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Coletinea de artigos de René Lourau, um dos criadores da And- lise Insttucional (Al) francesa, - brangendo diferentes momentos de sua obra. Os textos se esten: dom de producdes datadas dos anos 1960, quando surge © movi- ‘mento da Al até as caracteristicas da década de 1990, momento em {que aandlise das implicages, em suas relages como modo de escritura da pesquisa, recebem especial destaque. Um artigo introdutério de Remi Hess e uma apresentagio da ‘organizadora oferecem uma contextualizagio em diferentes escritos, na Franga e no Brasil, ! : ‘(RENE LOURAU ANALISTA INSTITUCIONAL EM TEMPO INTEGRAL SONIA ALTOE EDITORA HUCITEC Data de 1989 nossa preocupagso com 3 Anilise Insttucional (Al), quarelo publi- ‘amoso texto" Apresentagio doMovimen- to lnstituconalsa”, de Gregorio F Borer Dit; no primeiro mimere de SaideLoncura Noentanto,esteéo primeirlivrode René Lourau, um doscriadoresda Alqueincor- poramos nossa cles ‘Com essa iniciativa contribuimos para diminuir um dict, pois, embora a pro- ‘dugio bibliogrific a espeito da Alseja, ‘asia, poucos so os titlosdisponiveisem lingua portuguesa Aseleg3o dos texto le René Lourau, Anais ta institucional em Tempo Integral foi fita por Sonia Aloe, uma rigorosa diseipala {do Autor. Os concetes fundamentas da [Asi agultratados, ora de maneira clara, {quaseintrodut6ria, ora com sua maisrica ‘complexidade, Oleitor eritco podera navegar neste livro pelas dguas agitadas de um ocean ainda Inexplorado, “Axrowio Lascert te At ao SONIA ALTOE RENE LOURAU analista institucional em tempo integral EDITORA HUCITEC ‘Sao Paulo, 2004 ‘© Datos de pcr radon por Deposit. tein Awa -S0 Palos HUCTIEC 08 | tien Polis 2. Socks Eason 2g Sal Talo Son og Tio ‘Soy Educa 97007 ‘ers a Sa APRESENTAGAO Atta ba rusticagao de uma coletinea de artigos de René Lourau expressando 0 conjunto de a obra surgiu apos ‘Sua morte repentina ocotrida entre Ramboulllet e Pari, em je heizo de 2000, no trem que o conduzia & Universidade de Paris Vill, onde trabalhava. ‘O amadurecimento do projeto deu-se durante o planejamen- tow. arganizagio do evento "O Legado de René Lourau”, cor ‘ido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uer} em maio e200, tendo como objetivo prestar homenagem a0 socislogo.e “analista institucional fans ¢ expor o que em nés marca a sua presenga. Este evento contou com apoio do entio coordenador {io Mestrado em Psicologia Socal da UERI, prof, Ronald Arendt, ‘oda Fundagio de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Jane to apes). Procuramos entio reunir um grande neimero de pro- fessores brasileiros e de outras nacionalidades, que falaram da infludncia do pensamento de René Lourau em sss pesquisas € René Lourau nasceu na Franga em 1933. Como atuante ana- Fista institucional, terico e pesquisador, sua carrera esta ligada ‘ao mesmo fempo ao movimento da pedagogia institucional e a0 movimento da anise institucional, do qual fi grande teorizador, ‘tet proto d livin Renown n Brinnand amen era 8 sonia atroe {20 lado de Geonges Lapassade e Félix Guattar. Muito atuante na Franca, fi convidado a trabalhar diversas vezes na Espanha, na Ttilia, no México, na Argentina e no Brasil, onde varias geragbes de profissionais do campo social sofreram sua influéncia, no- {tadamente es que atuam no campo da pesquisa eda agio social. ‘Da psicossociologia a antropologia, da cigncia politica inter vven¢a0 institucional, da pedagogia aos movimentos de autoges- to, da psicanilise a epistemologia, da producdo intelectual 3 produto politica, sua interferéncia fecunda sempre foi vasta e sgenerosa. Varios temas marcam sua carreita e a pritica de di- versas geragbes de pesquisadores, como por exemplo: implica- ‘So, institucionalizagao, transducio, autogestio, esritura, dis rio de pesquisa, génese tebrca, intelligentsia, lapsos dos intelec- tuais, autodissolucao das vanguardas, centro e peiferia, Estado, coletivizagio e restituicso do trabalho de pesquisa (© conjunto de seus trabalhos expressa uma das tendéncias francesas mais importantes da anise institucional, que tem re- presentado, desde a década de 1970, uma altemativa teérica, metodoldgica e orientadora da pritica para uma série de estu- dliosos brasileiros desejosos de ultrapassar fronteiras diseiplina- res rigs. Embora a génese do paradigma da andlise institucional seja sociologiea ¢/ou microssociol6gica, no Brasil foi predominante- _mente entre os psicSlogos que se difundia ese firmou, tanto aca- démica quanto insttucionalmente. Ja em 1972 0 Setor de Psico- logia Socal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — ploneiro na formagio de psicéloges voltadas para uma aborda- {gem institucional de questées ligadas a0 trabalho, a sade e & savide mental ~recebia a visita de Georges Lapassade que, 20 lado de René Lourau, 6 considerado o eriador da andlise institu cional qualifcada de socioanalitca. Data do mesmo ano a pur blicagio de Chaves da Soviologie (Lourau & Lapassade, Fd. Zaha), seguindo-se, em 1973, aedigao do nimero 4, vol. LXVIL, da Re vista de Cultura Voces, inttulado Andlise bstituconal Teoria e Pri APRESENTAGKO 9 tien, organizado por Georges Lapassade, a0 lado do psicanalista, ‘Chaim Katz, do professor Celio Garcia (UFMG) e do teérico da ‘comunicagSo Marco Auréio Luz. Na mesma década (1975), a Vo- zes langa A Anilis Isttucionl, de René Lourau,tese de douto- rado de Estado defendida na Universidade de Nanterre em 1969, 'A partirde entio, em nosso pais, paradigma institucionalista «5e firma entre signficativa porca0 da populagio universitiria e/ ‘ou ligada ao trabalho socal e aos estabelecimentos publicos, es- pecialmente quando seus campos de intervengio si0 a sate, a satide mental e a educagio. Alguns professores dirigem-se a0 Departamento de Ciéncias da Fducagio da Universidade de Pa- ris VII, onde se concentram os analistasinsttucionais, com vis- tas a estudos de pos-graduacio. O movimento editorial brasle- ro na area, embora nao sea interrompido, prossegue de forma irregular: a Martins Fontes edita Grupos, Organizasdes eInstitu- ‘es, de Goorges Lapassade (1977), , nos anos 1980, a Zaharlan- {ga Pesquisa Ago na Instituipto Education, de René Barbier, intgran- te do que se pode apelidar “segunda geragio de socioanaistas” Diante da dificuldade de obter material atualizado, professores {estudantes com pouco acesso a livros erevistas importados da, Franca tém de se contentar com a edigio de simpasios dos quais Participam os insttucionalistas (O InconscienteIntituional, que inclu a contribuigio de René Lourau em sua primeira visita a0 Brasil em 1982, 6 editado pela Vozes em 1984) e com as coleti- reas de artigos editados na Espanha (Eds. Campo Abierto © ‘Gedisa) ou no México (Eds. Nueva Imagen e Folios). De Port {gal nos chega Socidlogo emt Tempo Inteio, de René Lourau, em 1980 (Ed. Estampa). ‘A partir do final dos anos 1980, so os esforcos dos depa rents das universidades que promovem, por meio de convi= tes, vinda dos analistas insttucionais ao Brasil ea conseqdente renavacaobibliografica: René Lourau éconvidado pelo Mestrado ‘em Psicologia Comunitiria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFR) em 1989 e, com regularidade, pelo Departamento 10 soma atroe ‘e Mestrado em Psicologia Socal da Uer| (1993, 1994 € 1997). Des= sas visitas resultam publicagies ¢ intercdmbios extremamente fecundos. O curso ministrado por Lourau em 1993, assistide por ‘mais de cem alunos, dé origem ao livre Anise institucional e Pri tions de Pesquisa, editado pelo Nape/ ere rapidamente esgota- do, Artigos do socicanalista sS0 publicados em livros e revistas ‘organizados por professores universitérios: “A educagio liberts- ria” (em Psicologia Social: Abordagens Sicio-Histéricas e Desafos CContemporneos, de Mance & Jacé-Vilela, Eduer, 1999) ¢ “Acti tica do simbolica em Femand Deligny” (Thansgresars ~ periéi- co de pesquisa do Programa de Pés-Graduacao de Servigo So- cial/UFRJ, 199). Algum tempo antes, a Vozes relangara A And lise Insttucional (1995), em edi revista, num indicio da procu- +a permanente pelo antigo livzo, hi muito esgotado. A presente coleténea busca divulgar os trabalhos do socioana~ lista René Lourau a fim de cobrir uma grande lacuna bibliog?’ fica de que os estidiosos brasieitos se ressentem. A solecao de textos procura expressar 0 conjunto de sua obra, desde os anos, 1970, visande o interesse que possa despertar nos estudantes, jvens profssionais, como também nos pesquisadlores experien- tes das ciéncias sociais e humanas. 'A maior parte da traducSo fo feita num tempo bastante curto| ‘ede trabalho intenso por Paulo Schneider, que também foi alu- no de Lourau, ¢ estava de partida para a Franga. Outros textos foram traduzidos por Ana Paula Jesus de Melo, Heliana Conde ¢ Patricia Jacques Fernandes. O pagamento da tradugio foi em _grande parte realizado com a verba que me coube no FAP-Uer)/ 2001, complementado com verba do Curso de Especalizacioem Psicologia Juridica. O trabalho de revisio foi feito por mim, ten- do a importante colaboragio dos estudantes de Letras-Uerj e estagirios do Curso de Especializagso em Psicologia Juridica da ‘mesma universidade, Thats Olivera e José Luis de Souza, jf ex= perientes em trabalho de revisdo para publicagao. Uma ultima, revisdo foi feta pela prof’ Heliana Conde que, com sua compe- APRESENTACKO I tencia, tomou o texto mais fluente na lingua portuguesa e nos ajudou a resolver problemas pendentes, Foi uma experiéncia rica € interessante de trabalho em equipe, permitindo superar mo- _mentos estafantes de voltar a rever, voltar a digitar e também de verifcar a dois a tradugao texto a texto (franeés/ portugués), co- ‘mo também sea revisio digitada nao tinha mais erros, Conside- amos que fizemos um bom trabalho e esperamos que o leitor nos desculpe por algum deslize que porventura ainda encontrar. Para permitir que 0 letor se situe e possa entender a selegao de artigos aqui feita dentro da historia e contexto de producio dda obra de René Lourau, incluimas & guisa de introducao a con- feréncia pronunciada pelo prof. Remi Hess que, como convida- doespecal no evento realizado na Uer) nos falou do “movimento dda obra de René Lourau”. Remi Hess & um dos primeiros alu- nosdiscipulos de René Lourau ¢ Georges Lapassade. Professor de Paris VII, é autor de muitos livos, dos quais certo nkimero ‘se inscreve diretamente no prolongamento da obra de René Lourau. Fle é um dos mais reconhecidos e atuantes divulgadores, do movimento de andlise institucional na Franca, ‘Arealizagio deste trabalho tem para mim forte motivagSo pro- fissiona e afetiva, Conheci René, como gostava de ser chamado {apesar de ser conhecido entre nés simplesmente por Lourau}, ‘em 1977, na Universidade de Vincennes, hoje Saint-Denis, tam bbém denominada Universidade de Paris VII, quando Is fui f- zer 0 mestrado e mais tarde o doutorado, tendo-o ent3o como orientador. Desde esta época,e particularmente em sua prime za vinda a0 Rio, em 1982, a convite do psicanalista Grogério ‘Baremblit, fortalecemos nossos lagosafetivas ede tra intelec tual. Aos poucos René tomou-se um mestre para mim, 0 ques nificava, sobretudo, aquele que acolhe (e aceita alunos das mais, variadas nacionalidades), aquele que, sendo uma fonte de saber, stimula a reflexdo, que fala dos tantos livros que Ie, sem cons: tanger 0 outro com seu conhecimento, Era muito sensivel , por iso, nem sempre de facil convivio, Mas sua generosidade apro- 12 soma atroe. ximavea, implicava e cativava os alunos. Objetivamente, pode- ‘mos encontrar isto na sua prética de convidar os alunos a conti ruar a discussio de sala de aula ou da orientagio em enconteos regulares com ele, nos cafés, restaurantes, em sua casa (sempre cheia de livos e papéis espalhados, expressando seu trabalho Shc Paso. “Ua netacionaizacin des valores nemotivacone de [Gactvad econ ns Pace ee Pare Lévy-Danod, 105 76 Rene Lounau. de editores), Os aparethos ideologicos sao atravessaio pelo “eco- ‘nomico” e pelo “politica” Hoje em cla jf nao ¢ possivel conceber as instituigBes como lum estrato, uma instincia ou um nivel de uma formagéo social determinacla. Pelo contrario, é necessério defini a insttuigio ‘como um “cruzamento de insténcias” (econémica, politica e ideo logica) e afirmar, além do mais, empregando a linguagem da anilise institucional: se ¢ certo que toda instituigao & alravessada Por todos 0s “niveis” de uma formagto socal instituigio deve ser definida necessariamente pela transoersaidade* Sendo assim, no posemos considerar a insttuigio como um nivel, porque se encantra presente também em feos os outros. Trata-se de uma dimensio fundamental que atravessa e funde todos os niveis da estrutura social Podemos apontar 0 lugar especfico do conceito de insttui- «80 nos niveis de andlise por meio de um grafico, Ele indica e= Sencialmente que a instituigio no é um “nivel” ow uma “ins tancia” da realidade e da anise. E uma instincia que atravessa as outras instincias: a da organizagio, ado grupo, a da relagio. 7 Faas doco denn etc tn pc erupt etter cate eat r Sreaibitensseopateniaa gece iiciewpnsiatmtieiaee ris apenea eS, ino oftaagsanl intnn Seca SUS gece po cipaacieniteie crowns eas seer Slat pean ells avon ue eee eee Samoan sneer ee Sects Son eee Dieta oo nie samosas a Sao cel eee Sate Riana ub ett nae can eo Sihectabnecie orcnenaie tSarnanengurmorag ent ISoemiksioa ites con sano ate Sri cnc me Setar) Siete pla cna pope wack see {Boe somite ada do poder ae Ea) ee ‘OnjETo E METODO DA ANALISE INSTITUCIONAL 77 ives éT0D0S DE APROXMACKO insttutckow Insistimos muitas vezes no no dito, no oculto, na ignoriincia institucional (Max Weber). A partir dat, sugerimos que a anslise poderia ser concebida como uma hermenéutica ‘Mas ainda € necessirio explicara origem do desconhecimen- to, do esquecimenta institucional. Devers indicar 0 motivo de sermos ignorantese, também, cegos ante nossas insttuigdes, bem ‘como a que raza se deve que tal ignorincia geralmente no seja Tevada em conta nas cincias sociais, ‘A hipotese fundamental é que o Estado de classe é o lugar “origindrioda repressio. A ilusio institucional eo desconhecimen- tosio necessatios para que o sistema socal se mantenha, paraa ‘estabilidade das relagdes sciais dominantes, produzida ere-pro- stuzica pela instituigdes (Estado centralizado tanto funciona tanto como fonte de re- pressdes quanto, além disso, mediante todos 0s seus mecanis- nos eaparelhosideolSgicos, como produtor permanente do des- ‘conhecimento institucional ‘Daremos um exemplo. Nas atuais lutas das minorias nacio- nais, programa consiste em destruir a hegemonia instituida das Tinguagens dominantes, sua tirania. Estas lutas s4o os anali- sadores da dominagio do Estado centralizado, as fontes dire- fas de sua destruigio. As minorias etnolinglisticas poem em 78 rene Lounay. suspenso o estatismo. Langam-se contra 0 centralismo cultural, contra a colonizacao e a repressao clas linguase das culturas do- rminadas. Eis como funcionam esta dominacio ¢ esta repressfo:em nome das linguas dominantes, os idiomas invalidados sao taxados de Drbaros, da mesma maneira que as religides decaidas sio re Dbaixadas & categoria de bruxaria e de magia, ‘As insituigdes desqualficadastransformam-se sempre em ins- tituigoes malditas,diabslicas, reprimidas e,finalmente, destru das. Em razi0 da mesma dinémica histrica, a religiso vencida transforma-se em magia negra ea linguagem inferiorizada torna- se dialeto (patos) e depois dialeto regional, até que desaparece, Os berberes da Africa do Norte tiveram um alfabeto, mas hoje fs signos dispersos dele s6 sao encontrades nos motivos decora- tivos dos tapetes berberes [Estes signos foram dispersados, esquecidos ¢ reprimidos, a base material da lingua foi destruida; o cultural reprimido 6 aparece em fragmentos disjuntos~ signos materiais agora sepa: rads de seu sentido, ‘As culturas reprimidlas sobrevivem, contudo, no inconsciente dlas sociedades. Mas seus farrapos se dissimulam, se deformam, ese reduzem ao estado de signos disjuntos, como podemos ob- servar em alguns ritos de possessao Em tas rtos, 0 retomo do, reprimido se traduz pelo uso de “tacos”, de perjirios, de inver stes de sentido, de jogos de palavras em que se express de for ‘ma dissimuladae indireta, a contestagao da linguaygem dos gr- pos dominantes, ao mesmo tempo que a recordagio das lutas dos oprimidos, A experimentacio (© objetivo da anise institucional em situagio de interven- ‘lo évalidaro conceito de analisacor Esta proposigao.ds imedia- os procssis do ects ‘OB/ETO £ HETODO DA ANALISE INSTITUCIONAL 79 tamente a impressdo de ter uma finalidade experimentalista Conguanto nose trate de ratos e macacos, decertoo aspecto ex pperiencial ou experimental est sempre presente na intervencio Ssocioanaltica. Quando os alunos submetios & pedagogia insti- tucional se recusam a ser cobaias de seu professor; quando os tenfermos de um hospital psiquiatrico afirmam que se os médi- ‘cos aparecem como os “capitalistas’, eles, os enfermos, 830 05, “ proletirios”; quando, apés haverem ido 0s esumos das inter venges socioanaliticas,” os catslicos dizem que nada tém que ‘yer com as amostras de populagio de Lévi-Strauss, fica claro que a relagdo de dominacao geralmente existente na experimenta- {Gio ¢ tazida a luz, independentemente do que pensem dela 0 pedagogo, o psiquiatra,o socioanalista [Nos seminsrios autogestionados, a astogestio aparece como, um dispositive artificial e sem eficicia direta sobre a mudanga social. A autogestio de um seminério de curta durasio ou de Juma intervengto socioanalitca, que dura alguns dias somente, nao € @ autogestio de uma turma ou de um estabelecimento es colar. No caso de um estabelecimento, pomos em marcha tm verdadeiro proto social de transformacio, ‘Todas as situactes de andlise e de intervencao estao baseadas no manejo de analisadores construidos eartifciais (acura psica- nalitica, 0 T Group, etc. ..), twalizados com 0 abjtivo de fazer temergir, como disse Freud, um material analisavel. O “cerimo- rial da cura analitica” é, de fato, um dispositive quase experi- ‘mental de conhecimento. Os analisadores construldos definem (6 "laboratsriosocial”: para as ciéncias sciais,constituem o equi- valente do laboratéri ‘O cientifcismo, em sentido estrite, a reproducao do labora- torio no campo das ciéncias sociais e psicoldgicas. Nao é 0 que propomos com a teoria dos aalisadores naturaise artfciis. Tra tase, aqui, de equivaléncia,e nao de reproducio ou de imita- ‘0. O conceito de analisador ¢, pelo contrério,otinico meio de lltrapassar a oposicio e o antagonismo que de fato existem, FC sss de gie 80 RENE LounaY atualmente, entre as citncias humanas experimentas ¢ as citn- cas humanas clinica. ‘A fungdo do intelectual analista (© projeto da andlise institucional, acompanhando 0 ponto de vista da tendencia —insstr mais na luta antiinstitucional do que na construsto de um novo sistema filosstico ~, € menos acres centar algo 2 sociologia critica (anti-sociologia) do que propor ‘uma alternativa aos modelos de anslisee de intervengo social "Aqui, “propor” deve ser entendido da seguinte maneira: em tempo “normal” (ou sea, durante um periodo “frio”), a tworia da andlise social, produto de praticas socais de intervencio, & somente uma atividade de intelectual. Este riltimo tom a tara, portanto, de ensinciar proposicBes (e nio ditar dogmas cient 0s) extrados das rlagdes que estabelece entre as priticas so- ciais e sua propria pritica social, sempre menos rica que a das eategorias ou dos grupos confrontados diretamente (origina mente) exploragao, Fca caro, assim, que tals proposigbes nao so produtes de seu espirito mais, ox menos, bilhante, tampow co pusros "reflexos” de lutasIevadas a cabo pelos outros, Mais precisamente, trata-se do resultante tedrico, ou debilmente pri tico-tedrico, dos efeites da pratica social dos outros sobre a do intelectual, a qual compreende principalmente, ds vezes uni- camente, a pritica da escritura e da fala, intelectual nlo & 0 analisador e sim o analista, com possbilidade de tomar conscién- cia dos efeitos dos analisadores que desencadeiam sua interven- ‘Gio (analista tanto no sentido mais amplo do termo quanto no sentido téenico da palavra em certas cidncias sociais). Nao tem apenas de reconhecere legitimar, ou mesmo exalta, a existén- ta dos analisadores; deve compreender que somente os ana- Tisadoreso constituem como analista. Lutero ou Calvino no exis- tem como dirigente te6ricos de um movimento protestante, mas sim como produtos intelectuais do movimento, que acaba por nega-los como efeitos. Nao ha de um lado Robespierre como di rigente te6rico do movimento jacobino e, de outro, as segies, OWIETO E HETODO OA ANALISE INSTITUCIONAL 81 lubes ou massas jacobinas. Existe um movimento jacobino, analisador das contradigdes da revolugSo burguesa, que acaba por negar seus dirigentes tedricos e derrubs-o. Entre Lénin (e outros dirigentes tedricos bolcheviques) de tum lado e 6 movimento revolucionério usso de outro entre a sénese tedrica e a génese social de 1917-1921, as relagbes 880 tho estretas que, sem este “encontro”, 0 andnimo jogador de xadrez acostumado as tabemas de exilados néo teria escrito O Estado e Revolucto nem A Enfermidae infantil nema pléiade de textos e de discursas que, de 1917 até sua morte, constituem 0 iario de bord socildgico de um dos fatos mais importantes da historia humana, que poderiamos denominar “o fracasso da profeciaracional” ‘Aprimazia do analisador sobre oanalist, ainda que est it ‘mo sejasimultaneamente um analisador extraordinsrio ~ como 0 caso des grandes dirigentes acima mencionados-, no vale ‘apenas paraasrelagBes entre massas dirigentes. Apica-seiguale "mente as rlagGes entre dirigentes opestos, mesmo se, na maior parte dos casos, a histria no canoniza os verdadeiros vais dos hers: © analisador de Lutero também & Minster, dirigente da ‘guerra dos camponeses, da "primeira revolusio socal lem” (Engels). Calvino tem seu Miguel Servet, Robespiere tem seus contrérios, Lénin tem Makhno e Stalin fem Totski, Enegando sendo negados por esses opositores ou desviantes radicals que ‘os dirigentestriunfantes se constituem positivamente, ciam seu ‘campo terico © 0 campo de agio de seu poser. Neste sentido, 0 {que existe para n6s na qualidade de proposigBes do protestan tismo, do jacobismo e do bolchevismo é a produgdo de géneses sociaiscramticas e trgicas,e no uma série de etapas mais ou ‘menos capitais ou mediocres de uma génese tericaintegravel fem uma istéria das idéiasreligiosas e poltcas. Melhor ainda {ue nos casos de Lutero, de Robespierre ou de Lénin, através de Calvino se percebe como vinte anos de tas compuseram, aumen= taram desmesuradamente, transformaram e offentaram defi tivamente uma obra te6riea. A Tnstituigo Crist obra muito mais analisadora das contradigbes calvinistas que o livro teérico do 2 René Lounay nalista Calvino ~ 6 atravessada, de um extremo a outro, pelas correntes ¢ alvorogas sociais: cada pgina est teoricamente de- terminada pela necessidade de manter ou de reafirmar as dé- beis elagbes de forca estabelecidas entre oditador de Genebra & seu clique, Tata-se de uma obra contrateoldgica contra-socio- logic, palsando no mesmo ritmo que a contra-instituicao ge- nebrina, e nso de sma obra de critica teologica, como poderia sera de Erasmo, na mesma época. Erasmo, Adomo ou Marcuse, ‘atuando sobre a elite intelectual mas no chogando a ser, cles, ‘mesmos, influenciados pelas massas, diferem de Lutero, de Calvino e de tantos outros dirigentes locais da reforma, Implieagio metédica ‘© conceito de implicacio, que tende a tomar o lugar do de “contratransteréncia institucional”, opde-se radicalmente as pre- tensies de objetividade fixadas pelos pesquisadores em ciéncias Socials. Assim, por exemplo, no 1° 28 da revista Pour, dedicado 3 “andlise sociolégica das organizagbes” ¢compilado por um mem- bro do centro de sociologia das organizagtes (E. Friedberg), vi- ras notas insistem na neutralidade do socidlogo. Vejamos: “O socidloge & exterior a0 campo que investiga, nfo participa... socidlogo, como © etslogo, na medida do possivel, deve fazer labula rasa de suas experiéncias anteriores, de seus valores, de suas opinides ou preconceitos Sua pessoa deve apagar-se ante a realidade empirica sob seus olhos...E abvio que o éxito dessas reunides depende de duas condigbes: preciso que o socidlogo pares aos olhos dos individuos a entrevista como interlocutor ‘neutro incependente em relacio a estrutura de poder da organi- “zagio estuclada, Dafa importincia de seu estatuto de wobserva- dor exterior" et... Portanto, a anise organizacional define @ posigio do socidlogo-especialista em termos que significam dis- fanciamento em relagio 20 objeto. andlis institucional, 20 con- trario, contrapoe a implicacio do analista a tal dstanciamento. ‘A implicagso deseja pr fim as lusbes e imposturas da “new tralidade” anaitcs, herdadas da psicandlise e, de modo mais gral dum cena ulrapssao, equcido de qu, para 0 “now epirtocentiis”o cnet sets mplcade noon pda olnervagdo, de que sua intervengio modifica o objeto de tstudo tanformae Mesmo quando equece Oana seme pre pelo simples fato desta presen, unt elemento do campo. “A guesto da imphcago ora hd muito levantada por algens eric do abetvisn. Segundo a corente fenomenoligca, €fazendo-epsio gue sigs poe omprende ees “sadn iid” de Scciedade questo forma sas chamadas grapo, organiza ‘<0, instituigao, sociedade. eee ‘intr a ntti come interiridnd 6fandamenta mas parca ™ Funder que into a ialtic na bservagt, pe mitndoevtar a confsdo dos posts ent o objet eco cbjeto de conheciment. Segundo MerieauPonty, sole sete ao concent ndo as pia obervaio de um setae terior, may islet eanalizndo sun propia pcg no momento da observa Assim, por exernpla nos pode eo. nhecer a especifidade do sistem de parenesenenuanto no team cose iia a tt csr de ~ Piri na medida em que se detém em uma simples com prenaio, sem explicagiopossvel dos fendmencs soi "Apes so, MerensPonty va mas lange do qos ques detem na “compreenao" das instulges por melo de ume ane lise do vivido, Pra el, stiaro scl“ aber como este pode ser simultaneamente ima coisa» conhecer eu sghfcrso™ coma poe seems pre ns Mosira a necesiade de enagara alsa implica, pro- pondo um passe que consiste no “vue vem do home et fg be cto hoa sta” c mod, superand a contadio entre a concepeso da instiuiggo que dela faz uma cola exterior ao homem ocilo sia postvnta) a que fr dela um puro ole interior maging Ho enomenologia soi) evintaones en des uaa 4 mene Lounay. ‘cepeio da insituiglo que sintetiza as instincias objetva e ima sins (O-exemplo mais claro de uma instituicio simultaneamente ex- terior e interior ao individuo é a linguagem, a qual consiste em tum sistema de regras que o individu encontra jt dado, exterior ‘a ee, e que os lingiistas podem estudar objetivamente; a0 mes- mo tempo, a lingua € uma instincia interior a0 sujeito, que & insituinte pola fala. Esta dialética entre o exterior 0 interior funda os sistemas simbicos. As veres se diz que a desmistiticaga0 da “neutralidade” reali- zada, em ato, pela analise institucional, bem como o acento que pomos sobre nossas implicagdes se traduzem em “narcisismo” por meio da ierupgio do desejo no controlado dos analistas na {ntervencio, Esta critiea desconhece profundamente a teoria dos, analisadores constrcos: quando dizemos que o analisador deve substituiro analista ~ de qualquer modo, na realidade ¢ sempre © analisador que dirige a andlise , queremos indicar, como re= {gra fundamental, que o analista no deve procurar subteair-se 0s efeitos analisadores do disposiivo de intervencio. ‘A importincia que a correnteinstitucionalista outorga & im- picasso do analista implica uma comocio na nogio de ciéncia Social. Trata-e, prineipalmente, de acabar eom 0 falso problema [por exceléncia: a aposiglo entre cnscidncia imediata ou ingéeua, de um lado, e consciéncia reflexion, a teoria, a cigncia ete, por ‘outro Aqui volta a intervira teoria clos analisadores com me- dlagdo entre a experiéncia e qualquer conhecimento "verdadei- ro" tanto no nivel de nosso compo como no das constrgdesinte- lectuais mais abstratas, passando pelo nivel da consciéncia social edo saber social. Aideologia da anise, seu sistema conceitual, ‘bem como seu corpo e seu sexo sio elementos do dispositive analisador, ‘Quando o psicdlogo social experimentalista procura validar ‘uma hipétese baseada em conceitos como influéneia ou agres- sividade relativa, €evidente que uma grande parte (no quanti- ficsvel2) de seu “material experimental” ests constitutda pela ‘adesto mais ou menos racional e consciente que ele manifesta OBIETO E METODO DA ANALISE INSTITUCIONAL 85, quanto as teorias ideolégicas, sistemas de moral em que tais coneeitos desempenham papel importante ou secundio, Eexa tamente neste sentido que se pode falar acerca das relagdes que © experimentador (e pesquisador) estabelece com seu objeto, {quaisquer que sejam as pretensdes de neutralidade relativa que ainda encontremos hoje na pena de certos pesquisadores em cinciassocias. A distingio entre objeto real e objeto de conhe- ‘imento, embora possa ser til em certasfases do estudo, deve ser criticada e negada como uma recafda no idealismo cientii- cista, avatar do idealismo religioso. Aquilo que habitualmente se considera escoria da cigncia ~ os inconvenientese limites 20 pponto de vista neutralista ~ deve ser, pelo contrario,colocado rho centro da investigagio. O importante para o investigador ido 6, essencialmente, 0 objeto que “ele mesmo se di” (segun- doa formula do idealismo matemtico), mas sim tudo o que Ihe dado por sua posigo nas relagbes sociais, na rede institucional ‘A pattir dessa perspectiva, fica evidente que a maior parte dos artigos que aparecem nas revistas académicas ~ de sociologia, fu de psicologia, por exemplo ~ S30. quase 40 “sérios” como as segdes de horsscopo dos jomais. Imaturidade da teoria Quando a andlise institucional em situagio de intervencio (Gocioanalise) for conhecida e reconhecida como prética social, ‘a9 menos em certs setores do sistema social; quando ela tiver definido.com maior preciso seus objetos, suas estratégias e suas formas especficas de atuagio, certamente se poders it mais lon- ge. Atualmente, a situagio paradoxal consiste na necessidade dle construir a teoria, a prtica ea intervengao a partir de cates. de situagdes incompletas, de pequenos fragmentos de interven- fo realizados rapidamente, com poucos especialstas praticos bbem formados e com poucas ocasides para formé-los. Entretan- to para poder intervir de forma mais profunda, mais ampla, ot soja, no somente durante quatro dias de sessdes esim durante meses e anos, seria necessério dispor dessa teoria geral, que 56 86 Rene Lounay, progredirs efetivamente quando forem reunidas condigdes de trabalho demorado, Nesse momento, a prsquistapio teré dado lum passo decisivo. Porém mao estamos nesse momento, A sk tuagioatual da intervencio institucional nos parece sera seguin- te as intervencbes curtas¢ limitadas, walizadas em um setor ‘gualmente limitado de instituigdes culturais e religiosas, no permitem ir muito além de um nivel descritivo dos funciona ‘mentos, sob a forma em que aparecem quase imediatamente, pss poucas horas de consulta, e/ou desde o momento da andl se da encomenda, Seriam necessarias intervengoes muito mais, lextensas para comecar a explorar ea reconsteuir 0 conjunto de ‘uma formagao socal na medida em que esta se simboliza ou se reste em uma forma social determinada (escola, fabrica, hos- pital etc). A teoria psicanalitca e a prética terapéutica no te Flam avangado muito se o nximero de sess6es jamais houvesse tultrapassado cinco ou de, Hoje em dia, para alguém que tome { obra de Freud apenas no nivel de seu discursoarticulado, me- dante uma abordagem filosdfica ¢ contemplativa, 0 resultado ‘aparece, em sua totalidade, acabado, sem mostrar a base de pes- {uisa-agio eas condigaes cle busea que permitizam a construcso de tal discurso, Devese frisar que os problemas ditos tenicos esto muito menos explorados.” Tralee él. Abra com monogrfia de ntrvenges ete cium sonore carta drag (quatro ou cinco las em media). et {amber ums tend intervened sacanalle, Bem coma uma aalise “intel das intrvengie om ssc dinette lipo (ps mi gs den apne com mi mo ESTUDOS HISTORICOS SOBRE A CONTRAPEDAGOGIA* Preladio ‘A stair 06 rEQUENAS INFORMAGOES que aqui apresentoso- brea pedagogia liberia e a pedagogia tocilsta no tem in- tenio de ser uma verdadeira pesquiss historic. Eprincipalmen- teuma aproximagio, um sobrev6o do problema do confit ent duns cortentes do movimento revoluconstio no campo da edi- ‘agi, até hoje pouco ou nada abordado. ‘A vitora dos marxstas na Primera e na Segunda Intemacio- ras desencadeia dua rages entre os dscipailos de Bakunin: Violéncin da propaganda por meio da agio e via paciica da propaganda pel discursoe pela educagso. Nascem assim as ox- periéncias pedagégieas na Franca, na Espanha, na Suiga (pals onde os anarguistas so poderosos) em outros pases ‘Afalénca da Segunda Internacional e a reviraveltas que se sucedem 2 Primeira Guerra Mundial provocam, na Russia © na Alemanha, movimentos pedagogicos que se confrontamy socia- listas liberties, A reincdéneia desseenfrentament far nas cer, mais tarde a “eclucagSo nova” ligaglo com as inovagbes fem ciéneias humanas~ sociologa,psicandlise,pricossociologi, Psicologia infantil * Blades Nstrigues sr I conte pag”. Pratins de Frain ~ An le “René Lora aay water et Suction” Unie de as Vi Par, 2, Tet data de 193 sem malas ern) Tra. Pasi Shnoen 88 RENE Lounay ‘© movimento pedagégico da Escola Moderna (Freinet) resulta ddessas diversas tentativas. Ele reatualiza, igualmente, 0 confito entre a pedagogia socalista,autortaria, ea pedagogialibertaria, iio autoritira, 'A insuficincia ou dificuldade de acesso aos documentos ex- plica parcialmente as lacunas e os eventusis erros nos estudos, apresentados a seguir. Com efeito, no que tange a0 anarquismo francés, ovanguardismo pedagégico nao se resume as experien- cia citadas, Podemos dizer © mesmo em relacio & Espana, 3 ‘Alemanha e a Russia, sem falar nos paises que nem sequer sto Jevados em consideracao, Ademais, a lacunas forgosamente pro- vocam uma dificuldade na apreciacio da importincia relativa das experiéncias mencionadas, ou no estabelecimento de rela- es, filiagbese influéncias.Crcio ter apresentado um esboco de analise socioldgica suficientemente correta apenas a propésito de Ferrer e de Makarenko. Futuros pesquisadores poderdo utilizar esses esbogos para que 1 pedagogia libertatia, muito menos estudada hoje que a socia- lista, ganhe seu devido lugar Compreenderemos melhor, entio, vrios aspectos da pedagogia nova. As telacdes entre o.contexto politico, de tum lado, eo contexto politico-ideoldgico, do outro, sero elucidadas. Evitaremas, assim, reduzir a genese das ciér- cias da educagio as “influéncias" respectivas da psicanalise, da sociologia, da psicossociologia eda psicologia infantil A génese tedrica das ciéncias da edueacdo serd nao $6 completada, mas revisada pela acentuagao da relevancia de sua génese social. Fis, (sama importante aplicagao da analise institucional A quase fotal auséncia de informagoes sobre a pedagogia libertira, até mesmo nas obras que tratam da pedagogia socia- lista, é uma das razdes do presente estudo. Nao por acaso tal informacio nos falta ou ests completamente deformada. Essa falta essa deformacdo sio produtos socials, e no disfungoes dda socieciade.Trata-e do que denominamos spite Weber ~perda progressiva de informagao, de saber social, } medida que tal oa {ual setor da sociedade (a educacio, por exemplo) se racionali- za ese torna cada vez mais importante ESTUDOS HISTORICOS SOBRE A CONTRAPEDAGOGIA 89 A partir dessa constatacio, a sociologia tradicional (também a mais moderna tecnicamente) conclui ser necessaria uma en ‘quéte destinada a substituir a “consciéncia ingénua dos atores socinis" pelo saber cienifco. Pazendo isso, ela reforga 0 feito Weber, cbjetivando o movimento, pondo-0 em sistemas ox esto- ‘cando-o em “bancos de dados” ~em material separado, de qual- quer modo, do saber social ‘A andlise institucional, o contrério,tenta encontrar a genese social que explica o efeito Weber. Para tanto, lanca-se a0 estudo s6cio-histérico dos movimentos socais, de sua institucionalizacio decorrente do fracasso do projeto inical, Temas aqui o feito ‘Milhlmann, definido pela fungio de recalque, de instituciona- Tizagio, que preenche o fracasso da “profecia” iniial. No que conceme & pedagogia, ¢ 0 movimento revolucionaio, com suas tendéncias elutas interna, suas vitsras, suas interrupsoes e fa- «cassos, que se expe por tr da plicida “historia das ciencias da ceducagao". ‘A institicionalizagso 6 um processo permanente e significa 0 contrério de uma fxagio, de um estado de paralisia. O movi- mento agita sem cessar as tentativas de institucionalizacio, mes mo os periods de ordem rigida ede represslo.Tratase do eelo ‘anaisudor, que inelica como os acontecimentos apatentemente secundérios, a crises, revelam as forcassociais nao “representa- das” ou que nao se reconhecem na representacao que a institi- «6es produzem e garantem, (Os efeitos analisadores também tém por conseqiencia a reve- Iago das relages entre nese teéricae génese social; em outras palavras,Iembram os limites © 0s pontos cegos da cigncia. Os ‘analisadores desafiam os analistas ao assinalar que a cignca, & medida que progride, tem tendéncia a "esquecer” as condides de sew aparecimento, de seu desenvolvimento, por tris dos im- pperativos do “objeto” e do “método”. F 0 efilo Lukics ~ prod- ‘80 do nio-saber pela codificacSo particular de alguma discipli- za, pela colocacio num sistema, pelo recorte de um “campo” & rejeigdo de tudo o que existe antes e em tomo desse campo. Co- inhecemos bem o exemplo dos fisicos que “descobrem” 0 senti- 90 mene Lounau 4 politico-miltar de suas pesquisas, dos psicslogos ou socislo- gos que se “descobrem” agentes da ordem estabelecida (0 efeito Lukics conduiz, enfim, & necessidade, t30 maleo- inhecida até agora, deanalisar as implicacées do pesquisador, do ‘bservador 04 do interventor (todo pesquisador, de fato, “inter ‘vém", assim come todo observador,independentemente do quiio reutro e desimplicado seja em imaginagio). Trata-se do elo Heisenberg que, no presente estudo, se coloca nos seguintes ter- ‘mos: por que escrever sobre este tema?; com que objetivo (para {quem?; a que eanal dle transmissao estas paginas chegardo para ‘Serem lidas?;serso fotocopiadas por meus estudantes de socio Jogia em Poitiers e em Vincennes?; haveré apenas algumas ¢6- pias para mostrar aos amigos?; virardo um artigo de revista?; fario parte de um dos livros que escrevo ou reescrevo no me- mento?;transformar-se-do em sma brochura? ete); como tive a idéia de comecar a escrever sobre este assunto?; por onde e por que comecei?; 0 fato de eu ter sido membro fundador do GPL (Grupo de Pedagogia Institucional) ~ junto com Fonvieille e [essires (dissidentes do movimento Freinet), Florence Ribon (que se suicidou em 1973) e Yves Janin, ambos estudantes na Sorbonne, além de Lobrote Lapassade ~ explica suficientemen- te meu pequeno estudo sobre Freinet e seus prolongamentos? “Minhas referéncias, cada ver mais claramente libertérias em ter ‘mos de sociologia politica de sociologia da educacio,justfi- ‘cam minha curiosidade, sem diivida muito intelectualizada, pelo periodo 1870-1914 e pelo anarquismo espanhol? Mew standing de “socidloga” mais ou menos marginal (na itlligensia sena0 nna universidade) exige que prossiga com pesquisas no dominio dda educagso, embora me sinta solicitado por outras curiosida- des ou pelasexigenciasligadas a minha prética,& minha vida co- tidiana, aos problemas insoldveis com es quais me defronto ou «dos quais fujo em minha dissimulagao social e em meu corpo? feito Weber, efeito Muhlmann, efeito analisador, efeito Lukécs,efeito Heisenberg. .O que me forca, hé algum tempo, ‘por em segundo plano o aprofundamento da teoria da in- tervensio socioanalitica (andlise institucional em campo) p: EsTupos HisToRicos so! ra me refugiar na construgio de um método de anslise sdcio- historia? Implictamente, opto assim pela Tuta ideoligica que sempre desprezei porque ela coincide, em parte, com 0 modo de a0, institucional ~ por meio da escritura, do lio, do discurso. Por ‘mais que continue a colocé-la acima de tudo, tomo distancia da ‘go antinsituconal, quer se trate do mda de fondo institucional (violéncia ativa ou por deserga0) ou do moda de apo contains titucionl (do qual, por sinal, a pedagogia libertériafornece de- -monstracdo bastante nitida). eA CONTRAPEDAGOGIA 91 ‘Melos livres e escola libertiria na Franca E sobretudo apés o periodo de propaganda sob a forma de atentados que se desenvolve na Franga, nos anos 1895, a peda- ‘gogialibertiria, Os partidrios da propaganda pela ago educa tiva raramente s80 08 mesinos que os adeptos da violencia © da reprise au tas*(assalto, desvio, roubo, podendo chegar a0 assas- sinato) Entre os fundadores ou animadores de experiencias pe- dagogicas libertirias encontramos nomes conhecidos como 0s deSebastien Faure, Paul Robin, Louise Michele Jean Grave, bem ‘como nomes menos conhecides. Um ponto comum a todos es- 50s pedagogos, tedricos epraticos,é ver na agdo contrapedagézica ‘um prolongamento da propaganda através de jornais, brochu- 135 livros eincessantes conferéncias por todo o pals. (Os anarquistas nao se propoem a destruir a escola pela vio- Jencia ou pela deserca0 generalizada. Criicam e rejetam a ins- tituigao escolar oficial e querem substitu-la por uma contra- Insttuigd0, uma “escola paralela” azant la lettre, suscetivel de cexperimentare validar os prinespios anarquistas em sm dos r2- rs setores da sociedade (além da familia) onde se dispoe de re- lativa iberdade de agio. 7 apr a expres sem correspondents em ports Una traugto ‘prsimada ei “servirse na cas do cs” ou "apanar og guise fn dos eos (N. dO). 2 RENE LouRaU A nogéo de mio lore, que freqitentemente substitui a nocio de escola, indica a orientacao contra-institucional da pedagogia libertdria: Meio livre de Vaux (1902-1906), fundado por Butaua, {que animars mais tarde outra experiéncia em Saint-Maur (1913). Meio livre de SoinGermain-em-Laye, do qual um dos anima. dores & Lorulot, futuro fundador do joral anticlrical La Caote, © 0 outro ¢ Emest Giraud, que erd preso antes do fim da expe- rigncia (1906-1907) por causa de suas atividades na propaganda Wertaria, ‘Se 0 meio livre suigere um projeto que ultrapassa a nocio de escola, podemos dizer o mesmo da nosio de coldna, que reen- ccntramos na pedagogia socalista (em Makarenko, por exer plo) e sera generalizada pela educagso nova nas colénias de f&- ras, Tal como o meio livre, a colonia supde um territério, um ambiente completo, “ilhota” ou “isolado cultural” que se tenta controlar para manter a0 abrigo de influéncias perversas. O it- ‘mio do conhecide ananquista Emile Henty-Fortuné funda uma colénia em Aiglemont esta agio, qual a dos fundadores de meios livres, inscreve-se numa existéncia consagrada a0 jornalismo e as viagens de confersncias. Apesar de reduzidas e geralmente de pouca duracio, todas essas experiéncias se desejam exempla- res. Fazem menos barulho que as bombas de Vaillant ou de Ravachol. Louise Michel, heoina da Comuna de Pars, recuss-sea retor- nar imediatamente a Franca apés a remissio de pena de que se beneficiou na prisio-exllio de Numéia. Prefere continuar pro- fessora dos Canaques. Regressando A Europa, gerencia uma es cola fundada por um grupo libertrio de lingua francesa em Lon- des (1890-1895), Posteriormente se lancard, ou seré langada, em Incessantes conferéncias por toda a Franga. Em uma dessas vise gens, doente e esgotada, encontra a morte. Morte aparentemen= te pouco hersica, mas, de qualquer forma, a servigo da Idea, (Outra experigncia tem, como contexto politce novo, 0 cas Dreyfus, Aagitacso de idéias eas aliangas produzidas pelo caso favorecem trocas entre insttuigbes culturais paralelas: 0 Colégio, Livre de Ciencias Sociais, por exemplo, fomece conferencistas is £sTU0OS HISTORICOS SOHRE A CONTRAPEDAGOGIA. 93 Universidades Populares em 1896 e 1897. £ também neste on texto que se situa a cracio da Escola itertria ‘Ascolalibertvia &fandada em 1897 por Degas, um pro fessor destituido do cargo, Ardoun,Janvion e Jean Grave, dire torda revista anarguita Les Temps Noutens,excLa Récleex-Le Réeolt (denominagio da epoca em que os lieres anarquistas Kropetkin e Eiyse Recs ¢fundaram na Su). “Todo mundo reclama do ensino oficial” ~ decara Jean Grave cm suas Memérias (Quarante ans de propagate anarchist, Flam ‘marion, 1973) E prossegue: “Ele faz papagaios, mata e=pti- to rtco dos ndividuos em vezde suscitle. Porque no tentar uma escola em que oensino sea ofrecdo em bases raconais” “Foi empreendida uma campanha para recoher dinheiro” Porém um cos animadores encarregado de coletar recursos re solve ocupare simultaneamente de duasoperagtes. Assim, do inhi recoido, so uma part va ara a Escola ibertria, Em 1885, 1.80 franco esto &disposigio dos contrapedagogos. Desta soma, 800 francos dados por escritores anargulsts Ou simpat- antes da causa, como Zola, Mirbeat, Alalbet,e mesmo Léon Daudet e Bares (em seus periodos de grandes ¥0os e “injria ra ponta da lingua"). De fato, a soma recolhidaé insufcente pars crir uma verdadeira escola. Os contrapedagogos conten- fame, entao, em langar 38 “ferns liberirias”. Algumas deze- nas de criangas serao levadas& praia ‘Quanto prtica pedagigica nessa colbni de fris, Jean Gra ve se limita atelatar um incidente menor, embora bastante re Yelador. Certo dia, Dégalvés (0 antigo professor desttuie) da Um "Tiger apa” numa erianga. Eis um novo “caso”, em esca- In micrscépca! O astto Janvion (0 que se tii, com certs Iiberdade, dos fundos recolhics) volta-e contra Dégals, que sbandona a experincia. “Depois da tentativa da escola de Fras, na falta de algo me thor organizamos cursos noturnes a eriagéo de uma verdadeira escola permanece em estado de sono” ~ conclu Jean Grave ‘A incatva de criar as Universidades Populares (para adul- tos) ea Escola ibertra inspira-se nas idéas e experiencas do 34 RENE Lounay. pedagogo anarquista Paul Robin (Ferrer, que manteré relagies regulares com Jean Grave, $6 dard inicio a sua experiéncia al guns anos mais tarde). Robin fora professor de Hicew, mas se tlemitir. Apés a desercao (1865), entra para a Primeira interna- ional na corrente anarquista proudhoniana, que fornecerd os quadros dirigentes da Comuna. Rapidamente se une & corvente de Bakunin, Em Genebra, foi secretirio da Alianca Bakuniniana, ‘ago das técnicas Freinet”. Dez anos apés a polémica como PC, ainda a teoria que & posta em questo, mais do que a prética fem seu aspecto tecnico (a cooperativa escolar, 0 diario, a corres ppondencia, a imprensa etc). Mas se Oury e Fonvielle estio de ‘corde em achar insuportivel 6 trabalho no interior do movie ‘mento, apidamente as divergéncias... tedricas io separé-os, ‘Oury val inscreverse cada vez mais na poderesa corrente da psi= ‘canilise lacaniana, da psicoterapia institucional, dos psiquiatras da clinica de La Borde (cujo médicorchefe era, ¢ ainda é, seu ir ‘io, o doutor Jean Oury,e da qual Guattari era, e ainda é sem hvida, older ideologico) Ja as preocupactes de Fonvicille vol- tam-se preferencialmente para o lado politico: 0 da autogestio, cima de tudo, Em 1964, uma intervengio de Lapassade e seu grupo de psicossocidlogos (0 Caip) niima reunido geral do GTE cristaliza as tensbes existentes: Oury cria no interior do GTE, ou melhor, ras suas franjas, um GET (Grupo de Educagio Terapeutica) que institucionaliza a obediéncla psicanalitica, entio dominante em 108 mene counnu clencias da educagao.© jogo de palavras através do deslocamen- to de letras na sila evidencia im entrismo e um deseo de po- der cujo resultado sera demise de Fonville da presidéncia do Conselho de Adminstragio do GTE (1966) verdade que Fonvielle, em paralelo, também sentenecessdade de orienta mais fortemente sua ago e refledo no sentido de um questior namento pedagogicoe politico, o que dard origem ao GPL, do qual ser membrofundador ‘Com efeto, quando do retomo a alas de 1964, poco tempo depois da crise aberta no GTE, Fonville Besites (out ds sidente do movimento reine!) rocebem em sas lasses de tan sigio de Gennevillirs dois estudantes temporirios de Lapassade (entao pesquisacor do CNRS) como observacores das experéne Cias pedagogicas. Os problemas naseidos da observasio psicos socildgca, mas, sobretud, das implicagaes politics tanto dos ‘bservadores (0 dois estudantes, Yes Jann e Florence Ribon, ‘io mlitantes da FGEL, origem de muitos dos ativstas do mo. vimentoestudantil de 1968) como dos observadosfazem que os dois estadantes 08 dois professors, de comum acordo, demar dem a dua outas pessoas ~ a Michel Lobrot ea mim mesmo = Gque a ‘cles se juntem em reunides que podemoschatnar de "= pervisio". Nasce, com iso, 0 Grupo de Pedagogia Istitucional (GP», Fm seguida, vrios professors dos tres graus, estates de losofia,desociologia, de paicologia, pucologos e picossocis Jogos, bem como “desviantes” do grupo Sails ou Barbarie se agregam a0 GPL Tm 1966, uma das adesbes mats sigifcativas€ a de Michel Faligand e seus amigos do inatituto Parisiense da Escola Moder- na (ipem); melhor dizendo, da seco “lede-France” do movi mento Frenet. A crise entre 0 grupo Faligand-Bonbonnelle © Freinetestava em gestaio desde 1964, Em 1966 ela elode ca- ramente, entre um Freinet desejoso de cerrr fieras em tomno de sua pessoa esas posigies eos professores volta com di ficuldades que Freinet nto saberia resolver por eles. final, do gue se trata? ‘Sera interessante analisar essa crise decisiva do movimento EsTuos HisTORICcos souRE A CoNTRAPEDAGOGIA. [07 Freinet em termos de oposicio cidade-campo. Neste breve his ‘rico, contentamo-nos em levantar a seguinte hipétese:enquanto ‘© nlicleo do movimento, com Flisée e Célestin Freinet, a escola dde Cannes (espécie de “Summerhill” do Mestre, em circuito fe- cchado) e as organizagbes pedagdgicas e econdmicas do mo- vimento - Instituto Cooperative da Escola Moderna (ICEM) ¢ ‘Cooperativa do Ensino Laico (CEL), ésimultaneamente centra- lizadore provincial, o IPEM ¢simultaneamente urbano (parsien- se, ligado & centralizago intelectual da capital) e “regional” (de [pendente, caso comparado a Cannes). oposico cidade-campo ji estava fortemente atualizada nas polemicas que Frenet e seu ‘movimento ha muito mantinham com os “professores de Pars", ‘com as ciéncias sociais, com as novas tendéncias pedagégicas, principalmente a nao-diretividade rogeriana (Lapassade.e Lobrot [ssistiram a alguns congressos do movimento), Para os profes- sores de Paris e da regito parisense, a aplicagio das téenicas Freinete, conseqiientemente, a utilizagSo do material fabricado fe vendido pela CEL despertam questoes. O mado de vida urba- ‘nono se presta muito ao naturalism dos metodos Freinet Para ‘uma classe parisiense (ou de qualquer grande cidade), onde ests {2 “natureza”,cujo hagar¢ tho importante nos métodos de apren- dlizagem do movimento? As distincias, os tipos de relagdes, de transporte, de tras, nfo so 08 mesmos na cidade e no cam- po. Além do mais, Paris induz nos professores uma forte neces- Sidade de diseutir e aplicar métodos recentes, vindos da psico- Togia eda psicossociologia. A relagio professor-aluno, 0 problema [B6gico apropriado, .. Devemos nos esforcar em fazer que & ‘rianca compreenda que se trata de renunciar a um ganho de prazer, mas, simultaneamente, devemos darlhe a possibili dade de substituir 0 prazer abandonado por outros prazeres sociais eculturais superionese valorizados, [Abandonada pouco a pouca pelasinstituigdes que a garan tiam, a experincia¢ sustentada, nos seus tltimos tempos, pelos sindicatos alemaes de mineiros, antes desucumbir defiitivamen- te, No mesmo momento, através de métodos completamente ‘opostos, Makarenko obtém “brilhantes” resultados com os anti- gos “malandros” makhnovistas! ‘O que impressiona no relato feito pelo pedagogo sovietico sete anos depois do fim de sua experiéncia (em 1935) € a obstinagio ddo combate levado a cabo contra as seqiielas da pedagogia li- bertaria presentes nos meios pedagogicos oficais da Russia. Em 114 mene Lounay Pema pedagic, eses tsricos a0 estilo Ferer, esses profetas de ‘um homem comunista livre da submissio e do militarism her- ddados do periodo tzarsta nao tém um belo papel. Para Makaren- ko, tudo 0 que cheira a rousseauismo ¢ pura ilusio desses se- rnhores da cidade (pensa-se aqui, inevitavelmente, na hosilidade {que Freinet sempre manifestou por teorias pedagigias diferen- tes da sua, pelas ciéneias humanas e, em geral, por tudo o que tivesse a mareada cidade: a oposigao cidade-campo também deve ser levaca em conta na compreensio da experiéneia Makarenko). ‘Uma ideologia bolchevista baseada em apelos militares as proezas dos exércitos vermelhos ~ completa a teria pedagégica {de Makarenko, Procuraremos em v0, em seu longo rato en- trecortado de teflexdes ésperas, alusdes precisas ao clima polt- co que serviu de contexto a sua experiencia de oito anos. Até 0 final, permanece como referencia tnica o perfodo de luta polt- «xe militar do novo poder contra seus inimigos internos. Duran- te oito anos, Makarenko manteve a lembranga desse “periodo herdico”, ignorando, ou Fingindo ignorar, o refluxo da revolu- «io em 1919-20, os cortes nas experiancias mais audaciosas ~ como a de Vera Schmidt -, a reviravolta da NEP, as conseqién- cias do afastamento e da posterior morte de Lenin, as lutas da ‘oposicio operatia, os grandes conflitos e debates politicos nos congressos do partido ou dos sindicatos, a lenta mas segura as- censio de Stalin, 0 conflito StilinTrotsk, a derrota do ultimo © dla oposicio de esquerda no momento em que ele préprio, Maka- ronko,¢forcadoa se demitir (1928), no momento em que os “tes- ricos” da pedagogia apresentam, nas jomadas Internacionais de Pedagogia Proetria de Leipzig, teses muito similares as suas (edu- «agi pelo trabalho, recusa do lise fare, educasao centrada me- ‘nos na erianga do que nos objetives das “massas" etc.) Do "pe- riodo hersico", Makarenko evoca sobretudo 0 episddio do _makhnovismo, jf que a “colonia Gorki", da qual 6 encarregado, situa-se na Ucrania: dentre seus primeiros delingientes, muitos ‘vém dos bandos de Makhno e, durante um certo tempo, 0 cima ident internation communitect ede Maser, 1972 EsTUDOS HISTORICOS SOBRE A CONTRAPEDAGOGIA 15 anarquista € lembrado, a fim de ser mais bem liquidado, sob a forma de jogos de papéis, de sociodramas “espontincos". Na slescendéncia direta do leninismostalinismo, © movimento re vvolucionério anarquista da Uerania ~ do qual s6 agora comeca- ‘mos a ter alguma nocao, apés quarenta anos de recalcamento & dle falsainformacio, sabiamente mantidos ~ € considerado, por Makarenko, um triste episodio de “delinguéncia” politica. Os teditores, em Moscou, das edges em lingua francesa se conten- tam em assinalar, numa nota de pé de pagina: “Makhno, chefe cde um bando contra‘evolucionsrio que operava na Ucrania d= rante a guerra civil”. Eis o amalgam entre anarquistas contra revolucionsrios estabelecdo em potcas palavras! Os “negros” € (0s "brancos", © movimento revoluciondrio anarquista e a reacao, tzatsta 30 postos no mesmo saco. ‘As relagdes entre anarquismo ¢ delingiiéncia ~ virias vezes :essltadas pelo proprio Bakunin e dolorosamenteassumidas por te6ricos como Jean Grave a época dos atentados ~ so mais es tteitas que entre delingugncia e marxismo, Uma das divengén- cias tedrias entre os dois grandes rvais da Segunda Internacio nal reside na apreciacio do papel do subproletariado.” Mais recentemente, vimos uma reatualizagio desse debate a propé- sito do papel dos pros, dos blowsons nois, dos enrages* nas re voltas da juventude durante os anos 1960. Uma das conseqién- cias tedricas desse problema socal interes que a peslagogia institucional tem pelos desviantes, na medida em que provocam efeitos analisadores quando de experiéncias pedagégicas ou in- tervengdes de campo. Em 1920, o Ministerio da Instracao Publica confia a Makarenko a diregao de um centro de delingiientes: a coldnia Gérki, na Ucrania. De inicio, 0 jovem pedagogo se atribui a missio de do- ‘mar os adolescentes. Estes esto marcados pelos anos da guerra 5 Oproble fo bem expt plo vel bertro Maat er sua pm ‘com Monat Grate urn dos primo congresor da COT Ct Jan Naton Riots ee ard Col. Acives liad p52, + Ostesmos fram proposalmente mands no oma gal pore fe reo denominagie ips do malo de 8 anes (N do). 116 RENE Louray. civil. Alguns combateram ao lado dos exétcitos anarquistas de Makhno. Makarenko impée sua autoridade por todos os meios, incluida a agressio Fisica Rapidamente sua pedagogia, baseada na disciplina “bolche- vista” eno trabalho, derrota os rebeldes. Gragas ao trabalho da fazenda, & exploragio da florestae a introdugio de oficinas, a colania vive quase como uma autarquia, A organizaga0 mate- rial, em principio atribuica a um ecinomo, é de fato uma das principais atribuigdes do pedagogo. Para Makarenko, a base ma- terial da instituigio € uma ferramenta pedagogica privilegia- dda. Como ela determina, nesse periodo de escassez, toda a Vida social da Russia, ¢ normal que determine também a vida social dda colonia Gorki, Os delinguientes s30 divididos em “destaca- ‘mentos” ou equipes fxas, comandadas por chefes,cuja reuniao forma 0 conselho dos comandantes ~ érgio de co-gestio da coldnia. Para responder 8 exigéncias irregulares do trabalho agricola, so também organizads destacamentos nao fixes, com rodiio dos comanclantes. Sendo assim, em certos momentos, comandantes de destacamento podem ser comandados por ca” ‘maradas que, em geral, esto sob suas ordens. Esta 6 a primeira “instituiga0” (Makarenko dist) da pedagogia de Makarenko. A, segunda sera a incorporagao moral e material dos delinguentes trabalhadores: quem nao trabalha é submetido a um rade regi- ime de represilias; a “honra” da coldnia, 0 senso de “dever" comunista, 0 saldro, enfim, constituem os fatores de incorpora- ‘io e de participagso, Temos af um principio que se veré cada ‘ez mais aplicado, no curso dos anos que se seguem a revol- ‘ao, na maior parte dos setores da industria, A emulacio, a com ppetisao, 2 concorréncia entre grupos de trabalho e entre tabs Thadores, na mesma época em que se desenvolve, na América, a pslcossociologia industrial, constitui um elemento essencial na "construgio do socialismo"." ‘Onmétodo de Makarenko nao ¢aceit faclmente pelas autori- dades pedagigicas. A militarizagio da vida cotidiana faz que Tapia principe iss destination ral, Eons de Mosca, ESTUDOS HISTORICOS SOBRE A CONTRAPEDAGOGIA 17 receba o nome de “pedagogia dos condecoracos" (vale lem- brar que, 3 época, Stilin ainda nao tinha restabelecido as paten- tes nas forgas armadas). Nos antipodas do self government expe- rimentado, no mesmo momento, nas comunidades escolares de Hamburgo e em outros paises, 0 métedo utilizado repousava sobre © poder absoluto do diretor da colénia. Mas tarde, quan: ddo os comandantes passaram a ser eleitos em lugar de direta ‘mente nomeados por Makarenko, isto no representou “um pro- sgresso” , segundo este ultimo. Em 1926, € confiada a Makarenko a direcio de uma outra colonia de delinguientes, entdo entregue a grave crise. Apela-se a alguem que ji provara seu valor e sabers domar os rebeldes Makarenko transfere toda a colonia de Geérki para a colnia de Kouriage. O conjunto formado pelos colonos e seu mestre cons- titulo staf da intervengio, Os primeiros tempos so ainda mais ‘TOUUMAPASSEATA DE 100.000 MANIFESTANTES, OU QUAN: ‘TO UM DECRETO SOBRE © AUMENTO DO PRECO DO LE TE? v AQUELES QUE DISSEREM QUE © QUE ESTOU ESCRE- VENDO NO MOMENTO NAO E SOCIOLOGIA SAO LAST MAVENS. ‘Bem, ja € tempo de falar dos operrios e dos camponeses, Um pouco de seriedade, enfim! 124 Rene Lourau v ASOCIOLOGIA DEVE SER FEITA POR TODOS, NAO APE- NAS POR UM. F ISSO, A DIALETOQUE!” Julien, meu filho (quatro anos), acaba de escutar seu disco “can- ses de tum marginal”. Pergunta se pode usar minha méquina {de esrever, Permito, bfanclo, No momento, excepcionalmente, eserevo com uma caneta Bic. wl DDescasque as batatas e as cenouras, Pego minha Bic para fa- lar de camponeses e operiries. "Mas pra qué? Um intelectual falar de opersrios ¢ camponeses para outtesintelectuais, voce vé grande interesse nisso? (OS OPERARIOS. Meu pai é um velho operério. Trinta anos ‘no mesmo emprego. Ao set primeiro patrao, ele chamava URSO. ‘Quando o URSO se aposentou, o subiretor osucedeu, Meu aio chamava de TIGRE. ‘OTTIGRE se aposentou. Um rapaz que meu pai conheceu quan- do ainda era bem menino foi nemeado diretor. Era liberal, com ppreensivo e tudo 0 mais. Foi destitulde pelos “grandes pa- toes" de Toulouse e de Lido. ‘Af tém, quanto aos operatios. E AGORA OS CAMPONESES. Quando eu era crianga, ajuda ‘yaa juntar as vacas com 05 camponeses, vagamente amigos de ‘meu pai. Ele 08 ajudava na colheita do feno, do milho e das lavas... Para conseguir lete,ov0s ete Anda eraa época das res- trigdes do pés-guerra. ‘Um dia, me aproximo dos camponeses para apanhar leite. Meu pai, que almoca com eles entre dois turnos de trabalho, escuta ‘ camponesa dizer, 20 ouvir o barulho de minha bicicleta:“En- No original “dialect” come conrapontoiebico«“daletiqu”) (No 0. PEQUENO MANUAL DE ANALISE INSTITUCIONAL 125 couére u mour de hamil” ~na lingua de Béarn.*Saem os campo: vit Eo que tem a vera anslse institucional com tudo isso? Volte a0 primeiro paragrafo. Destaque a palavra CRISE, Bom, Mas, em caso de crise, 0 que fazemos? Lutamos sozinhos, a dois, a trés, adez, a vinte, para que fdas as pessoas envolvidas na situacio se encontrem, falem entre reconhecam juntas 0s analisadores da situacio, decidam coleti MAS ISSO f TERRIVELMENTE CRISTAO! Efetivamente. Entdo, corte o precedente, menos a palavra LU- TAMOS. UMA LUTA PARA LEVAR AS ULTIMAS CONSEQUENCIAS (INCLUSIVE QUANTO ASI MESMO) A CRISE, EIS A ANALI- SE INSTITUCIONAL EM SITUAGAO, E NAO NO PAPEL - 0. PRESENTE TEXTO E APENAS PAPEL. vin PEQUENO SUPLEMENTO AO MANUAL Mas, se no existe CRISE, como fazer uma andlise insite Entio, dé wm ito para que el coda Para eso, em nossa pratleita de “instruments concituais

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