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VOLUME

1

Adriano Michael Bernardin Luciane Bisognin Ceretta Reginaldo de Souza Vieira

(Organizadores)

TEMAS

CONTEMPORÂNEOS EM PESQUISA

Vieira (Organizadores) TEMAS CONTEMPORÂNEOS EM PESQUISA Apoio: PROPEX Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Extensão

Apoio:

PROPEX

Pró-Reitoria de

Pós-Graduação

e Extensão

ISBN 978-85-8443-067-3

TEMAS CONTEMPORÂNEOS EM PESQUISA Apoio: PROPEX Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Extensão ISBN 978-85-8443-067-3
Multideia Editora Ltda. Rua Desembargador Otávio do Amaral, 1.553 80710-620 - Curitiba - PR +55(41)

Multideia Editora Ltda. Rua Desembargador Otávio do Amaral, 1.553 80710-620 - Curitiba - PR +55(41) 3339-1412 editorial@multideiaeditora.com.br

ConselhoEditorial

Marli Marlene M. da Costa (Unisc) André Viana Custódio (Unisc) Salete Oro Boff (IESA/IMED) Carlos Lunelli (UCS) Clovis Gorczevski (Unisc) Fabiana Marion Spengler (Unisc) Liton Lanes Pilau (Univalli) Danielle Annoni (UFPR)

Luiz Otávio Pimentel (UFSC) Orides Mezzaroba (UFSC) Sandra Negro (UBA/Argentina) Nuria Belloso Martín (Burgos/Espanha) Denise Fincato (PUC/RS) Wilson Engelmann (Unisinos) Neuro José Zambam (IMED)

Coordenação editorial e revisão: Fátima Beghetto Projeto gráfico e capa: Sônia Maria Borba Diagramação: Bruno Santiago Di Mônaco Rabelo

CPI-BRASIL. Catalogação na fonte

T278

Temas contemporâneos em pesquisa [recurso eletrônico] / organização de Adriano Michael Bernardin, Luciane Bisognin Ceretta, Reginaldo de Souza Vieira – Curitiba: Multideia, 2016. 176p.; 21cm; v. 1 ISBN 978-85-8443-067-3 1. Pesquisa. 2. Saúde. 3. Educação. 4. Literatura. 5. Ciências. 6. Tecnologia. I. Bernardin, Adriano Michael (org.). II. Ceretta, Luciane Bisognin (org.). III. Vieira, Reginaldo de Souza (org.).

CDD 001.42 (22. ed.) CDU 001.891

Adriano Michael Bernardin Luciane Bisognin Ceretta Reginaldo de Souza Vieira

Organizadores

TEMAS CONTEMPORÂNEOS EM PESQUISA

Volume 1

Autores

Ademir Damazio Agenor de Noni Junior Alexandre Gonçalves Dal-Bó Alice Scarabelot Baesso Ana Carolina Feltrin Ana Paula Silva dos Santos André Cechinel Bruno Andrade Fachin Claus Tröger Pich Daiane de Freitas Eduardo Hobold Kammer

Elidio Angioletto Emerson Colononetti Erlon Mendes Gisele Silveira Coelho Lopes Gladir da Silva Cabral Helton Jeremias de Souza Igor Martello Olsson Izabel Regina de Souza Josélia Euzébio da Rosa Júlio Cesar Zilli Karina C. Gulbis Zimmermann

Larissa Xavier Teixeira Luciana Rosa Luciano da Silva Mágada Tessmann Schwalm Marcos Marques da Silva Paula Mariane Provin Melissa Watanabe Neiva Junkes Hoepers Sheila Martignago Saleh Suélem da Cunha Willian Boneli de Almeida

Martignago Saleh Suélem da Cunha Willian Boneli de Almeida Apoio: PROPEX Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Extensão

Apoio:

PROPEX

Pró-Reitoria de

Pós-Graduação

e Extensão

Curitiba

Saleh Suélem da Cunha Willian Boneli de Almeida Apoio: PROPEX Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Extensão Curitiba

2016

PREFÁCIO

Inicio o breve texto que prefacia esta obra, orga- nizada por Adriano Michael Bernardin, Luciane Bisog- nin Ceretta e Reginaldo de Souza Vieira, exaltando o fato de ser produto de trabalhos de pesquisa, apresen- tados na forma oral, na IV Semana de Ciência e Tecno- logia da Unesc, realizada em outubro de 2013.

Trata-se de um trabalho que contempla as mais variadas áreas de conhecimento, com o propósito de socializar os conhecimentos produzidos pelos profes- sores pesquisadores, vinculados aos grupos e projetos de pesquisa da Unesc. Os conhecimentos produzidos no âmbito acadêmico só fazem sentido na medida em que a Universidade se propõe a torná-los um bem pú- blico, a serviço da melhoria das condições de vida das pessoas, em seu sentido mais amplo.

A obra “TEMAS CONTEMPORÂNEOS EM PES-

QUISA, VOLUME I”, está dividida em três partes: SAÚ- DE, CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO SOCIOECO NÔMICO, contendo quatro capítulos; CULTURA, EDU- CAÇÃO E LITERATURA, com três capítulos, e CIÊN- CIAS, ENGENHARIAS E TECNOLOGIAS, também com três capítulos.

O livro, em sua primeira parte, Saúde, Cidada-

nia e Desenvolvimento Socioeconômico, inicia com o capítulo de Sheila Martignago Saleh e Larissa Xavier Teixeira em que tratam de discutir os direitos huma- nos e a fraternidade como contraposição ao fenômeno bullying a partir de dados empíricos com estudantes do nono ano de escolas públicas estaduais.

6 Gildo Volpato

Prefácio

No capítulo dois, intitulado “Empreendedoris- mo versus internacionalização de PMEs brasileiras”, os autores Ana Paula Silva dos Santos, Gisele Silveira

Coelho Lopes, Julio Cesar Zilli e Izabel Regina de Sou- za apresentam os resultados da pesquisa bibliográfica baseados em estudos de casos brasileiros que trazem experiências sobre empreendedorismo e internaciona- lização empresarial, publicados no período de 2002 a

2012.

No capítulo três, “O estudo da produção do arroz sob ótica do uso e mudança do uso da terra”, Melissa Watanabe e Igor Martello Olsson apresentam o resul- tado de estudos sobre o uso da terra na cultura de ar- roz nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, utilizando dados relacionados à série histórica da pro- dução e à área plantada de arroz, no período de 1990 a 2010.

O quarto capítulo, escrito por Mariane Provin, Ka- rina Cardoso Gulbis Zimmermann, Mágada Tessmann Schwalm, Neiva Junkes Hoepers e Luciana Rosa, sob o título “Processo de adaptação da pessoa com estomia intestinal definitiva”, apresenta os resultados de um es- tudo que buscou identificar o processo de adaptação da pessoa com estomia intestinal definitiva, a partir de pesquisa de campo desenvolvida nos domicílios dos pacientes, após a identificação a partir da Associação de Pessoas com Estomia do município de Criciúma e região.

O primeiro capítulo da segunda parte do livro, Cultura, Educação e Literatura, chamado “Expressão do movimento conceitual na proposta de Davýdov”, es- crito por Ademir Damazio, Josélia Euzébio da Rosa e Daiane de Freitas, trata de apresentar as tarefas parti- culares, que introduzem os escolares no movimento do

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

7

pensamento para apropriação do sistema conceitual matemático, como noções de equação do segundo grau, pois a escola tem como papel criar condições para o de- senvolvimento do pensamento teórico dos estudantes.

No segundo capítulo, André Cechinel e Bruno Andrade Fachin, em “A desfamiliarização do cânone: T.

S. Eliot e a tradição em Burnt Norton”, tratam de sus- tentar a tese de que, por meio da revisitação de uma tradição literária e da desfamiliarização do cânone, Eliot torna efetiva a atemporalidade inerente à arte, promovendo a existência simultânea dos poetas vivos

e mortos, a partir da análise da presença da concepção

de criação poética, tendo como principal referência po- ética Burnt Norton.

No terceiro e último capítulo da segunda parte do livro, no texto “O feminino em Petershaffer”, Suélem da Cunha e Gladir da Silva Cabral procuraram demons- trar o papel da mulher na peça Yonadab (1985) e en-

tender a importância da literatura e do teatro na cons- trução da subjetividade e como as identidades pessoais

e culturais são construídas na atualidade em meio a um

complexo sistema de representação e produção de dis- cursos.

No primeiro capítulo da terceira parte do li- vro, Ciências, Engenharias e Tecnologias, intitulado “Crescimento de biomassa da microalga scenedesmus subspicatus: estudo cinético”, Ana Carolina Feltrin, Erlon Mendes, Claus Tröger Pich, Willian Boneli de Almeida e Elidio Angioletto apresentam resultados de estudos que buscaram determinar o crescimen- to da biomassa de microalgas S. subspicatus, median- te curvas de crescimento e obtenção de parâmetros cinéticos, desenvolvido no Iparque – Parque Científico Tecnológico, da Unesc.

8 Gildo Volpato

Prefácio

O segundo capítulo, escrito por Agenor de Noni Junior, Eduardo Hobold Kammer, Emerson Colononetti, com o título “Dihidrogenofosfato de alumínio a partir do resíduo de anodização de alumínio”, apresenta re- sultados de estudos sobre a obtenção de dihidrogeno- fosfato de alumínio utilizando o resíduo de anodização de alumínio, o que levou os autores a incluí-lo como al- ternativa para a valorização do resíduo, tornando-o um produto com utilidade industrial.

No terceiro e último capítulo, sob o título “Síntese e caracterização de nanocompósitos de matriz polimé- rica para aplicação em células a combustível: avaliação de estabilidade térmica”, os autores Alice Scarabelot Baesso, Marcos Marques da Silva Paula, Luciano da Silva, Alexandre Gonçalves Dal-Bó e Helton Jeremias de Souza buscaram aumentar a estabilidade térmica de membranas poliméricas por meio do emprego de na- nopartículas metálicas de prata e ouro.

Esta obra convida o leitor para adentar de forma aberta e reflexiva ao diálogo com as diferentes formas e perspectivas de fazer ciência, na medida em que ofere- ce a oportunidade de encontrar nela diferentes objetos de estudos de diferentes áreas de conhecimento, com temas contemporâneos e emergentes.

Prof. Dr. Gildo Volpato

Reitor da UNESC

APRESENTAÇÃO

É com enorme satisfação que apresentamos à comunidade acadêmica a obra “Temas Con-

temporâneos em Pesquisa, volume I ”, fruto da tra - jetória da política institucional de pesquisa da Unesc, voltada para a excelência científica e reconhecida pelo RUF (Ranking da Folha).

Os capítulos que compõem esta obra foram sele- cionados (por meio de um processo de avaliação tanto de seu conteúdo escrito quanto da apresentação de re- sultados de pesquisas) entre os inscritos na modalida- de pesquisa (resumo) apresentação oral da IV Semana de Ciência e Tecnologia da Unesc, que foi realizada em outubro de 2013.

A obra foi dividida em três partes: “Saúde, Cida- dania e Desenvolvimento Socioeconômico”; “Cultura, Educação e Literatura”; e, por fim, “Ciências, Engenha- rias e Tecnologias”.

As temáticas acima expostas e a qualidade dos textos da obra demonstram a relevância destas contri- buições para a construção do conhecimento científico.

Ademais, além da atualidade das contribuições e do seu caráter multidisciplinar, elas possibilitam o di- álogo entre pesquisa, ensino e extensão universitária, pilares constitucionais do ensino superior brasileiro.

Aproveitamos o ensejo para agradecer o apoio de todos aqueles que contribuíram para que a IV Sema- na de Ciência e Tecnologia da Unesc e esta obra fossem

10 Adriano Michael Bernardin; Luciane Bisognin Ceretta & Reginaldo de Souza Vieira – Organizadores

concretizadas, nos reservando o direito de não os listar com vistas a não cometer qualquer injustiça.

Por fim, a Unesc, por intermédio de sua Pró-Reito- ria de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão, os organi- zadores e os autores esperam que a leitura desta obra seja capaz de permitir algumas ou muitas respostas, mas, acima de tudo, que seja capaz de gerar novas dú- vidas e indagações, pois é desta forma que o conheci- mento produzido poderá cumprir o seu papel perante a Sociedade.

Criciúma (SC), primavera de 2015.

Prof. Dr. Adriano Michael Bernardin Profa. Dra. Luciane Bisognin Ceretta Prof. Dr. Reginaldo de Souza Vieira

SUMÁRIO

PARTE I SAÚDE, CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO

Capítulo I

DIREITOS HUMANOS E FRATERNIDADE: UMA CONTRAPOSIÇÃO AO FENÔMENO DO BULLYING EM ESTUDANTES MATRICULADOS EM 2012 NOS NONOS ANOS DAS ESCOLAS ESTADUAIS DO MUNICÍPIO DE CRICIÚMA – SC

15

Sheila Martignago Saleh Larissa Xavier Teixeira

Capítulo II

EMPREENDEDORISMO VERSUS INTERNACIONALIZAÇÃO DE PMEs BRASILEIRAS

33

Ana Paula Silva dos Santos Gisele Silveira Coelho Lopes Júlio Cesar Zilli Izabel Regina de Souza

Capítulo III

O ESTUDO DA PRODUÇÃO DO ARROZ SOB ÓTICA DO USO E MUDANÇA DO USO DA TERRA

49

Melissa Watanabe Igor Martello Olsson

Capítulo IV

PROCESSO DE ADAPTAÇÃO DA PESSOA COM ESTOMIA INTESTINAL DEFINITIVA

63

Mariane Provin Karina Cardoso Gulbis Zimmermann Mágada Tessmann Schwalm Neiva Junkes Hoepers Luciana Rosa

PARTE II CULTURA, EDUCAÇÃO E LITERATURA

Capítulo I

EXPRESSÃO DO MOVIMENTO CONCEITUAL NA PROPOSTA DE DAVÝDOV

79

Ademir Damazio Josélia Euzébio da Rosa Daiane de Freitas

12 Adriano Michael Bernardin; Luciane Bisognin Ceretta & Reginaldo de Souza Vieira – Organizadores

Capítulo II

A DESFAMILIARIZAÇÃO DO CÂNONE: T. S. ELIOT E A TRADIÇÃO

EM BURNT NORTON

101

 

André Cechinel Bruno Andrade Fachin

Capítulo III

O

FEMININO EM PETER SHAFFER

115

Suélem da Cunha Gladir da Silva Cabral

PARTE III CIÊNCIAS, ENGENHARIAS E TECNOLOGIAS

Capítulo I

CRESCIMENTO DE BIOMASSA DA MICROALGA SCENEDESMUS SUBSPICATUS: ESTUDO CINÉTICO

133

 

Ana Carolina Feltrin Erlon Mendes Claus Tröger Pich Willian Boneli de Almeida Elidio Angioletto

Capítulo II

DIHIDROGENOFOSFATO DE ALUMÍNIO A PARTIR DO RESÍDUO DE ANODIZAÇÃO DE ALUMÍNIO

149

 

Agenor de Noni Junior Eduardo Hobold Kammer Emerson Colononetti

Capítulo III

SÍNTESE E CARACTERIZAÇÃO DE NANOCOMPÓSITOS DE MATRIZ POLIMÉRICA PARA APLICAÇÃO EM CÉLULAS A COMBUSTÍVEL:

 

AVALIAÇÃO DE ESTABILIDADE TÉRMICA

165

Alice Scarabelot Baesso Marcos Marques da Silva Paula Luciano da Silva Alexandre Gonçalves Dal-Bó Helton Jeremias de Souza

PARTE I

SAÚDE, CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO

Capítulo I

DIREITOS HUMANOS E FRATERNIDADE:

UMA CONTRAPOSIÇÃO AO FENÔMENO DO BULLYING EM ESTUDANTES MATRICULADOS EM 2012 NOS NONOS ANOS DAS ESCOLAS ESTADUAIS DO MUNICÍPIO DE CRICIÚMA – SC

Sheila Martignago Saleh 1

Larissa Xavier Teixeira 2

Sumário: 1. Introdução; 2. Materiais e métodos; 3. Resultados obtidos com a pesquisa; 4. Discussão; Agradecimentos; Referências.

1

INTRODUÇÃO

A prática de bullying no ambiente escolar não deve ser vista pelos educadores como meros atos de indisciplina, mas sim como ações ou omissões preconceituosas, cujos efeitos atingem as víti- mas de modo profundo e, muitas vezes, irreversível.

Frente ao exposto, destaca-se a relevância do tema, uma vez que o bullying trata-se de problema social, que invade silenciosa-

1 Mestre em Ciências Jurídicas pela Universidade do Vale do Itajaí (2003); mem- bro do Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Cidadania da Unesc/Nupec; professora tempo integral no curso de Direito da Universidade do Extremo Sul Catarinense – Unesc; experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Privado e Direitos Humanos; advogada. sheilamsaleh@hotmail.com

2 Acadêmica do curso de graduação em Direito da Universidade do Extremo Sul Catarinense – Unesc; bolsista do Programa de Iniciação Científica da Unesc/Pibic; pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Direitos Humanos e Cidadania da Unesc/ Nupec; assistente legislativo da Câmara de Vereadores do Município de Urussanga – SC. larissaxt@hotmail.com

16 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

mente os espaços escolares, furtando das vítimas o direito ao seu desenvolvimento educacional sadio.

O presente artigo tem como objetivo central analisar a inci- dência e a motivação do bullying nos alunos matriculados em 2012 nos nonos anos das escolas estaduais do Município de Criciúma – SC, de modo a estabelecer o contraponto entre o preconceito e a discriminação exteriorizados agressivamente – qual seja a sua for- ma – em face da fraternidade e dos direitos humanos.

2 MATERIAL E MÉTODOS

Com o intuito de diagnosticar o fenômeno social do bullying e de melhor contribuir para a compreensão do tema, tal como para a sua prevenção, realizou-se pesquisa de campo, respaldada em aplicação de questionário com abordagens qualitativa e quan- titativa, segundo o método de amostragem, em alunos matricula- dos em 2012 nos nonos anos das escolas estaduais do Município de Criciúma – SC.

Justifica-se a escolha do público-alvo com base em estudos realizados por Cleo Fante, a qual, ao desenvolver uma pesquisa so- bre bullying na região de São José do Rio Preto – SP, em 2010, apon- tou que os agressores “encontram-se na faixa etária entre 13 e 14 anos, […]” (FANTE, 2005, apud CHALITA, 2008, p. 122).

Destaca-se que, em 2012, segundo dados da Secretaria de Es- tado da Educação – SED/SC, foram matriculados 1.486 alunos nos nonos anos do sistema estadual de ensino no Município. Dessa fei- ta, partindo-se do cálculo de amostragem realizado pelo Instituto de Pesquisas Ambientais e Tecnológicas da Universidade do Extremo Sul Catarinense (IPAT/UNESC), foram aplicados 315 questionários, divi- didos entre as 20 escolas estaduais de Criciúma – SC, com a devida autorização da Gerência Regional de Educação em Criciúma – Gered.

Observa-se que os alunos de cada escola foram escolhidos por sorteio e que suas participações foram autorizadas expressa-

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

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mente, tanto pelos próprios estudantes participantes como por

seus pais ou responsáveis, mediante termos de consentimento livre

e esclarecido. Ademais, o projeto de pesquisa passou pelo crivo do Comitê de Ética em Pesquisas da Unesc.

O questionário é composto por 29 perguntas, contendo 27

questões objetivas – incluindo as de múltipla escolha – e 2 subjeti- vas. Subdividiu-se o questionário em três blocos: o primeiro, sobre

o tema; o segundo, sobre o prisma da vítima; e o terceiro, sob a perspectiva do agressor.

Ressalta-se que o referido questionário foi elaborado com base na obra de Beatriz Oliveira Pereira (2002): “Para uma escola sem vio- lência: estudo e prevenção das práticas agressivas entre crianças”.

Efetuadas as devidas tabulações dos dados coletados, apre- sentam-se, a seguir, os resultados obtidos.

3 RESULTADOS OBTIDOS COM A PESQUISA

O primeiro bloco de questões abordou a percepção dos parti-

cipantes sobre a temática bullying. Nesse quadro, todos os partici- pantes afirmaram possuir conhecimento a respeito do tema.

Questionados sobre o meio de comunicação pelo qual detive- ram conhecimento do assunto, o resultado obtido, em questão de múltipla escolha, foi:

Gráfico 1 – Meio de comunicação

resultado obtido, em questão de múltipla escolha, foi: Gráfico 1 – Meio de comunicação Fonte :

Fonte: Dados da Pesquisa.

18 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

Quanto à atuação dos professores com relação ao tema, 265 (84%) respondentes indicaram que os professores falam sobre bullying em sala de aula. Em contrapartida, 50 (16%) participantes responderam negativamente.

A pesquisa procurou evidenciar também a visão dos alunos quanto ao tratamento preconceituoso e discriminatório entre co- legas no ambiente escolar. Nesse sentido, 233 (74%) participantes indicaram que tais práticas são comuns na escola, enquanto 82 (26%) indicaram não serem comuns tais tratamentos.

Questionados se há setor de apoio psicológico na escola onde estudam, 53 (17%) alunos responderam saber da existência do mencionado setor; enquanto 60 (19%) afirmaram não saber se sua escola conta com o referido serviço; e 202 (64%) participantes não souberam responder.

No segundo bloco de questões, sob o viés das vítimas de bullying, questionou-se inicialmente se os respondentes já foram ví- timas das práticas em análise – sendo que, em caso positivo, dever- se-ia apontar os motivos. Dos 315 alunos participantes, 173 (55%) afirmaram nunca haver sofrido bullying, enquanto 142 (45%) afir- maram já terem sido vítimas de bullying. Os motivos encontram-se no gráfico abaixo. Trata-se de questão de múltipla escolha.

Gráfico 2 – Já foi vítima de bullying? Por quais motivos?

de múltipla escolha. Gráfico 2 – Já foi vítima de bullying ? Por quais motivos? Fonte

Fonte: Dados da Pesquisa.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

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Continuamente, os participantes que indicaram serem víti- mas de bullying foram questionados sobre as formas de agressão. Trata-se também de questão de múltipla escolha.

Gráfico 3 – Formas de agressão

de múltipla escolha. Gráfico 3 – Formas de agressão Fonte : Dados da Pesquisa. Sobre o

Fonte: Dados da Pesquisa.

Sobre o local das instituições de ensino onde os responden- tes foram vítimas de bullying, observa-se o seguinte panorama:

Gráfico 4 – Locais

, observa-se o seguinte panorama: Gráfico 4 – Locais Fonte : Dados da Pesquisa. Perguntados se

Fonte: Dados da Pesquisa.

Perguntados se têm medo de irem à escola, 13 (4%) respon- dentes afirmaram que sim; enquanto 302 (96%) participantes da pesquisa responderam que não.

20 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

Buscando-se delimitar o perfil dos bullies, questionou-se aos participantes que afirmaram serem vítimas de bullying acerca de características dos agressores. Os resultados obtidos demonstram- se segundo o gráfico abaixo:

Gráfico 5 – Quem lhe fez mal?

segundo o gráfico abaixo: Gráfico 5 – Quem lhe fez mal? Fonte : Dados da Pesquisa.

Fonte: Dados da Pesquisa.

Em continuidade, perguntou-se às vítimas de bullying de qual sala eram os agressores, e se eram mais velhos ou mais novos com relação às suas idades. Trata-se de questão de múltipla escolha. Ob- teve-se o resultado abaixo apresentado:

Gráfico 6 – Sala e idade dos agressores

Ob- teve-se o resultado abaixo apresentado: Gráfico 6 – Sala e idade dos agressores Fonte :

Fonte: Dados da Pesquisa.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

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Em análise aos gráficos 5 e 6, observa-se que os meninos são

a maioria indicada como agressores – sejam sozinhos ou em gru-

po. Ademais, percebe-se que os agressores concentram-se mais na sala das vítimas, cuja maioria indicada é composta de alunos mais velhos que estas.

Perguntados se informaram algum professor, orientador educacional ou diretor sobre a prática de bullying da qual foram vítimas, 38 (12%) participantes afirmaram que sim; 91 (29%) alu- nos afirmaram que não; e 186 (59%) assinalaram não terem sido vítimas.

Do mesmo modo, aos que se afirmaram vítimas de bullying, foi questionado se contaram aos seus pais sobre as práticas agres- sivas sofridas no ambiente escolar. Em resposta, 63 (20%) respon- dentes assinalaram que sim; 70 (22%) alunos assinalaram que não;

e 182 (58%) assinalaram não terem sido vítimas de bullying.

Questionados se há colegas que lhes defendem quando são vítimas de bullying, os participantes responderam na forma de- monstrada no gráfico seguinte:

Gráfico 7 – Colegas defensores

no gráfico seguinte: Gráfico 7 – Colegas defensores Fonte : Dados da Pesquisa. No mesmo sentido,

Fonte: Dados da Pesquisa.

No mesmo sentido, perguntou-se aos participantes da pes- quisa a respeito das suas reações quando alunos estão prestes a praticarem bullying contra outros colegas. O resultado obtido foi:

22 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

Gráfico 8 – Reação perante práticas de bullying com outros colegas

Reação perante práticas de bullying com outros colegas Fonte : Dados da Pesquisa. Em sede da

Fonte: Dados da Pesquisa.

Em sede da primeira questão subjetiva, os participantes fo- ram questionados sobre o que, em suas opiniões, deveria mudar para os colegas da escola pararem de praticar bullying com os ou- tros colegas ou com os próprios respondentes. Foram selecionadas algumas respostas, que serão apresentadas a seguir:

Parar de botar apelidos, não rir dos colegas, deixar de ser os “valentões”. Todos devem se respeitar, tratar todos com igualdade, não dis- criminar ninguém. Quando já é chamada mais de uma vez a atenção, deveriam chamar os pais, e se algo for até mais sério, a polícia e o Conselho Tutelar. Instalar câmeras em sala de aula. Eles devem se conscientizar do que estão fazendo. Eles acham que é só uma brincadeira, mas é muito mais que isso. Mais respeito, e os professores perguntarem se “tá” acontecen- do alguma coisa. Mais atividades na escola para nos proporcionar conhecimen- to entre nós, colegas, aprender a nos conhecer e nos “dar” me- lhor na escola. Punir os agressores. Acho que os colegas que sofrem com o bullying deveriam pedir ajuda aos pais ou alguém que você confia.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

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Acho que deveríamos conversar mais. Isso aconteceu há al- gum tempo, depois, comecei a gostar de um tipo de música, a me vestir de outro jeito, e passaram a me respeitar. Hoje sou mais séria e tenho resposta na ponta da língua. Parar com as brincadeiras sem graça, as piadas e apelidos, ter mais respeito um com o outro. Acho que deveriam cobrar mais na educação dos alunos, as- sim eles se conscientizariam. Melhorar rondas das diretoras nas salas e mais atenção dos professores. Acho que tudo vem da educação. Eu sofro bullying em casa, mas me acostumo, e não dou bola. Hoje as pessoas se deixam levar muito fácil, com pouca maturidade. Acho que as escolas deveriam ter psicólogos à disposição dos alunos. Eu acho que as pessoas têm que ter mais respeito e compreen- são, e mais apoio da família. Deve haver principalmente respeito, e muitas vezes esse res- peito só pode vir de casa, aprendido em casa. Falar mais sobre o assunto, para que todos percebam que so- mos iguais e não há motivo para discriminação ou zombaria; palestras… Mais educação e respeito com os outros e acho que deveria começar nas escolas e os pais deveriam estar mais presentes, os professores mais calmos e atenciosos e deveria ter psicólo- gos nas escolas sempre, assim os alunos se sentiriam melhores para se abrirem e acabarem com essas injustiças. Os professores prestarem mais atenção nos alunos, e quando forem vistos praticando bullying, serem punidos severamente. Que as regras fiquem mais rígidas. Acho que a má educação vem dos pais que não educam direito, ou talvez é agredido ou algo do tipo, e desconta nos outros. Então, diálogo ou psicólogo ajudaria a pessoa que agride e a pessoa que é agredida. Ser mais educado e conhecer mais o bullying, pois não é brin- cadeira, e sim coisa séria que pode trazer danos futuramente. Não sei… pois quem pratica o bullying deve ter problemas em casa. Acho que cada um tem seu defeito, então ninguém tem direito de falar mal de alguém ou fazer qualquer outra coisa. Então

24 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

eu sempre pensei em bullying ser crime, e agora que tive essa oportunidade de fazer esse questionário e poder participar, achei ótimo. Se o bullying virar crime, acho que vai diminuir bastante.

Ter punições para o praticante, porque se a gente vai na di- reção falar, eles conversam com a pessoa e fica naquilo, não acontece nada.

Devem ser mais educados, precisam de ajuda para falar a verdade, pois quem pratica esse mal não é muito amado em casa.

Muitas vezes, quando o bullying é praticado na minha sala, o aluno fica quieto e não fala nada.

Palestras para alunos sobre bullying, para pais, alunos e pro- fessores.

Passando-se à análise dos resultados da terceira bateria de questões – sobre a perspectiva dos agressores –, questionou-se, ini- cialmente, se o participante já praticou bullying a outros colegas no ano da pesquisa, isto é, em 2012. O resultado obtido foi:

Gráfico 9 – Prática de bullying no ano da pesquisa

Gráfico 9 – Prática de bullying no ano da pesquisa Fonte : Dados da Pesquisa. A

Fonte: Dados da Pesquisa.

A seguir, destacam-se algumas respostas subjetivas de parti- cipantes da pesquisa, quando questionados sobre as razões pelas quais os agressores praticaram bullying com seus colegas:

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

25

Eu já pratiquei um bullying contra uma ex-aluna da escola, pois ela falava de mim.

Às vezes eu já ri de alguns e tal. Mas é só às vezes, é tudo brin- cadeira.

Apenas eu começava a rir do meu colega, por pensar que ele é de outro sexo.

Não, nunca fiz mal a ninguém, pois sofri muito com isso já.

Porque eu achava ele diferente.

Ele me ofendeu, e eu, sem pensar, também o ofendi.

Cometeram bullying com ele, e quando fui ajudar, ele descon- tou em mim.

Por ter me ofendido e mexido com minha namorada.

Por impulso.

Nunca fiz porque não preciso praticar bullying para ser res- peitado.

Eu pratiquei uma vez em legítima defesa.

Pois ficam me chamando de “chaveirinho”.

“Pq” eles ficam me chamando de “sardinha”.

Porque estavam me “zoando” e eu comecei a “zoar” os outros.

Na verdade, quem fez foi minha amiga e eu só ri, mas me acu- saram de ter praticado bullying.

Porque essa pessoa me chamou para brigar, e veio com outras 3 pessoas e eu apanhei, mas a certa pessoa também apanhou.

Sim, ano passado, porque ele me incomodava, mas depois eu descobri que ele tinha problemas mentais, aí eu pedi desculpa e disse que não sabia do problema dele.

Continuamente, questionando-se os participantes se estes se reúnem a outros(as) meninos(as) para fazerem mal a outros co- legas, 16 (5%) respondentes assinalaram que sim; enquanto 299 (95%) afirmaram que não.

Perguntado aos participantes sobre quantos alunos de suas respectivas salas de aula, contando com o respondente – se for o caso –, praticaram bullying a outros colegas, o resultado obtido foi o seguinte:

26 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

Gráfico 10 – Quantos bullies em sala de aula

Teixeira Gráfico 10 – Quantos bullies em sala de aula Fonte : Dados da Pesquisa. Questionou-se,

Fonte: Dados da Pesquisa.

Questionou-se, posteriormente, se houve repreenda ou orientação por parte de professores, orientadores pedagógicos ou diretores quanto à prática de bullying. Em resposta, 233 (74%) res- pondentes assinalaram que não fizeram mal a ninguém; 44 (14%) participantes afirmaram que não houve repreenda; e 38 (12%) alu- nos afirmaram que houve repreenda por parte do corpo docente e direção escolares.

Quanto à repreenda ou orientação dos pais dos agressores, 224 (71%) respondentes afirmaram não terem praticado bullying a outros colegas; 50 (16%) participantes assinalaram que não houve qualquer conversa por parte dos pais com relação à situação; e 41 (13%) alunos afirmaram que houve conversa com os pais sobre a prática de bullying.

4

DISCUSSÃO

Os atos de violência discriminatória e preconceituosa entre estudantes, vivenciados repetidamente em sala de aula, estabele- cem contraponto ao princípio universal da fraternidade, uma vez que pressupõem relações de poder desiguais nos pares escolares, contrários à concretização de solidariedade horizontal basilar à manutenção de uma sociedade fraterna.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

27

O bullying ainda opõe obstáculo ao pleno desenvolvimento

psicossocial de crianças e adolescentes, haja vista que, na escola, encontram-se em formação para o futuro, de modo que a infância e a adolescência pautadas nas relações de agressividade entre co- legas refletem, outrossim, nos adultos que esses indivíduos serão.

O fenômeno escolar em estudo fere sobremaneira os direi-

tos humanos à dignidade, à liberdade, à igualdade – internalizados no ordenamento jurídico nacional na forma de direitos fundamen- tais –, além do direito social à educação, que, segundo Tania Ma- ria Hendges Bitencourt (2006, apud COSTA; RITT, 2008, p. 44), é conceituada como “direito de todos, em especial da criança e do adolescente, tendo por finalidade, consoante texto constitucional, seu completo desenvolvimento, prepara para a vida adulta e para o exercício da cidadania”.

No mesmo sentindo, Tessmann e Sangoi (2009, p. 323) adu- zem que a educação “possibilita o pleno desenvolvimento da perso- nalidade humana e é requisito indispensável da própria cidadania”. Por meio da educação, ainda, “o indivíduo compreende o alcance de suas liberdades, a forma de exercícios de seus direitos e a impor- tância de seus deveres, permitindo a sua integração em uma demo- cracia efetivamente participativa”.

No Estatuto da Criança e do Adolescente, o artigo 15 relem- bra que os indivíduos em formação são sujeitos de todos os direitos inerentes à pessoa humana, merecendo o respeito a seu desenvol- vimento 3 .

A educação deve atingir plenitude em amplos sentidos, a pas-

sar também pela qualidade da convivência entre colegas, baseada no respeito mútuo e no interesse da coletividade, estando livres de qualquer ato violento que importe repressão aos valores sociais da cidadania e da fraternidade. Tanto que, no conjunto normativo bra-

3 Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à digni- dade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis. (BRASIL,

2013a)

28 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

sileiro, cabe destacar que a primeira norma infraconstitucional a se ocupar do tema em análise trata-se da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996), a qual, no seu artigo 2º, dispõe que a educação se inspira nos princí- pios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana 4 .

O direito ao pleno desenvolvimento, portanto, inclui-se no

rol dos direitos fundamentais de terceira dimensão – os chamados direitos de solidariedade (FERREIRA FILHO, 1996, p. 57-58) –, e constitui paradigma de uma sociedade fraterna.

O que se pretende é muito mais do que a concretização da

igualdade entre estudantes – segundo a qual se deve “tratar igual- mente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades” (BARBOSA, 2003, p. 19) –, haja vista que a frater- nidade requer uma relação horizontal, segundo a qual ninguém é superior em dignidade.

Para Tessmann (2006, apud CENTA, 2008, p. 345), o ambien- te escolar sadio, propício ao desenvolvimento do ser humano, é mais do que necessário para a construção de uma “sociedade livre, justa e solidária”, permitindo o desenvolvimento do país, a redução de desigualdades, possibilitando a extinção de preconceitos de ori- gem, sexo, cor e idade.

A prática fraterna, portanto, favorece o resguardo aos direi-

tos humanos e fundamentais, além do posicionamento dos sujei- tos a uma mesma identidade multicultural, respeitando aspectos comuns que os identificam na qualidade de sujeitos particulares. Com atitudes respeitosas e amigáveis, pautadas na solidariedade horizontal e na humanidade, os atos violentos inerentes ao bullying não deteriam mais espaço no ambiente escolar, haja posto que, em uma sociedade fraterna de indivíduos, todos são mais que livres e iguais, são irmãos.

4 Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liber- dade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvol- vimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (BRASIL, 2013b)

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

29

A abordagem sobre a violência nas escolas, bem como sobre

as suas possíveis causas, possibilita uma reflexão acerca de como os diversos contextos sociais podem interferir na dinâmica escolar.

Tal afirmação advém, sobretudo, do processo de educação psicológica de crianças e adolescentes que se encontram inseridos, muitas vezes, em ambientes familiares em que ambos os pais, em razão da árdua rotina de trabalho – ou por outros motivos –, outor- gam a formação psicológica de seus filhos para as instituições de ensino.

Em consequência, a problemática vivenciada agrava-se fren- te à gama de atribuições das escolas que, além do conteúdo pro- gramático, devem ocupar-se da formação cidadã e humana de seus alunos. Juntem-se a isso os demais vieses os quais o sistema educa- cional brasileiro enfrenta, tal como o déficit de investimentos públi- cos, do corpo docente, falta de segurança, substâncias entorpecen- tes e armas no ambiente escolar etc.

O bullying, portanto, adentra no cenário escolar como fator

capaz de causar prejuízos imensuráveis ao desenvolvimento pes- soal dos estudantes, uma vez que, ao contrário dos meros atos de indisciplina, dizem respeito às práticas contínuas e repetidas de violência física e psicológica.

Conforme demonstrado por meio da pesquisa de campo de- senvolvida neste trabalho, o bullying encontrou-se presente em 45% dos alunos que frequentaram, em 2012, as oitavas séries das escolas estaduais do Município de Criciúma – SC, muitas vezes re- vestido sob a forma de brincadeiras entre colegas. Todavia, tais brincadeiras – sob a ótica de agressores, professores, direção e pais – são percebidas pelas vítimas de modo sofrido e cruel.

Dessa feita, é necessário concluir que os direitos humanos são prerrogativas históricas instituídas a fim de garantir plenamen- te o desenvolvimento das potencialidades humanas. Dada a sua im- portância, tais direitos encontram-se previstos nos ordenamentos jurídicos pátrios, para que sejam observados quando das relações sociais, civis e públicas.

30 Sheila Martignago Saleh & Larissa Xavier Teixeira

Nesse sentido, em vista de que todos os estudantes brasilei-

ros possuem direito à educação, à dignidade, à saúde, à segurança,

à luz do princípio da fraternidade – segundo o qual todos são fra-

ternalmente iguais em direitos –, as práticas de bullying tornam-se

totalmente descabidas, necessitando do olhar atento por parte das famílias, das escolas e de toda a sociedade, a fim de sua prevenção ou cessação.

Por fim, com a disponibilização dos resultados da presen- te pesquisa ao meio acadêmico-científico, pretende-se contribuir para a prevenção do bullying no âmbito das escolas criciumenses; atuando, não obstante, como meio de incentivo para a criação de políticas públicas que visem assolar o fenômeno estudado, buscan- do a concretização da igualdade fraterna reservada como direito humano.

AGRADECIMENTOS

Dedicamos os mais sinceros agradecimentos à Gerência Re-

gional de Educação em Criciúma – Gered; à Secretaria de Estado da Educação – SED/SC; ao Instituto de Pesquisas Ambientais e Tecno- lógicas da Universidade do Extremo Sul Catarinense – IPAT/Unesc;

e à Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão – Propex da Universidade do Extremo Sul Catarinense, sem os quais não seria possível a realização da presente pesquisa.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Rui. Oração aos moços. São Paulo: Martin Claret, 2003.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm>. Acesso em: 29 jul. 2013.

Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov. br/ccivil_03/leis/l9394.htm>. Acesso em: 29 jul. 2013.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

31

CENTA, Daiane. A efetivação do direito constitucional à educação. In:

GORCZEVSKI, Clovis; REIS, Jorge Renato dos (Orgs.). Direitos fundamentais sociais como paradigmas de uma sociedade fraterna: constitucionalismo contemporâneo. Santa Cruz do Sul: IPR, 2008. p. 339-356.

CHALITA, Gabriel. Pedagogia da amizade bullying: o sofrimento das víti- mas e de seus agressores. São Paulo: Gente, 2008.

COSTA, Marli Marlene da; RITT, Caroline Fockink. Educação como um di- reito fundamental e social. In: GORCZEVSKI, Clovis; REIS, Jorge Renato dos (Orgs.). Direitos fundamentais sociais como paradigmas de uma socieda- de fraterna: constitucionalismo contemporâneo. Santa Cruz do Sul: IPR, 2008. p. 41-64.

FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos humanos fundamentais. São Paulo: Saraiva, 1996.

TESSMANN, Erotides Kniphoff; SANGOI, Trícia Schaidhauer. Educação e (em) direitos humanos: o papel da educação no processo de efetivação dos direitos humanos. In: GORCZEVSKI, Clovis (Org.). Direitos humanos e sociedade. Porto Alegre: UFRGS, 2009. p. 319-334.

Capítulo II

EMPREENDEDORISMO VERSUS INTERNACIONALIZAÇÃO DE PMEs BRASILEIRAS

Ana Paula Silva dos Santos 1

Gisele Silveira Coelho Lopes 2

Júlio Cesar Zilli 3

Izabel Regina de Souza 4

Sumário: 1. Introdução; 2. Material e método; 3. Resultados e discussão; 3.1 Perfil dos casos; 3.2 Perfil do empreendedor; 3.3 Inserção internacional x teorias de internaciona- lização; 4. Considerações finais; Referências.

1

INTRODUÇÃO

O tema empreendedorismo é um assunto muito discutido tanto no meio acadêmico quanto no empresarial. Por meio de uma avaliação sistemática em publicações brasileiras, foram identifica- dos 652 trabalhos com o enfoque no empreendedorismo. Destes, 264 foram publicados em revistas científicas reconhecidas pela Qualis Capes e 388 publicações em anais do Encontro da Asso- ciação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ENANPAD).

1

2

3

4

Universidade do Extremo Sul Catarinense. ana.paulasilvadossantos@hotmail.com

Universidade do Extremo Sul Catarinense. giselelopes@unesc.net

Universidade do Extremo Sul Catarinense. zilli42@hotmail.com

Universidade do Extremo Sul Catarinense. izabelrsouza@gmail.com

34 Ana Paula Silva dos Santos; Gisele Silveira Coelho Lopes; Júlio Cesar Zilli & Izabel Regina de Souza

Não obstante a relevância do empreendedorismo nos últi- mos anos, vale destacar que o tema transcende a discussão rela- cionada ao empreendedor em si e à abertura de novos negócios. Foi possível constatar que o empreendedorismo, além de propi- ciar o desenvolvimento de uma economia nacional, influencia as pessoas com potencial empreendedor a investir em negócios in- ternacionais.

Dos 652 trabalhos encontrados, 24 direcionaram os esforços

a compreender o empreendedorismo numa concepção internacio-

nal. Esses estudos vinculam o empreendedorismo com a perspecti-

va da internacionalização de empresas brasileiras dirigindo os es- forços de pesquisa para estudos de casos dos processos de exporta- ção (OLIVEIRA; KOVACS, 2007; SILVEIRA; ALPERSTEDT, 2007, CAR- VALHO JÚNIOR; SILVA; ZAWISLAK, 2008; GONÇALVES TONDOLO; BITENCOURT; PORTELLA TONDOLO, 2008; RIBEIRO; PIMENTEL, 2009), a perspectiva da busca por novos fornecedores por meio de estudos de caso de importação (SCHREIBER; FLACH; ANTONELLO 2009), redes de relacionamento (FREITAG FILHO; AMAL, 2008) e

o caso de ensino sobre empreendedorismo e internacionalização empresarial (GUIMARÃES; CARDOZA, 2005).

É perceptível que o enfoque dos trabalhos sobre empreen- dedorismo e internacionalização empresarial teve maior concen- tração em pesquisas relacionadas aos processos de exportação e importação, estratégia, marketing e desempenho exportador. Este estudo, por sua vez, tem a preocupação de seguir a corrente teó-

rica dos estudos que trazem experiências teórico/empíricas sobre

a estratégia utilizada nos processos de exportação e importação

por pequenas e médias empresas brasileiras, tendo em vista que, dependendo da estratégia utilizada, será possível associar o perfil empreendedor das empresas ou dos protagonistas dessa iniciativa.

Desse modo, este estudo se propõe a compreender, a partir de uma análise bibliográfica, a influência do empreendedorismo no processo de internacionalização das pequenas e médias empresas brasileiras entre os anos de 2002 a 2012.

2 MATERIAL E MÉTODOS

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

35

Com o intuito de delinear o perfil empreendedor das empre- sas que iniciaram o processo de internacionalização por meio da exportação ou importação no Brasil, o presente estudo, quanto aos fins de investigação, se caracteriza como uma pesquisa explorató- ria (DIEHL; TATIM, 2004), pois seus resultados são baseados em estudos de casos brasileiros que trazem experiências sobre empre- endedorismo e internacionalização empresarial publicados no pe- ríodo de 2002 a 2012. Em relação aos meios de investigação, este estudo é considerado bibliográfico, pois todo material utilizado foi encontrado na literatura nacional (RAUEM, 2002).

Para obter os dados da pesquisa, foi realizada uma avaliação sistemática em 388 publicações do Encontro da Associação dos Programas de Pós-Graduação em Administração (ENANPAD) e em 264 artigos vinculados a 34 revistas indexadas na plataforma Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) até o extrato B4. O processo de identificação dos trabalhos consistiu em três etapas: a primeira foi a utiliza- ção de palavras-chave com denominação empreendedor e em- preendedorismo. Nessa etapa foram encontrados 652 artigos. A segunda ocorreu mediante a leitura dos títulos e resumo dos 652 trabalhos encontrados, cujo propósito foi identificar aqueles que tinham o enfoque do empreendedorismo para a internacionaliza- ção empresarial. Nesse processo foram selecionados 24 artigos que tratavam sobre o processo de internacionalização. Finalmen- te, o terceiro e último filtro foi formado por artigos caracterizados estudos de caso, cuja análise ocorreu na leitura dos resultados e conclusões. Nesse último processo foram selecionados oito arti- gos, totalizando 11 estudos de casos, já que alguns artigos apre- sentavam mais de um caso.

Utilizando conteúdos advindos de pesquisas já existentes (da- dos secundários), o processo de coleta de dados foi predominante- mente qualitativo, com informações retiradas dos trabalhos encon-

36 Ana Paula Silva dos Santos; Gisele Silveira Coelho Lopes; Júlio Cesar Zilli & Izabel Regina de Souza

trados (CRESWELL, 2007). Para a análise dos dados, utilizou-se a análise de conteúdo, que auxiliou na classificação de categorias e comparação dos resultados com a teoria (VERGARA, 2010).

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Destacam-se a seguir o perfil dos casos estudados, o perfil empreendedor e o processo de inserção internacional versus as teo- rias de internacionalização.

3.1 Perfil dos casos

É possível observar que há um gap entre a abertura do ne- gócio e o início do processo de exportação/importação dos casos pesquisados. Houve empresas que levaram 18 anos para decidir in- gressar no mercado externo, enquanto outras foram mais rápidas nessa decisão. O tempo médio entre a abertura e a efetivação no mercado global das empresas estudadas é de 7,88 anos. Esse resul- tado se apresenta alto quando comparado com os estudos quanti- tativos de Freitag Filho e Amal (2008). Segundo os autores, antes da abertura do comércio internacional brasileiro (1985 a 1997), as empresas levavam em média 12 anos para ingressar no comér- cio internacional. Após a abertura do mercado brasileiro para as exportações e importações, esse intervalo de tempo reduziu para quatro anos (1996 a 2000). O Quadro 1 apresenta uma síntese do perfil da inserção internacional das empresas estudas.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

37

Quadro 1 – Perfil da inserção no comércio exterior

Casos

Ano de

Fundação

Quando

iniciou a

EXP.

IMP.

Mercados

Exportação

Mercado

Importação

Produtos

Exportados/

 

exportação

Importado

1

1994

2002

X

 

Portugal,

Perfumaria e

-

-

 

Equador.

cosméticos.

 

Argentina

2

1989

1995

X

(1995),

Uruguai

Móveis sob

medida de

 

-

(1995), África

(2001), Chile

-

   

madeira.

(2001).

 

América do

Sul, EUA

(1993),

3

1982

1993

X

-

Canadá, Europa, Oriente Médio, Holanda (1996) e Ásia

-

Frutas Tropicais.

 

(2005).

4

1986

2004

X

Estados

Unidos.

Células de

produção para

 

-

-

 

França,

Alemanha,

Itália.

a indústria

automotiva.

5

0

0

X

 

Não

Madeireira.

-

-

 

informou.

 

Não

Usinas de

6

0

0

X

-

-

 

informou.

precisão.

7

0

0

X

 

Não

Relógios e

-

-

 

informou.

outros.

 

Estados Unidos, Alemanha

8

1989

2002

X

-

e Reino Unido (70%). Europa e Ásia

-

Vinho.

 

(30%).

9

1997

1997

X

República

Cadeia coureiro (calçadista), joias e semijoias e produtos alimentícios.

 

-

-

 

Tcheca.

38 Ana Paula Silva dos Santos; Gisele Silveira Coelho Lopes; Júlio Cesar Zilli & Izabel Regina de Souza

10 1997

2001

X

República

Avelã e amêndoas cobertas com chocolate ao leite e semiamargo.

 

-

-

 

Tcheca.

11 2002

2005

X

Estados

Unidos e

Software para

reconhecimento

 

-

-

 

Europa.

de impressões

digitais.

Fonte: Dados obtidos com a pesquisa (2013).

De acordo com o Quadro 1, o método mais utilizado para a inserção internacional é a exportação de produtos acabados, po- rém há exceção de dois casos que ingressaram no mercado externo por intermédio da importação, cujo objeto importado também se enquadra em produto acabado para revenda no Brasil. Esses pro- cessos foram feitos pelas empresas de forma direta, sem o auxílio de terceiros.

Considerando que a maioria dos processos de internacionali- zação se deu por meio da exportação, os continentes que mais im-

portaram do Brasil foram a Europa e a América, seguidos pela Ásia

e a África. Os países que mais importaram do Brasil foram os Esta-

dos Unidos e a Alemanha. Os Estados Unidos possuem posição de liderança na importação mundial e a Alemanha, por sua vez, ocupa

o terceiro lugar (BRASIL, 2011). No estudo, apenas dois casos têm a

importação como processo de internacionalização para a Repúbli- ca Tcheca, possuindo a trigésima posição em relação aos principais países exportadores do mundo (BRASIL, 2011).

Diante do exposto, é necessário frisar que o Brasil faz parte de dois blocos econômicos, o Mercado Comum do Sul (Mercosul)

e a Associação Latino Americana de Integração (Aladi). Essa par-

ceria auxilia no processo de internacionalização das empresas que utilizam como mercado-alvo os países da América Latina (BRASIL, 2011). Outros países da América, como Estados Unidos e Canadá, encontram como vantagem a localização.

3.2 Perfil empreendedor

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

39

A partir da análise do conteúdo dos 11 casos, foi possível identificar 204 frequências em que apareceram a figura do em- preendedor, porém cada qual vinculou as características a deter- minados cargos dentro da empresa. Para facilitar a compreensão dessas características, foi utilizado o trabalho de Schimidt e Boh- nenberger (2009), os quais classificam o perfil empreendedor em oito grupos ou categorias. Assim, foram organizados os oito gru- pos versus os cargos que os casos vincularam às características empreendedoras.

Ao observar as informações do Quadro 2, em primeiro lugar, foram vinculadas as características empreendedoras à empresa (101); em segundo lugar, o proprietário (50); em terceiro, o presi- dente (33); e em quarto, o fundador (20). Um ponto digno de nota é que a maioria das presenças de características empreendedoras destacadas (101) nos trabalhos associa a maior parte dessas carac- terísticas para toda a empresa, desde os funcionários até os pro- prietários. Os argumentos de Oliveira e Kovacs (2007) confirmam essa sequência, em que descrevem que o presidente é lembrado em terceiro lugar como o detentor de maiores quantidades de ca- racterísticas empreendedoras, estando na frente apenas da figura do fundador. Os autores responsabilizam o fundador por utilizar de sua liderança para implantar as competências essenciais, mo- tivando na busca das metas. O Quadro 2 destaca a distribuição das características empreendedoras.

40 Ana Paula Silva dos Santos; Gisele Silveira Coelho Lopes; Júlio Cesar Zilli & Izabel Regina de Souza

Quadro 2 – Distribuição das características empreendedoras

Grupo

Fundador

Presidente

Proprietário

Empresa

Total

Líder

8

10

10

16

44

Assumir riscos

1

4

11

17

33

Inovador

3

2

5

21

31

Autoeficaz

2

3

9

13

27

Planejador

1

3

9

10

23

Detectar

2

3

5

12

22

oportunidades

Sociável

1

6

1

8

16

Persistente

2

2

0

4

8

Total

20

33

50

101

204

Fonte: Dados obtidos com a pesquisa (2013).

É visível no Quadro 2 que o perfil de um líder é essencial, pois seu desempenho reflete na atuação de toda a empresa. A segunda característica mais lembrada é assumir riscos, sendo encontrada na pesquisa como uma forma de minimizar a perda financeira, ao mes- mo tempo que é vista como consequência da competência empresa- rial. A inovação é lembrada como um diferencial perante a concor- rência, criada a partir da pesquisa de mercado. Outra capacidade en- contrada entre os empreendedores é a autoeficácia, que está sempre acompanhada da experiência, informação, sabedoria e proatividade. A quinta categoria mais recordada é a de planejar composta pelas características de um profissional visionário, que de forma dinâmica controla, implementa, opina, visando à qualidade. Porém, o visioná- rio necessita detectar oportunidades para inovar.

Nesse contexto, é importante a constante atenção às tendên- cias quando considerado as comuns mudanças que o cenário apre- senta. O cenário é constituído de diversas culturas que requerem o respeito, pois o empreendedor também é visto como sociável, de grande persistência, com foco em seus objetivos.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

41

Vale ainda frisar que as características encontradas nos 11 casos referentes ao perfil empreendedor nem sempre estarão pre- sentes nas atitudes e comportamentos de um indivíduo somente. O que se sabe é que cada pessoa consegue evidenciar determinadas características que se enquadram à sua personalidade e que são utilizadas em seu favor (MOREIRA NETO, 2003).

As características empreendedoras estudadas foram retira- das durante o processo de internacionalização. A especificação do procedimento possibilita o aprofundamento das teorias de interna- cionalização utilizadas por elas. As várias dimensões do andamen- to da internacionalização possibilitam a personalização das teorias para cada caso.

3.3 Inserção internacional x teorias de internacionalização

Cada empresa, de acordo com suas possibilidades e necessi- dades, busca um método para se inserir no mercado globalizado. A diversidade nas ações dos empreendimentos no processo de inter- nacionalização é dividida em dois panoramas. No primeiro, domina uma perspectiva econômica, baseada na prosperidade financeira. A segunda é uma visão com prioridade comportamental e nas atitu- des (SILVA; CHAUVEL; BERTRAND, 2010).

Diante dos 11 casos encontrados, é importante compreender como as empresas se organizaram em termos de ingresso no merca- do externo, seja por intermédio de exportação ou importação. Nesse contexto, o presente estudo buscou compreender quais as formas utilizadas pelas empresas estudadas na internacionalização.

O Quadro 3 apresenta quais foram as modalidades teóricas e tipologias em que cada empresa se enquadrou quando do ingresso no mercado externo. Cada empresa, de acordo com o seu know-how, contatos, experiências e pesquisas na sua área e no mercado-alvo, desenvolveu um processo que facilitou a inserção em um novo país, pela adesão de oportunidades, para que o ingresso no mercado ex- terno acontecesse.

42 Ana Paula Silva dos Santos; Gisele Silveira Coelho Lopes; Júlio Cesar Zilli & Izabel Regina de Souza

Quadro 3 – Teorias de Internacionalização x Casos Estudados

Teorias de Internacionalização / Abordagem

 

Teoria de Poder de Mercado / Econômica (HYMER, 1960)

 

Características dos casos estudados

Crescimento interno (fusões, aquisições e exten- sões de suas capacidades)

Caso 1: Consolidação nacional no sistema de franquias.

Caso 5: Busca fortalecer as redes para a diversificação do mercado. Caso 9: Abre uma Comercial Importadora

Investimento inicial no mercado externo

e

Exportadora, busca recuperar a rede de

contatos para voltara a operar e pesquisa

 

a

respeito da importação de cervejas.

Modelo de Uppsala / Comportamental (JOHANSON, WIEDERSHEIM-PAUL, 1975)

Internacionalização gradativa

Caso 2: Sente dificuldade com a legislação

e

a burocracia.

 

Tentem a iniciar as atividades de internacionali- zação por intermédio de agentes

Caso 2: Exporta para o Uruguai com o au- xílio de um representante internacional, que é responsável pela negociação e libe- ração da mercadoria. Caso 8: Utiliza representantes exclusivos para cada linha de produto.

Criam subsidiárias de vendas

Caso 1: Estabelece quiosques em Lisboa (Portugal) e Quito (Equador) simultanea- mente em julho de 2002. Caso 2: Devido a dificuldade legal, a em- presa mantém um representante no exte- rior. Caso 3: Em 1992 dispõe de escritório nos EUA, mas só em 1993 deu-se início efetivo das exportações e em 1996 dispõe de es- critório na Holanda.

Caso 4: Inaugura um escritório nos Estados Unidos, que atua com vendas e assistência técnica, atendendo as maiores indústrias de autopeças do mundo.

Eventualmente poderão instalar a produção no país de destino

Caso

11:

Possui

dois escritórios nos

Estados Unidos. Caso 6: Possui unidade produtiva no ex- terior.

 

Caso 7: Abertura de escritórios no exterior

e

unidades produtivas com um ambiente

mais favorável para os negócios no Brasil.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

43

Empreendedorismo Internacional / Comportamental (BELL; CRICK; YONG, 2004)

 

Caso 1: Feira em Cannes, França em ou- tubro de 2002 (desenvolve interesse de jornalistas) e Feira na Bolonha, Itália em março de 2003. Caso 2: Participação na Feira Móveis Sul em Bento Gonçalves – RS, despertando

Reconhecimento de oportunidade

interesse da África e do Chile, partici- pação na Mercomóveis em Chapecó – SC em 2004, proporcionando diversos con-

tatos com outros países e intensificando

o

o

comércio com a Guatemala, Chile e

África e em 2005 o empresário faz a pri- meira viagem para o exterior no Panamá, México e Honduras.

Caso 8: Participa de concursos interna- cionais e pioneirismo na exportação de vinhos. Caso 10: Com experiência, abre uma Comercial Importadora e Exportadora e procura chocolate tipo candies para ne- gociar.

Caso 11: O empreendedor possui pesqui- sas próprias na região do Vale do Silício, junto a Universidade de São José. Caso 5: Busca a modernização do negócio

Motivação para a operacionalização

a diversificação do mercado, entrando no processo de internacionalização. Caso 4: Busca se readequar ao cenário competitivo mundial.

e

Perspectiva de Networks / Comportamental (JOHANSON; WIEDERSHEIM-PAUL, 1975)

Cria-se redes de empresas no exterior

Caso 2: Exporta portas para cozinha, atra- vés de um amigo que atua no mercado de madeira para a Argentina. Caso 4: Forma aliança com uma empresa norte-americana.

Teoria da Internacionalização / Econômica (BUCKLEY; CASSON, 1998)

 

Caso 9: Abre uma Comercial Importadora

Processo de investimento no mercado externo

e

Exportadora, busca recuperar a rede de

contatos para voltara a operar e pesquisa

 

a

respeito da importação de cervejas.

Fonte: Dados obtidos com a pesquisa (2013).

44 Ana Paula Silva dos Santos; Gisele Silveira Coelho Lopes; Júlio Cesar Zilli & Izabel Regina de Souza

O empreendedor é descrito na literatura como aquele que possui muitos atributos (MOREIRA NETO, 2003, SCHIMIDT; BOH- NENBERGER, 2009). Os casos estudados apresentaram um total de

78 características recordadas em 204 vezes, que foram comparadas

e agrupadas, conforme Schmidt e Bohnenberg (2009), em oito cate-

gorias, sendo elas: autoeficaz, assumir riscos, planejador, detector de oportunidades, persistente, sociável, inovador e líder.

As características dos resultados foram encontradas nas ações que compõem o processo de internacionalização dessas em- presas. Nesse contexto, foi encontrado um aspecto em que cada teo- ria de internacionalização não consegue por si só englobar todas as práticas adotadas pelas empresas brasileiras estudadas. Carneiro e Dib (2007) evidenciam a insuficiência metodológica de cada teoria.

Dessa forma, os resultados demonstraram a realidade dos fa- tos, considerando sua fundamentação em estudos anteriores. Sua diferenciação advém da perspectiva da elaboração do perfil empre- endedor das pequenas e médias empresas brasileiras, fundamen- tais para a inserção no novo mercado.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com o objetivo de descrever o perfil empreendedor do pe- queno e médio empresário que ingressou no mercado internacio- nal, foi perceptível a equidade entre os atributos de um caso com outro, ou até mesmo dos casos com a teoria, sendo, ao mesmo tem- po, encontradas quantidades diferentes de atributos em cada es- tudo, em que uns autores demonstravam menos e outros mais ca- racterísticas empreendedoras. A diferenciação entre os perfis não

causava a falta de eficiência, assim, deixa claro que o empreendedor

é a pessoa dotada de certa quantidade de atributos, que não possui necessariamente a mesma quantidade ou os mesmos atributos de outro empreendedor.

Nesse contexto, vários foram os objetivos que levaram os em- preendimentos expostos nos casos a iniciar a busca pelo mercado

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

45

internacional. A inserção no comércio exterior foi diferente de em- presa para empresa, porém todas são classificadas em cinco teorias de internacionalização. Um fato relevante é que apenas três casos fizeram sua internacionalização por meio de um único modelo, os demais oito casos se enquadraram em um misto das outras teorias.

Os modelos de internacionalização são divididos em duas abordagens, sendo elas econômicas e comportamentalistas. Os da- dos demonstram maior utilização da abordagem comportamenta- lista, cujas decisões foram baseadas em atitudes e redução do risco. Este formato tem a frequência de utilização no estudo de 18 ati- tudes comportamentalistas, enquanto as abordagens econômicas, que visam ao lucro, apresentam uma repetição de duas ações nos estudos. Este fato comprova a influência do perfil empreendedor no processo de internacionalização, porque um processo compor- tamentalista é consequência do perfil de seu executor, logo, seus resultados são reflexos das características empreendedoras apre- sentadas nos estudos.

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Capítulo III

O ESTUDO DA PRODUÇÃO DO ARROZ SOB ÓTICA DO USO E MUDANÇA DO USO DA TERRA

Melissa Watanabe 1

Igor Martello Olsson 2

Sumário: 1. Introdução; 2. Uso da terra; 3. Metodologia; 4. Produção e uso da terra na cadeia produtiva do arroz; 5. Relação da área cultivada com a produção; 6. Relação da área cultivada com a área total do município; 7. Conclusão; Referências.

1

INTRODUÇÃO

Servindo como base para o desenvolvimento do homem, des- de os primórdios, a terra passa por constantes mudanças, ligadas em certas ocasiões à utilização que recebe perante a necessidade que lhe é atribuída por seu utilizador. Portanto, diversos são os fa- tores motivadores que tornam o estudo do uso e mudança de uso da terra um fator relevante na tomada de decisões.

Assim, a dinâmica do uso da terra apresenta características significativas frente a diferentes usos na produção de alimentos, fibras ou energia. As possibilidades de uso da terra estão relacio- nadas diretamente às dimensões biofísicas, socioeconômicas e cul- turais que compreendem a geografia humana daqueles que nela

1 Prof. Dra. do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioeconômico – PPGDS/Unesc. melissawatanabe@unesc.net

2 Bolsista Pibic/2012. igor.olsson@hotmail.com

50 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

vivem e que dependem da decisão da melhor utilização daquele espaço geográfico (WATANABE, 2009).

A cultura do arroz apresenta importância econômica e social no âmbito nacional e internacional, visto que o cereal é amplamen- te utilizado em diversos países e possui grandes plantações espa- lhadas por diversos pontos do globo, como é o caso da China, Índia, Indonésia e Filipinas, por exemplo. Segundo estimativas do USDA, na safra 2012/2013, a produção mundial de arroz foi de 468 mi- lhões de toneladas, sendo a China o maior produtor mundial, com 143 milhões de toneladas. No Brasil, estima-se uma produção de pouco mais de oito milhões de toneladas, sendo o nono país em maior produção (USDA, 2013).

Os estados brasileiros que mais produzem arroz são o de Santa Catarina e o do Rio Grande do Sul, os quais contaram em 2011 com uma produção de 980.501 toneladas e 8.940.432 toneladas, respecti- vamente, representando juntos cerca de 73,62% da produção nacio- nal. A busca por maior resistência a pragas, doenças e plantas dani- nhas alia-se com o aumento do valor nutritivo obtido por contínuas pesquisas realizadas. Tais avanços passaram a ser possíveis devido a pesquisas feitas por institutos em diversos estados.

Em 1938 inicia-se no Instituto Riograndense do Arroz – IRGA (RS) um dos programas oficiais brasileiros de melhoramen- to genético do arroz. Inicialmente, adotou como estratégia a seleção entre as variedades ou linhagens até então disponí- veis no país ou vindas do exterior e que melhor se prestavam ao cultivo nas condições do estado. (BORÉM, 2005, p. 114)

Baseando-se na importância que o arroz representa pela sua expressiva produção e seu destino final (consumidor), ele se desta- ca como um dos principais grãos produzidos no país e no mundo.

Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo estudar o uso e a mudança do uso da terra na cultura de arroz nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, utilizando dados relaciona-

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

51

dos à série histórica da produção e a área plantada de arroz, além da relação da área utilizada para plantio com a área total disponível nas cidades produtoras no período de 1990 a 2010.

2 USO DA TERRA

O uso da terra é aqui definido como o modo pelo qual os se- res humanos exploram a cobertura vegetal da terra. O uso da terra está associado a questões biofísicas, atividades socioeconômicas e contextos culturais. Na identificação das causas das mudanças do uso da terra, é necessário um entendimento de como as pessoas tomam suas decisões e de como vários e certos fatores específicos interagem entre si (LAMBIN; GEIST; LEPERS, 2003; VERBURG et al., 2006).

Baseado na necessidade humana, o uso da terra destaca-se como um ponto observacional para o desenvolvimento, devido às áreas disponíveis serem limitadas. Essa limitação pode ser visua- lizada, por exemplo, ao observar que apenas 14% do território chinês é cultivável e sua relação de área cultivada per capita é de 0,106 hectares, proporção significativamente menor do que a mé- dia mundial, que é de 0,236 hectares (LIN; HO, 2003).

Além de ser influenciado por diversos fatores econômicos e demográficos, como o preço do grão, a migração de pessoas da área rural para as cidades, políticas governamentais e o crescimento in- dustrial urbano (YOU et al., 2011), o uso da terra também possui ligação direta com o meio social e cultural dos indivíduos respon- sáveis pelo seu manejo, visto que, por diversas vezes, os hábitos de cultivo são passados de geração para geração.

A observação da mudança da área da produção no estado ou em um país, e a proporção da área plantada nos municípios podem ser observadas a partir de cartogramas que geram padrões de alo- cação geográfica quantificados (ROUNSEVELL et al., 2005), com o intuito de transformar os dados adquiridos em um meio mais facil- mente observável.

52 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

Dentro do âmbito da mudança do uso da terra, pode-se ob- servar a relação entre a área utilizada para o plantio e a área total disponível em um município, destacando assim o quão relevante é esse cultivo para o município em específico. Muito embora alguns municípios possuam grande parte da área total de seu território utilizada para o cultivo, esse fator não evidencia que sejam grandes produtores. Claramente, grandes cidades com área de cultivo igual a pequenas cidades demonstram ter uma relação entre área total e área plantada menor.

Dessa forma, pelas figuras 1 e 2, é possível observar a mudan- ça da perspectiva de produção ao longo do tempo. Como é o caso do presente estudo, observa-se que, em 1990 (Figura 1), diversos mu- nicípios situados a oeste possuíam produção de arroz, entretanto, ao longo dos anos deixaram de produzir tal cereal, sendo essa pro- dução transferida quase que exclusivamente para a área leste do estado de Santa Catarina até o ano de 2010 (Figura 2). As cidades destacadas, por sua vez, possuem plantações de arroz que cobrem uma área maior do que 1% de sua área total disponível. e aquelas com valor inferior a tal porcentagem foram descartadas devido ao método utilizado para a criação dos cartogramas.

Figura 1 – Municípios catarinenses produtores de arroz no ano de 1990

a criação dos cartogramas. Figura 1 – Municípios catarinenses produtores de arroz no ano de 1990

Fonte: IBGE, 2013.

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

53

Figura 2 – Municípios catarinenses produtores de arroz no ano de 2010

Municípios catarinenses produtores de arroz no ano de 2010 3 METODOLOGIA Fonte : IBGE, 2013. A

3

METODOLOGIA

Fonte: IBGE, 2013.

A pesquisa é caracterizada como descritiva documental e ex- ploratória quantitativa. As dúvidas ou questionamentos relativos aos dados foram esclarecidos diretamente junto a esses órgãos com profissionais especialistas da área e técnicos responsáveis pela ela- boração e atualizações dos bancos de dados estatísticos em suas res- pectivas instituições e expertos da região.

Os meios de investigação para a pesquisa documental bi- bliográfica utilizaram fontes secundárias, como artigos científicos, teses, dissertações, livros e sites. Os dados secundários foram as séries históricas do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE), Companhia Brasileira de Abastecimento (CONAB), do Ins- tituto de Pesquisas Aplicadas (IPEADATA).

Para a obtenção dos valores apresentados, foram utilizadas duas equações matemáticas, a primeira voltada para o cálculo da participação do(s) estado(s) em relação à produção ou área total nacional do cultivo do arroz irrigado, dada por:

54 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

54 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson sendo que representa a porcentagem obtida; , o somatório
54 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson sendo que representa a porcentagem obtida; , o somatório

sendo que representa a porcentagem obtida; , o somatório dos valores dos estados; e PT, por sua vez, indica o valor total da produção ou área de produção do país em determinado ano.

Essa relação é apresentada pelo uso de cartogramas gerados

a partir dos dados resultantes dos cálculos executados com as in-

formações obtidas pelo IBGE (área cultivada e área total do municí- pio). Esses cartogramas foram gerados a partir de software especí- fico desenvolvido pelo próprio IBGE, adquirido para esse fim, com

o nome de EstatCart ® .

A segunda, por sua vez, refere-se ao cálculo responsável pela

obtenção da média da produção e área utilizada por município nos estados estudados. Tal expressão é dada por:

nos estados estudados. Tal expressão é dada por: sendo que representa a média obtida; o somatório
nos estados estudados. Tal expressão é dada por: sendo que representa a média obtida; o somatório
sendo que representa a média obtida; o somatório da produção das cidades; e, por fim,
sendo que representa a média obtida; o somatório da
produção das cidades; e, por fim,
dades utilizadas no cálculo.
representa a quantidade de ci-

4 PRODUÇÃO E USO DA TERRA NA CADEIA PRODUTIVA DO ARROZ

O arroz apresentou um aumento de produção passando de

7.420 mil toneladas em 1990 para 11.235 mil toneladas em 2010. Sendo Santa Catarina e Rio Grande do Sul os estados com maior produção no Brasil, observa-se sua importância para a produção nacional, somando em 2010, segundo dados formulados a partir de resultados de produção disponíveis (IBGE, 2013), 70,45% da pro- dução nacional (Tabela 1).

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

55

Tabela 1 – Quantidade produzida em mil toneladas

Ano

1990

1995

2000

2005

2010

Brasil

7.420,93

11.226,06

11.134,59

13.192,86

11.235,99

Rio Grande do Sul

3.194,39

5.038,11

4.981,01

6.103,29

6.875,08

Santa Catarina

567,69

708,43

799,03

1.055,61

1.041,59

Fonte: IBGE, 2013.

Entre os estados produtores, o Rio Grande do Sul destaca-se como o maior produtor isolado. Santa Catarina, por sua vez, é a uni- dade federativa com a segunda maior produção, sendo esta percep- tivelmente menor do que a obtida por aquele. Tais dados reafirmam a importância de Santa Catarina e Rio Grande do Sul no cenário da cadeia produtiva do arroz, conforme observado na figura 3.

Figura 3 – Produção total, em mil toneladas, do Brasil e estados no ano de 2010

na figura 3. Figura 3 – Produção total, em mil toneladas, do Brasil e estados no

Fonte: IBGE, 2013.

56 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

A observação da área plantada e a sua relação com a produ- ção possibilita a compreensão de diversos fatores. Ao contrário do que poderia ser esperado, enquanto a produção passa por um cons- tante aumento, a área plantada diminui durante o período utilizado na presente pesquisa. Isso mostra que a tecnologia, o manejo e o melhoramento genético e inovações na agricultura estão melhoran- do significativamente a eficiência dessa cultura, aumentando sua produtividade ao longo dos anos.

Isso é observado, pois em 1990 o País contava com 4.158 mil hectares de plantação de arroz, chegando a 4.420 mil hectares em 1995 e finalizando o período de análise com 2.778 mil hectares no ano de 2010. O estado do Rio Grande do Sul possui um valor inicial de 700 mil hectares e chega a 2010 com 1.101 mil hectares. Por sua vez, Santa Catarina possui 152 mil hectares no ano inicial da análi- se e, com poucas variações ao longo dos anos, chega em 2010 com aproximadamente o mesmo valor inicial (Tabela 2).

Tabela 2 – Área plantada em mil hectares

Ano

1990

1995

2000

2005

2010

Brasil

4.158,55

4.420,68

3.704,86

3.999,32

2.778,17

Rio Grande do Sul

700,94

991,60

959,04

1.055,23

1.101,31

Santa Catarina

152,80

155,23

135,41

154,46

150,47

Fonte: IBGE, 2013.

Assim como entre os estados produtores, o Rio Grande do Sul aparece novamente em primeiro lugar, desta vez, porém, na obser- vação da área total plantada em relação à área total utilizada para a produção de arroz em todo o território nacional. Em contrapartida, o estado de Santa Catarina, que aparece como segundo colocado na produção, possui nessa análise a quarta maior área cultivada (Fi- gura 4).

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

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Figura 4 – Área total plantada, em mil hectares, do país e estados no ano de 2010

em mil hectares, do país e estados no ano de 2010 Fonte : IBGE, 2013. 5

Fonte: IBGE, 2013.

5 RELAÇÃO DA ÁREA CULTIVADA COM A PRODUÇÃO

Observa-se, por meio da análise dos dados, que o Brasil, em- bora tenha aumentado sua produção, possui uma área de produção menor quando comparado aos primeiros anos observados pela pes- quisa, com uma área de produção em 2010 aproximadamente 33% menor do que a área observada no ano de 1990. O País conseguiu, ainda assim, alcançar um aumento em sua produção total de arroz no ano de 2010 quando observado em relação ao ano inicial.

Os dados relativos à produção e área no ano de 2010 para o estado do Rio Grande do Sul demonstram que esta unidade federa- tiva possui, nesse ano, uma relação de aproximadamente 6,25 mil toneladas para cada mil hectares. Por sua vez, Santa Catarina conta, no mesmo ano, com uma relação de aproximadamente 6,95 mil to- neladas para cada mil hectares.

Outro ponto importante é o crescimento da produção de Santa Catarina, mantendo uma área de produção praticamente igual àque-

58 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

la vista em 1990. Contando com 152,8 mil hectares e uma produção

de 567,7 mil toneladas no ano de 1990, tal unidade federativa des- taca-se pela capacidade de produção alcançada com a mesma área, chegando em 2010, último ano analisado pela pesquisa, com uma área plantada de 150,47 mil hectares (área menor do que o primei- ro ano analisado), mas com uma produção de 1.041,6 mil toneladas.

O estado obteve, mesmo com uma área destinada ao plantio 2,3 mil

hectares menor, 473,3 mil toneladas a mais em produção de arroz.

6 RELAÇÃO DA ÁREA CULTIVADA COM A ÁREA TOTAL DO MUNICÍPIO

Um dos principais pontos é a observação da área cultivada do município em relação à sua área total, pois isso busca demonstrar o quão diversificado o município é no âmbito de seu uso da terra agrícola. Assim, obtém-se a porcentagem da terra utilizada para o plantio quando comparado à área disponível. Tal resultado é obtido

comparado à área disponível. Tal resultado é obtido por meio de um cálculo representado por: ,

por meio de um cálculo representado por: , em que

obtido por meio de um cálculo representado por: , em que representa a porcentagem da área

representa a porcentagem da área municipal utilizada para o cul-

tivo de arroz; total da cidade.

Observa-se que, em 1990 (Figura 5), existe grande número de cidades que possuem alguma produção de arroz irrigado, distri- buídos espacialmente tanto na parte leste do estado quanto tam- bém a oeste, e que, portanto, possuem uma porcentagem de suas terras ocupadas pelo cultivo de tal cereal.

A oeste, em regra, a área do cultivo não ultrapassa a marca de 5% da fração da área disponível no município. Enquanto a leste, alguns municípios possuem porcentagens maiores que 20%, des- critas pelas áreas mais escuras do mapa (Figura 5). A cidade de Me- leiro, localizado ao sul do estado, por exemplo, possuía em 1990 cerca de 46% de sua área ocupada com o cultivo do arroz, mostran- do assim o impacto que esta cultura tem no que tange a questões socioeconômicas.

, a área

que esta cultura tem no que tange a questões socioeconômicas. , a área representa a área
que esta cultura tem no que tange a questões socioeconômicas. , a área representa a área

representa a área de cultivo da cidade; e

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

59

Figura 5 – Porcentagem de terra utilizada para plantio em relação à área total disponível no município nos anos 1990, 1995, 2000, 2005 e 2010 em Santa Catarina

nos anos 1990, 1995, 2000, 2005 e 2010 em Santa Catarina Fonte : IBGE, 2013. As

Fonte: IBGE, 2013.

As mudanças do uso da terra podem ser mais bem obser- vadas ao longo do período entre 1990 e 2005, visto que poucas modificações ocorreram da situação do ano de 2005 para 2010. A mudança do mapa traz à tona a tendência da quase total exclusão do arroz no meio oeste do estado, o que pode ser evidenciado pela competitividade em área que a região apresenta a outras commodi- ties de maior valor agregado.

Observações mostram que, no estado do Rio Grande do Sul, o cultivo não é tão concentrado e que mais cidades possuem gran- de porcentagem de suas terras ocupadas pelo cultivo do arroz. Em contraste com o mesmo período observado no estado de San- ta Catarina, o Rio Grande do Sul possui uma concentração maior da produção no meio sul do estado, mantendo-se assim de forma constante até o último ano analisado, 2010 (Figura 6). Isso ocorre por essa área ainda não ter competitividade em áreas em outras commodities.

60 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

Figura 6 – Porcentagem de terra utilizada para plantio em relação á área total disponível no município nos anos 1990, 1995, 2000, 2005 e 2010 no Rio Grande do Sul

nos anos 1990, 1995, 2000, 2005 e 2010 no Rio Grande do Sul Fonte : IBGE,

Fonte: IBGE, 2013.

De maneira geral, embora existam mudanças nas porcenta- gens de utilização de área para cultivo, o cultivo do arroz mantém- se nos mesmos locais com pouca mudança de uso da terra ao longo do período analisado.

Ao mesmo tempo que demonstra a mudança da área de foco do cultivo do arroz, o mapa revela as cidades que possuem maior impacto gerado pelo cultivo. Grandes cidades com altas porcenta- gens de utilização da terra para o plantio do arroz tendem a ter uma grande produção, não apenas uma grande ocupação do território. Por sua vez, pequenos municípios podem demonstrar que possuem boa parte de sua área utilizada para a produção do grão, mas não terão, necessariamente, uma produção tão grande. Com tal exem- plificação, é possível perceber o quão importante o entendimento do uso da terra, aliado a tecnologias do setor, pode ser para o rendi- mento em relação à quantidade de terra utilizada.

7

CONCLUSÃO

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

61

Baseada nas análises feitas a partir dos dados coletados, ob- serva-se a relevância do entendimento do uso da terra e o que sua mudança vem a ser. Pela compreensão das tabelas, gráficos e car- togramas, observou-se a já crescente obtenção de resultados pro- venientes das pesquisas que visam ao entendimento do cultivo do arroz, compreendendo o seu aperfeiçoamento.

Por ser um cereal básico e estratégico na segurança alimentar nacional, tal grão possui grande impacto e, portanto, sua produção e manejo deve ser constantemente avaliada e submetida a melhora- mentos para que possa comportar as mudanças socioeconômicas e ambientais envolvidas no caso.

O estudo do uso da terra mostra-se, então, uma ferramenta

auxiliar e importante para os estudos realizados, visto que demons- tra a capacidade obtida pelos melhoramentos, sejam eles genéticos ligados ao grão ou pela especialização ligada à mão de obra, por meio dos quais são possíveis dados que demonstram cada vez mais maior produção em menor espaço plantado.

O entendimento de que a área disponível é finita colabora com a questão de que a necessidade de alimentos pode exaurir, se houver um mal manejo, em algum momento, a terra utilizada para plantio, e um dos poucos meios que contribuem para o entendi- mento desse fenômeno é justamente a análise do uso e mudança de uso da terra.

A produção do Estado de Santa Catarina demonstra-se como

uma base para a observação da efetividade das pesquisas da área, visto que, mesmo com pouco aumento em sua área de plantação,

sua quantidade produzida cresceu quando se compara o ano final da pesquisa (2010) com o ano inicial (1990).

Estabelece-se então que, partindo de uma necessidade e do entendimento da finitude de áreas, ações que visam entender as relações de área e sua produção contribuem largamente para o en- tendimento das mudanças do uso da terra que já foram executadas

62 Melissa Watanabe & Igor Martello Olsson

e auxiliam em novas tomadas de decisões, políticas públicas e de- cisões que possam alterar o âmbito social, ambiental e econômico. Apesar de o Brasil apresentar áreas continentais e poucos estudos científicos estarem focados nesse escopo, porém, mais estudos se fazem necessários, seja no âmbito regional com estudos em outras culturas, seja nacionalmente, principalmente em áreas agrícolas, fronteiras e áreas ecologicamente sensíveis.

REFERÊNCIAS

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2005.

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LIN, G. C. S.; HO, S. P. S. China’s land resources and land-use change: in- sights from the 1996 land survey. Land Use Policy, v. 20, p. 87-107, 2003.

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VERBURG, P. H.; SCHULP, N.; WITTE, N.; VELDKAMP, A. Downscaling of land use change scenarios to assess the dynamics of European landscapes. Agriculture, Ecosystems and Environment, v. 114, p. 39-56, 2006.

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Capítulo IV

PROCESSO DE ADAPTAÇÃO DA PESSOA COM ESTOMIA INTESTINAL DEFINITIVA

Mariane Provin 1

Karina Cardoso Gulbis Zimmermann 2

Mágada Tessmann Schwalm 3

Neiva Junkes Hoepers 4

Luciana Rosa 5

Sumário: 1. Introdução; 2. Procedimentos metodológicos; 3. Resultados e discussão; 4. Conclusão. Referências.

1

INTRODUÇÃO

A construção de um estoma é algo necessário muitas vezes para a sobrevida da pessoa que o necessita, e repercute muitas vezes em um processo de adaptação. A doença, sendo debilitante, contrapõe-se com a relevante possibilidade de maior qualidade de vida após realização de um estoma, quando bem indicado (SALES et al., 2010).

1

2

3

4

5

Enfermeira. mari_provin@hotmail.com

Enfermeira. Estomaterapeuta. Mestre em Enfermagem. Docente Unesc. Pesquisadora do Laboratório de Direito Sanitário e Saúde Coletiva (LADSSC/ UNESC). Enfermeira EMDOC. karina@unesc.net

Enfermeira. Doutora em Ciências da Saúde. Docente Unesc. Coordenadora de Extensão Unasau. Pesquisadora do Laboratório de Direito Sanitário e Saúde Coletiva (LADSSC/UNESC). mts@unesc.net

Enfermeira. Mestre em Ciências da Saúde. Docente Unesc. neivajun@unesc.net

Enfermeira. Mestre em Ciências da Saúde. bridalu@yahoo.com.br

64 Mariane Provin; Karina Cardoso Gulbis Zimmermann; Mágada Tessmann Schwalm; Neiva Junkes Hoepers & Luciana Rosa

Conforme a legislação, em sua Portaria 400/2009, o fato de

a pessoa apresentar uma estomia intestinal a engloba na legislação

como uma pessoa que requer cuidados e a caracteriza como alguém com deficiência física, comparável com uma amputação, pelo fato de as pessoas nessa nova condição de vida não terem controle es- fincteriano. Além disso, pode ser visto como um trauma emocional (ABRASO, 2012).

Com isso, percebe-se que a causa que determina a necessida- de de confecção de um estoma intestinal pode levar a condições de enfrentamento diferentes: se for por causa crônica ou um câncer,

a aceitação e a adaptação podem ser diferentes de um caso agudo, como um trauma por acidente.

No Brasil, temos em média 33.864 pessoas com estomia, as- sim, é necessário repensar sobre a atenção prestada e sua efetivi- dade em detrimento de um impacto geralmente existente após as mudanças pós-cirúrgicas (ABRASO, 2012).

É observável em um paciente estomizado que suas vidas são

afetadas por preconceitos e discriminação. Acredita-se na impor- tância da equipe multiprofissional de saúde capacitada e envolvida

na atenção a essas pessoas.

A estomia intestinal pode ser realizada em várias partes do

intestino e sua permanência pode ser provisória ou definitiva de- pendendo da causa em que ela precisou ser confeccionada, ou seja,

a doença de base (OLIVEIRA et al., 2010; AGUIAR et al., 2011).

Kamada et al. (2011) dizem que é necessária a atenção de

enfermagem às pessoas com estomias intestinais, tendo em vista que os diagnósticos acerca das demandas são elementares para

o planejamento de cuidado e a reabilitação no processo pós-nova condição de vida.

Nesse contexto e com intuito de ter-se a compreensão dessa te- mática (estomizados), a questão da pesquisa é: como se estabelece o processo de adaptação da pessoa com estomia intestinal definitiva?

Acredita-se que a pessoa com estomia considera ter bom en- frentamento da nova adaptação, pois espera ter qualidade de vida;

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

65

o estoma é considerado pelo sujeito algo libertador que o tirou de uma doença para uma condição de vida a ser experimentada; a pes- soa com estoma não considera tem bom enfrentamento da nova adaptação, estoma intestinal, uma vez que não considera a estomia um processo adequado; os profissionais se familiarizaram com as pessoas com estomia para ajudá-las no enfrentamento de sua nova adaptação; os profissionais pouco interferem no processo de adap- tação da pessoa com estomia.

Esse estudo teve como objetivo identificar o processo de adaptação da pessoa com estomia intestinal definitiva, reconhe- cendo as dificuldades apresentadas, bem como suas necessidades de atenção, tanto por esse novo momento interferir em sua vida cotidiana quanto pela evidencia de que é necessária a adaptação cotidiana para perpassar o momento inicial de aceitação por ser algo que salvou sua vida.

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O estudo é de abordagem qualitativa e foi do tipo descritivo e de campo, sendo desenvolvido nos domicílios dos pacientes após a identificação destes a partir da Associação de Pessoas com Estomia do município e região, por meio de entrevista semiestruturada apli- cada pelo próprio pesquisador aos sujeitos do estudo, após Parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa nº 15.059/2012.

Todos os participantes autorizaram a pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, uma vez que foram orientados sobre os preceitos éticos, benefícios e não malefícios de sua participação.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Participaram do estudo nove pessoas com estomia definitiva, com idade variando de 45 a 79 anos, dos quais o gênero predomi- nante foi o feminino.

66 Mariane Provin; Karina Cardoso Gulbis Zimmermann; Mágada Tessmann Schwalm; Neiva Junkes Hoepers & Luciana Rosa

Fernandes, Miguir e Donoso (2010), em seu estudo sobre perfil da pessoa com estomia, destacam o fato de que o câncer de reto, em dado momento da história da doença, especificamente na década de 90, acometeu em sua maioria mulheres. Talvez esse fato possa ser o motivo de o gênero predominante neste estudo ser as mulheres, uma vez que, em suma, a causa base que levou à estomia foi o câncer.

Quadro 1: Caracterização dos participantes

Entrevistado

Idade

Gênero

Escolaridade

Profissão

Tempo de

Motivo /

estomia

doença

     

Fundamental

     
 

E1

79

F

incompleto

Aposentada

16

anos

CA de reto

 

E2

66

M

1º grau

Operador de

2

anos e

CA de reto e

 

incompleto

S.E.

3

meses

intestino

           

CA no útero,

1º grau

Aposentada

atingindo também rim e intestino

 

E3

45

F

completo

4

anos

E

4

48

F

Superior

Financeiro

1

ano e

CA de reto

 

incompleto

6

meses

     

Primário

 

4

anos e

 

E

5

67

F

completo

Dona de casa

8

meses

Diverticulite

     

Fundamental

 

6

anos e

 

E

6

58

M

incompleto

Aposentado

2

meses

CA no reto

     

Primário

     
 

E7

55

F

completo

Costureira

8

anos

CA de útero

       

Mecânico

   

E

8

50

M

7ª e 8º ano

aposentado

25

anos

CA do reto

     

Fundamental

     

E

9

69

F

completo

Dona de casa

7

anos

CA no reto

Fonte: Dados da pesquisa.

Observa-se que a idade da estomia é de um a 25 anos, o que oportuniza o entendimento sobre a condição de vida tanto no con- texto inicial quanto após muitos anos de convívio e adaptação. Além disso, vê-se que a idade em que tiveram que se submeter à

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

67

cirurgia foi um fator interessante, pois alguns eram pessoas na ida- de de adulto jovem.

Quanto às funções e profissão, não se encontrou fator que de- monstrasse relevância relacionada à causa ou doenças.

Categoria 1 – Primeiro pensamento sobre estoma:

Fase cirúrgica

Subcategoria 1: Desejo de morte e desespero para reverter

Nesta subcategoria, demonstra-se o sentimento mais deses- perador relatado pelos entrevistados, ao serem questionados sobre seu primeiro pensamento após saberem da necessidade de ampu- tar o reto e ter um estoma intestinal no abdome.

“Ai meu Deus, eu queria morrer na cirurgia.” (E5) “Não aceitação, tanto que fiz quatro tentativas de rever- são.” (E8) “Em primeiro momento, acredito ter entrado em um surto onde me deparei com uma situação totalmente desconhecida, me senti enlouquecida sem ‘chão’, perdida.” (E1)

As falas denotam que a aceitação não é imediata. Tozato e Zim- mermann (2010) relatam que a estomia é uma alternativa para nova vida, mas requer da pessoa que passa por esse processo adaptativo, uma vez que desde alterações da imagem corporal, estilo de vida, relacionamento social, desempenho na sexualidade até transtornos psicológicos e sociais podem existir no decorrer da reabilitação.

Subcategoria 2:

Medo, dúvidas e angústias sobre a vida posteriormente

Quanto a sentimentos negativos, percebe-se nos depoimen- tos o medo, a angústia e dúvidas ao mesmo tempo, gerando um pro- cesso desafiante em sua vida, como pode ser visto na fala a seguir:

68 Mariane Provin; Karina Cardoso Gulbis Zimmermann; Mágada Tessmann Schwalm; Neiva Junkes Hoepers & Luciana Rosa

[…] o meu impacto não foi pelo estoma, e sim pelo câncer.”

(E2)

“[…] meu maior medo é que um dia poderia voltar a fazer qui- mioterapia, e não conviver minha vida com meu estoma […]”

(E6)

“O que eu posso fazer da minha vida agora, que trabalho eu vou conseguir nessas condições?! Muitas dúvidas surgiram na minha cabeça.” (E6)

O ser humano se reconstrói o tempo todo para se adaptar de forma criativa, sendo capaz de autonomia relativa quando se vê pri- vado de certas disponibilidades (MENEZES; QUINTANA, 2008).

Acredita-se que a resposta de cada qual é diferente, tanto no entendimento do processo quanto na percepção de mudanças rela- cionadas ao antes e depois da intervenção cirúrgica. Surge uma linha imaginária que divide o antes e o após tanto para a pessoa com esto- mia quanto para a família que acompanha o passo a passo.

Muitas vezes, há a contabilização de pontos negativos, como a unanimidade no relato, certo incômodo causado quando há eli- minação de gases, vazamentos e odor de fezes exalado mesmo o dispositivo de coleta sendo em suma seguro. Para as pessoas, isso representa um desafio, pois alternativas deverão ser encontradas para minimizar a ocorrência de situações desagradáveis. Tal desa- fio não é apenas para a pessoa com estomia ou família, mas também envolve a equipe de saúde, em destaque a enfermagem, pois deve- rá planejar a assistência voltando-se aos aspectos de qualidade de vida as pessoas envolvidas.

Categoria 2 – Enfrentamentos diários com a estomia

Subcategoria 1:

Adoção de programação e limitações sociais

Pode-se constatar na fala a seguir um processo de adaptação cuidadoso após o estoma:

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

69

“Nas horas de descanso, à noite quando tento dormir e não consigo, pois a bolsa está cheia. Quando preciso sair de casa, preciso programar toda minha alimentação com antecedên- cia para que não ocorra nenhum imprevisto.” (E1)

O sono, eu nunca mais soube o que é dormir uma noite inteira

de sono, acordo de duas a três vezes por noite.” (E7) “Ter que levantar à noite me incomoda um pouco ainda.” (E4) “Preciso muitas vezes ir ao banheiro e em decorrência disso acabei ficando mais caseira.” (E3) “Me faz muita falta passear com meus amigos, sair de casa sem me preocupar.” (E5)

Oliveira et al. (2010) dizem que:

Além das dificuldades emocionais, a estomia gera uma série

de alterações de ordem física que prejudica o convívio social, principalmente aquelas relacionadas à falta do ânus e à pre- sença de um orifício no abdome por onde passa a eliminar

as fezes.

Observa-se, contudo, que as diferenças são tanto biológicas quanto emocionas para o enfrentamento da pessoa com estomia, o que requer constante aprendizado e mudança na rotina para adap- tar-se e viver melhor. As falas remetem a constantes programações, mas o que chama a atenção é a limitação no convívio social.

Categoria 3 – Mudanças necessárias para melhor adaptação

Esta categoria trata das respostas sobre as questões do pro- cesso de adaptação, mudança drástica ou não na vida do paciente e suas reações frente à estomia.

A abertura de um estoma intestinal é a causa responsável

por determinar mudanças nítidas no estilo de vida de seus portadores, devido às alterações que ocorrem no seu esque-

70 Mariane Provin; Karina Cardoso Gulbis Zimmermann; Mágada Tessmann Schwalm; Neiva Junkes Hoepers & Luciana Rosa

ma corporal, à perda de controle de eliminações e à necessi- dade de dispositivos para coletar as fezes. (PEREIRA; PELÁ, 2006, p. 574)

Subcategoria 1: Aumento no apoio familiar/social

Vale destacar esta subcategoria como um dos fatores prin- cipais que auxilia e muitas vezes determina a melhor adaptação da pessoa com estomia. É salientado o apoio familiar e social nas falas abaixo:

“Vivo a mesma coisa, tenho novas amizades e ganhei muita força da minha família e de pessoas que nem imaginava.” (E1)

“Amigos no grupo de estomizados (UNESC), esposa, filhos.”

(E2)

Cetolin et al. (2013) dizem que as pessoas que são submeti- das à estomia intestinal definitiva irá vivenciar significativas altera- ções na dinâmica sociofamiliar, muitas vezes tornando-se fragiliza- das até o momento de recuperação.

Relatam ainda que “o suporte familiar e social pode promo- ver uma nova identidade à pessoa portadora, possibilitando retor- no da autoestima perdida e a reinserção social” (CETOLIN et al., 2013, p. 170).

Subcategoria 2: Valorização da vida

É notável que, de acordo com os relatos, ao serem questio- nados se consideram a situação de adaptação à estomia um exem- plo de vida, a maioria (oito dos nove participantes) considerou que sim, assim como também respondeu quais foram os benefícios da estomia. Eles referem que tiveram momentos de dificuldades e tris- tezas profundas até a total adaptação, porém conseguem visualizar a importância que a cirurgia teve e tem em suas vidas, tornando-se

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

71

mais fácil valorizá-la e passar a valorizar os momentos, pessoas e situações que antes nem pensavam em dar importância.

“Valorizo hoje muito mais minha vida. Meu círculo de amigos aumentou, sem dúvida me sinto confortada no grupo de esto- mizados, vendo que ainda existe pessoas com mais dificulda- des que eu e ainda sim vem lutando para viver bem.” (E1)

Sim. Muda a rotina, mas a alegria e a vontade de viver não muda. Um exemplo de superação.” (E4)

“Sim. Aproveitando uma segunda chance de vida.” (E9)

Diante de um estoma, pode-se dizer que há mudanças de cunho psicológico, assim como fisiológico; a primeira em virtude da necessidade de convívio diário com algo que não fazia parte de seu contexto, e a segunda relacionada a fatores como as complicações (TOZATO; ZIMMERMANN, 2010).

Percebe-se que, após o choque inicial de se verem com um es- toma, surgem, frequentemente, momentos de depressão por vezes prolongados e que dificultam a própria aceitação de sua condição. Essa tristeza é quase sempre acompanhada pela perda do prazer em atividades que antes eram valorizadas.

Carvalho et al. (2013, p. 58) afirmam que:

A atuação de enfermagem é de grande relevância, pois

além de dar suporte no período que antecede à cirurgia, é uma ação de aprendizado em que o enfermeiro e o pacien-

te interagem em uma relação empírica, buscando solucio-

nar problemas por meio do diagnóstico de enfermagem. É também através da consulta de enfermagem que se tem um acompanhamento direto do paciente, prevenindo compli- cações relacionadas ao estoma, e ajudando-o a enfrentar as dificuldades ocasionadas pelas mudanças ocorridas após a estomização.

72 Mariane Provin; Karina Cardoso Gulbis Zimmermann; Mágada Tessmann Schwalm; Neiva Junkes Hoepers & Luciana Rosa

Nascimento et al. (2011) dizem que o significado da estomia

é mudança de vida e enfatiza a atuação educativa da enfermagem

como um aspecto de suma importância no processo de adaptação,

a partir de orientações e ensinamentos para o convívio.

Na atenção integral, o enfermeiro pode fornecer informações que facilitem a adaptação do paciente à nova condição de vida, in- centivá-lo para que realize o autocuidado e ser o elo entre fami- liares e pessoa com estomia, para que a reabilitação seja facilitada (FARIAS; GOMES; ZAPPA, 2004).

Ardigo e Amante (2013) afirmam que sistematizar a assis- tência de enfermagem para o cuidado da pessoa com estomia intes- tinal e para sua família é fundamental no que tange à reabilitação para a autonomia e sua reinserção ao ambiente social de maneira integral, digna e humana. Dizem ainda que a família se constitui de peça fundamental nesse envolvimento, recebendo igualmente o suporte e as orientações tanto no espaço intra-hospitalar quanto domiciliar, assim, a enfermagem que se encontra nesse cenário, ao planejar o cuidado, estará participando do processo de reabilitação de forma efetiva.

Temos aqui relatos de gratidão, de pessoas que conseguem mesmo em uma situação desconfortável ver o quanto podem tirar proveito disso para que suas vidas se tornem mais “leves“ e conse- quentemente mais felizes.

É evidente nas falas que o apoio de pessoas próximas não só auxilia, mas determina muitas vezes a aceitação e adaptação da pessoa com estomia, como se pode constatar na fala seguinte, ao afirmar que “[…] o apoio e o estímulo dados pelas pessoas signifi- cativas ajudam o paciente a superar os seus sentimentos de perda, negação, revolta e falta de esperança. Eles se apegam a esse apoio para modificar e superar as suas limitações” [E3].

Para o ser humano, a fé ou a busca pela ajuda divina, fazem com que a pessoa se lance à procura de recursos para o en- frentamento da sua luta diária. (SALES et al., 2010)

Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

73

Entre as implicações no cotidiano da pessoa com estomia es- tão: o incômodo causado pelas dores; a fraqueza causada pela eli- minação mais rápida do que é ingerido; as mudanças alimentares e as mudanças relacionadas à mobilidade e à locomoção, que preju- dicam de forma intensa o convívio social.

Acredita-se que ser uma pessoa com estomia pode ser uma luta constante, mas tudo depende do suporte recebido a partir das equipes de saúde, bem como da família e, em especial, da visão oti- mista que se tem desse novo momento e que este veio proporcionar uma qualidade de vida. O apoio familiar é essencial nas fases de recuperação e reabilitação.

Ardigo e Amante (2013, p. 1.068) dizem que:

O aparecimento dos sentimentos negativos, pelos familiares,

reflete na pessoa, que desenvolve rejeição da sua própria condição, dificultando a aceitação e a adaptação. Dessa for- ma, tende implicar a qualidade do cuidado de enfermagem, pois como o mesmo envolve as orientações, devido à negação familiar. Cria-se uma barreira entre o profissional e a família, que se fecha, evitando diálogo e orientações, e prejudicando

o processo de ensino-aprendizagem do cuidado.

O processo de adaptação do paciente com a estomia é muito delicado, tanto para o paciente quanto para a família. A enferma- gem, então, pode compreender esse processo, com a humanização necessária para facilitá-lo, não apenas auxiliando o paciente, mas a família e o cuidador. Pois o familiar/cuidador deve entender como são as fases até o momento da aceitação e quais são as reações co- muns e não comuns desses pacientes para procurar ajuda, sempre se entendendo que cada um possui sua individualidade.

4

CONCLUSÃO

Esta pesquisa foi de grande relevância no que tange ao as- pecto do processo de adaptação da pessoa com estomia, podendo

74 Mariane Provin; Karina Cardoso Gulbis Zimmermann; Mágada Tessmann Schwalm; Neiva Junkes Hoepers & Luciana Rosa

até mesmo salientar qual o real papel da enfermagem na vida da pessoa e seus familiares. Papel este o qual perpassa a humanização, sendo então um facilitador e educador na reabilitação.

É válido lembrar que a pessoa com estomia não precisa so-

mente saber sobre os cuidados da bolsa de colostomia, mas neces- sita de apoio, fé e companheirismo de alguém que lhe indique o me- lhor caminho para se adaptar. Neste momento, entra o profissional da ciência do cuidado, que não somente trata e cuida, mas ensina o ser humano a se cuidar: o(a) enfermeiro(a).

A importância de uma capacitação e especialização para os

enfermeiros auxiliaria muito no processo de adaptação da pessoa com estomia. Devendo então esses profissionais serem mais bem preparados nos cursos de graduação de enfermagem e depois buscarem maior conhecimento com capacitações e cursos de es- pecialização. As instituições hospitalares e públicas são determi- nantes nesse processo de capacitação, podendo proporcionar aos seus profissionais maior conhecimento e às pessoas com estomia um melhor atendimento.

Se os enfermeiros não caminharem para buscar o saber e en- tender melhor, ficará certamente essa lacuna sem que se possa con- tribuir e promover o cuidado voltado à recuperação e reabilitação.

Sales et al. (2010) afirmam que uma das formas de contri- buir para a qualidade de vida das pessoas é compreender a sua linguagem, já que, por vezes, a pessoa na nova etapa de vida não demonstra todos seus sentimentos e suas dúvidas. O enfermeiro, ao estabelecer um processo de cuidado voltado às especificidades da pessoa com estomia e a partir de um ouvir qualificado e percepção aguçada, poderá evidenciar demandas de cuidado.

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Temas contemporâneos em pesquisa Volume I

75

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PARTE II

CULTURA, EDUCAÇÃO E LITERATURA

Capítulo I

EXPRESSÃO DO MOVIMENTO CONCEITUAL NA PROPOSTA DE DAVÝDOV

Ademir Damazio 1

Josélia Euzébio da Rosa 2

Daiane de Freitas 3

Sumário: 1. Introdução; 2. Orientações metodológicas e teóricas; 3. Discussões referen- tes ao objeto de estudo; 4. Tarefas com noções iniciais do sistema conceitual de equa- ção do segundo grau; 5. Considerações finais; Referências.

1

INTRODUÇÃO

O presente capítulo é expressão de nossas preocupações, entre outras, de promover um ensino que contemple as relações aritméticas, geométricas e algébricas no processo de elaboração e apropriação dos conceitos teóricos de matemática. As reflexões aqui apresentadas resultam de uma pesquisa vinculada a um pro- jeto mais amplo do Grupo de Pesquisa em Educação Matemática:

Uma Abordagem Histórico-Cultural (GPEMAHC).

Apresenta como objeto as possíveis tarefas particulares, que introduzem os escolares no movimento do pensamento para apro-

1

2

3

Professor Doutor em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação – Universidade do Extremo Sul Catarinense (PPGE/Unesc). add@unesc.net

Professora Doutora em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação – Uni- versidade do Sul de Santa Catarina (PPGE/Unisul). joselia.euzebio@yahoo.com.br

Estudante de graduação em Matemática – Licenciatura Plena pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – Unesc. Bolsista de iniciação científica (FUMDES).

daydfreitas@hotmail.com

80 Ademir Damazio; Josélia Euzébio da Rosa & Daiane de Freitas

priação do sistema conceitual matemático, que atinge as primeiras noções de equação do segundo grau. O esforço é para atender às pre- missas do modo de organização do ensino proposto por Davýdov e colaboradores, cuja tese é de que a escola tem como papel criar con- dições para o desenvolvimento do pensamento teórico dos estudan- tes (DAVÝDOV, 1982). Isto porque o modelo atual de ensino não visa a tal finalidade, visto que “as crianças não chegam à escola sabendo estudar, ao contrário, ocorre mediante um processo de apropriação, previamente organizado” (ROSA, 2012, p. 34). Tal proposição contra- põe-se ao modo de organização de ensino que busca atender apenas às possibilidades já formadas e presentes nas crianças. Trata-se, en- tão, da atividade de estudo, cujo conteúdo é o conceito teórico obtido pela apropriação, por parte dos estudantes, num processo dialético do pensamento de ascensão do abstrato ao concreto.

Da necessidade de organizar um ensino de forma que desen- volva no estudante atividade de estudo, para apropriação de um conceito em sua unidade, é que estabelecemos o seguinte objetivo:

elaborar possíveis tarefas particulares de estudo que contemplam as premissas davydovianas referentes à relação geral/universal/par- ticular/singular do conhecimento matemático e ao movimento do pensamento de ascensão do abstrato ao concreto. Para tanto, expres- saremos as ideias das proposições de Davýdov desde o primeiro ano de escolaridade. No nosso caso, atingiremos as noções do conceito de equação do segundo grau. A referência é a análise de uma situação singular, um painel decorativo de uma construção civil.

Vale esclarecer que o estudo está em andamento. Por isso, apresentaremos as tarefas que mostram o estágio atual da pesquisa, mas que acenam para a possibilidade de uma investigação que extra- pole as noções iniciais do conceito de equação do segundo grau para atingir um nível mais complexo de tal organização do ensino.

2 ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS E TEÓRICAS

Para alcançar tal objetivo, fez-se necessário o estudo de auto- res como: Davýdov (1982), no que se refere ao modo de organiza-

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ção do ensino que propicie a apropriação do conceito num processo de ascensão de abstrato ao concreto; Rosental e Straks (1958), na compreensão do princípio materialista histórico e dialético de abs- trato e do concreto como momentos do pensamento; e Rosa (2012), na objetivação da proposição de ensino de Davýdov para conceito teórico de número.

Em seus estudos, Rosa (2012) aponta a distinção entre a for-

ma de pensamento concebido com base em um ensino Tradicional 4

e o sistema de ensino davydoviano. No ensino Tradicional, o pen-

samento a ser desenvolvido é o empírico, pois opera mediante os conhecimentos cotidianos. Tem como ponto de partida a observa- ção, e por meio do processo de comparação de objetos – com bases sensoriais –, destaca-se e identifica-se o que há de comum e similar entre os objetos (ROSA, 2012). Por sua vez, no sistema de ensino de Davýdov, a ênfase é para o pensamento teórico que se obtém mediante a apropriação dos conhecimentos científicos, dados por meio de conceitos na forma de atividade mental, em que se “repro- duz o objeto idealizado e o sistema de suas relações, de modo que estas refletem em sua unidade a generalidade e a essência do movi- mento do objeto material” (DAVÝDOV, 1982, p. 300).

Por decorrência, o sistema de ensino de Davýdov também se

diferencia no que diz respeito ao movimento de apropriação: ascen- são do abstrato ao concreto. Nesse movimento, segundo Rosental e Straks (1958, p. 313-314), “não se cria o objeto concreto mesmo, que já existe antes e independentemente de que fora conhecido;

o que surge é o conceito concreto dele”. O concreto é considerado

ponto de partida (concreto caótico) e ponto de chegada (concreto pensado), o que requer um processo de análise mediado pelas abs- trações inerentes ao próprio conceito.

4 “Com o termo “escola tradicional” designamos um sistema relativamente único de educação européia, que, em primeiro lugar, se formou no período de nascimento

e florescimento da produção capitalista e à qual serviu; que, em segundo lugar

foi fundamentada nos trabalhos de Ya. Komenski, I. Pestalozzi, A. Diesterweg, K.

Ushinski e outros destacados pedagogos deste período e que, em terceiro lugar,

conservou até agora seus princípios iniciais como base para a seleção do conteúdo

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O concreto ponto de partida consiste na “percepção sensível, imediata do conhecimento”, que conduz à apropriação das proprie- dades e características externas que possibilita a apreensão de de- terminado objeto. Porém, o processo de apropriação não pode ter- minar nessas condições, pois, mesmo que resulte em conhecimento concreto, ainda é em nível difuso, visto que surge durante a seleção e comparação de objetos soltos dados sensorialmente (ROSENTAL; STRAKS, 1958, p. 300). Por sua vez, o concreto ponto de chegada “reflete o fato objetivo de que os fenômenos e objetos da realidade existem em uma unidade, como um todo composto de diferentes aspectos, qualidades e relações” (ROSENTAL; STRAKS, 1958, p. 298).

No entanto, esse movimento não se expressa de forma linear. Do mesmo modo, as abstrações mediadoras das necessárias análi- ses não surgem isoladamente, mas em um processo dialético, que as elevam a níveis mais complexos, capaz de levar o pensamento ao conhecimento concreto e multilateral. Ou seja, como síntese dos inúmeros aspectos conhecidos em sua unidade por meio da abstra- ção, o que torna o conhecimento mais profundo e repleto de conteú- do (ROSENTAL; STRAKS, 1958).

Como forma de explicitação da relação geral/universal/par- ticular/singular do conhecimento da matemática e do movimento do pensamento proposto por Davýdov (1982), elaboraram-se algu- mas tarefas que evidenciam o teor teórico do conceito de equação do segundo grau. Para tal, a referência foi um painel decorativo (Ilustração 1) que consta do acervo do GPEMAHC, por ter sido, jun- tamente com outros, objeto de estudo por pesquisadores do grupo.

com outros, objeto de estudo por pesquisadores do grupo. Ilustração 1 – Painel de azulejos Fonte

Ilustração 1 – Painel de azulejos

Fonte: Acervo GPEMAHC.

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A organização do ensino, conforme propõe Davýdov (1982), se refere à atividade de estudo – que constitui o segundo estágio de desenvolvimento da criança ao se inserir na educação escolarizada –, cujos componentes estruturais são “as tarefas de estudos e suas cor- respondentes ações e operações” (ROSA, 2012, p. 67). No desenvol- vimento das ações surge a necessidade de apropriação dos procedi- mentos de reprodução da resolução das tarefas particulares.

3 DISCUSSÕES REFERENTES AO OBJETO DE ESTUDO

Nessa seção, indicamos algumas tarefas que pressupomos necessárias à condução da apropriação das noções iniciais do conceito de equação do segundo grau. Inicialmente, elas seguem a orientação de Davýdov (1982) de explicitar a grandeza e a me- dida como referência de todos os conceitos matemáticos. Como o presente texto pode atingir leitores que não tenham alguma fami- liaridade com a referida proposta, contemplaremos nas primeiras tarefas particulares as ideias similares àquelas que Davydov (1982) sugere para a introdução das crianças no estudo do conceito de nú- mero. Posteriormente, discutiremos as tarefas com teor conceitual da equação do segundo grau.

Essas tarefas têm por objetivo propiciar as condições para que o estudante se coloque em ação investigativa. Além disso, em termos conceituais matemáticos, expressem as propriedades dos objetos (cor, forma, tamanho e posição) que permitem ser captadas sensorialmente pelo pensamento (Ilustração 2).

Ilustração 2 – Referência para a tarefa subsidiadora da ação investigativa

(Ilustração 2). Ilustração 2 – Referência para a tarefa subsidiadora da ação investigativa Fonte : Autores.

Fonte: Autores.

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O professor ou um colega pensa em uma das quatro figuras (Ilustração 2) a ser identificada pelos demais, com menor número de perguntas. As possíveis perguntas são: qual a forma da figura que você está pensando? Qual é a posição da figura? No entanto, outra variante é a cor da figura que, nesse caso, não faz sentido referenciá-la, visto que todas apresentam tal característica. Por meio do processo de investigação orientado pelo professor, os es- tudantes desenvolvem operações não espontâneas, como: levan- tar hipóteses, delimitar perguntas e estabelecer relações entre objetos.

Vale ressalvar que o conhecimento sensível é apenas o pon- to de partida para a apropriação do concreto síntese (ROSENTAL; STRAKS, 1958), em que o pensamento passa por um processo de abstração. Esse movimento, segundo Rosa (2012), é contemplado no conjunto de tarefas particulares da proposta de Davýdov refe- rentes às relações entre grandezas (área, massa, volume, entre ou- tros), analisadas por meio das propriedades (maior, menor e igual). O resultado dessas relações é representado nas seguintes formas e ordem: objetal, gráfica e literal. Por exemplo, se a tarefa requer a comparação dos pares de figuras (Ilustração 3), tem-se: 1) a repre- sentação objetal quando as crianças apresentam dois recortes de papel de forma retangulares (de mesmo tamanho, se as áreas são as mesmas, e diferentes, caso as superfícies são desiguais); 2) repre- sentação gráfica em que os recortes são substituídos por seguimen- tos; 3) representação literal que expressam as primeiras abstrações – igualdade e desigualdade (maior/menor) – em que as grandezas são representadas por letras e os segmentos substituídos por sím- bolos (=, ≠, >, <).

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Ilustração 3 – Representação da relação entre grandezas (áreas das figuras quadradas)

da relação entre grandezas (áreas das figuras quadradas) Fonte : Autores. No estudo das relações entre

Fonte: Autores.

No estudo das relações entre as grandezas, os escolares atin- gem as condições intelectuais para a reprodução teórica, que pos- sibilita a generalização e construção de um modelo universal. Tal síntese resulta do processo de comparação entre a grandeza (ser medida) e a unidade de medida (estabelecida), ilustração 4.

Ilustração 4 – Relação de comparação (modelo universal)

4 – Relação de comparação (modelo universal) Fonte : Autores. A busca de quantas vezes a

Fonte: Autores.

A busca de quantas vezes a unidade de medida (grandeza E) cabe na grandeza (X) permite o aluno determinar sua relação múltipla universal que, posteriormente, consistirá na reprodução

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do modelo universal para o conceito teórico de número por meio da relação divisibilidade A/B=N ou de multiplicidade A=BN entre grandezas (ROSA, 2012). Desse modo, o conceito a ser apreendido pelos escolares é o conceito de número real, visto que a apropria- ção deste resulta na síntese das múltiplas determinações, ou seja, números naturais, racionais e irracionais.

É nesse contexto da relação geral/universal/singular/par- ticular, caracterizadora do movimento conceitual da matemática, e no campo dos números reais que iniciamos as reflexões sobre a elaboração das tarefas particulares pertinentes à seguinte tarefa de estudo: obtenção das noções do conceito de equação do segundo grau por meio especial da comparação de grandezas, que possibili- te a formação de quadrado perfeito em termos aritméticos, geomé- tricos e algébricos.

Vale dizer que, no modo de organização do ensino davydo- viano, cada tarefa de estudo requer seis ações. No entanto, dare- mos ênfase, no presente texto, apenas às duas primeiras, quais se- jam: “Transformação dos dados da tarefa a fim de revelar a relação universal, geral, do objeto estudado” e “Modelação da relação uni- versal na unidade das formas literal, gráfica e objetal” (DAVÝDOV, 1988, p. 181).

4 TAREFAS COM NOÇÕES INICIAIS DO SISTEMA CONCEITUAL DE EQUAÇÃO DO SEGUNDO GRAU

Seguindo a orientação de Davýdov (1982), a tarefa de intro- dução tem por finalidade desenvolver ação investigativa no estu- dante, com orientação do professor e mediadas pelas situações de análises. Isso ocorre pela apresentação do painel decorativo (Ilus- tração 1), porém decomposto em partes que se constitui em uma sequência de superfícies quadradas, cujas áreas aumentam em re- lação à anterior (Ilustração 5).

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Ilustração 5 – Decomposição do painel decorativo

I 87 Ilustração 5 – Decomposição do painel decorativo Fonte : Autores. O processo de investigação

Fonte: Autores.

O processo de investigação será orientad