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Terror e miséria do Terceiro Reich 24 cenas Furcht und Elend des Dritlen Reiches Escrita em 1935-1938, ‘Tradugdo: Gilda Oswaldo Cruz Colaborador: M. Steffin, A GRANDE PARADA MILITAR ALEMA. No quinto ano do governo daquele Que se diz enviado de Deus, Ouvimorto declacar ser chegado 0 momento De iniciar sua guerra; estavam prontos os tanques, 0s canhées, 0s couracados; 05 avides Enchiam os hangares e eram tantos que Se algassem v6o juntos, a um aceno de sua mio, (Os céus se escureceriam. Nesse momento resolvemos passar © povo em revista, Que tipo de gente, em que situacdo, ¢ com que pensamento, Acortera ao chamado do chefe, disposta a marchar Sob sua bandeira, Passamos em revista 0 exército. LA vem cles: uma multidto pilida, heterogénea. A fiente a bandeira cor de sangue, com a cruz: E a gente do povo que carrega essa cruz. Quem no marcha, se arrasta, de quatro patas no chao. Partem para a grande guerra. Nao se ouve um lamento, Nenhuma praga, ninguém arqueja; ¢ se alguém pergunta algo, Nao se escuta: € barulhenta a banda militar. La vem eles, com mulheres ¢ filhos. Depois de cinco longos invernos, Nao distinguem mais as coisas claramente. Arrastam 0s velhos ¢ os doentes ¢ desfilam. £.a grande parada militar alem’. z COMUNIDADE NACIONAL 14 vm offciais da SS: ouviram discur- ‘505, beberam cerveja. EstZo pesados € bebados. $6 tem um descjo: que 0 povo alemlo se tomne grande, temido, fiel e obediente, 184 Bertolt Brecht Noite de 30 de janeiro de 1933. Vem pela rua dots oficiais da SS, aos tropecos. Panvemo $$ — Estamos por cima. Que beleza, a marcha com archotes! ‘Ontem estivamos na miséria, hoje entramos na Chancelaria do Reich. Ontem éramos abutres famintos, hoje somos éguias impe- tials, Param para urinar. Saaunbo $$ — Agora poderemas ter a comunidade nacional. Prevejo ‘um irresistivel soerguimento moral do povo alemao, Paizo $$ — Mas primeiro teremas que despertar a consciéncia do homem alemao, tiré-lo da situacao de escéria subumana. Que lugar € este? Nao vejo bandeiras em parte alguma, Sscunvo $$ — Acho que nos perdemos, Pawo $5 — Que lugar horroroso. Secunpo $$ — Isto € bairro de criminosos. Pauveiro SS — Vocé acha mesmo perigoso? | ‘Ssouxno $$ — Um companheiro decente nfo mora num barracio des- ses. Pantetko $5 — Esté tudo as escuras! ‘Saouvpo $$ — Dever ter saido todos, Pautzizo $$ — Os que pensam como nés. Sera que foram ver de pero 4 inauguracao do ‘Terceiro Reich? Vamos embora, mas aten¢io a retaguarda, Recomecam a andar, cambaleando, um atras do outro. 4 Pantano $$ — Aqui nio é o baitro do canal? Stounpo $$ — Nao sei, ‘Terror e miséria do Terceiro Reich 185 Paweito $$ — Foi exatamente nesta esquina que descobrimos um nix nnho de marsistas. Declaravam ser apenas uma associacao de militantes catSlicos. Que nada! Nenhum deles tinha colarinho de padre. Szcuxvo $5 — Voce acha que ele vai conseguir criar a comunidade nacional? Panteito $$ — Ele consegue tudo! Para de repente e escuta, transido. Alguém abriu uma janela Svounvo $$ — Que ha? Engatilba 0 revbtver. Um velbo de camisola se debnuga a janela e ouve-se ele perguntar batxinbo: “Ema, é vocé?" ‘Seatnno $$ — Sao eles! Comesa a correr de um lado para outro, alucinado, atirando em todas as direcées, Proteiro S$ aas berros — Socorro! De uma jancla frontetra a do velo, que ainda esta al, visivel, ouve- $@ 0 grito horrivel de um alvejado A TRAIGAO 1 vém os traidores. Delataram os viti- ‘nhos. Sabem que foram identificados. Serd que a rua nao esquece jamais? A noite nfo conseguem dotmie. Mas ain- ‘da ndo chegou o dia final, Breslau, 1933. Interior de um apartamento pequeno-burgués. Um homem e uma mulher esto de pe, junto a porta, escutando, Ambos ‘muito patidos. 186 Bertolt Brecht ‘Muu — J4 esto lé embaixo, Howe — Ainda nao. ‘Muusier — Quebraram 0 cortimo, Ele estava inconsciente quando 0 arrastaram para fora do apartamento. Howey — Eu disse apenas que no era em nossa casa que se escuta- ‘vam os programas da ridio estrangeira Muster — Mas nio foi s6 isso 0 que vocé disse. Howe — Eu nfo disse mais nada, Miser — Nao precisa me olhar assim. Se voc no disse mais nada ‘entdo nao disse mais nada, pronto. Howe — f isso mesmo. “Munster — Por que no vai a policia dizer que nao houve reuniio em casa deles, no sibado? Pausa, Howey — A policia eu nfo vou. So umas feras. Vocé viu como o wwataram, Muusex — Também, para que ele se mete em politica? Bem feito. Howe — Também nao precisavam ter rasgado 0 casaco dele. Gente pobre como nés nao tem nada sobrando. unter — Que importa 0 casaco? Howe — Nao precisavam ter rasgado 0 casaco dele. 3 A CRUZ DE GIZ. ‘Como matitha de cles de caga, 08 SA fae Iejam seus somelhantes € 0 perseguem. ‘Aram a presi aos pés dos gordos mag- natas ¢fazem a saudacio com o brago em iste, Tém as més vazias e sangrentas, Terror e miséria do Terceito Reich 187 Berlim, 1933. Uma cozinba em casa de gente rica. Um SA, a Cozi- nheira, a Empregada e 0 Motorisia. Exprecapa — Vocé s6 tem mesmo mais meia hora? SA — Manobras noturnas! Comwnema — E 0 que é que tanto vocés vive manobrando? SA — Segredo militar! Coansieima — Batida policia? SA — Era o que a senhora gostaria de saber, nto? Mas de mim nao sai nada, Deste mar ndo sai peixe Ewoascana — E voce ainda tem de ir até Reinickendor?? SA — Reinickendorf, ou Rummelsburg, ou quem sabe Lichterfelde? Expnecapa tam potico desconcentada — Nio quer comer nada, antes de sair? SA — Nio me faco de rogado. Encher a panga € comigo. A cozinheira traz uma bandeja. SA — Temos de ficar de bico calado! Surpreender sempre 0 inimigo! ‘Vir sempre do lado de onde nio se espera! Olhe 0 exemplo do Fuhrer! Quando ele prepara uma ago qualquer! Indecifravell ‘Antes no se sabe de nada. Talvez nem ele mesmo saiba. E de repente a coisa desaba como um raio. As coisas mais incriveis. E {sso que nos faz tao temidos. Amarrot 0 guardanapo ao pesco- 0; de garfo e faca em rite, pergunia — Os donos da casa nko podem entrar aqui de repente, Anna? Vio me encontrar aqui sentado, a boca cheia de maionese! Exagerando, como se iuesse 4 boca cheta— Heil Hitler! Ewptscaa — Nao, cles primeiro tocariam a campainha para pedir 0 automovel, nao €, Herr Francke? 188 Bertolt Brecht Motorista — Como disse? Sim, senhora! OSA comeca a comer, tranguulizado. EvpRacaba sentase a seu lado — Nao esta cansado? SA — Exausto! ExpRecadA — Mas sexta-feira voce vai ter tempo, nao vai? SA concordando— Se nada acontecer de anormal, Expxecapa — Olhe, 0 conserto do relogio custou 4 marcos e cin- quenta. SA — Que assalto! Eypreoapa — O relogio novo custou 12 marcos. SA — E 0 rapaz da drogaria, continua mexendo com voce? Evpazcapa — Ah, deixe para lé, SA — E 86 vocé me dizer. Exeatoada — Eu digo tudo a voc®. Esté com as botas novas? SA sem entusiasmo — Estou, Por qué? Exprecapa — Minna, ja viu as botas novas do Theo? Counstarta — Nao, ainda nao. Exeaicaoa — Mostre, Theo. Eles agora estio dando essas botas para o pessoal. OSA, mastigando, estica a perna e exibe as botas. Evpnecapa — Bonitas, nic? OSA olba em volta, como quem procura alguma coisa. ‘Terror © miséria do Terceiro Reich 189 EveazoaDa — Falta algo? SA — Esta um pouco seco, Ewpascaoa — Quer cerveja? Vou buscar. Sai rapidamente da cozinba. Connie — Ela se deixaria matar pelo senhor, Herr Theo! SA — B, comigo tem de ser assim. Tudo tem que funcionar bem na hora, Coznastisa — Vocés homens podem exagerar: fazem o que bem que- rem, SA — Sio as mulheres que preferem assim. Vendo que a cozinheira faz mengiio de levantar uma chaleira pesada — Que esti fa- zendo? Largue isso, deixe por nossa conta. Garrega’a chaleira Coztieita — Muito gentil de sua parte. O senhor esti sempre queren- do ajudar. Olhando para 0 motorista. — Nao & todo dia que se encontra alguém assim, SA — Deixe de bobagens, Sio coisas que fazemos com prazer, Alguém bate a porta de servico que dé para a cozinba. ‘Coustzata — Deve ser meu irmio, me trazendo a valvula para o radio, Enira 0 srmao da Cozinbeira, um Operirio. Cozmtiza — Este € meu irmao. SA e 0 Morouista — Heil Hitler! 0 Operdrio resmunga qualquer coisa, que talvez pudesse ser entendi- da como Heil Hitler, Comnuteisa — Trouxe a valvula? (Orenizio — Trouxe. 190 Bertolt Brecht Cousatsiks — Quer instalar logo? Saem juntos. SA — Que tipo 6 esse? Moronsra — Desempregado, SA— Vem sempre aqui? Moronsta da de ombros — Eu raramente passo por aqui. SA — A cozinheira € cem por cento leal ao partido? ‘Moroxsts — Completamente. SA — Mas nem por isso 0 irmao hi de ser igual a ela ‘Motonsta — O senhor tem alguma suspeita? SA — Bu? Nunca! Jamais suspeito de coisa alguma, Suspeita, 0 senhor compreende, & quase a mesma coisa que certeza. E quando hi certeza, Morousts murmtrando — Tudo tem que funcionar bem na hora, SA —E. Isso mesmo. Curvando-se um pouco para trds, piscando um olbo — O senhor entendeu 0 que o imo da cozinheira res- ‘mungou? Imita a saudacdo, Pode ser que tenha sido teil Hitler. Pode ser que nao, Hsses caras sio uma parada. Ri alto. Entram a Cozinbeira e 0 trmdo, Ela the serve algo de comer. Coznea — Meu irmao entende mesmo de ridio. Nao compreendo Por que ele nio liga nunca o aparelho. Se eu tivesse tempo, 0 radio ficava sempre ligado. Para 0 irmao — E tempo € coisa que vood tem até demais, nto é, Franz? SA —£ mesmo? O senor tem ridio € nao o liga nunca? (OpzxAxio — Ougo mii , de vez em quando, Terror e miséria do Terceiro Reich 191 (Cominina — Ele construiu sozinho um radio 6timo, com quase nada, SA — Com quantas valvulas? ‘OrsrAno com olhar desafiadar — Quatro, SA — Pois é, cada qual com seu gosto. Para 0 motorista — Nao @ Mororista — Como disse? E, & isso mesmo. A Empregada entra com a cenveja. Exprecapa — Esti bem gelada SA pondo carinhosamente a mito sobre a mao da moga — Menina, vocé estd esbaforida, Nao precisava ter corrido tanto: eu podia esperar. Ela serve-Ihe a cenveja. Ewpitcana — Nao faz mal. Dd @ mdo ao Operirio, para cumpri- ‘menta-lo. O senhor trouxe a valvula? Sente-se um pouco. Parece ue veio correndo. Para 0 SA — Ele mora em Moabit, SA — Onde foi parar a corveja? Alguém bebeu a minha cerveja! Para © Motorisia — © senhor bebeu a minha cerveja? Moronista — Eu no! Que idéia! Sumiu a cerveja? Ewrnicaba — Eu acabei de encher 0 copo! SA a Cozinhetra — Foi a senhora quem bebcu? it alto. Nio € nada dis ‘odem ficar tranquilost £ um truque de nossa turma... Bebe-se a cerveja, sem que ninguém veja ou ouga nada! AO Operdrio — O senhor ia dizendo? Orestxio — 8 um trque antigo, SA — Entéo © senhor pode repetir? Despeja 0 resio da cerveja no copo. ‘OrEAtI0 — Muito bem, Aqui esti a cerveja — Jeeanta 0 copo —e agora vou mostrar 0 uque. Bebe trangiilo e com prazer toda a coneja. 192 Bertolt Brecht CCounaisma — Mas assim qualquer um notat (Opsximo — Ah, 6? Entio o truque falhou! Enxuga a boca, 0 Motonisia 7 alto, SA — Esté achando muito engracado, nao esti? (Operanto — Mas nao foi assim que 0 senhor fez? Nao h4 outro jeito! SA — Agora no Ihe posso mostrar: acabou com a minha cerveja (Opsranio — Tem razio. Sem cerveja, no se pode mostrar 0 truque. Conhece algum outro? Vocés sabem tantas coisas. SA — “Vocés*, quem? ‘Operanio — A gente jovem, os rapazes. SA— Ah... Exparoapa — Foi s6 uma brincadeira de Herr Lincke, Theo. (OpeeAsio prudente — Nao vai levar a mal! Consrira — Vou buscar mais cerveja! SA — Nao precisa. Jé deu para mothar a boca Cozitiza — O Theo sabe apreciar uma brincadeira. SA ao Opendrio — Por que nio se senta? Nés nio somos canibais. © Openiirio senta-se. SA — Viver e deixar viver. De vez em quando, uma piada. Por que no? O importante sio as idéias. Manter 0 moral alto. Comnuttsa — Isso 6 mesmo obrigaglo de vocts, OpenAsio — E como esté o moral, agora? ‘Terror € miséria do Terceiro Reich 193 SA — Alto, Bem alto. Por qué? Esté pensando o contrario? (Orexino — Eu, no! $6 perguntel porque ninguém mais diz o que pensa SA — Ninguém the diz nada? Por qué? A mim, todos dizem 0 que pensam, ‘OvesAnio — mesmo? SA — Ninguém chega logo contando, ou pedindo para dizer o que pensa. A gente vai até 14, ‘OvzrAKo — Aonde? SA — Aos lugares, por exemplo: nos pontos de carimbo para carnés de desempregados. De manha estamos sempre nos pontos de carimbo, (Ortriwo — Ah, €? Na fila, sempre se resmunga alguma coisa com o vizinho. SA — Pois € isso, ‘Orerano — Mas também 0 senhor 36 podera escutar, sem ser notado, uma Gnica vez. Depois fica logo manjado. E ai ninguém fala ‘mais nada na fila SA — Por que eu ficaria manjado? Quer que Ihe mostre como paso despercebido? Jé que o senhor se interessa por truques.... Vou Ihe mostrar um, Temos uma porcao deles... £ como eu digo: quando os caras percebem que nao podem escapar, que nés sabemos de tudo, acabam desistindo.. Evparoapa — Isso, Theo: mostte como vocés fazem! SA — Digamos, por exemplo, que estamos na fila do posto da Miinzs- trasse. O senhor — indica 0 Operdrio — est na minha frente, ‘Mas antes preciso tomar algumas providéncias. Sai, 194 Bertolt Brecht Orerano piscando para 0 Motorista — Agora vamos ver como cles agem. ‘Coznaiema — Todos os marxistas devem ser desmascarados. Nio se pode tolerar que cles acabem com tudo. (pexanio — Ah. SA entrando de novo na cozinba — Digamos que estou a paisa- rna, naturalmente. Ao Operdrio — Agora o senhor comeca a se queixar, Operanio — De qué? SA — Nao se faga de bobo. Vocés tém sempre algum motivo para se queixar. (OperAnio — Eu? Nao tenho, no. SA — Macaco velho, hein? Nao vai querer dizer que tudo corre 8s mil { smaravilhas! ‘Orkanio — Por que nao? SA — Assim no adianta. Se © senhor nao colabora, eu nfo posso mostrar. (Ovrrinio — Est bem, Vou entrar de sola. Deixam a gente esperando aqui 4 toa, como se 0 nosso tempo nao valesse nada, De Rummelsburg até aqui, jf gastei mais de duas horas de viagem. SA — Isso no € nada. A distincia entre Rummelsburg e a Miinzstrasse 62a mesma, tanto no Terceiro Reich como na Repdblica corrupta { de Weimar. Solte a lingua! Comnatera — Estamos brincando, Franz, todo mundo sabe que o que voce vai dizer ndo é a sua verdadeira opiniao! Everscada — S6 de brincadeira, Hert Lincke! Represente um desses sujeitos que vivem xingando 0 regime! Pode conliar em Theo, Terror e miséria do Terceiro Reich 195 ele nio vai levé-lo 2 mal ou pensar que esti falando sério. $6 quer mostrar 0 método. (Onzrinto — Fsté bem. Entio eu digo o seguinte: toda 2 SA pode ir tomar no cu, Sou a favor dos marxistas € dos judeus. Cousitxa — Franz! Euparcada — Assim nao & possivel, Herr Lincke! SA rindo— Homem! Dizendo isso, 0 senhor corre 0 risco de que eu simplesmente o mande prender pelo polical mais proximo! Nao tem um pouco de imaginagio? Deve dizer algo que possa ter um ‘outro sentido, alguma coisa que alguém pudesse de fato dizer. ‘OperAKio — Ah, bom, EntZo 0 senhor tem de me provocar, SA — Isso ndo pega mais. Eu poderia dizer: nosso Fuhrer € a maior figura humana que jé pisou na face da Terra, maior que Jesus Cristo e Napoledo Bonaparee juntos. © senhor responderia, no méximo: € isso mesmo, Fago 0 contrario. Comeco-dizendo 0 seguinte: — Essa gente sabe falar. Que propaganda! Nisso, cles io mestres. $6 tém gargantal Conhece a piada de Goebbels e os dois piolhos? Nao? Dois piolhos apostam corrida para ver qual cchegava primeiro a0 outro lado da boca de Goebbels. Ganhou 0 primeiro, que foi pela nuca: € 0 caminho mais custo. Morousta — Ah, @ Riem todos SA — Agora € a sua vez. Arrisque algo. (OpesAnio — Por causa da piada, no vou logo abrir a boca. Vocé bem pode ser um espiio. Ewprecapa — £ verdade, Theo. ‘SA — Yoeés so uns cagées! Jé estou ficando cheio, Ninguém aqui se arrisca a dar um pio! 196 Bertolt Brecht Opsrnio — Esti falando sério, ou isso é 0 que diria na fila do carimbo? SA — Isso eu também diria na fila do carimbo, Ormano — Pois entio eu the ditia, na fila do carimbo: um homem prevenido vale por dois. Sou covarde, ¢ ainda por cima nio tenho revélver. SA — Pois ja que di tanta importancia a prudéncia, meu camarada, vou Ihe dizer uma coisa: continue prudente, ¢ um belo dia vai parar no Trabalho Voluntario! ‘Opexituo — E quem for imprudente? SA-— Também vai parar Id. Reconheco, € trabalho voluntirio, nao 6? £ bem voluntario, mesmo. (Orexino — A essa altura, € possivel que algum camarada corajoso, na fila do carimbo, vendo 0 senhor a olhar com esses olhos azuis, se arriscasse a dizer alguma coisa sobre 0 Trabalho Voluntario, (© que, por exemplo? Talvez isto: ontem foram mais quinze, Como seri que eles conseguem esse pessoal? Nao trabalho voluntério? E quem trabalha como voluntirio ndo come nem um { pouquinho mais do que quem no trabalha? E olhe que n0 ‘campo de trabalho necessitam comer mais! J conhecem a ane- dota sobre o Dr. Ley ¢ 0 gato? Quando a ouvi, compreendi tudo, Conhecem? SA — Nio, no conhecemos. Orsxiwo — © Dr. Ley esti numa viagem a servigo, por conta da organizacio — forca a alegria — ¢ encontra num campo de trabalho um alto funcionfrio da Repablica de Weimar, de quem jf me esqueci 0 nome. Talvez fosse num campo de concentra 1 lo, mas nesses o Dr. Ley no poe 0 pé; ele € muito ladino. Ai o funcionirio pergunta como € possivel que os trabalhadores ago- 2 aceitem qualquer coisa, quando antes no eram bem assim. Dr. Ley mostra-Ihe um gato que esti por ali tomando sol e diz: que faria 0 senhor, se quisesse obrigar aquele gato a engolir Terror e miséria do Tercelro Reich 197 uma porcio de mostarda? O funciondgio pega o gato € the be- sunta 0 focinho de mostarda; claro, 0 bicho cospe tudo na cara do funcionério, nto engole a mostarda, e arranha 0 homem de alto a baixo. Pois nio é nada disso, diz o Dr. Ley. Veja como eu faco: pega o gato € the aplica, com um gesto rapido, uma boa porcio de mostarda no cx, Para as senboras— Desculpem, mas faz parte da anedota! O infeliz animal, fora de si, pois a mostarda Ihe arde no rabo horrivelmente, comega a lamber-se, a fim de se livrar do troco. Esta vendo, meu caro? Agora, diz triunfante Dr. Ley, 0 gato esta comendo! Assim € o Trabalho Voluntério! Todos riem, (Opexsio — , muito engracado. SA — Agora a coisa vai. Trabalho Voluntério é um tema muito popu- lar. O pior € que jf ndo hd a menor resisténcia. Podem nos dar bosta para comer, ¢ n6s ainda dizemos muito obrigado. Oprrinio — No & bem assim, Outro dia eu estava na: Alexanderplatz; pensando se devia me apresentar como voluntério ou esperar que me pegassem na proxima leva. Nisso, sai do armazém uma dona magrinha, com tado o aspecto de ser mulher de proletitio. Alto 1, grito eu, desde quando existe proletariado no Terceiro Reich? Nao se criou a Comunidade Nacional, a qual pertence- ‘mos todos, até 0 Thyssen? Nao, me responde cla, nao vé que jf aumentaram © prego da margarina! De 50 Pfennig para um marco. f isso a Comunidade Nacional? Filhinha, respondo, cui- dado com 0 que diz para mim, sou nazista até 4 medula dos ‘ossos. Ossos sim, responde ela, mas sem carne, ¢ a farinha esté misturada com casca de trigo. Pois a mulherzinha atreveu-se @ me dizer tais barbaridades. Fiquei meio atordoado e consegui dizer: pois compre manteiga! £ até mais saudavell Ndo pense em economizar na comida, assim 0 povo enfraquece € isso nio podemos permitir. Estamos rodeados de inimigos, até mesmo 1nos altos escaldes do governo... Nos avisam disso. Nao, me res- ponde ela, somos todos nazis, até 0 Gillimo suspiro, que aligs pode estar préximo, pois o perigo de guerra esti ai. Outro dia, fui entregar meu melhor sof’ para a A¢io de Socorro de Inver- no, esto dizendo que Goring até dorme no chao, de tanta preo- cupacio com as matérias-primas; sabe 0 que me disseram? Que 198 Bertolt Brecht preferiam um piano, para a campanha “Forca pela Alegria" Vejam que barbaridade. Fui entio ao comprador de moveis usa dos, com seu soff; eu estava tentando arranjar dinheiro ha um tempao, para comprar 250 gramas de manteiga. Na leiteria me disseram: hoje ndo tem manteiga, camarada, aceita um canhao? Pode me dar 0 canhio, diz a mulherzinha. E eu Ihe perguntei: para que quer o canho? Com o estémago vazio! Nao, me res- ponde ela, jé que vou passar fome, teremos que arrasar tudo, acabar com toda a canalha, com Hiller na proa... Como assim, filhinha, pergunto eu, nervoso — como assim? E ela: com Hitler nna prod invadiremos Franca. Jé no conseguimos produzir ‘gasolina a partir da la? Ea la, de onde tiramos, pergunto cu. A 13, cla responde, 6s tiramos da gasolina. Também precisamos de Ja! Quando aparece na Acio de Socorro de Inverno um bom ‘corte de fazenda, de boa qualidade, como nos tempos antigos, ‘0 funciondrios brigam para ver quem fica com o pano! Se Hitler soubesse! Mas ele nao sabe de nada, dizem que ele s6 tem 0 uso primario, um bocd. F eu I pasmado, ouvindo tais barbari- dades, Minha Senhora, digo, espere um pouco, tenho de ir alia ‘Alexanderplatz... Imaginem vocés, quando voltei com o agente, aa mulherzinha jé tinha ido embora! Para de representar. Entio, que dizem? SA continuando a representar— Eu? O que eu diria? Nada, faria um olhar critico, no maximo. Dia, talvez: “€ bom ir correndo & dclegacia da Alexanderplatz’. Com vocé nio se pode dizer nada! Nao se pode falar francamente. ‘Orerino — E no pode mesmo. Comigo, néo. Se se abrir comigo, esti perdido. Conheco meus deveres de cidadio do Reich; até minha propria mie, se comegar a se queixar do prego da margarina, eu entrego: vou até 0 préximo posto e deduro ela. Denuncio meu proprio irmao, se ele comecar a falar mal do Trabalho Volunté- rio! Ese minha noiva escrever do campo de concentragZo anun- Giando que ficou gravida, 20 som de Heil Hitler, mando vigid-la de perto: nada de abort. Se nao procedermos assim, se no nos afastarmos de nossa carne ¢ de nosso sangue quando necessa- rio, nfo poderemos manter o Terceiro Reich, aquilo © que mais prezamos. — Entdo, representei bem? Esta contente, agora? “Terror © miséria do Terceiro Reich 199 SA — Acho que chega. Continua a representar. E agora pode ir ca- rimbar 0 seu carné. Eu compreendi. Acho que todos 0 compre- enderam, nao € mesmo, companheiros? Mas pode confiar em mim, colega, 0 que vocé me disser vai comigo para 0 timulo! Dé um lapinba nas cosias do Operario, Cessa a representacao. Ai voc® entra na reparticio e vai preso, no ato. (OrenAnio — Sem que o senhor saia da fila € me acompanhe? SA — Sem nada disso. (OveRssio — Sem fazer sinal algum, que chamasse a atengio dos outros? SA — Sem nada. (Orexso — Como € possivel? SA — Ah, quer saber o truque? Fique em pé e vire-se de costas. Fé-lo voltar as castas, para que todos vejam, Para a Empregada — Voce esti vendo? Ewprecapa — Uma cruz branca! Counstett — No meio do ombro! Moronista — E mesmo. SA — E como ela veio parar aqui? Mostra a palma da mio — Estio vendo? Aqui est uma cruzinha de gle, que se reproduziu em tamanho natural nas costas do companheiro! © Operario tira o patets ¢ olha a cruz, (Oeeinio — Trabalhinho bem-feito. SA — Essa € boa, no? Trago sempre um pedaco de giz, no bolso. A gente tem de ter cabeca. Nao adianta seguir apenas o figurino. Satisfeito — Bem, agora tenho de ir a Reinickendorf. Corrige-se — Quero dizer que vou visitar uma tia que mora I4. Vocés no esto muito entusiasmados, hein? Para a Empregada — Que cara de pateta € essa, Ana? Nao entendeu nada do truque, no 6? 200 Bertolt Brecht ExpRecada — Entendi sim. Pensa que sou idiots? SA como se tivesse cessado bruscamente de achar graga — minha mao. Ana limpa a mao do SA com um pano. Coznamma — Temos de agir assim, se quisermos impedir esses ele- rmentos perigasos de destnuir tudo que 0 nosso Fuhrer conse- guiu erguer, e que causa a inveja de todos 0s poves. Moronista — Como disse? Tem toda a razo. Tira 0 relogio, Vou lavar © carro, Heil Hitler! Saf. SA — Que tipo de homem & esse? Exparcaoa — Um cara quieto. Completamente apolitico. Oventzio levantando-se — Pois 6, Minna. Eu também vou andando. Desculpe a brincadeira com a cerveja. Convenci-me de que nin- guém escapa. Quem tiver algo contra o Terceiro Reich, esti perdido. J& 6 uma tranqiilidade. Eu, por mim, nfo tenho contato com esse tipo de gente, senio eles iam ver uma coisa. Apenas do tenho a sua presenga de espirito. Pronunciando clara e fortemente— Minna, muito obrigado, e Heil Hitler! Os Oursos — Heil Hitler! SA— Se 0 senhor niio se importa, deixe-me dar-Ihe um conselho: no se faca tanto de ingenuo, isso chama a atengao. Comigo pode se abrir um pouco, eu sei apreciar uma piada. Tudo bem, Heil Hitler! Sai 0 Openitrio, SA — De repente todo mundo foi embora. Parece que ficaram com medo! Nao devia ter mencionado Reinickendorf. Essa gente presta uma atengio! Exonecaoa — Queria Ihe pedir uma coisa, Theo. SA — Vi em frente, Terror € miséria do Terceiro Reich 201 Comtema — Vou 14 fora, pendurar a roupa. Eu também ja fui moca. Sai. SA — Que €? ypaecapa — Vou falar porque sei que vocé nao vai levar a mal, sendo eu nao diria nada. SA — Fala logo! Eupasoana — Bem... sabe, 6 chato para mim... Olhe, preciso trar 20 marcos daquele dinheiro. SA — Vinte marcos? Ewpascaba — Esta vendo, vocé levou a mal SA — Tirar 20 marcos da cademeta de poupanga? Nao acho nada bom, Para que vocé precisa dos 20 marcos? Exprecapa — Preferia no dizer. SA — Ah, prefere nio dizer. Acho estranho. EwpRecapa — Sei que voc® no concorda comigo, por isso prefiro nio dizer 0 motivo, Theo. SA — Se vocé no tem confianga em mim. Expxicapa — Claro que tenho confianga. SA — Quer desistir da caderneta conjunta? Ewpaeoapa — Como pode pensar numa coisa dessast Mesmo tirando 20, sobram depositados 97 marcos. SA — Nao precisa fazer contas. Eu também sei exatamente quanto temos. S6 posso pensar que vocé esté querendo acabar comigo; talvez jf tenha comecado algum namoro com outro. Vai ver que quer mostrar a caderneta, para 0 outro examinar, 202 ertolt Brecht xpgscana — Bu ndo tenho ninguém. SA — Entdo me diga, para que quer 0 dinheiro? Enprecapa — Vocé no quer me dar SA — Como & que eu vou saber se ndo € por algum motivo escuso? Sou um homem de responsabilidade, sinto-me responsavel. Exprecaa — Nao & nada de mau. Mas voce sabe que, se nao precisas- se, cu nao ia pedir 0 dinheiro, Disso, vocé sabe muito bem. SA— Nio sei de coisa alguma, $6 sei que me parece bastante miste- ‘. Por que motivo precisa, de tepente, de 20 marcos? f bas- tante dinheico, Esté grivida? Emprecapa — Nao. SA — Tem centeza? Enpascapa — Tenho. SA — £ bom ficar avisada: se eu souber que voce tem a intengdo de ‘cometer algum ato ilegal, se uma noticia dessas chegar a meus Guviddos, pode crer, estar tudo terminado entre n6s. Voc® talvez jf tenha ouvido dizer que © maior crime que alguém pode ¢o- fneter € 0 infanticidio. Se 0 povo alemlo nao se reproduzir, staré terminada sua missio historiea. Ewpnscaoa — Theo, no sei do que vocé esté falando. Se fosse isso, eu The diria, seria assunto seu também. Mas jf que voc® insiste em pensar uma coisa dessas, vou Ihe dizer: quero ajudar a Frieda a comprar um casaco de inverno. SA— E por que sua iema no pode comprar sozinha © casaco? Evprecapa — Claro que nfo pode. Bla recebe pensio de invalidez: vinte e seis marcos € oitenta mensais. SA — Ea Agio de Socorro de Inverno? Pois é isso, 0 problema € que ‘voces nao confiam no Estado Navista! Isso para mim € claro, ‘Terror ¢ miséria do Terceito Reich 203 basta ver 0 tipo de conversa que s¢ ouve nesta cozinha. Pensa que nio reparei na sua reacio de desagrado a experiéncia que eu fiz aqui? Enpecaba — Quem Ihe disse que eu reagi com desagrado? SA — Claro que sim! Tanto voce como os caras que estavam aqui € sairam de repente! Empecava — Se quer saber a minha opinio sincera, eu nio gostei. SA — E do que foi que vocé nio gostou, se posso saber? Expnecapa — Que voc ainda por cima apronte armadilhas para 05 ‘pobres-diabos, com fingimentos ¢ truques. Meu pai também est desempregado. SA — Pois muito bem, Era isso que eu precisava ouvir. Tirei minhas conclusces a respeito desse Lincke. Euxzcapa — Nao diga que vai fazer alguma coisa contra ele! Depois que ele fez a sua vontade € s¢ prestou a brincadeira, animado por nés todos? SA—Nio digo nada, jf disse e repito. E se voc® tiver objegdes a que ‘eu cumpra meu dever, leia Mein Kampfe veri que 0 proprio Fahrer nio se achou bom demais para a funco de fiscalizador da opiniZo popular, Durante muito tempo foi essa a profs’ ele, quando estava na Reichswehr. Fez tado pela Alemanha, © as conseqiiéncias foram enormes. ‘Eyprscapa — Jé que é assim que voce reage, Theo, pergunto s€ posso tirar os 20 marcos, Mais nada. SA — 56 posso dizer que no estou me sentindo exatamente disposto a me deixar explorar. Ewarcapa — Como assim? O dinheiro € meu ou seu? SA — De sepente voce fala de mancira muito estranha sobre 0 nosso dinheiro! Foi para isso que livramos a comunidade nacional do