz e a harmonia entre os povos. E aqui vem em nossa ajuda uma segunda lição da prática esportiva: aprendamos o que o fair play do futebol tem a nos ensinar. Para jogar em equipe é necessário pensar, em primeiro lugar, no bem do grupo, não em si mesmo. Para vencer, é preciso superar o individualismo, o egoísmo, todas as formas de racismo, de intolerância e de instrumentalização da pessoa humana. Não é só no futebol que ser fominha constitui um obstáculo para o bom resultado do time; pois, quando somos fominhas na vida, ignorando as pessoas que nos rodeiam, toda a sociedade fica prejudicada” (cf Papa aos brasileiros pela Copa do Mundo: “Minha esperança é que esta seja a Copa da Solidariedade” in http://www.acidigital.com/noticias/papa- -

acessado

em 15-04-15).

14

15 Cf Discurso citado acima, nota 12. Nesse item 4 seguirei as palavras do Papa falando ao CELAM

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA O Papa resume tudo em três desafios, que se desdobram em

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE

CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA O Papa resume tudo em três desafios, que se desdobram em vários:

O Papa resume tudo em três desafios, que se desdobram em vários: 1) a renovação interna da Igreja; 2) o diálogo com o mundo atual e 3) orientações sobre a Missão Continental.

4.1. Renovação interna da Igreja

Para tal renovação, lembra o Papa aos bispos, o DAp julgou necessária uma conversão pastoral; implica em acreditar na Boa Nova, acreditar em Jesus Cristo portador do Reino de Deus, em sua irrupção no mundo, em sua presença vitoriosa sobre o mal; acreditar na assistência e guia do Espírito Santo; acreditar na Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.

Como pastores é necessário que nos interroguemos sobre o andamento das Igrejas que presidimos. Estas perguntas servem de guia para examinar o estado das dioceses quanto à adoção do espírito missionário de Aparecida, e como exame de consciência, que poderia ser formulado assim:

a) Procuramos considerar o nosso trabalho, e o de nossos presbíteros, mais pastoral que administrativo? Quem é o principal beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização ou o Povo de Deus na sua totalidade?

b) Superamos a tentação de tratar os problemas complexos que surgem de forma reativa? Criamos um hábito proativo? Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus? Estamos conscientes da responsabilidade de repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais, buscando o bem dos fiéis e da sociedade?

c) Na prática, fazemos os fiéis leigos participantes da Missão? Oferecemos a Palavra de Deus e

os Sacramentos com consciência e convicção claras de que o Espírito se manifesta neles?

d) Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os de pastorais paroquiais e de assuntos econômicos são

espaços reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento pastoral?

O bom funcionamento dos conselhos é determinante. Acho que estamos muito atrasados

nisso”, afirma.

e) Nós, Pastores Bispos e Presbíteros, temos consciência e convicção da missão dos fiéis e lhes damos a liberdade para irem discernindo, como discípulos, a missão que o Senhor lhes confia? Apoiamo-los e acompanhamos, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão? Estamos sempre abertos para nos deixarmos interpelar pela busca do bem da Igreja e pela sua Missão no mundo?

f) Os agentes de pastoral e os fiéis em geral sentem-se parte da Igreja, identificam-se com ela e aproximam-na dos batizados indiferentes e afastados?

Como se pode ver, aqui estão em jogo atitudes. A conversão pastoral diz respeito, principalmente, às atitudes e a uma reforma de vida. Uma mudança de atitudes é necessariamente dinâmica: entra em processo e só é possível guiá-lo acompanhando-o e discernindo-o. É importante ter sempre presente que a bússola, para não se perder nesse caminho, é a identidade católica concebida como pertença eclesial.

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA É bom lembrar o início da Gaudium et Spes : "As

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE

CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA É bom lembrar o início da Gaudium et Spes : "As alegrias

É bom lembrar o início da Gaudium et Spes: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo" (GS, 1). Aqui reside o fundamento do diálogo com o mundo atual.

A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas

gerações, prestando atenção à sua linguagem, implica uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários

imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”.

Se continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda a parte: há que saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa cultura; e cada realidade, cada idioma tem um ritmo diferente.

4.3 Orientações para a Missão Continental

O Papa em sua reflexão sobre a Missão continental aponta as tentações de uma Igreja

que quer viver em estado de missão: a ideologização (reducionismo socializante, ideologização psicológica, a proposta gnóstica e pelagiana), o funcionalismo e o clericalismo.

Apresenta, a seguir, quatro critérios eclesiológicos para a Missão Continenta:

a) Viver o “hoje de Deus”; do passado fazemos memória, o futuro se nos apresenta

como promessa, esperança; mas é o “hoje” que mais se parece com a eternidade; mais ainda, ele é uma centelha de eternidade. É nele que vivemos o discipulado missionário em contínua tensão: a sua imanência está em tensão para a transcendência da missão;

b)

A Igreja é instituição, mas, quando se erige em centro, ela se funcionaliza e, pouco a

pouco, se transforma em uma ONG [

]

 

Ao contrário, Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe,

Servidora, facilitadora da fé e não controladora da fé”;

 
 

c)

Duas

categorias

pastorais

que

surgem

do

Evangelho

e

ajudam

a

vivermos

eclesialmente o discipulado missionário: a proximidade e o encontro;

 

d) O guia da Missão Continental é o Bispo; ele deve guiar, e não comandar; precisa ser

Pastor, pacientes e misericordiosos, próximo das pessoas, amante da pobreza, homem que não tenha psicologia de príncipes, sem ambições, capaz de vigiar sobre o rebanho que lhe foi confiado, homem capaz de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo, enfim, que saiba estar à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido, ou atrás para evitar que alguém se desgarre, tendo a convicção de que o próprio rebanho tem o

seu olfato para encontrar novos caminhos

16

.

V A IGREJA SONHADA POR APARECIDA E O PAPA FRANCISCO

O teólogo pastoralista Pe. Agenor Brighenti traça em oito ítens o “perfil pastoral que o Papa Francisco sonha”. Retomando alguns dados acima expostos, baseando-me no DAp e na

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA análise desse teólogo 1 7 , apresento as características eclesiológicas

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE

CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA análise desse teólogo 1 7 , apresento as características eclesiológicas

análise desse teólogo 17 , apresento as características eclesiológicas tão almejadas para nossos dias.

5.1. De Igreja umbigo do mundo a uma Igreja das periferias existencias

Aparecida afirma que a imensa maioria dos católicos de nosso continente vive sob o flagelo da pobreza, com diversas expressões: econômica, física, espiritual, moral, etc. A Igreja não pode ignorar esse sofrimento de nossa gente, “muitas vezes pobrezas escondidas” (DAp 176). O Papa Bergoglio criou uma expressão típica para qualificá-las: são as periferias existenciais em direção das quais a Igreja deve caminhar, ou “sair”, em sua expressão.

A Igreja do período de Cristandade, uma vez que o núcleo central do Evangelho estava garantido e solidificado, pelo menos do ponto de vista doutrinal, por razões histórico-culturais, colocou-se quase que no centro de tudo, regida por princípios ideais e integrada por fiéis que são enquadrados nos meandros das leis canônicas, buscando o perfeccionismo. Dela permanecem à distância e à margem pessoas canonicamente irregulares, que estão na periferia do pecado, excluídos como interlocutores que não devem ser levados a sério, os que divergem do pensamento oficial com seus sistemas teológicos de contornos nítidos e certezas

incontestáveis

Nessa periferia existencial a que se refere o Papa estão pobres, analfabetos,

moradores de rua, população carcerária, dependentes químicos, homossexuais, famílias incompletas, casais de segunda união, os dilacerados por ruptura das relações de diversa índole, os padres casados, os não crentes

Uma Igreja que se parece mais com a figura do irmão mais velho do filho pródigo da Parábola evangélica do que com o Pai Misericordioso, terá dificuldades de acolhê-los. O DAp fala da necessidade de passar de um eterno esperar a um constante buscar, ir atrás. Para Francisco “a posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias”. Como Arcebispo de Buenos Aires, criticava “as pastorais distantes”, que priveligiam os princípios, as condutas, os procedimentos organizacionais, sem proximidade com o povo, sem proximidade, sem ternura nem carinho. Ignora-se, diz ele, a “revolução da ternura”, que provocou a Encarnação do Verbo (“Amou tanto Deus o mundo, que lhe enviou seu filho

único

Jesus, de fato, não veio para os sãos, mas para os doentes, os excluídos das

instituições rígidas, para resgatar o que estava perdido, redimir, e não julgar e condenar.

canônico

que clamam mais por um regaço de mãe mais do que por um julgamento

”).

No já citado discurso aos bispos do CELAM durante a JMJ, após lembrar as características peculiares de Aparecida, o Papa falou sobre os critérios eclesiológicos que devem caracterizar a Missão Continental, aponta em primeiro lugar a proximidade e o encontro. É o Deus próximo do seu povo, proximidade que atinge o ponto máximo na Encarnação. Ele sai ao encontro do seu povo. Mas, infelizmente, na Igreja, há pastorais tão distantes que se tornam incapazes de provocar o encontro com Jesus Cristo e com os irmãos. De aí só pode sair, no máximo, proselitismo; elas nunca levarão a alcançar a inserção nem a pertença eclesiais.

A proximidade cria comunhão, pertença e torna possível o encontro; ela toma forma de diálogo e cria uma cultura do encontro. Uma pedra de toque para aferir a proximidade e a

17 BRIGHENTI Agenor, Perfil pastoral da Igreja que o Papa Francisco sonha in José Maria da SILVA, Papa Francisco: perspectivas e expectativas de um Papado. Petrópolis: Editora Vozes 2014, pgs 14-25.

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia . Como

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CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia . Como são

capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia. Como são as nossas homilias? Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que «falava como quem tem autoridade», ou são meramente formais, distantes, abstratas? 18 . Esse tema da homilia retorna, soberbamente, na Evangelii Gaudium dedicando-se nada mais do que 25 números (135-159!) fustigado os padres que não se preparam, e dando orientações particularizadas.

5.2. De uma Igreja acomodada a uma Igreja samaritana, mãe, em saída

Aparecida sonha com uma Igreja Samaritana: “Iluminados pelo Cristo, o sofrimento, a

injustiça e a cruz nos desafiam a viver como Igreja samaritana (cf. Lc 10, 25-37)”. Na entrevista que deu à Civiltà Cattolica 19 o Papa Francisco declara, usando imagens ousadas, que giraram pelo mundo: “Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o nível de açucar altos. Primeiro, deve-se curar as suas feridas. Depois podemos nos ocupar do

restante. Curar as feridas, curar as feridas

No referido discurso ao CELAM durante a JMJ ele fala de uma Igreja-mãe, condição para uma Igreja-Mestra, que se legitima quando respaldada pelo testemunho. A vocação e missão da Igreja começam, segundo o papa “pelo exercício da maternidade da Igreja, que se dá pelo

exercício da misericórdia”. Só a misericórdia “gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta,

conduz pela mão

Por isso, precisamos de uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas da

misericórdia. Sem a misericórdia, temos hoje pouca possibilidade de nos inserir em um mundo

de feridos, que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor”.

Isso implica uma Igreja “em saída”, ou seja: “uma Igreja com as portas abertas. Sair em direcção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho.

Trata-se da pastoral da acolhida (cf DAp 517i; 528e; 188), o aconselhamento pastoral, espaços e tempo de atendimento, o que significa, por parte dos pastores às vezes com pouca habilidade nas relações humanas, uma esmerada formação humana.

e é preciso começar de baixo”.

5.3. De uma Igreja poderosa a uma Igreja pobre e dos pobres

Logo após sua eleição, falando a jornalistas, o Papa expressou seu sonho, aspiração da Igreja latino-americana donde provinha: “como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres”. E, com gestos que impressionaram a todos, foi dando testemunho de pobreza, de

nos sapatos, na cruz peitoral, no carro modesto,

simplicidade, franqueza, austeridade

e falou uma

trocando o trono por uma cadeira, simplificando a pompa das vestes tradicionais

frase que, mal entendida, pode aparecer até uma ofensa: “Os chefes da Igreja foram, muitas

a Cúria Romana não

vezes, narcisistas, adulados pelos cortesãos. A corte é a lepra do papado

18 Cf Encontro com os dirigentes do CELAM, no. 2 e 5.

19 Amplamente divulgada pela imprensa; pode-se encontrá-la, entre tantos lugares no site oficial do Vaticano:

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/september/documents/papa-

francesco_20130921_intervista-spadaro.html

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA é propriamente uma corte, mas existem cortesãos ”. Prestígio e pod

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CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA é propriamente uma corte, mas existem cortesãos ”. Prestígio e pod er

é propriamente uma corte, mas existem cortesãos”. Prestígio e poder são, para o Papa, mundanismo!

No Brasil em diversas ocasiões afirmou que “a Igreja deve sempre lembrar que não pode afastar-se da simplicidade”. Denuncia na Igreja um “obscuro mundanismo que se manifesta em muitas atitudes, aparentemente opostas mas com a mesma pretensão de «dominar o espaço da Igreja». Em alguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história”(EG 95).

O DAp reconhece na “opção pelos pobres” um dom e uma graça da Igreja latino- americana (DAp 128), e com muita energia renova tal opção, que após Medellín e Puebla havia sido tão adjetivada e desfigurada: “Assumindo com nova força esta opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade” (399; cf 397-398). O Papa Francisco, em seu pensamento, atitudes, testemunho e governo sempre manifestou concretamente essa “opção pelos pobres”. Eleito papa, apenas continuou a viver, testemunhar e ensinar aquilo de que sempre foi convicto! Sua preocupação primeira não é a autoridade ou imagem pública, nem a doutrina da Igreja ou discursos bem arquitetados, mas o sofrimento e a causa dos pobres no mundo, que são a causa de Deus. É preciso ser muito cego para não ver que, perpassa transversalmente toda a Sagrada Escritura, a revelação de um Deus dos probres, dos fracos, dos marginalizados.

Tanto o DAp quanto o Papa Francisco urgem uma Igreja pobre e para os pobres reais,

não virtuais, ou um pobre espiritualmente falando. Para o Papa, “é nas favelas, nas villas-

onde se deve ir buscar e servir a Cristo”. É dele

miséria, nos bas-fonds, bassifondi, slum

também esse pensamento, que circula muito na América Latina: “a realidade é mais bem entendida a partir da periferia do que do centro, que corre o risco de atrofia. Na EG, diante de tantas espiritualidades alienantes, ele clama por um cristianismo encarnado, sobretudo na pobreza (cf EG 89).

5.4. De uma Igreja assistencialista a uma Igreja profética e comprometida

No encontro com os líderes da Sociedade, no Rio de Janeiro, durante a JMJ afirmou o Papa: “o cristianismo combina transcendência e encarnação”. São os dois braços da cruz:

verticalidade e horizontalidade, relação intrínseca entre o “Pai nosso que estais nos céus” e “o pão nosso de cada dia”. Por isso, aos jovens, ensina que é preciso agir, tomar posição: “quero que a Igreja saia às ruas, defendendo-se de tudo o que seja mundanismo, instalação, comodidade, clericalismo, estar fechada em si mesma”. E o que fazer? “Com essas duas coisas, vocês têm o Plano de Ação: as Bem-aventuranças e Mateus 25; não precisam ler outras. Peço- lhes isso de todo o coração” (falando aos jovens argentinos no Rio de Janeiro).

Na Comunidade de Varginha, em Manguinhos, no Rio de Janeiro pediu aos jovens: “não deixem entrar em seus corações a cultura do descartável. Ninguém é descartável”. E ainda, aos doze mil voluntários da JMJ, depois de afirmar que “a exclusão dos jovens e dos idosos é uma eutanásia oculta”, com palavras contundentes, muito a seu estilo, insistiu: “Eu peço a vocês que sejam revolucionários, que vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem; que se rebelem contra essa cultura do provisório que, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA responsabilidades, que não são capazes de amar a verdade. Eu tenho

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CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA responsabilidades, que não são capazes de amar a verdade. Eu tenho confiança

responsabilidades, que não são capazes de amar a verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de «ir contra a corrente». Tenham a coragem de ser felizes!".

“O assistencialismo

humilha o pobre” (Caritas in Veritate, 58). É preciso ir às causas da exclusão, que remete aos

modelos que regem nossa sociedade

Repetindo o DAp 285 (mas sem citá-lo, como ocorre outras vezes), o Papa afirma:

“ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Uma fé autêntica, que nunca é confortável e individualista, sempre envolve um profundo desejo de mudar o mundo, para transmitir valores, deixando algo melhor por trás do

nosso tempo na terra(EG 183). Assim como o mandamento de «não matar» coloca um limite claro para garantir o valor da vida humana, hoje temos a dizer «não a uma economia de exclusão e desigualdade». Essa economia mata. É inadmissível que não seja notícia que morra

de frio um idoso morador de rua e que seja a queda de dois pontos na bolsa” (EG 53).

Papa não deixa de ressoar o documento de Puebla e São João Paulo II que acusaram nossa sociedade de «gerar ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres».

A causa é a ideologia econômica que defende a autonomia absoluta dos mercados e a

especulação financeira, negando o direito de controle por parte do Estado (cf. EG 56). E não foi

por nada que parte da imprensa americana e inglesa acusaram o Papa de ser marxista

Ele

apenas recorda o ensino social da Igreja, ensinada já por Paulo VI: “o futuro exige hoje a tarefa de reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade” (falando à liderança sócio-política no Rio de Janeiro).

Opção pelos pobres não é fazer deles um objeto de caridade

o modelo econômico, social, político, cultural.

5.5. De uma Igreja fechada em si a uma Igreja acidentada por sair às ruas

Continuamente o Papa Francisco exorta a Igreja (quase um desafio) a sair de si mesma e ir para as ruas, às fronteiras, periferias, como o fez em carta ao episcopado Argentino, com uma frase que girou o mundo, por sua forte imagem, e depois repetiu na EG: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG 49).

Aí está a diferença entre uma Igreja de Cristandade, tranquila, estabelecida e quase que senhora do mundo, e uma Igreja Missionária, tão sonhada desde o Vaticano II e afirmada tão enfaticamente no DAp. E Francisco, já pela sua história de vida anterior, mas também muito influenciado pela Conferência de Aparecida, esclarece sobre essa dimensão essencial da Igreja para o mundo de hoje, que é a missionaridade: “Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a todos, sem excepção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se

lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos

ricos, mas, sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e

esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14)” (EG 48).

Isso exige mudança, transformação de estruturas. Para isso, o DAp criou um conceito, que muitos estranharam: «conversão pastoral» Nenhuma comunidade deve se isentar de entrar decididamente, com todas suas forças, nos processos constantes de renovação

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a

missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DAp 365; cf. 366-370). O Papa assume plenamente essa intuição do DAp e as amplia em suas propostas (cf. EG 25, 27, 32).

Estamos acostumados com um conceito de missão de apenas uma direção: a Igreja que vai e leva a luz do Evangelho aos povos “ainda sentados nas sombras da morte”. O Papa Francisco, refletindo a missiologia e catequética modernas, aponta também outra direção. A evangelização é uma pista de duas mãos: vai e vem. Ou seja: em primeiro lugar, o missionário deve buscar e encontrar as “sementes do Verbo” que certamente estão plantadas já na cultura

Ela também recebe o influxo

das culturas evangelizadas no sentido de cada vez mais se inculturar, assumir o rosto dos povos que se achegam ao Evangelho, criando assim, numa riqueza cultural cristã imensa, novas formas de expressar o mesmo Evangelho. Assim, não temos somente destinatários da ação da Igreja, porém interlocutores, como afirma um documento da CNBB, Diretório Nacional de Catequese 20 . O Papa expressou isso na entrevista à Civiltà Cattolica; exorta a ficar atentos para não cair na “tentação de domisticar as fronteiras: deve ir-se em direção às fronteiras, e não trazê-las para casa, a fim de envernizá-las um pouco e domesticá-las”. O ecumenismo e diálogo inter-religioso também devem caminhar nessa perspectiva.

que evangeliza; e depois, não é só a Igreja que leva o Evangelho

5.6. De uma Igreja centralizadora a uma Igreja mais participativa e comunional

“Tendo que encontrar um bispo para Roma, os cardeais foram buscar um lá do fim do

mundo

título que melhor expressa sua função de presidir a unidade de uma “Igreja de Igrejas locais”. W. Kasper diz não haver uma suposta “Igreja Universal”, exterior e anterior às Igrejas locais. O Vaticano II ensina que cada diocese é porção do Povo de Deus. A porção contém o todo, a parte não. Na apostolicidade da Igreja, em cada Igreja local está a “Igreja toda”, ainda que não seja “toda a Igreja”. O Papa é antes de tudo bispo de Roma, fazendo parte do Colégio dos Bispos e, por Roma ter sido a Igreja de Pedro, tem também a função de presidir as Igrejas na unidade e na caridade.

assim o Papa Francisco se apresentou desde o início. E, dizem os teólogos, este é o

”,

Assim se expressa Francisco ainda na Introdução da EG: “Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização»” (EG 16).

E, no Brasil, aos bispos do CELAM afirmou que a Igreja, sim, é intituição, mas quando se torna cada vez mais autorreferencial, enfraquece a sua necessidade de ser missionária. De Instituição se transforma em Obra. Deixa de ser Esposa, para acabar sendo Administradora; de Servidora se transforma em Controladora”. E fala explicitamente do DAp: Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, mais facilitadora da fé que controladora da fé21 . Esse tema repercute imediatamente na discussão sobre o lugar e função da Cúria Romana, cuja reforma,

20 CNBB, Diretório Nacional de Catequese. Documentos da CNBB 87. Brasília: Edições CNBB, 2006 (primeira edição). O capítulo VI intitula-se justamente: “Destinatários como Interlocutores no processo catequéticos”, ideia que o Diretório Geral para a Catequese de 1997 já havia sugerido (cf. nº. 157 c, quando descreve o “destinatário”), mas não explicita.

21 O tema da colegialidade é tratado explicitamente em Aparecida nº.s 181 e 189.

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA como sabemos, o Papa está tomando muito a peito. Na entrevista

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA como sabemos, o Papa está tomando muito a peito. Na entrevista à

como sabemos, o Papa está tomando muito a peito. Na entrevista à Civiltà Cattolica sugeriu que “os casos [de ortodoxia] devem ser estudados pelas Conferências Episcopais locais, às quais pode chegar uma válida ajuda de Roma. De fato, os casos tratam-se melhor no local. Os dicastérios romanos são mediadores, não intermediários ou gestores”.

O Pe. Agenor Brighenti afirma que “a necessidade de superar um modelo de Igreja centralizadora, além da cúria romana, aplica-se também a certo episcopalismo presente em muitas dioceses, bem como ao paroquialismo, seja em relação à Igreja Local, seja da Igreja- matriz em relação às demais comunidades da paróquia” 22 .

5.7. De uma Igreja extremamente clerical a uma Igreja toda ministerial

Jocosamente disse o Papa Francisco a um jornalista italiano: “Quando vejo um

É outro tema recorrente em

seus pronunciamentos que também foi abordado no DAp 23 . Adverte que “na maioria dos casos, o clericalismo é uma tentação muito atual; trata-se de uma cumplicidade viciosa: o padre clericaliza o leigo, o leigo pede-lhe o favor de o clericalizar, porque, no fundo, lhe é mais cômodo”. Como remédio para esse mal o Papa indica o crescimento da responsabilidade laical, a proposta de grupos bíblicos, das comunidades eclesiais e dos conselhos pastorais.

Na superação do clericalismo, em vista de uma Igreja ministerial, o papa alude ao lugar e ao papel das mulheres. Tocou nesse assunto ao falar aos Bispos da CNBB e do CELAM, voltando sobre ele na EG: Vejo, com prazer, como muitas mulheres partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes, contribuem para o acompanhamento de pessoas, famílias ou grupos e prestam novas contribuições para a reflexão teológica. Mas ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja” (EG 103).

clericalista, instintivamente me transformo em anticlerical

”.

5.8. A figura do Bispo: de príncipes a pastores “com cheiro de ovelha”

Com o título: Os bispos, discípulos missionários de Jesus Sumo Sacerdote”, o DAp trata em 5 números (186 a 190), de uma maneira muito proativa e estimuladora, da figura do Bispo, sua vocação, missão, espiritualidade. O Papa Francisco retoma em várias ocasiões o perfil do bispo, porém, com espírito mais crítico, apontando as tentações dos discípulos missionários, como faz na Evangelii Gaudium para todos os cristãos. Não raras vezes, entre o episcopado, também medra o clericalismo, expresso, conforme ele na tentação de se parecerem mais príncipes do que pastores. Ficou célebre sua recomendação falando aos bispos recém-eleitos, numa audiência no Vaticano: “sejam pastores com cheiro de ovelhas, presentes no meio de

sua gente, como Jesus, o Bom Pastor

Não se fechem! Vão para o meio de seus fieis, inclusive

nas periferias de suas doceses e em todas as periferias existenciais, cheias de sofrimento.

E uma segunda palavra de estímulo: “Sejam sem ambição, esposos de uma Igreja, sem viver na expectativa de outra, melhor, mais rica. Tenham o cuidado de não cair no espírito do

22 BRIGHENTI A., o. c., pg 23.

23 O termo “clericalismo” presente no nº. 109 da versão original de Aparecida desapareceu da versão oficial e as críticas nele contidas ficaram no nº. 100 b da versão oficial. Assim se dizia originalmente: “Lamentamos cierto clericalismo, algunos intentos de volver a una eclesiología y espiritualidad anteriores al Concilio Vaticano II, algunas lecturas y aplicaciones reduccionistas de la renovación conciliar, la ausencia de un sentido de autocrítica, de una auténtica obediencia y de ejercicio evangélico de la autoridad, los moralismos…” (DAp 4ª. Versão, no. 109).

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA carreirismo, que é um câncer na Igreja [sic!] escândalo de ser

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SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA carreirismo, que é um câncer na Igreja [sic!] escândalo de ser bispo

carreirismo, que é um câncer na Igreja [sic!] escândalo de ser bispo de aeroporto”.

Conclusão

Permaneçam junto ao rebanho: evitai o

Ao longo dessas considerações procuramos mostra a influência do pensamento e da prática do Card. Jorge Mário Bergoglio sobre o DAp e, ao mesmo tempo como, eleito Bispo de Roma com o nome de Papa Francisco, está estendendo para toda a Igreja a sua rica experiência eclesial latino-americana. Dessa nossa riqueza ele usufruiu vivendo a vida religiosa jesuítica, influenciado pela nossa tradição de uma Igreja jovem e ardorosa (com relação ao velho continente Europeu e outras partes do mundo).

Tendo depois sido eleito e consagrado bispo auxiliar, e posteriormente Arcebispo e Cardeal de Buenos Aires, consolidou em seu pastoreio episcopal as linhas e orientações pastorais surgidas, quer do Vaticano II (do qual não participou), mas, sobretudo das grandes conferências latino-americanas: Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. Nessa última, como vimos, teve um papel protagonista, uma vez que foi o presidente da comissão de redação do mesmo.

Fazendo uma grande síntese de seu pensamento teológico latino-americano, tendo sido eleito Papa e participando no Brasil da JMJ, ele teve ocasião de orientar o nosso episcopado, tanto continental como nacional, em direção dessa grande utopia de nossa Igreja, que brotara em Aparecida e que se chamou Missão Continental. Uma utopia sim, mas prenhe de zelo missionário, para que, pela atuação de uma Igreja sempre mais servidora, samaritana e voltada para os mais necessitados, viva e proclame, com muita eficácia, o Evangelho de Jesus Cristo a nossos povos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRIGHENTI Agenor. Para compreender o Documento de Aparecida: o pré-texto, o con-texto e o texto. São Paulo: Paulus, 2008.

Perfil pastoral da Igreja que o Papa Francisco sonha in José Maria da SILVA, Papa Francisco: perspectivas e expectativas de um Papado. Petrópolis: Vozes 2014.

CAMAROTTI Gerson. Entrevista com o Papa Francisco, em 29.07.2013 (Rede Globo). Disponível em: http://www.comunidadeucraniana.com.br/noticia/arquivos/2013-entrevista-papa.pdf Acesso em 15.04.2015.

CNBB, Diretório Nacional de Catequese. Documentos da CNBB 87. Brasília: Edições CNBB, 2006.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. A Missão Continental: para uma Igreja Missionária. Brasília: Edições CNBB, 2008.

Itinerário da Missão Continental: para uma Igreja Missionária. Brasília: Edições CNBB,

2009.

CYMERMAN Henrique [jornalista entrevistador]. Descartamos a los jóvenes, por un sistema que ya no se aguanta in La Vanguardia (Barcelona), Viernes, 13 junio 2014, Internacional.

MELLO, Alexandre Awi. Ela é minha Mãe! Encontros do Papa Francisco com Maria. São Paulo:

Edições Loyola, 2014.

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Jornada Mundial da Juventude: experiência e promoção da cultura do encontro

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CATEQUETICA

SIMPOSIO INTERNACIONAL DE CATEQUETICA Jornada Mundial da Juventude: experiência e promoção da cultura do encontro in

Jornada Mundial da Juventude: experiência e promoção da cultura do encontro in Revista de Catequese 36 (2013) n.º 142, jul./dez p.6-22. No meu texto, faço amplo uso também desse artigo.

PAPA FRANCISCO, Discurso às lideranças sócio-políticas da Sociedade in

http://papa.cancaonova.com/discursodo-

papa-a-classe-dirigente-do-brasil Acesso em 15.04.2015.

Discurso aos dirigentes do CELAM, sábado, 28 de julho de 2013. O texto completo pode-se encontrar

em http://papa.cancaonova.com/discurso-do-papa-francisco-aos-dirigentes-do-celam/ Original castelhano: http:/

/www.celam.org/ noticelam/Images/img_noticias/doc15245e4d298292_27092013_304pm. pdf Acessados em 15.04.2015. Ou ainda: Encontro com a Comissão de Coordenação do CELAM (28.07.2013) in Palavras do Papa Francisco no Brasil. São Paulo: Paulinas.

Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. A alegria do Evangelho sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Documentos Pontifícios 17. Brasília: Edições CNBB, 2013.

Palavras do Santo Padre Francisco na vigília de Pentecostes com os movimentos eclesiais. Sábado, 18 de maio de 2013. Praça de São Pedro in

http://www.vatican.va/holy_father/francesco/speeches/2013/may/

documents/papafrancesco_20130518_veglia-pentecoste_po.html

Papa aos brasileiros pela Copa do Mundo. Disponível em

http://www.acidigital.com/noticias/papaaos-

brasileiros-pela-copa-do-mundo-minha-esperanca-e-que-esta-seja-a-copa-da-solidariedade-

92183.

Encontro com o Episcopado Brasileiro (27.07.2013), in Palavras do Papa Francisco no Brasil. São Paulo: Paulinas.

SILVA, José Maria da (ORG.). Papa Francisco: perspectivas e expectativas de um Papado. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.

SPADARO Antonio. Entrevista ao Papa Francisco in

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/

september/documents/papafrancesco_20130921_intervista-spadaro.html