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Dosimetria da Contaminação Interna

Processos biológicos → localização e quantidade de material radioativo


incorporados no organismo variem com o tempo de forma complexa.

Principal problema da avaliação da dose devida a radionuclídeos depositados


internamente → descrição da distribuição no organismo em função do tempo.

Modelos Metabólicos

Consideração na descrição dos processos biológicos: aplicação de qualquer


estímulo fisiológico a um grupo de organismos aparentemente idênticos sob
as mesmas condições não respondem da mesma forma.

Variabilidade biológica → descrição matemática da distribuição do material


radioativo no organismo → definição do “homem padrão”

Modelos metabólicos: tipo compartimento com coeficientes de transferência


constantes → sistemas de equações diferenciais de primeira ordem com
coeficientes constantes → solução → equações de retenção e excreção.

Número de compartimentos → depende da aproximação desejada com o


processo real.

Parâmetros de transferência → experiência de casos estudados e conhecimento


do metabolismo do radionuclídeo

Exemplo: metabolismo do iodo no homem adulto

1- Compartimento inorgânico: formado por todo o iodo extratireiodiano, que


não esta ligado a moléculas orgânicas, que pode ser excretado ou captado
pela tireóide para ser convertido em iodo orgânico

2- Compartimento tireóide: formado pelo iodo da tireóide

3- Compartimento orgânico: formado por todo o iodo extratireiodiano, ligado


a moléculas orgânicas, que pode ser excretado ou convertido novamente
em iodo inorgânico
Valores das constantes: estimativas que correspondem a pessoas adultas com
funcionamento normal da tireóide.

Excreção por: transpiração, exalação ou fezes não foi considerada pois representa
porcentagem muito pequena da excreção total

Constantes de Transferência ( dia-1)


λ1 0,93
λ2 1,92
λ3 0,0087
λ4 0,053
λ5 0,0050

dI( t )
Compartimento inorgânico: = −( λ1 + λ2 ) I( t ) + λ4O( t ) + X( t )
dt

dT ( t )
Compartimento Tireóide: = λ1I( t ) − λ3T( t )
dt

dQ( t )
Compartimento Orgânico: = λ3T ( t ) − ( λ5 + λ4 ) O( t )
dt

Excreção Urinária: E u = λ2 I( t ) + λ5O( t )

Solução analítica do sistema com condições iniciais adequadas fornece as


funções de retenção e de eliminação urinária.

Para considerar o decaimento radioativo basta multiplicar as soluções por e −λt

ICPR30 (1977) → modelos metabólicos de vários radionuclídeos e a metodologia


de cálculo da contaminação interna.

Processos Metabólicos

1- Depósito no nível da via de entrada (inalação, ingestão, absorção através da


pele sã ou feridas)
2- Transferência do material incorporado ao sangue e líquido extracelular
3- Distribuição da atividade incorporada em todo organismo de forma uniforme ou
localizada em certos órgãos ou tecidos.
4- Retenção em órgãos ou tecidos
5- Excreção
A construção de modelos metabólicos exige o conhecimento do metabolismo do
contaminante e da forma de incorporação.
Dose Equivalente Comprometida
Radionuclídeo incorporado se mantém no organismo durante um certo tempo
“entregando” dose.

t +τ
0
 ( t ) dt
H T ( τ) = ∫ H T
t0

t0: momento da incorporação

 ( t ) : taxa de dose equivalente no órgão ou tecido T no instante t


H T

τ : tempo transcorrido a partir da incorporação (trabalhadores = 50 anos)


Metodologia de cálculo descrita ICRP30: Incorporação origina um depósito em
órgãos ou tecidos. Cada um deles se comporta como fonte de irradiação para os
órgão ou tecidos circundantes e para si mesmo

Órgão que irradia → Fonte S


Órgãos irradiados → Alvos T

Para cada tipo de radiação i de um radionuclídeo j, localizado em um órgão fonte


S, a dose equivalente comprometida H T(50) em um órgão alvo T é o produto de 2
fatores:
1- o número total de desintegrações do nuclídeo j em S durante os 50 anos
posteriores à incorporação → Atividade Integrada U S
2- a energia absorvida por unidade de massa em T, aplicando o fator w R
correspondente ao tipo de radiação emitida por desintegração do
radionuclídeo j em S ( energia específica efetiva - SEE)
Unidade →ICRP30 → MeV/g desintegração

H(50) (T ← S)i = 1,6 × 10−10 UsSEE(T ← S)i [Sv]


Cálculo da Atividade Integrada (Us)

Atividade presente no órgão desaparece:

1- decaimento físico do radionuclídeo

2- eliminação biológica ( passagem para outro órgão ou excreção)

Combinação dos 2 processos → função de retenção → r ( t ) = R ( t )e −λt

R(t): equação de retenção biológica definida pelos modelos de compartimento

Tf xTb
λ ef = λ f + λ b Tef =
Tf + Tb

A vida média efetiva pode ser definida para um órgão, um tecido ou para a
retenção em todo o corpo de acordo com o interesse.

A integral da função de retenção → atividade integrada U S → fornece o número


de desintegrações no período de interesse.

Variando o intervalo de integração obtém-se o dado necessário para o cálculo da


dose recebida em 50 anos ou valores de dose diária, semanal, anual, etc..

Cálculo da Energia Específica Efetiva (SEE)

Energia liberada por desintegração α e quase totalmente no decaimento β é


totalmente absorvida no órgão de depósito.
Para a radiação gama praticamente todo o corpo é irradiado.
Energia específica efetiva (em MeV por grama por desintegração) para um
radionuclídeo j com diferentes tipos de emissão:

∑ Yi E i AF (T ← S) i w R i
SEE (T ← S) = i MeV/g desintegração
MT

Yi: rendimento da radiação i por transformação


Ei: energia da radiação i expressa em MeV

AF(T→S)I: fração de energia absorvida no órgão T por emissão i em S.

Para a maioria dos órgãos se supõe que energia alfa e beta são absorvidas por
completo nos órgão fontes. Exceção: trato gastrointestinal

A fração absorvida da radiação gama por grama de tecido alvo é calculada com
base nos valores da fração absorvida e estão tabeladas.

WR: fator de ponderação da radiação

MT: massa de tecido alvo expressa em gramas

ICRP 23 → tabelas de frações absorvidas para diferentes faixas de energias de


emissores gama e diferentes combinações de órgãos fonte e alvo, bem como a
massa dos órgãos.

No cálculo da energia específica efetiva absorvida por um órgão alvo são


somadas as contribuições de todos os órgãos fonte que o irradiam e todas as
emissões de todos os radionuclideos presentes nos órgãos fonte pois pode
ocorrer a incorporação de mais de um radionuclideo e alguns deles podem decair
em isotopos radioativos.
Expressão final para a dose equivalente comprometida em um órgão alvo:

 
H T (50) =1,6 ×10 −10 ∑∑ U S ∑SEE (T ←S) i  [Sv ]
S j  i 

Dose Efetiva Comprometida

As doses equivalentes comprometidas nos órgãos distintos são substituídas pela


dose efetiva E(50)
E (50) = ∑ w T H T (50)
T
Tecido ou wT
Órgão
Gônadas 0,20
Medula óssea 0,12
Cólon 0,12
Pulmão 0,12
Estômago 0,12
Bexiga 0,05
Mamas 0.05
Fígado 0,05
Esôfago 0,05
Tireóide 0,05
Pele 0,01
Superfície óssea 0,01
Resto 0,05

A partir da ICRP 60 são associados valores específicos de w T a uma série de


órgãos que nas publicações ICRP26 e ICRP 30 geralmente eram parte do “resto”:
cólon, fígado, esôfago e bexiga.

ICRP 60: “resto”: glândulas adrenais, cérebro, rins, músculo, pâncreas, baço, timo,
útero e vias aéreas extra toráxicas.

Dose Efetiva Comprometida

T=l
j ∑ m T H T (50)
T=k
E(50) = ∑ w T H T (50) + w resto l
T =i
∑ mT
T=K

H T (50) : dose equivalente comprometida

w T : fatores de ponderação correspondentes aos 12 tecidos ou órgãos da tabela

mT: massa dos órgãos que formam o resto

w resto = 0,05
Nos casos onde um dos órgãos que compõem o resto receba uma dose
equivalente maior que a maior dose dos 12 órgãos que têm fatores de ponderação
específicos se aplica um wT= 0,025 (metade de 0,05) e 0,025 à media dos outros
tecidos do resto
T=l
T= j ∑ m T H T (50) − m T′ H T′ (50)
T= k
E(50) = ∑ w T H T (50) + 0,025 T=l
+ 0,025H T′
T=i
∑ m T − m T′
T= k

m T′ : massa do órgão ou tecido no qual se encontrou a dose equivalente maior


que em qualquer dos órgãos com wT específicos

Limite de Incorporação Anual (LIA)


No controle ocupacional de contaminação interna é definido um limite secundário
de utilidade prática para o projeto de instalações e para o controle das condições
de trabalho.

LIA: atividade de um radionuclídeo em uma dada forma físico-química que


incorporada pelo trabalhador em um ano resulta em uma dose efetiva
comprometida a 50 anos igual ao limite de incorporação anual.

Para determinar o valor LIA para um dado elemento radioativo calcula-se a


incorporação única que resulta em uma dose efetiva integrada em 50 anos de 0,02
Sv (recomendação ICRP 60).

0,02
LIA = Bq
e (50)

e(50): coeficiente de dose em Sv/Bq é a dose efetiva comprometida E(50) que


resulta da incorporação de 1 Bq.

Uma limitação de 20 mSv em 1 ano para a dose efetiva comprometida pode


resultar em uma dose equivalente comprometida de 1 Sv. Valor maior que os 500
mSv propostos pela ICRP26 como limite de dose equivalente para evitar efeitos
determinísticos (chamados não estocásticos pela ICRP26)
As novas determinações não fixam limites para a dose equivalente em órgãos ou
tecidos particulares para o caso de incorporação de material radioativo.

Dose Trabalhador: irradiação externa + contaminação interna.

Limite de dose efetiva anual se aplica à soma das doses recebidas por ambas as
formas de irradiação.

Modelos Metabólicos para o Sistema Respiratório

1- Modelo Pulmonar ICRP 30

Proposto em 1966 → Task Group on Lung Dynamics


Divide o sistema respiratório em 4 regiões anatômicas:
1- Região naso-faringea (N-F)
2- Região tráqueo-bronquial (T-B)
3- Região pulmonar
4- Região linfática

Parâmetros que descrevem o modelo estão ajustados para o caso da respiração


nasal normal.

Após a incorporação do material via inalação o depósito em cada uma das regiões
dependerá das propriedades aerodinâmicas do aerosol.
Partículas de maior tamanho ficarão retidas nas vias aéreas superiores e as de
menor tamanho chegarão ao pulmão.

Depuração

1- Passagem ao trato gastrointestinal


2- Passagem ao sangue
3- Passagem ao tecido linfático

Modelo Pulmonar ICRP 66

Divide o trato pulmonar em 5 regiões:

1- Região extra- torácica (ET)


Passagem nasal anterior (ET1)
Passagem nasal posterior, passagem bucal, faringe e laringe (ET 2)
2- Região Torácica (TOR)
Brônquios (BB)
Bronquíolos (bb)
Alveolar-Instersticial (AI)
Depósito

As frações depositadas em cada região estão estimadas considerando-se


diferentes condições: idade, sexo e atividade física: sono, repouso, exercício leve
ou pesado. Consideram-se aerosóis na faixa de 0,6 nm a 100μm.
Para trabalhadores a referência é o homem adulto de respiração nasal e trabalho
leve.
Para a exposição ocupacional o valor de AMAD considerado é de 5 μm ao invés
de 1 μm que é o valor de referência da ICRP 30.
Comparação → depósito total no trato respiratório 51% do inalado para aérosois
de 1 μm e 82% para 5 μm.
Modelo pulmonar ICRP 30 os valores eram de 63% e 91% respectivamente.

Depuração

Compostos → Absorção Rápida (100% em 10 minutos)


Absorção Moderada ( 10% em 10 minutos e 90% em 140 dias)
Absorção Lenta ( 0,1% em 10 minutos e 99,9% em 7000 dias)

Grande diferença entre os modelos

ICRP 30: dose média no pulmão


Novo modelo: dose em tecidos específicos do trato respiratório considerando a
radiosensibilidade.

Modelo para o trato gastrointestinal

Modelo ICRP 30

Trato gastrointestinal pode ser contaminado diretamente por ingestão ou pelo


material derivado do trato respiratório.

Ingestão de material em estado sólido ou líquido → tempo de residência na faringe


ou esôfago é curto → dose não significativa → fins de radioproteção não se
considera nenhum órgão anterior ao estômago.

Modelo divide o aparelho gastro intestinal em 4 seções:


1- Estômago (E)
2- Intestino delgado (ID)
3- Intestino grosso superior (IGS)
4- Intestino grosso inferior (IGI)

Se o material não é transferido → maior parte se distribui ao longo do aparelho


digestivo e é excretado → mucosa intestinal recebe a maior dose.

Se o material é transferível parte dele é absorvido no intestino delgado e passa ao


líquido extra celular.
Vias de Entrada

1- Inalação
2- Ingestão
3- Absorção pela pele
4- Feridas

Distribuição depende dos caminhos metabólicos que correspondam ao material


incorporado.

Inalação : material se deposita inicialmente nos ramos do trato respiratório de


onde passa diretamente para os líquidos extracelulares ,sangue, gânglios
linfáticos trato gastrointestinal.

Modelo Pulmonar → ICRP 30 (1977) que se manteve vigente até 1994 quando foi
substituído por outro apresentado na ICRP 66

Ingestão: parte do material se transfere ao líquidos extracelulares especialmente


a nível de intestino delgado. Resto é excretado pelas fezes.

Modelo Trato Gastro intestinal → ICRP 30 que se mantém válido com algumas
correções nos valores das frações de transferência ao sangue

Incorporação pela pele: a pele constitui barreira eficiente para a incorporação do


material radioativo.

Absorção pela pele sadia: água tritiada e iôdo

Trítio: totalidade passa para os líquidos corpóreos qualquer que seja a via de
entrada

Absorção pele com lesão: material pode ser transferido aos líquidos
extracelulares, ser retido nos tecidos subcutâneos e muscular e nos gânglios
linfáticos locais.

Modelos propostos para as vias de entrada, pulmonar e trato gastro-intestinal


valem para todos os radionuclideos. Quando o material passa ao sangue
(incorporação sistêmica) a distribuição e retenção são descritas por modelos
específicos de cada elemento incorporado.