O Renascimento Engels, em sua vasta obra, informa que em momentos de grave crise histórica a humanidade produz gênios.

O Renascimento pode ser compreendido a partir deste principio, uma vez tratar-se de momento gravíssimo de crise terminal do Modo de Produção Feudal. A nova ética, a nova moral da burguesia, enfim, exigia o fim do cavalheirismo medieval. Exigia personagens capazes de simular serem o que não são, de dissimular serem o que são, capazes, enfim, de erigir o blefe, a fraude e a pecúnia como seus tópicos principais de comportamento e adoração. O Homem do Renascimento, segundo Agnes Heller, era aquele que se comportava de acordo com as frases de Shakespeare ou Leonardo da Vinci, como:

“Posso sorrir, e matar enquanto sorrio, E proclamar-me feliz com o que me aflige o coração, Molhar as minhas faces com lágrimas fingidas E acomodar a minha cara a todas as ocasiões... Posso acrescentar cores ao camaleão, Mudar de forma mais depressa que Proteu E mandar para a escola o sanguinário Maquiavel!” Ricardo II, Ato 3, Cena 5 ********** “Vede aqueles que podem ser chamados Simples condutores de comida, Produtores de estrume, enchedores de latrinas, Pois deles nada mais se vê no mundo Nem qualquer virtude se observa no seu trabalho, Nada deles restando além de latrinas cheias” Anotações, Leonardo da Vinci

Percebe-se que, além de ser capaz de simular, dissimular, mentir e atraiçoar o homem dos novos tempos burgueses – que seguem até nossos dias de profunda decadência da própria burguesia até por esgotamento – deveria ser capaz de obter fama e fortuna em vida, o que seria impensável durante o feudalismo. A seguir o pensamento do genial Leonardo da Vinci, era preciso deixar a sua marca na história, fosse em que campo da existência fosse. Somente era criticado aquele que nada mais fazia do que trabalhar, comer, dormir e, no máximo, reproduzir-se, coisa que outros animais são capazes de fazer – o que enfatiza o humanismo renascentista.

Origens

Giorgio Vasari (1511 – 1574), italiano nascido na cidade de Arezzo, publicou em 1550 um importante livro sobre os artistas plásticos de sua época, com o longo título Vida dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos italianos, desde Cimabue até a nossa época. Em sua opinião, a partir da queda de Roma (476), a cultura e a arte entraram em decadência, “renascendo” somente por volta de 1250. Vasari identificou três fases no que concebia como Renascimento artístico. Na primeira fase situava Giotto, pintor nascido em 1267 e morto em 1337. Na segunda fase, considerou como figura mais emblemática o pintor Masaccio (1401 – 1428) e na terceira fase, a mais importante das três, deu merecido destaque a Leonardo da Vinci (1452 – 1519), Rafael d’Anunzio (1483 – 1520) e Michelangelo Buonarotti ( 1475 – 1564). Essas três fases são denominadas pelos italianos Trecento, Quatrocento e Cinquecento, respectivamente.

Vasari foi talvez o primeiro estudioso a empregar o termo Renascimento para descrever o florescimento artístico-cultural da Itália dos séculos XV e XVI. Usado para identificar não apenas as criações artísticas na pintura, como todo o movimento então ocorrido, como a literatura e a ciência, que tomava como modelo e inspiração a cultura da Antiguidade Clássica. Enquanto o pintor italiano Giotto renovava as artes plásticas com suas obras, o poeta e escritor italiano Francisco Petrarca (1303 – 1374) destacava-se como iniciador do humanismo. Não por coincidência, ambos anunciavam uma importante mudança no campo da cultura, denominada pelos historiadores, seguindo a tradição iniciada por Vasari, Renascimento Cultural.

O Humanismo

“Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.” Hamlet, William Shakespeare

Revolucionária observação, que conclama a um antropocentrismo em contrapartida ao teocentrismo que grassou por cerca de um milênio na Europa Ocidental. O Homem é a peça-chave, o Homem é inclusive comparado ao Todo-Poderoso já no sentido de colocar a nova mundividência em vigor. Quando propôs uma nova periodização da História européia, Petrarca também tinha em mente a idéia de renascimento. Ele chamava de Antiguidade ao período que termina com a conversão do

Os Humanistas não mais aceitavam os valores e maneiras de ser e viver da Idade Média. contudo. Por conseguinte. Petrarca considerava sua época como o final de um “tempo obscuro”. interessados em projetar suas cortes. 3) As Grandes Navegações ou Mecanismos de Conquista Colonial. que alargou os horizontes geográficos e culturais e propiciaram o contato europeu com culturas completamente distintas. os humanistas tenderam a valorizar a produção cultural da Antiguidade Greco-Romana. representou um movimento de glorificação do Homem. . e estendia-se até a época em que ele vivia (século XIV). O termo Moderno. da Bíblia e de outras obras. contudo. plena de realizações culturais. Não se tratava. Moderno foi se associando ao renascimento da cultura antiga e acabou ganhando um significado “positivo”. Príncipes e até Papas. tomado apenas como fonte de inspiração. tinha então uma conotação negativa. contribuindo para derrubar muitas idéias até então tidas como verdades absolutas. Em função disso. contraposto a Antiguidade. até então manuseadas apenas pelos “monges copistas” dentro de Mosteiros e Abadias. embora não sendo a rigor uma filosofia. Em comparação com a época dos antigos gregos e romanos. a que estava no meio de duas épocas brilhantes: a Antiga e a Moderna. firmou-se a idéia de que o período compreendido entre aqueles dois extremos constituía a época Média. Pretendiam encontrar nos antigos Homens. mas o pensamento cristão progrediu bastante no período considerado “Mil Anos de Trevas”. uma tomada de posição antropocêntrica em reação ao teocentrismo medieval. vale enfatizar. contudo. impessoal. que existe equalitariamente por toda a parte. sem que com isso queiramos dizer que pregavam um retorno ao passado. veio a transformar-se praticamente em sinônimo de Renascença. De todo o modo o Humanismo Renascentista deve ser considerado um movimento intelectual de valorização da Antiguidade Clássica...imperador Constantino ao Cristianismo (337). tornado centro de todas as indagações e preocupações. O período seguinte constituía uma nova era. Constituía. tem sido revisto por autores contemporâneos uma vez ser inegável a enorme produção cultural patrocinada e orientada pela Igreja Católica Romana. de meramente copiar as realizações do Classicismo greco-romano. tal aspecto retiraria ao movimento sua maior amplitude. de uma “Idade das Trevas”.. Para a eclosão e ampla difusão do Renascimento como um todo há que se considerar ainda: 1) O aperfeiçoamento da imprensa. o interesse pela Antiguidade era um meio para atingir um fim: os humanistas viam na Antiguidade aquilo que correspondia aos desejos que sentiam.. iniciado com a decadência do Império Romano. que Petrarca chamou de Moderna. considerado como um ser geral. assim. que provocou um verdadeiro êxodo de intelectuais bizantinos para a Europa Ocidental. daí financiarem as atividades do Renascimento Cultural. havia tabus e heresias. que possibilitou a difusão dos clássicos greco-romanos.. 4) O Mecenato praticado por burgueses ricos.. a Idade Média lhe parecia bastante pobre. O Humanismo. 2) A decadência e derrocada de Constantinopla. Com o tempo. em sentido amplo. Idade Moderna. Tal preconceito. Sendo a época Moderna aquela em que os valores antigos estavam renascendo. universal.

em última instância. Não se deve. Então. promoveram um estilo de Artes. Letras. Vejamos agora as condições vigentes na Europa que facilitaram ou fomentaram o surgimento do Humanismo e do Renascimento. um sistema. entronizando a burguesia endinheirada – se já detinham o poder econômico e contestavam os dogmas religiosos. Mousnier. é fator determinante – aqui se enfatizam os interesses mercantis da burguesia em ascenção. para contestá-los e difundir seus valores. Estava presa a valores da Igreja e da Nobreza medievais. burgueses em geral. que teve de um modo geral suas maiores manifestações de 1490 a 1560. contudo. entre outros fatores – maior contato com outras culturas e civilizações por “projetar-se” no Mar Mediterrâneo e ser na prática o berço da civilização greco-romana. Devem ser considerados como um todo! O aspecto econômico. a nobreza decadente – tal como o faz hoje a burguesia decadente – buscava cooptar os intelectuais e artistas do renascimento patrocinando suas pesquisas e seus trabalhos com vistas a manter o statu quo ante. a expressão de um movimento humanista nas Artes. o saber e a arte”. Como contraponto. Filosofia e Ciência. onde se estudava as línguas clássicas (o latim e o grego) e com a maior preocupação em analisar acurada e cientificamente os fenômenos da natureza. Em sentido estreito. A burguesia. Deixa de valer o magister dixit aristotélico medieval e passa a valer a busca empírica da Verdade. de certa forma. Toda a civilização da Europa transformou-se em conseqüência. em um “prodigioso desabrochar da vida sob todas as suas formas. mercadores e banqueiros. Letras. mas que não está preso dentro destes limites. o Renascimento é esse elã vital nos trabalhos do espírito. o que lhes podia impedir de deter o poder político? O foco inicial do Renascimento foi a Itália. estava ainda presa a um Modo de Produção contraditório em tudo e por tudo a seus interesses. o Absolutismo Monárquico. Religião e Ciências mais de acordo com suas concepções racionalistas. antropocêntricas e valorizadoras do acúmulo de riquezas a qualquer custo. É menos uma doutrina. enriquecida com o comércio. ou seja. Os novos valores e os gênios produzidos por aquele período de crise . Esta tensão durará até o período do Iluminismo que finalmente depõe a Nobreza e o Clero. uma impulsão interior que transformou a vida da inteligência e a dos sentidos. que já dispunha de prósperas cidades mercantis e para onde chegou a principal leva de intelectuais bizantinos. segundo R. constituindo-se. separar ou valorizar apenas alguns destes fatores. uma vez que começaram a surgir Academias e Liceus laicos. pois conduziu a modificações inclusive nos métodos de ensino. um afluxo de vitalidade fez vibrar toda a humanidade européia.O Humanismo teve suma importância. Aspectos ou características O Renascimento foi. que um conjunto de aspirações.

finalmente. Sua tese de que “somente um universo infinito seria compatível com a idéia de um Deus infinito” estava em dessintonia com as teses aristotélicas.. entre outros tantos. o polonês Nicolau Copérnico. com comprovações factíveis de reprodução em laboratório. sufocante mesmo. que supliciou muitos dos pioneiros da ciência em nome da defesa da fé. com acentuado espírito crítico em todas as suas manifestações (artística. foi o precursor da balística e o inventor do submarino e até do helicóptero (que só não se viabilizaram em seu tempo por motivos banais!). “Davi” e “Pietá” entre centenas de outras! Rafael Sânzio. entre várias outras obras e Autores. não se retratou. famoso pelas suas pinturas “magníficas de Madonas”. política.. E os produziu! – Erasmo de Roterdã – “O Elogio da Loucura” – Etienne de La Boetie – “Discurso da Servidão Voluntária” – Thomas Morus – “Utopia”. Murilo e El Greco. Em sua vertente principalmente Artística. Destacam-se. “Otelo” e milhares de outras obras poéticas e peças teatrais.) teve como principais representantes.C. Agora buscava-se empiricamente os fatos detalhada e acuradamente. e sua “Santa” Inquisição. Além de pinturas e esculturas de valor inigualável. Por esta “heresia” ele foi amarrado a uma estaca em praça pública onde teve a língua perfurada por uma faca e foi enfim queimado vivo. na Medicina Nostradamus (poderoso vidente e ocultista também!). Ambroise Paré e André Vesálio (considerado o pai da moderna Anatomia). Tanto quanto hoje sofrem os verdadeiros e radicais cientistas da área de humanas. Era necessário comprovar essa “verdade”. cuja teoria heliocêntrica foi completada no século XVII pelo italiano Galileu Galilei (perseguido pela Inquisição. “Hamlet”. no aspecto eminentemente literário: Dante Alighieri – “A Divina Comedia” – Nicolau Maquiavel – “O Príncipe”. tantas que há até hoje uma polêmica se foi um único ser humano a escrever obra tão vasta e de tão grande valor! O Renascimento.. o escultor que não gostava de pintura. autor da decoração deslumbrante.. Quixote de La Mancha” – Luís de Camões – “Os Lusíadas – William Shakespeare – “Romeu e Julieta”. sejamos justos! – que rejeitava o “princípio da autoridade”. Imagine-se o que . gira em torno do seu próprio eixo e em torno do sol.O Renascimento.. em 2000 d. “Júlio César”.. levando a crises com a Igreja. Em sua vertente Científica há que destacar-se principalmente o fato de surgir um poderoso espírito crítico – comum a todos os renascentistas. o gênio universal de Leonardo da Vinci é. religiosa. etc. literária. Johannes Kepler também na Astronomia. Miguel Servet. a Igreja Católica aceitou o fato de que a Terra é redonda. William Harvey. além das esculturas de “Moisés”. Além destes. quando. ainda poderosa. sem sombra de dúvida a maior estrela desta constelação. Giordano Bruno. Não bastava mais estar escrito numa obra genial de Aristóteles para “ser verdade”. “A Mandrágora” – Giovanni Boccacio – “O Decameron” – Ariosto – “Orlando Furioso” – Miguel de Cervantes – “D. por sua vez. Só foi perdoado pela Igreja Católica no “ano do Jubileu”. Como sofriam os cientistas da área das ciências naturais em tempos remotos.. Michelangelo Buonarotti.. sem dúvida precisava de gênios. da Capela Sixtina. ou seja. o que muitas vezes não ocorria. teve de retratar-se mas deixou uma obra imorredoura. o magister dixit aristotélico medieval. nesta vertente.

no século 16. a oeste. A leste. Desdobramentos da Reforma Protestante e da Contra-Reforma. era de se esperar que os governos da Inglaterra. o tratado não deixava terras para mais ninguém. que suportou praticamente toda a guerra dentro de seu território. país cuja principal fonte de riqueza eram as minas de ouro e prata da América. uma heresia! Na Religião. A paz só foi alcançada em 1485. Mesmo tendo sido referendado pelo papa (espanhol) Alexandre 6º. com a coroação de um membro da família Tudor. através do Tratado de Tordesilhas. que consumiu uma enorme quantidade de dinheiro e homens por mais de um século. a disputa pelo trono levou à Guerra das Duas Rosas. A linha divisória do Tratado de Tordesilhas passaria a 370 léguas marítimas (aproximadamente 2. desde o século 12. Novas rotas para o Oriente Sem ter como competir. A região da Flandres. Inglaterra. com os países ibéricos nas rotas meridionais que contornavam a África e a América. a linha de Tordesilhas geralmente é mostrada cortando apenas o território da América do Sul. o que levou algum tempo.442 quilômetros) a oeste do arquipélago de Cabo Verde. num primeiro momento. buscaram caminhos para o Oriente pelo hemisfério norte. em junho de 1494. França e Holanda rejeitam Tratado de Tordesilhas Até 1456. na região mais ocidental da costa africana. a França. se destacou por seu desenvolvimento manufatureiro e seu próspero comércio. que tinha laços de parentesco com as duas casas de nobres que vinham se digladiando até então. os navegadores dos demais países. ingleses e franceses travaram a Guerra dos Cem Anos (iniciada em 1337). Na Inglaterra. teve urgência na recomposição de sua agricultura e de suas finanças. tem em Martinho Lutero e João Calvino seus principais expoentes. a Reforma Protestante com sua pregação contrária àquela da Igreja Católica Romana. "todas as terras descobertas. muito mais favorável à burguesia. um conflito interno que envolveu as famílias Lancaster (rosa vermelha no brasão) e York (rosa branca no brasão). França e Holanda contestam Tordesilhas Quando as Coroas portuguesa e espanhola dividiram o mundo. Inglaterra. quando. Henrique 7º. França e Holanda tivessem se recusado a reconhecer a partilha. rei da Espanha. Ao final do conflito.passaram estes desbravadores quando “profanar o corpo de um morto” para fazer dissecção era um crime. os conflitos entre católicos e protestantes contribuíram para a demora na busca da expansão das rotas comerciais flamengas para fora da Europa. os Países Baixos caíram sob o domínio de Filipe 2º de Habsburgo. . Nos livros. na verdade era um meridiano e circundava o globo terrestre passando pelos dois pólos. Em 1556. tendo chegado a ser alvo da disputa entre a França e a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos. ao longo do século 16. o mesmo valia para a Espanha. pertenceriam a Portugal e. ou por descobrir". Os Países Baixos também estiveram envolvidos numa série de disputas entre nobres e o rei.

Protegidos pelos reis de seus países. naquele momento) concluíram ser impossível transpor a barreira de gelo do arquipélago russo de Nova Zembla em busca de uma passagem para o sul. expedições inglesas e holandesas (os dois grandes rivais da Espanha. Companhia das Índias Os holandeses.O francês Cartier (1536). no Canadá. a partir de 1532. nas ilhas que haviam sido tomadas de nativos e. invadiu Pernambuco. parte do que pilhavam era dividida com a própria Coroa. passou para o controle da mesma Companhia das Índias Ocidentais que. Daí por diante. nos séculos 16 e 17. Deve-se à absorção desses salteadores pela política de Estado a incorporação de ilhas antilhanas à Inglaterra e à França. Pelo nordeste da Europa. em 1682. Em troca da proteção oficial. em sua expedição. de 1667. Os franceses se estabeleceram ao longo do rio São Lourenço. até então. que pudesse cortar ou contornar toda a Ásia e levá-los ao Índico e às especiarias de sua costa. "não havia passagem. Na América do Norte. onde fundaram a colônia da Louisiana. esses salteadores dos mares passaram a ser conhecidos por corsários. Pirataria. a Companhia das Índias Orientais (VOC) e a Companhia das Índias Ocidentais (WIC). resolveram desafiar o já decadente poderio português e passaram a freqüentar a rota das Índias através do contorno da África. a serviço do rei Francisco 1º. até o golfo do México. por ali. uma fortificação holandesa datada de 1625. fundada em 1602. corsários e invasões A grande dificuldade em se encontrar caminhos marítimos distantes dos controlados pelos portugueses e espanhóis levou os reis da França e da Inglaterra a se associarem a piratas que atacavam embarcações ibéricas na rota do Atlântico. desde aproximadamente 1608. a febre das descobertas foi seguida pelo início da colonização de territórios. ex-corsários foram incumbidos de dar início ao processo de colonização e plantio de cana. Já a presença holandesa na região se deve aos investimentos de duas empresas privadas que funcionavam como sociedades anônimas. e os ingleses Davis e Hudson (1576/1578) já haviam tentado encontrar uma ligação entre o Atlântico e o Pacífico através da América do Norte. . Em 1584. na Rússia. em 1553. A fortificação flamenga deu origem à atual cidade de Nova York. Em seu rastro. vieram. cinco anos mais tarde. ao longo do rio Mississipi. Nova York e Recife Na América do Sul. A Companhia da Baía de Massachussets foi responsável pelo primeiro foco de colonização inglesa na América do Norte. e expandiram sua área de atuação comercial. nem esperança de passagem". foram usadas como refúgios. também os franceses e os ingleses. Agraciados com patentes militares e títulos de nobreza. batizada originalmente com o nome de Nova Amsterdã. em 1629. com a Inglaterra. a Guiana Holandesa (atual Suriname) foi oficializada pelo Tratado de Breda. entre 1615 e 1616 que. Sir Richard Chancellor chegou a Arcangel. através de sua Companhia das Índias Orientais. mas foi William Baffin quem concluiu.

no Reino de Fez (atual Marrocos). Por esse motivo é que Colombo. Cristóvão Colombo e seu projeto polêmico Em meados do século 15. numa luta que se prolongou por 781 anos. sem os conhecimentos náuticos do Oceano Atlântico que os Pinzón tinham. Finalmente. Castela. Depois. último reduto muçulmano na península. a ideia de atingir o Oriente pelo Ocidente foi arduamente defendida por Colombo. acreditam que. a se unir a Colombo. defendia a ideia de chegar às Índias perseguindo o pôr do sol. em 1486. Vários motivos levaram a Espanha a esse "atraso" na busca de uma rota para o comércio de especiarias que não passasse pelo Mediterrâneo (controlado pelas cidades-estado de Gênova e Veneza). redondo e plano. a pecha de louco e quase uma condenação à fogueira da Inquisição. em 1415. Aragão e Navarra. custou-lhe a exposição ao ridículo. A vitória castelhana sobre o Califado de Granada. Um debate travado entre ele e os padres da Universidade de Salamanca. Outro motivo foi a unificação tardia dos reinos cristãos de Leão. a guerra mais longa de que se tem notícia. mas os estudiosos já sabiam que nosso planeta era um globo. Alguns historiadores. 77 anos depois de os portugueses invadirem Ceuta. que mantinha contatos com alguns dos sábios da época. mas em um período histórico no qual predominavam a luta contra os árabes e a perseguição da Inquisição inclusive contra os judeus. Um desses motivos foi a prioridade dada à reconquista da Península Ibérica. com Cristóvão Colombo. A primeira viagem marítima financiada pelo país ocorreu em 1492. Colombo não teria ido muito longe. depois que a coroa espanhola obrigou a família Pinzón. foi graças à influência do banqueiro judeu Santagel que Colombo ganhou a confiança da própria rainha Isabel de Castela. as teorias que serviam de base para os argumentos de Colombo eram de origem árabe e judaica (esse povos eram os herdeiros diretos da cultura da Antiguidade greco-macedônica). data exatamente de 1492. Na verdade. nem pela costa africana. era quase impossível aos cientistas o reconhecimento público de que a Terra era um globo.A expansão marítima espanhola Newton Nazaro* Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação Reprodução Os reis católicos: Isabel e Fernando A Espanha foi o segundo país a se lançar na aventura das grandes navegações. Mesmos assim. núcleo inicial do que viria a ser a Espanha. As caravelas Santa Maria. quando o casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela deu origem ao Reino Católico de Fernando e Isabel. aliás. O passo mais importante nessa direção foi dado somente em 1469. ainda que tivesse conseguido a adesão de algumas pessoas influentes ao seu projeto de circunavegação. a viagem foi aprovada. no extremo sul do continente. o senso comum ainda afirmava que a Terra era um disco. braço jurídico da Igreja Católica desde o Concílio de Trento. Pinta e Nina . conhecida pelos portugueses até o Cabo da Boa Esperança. de grandes navegadores.

a quem coube a glória de ver seu nome dado. a esquadra chegou à ilha de Guanahani. às terras recém-descobertas. Mas esse posto foi ameaçado e tomado por duas potências ascendentes. Morreu em 1504. Na terceira viagem (1498 a 1500). e com o declínio da produção das minas americanas. Cristóvão Colombo partiu do porto de Palos rumo ao oeste.pelo governo das novas terras. Inglaterra e Holanda. Borinquén (Porto Rico). Ao redor dessas regiões. criado pelos espanhóis nas regiões em que não existisse um Estado indígena que já explorasse a mão de obra local ou dos povos dominados. grandes contingentes de nativos a jornadas desumanas nas minas. seguido pela Pinta e pela Nina. as terras descobertas eram um novo continente. Havia também o chamado sistema de encomiendas (ou repartimiento). mais três viagens à América. nas Antilhas. acreditando ter atingido um braço da Ásia e contrapondo-se à teoria de que. A organização da mão de obra indígena . Em toda a Europa. no México e no Peru. enquanto os portugueses Vasco da Gamae Pedro Álvares Cabralchegavam. um aumento generalizado nos preços. antes que a primeira metade do século chegasse ao final. Não raro essas jornadas de trabalho terminavam em morte por exaustão. Dominica e Martinica. Colombo faria. Espanhola (Haiti e República Dominicana). Colombo navegou pela costa da América Central. nos doze anos seguintes. atingiu as ilhas de Cuba. A ganância por cargos e riqueza aumentou a pressão dos nobres sobre o rei. impulsionaram a colonização espanhola desde a primeira metade do século 16. Ouro e prata. a agricultura e o pastoreio destinavam-se exclusivamente ao abastecimento dos polos de mineração. Praticamente sem manufaturas.Finalmente. O impacto do derrame de metais preciosos na Europa deu capacidade de importação de manufaturados à Espanha. Na quarta e última viagem (1502 a 1504). Tal ideia foi defendida por Américo Vespúcio. pelo rei Fernando.chamada de mita no Peru e de quatequil no México . Setenta dias depois. o descobridor da América levou a pior. em detrimento de seu próprio setor manufatureiro. Colombo desembarcava na ilha de Trinidad e na costa norte da América do Sul. e Colombo caiu no ostracismo.aliada do rei da Espanha . Guadalupe. na verdade. em 3 de agosto de 1492. consequentemente. Na segunda (1493 a 1496). à Índia e ao que viria a ser a costa brasileira. havia um quase vazio demográfico entre ambos. No mais. a Coroa espanhola viu-se em apuros em meados do século 17. ainda na esperança de encontrar uma passagem para regiões produtoras de especiarias.submeteu. A aventura e os lucros da expansão marítima alçaram o país ibérico à condição de maior potência da Europa e do mundo. sob a influência espanhola. a bordo da caravela Santa Maria. Ouro e prata impulsionaram colonização espanhola Na disputa contra a nobreza . . Jamaica. rebatizada como San Salvador pelo próprio "Almirante das Índias". respectivamente. o significativo aumento da circulação de moedas provocou sua desvalorização e.

Escola de Sagres D. O reinado de dom João inaugurou em Portugal a dinastia de Avis. Interessava a essa burguesia apoiar o poder real no empreendimento da expansão marítima. Essas condições foram fundamentais para colocar em prática a política de expansão marítima destinando recursos para as grandes navegações. João 1o . ávida na busca de lucros por meio do comércio marítimo com outras regiões. data da subida ao trono de dom João 1º. Coube ao infante D. desse modo.Expansão marítima portuguesa O pioneirismo português no século 15 Renato Cancian* Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação Reprodução Desembarque dos portugueses no litoral brasileiro A descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral. Ele obteve o apoio da nobreza e dos comerciantes do reino. as quais somente o tesouro de um Estado organizado e forte poderia suportar. que estava em crise pela carência de mão-de-obra.que culminaram nas descobertas de novas terras. por meio das navegações oceânicas e dela extrair seus benefícios.se iniciou em 1385. fatores que propiciaram o florescimento e crescimento do comércio estimulando. que reuniu diversos especialistas como cartógrafos. a expansão marítima portuguesa esteve associada aos interesses mercantis da burguesia do reino. na expansão do comércio e na propagação da fé cristã . pela falta de produtos agrícolas e a escassez de metais preciosos para cunhagem de moeda. astrônomos e marinheiros que possuíam conhecimento do que de mais avançado se sabia na época sobre a arte de navegar. permitiram ao país se projetar como potência marítima. Portugal também gozava de uma localização geográfica privilegiada na península ibérica. Dinastia de Avis O pioneirismo português nas grandes navegações marítimas . A construção das grandes embarcações e a organização de expedições marítimas que passaram a explorar os oceanos nos séculos 14 e 15 dependeram do progresso da náutica. juntamente com as condições sociais e políticas favoráveis. O país alcançou a estabilidade política e a paz interna.as iniciativas para fazer Portugal inaugurar as grandes navegações oceânicas.filho de D. Essa era uma forma de superar as limitações do mercado europeu. Henrique . Grande parte do seu território está voltada para o oceano Atlântico. foi fundada a Escola de Sagres. Henrique era um amante das ciências e. dom João 1º pôde promover uma acentuada e progressiva centralização do poder monárquico. o que fez Portugal surgir como um Estado independente e bem armado militarmente. setores sociais que naquele período eram mais influentes política e economicamente. sobretudo com o Oriente. Isso tudo só pôde se concretizar à medida que eram destinados expressivas somas de riquezas. foi o resultado de uma persistente e bem sucedida política de expansão marítima colocada em prática ao longo de muitos anos pela monarquia portuguesa. . Posição geográfica de Portugal: de cara para o Atlântico Em sua origem. em 22 de abril de 1500. Essa posição geográfica. conhecido como Mestre de Avis. sob sua iniciativa. as riquezas do reino. com o desenvolvimento de instrumentos e de técnicas de navegação. Com isso.

predominou na Europa entre os séculos 16 e 18. Em 1488. Boa parte das nações acabou passando por revoluções burguesas que puseram fim ao Antigo Regime. com sua revolução de 1789. o regime escolhido para substituir o Antigo regime foi a República. A esse novo tipo de estado correspondeu também uma forma inovadora de monarquia: a Monarquia Absolutista. concepção inovadora de poder político. como na França. localizada na costa do Marrocos. absolutos. os primeiros estudos e projetos de viagens oceânicas. no que concerne ao absolutismo. como na Inglaterra. emergência de uma nova classe social (a burguesia). com sua Revolução Gloriosa. Foi nela que foram aprimoradas embarcações como a caravela e aperfeiçoados os instrumentos náuticos necessários a longas viagens. Portugal passou a obter sucessivos êxitos no empreendimento ultramarino.Foi na Escola de Sagres que foram realizados. Absolutismo Características e principais teóricos Vitor Amorim de Angelo* Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação Historicamente. não se deve confundir absolutismo com despotismo. apenas o absolutismo possui justificativas teóricas. Foi o chamado despotismo esclarecido. em geral. o governante tem poderes ilimitados). em 20 de maio. formação do EstadoNação moderno. quais foram suas principais características? O que permitiu sua emergência a partir do século 16? Poder absoluto do rei Afirmar que um dado regime era absolutista é o mesmo que dizer que se tratava de uma monarquia em que o rei detinha poderes ilimitados. então. em 1415. que vários processos concomitantes se cruzaram no tempo: transição do feudalismo para o capitalismo. que o legitimam política e historicamente. extremo sul da Índia. Dez anos depois. Sua consolidação coincidiu com o fim do período medieval e o início da modernidade. empreendeu esforços para chegar às Índias pelo mar. Ambos os navegadores estavam a serviço de Portugal. em 1418. a esquadra comandada por Vasco da Gama conseguiu ir adiante e navegar pelo oceano Índico. Note-se. Em outras. Embora o conteúdo político de ambos seja o mesmo (isso é. uma monarquia constitucional. aportando em Calicute. Mas. como a bússola e o astrolábio. reformar-se. É importante lembrar que antes de serem derrubados pelas revoluções. entre outros. diante das críticas ao poder ilimitado do rei. a esquadra comandada por Bartolomeu Dias conseguiu transpor o Cabo da Boa Esperança. Madeira e Cabo Verde (1425-1427) para em seguida explorar a costa africana. nome pelo qual ficou conhecido esse período. sendo. expressão política de um novo modelo de Estado que surgia naquele momento de transição: o Estado Absolutista. contornando a África. assim. . Primeiro os portugueses conquistaram as ilhas atlânticas dos arquipélagos dos Açores. que haviam sido inventados no Oriente. O marco inicial foi a conquista de Ceuta. Em várias delas. o absolutismo remete a um determinado tipo de regime político que. localizado no extremo sul da África. Em seguida. Contudo. muitos regimes absolutistas ainda tentaram. formuladas à época de sua emergência.

considerado o primeiro teórico do absolutismo. O rei. como as guerras religiosas. Atualmente é pesquisador do Institut d'Études Politiques de Paris. Jean Bodin. Na visão de Hobbes. associando-o ao poder divino e. na qualidade de soberano. onde discutiu a questão da soberania. Em parte. Essa tradição chegou ao período medieval. Eis. numa concepção que misturava religião e política. como a grande presença da religião no debate político. impunha restrições ao exercício absoluto do poder político. mas a res publica estava acima dele. não poderia partilhar seu poder com ninguém. assim como os que criticaram o absolutismo. Nessa obra.deve agir para manter seu reino. foram vários os teóricos que deram sustentação ao poder absoluto dos reis. no caso . Pelo menos em tese. escrito no início do século 16. . São conhecidas as duas assertivas quanto à relação entre a lei e o príncipe: o príncipe está isento da lei e o que apraz ao príncipe vigora como lei. o soberano estava abaixo da lei divina. A esse soberano . o termo absolutismo não era usado naquela época para designar o tipo de regime político em vigor. O Príncipe é um tratado político a respeito das estruturas do estado moderno. assim. Segundo ele. portanto. de Nicolau Maquiavel. alguns fatores novos. o seu Six Livres de la République. em particular. em seu estado de natureza e entregues à propria sorte. publicou.competiria garantir a paz interna e a defesa da nação. de certa forma. Durante os séculos em que vigorou. mestre e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. como Hugo Grócio. os homens devorariam uns aos outros.o rei absolutista. sustentando teoricamente um modelo de regime político que marcou a história européia após o período medieval. Thomas Hobbes também deixou sua contribuição como teórico do absolutismo. sempre abordando a maneira como o soberano chamado de Príncipe . por exemplo. pelas ligações que mantém com um período específico da história ocidental . ainda existia no Império Romano um arcabouço jurídico que. na prática. eliminando quaisquer outros contra-poderes que limitassem seus desejos. Teóricos do absolutismo Curiosamente. quando sofreu uma inflexão que permitiu a emergência do absolutismo. que se difere do simples despotismo pela sua historicidade. tendo se popularizado como expressão com algum sentido histórico apenas no final do século 18. É por isso. também atuaram no mesmo sentido. em meados do século 16. fizeram entre si um contrato social que designou um soberano sobre todos os demais. desempenharam um papel social importante para consolidar o arcabouço teórico sobre o qual se baseou aquele regime. o absolutismo. tidos como súditos. Embora. Jacques Bossuet e Robert Filmer.Desde a Roma Antiga já existiam governantes com poderes absolutos. que. De outro lado. então. a soberania era um poder indivisível. por necessidade. o governante era o primeiro cidadão.e da história européia. embora não se encontrasse submetido nem mesmo às próprias leis que formulava. *Vitor Amorim de Angelo é historiador. elementos herdados ainda do período medieval. Com seu Leviatã. Aos poucos. tivessem poderes realmente ilimitados. Para Bodin. A esses pensadores se somaram outros. Outra obra marcante no pensamento político moderno é O Príncipe. foi se consolidando uma versão que advogava pela superioridade (inclusive temporal) do governante. então. nem tampouco estar submetido a outra autoridade. Maquiavel discorre sobre vários temas. publicado quase um século depois do livro de Bodin.

tido como o primeiro teórico do absolutismo.Absolutismo na França Formação do estado nacional francês Vitor Amorim de Angelo Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação O absolutismo vigorou na França entre os séculos 16 e 18. na medida em que garantiu um dos elementos centrais da formação do Estado-Nação moderno: a constituição de um exército permanente. houve também um processo de justificação teórica da centralização do poder nas mãos do governante.contribuíram para fortalecer ainda mais o poder do monarca. No final do século 14. num primeiro momento. ocorridas ao longo do século 16. Embora. formada. a França já havia se constituído também num amplo território nacional. Na transição do período medieval para o moderno.e em sua constituição como estado nacional. Ao mesmo tempo. entre católicos e protestantes franceses . chamado Six Livres de la République. Trata-se de uma longa fase da história monárquica francesa. o Rei Sol. período conhecido como Antigo Regime . suas contemporâneas. Foi sob o reinado dos Valois que a França viveu um dos momentos mais importantes desse período: as chamadas guerras de religião. paralelamente à formação do próprio estado-nação francês. para os franceses. O ápice do absolutismo francês ocorreu sob o reinado de Luís 14.ou Ancien Regime.dessa vez contra a Espanha e a Áustria . Teóricos do absolutismo francês A Guerra dos Cem Anos e as guerras de religião foram eventos importantes na transição francesa do período medieval para o moderno . paralelamente a isso.estes conhecidos como huguenotes. Seu extenso governo foi o modelo acabado do Antigo Regime francês. Mas. deixando para trás o passado feudal e as divisões que a caracterizaram ao longo do período medieval. novos conflitos militares . tendo influenciado outras monarquias europeias. . Foram dois os principais teóricos do absolutismo na França: Jean Bodin e Jacques Bossuet. em razão das consequências que uma guerra civil poderia ter para a unidade do reino francês. contribuiu para a consolidação do poder do monarca francês. Em meados do século 16. Diante desse cenário. os conflitos religiosos acabaram servindo para fortalecer o poder central. os impostos estendidos à nação e a burocracia estatal. dominada em sua maior parte pela dinastia dos Bourbon. essas guerras tenham enfraquecido o processo de centralização política. Fortalecimento do poder real A Guerra dos Cem Anos. publicou um livro que ficaria famoso pela discussão do tema da soberania. as finanças tinham sido centralizadas. processo visto como necessário para encerrar as divisões religiosas. Bodin. conflito que opôs França e Inglaterra entre 1337 e 1453. a dinastia que reinava na França era a dos Valois.

a rainha Ana de Áustria . houve o desenvolvimento da frota naval inglesa O absolutismo vigorou na Inglaterra entre os séculos 16 e 17. Luís 14 foi um dos maiores exemplos de rei absolutista. publicada postumamente. o reinado de Luís 14 foi seu tipo mais acabado. governou sozinho a França. em 1709. no exército e nos costumes franceses. Luís 14 permaneceu sob a regência de sua mãe.Para Bodin. o regime monárquico era sagrado. Em contraste com o absolutismo francês. como representante de Deus. aos 13 anos. Luís 14. mas por toda a organização político-social que construiu em torno de si mesmo. Talvez por isso se explique a famosa frase atribuída a ele. Na qualidade de soberano. como a do Sol. também como consequência da mistura entre religião e política. Sua obra mais importante a respeito foi A política tirada da Santa Escritura. conforme a teoria de Bossuet. Bossuet conservou a teoria de Bodin acerca da soberania. sendo os reinados de Henrique 8° e Elizabeth 1ª os mais importantes desse período. Note-se que Bodin viveu na mesma época em que ocorriam as guerras de religião na França. Luís 14 governou a França entre 1643 a 1715. Exerceu de maneira centralizada suas prerrogativas reais. o soberano estava abaixo da lei divina. morto em maio de 1643. O rei. filha de Henrique 8º. Trata-se de uma explicação que reforçou o papel do rei na sociedade e a legitimidade do poder de que este dispunha. período em que promoveu mudanças na economia. Segundo Bossuet. acrescentando-lhe elementos novos.o Estado sou eu. Absolutismo na Inglaterra Modelo mesclou centralização política e controle do parlamento Vitor Amorim de Angelo* Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação Reprodução No reinado de Elizabeth 1ª. na política. associando sua figura a imagens míticas. numa concepção que mesclava religião e política. na Inglaterra os conflitos religiosos levaram ao enfraquecimento do monarca. desde o século 13 já existia uma constituição na Inglaterra - .viúva de Luís 13. a soberania era um poder indivisível. não apenas pelo grande poder que exerceu. Mas havia uma ressalva: embora não se encontrasse submetido nem mesmo às próprias leis que formulava. o rei não poderia partilhar seu poder com ninguém nem estar submetido a outra instituição. sem nomear um primeiro-ministro. Além disso. Luís 14 assumiu o trono em 1651. Nos primeiros anos de seu reinado. e que tão bem representa o espírito do absolutismo: L'État c'est moi . Também conhecido como Rei Sol. o Rei Sol Se a França serviu de inspiração a outros regimes absolutistas. justo e paternal. governava com justiça. como era o costume. mantendo uma relação paternal para com os súditos considerados seus filhos. De 1661 até o final de seu reinado.

o modelo que existiu ali mesclou a centralização política na figura do rei com a descentralização do poder. até seu falecimento em 1485. ligadas à negativa do papa em autorizar Henrique 8° a se separar de sua esposa.que deu origem à Igreja Anglicana. de forma muito particular. O fortalecimento da monarquia sob o governo de Henrique 8º é sempre associado à reforma religiosa ocorrida na Inglaterra por volta de 1530 . A constituição inglesa previa quais eram as prerrogativas do rei e qual o papel do parlamento. Foram vários os fatores que levaram à reforma: o rei buscava esvaziar o poder papal na Inglaterra. Mas. sobre questões fiscais e religiosas . com Felipe 2º. de seu exército e uma grave crise econômica. inclusive. país de maioria católica -. da casa de York. . que foi interrompida por Maria 1ª. Henrique 7°. governando até 1483. mais de 500 anos antes de a primeira carta magna francesa ser aprovada.o que não ocorria na França na mesma época -. Henrique 8°. Durante o reinado de Henrique 8° esse cenário modificou-se radicalmente. O rei se tornou o chefe da Igreja na Inglaterra. embora brevemente. Maria 1ª . Até então. que reinou por alguns meses apenas. O herdeiro do trono. filha mais velha de Eduardo 4°. por exemplo. a Inglaterra era governada por Henrique 6°. Eduardo deu continuidade à política religiosa de seu pai. Já em 1471. da casa de Tudor. Nesse intervalo. Com o apoio da dinastia de Lancaster.e casada. filha de Henrique 8° com Catarina de Aragão. da dinastia Lancaster. à época. a Inglaterra teve dois reis coroados: Eduardo 6° e sua irmã paterna. Este se casou com Elizabeth de York. coroado em 1509. como de fato o fez após a reforma. A derrota na Guerra dos Cem Anos A Inglaterra perdeu a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) para a França. Em meados do século 16. sendo. a nobreza tinha interesse nas grandes extensões de terra pertencentes à Igreja. assim. questões pessoais. foram o estopim para a reforma. que havia sido tirada do poder pelos York. o que lhe custou o enfraquecimento da monarquia. como era do interesse do rei. encerrando a Guerra das Duas Rosas. o monarca desejava usar essas propriedades como moeda de troca pelo apoio político da nobreza no parlamento. naquilo que representou um breve revés à reforma anglicana. Em 1461. Filha de espanhola . de quem o rei quis se separar. a rainha perseguiu os protestantes ingleses.esta. foi coroado rei.portanto. Foi substituído por Eduardo 5°. rei da Espanha. o rei foi deposto por Eduardo 4°. À Guerra dos Cem Anos seguiu-se uma disputa em torno do trono inglês. chamada de Guerra das Duas Rosas (1455-1485). esse fato não impediu a emergência do absolutismo na Inglaterra. Pouco mais de uma década separou o governo de Henrique 8° do de Elizabeth 1ª. decorrente dos gastos de um conflito militar tão longo. ao invés do papa. a Igreja Católica sempre teve grande influência política e poder econômico no país. Henrique 8° e Elizabeth 1ª O casamento de Henrique 7° pôs fim a um conflito interno que durou mais de três décadas e enfraqueceu a nobreza da Inglaterra. é considerado o primeiro e um dos mais importantes reis do período absolutista inglês. Por fim. em virtude da existência de um parlamento que legislava. Eduardo 4° voltou ao poder. quando Henrique 6° tornou a assumir o trono inglês. Este governou a Inglaterra por cerca de 9 anos. com sua morte. proprietária de inúmeras porções de terra. e por Ricardo 3°. unificando os grupos rivais e. Embora o soberano tivesse seu poder limitado pela atuação do parlamento.

embora cristãs. a morte da rainha. consequência dos cercamentos. estimulou o desenvolvimento da marinha inglesa (tal como fizera seu pai) e iniciou a colonização da América do Norte. fugiam aos dogmas e ao poder imposto por Roma. Elizabeth 1ª. outro aspecto marcante desse período foi o fortalecimento da burguesia nacional e o aumento das tensões sociais provocadas pelo crescimento das cidades. Mais do que apenas um movimento religioso. as chamadas religiões protestantes. a Inglaterra teve inclusive uma curta experiência republicana. ditadura. Golpes. marcada pelo declínio do mundo feudal. Ao contrário. com a Revolução Gloriosa. Nesse período. abriu uma longa crise política. que se estendeu por mais de oito décadas. foi coroada rainha. Foi no governo de Elizabeth também que ocorreu o chamado "cercamento". Também não se pode deixar de lado a influência do Renascimento Cultural. implementou uma política econômica fundamentada no mercantilismo. pelo crescimento do comércio e da vida urbana. a burguesia. Da mesma forma. de onde se obtinha a lã. filha do segundo casamento de Henrique (o rei teve cinco esposas). fruto da inadequação da Igreja à nova realidade. Os camponeses expulsos das terras migraram para as cidades. as reformas protestantes inseriram-se no contexto mais amplo que marcou a Europa a partir da Baixa Idade Média. restauração política . Além da mudança de dinastia (de Tudor para Stuart). no sentido de . Seu governo representou a consolidação da reforma e o fortalecimento do poder real. em 1603. expressando a superação da estrutura feudal tanto em termos da fé como também em seus aspectos sociais e políticos. elas representaram o transbordamento de uma crise que já vinha se manifestando na Europa desde o início da Baixa Idade Média.tudo isso fez daquele período uma fase extremamente agitada. Era o fim do absolutismo e o começo da monarquia constitucional na Inglaterra. Reformas religiosas (1) Causas e contexto histórico Gilberto Salomão* Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação O século 16 teve como uma de suas manifestações mais profundas o processo de reformas religiosas.Com sua morte. Revolução Gloriosa Sem herdeiros diretos. Ao mesmo tempo. não se pode considerar as reformas religiosas como um processo que se iniciou no século 16. em 1558. As terras passaram a ser utilizadas como pasto para ovelhas. responsável por quebrar o monopólio exercido pela Igreja Católica na Europa e pelo advento de uma série de novas religiões que. num movimento que está na origem da Revolução Industrial. que só foi encerrada no final do século 17. matéria-prima para a manufatura de tecidos. pela centralização do poder político nas mãos dos reis e pelo advento de uma nova camada social.

entretanto. também. O fato de ser ela a principal possuidora de terras na Europa. distorções. com um . a constante busca por um aumento da renda que sustentava o imenso luxo em que vivia o clero. as Reformas Protestantes são filhas do Renascimento. representada pelo tomismo. social e cultural. e uma nova visão teológica. O Renascimento teve o efeito de possibilitar a aceitação de conceitos e de visões de mundo diferentes daqueles impostos pela Igreja Católica. e representaram. O desregramento do clero evidenciava-se numa atitude conhecida usualmente como nicolaísmo. Humanismo e desvirtuamento da Igreja As contestações ao poder e aos dogmas da Igreja não eram um fenômeno desconhecido na Europa do século 16.romper com o monopólio cultural exercido pela Igreja Católica na Idade Média. como este. se comparada ao forte teocentrismo que prevalecera até ali. ao quebrar o quase monopólio intelectual que a Igreja exercia na Idade Média. termo usado para designar o desregramento que passara a marcar o comportamento do clero. responsável por sua manutenção. Nomes como Erasmo de Roterdã ou Thomas Morus propunham uma reforma interna da Igreja. ao mesmo tempo em que o tomismo fundia a fé com elementos do racionalismo greco-romano. decorrentes da constante disputa com os poderes temporais para a ocupação de cargos e terras. Na verdade. incapaz de dar resposta às necessidades espirituais dos fiéis. O próprio crescimento do pensamento humanista. o vínculo orgânico entre a Igreja e a nobreza criava. uma adequação de valores e de concepções espirituais às transformações pelas quais a Europa passava . levou a Igreja a intensificar. cresciam manifestações intelectuais de críticas ao comportamento da Igreja. A tendência é que as nomeações para cargos na alta hierarquia da Igreja (o termo correto para essas nomeações é investidura) obedecessem a critérios que passavam muito longe da vocação ou formação religiosa do postulante. Essa questão tem origem no papel que a Igreja passou a ocupar a partir da Idade Média. Em primeiro lugar. durante a Idade Média. Mais grave que isso. podem ser vistos como uma abertura da Igreja ao racionalismo e a uma visão de mundo mais humanística. absorvido pela Igreja através das universidades. necessariamente.nos campos econômico. práticas como a venda de relíquias sagradas ou de cargos eclesiásticos (práticas conhecidas como simonia) e a venda de indulgências (absolvição dos pecados cometidos). colocava-a ao lado da nobreza como uma instituição beneficiária da estrutura feudal e. foi o fato de gerar um clero inadequado às suas funções religiosas. A prática das chamadas investiduras leigas acabou acarretando graves problemas para a Igreja medieval. As universidades foram canais por onde pôde penetrar a influência do pensamento racional. Mais que isso. Assim. bem como a instituição mais poderosa politicamente. Essas investiduras eram feitas levando-se em consideração o grau de riqueza. há que se levar em conta o desvirtuamento da Igreja e sua incapacidade de dar resposta aos anseios espirituais dos fiéis. Num certo aspecto. os problemas políticos. Ao mesmo tempo. de poder e as benesses que a aliança com esta ou aquela família pudesse trazer para a Igreja.

No reino da Boêmia. o voto de pobreza por parte dos membros do clero e uma retomada das Sagradas Escrituras como única fonte da fé. é apenas o mais evidente). o seu domínio sendo alvo de reações nacionalistas. Evidenciam a existência de uma população imbuída de uma profunda religiosidade não contemplada pelos dogmas e pelo materialismo da Igreja. Na Inglaterra. Assim. Naturalmente. qual seja. uma crítica ao excessivo apego da Igreja aos bens materiais e ao poder. Esta. Assim. heresias e política Tais críticas já haviam atingido níveis mais preocupantes para Roma desde o final do século 14. então pertencente ao Sacro Império. Há outra forma de reação a esse desvirtuamento do papel da Igreja e ela fica evidente ao observarmos o crescimento das heresias. os dogmas da Igreja. justamente no século 13. para a qual suas práticas não se constituíssem em pecados e fossem consideradas como dignificantes do homem. e particularmente no século 13 (considerado o grande século das heresias). também essa nova camada ascendente vai ter interesse em romper com os entraves impostos pelo catolicismo e adotar uma nova religião. . viu suas pregações constituírem-se na base do sentimento nacionalista da região contra o domínio do Império e da Igreja de Roma. por certo.retorno à pureza original do cristianismo. John Wycliff pregava o confisco dos bens da Igreja. ao buscarem se fortalecer politicamente. seguida da condenação e execução de Huss. as heresias constituem-se numa prova de fé e não de falta de fé. os reis. Há outros elementos decisivos nesse processo. romper com a Igreja Católica e criar uma nova Igreja sob seu comando foi a forma encontrada pelos reis para se libertar do poder político do papado. A questão política passa a ganhar um peso significativo a partir do início do processo de centralização do poder. não conseguiu apagar a chama nacionalista. num quadro de crescimento do comércio. Durante a Baixa Idade Média. o que mostrava um lado intenso da crise vivida pela Igreja. Por trás dessas propostas havia. a reação da Igreja Católica às heresias concentrou-se na repressão. Ao contrário. tendo por base as idéias de Wycliff. Além disso. Nacionalismo. como veremos a seguir. Ao contrário de uma primeira impressão. por sua vez. de condenação à usura e ao lucro excessivo. cresceram de modo significativo o número de seitas heréticas e o número de adeptos a essas seitas. a Igreja apenas viu nelas o que representavam em termos de ameaça ao seu poder baseado na unidade da fé. vão entrar em choque com o poder da Igreja. John Huss. Não foi outra a função da criação do Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição. jamais foi capaz de compreender o real significado das heresias. Em muitos casos (e o exemplo da Inglaterra. representavam um forte obstáculo para a burguesia. A prisão. O termo era empregado para designar todas as manifestações de pensamento religioso discordante dos dogmas impostos pela Igreja Católica.

que significa falar. o local onde ocorrem conversações. por exemplo. Legislativo e Judiciário A concepção de uma origem parlamentar do poder significa a superação de teorias que remontam à Antigüidade. produziram-se. esse Estado também não deve interferir nas crenças pessoais. Com as revoluções liberais na Inglaterra e na França. o mandato popular.nem o governante . As propostas liberais provocaram .juntamente com as Revoluções políticas que delas se originaram . no século 18. A livre iniciativa e o lucro O Estado não deve interferir na economia ou intervir somente o mínimo inevitável.estão as leis.uma separação entre negócios públicos e privados. nem admite interferência de qualquer Igreja nos assuntos políticos.pode se colocar acima da lei. marcada pela valorização do princípio da legalidade: ninguém . o que desenvolveria o espírito empreendedor e competitivo. portanto. discussões e deliberações. isto é. A expressão "parlamento" se origina do francês "parler". principalmente as econômicas). Em contrapartida. Cada uma delas tem suas atribuições específicas e . o liberalismo advoga a criação de instituições para dar voz ativa aos cidadãos nas decisões políticas. portanto. Designa. Completa o quadro de princípios básicos do liberalismo. pois o liberalismo defende a propriedade privada e constata que o funcionamento da economia se dá a partir do princípio do lucro e da livre iniciativa. entre os assuntos do Estado (que deve se ocupar com a política. como a brasileira. 1689) e a Declaração do .Liberalismo e democracia As bases filosóficas da democracia Antonio Carlos Olivieri Da Página 3 Pedagogia & Comunicação Reprodução O barão de Montesquieu Desde suas primeiras formulações. Simultaneamente. Ao contrário. Executivo. o Legislativo e o Judiciário. A consciência liberal é. porque não está vinculado a nenhuma crença religiosa. Já a concepção de um Estado não-intervencionista refere-se à economia e surgiu por oposição ao controle que as monarquias absolutistas exerciam sobre o comércio durante os séculos 16 e 17. É o que ocorre hoje nas democracias representativas. É a partir disso que ocorre o fortalecimento do Parlamento. cuja expressão era o monopólio estatal típico do mercantilismo ou capitalismo comercial. respectivamente. conforme postulado pela primeira vez pelo escritor e filósofo francês Montesquieu. no âmbito político. das quais a maior é a Constituição de um país. enquanto o Brasil era colônia de Portugal. a Declaração de Direitos ("Bill of Rights". segundo as quais o poder vem de Deus ou da tradição familiar (nobreza). com as questões da esfera pública) e os da sociedade civil (que deve se ocupar das atividades particulares. isto é. ou seja. Laico. o liberalismo é uma filosofia ou um conjunto de filosofias que defendeu a existência de um Estado laico e não-intervencionista.acima delas . a tripartição do poder em três instâncias autônomas e equilibradas: o Executivo. Era o que acontecia com o açúcar e o ouro. órgão de representação por excelência das forças atuantes da sociedade e capaz de coibir os excessos do poder central. fazendo prevalecer o ideal de tolerância religiosa. o voto dado a um parlamentar representa o livre consentimento do cidadão à sua atuação política. em que deputados e senadores são (ou ao menos deveriam ser) representantes do povo.

Com a implantação do sistema fabril e o aumento da produção. Durante o século 19. adaptando-se às novas realidades sociais. assistência médica. no mundo contemporâneo. em seus primórdios. Além disso. previdência. torna necessário que as idéias sejam permanentemente reelaboradas. reprodução Adam Smith Vale lembrar que dos ideais do liberalismo também se originou o conceito de cidadania que. tal qual é praticada. Além disso. referia-se apenas a direitos civis: à liberdade e à segurança individual. Adam Smith Trata-se de um fundamento de cunho individualista. o que é típico do pensamento liberal. haverá natural seleção dos melhores. isso significa que a lógica do mercado é a seguinte: se cada um desenvolver bem o seu trabalho. No plano econômico. Nesse sentido. passam a integrar a cidadania também uma extensa variedade de direitos sociais. Do iluminismo ao socialismo Há uma via de mão dupla entre as idéias políticas e a realidade prática. Já no século 20. filiar-se a partidos políticos. não corresponderam a uma evolução nas relações sociais. etc. desenvolveram-se as ferrovias e o navio a vapor. no século 18. à medida que esses conceitos liberais foram sendo absorvidos pelas instituições dos diversos países. Pode-se questionar ou criticar esse fundamento. que formarão as elites de cuja capacidade empreendedora resultarão benefícios para o todo social. as idéias liberais sofreram transformações com o passar do tempo. o conjunto se avoluma com a inclusão dos direitos políticos: votar e ser votado. em sua obra principal.direitos do homem e dos cidadãos (1793). "Uma Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações". Deriva daí a concepção tradicional de liberdade. que consignavam as conquistas dessas mesmas revoluções e proclamaram a igualdade de todos os homens perante a lei. seguro. crença. as relações humanas se tornaram cada vez mais complexas. tornando-as mais justas. Os avanços tecnológicos. liberdade de crença e opinião. Era o que apregoava o economista escocês Adam Smith. essas declarações estabelecem a garantia das liberdades individuais de pensamento. em maior ou menor grau. reunião e ação. expressão. ou diminuindo a distância entre o topo da pirâmide social e sua base. condições de trabalho. transformando-o. mas. As máquinas intensificaram o otimismo baseado na crença do progresso e na onipotência da tecnologia. no século 18. O liberalismo surgiu com o desenvolvimento do mercantilismo e se aprofundou após o advento da Revolução Industrial. desde que não sejam prejudicados os direitos de outros cidadãos. assim como o mundo real. na prática. porém. deu-se um passo significativo em direção à democracia. segundo a qual "a liberdade de cada um vai até onde o permite a liberdade do outro". sua capacidade de produzir riqueza tem sido patente. transformado. organizar-se em sindicatos. de tal maneira que as idéias interferem no mundo real. na Europa e nos Estados Unidos. direito de ir e vir. As cidades cresceram. O problema reside mais na questão da distribuição dessa riqueza. Na Europa . seu lugar institucional eram os tribunais e sua vigência dependia da aplicação progressivamente imparcial da lei. como a garantia de um piso salarial.

Um dos representantes dessa tendência. . para solucionar os problemas sociais do trabalhador. nem à economia . desenvolvendo o que se chamou de wellfare state ou estado do bem-estar social. a classe operária começou a se unir para reivindicar os seus direitos num processo que culminará com o desenvolvimento do socialismo O socialismo considera que o individualismo liberal resulta na defesa de uma classe social em particular: a burguesia. De qualquer modo. como ocorre hoje em dia nos países em desenvolvimento. aposentadoria. apesar do governo de Luís Inácio Lula da . Não vem ao caso avaliar aqui os resultados dessa orientação "neoliberal" à política brasileira contemporânea. desemprego.que se mantém fiel a ela. numa época como a nossa.cujo sistema político-econômico se insere no modelo mais característico do liberalismo . em que a economia é cada vez mais global. A essa retomada das idéias liberais clássicas. Roosevelt implantou um programa conhecido como New Deal. além de serem adotadas inúmeras medidas assistenciais de atendimento aos trabalhadores. o inglês John Stuart Mill. tornando-se o único agente econômico. A construção de grandes obras públicas ajudou a aumentar a taxa de emprego e foram concedidos créditos para as empresas. a intervenção estatal não se perpetuou. De qualquer modo. saúde. provocando um aumento insustentável do déficit público. nem o Estado pretendeu se sobrepor às empresas privadas. chamou-se Neoliberalismo.as idéias liberais entraram na ordem do dia dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso. Seu receituário não se restringiu aos países do hemisfério norte. o liberalismo começou a admitir a tendência intervencionista do Estado. na Inglaterra. social . Diante das crises . que fez o Estado se tomar o principal agente do reativamento econômico do país. de um estado mínimo e não intervencionista. No Brasil . o estado do bem-estar social começou a dar sinais de desgaste. se caracterizaram por diminuir a intervenção do Estado na área social. por exemplo. nos EUA. a teoria liberal se adaptou às novas exigências da realidade. os governos de Ronald Reagan. sugere co-participação dos trabalhadores na gestão e nos resultados da indústria. Em contrapartida. da venda das empresas públicas que. e de Margareth Thatcher. para enfrentar a depressão econômica subseqüente à quebra da bolsa de valores de Nova York (1929).econômica. os Estados Unidos e a Inglaterra. para enfrentar os problemas trazidos pelos novos tempos. o presidente Franklin D. como bancos e companhias telefônicas. nada têm a ver com as funções do governo.onde o Estado se tornara um poderoso agente econômico entre a Era Vargas e a ditadura militar .que atingiram o mundo da primeira metade do século 20. Na década de 1980. etc. em 1945. O liberalismo tornava-se cada vez mais democrático. a partir da privatização das estatais. bem como uma solução para as precárias condições de vida das massas oprimidas. como férias. em especial porque as despesas governamentais acabaram por superar a arrecadação ou receita. da inflação e da instabilidade social. apesar de pertencerem ao governo. Nos Estados Unidos. os Estados Unidos tinham se tornado a nação mais rica do mundo. o contraste entre riqueza e pobreza era cruel. no fim da Segunda Guerra Mundial. com a diminuição do Estado. Entretanto.promoveram ajustes rigorosos na economia. bem como a mais avançada em termos tecnológicos. acentuando a necessidade de igualdade jurídica e política. Globalização e neoliberalismo A partir da década de 1960. política.do século 19. O Estado do bem-estar social Gradualmente.

desde o século 18 até os dias de hoje. . A história da humanidade é ao mesmo tempo feita de transformações e permanências.Silva. cujo partido sempre se proclamou simpático ao socialismo. historicamente. O importante é ressaltar como a influência das idéias liberais se estendem.

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