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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Instituto de História

Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de História REFORMISMO ILUSTRADO E POLÍTICA COLONIAL: NEGOCIAÇÕES E

REFORMISMO ILUSTRADO E POLÍTICA COLONIAL:

NEGOCIAÇÕES E RESISTÊNCIA NA CAPITANIA DO RIO NEGRO (1751-1798)

André Augusto da Fonseca

2016

REFORMISMO ILUSTRADO E POLÍTICA COLONIAL:

NEGOCIAÇÕES E RESISTÊNCIA NA CAPITANIA DO RIO NEGRO (1751-1798)

André Augusto da Fonseca

Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do

Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto de

Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ como parte dos requisitos

necessários à obtenção do título de doutor em História Social.

Linha de pesquisa: Sociedade e Política

Orientador: Prof. Doutor Antônio Carlos Jucá de Sampaio

RIO DE JANEIRO

2016

FOLHA DE APROVAÇÃO

Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de doutor em História Social.

Aprovada por:

Prof. Dr. Antônio Carlos Jucá de Sampaio - Presidente

Prof. Dr. Roberto Guedes Ferreira (UFRRJ)

Profª. Drª Carla Maria Carvalho de Almeida (UFJF)

Profª. Drª. Patrícia Maria Melo Sampaio (UFAM)

Prof. Dr. Ronald José Raminelli (UFF)

A todos os homens e mulheres que em algum momento se dedicaram à construção do conhecimento histórico, ampliando nossos horizontes e proporcionando, apesar de tudo, um sentimento de comunhão humana universal.

Agradecimentos

O grande número de dívidas acumuladas pelo apoio generoso e desinteressado de

tantas pessoas sempre leva a eventuais esquecimentos. Não posso, contudo, deixar de manifestar minha gratidão por tantos préstimos e tanto apoio que tive para realizar este trabalho. Registro com afeto algumas destas pessoas como não estamos mais no Antigo Regime, sei que não haverá conflitos de precedência.

Minha companheira Kezia, por tanto amor e dedicação incondicionais e que, a vários títulos, é praticamente uma coautora deste trabalho.

Minha família, pelo apoio em todas as horas.

Antônio Carlos Jucá de Sampaio, o grande Jucá, por sua ilimitada confiança em mim (que espero não ter se revelado exagerada), pela precisão das valiosas orientações, sempre nos momentos mais necessários.

Ângela Domingues (CHAM/IICT Lisboa), notável conhecedora da história de nossa Amazônia, por suas extraordinárias generosidade, hospitalidade e disposição ao diálogo.

Maria Luiza Fernandes (UFRR), que indicou tantas referências de fontes impressas,

e

também pelo apoio e leituras críticas (e carinhosas).

O

Colegiado do Curso de História da Universidade Estadual de Roraima, formado por

um grupo pequeno, mas tão unido - professores Maria José dos Santos, Lucas “Jabora” Avelar, Raimunda Gomes, Giseli Deprá, Manoel Lobo, Amarildo, Eduardo pelo companheirismo e confiança com que me foi concedida a autorização para o afastamento das atividades docentes, a fim de realizar esta pesquisa. Incluo nesse

reconhecimento a professora Adriana Iop Belintani, pelo entusiasmado apoio pessoal

e institucional à minha pesquisa.

A Universidade Estadual de Roraima, por permitir meu afastamento em condições

excepcionais, por dois anos, para a realização desta pesquisa.

Paulo Teodoro de Matos (CHAM; Universidade Nova de Lisboa), pelas lições, pela amizade, pela contribuição para meu amadurecimento como pesquisador

Antônio Otaviano Vieira Junior (RUMA - UFPA) e Dysson Teles Alves (UFAM), pelos ensinamentos e pela generosidade com que compartilhou documentos valiosos.

Toda a equipe da CAPES, orgulho do serviço público brasileiro, pelo apoio material inestimável para esta pesquisa.

RESUMO

Este trabalho examina as condições de implementação das reformas pombalinas no Estado do Grão-Pará e Maranhão na segunda metade do século XVIII e as transformações e continuidades verificadas nas relações de trabalho, identidades étnicas e mobilidade social, procurando identificar algumas das estratégias dos índios para conquistar espaços de autonomia e segurança na sociedade que então estava a se formar. A pesquisa utilizou documentos da época, como correspondência de agentes régios, relatos de viagem, censos, relatórios oficiais etc. Foi possível analisar algumas trajetórias individuais e coletivas. As alianças entre índios e brancos foram redefinidas no contexto estudado, assim como a identidade étnica de muitos indivíduos e grupos. A distinção entre “índios aldeados” e “índios moradores” somou- se, no período, a outros sistemas de hierarquias que organizavam aquela sociedade. O setor econômico ligado à exportação continuou articulado a um vasto setor de economia natural com práticas tradicionais, mas com novos papeis oferecidos aos índios.

Palavras-chave: Amazônia História Colonial; políticas indigenistas; povos indígenas; políticas indígenas

ABSTRACT

Enlightened Reformism and colonial policy :

negotiation and resistance in Rio Negro Captaincy (1751-1798)

André Augusto da Fonseca

Orientador: Prof. Doutor Antônio Carlos Jucá de Sampaio

Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos à obtenção do título de Doutor em História Social.

This paper examines the conditions of implementation of the Pombaline reforms in the State of the Grand-Para and Maranhao in the second half of the eighteenth century and the changes and continuities verified in labor relations, ethnic identity and social mobility, trying to identify some of the strategies of the Indians to achieve spaces of autonomy and security in colonial society. This research used contemporary documents as royal agents communication, travel reports, censuses, official reports etc. It made possible to analyze some individual and collective trajectories. The alliances between Indians and whites were redefined in these context, as well as the ethnic identity of many individuals and groups. The distinction between "settled Indians" (índios aldeados) and "Indian residents" (índios moradores) was added to the period, the other hierarchies systems that organized society. The economic export sector continued to articulate a vast natural economy sector with traditional practices, but with new roles offered to Indians.

Keywords: Amazon - Colonial History; indigenist policies; Indian people; indigenous policies.

Rio de Janeiro

2016

Sumário

Lista de Ilustrações

 

11

Lista

de

Tabelas

12

Abreviaturas

 

13

Introdução

 

14

1 Administrar os tapuios no ocaso da Monarquia Corporativa

21

1.1

A regulação do trabalho indígena no norte da América Portuguesa

30

1.1.1 A questão do trabalho indígena e o poder temporal dos missionários

31

1.1.2 Primeira metade do século XVIII: apogeu dos resgates e descimentos

47

1.2

Razão de Estado e Reformas no Estado do Grão-Pará e Maranhão

58

1.2.1 Vassalos livres, mas

tutelados

64

1.2.2 Mendonça Furtado e a reorganização da força de trabalho

67

1.3

As Leis de Liberdade de 1755 e o Diretório dos Índios

103

1.3.1 A “Lei sobre os casamentos com as Índias”

107

1.3.2 A “Lei para restituir aos Índios do Maranhão a Liberdade de suas pessoas

e

bens”

112

1.3.3

A “Lei para os índios serem governados por seus nacionais”

115

1.3.4

A criação da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão

123

1.3.5

O

“Diretório dos Índios”

126

2 Rio Negro e Pará: demografia e economia

137

2.1

Contagem da população: das primeiras tentativas à sistematização

145

3 O Cotidiano das povoações: adaptação, resistência e alianças

198

3.1 A reorganização das fronteiras étnicas

198

3.2 Trabalho

e

comércio

221

3.3 Forjando a elite dirigente do Rio Negro: casamentos de brancos com índias264

3.4 A participação na defesa

287

3.5 Índios no

governo da República

290

Considerações

Finais

294

Referências

300

Lista de Ilustrações

Figura 1: Distribuição média da população nas capitanias do Pará e Rio Negro,

18

1775-1779

Figura 2: Capitania do Pará na segunda metade do século XVIII

19

Figura 3: Capitania de São José do Rio Negro na segunda metade do século XVIII

20

Figura 4: Formas de incorporação e estatutos jurídicos dos índios no Grão-Pará até 1755

36

Figura 5:

saldos anuais dos movimentos migratórios (1774 a 1779, Pará e Rio

156

Negro)

Figura 6 Modelo para a tabulação dos dados populacionais de cada freguesia (povoações de brancos)

161

Figura 7: População total das capitanias do Pará e Rio Negro, 1773-1797

169

Figura 8: populações apenas de "índios aldeados" nas duas capitanias, 1762-1797

169

Figura 9: taxa de mortalidade (por mil): índios aldeados e pessoas livres não aldeadas (Pará e Rio Negro)

174

Figura 10: taxa de natalidade (por mil): índios aldeados e pessoas livres não aldeadas (Pará e Rio Negro)

175

Figura 11: Os 3 grupos da população do Pará e Rio Negro, 1773-1785

177

Figura 12: Pirâmide Etária produzida por ALMEIDA (1990, p. 172)

179

Figura 13: Reconstrução hipotética da pirâmide etária dos aldeados da Capitania do Rio Negro, 1774

180

Figura 14: gráfico da produção para consumo interno e exportação - Rio Negro,

184

1785

Lista de Tabelas

Tabela 1: Relação das pessoas que habitam as freguesias da capitania do Pará em 1765

148

Tabela 2: Mapa Geral dos índios da capitania do Rio Negro em 1762, pelo ouvidor Lourenço Pereira da Costa

151

Tabela 3: Populações totais do Pará e do Rio Negro

172

Tabela 4: População somente de "índios Aldeados" nas duas capitanias

172

Tabela 5: Cálculo das taxas de mortalidade e natalidade (capitanias do Pará e Rio Negro)

176

Tabela 6: produção de gêneros de consumo e de exportação - Rio Negro

182

Tabela 7: Mapa das plantações de toda a capitania de S. José do Rio Negro, no anno de 1775, calculado em visita das povoações

194

Tabela 8: Mappa dos gêneros da colheita dos moradores índios e brancos, das povoações da Cap. de S. José do Rio Negro; anno de 1775

195

Tabela 9: Produção de gêneros exportáveis - Rio Negro, 1764

223

Tabela 10: Rezumo dos Mappas das Contas da Thezouraria Geral do Commercio dos Índios - Despesas 1772

227

Tabela 11: Cálculo de algumas despesas da Capitania do Rio Negro

227

Abreviaturas

AHU Arquivo Histórico Ultramarino ANRJ Arquivo Nacional do Rio de Janeiro ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo BNRJ Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro CGPM Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão RIHGB Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro LGA língua geral amazônica

14

Introdução

Este trabalho examina as condições de implementação e alguns dos efeitos

concretos, no Estado do Grão-Pará e Maranhão 1 , das chamadas reformas pombalinas

particularmente, as Leis das Liberdades de 1755 e o Diretório de 1757. Esse ciclo

de reformas 2 foi considerado como “uma das dimensões mais inovadoras do reinado”

de D. José (MONTEIRO, 2008, p. 227).

O

Estado

setentrional

da

América

Portuguesa

apresentava

algumas

características que o diferenciavam significativamente do Estado do Brasil. No Estado

do Grão-Pará, as condições objetivas conspiravam contra o estabelecimento de uma

economia de plantation: “dificuldade de penetração, doenças tropicais, solos na

maioria pobres

(CARDOSO, 1984, p. 94). Pequenas partes do imenso território se

mostrariam adequadas para a agricultura do tipo desejado pelos europeus. A

Amazônia mostra, até hoje, um mosaico de paisagens e diferentes ecossistemas. Na

bacia do Rio Negro, observa-se

uma pobreza generalizada de nutrientes (oligotrofia). Possui formações naturais de terra firme, igapós (florestas inundadas) e

1 “O Estado do Maranhão foi instituído em 1621 como unidade administrativa separada do Estado do Brasil, diretamente ligada a Lisboa, em plena vigência da União Ibérica. Instalado em 1626, compreendia as capitanias reais do Ceará, Maranhão, Grão-Pará, Gurupá e as capitanias hereditárias de Caeté, Cametá, Marajó, Tapuitapera, Cabo Norte e Xingu. Extinto por um curto espaço de tempo em 1652, foi restabelecido em 1654 com a denominação de Estado do Maranhão e Grão Pará” (SAMPAIO, 2011, p. 42). Em 1751, o Estado passaria a ser chamado de Estado do Grão-Pará e Maranhão, passando o governador a residir permanentemente em Belém e sendo nomeado um governador subalterno a ele em São Luís do Maranhão (Instruções Régias, Públicas eE Secretas para Francisco Xavier De Mendonça Furtado, Capitão-General do Estado do Grão-Pará E Maranhão, IN MENDONÇA, 2005, p. 67-68, vol. I). Isso atestava o peso geopolítico atribuído por Sebastião José de Carvalho e Melo à bacia do Amazonas, em um momento em que se preparava a demarcação dos limites entre os domínios espanhóis e portugueses na América, estabelecidos pelo Tratado de Madri. Quatro anos depois, seria criada a capitania subalterna do Rio Negro. Em 1771, Rio Negro e Pará formariam um estado em separado.

2 Completado pela Companhia de Comércio do Maranhão e Grão-Pará e pela expulsão dos jesuítas em 1759, que não serão objeto desta pesquisa.

15

campinarana, esta última também conhecida como catinga do Rio

Negro, um tipo de vegetação peculiar à região. [

]

seus solos são

extremamente ácidos, arenosos e lixiviados [ ANTONGIOVANNI, MARINA, 2008, p. 12).

]

(RICARDO e

Como mostra o mapa da Figura 1, a maior parte da sociedade colonial das duas

grandes capitanias na segunda metade do século XVIII concentrou-se junto ao litoral

atlântico e próximo de um número reduzido de núcleos nos grandes rios, em áreas de

várzea, junto aos grandes lagos na foz dos afluentes do Amazonas (de maneira a

garantir

a

facilidade

de

acesso

à

pescaria).

As

monoculturas

de

exportação

concentravam-se nas áreas entre Bragança, Belém e Cametá. As expedições de

coleta das drogas do sertão (cacau, cravo, salsa, copaíba etc.) tinham como alvos

desde as ilhas próximas a Gurupá até os rios mais distantes como Madeira, Solimões,

Negro e Branco, passando pelo Tapajós, Xingu e vários outros. Até 1755, os núcleos

urbanos com autogoverno (câmaras) no Pará limitavam-se a Belém, Cametá, Vigia e

Caeté do Souza (Bragança). Todos os demais núcleos eram algumas dezenas de

aldeamentos missionários espalhados desde a vizinhança da capital e das vilas até

os confins ocidentais, nos rios Negro e Solimões. Com as reformas ocorridas no

período pombalino, praticamente todos os aldeamentos foram convertidos em vilas e

lugares sob administração laica, e novos núcleos foram fundados. Os mapas das

figuras 1, 2 e 3 oferecem uma representação dessa nova rede urbana tal como se

apresentaria no final do século XVIII. Quase todos os núcleos estavam à beira de rios

navegáveis, situados abaixo das cachoeiras que na maioria dos rios ofereciam

restrições às comunicações. A vasta rede hidrográfica navegável favorecia as

comunicações, mas ao mesmo tempo era o limite da colonização, que “seguiu a

orientação dos cursos d’água estreitamente, ficando vazias as enormes extensões de

16

Dilema persistente para a Coroa, pelo menos até a consolidação das fronteiras

coloniais na Amazônia, a relação entre índios e não índios foi objeto permanente da

legislação local e metropolitana. A mão-de-obra indígena era tão essencial para a

economia regional quanto a sua cooperação política o era para as finalidades

estratégicas, fiscais e militares da monarquia. Era necessário que os próprios índios

transformados em súditos católicos, portadores de valores culturais europeus

fossem os povoadores dos domínios portugueses, principalmente para legitimar as

novas fronteiras estabelecidas nos tratados entre Portugal e Espanha a partir de 1750.

Porém, quanto mais a Coroa protegia os índios, maior era o descontentamento dos

colonos do Maranhão e Grão-Pará, dificultando a obtenção de força de trabalho para

o modelo de economia colonial que se tentava implantar. Quanto mais condescendia

com os colonos, afrouxando tácita ou formalmente a proteção aos índios, mais se

acelerava o despovoamento da região, multiplicando-se as mortes em epidemias, por

excesso de trabalho ou pelo desmantelamento do sistema de produção de alimentos

nas comunidades em virtude das requisições de homens para o serviço real ou de

particulares que por sua vez motivavam o deslocamento de comunidades inteiras, o

movimento de fuga e abandono dos aldeamentos ou “deserções” individuais ou

coletivas, fartamente documentadas nos relatórios oficiais do período 3 .

Mesmo com todos os incentivos à migração de “casais das ilhas” (portugueses

dos arquipélagos dos Açores e da Madeira), a coroa jamais pôde prescindir dos povos

nativos como povoadores e como força de trabalho, como se depreende dos censos

coloniais

(capítulo

2

deste

trabalho),

da

correspondência

dos

governadores

3 Somente no Rio Negro, onze povoações estavam convertidas em ruínas abandonadas no século XIX (LEONARDI, 1999, p. 22). No total da capitania, existiam mais de 30 estabelecimentos no final do século XVIII.

17

conservada em diferentes arquivos (parte dela transcrita em MENDONÇA, 2005;

MELLO E PÓVOAS, 1983; REIS, 2006) e dos diferentes relatos de viagem de

autoridades civis, militares e eclesiásticas (SAMPAIO, 1825; FERREIRA, 2007).

Uma vasta quantidade de fontes pode ser tanto uma bênção quanto um grande

problema, pois reforça a tentação de investir em múltiplas frentes de investigação.

Procurei não cair no erro de interpretação que consistiria em ler a realidade da época

exclusivamente pelas formulações legais e jurídicas, evitando também o anedótico

dos “casos” e personagens pitorescos. Meu esforço foi no sentido de articular o macro

e o micro, procurando interpretar as transformações históricas interrogando os

grandes quadros proporcionados pela legislação, pelos dados gerais da demografia e

das exportações e as trajetórias de índios, brancos e mestiços, seus encontros e

desencontros.

No capítulo I, tratei de compreender, à luz dos paradigmas jurisdicionalista

(monarquia corporativa) e político (da Razão de Estado), as transformações que as

fontes indicavam nas relações de trabalho entre índios e brancos no Estado do

Maranhão e Grão-Pará, procurando delinear algumas continuidades e rupturas

nessas relações até a formulação e implementação das reformas de 1755-1759.

No Capítulo II, também com essa perspectiva teórico-metodológica, procurei

interpretar os dados materiais sobre a demografia e a produção da região.

No capítulo III, por fim, reconstituí algumas trajetórias individuais que lançam

alguma luz sobre como as reformas aconteceram na prática das povoações,

principalmente da capitania do Rio Negro. Tais reformas, em alguns aspectos,

acabaram contribuindo para uma reorganização das fronteiras étnicas e abriram

espaços para novas redes de alianças e variadas formas de adaptação e resistência.

18

18 Figura 1: Distribuição média da população 1775-1779 capitanias do Pará e Rio Negro (adapt. de

Figura 1: Distribuição média da população 1775-1779 capitanias do Pará e Rio Negro (adapt. de ROLLER, 2010).

19

19 Figura 2: Capitania do Pará na segunda metade do século XVIII (adaptado de ROLLER, 2010)

Figura 2: Capitania do Pará na segunda metade do século XVIII (adaptado de ROLLER, 2010)

20

20 Figura 3: Capitania de São José do Rio Negro na segunda metade do século XVIII

Figura 3: Capitania de São José do Rio Negro na segunda metade do século XVIII (adaptado de ROLLER, 2010)

21

1 Administrar os tapuios no ocaso da Monarquia Corporativa

O termo monarquia corporativa tem sido usado como sinônimo de Estado

moderno, chamando a atenção para o pluralismo jurídico que a caracteriza. Um

pluralismo, tanto no sistema jurídico quanto nas razões e formas pelas quais foi se

constituindo o império colonial, impedia na prática uma centralização real. “Estilos”

locais de decisão em tribunais, costumes locais e privilégios (iura própria) prevaleciam

sobre regras gerais em todo o direito comum europeu da época. Além disso, o

princípio de que uma lei posterior revogava uma lei anterior “[

]

não era estritamente

observado, porque direitos adquiridos à sombra da lei anterior deveriam ser

respeitados mesmo após a sua revogação”. Compreende-se, assim, a dificuldade de

implementação de novas políticas gerais, pois nem mesmo o rei poderia atropelar

direitos enraizados, sob pena de suas decisões serem anuladas por um tribunal

comum. Essa característica pode ter sido, ao menos inicialmente, uma vantagem

adaptativa para os ibéricos lidarem com um mundo complexo, heterogêneo e em

mutação, como aquele dos impérios que eles conquistaram (HESPANHA, 2010, p.

58-59). Ela também lança alguma luz sobre as dificuldades e resistências encontradas

pelos agentes régios que tentavam colocar em prática as novas políticas econômicas

e sociais a partir de meados do século XVIII no Estado do Grão-Pará, como veremos

mais adiante.

Dado que, no início da chamada idade moderna, a teoria corporativa da

Segunda Escolástica definia a justiça como primeira atribuição do rei, a área por

excelência do governo, compreende-se a importância dos tribunais e conselhos como

22

órgãos de governo, “normalmente dominados por juristas” e “com competências bem

estabelecidas”. Ao rei competiam também decisões de livre consciência em matéria

de graça, a atribuição de um bem, de uma mercê que não era juridicamente devida,

uma liberalidade régia que reforçava a legitimidade de seu poder.

Assim se

conformava o paradigma jurisdicionalista de legitimação do poder real. Na esfera

econômica,

pressuposta

a

ausência

de

interesses

contrapostos

no

seio

da

comunidade, inexistia a dicotomia de interesses que exigisse o exercício da justiça, o

que abria caminho para decisões baseadas na oportunidade (e não na justiça)

(SUBTIL, 1992, p. 157-158). Assim podemos compreender como foi possível, mais

tarde, surgir e desenvolver-se uma tendência regalista, isto é, de abertura para a

tomada de decisões de conveniência política que de algum modo rompiam com a

tradição.

A trajetória da monarquia portuguesa, no século e meio que se seguiu à

Restauração,

teve

naturalmente

continuidades

e

mudanças.

Se

nos

anos

imediatamente posteriores a 1640 o “príncipe novo” da dinastia dos Bragança precisou

transigir muito mais com os poderes corporativos, mais para o fim do século XVII

houve um curto experimento de governo de um “valido” (o conde de Castelo Melhor),

que enfrentou a repulsa dos tradicionalistas defensores da monarquia corporativa e

das antigas hierarquias. Na primeira metade do século XVIII, D. João V, não tendo

necessitado convocar as Cortes nem uma vez, criou um sistema ministerial mitigado

(as secretarias de Estado 1736) e deixou de convocar o Conselho de Estado, o que

levaria D. Luís da Cunha a considerar o governo português “despótico como o

espanhol”. Isso significava um “inequívoco declínio do governo dos conselhos e

tribunais”, no qual a Aristocracia sofria uma perda relativa de espaço, mas eram raras

ainda as políticas sistemáticas levadas a cabo pela Coroa as relações externas, a

23

política ultramarina, as mercês; no mais, a resolução de questões pontuais impostas

pela conjuntura (MONTEIRO, 2008, p. 37-46)

Como Jack Greene resumiu, a literatura mais recente tem apontado que em

toda a Europa “o primeiro Estado Moderno, sempre limitado em seus recursos fiscais,

administrativos e coercivos, foi caracterizado por sistemas de governança indireta e

por soberanias fragmentadas”. Na construção de Estado, a autoridade não fluiu do

centro para a periferia, mas foi sendo estabelecida por “uma série constante de

negociações e barganhas recíprocas” (GREENE, 2010, p. 111).

Disso decorre a necessidade incontornável de compreender as dinâmicas

internas de formação das sociedades coloniais. A literatura recente tem evitado a

dicotomia ou divisão estanque entre colonizador e colonizado, dado que ambos teriam

como referência o denominador comum da religião e da soberania portuguesa. Em

um enfoque mais relacional, tem-se interpretado o poder da coroa como resultado “da

combinação circunstancial dos recursos e estratégias mobilizados pelos diferentes

atores sendo a coroa um deles que atuavam nos vários atos desse complexo

enredo governativo” (GOUVÊA, 2010, p. 157-166). De forma semelhante ao que

ocorria no Velho Mundo,

Uma vez constituída a sociedade colonial e suas elites, estas se valeram de diferentes estratégias – como de uma política de alianças, do sistema de mercês e da luta pelos cargos concelhios – no sentido de garantir a sua posição no topo da hierarquia econômica e administrativa da colônia. E assim ter instrumentos para negociar com a coroa. Afinal, a concessão de mercês – como terras, ofícios e privilégios no comércio – era monopolizada, em última instância, pelo rei, fenômeno que diz respeito ao estabelecimento de relações de vassalagem e de lealdade (FRAGOSO, GOUVÊA, M. DE F. S. e BICALHO, M. F. B., 2000) .

Os estudos de Fragoso (1993; 1998), Jucá de Sampaio (2003), entre outros,

baseados em rico e variado material empírico, mostraram que as atividades

24

econômicas e a acumulação de terras, escravos e outros recursos em busca de status,

por vias mercantis ou não 4 , reforçavam a legitimação da ordem social hierárquica

típica de Antigo Regime, a unir as elites de cá e de além-oceano. Além disso, o

sistema de mercês, configurando uma economia política de privilégios, reforçava

continuamente os laços de dependência entre os súditos portugueses (nobres ou não)

que prestavam serviços em todos os quadrantes do Império e a coroa, que tinha o

poder de distribuir ou confirmar favores, isenções e rendas amiúde associados a

cargos administrativos (RUSSEL-WOOD, 1998). Redes de reciprocidade e clientela

uniam

parceiros

comerciais,

procuradores

e

agentes

régios

do

Reino

e

das

Conquistas (FRAGOSO, GOUVÊA, M. DE F. S. e BICALHO, M. F. B., 2000, p. 75-74).

Mais ainda, a “economia política de privilégios”, unindo de um lado uma nobreza que

não possuía em geral propriedades que lhe garantissem autonomia econômica e, de

outro, uma monarquia com recursos materiais e humanos limitados, era forjada por

cadeias de negociação e redes pessoais e institucionais de poder que, interligadas, viabilizavam o acesso a cargos e a um estatuto político – como o ser cidadão –, hierarquizando tanto os homens quanto os serviços em espirais de poder que garantiam coesão e governabilidade ao Império (p. 79).

Uma ideia de cidadania (bem distinta daquela que conhecemos após a

Revolução Francesa) concretamente se difundia por todo o Império Português e

contribuía para cimentar a monarquia pluricontinental. Nessa sociedade de antigo

regime, cidadãos eram aqueles que tinham exercido cargos camarários e seus

descendentes. Eram aqueles que participavam da governança da comunidade, ou

4 Ou seja, pela via política da acumulação de rendas, privilégios e monopólios comerciais associados à chamada “economia do bem comum”, que esbatia os limites entre a atividade econômica e o governo da república (FRAGOSO, GOUVÊA, M. DE F. S. e BICALHO, M. F. B., 2000); ou pela conquista e “guerra justa”, fonte de escravos e terras; ambas as vias eram apanágio de uma “nobreza da terra” nas conquistas, reafirmando uma hierarquia social excludente (SAMPAIO, 2003).

25

seja, os responsáveis pela res publica e que, por isso, gozavam de todos os privilégios

e liberdades que outrora cabiam aos infanções e ricos-homens (BICALHO, 2001). As

barreiras que limitavam o acesso a esse círculo podiam ser, às vezes, insensíveis aos

maiores esforços de plebeus que tentavam ingressar nele. Na primeira metade do

século XVIII, ao descrever Paulo da Silva Nunes notório adversário dos jesuítas e

incansável militante dos interesses dos moradores do Pará em usar o trabalho

indígena o padre Jacinto de Carvalho, S.J., explicou que os camaristas de São Luís

e Belém hesitaram por vários anos nomeá-lo seu procurador em Lisboa

porquanto tinha sido barbeiro de Christovão da Costa Freire, e por desinquieto, mal visto delle, e posto que se casasse com uma filha de um cidadão pobre, elle nunca tinha entrado no número dos cidadãos, nem servido na câmara, e quando nesta côrte se não podia sustentar, e tratar nobremente, julgavão por grande desdouro seu, ter tal homem por procurador nesta corte. 5

Tanto os cidadãos quanto os plebeus desprezados por eles (como Paulo da

Silva Nunes) ou vassalos indígenas podiam ser ouvidos pelos agentes régios em

todos os níveis e peticionar ao próprio monarca, o que significava criticar ou tentar

modificar certos aspectos do sistema político ao mesmo tempo em que se legitimava

esse mesmo sistema. Sem embargo, como lembra Hespanha, isso não significa diluir

5 Papel que o Padre Jacintho de Carvalho, Visitador Geral das Missões do Maranhão, apresentou a El-Rei para se juntar aos dous requerimentos do procurador Paulo da Silva Nunes. Datada do Colégio de Santo Antão, 16 de dezembro de 1729 (MORAIS, 1858-1863, p. 322). Em requerimento analisado pelo Conselho ultramarino em 1738, Paulo da Silva alegava ter lutado (como simples soldado) na Guerra de Sucessão Espanhola, passando em seguida ao Estado do Maranhão e Grão-Pará, onde dizia ter servido como secretário do governador, capitão de infantaria dos privilegiados de Belém, capitão mor das Vilas de Vigia e Icatu e superintendente das fortificações, tendo explorado os limites do Estado viajando por mais de mil léguas. No entanto, como já estava na corte às suas custas fazia 14 anos, representando os cidadãos de Belém e alertando a monarquia sobre as formas de aumentá- la temporal e espiritualmente, encontrava-se “em tal extremo de pobreza, que não tem o que vestir descentemente, nem com que se alimentar, em termos de pedir de porta em porta uma esmola como mendigo”. AVISO do [secretário de estado da Marinha e Ultramar], António Guedes Pereira para o [conselheiro do Conselho Ultramarino], José de Carvalho e Abreu, para que se consulte sobre o requerimento do procurador dos Povos do Maranhão e Pará, Paulo da Silva Nunes, no qual solicita vestuário e alimentação. Anexo: requerimento. AHU_CU_013, Cx. 21, D. 1942.

26

a realidade da violência colonial e reeditar a propaganda do “colonialismo doce” do

lusotropicalismo de Gilberto Freyre, apropriado pela ditadura de Salazar no século XX.

A fraqueza do Estado a que Hespanha se refere se verifica mais diante dos núcleos

locais de poder dos brancos nas colônias, e menos diante dos grupos nativos não-

europeus. De qualquer forma, “importa sempre reter que a experiência colonial era,

por sua natureza, muito violenta e que mesmo a negociação era sempre prosseguida

‘sob a sombra e a ameaça do Leviatã’” (HESPANHA, 2010, p. 48).

Dessa forma, vemos um único reino (Portugal), com uma aristocracia peculiar,

dono de uma miríade de conquistas heterogêneas em suas origens, populações e

estatutos um mundo no qual comerciantes, oficiais, aristocratas e corporações

(concelhos, corpos de ordenanças, irmandades, tribunais) utilizam intensamente

diversas formas de comunicação política e “conferem aderência e significado às

diversas

áreas

vinculadas

entre

si

e

ao

reino

no

interior

dessa

monarquia

(FRAGOSO, 2010, p. 18).

 

Essa

é

a

realidade

que

vem

sendo

denominada

de

Monarquia

pluricontinental, relação dialética entre coroa e ultramar com acentuada e estrutural

dependência

da

primeira

em

relação

aos

recursos

oriundos

dos

domínios

ultramarinos. Tais recursos ultramarinos a dispensavam de exercer grande pressão

tributária internamente (MONTEIRO, 2003, p. 24), ao mesmo tempo em que,

reciprocamente, era respaldada “por grupos locais espalhados pelo império que

igualmente dependiam do reconhecimento e do aval institucional da coroa para

manter suas posições sociais diante das sociedades em que viviam”. Nos séculos XVI

e

XVII,

ressalvadas

algumas

flutuações

conjunturais,

“A

exemplo

de

outras

arquiteturas políticas da Europa Moderna, a portuguesa era polissinodal e corporativa;

27

portanto, existiam concorrência e negociação entre seus poderes” (FRAGOSO J. L.,

2010, p. 19; GOUVÊA, 2010, p. 185).

Todavia, diferentemente do modelo da Monarquia Compósita proposto por

John Elliot para o poder Habsburgo, que controlava Castela e outros tantos reinos

europeus, além das conquistas ultramarinas (ELLIOTT, 2010), “[

]

a

ideia de

monarquia pluricontinental tende a sublinhar tais pactos das nobrezas da terra ou

entre os que ocupavam cargos honrosos da república (município) e a Coroa”

(FRAGOSO, 2012, p. 18). Em todas as partes do império, encontra-se a prática

tradicional da prestação de serviços excepcionais dos “homens bons” das colônias ao

rei na defesa, na conquista e na produção de conhecimento sobre o Império, nas

doações extraordinárias para o esforço de guerra ou no atendimento de solicitações

da coroa em constantes agruras financeiras em troca de mercês reais que

concediam ou confirmavam privilégios, postos administrativos civis e militares e

rendas.

Para uma melhor compreensão do funcionamento dessa monarquia, a ênfase

recai sobre as redes, conjuntos relacionais dotados de conexões constantes e

recorrentes, com “capacidade de influir, de intervir, de desenvolver estratégias, de

alterar o ritmo e o rumo dos acontecimentos em razão de um dado objetivo ou

interesse” (GOUVÊA, 2010, p. 167-168). É um conceito-ferramenta útil para interpretar

e dar sentido às ações dos sujeitos históricos, tanto europeus como indígenas, como

veremos nos capítulos a seguir.

No lugar de um Estado moderno, absolutista, centralizado, submetendo de

forma unilateral e homogênea vastos domínios coloniais, o que vemos é uma

descentralização sistêmica em função das longas distâncias que separavam as

distintas partes dos domínios portugueses, das lutas das Câmaras, da necessidade

28

de governadores e vice-reis tomarem decisões urgentes (RUSSEL-WOOD, 1998).

São constitutivos do período, portanto, a ausência de um projeto colonial unificado,

um estatuto colonial sem unidade, um pluralismo jurídico que autorizava governadores

e vice-reis a criarem direito ou dispensarem o direito existente nas urgências da época

(HESPANHA, 2001, p. 174-175). Marcas estruturais dos sistemas políticos de Antigo

Regime na Europa e nas colônias, a falta de uniformidade, o conflito de jurisdição, a

justaposição institucional, a negociação dos vínculos políticos e a ineficiência

administrativa

não

eram

prerrogativas

apenas

dos

domínios

(HESPANHA, 2010, p.51-53; GREENE, 2010).

portugueses

Por outro lado, não se podem negar as singularidades de Portugal nesse

desenvolvimento, com uma certa autonomia em determinados momentos dos corpos

municipais do Reino e uma autonomia senhorial e regional quase inexistente, em um

quadro de relativa homogeneidade institucional (dentro do Reino) e ausência de

rebeliões internas com acentuado cunho regional, étnico ou religioso (MONTEIRO,

2003). Aliás, também as Câmaras tinham seu poder delegado pela Coroa. Ainda

assim,

governar a municipalidade significou um amplo e extenso leque de possibilidades para recrutamento de clientes para formar suas casas ou bandos e, ao mesmo tempo, molestar e, eventualmente, dominar grupos oponentes. Externamente, a nobreza das câmaras administrava um conjunto de matérias muito significativo, tais como o acesso ao status de vizinho – um tipo de ‘cidadania local’ que os capacitava a exercer direitos e reivindicar graças e vantagens – ou a definição dos termos de todas as negociações políticas com o poder régio e seus servidores (HESPANHA, 2010, p. 71).

Servir nas câmaras, ao mesmo tempo em que significava preito de lealdade ao

rei, era ter acesso à nobreza política, estado intermediário entre a nobreza antiga de

sangue e o povo mecânico (BICALHO, 2001). No capítulo 3, veremos como as

Câmaras representavam, apesar das circunstâncias peculiares da região, uma forma

29

importante de ascensão social para índios e brancos nas vilas de maioria indígena.

Bem entendido, eram imensas as diferenças de prestígio social entre as câmaras de

vilas pequenas e pobres e as câmaras de capitais importantes. Embora a Câmara de

Barcelos tivesse sido galardoada com os privilégios dos cidadãos de Belém ou seja,

os mesmos privilégios dos cidadãos da cidade do Porto (FERREIRA, 2007, p. 243)

, certamente ser um oficial camarário em uma grande cidade do Reino ou da América

era muito diferente de sê-lo em uma pequena vila como Silves ou Moura. Em matéria

de nobrezas, “tudo pende da reputação, & comum estimação dos povos”, como

ensinava Antonio de Villasboas e Sampayo (1676, p. 144). Por isso,

Os Vereadores só acquirem nobreza, quando são eleytos nas

Cidades, & Villas notáveis, & em que sométe costumam servir os

nobres. [

mecânicos entrão em semelhantes officios, nenhúa nobreza alcançaõ

]” [

Nas Villas, & lugares pequenos, em que os plebeos, &

]

(VILLASBOAS E SAMPAYO, 1676, p. 144-145). 6

As relações entre oficiais camarários das vilas de menor importância e os

governadores e demais agentes régios e eclesiásticos serão muito variáveis.

A partir de Mendonça Furtado, os governadores parecem ter tido um poder

político e militar bastante efetivo no Estado. Além disso, devido às grandes distâncias

entre os territórios ultramarinos e a metrópole, “apesar do estilo altamente detalhado

das cláusulas regimentais e da obrigação de, para certos casos, consultarem o rei ou

o Conselho

Ultramarino, os vice-reis e governadores gozavam, de fato, de uma

grande autonomia”, constando sempre nos seus regimentos, inclusive, uma cláusula

6 No próprio Reino, as elites locais que já tinham prestígio resistiam a participar das câmaras em concelhos de dimensões muito reduzidas. Não apenas era duvidoso que participar em pequenas câmaras “rústicas” acrescentasse prestígio social como também ser camarista em um município sem rendas podia ser “ruinoso para juízes ordinários, vereadores e procuradores, que, conforme muitas vezes se queixavam, tinham de pagar dos seus próprios bolsos parte das terças devidas à coroa” (MONTEIRO, 1993, p. 326).

30

que os autorizava a desobedecer às instruções régias, sempre que avaliassem ser do

interesse do serviço real (HESPANHA, 2001, p. 174-175). Essa autorização para criar

direito ou suspender o direito existente era característica de um mundo diferente

daquele dos direitos estabilizados dos reinos europeus, um mundo em mudança e

com poucas referências para os atores sociais, “em que a justiça tinha que ser criada,

ex novo, pela vontade do príncipe, tirando partido da oportunidade e das mutáveis

circunstâncias dos tempos” (p. 175). Para tornar a coisa mais complexa, embora

governadores de capitanias e donatários devessem prestar contas e obediência ao

governador-geral

do

Estado,

“simultaneamente,

eles

deviam

obediência

aos

secretários de Estado em Lisboa. Esta dupla sujeição criava um espaço de incerteza

hierárquica sobre o qual os governadores locais podiam criar um espaço de poder

autônomo efetivo” (pp. 177-178). Operando dentro dessa margem de autonomia,

Francisco Xavier de Mendonça Furtado iria alterar significativamente o alcance das

Leis de liberdade dos Índios de 1755, como veremos no final deste capítulo.

1.1 A regulação do trabalho indígena no norte da América Portuguesa

A inteligibilidade dos processos históricos no norte da América Portuguesa

depende da compreensão das relações de trabalho nessa sociedade, que envolviam

quase sempre indivíduos e grupos ameríndios. Uma longa tradição historiográfica 7

ataca mais ou menos apaixonadamente as Reformas Pombalinas e sua intervenção

7 A começar, naturalmente, pelos jesuítas do final do século XVIII, os maiores prejudicados pelas reformas, como os padres João Daniel (2004a) e Anselmo Eckart (1987 [1779]), passando por Capistrano de Abreu (1998) até pesquisadores contemporâneos como Moreira Neto (1988).

31

mais concreta nas relações de trabalho (o chamado Diretório dos Índios) como

responsáveis pela degradação mais profunda das condições de vida dos índios como

grupo da sociedade colonial do Grão-Pará. Seguindo as evidências deixadas pelas

fontes da época, entretanto, esta seção discutirá o quanto essas reformas

independentemente do grau de seu êxito em suas múltiplas frentes representaram

uma inflexão substancial na história da relação entre ameríndios e brancos na região:

tendo sido sempre sujeitos históricos ativos, os indivíduos e grupos nativos passam a

ser oficialmente reconhecidos como tais pela Coroa, igualados juridicamente aos

demais vassalos da monarquia. Do ponto de vista dos ameríndios integrantes da

sociedade colonial, essa nova realidade não podia deixar de oferecer novas e

interessantes oportunidades para proteger ou aumentar sua autonomia e para

preservar direitos, valores e tradições próprias. Somente depois das Leis de Liberdade

de 1755 é que índios (não todos) são sistematicamente tratados na documentação

como “moradores” ou “adjuntos”, em condição de igualdade jurídica com “moradores

brancos,

o

que

não

era

trivial.

Esta

seção

concentra-se

nas

mudanças

e

permanências na legislação indigenista da Coroa.

1.1.1 A questão do trabalho indígena e o poder temporal dos missionários

Como se trata de assunto de grande complexidade, pode ser útil começar

classificando esquematicamente as formas de acesso dos “moradores” ao trabalho

indígena e os diferentes estatutos jurídicos desses trabalhadores. Ao longo do

primeiro século e meio de colonização, os índios eram divididos entre escravos e

“forros”; após 1755, todo tipo de cativeiro indígena é banido e, formalmente, todos os

32

índios seriam livres alguns deles proprietários, a maioria pequenos lavradores

sujeitos a alguma forma de trabalho compulsório, mas assalariado. Certamente,

diversas fontes do final do século XVIII e início do XIX continuaram mencionando

casos de escravização aberta ou velada de índios, o que indica uma resistência

estrutural às Leis de liberdade. É o caso do Cônego André Fernandes de Souza que,

em um memorial dos anos 1820 dirigido ao imperador, denuncia a violação

generalizada da vedação do cativeiro indígena por parte dos últimos governadores

coloniais da capitania do Rio Negro (SOUSA, 1848, p. 490).

Antes de 1755, as formas de acesso ao trabalhador índio eram, em geral, o

descimento, o resgate e a guerra justa, que serão tratados com maior aprofundamento

a seguir. Pode-se antecipar, resumidamente, que o descimento incorporava à

sociedade colonial grupos mais ou menos grandes de ameríndios, sob a liderança de

um principal que negociava as condições da adesão de seu grupo com as autoridades

régias ou com os missionários. Os grupos “descidos” ou “reduzidos”, por definição,

convertiam-se à fé católica e, durante todo o período colonial, eram considerados

livres e não podiam legalmente ser escravizados. Sujeitavam-se, no entanto, a formas

mais ou menos duras de trabalho compulsório assalariado, “repartidos” de diferentes

maneiras entre o serviço dos particulares, o serviço para os missionários e o serviço

real. Com raras exceções, o descimento era voluntário ainda que premido por

situações

de

extrema

adversidade,

como

guerras

com

outras

etnias

nativas,

epidemias, desorganização do sistema produtivo, fome etc. Ainda que precisando

contornar muitos escrúpulos jurídicos e morais, o rei chegou a autorizar, uma vez,

“descimentos forçados”: atendendo à conveniência de terem as capitanias do Estado

“os Índios que lhe são necessários para a cultura das Fazendas, e[ ] sobre tudo tiral-os da barbaridade em que vivem, comendo-se huns

33

esses povos tinha sido acauza da pobreza em que estavão os moradores, e da mesma forma a Fazenda Real por consistir nos

por resolução de desasete de Fevereiro

deste prezente anno tomada em consulta do meu Conselho

o descimento dos Índios pode ser de dois modos; o

primeiro indo os Missionarios ao Sertão (posto que com guarda de soldados para sua segurança) persuadir aos Índios as conveniências

que lhe resultão, e os perigos de que ficão livres, reduzindo-se a viverem nas Aldeas com trato publico e próprio de homens racionais, e eles então voluntariamente quiserem descer para se Aldearem, nenhum escruplo pode haver na matéria, sendo depois tratados nas

e outro de os descer

contra sua vontade presedendo ameaços, ou obrigando-os por força

a que desção, he aonde pode haver o escruplo, por que [

homens são livres e ezentos da minha jurisdição, que os não

pode obrigar a sahirem das suas terras para tomarem hum modo de vida de que eles não se agradão, ou que se não he rigoroso o captiveiro, em certo modo oparece, porque ofende a liberdade.

são como os outros Tapuias bravos,

que andão nus, não reconhecem Rey, nem Governador, não vivem com forma, e modo de Republica, atropellão as leis da natureza, não fazem diferença de May e filha para satisfação de sua lasciva, comem-se huns aos outros, sendo esta gula acauza injustíssima das suas guerras, e ainda fora delas, os excita afrecharem

os meninos inocentes: sou servido que se possão obrigar por força, e medo a que desção do Sertão para as Aldeas, se o não quiserem fazer

por vontade por ser assim comforme a opinião dos Doutores [

rei ressalvava que essa coação deveria ser moderada de modo a não haver mortes nos Índios (a não ser em legítima defesa) e que se, depois de Aldeados, se “aperseverarem na pulitica, e desistirem da sua fereza”, deveriam receber salários, sustento e vestido, não ficando cativos – Carta Régia de 9 de março de 1718, grifos meus (Livro Grosso do Maranhão - 2a parte, 1948, p. 153-154).

O

Comtudo se estes Índios [

Aldeas não como escravos, mas como livres [

Ultramarino [

Dizimos o seu rendimento, [

]

]

],

] estes

]

]”.

Distinto dos descimentos, o resgate seria a compra de índios prisioneiros de

outros índios, que teriam dessa forma o corpo e a alma salvos (do sacrifício

antropofágico e do inferno, respectivamente) pelo colono, que teria como retribuição

o trabalho do resgatado, por tempo determinado ou por toda a vida. As Guerras

Justas, ofensivas ou defensivas, vinham de longa tradição jurídica e prática dos

cristãos ibéricos; deveriam ser referendadas e autorizadas expressamente pelo rei

(quando ofensivas) ou pelo governador ou por uma junta (quando defensivas). Já no

século XIV, na Península Ibérica do tempo da “Reconquista” contra os “mouros”,

conceituava-se guerra justa aquela que atendia a 3 requisitos uma grave injustiça

34

precedente; guerra conduzida “com intenções puras” e declarada por autoridade

competente (OLIVEIRA, 2014, p. 185).

Aliás, de maneira condizente com essa origem, as Guerras Justas não podiam

ser

vistas

apenas

como

forma

de

obtenção

de

trabalhadores,

pois

visavam

“fundamentalmente a produzir efeitos na dimensão territorial, acompanhando um

processo

de

conquista”

(OLIVEIRA,

2014,

p.

192).

Os

dois

aspectos

são

indissociáveis. A origem dos repartimientos (mais tarde chamados de encomiendas),

que

Colombo

inaugurara

nas

Antilhas

remontava

às

guerras

medievais

da

Reconquista,

quando

a

coroa

repartia

gentes

e

terras

conquistadas

como

recompensas aos combatentes cristãos (MACLEOD, 1990, p. 150).

Na América Portuguesa, de forma geral, os prisioneiros feitos nessas guerras

justas eram legalmente escravizados, até 1755, momento de estabilização das

conquistas na Amazônia ocidental.

Formalmente, autorizava-se a escravização de povos nativos inimigos e de

prisioneiros de guerra, mas não a de povos indígenas amigos ou pacíficos. Isso não

impedia que moradores e governadores burlassem a legislação, evidentemente.

Somente em três ocasiões toda e qualquer forma de escravização indígena foi vedada

legalmente: ineficazmente em 1609 e 1680, e de forma mais efetiva e duradoura em

1755. A lei de 1680 reafirmava a validade da de 1609, e a de 1755 suscitava a validade

da de 1680, revogando todos os diplomas legais que abriam brechas para o cativeiro

indígena. Elas eliminaram, ao menos formalmente, todas as possibilidades legais de

escravização de índios em qualquer hipótese. As duas primeiras foram inspiradas

pelos jesuítas, a terceira contra eles, já que articularia a liberdade (proibição da

escravização) com o fim do poder temporal dos missionários sobre os índios. Não

deveria nos surpreender, contudo, que em cada uma dessas ocasiões tenham sido

35

criadas formas de se escravizar formal ou sub-repticiamente os índios. De acordo com

a Lei de 30 de julho de 1609,

para se atalharem os grandes excessos que poderá haver, se o

cativeiro em algum caso se permitir, e para de todo se cerrar a porta a isto, declaram-se todos os gentios daquelas partes do Brasil livres, conforme a Direito e seu nascimento natural, assim os que já forem, batizados e reduzidos à nossa Santa Fé Católica, como os que ainda viverem como gentios conforme os seus ritos e

cerimônias; os quais todos serão tratados e havidos por pessoas livres, como são; e não serão constrangidos a serviço, nem a coisa alguma, contra a sua livre vontade; e as pessoas que deles se servirem nas suas fazendas lhes pagarão seu trabalho, assim e da maneira que são obrigados a pagar a todas as mais pessoas livres, de que se servem; podendo outrossim os ditos gentios com liberdade e segurança possuir sua fazenda e propriedade, morar e comerciar com os moradores das capitanias(MALHEIRO, 1976, pp. 177-178; grifos meus).

] [

A mesma lei confirmava os jesuítas como protetores dos índios, encarregados

de definir, junto com o governador, sobre os aldeamentos, entrega de índios para o

serviço real e para servir aos moradores; nenhuma autoridade teria sobre os índios

mais poder que sobre as demais pessoas livres. Deveria ser nomeado um curador

dos Índios e, de forma radical, anulava-se em função dos muitos abusos passados o

cativeiro de todos os que foram ilegalmente escravizados, sendo declarados nulos os

títulos e sentenças em contrário. A argumentação da Lei de 1680 para proibir

totalmente o cativeiro indígena é quase idêntica à de 1609 (CARVALHO, 1983, p. 91).

No entanto, não passou despercebido aos moradores do Estado que um alvará de 12

de fevereiro de 1682 atenuava essa liberdade dos índios em benefício dos assentistas

da nova Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, autorizando a estes

últimos “fazer no sertão as entradas que quisessem, e ter na capitania até cem casais

de índios a seu serviço” (MALHEIRO, 1976, p. 193).

De forma simplificada, Bessa Freire (2011, p. 75) propõe o seguinte esquema

de entrada e destino dos ameríndios no sistema colonial:

36

36 Figura 4: formas de incorporação e estatutos jurídicos dos índios no Grão-Pará até 1755 (Freire,

Figura 4: formas de incorporação e estatutos jurídicos dos índios no Grão-Pará até 1755 (Freire, 2011)

Leila Perrone-Moisés critica o simplismo (recorrente em grande parte da

historiografia) que consiste em interpretar a caudalosa legislação indigenista colonial 8

como “hipócrita” ou mero reflexo de pressões políticas exercidas junto à Coroa pelos

dois grandes grupos de atores na questão indígena colonial: jesuítas e colonizadores

8 João Francisco Lisboa enumera os seguintes textos legais emitidos pela Coroa sobre esse único tema: “20 de março de 1570, 22 de agosto de 1587, 11 de novembro de 1595, 26 de julho de 1596, 5 de julho de 1605, 7 de março e 30 de julho de 1609, 10 de setembro de 1611, 15 de março de 1624, 8 de junho de 1625, 10 e 12 de novembro de 1647, 5 e 29 de setembro de 1648, 12 de setembro e 21 de outubro de 1652, 17 de outubro de 1653, 9 e 14 de abril de 1655, 12 de julho de 1656, 12 de setembro e 18 de outubro de 1663, 29 de abril de 1667, 21 de novembro de 1673, 23 de janeiro de 1671, 31 de março e 1º de abril de 1680, 2 de setembro de 1684, 21 de dezembro de 1686 (são duas as disposições desta data: uma carta régia e o famoso Regimento das Missões), 24 ou 28 de abril de 1688, 6 e 17 de janeiro de 1691, 19 de fevereiro e 15 de março de 1696, 15 de janeiro de 1698, 11 de janeiro, 1 e 3 de fevereiro de 1701, 21 e 22 de abril de 1702, 3 de fevereiro de 1703, 6 de dezembro de 1705, 5 de julho de 1715, 9 de março de 1718, 12 de outubro de 1719, 12 de outubro de 1727, 13 de agosto de 1745, 13 de outubro de 1751, 4 de abril, 6 e 7 de junho de 1755, 3 de maio de 1757, 8 de maio e 17 de agosto 1758, 11 de maio de 1774, 12 de maio de 1797, 18 de agosto de 1803, 13 de maio e 2 de dezembro de 1808, e 28 de julho de 1809(LISBOA, 1865, p. 274-275).

37

(chamados, na época, moradores), oscilando entre um e outro polo (1992, p. 115-

116). Embora as pressões econômicas em torno do trabalho indígena sejam

inegáveis, deveria ser do mesmo modo patente que

o sistema jurídico é um dos fundamentos das ações dos homens. As

ideias nele contidas são muito mais do que mera retórica destinada a permitir a realização da vontade de um ou outro grupo político. Nos momentos críticos, em que as leis são discutidas, colonos e jesuítas recorrem a princípios comuns, pertencentes a uma mesma tradição jurídica (PERRONE-MOISÉS, 1992, p. 116).

Com efeito, deveríamos prestar mais atenção aos fundamentos teológico-

jurídicos

da

conquista,

que

não

são

dissociados

das

motivações

políticas

e

econômicas da Coroa. É convincente a proposição de Perrone-Moisés: a profusa

legislação emitida pela Coroa a respeito do tratamento dos índios não é tão confusa

e contraditória 9 como poderia parecer em retrospecto:

Havia, no Brasil colonial, índios aldeados e aliados dos portugueses,

e índios inimigos espalhados pelos ‘sertões’. À diferença irredutível

entre ‘índios amigos’ e ‘gentio bravo’ corresponde um corte na legislação e política indigenistas que, encaradas sob esse prisma, já não aparecem como uma linha tortuosa crivada de contradições, e sim duas, com oscilações menos fundamentais. Nesse sentido, pode-se seguir uma linha de política indigenista que se aplica aos índios aldeados e aliados e uma outra, relativa aos inimigos, cujos princípios se mantêm ao longo da colonização. Nas grandes leis de liberdade, a

distinção entre aliados e inimigos é anulada e as duas políticas se

Aos índios aldeados e aliados, é garantida a liberdade

ao longo de toda a colonização. Afirma-se, desde o início, que, livres, são senhores de suas terras nas aldeias, passíveis de serem requisitados para trabalharem para os moradores mediante pagamento de salário e devem ser muito bem tratados. Deles dependem reconhecidamente o sustento e defesa da colônia. Se não se alteram os princípios básicos, vão-se modificando, por outro lado, as políticas efetivas destinadas a garanti-los: quem administra as aldeias, como serão regulamentados o seu trabalho e seus salários, quem e como lhes administrará a justiça (PERRONE-MOISÉS, 1992,

sobrepõem. [

]

9 Pelo menos desde o século XIX, historiadores e juristas como Varnhagen (1959, p. 333), Lisboa (1865) e Malheiro (1976), acusam a legislação indigenista colonial de hesitante ou contraditória quanto ao cativeiro dos povos nativos.

38

p. 117). 10

Para usar as palavras de João Pacheco de Oliveira, não podemos interpretar

os conflitos coloniais como uma antecipação das lutas ideológicas dos séculos XIX e

XX, entre proteção e extermínio. “A legislação colonial portuguesa sobre a escravidão

dos índios está assentada sobre certas premissas básicas, mas se atualiza no tempo,

possibilitando variações e disputas” conforme as conjunturas concretas (OLIVEIRA,

2014, p. 184-185).

Via de regra, as coroas ibéricas não deram respaldo formal à escravização de

nações ameríndias pacíficas ou aliadas. Sem embargo, antes que ficasse clara a

divisão entre amigos e inimigos, a escravização de ameríndios pelos europeus ocorre

desde muito cedo. Uma capitulação dos Reis Católicos, concedida a Rodrigo de

Bastidas em 5 de junho de 1500, autorizava a negociar escravos “que em nuestros

Reinos sean habidos e reputados por esclavos”, reservado um quarto do lucro para a

coroa espanhola (LOBO, 1962, p. 116). A Nau Bretoa, em 1511, a despeito de

determinações expressas de seu regimento para que não levasse habitantes da terra

do Brasil para a Europa, levou para Portugal mais de 30 índios escravizados

(VARNHAGEN, 1959, p. 90). Uma Carta Régia de 1532 a Martim Afonso de Souza

facultava aos colonos cativarem os gentios e mesmo vendê-los a Lisboa com isenção

da sisa (MALHEIRO, 1976, p. 169).

10 Luiz Felipe de Alencastro (O Trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, 2000) também sugere uma linha diretriz permanente na legislação indigenista ibérica, embora em outra chave interpretativa: para ele, desde as Leyes Nuevas de Carlos V (1542-43) e a legislação dedicada à América Portuguesa, influenciada pelas doutrinas jurídicas espanholas, as coroas ibéricas procuraram impedir que o “excedente colonial” fosse consumido nas próprias colônias, direcionando o comércio para o fluxo atlântico dessa forma, segundo Alencastro, tornam-se inteligíveis as normas de ambos os impérios para enquadrar as relações de trabalho entre ameríndios e europeus e para organizar o tráfico atlântico de africanos escravizados (pp. 12 e ss.).

39

Mas desde cedo, igualmente, são baixadas normas contra a escravização do

gentio americano. Um breve do Papa Paulo III de 28 de maio de 1537 declarou que

os indígenas do Peru não podiam ser reduzidos a cativeiro, sob pena de excomunhão

dos escravizadores; uma bula de Urbano VIII (22 de abril de 1639) estendeu essa

norma ao Brasil (MALHEIRO, 1976, p. 159-160). Uma política de promoção de

casamentos entre colonos e índias começou a ser praticada por Duarte Coelho na

capitania hereditária de Pernambuco, no século XVI (MALHEIRO, 1976, p. 160-161).

Na América Espanhola, depois de décadas de turbulência e guerras civis, logrou-se

impor o conceito de que as encomiendas pertenciam à Coroa, e de que essa

concessão referia-se a rendas, não a uma vassalagem dos índios ao encomendero.

O sistema entrou em decadência com a radical redução populacional e, no final

do século XVI, algumas encomiendas ficaram vagas ou abandonadas e os índios

sobreviventes reverteram à coroa espanhola. Para alguns espanhóis que perceberam

a hora de diversificar seus investimentos, entretanto, o sistema foi a base de grandes

fortunas e contribuiu para a formação de uma elite local. Em regiões isoladas, o

sistema perdurou por todo o período colonial, inclusive usando os índios como força

de trabalho, mas nas áreas centrais (como México, Peru, Quito etc.) foi substituído

por outras formas de trabalho compulsório (MACLEOD, 1990, p. 151-153). Nessas

áreas, o recrutamento laboral tinha origem pré-colombiana (mita, coatequil). A forma

geral de trabalho compulsório remunerado era o repartimiento, imposto sobre uma

porcentagem da população indígena masculina válida, compelida a trabalhar em

determinados projetos ou em lugares mais ou menos distantes. Formalmente, o

repartimiento destinava-se apenas a projetos de grande interesse público, como obras

públicas ou projetos agrícolas ou industriais importantes, sendo vedado em algumas

atividades

extremamente

insalubres

e

perigosas

(p.

154).

Algumas

dessas

40

características são familiares aos que estudam a história da América Portuguesa, mas

uma diferença substancial salta aos olhos: nos Estados do Brasil e do Maranhão e

Grão-Pará

inexistiam

instituições

compulsório em massa.

pré-conquista

de

organização

de

trabalho

O Regimento do primeiro governador geral do Estado do Brasil, Tomé de Souza

(17 de dezembro de 1548), exemplifica algumas constantes da política indigenista

colonial portuguesa. Define o tratamento destinado a povos nativos amigos e inimigos:

os primeiros deveriam ser bem tratados, castigando-se os portugueses que os

maltratassem, pois “o principal fim por que se manda povoar o Brasil é a redução do

gentio à fé católica [

]

e convém atraí-los à paz para o fim da propagação da fé, e

aumento da povoação e comércio”. Propagação da fé, aumento da povoação e

comércio seriam objetivos perseguidos do primeiro ao último século da colonização

da América Portuguesa, como veremos adiante. O regimento de Tomé de Sousa

proibiu ainda que se atacasse o gentio, ainda que rebelado, sem licença do

governador ou dos capitães, lembrando que

era costume saltear e roubar os gentios de paz por diversos modos, atraindo- os enganosamente, e indo depois vendê-los, até aos próprios inimigos, donde resultava levantarem-se eles e fazerem guerra aos Cristãos, sendo esta a principal causa das desordens que tinha havido (MALHEIRO, p. 165).

Aos índios que se mostrassem inimigos, determinava o regimento que o

governador lhes destruísse as aldeias e povoações, matando e cativando “e fazendo

executar nas próprias aldeias alguns Chefes que pudesse aprisionar enquanto

negociasse as pazes” (MALHEIRO, 1976, p. 165). Determinava-se ainda que todos

os moradores que tivessem casa, embarcação ou plantação deveriam ter armas e

proibia-se a venda de qualquer arma ao “gentio”. Para Pacheco de Oliveira, esse

41

Uma Carta Régia de 1557 legalizaria o cativeiro de um povo específico em guerra com

os portugueses, os Caetés.

Provavelmente em 1566, Mem de Sá receberia uma Carta Régia, baseada em

assento da Mesa de Consciência e Ordens, advertindo ser o rei informado de que

“nessas partes [do Brasil] se fazem cativeiros injustos, e correm os resgates com título

de extrema necessidade, [

]

intercedendo força, manhas, enganos, com que os

induzem facilmente a se venderem, por ser gente bárbara e ignorante [

].” Lembrando

outra vez que “o principal e primeiro intento” da conquista era “o aumento e

conservação da nossa Santa Fé Católica e conversão do gentio delas”, e que era

necessário haver gente para cultivar a terra, deveria o governador proteger os índios

de qualquer vexação e defendê-los do esbulho de suas terras, “para que com isto se

animem a receber o sacramento do batismo, e se veja que se pretende mais sua

salvação que sua fazenda11 , permitindo que “alguns portugueses de boa vida e

exemplo vivam nas aldeias entre os que se convertem”. As missões dos jesuítas

tornavam-se expressamente abrigo de índios ilegitimamente escravizados que ali

buscassem refúgio, só podendo ser restituídos ao proprietário que “provasse a

legitimidade

da

posse

e

da

servidão”.

O

ouvidor

deveria

fazer

correição

periodicamente nessas missões e aldeias, administrando justiça, e um curador dos

índios seria nomeado. Proibia-se o expediente de casar índias com escravos e

invalidavam-se

os

resgates

com

índios

sem

consentimento

das

autoridades

(VARNHAGEN, 1959, p. 334-335).

 

Duas

Juntas

discutiram

a

escravidão

indígena

em

1566

e

1574

e

estabeleceram um princípio basilar para a América Portuguesa, que a particularizaria

11 Grifos meus.

42

em relação aos vizinhos espanhóis: embora os nativos que vivessem em aldeias

jesuítas não pudessem ser, obviamente, escravizados, sendo “forros” os que tinham

sido ilegitimamente cativados, os jesuítas comprometiam-se a fornecer trabalho

temporário

remunerado

dos

índios

de

suas

missões

para

os

moradores.

Recomendava-se, ainda, a criação do cargo de procurador de índios (OLIVEIRA,

2014, p. 188). Esse princípio da “repartição” dos índios, tutelados e sujeitos a trabalho

compulsório apesar de livres, caracterizaria a condição indígena em todo o período

colonial e mais além.

A lei de 20 de março de 1570 sacramentaria pela primeira vez a deliberação da

Junta de 1566, permitindo o cativeiro puro e simples apenas em dois casos: no dos

gentios “tomados em guerra justa”, com autoridade e licença do rei ou do governador,

e daqueles “que costumam saltear os Portugueses e a outros gentios para os

comerem”, tendo os que os cativarem a obrigação de registrar os cativos no prazo de

dois meses nos livros das Provedorias (MALHEIRO, 1976, p. 173). Três anos depois,

uma Carta Régia restabelece os “resgates”, que não deveriam ser totalmente

impedidos, “pela necessidade que as fazendas deles têm, nem se permitam resgates

manifestamente injustos, e a devassidão que até agora nisso houve” (p. 174).

Em 1611, nova lei legitimava o cativeiro dos índios aprisionados em guerra justa

e também o resgate de nativos prisioneiros de outros índios para serem devorados

(índios à corda).

Em 1615 os franceses eram expulsos do Maranhão e começava a colonização

portuguesa do Pará. As duas colônias, juntamente com o Ceará, formariam o Estado

do Maranhão em 1621. Uma provisão de 1653 ampliaria os casos de guerra justa,

incluindo o gentio que impedisse a pregação do Evangelho, ou que deixasse de

defender vidas e fazendas dos vassalos do rei, ou impedisse o comércio, ou se

43

negasse ao real serviço ou pagamento de tributos. Tão elástica definição de guerra

justa seria, às instâncias do padre Antônio Vieira, atalhada pela lei de 1655

(MALHEIRO, 1976, p. 187-188), que por sua vez restringia o cativeiro lícito a quatro

situações:

quando fossem tomados em justa guerra, que os portugueses lhe movessem

]; [

presos à corda para serem comidos; ou quando fossem rendidos por outros

índios, e os houvesse, tomado em guerra justa, examinando-se a justiça dela

(citado na lei de 1º de abril de 1680 sobre a Liberdade dos Índios do Estado do Maranhão reproduzida em CARVALHO, 1983, p. 90).

[

ou quando impedissem a pregação evangélica; ou quando estivessem

]

Jacinto de Carvalho, Visitador Geral da Província do Maranhão da Companhia

de Jesus, em sua resposta ao procurador das Câmaras de Belém e São Luís, datada

de 16 de dezembro de 1729, oferece a sua versão de como funcionavam as guerras

justas:

Propõe o governador que tal e tal nação matou tantos Portuguezes, que é nossa inimiga, e que tem commettido estas e aquellas injurias; manda devassar pelo ouvidor geral, tirão-se testemunhas, e depois entrão os prelados a votar, e sendo os seus votos de que justamente se lhes pode fazer guerra, despede о governador um cabo com soldados, e Índios das aldêas, a fazer a dita guerra; os que menos padecem nesta guerra são os culpados; porque estes como se temem, fogem ordinariamente para o centro dos matos, e de tal sorte se escondem, que são muito poucos os que se podem captivar: mas porque dos Indios captivos destas tropas, se hão de tirar os gastos que fazem, e além disso, joia para o cabo e officiaes da mesma tropa, para o general, para o capitao-mór, para o ouvidor, as nações mais próximas, que como innocentes não temião tal raio, são as que pagão os gastos, e as que servem de joias, porque as trazem captivas, as repartem, e as vendem como escravas legitimas. Isto fez о capitäo-mor João de Barros Guerra, indo fazer guerra aos Torazes, que captivou mais de duas mil pessoas das nações circumvizinhas. O mesmo fez o capitao Diogo Pinto da Gaia, indo por cabo de urna tropa de guerra que mandou Bernardo Pereira de Berredo, indo em pessoa a fazer guerra aos barbados, que por não poder captivar um só, antes ser obrigado com a tropa a fugir vergonhosamente; tendo por desdouro apparecer no Maranhâo sein presa alguma, captivou urna aldea de Indios de nação Gajajara, que nunca offendeu a Portuguezes, depois de os pobres Indios receberem a tropa na sua aldêa, e a sustentarem três dias com farinhas e о mais que tinhão (MORAIS, 1858-1863, p. 327-328).

44

A lei de 1680 (que restaurou a de 1609 12 ) foi abertamente desafiada pelas

pressões dos moradores de São Luís do Maranhão e Belém do Pará, em um quadro

de crescente rebeldia que passaria por duas expulsões dos jesuítas e pelo envio de

procuradores dos descontentes a Lisboa 13 no mesmo ano de 1680, culminando com

a revolta de Beckman no Maranhão (1684). Em setembro de 1684, uma provisão

autoriza o descimento privado de índios por moradores que teriam acesso exclusivo

à sua força de trabalho por toda a vida desses índios “forros”, mediante pagamento

de salário (CHAMBOULEYRON e BOMBARDI, 2011, p. 605).

Não obstante, o ponto de vista dos missionários seria em parte vitorioso após

a dura repressão da Coroa à revolta antijesuítica de 1684: o Regimento das Missões

de 1686, colocando os aldeamentos missionários sob o controle espiritual e temporal 14

dos religiosos, também deixava em suas mãos o controle de quase toda a mão de

obra formalmente livre do Estado do Maranhão e Grão-Pará. Sob uma série de

cláusulas de proteção do trabalho livre e assalariado dos aldeados, chamados de

“forros” (como o pagamento mínimo, o tempo máximo de trabalho fora da povoação

de origem etc.), o Regimento estabelecia uma repartição dessa força de trabalho em

duas partes o trabalho na própria comunidade e o trabalho para particulares (isto é,

12 Na introdução à lei, o então Príncipe Regente D. Pedro lamentava o descumprimento das leis de 1570, 1587, 1595, 1652, 1653 e 1655. A lei de 1/4/1680 estabelecia que, em caso de guerras justas, ofensivas ou defensivas, os índios aprisionados deveriam ser tratados da mesma forma que os prisioneiros nas guerras da Europa e ser encaminhados às aldeias de índios livres e católicos (CARVALHO, 1983, p. 90-92).

13 Os procuradores dos moradores do Maranhão conseguiram mesmo uma lei em setembro de 1684, restabelecendo as “administrações particulares” de índios, autorizando os descimentos por particulares (que repartiriam entre si os índios descidos e usando seu trabalho mediante salário). Essa lei, no entanto, nunca foi executada por causa da rebelião que estalou no mesmo ano no Maranhão (MALHEIRO, 1976, p. 194-195).

14 “[§1] Os Padres da Companhia terão o governo, naõ só espiritual, que antes tinhaõ, mas o politico, & temporal das aldeas de sua administração, & o mesmo teraõ os Padres de Santo Antonio, nas que lhes pertence administrar; com declaraçaõ, que neste governo observaraõ as minhas Leys, & Ordens, que se não acharem por esta, & por outras reformadas, tanto em os fazerem servir no que ellas dispoem, como em os ter promptos para acodirem á deffensa do Estado, & justa guerra dos Certoens, quando para ella sejão necessários” (MATTOS, 2012) .

45

para os moradores) e para a Coroa (o Serviço Real). Os missionários teriam aldeias

exclusivas para atender às necessidades de sua ordem (uma no Pará e outra no

Maranhão), além de 25 índios para cada residência missionária. Essa foi uma solução

de compromisso ditada pelas circunstâncias, pois as missões jesuíticas nos domínios

espanhóis

vizinhos

(Maynas

e

Moxos)

não

tinham

a

obrigação

de

oferecer

trabalhadores aos moradores, aspecto lembrado insistentemente pelo padre João

Daniel: "São muito populosas estas missões castelhanas, por não terem as pensões

das portuguesas na repartição dos índios aos brancos, e ausências de suas casas"

(DANIEL, 2004a, p. 400). Observava o jesuíta, de seu cárcere em Portugal, o

paradoxo de que no Grão Pará, enquanto gentio pagão, o índio era isento do trabalho

compulsório, e ser praticado, aldeado e tornado cristão era o mesmo que obrigar-se a

servir aos brancos o que não ocorreria, segundo ele, nas missões do lado espanhol:

Não assim nos domínios espanhóis, porque não entram lá brancos europeus que obriguem e perturbem os índios católicos a seus serviços; e muito menos se obrigam, ou se mandam sair das suas missões para remarem as canoas dos brancos, e os servirem a maior parte do ano (DANIEL, 2004b, p. 57-58).

Mesmo com essas concessões dos missionários, as resistências eram fortes.

Representantes das Câmaras de São Luís e Belém continuariam, por décadas,

questionando o poder temporal dos missionários e reivindicando a “administração”

particular dos índios aldeados. O governador Gomes Freire alegava que faltavam

braços para as lavouras do Estado e, em ofício de 13 de outubro de 1685, esgrimia

argumentos exemplares dos lugares-comuns dos defensores do cativeiro indígena:

Resgatar Índios, que vivem em contínuas guerras, comendo-se uns aos outros, por não haver quem lhes compre os prisioneiros que neste

desamparo perdem a vida e a salvação. Grande barbaridade é deixá-los perecer por este modo, quando as razões para permitir-se o cativeiro

Poder-se-á comprar

cada escravo por quatro ou cinco mil réis, a troco de ferramentas, velórios, e outras bagatelas; e vendendo-se depois por trinta, não só lucrará S. M. um grande avanço, como ficarão os moradores remediados para beneficiarem os seus engenhos desmantelados; o que com índios forros

dos negros da Guiné não são tão justificadas [

].

46

jamais poderão conseguir, porque, além de os não haver, sabida cousa é que

] Além de que é

de recear que, não podendo os Índios fazer conosco o comércio, busquem para ele os estrangeiros confinantes (apud MALHEIRO, 1976, p. 199; grifos meus).

o trabalho nas suas fábricas só escravos podem suportar. [

A extensão da influência de Gomes Freire pode ser medida pelo fato do prólogo

do famoso Regimento das Missões de 1686 mencionar expressamente que a

elaboração desse documento foi baseada nas informações prestadas ao rei por esse

governador, “com tanto zelo, & verdade, como dele confiey sempre” 15 . Essa influência

reforça um aspecto já indicado por Farage (1991, p. 32-33), Arenz (2010) e Mattos

(2012, p. 114): o Regimento de 1686 foi uma solução de compromisso que expressava

a correlação de forças entre os moradores, os jesuítas e as demais ordens

missionárias, os interesses da Coroa, a diocese do Maranhão e os índios.

Mesmo assim, em poucos anos dois alvarás ainda modificariam novamente a

política indigenista da Coroa. O alvará de 24 de abril de 1688 determinou que os

resgates seriam feitos pelos prelados das Missões e à custa da Real Fazenda

(MALHEIRO, 1976, p. 198), pagando-se 3$000 de direitos por cabeça de índio. Outro

alvará, de 4 dias depois, restabelece os resgates e cativeiros. Em 1691, um perdão

geral anistiaria os autores de cativeiros ilegais, patenteando a incapacidade da Coroa

de fazer cumprir a legislação de proteção aos ameríndios. Finalmente, uma Carta

Régia de 13 de maio de 1721 determinava ao governador do Estado do Maranhão e

Grão Pará que se realizassem, “infalivelmente”, tropas de resgates todos os anos, na

forma das reais ordens (Livro Grosso do Maranhão - 2a parte, 1948, p. 181).

Comandantes

das

fortalezas

tinham

interesse

direto

nessas

expedições

e

15 Regimento, & Leys sobre as Missoens do Estado do Maranhaõ, & Pará, & sobre a liberdade dos Indios. - Impresso por ordem de El-Rey nosso Senhor. Lisboa Occidental: na Officina de Antonio Manescal, impressor do Santo Officio, & livreiro de Sua Magestade, 1724, p. 2.

47

participavam dos lucros. Ainda em 1786, ao passar pela fortaleza da Barra do Rio

Negro (origem da futura Manaus), o naturalista Rodrigues Ferreira atestava que a

memória do tempo dos arraiais das tropas de resgate estava viva entre moradores

(alguns deles descendentes dos traficantes), e que aquele posto tinha sido um dos

mais lucrativos: “Consta que, durante a barbária do monopólio das almas, quando ele

fazia o objeto a que se encaminhavam os abusos introduzidos pelas tropas dos

resgates, sempre aquela foi uma das comandâncias pingues, para os que a

ambicionavam e impetravam(FERREIRA, 2007, p. 379). A época a que Ferreira se

referia, de fato, tinha sido a da intensificação e expansão das expedições de resgate

uma pressão sobre as populações nativas que coincidiu, pelo menos em parte, com

uma conjuntura excepcional de alta internacional do cacau entre 1730 e 1735, quando

esse produto correspondia a 90% da exportação total do porto de Belém (ALDEN,

1976, p. 120). A demanda por trabalhadores intensificara-se no período, de uma forma

que frequentemente era estimulada pelos agentes régios.

1.1.2 Primeira metade do século XVIII: apogeu dos resgates e descimentos

As tropas de resgate tinham

poder de polícia no

sertão, tendo o seu

comandante ordens para prender cabos que estivessem a “fazer peças” sem alvará

real e confiscar suas canoas, bem como instruir processo e punir pequenos delitos de

integrantes da tropa. Os comandantes dessas tropas podiam requisitar e mesmo tirar

à força índios remadores das aldeias missionárias. Ao montar o arraial no rio Negro,

fariam tantos “resgates” quanto permitisse o Tesouro dos Resgates, fundo aberto pela

fazenda real com essa finalidade. Particulares podiam ser autorizados a acompanhar

48

a tropa e fazer resgates em seu próprio nome e com seus recursos, se provassem ter

canoas e mantimentos suficientes para alimentar os índios escravizados na longa

viagem de volta a Belém, “sem o menor perigo de que possão perecer na viagem por

falta de mantimentos, ou por virem tão juntos e amontoados na canoa, que hajão de

abater, ou morrer por essa causa”. As tropas de resgate eram incumbidas também de

entrar em contato com outras nações e fazer “novos descimentos”, às custas da

fazenda real (Regimento que levou o Capitão-mor Jozé Miguel Ayres, cabo da tropa

de resgates dessa cidade de Belém do Gram Pará, 31, dezembro, 1738 in Boletim

de Pesquisa da CEDEAM, UFAM, v. 5, n.9, jul.dez. 1986, p. 65-71).

Havia significativa diferença entre a violência intrínseca dos resgates, de um

lado, e as longas negociações e “práticas” 16 exigidas para a realização de um

descimento, por outro.

Há muitas evidências de que os índios conheciam e conseguiam explorar as

possibilidades que a negociação do descimento abria, principalmente a diferença

entre ser um escravo e ser um “índio livre, vassalo de sua Majestade Fidelíssima”,

ainda que com todos os constrangimentos implicados nessa liberdade relativa. João

Acuti, liderança Cahicahi, já conhecendo as práticas de portugueses contra índios

aldeados de outras etnias, procurou balizar os limites de sua vassalagem:

Certifico eu o Padre João Tavares da Companhia de Jesus, que

assistindo eu [

principal da nação Cahicahi João Acuti, Tapuya já ladino, e que fallava bem portuguez, e lingua geral, na presença do ouvidor e capitão-mor, propoz este ao dito principal, que se havia aldear, e ter missionario que havia de ser amigo dos brancos e ajudar na guerra, contra seus

ao ajuste de pazes, que com os Portugueses fazia o

]

inimigos. A tudo respondeu o dito principal que sim (estava tabelião presente). E desandou o dito principal repentinamente, e prorrompeu nestas palavras — Escreve lá (as disse em portuguez) Cahicahi não

16 “Prática” podia significar diálogo; “praticar” tinha, como uma de suas acepções, o sentido de conversar, “praticar com alguém” (BLUTEAU, 1716).

49

há de remar canoa; Cahicahi não ha de carregar páo: escreve. E se isentou de ser obrigado a servir; e o dizia com coragem porque já tinha andado na campanha, por tempo de dous annos, e estado no Maranhão muitos mezes, e visto o tratamento dos Indios. O referido

Animdyba, 23 de Julho de 1739 (MORAIS,

juro in verbo sacerdotis. [ 1858-1863, p. 378).

]

Pragmaticamente, o Padre João Daniel explicava poucos anos depois que a

negociação dos descimentos, para ser bem-sucedida, não podia ser baseada nos

“motivos da outra vida”:

Que há um só Deus a quem todos havemos de adorar, e guardar os seus divinos preceitos; que há céu e bem-aventurança para os bons cristãos e inferno para os mais, e semelhantes motivos; nada disto lhes propõem logo ao princípio, mas só interesses temporais, de que nas missões não serão acometidos dos seus contrários, com quem ordinariamente andam em guerras; de que nas missões têm machados, fouces e mais instrumentos de ferro para fazerem as suas roças; e outros semelhantes motivos temporais (DANIEL, 2004b, p.

58).

O ajuste do descimento, portanto, só se concretizava quando se mostrava

materialmente vantajoso para as lideranças indígenas. Quando, depois de muitos

presentes e negociações, “finalmente se resolvam a sair dos seus matos, e descer

para alguma missão, se ajusta primeiro o descimento” de um ano para o outro, para

que roças sejam feitas no novo lugar a ser povoado e para que pudessem colher o

que tinham plantado na aldeia de origem (DANIEL, 2004b, p. 61). Para evitar fugas,

“procuram os missionários descê-los para bem longe das suas terras”, a 15 dias ou a

um mês de viagem (p. 62). Para convencer o gentio, os índios bravos, “a melhor

indústria de que usam alguns missionários” era fazerem-se acompanhar por crianças

ou adultos da mesma nação, afeiçoados aos missionários, “bem nutridos, regalados

e vestidos”. Vendo-os assim bem tratados, os gentios da mesma nação poderiam ser

mais facilmente convencidos.

Mas, confessava o padre, acontecia às vezes dos

índios aldeados que levavam consigo fazerem bem o contrário, “dizendo-lhes a

50

pensão que têm nas missões de servirem aos brancos, os castigos com que são

tratados, e outras práticas com que totalmente os esfriam” (DANIEL, 2004b, p. 62-63).

Índios já descidos não raramente procuravam fazer valer seus direitos contra

abusos, fossem de missionários, fossem de moradores ou militares, requerendo às

vezes diretamente ao rei, como fizeram em 1728

os índios Pedro, Inês e Germano naturaes dos Sertões do rio das Amazonas, em que eles me expozerão que voluntariamente decerão

das suas terras como livres e ezentos detodo o captiveiro e que não devião por este respeito ser subjetos a ninguém, nem ser reputados como captivos e que muitas vezes ainda que semelhantes se achem isentos forros os Conventos desse Estado os passão para as suas fazendas sem atenção a serem livres com grande prejuízo de sua

liberdade [

]

(Livro Grosso do Maranhão - 2a parte, 1948, p. 227). 17

Mas, se os descimentos eram contratos (escritos ou não) que geravam de

imediato vassalos reconhecidos como livres e sujeitos possuidores de direitos,

doravante integrados à república, os resgates eram contratos entre os cabos das

tropas e lideranças indígenas independentes ou intermediários brancos ou mestiços

(cunhamenas, dos quais falaremos mais tarde) que permaneciam fora da sociedade

colonial. Nos resgates, porém, os índios trazidos para as vilas, cidades e plantações

eram inicialmente objetos e não os sujeitos da negociação. Amiúde, porém,

quando sobreviviam à dureza da viagem do resgate e dos primeiros tempos de

trabalho forçado, recorreram às autoridades para discutir judicialmente a legalidade

de seu cativeiro.

17 David Sweet relata outro caso, o da Índia Francisca (“resgatada” do Rio Negro), que movimenta uma rede de pessoas livres pobres e escravas como testemunhas em um processo por sua liberdade em Belém, também na primeira metade do século XVIII. Vencendo em primeira instância, Francisca teve seu pedido indeferido quando sua “proprietária” (por sua vez mobilizando como testemunhas pessoas mais “respeitáveis”, mas que não tinham conhecimento direto algum do caso) recorreu à Junta das Missões (SWEET, 1981).

51

A polissemia do termo resgate é plena de significado: “resgatar” é “recobrar,

por preço, o que o inimigo tem levado”. Pode-se resgatar prisioneiros ou cativos,

escravos ou um parente. Mas também se podem resgatar mercadorias:

comprallas a quem he injusto possuidor delas, ou a quem já as tem comprado a outrem; & assim dizemos, Resgatar ouro dos Mouros, &

Resgatar Malagueta, [

ou por ventura, porque

ou porque os Mouros comprão os ditos

gêneros no sertão, & nos los vendem a nós [

os julgamos injustos possuidores destes, & outros tesouros da

natureza (BLUTEAU, 1716, p. 279, vol. VII).

]

];

O comércio não era, portanto, completamente separado da ação militar. As

“guerras justas” e as “tropas de resgate”, continuaram sendo (até meados do século

XVIII) portas abertas para prover os moradores de índios escravizados, legalmente ou

não. Como já dizia a malograda lei de 1609, o fato de se permitir o cativeiro licitamente

em alguns casos restritos acabava sempre abrindo brechas para abusos e excessos.

Como se sabe, no modo tradicional de se fazer a guerra, os povos nativos das terras

baixas da América do Sul faziam uns poucos prisioneiros. Isso torna pouco plausível

que uma única tropa de resgate conseguisse de fato encontrar 600 ou 700 prisioneiros

“à corda” (isto é, destinados ao sacrifício ritual), disponíveis para negociação nas

aldeias de povos indígenas independentes. O que acontecia, mais verossimilmente,

era a formação de um comércio de escravos mais ou menos estável em aldeias

independentes que se especializavam nessa atividade e faziam alianças com os

cabos das expedições 18 . Em ofício de 18 de março de 1728 ao governador do

Maranhão, Bernardo Pereira Berredo, o próprio rei D. João V comenta com

18 De maneira análoga ao que acontecia nos postos comerciais-militares dos holandeses próximos ao Rio Branco, onde traficantes recebiam expedições de índios do tronco Karib que traziam prisioneiros de outras etnias para trocar regularmente por manufaturados dos Países Baixos, ou mesmo entravam na bacia do Rio Branco para procurar ativamente esse comércio (FARAGE, 1991, p. 18; FERREIRA, 2007ª [1787], p. 50).

52

naturalidade que se resgatavam habitualmente “escravos do Gentio da Terra, que os

maiorais das aldeias costumam vender às tropas de resgates” (CARVALHO, 1984, p.

32).

Além disso, “muitas expedições autorizadas como “descimentos, campanhas

que visaram persuadir os índios a se deslocarem para um aldeamento, tornaram-se

‘resgates’” (ARENZ, 2010, p. 41). Mesmo quando os resgates eram feitos dentro das

regras, havia vícios na repartição dos índios resgatados. Segundo uma instrução régia

de 24 de julho de 1730, esses índios, na ausência do governador, vinham sendo

repartidos “por pessoas tão pobres que não tem com que pagá-los”, sem se exigir

fiador, o que dava azo a que particulares pedissem índios apenas para especular,

tornando a vende-los. Assim, determinava que os índios resgatados fossem repartidos

somente aos moradores que tivessem lavouras (Livro Grosso do Maranhão - 2a parte,

1948, p. 248).

Eram tão generalizadas as dúvidas sobre a legalidade do cativeiro de muitos

índios em posse de moradores que em 13 de abril de 1734 o rei ordenou que, em

caso de incerteza sobre o direito à liberdade, ficavam os índios como “escravos de

condição”, pelo prazo de cinco anos, lavrando-se o registro em livro específico:

Os Índios em que há dúvida no seu captiveiro se dem de condição

para servirem como escravos somente cinco anos ficando no fim deles

sou

servido ordenar se matriculem em hum Livro que será entregue ao Procurador dos Índios para que cheia a sua condição os procure libertar, por que sou enformado que sem ambargo das ditas minhas

livres, e para se saber quantos estão com estas condições, [

]

ordens continuão os Índios na escravidão por mais tempo o que está

determinado e ainda seus filhos [ parte, 1948, p. 258-259).

(Livro Grosso do Maranhão - 2a

]

Conhece-se, de fato, um “Livro que há de servir para o registro das Canoas que

se despacharem para o sertão ao cacao, e às pessas, e das que voltarem com

53

escravos, e nelle hão de assinar termo os cabos das mesmas canoas” (MEIRA, 1994),

aberto em 1739 e encerrado em 1755. Nele registravam-se as canoas e os cabos que

subiam o rio para o sertão, principalmente ao Negro e ao Japurá (uma vez que a

guerra contra os Manao tinha eliminado o principal obstáculo para os traficantes

portugueses na região poucos anos antes), apresentando licença para fazer resgates

e folha corrida. Em 1739, por exemplo, seis moradores apresentaram esses

documentos, autorizados a resgatar junto à tropa de Miguel Aires estacionada no Rio

Negro um total superior a 165 índios (MEIRA, 1994, p. 22).

No mesmo livro são comuns também “termos” que assinam moradores que

tinham

em

seu

poder

índios

cujo

cativeiro

era

de

legitimidade

duvidosa.

Ordinariamente, eram “peças do gentio da terra” que eram trazidas do sertão sem

registro, ficando o morador que as apresentava no direito de usar de seu trabalho “de

condição”, isto é, “com a obrigação de as doutrinar, e estando instruídas nos Mistérios

da Fé, fazer batizallas, e dentro de um anno se obrigará a dar conta do estado em que

se achão as ditas pessas” (Termo de 20/12/1739, pp. 23-24). Não poderia vender

essas “peças” a pessoa alguma, e se algumas delas morressem, deveria se prestar

contas à secretaria do governo do Estado, com certidão do pároco. Amiúde alegava-

se “não haver língua” (intérprete) para se examinar e interrogar devidamente os índios

resgatados e assim determinar a legalidade do cativeiro. O termo assinado pelo

morador validava seu poder sobre o índio assim resgatado, que “quando já instruído

na Lingua” permitiria o exame de sua escravidão ou liberdade (Termo de 5/4/1740, p.

26 19 ). Na verdade, esse documento mostra na prática como a distinção entre livres e

19 Nesse termo, uma das certidões apresentadas é do famoso padre Achiles Maria Avogadri, ou Avogadre, que seria mais tarde acusado por Mendonça Furtado de fornecer certidões assinadas em branco para legitimar cativeiros ilegais.

54

cativos não era tão rígida, pois muitas vezes essas condições confluíam, como

apontou João Pacheco de Oliveira (OLIVEIRA, 2014, p. 191).

Muitos termos oferecem indícios da alta mortalidade de índios resgatados na

viagem do sertão a Belém: o soldado Helias Caetano, da tropa de resgates de Miguel

Aires, declarou em 31/8/1740 ter saído do Rio Negro com 44 peças, “havendo-lhe

fugido seis e morrido cinco” (p. 26). João Pinheiro Maciel chegou a Belém em 5/9/1740

e no mesmo dia declarou ter saído do rio Negro com 14 peças, tendo chegado a Belém

com apenas 6. No mesmo dia, José Machado registrou ter saído do rio Negro com 43

peças, chegando a Belém com apenas 14, pagando direitos de oito e ficando com as

outras seis em seu poder para apresenta-las quando solicitado, para o exame da

legalidade do cativeiro. Em 7/9/1740, Miguel Roiz Meyra declarou ter saído do rio

Negro com 12 peças, chegando a Belém com apenas 6. O termo de 16/11/1740

registra que tendo “Amaro Paes baixado do Rio Negro com quarenta e huma pessas”,

tinha chegado à cidade de Belém “com vinte e huma, dizendolhe fugirão e morrerão

as que faltão” (MEIRA, 1994, p. 37). Não eram raras as perdas superiores a 50%,

portanto 20 .

Em todos esses casos, as “peças” que eram apresentadas sem registro ficavam

como “índios de condição” (às vezes pelo prazo expresso de cinco anos), de posse

dos moradores que os declaravam. Não localizei, porém, documentos sobre o que

aconteceu a esses “índios de condição” após vencer o prazo da posse “em condição”.

20 David Sweet compara o sofrimento e a letalidade da escravização e do transporte das pessoas escravizadas na Amazônia Ocidental, nas primeiras décadas do século XVIII, ao da Middle Passage, a travessia das pessoas escravizadas da África para a América: “Canoe captains in the oficial trade

complained that they often lost a third ou a half of a shipment of slaves during the several weeks’ journey

from the Negro to Pará. [

were comparable to those of the Atlantic ‘middle passage’

of Africans to America, but the slaves of Amazonia were considerably less able to resist them” (SWEET, 1981, p. 284).

These horrors [

]

55

No máximo, alguns termos assinalam a obrigação do declarante em entregar os índios

a uma determinada aldeia de índios cristãos após o prazo de cinco anos de “condição”

(termos de 2/12/1745 e 6/12/1745; pp. 142-143).

Embora esses registros não sejam sistemáticos e exaustivos, são indícios do

pesado impacto das tropas de resgate nos sertões dos rios Branco, Negro Japurá e

seus afluentes, que deve ser somado ao preço cobrado pelas epidemias e guerras

justas que despovoaram enormes extensões da Amazônia. 21 Segundo o Padre José

Lopes denunciara ao rei em 1729, apenas um quinto dos escravizados chegava vivo

a Belém (FARAGE, 1991).

O Livro das Canoas registra centenas de “índios de condição” como esses já

mencionados, de mais de 68 etnias, oriundos do Javari, do rio Negro e de seus

afluentes. Em grande parte, os índios são registrados nominalmente e recebem uma

descrição física, atribuindo-se-lhes por vezes a etnia.

Os registros até agora mencionados tratavam de regularizar a posse de índios

que eram, quase sempre, “boçais”, isto é, recém-resgatados; havia alguns poucos

registros de mamelucos e índios “ladinos”. 22 Tais termos, análogos àqueles usados

para classificar escravos africanos, assim como o termo “negros” para designar os

índios, são indícios da tendência dos moradores a assimilar os índios aos negros,

como trabalhadores passíveis de escravização. À medida em que se aproxima do final

da década de 1740, entretanto, o Livro das Canoas passa a registrar com mais

21 Analogamente, em São Paulo a mortalidade dos planteis de índios cativos tratados como descartáveis era muito elevada. Epidemias constantes de varíola e sarampo dizimavam os planteis e levavam a novas expedições de apresamento (MONTEIRO, 1994, p. 156-157). 22 Segundo John Monteiro, também em São Paulo era fundamental a diferença de valorização “entre os índios recém-introduzidos [pelos apresadores na Vila de São Paulo] e aqueles nascidos no povoado (crioulos) ou plenamente adaptados ao regime (ladinos)” (MONTEIRO, 1994, p. 156).

56

frequência a entrega de índios “ladinos” em condição e a frisar o caráter de “forros”

desses índios, que deveriam receber salários. Isso leva a algumas situações curiosas

pois, já estando alguns deles instruídos na fé católica, batizados e mesmo casados

legitimamente, obrigam-se os oficiais da secretaria a declarar solenemente que são

“livres e isentos de todo cativeiro”, a quem se deveria pagar o “salário na forma do

estilo”.

Aos vinte e cinco dias do mez de julho de 1749, por ordem do Il. mo e Ex. mo . Sr. Francisco Pedro de Mendonça Gorjão Governador e Cappitam General do Estado forão concedidos a Domingos Pereira Lima oito pessas do Gentio da Terra, a saber Ventura cazado dom Jeronima e [duas filhas] Claudia e Inez e Manoel Francisco e sua mulher Angella/ [sic] Joanna, para o servirem por tempo de trez anos somentes, dandolhe bom tratamento e pagandolhe o seu sellario como he de estilo, e constando do contrario lhe serão logo tirados do seu poder para viverem em outro domisilio que as ditas pessas escolherem

por serem livres de sua natureza [

]

(MEIRA, 1994, p. 170).

Não era incomum que os moradores apresentassem índios confessando que

eram forros e livres de todo cativeiro, devendo por isso pagar-lhes o salário devido.

Mas muito mais comuns são os casos em que se registra a dúvida sobre a legalidade

do cativeiro:

[documento 228] Aos quatorze dias do mez de fevereiro de mil sete centos quarenta e oito nesta Secretaria de Estado aparecerão Francisco da Costa Pinto, José da Sylva de Menezes, o Juiz Ordinário Manoel Correa de oliveira e Ignacio José Pestana; e por ordem do Ex. mo Sr. Governador e Capitão General lhes intimei a resolução da Junta de Missoens de 13 do corrente mez, para que as pessas que se acham em seu poder, nelle se conservassem como em depozito, visto serem feitas no Rio Japurâ em rezão de se esperar resolução de Sua

] (MEIRA, 1994,

Magestade para se decidir se são ou Não escravas [ p. 166)

Em 1747 o rei D. João V proibira novas tropas de resgate e mandou recolher a

que ainda se encontrava no sertão, declarando nulas as licenças que a Junta das

57

Missões

tinha

dado

para

os

cativeiros

resultantes

dessas

tropas. 23

Como

consequência, uma significativa mudança reflete-se no Livro das Canoas, a partir de

maio daquele ano: mesmo sendo registrados como “peças”, são peças que devem

ser reconhecidas como pessoas livres e manifestar livremente sua vontade de

contratar a venda de seus serviços. Um termo típico desse período é o seguinte:

[documento 223] Ao primeiro dia do mez de dezembro de mil sete centos e quarenta e sete apareceo nesta Secretaria o Ajudante de Infantaria desta Praça Antonio Coelho da Sylva, e apresentou trez pessas do Gentio da Terra a saber um mocetão, e duas índias, as quaes pessas lhe havião dado em dotte no casamento que contrahio com Bernarda da Sylva com [corroídas 3 linhas] cujo Requerimento deferio o Ex.mo Sr. Governador e Capitão General, que se averiguasse a vontade das ditas pessas, para conforme a ella se deferir na forma da ley; e sendo ouvidas as ditas pessas, publicamente disseram que por sua livre vontade querião servir ao sito Ajudante e sua mulher (MEIRA, 1994, p. 163).

Não

eram

escravos,

mas

tampouco

livres

no

mesmo

sentido

que

os

portugueses eram livres. Eram peças que puderam ser dadas como parte de um dote

de casamento, como móveis 24 ou outros presentes. Helias (índio Baniwa), 18 anos;

Lourença (índia Manau), 30 anos; Maria Matilde, 20 anos, com seu filho Thadeu eram

peças, ainda que forros: deviam receber salário e poderiam, em tese, escolher outro

morador a quem servir. Mesmo índios crioulos, cafuzos e mamelucos 25 eram

registrados no Livro das Canoas como livres e forros, servindo por sua vontade,

mediante salário, aos moradores que assinavam os termos. Mas é significativo de sua

23 As Instruções Régias e Secretas, passadas em maio de 1751 a Mendonça Furtado, mencionam uma Ordem do Conselho Ultramarino de 21/3/1747, confirmada por resolução de 13/7/1748. Os índios irregularmente escravizados por essas tropas de resgates deveriam ter sido imediatamente colocados em liberdade. Nota-se, ainda, que a tropa de resgate andava pelo sertão afora havia anos, “contra a forma da lei” (MENDONÇA, 2005, p. 69).

24 “Peça, geralmente se toma por qualquer móvel de casa, ou outra obra artificial. Vid. Móvel. Vid. Obra. Boa Peça de prata, ou de ouro” (BLUTEAU, 1716).

25 Índios e mestiços já nascidos nas fazendas, vilas e cidades, não apenas índios recém resgatados no sertão do rio Negro, portanto.

58

condição que essa liberdade tenha de ser registrada em um livro especial, ao contrário

da liberdade de criados brancos, por exemplo, que não era posta em dúvida. Também

é significativo que o mesmo Livro das Canoas tenha sido utilizado para registrar a

entrega de mulatos e negros escravos fugidos de Caiena 26 a moradores como fiéis

depositários. Índios boçais, índios ladinos, índios crioulos, mamelucos, cafuzos livres,

negros e mulatos escravos passavam a aparecer sempre como servidores; os

moradoreseram os que assinavam os termos de responsabilidade por aqueles.

A partir de 1749 (depois da proibição dos resgates, portanto), praticamente

todos os termos são de moradores que se apresentavam para registrar como livres os

índios que os serviam, comprometendo-se a tratar os índios e a pagar-lhes salários.

O sistema dos resgates e das formas de cativeiro indígena (com ou sem título legal),

portanto, dava mostras de esgotamento em meados do século XVIII. A Coroa estava

prestes a reavaliar e reformular significativamente as relações com as populações

nativas no Estado do Grão-Pará e Maranhão.

1.2 Razão de Estado e Reformas no Estado do Grão-Pará e Maranhão

A entronização de D. José I foi o epítome de uma mudança geracional na elite

dirigente portuguesa. Em um curto espaço de tempo, haviam morrido não apenas o

rei D. João V como a maioria de seus ministros e conselheiros (MONTEIRO, 2008). O

juramento de D. José I (e também o de sua sucessora, D. Maria I) mantinha a tradição

da monarquia corporativa:

59

Juro e prometo com a graça de Deus vos reger, e governar bem, e diretamente, e vos administrar justiça, quanto a fraqueza humana permite e de vos guardar vossos costumes, privilégios, graças, mercês, liberdades, e franquezas, que pelos Reis meus Predecessores vos foram dados, outorgados e confirmados (MONTEIRO, 2008, p. 74 - grifos meus).

O ideal tradicional do bom governo era “administrar justiça”, mantendo os

privilégios e franquezas (i.e., as prerrogativas das corporações) e conservando “as

coisas em seus lugares”. Nesse paradigma jurisdicionalista, não cabia ao governo

mudar o status quo. Mas, como vimos, desde o reinado anterior (e até mesmo antes

dele), algumas tensões e transformações estavam acontecendo na monarquia

corporativa e polissinodal. Desde o século XVI “uma nova geração de politólogos [

]

começa a falar de ‘razão de Estado’ e de ‘soberania’, isto é, de razões e poderes

próprios da República, essencialmente distintos das razões e dos poderes dos

privados” (SUBTIL, 1992, p. 159). De uma era da “administração passiva”, do

paradigma jurisdicionalista, gradualmente transita-se para uma era de “administração

ativa”, a do paradigma político de legitimação do poder, inspirado nos cameralistas

alemães e na teoria do Estado de polícia francês. “Agora, o governo legitima-se

planejando reformas e levando-as a cabo, mesmo contra os interesses estabelecidos”

(SUBTIL, 1992, p. 160).

A imediata convocação, por D. José, de Sebastião José de Carvalho e Melo,

futuro Marquês de Pombal, para seu secretariado, seguindo a sugestão de Luís da

Cunha (CUNHA, 1976 [1749], p. 27), deu início a um período que foi intensa e

apaixonadamente estudado pelas historiografias portuguesa e brasileira. Há que se

ter alguma cautela, entretanto, para evitar uma apreciação apressada do caráter

60

“iluminista” ou “ilustrado” do ministério de Carvalho e Melo. 27 Embora se saiba que

houve várias ‘Ilustrações’, com características próprias em cada país europeu, não se

pode

superestimar o

seu

alcance

ou

assumir-se

que,

em

toda

parte,

tenha

representado uma ruptura decisiva em termos políticos e culturais. Em primeiro lugar,

a existência de um certo número de pessoas que examinavam criticamente a situação

política, econômica, social e cultural de Portugal não levou à formação de

uma corrente autônoma, radicada na ‘esfera pública’. Ao invés, muitos dos seus mentores caracterizavam-se pela sua proximidade do poder, o qual procuravam influenciar. Uma vez que a dinastia de Bragança se

caracterizou, como se tem insistido, por um certo isolamento cultural, não é de estranhar que muitas vezes as inovações nessas áreas

] o discutido

viessem de quem tinha passado pelo estrangeiro. Daí [ conceito de ‘estrangeirado’ (MONTEIRO, 2008, p. 60).

Os portugueses influenciados pela cultura das Luzes eram pouco numerosos,

desunidos e nunca foram chamados de “ilustrados” na época. Além disso, muitas de

suas ideias tinham sido colhidas no arbitrismo seiscentista e nas críticas ilustradas de

pensadores de outros sobre a realidade ibérica (MONTEIRO, 2008, p. 60-61).

Desde o século XVII, os chamados tacitistas defendiam uma concepção de

Razão de Estado como arte de garantir o repouso e a felicidade dos povos, mesmo à

custa de infringir o direito tradicional, “em vista de um bem maior, a conservação ou o

crescimento do Estado” (SENELLART, 2006, p. 290). O chamado período pombalino,

embora sem um plano delineado a priori, resultou em uma prática política na qual a

coroa procurou centralizar em si o poder, esvaziando centros concorrentes de poder

27 Por essa razão, o monumental trabalho de Francisco Falcon sobre A Época Pombalina, já falava nos limites políticos da Ilustração, de uma Ilustração “em termos”, um “compromisso tácito entre forças contraditórias”; Pombal, para Falcon, teria uma retórica ilustrada, “adaptada na prática às injunções e possibilidades reais da estrutura social e da conjuntura política”. Ele próprio, Carvalho e Melo, não se reconheceria nos moldes do despotismo esclarecido, como se depreende de seus escritos. Seu modelo era mais o dos ministros franceses do século XVII, como se vê também no seu fiscalismo, nas políticas de fomento à manufatura, no exclusivo colonial etc. (FALCON, 1982, p. 361-372)

61

pela “retirada de competências às instituições periféricas”. Essa prática apoiava-se

em uma “crença na capacidade da lei para modelar o mundo social”, com influência

de modelos seiscentistas, mas usando as ferramentas conceituais e técnicas

disponíveis no momento (meados do século XVIII). Somente a posteriori se emprestou

alguma coerência doutrinária às práticas pombalinas (MONTEIRO, 2008, p. 126-

127) 28 . Multiplicavam-se as “providências” e estas partiam de um “ministério”, isto é,

de um governo. Legislava-se profusamente para modificar a realidade existente eis

aí as novidades (pp. 208-210).

Àquela altura, tanto em Portugal quanto em outras partes da Europa, passava-

se gradativamente de uma abordagem pragmática da administração do império (que

favorecia a diversidade) para uma abordagem mais programática (HESPANHA,

2010, p. 73-74) e dinâmica, caracterizada pelo princípio da discricionariedade e pelo

primado do juízo de oportunidade. A política, a utilidade, a razão de Estado e o

arbitrium tenderam a reduzir sua costumeira subordinação à jurisprudência e à ratio

típicas do paradigma jurisdicionalista (HESPANHA, 1994, p. 284-285). Mesmo nesse

movimento, contudo, os juristas (ou parte deles) tiveram papel essencial, sendo

chamados a ajustar o aparato legal e administrativo para responder às urgências do

país após o terremoto de 1755 ou seja, a entrar na política (SUBTIL, 2007).

Se no século XVII o conceito de Coroa podia corresponder a um agregado de

órgãos e interesses, que não tinha como agir tal como um governo centralizado e

unívoco (CARDIM, 2002), o reinado de Dom José I consolidaria a forma ministerial de

governo no lugar do paradigma corporativo que vigia até então, “progressivamente

2828 Os leitores de Kenneth Maxwell estão certamente familiarizados com essa interpretação (MAXWELL, 1996).

62

suplantado por uma concepção ‘individualista’ no exercício da política” (BICALHO,

2010, p. 365). Seelaender chama a nossa atenção para o fato de que no século XVIII

a “polícia” deixa de ser uma atividade marginal do poder real tornando um “conceito-

síntese da gestão interna do Estado”. Não mais vinculada somente à manutenção do

que se considerava a boa e natural ordem social, agora estava comprometida com a

mudança. Torna-se agora um meio pelo qual o príncipe, dirigindo, moldando e

instrumentalizando seus súditos, multiplicava estes e suas riquezas, expandindo as

fontes últimas do poderio político-militar da Coroa” (SEELAENDER, 2008, p. 78). O

tradicional Conselho de Estado tinha já cedido terreno a um novo modelo mais político

de servidor, no reinado de Dom João V. O cargo de Secretário de Estado, livremente

disponível pelo monarca e considerado pouco digno pela aristocracia do reino

(CARDIM, 2002, p. 51), teria seu prestígio promovido por Dom José. A agilidade nas

decisões parecia necessária em um mundo marcado por transformações aceleradas

e pela competição cada vez mais intensa entre as potências, A “polícia”, ou uma

república “bem policiada”, passava a ser entendida como um ideal a ser perseguido

ativamente, sendo legítimo modificar a realidade a fim de

promover efetivamente o aumento populacional, o enriquecimento dos súditos, o progresso cultural, a colonização de regiões abandonadas, a maior integração de indígenas e “cristãos-novos” na sociedade, o surgimento de novas companhias e manufaturas, o disciplinar das camadas populares e o aprimoramento das condições de limpeza e segurança da capital (SEELAENDER, 2008, p. 78).

É inegável que houve uma permanente tensão entre a política programática de modernização a partir do alto da qual Pombal é exemplo paradigmático na Europa e a persistência das redes clientelares, de parentesco e da economia do dom ou das mercês, modos de sociabilidade e de estabelecimento de hierarquias com os quais ora o reformismo se confrontava ora tinha que transigir ou usar como meio para atingir seus fins.

63

As formulações legais do Estado pombalino eram justificadas como uma

aplicação da lei natural, um sistema secularizado que era uma construção lógica na qual a razão, mais do que a fé ou o costume, definia a justiça ou a

injustiça. [

foram respaldados pelas redes não-explícitas das relações pessoais, do clientelismo e do interesse próprio. Esse interesse próprio era visto claramente por Pombal como um meio de fortalecer os objetivos do Estado tanto na política econômica como na administração. Ainda assim, para funcionar, isso requeria uma visão que colocasse o interesse do Estado

acima dos interesses privados (MAXWELL, 1996, p. 116-117).

Ainda assim, na prática, os construtores manifestos do Estado

]

De forma bastante convencional, seria Sebastião José que dirigiria, por

exemplo, o engrandecimento da “casa”, dos bens familiares. Como primogênito, era

de se esperar que sua direção da casa e das decisões políticas fossem acatadas pelos

irmãos o que parece ter acontecido. Suas irmãs foram dedicadas à Igreja. Francisco

Xavier de Mendonça Furtado, mais jovem, seguiria carreira militar, sendo indicado

para governar o Estado do Grão Pará e Maranhão (1751-1759) e ocupando em

seguida o cargo de Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. Dos mais novos,

José Joaquim morreu jovem, em combate nas Índias; Diogo de Carvalho tornou-se

frei e foi estudar filosofia na Itália; Paulo Antônio de Carvalho e Mendonça presidiria o

Conselho da Inquisição e o Senado da Câmara de Lisboa 29 . Nem ele nem Mendonça

Furtado chegaram a se casar (MAXWELL, 1996, p. 2-3).

As reformas que seriam gradualmente realizadas no Estado do Maranhão e

Grão-Pará trariam, tipicamente, as marcas tanto do pragmatismo e das tradições

portuguesas, quanto de uma nova orientação programática, baseada na lógica, na

razão e em uma suposta lei natural. Em ambas as margens do Atlântico, as práticas

governamentais concretas, mais uma vez, foram configurando um novo tipo de Estado

(SENELLART, 2006).

29 Seria nomeado Cardeal pelo Papa em 1770, mas a notícia chegou a Lisboa depois de seu falecimento.

64

1.2.1 Vassalos livres, mas tutelados

A correspondência entre Mendonça Furtado e Sebastião José de Carvalho

Melo mostra que as reformas foram amadurecidas durante alguns anos. Em 1751, no

início do governo de Mendonça Furtado, ambos estavam ainda tateando o terreno,

sob o influxo de várias circunstâncias: A) das determinações do rei D. José no sentido

de tornar efetiva a liberdade dos índios, conforme as Instruções Públicas e

Secretas 30 confiadas a Furtado; B) da constatação de que as relações de trabalho no

norte da América Portuguesa eram insustentáveis sob qualquer ponto de vista, tendo

levado à resistência ativa e passiva dos povos nativos e a um desastre demográfico

com graves consequências fiscais, militares e políticas; C) da avaliação de que o

Estado do Grão Pará e Maranhão encontrava-se estagnado economicamente e

financeiramente insolvente e D) da intensa e ainda recente polêmica travada em

Lisboa entre Paulo da Silva Nunes (procurador das Câmaras de São Luís e Belém) e

o provincial da Companhia de Jesus, em torno do poder temporal dos missionários

nas aldeias e do enorme poder econômico atribuído a eles. Gradualmente, seria nesse

sentido que os instrumentos legais se orientariam para encontrar uma efetividade que

as leis de 1609 e 1680 nunca tiveram: o assalto ao poder temporal dos missionários.

Em uma representação datada provavelmente de 1729, o procurador das

Câmaras de Belém e São Luís requeria

que os ditos missionários, nem os seus prelados, usem mais da

30 Instruções Régias, Públicas E Secretas Para Francisco Xavier De Mendonça Furtado, Capitão- General Do Estado Do Grão-Pará E Maranhão, 31 de maio de 1751 (In MENDONÇA, 2005, pp. 68-69, vol. I).

65

jurisdicção, que tem dos Índios, quanto ao temporal, e que fiquem só com a espiritual que tinhão d'antes, e que ensinem aos Índios das missões a língua portugueza, como também aos moradores, aos que têm livres ou escravos, pelos bens temporais, que resultão aos Índios, e ás republicas daquelle Estado, de a saberem dentro em cinco anos; que os governadores e capitães-generaes, ponhão nas aldêas das missões cabos portuguezes, brancos casados, e bem procedidos, para que estejão nas mesmas aldêas, com seus filhos, e mulheres, e assistão aos Índios nas suas doenças [

31

Apesar do pedido ter sido indeferido, duas dessas ideias teriam eco vinte e dois

anos mais tarde nas preocupações registradas na correspondência entre Mendonça

Furtado e Sebastião José de Carvalho e Melo: eliminar o poder temporal dos

missionários e impor o uso da língua portuguesa entre a população aldeada. O

requerimento de Paulo da Silva Nunes teve repercussão significativa nos anos que se

seguiram a 1729. O rei D. João V enviou o desembargador Francisco Duarte dos

Santos ao Estado do Maranhão e Grão Pará, “para se informar do governo temporal

dos índios e queixas contra os missionários”. O parecer do enviado do rei foi

desfavorável às pretensões das Câmaras, pois

Ainda que a falta de escravos e operarios neste Estado fosse tamanha como os suplicantes segurão, e a sua pobreza maior do que intentão persuadir, não seria bastante toda a força desta necessidade, e miseria a fazer quebrantar a regra do direito natural, e das gentes, e que seria um acordo que excedería os limites da crueldade se se outorgasse a estes moradores poderem remir os seus apertos, e fundar as suas vantagens na oppressão e ruína dos Tapuyas. 32

A representação de Paulo da Silva Nunes tampouco ficaria sem resposta por

parte dos jesuítas. Jacinto de Carvalho, visitador geral das missões da Companhia de

Jesus

no

Maranhão,

contestou

circunstanciadamente

aos

requerimentos

do

31 Representação dos Moradores do Estado do Maranhão, assinada por Paulo da Silva Nunes (MORAIS, 1858-1863, p. 299). 32 Cópia da Informação e Parecer do Desembargador Francisco Duarte dos Santos, que sua Majestade mandou ao Maranhão em 1734, para se informar do governo temporal dos índios e queixas contra os missionários (MORAIS, 1858-1863, p. 126).

66

procurador das câmaras no mesmo ano de 1729. Ainda em 1755, o jesuíta Bento da

Fonseca procurava defender o poder temporal dos missionários sobre os índios

(MORAIS, 1858-1863, p. 122). 33 . O padre alegava que desde 1637, sob Felipe IV, os

jesuítas do Maranhão tinham jurisdição e governo temporal sobre os índios do Estado

(p. 123), confirmados por sucessivas leis, provisões e regimentos até 1663, quando

foi determinado que as aldeias seriam governadas pelos seus principais, sem que os

missionários tivessem poder temporal. Mas a partir de 1680 a legislação consagraria

o poder temporal dos missionários novamente (até 1755). Nas palavras de Bento da

Fonseca, esse poder temporal consistiria simplesmente no seguinte:

é só serem os missionários tutores, defensores e curadores dos

Índios[

próprio do seu offício livrá-las dos lobos.

O pastor não só apascenta as ovelhas, mas também é

].

O Padre Vieira, varão apostólico que procurou este chamado governo

temporal, não aspirava á dignidades. Bem notorio é quantas se Ihe offerecerão e quanto fugio dellas, e bem se vê que não procurou esta

jurisdicção pela honra e ambição de governar Tapuyas e só sim pelos converter e reduzir, e remover os impedimentos de sua conversão. [ ]

O Padre José da Costa, missionário dos Índios do Perú, diz que seria

digno de riso, o missionário que quizesse evangelizar aos índios como

às nações políticas. [

sobre toda a barbaridade, e brutalidade que se tem descoberto no mundo. Os meios que tem mostrado a experiência para os converter, são, primeiro cuidar o missionário em reduzí-los de féras em homens, e depois de convertidos em homens, é que se podem fazer christãos. 34

os Indios Americanos são bárbaros e brutos

]

Seguindo o raciocínio de Bento da Fonseca, o poder temporal era pré-requisito

para o exercício do poder espiritual, naquelas circunstâncias. Para conseguir a

conversão, era necessário na América ter o poder temporal, tanto para trazer os índios

à vida política, tirando-os dos matos, quanto para protegê-los da violência dos

33 Notícia do governo temporal dos índios do Maranhão das leis e razões porque os reis о commetterão aos missionários, e em que consiste о dito governo chamado temporal, que exercitãо os missionários sobre os índios (MORAIS, 1858-1863, p. 122). 34 “Notícia do governo temporal dos índios do Maranhão das leis e razões porque os reis о commetterão aos missionários, e em que consiste о dito governo chamado temporal, que exercitãо os missionários sobre os índios(MORAIS, 1858-1863, pp. 148-153).

67

brancos. Sendo tão “bárbaros e brutos”, sem “capacidade nem talento para se

governarem”,

precisavam

de

tutores

os

missionários.

Esse

poder

temporal

(desnecessário quando os catecúmenos são “gente política”), diz Fonseca, é apenas

de tutoria, curadoria e proteção, sem jurisdição, pois não subtrai os índios à jurisdição

dos magistrados para serem julgados e castigados, nem à do governador para irem à

guerra ou trabalharem nas fortificações (MORAIS, 1858-1863, pp. 153-157).

Como veremos adiante, a noção de que os índios seriam incapazes de se

governar, carecendo de tutela, seria mantida por Mendonça Furtado e levaria a

algumas aporias na regulamentação da legislação reformista pós-1755. Ironicamente,

uma argumentação muito semelhante à do jesuíta Bento da Fonseca seria usada por

Mendonça Furtado para mitigar as Leis de Liberdade, criando a figura do diretor de

índios, uma nova espécie de tutor laico que supervisionaria o autogoverno dos índios

nas aldeias transformadas em vilas e lugares, “em quanto se conservão na barbara,

e incivil rusticidade, em que até agora forão educados” (FURTADO, 1758, § 92). A

diferença em relação a Bento da Fonseca, naturalmente, era de que Furtado

responsabilizava os próprios missionários principalmente os jesuítas pela

conservação dos índios nessa “rusticidade”. Cumpria, portanto, remover essa barreira

à transformação dos índios da Amazônia em “gente política”.

1.2.2 Mendonça Furtado e a reorganização da força de trabalho

A centralidade do trabalho indígena para a colonização do Grão-Pará estava,

naturalmente, patenteada nas fontes do período. As Instruções Públicas e Secretas

que Mendonça Furtado levava consigo, ao assumir o governo do Estado do Grão-

68

Pará, manifestavam que a sorte do Estado dependia inteiramente dos negócios

pertencentes à conquista e liberdade dos índios”. As Instruções admitiam que houve

ao longo dos séculos de colonização algumas nuances e recuos parciais, mas

reafirmavam que a Coroa mantivera o compromisso com a liberdade dos Índios a todo

o tempo:

Tendo-se permitido o cativarem-se índios, foi preciso reprimir-se o excesso com que se usava daquela permissão, mandando-se publicar várias leis, pelos senhores reis meus predecessores.

Mostrou a experiência que não bastavam as providências dadas nestas leis, e se proibiu geralmente o cativeiro dos índios, por outra do primeiro de abril de 1680; e, passando o espaço de oito anos, fui servido atender às representações em que se ponderavam os inconvenientes que havia na dita

liberdade e fui servido permitir, em alguns casos, o cativeiro, pelo alvará em

forma de lei de 28 de abril de 1688. [

Para conter estes desordenados procedimentos e evitar tão considerável dano, sou servido declarar que nenhum destes índios possa ser escravo, por nenhum princípio ou pretexto, para o que hei por revogadas todas as leis, resoluções e provisões que até agora subsistiam, e quero que só valha esta minha resolução que fui servido tomar no decreto de 28 do corrente, que baixou ao Conselho Ultramarino para que todos os moradores do Estado cuidem em fabricar as suas terras como se usa no Brasil, ou pelo serviço dos mesmos índios, pagando a estes os seus jornais e tratando-os com humanidade, sem ser, como até agora se praticou, com injusto, violento e bárbaro rigor.

Para que os moradores daquele Estado observem inteira e religiosamente esta minha resolução, os persuadireis a que se sirvam de escravos negros, e que, servindo-se de índios, os tratem com caridade e de forma que não experimentem os efeitos da escravidão, mas, sim, que convenham com eles nos preços de seus jornais; e podereis facilitá-los a este modo de cultivar as terras na ocasião presente, em que a epidemia, que matou tantos índios os anos passados, dá ocasião a mudarem de método e facilitar-se a prática que acima vos aponto, com a qual os índios possam gozar da sua liberdade nos poucos que restam daquele contágio. 35

]

Formalmente, não era ainda uma política indigenista inovadora. Desde Vieira e

da legislação por ele inspirada, como vimos, buscava-se substituir o trabalho indígena

forçado pelo trabalho escravo de africanos. Mas, assim como no século XVII, essa

35 Instruções Régias, Públicas E Secretas Para Francisco Xavier De Mendonça Furtado, Capitão- General Do Estado Do Grão-Pará E Maranhão, 31 de maio de 1751 (In MENDONÇA, 2005, pp. 68-69, vol. I).

69

idealizada substituição que permitiria absorver as populações nativas como

povoadores e súditos portugueses continuava tropeçando no alto custo dos

escravos africanos que chegavam ao porto de Belém. O trabalho indígena continuava

sendo imprescindível, mesmo com os povoadores brancos que naquele momento se

enviavam do Reino e das Ilhas do Atlântico para povoar o Grão-Pará 36 . Conforme as

mesmas Instruções Públicas e Secretas, o governador deveria estabelecer em junta

os jornais e salários a serem pagos aos operários índios, “atendendo à pobreza e

miséria dos moradores” brancos. Recomendava-se especial observância à repartição

dos índios, ou seja, ao seu trabalho compulsório para os moradores, ainda que

remunerado. Igualmente, ordenava-se que os índios aprendessem ofícios, como se

praticava nas missões castelhanas. 37

A historiadora Patricia Seed compara as relações entre europeus e povos

nativos da América nos impérios coloniais ibéricos, de um lado, e nos domínios

ingleses, de outro. Nestes últimos, segundo a autora, o ativo mais valioso era a terra,

já que os europeus transmigrados para aquela parte da América respondiam pela

força de trabalho com suas próprias famílias. Dessa forma, a política predominante

nas colônias inglesas do norte da América foi a expulsão dos índios, para a

apropriação da terra pelos europeus. Na América Portuguesa, pelo contrário, o ativo

de maior valor era a força de trabalho e não a terra, de modo que os europeus não

expulsaram sistematicamente os índios, mas, pelo contrário, buscaram ativa e

permanentemente a atração de comunidades indígenas para fixar aldeamentos de

povos aliados junto às povoações coloniais (SEED, 2001). As Instruções Públicas e

36 As Instruções Públicas e Secretas mencionavam os povoadores (ilhéus e do reino) que deveriam fundar novos estabelecimentos e trabalhar com as próprias mãos na agricultura, sem cair na ociosidade (parágrafo 12). 37 §§ 15º e 16º das Instruções Públicas e Secretas (MENDONÇA, 2005, p. 72, vol. I).

70

Secretas insistiam, aliás, na necessidade de “descer e atrair voluntariamente” quantos

mais índios fossem necessários ao Estado (§ 8º).

Realmente, em carta de 21 de novembro de 1751, Mendonça Furtado afirma

que

sem os índios

se

não pode fazer coisa alguma, por serem os únicos

trabalhadores que há nesta terra(MENDONÇA, 2005, p. 123). Para o governador, o

ódio mortal e irreconciliável” dos moradores para com as Religiões (as ordens

regulares missionárias) devia-se ao fato de que os regulares (missionários) eram no

Grão-Pará “senhores dos índios, e por consequência senhores de tudo” (p. 124).

Na

década

Como neste Estado não é rico o que tem muitas terras, senão aquele que tem maior quantidade de índios, tanto para a cultura como para a extração de drogas dos sertões, entram todos estes padres, com o pretexto das missões, não só a fazerem descimentos, como eles lhes reclamam, não conforme as ordens de S. Maj. mas, a maior parte das vezes, por meios violentos, indignos, e até faltando à fé que deveram ter com os miseráveis índios com quem contratam; porque a maior parte das vezes sucede trazerem amarrados, não só os Principais, umas até as suas mesmas famílias, com quem estão contratando para os descimentos [

38

de

1750,

no

limiar

de

uma

reformulação

significativa

da

regulamentação das relações de trabalho entre brancos e índios no norte da América

Portuguesa, o missionário jesuíta João Daniel e o governador do Estado Mendonça

Furtado, em campos diametralmente opostos, fizeram seus balanços das expedições

de resgate. Apesar do antagonismo político (Daniel escrevia em uma masmorra

pombalina, depois da derrota de sua ordem no embate com Mendonça Furtado e

Carvalho e Melo), as conclusões de ambos sobre os resgates convergem entre si e

38 Carta de Mendonça Furtado ao seu irmão, Sebastião José de Carvalho e Melo, de 21 de novembro de 1751 (MENDONÇA, 2005, p. 125).

71

também com o que dizia a esse respeito o Discurso Encomiástico 39 , panegírico em

homenagem a Mendonça Furtado redigido por um antigo funcionário do governo do

Grão-Pará com exceção do estilo mais pomposo e, é claro, do viés antijesuítico de

praxe ao tempo do consulado pombalino:

convencionaram em Lisboa um detestável arbítrio, que foi o das entradas no sertão com umas caravanas, a que chamaram tropas de resgate; compostas de um capitão, oficiais subalternos, soldados, julgador das escravidões, que era sempre, pela lei, missionário jesuíta, com seu escrivão secular, tudo nomeado pelo governo; mas sempre à satisfação dos padres interessados.

Composto assim este corpo monstruoso, porque de duas cabeças, missionário e cabo; se embarcava com fazendas proporcionadas ao gosto dos índios pagãos que governavam as nações de maior força; e se lhes

presenteavam a fazer negócio, resgatando de seu poder a troco de gêneros

E na verdade, que naquela

conquista este gênero de negociação pelo dolo e abuso com que se fazia não era outra coisa mais que uma abominável rede de iniqüidades com que a infernal astúcia armava a toda a qualidade de almas, tanto eclesiásticas como seculares, que de umas e outras fazia muito copioso lanço para o transporte da sua formidável barca.

].que [

haveria um só que merecesse a fatalidade de ser marcado com o ferro da escravidão, por não ser nenhum cativo, com a formalidade da lei que o permitia; porque todos, com bárbara impiedade, eram colhidos com traição, amarrados com violência e julgados com iniqüidade, como sempre havia sucedido e modernamente fora praticado por aqueles dois apóstatas do cristianismo, Braga e Portilho e outros seus sequazes, com escândalo total do nome católico (MENDONÇA, 2005, p. 422; 429-430, vol. III).

de tantos milhões de índios, adquiridos nas Tropas do Resgate, não

de inferior qualidade aqueles gentios [

].

Braga e Portilho são dois personagens de quem se falará mais à frente neste

trabalho.

José

Gonçalves

da

Fonseca,

autor

desse

Discurso

Encomiástico,

certamente falava com conhecimento de causa. Secretário do Governo do Estado

desde pelo menos 1737 40 , no ano seguinte já oficiava diretamente ao Secretário de

39 Discurso encomiástico em que, para melhor inteligência do seu contexto, se dá princípio pela situação dos estados do Grão-Pará, com notícia abreviada das suas povoações; e se descreve o sistema do seu governo antigo, que de presente foi abolido e reformado, escrito em 1759 por José Gonçalves da Fonseca, Secretário que foi daqueles Estados cinco triênios, e ultimamente na mesma Conquista por ordem do soberano, Comissário da exploração do grande rio da Madeira, até às Minas do Mato Grosso” (MENDONÇA, 2005, p. 416, vol. III).

40 REQUERIMENTO de José Gonçalves da Fonseca para o rei [D. João V], solicitando a sua admissão ao concurso de secretário do Governo do Estado do Maranhão e Pará, pois está atualmente a ocupar o referido cargo. Anexo: provisão. AHU_CU_013, Cx. 20, D. 1868. A admiração de Fonseca por Mendonça Furtado não parecia encontrar total reciprocidade. O juízo que dele fazia o Capitão General não era dos mais lisonjeiros: “José Gonçalves da Fonseca, que foi Secretário do Governador João de

72

Marinha do Reino sobre esses abusos do cativeiro ilegal 41 . Durante quase dez anos,

na qualidade de secretário de Estado, Fonseca lavrara muitos dos termos de registro

das “peças” trazidas pelos cabos das canoas na volta das expedições ao Sertão 42 ,

quando se formalizava o estatuto jurídico desses gentios. Como veremos adiante,

esses homens, mulheres e crianças trazidos à força dos rios Negro, Japurá, Branco e

respectivos afluentes, integrantes de dezenas de etnias diferentes, amiúde trazidos

sem o devido exame a respeito da legitimidade do cativeiro, eram confiados “em

condição” aos seus captores, que se comprometiam a pagar-lhes salário e doutriná-

los, como vimos anteriormente.

Além disso, em razão de seu ofício, José Gonçalves da Fonseca secretariou

reuniões da Junta das Missões pelo menos em uma ocasião, em 1741 43 . Não era

apenas um homem de gabinete, pois conhecia de perto a realidade dos sertões, como

vemos em seu relato da viagem de Belém ao Mato Grosso por uma rota então

perigosa e inóspita, a Navegação feita da cidade do Gram-Pará até a boca do Rio da

Madeira pela escolta que por este Rio subio às Minas do Mato-Grosso no anno de

1749 (FONSECA, 1826 [1749]). Já naquela época manifestava uma forte antipatia em

relação aos jesuítas: ao passar pela fortaleza do Tapajós (hoje, Santarém), Fonseca

Abreu, é homem que podia ser de préstimo porque tem uma grande habilidade e juízo: porém, é sumamente orgulhoso, inquieto, e em cujas informações se não pode fazer a mais leve confiança, porque será rara a vez que fale uma verdade; além do que, é aleivoso, e a terra em que ele assistir é impossível que se conserve em sossego” (carta de Mendonça Furtado a Sebastião José de Carvalho e Melo, de 21 de janeiro de 1752, in MENDONÇA, 2005, p. 265).