OCTAVIO IANNI

ESCRAVIDÃO
E RACISMO

EDITORA HUCITEC

São Paulo, 1978
©Direitos autorais 1978 de Octavio lanni. Direitos de publicação da Editora de
Humanismo, Ciência e Tecnologia Hucitec Ltda., Alameda Jaú, 404, 01420 São
Paulo, SP. Telefone (01 1) 287-1825. Capa de Luís Díaz.

ÍD/HL Compras M
~r$ (ao -00

SUMÁRIO

Prefácio

Primeira Parte

ESCRAVIDÃO E CAPITALISMO
Acumulação primitiva e trabalho escravo 3
/ Aspectos da formação social escravista 12
Expansão capitalista e crise da escravatura 19
V O senhor e o escravo '. 25
O senhor, o burguês e o escravo 29
Transparência e fetichismo da mercadoria : 37
Liberdade e mais-valia -. 42

RAÇA E CLASSE
Ra,ça e cultura 51
Casta e classe ,—' ' 57
Reprodução social das raças 64
Consciência de alienação ., *9
Consciência política 75 •'

Segunda Parte
ESCRAVIDÃO E HISTÓRIA
O presente e a idealização do passado 82
Eficácia e humanidade da escravatura 87
Tempo sem duração 91
O declínio da perspectiva histórica ., 94
A formação social escravista 96 /

ESCRAVIDÃO E RACISMO
Tipologias e ideologias raciais 101
Raízes históricas dos antagonismos raciais 111
A historicidade do presente 118
RAÇA E POLÍTICA
Significado político dos problemas raciais 127
i Antagonismos e conflitos raciais 128
J Condição racial e desigualdade económica 132
í A política das relações raciais 135
• Problemas raciais e contradições estruturais 140
PREFÁCIO
Toda análise sobre as relações entre escravatura e capitalismo, nas
Américas e Antilhas, tende a girar em torno de algumas questões
básicas. Independentemente das contribuições históricas e teóricas
das monografias e ensaios, em geral os escritos sobre escravidão e
capitalismo focali^arn QU£stécs~tais cojaek^s seguintes: .Como e por
queocapitalismo criaTQdesenvojyft^destror^ escravatura? Quando
T~cõrno as • contr^uliçéè>4«tcrtíasW-«*teffias, em cada uma das
, formações sociais escravistas, passam a desenvolver-se e
i manifestar-se de forma irreversível, ou revolucionárias, provocan-
l do a extinção do regime de trabalho escravo? Em que medida as
peculiaridades da formação social escravista e do processo abolicio-
nista, em cada país, influenciam, ou determinam, as peculiaridades
das formas de integração e antagonismo raciais após a extinção do
regime de trabalho escravo? Como se cruzam, ou não, raça e classe,
nos quadros das relações capitalistas de produção? Qual é a relação
entre capitalismo e racismo?
Essas questões são retomadas neste livro. Não pretendo ter
realizado uma discussão completa dessas questões. Faço apenas
uma ejtlocjUx-brevg- da~-pjxihlemáiit^ joamprej^dlda.. poxjdas.
Mas penso que essa exploração permite propor, ou recolocar, temas
de interesse para discussão e pesquisa.
Os trabalhos que compõem este livro são autónomos, no sentido
de que" cada um pode ser lido de per si. Entretanto, todos estão
reciprocamente referidos, quanto aos problemas que abordam. Em
conjunto, focalizam as questões mencionadas acima, sempre sob a
mesma perspectiva teórica. Foram escritos em 1974-76.
Quero agradecer a Heloísa Rodrigues Fernandes e Carlos
Guilherme Mota, que tiveram a gentileza de ler e fazer sugestões
sobre a primeira versão dos trabalhos reunidos neste livro.

São Paulo, agosto de 1977
CEBRAP-PUC Octavio lanni
J
PRIMEIRA PARTE
ESCRAVIDÃO E CAPITALISMO

Acumulação primitiva e trabalho escravo

1 Em primeira aproximação, parece um paradoxo o fato de que na
mesma época em que na Europa implantava-se o trabalho livre, no
Novo Mundo criavam-se distintas formas de trabalho compulsório.
Ao longo dos séculos XVI a XVIII, na Europa, primeiro expandiu-
se a manufatura e depois surgiu a grande indústria, ao mesmo
tempo que se generalizou o trabalho livre. Nessa mesma época, nas
i colónias do Novo Mundo, criaram-se e expandiram-se as planta-
fl tions, os engenhos e as encomiendas. O trabalho escravo era a base
• da produção e da organização social nas plantations e nos
>: engenhos; ao passo que nas encomiendas e outras unidades
íj produtivas predominavam distintas formas de trabalho compulsó-
1 rio. Tratava-se de dois processos contemporâneos, desenvolvendo-
se no âmbito do processo mais amplo e principal de reprodução do
i; capital comercial. O motor desse processo mais amplo era o capital
'.; comercial, que subordinava a produção de mercadorias na Europa
[g' 1[ e nas colónias do Novo Mundo e em outros continentes. Em
'•'l decorrência da maneira pela qual expandia-se o capital comercial,
• tn ]' criavam-se as condições çstruturais no seio das quais iria
j, desenvolver-se o capitalismo.JÁ medida que se expandia o capital
f comercial, amplamente dinamizado com os resultados dos grandes
Ij descobrimentos marítimos, isto é, devido à colonização de novas
terras e à formação de plantations, engenhos, fazendas, encomien-
das, repartimientos e haciendas, corria na Europa, e principalmente
na Inglaterra, a acumulação primitiva. Nesse país, de forma mais
acentuada e ampla que em outros, verificava-se intensa acumula-
ção de capital comercial, ao mesmo tempo que ocorria o divórcio
entre o trabalhador e a propriedade dos meios de produção,
surgindo assim o trabalhador livre. Em síntese, foi o capital
comercial que gerou as formações sociais construídas nas colónias
do Novo Mundo, provocando dessa maneira uma intensa acumula-
i cão de capital nos países metropolitanos, em particular na Inglater-
j rã. Devido à sua preeminência crescente no sistema mercantilista
mundial, a Inglaterra pôde impor à Espanha, Portugal e outros
países condições de comércio que aceleraram a acumulação de padrões de comportamento que compreendiam os princípios da
capital em seu território. Acresce que sob o mercantilismo os lucros cidadania, principalmente a faculdade de oferecer-se livremente no
eram bastante elevados. mercado, sem as limitações ou amarras das instituições gremiais,
patriarcais, comunitárias ou outras. Quanto ao capital, o processo de
acumulação primitiva envolveu intensa acumulação e concentração
As nações se jactavam cinicamente com cada ignominia que lhe servisse para do. capital, inclusive dos meios de produção. Apoiado na ampliação e
acumular capital. Vejamos, por exemplo, os ingénuos anais do comércio, do probo A. intensificação do comércio internacional, nos quadros do mercanti-
Anderson. Aí trombeteia-se como triunfo da sabedoria política ter a Inglaterra, na lismo, o capital comercial reproduziu-se em elevada escala.
paz de Utrecht, extorquido dos espanhóis, com o tratado de Asiento, o privilégio de
explorar o trafico negreiro entre África e América Espanhola, o qual ela realizara até
então apenas entre África e índias Ocidentais Inglesas. A Inglaterra conseguiu a As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das
concessão| dejfornecer anualmente à América Espanhola, até o ano de 1743, 4.800 populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da
negros. Isto servia, ao mesmo tempo, para encobrir sob o manto oficial o conquista e pilhagem das índias Orientais e a transformação da África num vasto
contrabando britânico. Na base do tráfico negreiro, Liverpool teve um grande campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcam os albores da era da
crescimento. O tráfico constituía seu método de acumulação primitiva ... Liverpool produção capitalista. Esses processos idílicos são fatores fundamentais da'acumulação
empregava 15 navios no tráfico negreiro, em 1730; 53, em 1751; 74, em 1760; 96, em primitiva (2).
1770, e 132, em 1792.
A indústria algodoeira têxtil, ao introduzir a escravidão infantil na Inglaterra Os diferentes meios propulsores da acumulação primitiva se repartem numa
impulsionava ao mesmo tempo a transformação da escravatura negra dos Estados ordem mais ou" menos cronológica por diferentes países, principalmente Espanha,
Unidos que, antes, era mais ou menos patriarcal, num sistema de exploração Portugal, Holanda, França e Inglaterra. Na Inglaterra, nos fins do século XVII, são
mercantil. De fato, a escravidão dissimulada dos assalariados na Europa precisava coordenados através de vários sistemas: o colonial, o das dívidas públicas, o moderno
fundamentar-se na escravatura, sem disfarces, no Novo Mundo (1). regime tributário e o protecionismo. Esses métodos se baseiam em parte na violência
mais brutal, como é o caso do sistema colonial(3).
Estes são os elementos do paradoxo: o mesmo processo de
acumulação primitiva, que na Inglaterra estava criando algumas O tratamento que se dava aos nativos era naturalmente mais terrível nas
condições histórico-estruturais básicas para a formação do capitalis- plantações destinadas apenas ao comércio de exportação, como as das índias
mo industrial, produziac-no Novo Mundo a escravatura, aberta ou Ocidentais, e nos países ricos e densamente povoados, entregues à matança e à
pilhagem, como México e índias Orientais (4).
disfarçada. Ocorre que a acumulação primitiva foi um processo, de
âmbito estrutural e internacional, gerado por dentro do mercantilis-
mo. Penso que é conveniente especificar um pouco melhor o O sistema colonial fez prosperar o comércio e a navegação. As sociedades
dotadas de monopólio, de que já falava Lutero. eram poderosas alavancas de
conceito. Convém lembrar que a categoria acumulação primitiva concentração do capital. As colónias asseguravam mercado às manutaturas em
envolve um conjunto de transformações revolucionárias, a partir das expansão e. graças ao monopólio.umai acumulação acelerada. As riquezas apresadas
quais se torna possível o desenvolvimento capitalista. A acumulação fora da Europa, pela pilhagem, escravização e massacre refluíam para a metrópole
primitiva poderia ser considerada o processo social, isto é, político- onde se transformavam em capital(S).
econômico, mais característico da transição do feudalismo ao
capitalismo. Como processo de âmbito estrutural, a acumulação
primitiva envolveu principalmente a força de trabalho e o capital,
nos seguintes termos. Quanto à força de trabalho, o que ocorreu foi (2) Karl Marx, Op. dl., Livro l, vol 2, p. 868.
um divórcio generalizado e radical entre o trabalhador e a proprie- (3) Ibidem, p. 868-869.
dade dos meios de produção. Historicamente, esse fenómeno ocorreu (4) Ibidem, p. 871. Quanto à violência inerente ao escravismo vigente no Brasil:
"Terrível, e lastimosa sorte é a de um cativo! Se come, é sempre a pior e mais vil
tanto na agricultura como nos grémios e corporações de ofícios. Ele iguaria; se veste, o pano é mais grosseiro e o trajo o mais desprezível; se dorme, o
se deu em concomitância com a criação de valores culturais e leito é muitas vezes a terra fria e de ordinário uma tábua dura. O trabalho é contínuo,
(1) Karl Marx. O Capital, 3 fivros, trad. de Reginaldo Sant'''Anna, Editora a lida sem sossego, o descanso inquieto e assustado, o alívio pouco e quase nenhum;
Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968 a 1974; citação do Livro l, vol. 2, p. quando se descuida, teme; quando falta, receia; quando não pode, violenta-se, e tira
da fraqueza foiças". Cf. Jorge Benci, Economia cristã dos senhores no governo dos
877-878. escravos (livro brasileiro de 1970), Editorial Grijalbo, São Paulo, 1977, p. 221.
(5) Karl Marx, Op. cit.. Livro l, vol. 2, p. 871.
38 por cento do total. Outros 6 por cento foram levados para os
Estados Unidos. Nas Antilhas britânicas entraram 17 por cento, e
Foi o capital comercial que comandou a consolidação e a também 17 por cento foram às colónias francesas da área do Caribe.
generalização do trabalho compulsório no Novo Mundo. Toda Por fim, outros 17 por cento foram levados às colónias espanholas.
formação social escravista dessa área estava vinculada, de maneira Cuba recebeu 702.000 africanos, ou seja, mais do que qualquer outra
determinante, ao comércio de prata, ouro, fumo, açúcar, algodão e colónia espanhola; ao passo que o México importou cerca de
outros produtos coloniais. Esses fenómenos, protegidos pela ação do 200.000(7).
Estado e combinados com os progressos da divisão do trabalho Ao mesmo tempo, foi amplo e intenso o intercâmbio comercial
social e da tecnologia, constituíram, em conjunto, as condições da entre as metrópoles europeias e as suas colónias no Novo Mundo.
transição para o modo capitalista de produção. Assim, para Esse comércio era comandado pelo capital comercial, controlado
compreender em que medida o mercantilismo "prepara" o capitalis- pelos governos e empresas estatais e privadas metropolitanas. Ao
mo, é necessário que a análise se detenha nos desenvolvimentos das longo de todo o período colonial - e principalmente nas épocas do
forças produtivas e das relações de produção. Mas para compreen- apogeu da produção de prata, ouro, açúcar, fumo, algodão e outros
der esses desenvolvimentos é preciso situá-los no âmbito das produtos -foi bastante elevada a exportação de excedente económico
transformações estruturais englobadas na categoria acumulação para as metrópoles. Tanto por meio das administrações metropolita-
primitiva. Nesse sentido é que a acumulação primitiva expressa as nas nas colónias, como por intermédio das empresas e do comércio
condições históricas da transição para o capitalismo. Foi esse o privado, as exportações coloniais excediam às importações. Apenas
contexto histórico no qual se criou o trabalhador livre, na Europa, e uma parcela do excedente gerado nas colónias permanecia ali, para
o trabalhador escravo, no Novo Mundo. Sob esse aspecto, pois, o a continuidade dos empreendimentos, das transações e das estrutu-
escravo, negro ou mulato, índio ou mestiço, esteve na origem do ras de administração e controle(S). Essas relações económicas,
operário.
É claro que esse enfoque não pretende desprezar, ou esquecer, as
condições particulares em que se constituíram e desenvolveram as
(7) Robert W. Fogel e Stanley L. Engerman, Time on thecross(The economics of
distintas formações sociais no Novo Mundo. Essas condições particu- American negro slavery), 2 vols., Little, Brown and Company, Boston, 1974, primeiro
lares foram responsáveis pela fisionomia singular assumida pela volume, cap. 1. Consultar também: Maurício Goulart, Escravidão africana no Brasil,
plantation do Sul dos Estados Unidos, a encomienda do México, o Livraria Martins Editora, São Paulo, 1950; Rolando Mellafe, Breve historia de Ia
engenho de açúcar do Nordeste do Brasil e outras formas de esclavitud en América Latina, Sep-setentas, México, 1973; Magnus Morner, Estado,
razas y cambio social en Ia Hispanoamérica colonial, Sep-setentas, México, 1974;
organização social e técnica das relações de.produção baseadas no Magnus Morner, Race misture in the history of Latin America, Little, Brown and
trabalho compulsório(6). Em cada caso (prata, ouro, fumo, açúcar, Company, Boston, 1967; Nicolas Sanchez-Albornoz e, José Luis Moreno, Lá
algodão etc.) entravam em jogo exigências específicas de capital, población de América Latina (Bosquejo Histórico), Editorial Paidos, Buenos Aires,
tecnologia, terra, mão-de-obra, divisão do trabalho social, forma de 1968; Arthur Ramos, As culturas negras no Novo Mundo, Editora Civilização
Brasileira, Rio de Janeiro, 1937; Roger Bastide, Lês Amériques noires, Payot, Paris,
organização e mando etc. Entravam em linha de conta a concentra- 1967.
ção maior ou menor das terras férteis, os depósitos minerais, o vulto (8) Enrique Semo, História dei Capitalismo en México (Los origenes: 1521-1763).
e a organização dos empreendimentos, a preexistência ou não de Ediciones Era, México, 1973, esp. p. 230-237; Caio Prado Júnior. Formação do
mão-de-obra local, o custo da compra e manutenção escravo trazido Brasil Contemporâneo (Colónia), 4" edição. Editora Brasiliense. São Paulo. 1953.
da África etc. Na base do arcabouço de cada formação social, no esp. p. 226-234; Roberto C. Simonsen, História económica do Brasil (1500-1820). 5a
edição, Companhia Editora Nacional, São Paulo. 1967. esp. cap. X I I I : Samuel E.
entanto, havia dois elementos fundamentais: o trabalho compulsório Morison, The Oxford history of the American people, Oxford Oniversity .Press. New
e o vínculo com o capital comercial europeu. York, 1965, esp. caps. XII. XIII e XIV; Lawrence A. Harper. "Mercantilism and the
"\e o século XVI, quando se iniciou o tráfico de africanos para American revolution", publicado por Cari N. Degler (Editor). Pivolal inlerpreta-
oríovo Mundo, ao século XIX, quando cessou esse tráfico e terminou tions of American history, 2 vols., Harper Torchbooks. New York. 1966. vol. I. p.
a escravatura, teriam sido transportados da África cerca de 9.500.000 77-90; Sérgio Bagu. Economia de Ia sociedadcolonial (Ensayo de historia comparada
de América Latina). Librería El Ateneo Editorial. Buenos Aires. 1949: Stanley J.
negros. Desses, a maior parte foi levada para õ Brasil, que importou Stein e Barbara H. Stein. The colonial heritage of Latin America (Essays on
economic dependence in perspective). Oxford University Press. New York. 1970.
esp. caps. II e V; Demetrio Ramos Perez. Historia de In coloni:ación espanolaen
América, Ediciones Pégaso, Madrid. 1947. esp. livro II.
(6) Quanto à encomienda e outras formas de organização social da produção baseadas
no indígena, consultar: Juan A. e Judith E. Villamarin, Indian labor in mainland
colonialSpanish America, Universlty of Delaware, Newark-Delaware, 1975.
6
organizadas segundo as exigências do mercantilismo, foram a base Essas reflexões indicam claramente que o que singulariza a
sobre a qual se formaram as sociedades coloniais. Em essência, pois, hegemonia do capital mercantil é que ele torna autónomo, ou
foi o capital comercial que comandou a constituição e o desenvolvi- substantiva, o processo de circulação, subordinando o processo de
mento das formações sociais baseadas no trabalho compulsório nas produção. Tanto assim que a produção de mercadorias pode dar-se
colónias europeias do Novo Mundo. A exploração do trabalho sob as mais diversas formas de organização social e técnica das
compulsório, em especial do escravo, estava subordinada aos relações de produção: seja nos grémios, corporações e manufaturas,
movimentos do capital comercial europeu. Este capital comandava o seja nas haciendas, encomiendas, fazendas, engenhos eplantafions.
processo de acumulação sem preocupar-se com o mando do processo Note-se, no entanto, que na época em que o capital mercantil é
de produção. O comerciante europeu se enriquece comprando barato autónomo e preponderante, relativamente ao processo produtivo, as
- com as vantagens da exclusividade que a metrópole mantém sobre mercadorias não são trocadas com base em seus valores, equivalên-
os negócios da colónia-e vendendo mais caro. O dinheiro se valoriza cias. ou segundo as quantidades de trabalho social nelas contidos. A
no processo de circulação da mercadoria. equivalência entre elas é fortuita, já que o comerciante se dedica
pura e simplesmente a comprar barato e vender caro. Ele opera no
Qualquer que seja a organização social das esferas de produção donde saem as âmbito do mercado europeu, da comercialização dos produtos
mercadorias trocadas por intermédio dos comerciantes, o património destes existe provenientes do Novo Mundo e outras partes do sistema colonial
sempre como haveres em dinheiro e seu dinheiro exerce sempre a função de capital. europeu surgido com o mercantilismo. Beneficia-se do monopólio
A forma desse capital é sempre D - M - D; o ponto de partida é o dinheiro, a forma colonial, característico do mercantilismo, para aumentar mais ou
independente do valor-de-troca, e o objetivo autónomo é o aumento do valor- menos à vontade o seu lucro comercial. Nessas condições, é
de-troca. A própria troca de mercadorias e as operações que a propiciam -
separadas na produção e efetuadas por não-produtores-são apenas meio de acrescer secundário o valor real da mercadoria, em termos de contabilidade
a riqueza, mas a riqueza em sua forma social geral, o valor-de-troca(9). de custos, ou trabalho social nela cristalizado. Esse valor, seja qual
for a maneira de avaliá-lo, somente tem importância para o dono da
plantation, engenho ou outras unidades produtivas baseada no
O movimento do capital mercantil é D - M -D ; Por isso, o lucro do comerciante trabalho compulsório ou formas de cooperação simples. Para o
provém, primeiro, de atos que ocorrem no processo de circulação, os atos de capital mercantil, era bastante secundária a forma de produção do
comprar e de vender, e, segundo, realiza-se no último ato, o de venda. É portanto fumo, açúcar, algodão, prata, ouro e outros produtos. Mesmo porque,
lucro de venda, profit upon alienation. É evidente que o lucro comercial puro, no apogeu do capital comercial, o comerciante não domina o
independente, não pode aparecer, quando os produtos se vendem por seus valores. processo produtivo, mas sim o processo de circulação.
Comprar barato, para vender caro, é a lei do comércio. Não se trata portanto de
trocar equivalentes(lO).
Comprar barato, para vender caro. é a lei do comércio. Não se trata portanto de
O desenvolvimento autónomo e preponderante do capital como capital mercantil trocar equivalentes. O conceito de valor está ai implícito, na medida em que as
significa que a produção hão se subordina ao capital, que o capital portanto se diferentes mercadorias representam todas valor e por conseguinte dinheiro;
qualitativamente são todas elas por igual expressões do trabalho social. Mas. não
desenvolve na base de uma forma social de produção a ele estranha e dele são valor da mesma magnitude. No inicio, é inteiramente fortuita, casual, a relação
mdependente(ll). quantitativa em que os produtos se trocam. Assumem a forma de mercadoria, na
medida em que são permutáveis, isto é, expressões do terceiro termo que as torna
(9) Karl Marx. O capital, citado. Livro 3. vol. 5. p. 376. homogéneas. A troca continuada e a reprodução mais regular para troca elimina
(10) Ibidem. p. 379. cada vez mais essa casualidade; no começo, porém, não para os produtores e
( 1 1 ) Ibidem, p. 377. Quanto aos característicos do mercantilismo e às relações do consumidores, e sim para o intermediário entre ambos, o comerciante, que compara
capital comercial europeu com o tráfico de africanos e a escravidão no Novo Mundo, os preços em dinheiro e embolsa a diferença. Com as próprias operações estabelece
consultar: Eric Williams, Capitalism & slavery, Capricorn Books. New York. 1966; ele a equivalência.
Thomas Mun. La riqueza de Inglaterra por el comercio exterior - Discurso acerca dei
comercio de Inglaterra con Ias índias Orientales. trad. de Samuel Vasconcelos. Fondo capitalismo moderno, trad. de M. Garza. Fondo de Cultura Económica. México, 1944;
de Cultura Económica. México. 1954. Earl J. -Hamilton. El florecimiento dei Eric Hobsbawn, En torno a los orígenes de Ia revolución industrial, trad. de Ofélia
capitalismo v olros ensavos de historia económica, trad. de Alberto Ullastres. Revista Castillo e Enrique Tandeter, Siglo Veimiuno Editores. Buenos Aires, 1971; Maurice
de Occidente. Madrid. 1948; Karl Polanyi. Dahomey and lhe s/ave trade, University of Dobb, A evolução do capitalismo, 3* ediçáo. trad. de Affonso Blacheyre. Zahar
Washington Press, Seattle, 1966; Eli F. Hecksher. Mercantilism. 2 vols. trad. de Editores. Rio de Janeiro. 1973. esp. cap. V, "A acumulação de capitais e mercantilis-
Mendel Shapiro. George Allen & Unwin. London. 1953, esp. vol. l, cap. VII. mo"; Christopher Hill. Reformation to industrial revolution (A social and economic
"Foreing trade and busines organization"; Henri See. Origen y evolución dei historyofBritain: 1530-1780). Weidenfeld & Nicolson, London, 1968.
Nos primórdios, o capital mercantil é movimento mediador entre extremos que fumo, açúcar, prata, ouro etc. Essas foram as razões principais da
não domina e pressupostos que não cria(I2). criação e generalização do trabalho escravo em várias colónias
europeias no Novo Mundo. Nas colónias em que havia indígenas,
É importante observar que por sob o processo de circulação de estes foram submetidos a alguma forma de trabalho compulsório,
mercadorias, governado pelo capital mercantil, encontràm-se várias nas aldeias, reduções, encomiendas etc. Para evitar-se que eles se
formas de produção. A despeito de que o lucro do comerciante se evadissem dos locais de trabalho, ou sofressem de maneira demasia-
realiza no comércio, ele não pode realizar-se a não ser com base em do destrutivas as condições de trabalho exigidas pela produção
quantidades crescentes de mercadorias. E estas são produzidas nas colonial, os índios do Novo Mundo foram submetidos a formas
colónias europeias no Novo Mundo, principalmente sob distintas especiais de trabalho compulsório. Em algumas situações, a escrava-
modalidades de trabalho compulsório. Aqui, pois, coloca-se um tura era,aberta e organizada como tal; em outras ela era latente,
problema crucial. Em última instância, por sob o lucro do comer- social e tecnicamente organizada de forma diversa daquela (13).
ciante está o sobrevalor criado pelo sobretrabalho realizado pelo Além dos africanos trazidos para o Novo Mundo, também grupos
negro e o índio aberta ou veladamente escravizados. Ou seja, em um nativos foram submetidos à escravidão aberta. No conjunto das
nível, o comerciante lucra comprando barato e vendendo mais caro. colónias europeias no Novo Mundo, a administração metropolitana
Em outro nível, no entanto, é preciso que ele possa comprar organizou-se principalmente com três finalidades. Primeiro, evitar e
quantidades crescentes de mercadorias, para expandir os seus combater a penetração dos interesses de outras metrópoles, no
negócios e ampliar a escala da acumulação. Se as mercadorias são espírito do exclusivismo ou monopólio característico do mercantilis-
produzidas em condições convenientes - quanto ao volume, à mo. Segundo, controlar a circulação do trabalhador escravo, sob
presteza, à qualidade e outros requisitos - é claro que o comerciante todas as formas, para garantir a produção colonial e assegurar a
pode ampliar e dinamizar os seus negócios; melhorar a sua vigência do sistema político-social cujo fundamento era o trabalho
competitividade e ou a sua margem de lucro. escravizado. Terceiro, garantir a continuidade e a regularidade da
E nesse ponto que a escravatura e as outras formas de trabalho exportação do excedente económico produzido na colónia, exceden-
compulsório se situam. O capital comercial absorve quantidades te esse essencial à reprodução e ampliação do capital mercantil
crescentes de mercadorias. Para que estas se produzam nas colónias metropolitano.
do Novo Mundo, é necessário atar o trabalhador aos outros meios de Mas é fundamental reconhecer, ainda, que a escravidão foi
produção. Ele não pode ser assalariado, porque a disponibilidade de também um grande negócio para os comerciantes ingleses, holande-
terras devolutas permitiria que se evadisse, transformando-se em ses, franceses, espanhóis, portugueses e outros ligados ao tráfico de
produtor autónomo. Daí a escravização aberta, ou disfarçada, de negros da África ao Novo Mundo. Havia vultuosos capitais metropo-
índios e negros na encomienda, hacienda, plantation, engenho, litanos envolvidos no comércio de escravos, vinculando assim a
fazenda e outras modalidades de organização social e técnica das metrópole, a África e as colónias do Novo Mundo. A dinâmica do
relações de produção e das forças produtivas. capital mercantil envolvido no tráfico era um elemento importante
Em sua análise das condições que produziram a escravatura no na manutenção e expansão da escravatura nas colónias. A produção
Novo Mundo, Marx ressalta dois pontos. Em primeiro lugar, a das colónias, por sua vez, era comandada a partir da dinâmica do
disponibilidade de terras baratas ou devolutas, o que permitiria que capital mercantil, cuja árcade realização e reprodução era a Europa.
o assalariado, em pouco tempo, pudes.se abandonar a plantation, o Assim é que se intensifica a acumulação primitiva e, ao mesmo
engenho ou outra unidade produtiva, para tornar-se sitiante, ao tempo, consolidam-se e expandem-se as formas de organização
menos produzindo o essencial à própria subsistência. Em segundo social e técnica do trabalho compulsório. Pouco a pouco, esses
lugar, as metrópoles não dispunham de grandes reservas de mão- encadeamentos entre a Europa, a África e o Novo Mundo adquirem
de-obra, para encaminhar às colónias e dinamizar a produção de outros desenvolvimentos, principalmente com o crescimento da
tft

(12) Karl Marx, O capital, citado, Livro 3, vol. 5,. p. 379-380. Esta citação, bem como (13) Karl Marx, O capital, citado, Livro l, vol. 2, cap. XXV, intitulado "Teoria
as três anteriores, foram retiradas do cap. intitulado "Observações históricas sobre o moderna da colonização", p. 883-894; Enrique Semo, História dei capitalismo en
capital mercantil''. Consultar também:Christopher Hill, Op.cit; e Maurice Dobb.Op. México, citado, esp. cap. V, sobre o trabalho em "La República de los Espanoles", p.
188-229.

10 11
produção manufatureira. Em conjunto, essas relações económicas articuladas internamente. Isto é, as formações sociais escravistas
internacionais, aceleram a acumulação de capital na Inglaterra, tornaram-se organizações político-econômicas altamente articula-
devido à posição privilegiada que esse país passou a ocupar no das, com os seus centros de poder, princípios e procedimentos de
mercantilismc"e, em seguida, no capitalismo industrial nascente. mando e execução, técnicas de controle e repressão. Independente-
mente dos graus e maneiras de vinculação e dependência das
Williams: Nesse comércio triangular, a Inglaterra - da mesma maneira que a
colónias, em face da metrópole, é inegável que em cada colónia
França e a América Colonial - oferecia as exportações e os navios: a África oferecia organizou-se e desenvolveu-se um sistema internamente articulado e
a mercadoria humana: e as plantations as matérias-primas coloniais. O navio movimentado de poder político-econômico. Nesse sentido é que em
negreiro navegava da metrópole com a carga de manufaturados. Estes eram cada colónia constituiu-se uma formação social mais ou menos
trocados lucrativa mente por negros na África, negros esses que eram comerciados delineada, homogénea ou diversificada. Uma formação social escra-
nas plantalions com mais lucro, em troca de produtos coloniais que eram
transportados à metrópole. Quando o volume do comércio cresceu, a troca vista era uma sociedade organizada com base no trabalho escravo
triangular foi suplementada, mas não suplantada, pelo intercâmbio direto entre a (do negro, índio, mestiço etc.) na qual o escravo e o senhor
metrópole e as índias Ocidentais, comerciando-se manufaturados da metrópole pertenciam a duas castas distintas; sociedade essa cujas estruturas de
diretamente com produção colónia (14) dominação política e apropriação económica estavam determinadas
Hill: Entre 1700 e 1780 o comércio exterior inglês quase dobrou; e triplicou nos
pelas exigências da produção de mais-valia absoluta. Nessas forma-
vinte anos seguintes. A frota também dobrou. Nos mesmos anos 1700-1780 ocorreu ções sociais, as unidades produtivas - como os engenhos de açúcar no
uma mudança no mapa económico, no qual a Europa era ainda o mais importante Nordeste do Brasil e as plantations do Sul dos Estados Unidos, por
mercado da Inglaterra, para um mapa no qual esse lugar passou a ser ocupado pelas exemplo-estavam organizadas de maneira a produzir e reproduzir,
cólon ias (l 5). ou criar e recriar, o escravo e o senhor, a mais-valia absoluta, a
cultura do senhor (da casa-grande), a cultura do escravo (da
A spectos da formação social escravista senzala), as técnicas de controle, repressão e tortura, as doutrinas
jurídicas, religiosas ou de cunho "darwinista" sobre as desigualdades
Note-se, pois, que o funcionamento e a expansão do capital raciais e outros elementos. A alienação do trabalhador (escravo)
mercantil cria, mantém e desenvolve o paradoxo representado pela característica dessas formações sociais implicava que ele era física e
coexistência e interdependência do trabalho escravo e trabalho moralmente subordinado ao senhor (branco) em sua atividade
livre, no âmbito do mercantilismo. No limite, o escravo estava produtiva, no produto do seu trabalho e em suas atividades
ajudando a formar-se o operário. Isto é, a escravatura, nas religiosas, lúdicas e outras. Nessas condições, as estruturas de
Américas e Antilhas, estava dinamicamente relacionada com o dominação eram, ao mesmo tempo e necessariamente, altamente
processo de gestação do capitalismo na Europa, e principalmente repressivas e universais, estando presente em todas as esferas
na Inglaterra. Esse "paradoxo" começa a tornar-se cada vez mais práticas e ideológicas da vida do escravo (negro, mulato, índio e
explícito à medida que o mercantilismo passa a ser suplantado pelo mestiço). Assim, a formação social escravista era uma sociedade
capitalismo. bastante articulada internamente, motivo porque ela pôde resistir
Esse paradoxo, ou melhor, essa contradição, não seria sustentável algum tempo às contradições "externas"; ou às contradições internas
se se apoiasse apenas na acumulação primitiva, no comércio de pouco desenvolvidas.
mercadorias, ou no monopólio colonial. Por mais decisivas que Desde fins do século XVIII começou a desenvolver-se algum tipo
tenham sido as relações comerciais externas, no âmbito do mercanti- de antagonismo, entre as exigências do capitalismo e as da formação
lismo, a referida contradição somente pode manter-se porque social escravista. Para compreender a duração desse antagonismo, é
haviam-se constituído, nas colónias, formações sociais amplamente indispensável compreender a fisionomia da formação social escravis-
ta como uma estrutura político-econômica singular; nos primeiros
tempos, não era apenas um apêndice do sistema mercantilista, e
depois, a partir do século XVIII, não se manteve apenas um
(14) Eric Williams, Capitalism & slavery, citado, p. 51-52. Consultar também: KarI apêndice do capitalismo em expansão.
Polanyi, Dahomey and the slave trade, University of Washington Press, Seattle, 1966;
José Ribeiro Júnior, Colonização e monopólio no Nordeste brasileiro, Hucitec," São
Paulo, 1976, esp. cap. IV.
(15) Christopher Hill, Reformalionto industrial revolution, citado, p. 184. Nos tempos modernos, a plantation em geral surgiu sob os auspícios burgueses.

12 13
para- suprir a indústria com matérias-primas baratas: mas as consequências não
foram sempre harmónicas com a sociedade burguesa (16). canas e antilhanas e o modo de produção prevalecente em âmbito
mundial, com núcleo dinâmico na Europa.
A sociedade da plantalion, que havia começado como apêndice do capitalismo O que parece não vhaver ainda, entre esses e outros cientistas
inglês, terminou por ser uma poderosa civilização, amplamente autónoma, com sociais, é um consenso suficientemente consistente sobre essas e
ambições e possibilidades aristocráticas, embora permanecendo vinculada ao mundo outras categorias envolvidas na história político-econômica das
capitalista pelos laços da produção mercantil. O elemento essencial desta singular sociedades do N ovo Mundo. Ciro F. S. Cardoso, Juan Martinez Alier
civilização era o domínio do senhor de escravos, possibilitado pelo controle do e Verena Martinez-Alier, por exemplo, utilizam o conceito de "modo
trabalho. A escravatura foi a base do tipo de vida económica e social do Sul, dos seus
problemas e tensões especiais, das suas peculiares leis de desenvolvimento (17).
de produção escravista". Fernando A. Novais sugere a noção de
"modo de produção colonial". Celso Furtado emprega os conceitos
A verdade é que toda pesquisa sobre a escravatura no Novo de "semifeudal" e "feudalismo". Sérgio Bagu também considera
Mundo enfrenta-se, de alguma maneira, com as implicações históri- aplicáveis as noções de "formas feudais" e "feudalismo". André G.
cas e teóricas da problemática expressa nas categorias modo de Frank rejeita essas e outras noções, preferindo considerar o Novo
produção e formação social. Os ensaios, as monografias e os estudos Mundo sempre nos termos do conceito de "capitalismo". Enrique
comparativos de David Brion Davis, Eugene D. Genovese, Herbert Semo afirma que não se pode falar em modo de produção escravista
Aptheker, E. Franklin Frazier, Gunnar Myrdal, Robert W. Fogel, nas colónias da Espanha, e sugere as noções de "semifeudal" e
Stanley L. Engerman, Everett C. Hughes, Herbert Blumer, Cari N. "feudalismo", como Bagu, Furtado e outros. Vejamos, a título de
Degler, Magnus Morner, C. R. Boxer, Herbert S. Klein, Sérgio Bagu, exemplo, os termos de algumas formulações de Semo. Sob vários
Demetrio Ramos Perez, Enrique Semo, Verena Martinez-Alier, aspectos, elas contêm os principais elementos da controvérsia sobre
Juan Martinez Alier, Ciro F. S. Cardoso, Caio Prado Júnior, as características e os movimentos das formações sociais baseadas no
Florestan Fernandes, Celso Furtado, André Gunder Frank, Eríc trabalho compulsório.
Williams, Emilia Viotti da Costa, Fernando H. Cardoso, Stanley J.
Stein, Fernando A. Novais e outros orientam-se no sentido de Apesar da extensão da escravatura de um ou outro tipo (manifesta e latente), a
sociedade novo-hispânica nunca passou por um modo de produção escravista. Não se
compreender a escravatura em suas articulares e contradições com o deve esquecer que a escravidão generalizada do índio serviu para inundar de prata
sistema económico mundial. Mesmo quando alguns desses autores barata a uma Europa em plena revolução sócio-econômica. e lançar as bases de
não trabalham explicitamente com as noções de modo de produção e unidades económicas semifeudais no México.
formação social, é inegável que as suas análises, sugestões e
hipóteses representam contribuições de maior ou menor valor para a A escravidão generalizada não fez da sociedade novo-hispânica um sistema
discussão e a pesquisa das articulações entre a escravatura do Novo escravista, assim como o capital comercial e usurário da antiga Roma não converteu
Mundo e o sistema económico mundial. Inicialmente,.ao longo dos esta num empório capitalista. A escravidão negra nos Estados Unidos lançou as bases
séculos XVI e XVII, tratava-se do relacionamento entre o mercanti- do desenvolvimento do capitalismo pré-industrial; a escravidão indígena serviu, na
lismo e as distintas formas de trabalho compulsório; depois, ao longo Nova Espanha, para impulsionar o surgimento de um sistema no qual o feudalismo
aparece estreitamente entrelaçado com o capitalismo embrionário e dependente (18).
dos séculos XVIII e XIX, tratava-se do encadeamento e antagonismo
entre escravidão e capitalismo. Em todos os casos, no entanto, é Assim como àsplanlations escravistas dos EstadosUnidosnão foram a base de um
importante assinalar que" os autores mencionados apresentam subsí- modo de produção escravista, mas sim do desenvolvimento do capitalismo, a
dios históricos e teóricos para a interpretação dos encadeamentos encomienda - apesar da sua forma tributária de exploração - serviu para a gestação de
entre as formações sociais prevalecentes nas diversas|colônias ameri- uma estrutura baseada na propriedade privada, na qual feudalismo e capitalismo
embrionários se entrelaçam (19).

Devido a uma série de fatores já apontados, a economia da Nova Espanha
(16) Eugene D. Genovese, The política! economy ofslavery (Studies in the economy contava, desde o princípio, com um desenvolvimento importante da produção
and society of the slave south), Pantheon Books, New York, 1966, p. 15.
(17) Ibidem, p. 15-16. A propósito dos movimentos e perfis de diferentes formações
sociais escravistas: Eugene D. Genovese (organizador), The slave economies, 2 vols.,
John Wiley & Sons. New York. 1973; Florestan Fernandes, Circuito Fechado
Hucitec São Paulo, 1976, cap. l, intitulado "A sociedade escravista no Brasil". (18) Enrique Semo, Op. cit., p. 209-210
(19) Ibidem, p. 219.

14
15
mercantil. Isto tem induzido a erro a mais de um historiador, que, confundindo independência política das colónias do Novo Mundo e a emancipa-r
produção mercantil com capitalismo, fala-nos em encomienda "capitalista", hacienda cão dos escravos são processos mais ou menos contemporâneos -e
"capitalista" e obrajes "capitalistas", em pleno século XVI, porque estas unidades conjugados. De qualquer maneira, desde o princípio as sociedades
achavam-se ligadas a um mercado e produziam em parte para ele (20). jlp,,Noy0 Mundo estão atadas à economia mundial: primeiro à
mercantilista e depois à capitalista. Nesse sentido é que as socieda-
des das Américas e Antilhas são formadas em estado de dependên-
Não me parece oportuno fazer-, neste ensaio, uma discussão cia, enquanto colónias e países. São como que geradas nos quadros^
crítica dessas e outras interpretações e hipóteses, relativamente aos do mercantilismo, da acumulação primitiva e do nascente capitalis- |
encadeamentos entre formação social e modo de produção; ou sobre mo europeu. Por isso, no primeiro instante as formações sociais \s d
o caráter colonial, escravista, semifeudal, feudal etc. das relações de
produção na época colonial e no século XIX, após as crises e lutas de reprodução do capital mercantil. E, no segundo momento, a partir ;
independência. Essa é matéria para ser examinada, de maneira do século XVIII, as formações sociais escravistas passam a ser \e
sistemática e especial, em outra ocasião. Ela implica a própria
compreensão das categorias: capitalismo, feudalismo, mercantilis- em expansão na Europa e, principalmente, na Inglaterra. Ou seja, i
mo, escravismo, modo de produção, formação social, relações de desde o século XVI ao XIX os movimentos, as articulações e as
produção, forças produtivas e algumas outras. P&rece-me oportuno, rearticulações, internos e externos, das formações sociais escravistas
no entanto, fazer algumas sugestões, na medida em que envolvem nas Américas e Antilhas são influenciados e mesmo determinados l
diretamente a compreensão da história politico-econômica daescravi- (em graus variáveis, é certo) pelas exigências da reprodução do '
dão. capital europeu; primeiramente mercantil e em seguida industrial^
Convém repetir aqui: as formações sociais baseadas no trabalho Essa determinação "externa" aparece em várias interpretações. Ela
compulsório, criadas no Novo Mundo, nascem e desenvolvem-se no é importante para compreendermos as características e os movimen-
interior do mercantilismo! ou seja, na época e sob a influência do tos das formações sociais baseadas no trabalho compulsório. Ao
capital mercantil, então predominante e ascendente na Europa. Ao referir-se a essa questão, Caio Prado Júnior aponta o que lhe parece
mesmo tempo que se organizam e expandem as formações sociais ser o próprio sentido básico e geral da colonização no Novo Mundo.
baseadas na plantation, engenho, fazenda, encomienda, hacienda etc., Ciro F. S. Cardoso chama a atenção para as inestabilidades inerentes
o Novo Mundo entra ativa e intensamente no processo de acumula- a essa dependência histórico-estrutural. Aliás, em meados do século
ção primitiva, que se realiza de maneira particularmente acentuada XIX Marx já havia assinalado o caráter "anómalo" e "formalmente
na Inglaterra. Em seguida, a progressiva subordinação do capital burguês" da formação social escravista nas Américas e Antilhas.
mercantil ao capital produtivo, isto é, industrial, as formações sociais
baseadas no trabalho compulsório rearticulam-se interna e externa- Prado Jr.: Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos
mente. Sofrem o impacto do tipo de comercialização (dos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros géneros; mais tarde ouro e
produtos coloniais, produzidos pela mão-de-obra escrava) comanda- diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comercio europeu(21).
da pelasiexigências da reprodução do capital industrial.jContempora-
neamente, em especial desde o começo do século XIX, as relações Cardoso: A dependência e a deformação fazem que as estruturas coloniais sofram
escravistas de produção e as próprias formações sociais escravocra- pesadamente as consequências:das mudanças de conjuntura e das imposições do mercado -
tas (coloniais) entram em crise e declínio. Tanto assim que a internacional, sem ter a flexibilidade e autonomia que permitam uma adaptação rápida
e eficaz ai condições novas (11).

(20) Ibidem, p. 240. Consultar também: Sérgio Bagu, Op. dl., p. 101-113; C.S. Marx: A escravidão dos negros • uma escravidão puramente industrial - que
Assadourian, C.F.S. Cardoso, H. Ciafardini, L C.Garavagliae E. Laclau, Modos de' desaparece de um momento para outro e é incompatível com o desenvolvimento da
producción en América Latina, Ediciones Passado y Presente, Córdoba, 1973; Juan y
Verena Martinez-Alier, Cuba: economia y sociedad, Ruedo Ibérico, Paris, 1972, p.
13; André G. Frank, Capitalism and underdevelopment in Latin America, Monthly (21) Caio Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo (Colónia), citado, p.
Review Press, New York, 1967, p. 221-242; Celso Furtado, Formação económica da 26. Também: Enrique Semo, Op. cit., p. 251-252.
América Latina, Lia Editor, Rio de Janeiro, 1969, p. 35-39; Fernando A. Novais,. (22) Ciro Flamarión Santana Cardoso, "El modo de producción esclavista colonial
Estrutura e dinâmica do antigo sitíema co/om'a/'(séculos XVI-XVIII), Cadernos Cebrap, en América", publicado por C.S. Assadourian e outros. Modos de producción en
São Paulo, 1974, p. 27 e 33. América Latina, citado, p. 193-230; citada p. 214. Também E. Semo, Op. cit., p. 249.

16 17
f

sociedade burguesa, pressupõe a existência de tal sociedade: se junto a essa escravidão
não existissem outros estados livres, com trabalho assalariado, todas as condições e as exigências da continuidade do trabalho escravo. Também
sociais nos estados escravistas assumiriam formas pré-civilizadas(23). Friederich Engels registrou essa ambiguidade, quanto aos Estados
Unidos.
O fato de que os donos das plantaiions na América não somente os chamemos
agora capitalistas, mas que o sejam, funda-se no fato de que eles existem como uma
anomalia dentro de um mercado mundial baseado no trabalho livre(24) Bonifácio: Mas como poderá haver uma Constituição liberal e duradoura em um
Na segunda classe de colónias- as plantations, que são, desde o próprio momento país continuamente
migos? (26). habitado por um multidão imensa de escravos brutais e ini-
de sua criação, especulações comerciais, centros de produção para o mercado
mundial - existe um regime de produção capitalista, ainda que somente de um modo
formal, posto que a escravidão dos negros exclui o trabalho livre assalariado, que é a Engels: E é indicativo do caráter especificamente burguês desses direitos humanos
base sobre a qual descansa a produção capitalista. Não obstante, são capitalistas os que a Constituição americana, a primeira a reconhecer os direitos do homem, da
que manejam o negócio do tráfico de negros. O sistema de produção introduzido por mesma forma confirma a escravatura das raças de cor existentes na América:
eles não provém da escravatura, mas sim enxerta-se nela. Neste caso, o capitalista e o privilégios de classe são proscritos, privilégios de raça são sancionados(27).
dono âaplantalion são uma só pessoa (25).
O paradoxo aparente dos primeiros tempos, surgido no âmbito da
Nessas condições, quando o capitalismo alcança certo grau de acumulação primitiva e do mercantilismo, tornara-se um paradoxo
desenvolvimento, em âmbito mundial, ele. torna difícil a continuida- real, económica e politicamente, quando o capitalismo industrial
de das relações escravistas de produção-yDepois de alcançar certo ganha preeminência no sistema económico mundial. A criação dos
dinamismo, em escala mundial, o capital i ndustriai começa a Estados nacionais nas Américas tornava interna, presente, explícita e
influenciar, matizar, alterar ou mesmo destruir as formas de aguda a contradição entre o trabalho escravo e o trabalho livre. Essa
organização social e técnica das relações de produção que não se foi a ocasião em que - conforme as condições peculiares de cada país -
adequam, de alguma maneira, ao seu ritmo e sentido. < a nascente formação social capitalista se impôs e venceu a escravista.
("Assim, o paradoxo representado pela articulação do trabalho livre,
na Europa, com o trabalho escravo, nas Américas e Antilhas, Expansão capitalista e crise dia escravatura
revela-se uma contradição estrutural significativa quando ocorre a
independência das colónias do Novo Mundo. Com a independência
dos Estados Unidos, por exemplo, a burguesia ascendente é Ao longp dos séculos XVI e XVIII, o capital comercial floresceu
obrigada a_jrecj3nhe<^jL£xis^ênjd^d^^ bastante, mas acabou por subordinar-se ao capital industrial. Pouco
lado com o trabalho livre. Ao mesmo tempo que a constituição a pouco, ajírodução passou a ser a esfera em que a acumulação d,e
estabètéce o princípio da cidadania, para o branco, confirma o capital passavà~~ir rejjíza&se; e a circulação transformou-se ,mjm
princípio da escravatura, para o negro. A mesma incongruência jnpmento necessário, mas subordinado, do conjunto do processo
ideológica tornou-se mais ou menos explícita para os outros novos capitalista de produção. Essa transição qualitativa fundamental
Estados nacionais surgidos com a crise dos sistemas, coloniais do ocorreu sob as mais variadas formas. Houve comerciantes que~se..
mercantilismo europeu. Essa ambiguidade foi registrada por José Jnjejsssj^rarrijpelajjrodução e organizarãST os seíis negócios combi-
Bonifácio, um dos líderes da independência política do Brasil. nando^ e^oir^mlanda os prpcessos produtivo e de circuf^áo, efn"
Precisamente na época da formação do Estado nacional, nesse país, conjunto. ^Houve donos de fábricas e outros empreendimentos"1^
tornou-se evidente a incongruência entre os compromissos liberais, produtores de mercadorias que passaram a negociar na esfera da
inerentes à forma pela qual desenrolou-se a luta pela independência, circulação de mercadorias. Ao mesmo tempo, na Inglaterra crescia a
acumulação do capital financeiro, devido a sua hegemonia na ,

(23) Karl Marx, Elementos fundamentales para Ia crítica de Ia economia política, 2
vols., trad. de José Arico, Miguel Murmis e Pedro Scarón, Siglo Veintiuno Editores, (26) José Bonifácio, "Representação à Assembléia-Geral Constituinte e Legislativa
México, 1971, vol. l, p. 159. do Império do Brasil sobre a Escravatura", publicado por Octavio Tarquinio de
(24) Ibidem, p. 476. Sousa,
p. 41. José Bonifácio, Livraria-Martins Editora, São Paulo, 1944, p. 39-66; citação da
(25) Karl Marx, Historia crítica de Ia teoria de Ia plusvalia, 3 vols.. trad. de
Wenceslao Roces, Fondo de Cultura Económica, México, 1944-45; citação do vol. II, p. (27)1962,
Friederich
332-333. cow, p. 146. Engels, Antidiihring, Foreign Languages Publíshing House, Mos-

18
19
expansão do capital mercantil. E paralelamente^ generalizava-se o Marx: Na produção capitalista, o capital mercantil deixa a antiga existência
divórcio entre o trabalhador e a propriedade dos<rneiqs^ de produção, soberana para ser um elemento particular do investimento de capital, e o nivelamento
o que transformava todo trabalhador em vendeHor de força de dos lucros reduz sua taxa de lucro à média geral. Passa a funcionar como agente do
capital produtivo(29).
trabalho, em especial no mercado urbano e industrial em franca
expansão. Paulatinamente, pois, ji_vida económica passou a ser A transição portanto triplica-se: primeiro, o comerciante se torna diretamente (
comandada pelo movimento das forças produtivas e das relações de industrial. ... Segundo, o comerciante torna os mestres artesãos seus intermediários ou /
produção. Na industria, na agricultura e na mineração dinamizararfiv compra diretamente do produtor autónomo; deixa-o nominalmente independente e
sê" ás forças produtivas e desenvolveram-se económica, social eV intato o modo de produção dele. Terceiro, o industrial se torna comerciante e produz ;
politicamente as relações de produção. Os mercados nacionais cj, em grosso diretamente para o comèrcio(30). ^
internacionais passaram a ser inundados também por produtos
manufaturados, em quantidades crescentes e nas mais diversas Nos estádios de circulação, o valor-capital assume duas formas, a de capital-
qualidades e modas. As colónias europeias passaram a receber, em dinheiro e a de capital-mercadoria; no estádio de produção, a forma de capital
quantidades crescentes, as manufaturas inglesas^Q—capital industrial V produtivo. O capital que no decurso de todo o seu ciclo ora assume ora abandona
essas formas, executando através de cada uma delas a função correspondente, é o
imp-Uftha-$e--sekFe~ e -eemereial e o financeirjC Assim, ao longo dos\s XVI a XVIII foi crescendo a importância da prodtiçãp ;
capital-industrial, industrial aqui no sentido de abranger todo ramo de produção
explorado segundo o modo capitalista(31).
industrial: embarcações, metalurgia (principalmente armas), tecido^
de lã, tecidos de algodão etc. Mas foi no século XVIII que o capital O capital industrial é o único modo de existência do(capital em que este tem por
industrial conquistou a preeminência sobre o capital comercial. Foi função não só apropriar-se da mais-valia, ou do produto excedente, mas também
uma transição histórico-estrutural complexa, na qual o capitalv criá-la. Por is$o, determina d carálfiLcapitalista.dje produção; sua existência implica a
produtivo passou a colorir e dar sentido ao conjunto das relações de oposição entre a classe capitalista e a trabalhadora. Na medida em que se apodera da
produção e do processo de realização da mercadoria. Vejamos produção social, são revolucionadas a técnica e a organização social do processo de
algumas formulações breves de Christopher Hill e Karl Marx, sobre a trabalho e com elas o tipo econômico-histórico da sociedade. As outras espécies de
capital que surgiram antes dele em meio a condições sociais desaparecidas ou em
ascensão do capital industrial. decadência, a ele se subordinam, modificando o mecanismo de suas funções e, além
Hill: Um pré-requisito essencial para a revolução industrial foi o monopólio de disso, movem-se nele fundamentadas, com ele vivem ou morrem, firmam-se ou caem. i
mercados coloniais amplos e estáveis. A conquista da índia permitiu que, na ocasião O capital-dinheiro e o capital-mercadoria quando funcionam como veículo de um i
oportuna, tal mercado se abrisse à indústria inglesa de tecidos de algodão. Desde ramo específico, ao lado do capital industrial, não são mais do que modos de \a que
meados do século XVIII havia declinado a importância das índias Ocidentais, pois
que os seus escravos e os donos deplantations absenteístas não criavam um mercado diferentes formas de funcionamento que o capital industrial ora assume ora abandona
significativo, para as manufaturas inglesas. As tradicionais colónias das índias na esfera da circulação(32). . -
Ocidentais forneciam matérias-primas não competitivas com os produtos da metrópo-
le, matérias-primas essas que eram processadas para reexportação. Dessa maneira, o O {2jr££fiS$Q_-fU&díilivo_ deixa de ser subalterno ou reflexo do
novo império podia ser visto como um mercado crescendo indefinidamente para as
manufaturas inglesas. Quando o antigo monopólio imperial se extinguiu, cerca de
processo de circulação de mercadorias. Torna-se o núcleo dinâmico
1770, as indústrias inglesas de tecidos de algodão e metalurgia já haviam se da vida económica, núcleo esse caracterizado pela produção de
desenvolvido tanto que os seus produtos podiam reentrar e capturar os mercados mais-valia relativa. Agora, a reprodução do capital implica o
europeus. Assim, podemos distinguir cinco períodos na evolução do comércio desenvolvimento da produção, esfera essa na qual se dá a transfigu-
exterior inglês: (1) até 1600, os antigos tecidos eram exportados principalmente para ração da,mercadoria preexistente (M) em uma mercadoria valoriza-
os mercados da Europa do norte; (2) cerca de 1600-1650, os novos tecidos supriam da (M') pelo trabalho social excedente (não pago) que o capitalista
em especial os mercados europeus do sul; (3) cerca de 1650-1700. monopólio-colonial, impõe ao operário. Daí a possibilidade de o capitalista vender o
entreposto e reexportação; (4) cerca de 1700-1780, exportação de manufaturas,,
principalmente para as colónias; (5) a partir de 1780, a Inglaterra como fábrica do
mundo(28).
(29) Karl Marx, O capital, citado, Livro 3, vol. 5, p. 377
(30) Ibidem, p. 386-387.
(3 1) Ibidem, Livro 2, vol. 3, p. 53.
(32) Ibidem, p. 56-57.
(28) Christopher Hill, Reformation to industrial revolulion, citado, p. 191.

21
20
tecido por um preço maior do que o custo da linha e do desgaste das
máquinas. Temos, pois, o seguinte processo global: D - M - P - M' - TABELAI
D', sendo que em P entram o capital constante e o capital variável
(gasto em força de trabalho). DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA E ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
Contemporaneamente, na medida em que se instaurava o capita-
lismo industrial, no qual a acumulação passa a ser comandada pelo (1772-1888)
capital industrial, entram em crise as relações coloniais, externa e Países e
internamente. O Capital jndustrial^ começa a assenhorear-se das Declaração de Abolição da
Estados independência
esferas produtivas nasíõíôniàsTãTenTde subordinar a comercialização escravatura
dos produtos coloniais. Por isso, a conquista da independência América Central 1823 1824
política e a crise da escravidão, no Novo Mundo, são fenómenos Argentina 1816 1813
contemporâneos. Ocorrem no âmbito da mesma configuração Bolívia 1825 1831
histórico-estrutural. Em boa parte, essa transição é visível nos dados Brasil 1822 1888
apresentados na Tabela I. Chile 1818 1823
Ao longo dos anos 1772, quando foi proibido o trabalho escravo í Colômbia 1819 1814
Colónias francesas
na Inglaterra, a 1888, quando foi decretada a abolição da escravatu- Colónias holandesas
1848
ra no Brasil, modificam-se substancialmente as condições político- Colónias inglesas
1863
econômicas no Novo Mundo. Em pouco mais de um sécuk>\e externa e internamente as; estruturas político-econômicas 1838
Connecticut
1784
Cuba 1898
herdadas do mercantilismo. Não há dúvida de que em cada caso as 1886
Equador 1822
condições peculiares da colónia determinaram amplamente a 1851
Estados Unidos 1776
afeição assumida pelas lutas de independência e abolicionistas. 1865
Haiti 1804 1804
A despeito das peculiaridades de cada país, quanto à decadência N Inglaterra
1772
do escravismo e ao andamento do processo abolicionista, é inegável Massachusetts
1780
que a extinção da escravatura iniciou-se no âmbito do capitalismo México 1813 1829
inglês em expansão, É verdade que cada colónia ou país, nas Pennsylvania
Peru 1780
Américas e Antilhas, desenvolveu de forma singular o trabalho 1828 1854
Porto Rico
compulsório e articulou-se também de maneira singular com o Uruguai
1873
mercado mundial. Além do mais, o estatuto jurídico-político e 1828 1842
Venezuela 1811
económico das colónias espanholas era diferente do que definiaja 1854
situação da colónia portuguesa (Brasil) e dos que caracterizavam as Fontes: Roberto W. Fogel e Stanley L. Engerman, Time on the cross, citado, vol l
colónias inglesas, francesas e outras. No México, durante o período p. 33-34; A. Curtis Wilgus e Raul d'Eca, Latin American history, Barnes & Noble'
colonial, houve encomienda e escravatura.|No Brasil, a escravidão de New York, 1966; Hebe Clementi, La aboltción de Ia esclavitud en América La-
africanos e seus descendentes parece ter-se generalizado muito' tina. Editorial La Pléyade, Buenos Aires, 1974; Hebe Clementi, La abolictón de
mais do que nos Estados Unidos, tomados em conjunto. No Ia esclavitud enNorteamerica, Editorial La Pléyade, Buenos Aires, 1974.
entanto, a formação social escravista do sul dos Estados Unidos
revelou maior tenacidade que a do Brasil, para ser suplantada pela
formação social capitalista. Apesar dessas peculiaridades, é inegável inglês exigia a quebra das prerrogativas e exclusivismos coloniais
que em todos os casos o capitalismo inglês desempenhou um papel herdados do mercantilismo. Quando a produção industrial se tornou
importante no conjunto do processe da abolição das formas de o núcleo do processo de acumulação, a esfera da comercialização
trabalho compulsório. Nas Américas e Antilhas, a escravidão sofreu precisou subordmar-se às exigências da produção. Isto é, o comércio
o bloqueio combinado das seguintes condições: o monopólio colo- de matenas-pnmas e manufaturados passou a ser comandado pelas
nial se tornara inconveniente para o desenvolvimento do comércio exigências da reprodução do capital na esfera da produção Daí
inglês, agora comandado pela produção industrial. O capitalismo porque a Inglaterra passou a combater a escravidão em suas
próprias colónias. Quando o capital industrial adquiriu predomínio
sobre o comercial, o lucro passou a ser o resultado da operação relação à dinâmica das forças produtivas e das relações de produção
da empresa produtora de mercadorias; isto é, da articulação dinâmica do capitalismo; tanto com o capitalismo predominante e em
entre o capital constante (máquinas, matérias-primas etc.) e o capital expansão desde a Inglaterra como com o emergente nas mesmas
variável (força de trabalho). Isso levou o capitalista a interessar-se sociedades escravistas. O caráter "anómalo" da escravatura moderna
pelo preço das matérias-primas e dos produtos tropicais, fosse tornara-se explicito e insustentável. Vejamos dois exemplos distin-
açúcar, algodão ou outro produto. Marx e Engels já haviam tos: a abolição pacífica ocorrida no Brasil e a violenta verificada nos
examinado a questão em 1850. E Eric Williams a retomou em sua Estados Unidos.
análise sobre lCapiialifim & Slaven; obra publicada pela primeira vez
em 1944.
O senhor e o escravo •
Marx-Engels: A produção algodoeira norte-americana baseia-se na escravidão.
Quando a indústria se tenha desenvolvido a ponto de que o monopólio algodoeiro
dos. Estados Unidos se torne insuportável, produzir-se-á, exitosa e maciçamente, No Brasil, a formação social capitalista foi se constituindo, por
algodão em outros países; e isso hoje em dia pode ocorrer, em quase todas as partes,
somente por meio de trabalhadores livres. Mas quando o trabalho livre de outros
assim dizer, por dentro e por sobre a formação social escravista. Pouco
países abastecer a demanda algodoeira de modo suficiente, e a melhores preços que o
a pouco, uma parte do capital produzido pelo escravismo era
trabalho escravo norte-americano, terá soado a última hora para o monopólio aplicado em atividades artesanais, fabris, comerciais e financeiras
algodoeiro norte-americano e, também, para a escravidão norte-americana: e os que não revertiam necessariamente em benefício dos interesses
escravos serão emancipados porque, enquanto escravos, ter-se-ão tornado inúteis(33). escravistas. Isso ficou especialmente evidente na expansão urbana,
ou seja, na diferenciação interna das estruturas sócio-econômicas e
Williams: Os capitalistas inicialmente encorajaram a escravidão nas índias políticas urbanas. É verdade que inicialmente a vida urbana estava
Ocidentais e depois a destruíram. Enquanto o capitalismo inglês dependia das índias constituída no espírito e no interior da formação social escravista.
Ocidentais, eles ignoraram ou defenderam a escravidão. Quando o capitalismo Progressivamente, no entanto, surgem na cidade (Rio de Janeiro. São
inglês sentiu que o monopólio das índias Ocidentais era incómodo,,eles destruíram
Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife e outras) interesses autónomos
a escravidão, como primeiro passo para destruir o monopólio das índias Ociden-
tais(34).
e divergentes, quanto aos interesses prevalecentes no escravismo.
Essas transformações eram ampliadas e aceleradas inclusive pela
Esse combate desenvolveu-se em três fases: o combate ao tráfico, o combate à crescente influência económica e política dos ingleses nos negócios
escravidão e o combate às preferências alfandegárias para o açúcar. O tráfico de do Brasil., A abolição do tráfico de africanos, os investimentos e qs
escravos foi abolido em 1807, a escravidão em 1833 e os privilégiosdo açúcar em 1846. empréstimos ingleses, a difusão das ideias liberais entre políticos,
Os três acontecimentos são inseparáveis. Os mesmos interesses que haviam criado o profissionais liberais, jornalistas e novos empresários, além de outros
sistema escravista agora combatem e destroem aquele sistema (35). fatos, indicam a progressiva influência inglesa, essencialmente
antiescravista. Simultaneamente, devido à interrupção do tráfico de
As possibilidades de desenvolvimento das forças (terras, capital, africanos para suprir a agricultura escravista, .inicia-se e expan3ê-se
tecnologia, força de trabalho, divisão social do trabalho etc.) que rapidamente a imigração-de europeus. O fenómeno imigratório foi
haviam sido abertas pelo capitalismo industrial não podiam ser tão notável, que a área pioneira e mais dinâmica da cafeicultura,
acompanhadas pelas formações sociais escravistas, criadas na época situada no oeste da Província de São Paulo, baseou-se principalmen-
do predomínio do capital mercantil. A dinâmica das relações te na força de trabalho não escrava, isto é, trabalhadores assalariados,
escravistas de produção, no sul dos Estados Unidos, no Brasil, nas colonos, meeiros etc. Pouco a pouco, a partir dos anos 1850, foram-se
Antilhas e outros países e colónias, entraram em descompasso com delineando os contornos das duas formações sociais diversas e
progressivamente antagónicas: a escravista, cada vez menos dinâmi-
ca, é a capitalista, ganhando dinamismo crescente.
(33) K. Marx e F. Engels, Materiales para Ia historia de América Latina, textos A formação social escravista tinha as suas bases económicas no
selecionados e traduzidos por Pedro Scaron, Ediciones Pasado y Presente, Córdoba, nordeste açucareiro e na cafeicultura-da Baixada Fluminense e do
1972, p. 156-157. Vale do Paraíba, na Província de São Paulo. Os seus interesses
(34) Eric Williams, Capitalism & slavery, citado, p. 169. políticos e económicos estavam organizados - e não apenas represen-
(15)Ibidem, p. 136. tados no governo monárquico. Mas em meados do século XIX a

24 25
cafeicultura eia área açucareira sofrem o impacto da interrupção do A nova classe dirigente formou-se numa luta que se estende em uma frente
tráfico. Além disso, a zona cafeeira começava a ressentir-se do ampla: aquisição de terras, recrutamento de mão-de-obra, organização e direção da
empobrecimento das terras ocupadas^já que o café era cultivado de produção, transporte interno, comercialização nos portos, contatos oficiais, interfe-
maneira extensiva e segundo técnicas que provocavam ou propicia- rência na política financeira e econômica(38).
vam a erosão.
<M Neste ponto, convém lembrar que a Guerra do Paraguai, nos anos
Consciente do seu novo status económico e da sua importância como cafeicultor, 1864-70, pôs em evidência a relativa fraqueza da formação social
o fazendeiro nunca duvidou de sua capacidade para liquidar dívidas contraídas sobre escravista, como sistema politicô-econòmico. As dificuldades para
as safras futuras de café. Este era o círculo vicioso em que se encerrava a economia vencer os paraguaios e a necessidade de lançar mão, de escravos
de Vassouras: destruir florestas virgens para plantar café para pagar dívidas para brasileiros para lutar na guerra, tornaram mais visíveis as limitações
obter crédito para comprar escravos para destruir mais florestas e plantar mais do escravismo, como forma de organizar a produção e o poder.
. cafe(36).
Tanto que praticamente todos os historiadores reconhecem que a
Monarquia e a Escravatura entraram em declínio irreversível com
A economia açucareira, por seu lado, encontrava-se numa situação
essa guerra.
difícil, devido à concorrência internacional; e provavelmente à
Contemporaneamente às transformações económicas e políticas,
produtividade relativamente menor das unidades antigas baseadas
decresceu o número de escravos na população brasileira. Em 1850
em mão-de-obra escrava. O mercado inglês era abastecido pelas
havia no Brasil 2.500.000 escravos e 5.520.000 pessoas livres. Em
colónias das Antilhas. Cuba estava fornecendo o mercado norte-
1872 os escravos eram 1.510.000, ao passo que os livres totalizavam
americano. E os outros produtos de exportação - algodão e fumo - 8.60 1 .255. ojaojd^ahoJiãQ^Êni. 1888, a população escrava estava
também não conseguiam animar o conjunto da economia escravista.
em cerca de 500.000, mas a população livre continua acrescer, de
Entre 1821-30 e 1841-50, o valorem libras das exportações de açúcar cresceu em 24 fOrmOíceTèTâda, devido à intensificação da imigração europeia nas
por cento, vale dizer, com uma média anual de 1,1 por cento; o das exportações de últimas décadas do século XIX. Em 1890 a população total do Brasil
algodão se reduziu à metade; o das de couros e peles se reduziu em 12 por cento, e o alcançava um pouco mais de 14 milhões de pessoas(39).
das de fumo permaneceu estacionário. Desses produtos, o único cujos preços se A verdade é que desde o término da Guerra do Paraguai
mantiveram estáveis foi o fumo. Os exportadores de açúcar, para receber 24 por cento aceleroú-se o desenvolvimento capitalista no Brasil. Além das
mais em valor, mais que dobraram a quantidade exportada; os de algodão receberam fazendas cafeeiras, baseadas na mão-de-obra do trabalhador livre,
a metade do valor, exportando apenas 10 por cento menos, e os de couros e peles multiplicaram-se os empreendimentos artesanais. fabris e comerciais:
mais que dobraram a quantidade para receber um valor em 12 por cento inferior(37). e expandiram-se os aparelhos de Estado. Assim, a partir de 1870,
vão se delineando, de maneira cada vez mais nítida, os contornos e as
A formação social capitalista teve a sua base económica mais incompatibilidades entre a formação social capitalista, mais vigorosa
dinâmica principalmente na cafeicultura do oeste paulista, da qual em expansão, e a formação social escravista, impossibilitada de
Campinas foi ceníro importante por certo tempo. Essa zona acompanhar integrativamente o dinamismo daquela. É claro que a
desenvolveu-se de maneira cada vez mais intensa desde meados do tensão daí resultante refletia-se 'também na organização e no
século XIX. Baseou-se de forma progressiva no trabalhador livre, funcionamento dos aparelhos de Estado. Expressivamente, é nessa
proveniente da imigração europeia. Aí o fazendeiro dispunha de época que o Exército e a Igreja católica dividem-se, abertamente
melhores condições de organização e movimentação dos elementos quanto à defesa e o combate à escravatura.
económicos, técnicos e sociais da produção. .Não foi por mero acaso, pois, que a campanha abolicionista e a
campanha pela criação do regime republicano de governo - neste
caso a extinção da Monarquia - foram contemporâneas. Em muitos
(36) Stanley J. Stein, Vassouras (Brazilian coffee county, 1850-1900), Harvard lugares e circunstâncias as duas campanhas tiveram as mesmas bases
University Press, Cambridge, 1957, p. 30. Essa obra foi publicada em edição sociais,' expressavami interesses político-econômicos dos mesmos gru-
brasileira; Grandeza e decadência do café no Vale do Paraíba, trad. de Edgar
Magalhães, Editora Brasiliense, São Paulo, 1961, p. 36. (38) Ibídem, p. 124.
(37) Celso Furtado, Formação económica do Brasil, 79 edição, Companhia Editora (39) Caio Prado Júnior, História económica do Brasil, 3* edição, Editora Brasiliense,
Nacional, São Paulo, 1967, p. 115-116. São Paulo, 1953, p. 328; também Stanley J. Stein, Vassouras, citado, p. 294

26 B l B Ll o > g t
pôs sociais. Da mesma forma, não foi por mero acaso que a Abolição Devido às peculiaridades da formação social escravista, em face
da Escravatura e a Proclamação]da República ocorreram com poucos da capitalista, a incompatibilidade entre elas não provocou senão
meses de diferença, respectivamente 13 de maio de 1888 e 15 de polémicas ideológicas, controvérsias jurídico-políticas, confrontos
novembro de 1889. A queda da Monarquia foi o desenlace final do morais; antes do que antagonismos económicos drásticos. Em
confronto entre a formação social escravista, em franca decadência, poucas palavras, esse o segredo da forma relativamente pacífica
e a formação social capitalista, em expansão. Ou melhor, a luta entre pela qual se aboliu a escravatura e, ao mesmo tempo, mudou-se o
a aristocracia agrária, de base escravocrata, e a burguesia cafeeira do regime político no Brasil.
oeste paulista, na qual vence esta, era a expressão política dos
desajustes e antagonismos entre as duas formações sociais: desajus-
tes e antagonismos esses expressos nas divergências e lutas entre O senhor, o burguês e o escravo
duas facções políticae economicamente|diversasída/camada dominante.
A rigor, uma era uma casta decadente, ao passo que a outra era uma Nos Estados Unidos, a formação social capitalista, por assim dizer,
classe social ('ascendente. Por isso a Proclamação da|Repúlblica tem os constituiu-se e desenvolveu-se um tanto à parte e independentemen-
característicos de uma mudança político-econômica importante. te da formação social escravista. Devido às condições políticas e
económicas em que se realizou a independência política das colónias
inglesas da América do Norte, os estados da federação norte
No terreno económico observaremos a eclosão de um espírito que se não era americana guardaram certa autonomia relativa, quanto a questões
novo, mantivera-se no entanto na sombra e em plano secundário; a ânsia de políticas e económicas. Ao mesmo tempo, a independência significou
enriquecimento, de prosperidade material(40). a emancipação política e económica reais, o que abriu possibilidades
de industrialização nos estados em que os interesses agrários e
Em suma a República, rompendo os quadros conservadores dentro dos quais se escravistas não eram muito fortes, ou preponderantes. Nos estados do
mantivera o Império apesar de todas suas concessões, desencadeava um novo espírito Norte, os colonos haviam organizado uma economia, de tipo
em tom social bem mais de acordo com a fase de prosperidade material em que o país camponês, baseada no trabalho familiar, assalariado ou outro. Eram
se engajara. Transpunha-se de um salto o hiato que separava certos aspectos de uma inicialmente camponeses que trabalham principalmente para si e
superestrutura ideológica anacrónica e o nível das forças produtivas em franca
expansão. Ambos agora se acordavam. Inversamente, o novo espírito dominante que
vendiam a produção excedente. Progressivamente, iniciaram ou
terá quebrado resistências e escrúpulos poderosos até havia pouco estimulará propiciaram atividades artesanais e fabris, com as quais abriram-se
ativamente a vida económica do país, despertando-a para iniciativas arrojadas e outras possibilidades de desenvolvimento das forças produtivas, da
amplas perspectivas. Nenhum dos freios que a moral e a convenção do Império divisão social do trabalho e das relações de produção, além dos
antepunham ao espírito especulativo e de negócios subsistirá; a ambição do lucro e quadros do escravismo. Nos estados do Sul, predominava o trabalho
do enriquecimento i se consagrará como um alto valor social. O efeito disto sobre í escravo e a produção de algodão. De fato, a formação social
vida económica do país não poderá ser esquecido nem subestimado(41). escravista que se manteve no sul dos Estados Unidos depois da
independência, revelou elevado dinamismo demográfico, apesar da
redução drástica do tráfico de escravos havida nos anos 1820-60. Era
(40) Caio Prado Júnior, História económica do Brasil, citado, p. 214.
(41) Caio Prado Júnior. Op. cif., p. 215. Outras obras sobre a problemática discutida
nos parágrafos precedentes: i Emília Viotti da Costa. Da senzala à colónia. Difusão especialmente Tomo II, dividido em vários volumes, sobre "O Brasil monárquico",
Europeia do Livro, São Paulo, 1966; Oliveira Vianna, O caso do Império, 2- edição, Octavio lanni, Raças e classes sociais no Brasil, 2S edição, Editora Civilização
Comp. Melhoramentos de S. Paulo, S. Paulo, 1933; Nelson Werneck Sodré, Brasileira, Rio de Janeiro, 1972, esp. caps. I e II; Roger Bastide e Florestan
Panorama do Segundo Império, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1939; Alan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, 2° edição. Companhia Editora Nacional,
K. Manchester, Preeminência inglesa no Brasil, trad. de Janaína Amado, Editora
Brasiliense, São Paulo, 1973; Richard Graham, Britain & the onset ofmodernization in
Brasil, 1850-1914, Cambridge University Press, Cambridge, 1968; Stanley J. Stein,
The Brazilian cotton manufacture (textile enterprise in an underdeveloped área,
• São Paulo, 1959, esp. cap. I; Paula Beiguelman, A formação do povo no complexo
cafeeiro: aspectos políticos, Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1968; Paula
Beiguelman, Pequenos estudos de ciência política. Editora Centro Universitário, São
Paulo, 1967, esp. os três primeiros ensaios; Ronaldo Marcos dos Santos; Término do
1850-1950), Harvard University Press. Cambridge. 1957; Thomas Davatz. Memórias escravismo na Província de São Paulo (1885-1888), MS, São Paulo, 1972; Fernando
de um colono no Brasil (1850), trad. de Sérgio Buarque de Holanda, Livraria Martins, Henrique Cardoso, Capitalismo e escravidão, Difusão Europeia do Livro, São Paulo,
S. Paulo, 1941; Sé|-gio Buarque de Holanda (Organizador), História geral da 1962, Peter L. Eisenberg, The sugar industry in Pernambuco, University of Califórnia
civilização brasileira, 2 tomos, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1960-1972, Press, Berkeley, 1974.

28 29
intento de compreender a formação social escravista do Sul dos
uma sociedade fundada na casta de escravos. Devido aos vínculos da Estados Unidos.
produção algodoeira do Sul com a indústria têxtil da Inglaterra, a Os dados da história político-econômica dos Estados Unidos, na
formação social escravista manteve seu crescimento económico e época que vai da independência à guerra civil, mostram que nesse
fortaleceu as suas estruturas e ambições políticas. Conforme a país criou-se uma formação social capitalista que se expandiu para o
análise realizada por Robert W. Fogel e Stanley L. Engerman, oeste e o exterior. Fez parte dessa expansão a conquista de territórios
antes pertencentes ao México, da mesma forma que a luta contra
antes da guerra civil, ocorrida nos anos 1861-1865, o Sul escravo- ingleses e franceses, ao norte e ao sul dos primeiros treze estados
crata possuía uma economia próspera. independentes. Ao mesmo tempo que o Sul escravista revelava vigor
Os Estados Unidos, pois, tornaram-se a principal nação escravocrata do mundo económico e político, os estados não escravistas expandiam-se. Com
ocidental, não por sua participação no tráfico de escravos, mas devido à excepcional- isso os interesses mais tipicamente capitalistas eram cada vez mais
mente elevada taxa de crescimento natural da sua população escrava. Em 1825 havia presentes e protegidos nas esferas do governo federal. Progressiva-
cerca de 1.750.000 escravos no sul dos Estados Unidos. Isto representava mais de 36 mente, crescia o poder decisório dos setores hegemónicos na
por cento de todos os escravos do Ocidente, naquele ano. Apesar do seu papel formação social capitalista. Aliás, desde a independência a Consti-
secundário no tráfico atlântico de escravos, os Estados Unidos foram, durante as três tuição da União norte-americana garantiu as bases jurídico-políticas
décadas que precederam à guerra civil, a maior potência escravocrata" do mundo para o funcionamento e a expansão das forças produtivas e das
ocidental e o baluarte da resistência à abolição da escravatura (42). relações capitalistas de produção.
1 Longe de estar estagnado, o Sul era razoavelmente rico. pelos padrões da época
,que precede a guerra civil. Se tratarmos o Norte e o Sul como duas nações Uma das principais contribuições da Constituição para o crescimento - provavel-
; separadas, e as classificarmos entre as outras nações da época, o Sul entraria como a mente a mais fundamental - foi o estabelecimento das bases legais para um mercado
quarta nação mais rica do mundo em 1860(43). nacional. Ao garantir-se ao Congresso a autoridade sobre o comércio interestadual,
privou-se os estados da faculdade de interpor obstáculos ao livre j movimento de
pessoas, produtos e fatores produtivos por toda a nação(45).
O ritmo de desenvolvimento do Sul era tão rápido (1,7 por ano) que constitui uma
evidência indiscutível contra a tese de que a escravidão, retardou o crescimento do
O dispositivo constitucional, que estendeu o poder judiciário federal a todas as
Sul(44). controvérsias entre cidadãos de diferentes estados, abriu as cortes da União às
questões e disputas relativas à propriedade e outros direitos, que poderiam surgir nas
Essa compreensão do Sul escravista contrasta com a interpretação mais distantes partes do mercado nacional(46).
prevalecente entre historiadores, economistas e sociólogos, como
Eugene D. Genovese, Gunnar Mjyrdal, Herbert Aptheker, E. Fran- Ao mesmo tempo, aluaram favoravelmente, no sentido da expan-
klin Frazier e outros. Ocorre que Fogel e Engerman tomaram a são do capital industrial, as dificuldades de importar manufaturas
escravatura norte-americana em termos exclusiva e estritamente europeias, na época da segunda guerra com os ingleses em
económicos. Não realizaram uma análise político-econômica,naqual 1809-1815, a proteção governamental, a introdução de aperfeiçoa-
sobressaíssem as relações, os processos e as estruturas de apropriação mentos técnicos na manufatura algodoeira. Nessas condições, criou-
económica e dominação política que efetivamente revelassem o se a indústria têxtil (algodão e lã), a siderúrgica e a de alimentação.
escravismo, interna e externamente. Apesar disso, no entanto, a Pouco antes da guerra civil, já era bastante dinâmica e vigorosa a
contribuição de Fogel e Engerman deve ser aproveitada em todo base económica da formação social capitalista vigente nos Estados
Unidos. É o que indicam os dados registrados na Tabela II. Note-se
a posição relativa e absoluta dos estados escravistas do Sul. Aí estão
(42) Robert W. Fogel e Stanley L. Engerman, Time on lhe cross, citado, vol. l, p. alguns elementos importantes para a compreensão das relações de
29.
(43) Ibidem, p. 249.
interdependência e antagonismo entre a formação social escravista,
(44),Ibidem,p. 251.Consultar também:Eugene D. Genovese, The política! economy of por um lado, e a formação social capitalista, por outro.
slavery (studies int the economy and society of the slave South), Pantheon Books,
New York, 1966; Herbert Aptheker American negro slave revolts, International
(45) Stuart Bruchey, The roots of American economic growth 1607-1861, Harper
Publishers, New York, 1964, esp. cap. III; E. Franklin Frazier, The negro in the Torchbooks, New York, 1968, p. 96-97.
United States, The MacMillan Company, New York, 1957, esp. parte 1; Gunnar
Myrdal, An American dilemma, Harper & Brothers Publishers, New York, 1944, esp. (46) Ibidem, p. 97.
cap. 10.
31
30
«t
fc j?
r- es o •-* ON
OO ON <*» 00
fS fO
ON OO
O\O O
*/} ÍS Os i
vo «-t Os
CO (S
00 Progressivamente, o Estado nacional havia aoquirido os contornos
de um aparelho político burguês, no qual os interesses escravistas
»rj CO
OO <S
\ iq <N
^- «O T-I
encontravam cada vez menor ressonância. Ao longo das décadas que
\ O oo v> r-
^t oo cn i-H antecedem a guerra civil, colocaram-se em confronto, de maneira
cada vez mais delineada e tensa, a formação social capitalista,
baseada principalmente no Norte, e a formação social escravista,
baseada apenas no Sul. É verdade que a formação social escravista
ainda revelava certo vigor. Devido às suas relações económicas com
a indústria têxtil inglesa, a produção algodoeira do Sul garantiu a
vigência e o poder económico do escravismo. Daí o elevado índice de
~*
r^ o
lt
articulação interna das estruturas político-econômicas, garantindo o
t^ «s
-H *£> o\ O r-) ~4 00 funcionamento, a tenacidade e a agressividade dos escravocratas do
os •**• O ^H 10 -H 00
m 10 fs —i Sul. Por isso a formação social escravista não cedeu à formação
2 ã
m social capitalista, cujas bases sócio-econômicas e políticas estavam no
Norte e Oeste, além do maior controle do aparelho estatal federal. A
luta armada havida nos Estados Unidos nos anos 1861^-65 pode ser
considerada o resultado das divergências, tensões e antagonismos
1 entre os senhores de escravos, do Sul, e a burguesia industrial,
comercial e financeira, do Norte. Por sob essa luta militar,
r^ •* co *o "*t vo
encontravam-se as incompatibilidades estruturais entre o escravismo
OO >* Th OO CO O
r-; o\j r* m os
t-^ rt r-» vi o r-^
p- vo *H r- oo Tf
TÍ- o <N ^ r*> r-*
li
>0
°°.
c*j
»
e o capitalismo, como formas distintas e divergentes de organização
das relações de apropriação económica e dominação política.
§ l

É claro que essa interpretação|deveria ser melhorjdesenvolvida e
comprovada. Mas ela sugere que a forma assumida pela abolição
nos Estados Unidos não se explica pelo tipo de escravatura vigente
l ali, e sim pelas relações recíprocas e antagónicas entre as duas
g formações sociais. Nessa perspectiva de análise, os valores culturais,
os padrões de comportamento, as instituições religiosas, jurídico-
políticas e económicas passam a ser compreendidos nos quadros de
t^ CN relações e estruturas de dominação política e apropriação económi-
O
Q
Z Si l o m v
(S «o
o o
es
C"— GO
t^; <s
I
•s:
ca num caso, essencialmente determinados pelo trabalho escravo,
e no outro, essencialmente determinados pelo trabalho livre. A
maneira violenta ou pacífica do colapso da escravatura - nos
Estados Unidos, Brasil ou outro país passa a ser vista à luz das
relações de interdependência e antagonismo entre a formação
social capitalista e a formação social escravista. Contando sempre,
t> é claro, com as tensões e os antagonismos entre a casta dos senhores
, branco^- jx>r um^lado^eji classe burguesa, por outro.\tm última \, nS
d
*

•§ s í l L s ido um negócig^Jjrancosjrió sentido que acabei de expor
Islo 0 <»
•3, .S 5 ã -6 .2 S
b Essa é, a meu ver, a perspectiva histórica mais adequada para

•5
«i
O
Wi
O
«l
O
«3 »-t
O *O explicar-se a singularidade da abolição do regime de trabalho

32
Z WWWH H l 33
escravo, no Brasil, Estados Unidos e outros países. É preciso que a estruturais desses valores e padrões - por meio dos quais se marcam
analise apreenda as peculiaridades da formação social capitalista e as e expressam as linhas de casta do escravismo - têm sido examinados
da formação social escravista, em si e em suas relações recíprocas, de por vários autores. Entre eles estão E. Franklin Frazier, Gunnar
interdependência e antagonismo. A pesquisa precisa compreender Myrdal, Roger Bastide, Florestan Fernandes, Frank Tannenbaum,
como a formação social capitalista surge do desenvolvimento das Gilberto Freyre, Marvin Harris, David Brion Davis, C. R. Boxer,
forças produtivas internas e das relações externas, transformando-se, Herberjt S. Klein, Emilia Viotti da Costa, Fernando Henrique
em seguida, num sistema de dominação e apropriação diverso, e Cardoso e outros. Um estudo particularmente, importante, sobre
antagónico, em face da formação social escravista. afitudes raciais e valores sexuais na sociedade escravocrata, foi
Esse é o contexto histórico e teórico no qual a pesquisa e a publicado "por Verena Martinez-Alier(47). A despeito das diferenças
interpretação das singularidades e semelhanças entre a escravatura de interpretação entre os autores, praticamente todos reconhecem as
no Brasil, Estados Unidos e outros países pode alcançar resultados especificidades da cultura escrava, em relação com a cultura do
senhor.
novos e talvez menos equívocos do que os encontrados até o
presente. Toda discussão sobre as diferenças de tradições religiosas e
Nabuco: É (a escravidão) a posse, o domínio, o sequestro de um homem -
jurídico políticas poderia adquirir outra significação se inserida na corpo, inteligência, forças, movimentos, atividade-e só acaba com a morte(48).
pesquisa mais ampla e concreta da maneira pela qual se organizam,
desenvolvem e entram em antagonismo as formações sociais escra-
vista e capitalista. Isto significa trabalhar com os acontecimentos em ... os escravos e os seus filhos... não podem ter consciência, ou, tendo-a, não
termos de relações, processos e estruturas de apropriação económica podem reclamar, pela morte civil a que estão sujeitos(49).
e dominação política. Ou, em outras palavras,_a análise da crise e
extinção da escravatura pode tornar-se muito mais objetiva quando Elkins: Pensava-se que ensinar os escravos a ler e a escrever produziria a
inquietação em suas mentes, provocando assim a insurreição e a rebelião(50).
ela procura conhecer as seguintes dimensões básicas de cada
formação social: as formas de organização social e técnica'da s Cardoso: A formação dos escravos e a sua preparação para a vida social são
relações de produção, o que implica conhecer também a composição incompletas. Regra geral, eles são preparados apenas para as'tarefas não especializa-
das forças produtivas (capital, terra, tecnologia, força de trabalho, das e para as atitudes que o seu dono espera deles. Trata-se, pois, de impedir que
divisão social do trabalho, modalidades de trabalho cooperativo etc.) adquiram meios que facilitem a adoção de ações combinadas e autónomas de sua
paríe(51).
e os graus do seu desenvolvimento e desigualdades; as relações e
estruturas gerais e especiais de apropriação económica e dominação
política; as estruturas jurídico-políticas e ideológicas (incluindo-se Nessas condições, características da situação de casta vivida pelo'
religião, educação etc.) que compõem, integram e expressam os escravo, ele não dispunha de elementos para organizar uma
movimentos das relações de produção; as articulações, os desencon- inteligência política da sua alienação e possibilidades de luta. Por
tros e os antagonismos entre as formaçTões sociais escravista e isso, na relação escravo-senhor, o antagonismo nunca se desdobra na
capitalista. — •- luta propriamente1 revolucionária. O escravo podia fugir, esconder-
Note-se, pois, que não é a casta dos escravos que destrói o se, suicidar-se, matar ou roubar o senhor e membros dessa casta;
trabalho esçrayjzaáo;_g_ muito jrnenos vence a casta dos senhores. inclusive podia rebelar-se em grupo. Mas esses atos não eram o
Acontece que a condição* económica, jurídico-política e sócio-
cultural do escravo não lhe abria qualquer possibilidade de elaborar,
como coletividade, uma compreensão articuíada e crítica da própria (47) Verena Martinez-Alier, Marriage, class and colour in nineteenth-century Cuba,
situação. Na medida em que era socializado como escravo, isto é, Cambridge University Press, 1974.
como propriedade do senhor, ao escravo não se abriam quaisquer (48) Joaquim Nabuco, O abolicionismo. Companhia Editora Nacional, São Paulo,
1938, p. 124.
possibilidades de entendimento independente, autêntico, ou crítico, (49)Ibidem, p, 20.
da sua .condição. Daí a importância e a significação da cultura da (50) Stanley M^Èlkins, "Slavery|in capitalistjand|non-capitalist cultures",L.[Foner e
casta escrava, da cultura da senzala. Nessa cultura predominam E. D. Genovese (organizadores), Slavery in the New World, Prentice-HalI, Englewood
valores e padrões de entendimento e comportamento permitidos ou Clifís, 1969, p. 8-26; citação da p. 13.
impostos pela casta dos senhores. As sutilezas e os significados (51) Ciro F. S. Cardoso, "El modo de producción esclavista colonial en América",
citado, p. 222.

34
35
produto de uma compreensão política da alienação escrava(52). Em qual os mulatos livres estavam sendo rechaçados do jogo político,
geral, eram o produto de uma revolta por assim dizer subjetiva, que esses mulatos iniciaram a luta armada e associaram-se' aos
individual ou anárquica. E quando a rebeldia, ou outros atos, escravos. Assim, teriam sido os mulatos livres que iniciaram e
possuíam conotação política - e houve muitos atos desse tipo na desenvolveram a luta contra os brancos: (l 9 ) para participar do novo
história da escravidão-o que estava ocorrendo era uma politização poder; (2Ç) pela independência de Saint-Dominique; (3°) pela
do escravo em situações não mais especificamente de escravatura. O abolição da escravatura. O líder Toussaint Louverture, que coman-
escravo politizava a sua visão crítica do mundo social em que vivia dou boa parte da luta contra os senhores brancos e o exército
precisamente no momento em que se "deteriorava" a condição napoleônico invasor, teria sido um criado doméstico, rendeiro numa
escrava; isto é, no momento em que ele se urbanizava, começava a plantation e cocheiro. Outros registram que ele teria sido escravo. A
ingressar na cultura especificamente capitalista, ou principiava a verdade é que Louverture sabia ler e escrever, além de ter adquirido
tornar-se opeíário. Aliás, não é por mero acaso que a escravidão conhecimentos de matemática e possuir experiência militar. Tivesse
sempre foi extinta principalmente devido a controvérsias e a ou não sido escravo, ele possuía nível cultural muito acima daquele
antagonismos entre brancos, ou grupos e facções das camadas que era permitido ao escravo do eito, fazenda, engenho ou
dominantes. Em geral, a abolição da escravatura foi um negócio de plantation. E como ele, havia outros, sem contar os mulatos livres,
brancos. que também participaram das lutas de independência, lutas essas
que se desdobraram na abolição da escravatura(53).
Como vemos, a vitória dos negros sobre os brancos, ou escravos
sobre os senhores, no Haiti, foi o resultado de um processo político
complexo, desenrolado ao longo de quinze anos. E reflete uma
Cabe aqui uma nota sobre a abolição da escravatura no Haiti. formação social escravista muito especial, na qual os mulatos
Haiti foi a única colónia europeia no Novo Mundo na qual a tiveram atuação importante, alguns escravos puderam aprender a ler
escravatura foi abolida em consequência da luta armada entre e escrever, os brancos - senhores ou não - estavam divididos e a luta
negros, mulatos e brancos. Assim, numa primeira aproximação, pela abolição da escravatura foi um processo por assim dizer
esse é um caso em que não se comprovaria a tese de que a casta de derivado da luta pela independência.
escravos não poderia organizar uma consciência política da aliena- Convém observar, por fim, que a Revolução Francesa, no seio da
ção escrava. De fato, ao longo dos anos da luta, em 1789-1804, os qual ocorreu a crise em Saint-Dominique e a libertação dessa
escravos lutaram contra os senhores e aboliram a escravatura. colónia e dos escravos, foi um acontecimento fundamental na
Ocorre, no entanto, que a crise do escravismo em Haiti, em 1789, história do capitalismo francês, europeu e mundial. Aliás, em
iniciou-se com uma crise no seio dos homens livres: os "grandes" perspectiva histórica, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial
brancos, os "pequenos" brancos e os mulatos. Sob a influência da são duas expressões notáveis das rupturas estruturais, político-
Revolução Francesa, a colónia francesa de Saint-Dominique (que econômicas, que assinalam a supremacia .mundial do modo capita-
passou a denominar-se Haiti com a independência) entrou em lista de produçãõ(54).
grande efervescência política. Nesse momento, desencadeou-se uma
luta entre os vários grupos políticos formados pelos homens livres.
Estava em jogo a democratização e a independência de Saint- Transparência e fetichismo da mercadoria
Dominique, e não a abolição da escravatura. Foi nesse contexto, no
O fato de que a escravatura foi abolida de forma violenta, como
em Haiti e nos Estados Unidos, ou pacífica, como em Cuba e no
(52) Edison Carneiro, O quilombo dos Palmares (1630-1695),\EAilora. Brasiljlense,
São Paulo, 1947; Herbert Aptheker, American negro .slave revolts, International
Publishers, New York, 1963; Eugene D. Genovese, In red and black (Marxian (53) Gerard Pierre-Charles, La economia haitiana y su via de desarrollo, Cuadernos
explorations in Southern and Afro-American history), Vintage Books, New York, Americanos. México. 1965. esp. cap. I: Alfred Barnaby Thomas. Latin America: a
1971, esp. caps. 4 e 10; Joaquim Nabuco, O abolicionismo, citado; Octavio lanni, As history, The MacMillan Company. New York. 1956. p. 222-225.
metamorfoses do escravo, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1962, esp. cap. V.; (54) E. J. Hobsbawn. The age of revolution: 1789-1848. Mentor Book. New York.
Roger Bastide e FVorestan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, citado, esp. 1964.
cap. I.

37
36
Brasil, indica bastante claramente a importância explicativa das
condições políticas e económicas específicas de cada caso. Essa escravismo. Assim, na essência do funcionamento e dos movimentos
especificidade é fundamental, se queremos compreender toda a do escravismo, enquanto formação social, está um singular processo:
gama das implicações económicas e políticas envolvidas no funcio- a violência e a repressão abertas são as exigências políticas, sociais e
namento e crise da formação social escravista, em cada país e em sua culturais de relações de produção organizadas para produzir mais-
devida época. Mas é necessário lembrar que a escravatura foi valia absoluta, produto esse que aparece direta e explicitamente
abolida, em praticamente todos os países, no curso do século durante como expropriação. No escravismo, a mercadoria aparece direta-
o qual a Inglaterra capitalista afirmou e expandiu a sua hegemonia mente como produto alienado de um produtor alienado. Isto é, a
económica mundial. Essa combinação de condições internas, pró- mercadoria surge transparente, como trabalho social cristalizado e
prias de cada país, e externas, devidas à expansão do comércio expropriado. Daí a importância das técnicas de repressão e violên-
internacional de manufaturados e matérias-primas, foi suficiente- cia, operando tanto no processo produtivo, em sentido estrito, como
mente examinada nos capítulos anteriores. Talvez seja possível e nos níveis sociais e culturais da existência do escravo, fora da
conveniente recolocar alguns dos aspectos mais significativos da situação de trabalho.
abolição da escravatura nos seguintes termos: a abolição da Trata-se portanto, de uma situação radicalmente diversa daquela
escravatura foi uma transformação revolucionária das relações de vigente nas relações de produção especificamente capitalistas, basea-
produção, pois que, ao possibilitar a generalização do trabalho livre, das no trabalho do operário. Na sociedade capitalista, na qual
abriu novas e amplas condições para o desenvolvimento das forças predomina o trabalho livre, a mercadoria aparece fetichizada à
produtivas; e_implicoa_a transformação das relações e estruturas de consciência do perário e do burguês. O fato de que o operário vende
castas, específicas do escravismo, em relações e estruturas de classes a sua força de trabalho por um salário especificado em contrato, de
sociais, características do capitalismo. que pode vender a diversos compradores, sucessivamente, e de que
Vejamos, pois, mais alguns aspectos importantes da crise de pode variar o preço dessa venda, nas condições do mercado, cria no
transição do regime de trabalho escravo ao regime de trabalho livre. operário a ilusão de que o concreto é o salário, ou a .rnejca-
Dessa maneira quero acrescentar outros dados e hipóteses para a doria. e não o trabalho alienado, a mais valia. A mercadoria acaba por
compreensão da formação social escravista e das condições histórico- apresentar ao operário como estranha e independente de e, fetichi-
estruturais do seu colapso final. zada. Ao passo quedara o escravo a mercadoria surge imediata e
O caráter repressivo e violento do escravismo não se explicava explicitamente como produto alienado de seu trabalho. A condição
pelo medo que o senhor poderia ter da revoltaouvingançado escravo. escrava torna explicita a expropriação do trabalhador, no produto
Não há dúvida de que esse era um dado da consciência do senhor. do seu trabalho e na sua pessoa. Essa e outras características"3a"
Todo escravo aparecia, na consciência do senhor, como sua proprie- alienação peculiar à condição escrava foram registrados por diversos
dade e seu inimigo. Afinal de contas, a condição escrava tornava o autores. Vejamos alguns exemplos:
escravo e o senhor, ao mesmo tempo e reciprocamente, inimigos.
Mas seria incompleta a explicação que se limitasse a situar a Anlonil: Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles
repressão e a violência características do escravismo como produtos no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho
do medo. corrente(55).
Para explicar o caráter repressivo e violento das relações escravis-
Genovese: Ao contrário do sitiante, o senhor de escravaria tinha uma fonte
tas de produção é necessário compreender que o escravismo é um especial de sua maneira de ser e mitologia: o escravo. Mais precisamente, ele tinha
sistema de produção de mais^valia absoluta, sistema esse no qual a o habito do mando, mas havia mais do que uma autoridade despótica na relação
mercadoria aparece imediata e explicitamente como produto da senhor-escravo. O escravo permanecia interposto entre o senhor e o objeto desejado
força de trabalho alienada. Aliás, o escravo é duplamente alienado, por seu senhor (o que era produzido). Dessa forma, o senhor relacionava-se ao
como pessoa, enquanto propriedade do senhor, e em sua força de objeto desejado somente pela mediação do escravo. O senhor de escravo controlava
os produtos do trabalho do outro, mas pelo mesmo processo era forçado a depender
trabalho, faculdade sobre a qual não pode ter comando. O es- desse outro (56).
cravo é obrigado a produzir m u i t o além do que recebe
para viver e reproduzir-se; e não dispõe de condições para
negociar, nem o uso da sua força de trabalho nem a si
(55) André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil, Companhia Editora
mesmo. Esse é o fundamento do caráter repressivo e violento do Nacional, São Paulo, 1967, p. 159 Obra editada pela primeira vez em 1711.
(56) EugeneD. Genovese, The política] economy of slavery, citado, p. 32.
38
39
rapidamente na cidade. No ambiente económico, sócio-cultural e
Marx: Na pessoa do escravo rouba-se diretamente o instrumento da produ-
político da cidade, ocorre mais fácil e amplamente a socialização das
ção(57).
experiências da condição alienada de cada um, como pessoa e
É claro que o tipo de alienação em que vive o escravo gera trabalhador. No ambiente urbano, as técnicas de repressão e
também uma modalidade singular de alienação do senhor. A violência não podem ser usadas com o mesmo arbítrio e a mesma
transparência da alienação do trabalho e do trabalhador, na generalidade que na fazenda, engenho, plantation e outras unidades
escravatura, torna o senhor direta e imediatamente alienado e de produção escravista. Na cidade e na indústria os escravos
prisioneiro da situação escrava. Ao senhor, o escravo surge direta e encontram melhores condições para conviver e trocar experiências
explicitamente como inimigo, motivo porque deve estar todo o entre si e com os operários, ou ex-escravos, cujas condições de vida e
tempo submetido ao seu arbítrio. cujos ideais podem ser diversos e mais críticois. Por fim, é no
Se a alienação do escravo é transparente, ela se torna um duplo ambiente urbano que florescem e difundem-se as opiniões e as
obstáculo à continuidade do trabalho escravo no interior do interpretações críticas sobre o escravismo e as possibilidades da sua
capitalismo. extinção. Vejamos o que escrevem Stein, Klein e Genovese, sobre a
Em primeiro lugar, os escravos não podem ser postos em situações incompatibilidade entre o trabalho escravo e o trabalho livre, em
de trabalho nas quais^possam intercambiar e socializar as experiên- distintos contextos sociais, no Brasil, em Cuba e nos Estados Unidos.
cias da sua condição alienada. Já que a alienação escrava é
transparente, o sistema não pode propiciar aos escravos - coletiva- Stein: Em 1853, ao afirmar que a escravidão não atrasou a industrialização, a
mente ou mesmo em pequenos grupos - nenhuma possibilidade de comissão de preços admitia que "a maioria dás fábricas em nosso pais usa trabalho
organização social ou política do seu pensamento e atividade sobre a escravo". Não obstante, as fábricas em geral abandonaram o uso de escravos depois
de 1850, logo que o trabalho assalariado surgiu, e começou a imigração europeia. A
sua condição alienada. Nem no trabalho, nem fora dele, os escravos
sombra da escravidão era visível em frases como esta: "o trabalho é caro e ineficaz,
têm possibilidades de organizar as suas experiências, ideias e quando não é executado por escravo sob um regime disciplinar correspondente"(58).
atividades. Daí porque muitas reações dos escravos são atos
individuais de revolta anárquica. Daí porque as rebeliões escravas
Klein: Ao mesmo tempo que desfrutavam de mais oportunidades económicas e
são poucas e de resultados precários ou negativos. Em nenhum país dos privilégios da semiliberdade, associados à maior circulação e à faculdade de
(salvo nas condições especiais do Haiti) a abolição da escravatura foi alugar-se, os escravos urbanos também mantinham um intercâmbio social ativo com
uma ruptura estrutural na qual os próprios escravos tiveram os homens livres e outros escravos, nas suas tabernas, agremiações e outras atividades
papéis relevantes, Em sua significação histórico-estrutural, a aboli- sociais. Para o escravo urbano, a vida era realmente rica e variada(59).
ção foi sempre um negócio de brancos, o resultado dos. antagonismos
entre os interesses da casta dos senhores brancos e os interesses da Genovese: Entre os começos dos anos 1840 e o princípio da guerra, muitos sulistas
burguesia branca eme.rgente. abandonaram a sua oposição à expansão industrial, mas em geral mantiveram a sua
Em segundo lugar, o escravo não pode ser posto a trabalhar com o hostilidade ao "sistema manufatureiro". Mesmo durante a guerra, depois de um
breve período de entusiasmo pelas novas fábricas, a opinião pública voltou-se contra
operário, em caráter permanente. Por um lado, o trabalho de cada os fabricantes, com surpreendente fúria. De que tinham medo os senhores de
um organiza-se social e tecnicamente de maneira peculiar. Em escravos? Uma burguesia urbana, com interesses próprios e dinheiro para defendê-
nenhuma hipótese a forma de controle, estímulo e repressão que los; um proletariado urbano com tendências imprevisíveis; um contingente semi-
organiza o trabalho escravo pode ser igual ou semelhante à que escravo subvertendo a disciplina do trabalho no campo - eles temiam isso e algo
organiza o trabalho operário. Por outro lado, o convívio direto e. mais(60).
permanente do escravo com o operário significaria o convívio entre
uma modalidade de alienação aberta e outra fetichizada. É obvio Dessa forma, a alienação aberta e transparente do escravo,em sua
que a alienação transparente da condição escrava iluminaria a pessoa e no produto do seu trabalho, tornou-se um duplo obstáculo à
alienação velada da condição operária.
Essas são as razões porque o escravismo se deteriora mais
(58) Stanley J. Stein, The Brazilian cotton manufacture, citado, p. 51.
(59) Herbert S. Klein, Slavery in the Americas (a comparative study of Cuba and
Virgínia), The Universityof Chicago Press, Chicago, 1967, p. 160.
(57) Karl Marx, Elementos fundamentales para Ia crítica de Ia economia política, (60) Eugene D. Genovese, Op. cit., p. 181.
citado, vol. l, p. 18.

41
40
continuidade da escravidão no interior do capitalismo. Ou seja, à Mintz: Afinal de contas, o investimento em escravos significa que o capital é
incompatibilidade entre a formação social escravista e a capitalista colocado numa forma inelástica. ... Diferentemente dos assalariados no capitalismo,
tinha raízes mais fundas. os escravos representam um custo adicional para o empresário, reduzindo o seu
capital, quando não estão trabalhando(62).

Cardoso: O escravo faz parte do capital fixo, dos meios de produção. A rotação
Liberdade e mais-valia desse capital é lenta, seu ciclo corresponde à duração da vida ativa do escravo. Este
pode morrer, tornar-se invalido, o que supõe a perda parcial ou total da importância
A "desumanidade" da escravatura, segundo as leis de Deus e da investida nele, e que constituía o lucro antecipado e capitalizado que se esperava
burguesia, somente se instaura e desenvolve, de maneira irreversí- obter dele(63).
vel, na consciência da burguesia ascendente, quando a acumulação
de capital passa a ser comandada pelo processo produtivo. Quando o Chayanov: No sistema económico escravocrata, a parte do produto atribuída ao
capitalismo generaliza a ideia e a prática de que o lucro se produz no trabalho escravo, em termos económicos, não é tomada pelo escravo, mas por seu
processo da produção, o senhor de escravo se coloca diante de um proprietário, por força da sua condição de proprietário do escravo. E esta é uma
impasse. A composição orgânica de seu capital passa a ser um renda suplementar, que é a razão de ser da escravatura(64).
requisito essencial para o aumento ou a preservação da sua taxa de
lucro. Ao dar-se conta de que o trabalhador livre corresponde a Marx: Na economia escravista, o preço pago pelo escravo nada mais é que a
relações de produção mais propícias à produção de lucro - nas mais-valia antecipada e capitalizada,ou seja.o lucro que se pretende extrair dele. Mas,
condições do capitalismo - o senhor de escravos transforma-se num capital desembolsado nessa compra não faz parte do capital com que se tira lucro,
burguês; ou é forçado a transformar-se num burguês, para não ser trabalho excedente do escravo. Ao contrário, é capital de que o senhor de escravos se
•ultrapassado pela empresa capitalista, organizada com base no desfez, deduzido do capita! de que dispõe para a produção efetiva. Já não existe
trabalho livre. Também houve senhores que sucumbiram com o para ele. do mesmo modo que o capital desembolsado nu compra da terra cessou de
escravismo. De qualquer maneira, essa é a época em que se torna existir para a agricultura. E a melhor prova disso é que só pode voltar a existir para
o senhor de escravos ou para o dono das terras se um vender o escravo, e o outro a
mais agudo o antagonismo entre liberdade e escravidão, na cons- terra. Mas. o comprador ficará na mesma situação bem que eles estavam antes dessa
ciência e na prática da classe burguesa em formação. Quando a força venda. A compra não o capacita automaticamente a extrair lucro do escravo.
de trabalho escravo começa a revelar-se obsoleta, na dinâmica do Precisa de novo capital para aplicar na exploração escravista (65).
processo produtivo, da divisão social do trabalho e da transição para
a produção de mais-valia relativa, então o escravocrata é obrigado a
transformar-se em empresário capitalista, associar-se com outros, ou
Marx: O escravo não vendia sua força de trabalho ao possuidor de escravos,
abandonar o sistema produtivo.
assim como o boi não vende o produto de seu trabalho ao camponês. O escravo é
Ocorre que o escravo era subjugado económica, social e cultural- vendido, com sua força de trabalho.de uma vez para sempre, a seu proprietário. E uma
mente aos interesses do seu proprietário. Sob certo aspecto, ele era mercadoria que pode passar das mãos de um proprietário para as de outro. Ele
parte do capital constante imobilizado na plantalion, engenho, mesmo é uma mercadoria, mas sua força de trabalho não é sua mercadoria(66).
fazenda ou fábrica, como os outros instrumentos de trabalho, as
máquinas, a matéria-prima, a terra. Os custos de sua alimentação e
abrigo estavam mais ou menos na mesma categoria dos custos de
manutenção dos instrumentos e máquinas. (62) Sidney W. Mintz, "Slavery and emergent capitalisms", em Laura Foner e
Eugene D. Genovese (organizadores), Slavery in the New World, citado, p. 27-37;
citação da p. 35.
Furtado: A mão-de-obra escrava pode ser comparada às instalações de uma (63) Ciro F. S. Cardoso, "El modo de producción esclavista colonial en América",
fábrica: a inversão na compra do escravo, e sUa manutenção representa custos fixos. citado, p. 216.
Esteja a fábrica ou o escravo trabalhando ou não, os gastos de manutenção terão de (64) A.V. Chayanov, The lheory ofpeasant economv. edição organizada por Daniel
ser 'despendidos. Demais, uma hora de trabalho do escravo perdida não é Thorner. B. Kerblay e R. E. F. Smith, publicada por The American Economic
recuperáve'l...(61). Association,Homewood, Illinois, 1966, p. 14. Citação do ensaio intitulado"On the
theory of [ non-capitalist economic systems", p. 1-28.
(65) Karl Marx, O capital, citado, Livro 3, vol. 6, p. 926.
(66) Karl Marx, Trabalho assalariado e capital, Editorial Vitória, Rio de Janeiro,
(61) Celso Furtado, Formação económica do Brasil, citado, p. 54. 1963, p. 24. Traduzido do inglês,' sem indicação do tradutor.

42 43
Ao contrário (do trabalho assalariado), no trabalho dos escravos até a parte do
trabalho que se paga parece ser trabalho não remunerado. Claro está que para poder produtivas. Segundo Marx,o aumento crescente do capital constante,
trabalhar, o escravo tem que viver e uma parte de sua jornada de trabalho serve para em relação ao variável - ou a progressiva elevação da composição
repor o v.alor de seu próprio sustento. Mascomo entre ele e seu senhor não houve trato
algum, nem se celebra entre eles nenhuma compra e venda, todo o seu trabalho parece
orgânica do capital - é uma tendência característica das relações
dado de graça(67). capitalistas de produção. Isso é mais "visível" na indústria, mas pode
ser observado também na agricultura e outras esferas da produção.

É claro que essa forma de "imobilização" de capital em força de Pondo-se de lado as condições naturais, como fertilidade do solo, e a habilidade
trabalho cria limitações ao desenvolvimento da produção. Quando o de produtores que trabalham independentes e isolados, a qual se patenteia mais na
processo produtivo se transforma na esfera principal de criação de qualidade do que na quantidade do que produzem, o grau de produtividade do
lucro, o capitalista é obrigado a pensar e pôr em prática novas e trabalho, numa determinada sociedade, se expressa pelo volume relativo dos meios de
sempre renovadas formas de organização social e técnica das produção que um trabalhador, num tempo dado, transforma em produto, com o
relações de produção; o que implica novas e renovadas possibilida- mesmo dispêndio de força de trabalho. A massa dos meios de produção que
des de desenvolvimento das forças produtivas, incluindo-se aí a força transforma aumenta com a produtividade de seu trabalho. Esses meios de produção
desempenham duplo papel. O incremento de uns é consequência, o de outros,
de trabalho e a divisão social do trabalho. As exigências da condição da produtividade crescente do trabalho. Assim, por exemplo, com a divisão
reprodução e acumulação do capital agem sobre as forças produtivas mínufatureira do trabalho e o emprego das máquinas, transforma-se no mesmo
e as relações de produção, provocando mudanças estruturalmente tempo mais material, e por isso quantidade maior de matérias-primas e de materiais
significativas, como as seguintes: a concentração do capital, o que acessórios entram no processo de trabalho. Isto é consequência da produtividade
significa a reinversão continuada dos lucros, provocando a expansão e crescente do trabalho. Por outro lado, a massa da maquinaria empregada, das bestas
a diversificação das empresas; e a centralização do capital, o que de carga, dos.adubos minerais, das tubulações de drenagem etc. constitui condição
significa a absorção de uns capitais pelos outros, em geral os maiores para a produtividade crescente do trabalho. O mesmo se pode dizer com relação à
e mais dinâmicos anexando ou absorvendo os menores e pouco massa dos meios de produção concentrados em edifícios, altos fornos, meios de
ativos. Esses dois processos, que em geral ocorrem simultaneamente, transporte etc. Mas, condição ou consequência, a grandeza crescente dos meios de
implicam a elevação da composição orgânica do capital. As exigên- produção, em relação à força de trabalho neles incorporada, expressa a produtividade
cias da reprodução e acumulação do capital provocam a inversão e a crescente do trabalho; O aumento desta se patenteia, portanto, no decréscimo da
quantidade de trabalho em relação á massa dos meios de produção que põe em
aplicação de novos e renovados métodos de organização social e movimento, ou na diminuição do fator subjetivo do processo de trabalho em relação
técnica dos processos produtivos. Com isso o capitalista faz crescer a aos seus fatores objetivos.
capacidade produtiva da força de trabalho. Ao investir crescente-
mente em capital constante (máquinas, instalações, racionalização Essa mudança na composição técnica do capital, o aumento da massa nos meios de
dos processos produtivos etc.) ele potência a capacidade produtiva da produção, comparada com a massa da força de trabalho que os vivifica, reflete-se na
força de trabalho. É óbvio que o desenvolvimento da composição composição do valor do capital, com o aumento da parte constante às custas da
orgânica do capital implica o desenvolvimento de formas cada vez parle variável. Se. por exemplo, originalmente se despende 505 em meios de
mais elaboradas de divisão social do trabalho. E o progresso da produção e 50% em força de trabalho, mais tarde, com o desenvolvimento da
divisão do trabalho pressupõe condições sócio-culturais especiais produtividade do trabalho, a percentagem poderá ser de 80Í? para os meios de
produção e de 20^ para a força de trabalho e assim por diante. Esta lei do aumento
para a preparação e a especialização da força de trabalho. Isto é, sob crescente do capital constante em relação ao variável se confirma em cada passo...
as formas avançadas da divisão social do trabalho, conforme elas se (68).
manifestam no capitalismo, superam-se as limitações próprias da
cooperação simples, ou formas mais ou menos rudimentares de Mas todos os métodos para elevar a força produtiva social do trabalho... são ao
cooperação, que tendem a prevalecer na organização do trabalho mesmo tempo métodos para elevar a produção de mais-valia, ou do produto
excedente, que por sua vez é o fator constitutivo da acumulação. São, portanto, ao
escravo em fazendas, engenhos, plantations ou outras unidades mesmo tempo métodos para produzir capital com capital, ou métodos para acelerar
sua acumulação... Com a acumulação do capital desenvolve-se o modo de produção
especificamente capitalista e com o modo de produção especificamente capitalista a
(67) Kad Marx, Salário, preço e lucro, Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1963, p.
52-53. Traduzido do inglês, sem indicação do tradutor.
(68) Karl Marx, O capital, citado. Livro l, vol 2, p. 723-724.

44 45
As suas condições históricas e morais de existência, na formação
se dão mutuamente, modificam a composição técnica do capital, e, desse modo, a social escravista, possibilitavam que a casta dos senhores mantives-
parte variável se torna cada vez menor em relação à constante(69). sem os escravos vivendo próximo do nível fisiológico; ou sendo
aumentado e abrigado segundo condições totalmente ditadas pelos
\oMasdo capital.registrar
é fundamental Esses aquidois fatores,
um aspecto básico dana proporção conjugada dos impulsos que
incompa- senhores.
Ao examinar especificamente a determinação do valor da força de
tibilidade entre o trabalho escravo e o trabalho livre. Ao criar-se e
generalizar-se o regime de trabalho livre, as exigências económicas e trabalho livre, Marx chamou a atenção do leitor para as condições
sócio-culturais da reprodução da força de trabalho operária passa- históricas e morais, ou sócio-culturais e políticas, além das económi-
ram a ser governadas pelas condições próprias das relações capitalis- cas, dessa determinação. Inclusive mostrou que o custo da reprodu-
tas de produção. Sob o capitalismo, a reprodução da força de ção da força de trabalho, do operário, envolve necessariamente o
trabalho (da classe operária) se rege por condições histórico-estrutu- custo da reprodução da classe operária.
rais próprias, diferentes daquelas específicas do escravismo. As
exigências económicas e sócio-culturais do escravo, por sua condição As próprias necessidades naturais de alimentação, roupa, aquecimento, habitação
de propriedade do senhor, são substancialmente diferentes das etc variam de acordo com as condições climáticas e de outra natureza de cada pais.
exigências económicas e sócio-culturais do operário, enquanto Demais, a extensão das chamadas necessidades imprescindíveis e o modo de
trabalhador, vendedor de força de trabalho, cidadão, membro de satisfazê-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos fatores, em
sindicato, partido etc. As possibilidades de organização social e grande parte do grau de civilização de um pais e, particularmente, das condições em
politica das reivindicações do operário são essencialmente diferentes que se formou a classe dos trabalhadores livres, com seus hábitos e exigências
das que dispõe o escravo. Por isso é que o custo da reprodução da particulares. Um elemento histórico e moral entra na determinação do valor da força
força de trabalho escrava tende mais facilmente a ser determinada de trabalho, o que a distingue das outras mercadorias(72).
pelo nível fisiológico mais do que o social. Ao passo que o custo da
reprodução da força de trabalho livre tende a definir-se pelas Quando são examinadas de forma mais demorada, as contradi-
condições políticas de que dispõe o operário para defender ou ções políticas e económicas que deram origem à extinção do regime
melhorar as suas condições económicas e sócio-culturais de vida. Em de trabalho escravo parecem estar referidas, em última instância, ao
essência, a relação do operário com o capitalista é contratual, ainda seguinte: sob o escravismo tendem a predominar condições de
que em condições adversas; ao passo que o escravo é simplesmente produção de mais-valia absoluta, ao passo que no capitalismo
propriedade do senhor por toda a vida. tendem a prevalecer condições de produção de mais-valia relativa.
Lembremo^nos de que a mais-valia absoluta se produz pela
extensão da jornada de trabalho; enquanto que a mais-valia relativa
Marx: Na medida porém em que a exportação de algodão se tornou interesse vital resulta da potenciação da capacidade produtiva da força de
daqueles estados (meridionais da América do Norte) o trabalho em excesso dos trabalho, por meio da organização técnica e social do processo
pretos e o consumo de sua vida em sete anos de trabalho tornaram-se parte
integrante de um sistema friamente calculado. Não se tratava mais de obter deles produtivo. Com isso quero frisar que sob o escravismo pode
certa quantidade de produtos úteis. O objetivo passou a ser a produção da própria predominar uma forma de organização das relações de produção
mais-valia(70). que implica uma composição orgânica do capital relativamente
baixa; ou seja, com elevada participação de mão-de-obra no
Chayanov:Q$ gastos de manutenção dos escravos são determinados pela exigên- processo produtivo. Como não pode reivindicar, o escravo está
cias fisiológicas e pelas tarefas que lhes são atribuídas(71). sujeito às condições ditadas pelo senhor. E este somente muda ou
desenvolve os elementos que compõem o processo produtivo -
Isso era possível porque a condição escrava praticamente anulava modificando a composição orgânica do capital - em função de
qualquer capacidade de reivindicação do escravo, enquanto casta. fatores como os seguintes: oferta ou disponibilidade de mão-
-de-obra; interesse em aumentar ou'dinamizar ,a produção. Mas não
(69) Ibidem, p. 725-726.
(70) Kail Marx, O capital, citado, Livro l, vol. l,j>. 266.
(71) A.V. Chayanòv, The (heory ofpeasanl economy, citado, p. 13. (72) Karl Marx, Op. cit., vol. citado, p. 191.
47
46
em função de qualquer pressão social ou política do escravo. Como
casta, o escravo não se repõe. O operário, por seu lado, tem livre sejam sequer semelhantes. A forma de organização social e
possibilidades de lutar por maior participação no produto do próprio técnica das relações de produção com base no trabalho livre difere
trabalho. Ainda que sob as condições estabelecidas e controladas substancialmente daquela baseada no trabalho escravo. É claro que o
pela burguesia, o operário é livre de negociar a sua força de uso da violência e dos incentivos difere radicalmente em cada caso.
trabalho. Pode negociar a reposição da sua força produtiva, inclusive Além do mais, o escravo representa principalmente capital constan-
enquanto classe social. te. E isto o torna diferente, económica e socialmente, do trabalhador
livre, em especial o operário, que representa capital variável,
O estravo pertence a um senhor determinado; o operário, certamente, precisa aplicado segundo as exigências do processo produtivo. O operário é
vender-se ao capital, mas não a um capitalista determinado, de tal modo que, dentro livre de oferecer-se no mercado, para vender a sua força de trabalho.
de certos limites, pode escolher a quem quer vender-se, e pode trocar de patrão. E isto permite que o capitalista compre a sua força de trabalho /
Todas estas relações modificadas fazem com que a atividade do trabalhador livre seja segundo as condições que lhe garantam o lucro. Ao passo que o /
mais imensa, continua, móvil e competente .que a do escravo, além de que o
escravo é capital constante, que precisa ser alimentado e abrigado, *
capacitam para uma ação histórica muito diferente. O escravo recebe em espécie os
meios de subsistência necessários para sua manutenção, e essa forma natural dos
mesmo quando as condições de produção não garantem lucro, ou o
mesmos está ficada, tanto por seu género como por seu volume, em valores de uso. O mercado está desfavorável para o produto do engenho, plantation
trabalhador livre os recebe sob a forma de dinheiro, do valor de troca, da forma social etc. O trabalhador livre, em especial o operário, não poderia
abstraia'da riqueza. ... O operário pode poupar algo, imaginar que economiza. Pode, suportar as condições de trabalho a que o escravo é submetido. A
da mesma maneira, desperdiçar em aguardente etc. Ao fazer isso, porém, atua como verdade é que o.operário, e _o escravo implicam dua^foimas distintas"
agente livre, que deve pagar os pratos quebrados; ele próprio è responsável pela é estruturalmente incompatíveis de organização técnica e social das
maneira que gasta seu salário. Aprende a aulodominar-se, diferentemente do escravo, relações de produção.
que precisa de un) amo(73). Ao permitir que o proprietário dos meios de produção compre
apenas a força de trabalho necessária, sem comprar o trabalhador,
O que o operário vende não é diretamente o seu trabalho, mas a sua força de a abolição da escravatura torna possível a mudança da composição
trabalho, cedendo temporariamente ao capitalista o direito de dispor dela. Tanto é orgânica do capital. Isto significa que o proprietário dos meios de
assim que, não sei se as leis inglesas, mas, desde logo, algumas leis continentais fixam
' o máximo de tempo pelo qual uma pessoa pode vender a sua força de trabalho. Se lhe
produção pode investir maiores quantidades de capital constante -
fosse permitido vendê-la sem limitação de tempo, teríamos imediatamente restabele- ou diversificar as aplicações em capital variável (salários) - segundo
cida a escravatura. Semelhante venda, se o operário se vendesse por toda a vida, por as exigências do ciclo do capital produtivo. Assim ele se livra da
exemplo, convertê-lo-ia sem demora em escravo do patrão até, o final de seus inversão ociosa, ou arriscada, em escravaria. Antes de mais nada,
dias(74). ao abolir-se a escravatura criam-se outras e mais amplas possibili-
dades de produção e circulação do capital. Talvez se possa dizer
que sob o regime de trabalho livre o capital produtivo pode ser
É óbvio que também o escravo pode ser posto numa organização mais "versátil" do que sob o regime de trabalho escravo. Ao
social e técnica do processo produtivo na qual se potência a mesmo tempo, a transformação do escravo em trabalhador livre -
capacidade de sua força produtiva. Dessa forma ele produziria ou seja, a generalização do trabalho livre - abre novas e amplas
mais-valia relativa. Mas o que é difícil, e mesmo impossível, é que o possibilidades à "divisão social do trabalho. Na empresa (agrícola,
escravo e o trabalhador livre possam ser colocados a trabalhar lado a pecuária, mineradora, industrial ou outra) a versatilidade da força
lado, por longo tempo, na mesma oficina, fábrica, fazenda, planta- de trabalho livre amplia as oportunidades de organizar, hierarqui-
íion, engenho etc. Se é verdade que um e outro podem produzir zar e sistematizar os usos da força de trabalho, segundo as
mais-valia relativa, não é igualmente verdadeiro que as condições exigências do conjunto do processo produtivo, ou do desenvolvi-
sócio-culturais e políticas que envolvem o escravo e o trabalhador mento das outras forças produtivas. É fundamental reconhecer que
o operário desenvolve a sua atividade produtiva numa relação
contratual, na qual ele e o capitalista são partes formalmente
(73) Karl Marx, El capital, Libro I, Capitulo VI (INÉDITO), trad. de Pedro Scaron, iguais. É a "cidadania" do operário - inerente à relação contratual
Ediciones Signos, Buenos Aires, 1971, p. 70. específica do processo capitalista de produção - que permite
(74) Karl Marx, Salário, preço e lucro, citado, p. 46. responsabilizar o operário por renovadas tarefas, segundo especia-
48 49
lizacões e incentivos também sempre renováveis. Na situação de
contrato específica dessas relações de produção, o operário e
transformado, em boa parte, em juiz de si mesmo sem o que ele
não faria jus ao seu salário. Esse é o preço da cidadania, isto e, da
transição para o regime de trabalho livre.
Em síntese, no primeiro momento, as formações sociais baseadas
no trabalho escravo produziram as mercadorias que permitiram a
ampliação e a aceleração da acumulação de capital, processo que RAÇA E CLASSE
esteve na base da criação e generalização do capitalismo. Nesse
então, o próprio trabalhador é mercadoria. No outro momento, .o Raça e cultura
capitalismo constituído e em expansão revoluciona as relações de
produção nas formações sociais escravistas, transformando o escravo Na América Latina e no Caribe, o africano^ transforma-se em
em trabalhador livre. Nesse então, o trabalhador é livre de vender negro e mulato. Ao-longo de vários séculos, e sob as mais variadas
\ sua força de trabalho como mercadoria. Antes, no âmbito da condições sociais, o africano"passa por personificações ou figurações
i adulação primitiva, o escravo havia ajudado, a fnarem-se as sociais como as seguintes: escravo, boçal, criou,lo,iladino, ingénuo,
l condições de formação do operário. Depois no século XIX o libertõTlnulato ou negro. No confronto com o branco, o índio, o
l operário ajudava a criarem-se as condições de transformação do mestiço, o imigrante europeu, o imigrante asiático e outros tipos
escravo em operário. sociais, paulatinamente o africano é transformado em negro e
mulato. E são estes, o negro e o mulato, que aparecem no horizonte
social do branco e de si mesmos, no século XX. Aparecem nas
relações de trabalho, relações políticas, religiosas, sexuais, lúdicas e
outras, como tipos sociais que são diferentes do brancOj^ejn_sfi-US-
atributosTTMcos;, fenotipicos, psicológicos ou culturais (1). JNa_
trama, das relações sociais, o branco, e o próprio negro, acabam por
pensaj e agjr como se o negro possuísse outra cultura, outro modo de
avaliar as relações dos homens entre si, com a natureza e o
síJbTenatural. Não è como o branco, é diferente, outro, estranho.
Em"gcrãT..é uma raça subalterna. Em quase lodosos países, o negro
aparece corno a segunda ou a terceira raça, depois do branco ou
índio.
Esse é o sigmfi£ado_jogiojóg.ico_de_rasa_jieg£a. _As djfere-nças
raciais, socialmente reelaboradas, engendradas ou codificadas, sI0
continuamente recriadas e reproduzidas, preservando, alterando,
reduzindo ou mesmo acentuando os característicos físicos, fenotípi-
cos, psicológicos ou culturais que djstingyj.nam..P_branço. do negro.
As distinções e diferenças biológicas, nacionais, culturais, lingtiísti-

(1) A partir deste ponto, o negro e o mulato serão englobados frequentemente na
expressão negro. Algumas vezes, conforme as exigências da narração, destacarei um
ou outro. Outra observação: Salvo nos casos em que especifico o pais e a época, em
geral a discussão feita neste trabaiho engloba o conjunto dos países da América
Latina e do Caribe nos quais houve escravatura de. africanos e seus descendentes.Em
nenhum momento a discussão enfoca a situação racial em Cuba socialista.

51
50
cãs, religiosas ou outras são continuamente recriadas e reproduzidas
nas relações entre as pessoas, as famílias, os grupos e as classes
sociais. Nas várias esferas da organização social, nas relações de presente em boa parte das pesquisas e interpretações de antropólo-
trabalho, nã~pràtica religiosa, nas relações entre os sexos, na família, gos, sociólogos, historiadores e outros cientistas sociais que têm
reprodução artísticaj no lazer e em outras situações, as raças são trabalhadocom o problema das rejações entre o branco e ojiegro na
i seguidamente recriadas e reproduzidas como socialmente distintas e América Lãtina oCaribe. Fernando Ortiz, Gilberto
' desiguais. Em cada país pode variar a composição dos critérios so- Melvjlle J. Herskovits, E. Franklin Frazjer, Frank^ TannenbaumT
ciais para classificar as pessoas, famílias, grupos ou classes em Charles Wagley, Marvin Harris, H. Hoetink, Eugene E. Genovese, J.
brancos, índios, mestiços, negros, mulatos e outras categorias sociais. Halcro Ferguson, Sidney W. Mintz, David Brion Davis, Magnus
Ma£jern_tod_os,_ para_ Q_branco, índio, mestiço,, italiano, alemão, Morner, Verena Martinez-Alier, Florestan Fernandes e Roger
japonês, inglês, francês e outros, o negro pertencera outra raça, a uni Bastide são alguns_dentre _os._gigntistas sociais Jntgressados_ em
pesquisar e explicar os conteúdos históricQ& e,,cultura]s dasj[elae.ões
ujiiverso_de _vajgre_s_^j.ajdj5^^ócio:c_ujtur_ais pouco ou _ muito
entre o negro e o branco no^£aíses_jia-_A -t"pr'ca_.L.ãlirjff--. e do
o branco. Caribe. EssSC-jÊ^íC-piaSlemátiea que aparece na escala cultural
construída por Herskovits e publicada pela primeira vez em 1945 (3).
Em termos mais específicos, nas Américas o critério para definir raças sociais Trata-Se de Uma_SÍStefflafÍ7.açqnjjf infnrjpa^õe^sjrjibrp a presençajjp.
difere de região para região. Em dada região, enfatiza-se a descendência, em outra elementos culturais africanos em vários países.....das Amérieas-e
ressaltam-se os critérios sócio-culturais e, ainda numa outra, a aparência física è a Caribe. Nessa escala vemos como se distribuem os elementos
base primeira para classificar a pessoa segundo a raça social. Isso produz em cada culturais pelas jHferjailfii£§feras_de atividade em que sjejjrganizarn as_
uma dessas regiões diferentes raças sociais e arranjos diversos das relações raciais. As rejações entre o branco e ,0 negro: tecnologia, vida económica,
distintas maneiras de cada região conceber as raças sociais refletem as relações entre organizarão social, instituições, religião, magia, arte, folclore, música
pessoas de diferentes origens biológicas e culturais dentro de uma sociedade(2). e " língua^ E verdade que Hersko.vils está -fiteocupadiX-em- mostrar ~\ _
comova cultura africanaj2ej3ÍSíe_iiA.cuUiir.a^ e
Caribe. Mas também podemos dizer que a referida escala de
Nesses termos é que o negro surge no horizonte da análise 'africanismos culturais presentes nesses países pode ser vista como
cientifica..Xle aparece ao branco, e a si mesmo, como um tipo social úmã~escaía ^ê~perdas"culturars; ou, ajuda, como urna escala de
cuja sociabilidade escultura apresentam característicos que o diferen- formas culturais recriadas. Vejamos os dados da tabela í.
ciam jdojmmco. Algumas das suas atividades, bem como os valores
que organizam essas atividades, parecem diferenciar e discriminar o Dentre outros significados dos dados apresentados por Herskovits,
.negro, a ponto de transformá-lo num problema, ou desafio, para o penso que a escala de africanismos culturais é bem uma amostra de
branco e a si mesmo. O branco procura encontrar no próprio negro como os cientistas sociais procuram explicar a mèTáníorfose do
os motivos da distância social, do preconceito e das tensões que se africano em negro e mulato. Sim, uma questão central é compreen-
revelam, nas relações entre ambos. O negro, por seu lado, procura (_ ."á?I ££mo ° africano se transforma em negro e mulato, e porque as
situar-se e movimentar-se na trama das relações sociais, nas quais ele rejações errtrg^ o branco, o negro e p mulato marcam e recriam
surge como diferente, afastado ou discriminado pelo branco. A diferenças raciais, em lugar de apagar ou diluir essas diferenças.
Para explicar essa metamorfose, antropólogos, sociólogos, historia-
identidade do branco conte'm uma espécie de reflexo da identidade
que ele imputa ao negro. E este, para identificar-se, precisa aceitar, dores e outros tendem a começar pela relação entre raça e cultura.
passiva ou criticamente, a identidade que o branco lhe_irnjnita. Esse Examinemos, pois, como se encara habitualmente a relação entre
é o núcleo do universo social tenso, no qual o negro aparece como a cultura africana e a condição do negro. Para compreender qual é a
jjn^ problema^ para o^ranço,_a_si_rnesrno_e para o cientista social. fisionomia social do negro na América Latina e no Caribe, podemos
Essa busca da singularidade- social "e cultural do negro está começar pelo que parece ser a singularidade da sua cultura. Há pelo

(2) Charles Wagley, The Latin American tradition, Columbia University Press, New (3) Melville J. Herskovitz. The New H orla negro, Minerva Press. 1969. p. 53. A
York, 1968, p. 156. Citação do cap. V, intitulado "The conceptof social race in the referida escala 'deafricanismos está no cap. i n t i t u l a d o "Probleni. method and theory
Américas", p. 155-174. in Afroamerican studies" p. 43-61.

53
menos três jnterpretações distintas sobre a contribuição cultural das
uo o populaçõêlTdà Afrjça^seus descendentes às sociedades da América
'§• Lajinaie do Caribe. Vejamos quais são, de modo breve.
Í A primeira interpretação estabelece que a cultura africana, mais
,0 .n l ou menos enquanto tal, está presente em todas as sociedades nas
e quais toram introduzidos escraym^frJ£anojs._JEssa cultura está
w -" presente - de torma desigual naturalmente - nas várias esterafcla
G < atividade e da organização sociais: religião, toiclore^ música,
-B-e « ^ língua, família, culinária etc.v|lambj;nTsurge de
controntamos países, regiões é lugares. Mas está presente enquanto
™ v ! cultura que pode ser reconhecida como de origem africana, diversfl
^ f > o T i o * > o o a f > o o o o oooooooo ° ^ da europeia, asiática eindígena. isso sigmtica que alguns aspectos"dã
O S \a social e culfúrãTd^^^opulações negras da América,, t .atina e
z— 'E «S Cabbe, bem~cQrnQ certos característicos das relações entre o branco
§ *§• § « « « « * . «,* & a a a £ > a a * > f > £ > £ ) & f > s * a ~^ ^ e O 7r negro. acham-sg ^JT_a_. jnfyi^nçjj» (]ç ejementfí^ culturais;
o S | . aftjçânos.. Estes elementos são manti^2^_jTelnsjj^ejdentes dos
b u 'E l africanos como sobrevivências culturais^ que protejam a s nhr ?yi-
^ •« ? «isc8,ocaMo»i«.o=a,o,artooooooo ^ ygngia aas"pe5soas. Tamilias- grupos e cornunídades.
z l ^ ' "g. ''"A^gguTraà interpretação estabelece que a cultura trazida pelos
g g M- g africanos foi, rnais ou menos profundamente, rompida e reelabora-
5 P "S.* § '~- "dã^Tjet^gsetayjíitu rã - h.nquanto Jorma de orgãmlaçaQ social e
_ tío a-3g «ooo-o-auu^íi^-a^^oíJo-a-oTjTS -^ técnica das relaçõesde produção, a escravatura produz uma cultura
< g* | |j § l g própjia, que pouco ou 'nada tem a ver com os elementos .culturais'
g •* g, **• . £ europeus, africanos, indígenas e asiáticos, Vá.rios séculos de regime
< Q *- ^ o ^ll^rafíalh" ?grrav" ro^pirn tQ4a§__aj___£°ntri_buigões culturais
Q« « "§ c8^íiojio*ooiij)Tix>oo^ooooò o^ enrãlzã~ê espraia na socTêdãde pessoas farnilias. grupos e classes
ES | | •*> S s-99âÍ5- Assirryo que aparec^ depois. __ no^_sécujos'XIX e XX."comò
Z
g g Q
° .' io cultura do nçgry, n^o é "enãn a r.iitnra prõtirmfla com_j saciedade
Z E « -g baseada no trabalhe encravo. Na sociedade em que a escravatura
a
g rS S
o ^ j o j j - o - t í o o t s - a o o o o - a - a a_j T S_- _
a o i u ,i u, "8
o
'predomin^u,-trorno
r, ' íiõrrffãçãTr
' social,
. . rpersistem,,
. depois,
r .
inclusive
,, _ no:
"8 c . ,3> •* século XX, elementos culturais de cunho escravista. Sao^ esses
d ͧ ^ í. m <^PTT1f"t"'! TH? a parecem na prátjca religiosa, magia, musica.
o ^ "S" *• organização da famílía1 culinária e outras esferas da atividade
social do negro em países 4a ^T'Pr'.':ra_, V a t ' n a e do Caribe. Sejjam
POUCOS OS ementns afrirann<; nrptprvarlrn;- e OS aue se Preservas
<§" ram jorgrr|lllrlee|fl^prados nas relações e estruturas escravTstasT
~Ã~terceira
~ interprftaqãr. pctah^iprp que as culturas africana e
* ° 4 escrava foram rompidas e superadas pelas relações e estruturam
^ 8 " .Capitalistas ~mre-YrpÕffiirTãrh amplamente ' n a s ^nc^g^pdes. da
o33. America Latina_e ao Caribej nó século XX. E claro que odgm
S"S^ ideTTtifirai'-se elementos culturais africanos e
Í l .coes vividas jpelos negros ê"brancQSLnp s.écilia XX.f Na religião^
l l música, folclore, organização famjliar ..culináriaT 1'ingua e outrãF
'3 «' esferas da vida social esses elementos podem ser vistos.JMas o que
«B § —.....----------..................................- .............. = ....... r...........—*...........~~_I# ^
í, § '
aS í 55
predomina é a cultura do capitalismo; ou uma cuh^rahgterogênea. estão presentes brancos, Índios, mestiços,
desigual e mesmo contraditória cujo sentido básico e dado pelas rtarlianõSTTÕútros. que a magia,_
relações e estruturas do modo capitalista de produção. „- ~
Essas três interpretações não são necessariamente expjii^iyac f. f ma. rnulálós. ^ _
bõradãs pelo corijUntõ^l^Têma culturãlvi^mtejiesses países. Não
podejeF_çx5mpxeendida peia. autca^So b certo aspecto, a primeiras e^a é ~pôí ' MèTõ7ã^S5r^xÓUsrao~pú "sobTevívênçia cultural que certos
segunda podem ser englobadas pela terceira! O fato de que as eTernênlõs"culturais "africanos",_"escravistas" ou "negros" surgem e
_ ressurgem, criam-se e reproduzern-se_ nas jrandes cidade^ Círios
(málênais, organizatórios, espirituais e outros) quejhes corresgoia- graiKterTe"n'ffôs industriais" em' cada .paísJSa América Latina e no
dejn_nã^_jrrir^dje__jg^^ e Carrbe7-aT'cúlturas "negras" são dimensões populares, operárias, de
esj0^1?MlJ;amliéin---«sto}aa^^ As relações e estruturas" classe média ou outras, das relações político-econômicas que garan-
capitalistas têm a faculdade de criar e recriar tanto o que é novo tem a reprodução da sociedade, em suas harmonias, desigualdades e
como o que é velho. A heterogeneidade, a desigualdade e a contradições.
contradição culturais (em termos materiais e espirituais) fazem parte
necessária da heterogeneidade, desigualdade e contradição caracte-
rísticas das relações e estruturas capitalistas. Casta e classe
Q_ que está no centro de cada uma das interpretações (sobre a
contribuição cuhural_das populações . ja.,Áfiica . ásJsocie4ãdss._d a Para compreender a forma pela qual o africano transforma-se em
América Latina e do Caribe) é_a singularidade, do rtéãro: em que negro e mulata*-? conveniente que tenhamos em mente que essjj
termos e por^ueTefe aparece no branco e^a si mesmo como um tipo metamorfose envolve a passagem do africano pela co_n_digãg_ de
social singular, cprhõ outra raça, outra Forma de pensar, sentir e agir? escravo, hm graus yariáyejs obviamente, é e r» ^
A questão central, pois, é~explTcar como se produz historicamente a o século XX são um pouco. 011 bastante conforme o país.
metamorfose do africano em negro. ue eles
lugar ou éoca, o produto da _ Na °
Paraaparecer no século XX como negro, na América Latina e no guardaram a experiência escrãvãTem srináTporque a escravatura_
C a ríBeTo ajricano__não só toi escravo mas também transformou- se marcou mais ou menos fundamente as sociedades nas quais o
em operário. Mais que isso, no século XX o negro foi transformado trabalho escravo toi a torma principaldojrabalho produtiva
ou Iransformou-se em operário industrial, operário agrícola, braçal, —A~~esrravarura toi a torma '^Hã~^uar~sê'' realizou uma parte
esftgcializado. funcionário. emjyegado,cãmj:rciante. sitiante, çs^idjn- fundamental do processo de aculturação do africano nas sociectadesr
te,_p_oliticp, in|ej£gtyâl e outras figurações .S-Ociais. B é sob essas das Américas e Caribe(4). Sob a condição de escravo, o atricariõ
formas IJue ele se reproduz no_ século XX; não se reproduz nem pnssrni por urrT processo cie aculturação forçada, subalterna, e
como _afncano_nem como escravo. O que há dlTafncano ou escravo organizada segundo os interesses^ po^ljtiog^e^onômicos exclusivos da
ernsua cuIturãTou visão rio mundo, não SP explica apenas_corno ayia dos senhores. Ma condição de tríbãTRãdores forçados, a casTa
sobrevivência^ mescla de culturas o_u_^flic_ujações ; sincréticas_sobas dustíscrãVDSloilTbãse da sociedade como um todo, e não apenas da
quais se escpnde_o.ex-africano ou ex-excravo. O q ue_h á d e a fríganõ' economia escrava. O escravo produzia o necessário e o supérfluo, o
o u e s c r a v o n a cultura ou visão do mundo do negro da America que se consumia, exportava e ostentava. A importância do escravo
LJítina eCanbe é o que se recria e reproduz continuadamente. Mas foi particularmente excepcional nas sociedades brasileira, cubana,
se recria e reproduz continuadamente menos por decisão e atividade haitiana, norte-americana e algumas outras do Caribe. Em menor
do^HggTorJB per si, do que pelas condições e determinações das grau, o escravo africano também participou de formas de trabalho
relações dèTrneTdeperTdêncía", alienação e antagonismo caracteristi- forçado no México, Venezuela, Colômbia. Peru, Argentina e
cãs^gõ"cãp1talisrrtor"TantQ- assim que o gne parece ser cultura algumas outras sociedades da América Latina. Nas colónias e,
afncálíã~piT7^ThTTra npg T a p-m paísps Ha Amfrjça Latina e do Caribe
são componentes intrínsecos da mltnra presente e viva desses países.
Na santería, no vodu, no candomblé, na umbanda e outras
manifestações d? ^iltnra rpiioioca HP pff; rn s e mulatos não só estão (4) Nesta parte do trabalho incluo algumas referências e dados sobre os Estados
presentes elementos do^spiritismo e do catolicismo, como também Unidos.

57
56
países em que a formação social escravista foi predominante, o TABELA II
conjunto do processo de aculturação do africano esteve totalmente
PRINCIPAIS IMPORTADORES DE ESCRAVOS
marcado e organizado pelas relações escravistas de produção, nas
quais se destacam a casta dos escravos e a dos senhores. (1502-1870)
Foram milhões os escravos trazidos para trabalhar na plantação,
fazenda, enjgerTho, transporte de carga^ produção de artefatos de Colónias e países] Quantidades
madeira,jcouroeferro,,serviços domésticos, serviços urbanos e outros.
Naturalmente variam as estimativas sobre o número de africanos Barbados 364.000
transferidos para as Américas e o Caribe. Dentre as estimativas mais Brasil ; 3.647.000
recentes, encontram-se as que Robert William Fogel e Stanley L. Colômbia 200.000
Engerman realizaram. Esses economistas escrevem que mais de Cuba 702.000
9.500.000 africanos foram transportados da África para as Américas Estados Unidos 596.000
e o Caribe. Desse total, teria sido esta a distribuição dos africanos: Granada 67.000
ao Brasil chegaram 38 por cento; à América espanhola 17 por cento; Guadalupe 290.000
Guiana e Surinã 500.000
ao Caribe francês também 17 por cento; ao Caribe britânico ainda Haiti 864.000
17 por cento; ao Caribe holandês, dinamarquês e sueco mais 6 por Jamaica 748.000
cento; e aos Estados Unidos chegaram 6 por cento (5). A tabela II Martinica 365.000
registra os números absolutos dos africanos transportados para os México 200.000
principais centros nas Américas e Caribe. Peru 95.000
Note-se, no entanto, que as- proporções dos escravos não se Venezuela 121.000
mantiveram semelhantes às proporções dos africanos transferidos às Destino desconhecido 741.000
colónias e países das Américas e Caribe. As condições de vida e Total 9.500.000
reprodução dos escravos variaram bastante, conforme a colónia ou
país. Às vezes, dentro de um mesmo país, como no caso das diversas Fonte: Robert W. Fogel & Stanley L. Engerman, Time on the cross, 2 vols., citado,
regiões em que se dividiam os Estados Unidos e o Brasil, variaram vol. l, p. 18.
bastante as condições de vida e reprodução das populações escravas .
As condições de exploração da força de trabalho escrava determina- GRÁFICO l
ram, em alguns casos, ampla destruição de trabalhadores escravos. DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA (ESCRAVA E LIVRE) EM 1825,
Esse foi o caso, por exemplo, do Brasil. Em outros casos, também COM A DISTRIBUIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES DE ESCRAVOS, 1500-1825
devido a condições peculiares de exploração e reprodução da casta
dos escravos, houve alguma preservação e mesmo algum aumento 50 l l Percentagens das Importações de escravos, 1500-1825
da população escrava. Esse foi o caso da América espanhola e dos E3 Percentagens de negros no hemisfério ocidental, 1825 j
Estados Unidos, como indicam os dados do gráfico l (6). 40
Somente uma análise rigorosa de cada uma das formações sociais
escravistas permitiria explicar como e porque, em cada caso, a
população escrava se reproduziu mais ou menos. É claro que o 30
fundamento principal da explicação está na forma de organização
social e técnica das relações de produção. Independentemente da 20

l
"humanidade" da escravatura, em cada caso, é evidente que a
10

(5) Robert W. Fogel & Stanley L. Engerman, Time on the cross, 2 vols. Little,
E.U.A Caribe Caribe Caribe Brasil Caribe
brltinlco francês espanhol holandês
Brtftfíi and Company, Boston, 1974, vol. l, p. 14-15. dinamarquês
e sueco
58 59
destruiçjlo.ajrjreservação ou o aumento da casta de escravos são fatos
determinados pelo caráter da formação social jgsggvista. seu modo
de vinculação com o mercado externo, os tipos dê~comércio de
mercadorias com africanos etc. De qualquer maneira, é bastante
significativo que algumas formações sociais destruíramtnais__a
popjjlação escrava dó que outras. E esse é um dado imporfãntíTsobre -* O trt
o caráter da formação social escravista, em cada caso. \O O T~-
a\ r*
O fato é que a escravatura de africanos deu ao mapa racial de oooioo^o
0 (s .-; t-_

cada um dos países das Américas e Caribe uma fisionomia peculiar. •3
Em vários casos, a população negra e mulata é notável, por sua
presença quantitativa e qualitativa na estrutura social. Em certos
casos, é notável a visibilidade social de negros e mulatos nas classes
assalariadas, principalmente nos operariados urbanos e rurais. É
verdade que em alguns países, como no Chile e em São Salvador, ^•rtvocnOOCO1*!^'

por exemplo, a população negra e mulata é relativamente ínfima, em c>f *H" o° ^ cí cT c-f o"| °°~ O O O O<

termos absolutos e relativos. Na maioria dos casos, no entanto, ela é
significativa. E em alguns, ela é a população que define a fisionomia
do país. Uma imagem do mapa racial das Américas e Caribe pode
sa
j §' O o* O O
O r* -H
O O
•* (N
OOO

S* O
C4
O
O

ser apreciada nos dados da tabela III, dados esses organizados por 5
Frank Tannenbaum e citados por Bastide(7). -W

Dentre os países e colónias que compõem a área do Caribe, é B2
notável a presença da população negra e mulata; ou mesmo o seu 3
predomínio, em comparação com os brancos, indígenas, mestiços e
asiáticos, estes principalmente de origem hindu. Os dados da tabela
IV mostram que em Barbados, Jamaica e Trinidad-Tobago, além de
3 l M
_ '.-'.•^.0Í.0.'T.':
O^O«O^-O«^
O <N

outros casos, a população negra e mulata predomina sobre as outras l
OO--HO«OOOO V O O O O O O ^ - O - * O O <
raças. Mas é também significativa a presença de asiáticos entre os s-
oo-Hor-ooo
O O. O O ÍN -H O t>i C>OOCÍOOC>oqONOO<
Ó "* "O "l O vo
habitantes de Trinidad e Tobago. No caso da Guiana inglesa, os S O *H «O O\N O O O ~H V) ri OO ~H

IO
asiáticos perfazem cerca de 45 por cento da população (8). N o conjunto
do Caribe, como indicam os dados das tabelas III e IV, é notável o
predomínio da população negra e mulata. A tabela III indica que
eram mais de 39 por cento os negros e mais de 21 por cento os
mulatos, perfazendo cerca de 60 por cento do total da população da
área. Note-se, ainda, que há países da América Latina nos quais a
população negra e mulata está concentrada em dadas regiões. Esse é
o caso do Brasil. No conjunto, este país contava, em 1950, com cerca
de 36 por cento de negros e mulatos. Mas a distribuição dessa
'o S '
população não é homogénea, se comparamos os vários estados do •3-3.
>í3 '»'« 5
país. Há estados nos quais os negros e mulatos perfazem cerca de 10 ' Sb " 5
a ã s-
1
< oS
wS D CJ <

(6) Robert W. Fogel & Stanley L. Engerman. Op. cit., vol. I. p. 28.
(7) Roger Bastide, As Américas negras, Tradução de Eduardo de Oliveira e
Oliveira, Difel-Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1974, p. 20.
(8) Anthony H. Richmond, The colourproblem, Penguin Books, London, 1955, p.
215.

60
TABELA IV
POPULAÇÃO DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS BRITÂNICAS, BAAMAS E BERMUDA
1946
Território Origem nacional ou racial
Africano» Europeu* Ameríndios Asiáticos Mistos Não Total
e caribenhos especificados
Barbados 148.923 9.839 136 33.828 74 192.800
Guiana inglesa 143.385 11.023 16.322 167.237 37.685 49 375.701
Honduras britânica 22.693 2.329 14.142 1.544 18.360 152 59.220
Jamaica 965560 13.809 29.106 227.148 1.040 1.237.063
Ilhas Caimáo 1.051 2.074 3.518 27 6.670
Ilhas Turcas e Calcos 4.432 105 1.584 17 6.138
Antigua 35.437 695 80 5.349 196 41.757
Monserrat 13.319 71 17 917 9 14.333
SanCristofe-Nevis 59562 925 por cento da população, 165 ao lado
5.091 de brancos, 100italianos, alemães,
46.243
Ilhas Virgens . 5.670 35 poloneses, japoneses e outros; ao799passo que eml outros estados 6.505 os
Trindade e Tobago 261.485 15.283 negros26e mulatos podem chegar
202.277 78.775 a cerca de 124 70 por cento
557.970 da
Dominique 11.862 142 40
população. 39
Pode-se supor que35.524
a complexidade 17dos mapas47.624 raciais,
Granada 53.265 635 113 e região, 3.528
por país bem como14.769 77
as densidades absolutas e relativas
72.387
Santa Lúcia 40.616 343 13 afetam o perfil
diversas, 2.651 e as tendências
26.326 164
das relações 70.113 e
de alienação
São Vicente 45.042 1.906 242 1.824 12.631 61.647
antagonismo entre negros, mulatos e brancos. ••*?
Baamas (1943) 57.346 7.923 178 3.214
Bermuda 14.724 É evidente que as sociedades do Caribe, da185
22.638 41
68.846
Guiana inglesa, da
37.403
Honduras inglesa, do Brasil, da Guiana holandesa e alguns outros
Total 2.902.420
países estão fortemente marcadas pela presença física, social e
cultural de negros e mulatos. Note-se que em vários casos a
Fonte:Digest of colonial statístics. N9 10, Colonial Office, população mulata é bem1953,
Londres, setembro-outubro, maior do H,
tabelas que
M ea N.
população
Cf. Anthonynegra, como no
H Richmond,
Op.cit.,p.21S. Brasil, Venezuela e Uruguai. No conjunto, as sociedades ..das
Américas dependem de modo significativo da CQptribuição econômi-
ca, social e cultural de negros e mulatos. As populações descendentes
dos aíricanos transformaram-se1 em operários industriais, operários
rurais, camponeses, assalariados de classe média, funcionários.
memtrfòs das forças policiais, das forças armadas e outras categorias
sociais. Em alguns países os descendentes dos africanos tornarata-se
joraãlisíás, professores, atores, poetas, romancistas, políticos, empre-
sários.
Nesses termos é que a.rnetamorfose do africano em nçpro e mulatn
passa pela metamorfose do africano em escrava. £ inepAvel quê ?
condigãcTiaF escravo, por cerca de três a quatro séculos, cohTõrrne~O
gais, marcou decisivamente o perfil e o modo de ser do negfo.
Marcou decisivamente õ perfil e o modo de ser do negro e do branco
nas Américas e no Caribe. Mas também é inegável que.a condiçãp
djL-ejs-escrayo^não pode ser nem suficiente, nem decisiva para
exjglicj£jisfOTmasjde_gensar ç agir 90 negrp.no sécuío XX. Apenas"
na4_locip.dades que' pouco se modificaram, após ã abolição ~âa
escravatura, somente nesses casos Jíjque o peso da cultura escrava
pode continuar a ser. importante, ou mesmo preponderar. Nos,outros
casos, nos casos em que a sociedade tem-se urbanizado rna,is
amplamente, ou industrializado, recebidairnigrantes europeus ou
asiáticos, modificado ás suas estruturas político-econômicas etc..
nesses casos a cultura da escravidão "dissolve-se." na cultura do
capitalismo. Ocorre que a formação social escravista se funda em
princípios estruturais e organizatórios distintos dos que fundamen-
tam" a formação social capitalista. Em poucas palavras, na formação
social escravista o trabalhador é escravo, isto é, alienado no produto
do seu trabalho e na sua pessoa. É propriedade do outro, do senhor,
juridicamente e de fato. E está destinado a trabalhar de modo a
produzir principalmente mais-valia absoluta, que resulta da exten-
são da jornada de trabalho. Sob a escravatura, o poder político
raciais implicam a recriação e reprodução inclusive das culturas
exercido pela casta dos senhores não é contestado politicamente pela africana e escravocrata. Na plantação, fazenda, engenho, usina,
casta dos escravos. Esta é principalmente uma categoria económica. fábrica, oficina; casa, escola, quartel, igreja, templo, terreiro os
Não são as revoltas de escravos (quilombos, cimarrons, marrons, elementos culturais africanos e da escravatura aparecem de forma às
maroons c outros) que destroem nem abalam as relações e vezes nítida às vezes apagada. Em todos os casos, no entanto, esses
estruturas escravistas. Em geral, a formação social escravista rompe- elementos somente aparecem ou reaparecem porque são recriados e,
-se a partir dos antagonismos que se desenvolvem na esfera da casta reproduzidos socialmente por brancos, negros, mulatos, índios,
dos senhores, ou nas lutas entre a casta dos senhores e a emergente mestiços e outras categorias raciais em suas atividades e relações
classe burguesa. Ao passo que na formação social capitalista o político-econômicas e culturais. Em geral, é a trama das relações
trabalhador (negro, mulato, índio, mestiço branco etc.) é alienado sociais concretas, na produção material e espiritual (fazenda, fábrica,
apenas no produto do seu trabalho. Ao menos formalmente, ele não escola, igreja etc.) que comanda a invenção e a reinvenção, ou a
é alienado em sua pessoa. O trabalhador livre produz principalmen- recriação e reprodução de valores culturais, padrões de comporta-
te mais-valia relativa, que resulta da potenciação técnica e mento, ideias, categorias de pensamento, característicos raciais,
organizatória da força de trabalho. Ele trabalha sob o regime do traços fenotípicos, traços culturais que fazem com que o negro,
contrato, que pode discutir ou refazer. Nesse caso, o poder político mulato, branco, índio, mestiço e outros sejam tomados prática e
da classe burguesa pode ser contestado pela classe operária, que é ideologicamente como distintas e desiguais categorias raciais.
uma categoria económica e política. E é na classe operária que se Numa Visão de Conjunto, e tomando alguns rarartPn'QtW,c Ha
encontra boa parte da população negra e mulata das Américas e relaçaojentrg cultura africana, cultura escrava cultura negra e
Caribe. organização socialj^j\mé£Ícj^Ljm^^

Em primeiro lugar, a sociedade neflra nunca é urrm sociedade desagregada.
Reprodução jsocial das raças Mesmo onde a escravidão - e depois, as novas condições urbanas de vida - destruíram
os modelos africanos, o negro reagiu, reestruturando sua comunidade. Ele não vive
No século XX, o negjroj: o mulato são continuamente recriados e como homem de natureza, mas cria novas instituições, dá-se novas normas de vida.
reproduzidos sociaTfnerUé^^eTãs^lmesrnãs'relações sociais que re- cna-se_uma organização própria, separada da Em particular, a
criam e reproduzem os membros das outras^ "raças", tais como os sexualidade do negro permanece sempre controlada pelas leis do grupo, submissa aos
tabus do incesto e às regras da troca de serviços entre os dois sexos. Só podemos
brancos, índicos, mestiços"' japoneses, chineses, espanhóis, portu- admirar esta plasticidade e a originalidade das soluções inventadas, mesmo se elas
gueses, judeus, italianos, alemães, ingleses, franceses, holandeses, parecem chocar nosso próprio género de vida ocidental.
norte-americanos e outros. Em cada uma das sociedades nacionais Em segundo lu^ar, fomos levados a distinguir, segundo as regiões, dois tipos de
que compõem a América Latina e o Caribe, algumas, ou às vezes comunidades: aquelas onde os modelos africanos levam vantagem sobre a pressão do
todas essas categorias, sãq_socialmente recriadas e reproduzidas meio ambiente; por certo, esses mo delos_ são obrigados a modificar-se pam_pfliÍ£rici
pelas relações sociais que orgajúzam_e^movimentam cada socieda- ãdaptar-se, deixar-se aceitar; riósas chamaremos dç comunidades africanas. Aquelas,
de^ Nas relações de trabalho7~políticas, religiosas, sexuais, lúdicas e pelo contrário, nas quais a pressão do meio ambiente foi mais forte que osjresquícios
cnítras uns e outros recriam-se e reproduzem-se socialmente. Daí 3â memória coletiva, usada por séculos de servidão, mas nas quais tambénTr
porque o antropólogo, o sociólogo, o linguista ou outro cientista segregação racial não permitiu a aceitação pelo descendente de escravo dos modelos
social encontra diferentes arranjos de elementos culturais "euro- culturais de seus antigos senhores; nesse caso.oneero teve que inventar novas formas
peus", "africanos", "asiáticos" e "indígenas", na organização social, dê vida em sociedade, em resppsta a seu isolamento^a serj regime de trabalho, a suas
necessidades novas; nos as chamaremos comunidades negras; negrasjporquep
nas atividades económicas, religiosas e outras (9). branco permanece, fora dfflas. masjiao africanas, uma vez que essas comunidades
É c l a r o que a r e c r i a ç ã o c o n t í n u a das c a t e g o r i a s perderam a lembrança de suas antigas pátrias.
Esses dois tipos de comunidades nada mais são que imagens ideais. De fato,
encontramos, na realidade, amcojijfOMíím- entre-esse_s...dois tipos. Assim, _ujn_setor da
sociedade pode haver permanecido francamenle_a.fricano (ã religião) epqiianjn~vim
(9) MelvilleJ. Herskovitz, The New World negro, Minerva Press. 1969; do mesmo
QVJtfó 'ê~u"ma^ resposta ao novo meio vilaJ.ta.t'amiJ.ia..Qm— economia). Bem entendido,
autor: The myíh of the negrc pás!. Beacon Press. Boston, 1958; Roger Bastide. Lês
as"cofflufíicfãdes de negros marrão s são as~que mais se aproximam do primeiro tipo,
Amériques naires. Payot, Paris, 1967; Magnas Morner (Editor). Race and ciass in
Laiirt America. Columbia Universíty Press, New York. 1970.
65
64
pelo menos aquelas que foram criadas pelos negros "boçais"; e as comunidades que
se formaram após a supresão do trabalho servil, então já entre crioulos que viviam que negritude e status inferior. Além do mais, a introdução de grandes contingentes
isolados no campo, são as que mais se aproximam do segundo tipo. Nas cidades populacionais que não são localizáveis em uma única escala de negritude a brancura,
negras das Caraíbas ou da África do Sul, encontraremos um tipo intermediário, pois tais como os indígenas em Trindade e os chineses em Cuba, tornou muito mais
as "nações" podiam, na época escravista, reformar-se mais facilmente fora do complicada qualquer análise das relações entre status económico, tipo físico e
contcole dos brancos, para assim manterem em segredo suas tradições: mas, identidade étnica.
alhures, esses negros deviam submeter-se às leis matrimoniais, económicas, políticas
do Estado, e deviam pois adaptar-se aos modelos que o exílio lhes impunha(lO)!
Enquanto muitos aspectos do sistema tradicional de estratificação da região são
ainda vigentes, as mudanças na estrutura de classes têm ocorrido em distintas
A recriação eji reprodução sociais do negro e mulato, entre outras direções, tais como o declínio da classe dos fazendeiros locais, a emergência da
categorias raciais, não ocorre senão na trama das relações político- fazenda empresarial, de organização estrangeira, o crescimento do terciário, do setor
econômicas que fundamentam a recriação e a reprodução continua- de prestação de serviços, o desenvolvimento do consumo orientado para o exterior, a
das das relações e estruturas da sociedade. Nessa perspectiva, a emigração de grandes grupos populacionais etc. Essas mudanças afetaram a
grande complexidade das composições raciais que organizam e distribuição de pessoas com identidades físicas e étnicas particulares em sistemas
movimentam as relações entre negros, mulatos e brancos começa a sociais locais; e o vínculo entre essas identidades e a condição de membro de classe
também se tornou mais nuançado. As mudanças havidas nos arranjos políticos
esclarecer-se. À primeira vista, o mapa racial dos países da América também alteraram a configuração tradicional. Registremos apenas dois casos
Latina e Caribe é bastante complexo, heterogéneo ou mesmo diferentes: nas décadas recentes, tanto em Cuba como no Haiti as mudanças políticas
contraditório. Mas quando é visto no contexto das condições foram marcadas por um nítido movimento de ascenso de algumas pessoas não
político-econômicas nas quais se reproduzem relações e estruturas brancas, em termos de posição ou oportunidades de vida. Muitos negariam
sociais, esse mapa adquire alguns contornos e movimentos mais fenómenos paralelos em outras partes da região. Dessa fnrma^ a complexidade,
nítidos. Em artigo sobre as sociedades do Caribe, Sidney W. Mintz sociológica dessas sociedades parece ter aumentado significativamente^ de acordo
descreve de maneira bastante clara alguns aspectos da relação entre com processosjiolíticos, econômicos e demográficos qu.e se estendem no tempo( 12).
raça e organização social. Inclusive ressalta a relação entre o
processo de diferenciação estrutural e o processo de recriação, 1 O mesmo processo básico de diferenciação da estrutura social tem
rearranjo e reprodução das relações e categorias raciais. ocorrido também nas sociedades da América Latina, além do
Caribe. No século XX, a divisão social do trabalho e a expansão das
A composição "racial" do Caribe é bastante diversificada. Primeiro, a diversidade forças produtivas, em certos casos implicaram a imigração mais ou
fenotípica das populações caribenhas é incomum, devido às circunstâncias da menos maciça de europeus e asiáticos em países da área. É óbvio que
imigração e o longo período colonial dqs suas sociedades. Segundo, os códigos de essa imigração modificou os característicos da população branca de
relações sociais características dessas sociedades levam em conta a diversidade origem espanhola, portuguesa, inglesa, francesa e outras. Isso
fenotípica, mas cada sociedade emprega o seu código de forma particular. Assim,
significa que essa imigração modificou o conjunto do contexto
enquanto "raça" é importante em tudo, a sua significação e os seus usos
particulares na classificação social variam de uma para outra sociedade do Canbe demográfico, racial, social e cultural no qual se movimentouo negro
e o mulato.
(11).
Contemporaneamente ocorrem novas expansões dá-urbanização e
Mas os "mapas" dessas sociedades em termos de "raça", percepção de raça e das forças produtivas no setor industrial. Ao lado das atividades
etnicidade elide o que muitos teóricos consideram como a muito mais óbvia e agropecuárias, de mineração ou outras, dinami/a -se o setor de
fundamental base de classificação: a estrutura de classes. As sociedades do Caribe serviços, transportes e comércio. Em alguns casos, a industrialização
são, naturalmente, entidades estratificadas e diferenciadas em classes. Cor e é um processo básico, que passa a influir decisivamente, ou mesmo
etnicidade não são nitidamente correlatas à condição de classe, mesmo que tivesse comandar as relações sociais(13). A urbanização e a industrialização
sido geralmente verdadeiro - e em boa medida ainda é •• que branqueamento ou ocorrem simultaneamente com a migração do meio rural e de
brancura e status superior tendem a acompanhar um ao outro, da mesma maneira
pequenas cidades para os núcleos urbanos maiores. Algumas

(10) Roger Bastide, As Américas negras, citado, p. 44-45 .
(11) Sidney W. Mintz, "The Caribbean region", Daedalus, Harvard University, (12) Sidney W. Mintz, "The Caribbean region", citado, p. 53.
Cambridge, Mass., Spring 1974, p. 45-71; citação da p. 52. (13) Philip M. Hauser (Editor), Vrbanization in Latin America, Unesco, Paris, 1961;
Boletín Económico de América Latina, vol. VI, nç 2, Santiago de Chile, 1961, p. 13-53.
66
67
vezes, os maiores centros urbanos são também centros industriais
importantes! Numa perspectiva histórico-estrutural, a divisão social Ocorre que__na formação sociaj_£a£italista a^organização social
flistrinill f» rí»r>l et ctí^FIr>õ^r^íilí^^r^T."^^« <• ^. „7;~tl~™"TTTr
í^ ^—^^^___ 1

do trabalho, a expansão das forças produtivas, a urbanização, a ,
industrialização e o crescimento do setor de comércio, transportes e ^ k jexo, iclade^jiível Q ducacipnalLjeligião, etnia, raça e
serviços modificam de forma mais ou menos profunda a estrutura classe social, além~3eoutros'aTributos fundamentais ou secundários?
• das relações sociais e, também, das relações de raças .A cultura Por isso é que no século XX as pessoas 'são também classificadas
africana e a cultura da escravidão "perdem-se" na cuITufa db cornoJuanc^negro^ mulato^ índio, _mestiço, italiano, alemão,
cajMtalismo. Isto ê, na sociedade organizada em termos do trabalho japonês e assjm por diante. Na>ep7oduçãõ^sõcíaRãviaã7iíaTábncã7
assalariado, das exigênciasda produção do lucro e da supremacia fazenda, escola, igreja, ' q u a r t e l e outras esferas da sociedade,'
do capital monõgolista, òTvalores e pTcIroes culturais "herdados'' reproduz-se tanto o que é material como o que é espiritual. Ao
,da~ATncã~ê~da escravatura perdem os seus significados originais e recriar e reproduzir as relações sociais, a sociedade reproduz
1iníãW~õWrm7CT^úTprêaõrnina, à medida que avança oséculo continuadamente tanto o negro e o branco - ou outras raças - como
X, é a organização capitalista das relações de produção. Pouco a as imagens e os atributos que cada um e todos possuem de si
pouco, todas as esferas da vida social são determinadas ou mesmos e uns com relação aos outros.
recriadas e reproduzidas segundo as exigências das relações
político-econômicas do capitalismo. Nesse contexto, o que parecer ^Consciência de alienação
ser. sobrevivência de traço cultural africano ou escravista só tem
sentido enquanto elemento cultural inserido nas relações capitalis- Entre os nepros e mulatos da América Latina e do Caribe, 'a
tas presentes. O que parece ser anterior só tem aparência de consciência de alienação tem se revelado mais frequentemente nõs~
anterior. Da mesma forma que as relações sociais, ou as estruturas valores e prátjcas relij>rosris__As religiões negras parecem ser, tanto
político-econômicas, também os elementos culturais são recriados e na época da escravatura como nas sociedades de classes, no século
reproduzidos segundo as condições e exigências das forças que XX, a esfera sócio-cultural naTcjual e mais evidente a compreensão",
dominam a sociedade. Nesses termos é que a análise de Bastide ingénua ou críticarTIãs^ongicoês alienadas de vida de negros e
adquire significação nova. mulatos. ' "~~^""" ' - -- •—
A segregação não é desejada pelos governos: pelo contrário, esses fazem amiúde Nessa perspectiva de análise, as duas formas da religião negra
grandes esforços com vistas a acelerar a integração nacional mas, nas regiões de apresentadas por Roger Bastide podem ser vistas como duas formas
grande povoamento de cor, os negros, porque se sentem "diferentes", preferem viver de organização da consciência negra. Lembremos como Bastide
à parte e fora do controle dos brancos. Uma instituição, de origem católica, que define as religiões que se acham estabilizadas^ ou "em conserva" e as
regula as relações inter-raciais de maneira a evitar todo cho.que traumatizante entre os religiões "vivas". É claro que as duas são formas religiosas vividas
indivíduos, é o "apadrinhamento"; o negro(da classe baixa escome,,para seus filhos, por negros e mulatos (e também várias categorias de brancos). Mas
padrinhos ou madrinhas pertencentes à classe dos brancos, mais elevadas, e como o uma seria relativamente estável; ao passo que a outra se modifica.
parentesco espiritual é considerado ainda mais importante do que o parentesco Bastide põe as religiões afro-brasileiras entre as primeiras e o vodu
carnal, os brancos e os negros têm entre si relações afetivas e se ajudam mutuamente; haitiano entre as segundas.
mas por outroUado, como o apadrinhamento se faz segundo a linha hierárquica, esta
afetividade não impede a subordinação de uma cor à outra, o que faz com que o
negro não espere do branco senão favores, não lhe copie os modelos de vida; não Religiões em conserva: Queremos exprimir o caráter ferozmente conservador da
tenta integrar-se no seu grupo, preferindo ficar "entre os seus", onde não sofrerá, na dogmática como da prática africana na América. Contra o esvaziamento incessante
verdade, qualquer frustração, já que evita a luta. A festa, por outro lado, mistura de que é objeto, da parte da sociedade circundante, a cultura negra resiste,
imobilizando-se, de medo de que, se viesse a mudar um pouco, isto seria para ela o
bem, numa mesma alegria, as etnias e as cores, mas cada uma fica separada; nas
fim. Existe aí um fenómeno, se assim posso dizer, de mineralização cultural, ou, se
procissões religiosas, as confrarias dos negros vêm na frente e a confraria dos brancos
vêm em seguida, com as autoridades municipais; os brancos dançam nos salões, os preferimos uma comparação com o que se dá com o indivíduo quando sente sua
negros na rua; as cores se acotovelam mais do que se fundem verdadeiramente. integridade ameaçada pelo meio exterior, um mecanismo de defesa(15). A religião é
vivida - mas ela não é viva, no sentido de que não evolui, de que não se transforma
Assim, se o grupo negro tem, em toda a América Latina, ao contrário da América
com o correr do tempo, de que permanece estática no cumprimento do que foi
anglo-saxônia, relações amigáveis com os outros grupos raciais, permanece separado
ensinado pelos antepassados; mesmo na Bahia, onde os bantos, como já dissemos, se
_na vida privada, familiar e cotidiana.( 14).
(14) Roger Bastide,^s Améhcas negras, citado, p. 182-183. (15) Roger Bastide, As Américas negras, citado, p. 120.

68 69
deixam contaminar por \outras religiões populares, como o Calimhó dos índios ou o rés tendem a _ ^
espiritismo dos brancos, os verdadeiros candomblés formaram uma Federação religmò dFBãsejfjricâna- Alguns autores sugerem que o empréstimo
(apesar das rivalidades que existem entre as seitas) para controlar a fidelidade às deeTémèhtos culturais nãoafricanos-catolicismo.espiritismo.religtóo
normas do passado(l6). O Brasil nunca esteve totalmente cortado da África e, mesmo indígena - não altera o espiVifn afhVanr. Ha r^lipiãn ngffrfl Mp«nn
depois de uma pausa relativa, as Comunicações recomeçam atualmente, o que faz fni bastante profunda e
com que as seitas afro-brasileiras permaneçam em contato com as religiões mães(17). demorada, ainda nesse caso q religião (a.ojado do folclore, música,
Religiões vivas: O mesmo não se dá com relação a outras religiões afro- magia) é considerada uma ^g^j^^jaTlia^ q"«* "prevalecem ou
-americanas,e'm,particular|com o Vodu do Haiti. Primeiro, porque a independência persistem elementos culturais africanosjssa é a interpretação que
da ilha remonta ao começo do século XIX e levou à ruptura com a África, enquanto Herskovits ora explicita ora sugere.
para o Brasil a ligação continuava. Em segundo lugar, porque esta independência
conduziu à eliminação da população branca. Os negros não tinham mais que lutar A música, o folclore, a magia e a religião, em conjunto, retiveram os seus
contra a vontade assimilatória desta última, nem que erigir institucionalmente;seu característicos africanos mais do que a vida económica, a tecnologia ou a arte; ao
protesto duplo, como nas outras Antilhas ou no continente, de um lado contra os passo que a língua e as estruturas sociais baseadas no parentesco e na associação
preconceitos raciais, e de outro contra a imposição de valores acidentais(lS). O livre tendem avariarão longo de todas as gradações observadas.
resultado foi a falta de centralização para uma religião que, uma vez cortada as Estas diferenças são provavelmente devidas às circunstâncias da vida escrava e
amarras da África, rompeu-se em múltiplas seitas í, a partir de um ponfp inicial confirmam as observações de senso comum feitas durante a vigência da escravatura.
comum, evoluíam cada uma à sua maneira(19). Na verdade, existem tantos Vodus Os senhores de escravos estavam basicamente interessados nos aspectos tecnológicos
quanto são as regiões da ilha e, para uma mesma região, vari. coes sensíveis de um e económicos da vida dos escravos, pois que as condições de vida destes, como
lugar de culto a outro(20). Enfim: tendo-se tornado o Vodu, como dissemos, em escravos, pervertia qualquer padrão de estrutura social que os negros quisessem
vistas da falta de luta contra a cultura europeia, a expressão de organização, dos
bens e das aspirações da sociedade camponesa nacional, mudará por conseguinte, à preservar. Ao mesmo tempo, fossem quais fossem as estórias contadas ou canções
medida em que se modificarem as estruturas agrárias(21). cantadas, isso fazia pouca diferença para os senhores, e poucos eram os obstáculos
opostos ao seu modo de retenção. No caso da religião, os controles externos eram de
vários tipos e eram respondidos em diferentes formas, conforme se reflete na posição
As religiões que se estabilizaram, ou se acham "conservadas" e as intermédia deste elemento cultural. A magia, que tende a tornar-se clandestina sob
religiões "vivas", portanto";' pôdêrrTsêr tomadas como duas modali- pressão e pode mais facilmente ser praticada sem direção (neste caso é de particular
dades distintas de organização da consciência social das populações significação a força específica das compulsões psicológicas) persistiu numa forma
negras e.jaulatas. -Ocorre q ue na religiâo.ãTcíónsciêiiciacríticasempré reconhecível em toda a parte, particularmente porque a similaridade entre a magia
aparece de^Jorma_^inocente", estilizada, sublimada, invertfdã. Na africana e a europeia é tão grande que uma reforça a outra. A incapacidade da arte
religião negra, o negro também se jefugia, preserva, organiza, em africana para sobreviver, exceto na Guiana e, em menor grau, no Brasil, é
compreensível, desde que lembremos que a vida do escravo permitia pouco lazer e
face do branco, da religião do branco, do poder estatal ou outras oferecia escasso estímulo para a produção artística, seja no estilo aborígene africano,
expressões das relações de alienação que fundamentam asrelações seja em outro (22).
sociais. No Brasil, os centros e terreiros afro-brasileiros são obrigados
a registrar-se na polícia, o que não ocorre com outras igrejas e seitas. Diante dessa problemática/Bastide sugere que as religiões negras
A maioria dos pesquisadores reconhece que nas religiões negras não são africanas, mas principalmente sincréticas~Para ele o tráfico
da América Latina e Caribe ^stão presentes traços culturais africa- d& africanos e a escravização destes destruíram amplameri!ê~a~
noS-,_AQ lado da música, do folclore e da magia, a religião é uma cultura afrícaqa. ' ~———
esjera da vida social na qual parecem estar retidos muitos traços
culturais de origem africana. Mesmo quando a reiigiáo negra, em Aqui é fácil discernir tendências gerais, ou mesmo leis, que se verificam em todos
fartem e ntê~*impregnada de elementos provenientes os países da América Latina, das Antilhas (com exceção, naturalmente, das Antilhas
do espintisjnOjjDU do catolicisnip, mesmo nesse caso os pesquisado- inglesas, protestantes) até á Argentina:
l ç ) Etnicamente, o sincretismo é tanto mais pronunciado se passamos dos
(16) Roger Bastfde, Op. cit., p, 121. daomeanos (Casa das Minas) aos yoruba e. destes últimos, aos bantos. os mais
(17) Roger Bastide, Op. cit., p. 121. permeáveis de todos às influências exteriores:
(18) Roger Bastide, As Américas negras, citado, p. 122.
(19) Roger Bastide, Op. dl., p. 123.
(20) Roger Basti de, Op. cit., p. 123.
(22) Melville J. Herskovits, The New World negro, citado, p. 55.
(21) Reger Baslide, Op. cit., p. 123.-124

70 71
2°) Ecologicamente, o sincretismo é tanto mais pronunciado se passamos das mesclas e correspondências do sincretismo religioso, haveria uma
zonas rurais, onde a mestiçagem cultural é intensa, às cidades, onde os escravos, os subcultura ou contracultura, de uma categoria social subordinada,
negros "livres" e seus descendentes puderam agrupar-se em corporações e "nações"; subalterna.
3°) Institucionalmente, o sincretismo é tanto mais acentuado, se passamos das
religiões "em conserva" às religiões vivas, já que a vida de um organismo, tanto social
como biológica, consiste em assimilar o que vem de fora; Tem-se frequentemente observado que, quando um povo invasor impunha a sua
4Ç) Sociologicamente, e seguindo o que G. Gurvitch chamou de "a sociologia em religião ao povo vencido, produzia-se um desnivelamento dos valores, consecutivo à
passagem da sociedade mais ou menos igualitária para a sociedade mais ou menos
profundidade", as formas de sincretismo variam de natureza quando passamos do
estratificada. A religião do vencedor se tornava a única religião pública válida para a
nível morfológico (sincretismo em mosaico) ao nível institucional (com, entre outros,
o sistema das correspondências, deuses africanos-santos católicos) e do nível massa total da população, enquanto a religião vencida (e aqui tornamos a encontrar
institucional ao nível dos fatos de consciência coletiva (fenómenos de.reinterpretaçào); as alternativas do comportamento coletivo) se degrada em magia ou se metamorfo-
5Ç) Enfim, é preciso considerar a natureza dos fatos estudados. A regra para a seia em religião de mistérios, fundada na iniciação e no segredo. Ambos os
religião continua sendo o estabelecimentodecorrespondências,e a regra para a magia fenómenos são encontrados no Brasil, bem como no resto das duas Américas negras.
a da acumulação(23). O candomblé se refugia no segredo, celebra-se nos bairros das cidades, em casas
isoladas ou em esconderijos das florestas tropicais; tende a se tornar um culto t de
O sincretismo por correspondência Deuses-Santos é o processo mais fundamental, mistério; nele não se entra obrigatoriamente por pertencer-se a uma linhagem, mas
além de ser o mais estudado. Pode ser explicado historicamente, pela necessidade que por uma iniciação voluntária. Mas esse segredo inquieta o branco: ele sente que, no
tinham os escravos, na época colonial, de dissumilar aos olhos dos brancos suas recinto das seitas fechadas, manipulam-se forças temíveis, e como nem sempre ele
cerimónias pagãs; dançavam então diante de um altar católico, o que fazia com que tem a consciência tranquila em suas relações com o negro, receia que tais forças
seus senhores, mesmo achando as coisas esquisitas, não imaginassem que as danças sejam manipuladas contra ele. Receio absolutamente sem fundamento. Com efeito,
dos negros se dirigiam, muito além das litografias ou das estátuas dos santos, às- os escravos se servirem de Exu, de Ogum ou das ervas de Ocem para lutar contra a
divindades africanas. Ainda hoje, os sacerdotes ou sacerdotisas do Brasil reconhecem opressão económica e racial da classe dominante(25).
que o sincretismo não é mais do que uma máscara dos brancos posta nos deuses
negros(24). ^, Essa interpretação é bastante atraente. Ela apresenta elementos
convincentes. Mostra que o negro da ^m/r'''a T at'"a_**^rvníy nn
Ao longo dos séculos de escravidão, as relações de dominação século XX. retém ou recria elementos culturais de origem africana
política e apropriação económica permitiram à casta dos senhores para defender-se ou opor-se ao domínio exercido pelo branco. Nesse
destruir e recriar, ou reestruturar, os elementos culturais da casta dos sentidõ~ a ^religião negra, sincrética ou não, é uma espécie de
Ç escravos. Note-se que a escravatura fni a forma assumida pela catacumba espiritual, na qual o negro evade-se, esconde-se, resiste
- \ culturação dos africanos; e que essa aculturação foi forçada, ou articula alguma luta contra a supremacia do branco.
. subalterna e organizada segundo os interesses e o predomínio da Mas ainterpretaçâo da religiãQ negra, corno urna forma de contra-
\casta dos brancos. ASSim. também para hastirip n i e era_a'frjr.gmn
_ SP , cultura não esclarece duas questões básicas. Em primeiro lugar, ela
transforrna em negro, pela intermediacão da' escravatura. Nesse implica a oposição negro-branco, apenas ou fundamentalmente
processo, a religião negra é formada como uma totalidade sincrética enquanto raças. Sim, não há dúvida que as relações de interdepen-
mais ou menos autónoma. Nessa perspectiva de interpretação é que dência e alienação de branco e negro geram um antagonismo
Bastide busca as mesclas e as correspondências entre divindades insuportável para o negro. À ideologia da supremacia do branco
negras e brancas, ou católicas e afro-americanas. É o que ele registra (nos países em que o branco domina as estruturas político-
nos dados da tabela V. -econômicas de poder) o negro tende a opor uma contra-ideologia.
Já está sugerido que a religião negra é uma religião de vencidos; Na visão do mundo do negro, enquanto categoria racial criada nas
de vencidos que guardam na prática religiosa um dado fundamental relações sociais de produção em que se acha também o branco, é
da resistência ao domínio do vencedor. Religião de vencidos, claro que a religião pode ganhar o caráter de uma contracultura, ou
subcultura ou contracultura, estas são hipóteses ou interpretações inscrever-se nos quadros de uma contra-ideologia. Para isso, e em
que surgem em algumas análises. Por sob os africanismos, ou sob as

(25) Roger Bastide, As religiões africanas no Brasil, 2 vols., tradução de Maria
Eloisa Captellato, e Olívia Krahenbuhl, Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1971,
(23) Roger Baslide, As Américas negras, citado, p. 142-143.
(24) Roger Bastide, Op. cit.. p. 144. segundb volume, p. 544.

72 73
segundo lugar, seria necessário que o conteúdo da religião negra
fosse expressivo das relações de interdependência e alienação que
marcam o relacionamento do branco com o negro. Mas não está
ainda demonstrado que o conteúdo da religião negra corresponde
efetivamente a uma contracultura ou contra-ideologia.
Enquanto não se esclarecem essas duas questões, resta por
demonstrar-se o caráter da religião negra. Note-se que não nego que
a religião negra, no Caribe e na América Latina, possua um caráter
I líf
l Ti <*
critico ou venha a desenvolver esse caráter. Pode-se mesmo dizer que
existe um > componente crítico na religião negra. O candomblé
brasileiro, ío vodu haitiano e a santeria cubana contêm elementos
sociais que expressam visões do mundo que não são compartilhadas
pelo branco; ou somente são compartilhadas por brancos que aderem
à negritude. E são muitos os indícios de que os africanismos e
III! II l sincretismos 'escondem alguma resistência à visão do mundo expressa
na ideologia racial do branco, ou em segmentos da sua .cultura
dominante.
Mas sugiro que os africanismos persistentes na religião negra, ou

g
o
l il as formas sincréticas assumidas por ela, não lhe conferem, sem mais,
o caráter de uma frente de resistência em defesa do negro, e em
oposição ao branco. É claro_gue_as._relações de interdependência » .
^aliejiaçãa vigentes nas relações entre o negro e o brancojjeram
. antagOQÍsrnQS.0quenãoéclaroé que esses antagonismos expressam e
esgotam a condição do negro, em face do branco. O negro de que
falo, na América Latina e no Caribe, é também operário industrial,
operário agrícola, empregado, funcionário, soldado, estudante, co-
l
s
merciante, intelectual, pequeno-burguês etc. Inclusive o branco.
Uma questão central, portanto, é esclarecer como^raça e classe se
Í* subsumem reciprocamente; ou como e quando a política dos
«3 •s « - a * antagonismos de raça implica a política dos antagonismos de classe,
ou se desdcbra nela.

Consciência política
o
•e a v*
'2a a
Q s
A metajnjjrji^e_doescravo em negro e mulato é também a
»P« metamorfose desama forrnlTde alienação a outra. Na escravatura, o
escravo é alienado no produto do seu trabalho e em sua pessoa. E é
Is s l "WíáW3l WâW- ã si nessa condição que ele reelabora ou recria elementos da cultura
III í 35 (3 {« CO W
africana, em combinação com a cultura da sua própria condição
escrava. Nesse contexto^ ai^religião, maj,ia, música,jrolcloree^ língua
tornam-se a expressão de um empenho em garantir um^universo
sócio-cultural restrito, no qual o escravo se refugia, expressa., jjirma

75
complica, pois que a maioria negra é subordinada a grupos brancos
Ê resiste à cultura da escravidão, A casta dos senhores concede_esse
e mulatos.
refúgicu Inclusive toma esse universo sócio-cultural como prova de Nessas condições, da mesma forma que entre outras raças e classes
que. .a casta dos escravos é de fato outra raça. A despeito dissojis subalternas, entre os negros e mulatos ^consciênciade alienação
relações, os valores e as estralaras articulados em torno da religião,
não se apresenta imediatamente como uma consciência política. Em
magia, música, folclore e língua acabam por tornar-se o universo
tóda^ategõria social subalterna, a consciência política da situação
Sócio-cultural em que o escravo se refugia e guarda a sua rebeldia, o tende a aparecer mesclada com elementos religiosos, morais, lúdicos
seu protesto, a sua negação da condição escrava. Aqui, o negro e o
é~óútrosL Os próprios valores políticos das raças ou classes dominan-
mulato estão subsumidos na condição escrava, da casta escrava. Ao tes invadem e permeiam a consciência dos subalternos, mesclando
passo que na sociedade de .«classes o negro.._é_um. trabalhador livre. ou confundindo a sua compreensão das próprias condições de vida.
Apesar das condições adversas nas quais ele circula no mercado de A dupla alienação em que se acha o negro, em quase todos os
força de trabalho (quando é obrigado a competir com o branco^ países da América Latina e Caribe, tem dado origem a várias
índio, mestiço ou outra categoria racial) na sociedade de classes o
negro pode negociar a sua força de trabalho. Como pessoa, é modalidades de reações. Além da religião e arte em geral, também
nas organizações políticas (associações, sindicatos, partidos) o negro
formalmente livre,_É um cidadão, ainda que de segunda classe, ou
está organizando a sua consciência e prática política. No Brasil, por
subalterno. Mas_.é_alienado no produto do seu trabalho (quando
exemplo, ele organizou na década dos anos trinta a Frente Negra
assalariado) e na sua condição de cidadão: é negro ou mulato,
Brasileira, que foi extinta pela ditadura instaurada em 1937, por
ademais de assalariado. Além de operário industrial ou agrícola,
Getulio Vargas. Entre a abolição da escravatura e a criação de um
funcionário ou empregado, ele é negro ou mulato. Nessa condição,
movimento mais explicitamente político, surgem várias manifestações
novamente recria e reelabora os elementos culturais da sua condição
bastante significativas.
social e racial. Como negro, ou mulato, e assalariado, ele recria e
reelabora os elementos culturais da sua condição de classe e do seu A formação de clubes e associações no "meio negro" data de 1915, tendo-se
passado escravo. A experiência coletiva e histórica de escravo, por intensificado por volta do período de 1918-1924. As organizações aparecidas não
dois, três ou quatro séculos, é recriada e reelaborada juntamente visavam, porém, à "arregimentação da raça", propondo-se somente fins "culturais e
com a experiência presente de negro ou mulato membro da classe beneficientes". A evolução naquele sentido se operou naturalmente, depois de 1927,
operária (urbana e rural), da classe média, pequena-burguesia ou em algumas dessas associações, sob a pressão da própria situação económica e social
outra categoria social. do negro em São Paulo. Tomemos por exemplo o Centro Cívico Palmares: "A
Na sociedade de classes^ no século XX, portanto, as formas, de finalidade nitidamente cultural com que surgiu - organização de uma biblioteca - foi
consciência de alienação po^ènTse7Tira"rsTÍiferencTádas. É verdade superada por força das condições em que vivíamos, passando essa sociedade a ter
papel na defesa dos negros e dos seus direitos". Outras organizações^, nascidas no
que a religião, a magia, a música, o folclore, a língua continuam a ser
ambiente criado pela incipiente afirmação coletiva do elemento negro, aparecem com
esferas de um universo sócio-cultural importante. Mas as significa-
propósitos mais definidos e combativos. A Frente Negra Brasileira, por exemplo, que
ções sócio-culturais e políticas desse universo são dadas pelas se constituiu em 1931, propunha-se a "congregar, educar e orientar" os negros do
relações de interdependência, alienação e antagonismo das classes Estado de São Paulo(26).
sociais. A condição de raça e classe subsumem-se reciprocamente.
Os conteúdos políticos da condição social (político-econômica) do Evolução paralela se verificou com a imprensa negra da cidade. Os primeiros
negro, entretanto, não se desenvolvem a não ser de forma irregular, jornais negros, publicados entre 1915 e 1922, assumem uma orientação literária. Mas,
contraditória mesmo. A condição duplamente subalterna da maioria logo, se tornam "um órgão de educação" e um "órgão de protesto", por causa dos
da população negra e mulata, em quase todos os países da América problemas sociais que afligiam as pessoas de cor, que formavam o seu público (27).
Latina e Caribe, dificulta bastante a transição de uma consciência
"ingénua" (ou mesmo alienada) da alienação, para uma consciência
adequada, politicamente organizada, crítica. O negro e o mulato (26) Florestan Fernandes, "A luta contra o preconceito de cor", em Roger Bastide
com frequência são-jduplamente alienados, porque são alienados e Florestan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, 29 edição, Companhia Editora
como membros de uma raça diTerènfeTinferior, em face do branco e Nacional, São Paulo, 1959, p. 269-318; citação das p. 281-282.
(27) Florestan Fernandes, "A luta contra o preconceito de cor", citado, p. 283.
como membros de uma classe social também subordinada a outra, Consultar também, do mesmo autor: A integração do negro na sociedade de classes, 2
na" q uaTãTriãíõna. p ode ser branca. Há casos em que a situação se vols., Dominus Editora. São Paulo, 1965.

77
76
Ao mesmo tempo, o negro brasileiro realiza congressos, debates e consciência religiosa e política como outras maneiras de compreen-
discussões, para retomar, desenvolver ou aprofundar a análise dos der, aceitar ou rejeitar a condição de raça subalterna na qual o negro
seus problemas, em face do branco e de si mesmo. Também organiza oi posto pelo branco (2 8)._São várias as modalidad£s.dÊ.cojisciên£Ía
movimentos artísticos, como teatro, dança e outros, para recriar e que o negro tem sido levado a formular e desenvolver. Como
desenvolver a sua criatividade e marcar a individualidade e origina- tendência, há uma consciência política que se sobrepõe, ou começa a '
lidade da sua maneira de viver, sentir, pensar, fazer. Em anos sobrepor-se, às outras.
recentes, entre 1945 e 1975, o negro brasileiro tem votado nas Esse processo de politização da raça negra caminha de forma
eleições políticas em candidatos negros. Não possuem um partido, o variável, conforme o país da América Latina e Caribe. No México,
que é proibido pela constituição adotada pelo governo em 1969. Mas Colômbia, Venezuela, Peru e alguns outros países da América
os grupos negros, em vários dos estados em que se organiza Latina, os grupos negros estão obrigados a subordinarem a sua
administrativamente o país, têm eleito vereadores, deputados esta- atividade religiosa, artística e política às estruturas criadas e
duais e deputados federais. Há uma evidente politização dos grupos dominadas por brancos; ou brancos, índios e mestiços. _Mo_Brasil
negros, tanto os proletários como os que ingressaram ou começam tambémjjcorre a mesma subordinação, mas com algumas peculiari-
a ingressar nas classes médias. -No conjunto, e em perspectiva dades. Em algumas áreas do país, como por exemplo nas cidades de
histórica, o negro brasileiro evolui de uma situação de ànomia, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, as atividades
.havida logo após a abolição da escravatura, para uma situação de religiosas, artísticas e políticas parecem desenvolver-se cada vez
classe. Depois da abolição, ocorrida em 1888, em várias partes do país mais. E há mesmo indícios de que o negro e o mulato se vêem de
o negro tornou-se um desempregado, e mesmo lumpenizou-se devido forma cada vez mais nítida, como categorias sociais e políticas
às condições adversas que precisou enfrentar, na competição coni o potenciais. A alienação racial produz desenvolvimentos políticos, a
branco, o imigrante, o italiano, o alemão e outras categorias do despeito do vigoroso predomínio do mito da democracia racial, que
ambiente racial brasileiro. Nessa época ele é talvez o principal confunde brancos, negros e mulatos. É claro que a situação é diversa
elemento do exército de trabalhadores de reserva. Depois, pouco em algumas sociedades do Caribe, nas quais a população negra e
a pouco,, vai sendo absorvido nas ocupações assalariadas que se mulata é maioria ou está no governo. Nesses casos, os movimentos
multiplicam e diferenciam, com a urbanização e a industrialização. políticos de negros e mulatos adquirem alguma, ou ampla, autono-
Assmf,™põ~uco~a ^xnico, ele se transforma em negro operário, na mia, em face da religião e outras formas de organização da
indústria ou na agricultura. Note-se, negro e operário, o que tem sido a consciência social. Além disso, rechaçam as propostas políticas dos
dupla condição de vida da maioria dentre os negros e mulatos. brancos, ou sobrepõem-se a elas. Mas assumem o poder político sem
alterar a estruturação de classes em que se dividem negros e
É óbvio que as mudanças das condições de consciência social não mulatos. Nesses casos, são os negros e mulatos que se defrontam
são homogéneas nem semelhantes nos vários países da América direta e explicitamente com a dupla alienajção em que foram
Latina e do Caribe. Em cada um, a formação social capitalista produzidos historicamente: eles próprios acham-se estruturados em
assume uma feição singular. Além disso, são diversas as estruturas classes sociais hierarquizadas, sem haver superado as subdivisões
sociais em cada sociedade; distinguem-se os graus de urbanização, raciais, em negros e mulatos - ou negros e mulatos pobres e negros e
industrialização, desenvolvimento agrário, as composições demográ- mulatos ricos - produzidas nas suas relações passadas e recentes com
ficas (negros, mulatos, brancos, índios, mestiços, imigrantes, descen- os brancos, colonizadores ou não. Nesse caso, a condição racial pode
dentes de europeus, asiáticos etc.) e as distribuições das raças pelas subsumir-se à condição de classe, de forma paulatina ou rápida,
classes sociais. No conjunto, no entanto, parece evidente a progressi- conforme o contexto das relações de interdependência, alienação e
va transição de uma consciência religiosa da condição do negro para antagonismo geradas com a reprodução das estruturas político-
uma consciência política. Note-se que a transição da consciência
religiosa para a consciência política não significa, em nenhuma econômicas.
Ocorre que o negro reajejanto às condições reais de vida em que
hipótese, a substituição de uma por outra. Elas não são nem se acha como à ideologia racial do branco. Enquanto operário negro^
exclusivas nem únicas. Há, por exemplo, manifestações artísticas que
podem expressar outra ou outras modalidades de consciência da (28) Jean Franco, fhe modern culture of Latin America, Penguin Books, 1970, esp.
condição alienada em que se sente o negro. A poesia, o teatro, a p. 131-140; César Fcrnandez Moreno (coordenador), América Latina en su literatura,
,—a pintura, o cinema podem tanto exprimir formas de Siglo Veintiuno Editores, México, 1972, esp, p. 62-69.

79
78
por exemplo, .ele.Jnão desfruta dos mesmos direitos do operário
branco que se acha em idêntica situação. .Para ser igual a um
operário branco, o operário negro precisa ser melhor do que o
operário branco. Na estrutura ocupacional e na escala de salários, o
negro está em piores condições. Além disso, ele .sofre o preconceito, a
^discriminação ou também a segregação. Isto é, o negro se vê em SEGUNDA PARTE
condição subalterna, tanto prática como*ideologicamente. A ideolo-
gia racial do branco o rejeita ou confunde; mas não o considera
igual. O paternalismo, a ambiguidade, o mito da democracia racial e
outras expressões da dominação exercida pelo branco confundem ou
irritam- o negro. É diante dessa situação, prática e ideológica, que o
negro toma consciência da_sua dupla^alieriãçaõ: como_ra£tfecomo
membro de ceasse. Nesse sentido, para reduzir ou eliminar as
condiçõeTda sua alienação, da sua condição duplamente subalterna,
o negro é-levâdo a elaborar uma consciência política dúplice; é
levado a pôr-se diante de si mesmo e do branco como membro de
outra raça e membro de outra classe. Enquanto membro de raça,
está só, e precisa lutar a partir dessa condição. Enquanto membro de
classe, está mesclado com membros de outras raças, e precisa lutar a
partir dessa condição. Nesse contexto, raça e classe subsumem-se
recíproca e continuamente, tornando mais complexa a consciência e
a prática políticas do negro.

KO
No mercado capitalista de força de trabalho, a demanda é sempre
seletiva, ou estratificada, segundo critérios económicos, políticos e
sócio-culturais. Na indústria, por exemplo, a demanda se organiza
em função da qualificação profissional, nível de instrução, idade,
sexo, etnia, raça, religião, e outros atributos. Quanto mais graus de
liberdade tiver, em função do excesso da oferta de trabalhadores,
relativamente à demanda, esta tende a tornar-se mais seletiva,
económica, política e socialmente. Isto é, quando as condições são RAÇA E POLÍTICA
favoráveis para a demanda de força de trabalho, o trabalhador pode
ser selecionado em função da sua qualificação profissional, nível de
instrução, idade, sexo, etnia, raça, religião, filiação sindical, filiação a Significado político dos problemas raciais
partido político, capacidade de articulação política de suas ideias e
outros característicos. O resultado óbvio é a sofisticação da escala de Neste ensaio, pretendo fazer algumas sugestões sobre as implicações
discriminação. Ao mesmo tempo, essa escala de discriminação pode políticas de situações de antagonismo e conflito raciais em países do
ser generalizada no seio dos próprios trabalhadores, na medida em mundo capitalista. É claro que as implicações políticas dos proble-
que ela pode funcionar como um artifício competitivo. Nessas mas raciais poderiam ser apreendidas também por meio da análise
condições, os trabalhadores são divididos em negros, mulatos, índios, de situações nas quais as raças parecem conviver em acomodação.de
mestiços, brancos e outras gradações. Apenas formalmente todos são maneira mais ou menos harmoniosa, ou em processo de integração.
cidadãos, iguais perante a lei. Deixando de lado o fato de que essas situações parecem ser menos
frequentes, não há dúvida de que elas são menos propícias à
interpretação das condições e possibilidades de desenvolvimento dos
problemas raciais. Creio que as manifestações de antagonismo e
conflito são mais reveladoras das implicações políticas desses proble-
mas, implicações essas invisíveis ou não expressas nas situações de
acomodação e integração. As condições económicas e políticas das
relações raciais concretas aparecem de forma clara nas situações de
antagonismo e conflito, situações essas expressas nos rims dos negros
norte-americanos, nas guerrilhas dos negros africanos e na luta
armada dos vietnamitas contra a dominação estrangeira, francesa ou
norte-americana. Nos conflitos gerados pelos problemas da integra-
ção linguística na índia, ocasiões em que às vezes ocorrem mortes,
também se revelam mais abertamente as implicações políticas,
económicas e culturais da heterogeneidade racial nesse país.
Antes de iniciar a discussão, quero fazer dois esclarecimentos
preliminares. Penso que eles ajudam a explicitar a perspectiva
analítica em que me coloco.
NJto tratare^de^roblejnas raciais em países socialistas,. Com isso
não pretendo sugerir que esses países não se enfrentem com questões
raciais mais ou menos relevantes. Mas suponho que essas questões
apresentam outras especificidades, se admitimos que as leis de
divisão do trabalho social, estratificação social,repartição da renda e
organização do poder político são ali diversas das leis estruturais que
organizam a sociedade capitalista. Prefiro concentrar-me apenas em
países capitalistas, porque quero reunir elementos e sugestões para a
compreensão do caráter das tensões e antagonismos raciais no
126 127
contexto de situações coloniais e imperialistas, por um lado, e
situações nas quais mesclam-se raças e classes sociais, por outro. A
1 despeito da contínua difusão e propaganda dos ideais gerados com a
cultura burguesa do capitalismo europeu e norte-americano, relati-
meu ver, essa é uma maneira de apanhar as dimensões políticas dos vamente à igualdade política e intelectual dos cidadãos, é surpreen-
problemas raciais. Penso que é impossível, ou muito difícil, com- dente como a_prática das^ relações entre as pessoas, os grupos e as
preender as condições de resolução de problemas raciais, nos classes sociais revela a^persistèncTa e, muitas vezes, o agravaffieTlTo
Estados Unidos, África do Sul, Inglaterra, índia, Brasil ou outros de tensões, antagonismos e conflitos~déTvãsè~raciãl. Tssõ^ê eSpécM-
países, se a análise não apreende os conteúdos e as implicações mente verdadeiro para os Estados Unidos, África do Sul, Rodésia,
políticos das tensões e antagonismos raciais. Para isso, entretanto, é Inglaterra e alguns outros países, nos quais os conflitos raciais
indispensável que a análise passe pelas relações sociais estabelecidas entraram em etapas políticas novas. Outro grupo de países, dentre os
pelo modo de apropriação do produto do trabalho social. quais encontram-se a França, Alemanha e Suíça, apresentam
Neste ensaio, a noção de raça está usada no sentido situações de tensão^-cojiflito raciais também novas, surgidas com a
sociológico, de raça social, e não no de raça biológica, dado pela expansão capitalista baseada, às vezes amplamente, na incorporação
antropologia e a genética. Isto significa que as raças são tomadas nas de operários imigrados da Argélia, Itália, Grécia, Espanha, Portugal
acepções dadas a partir da perspectiva das próprias pessoas envolvi- e outros países. Em termos totalmente diversos, países africanos e
das na situação social concreta em que se encontram, situação essa asiáticos defrontam-se com os problemas criados pela multiplicidade
na qual os critérios biológicos são geralmente menos importantes, étnica, racial, linguística e religiosa de suas populações. Na índia,
esquecidos, ou socialmente recriados, segundo os componentes desde a independência, ocorrida em 1947, os problemas de base
sociais da situação (1). Ocorre que_a noção sociológica de raça nos étnica, racial, linguística e religiosa têm gerado tensões sociais e
coloca diretamente diante de relações políticas, na medida em que as políticas relevantes para a nação. Em outro plano, creio que se pode
diferenças de atributos, traços, marcas ou outros elementos fenotípi- afirmar que os indigenismos da revolução mexicana, iniciada em
cos e físicos, raciais ou não, são organizados e definidos pelas 1910, e do movimento aprista do Peru, surgido na década dos vinte,
relações sociais de apropriação económica e dominação política. não produziram melhora substancial das condições de vida das
Essa colocação preliminar indica que, a meu ver, os problemas populações de origem asteca, maia e inça. Da mesma forma, jip
raciais seriam ininteligíveis se examinados em si, sem conexão com Brasil, não há indícios seguros de que o mito da democracia racial
as relações, os processos e as estruturas económicos e políticos que deixou de ser uma expressão da ideologia racial da classe dominan-
governam as condições básicas de estratificação, reprodução e te, branca, para usos internos e externos. E cabe lembrar, ainda, a
mudança sociais. Esse é o contexto em que se torna possível conotação racial das várias guerras havidas nas últimas décadas no
pesquisai e interpretar tanto os fenómenos de relações raciais, em Oriente Médio, entre árabes e judeus; e das muitas e longas guerras
sentido estrito, como os fenómenos de ressurgência de identidade mantidas pelos vietnamitas contra invasores franceses e norte-
étnica e racial em níveis nacional e internacional. americanos.
É sintomático, aliás, que os programas educativos, culturais e de
Antagonismos e conflitos raciais pesquisas sociológicas e antropológicas iniciados e estimulados pela
UNESCO desde 1947, não produziram os efeitos civilizatórios que
O que surpreende e desafia tanto cientistas sociais como gover- os seus idealizadores pretendiam (2).
nantes e cidadãos, nos países do mundo capitalista, é que os
problemas raciais parecem antes agraVar-se do que resolver-se. A

(2) Estas são algumas publicações nas quais se registram e discutem as preocupa-
ções e os programas da UNESCO relativamente a tensões raciais: Otto Klineberg,
(1) Quanto ao conceito sociológico de raça, consultar: Charles Wagley, The Laíin "The UNESCO project on international tensions", International social science
American tradition, Columbia Universirv Press, New York, 1968. cap. V: Michael bulletin, Vol. I, N" l, Paris, 1949, p. 11-21; do mesmo autor, Êtats de tension et
Banton, Race relalions, Tavistock Publications, London, 1967. cap. 4; Gunnar compréhension Internationale, Librarie de Médicis, Paris, 1951; Hadley Cantril,
Myrdal, An Amerícam dilema, Harper& Brothers Publishers. New York, 1944, pane Tensions et conflits, Librairie de Médicis, Paris, 1951; Association Internationale de
II; Roger Bastidee Rorestan Fernandes, Brancos e regras em São Paulo, Companhia Sociologie, De Ia nature dês conflits, Unesco, Paris, 1957; Unesco, The race question in
Editora Nacional, São Paulo, 1959, apêndice I; Octavio lanni. Raças e classes sociais modern science, Paris, 1956; Lê racisme devant Ia science, Unesco, Paris, 1960 (28
no Brasil, Editora Civilização- Brasileira, Rio de Janeiro. 1972. quarta parte. edição, 1973).

128 129
Em documento de 1969, a ONU - da qual a UNESCO é uma A prestação de assistência aos países em desenvolvimento e aos territórios
organização afiliada - registrava a persistência e o agravamento da submetidos à dominação colonial e estrangeira, à ocupação forânea, à discriminação,
situação racial na África Meridional. E apontava a relação entre raça ao apanheid ou que são objeto de coerção e agressão económica ou de pressões
e economia, sempre em detrimento das populações indígenas políticas e do neocolonialismo em todas as suas formas e que chegou a exercer ou
estão exercendo domínio efetivo sobre os seus recursos naturais e atividades
africanas. Nesse documento, fica evidente a articulação entre económicas que estiveram ou permanecem sob domínio estrangeiro(4).
capitalismo e racismo, ou melhor, entre a acumulação capitalista e a
exploração do negro pelo branco. É importante notar, nessas recomendações votadas pela Assem-
bleia Extraordinária das Nações Unidas sobre Matérias-Primas, que
As populações indígenas africanas permanecem em uma situação miserável,
apesar de as potências imperialistas terem investido enormes quantias, estimadas em
os problemas raciais estão postos junto com os problemas econô-
mais de 5 milhões de dólares, nos territórios coloniais. Contrastando com isso, a * micos e políticos relativos às condições coloniais e de dependência
minoria de exploradores brancos locais e os monopólios estrangeiros a eles aliados de países asiáticos, africanos e latino-americanos, em face dos países
têm à sua disposição indústrias, uma agricultura altamente desenvolvida, cidades, colonialistas, neocolonialistas ou imperialistas, na década dos setenta.
portos, aeroportos e outras riquezas criadas à custa do sangue e do suor da No presente, pois, _as_ antagonismos sociais, de base. racial são
mão-de-ohra africana. elementos constantes e às vezes fundamentais em muitos países do
Como os meios básicos de produção - especialmente as terras, minas, indústrias e mundo capitaJister Em distintas gradações, os antagonismos raciais
fábricas, transportes e comunicações - estão nas mãos dos capitalistas estrangeiros e aparecem nos mais diversos países desde os Estados Unidos e a
dos habitantes locais a eles associados, a população indígena vê-se privada do direito África do Sul até a índia e o Brasil. Também manifestam-se no
de participar das atividades económicas e comerciais. O destino a ela reservado é o de âmbito das j-ela^õejjjilexnaciojnais, unindo e divorciando países, como
servir á exploração dos monopólios estrangeiros e das autoridades coloniais que os
apoiam.
nos seguintes exemplos: o tribalismo e a negritude, em países
O domínio da agricultura pelos monopólios levou à alienação das terras da africanos de população negra; o panarabismo e o islamismo, em
população indígena. Como as melhores terras foram tomadas pelos estrangeiros, a países árabes e nos quais predomina a religião islâmica; o sionismo,
maioria esmagadora dos camponeses vê-se obrigada a arrendar, itas condições mais entre populações de .origem judia, dentro e fora de Israel; o
desfavoráveis, terras pertencentes a latifundiários europeus e. a companhias estrangei- indigenismo, em países latino-americanos nos quais populações de
ras. Os camponeses africanos são obrigados a cultivar apenas aqueles produtos em origem inça, asteca e maia continuam a ser uma parte importante da
que se especializam as companhias concessionárias. Eles só podem vender suas safras população; o hispanismo em alguns países latino-americanos cujas
para os agentes dessas companhias e a preços por estas determinados, os quais,
normalmente são muito inferiores aos preços médios pagos aos fazendeiros europeus
tradições históricas e culturais comuns foram herdadas do colonialis-
e aos preços do mercado internacional. Dessa maneira, os monopólios estrangeiros e mo espanhol. A ênfase cultural, ou rel ; giosa, em ideologias desse
as potências coloniais obtêm lucros ainda mais altos. A população indígena está, pois, tipo, não elimina as suas implicações raciais, nem as suas significa-
sendo objeto de uma dupla opressão, exercida pelas companhias estrangeiras e pelas ções políticas. É importante observar, no entanto, que essas e outras
minorias brancas (3). 'ideologias sociais, de base racial mais ou menos evidente, tendem a
ser com frequência éontra-ideologias.;ao mesmo tempo que são a
Em 1974, a ONU voltou ao assunto, ao formular recomendações a afirmação de alguma especificidade racial, étnica, religiosa, política
propósito da exploração de matérias-primas em regiões coloniais e , ou outra. Respondem a algum tipo de racismo, colonialismo ou
países dependentes. Reeenh€cia-a direito de-os povos coloniais imperialismo. Ocorre que os antagonismos raciais tendem sempre a
lutarem por sua emancipação económica e política; e sugeria que a estar mesclados com formas de estratificação social, organização das
ONU se empenhasse em ajudar esses povos nessa luta. relações económicas e estruturação do poder político, em conjunto.
A importância relativa e absoluta das dimensões económicas,
O direito dos países em desenvolvimento e dos povos de territórios sob dominação políticas, raciais, religiosas ou outras naturalmente varia em cada
colonial e racial e ocupação estrangeira de lutar por sua libertação e para recuperar o situação específica; mas é inegável que umas e outras coexistem e
domínio efetivo sobre os seus recursos naturais e-as suas atividades económicas.

(4) Transcrição de Folhade S. Paulo, 2 de maio de 1974, p. 17, sob o título "ONU :
(3) Nações Unidas. Interesses económicos estrangeiros e descolonizarão. Serviço de deve ser criada nova ordem económica mundial". Quanto ao problema racial na
Informações Públicas. New York. 1969, p. 6 África do Sul, consultar: Apanheid: its effects on educalion, science, culture and
information, Unesco, Paris, 1969.

130 131
influenciam-se reciprocamente. Inclusive pode verificar-se que al-
guns dos antagonismos estruturais básicos, como ocorre na explora- Tanto assim é que a história dos antagonismos e conflitos raciais,
ção do trabalhador negro em distintos contextos, na África do Sul, em dado país, parece acompanhar a história das relações político-
e^onômicas das classes sociais e dos grupos raciais nelas distribuídos
nos Estados Unidos ou no Brasil, apareçam ideologicamente defleti-
e concentrados:Nos Estados Unidos, por exemplo, em várias ocasiões
dos, ou mesmo invertidos, em ideologias raciais e religiosas; às vezes
as duas integradas numa só. é evidente que os brancos são menos atingidos pelo desemprego.
Assim, em 1940 havia 13 porcento de brancos desempregados, mas
eram 14,5 os não brancos na mesma situação. Em 1962 essa
Condição racial e desigualdade económica desproporção é maior, pois os brancos perfazem 4,9 por cento,
enquanto que os não brancos alcançam 11,0 da força de trabalho
Grande parte da problemática relativa às relações raciais, confor- desempregada (5).
me essa problemática manifesta-se em países capitalistas, aparece de Não é surpreendente, pois, que a renda per capita dos norte-
modo mais ou menos claro no seguinte paradoxo: Difundem-se e americanos também varie segundo a condição racial. Nesse país, 0
valorizam-se cada vez mais os ideais de igualdade intelectual e não branco (negro, mulato, portorriquenho, chicano e outros) em
política de todas as pessoas ou cidadãos, sem distinção de raça ou geral participa em apenas mais ou menos cinquenta por cento da
credo religioso; ao mesmo tempo que se multiplicam as situações de renda auferida pelo branco. Assim, por exemplo, em 1948 a renda
antagonismo e conflito raciais, em países coloniais, dependentes e média dos não brancos do sexo masculino alcançava apenas 54 por
dominantes. Nos Estados Unidos e na África do Sul, ou na Irlanda e cento do que era recebido pelos brancos. Em 1969 essa relação se
no Canadá, ou no Oriente Médio e na Europa, as tensões e os mantinha quase a mesma, pois que os não brancos percebiam 59 por
antagonismos raciais e religiosos, em separado e mesclados, parecem cento do que era ganho pelos brancos (6).
ser mais agudos em 1974 do que ao término da Segunda Guerra Não é necessário lembrar aqui que essas diferenças de participa-
Mundial; salvo, é claro, o problema da matança de judeus pelo ção no produto do trabalho social não se explicam apenas pelas
nazismo alemão. Em alguns países, é evidente que os conflitos de diferenças de preparo profissional, ou grau de socialização nas
base racial ganharam dimensões inesperadas, por sua violência, condições sociais e técnicas de organização do trabalho, na fábrica,
organização política e sofisticação ideológica. Muitas discussões e fazenda, escritório etc. Além do mais, essas diferenças raciais,
pesquisas, académicas e não académicas, sobre fenómenos raciais no quanto ao tipo de preparo profissional, também se explicam pelas
mundo capitalista,certamente estão inspiradas pelo interesse de mui- condições económicas, culturais e políticas de educação e profissio-
tos em compreender e resolver esse paradoxo. nalização, segundo as classes sociais, na cidade e no campo. Todas as
A meu ver, esse paradoxo não pode ser satisfatoriamente explica- pesquisas económicas, sociológicas e antropológicas mostram que as
do enquanto a análise não busca as raízes económicas e políticas das raças subalternas são discriminadas na prática cotidiana das relações
desigualdades raciais, em cada situação específica. Com isso não económicas, políticas e outras. O preconceito e a discriminação
quero dizer que as condições históricas e culturais de formação das raciais estão sempre inseridos dinamicamente na prática das
sociedades multirraciais não sejam importantes. É evidente, em todos relações de produção, em sentido lato.
os casos, seja nos Estados Unidos ou África do Sul, na índia ou A verdade é que a participação desigual das raças no produto do
Brasil, na França ou Inglaterra, a importância das condições trabalho social é geral, em praticamente todos os países capitalistas.
históricas de sua formação demográfica, racial, religiosa e te. Inclusive Ela se verifica na Europa, África, Ásia e Américas. As raças
é evidente que algumas situações cruciais passadas influíram de definidas ideologicamente como inferiores, em dada sociedade, são
forma decisiva na maneira de organização sócio-cultural das rela- as raças que participam em menor grau do produto do próprio
ções e ideologias raciais. Mas todas as condições histórico-culturais trabalho. São também essas raças que podem reivindicar emimenor
mais significativas reaparecem nas situações concretas presentes.
Podem ser reencontradas nos riots, na atuação de partidos políticos
de base racial, na violência guerrilheira. São as relações político- (5) Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, Monopoly capilal, Monthlv Review Press. New
econômicas, no entanto, que em última instância podem explicar a York, 1966, p. 261.
persistência e as transformações das situações de antagonismo e (6) Richard C. Edwards, Michael Reich e Thomas E. Weisskopf (Editors). The
conflito que se repetem em um e muitos países. capitalist system, Prentice-Hall, Englewood Cliffs. 1972, p. 289.

132
possibilidades de mobilidade sócio-econômica dos imigrantes (de
primeira e demais gerações) nos países adotivos são menores que a
escala, em comparação com os trabalhadores brancos, ou pertencen- dos trabalhadores nativos, nas mesmas condições. Os países que
tes a estratos sociais privilegiados. Isso é assim na índia e no México, compram a força de trabalho imigrante estabelecem barreiras
no Brasil e na África do Sul, na França e nos Estados Unidos. Ou jurídicas, políticas e sociais delimitando o âmbito de circulação do
seja, não é certo que o desenvolvimento económico capitalista "estrangeiro" ou seu descendente. Isso é verdade para hindus e
melhore generalizadamente o nível económico, social e cultural dos paquistaneses na Inglaterra, portorriquenhos e chicanos nos Estados
trabalhadores. Ao contrário, muitas vezes preservam-se e refinam-se Unidos, ou argelinos e espanhóis na França. O mercado internacio-
as desigualdades, com frequência mais visíveis quando se confron- nal de trabalho também faz circular internacionalmente as técnicas
tam as condições de vida dos trabalhadores das raças dominantes de seleção, controle e repressão das raças subalternas. Aliás, os
com as condições das raças subalternas, ou discriminadas (7). fenómenos migratórios, em escala internacional, tanto no século XIX
Todo país produz uma forma singular de hierarquização racial da como no XX, estão sempre altamente determinados pelas exigências
sua população. As pessoas e os grupos podem distribuir-se por raça, do mercado de força de trabalho (8). Quanto mais se desenvolve o
religião, filiação política etc.; ou classes, estamentos, castas mais ou caráter internacional do capitalismo, mais se internacionalizam e
menos desenvolvidos, estabilizados ou em regressão. As castas intensificam os movimentos das forças produtivas básicas, seja o
podem estar em regressão, como na índia. Nem por isso, no entanto, capital e a tecnologia, seja a mão-de-obra. Nem por isso, no entanto,
as pessoas deixam de ser classificadas segundo a condição racial, ao a generalização do trabalho livre implica a generalização da
mesmo tempo que por sua situação sócio-econômica. Tanto^assim liberdade do trabalhador, em termos sociais e políticos. Um operário
que não é por mero acaso que em cada país o exército industríãTUe argelino na França é sempre e ao mesmo tempo argelino e operário.
reserva tende a ser formado pelos membros das raças discriminadas, Da mesma forma, o hindu na Inglaterra, o chicano nos Estados
ou subalternas. Em boa parte, a lógica da discriminação racial Unidos, o negro no Brasil, o índio no México.
guarda alguma congruência com a lógica das relações de produção.
E claro que uma e outra não são perfeitamente harmónicas entre si.
Mas é inegável que a maioria dos desempregados são membros das A política das relações raciais
raças subalternas; que os membros destas raças, mesmo que
empregados, participam em menor escala do produto do trabalho A história das raças subalternas e dos povos dominados, em níveis
social; que, nas classes médias e dominantes, os membros das raças nacional e internacional, mostra que eles têm reagido sempre em
subalternas são menos visíveis, mais raros ou mesmo totalmente termos religiosos, culturais e políticos. Nas lutas pela emancipação
ausentes. política, económica e cultural dos povos asiáticos e africanos, neste
Essa distribuição desigual das raças na estrutura sócio-econômica século, e dos povos latino-americanos, nos começos do século
de cada país pode ser vista também em escala internacional. As passado, sempre esteve presente o elemento racial. Nas religiões
afro-americanas, em vários países da América Latina, a condição
racial também tem estado de alguma forma presente. Os fenómenos
messiânicos, na África, América Latina e Ásia, muitas vezes
(7) Alguns dados e análises sobre pluralidade racial, discriminação racial, racismo e conjugam manifestações religiosas e de identidade racial. Em
alienação económica encontram-se em: Everett C. Hughes e Helen M. Hughes,
Where peoples meei, The Free Press, Glencoe, 1952, esp. cap. 5; Herbert Blumer, diversos movimentos religiosos, culturais e políticos, entre povos
"Industrialisation and race relations", publicado em Guy Hunter (Editor), Industriali- coloniais e no seio das raças subalternas, nos países dependentes e
salion and race relalions, Oxford University Press, London, 1965; E. Franklin Frazier, dominantes, são evidentes as suas implicações raciais. Seria impossí-
Race and culture coniacls in the modern world, Alfred A. Knopf, New York, 1957, esp.' vel compreender de outra maneira fenómenos como os seguintes:
parte 11; Michael Banton, Race relalions, citado, esp. caps. 8 e 10; Jack Woddis, messianismo, tribalismo, negritude, hinduísmo, budismo, sionismo,
África: as raízes da revolta, trad. de Waltensir Dutra, Zahar Editores, Rio de Janeiro,
1961, esp. caps. V. VI e V I I : Immanuel Wallersteir. (Editor), Social change:'the
colonial situation, John Wiley & Sons. New York, 1966, esp. parte II; Marvin Harris,
"Raça, conflito e reforma em Moçambique", Política externa independente, N ? 3, Rio
de Janeiro. 1966. p. 8-39: J . - P . Sartre. Reflexões sobre o racismo, trad. de J. (8) Julius Isaac, Economics of migration. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co,
Guinsburg, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1960; T. W. Adorno, E. London, 1947.
Frenkel-Brunswik, D. J. Levinson, R. N. Stanford, The authoritarian personaiity,
Harper & Brothers. New York, 1950.
135
/islamismo, panarabismo e outros. Em distintas gradações, eles são emancipação política, nos anos posteriores à Segunda Guerra
reações às condições de antagonismo e conflito em que raças Mundial, os povos da África e Ásia tiveram que elaborar elementos
subalternas são colocadas, dentro de dado país ou nas relações com religiosos, políticos e científicos para desmascarar e negar o darwi-
países dominantes. nismo social inerente à cultura imperialista.
Mas é importante não esquecer que essas ideologias e movimentos Mas também no interior dos países dominantes, os antagonismos e
são frequentemente reações às ideologias e movimentos dos grupos e conflitos de base racial encontram expressões religiosas,.culturais e
classes dominantes, em geral identificados com outras raças. Muitos políticas. É o que tem ocorrido com as minorias raciais, nos Estados
povos colonizados, da mesma forma que grupos raciais subalternos, Unidos e outros países.
no interior de dado país, têm sido obrigados a lutar contra um Nos países da América Latina, parece evidente que algumas
persistente e continuamente reavivado darwinismo social. Aliás, religiões de base indígena e africana desempenham inclusive as
toda a história do imperialismo europeu e norte-americano, em suas funções de uma espécie de contracultura de raças subordinadas e
implicações políticas e culturais, é também a história de muitas e exploradas. Ao lado de outros significados específicos de cada
sempre renovadas manifestações de darwinismo social, no qual se religião e seita, é inegável a sua conotação antagonística, quanto às
mesclam o etnocentrismo, o eurocentrismo, a identificação entre seitas e religiões dos brancos, os donos do poder. Negros, índios e
branco e civilizado, o puritanismo civilizatório, a identidade entre os mestiços parecem refugiar-se de forma sublimada em suas práticas
povos anglo-saxônicos, o capitalismo industrial, a democracia liberal religiosas, ao mesmo tempo que elaboram e reelaboram a sua
e o clíiriax do processo histórico (9). identidade, distinta e em alguns casos em aberta oposição à dos
Seria impossível compreender as compontentes "irracionais" da brancos.
política da Guerra Fria dos governantes norte-americanos nos anos É claro que as relações raciais na América Latina, por exemplo,
1946-70, sem levar em conta as convicções do puritanismo civilizató- estão se transformando com a urbanização e a industrialização, mais
rio simbolizado na política externa posta em prática por John Foster ou menos notáveis havidas nas últimas décadas em alguns países.
Dulles. Da mesma forma, seria impossível compreender a violência Esse seria o caso do México e Brasil, entre outros. Mas não é
da guerra que os norte-americanos fizeram contra o povo do Vietnã evidente que essas mudanças estão resolvendo as questões raciais.
sem incluir na análise a ideia do "perigo" amarelo de mistura com o Parece claro que o índio, chollo, mestizo, mulato, negro e outras
comunismo, ou formas não ocidentais de compreender e organizar a categorias raciais, em países latino-americanos, continuam a ser distin-
vida) * guidos dos brancos. Essa discriminação, mais ou menos velada ou
Aliás, para conseguir a sua independência política, o Egito e a aberta, conforme a situação particular, de trabalho, aparece nas
Argélia, ou a índia e a Indonésia, para mencionar exemplos <• atividades rurais e industriais. Se é verdade que a institucionalização do
diversos, tiveram que realizar todo um longo e complexo processo de trabalho assalariado abre possibilidades a todo tipo de trabalhador, sem
elaboração de uma nova identidade. Em alguns casos, entra em distinções de sexo, idade, religião ou raça, isso não significa que essas
jogo a religião, em outro a língua predominante, mas sempre a possibilidades são na prática iguais para todos. Para ser reconhecido
especificidade das tradições culturais. Em graus variáveis, conforme como um operário da mesma categoria do branco, o operário negro
a diversidade racial maior ou menor dopais, tambérnentram em linha precisa ser melhor que o branco. Além do mais, a situação de trabalho é
de conta as bases raciais, a ideia de uma identidade racial mínima, apenas uma esfera da existência do trabalhador, ainda que seja a mais
ao menos em oposição ao colonizador. Ou seja, para realizar a sua importante. Ao analisar a relação entre industrialização e relações raciais
no Brasil, Roger Bastide fez as seguintes observações:

(9) Quanto às relações entre imperialismo e racismo: Georg Lukács, El asalto a Ia Em resumo, no Brasil a industrialização tem desempenhado um papel duplo. Por
razón, trad. de Wenceslao Roces, Fondo de Cultura Económica, México, 1959, esp. um lado, no começo do crescimento industrial, quando os negros começaram a
cap. VII; J. A. Hobson, Imperialism, The University of Michigan Press, Ann Arbor, competir com os brancos, intensificou-se o preconceito e tornou-se mais acentuada a
1965, esp. parte II; Richard Hofstadter, Sócia! Darwinism in American thought, discriminação. Por outro, em períodos de prosperidade e crescimento económico
Beacon Press, Boston, 1967; Hannah Arendt, The origins of totalitarianísm, The Word rápido, a industrialização faz com que as tensões sociais predominem sobre as raciais.
Publishing Company, Cleveland, 1958, esp. caps. 6 e 7; Claude Julien, L'Empire Isto naturalmente ocorre ape"nas na esfera das relações de trabalho. O resto da vida
Américain. Editions Bernard Grassei, Paris, 1968; Gordon Connell-Smilh. The social - relações de vizinhança, diversões e amizade - continua a ser regulada pelos
inter-American svsiem. Oxford University Press. London. 1966, esp. p. 14-18.

136 137
padrões tradicionais, que ainda coexistem com os novos padrões surgidos com a Nas décadas dos cinquenta e sessenta, no entanto, o negro norie-
industrialização (10). americano propõe, adota e desenvolve interpretações políticas pròpriiis,
sobre o seu grupo racial, o branco, as relações raciais, a organi/uçúo
É de supor-se que as novas configurações sociais de vida na económica, política e cultural do país e outros aspectos da sua existência.
cidade, e em conexão com as relações de produção na indústria, Ele descobre que a política de dessegregação ou integração racial estava
sendo proposta, implementada e controlada segundo os interesses do
estejam criando condições e perspectivas totalmente novas n,o
branco. Mais que isso, descobre que o tipo de vida que o capitalismo
desenvolvimento de ideologias e movimentos políticos entre os
norte-americano lhe oferece não corresponde ao seu ideal de vida, às
negros brasileiros. À medida que o capitalismo destrói e reelabora os
suas possibilidades reais de existência livre e criativa. O desemprego
valores e padrões raciais que haviam sido produzidos em quatro
relativo maior entre os negros dos Estados Unidos e a mortalidade
séculos de escravização do trabalhador negro, é óbvio que se criam relativa maior de negros norte-americanos na guerra do Vietnã são fatos
novas possibilidades de organização e expressão dos seus interesses transparentes, que põem em evidência toda a sua situação económica,
económicos, culturais e políticos. Isto é, as tensões e os antagonismos
política e cultural. Esse é o contexto no qual o negro norte-americano
raciais são recriados nos quadros das tensões e antagonismos sociais
possa a rejeitar politicamente as políticas raciais dos brancos, governan-
emergentes e predominantes nas novas condições.
tes ou não. Pouco a pouco, as novas correntes políticas e culturais
Nos Estados Unidos, as ideologias e os movimentos de base racial desenvolvidas entre os negros dos Estados Unidos começam a negar
passaram por transformações notáveis nos anos cinquenta e sessenta. tanto as políticas integracionistas como o próprio regime político
Depois de muitas décadas de aceitação mais ou menos passiva de económico com o qual se identifica o branco.
políticas racistas ou integracionistas propostas pelos brancos, os
negros norte-americanos passaram a organizar-se e atuar de forma A mudança para uma posição revolucionária antiestablishment, proposta por Huey
autónoma e eminentemente política. Aliás, tomada em suas linhas Newton, Eldridge Cleaver e Bobby Seale como uma solução para os problemas das
gerais, enquanto às suas tendências predominantes, talvez se possa colónias negras da América, tem se consolidado no pensamento dos irmãos. Agora
dizer que a história do negro norte-americano revela duas orienta- eles mostram grande iriteresse nos pensamentos de Mão Tsê-tung, Nkrumah, Lênin,
ções principais. Até a Segunda Guerra Mundial e mesmo alguns Marx e nas realizações de homens como Chê Guevara, Giap e o Tio Ho (12).
anos após, ele aceitava de forma passiva ou ativa a política de
integração subordinada, definida, implementada e controlada pelo Os acontecimentos do Congo, Vietnã, Malaia, Coreia e aqui nos Estados Unidos
branco. Essa é a política na qual os brancos organizam e propõem o estão ocorrendo pela mesma razão. A convulsão, a violência, a luta em todas essas
problema racial em termos morais, jurídicos ou principalmente áreas, e muitas outras, nascem da mesma fonte: os maus, malignos, possessivos e
vorazes europeus. As suas teorias abstraias, desenvolvidas em séculos de treino,
antropológicos. Não é por acaso que a análise do problema racial relativas à economia e à sociologia, tomaram as formas conhecidas porque eles
norte-americano realizada por Gunnar Myrdal coloca a questão em padecem da equívoca convicção de que o homem somente pode garantir-se melhor,
termos de desencontro entre valores culturais: os da ideologia neste mundo inseguro, pela propriedade pessoal e privada de grande riqueza. Eles
dominante, que propõem a igualdade e a liberdade entre todos os tratam de impor as suas teorias a todo o mundo, por óbvias razões de interesse próprio.
cidadãos, e os da prática das relações raciais, que negam cotidiana- A sua filosofia sobre o governo e a economia tem subjacente uma intonação egoística,
mente àqueles. Para ele, simbolizando e exprimindo grande parte da de possessão e voracidade porque o seu caráterestá feito dessas «coisas (13).
produção científica até então, e mesmo depois, o dilema norte- Assim, à tendência integracionista proposta segundo os termos da
americano é antes de mais nada axiológico (l 1). ideologia racial dos brancos, e aceita por uma grande parte dos
negros, opõe-se a tendência política independente e agressiva de
uma parcela da população, negra dos Estados Unidos. É claro que as
duas tendências coexistem e desenvolvem-se no interior da socieda-
(10) Roger Bastide, "The development of race relations in Braeil", publicado por
Guy Hunter (Editor), Induslrialisation and race relations, citado, p. 9-29; citação da p.
26. Quanto aos problemas de preconceito e discriminação em ambientes urbano-
industriais brasileiros, consultar também: Florestan Fernandes. A integração do negro (12) George Jackson, Soledad Brother (the prison letters of George Jackson),
na sociedade de classes, 1 vols., Dominus Editora, São Paulo, 1965; L. A. da Costa Penguin Books, London, 1970, p. 50.
Pinto, O negro no Rio de Janeiro, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1953; (n)Ibidem, p. 60.
Octavio lanni, Raças e classes sociais no Brasil, citado.
(l 1) Gunnar Myrdal, An Americandilemma, citado.

139
138
de norte-americana. Mas é inegável que desde as décadas dos determinadas pelos graus diversos de desenvolvimento económico,
cinquenta e sessenta em diante transformou-se qualitativamente o tipos de heranças culturais etc., é inegável que esses (assim como
caráter da situação racial nos Estados Unidos. O preconceito, a outros) países capitalistas apresentam marcadas similitudes DJI
discriminação e a segregação deixaram de ser uma questão moral, distribuição assimétrica dos vários grupos raciais pelas distintas
jurídica ou antropológica, definida segundo os termos da ideologia e classes sociais. As notáveis diferenças de grau, intensidade, conteúdo
da ciência dos brancos. Desde essa época, as tensões, os antagonis- e estilo das tensões e dos antagonismos raciais, nos dois países, não
mos e os conflitos raciais nesse país passaram a ser, para boa parte elimina o fato de que os brancos dominam o poder político-
dos negros /norte-americanos, uma questão aberta, necessária e econômico, ao passo que os negros e os mulatos se encontram
fundamentalmente política. situados nas classes assalariadas; com frequência em condições
subalternas às dos brancos que se acham na mesma categoria social.
A verdade é que a história do capitalismo demonstra que esse
Problemas raciais e contradições estruturais modo de produção rompe, substitui ou recria continuamente as
relações econômico-sociais e políticas preexistentes. Isso é o que
demonstra a história da expansão imperialista inglesa, francesa,
A análise dos antagonismos e conflitos raciais vigentes nos mais alemã, belga, holandesa, italiana, portuguesa e norte-americana na
diversos países, sejam os Estados Unidos e a África do Sul, ou a Ásia, África e América Latina. Esse fenómeno é particularmente
índia e o Brasil, revelam que em todos há algum tipo de assimetria evidente na produção industrial, na qual castas e estamentos, ou
econômico-social, política e cultural que tende a corresponder às diferenças sociais de idade, sexo, religião e outras submergem nas
assimetrias reveladas na hierarquia das raças^ Há uma raça que relações de produção capitalistas, em formação ou expansão.
. tende a concentrar o poder económico e político, ao passo que outra
. ou outras tendem a situar-se no proletariado industrial e agrícola. Mas não é certo que as relações capitalistas de produção destroem
Com freqiiénciajos mestiços encontram-se em posições intermédias. ou eliminam as desigualdad.es sociais, económicas, políticas e cultu-
Eles^são apresentados e apreserítam-secomo prova de que o sistema rais baseadas em diferenças raciais. Ao contrário, o capitalismo
.social é aberto. Mas também revelam que atuam nos quadros da recria essas diferenças continuamente, segundo as leis da divisão do
•ordem político-econômica e de pensamento estabelecida em confor- trabalho social e estratificação social que lhes são próprias. Todos
midade com os interesses da classe e ou raça que detêm o poder. pasflfcn a ser cidadãos, trabalhadores livres etc., segundo a ideologia
Portanto, jjs tensões e antagonismos raciais alimentam-se basica- burguesa dominante. Na prática, todos continuam a existir como
mente das assimetrias económicas, sociais, políticas e culturais operários e burgueses, ao mesmo tempo que índios, negros, brancos,
características do capitalismo, em geral,. e__segundo as condições hindus, paquistaneses, amarelos, mestiços etc.
históricas próprias de cada subsistema nacional, em particular. No sistema capitalista, pois, a pluralidade racial não garante a
Convém observar, no entanto, que esses países não são diferentes integração harmónica das raças, nem significa, automaticamente, a
apenas em sua composição racial, história demográfica, especificida- discriminação generalizada. Cada país e situação tem a sua especifi-
de cultural, ou quanto a línguas, religiões etc. Eles são diversos cidade. Na índia, por exemplo, a pluralidade racial, cultural e
inclusive quanto ao grau e tipo de desenvolvimento das relações linguística pode gerar situações menos tensas e violentas do que nos
capitalistas de produção. Sob certos aspectos, os Estados Unidosisão Estados Unidos. Nos países da América Latina, as tensões e os
antagonismos raciais são qualitativamente diversos, se pensamos em
o país mais avançado do mundo capitalista, ao passo que o Brasil é
ainda uma nação dependente e subdesenvolvida. São dois pólos, ou países com composições raciais tão distintas como o Brasil, México e
gradações bastante, distintas e distantes, na gama das possibilidades Peru. Mas essas situações não são estáticas. Elas modificam-se com a
de desenvolvimento das relações capitalistas de produção, se pensa- mudança das condições políticas e económicas, nas quais se envol-
mos em termos de classes operária e burguesa, graus de desenvolvi- vem os membros de umas e outras raças. Em todos os países, a
heterogeneidade racial tende a constituir-se num princípio classifica-
mento tecnológico, composição absoluta e relativa de capital,
tório, ao lado das diversas crenças religiosas, línguas etc. Em última
tecnologia e força de trabalho, nos diferentes setores produtivos, na
extensão da dependência de capital, know-how. tecnologia e comér- instância, são as condições económicas e políticas de organização do
cio externos etc. Entretanto, a despeito das diferenças estruturais processo produtivo e de apropriação do produto do trabalho coletivo

140 141
que tendem a comandar ou influenciar decisivamente as relações e
classificações raciais. Estas tendem a ser subordinadas, secundarias
ou mesmo reflexas, em face dos princípios classificatórios estabeleci-
dos pelas condições político-econômicas, encaradas como estruturais.
Nem por isso, todavia, as determinações raciais deixam de ser
importantes; e em certas situações as mais importantes. Com
frequência elas conferem sentidos especiais e complementares as
determinações político-econômicas.
A luta de classes, realidade primordial..., adquire indubitavelmente característicos
especiais quando a imensa maioria dos explorados está formada poi uma raça e os
exploradores pertencem quase que exclusivamente a outra (14).

Em resumo, ,a sociedade capitalista revela uma capacidade
excepcional para controlar, disciplinar, reprimir ou dar novas
soluções aos antagonismos e conflitos sociais de base racial. Mas j»afl
tem mostrado capacidade especial para resolver as situações de CIP-Brasil. Catalogacão-na-Fonte
Câmara Brasileira do Livro, SP
antagonismo e conflito segundo os interesses das raças discrimina-
das, oprimidas ou subalternas. Daí os frequentes desdobramentos e
irrupções de tensão é violência racial.
II 7e lanni, Octávio, 1926—
Ocorre que os antagonismos e conflitos sociais de base racial estão Escravidão e racismo / Octávio lanni. — São Paulo • HU-
sempre imbricados nas condições económicas e políticas nas quais as CITEC, 1978.
pessoas, os grupos e as classes sociais se definem e atuam como (Estudos de problemas brasileiros)
produtores, cidadãos, trabalhadores assalariados, operários, campo- Bibliografia.
neses, burgueses etc. Mais que isso, as manifestações de tensão e
1. Capitalismo 2, Discriminação racial 3. Discriminação
violência racial têm as suas raízes nas contradições po»ico- racial - Brasil 4. Escravidão 5. Escravidão no Brasil I. Titulo.
econômicas que caracterizam a sociedade capitalista. Os valores e
padrões de comportamento racial, ou as ideologias e as praticas nas
relações raciais, em geral são mediações sócio-culturais e políticas 17. e 18. CDD-326
importantes no contexto das relações entre classes e subclasses 17. -301.45
sociais, articuladas de modo hierarquizado, em conformidade com as 18. -301.451042
relações de produção e apropriação. É claro que raça e classe não se 17. -301.450981
reduzem uma à outra; são determinações importantes, que precisam 18. -301.4510420981
17. -301.4522
ser compreendidas em sua especificidade. Mas seria equivoca e 18. -301.4493
incompleta a interpretação de problemas raciais que não incorporas- 17. e 18. -326.0981
se a condição das pessoas na estrutura de classes da sociedade, sejam 17. -330.15
78-0841 18. -330.122
elas classes sociais em formação, amadurecidas ou em situação de
crise.

índices para catálogo sistemático:
1. Brasil: Escravidão : Política 326.0981 (17. e 18)
2. Brasil : Racismo : Sociologia
301.450981 (17.) 301.4510420981 (18.)
(14) José Carlos Mariátegui, Ideologia y política. Empresa Editora Amauta, Lima, 3. Capitalismo : Economia 330.15 (17.) 330.122 (18.)
1969, p. 61. 4. Escravidão: Política 326 ( 17. e 18.)
5. Escravidão : Sociologia 301.4522 (17.)
301.4493 (18.)
142 6. Racismo : Sociologia 301.45 (17.) 301.451042 (18.)

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful