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O Renascimento

Engels, em sua vasta obra, informa que em momentos de grave crise histórica a humanidade
produz gênios. O Renascimento pode ser compreendido a partir deste principio, uma vez tratar-se de
momento gravíssimo de crise terminal do Modo de Produção Feudal.

A nova ética, a nova moral da burguesia, enfim, exigia o fim do cavalheirismo medieval.
Exigia personagens capazes de simular serem o que não são, de dissimular serem o que são, capazes,
enfim, de erigir o blefe, a fraude e a pecúnia como seus tópicos principais de comportamento e adoração.

O Homem do Renascimento, segundo Agnes Heller, era aquele que se comportava de


acordo com as frases de Shakespeare ou Leonardo da Vinci, como:

“Posso sorrir, e matar enquanto sorrio,


E proclamar-me feliz com o que me aflige o coração,
Molhar as minhas faces com lágrimas fingidas
E acomodar a minha cara a todas as ocasiões...
Posso acrescentar cores ao camaleão,
Mudar de forma mais depressa que Proteu
E mandar para a escola o sanguinário Maquiavel!”

Ricardo II, Ato 3, Cena 5

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“Vede aqueles que podem ser chamados


Simples condutores de comida,
Produtores de estrume, enchedores de latrinas,
Pois deles nada mais se vê no mundo
Nem qualquer virtude se observa no seu trabalho,
Nada deles restando além de latrinas cheias”

Anotações, Leonardo da Vinci

Percebe-se que, além de ser capaz de simular, dissimular, mentir e atraiçoar o homem dos
novos tempos burgueses – que seguem até nossos dias de profunda decadência da própria burguesia até por
esgotamento – deveria ser capaz de obter fama e fortuna em vida, o que seria impensável durante o
feudalismo. A seguir o pensamento do genial Leonardo da Vinci, era preciso deixar a sua marca na história,
fosse em que campo da existência fosse. Somente era criticado aquele que nada mais fazia do que trabalhar,
comer, dormir e, no máximo, reproduzir-se, coisa que outros animais são capazes de fazer – o que enfatiza
o humanismo renascentista.

Origens
Giorgio Vasari (1511 – 1574), italiano nascido na cidade de Arezzo, publicou em 1550 um
importante livro sobre os artistas plásticos de sua época, com o longo título Vida dos mais excelentes
pintores, escultores e arquitetos italianos, desde Cimabue até a nossa época. Em sua opinião, a partir da
queda de Roma (476), a cultura e a arte entraram em decadência, “renascendo” somente por volta de 1250.
Vasari identificou três fases no que concebia como Renascimento artístico. Na primeira fase situava Giotto,
pintor nascido em 1267 e morto em 1337. Na segunda fase, considerou como figura mais emblemática o
pintor Masaccio (1401 – 1428) e na terceira fase, a mais importante das três, deu merecido destaque a
Leonardo da Vinci (1452 – 1519), Rafael d’Anunzio (1483 – 1520) e Michelangelo Buonarotti ( 1475 –
1564). Essas três fases são denominadas pelos italianos Trecento, Quatrocento e Cinquecento,
respectivamente.

Vasari foi talvez o primeiro estudioso a empregar o termo Renascimento para descrever o
florescimento artístico-cultural da Itália dos séculos XV e XVI. Usado para identificar não apenas as
criações artísticas na pintura, como todo o movimento então ocorrido, como a literatura e a ciência, que
tomava como modelo e inspiração a cultura da Antiguidade Clássica.

Enquanto o pintor italiano Giotto renovava as artes plásticas com suas obras, o poeta e
escritor italiano Francisco Petrarca (1303 – 1374) destacava-se como iniciador do humanismo. Não por
coincidência, ambos anunciavam uma importante mudança no campo da cultura, denominada pelos
historiadores, seguindo a tradição iniciada por Vasari, Renascimento Cultural.

O Humanismo

“Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma
e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a
beleza do mundo, o exemplo dos animais.”

Hamlet, William Shakespeare

Revolucionária observação, que conclama a um antropocentrismo em contrapartida ao


teocentrismo que grassou por cerca de um milênio na Europa Ocidental. O Homem é a peça-chave, o
Homem é inclusive comparado ao Todo-Poderoso já no sentido de colocar a nova mundividência em vigor.

Quando propôs uma nova periodização da História européia, Petrarca também tinha em
mente a idéia de renascimento. Ele chamava de Antiguidade ao período que termina com a conversão do
imperador Constantino ao Cristianismo (337). O período seguinte constituía uma nova era, que Petrarca
chamou de Moderna, e estendia-se até a época em que ele vivia (século XIV). O termo Moderno,
contraposto a Antiguidade, tinha então uma conotação negativa... Com o tempo, contudo, Moderno foi se
associando ao renascimento da cultura antiga e acabou ganhando um significado “positivo”. Sendo a época
Moderna aquela em que os valores antigos estavam renascendo, firmou-se a idéia de que o período
compreendido entre aqueles dois extremos constituía a época Média, a que estava no meio de duas épocas
brilhantes: a Antiga e a Moderna. Idade Moderna, assim, veio a transformar-se praticamente em sinônimo
de Renascença.

Petrarca considerava sua época como o final de um “tempo obscuro”, de uma “Idade das
Trevas”, iniciado com a decadência do Império Romano. Em comparação com a época dos antigos gregos e
romanos, plena de realizações culturais, a Idade Média lhe parecia bastante pobre... Tal preconceito,
contudo, tem sido revisto por autores contemporâneos uma vez ser inegável a enorme produção cultural
patrocinada e orientada pela Igreja Católica Romana; havia tabus e heresias, mas o pensamento cristão
progrediu bastante no período considerado “Mil Anos de Trevas”...

De todo o modo o Humanismo Renascentista deve ser considerado um movimento


intelectual de valorização da Antiguidade Clássica. Não se tratava, contudo, de meramente copiar as
realizações do Classicismo greco-romano; tal aspecto retiraria ao movimento sua maior amplitude. O
Humanismo, embora não sendo a rigor uma filosofia, representou um movimento de glorificação do
Homem, tornado centro de todas as indagações e preocupações. Constituía, em sentido amplo, uma tomada
de posição antropocêntrica em reação ao teocentrismo medieval, vale enfatizar.

Os Humanistas não mais aceitavam os valores e maneiras de ser e viver da Idade Média.
Por conseguinte, o interesse pela Antiguidade era um meio para atingir um fim: os humanistas viam na
Antiguidade aquilo que correspondia aos desejos que sentiam. Pretendiam encontrar nos antigos Homens,
considerado como um ser geral, impessoal, universal, que existe equalitariamente por toda a parte.

Em função disso, os humanistas tenderam a valorizar a produção cultural da Antiguidade


Greco-Romana, sem que com isso queiramos dizer que pregavam um retorno ao passado, tomado apenas
como fonte de inspiração.

Para a eclosão e ampla difusão do Renascimento como um todo há que se considerar


ainda:

1) O aperfeiçoamento da imprensa, que possibilitou a difusão dos clássicos greco-romanos, da


Bíblia e de outras obras, até então manuseadas apenas pelos “monges copistas” dentro de Mosteiros e
Abadias;

2) A decadência e derrocada de Constantinopla, que provocou um verdadeiro êxodo de


intelectuais bizantinos para a Europa Ocidental;

3) As Grandes Navegações ou Mecanismos de Conquista Colonial, que alargou os horizontes


geográficos e culturais e propiciaram o contato europeu com culturas completamente distintas,
contribuindo para derrubar muitas idéias até então tidas como verdades absolutas;

4) O Mecenato praticado por burgueses ricos, Príncipes e até Papas, interessados em projetar
suas cortes, daí financiarem as atividades do Renascimento Cultural.
O Humanismo teve suma importância, pois conduziu a modificações inclusive nos
métodos de ensino, uma vez que começaram a surgir Academias e Liceus laicos, onde se estudava as
línguas clássicas (o latim e o grego) e com a maior preocupação em analisar acurada e cientificamente os
fenômenos da natureza. Deixa de valer o magister dixit aristotélico medieval e passa a valer a busca
empírica da Verdade.

Aspectos ou características

O Renascimento foi, de certa forma, a expressão de um movimento humanista nas Artes,


Letras, Filosofia e Ciência, constituindo-se, segundo R. Mousnier, em um “prodigioso desabrochar da vida
sob todas as suas formas, que teve de um modo geral suas maiores manifestações de 1490 a 1560, mas que
não está preso dentro destes limites. Então, um afluxo de vitalidade fez vibrar toda a humanidade européia.
Toda a civilização da Europa transformou-se em conseqüência. Em sentido estreito, o Renascimento é esse
elã vital nos trabalhos do espírito. É menos uma doutrina, um sistema, que um conjunto de aspirações, uma
impulsão interior que transformou a vida da inteligência e a dos sentidos, o saber e a arte”.

Vejamos agora as condições vigentes na Europa que facilitaram ou fomentaram o


surgimento do Humanismo e do Renascimento.

A burguesia, enriquecida com o comércio, estava ainda presa a um Modo de Produção


contraditório em tudo e por tudo a seus interesses. Estava presa a valores da Igreja e da Nobreza medievais;
para contestá-los e difundir seus valores, mercadores e banqueiros, burgueses em geral, promoveram um
estilo de Artes, Letras, Religião e Ciências mais de acordo com suas concepções racionalistas,
antropocêntricas e valorizadoras do acúmulo de riquezas a qualquer custo.

Como contraponto, a nobreza decadente – tal como o faz hoje a burguesia decadente –
buscava cooptar os intelectuais e artistas do renascimento patrocinando suas pesquisas e seus trabalhos com
vistas a manter o statu quo ante, ou seja, o Absolutismo Monárquico. Esta tensão durará até o período do
Iluminismo que finalmente depõe a Nobreza e o Clero, entronizando a burguesia endinheirada – se já
detinham o poder econômico e contestavam os dogmas religiosos, o que lhes podia impedir de deter o
poder político?

O foco inicial do Renascimento foi a Itália, que já dispunha de prósperas cidades


mercantis e para onde chegou a principal leva de intelectuais bizantinos, entre outros fatores – maior
contato com outras culturas e civilizações por “projetar-se” no Mar Mediterrâneo e ser na prática o berço
da civilização greco-romana.

Não se deve, contudo, separar ou valorizar apenas alguns destes fatores. Devem ser
considerados como um todo! O aspecto econômico, em última instância, é fator determinante – aqui se
enfatizam os interesses mercantis da burguesia em ascenção.

Os novos valores e os gênios produzidos por aquele período de crise


O Renascimento, com acentuado espírito crítico em todas as suas manifestações (artística,
religiosa, literária, política, etc.) teve como principais representantes, no aspecto eminentemente literário:
Dante Alighieri – “A Divina Comedia” – Nicolau Maquiavel – “O Príncipe”, “A Mandrágora” – Giovanni
Boccacio – “O Decameron” – Ariosto – “Orlando Furioso” – Miguel de Cervantes – “D. Quixote de La
Mancha” – Luís de Camões – “Os Lusíadas – William Shakespeare – “Romeu e Julieta”, “Júlio César”,
“Hamlet”, “Otelo” e milhares de outras obras poéticas e peças teatrais; tantas que há até hoje uma polêmica
se foi um único ser humano a escrever obra tão vasta e de tão grande valor! O Renascimento, sem dúvida
precisava de gênios. E os produziu! – Erasmo de Roterdã – “O Elogio da Loucura” – Etienne de La Boetie
– “Discurso da Servidão Voluntária” – Thomas Morus – “Utopia”, entre várias outras obras e Autores...

Em sua vertente principalmente Artística, o gênio universal de Leonardo da Vinci é, sem


sombra de dúvida a maior estrela desta constelação. Além de pinturas e esculturas de valor inigualável, foi
o precursor da balística e o inventor do submarino e até do helicóptero (que só não se viabilizaram em seu
tempo por motivos banais!). Michelangelo Buonarotti, o escultor que não gostava de pintura, autor da
decoração deslumbrante, sufocante mesmo, da Capela Sixtina, além das esculturas de “Moisés”, “Davi” e
“Pietá” entre centenas de outras! Rafael Sânzio, famoso pelas suas pinturas “magníficas de Madonas”,
Murilo e El Greco, entre outros tantos.

Em sua vertente Científica há que destacar-se principalmente o fato de surgir um poderoso


espírito crítico – comum a todos os renascentistas, sejamos justos! – que rejeitava o “princípio da
autoridade”, o magister dixit aristotélico medieval. Agora buscava-se empiricamente os fatos detalhada e
acuradamente, com comprovações factíveis de reprodução em laboratório. Não bastava mais estar escrito
numa obra genial de Aristóteles para “ser verdade”. Era necessário comprovar essa “verdade”, o que muitas
vezes não ocorria, levando a crises com a Igreja, ainda poderosa, e sua “Santa” Inquisição, que supliciou
muitos dos pioneiros da ciência em nome da defesa da fé... Destacam-se, nesta vertente, o polonês Nicolau
Copérnico, cuja teoria heliocêntrica foi completada no século XVII pelo italiano Galileu Galilei
(perseguido pela Inquisição, teve de retratar-se mas deixou uma obra imorredoura. Só foi perdoado pela
Igreja Católica no “ano do Jubileu”, ou seja, em 2000 d.C. quando, finalmente, a Igreja Católica aceitou o
fato de que a Terra é redonda, gira em torno do seu próprio eixo e em torno do sol... Giordano Bruno, por
sua vez, não se retratou. Sua tese de que “somente um universo infinito seria compatível com a idéia de um
Deus infinito” estava em dessintonia com as teses aristotélicas. Por esta “heresia” ele foi amarrado a uma
estaca em praça pública onde teve a língua perfurada por uma faca e foi enfim queimado vivo. Como
sofriam os cientistas da área das ciências naturais em tempos remotos. Tanto quanto hoje sofrem os
verdadeiros e radicais cientistas da área de humanas... Além destes, Johannes Kepler também na
Astronomia; na Medicina Nostradamus (poderoso vidente e ocultista também!), William Harvey, Miguel
Servet, Ambroise Paré e André Vesálio (considerado o pai da moderna Anatomia). Imagine-se o que
passaram estes desbravadores quando “profanar o corpo de um morto” para fazer dissecção era um crime,
uma heresia!

Na Religião, a Reforma Protestante com sua pregação contrária àquela da Igreja Católica
Romana, muito mais favorável à burguesia, tem em Martinho Lutero e João Calvino seus principais
expoentes.

Inglaterra, França e Holanda contestam Tordesilhas

Quando as Coroas portuguesa e espanhola dividiram o mundo, em junho de 1494, através do


Tratado de Tordesilhas, era de se esperar que os governos da Inglaterra, França e Holanda tivessem se
recusado a reconhecer a partilha.

Mesmo tendo sido referendado pelo papa (espanhol) Alexandre 6º, o tratado não deixava terras para mais
ninguém. A linha divisória do Tratado de Tordesilhas passaria a 370 léguas marítimas (aproximadamente
2.442 quilômetros) a oeste do arquipélago de Cabo Verde, na região mais ocidental da costa africana.

Nos livros, a linha de Tordesilhas geralmente é mostrada cortando apenas o território da América do Sul,
quando, na verdade era um meridiano e circundava o globo terrestre passando pelos dois pólos. A leste,
"todas as terras descobertas, ou por descobrir", pertenceriam a Portugal e, a oeste, o mesmo valia para a
Espanha.
Inglaterra, França e Holanda rejeitam Tratado de Tordesilhas
Até 1456, ingleses e franceses travaram a Guerra dos Cem Anos (iniciada em 1337), que
consumiu uma enorme quantidade de dinheiro e homens por mais de um século.

Ao final do conflito, a França, que suportou praticamente toda a guerra dentro de seu território, teve
urgência na recomposição de sua agricultura e de suas finanças, o que levou algum tempo. Na Inglaterra, a
disputa pelo trono levou à Guerra das Duas Rosas, um conflito interno que envolveu as famílias Lancaster
(rosa vermelha no brasão) e York (rosa branca no brasão).

A paz só foi alcançada em 1485, com a coroação de um membro da família Tudor, Henrique 7º, que tinha
laços de parentesco com as duas casas de nobres que vinham se digladiando até então.

Os Países Baixos também estiveram envolvidos numa série de disputas entre nobres e o rei. A região da
Flandres, desde o século 12, se destacou por seu desenvolvimento manufatureiro e seu próspero comércio,
tendo chegado a ser alvo da disputa entre a França e a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos.

Em 1556, os Países Baixos caíram sob o domínio de Filipe 2º de Habsburgo, rei da Espanha, país cuja
principal fonte de riqueza eram as minas de ouro e prata da América. Desdobramentos da Reforma
Protestante e da Contra-Reforma, no século 16, os conflitos entre católicos e protestantes contribuíram para
a demora na busca da expansão das rotas comerciais flamengas para fora da Europa.
Novas rotas para o Oriente
Sem ter como competir, num primeiro momento, com os países ibéricos nas rotas meridionais
que contornavam a África e a América, os navegadores dos demais países, ao longo do século 16, buscaram
caminhos para o Oriente pelo hemisfério norte.
O francês Cartier (1536), a serviço do rei Francisco 1º, e os ingleses Davis e Hudson (1576/1578) já
haviam tentado encontrar uma ligação entre o Atlântico e o Pacífico através da América do Norte, mas foi
William Baffin quem concluiu, em sua expedição, entre 1615 e 1616 que, por ali, "não havia passagem,
nem esperança de passagem".

Pelo nordeste da Europa, Sir Richard Chancellor chegou a Arcangel, na Rússia, em 1553. Em 1584,
expedições inglesas e holandesas (os dois grandes rivais da Espanha, naquele momento) concluíram ser
impossível transpor a barreira de gelo do arquipélago russo de Nova Zembla em busca de uma passagem
para o sul, que pudesse cortar ou contornar toda a Ásia e levá-los ao Índico e às especiarias de sua costa.
Companhia das Índias
Os holandeses, através de sua Companhia das Índias Orientais, fundada em 1602, resolveram
desafiar o já decadente poderio português e passaram a freqüentar a rota das Índias através do contorno da
África. Em seu rastro, vieram, a partir de 1532, também os franceses e os ingleses.

Daí por diante, a febre das descobertas foi seguida pelo início da colonização de territórios. Os franceses se
estabeleceram ao longo do rio São Lourenço, no Canadá, desde aproximadamente 1608, e expandiram sua
área de atuação comercial, ao longo do rio Mississipi, até o golfo do México, onde fundaram a colônia da
Louisiana, em 1682. A Companhia da Baía de Massachussets foi responsável pelo primeiro foco de
colonização inglesa na América do Norte, em 1629.
Pirataria, corsários e invasões
A grande dificuldade em se encontrar caminhos marítimos distantes dos controlados pelos
portugueses e espanhóis levou os reis da França e da Inglaterra a se associarem a piratas que atacavam
embarcações ibéricas na rota do Atlântico.

Protegidos pelos reis de seus países, esses salteadores dos mares passaram a ser conhecidos por corsários.
Em troca da proteção oficial, parte do que pilhavam era dividida com a própria Coroa. Deve-se à absorção
desses salteadores pela política de Estado a incorporação de ilhas antilhanas à Inglaterra e à França.

Agraciados com patentes militares e títulos de nobreza, ex-corsários foram incumbidos de dar início ao
processo de colonização e plantio de cana, nos séculos 16 e 17, nas ilhas que haviam sido tomadas de
nativos e, até então, foram usadas como refúgios.

Já a presença holandesa na região se deve aos investimentos de duas empresas privadas que funcionavam
como sociedades anônimas, a Companhia das Índias Orientais (VOC) e a Companhia das Índias Ocidentais
(WIC).
Nova York e Recife
Na América do Sul, a Guiana Holandesa (atual Suriname) foi oficializada pelo Tratado de
Breda, de 1667, com a Inglaterra. Na América do Norte, uma fortificação holandesa datada de 1625, passou
para o controle da mesma Companhia das Índias Ocidentais que, cinco anos mais tarde, invadiu
Pernambuco. A fortificação flamenga deu origem à atual cidade de Nova York, batizada originalmente com
o nome de Nova Amsterdã.
A expansão marítima espanhola
Newton Nazaro*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

Os reis católicos: Isabel e Fernando


A Espanha foi o segundo país a se lançar na aventura das grandes navegações. A primeira
viagem marítima financiada pelo país ocorreu em 1492, com Cristóvão Colombo, 77 anos depois de os
portugueses invadirem Ceuta, no Reino de Fez (atual Marrocos), em 1415.

Vários motivos levaram a Espanha a esse "atraso" na busca de uma rota para o comércio de
especiarias que não passasse pelo Mediterrâneo (controlado pelas cidades-estado de Gênova e Veneza),
nem pela costa africana, conhecida pelos portugueses até o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul do
continente.

Um desses motivos foi a prioridade dada à reconquista da Península Ibérica, numa luta que se
prolongou por 781 anos, a guerra mais longa de que se tem notícia. A vitória castelhana sobre o Califado de
Granada, último reduto muçulmano na península, data exatamente de 1492.

Outro motivo foi a unificação tardia dos reinos cristãos de Leão, Castela, Aragão e Navarra. O
passo mais importante nessa direção foi dado somente em 1469, quando o casamento de Fernando de
Aragão e Isabel de Castela deu origem ao Reino Católico de Fernando e Isabel, núcleo inicial do que viria a
ser a Espanha.

Cristóvão Colombo e seu projeto polêmico


Em meados do século 15, o senso comum ainda afirmava que a Terra era um disco, redondo e
plano, mas os estudiosos já sabiam que nosso planeta era um globo. Por esse motivo é que Colombo, que
mantinha contatos com alguns dos sábios da época, defendia a ideia de chegar às Índias perseguindo o pôr
do sol.

Na verdade, as teorias que serviam de base para os argumentos de Colombo eram de origem
árabe e judaica (esse povos eram os herdeiros diretos da cultura da Antiguidade greco-macedônica), mas
em um período histórico no qual predominavam a luta contra os árabes e a perseguição da Inquisição
inclusive contra os judeus, era quase impossível aos cientistas o reconhecimento público de que a Terra era
um globo.

Mesmos assim, a ideia de atingir o Oriente pelo Ocidente foi arduamente defendida por
Colombo. Um debate travado entre ele e os padres da Universidade de Salamanca, em 1486, custou-lhe a
exposição ao ridículo, a pecha de louco e quase uma condenação à fogueira da Inquisição, braço jurídico da
Igreja Católica desde o Concílio de Trento.

Depois, ainda que tivesse conseguido a adesão de algumas pessoas influentes ao seu projeto de
circunavegação, foi graças à influência do banqueiro judeu Santagel que Colombo ganhou a confiança da
própria rainha Isabel de Castela. Finalmente, depois que a coroa espanhola obrigou a família Pinzón, de
grandes navegadores, a se unir a Colombo, a viagem foi aprovada. Alguns historiadores, aliás, acreditam
que, sem os conhecimentos náuticos do Oceano Atlântico que os Pinzón tinham, Colombo não teria ido
muito longe.

As caravelas Santa Maria, Pinta e Nina


Finalmente, em 3 de agosto de 1492, a bordo da caravela Santa Maria, Cristóvão Colombo
partiu do porto de Palos rumo ao oeste, seguido pela Pinta e pela Nina. Setenta dias depois, a esquadra
chegou à ilha de Guanahani, nas Antilhas, rebatizada como San Salvador pelo próprio "Almirante das
Índias".

Colombo faria, nos doze anos seguintes, mais três viagens à América. Na segunda (1493 a
1496), atingiu as ilhas de Cuba, Jamaica, Espanhola (Haiti e República Dominicana), Borinquén (Porto
Rico), Guadalupe, Dominica e Martinica. Na terceira viagem (1498 a 1500), enquanto os portugueses
Vasco da Gamae Pedro Álvares Cabralchegavam, respectivamente, à Índia e ao que viria a ser a costa
brasileira, Colombo desembarcava na ilha de Trinidad e na costa norte da América do Sul.

Na quarta e última viagem (1502 a 1504), Colombo navegou pela costa da América Central,
ainda na esperança de encontrar uma passagem para regiões produtoras de especiarias. Morreu em 1504,
acreditando ter atingido um braço da Ásia e contrapondo-se à teoria de que, na verdade, as terras
descobertas eram um novo continente. Tal ideia foi defendida por Américo Vespúcio, a quem coube a
glória de ver seu nome dado, pelo rei Fernando, às terras recém-descobertas.

Ouro e prata impulsionaram colonização espanhola


Na disputa contra a nobreza - aliada do rei da Espanha - pelo governo das novas terras, o
descobridor da América levou a pior. A ganância por cargos e riqueza aumentou a pressão dos nobres sobre
o rei, e Colombo caiu no ostracismo.

Ouro e prata, no México e no Peru, impulsionaram a colonização espanhola desde a primeira


metade do século 16. A organização da mão de obra indígena - chamada de mita no Peru e de quatequil no
México - submeteu, sob a influência espanhola, grandes contingentes de nativos a jornadas desumanas nas
minas. Havia também o chamado sistema de encomiendas (ou repartimiento), criado pelos espanhóis nas
regiões em que não existisse um Estado indígena que já explorasse a mão de obra local ou dos povos
dominados.

Não raro essas jornadas de trabalho terminavam em morte por exaustão. Ao redor dessas
regiões, a agricultura e o pastoreio destinavam-se exclusivamente ao abastecimento dos polos de
mineração. No mais, havia um quase vazio demográfico entre ambos.

O impacto do derrame de metais preciosos na Europa deu capacidade de importação de


manufaturados à Espanha, em detrimento de seu próprio setor manufatureiro. Em toda a Europa, o
significativo aumento da circulação de moedas provocou sua desvalorização e, consequentemente, um
aumento generalizado nos preços.

Praticamente sem manufaturas, e com o declínio da produção das minas americanas, a Coroa
espanhola viu-se em apuros em meados do século 17. A aventura e os lucros da expansão marítima alçaram
o país ibérico à condição de maior potência da Europa e do mundo. Mas esse posto foi ameaçado e tomado
por duas potências ascendentes, Inglaterra e Holanda, antes que a primeira metade do século chegasse ao
final.
Expansão marítima portuguesa
O pioneirismo português no século 15
Renato Cancian*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

Desembarque dos portugueses no litoral brasileiro


A descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500, foi o resultado de
uma persistente e bem sucedida política de expansão marítima colocada em prática ao longo de muitos anos
pela monarquia portuguesa.

A construção das grandes embarcações e a organização de expedições marítimas que passaram a


explorar os oceanos nos séculos 14 e 15 dependeram do progresso da náutica, com o desenvolvimento de
instrumentos e de técnicas de navegação. Isso tudo só pôde se concretizar à medida que eram destinados
expressivas somas de riquezas, as quais somente o tesouro de um Estado organizado e forte poderia
suportar.

Dinastia de Avis
O pioneirismo português nas grandes navegações marítimas - que culminaram nas descobertas
de novas terras, na expansão do comércio e na propagação da fé cristã - se iniciou em 1385, data da subida
ao trono de dom João 1º, conhecido como Mestre de Avis. O reinado de dom João inaugurou em Portugal a
dinastia de Avis. Ele obteve o apoio da nobreza e dos comerciantes do reino, setores sociais que naquele
período eram mais influentes política e economicamente.

Com isso, dom João 1º pôde promover uma acentuada e progressiva centralização do poder
monárquico, o que fez Portugal surgir como um Estado independente e bem armado militarmente. O país
alcançou a estabilidade política e a paz interna, fatores que propiciaram o florescimento e crescimento do
comércio estimulando, desse modo, as riquezas do reino. Essas condições foram fundamentais para colocar
em prática a política de expansão marítima destinando recursos para as grandes navegações.

Posição geográfica de Portugal: de cara para o Atlântico


Em sua origem, a expansão marítima portuguesa esteve associada aos interesses mercantis da
burguesia do reino, ávida na busca de lucros por meio do comércio marítimo com outras regiões, sobretudo
com o Oriente.

Essa era uma forma de superar as limitações do mercado europeu, que estava em crise pela
carência de mão-de-obra, pela falta de produtos agrícolas e a escassez de metais preciosos para cunhagem
de moeda. Interessava a essa burguesia apoiar o poder real no empreendimento da expansão marítima, por
meio das navegações oceânicas e dela extrair seus benefícios.

Portugal também gozava de uma localização geográfica privilegiada na península ibérica.


Grande parte do seu território está voltada para o oceano Atlântico. Essa posição geográfica, juntamente
com as condições sociais e políticas favoráveis, permitiram ao país se projetar como potência marítima.
Coube ao infante D. Henrique - filho de D. João 1o - as iniciativas para fazer Portugal inaugurar as grandes
navegações oceânicas.

Escola de Sagres
D. Henrique era um amante das ciências e, sob sua iniciativa, foi fundada a Escola de Sagres,
que reuniu diversos especialistas como cartógrafos, astrônomos e marinheiros que possuíam conhecimento
do que de mais avançado se sabia na época sobre a arte de navegar.
Foi na Escola de Sagres que foram realizados, em 1418, os primeiros estudos e projetos de
viagens oceânicas. Foi nela que foram aprimoradas embarcações como a caravela e aperfeiçoados os
instrumentos náuticos necessários a longas viagens, como a bússola e o astrolábio, que haviam sido
inventados no Oriente.

Portugal passou a obter sucessivos êxitos no empreendimento ultramarino. O marco inicial foi a
conquista de Ceuta, em 1415, localizada na costa do Marrocos. Em seguida, empreendeu esforços para
chegar às Índias pelo mar, contornando a África.

Primeiro os portugueses conquistaram as ilhas atlânticas dos arquipélagos dos Açores, Madeira
e Cabo Verde (1425-1427) para em seguida explorar a costa africana.

Em 1488, a esquadra comandada por Bartolomeu Dias conseguiu transpor o Cabo da Boa
Esperança, localizado no extremo sul da África. Dez anos depois, a esquadra comandada por Vasco da
Gama conseguiu ir adiante e navegar pelo oceano Índico, aportando em Calicute, extremo sul da Índia, em
20 de maio. Ambos os navegadores estavam a serviço de Portugal.

Absolutismo
Características e principais teóricos
Vitor Amorim de Angelo*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Historicamente, o absolutismo remete a um determinado tipo de regime político que, em geral,
predominou na Europa entre os séculos 16 e 18. Sua consolidação coincidiu com o fim do período
medieval e o início da modernidade, sendo, assim, expressão política de um novo modelo de Estado que
surgia naquele momento de transição: o Estado Absolutista. A esse novo tipo de estado correspondeu
também uma forma inovadora de monarquia: a Monarquia Absolutista.

Boa parte das nações acabou passando por revoluções burguesas que puseram fim ao Antigo
Regime, nome pelo qual ficou conhecido esse período. Em várias delas, o regime escolhido para substituir
o Antigo regime foi a República, como na França, com sua revolução de 1789. Em outras, uma monarquia
constitucional, como na Inglaterra, com sua Revolução Gloriosa.

É importante lembrar que antes de serem derrubados pelas revoluções, muitos regimes
absolutistas ainda tentaram, diante das críticas ao poder ilimitado do rei, reformar-se. Foi o chamado
despotismo esclarecido.

Note-se, então, que vários processos concomitantes se cruzaram no tempo: transição do


feudalismo para o capitalismo, emergência de uma nova classe social (a burguesia), formação do Estado-
Nação moderno, concepção inovadora de poder político, entre outros. Mas, no que concerne ao
absolutismo, quais foram suas principais características? O que permitiu sua emergência a partir do século
16?

Poder absoluto do rei


Afirmar que um dado regime era absolutista é o mesmo que dizer que se tratava de uma
monarquia em que o rei detinha poderes ilimitados, absolutos. Contudo, não se deve confundir absolutismo
com despotismo. Embora o conteúdo político de ambos seja o mesmo (isso é, o governante tem poderes
ilimitados), apenas o absolutismo possui justificativas teóricas, formuladas à época de sua emergência, que
o legitimam política e historicamente.
Desde a Roma Antiga já existiam governantes com poderes absolutos. São conhecidas as duas
assertivas quanto à relação entre a lei e o príncipe: o príncipe está isento da lei e o que apraz ao príncipe
vigora como lei. Embora, na prática, tivessem poderes realmente ilimitados, ainda existia no Império
Romano um arcabouço jurídico que, de certa forma, impunha restrições ao exercício absoluto do poder
político. Pelo menos em tese, o governante era o primeiro cidadão, mas a res publica estava acima dele.

Essa tradição chegou ao período medieval, quando sofreu uma inflexão que permitiu a
emergência do absolutismo. Aos poucos, foi se consolidando uma versão que advogava pela superioridade
(inclusive temporal) do governante, associando-o ao poder divino e, assim, eliminando quaisquer outros
contra-poderes que limitassem seus desejos. Eis, então, o absolutismo, que se difere do simples despotismo
pela sua historicidade, pelas ligações que mantém com um período específico da história ocidental - e da
história européia, em particular.

Teóricos do absolutismo
Curiosamente, o termo absolutismo não era usado naquela época para designar o tipo de regime
político em vigor, tendo se popularizado como expressão com algum sentido histórico apenas no final do
século 18.

Durante os séculos em que vigorou, foram vários os teóricos que deram sustentação ao poder
absoluto dos reis, assim como os que criticaram o absolutismo. Em parte, alguns fatores novos, como as
guerras religiosas, por exemplo, desempenharam um papel social importante para consolidar o arcabouço
teórico sobre o qual se baseou aquele regime. De outro lado, elementos herdados ainda do período
medieval, como a grande presença da religião no debate político, também atuaram no mesmo sentido.

Jean Bodin, considerado o primeiro teórico do absolutismo, publicou, em meados do século 16,
o seu Six Livres de la République, onde discutiu a questão da soberania. Segundo ele, a soberania era um
poder indivisível. O rei, portanto, na qualidade de soberano, não poderia partilhar seu poder com ninguém,
nem tampouco estar submetido a outra autoridade. Para Bodin, embora não se encontrasse submetido nem
mesmo às próprias leis que formulava, o soberano estava abaixo da lei divina, numa concepção que
misturava religião e política.

Com seu Leviatã, publicado quase um século depois do livro de Bodin, Thomas Hobbes
também deixou sua contribuição como teórico do absolutismo. Na visão de Hobbes, em seu estado de
natureza e entregues à propria sorte, os homens devorariam uns aos outros. É por isso, então, que, por
necessidade, fizeram entre si um contrato social que designou um soberano sobre todos os demais, tidos
como súditos. A esse soberano - o rei absolutista, no caso - competiria garantir a paz interna e a defesa da
nação.

Outra obra marcante no pensamento político moderno é O Príncipe, de Nicolau Maquiavel,


escrito no início do século 16. O Príncipe é um tratado político a respeito das estruturas do estado moderno.
Nessa obra, Maquiavel discorre sobre vários temas, sempre abordando a maneira como o soberano -
chamado de Príncipe - deve agir para manter seu reino.

A esses pensadores se somaram outros, como Hugo Grócio, Jacques Bossuet e Robert Filmer,
sustentando teoricamente um modelo de regime político que marcou a história européia após o período
medieval.
*Vitor Amorim de Angelo é historiador, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela
Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é pesquisador do Institut d'Études Politiques de Paris.
Absolutismo na França
Formação do estado nacional francês
Vitor Amorim de Angelo
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
O absolutismo vigorou na França entre os séculos 16 e 18, período conhecido como Antigo
Regime - ou Ancien Regime, para os franceses. Trata-se de uma longa fase da história
monárquica francesa, dominada em sua maior parte pela dinastia dos Bourbon.

O ápice do absolutismo francês ocorreu sob o reinado de Luís 14, o Rei Sol. Seu extenso
governo foi o modelo acabado do Antigo Regime francês, tendo influenciado outras monarquias
europeias, suas contemporâneas.

Fortalecimento do poder real

A Guerra dos Cem Anos, conflito que opôs França e Inglaterra entre 1337 e 1453, contribuiu
para a consolidação do poder do monarca francês, na medida em que garantiu um dos elementos
centrais da formação do Estado-Nação moderno: a constituição de um exército permanente.

No final do século 14, a França já havia se constituído também num amplo território nacional,
deixando para trás o passado feudal e as divisões que a caracterizaram ao longo do período
medieval. Ao mesmo tempo, as finanças tinham sido centralizadas, os impostos estendidos à
nação e a burocracia estatal, formada. Diante desse cenário, novos conflitos militares - dessa vez
contra a Espanha e a Áustria - contribuíram para fortalecer ainda mais o poder do monarca.

Na transição do período medieval para o moderno, a dinastia que reinava na França era a dos
Valois. Foi sob o reinado dos Valois que a França viveu um dos momentos mais importantes
desse período: as chamadas guerras de religião, ocorridas ao longo do século 16, entre católicos
e protestantes franceses - estes conhecidos como huguenotes.

Embora, num primeiro momento, essas guerras tenham enfraquecido o processo de


centralização política, em razão das consequências que uma guerra civil poderia ter para a
unidade do reino francês, os conflitos religiosos acabaram servindo para fortalecer o poder
central, processo visto como necessário para encerrar as divisões religiosas.

Teóricos do absolutismo francês

A Guerra dos Cem Anos e as guerras de religião foram eventos importantes na transição
francesa do período medieval para o moderno - e em sua constituição como estado nacional.

Mas, paralelamente a isso, houve também um processo de justificação teórica da centralização


do poder nas mãos do governante, paralelamente à formação do próprio estado-nação francês.
Foram dois os principais teóricos do absolutismo na França: Jean Bodin e Jacques Bossuet.

Em meados do século 16, Bodin, tido como o primeiro teórico do absolutismo, publicou um
livro que ficaria famoso pela discussão do tema da soberania, chamado Six Livres de la
République.
Para Bodin, a soberania era um poder indivisível. Na qualidade de soberano, o rei não poderia
partilhar seu poder com ninguém nem estar submetido a outra instituição. Mas havia uma
ressalva: embora não se encontrasse submetido nem mesmo às próprias leis que formulava, o
soberano estava abaixo da lei divina, numa concepção que mesclava religião e política. Note-se
que Bodin viveu na mesma época em que ocorriam as guerras de religião na França.

Bossuet conservou a teoria de Bodin acerca da soberania, acrescentando-lhe elementos novos,


também como consequência da mistura entre religião e política. Sua obra mais importante a
respeito foi A política tirada da Santa Escritura, publicada postumamente, em 1709.

Segundo Bossuet, o regime monárquico era sagrado, justo e paternal. O rei, como representante
de Deus, governava com justiça, mantendo uma relação paternal para com os súditos -
considerados seus filhos, conforme a teoria de Bossuet. Trata-se de uma explicação que
reforçou o papel do rei na sociedade e a legitimidade do poder de que este dispunha.

Luís 14, o Rei Sol

Se a França serviu de inspiração a outros regimes absolutistas, o reinado de Luís 14 foi seu tipo
mais acabado. Também conhecido como Rei Sol, Luís 14 governou a França entre 1643 a 1715,
período em que promoveu mudanças na economia, na política, no exército e nos costumes
franceses.

Nos primeiros anos de seu reinado, Luís 14 permaneceu sob a regência de sua mãe, a rainha
Ana de Áustria - viúva de Luís 13, morto em maio de 1643.

Luís 14 assumiu o trono em 1651, aos 13 anos. De 1661 até o final de seu reinado, governou
sozinho a França, sem nomear um primeiro-ministro, como era o costume. Exerceu de maneira
centralizada suas prerrogativas reais, associando sua figura a imagens míticas, como a do Sol.

Luís 14 foi um dos maiores exemplos de rei absolutista, não apenas pelo grande poder que
exerceu, mas por toda a organização político-social que construiu em torno de si mesmo. Talvez
por isso se explique a famosa frase atribuída a ele, e que tão bem representa o espírito do
absolutismo: L'État c'est moi - o Estado sou eu.

Absolutismo na Inglaterra
Modelo mesclou centralização política e controle do parlamento
Vitor Amorim de Angelo*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

No reinado de Elizabeth 1ª, filha de Henrique 8º, houve o desenvolvimento da frota naval
inglesa
O absolutismo vigorou na Inglaterra entre os séculos 16 e 17, sendo os reinados de Henrique 8°
e Elizabeth 1ª os mais importantes desse período.

Em contraste com o absolutismo francês, na Inglaterra os conflitos religiosos levaram ao


enfraquecimento do monarca. Além disso, desde o século 13 já existia uma constituição na Inglaterra -
portanto, mais de 500 anos antes de a primeira carta magna francesa ser aprovada. A constituição inglesa
previa quais eram as prerrogativas do rei e qual o papel do parlamento.

Embora o soberano tivesse seu poder limitado pela atuação do parlamento, esse fato não
impediu a emergência do absolutismo na Inglaterra. Mas, de forma muito particular, em virtude da
existência de um parlamento que legislava, por exemplo, sobre questões fiscais e religiosas - o que não
ocorria na França na mesma época -, o modelo que existiu ali mesclou a centralização política na figura do
rei com a descentralização do poder.

A derrota na Guerra dos Cem Anos


A Inglaterra perdeu a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) para a França, o que lhe custou o
enfraquecimento da monarquia, de seu exército e uma grave crise econômica, decorrente dos gastos de um
conflito militar tão longo.

À Guerra dos Cem Anos seguiu-se uma disputa em torno do trono inglês, chamada de Guerra
das Duas Rosas (1455-1485). Em meados do século 16, a Inglaterra era governada por Henrique 6°, da
dinastia Lancaster.

Em 1461, o rei foi deposto por Eduardo 4°, da casa de York. Este governou a Inglaterra por
cerca de 9 anos, quando Henrique 6° tornou a assumir o trono inglês, embora brevemente. Já em 1471, com
sua morte, Eduardo 4° voltou ao poder, governando até 1483. Foi substituído por Eduardo 5°, que reinou
por alguns meses apenas, e por Ricardo 3°, até seu falecimento em 1485. Com o apoio da dinastia de
Lancaster, que havia sido tirada do poder pelos York, Henrique 7°, da casa de Tudor, foi coroado rei. Este
se casou com Elizabeth de York, filha mais velha de Eduardo 4°, unificando os grupos rivais e, assim,
encerrando a Guerra das Duas Rosas.

Henrique 8° e Elizabeth 1ª
O casamento de Henrique 7° pôs fim a um conflito interno que durou mais de três décadas e
enfraqueceu a nobreza da Inglaterra. O herdeiro do trono, Henrique 8°, coroado em 1509, é considerado o
primeiro e um dos mais importantes reis do período absolutista inglês.

O fortalecimento da monarquia sob o governo de Henrique 8º é sempre associado à reforma


religiosa ocorrida na Inglaterra por volta de 1530 - que deu origem à Igreja Anglicana. Até então, a Igreja
Católica sempre teve grande influência política e poder econômico no país, sendo, inclusive, proprietária de
inúmeras porções de terra.

Durante o reinado de Henrique 8° esse cenário modificou-se radicalmente. Foram vários os


fatores que levaram à reforma: o rei buscava esvaziar o poder papal na Inglaterra; a nobreza tinha interesse
nas grandes extensões de terra pertencentes à Igreja; o monarca desejava usar essas propriedades como
moeda de troca pelo apoio político da nobreza no parlamento. Por fim, questões pessoais, ligadas à
negativa do papa em autorizar Henrique 8° a se separar de sua esposa, como era do interesse do rei, foram
o estopim para a reforma. O rei se tornou o chefe da Igreja na Inglaterra, ao invés do papa.

Pouco mais de uma década separou o governo de Henrique 8° do de Elizabeth 1ª. Nesse
intervalo, a Inglaterra teve dois reis coroados: Eduardo 6° e sua irmã paterna, Maria 1ª - esta, filha de
Henrique 8° com Catarina de Aragão, de quem o rei quis se separar, como de fato o fez após a reforma.

Eduardo deu continuidade à política religiosa de seu pai, que foi interrompida por Maria 1ª.
Filha de espanhola - e casada, à época, com Felipe 2º, rei da Espanha, país de maioria católica -, a rainha
perseguiu os protestantes ingleses, naquilo que representou um breve revés à reforma anglicana.
Com sua morte, em 1558, Elizabeth 1ª, filha do segundo casamento de Henrique (o rei teve
cinco esposas), foi coroada rainha. Seu governo representou a consolidação da reforma e o fortalecimento
do poder real. Ao mesmo tempo, implementou uma política econômica fundamentada no mercantilismo,
estimulou o desenvolvimento da marinha inglesa (tal como fizera seu pai) e iniciou a colonização da
América do Norte.

Foi no governo de Elizabeth também que ocorreu o chamado "cercamento". As terras passaram
a ser utilizadas como pasto para ovelhas, de onde se obtinha a lã, matéria-prima para a manufatura de
tecidos. Os camponeses expulsos das terras migraram para as cidades, num movimento que está na origem
da Revolução Industrial.

Revolução Gloriosa
Sem herdeiros diretos, a morte da rainha, em 1603, abriu uma longa crise política, que se
estendeu por mais de oito décadas. Nesse período, a Inglaterra teve inclusive uma curta experiência
republicana. Além da mudança de dinastia (de Tudor para Stuart), outro aspecto marcante desse período foi
o fortalecimento da burguesia nacional e o aumento das tensões sociais provocadas pelo crescimento das
cidades, consequência dos cercamentos.

Golpes, ditadura, restauração política - tudo isso fez daquele período uma fase extremamente
agitada, que só foi encerrada no final do século 17, com a Revolução Gloriosa. Era o fim do absolutismo e
o começo da monarquia constitucional na Inglaterra.

Reformas religiosas (1)


Causas e contexto histórico
Gilberto Salomão*
Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação

O século 16 teve como uma de suas manifestações mais profundas o processo de reformas
religiosas, responsável por quebrar o monopólio exercido pela Igreja Católica na Europa e pelo
advento de uma série de novas religiões que, embora cristãs, fugiam aos dogmas e ao poder
imposto por Roma, as chamadas religiões protestantes.

Mais do que apenas um movimento religioso, as reformas protestantes inseriram-se no contexto


mais amplo que marcou a Europa a partir da Baixa Idade Média, expressando a superação da
estrutura feudal tanto em termos da fé como também em seus aspectos sociais e políticos.

Da mesma forma, não se pode considerar as reformas religiosas como um processo que se
iniciou no século 16. Ao contrário, elas representaram o transbordamento de uma crise que já
vinha se manifestando na Europa desde o início da Baixa Idade Média, fruto da inadequação da
Igreja à nova realidade, marcada pelo declínio do mundo feudal, pelo crescimento do comércio
e da vida urbana, pela centralização do poder político nas mãos dos reis e pelo advento de uma
nova camada social, a burguesia.

Também não se pode deixar de lado a influência do Renascimento Cultural, no sentido de


romper com o monopólio cultural exercido pela Igreja Católica na Idade Média. O
Renascimento teve o efeito de possibilitar a aceitação de conceitos e de visões de mundo
diferentes daqueles impostos pela Igreja Católica, ao quebrar o quase monopólio intelectual que
a Igreja exercia na Idade Média.

Num certo aspecto, as Reformas Protestantes são filhas do Renascimento, e representaram,


como este, uma adequação de valores e de concepções espirituais às transformações pelas quais
a Europa passava - nos campos econômico, social e cultural.

Humanismo e desvirtuamento da Igreja

As contestações ao poder e aos dogmas da Igreja não eram um fenômeno desconhecido na


Europa do século 16. O próprio crescimento do pensamento humanista, absorvido pela Igreja
através das universidades, e uma nova visão teológica, representada pelo tomismo, podem ser
vistos como uma abertura da Igreja ao racionalismo e a uma visão de mundo mais humanística,
se comparada ao forte teocentrismo que prevalecera até ali. As universidades foram canais por
onde pôde penetrar a influência do pensamento racional, ao mesmo tempo em que o tomismo
fundia a fé com elementos do racionalismo greco-romano.

Ao mesmo tempo, há que se levar em conta o desvirtuamento da Igreja e sua incapacidade de


dar resposta aos anseios espirituais dos fiéis. Essa questão tem origem no papel que a Igreja
passou a ocupar a partir da Idade Média. O fato de ser ela a principal possuidora de terras na
Europa, bem como a instituição mais poderosa politicamente, colocava-a ao lado da nobreza
como uma instituição beneficiária da estrutura feudal e, também, responsável por sua
manutenção.

Na verdade, o vínculo orgânico entre a Igreja e a nobreza criava, necessariamente, distorções. A


tendência é que as nomeações para cargos na alta hierarquia da Igreja (o termo correto para
essas nomeações é investidura) obedecessem a critérios que passavam muito longe da vocação
ou formação religiosa do postulante. Essas investiduras eram feitas levando-se em consideração
o grau de riqueza, de poder e as benesses que a aliança com esta ou aquela família pudesse
trazer para a Igreja.

A prática das chamadas investiduras leigas acabou acarretando graves problemas para a Igreja
medieval. Em primeiro lugar, os problemas políticos, decorrentes da constante disputa com os
poderes temporais para a ocupação de cargos e terras.

Mais grave que isso, entretanto, foi o fato de gerar um clero inadequado às suas funções
religiosas, incapaz de dar resposta às necessidades espirituais dos fiéis. O desregramento do
clero evidenciava-se numa atitude conhecida usualmente como nicolaísmo, termo usado para
designar o desregramento que passara a marcar o comportamento do clero.

Mais que isso, a constante busca por um aumento da renda que sustentava o imenso luxo em que
vivia o clero, levou a Igreja a intensificar, durante a Idade Média, práticas como a venda de
relíquias sagradas ou de cargos eclesiásticos (práticas conhecidas como simonia) e a venda de
indulgências (absolvição dos pecados cometidos).

Assim, cresciam manifestações intelectuais de críticas ao comportamento da Igreja. Nomes


como Erasmo de Roterdã ou Thomas Morus propunham uma reforma interna da Igreja, com um
retorno à pureza original do cristianismo. Por trás dessas propostas havia, por certo, uma crítica
ao excessivo apego da Igreja aos bens materiais e ao poder.

Nacionalismo, heresias e política

Tais críticas já haviam atingido níveis mais preocupantes para Roma desde o final do século 14.
Na Inglaterra, John Wycliff pregava o confisco dos bens da Igreja, o voto de pobreza por parte
dos membros do clero e uma retomada das Sagradas Escrituras como única fonte da fé.

No reino da Boêmia, então pertencente ao Sacro Império, John Huss, tendo por base as idéias de
Wycliff, viu suas pregações constituírem-se na base do sentimento nacionalista da região contra
o domínio do Império e da Igreja de Roma. A prisão, seguida da condenação e execução de
Huss, não conseguiu apagar a chama nacionalista, o que mostrava um lado intenso da crise
vivida pela Igreja, qual seja, o seu domínio sendo alvo de reações nacionalistas.

Há outra forma de reação a esse desvirtuamento do papel da Igreja e ela fica evidente ao
observarmos o crescimento das heresias. O termo era empregado para designar todas as
manifestações de pensamento religioso discordante dos dogmas impostos pela Igreja Católica.
Durante a Baixa Idade Média, e particularmente no século 13 (considerado o grande século das
heresias), cresceram de modo significativo o número de seitas heréticas e o número de adeptos a
essas seitas.

Ao contrário de uma primeira impressão, as heresias constituem-se numa prova de fé e não de


falta de fé. Evidenciam a existência de uma população imbuída de uma profunda religiosidade
não contemplada pelos dogmas e pelo materialismo da Igreja. Esta, por sua vez, jamais foi
capaz de compreender o real significado das heresias. Ao contrário, a Igreja apenas viu nelas o
que representavam em termos de ameaça ao seu poder baseado na unidade da fé. Assim, a
reação da Igreja Católica às heresias concentrou-se na repressão. Não foi outra a função da
criação do Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição, justamente no século 13.

Há outros elementos decisivos nesse processo. A questão política passa a ganhar um peso
significativo a partir do início do processo de centralização do poder. Naturalmente, os reis, ao
buscarem se fortalecer politicamente, vão entrar em choque com o poder da Igreja. Em muitos
casos (e o exemplo da Inglaterra, como veremos a seguir, é apenas o mais evidente), romper
com a Igreja Católica e criar uma nova Igreja sob seu comando foi a forma encontrada pelos reis
para se libertar do poder político do papado.

Além disso, num quadro de crescimento do comércio, os dogmas da Igreja, de condenação à


usura e ao lucro excessivo, representavam um forte obstáculo para a burguesia. Assim, também
essa nova camada ascendente vai ter interesse em romper com os entraves impostos pelo
catolicismo e adotar uma nova religião, para a qual suas práticas não se constituíssem em
pecados e fossem consideradas como dignificantes do homem.
Liberalismo e democracia
As bases filosóficas da democracia
Antonio Carlos Olivieri
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

O barão de Montesquieu
Desde suas primeiras formulações, no século 18, o liberalismo é uma filosofia ou um conjunto
de filosofias que defendeu a existência de um Estado laico e não-intervencionista. Laico, porque não está
vinculado a nenhuma crença religiosa, nem admite interferência de qualquer Igreja nos assuntos políticos.
Em contrapartida, esse Estado também não deve interferir nas crenças pessoais, fazendo prevalecer o ideal
de tolerância religiosa.

Já a concepção de um Estado não-intervencionista refere-se à economia e surgiu por oposição


ao controle que as monarquias absolutistas exerciam sobre o comércio durante os séculos 16 e 17, cuja
expressão era o monopólio estatal típico do mercantilismo ou capitalismo comercial. Era o que acontecia
com o açúcar e o ouro, por exemplo, enquanto o Brasil era colônia de Portugal.

A livre iniciativa e o lucro


O Estado não deve interferir na economia ou intervir somente o mínimo inevitável, pois o
liberalismo defende a propriedade privada e constata que o funcionamento da economia se dá a partir do
princípio do lucro e da livre iniciativa, o que desenvolveria o espírito empreendedor e competitivo.

As propostas liberais provocaram - juntamente com as Revoluções políticas que delas se


originaram - uma separação entre negócios públicos e privados, ou seja, entre os assuntos do Estado (que
deve se ocupar com a política, isto é, com as questões da esfera pública) e os da sociedade civil (que deve
se ocupar das atividades particulares, principalmente as econômicas).

Simultaneamente, o liberalismo advoga a criação de instituições para dar voz ativa aos cidadãos
nas decisões políticas. É a partir disso que ocorre o fortalecimento do Parlamento, órgão de representação
por excelência das forças atuantes da sociedade e capaz de coibir os excessos do poder central. A expressão
"parlamento" se origina do francês "parler", que significa falar. Designa, portanto, o local onde ocorrem
conversações, discussões e deliberações.

Executivo, Legislativo e Judiciário


A concepção de uma origem parlamentar do poder significa a superação de teorias que
remontam à Antigüidade, segundo as quais o poder vem de Deus ou da tradição familiar (nobreza). Ao
contrário, o voto dado a um parlamentar representa o livre consentimento do cidadão à sua atuação política,
isto é, o mandato popular. É o que ocorre hoje nas democracias representativas, como a brasileira, em que
deputados e senadores são (ou ao menos deveriam ser) representantes do povo.

Completa o quadro de princípios básicos do liberalismo, no âmbito político, a tripartição do


poder em três instâncias autônomas e equilibradas: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, conforme
postulado pela primeira vez pelo escritor e filósofo francês Montesquieu. Cada uma delas tem suas
atribuições específicas e - acima delas - estão as leis, das quais a maior é a Constituição de um país.

A consciência liberal é, portanto, marcada pela valorização do princípio da legalidade: ninguém


- nem o governante - pode se colocar acima da lei. Com as revoluções liberais na Inglaterra e na França,
produziram-se, respectivamente, a Declaração de Direitos ("Bill of Rights", 1689) e a Declaração do
direitos do homem e dos cidadãos (1793), que consignavam as conquistas dessas mesmas revoluções e
proclamaram a igualdade de todos os homens perante a lei.

Além disso, essas declarações estabelecem a garantia das liberdades individuais de pensamento,
crença, expressão, reunião e ação, desde que não sejam prejudicados os direitos de outros cidadãos. Deriva
daí a concepção tradicional de liberdade, segundo a qual "a liberdade de cada um vai até onde o permite a
liberdade do outro".

Adam Smith
Trata-se de um fundamento de cunho individualista, o que é típico do pensamento liberal. No
plano econômico, isso significa que a lógica do mercado é a seguinte: se cada um desenvolver bem o seu
trabalho, haverá natural seleção dos melhores, que formarão as elites de cuja capacidade empreendedora
resultarão benefícios para o todo social. Era o que apregoava o economista escocês Adam Smith, em sua
obra principal, "Uma Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações".

Pode-se questionar ou criticar esse fundamento, mas, na prática, sua capacidade de produzir
riqueza tem sido patente. O problema reside mais na questão da distribuição dessa riqueza. Além disso, à
medida que esses conceitos liberais foram sendo absorvidos pelas instituições dos diversos países, na
Europa e nos Estados Unidos, deu-se um passo significativo em direção à democracia, tal qual é praticada,
em maior ou menor grau, no mundo contemporâneo.

reprodução
Adam Smith

Vale lembrar que dos ideais do liberalismo também se originou o conceito de cidadania que, em
seus primórdios, no século 18, referia-se apenas a direitos civis: à liberdade e à segurança individual,
direito de ir e vir, liberdade de crença e opinião, seu lugar institucional eram os tribunais e sua vigência
dependia da aplicação progressivamente imparcial da lei.

Durante o século 19, o conjunto se avoluma com a inclusão dos direitos políticos: votar e ser
votado, filiar-se a partidos políticos, organizar-se em sindicatos. Já no século 20, passam a integrar a
cidadania também uma extensa variedade de direitos sociais, como a garantia de um piso salarial,
condições de trabalho, seguro, assistência médica, previdência, etc.

Do iluminismo ao socialismo
Há uma via de mão dupla entre as idéias políticas e a realidade prática, de tal maneira que as
idéias interferem no mundo real, transformando-o, assim como o mundo real, transformado, torna
necessário que as idéias sejam permanentemente reelaboradas. Nesse sentido, as idéias liberais sofreram
transformações com o passar do tempo, adaptando-se às novas realidades sociais.

O liberalismo surgiu com o desenvolvimento do mercantilismo e se aprofundou após o advento


da Revolução Industrial, no século 18. Com a implantação do sistema fabril e o aumento da produção, as
relações humanas se tornaram cada vez mais complexas. As cidades cresceram, desenvolveram-se as
ferrovias e o navio a vapor. As máquinas intensificaram o otimismo baseado na crença do progresso e na
onipotência da tecnologia.

Os avanços tecnológicos, porém, não corresponderam a uma evolução nas relações sociais,
tornando-as mais justas, ou diminuindo a distância entre o topo da pirâmide social e sua base. Na Europa
do século 19, o contraste entre riqueza e pobreza era cruel, como ocorre hoje em dia nos países em
desenvolvimento. Em contrapartida, a classe operária começou a se unir para reivindicar os seus direitos
num processo que culminará com o desenvolvimento do socialismo

O socialismo considera que o individualismo liberal resulta na defesa de uma classe social em
particular: a burguesia. De qualquer modo, para enfrentar os problemas trazidos pelos novos tempos, a
teoria liberal se adaptou às novas exigências da realidade. O liberalismo tornava-se cada vez mais
democrático, acentuando a necessidade de igualdade jurídica e política, bem como uma solução para as
precárias condições de vida das massas oprimidas. Um dos representantes dessa tendência, o inglês John
Stuart Mill, sugere co-participação dos trabalhadores na gestão e nos resultados da indústria.

O Estado do bem-estar social


Gradualmente, o liberalismo começou a admitir a tendência intervencionista do Estado, para
solucionar os problemas sociais do trabalhador, como férias, saúde, aposentadoria, desemprego, etc. Diante
das crises - econômica, política, social - que atingiram o mundo da primeira metade do século 20, os
Estados Unidos e a Inglaterra, - cujo sistema político-econômico se insere no modelo mais característico do
liberalismo - promoveram ajustes rigorosos na economia, desenvolvendo o que se chamou de wellfare state
ou estado do bem-estar social.

Nos Estados Unidos, por exemplo, para enfrentar a depressão econômica subseqüente à quebra
da bolsa de valores de Nova York (1929), o presidente Franklin D. Roosevelt implantou um programa
conhecido como New Deal, que fez o Estado se tomar o principal agente do reativamento econômico do
país. A construção de grandes obras públicas ajudou a aumentar a taxa de emprego e foram concedidos
créditos para as empresas, além de serem adotadas inúmeras medidas assistenciais de atendimento aos
trabalhadores.

Entretanto, a intervenção estatal não se perpetuou, nem o Estado pretendeu se sobrepor às


empresas privadas, tornando-se o único agente econômico. De qualquer modo, no fim da Segunda Guerra
Mundial, em 1945, os Estados Unidos tinham se tornado a nação mais rica do mundo, bem como a mais
avançada em termos tecnológicos.

Globalização e neoliberalismo
A partir da década de 1960, o estado do bem-estar social começou a dar sinais de desgaste, em
especial porque as despesas governamentais acabaram por superar a arrecadação ou receita, provocando um
aumento insustentável do déficit público, da inflação e da instabilidade social.

Na década de 1980, os governos de Ronald Reagan, nos EUA, e de Margareth Thatcher, na


Inglaterra, se caracterizaram por diminuir a intervenção do Estado na área social. A essa retomada das
idéias liberais clássicas, de um estado mínimo e não intervencionista, chamou-se Neoliberalismo. Seu
receituário não se restringiu aos países do hemisfério norte, numa época como a nossa, em que a economia
é cada vez mais global.

No Brasil - onde o Estado se tornara um poderoso agente econômico entre a Era Vargas e a
ditadura militar - as idéias liberais entraram na ordem do dia dos governos Collor e Fernando Henrique
Cardoso, com a diminuição do Estado, a partir da privatização das estatais, da venda das empresas públicas
que, apesar de pertencerem ao governo, nada têm a ver com as funções do governo, como bancos e
companhias telefônicas.

Não vem ao caso avaliar aqui os resultados dessa orientação "neoliberal" à política brasileira
contemporânea, nem à economia - que se mantém fiel a ela, apesar do governo de Luís Inácio Lula da
Silva, cujo partido sempre se proclamou simpático ao socialismo. O importante é ressaltar como a
influência das idéias liberais se estendem, historicamente, desde o século 18 até os dias de hoje. A história
da humanidade é ao mesmo tempo feita de transformações e permanências.