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"Qual será, então, pergunta Benedito

Nunes ,

a 'identidade filosófica' que Heidegger atribui a Nietzsche?

Interrogação

que, pelo caráter circular

de toda interpretação,

também pode

ser formulada

de outra maneira :

filosófic a'

em que medida

a

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que Heidegger atribui

a

Nietzs che

constitui um ponto decisivo

e fundamental

da constituição

da 'identidade

filosófica'

do próprio

Heidegger?

É em tomo deste círculo que

se move a argumentaçãode Benedito

Nunes

e

é a partir dele que são esboçadas

alguma s conclusõe s."

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O Nietzsche

de Heidegger

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BeneditoNunes

SBD-FFLCH-USP

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235922

O Nietzschede Heidegger

Prefácio

ErnaniChaves

PAZULIN

RIODEJANEIRO

~_{4(

º'~-.;.)

Copyright©

by Benedito

1<-,

Nunes,

1,11qzs

2000.

Nunes, Benedito 1922 -

O Nietzsche

de Heidegger/

Benedito

Nunes; prefácio Ernani Chaves. - Rio de

Janeiro: Pazulin, 2000.

64pgs.;

10,5 X 15 cm.

ISBN 85-86816-08-6

1. Nietzsche,

Friedrich,

Martin,

1844 - 1900.

1976

2. Heidegger,

losofia alemã. 1. Título.

1889 -

. 3. Fi-

CDD-193

Capa e editoração eletrônica

Pazulin Editora Ltda.

Revisão

Clodoaldo

Lino

Direitos para esta edição contratados com PAZULINEDITORA LTDA. Av. Rio Branco, 120/904 - Centro - RJ - 20040-001 te! (21) 9184-9722 tel/fax (21) 225-2215 pazulin@pontocom.com.br

Todos os direitos reservados. Areprodução desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.588)

Sumário

PREFÁCIO, 7

O NIETZSCHE DE HEIDEGGER,

NOTAS,

61

15

DEDALUS - Acervo - FFLCH-FIL

llllll~j~)~~)IIIIIII

121

i1

1

1

Prefácio

NIETZSCHE e Heidegger encon- tram-se no centro do debate filosófico que é nosso contemporâneo. Melhor di- zendo, a interpretação heideggereana de Nietzsche alimentou, nas últimas décadas, em direções diversas, um con- junto de interpretações acerca do cha- mado "fim da modernidade". Para essa

7

Prefácio

intensa ocupação com o diálogo de Heidegger com Nietzsche contribuiu, de maneira decisiva, o duplo volume organizado pelo próprio Heidegger,

publicado em 1961, com suas preleções sobre Nietzsche datadas dos anos 30 e começo dos 40. Ali, se cristalizava a tese central da sua interpretação de Nietz- sche como o "último metafísico". Ao mesmo tempo, estes textos também serviam para balizar, com muita pre- cisão, o próprio caminho especulativo de Heidegger nos anos que se seguem

ao aparecimento de

estendem até 1945. Entretanto, a pu- blicação dos Beitrage zur Philosophie, em 1989, um conjunto de textos de Heidegger escritos entre 1936 e 1939

onde

sche, veio reacender um diálogo, cujas

Ser e Tempo e se

se multiplicam referências a Nietz-

8

O Nietzsche de Heidegger

peças pareciam estar já completamente dadas. Se os volumes publicados em 1961 davam a falsa impressão de uma rígida coerência na interpretação de Heidegger, como se ela formasse um bloco monolítico e impermeável - ape- sar da direção, em muitos sentidos oposta, dos textos dos anos 50, tal como a preleção "Quem é o Zaratustra de Nietzsche?" (1953) já anunciava - os Beitrage expunham com destaque e in- sistência o outro lado, complementar e indispensável, do que Heidegger chamava o "acabamento da Metafísica" em Nietzsche. "Vizinho" e "próximo" da "questão do Ser", Nietzsche não apenas teria levado a Metafísica até a sua últi- ma possibilidade e por isso mesmo ain- da se encontrava enredado nas teias que pretendia superar, como também teria

ÍIIIIIII

9

Prefácio

O Nietzsche de Heidegger

preparado

a "passagem"

para

uma es-

sem entretanto

ter ultrapassado

a solei-

fera nova, para uma

outra forma

de pen-

ra? Tudo

indica que

Heidegger

pensa-

samento.

A proximidade

que

Heidegger

va que sim,

que Nietzsche

apenas

indi-

se atribui

em relação

a Nietzsche

advi-

cou

a "passagem",

forneceu-lhe

os mar-

ria portanto,

não

de

motivos históricos

cos mas, hesitante,

não

se "decidiu" por

 

mas, exatamente,

pelo fato de Nietzsche

 

trilhá-la.

Para isso,

basta lembrar

a sua

ter preparado

essa "passagem",

que ele

interpretação

do conceito

de "niilismo"

próprio,

Heidegger,

pretendia

trilhar.

 

ou ainda

do de

"Além-do-Homem".

 

l

i

Pensador

dos "extremos",

Nietzsche

se

A confrontação

 

-

Auseinanderset-

 

tornava

próximo,

na medida

em

que

a

zung

-

de Heidegger

com

Nietzsche

 

1

"passagem"

que

ele abriu,

marca uma

continua

em

aberto.

Espera-se,

por

 

"cisão"

(Scheidung),

um

"abismo"

(Ab-

exemplo,

com uma

certa

impaciência,

grund)

na

História,

que passa

a exigir

a

publicação

das preleções

sobre

a

Se-

uma

"decisão"

(Entscheidung).

Toda a

gunda

Consideração

Extemporânea,

confrontação

posterior

de

Heidegger

 

também

dos anos

30, há muito prometi-

com Nietzsche,

que

baliza

tanto

a

sua

da.

Por estar

em aberto,

é sempre

salu-

proximidade

quanto

a sua distância

do

tar e instigante a sua retomada,

tal como

pensador

de

Assim

falava

Zaratustra,

 

o

faz Benedito

Nunes

neste

opúsculo.

parece

estar

colocada

nesta

questão.

Munido

não

de seu

profundo

 

co-

Teria Nietzsche

apenas

aberto

a porta,

nhecimento

de Heidegger,

mas também

 

10

li

l

Prefácio

de uma sólida questão de ordem filosó-

se en-

11 trosam e se diferenciam as filosofias?" -

e que se complementa com uma outra, mais fundamental, creio, aos olhos do autor, que é a da "identidade filosófi- ca", assistimos a mais um momento de tentativa de elucidação do lugar e do papel de Nietzsche no pensamento de Heidegger. Questão crucial, porque repõe, mais uma vez, aquela que parece ser a mais fundamental de toda a filoso- fia após Hegel: a da possibilidade da sua superação. O que também será, como se sabe, um ponto de ancoragem incon- tornável para os pensamentos de Nietz- sche e 1-Ieidegger, guardadas as devidas dist~ncias entre estes e Hegel. Trata-se também e ao mesmo tempo, de uma questão que, enquanto tal, é insepará-

fica, que abre o texto - "Como

11

li'

li

li

12

t -'---

O Nietzsche de Heidegger

vel do próprio trabalho de interpre- tação: interpretar significa, nesta pers- pectiva, "identificar o interpretado", atribuir-lhe uma "identidade". Qual será, 'então, pergunta Benedito Nunes, a "identidade filosófica" que Heidegger atribui a Nietzsche? Interro- gação que, pelo caráter circular de toda interpretação, também pode ser formu- lada de outra maneira: em que medida a "identidade filosófica" que Heidegger atribui a Nietzsche constitui um ponto decisivo e fundamental da constituição da "identidade filosófica" do próprio Heidegger? É em torno deste círculo que se move a argumentação de Bene- dito Nunes e é a partir dele que são es- boçadas algumas conclusões. "Antropofágica", canibalesca, toda interpretação retalha, esquarteja, assi-

13

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il

11,i

1111

li

111

~I

1

~

Prefácio

mila, integra,

devora,

incorpora

o

"in-

terpretado".

Nietzsche

sabia muito

bem

disso. Mas também sabia,

que toda

"as-

similação"

mente

deve

-

no vocabulário

propria-

E tudo

nietzscheano,

"ruminação"

expelir!

e precisa

também

-

dependerá,

diria um irônico Nietzsche,

da qualidade

do funcionamento

de cada

intestino!

radicalidade

sche? Ou

tação,

cia

pela

ainda

Teria

ele

Heidegger

de

suportado

a

do pensamento

a expeliu

de Nietz-

sua interpre-

de potên-

poder

deus"?

assim,

ao substituir

a vontade

e,

"serenidade"

ansiar por

um "último

Ernani

Chaves

.-: -~

.;

a-

;

--

-

14

ONietzschedeHeidegger

COMO

se entrosam

e se diferen-

ciam as filosofias? A única força

ca

históri-

as

constatável,

da

qual

resultam

alianças,

os

transportes

e

as

modifi-

cações desses

conjuntos

teóricos,

é a in-

terpretação

de

um filósofo

por

outro.

Ahistória da filosofia não é senão

o cam-

po serenado

dos conflitos

IS

e antagonis-

'

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li

,,

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,1

,1

11

'"

ti'

1

Nunes

O Nietzsche de Heidegger

-

--- -·1

1

mos

que

precedem

essas

transfor-

filosofia,

mais

a sua identidade

própria

mações. Espinosa procede

de Descartes

se robustece

.

e

aos dois

se opõe

Leibniz. Mas os três

Pode-se

interpretar

';lma

filosofia

se entrosam

pela

mesma noção

de subs-

guardando-se

distância

de

seu pensa-

tância transportada

de um

para outro e

mento;

mas

também

pode

o intérprete

transformada

em cada um.

Estamos

sim-

assimilar

esse

pensamento,

fazendo-o

plificando

um complicadíssimo

proces-

seu.

Heidegger

interpretou

Nietzsche,

so de

diferenciação

individualizadora,

integrando-o

ao

seu modo

próprio

de

que

se

aplicaria

a

Kant,

absorvendo

pensar.

De qualquer

forma,

quem

in-

Hume, e

à

transmigração,

de Descartes

terpreta

está

identificando

o interpre-

e

Leibniz,

da

idéia

de

substância.

É

um

tado .

Que identidade

filosófica Heideg-

fato, porém,

que

a

interpretação

sem-

ger

atribui

a Nietzsche?

pre

conduz

esse processo,

qualquer

que

É

preciso

considerar,

antes de

mais

seja

o modelo

utilizado,

ou

de

de-

nada,

que

essa assimilação

de Nietzsche

rivação, pelo

qual

uma filosofia

se ori-

não

é, como

ato de interpretação,

apro-

gina

de outra,

ou de

conjunção,

quan-

priativo

de uma

outra filosofia, um dado

,f

'li

1

n

jl

,.,

do uma

se casa com outra.

Não será des-

extraordinário,

isolado, do

fazer filosó-

cabido

afirmar

que quanto

mais

se mul-

fico

em Heidegger . Singularizado

pela

tiplicam

os atos

interpretativos

de uma

questão

do

ser,

inerente

à

definição

 

mesma

de

Dasein,

como

ser-no-mundo,

li 1

1

,L

16

17

f

•111

li

1.

1

li

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111

1

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1

1

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li

11

JL -

r----------------------------------

Nunes

o pensamento

de reinterpretar todas as grandes

de Heidegger tem no ato

filoso-

fias da Antiguidade Média e da época do-lhes, portanto,

princípio mesmo de sua economia

terna ou, se quisermos, nia.

grega,

moderna,

da Idade

conferin-

o

in-

novas identidades,

de sua endoge-

trás de si,

sustentando os meandros de sua Analíti- ca até o assentamento da temporali- dade, todo um trabalho de reapropri- ação dos filósofos. Esse texto é um ver- dadeiro iceberg hermenêutico de que

só emergem

Ser e Tempo

tem por

as pontas

mais salientes,

como Aristóteles, Descartes e antes de tudo, Husserl, cuja fenomenologia foi revirada nessa obra primordial. Aí tam-

bém são citados, em notas de pé de página, Pascal, Kierkegaard e Husserl.

18

1

O Nietzsche de Heidegger

Mas no corpo próprio da obra, precisa-

mente no seu

existencial da historiografia a partir da

historicidade do Dasein"), o Nietzsche

parágrafo 76 ("A Origem

de As Considerações Extemporâneas

é

discutido e aproveitado. Transcreve-· mos adiante essa passagem, que se refe- re à distinção nietzscheana entre os ti- pos possíveis de história: "Na Segunda Consideração Extemporânea (1874), Nietzsche reconheceu o essencial ares- peito da 'utilidade e desvantagem da

historiografia para a vida', tendo-se pro- nunciado de maneira precisa e pene- trante. Ele distingue três espécies de his- toriografia: a monumental, a antiquária e a crítica, sem, no entanto, demonstrar, explicitamente, a necessidade dessa tríade e o fundamento de sua uni-

dade

A divisão feita por Nietzsche não

19

1

li

11

!l

1

'

111

1

Nunes

é acidental.

O

início

ração'

deu

deixa entrever

bem

mais

do

'

,,

' exprimir"

1

de

sua 'conside-

que

que

ele compreen-

chegou

a

Essa

afirmativa

de

que

Nietzsche

compreendeu

bem mais do que chegou

a exprimir

pode

ser generalizada

como

princípio

hermenêutico

da

interpre-

l1·

Ili

iil

1

1/

tação heideggeriana

filósofos.

desse e de outros

há

que bus-

Para Heidegger,

 

car-se,

par~ além

da expressão,

do

que

1

s_econsegum

exprimir

sempre

malhas

nos

textos filosó-

!{

ftco~, o seu

variável

e implícito

sent1d,o nas

da linguagem

escri-

ta.

todo

Alem

do que

efetivamente

carrega

pensa

mar~

texto filosófico

uma

'Ili

gem

de não

pensado,

~j1

" pensável.

Qualquer

de possivelmente

filósofo

assim

es-

taria

o contrário

fadado

a compreende/

chegou

do que

mais

~até

a exprimir,

li

-

20

1

O Nietzsche de Heidegger

na medida

quer

lidam

uma

ser. Todos eles

exprimem

determinada

do-o

o

ram

em que, no fundo,

todos

quer quei-

não,

os

maneiras

pensadores

sob

do

o ser e o

e até

forma negativa, com a questão

,

de diferentes

compreendem

perspectiva,

dos Ídolos-

que

Heidegger

ora mais ora menos sob uma

seja aceitan-

como Nietzsche

de

seja repelindo-o,

modo

repeliu

em

peremptório "última fumaça se volatiliza"- con-

Crepúsculo

de uma realidade

forme

lembra

em

sua

ln-

tradução

à

Metafísica.

Ato do filósofo,

o pensamento

do ser,

para

estariam

produto

o qual

os autênticos

não

de

é,

pensadores

um

que

dirigidos,

exclusivo

porém,

sua reflexão,

elabora

na ampla

e difusa

compreen-

são de

que falávamos.

Não

o produzi-

ria

o

filósofo

se

21

não

estivesse

gra-

'li

!,

'!

11

,,

.~

I

f

1

11

11

r

1:i,

1

,1

Nunes

vitando

o pensador,

em

sua

órbita. De certo modo,

por

essa

compreensão

t atraído,

'"

articula-a independentemente

É

dela

uma espécie

de sua vontade.

de

emissário,

de núncio

extraordinário

de

recônditas

intenções

só por

seu inter-

,/

médio

transmitidas.

O

ato do

filósofo

obedece

a uma

prévia ação que

açam-

barca o seu pensamento,

porque

deter-

minativa

de

tudo

quanto

se pensa

ou

produz.

Assim,

extravas~ndo

os limites

do pensar

individual,

o pensamento

do

ser ,

que

a

compreensão

sustenta,

se

transfere

às épocas

que

circunscreve

;

como

pensamento,

configura

a história,

de que

é o cerne:

a história

do

ser,

em

que

se enquadram

o processo

históri-

co

e a historiografia.

Mas essa

história

do ser

não

é nem

ostensiva

nem contínua.

Ela se

desen-

- ~

=-

-i;;r

~

-

22

~

O Nietzsche de Heidegger

li

li

volve

à

custa

de uma

grande

omissão

desde

o

começo

ocorrida:

pensa

o ser

e detem-se

no

ente; nivelando

aquele a

este, esquece

a diferença

que

os

sepa-

!1

J!

do ser em proveito

metafísica

de sua

'

ra. Tal esquecimento do ente é a dominante

configuração diversificada,

sob o regime

"

descontínuo

de variações

históricas

1, ~

determinativas,

que

são equivalentes

entre

si porque

se

desencobrem

enco- 11

brindo

ousia

mesmo

aristotélica

o

ser :

eidos

platônico,

,

ens criator,

sujeito

pensante

na

época

moderna.

Não

continuidade

entre essas

figuras , inter-

ligadas pelas

suas transformações

e que

se contam

têm

o esquecimento

ra o ser do

iniciada

pelos

comum

ente

pela

dedos

é

da mão. O que

em

o esquecimento

que

da diferença

- pelo

idéia

qual

-

iL

111

1

~I

,11

~11

sepa- ~.1

111

•,

:l

1

1

a Metafísica,

pla-

supra-sensível

li

"

~,

23

1"

l

Nunes

i

I"

Ili

.111

1,11

1

i

1:

t

111

;:;

!li

i

'/

li

tônica , entra no

do

o ente

poucos

circuito

do

histórico

ser . Escritas

do

pon-

em

ser e his-

. O úl- , posto

no lugar

capítulos

, história

i tória

timo

da metafísica se

capítulo

que

equiparam

nos concerne

1 que preenche

sche como

Nietzsche

a nossa

época , teria Nietz-

ou

a

seu autor

não

co-autor.

dizer

podia

senão

/li

Ili

1

verdade .

Pois,

segundo

se

no

In-

trodução

à

Metafísica,

texto de 35 - data

a partir

da qual

se multiplicariam

os

estudos

de nosso

filósofo

sobre

o pen-

sador

de

Crepúsculo

dos

Ídolos,

prin-

cipalmente

no período

de

1936 a 1940

- mesmo

que

ele errasse

na

sua mani-

festa repulsa

munho

próprio

negá-lo.

de

ser,

ao ser , estaria dando

uma oculta

necessidade

que

o compeliria

teste-

do

a

então

1

1

li =---=--~~

~

~

24

-=--

L

=---=-

O Nietzsche de Heidegger

Mas como

foi prolífica, depois

do ens

1

li

il

1

11

1

creator,

obra da divindade

, na

segunda

época,

a figura

do ser do ente,

enquan-

to

siano

presença,

carte-

na terceira época! No sujeito pen-

egresso

do Cogito

sante, no

Eu penso,

agora fundamento

inconcusso

da

verdade

em

que

se

repete

a consistência

da

antiga

ousia ,

se rearticula

a realidade

do real.

Depois

o

Eu se transforma

em espírito

e o es-

pírito em

vontade

, rearticulando

a rea-

lidade do real ao processo

reflexivo

da

consciência ; de

onde

emerge

a dialéti-

,1!

1i

ca hegelian a,

num

saber

absoluto

.

De

Descartes

passaríamos

a

Hegel,

e

de

r

Hegel

a

Nietzsche

através

do mesmo

sujeito

pensante,

quando

este

vai do

Ego sum

do pensamento

ao

ego

volo, do

sou ao

quero,

~,

~

à

vontade.

Essa passa-

 

1

l

25

!I

il

1

li

r-------------==-=-=====--

1

li

Nunes

O Nietzsche de Heidegger

111

11

gem caracteriza
111

Metafísica de Nietzsche? Como? Não

a fase

culminante

do

\'

idealismo

estaamos

germânico

diante

de

Nietzsche

um

.

Atente-se

heideggerizado,

a diferença

para

de que

entre

se apagariam

a

1 razão

as

'

1

1\::1

pura teórica

verdades

e a razão

(die blütige

sangrentas

pura práti-

,,1

Wahr-

ca. O que

é esta

heiten),

senão

verdades escritas

a vontade

livre e

com o sangue

autônoma

da

vida

determinando

enquanto

pesoal,

li 1

livre, insubmissa,

os

1

em

il'

1 fins do

li

homem

l

proveito

do

ser racional? Foi de Fichte, que o

como

pensamento

organizado,

li

1

Teoria

da Ciência

ijf

na

sistemático?

Metafísica invoca

1

uma

or-

Eu

denação

se desdobrou

penso

a princípios

no

superiores

eu

i\,

quero.

ou

a

Schelling,

de Hegel,

antes

princípio

um

identificaria

ordenador.

E·nenhum

a vontade

Schopen- pensador,

ao saber.

Depois

mais

do

que Nietzsche,

pai-

hauer reduziria

a coisa em si kantiana

voejando

à rou,

contra

sistemas,

: 1

os

na

vontade

universal,

livre

atmosfera

do pensamento anti-metafísico

ao

mesmo

tempo

insub-

1 impulso

misso

i,~.,

a religiões

move coisas

que

e força que as

e

por

produz.

O mundo

fenô- excelência.

1

1

se faz

A recusa

a sistemas

como

1 I

1

sempre

1

foi, para ele, uma questão

e vontade

meno

1'1

númeno,

como

de probidade,

1

que se

''P

objetifica

es- de honestidade

arquétipos,

em

idéias

intelectual.

em

senciais.

Mas tal

Porque vai de encontro

passagem

estreita

le-

com a grande

l

1\

ll

varia

à metafísica

segun- tradição

de

filosófica,

Nietzsche,

abastecida

Só-

em

do Heidegger.

Platão e Aristóteles,

crates,

1

está

porque

11

~

1

11

,11

26

!1

27

L

~

.,,. ~-r

. ,.,.,,

~

,--,-

--

~ !\,,

11

Nunes

q Ili\

O Nietzsche de Heidegger

em permanente

dissídio

partir

com o domínio

daí,

a efetuação

da genealogia

das idéias , porque

é adversário

Só- impura

de

da

ciência

, da filosofia

crates

da

e de Platão, porque

e

rebate

moral.

O retrocesso

a ob-

critica e a genealo-

jetividade

1ii,,

"\

do conhecimento

•Ili

gia liberta

científico

da

ilegítima

dominação

idealizações

! e

as

da

'

\\\

moral,

histórica

alcançado

il:

porque

se

pelas

insurge contra

1

represen-

a disciplina da razão

tações

da ciência

\•,,

1

e a

e pelas

virtudes

retidão

cris-

da verdade,

1111,

todo

tãs, unidas

1

o pensamen-

na mansidão

tática

'lt

to nietzscheano,

do as-

apelando

cetismo , um componente

~1

para

o teste-

1\\

da vontade

munho da vida, dos

de

instintos,

\'~\

verdade

como o

da mesma

, egresso

1111 elemento

vontade

de

pré-teórico

se instila nas

potência.

que

A vontade

de

verdade,

construções

teóricas

que

1,1

, reclamando-lhes

\Ili

· leva ao niilismo

'

pela

negação

da vida,

a base

i;

e comprometendo-lhes

substitui

a retidão

a va-

da

l 11

verdade

lidade,

. Será,

é uma anti-filosofia.

então,

a hora

de

:1:.\

Assim

falava Zaratus-

li Não há

só dentre

um

palavra de musicista e

tra,

os conceitos

li

metafísicos tradicionais,

poeta , anun-

ciando

não tenha

que

o advento

do

Super-homem

1

sido

sapado

1 1

pelo

e a

duplo

movimento

intuição

do

Eterno Retorno.

li

dessa anti-filosofia:

o retrocesso

Eterno Retorno ou

ao de-

a Eterna recorrên-

senfreado

transbordamento

cia! "Vale a pena

vital,

de

viver na terra:

um úni-

que a última lante , versátil,

e decisiva escala é a ondu-

co dia, uma Zaratustra

só festa em companhia

"

de

vontade

<li

de potência

e

me ensinaram

, a

a amar

a ter-

Ili

28

29

<

~- '-;,

:e

"!

•;;;

:

-:::.-.~~

z.::

1

1

Nunes

O Nietzsche de Heidegger

i

H

Pois

à Morte .

a vida? Direi

isso

- Era

historicamente

como

ra.

atuando

mento

de Zara-

A hora

mais!".

da "es-

bem:

vez

uma

ser do

ente , ou

do

escon- dominância

:';

de

o momento

é também

i o_

tustra

do

em sua

ente

fundamental

~

so- trutura

maldição socrático-platônica

(/)

jurar a

1

que este

/ 'f

meqida

se '"i

totalidade,

em

na

::>

instância

aprova

1

a única

que

bre a arte, a aparência,

(Le

e supra-sensível"

j .

em sensível

divide

isso

com a ilusão, por

joga

1

pag . 182)

nesse

de Nietzsche

e,

~

mot

:r:

verdade.

,

de

a vontade

contornando

essencial

no

"acontecimento

sentido,

(_)

ser consola-

pode

a arte, que não

,.

Mas

41).

dasein"(WJM,

pag.

do

âmbito

"Ela diz sim

trágica:

lL

é dionisíaca,

1ti

dora,

e é

metafísicos

Dasein

somos

Como

LJ

e terrível"

o que é problemático

a tudo

o posto

que contestamos

Dasein

como

~

Ídolos),

depois que

--

dos

(Crepúsculo

primeira".

,1

como "ciência

da Metafísica

o

da

depois

1

verdade,

o mundo

m desabou

metafísica

falar

assim

numa

Anti- Mesmo

Anti-Cristo

O

de deus".

e

(./)

do

"morte

o perfil

é admitir

que

nietzscheana

só pen-

-------- Metafísico haviam-se unido

!i,•,,

num

delimita

Sils Maria se

por

de

la- ermitão

delimitar

é difícil

li

no

.,

samento,

que

completa,

que

filosófica

e

figura

e uma

diversos

feita de

uma obra

de

birinto

fase da

última

preenche

figura

a

essa

talhe ensaístico.

de

escritos

profusos

de pensa-

regime

do

história

ser como

em Heidegger,

É certo,

porém,

que

de

histórico

traçado

il

e como

mento

a discipli-

mais

não significa

metafísica

o diagnóstico

o

e

Dir-se-ia que

época.

de

e sim um regime

pensa-

na regeme

a sua

tempo,

de

prognóstico

nosso

30

lt

31

"?7-e::r:

-

--~

- · ·

~

------

--- e-

J

o,;

1\1

O Nietzsche de Heidegger

\

\l

Nunes

1

'

1 '1

li

1 1

li fisiognomia

quadro

da justificação

metafísica

"da

1

e a sua genealogia,

saíram

1

bíblica

\1

crença

e cris

da pena

da criação

do ermitão,

mas guiada

li li'·

e con-

(Nietzsche

vol.

2, pag . 414),

duzida

pelo

punho

de

enquanto

Heidegger.

Ili 111

111.I

o sujeito

1:,

que

Começaremos,

~ ,1

pensante

funda-

como

então,

li 1.1

irmos

para

ao

!ri

mento

se conecta

11,

a primazia

da metafísica

encontro

com

de Nietzsche,

an-

11

111:

tropológica,

afirmativa

pelo

da soberania

traçado histórico,

da

tal como elabo-

humanidade

do

homem,

rado

ratificando

por Heidegger,

do extremo

il,\'.

a

limite

,111,

postulação

lq

'

li da época

moderna

do humanismo,

moderna em que

1 l1

nos encon-

confirmada

pela indagação

É como se fizéssemos

tramos.

crítica

kan-

;'i

dé- tiana,

uma

.i

e da razão calculadora,

li marche

apanágio

contrário,

ao

partindo

do

da certeza

ser

do

Cogito,

da história

estendida

do

a história do

para

ser.

sujeito

li i

à representação

pensante

: 'Ili

As

variações

das

do ente

anteriormente

1

coisas que

,11

resistem

à prova

referidas

r,

dos nove

inauguram

"épocas"

e corres-

',\' IIIJ~

da evidência

pondem

matemática.

a tradições

e práticas,

a cor-

Sem essa

11

1

soberania

da humanidade

formadoras

rentes

1

a sínteses

de ori-

e

do

homem,

não

\\,

poderíamos

•:,::I

1

entação ética, enfim