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Antropologia Cultural Ensino à Distância Universidade Pedagógica Rua Comandante Augusto Cardosos n ˚ 135

Antropologia Cultural

Antropologia Cultural Ensino à Distância Universidade Pedagógica Rua Comandante Augusto Cardosos n ˚ 135

Ensino à Distância

Universidade Pedagógica Rua Comandante Augusto Cardosos n ˚ 135

Antropologia Cultural

i

Direitos de autor

Este módulo não pode ser reproduzido para fins comerciais. No caso de reprodução deve ser mantida a referência à Universidade Pedagógica e aos autores do módulo.

Universidade Pedagógica

Rua Comandante Augusto Cardoso, nº 135 Telefone: 21-320860/2 Telefone: 21 – 306720

Fax: +258 21-322113

ii

Índice

ii Índice

Agradecimentos

À COMMONWEALTH of LEARNING (COL) pela disponibilização do Template usado na produção dos Módulos.

Ao Instituto Nacional de Educação a Distância (INED) pela orientação e apoio prestados.

Ao Magnífico Reitor, Directores de Faculdade todo o processo.

e Chefes de Departamento pelo apoio prestado em

Antropologia Cultural

iii

Ficha Técnica

Autor: - Martinho PEDRO

- Alipio SIQUISSE

Desenho Instrucional:

Suzete BUQUE

Revisão Linguística: Casimiro CHACHUAIO

Maquetização: Fátima Alberto NHANTUMBO

Edição: Anilda Ibrahimo KHAN

iv

Índice

iv Índice

Índice

Visão geral

13

Bem-Vindo ao módulo de Antropologia Cultural Objectivos do curso Quem deve estudar este módulo? Como está estruturado este módulo? Ícones de actividade Habilidades de estudo Precisa de apoio? Tarefas (avaliação e auto-avaliação) Avaliação

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Unidade 1

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Antropologia Cultural no Contexto das Ciências Introdução

20

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Lição n° 1

22

Os Conceitos de Etnografia e Etnologia na Construção de uma Antropologia. Objecto e

Objectivo da Antropologia Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

22

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23

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Lição n° 2

25

Os Ramos da Antropologia (Física, Cultural, Social, Económica, Política, Aplicada, Psicanalítica) Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

25

25

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26

27

27

Lição n° 3

28

As Relações da Antropologia Cultural com outras Ciências Sociais e Humanas Introdução

28

28

Antropologia Cultural

v

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

28

30

30

30

Lição n° 4

31

O

Método de Trabalho em Antropologia Introdução

31

31

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas Actividade Final da Unidade

31

33

33

34

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Unidade 2

35

Pensamento Antropológico: (Teorias/Correntes) Introdução

35

35

Lição n° 1

37

O

Debate Teórico à Volta da Formação e Construção da Ciência Antropológica Introdução

37

37

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

38

39

40

41

Lição n° 2

42

O

Período de Convergência e de Construção da Antropologia Cultural Introdução

42

42

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

42

43

44

44

Lição n° 3

45

As Correntes/Escolas de Pensamento Antropológico Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

45

45

45

50

50

51

Lição n° 4

52

Críticas à Antropologia em Geral, em África e em Moçambique Introdução

52

52

vi

Índice

vi Índice

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas Actividade Final da Unidade

52

54

54

55

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Unidade 3

56

A

Cultura

56

Introdução

56

Lição n° 1

58

O

Conceito de Cultura

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Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

58

58

60

60

61

Lição n° 2

62

As Características da Cultura Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

62

62

62

64

64

65

Lição n° 3

66

A

Totalidade da Cultura: Unicidade, Diversidade e Etnicidade Introdução

66

66

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

66

68

69

69

Lição n° 4

70

Da Diversidade à Relatividade Cultural Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

70

70

70

71

72

72

Lição n° 5

73

A

Aplicação do Etnocentrismo Introdução

73

73

Antropologia Cultural

vii

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

73

75

75

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Lição n° 6

77

O

Dinamismo Cultural

77

Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

77

77

80

80

81

Lição n° 7

82

Os Factores da Cultura Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

82

82

82

84

85

85

Lição n° 8

86

A

Interacção dos Factores Introdução

86

86

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

86

88

88

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Lição n° 9

90

A

Interacção entre a Cultura e a Natureza, a Sociedade e a Civilização Introdução

90

90

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

90

92

92

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Lição n° 10

94

A

Identidade Cultural Introdução

94

94

viii

Índice

viii Índice

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas Actividade Final da Unidade

94

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96

97

97

Unidade 4

98

A

Cultura Material

98

Introdução

98

Lição n° 1

100

A

Cultura Material e a Evolução do Homem Introdução

100

100

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

100

101

102

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Lição n° 2

104

A

Ecologia na Relação Homem-Meio Ambiente Introdução

104

104

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

104

105

105

106

Lição n° 3

107

Noção de Sociedade de Caça- Colecta e Sociedade de Agricultura de Savana. Processos

de Transição na História de Moçambique Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

107

107

107

110

111

111

Lição n° 4

112

Noção dos Modos de Produção Introdução

112

112

Antropologia Cultural

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Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas Actividade Final da Unidade

112

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114

114

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Unidade 5

116

O

Parentesco

116

Introdução

116

Lição n° 1

118

O

Parentesco

118

Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

118

118

120

120

121

Lição n° 2

122

As Unidades Funcionais do Parentesco e a Sua Importância Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

122

122

122

123

124

124

Lição n° 3

125

As Formas do Parentesco Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

125

125

125

127

127

128

Lição n° 4

129

Os Esquemas do Parentesco Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

129

129

129

131

131

132

Lição n° 5

133

A

Filiação

133

x

Índice

x Índice

Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

133

136

136

137

Lição n° 6

138

Grupos de Parentesco Introdução Conteúdo Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

138

138

138

140

140

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Lição n° 7

142

Aliança Matrimonial Introdução Conteúdos Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

142

142

142

144

144

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Lição n° 8

146

Residência e Circulação Matrimonial e Seu Impacto na Organização Social e Política146

Introdução Conteúdos Sumário Exercícios Leituras aconselhadas Actividade Final da Unidade

146

146

148

148

149

149

Unidade 6

150

A Cultura do Simbólico, Ideologias e O Papel da Religião Tradicional em África e em

Moçambique

150

 

Introdução

150

Lição n° 1

152

A

Cultura do Simbólico

152

Introdução Conteúdos Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

152

152

154

154

155

Lição n° 2

156

Os Veículos da Transmissão Ideológica: Rituais e Mitos Introdução

156

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Antropologia Cultural

xi

Conteúdos Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

156

157

158

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Lição n° 3

160

A Religião Tradicional em África: o Culto aos Antepassados, a Crença na Magia e na

Feitiçaria Introdução Conteúdos Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

160

160

160

162

163

163

Lição n° 4

164

A

Introdução de Novas Ideologias Religiosas e o seu Impacto nas Sociedades Agrícolas

164

em África Introdução Conteúdos Sumário Exercícios Leituras aconselhadas

164

164

165

165

166

Lição n° 5

167

Os Movimentos Político-Religiosos em África Introdução Conteúdos Sumário Exercícios Exercícios Leituras aconselhadas Actividade Final da Unidade Respostas das Actividades Finais Notas Finais

167

167

167

168

168

168

169

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170

172

Antropologia Cultural

13

Visão geral

Bem-Vindo ao módulo de Antropologia Cultural

Caro estudante, você vai iniciar o estudo do módulo de Antropologia

Cultural com o qual você vai aprender que, apesar da grande diversidade

da sociedade humana, isto é, existirem diferentes formas de vida,

variáveis de uma região para a outra, de um tempo histórico para o outro,

o ser humano vive segundo regras culturalmente instituídas, seja em que

domínio social fôr. Assim, você vai aprender que qualquer um dos

aspectos adiante estudados pode ser observado em qualquer sociedade

humana, revelando-se o carácter universal da cultura.

Objectivos do curso

Quando terminar o estudo deste modulo, você será capaz de:

Quando terminar o estudo deste modulo, você será capaz de: Objectivos Saber o que é Antropologia

Objectivos

Saber o que é Antropologia Cultural;

Conhecer os pressupostos da emergência da Antropologia Cultural;

Conhecer as especificidades da Antropologia Cultural em relação às outras ciências;

Diferenciar as características da Cultura Humana;

Identificar a produção material, como marco fundamental da diferenciação entre Homem e os outros animais;

Reconhecer o parentesco como um dos fundamentos da organização social entre os Homens e

Conhecer a natureza simbólica da cultura humana.

14

Visão geral

14 Visão geral

Quem deve estudar este módulo?

Este módulo destina-se à formação de professores em exercício que

possuem a 12 a classe ou equivalente e inscritos no Curso à Distância,

fornecido pela Universidade Pedagógica.

Como está estruturado este módulo?

Todos os módulos dos cursos produzidos pela Universidade Pedagógica

encontram-se estruturados da seguinte maneira:

Páginas introdutórias

Um índice completo.

Uma visão geral detalhada do curso / módulo, resumindo os aspectos- chave que você precisa conhecer para completar o estudo. Recomendamos vivamente que leia esta secção com atenção antes de começar o seu estudo.

Conteúdo do curso / módulo

O curso está estruturado em unidades. Cada unidade incluirá uma

introdução, objectivos, conteúdo, incluindo actividades de aprendizagem, um sumário e uma ou mais actividades para auto-

avaliação

O módulo de Antropologia Cultural é constituído por 6 Unidades

Temáticas.

Cada unidade apresenta:

Uma introdução, que dá uma orientação geral sobre o aspecto central de estudo;

Os tópicos, isto é, os temas de cada lição;

Os objectivos gerais e específicos;

As motivações, isto é, aquilo que se pode constituir como um dos

fundamentos para o estudo de cada unidade;

Antropologia Cultural

15

Os meios, onde são indicados os materiais e todas as bases de

apoio, para tornar o seu estudo mais aprofundado e concreto.

Um conjunto de lições, variáveis de unidade para unidade. Cada

lição possui por sua vez:

Uma introdução;

As horas necessárias para o estudo de cada lição;

Os objectivos;

Os contúdos, onde é apresentada a matéria essencial da lição;

Um sumário, onde você pode encontrar os eixos centrais de

cada lição;

Uma actividade, onde você pode testar a compreensão da

lição;

As referências complementares, identificadas como leituras

complementares, onde se encontram indicados os livros a que

você pode recorrer para aprofundar os seus conhecimentos.

Em cada referência está identificada a parte onde você pode

encontrar a matéria respectiva.

Outros recursos

Se você está interessado em aprender mais, preste atenção a lista de recursos adicionais para e explore-os. Estes recursos podem incluir livros, artigos ou sites na Internet.

Tarefas de avaliação e/ou Auto-avaliação

As tarefas de avaliação para este módulo encontram-se no final de cada unidade. Sempre que necessário, dão-se folhas individuais para desenvolver as tarefas, assim como instruções para as completar. Estes elementos encontram-se no final do módulo.

Comentários e sugestões

Esta é a sua oportunidade para nos dar sugestões e fazer comentários sobre a estrutura e o conteúdo do módulo. Os seus comentários serão úteis para nos ajudar a avaliar e melhorar este módulo.

16

Visão geral

16 Visão geral

Ícones de actividade

Ao longo deste manual você irá encontrar uma série de ícones nas margens das folhas. Estes ícones servem para identificar diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica do texto, uma nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc.

Acerca dos ícones

Os ícones usados neste manual são símbolos africanos, conhecidos por adrinka. Estes símbolos têm origem no povo Ashante de África Ocidental, datam do século 17 e ainda se usam hoje em dia.

Os ícones incluídos neste manual são

efeitos de testagem deste modelo, reproduziram-se os ícones adrinka, mas foi-lhes dada uma sombra amarela para os distinguir dos originais).

(ícones a ser enviados - para

Pode ver o conjunto completo de ícones deste manual já a seguir, cada um com uma descrição do seu significado e da forma como nós interpretámos esse significado para representar as várias actividades ao longo deste curso / módulo.

Comprometimento/ Resistência, “ Qualidade do “ Aprender através perseverança perseverança trabalho
Comprometimento/ Resistência, “ Qualidade do “ Aprender através perseverança perseverança trabalho
Comprometimento/ Resistência, “ Qualidade do “ Aprender através perseverança perseverança trabalho
Comprometimento/ Resistência, “ Qualidade do “ Aprender através perseverança perseverança trabalho

Comprometimento/

Resistência,

Qualidade do

Aprender através

perseverança

perseverança

trabalho

da experiência

(excelência/

autenticidade)

Avaliação /

Actividade

Auto-avaliação

Teste

Exemplo / Estudo de caso

Auto-avaliação Teste Exemplo / Estudo de caso Paz/harmonia Unidade/relações Vigilância / “
Auto-avaliação Teste Exemplo / Estudo de caso Paz/harmonia Unidade/relações Vigilância / “
Auto-avaliação Teste Exemplo / Estudo de caso Paz/harmonia Unidade/relações Vigilância / “
Auto-avaliação Teste Exemplo / Estudo de caso Paz/harmonia Unidade/relações Vigilância / “

Paz/harmonia

Unidade/relações

Vigilância /

Eu mudo ou transformo a minha vida

humanas

preocupação

Debate

Actividade de

 

grupo

Tome Nota!

Objectivos

Antropologia Cultural

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[ Ajuda-me] deixa- “ Pronto a enfrentar as vicissitudes da vida ” (fortitude / “
[ Ajuda-me] deixa- “ Pronto a enfrentar as vicissitudes da vida ” (fortitude / “
[ Ajuda-me] deixa- “ Pronto a enfrentar as vicissitudes da vida ” (fortitude / “
[ Ajuda-me] deixa- “ Pronto a enfrentar as vicissitudes da vida ” (fortitude / “

[Ajuda-me] deixa-

Pronto a enfrentar as vicissitudes da vida

(fortitude /

Nó da sabedoria

Apoio /

me ajudar-te

encorajamento

Leitura

preparação)

Terminologia

Dica

Reflexão

Habilidades de estudo

Caro estudante!

Para frequentar com sucesso este módulo terá que buscar através de uma leitura cuidadosa das fontes de consulta a maior parte da informação ligada ao assunto abordado. Para o efeito, no fim de cada unidade apresenta-se uma sugestão de livros para leitura complementar.

Antes de resolver qualquer tarefa ou problema, o estudante deve certificar-se de ter compreendido a questão colocada;

É importante questionar se as informações colhidas na literatura são relevantes para a abordagem do assunto ou resolução de problemas;

Sempre que possível, deve fazer uma sistematização das ideias apresentadas no texto.

Desejamos-lhe muitos sucessos!

Precisa de apoio?

Dúvidas e problemas são comuns ao longo de qualquer estudo. Em caso de dúvida numa matéria tente consultar os manuais sugeridos no fim da lição e disponíveis nos Centros de Recurso mais próximos. Se tiver dúvidas na resolução de algum exercício, procure estudar os exemplos

18

Visão geral

18 Visão geral

semelhantes apresentados no manual. Se a dúvida persistir, consulte a orientação que aperece no fim dos exercícios. Se a dúvida persistir, veja a resolução do exercício.

Sempre que julgar pertinente, pode consultar o tutor que está à sua disposição no Centro de Recurso mais próximo.

Não se esqueça de consultar também colegas da escola que tenham feito cursos na Universidade Pedagógica, vizinhos e até estudantes de universidades que vivam na sua zona e tenham ou estejam a fazer cadeiras relacionadas com Antropologia Cultural.

Tarefas (avaliação e auto- avaliação)

Ao longo deste módulo irá encontrar várias tarefas que acompanham o seu estudo. Tente sempre solucioná-las. Consulte a resolução para confrontar o seu método e a solução apresentada. O estudante deve promover o hábito de pesquisa e a capacidade de selecção de fontes de informação, tanto na internet como em livros. Consulte manuais disponíveis e referenciados no fim de cada lição para obter mais informações acerca do conteúdo que esteja a estudar. Se usar livros de outros autores ou parte deles na elaboração de algum trabalho deverá citá- los e indicar estes livros na bibliografia. Não se esqueça que usar um conteúdo, livro ou parte do livro em algum trabalho, sem referenciá-lo é plágio e pode ser penalizado por isso. As citações e referências são uma forma de reconhecimento e respeito pelo pensamento de outros. Estamos cientes de que o estimado estudante não gostaria de ver uma ideia sua ser usada sem que fosse referenciado, não é?

Na medida de possível, procurar alargar competências relacionadas com o conhecimento científico, as quais exigem um desenvolvimento de competências, como auto-controle da sua aprendizagem.

As tarefas colocadas nas actividades de avaliação e de auto-avaliação deverão ser realizadas num caderno à parte ou em folha de formato A4.

Antropologia Cultural

19

O estudante deve produzir documentos sobre as tarefas realizadas em

suporte diverso, nomeadamente, usando as novas tecnologias e enviá-los

ao respectivo Departamento quer através da internet, quer dos serviços de Correios de Moçambique

Avaliação

O módulo de Antropologia Cultural terá dois testes e um exame final que deverá ser feito no Centro de Recurso mais próximo, ou em local a ser indicado pela administração do curso. O calendário das avaliações será também apresentado oportunamente.

A avaliação visa não só informar-nos sobre o seu desempenho nas lições,

mas também estimular-lhe a rever alguns aspectos e a seguir em frente.

Durante o estudo deste módulo o estudante será avaliado com base na realização de actividades e tarefas de auto-avaliação previstas em cada Unidade, dois testes escritos e um exame.

20

Unidade 1

20 Unidade 1

Unidade 1

Antropologia Cultural no Contexto das Ciências

Introdução

 

Bem-vindo a esta unidade de estudo, onde terá as noções fundamentais da Antropologia Cultural. Estas vão ajudá-lo a compreender a natureza da

referida disciplina, em relação às outras Ciências, isto é, a peculiaridade do seu objecto de estudo, os seus métodos fundamentais e a relação com

as

outras Ciências.

Estrutura

 

O

estudo que você inicia agora tem 4 lições. Devem ser dispensadas duas

(2) horas de tempo para cada lição. Eis as matérias a serem estudadas nesta unidade:

Tópicos da Unidade

Lição 1.

Os Conceitos de Etnografia, Etnologia e Antropologia.

Lição 2.

Os Ramos da Antropologia.

Lição 3.

As Relações da Antropologia Cultural com Outras Ciências Sociais e Humanas.

Lição 4.

O Método de Trabalho em Antropologia

Antropologia Cultural

21

Ao completer esta unidade, você será capaz de:

  Geral
 

Geral

Conhecer as origens e os propósitos da Antropologia Cultural.

Objectivos

 

Específicos

Explicar os conceitos de Etnografia, Etnologia e Antropologia.

Distinguir os métodos de pesquisa antropológica dos ou métodos das outrs ciências sociais e humanas.

Explicar a relação entre a Antropologia e as outras Ciências Sociais e Humanas.

Reflectir sobre a importância e utilidade da Antropologia no contexto das outras ciências sociais e humanas.

Motivações

Esta unidade vai permitir-lhe a aquisição de conhecimentos sobre as origens e propósitos da Antropologia.

Sabia que a Antropologia é “filha” do colonialismo?

Com esta unidade, vai poder descobrir os encantos de uma das Ciências Sociais mais generalizantes sobre o Homem, mas também mais específica e profunda no conhecimento da natureza humana – a Antropologia.

Meios

Para além das referências bibliográficas presentes no fim de cada lição de todas as unidades, poderá usar textos de apoio, efctuar visitas a museus etnográficos, sempre que eles existirem, mas também a sua própria comunidade. Com esta última prática, estará a iniciar o “metier” do Antropólogo, cuja especificidade na sua intervenção é sempre estar em contacto com o seu objecto alvo.

22

Lição n 1

22 Lição n 1

Lição n° 1

Os Conceitos de Etnografia e Etnologia na Construção de uma Antropologia. Objecto e Objectivo da Antropologia

Introdução

Nesta lição, você terá a ocasião de conhecer conceitos básicos iniciais do

estudo da Antropologia como: Etnografia, Etnologia e Antropologia

Geral. São conceitos básicos para perceber esta ciência. Para este estudo,

você deve dispensar duas (2) horas.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

(2) horas. Ao completer esta lição , você será capaz de: Objectivos Conhecer os conceitos de

Objectivos

Conhecer os conceitos de Etnografia, Etnologia e Antropologia.

Reflectir sobre as diferentes posições em relação à definição do objecto da Antropologia;

Analisar o objectivo e objecto da Antropologia Cultural;

Distinguir os conceitos Etnografia, Etnologia e Antropologia Cultural e Social.

Conteúdo

A Etnologia é a descrição de usos costumes, crenças, hábitos, tradições, etc., duma determinada unidade social, como, por exemplo, a sua própria comunidade. Já procurou algumas destas descrições da comunidade? Se nada existe terá, a partir deste estudo, conhecimentos para o fazer.

O termo Etnografia foi criado em 1826 pelo italiano Balbi para classificar os grupos humanos segundo as suas características linguísticas. Modernamente, o conceito aplica-se à observação no "terreno", descrição

Antropologia Cultural

23

e análise de grupos humanos que aí vivam. A reconstrução deve ser tão fiel quanto possível.

Por sua vez, Etnologia corresponde à segunda etapa do estudo antropológico. Sem excluir a observação directa, a Etnologia orienta-se para a síntese e produção de monografia.

A Antropologia representa uma nova e última etapa da síntese e

comparação. Ela apoia-se nas investigações da Etnologia e da Etnografia.

A Antropologia, oriunda de um reconhecimento da diversidade das

sociedades, dos grupos e das culturas, aspira, com a Antropologia ao nível da generalização.

Objectivo da Antropologia Cultural e Social: A disciplina visa atingir

um conhecimento global do homem.

Quanto ao seu objecto, ela abarca toda a extensão biológica, social, histórica e geográfia do Homem, aspirando a um conhecimento aplicável ao conjunto do desenvolvimento humano. Sobre o Objecto da Antropologia cultural ainda há varias opiniões, o que é típico duma ciência social nova. Só para exemplificar, nesta lição vamos considerar apenas três definições:

Para P. Armando Ribeiros (1998, p. 8) - "É a ciência do homem como

ser cultural, entendendo por CULTURA o conjunto das tradições”.

Para Bernardo Bernardi (1978, p. 19)- "A Antropologia indaga o significado e as estruturas da vida do homem como expressão da sua actividade mental".

Trazemos

ainda

uma

contribuição

tirada

no

site

http://pt.wikipedia.org/wiki/Antropologia_cultural, uma

das

fontes

de

informação, que a Antropologia Cultural “Tem por objecto o estudo do

A

homem

representação, pela palavra ou pela imagem, é uma das suas questões

centrais”.

e

das

sociedades

humanas

na

sua

vertente

cultural.

Sumário

e das sociedades humanas na sua vertente cultural . Sumário Tome Nota! A Antropologia constrói-se considerando

Tome Nota!

A Antropologia constrói-se considerando três etapas hierárquicas,

começando pela observação, descrição, síntese e generalização. Na

essência, tudo deve ser depois interpretado no âmbito do plano geral

da humanidade.

24

Lição n 1

24 Lição n 1

Exercícios

24 Lição n 1 Exercícios Auto-avaliação Chegado ao fim desta lição pense naqu ilo que já

Auto-avaliação

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às questões seguintes:

1. Se alguém lhe solicitar a caracterização da última etapa da Antropologia que conceitos usaria?

2. Com base em outros autores, apresente um outro ponto de vista sobre o objecto de Antropologia Cultural e Social.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

1. Usaria os seguintes conceitos:

Síntese global, totalidade generalização integral…(outros que tiver encontrado na bibliografia recomendada).

2. Por exemplo para Martinez a Antropologia trata do homem e do seu comportamento como um todo. A Antropologia tem em conta todos os aspectos da existência humana: biológica e cultural, passado e presente, integrando esses diversos valores culturais e materiais, numa abordagem integrada do problema da existência humana.

De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir consulte o seu tutor.

Leituras aconselhadas

persistir consulte o seu tutor. Leituras aconselhadas Leitura COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das

Leitura

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 15-56.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 14-16.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 33-40.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 11-32.

Antropologia Cultural

25

Lição n° 2

Os Ramos da Antropologia (Física, Cultural, Social, Económica, Política, Aplicada, Psicanalítica)

Introdução

O estudo que começa agora vai proporcionar-lhe conhecimentos sobre os ramos da Antropologia. É fundamental esse conhecimento, para situar-se na complexidade que esta disciplina encerra em perceber as razões do estudo da Antropologia Cultural. Esta lição tem a duração de duas (2) horas de estudo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

de estudo. Ao completer esta lição , você será capaz de: Objectivos Conhecer os principais ramos

Objectivos

Conhecer os principais ramos da Antropologia Geral;

Distinguir o conteúdo de cada um dos ramos da Antropologia;

Reflectir sobre a sua importância e utilidade na comunidade onde vive.

Conteúdo

Sabia que a Ciência é recente? De facto, ela vem de um período muito recente da evolução do conhecimento humano, remontando ao período Moderno Europeu. Ademais, como vai observar na segunda unidade, a Antropologia só viria a emergir no século XIX. Até princípios do século XX, o termo Antropologia servia para designar a ciência que actualmente se chama Antropologia Física, cuja definição vem mais adiante. Mais recentemente, ela tende a significar o conhecimento das propriedades gerais da vida social e das diversas sociedades humanas. Para isso, cobre um grande número de ciências que estudam o Homem, tais como:

Antropologia Política, a Antropologia Psicanalítica, a Antropologia Económica, Antropologia Aplicada, a Etnografia, a Etnologia, certos aspectos da Linguística, a Arqueologia, Pré-história, etc.

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Lição n 2

26 Lição n 2

Cada um destes ramos tem tarefas específicas, mas que concorrem para explicar o Homem na sua complexidade. Vamos conhecer as tarefas de alguns desses ramos.

Antropologia Física: tem por objecto o estudo de certas características biológicas do homem, as questões da raça, da hereditariedade, da nutrição, da diferenciação de sexos, etc. Compreende, entre outras, a Anatomia Comparada, Fisiologia Comparada e a Patologia Comparada.

Antropologia Social: ocupa-se mais particularmente em estabelecer leis gerais de vida em sociedade que sejam válidas tanto nas sociedades tradicionais como nas sociedades industrializadas modernas. Procura aprender mais sobre a sociedade quanto ao seu funcionamento e aos seus actos.

Antropologia Cultural: dedica-se mais a problemas de relativismo cultural (investigação da originalidade de cada cultura); do estudo das relações que se estabelecem entre os diferentes níveis numa dada sociedade e do fenómeno da transmissão da cultura. A Antropologia cultural apenas apreenderia a sociedade nas suas obras e não nos seus actos e no seu funcionamento.

Antropologia Política: aborda em particular os problemas do poder da autoridade, da chefia do governo, etc., assuntos que deram lugar a numerosas especulações filosóficas (sobre a origem e a natureza do Estado, o aparecimento do Direito, etc).

Antropologia Aplicada: faz a utilização prática das teorias e dos resultados do inquérito etnográfico, tendo em vista manipular as sociedades, com o objectivo, quer de as administrar (como é o caso da

política colonial, da assimilação, aculturação "forçada"), quer de as ajudar

a adaptarem-se à sociedade etnológica moderna (como é o caso da

aculturação "planificada", política de integração) ou o desenvolvimento

de uma originalidade cultural (procura de um sincretismo).

Antropologia Psicanalítica: baseia-se essencialmente no estudo dos sonhos, dos mitos, dos contos, na análise de jogos, das cerimónias, das práticas mágicas, de certos aspectos da vida quotidiana, das técnicas de educação.

Antropologia Económica interessa-se pelas condições da produção

material, as trocas, os direitos sobre os objectos, as formas de utilização

dos produtos, englobando os aspectos de ecologia e tecnologia.

Sumário

englobando os aspectos de ecologia e tecnologia. Sumário Tome Nota! A Antropologia Geral é obviamente complexa.

Tome Nota!

A Antropologia Geral é obviamente complexa. Ela envolve um

conjunto de especializações que englobam aspectos de natureza

física, eminentemente social, mas também aos aspectos que abarcam

as diferentes facetas da vida humana, como a sua intervenção na natureza, as suas relações com o mundo oculto, etc.

Antropologia Cultural

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Exercícios

Antropologia Cultural 27 Exercícios Auto-avaliação Depois actividades seguintes: desta leitura procure as respostas

Auto-avaliação

Depois

actividades seguintes:

desta

leitura

procure

as

respostas

aconselháveis

para

as

1. Por que houve a necessidade da emergência de muitos ramos da Antropologia?

2. Qual das subdisciplinas antropológicas devia ser catalizada para estudar:

a) Necessidade de integração das minorias étnicas estrangeiras em Moçambique?

b) Os novos fenómenos religiosos em Moçambique?

c) O fenómeno de “chupa-sangue” frequente no Norte de Moçambique?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Pelo facto de a Antropologia estudar o Homem na sua totalidade e porque seria difícil abordar este aspecto numa única disciplina. Assim emergiram as diferentes especializações que se complementam entre si.

2. a) Antropologia Aplicada

b) Antropologia Religiosa

c) Antropologia Psicanalítica

Óptimo é isso mesmo. Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir consulte o seu tutor.

Leituras aconselhadas

persistir consulte o seu tutor. Leituras aconselhadas Leitura COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das

Leitura

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 15-56.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 14-16.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 33-40.

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Lição n 3

28 Lição n 3

Lição n° 3

As Relações da Antropologia Cultural com outras Ciências Sociais e Humanas

Introdução

Hoje não se pode falar duma disciplina ou ciência independente ou isolada do interesse das outras, numa determinada área. Ao abordarmos a Antropologia Cultural no contexto das ciências sociais e humanas pretendemos fazer a interdisciplinaridade. Você vive num bairro ou numa comunidade. Por este facto, você precisa de viver em colaboração com os

seus vizinhos, porque precisa deles e eles precisam de si, para as formas

de cooperação e ajuda-mútua. Não é verdade? É o mesmo o que se passa

entre as ciências.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

ciências. Ao completer esta lição, você será capaz de: Objectivos Identificar a Antropologia Cultural no contexto

Objectivos

Identificar a Antropologia Cultural no contexto das ciências sociais e humanas;

Relacionar o papel social e cultural com os papeis desempenhados por outras ciências sociais e humanas .

Conteúdo

A Antropologia já definiu o seu objectivo ao procurar atingir um

conhecimento global do homem, abarcando as dimensões físicas, culturais, históricas e geográficas. Aspira ainda a um conhecimento aplicável ao conjunto do desenvolvimento humano, desde a grande cidade moderna à mais pequena tribo.

A Antropologia para desenvolver o seu objecto de estudo, precisa de um apoio de outras ciências. De facto, nenhuma ciência é capaz de se prover

Antropologia Cultural

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sozinha. É daí que surgem as relações entre a Antropologia e as outras ciências do homem. Assim, a Antropologia tem uma relação privilegiada com a Sociologia, a História, a Economia, a Geografia, a Psicanálise, entre outras. Vamos procurar encontrar a relação existente entre os seguintes pares:

Antropologia e Sociologia

Antropologia = Discurso sobre o (ciência do) homem.

Sociologia = Discurso sobre a (ciência da) sociedade.

Antropologia procura a explicação dos fenómenos sociais e culturais na lógica do observador ( Ciência do Observado); a Sociologia, procura a análise do ponto de vista da própria sociedade à qual pertence o cientista (Ciência do Observador).

O Antropólogo distancia-se da realidade institucional para construir

progressivamente a sua problemática analítica à medida que vai descobrindo os princípios de organização da sociedade estudada. O Sociólogo parte de hipóteses já elaboradas e fundadas, geralmente sobre pré-construções analíticas ou institucionais, procurando, em seguida, aferi-las por inquéritos no terreno. Contudo, elas cruzam-se, quer no uso

de métodos, como nos próprios objectos. Por acaso há homem que viva

sem sociedade e há sociedade sem os Homens entanto que indivíduos?

Antropologia e História

O Historiador distancia-se do seu objecto de estudo pelo tempo.

Distancia-se assim dos valores e categorias da sua própria sociedade para

melhor compreender e interpretar o “passado”. Pelo seu lado, o Antropólogo “acantona” o discurso de uma comunidade sobre ela mesma para melhor a compreender.

O olhar da História e da Antropologia leva a ver o OUTRO como ele se vê, e, através deste olhar, procurar, ver e compreender essa sociedade global. Como pode observar, aqui há também uma convergência, na medida em que as duas disciplinas ocupam-se da alteridade, isto é, do outro. Para que a Antropologia consiga obter a dimensão temporal dos acontecimentos, logicamente a História prestar-se-à na primeira linha.

Antropologia e Psicanálise

Quer a Antropologia quer a Psicanálise insistem entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente; entre o implícito e o explícito; e na necessidade de ultrapassar o “sintoma”, descodificando-o e dando-lhe forma. Quer a Antropologia quer a Psicanálise são marcadas pela alteridade. O Antropólogo tenta reconhecer e analisar o “pensamento” do Outro, para se situar o seu próprio pensamento. O Psicanalista tenta descodificar o discurso do Outro” em si mesmo (Super Ego); o Outro na sua origem e em relação ao qual se determina.

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Lição n 3

30 Lição n 3

Sumário

A interdisciplinaridade resume a relação que a Antropologia tem com outras ciências Sociais e Humanas, dado que ela não pode explicar A interdisciplinaridade resume a isoladamente o Homem. Essas relações são recíprocas, em virtude de todas as isoladamente o Homem. Essas relações são recíprocas, em virtude de todas as Ciências Sociais serem marcadas pelo estudo de outras realidades.

Tome Nota!

Exercícios

pelo estudo de outras realidades. Tome Nota! Exercícios 1. Todas as Ciências Sociais são Antropológicas.

1. Todas as Ciências Sociais são Antropológicas. Concorda com a afirmação? Fundamente.

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos.

Auto-avaliação

Resposta

De facto, todas as Ciências Sociais são antropológicas, pelo facto de todas elas estudarem outras realidades, outros espaços, outros tempos ou que estejam fora do próprio Ego.

De certeza que conseguiu responder a pergunta colocada. Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir consulte o seu tutor.

Leituras aconselhadas

persistir consulte o seu tutor. Leituras aconselhadas Leitura COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das

Leitura

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 15-38.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 18-24.

SILVA, Augusto Santos e PINTO, José Madureira: Metodologia das Ciências Sociais, 7ª edição. Lisboa, Edições Afrontamento, 1986, p. 9 – 27.

Antropologia Cultural

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Lição n° 4

O Método de Trabalho em Antropologia

Introdução

Você para resolver alguma tarefa serve-se de um conjunto de procedimentos, não é verdade? Da mesma maneira, cada ciência possui os seus caminhos próprios para desvendar o seu objecto de estudo. Algumas ciências servem-se das fontes, outras, de um trabalho laboratorial usando tecnologias muito sofisticadas. Nesta lição, você vai inteirar-se do método que a Antropologia usa para desenvolver o seu estudo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

Objectivos

Objectivos

Conhecer processos do método de pesquisa antropológica.

Compreender as vissicitudes do trabalho antropológico como desafios

Distinguir através do seu método a antropologia das outras ciências.

de saberes sociais, culturais e históricos.

Conteúdo

Um método, em ciências, pode ser entendido como o caminho ou estratégias usados para atingir um determinado objectivo. Todas as ciências, quer se trate de ciências sociais, humanas ou naturais, possuem um método que as caracteriza e as distingue das outras.

A Antropologia tem também os seus métodos privilegiados, tais como: o

Histórico, o Estatístico, o Etnográfico, o Comparativo ou Etnológico, o

Monográfico, o Genealógico, entre outros.

O método Histórico é usado na pesquisa dos eventos através do tempo,

para compreender as diversas transformações ocorridas unma determinada cultura.

O método estatístico é empregue para apresentar a variabilidade dos

aspectos estudados antropologicamente, tanto no aspecto biológico, como

no cultural, e que possibilitem a aferência da diversidade biológica ou

32

Lição n 4

32 Lição n 4

cultural, como, por exemplo, a variação das dimensões do corpo ou das religiões.

O método Etnográfico é usado na análise descritiva das sociedades

humanas, enquanto o método Etnológico ou Comparativo visa aferir as diferenças e as semelhanças apresentadas por um material de referência

de

diferentes meios culturais ou de diferentes tempos culturais.

O

método Monográfico, ou estudo de caso, é usado para estudar, em

profundidade, um determinado grupo humano em todas as suas dimensões.

O método genealógico é usado fundamentalmente no estudo do

parentesco e todas as suas implicações sociais, políticas, culturais, como

por exemplo, o impacto do parentesco no ordenamento territorial, residencial ou político dos membros de um grupo social.

A sua principal técnica é a observação participante que, entretanto, é

acompanhada por outras récnicas como a Entrevista (dirigida e não dirigida), os Formulários e os Questionários. Pelo lugar central da Observação participante, passa a descrever-se com alguma profundidade.

A Observação Participante

Tal como você viu na definição do objecto de estudo, a Antropologia visa

conhecer pequenas realidades. A observação participante é feita a partir dessas pequenas unidades sociais, pelas quais se tenta elaborar uma síntese mais geral, apreendendo, a partir de um certo ponto de vista, a totalidade da sociedade. De facto, nas unidades sociais mais pequenas ou comunidades, em geral, as relações sociais, que têm uma certa coerência

interna nos aspectos cultural, económico, social, religioso, etc., são directamente observáveis pelo investigador.

Você já imaginou, entre procurar uma resposta numa multidão e numa pessoa, onde você teria um interlocutor válido, mais objectivo? É o mesmo que ocorre na pesquisa antropológica. Dado que é impraticável estudar grandes superfícies para apreender o essencial, o Antropólogo para observar a sociedade global parte desses grupos restritos.

Com a observação participante o Antropólogo apreende as unidades sociais restritas simultaneamente de dentro e de fora nas suas especificidades e nos seus elementos comuns em relação à sociedade global. Assim, a observação participante permite extrapolar o global a partir do local. As relações internas postas em evidência são feitas no quadro do sócio-cultural e económico global.

Contudo, esta técnica, a observação participante tem especificidades a

considerar, pois ela tem um carácter: (1) interdisciplinar (na medida em que para a Antropologia explicar o seu objecto de estudo procura o apoio

de

outras ciências sociais e das técnicas das mesmas); (2) comparativo (só

se

estabelecem regularidades, depois de comparada a realidade estudada

com outras realidades conhecidas); (3) histórico (que provém do facto de

na apreensão da realidade social ser necessário cruzar os acontecimentos

transversais ou sincrônicos e os acontecimentos longitudinais ou diacrônicos) e (4) holístico (já que a compreensão do facto social só é possível estudando-o nas suas variadas dimensões , isto é, de forma integral).

Antropologia Cultural

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Sumário

Antropologia Cultural 33 Sumário Tome Nota! A Antropologia, tendo como objectivo apreender as especificidades de uma

Tome Nota!

A Antropologia, tendo como objectivo apreender as especificidades de uma cultura, tem como o método fundamental a observação participante. Na elaboração do seu objecto deve considerar a integralidade dos factos sociais (aplicando o holismo); de que nenhuma ciência é autónoma (a interdisciplinaridade), que toda a manifestação de um facto social tem correspondentes em outros grupos sociais (a comparação) e que é necessário atender à temporalidade dos factos sociais (aplicando-se o método histórico).

Exercícios

sociais (aplicando-se o método histórico). Exercícios Auto-avaliação 1. Por que o método antropológico toma

Auto-avaliação

1. Por que o método antropológico toma como objecto de investigação unidades sociais mais pequenas?

2. Em que reside a peculiaridade do método antropológico (a observação participante) em relação à observação conduzida nas outras ciências (por exemplo com a observação das paisagens?

3. Enumere as características do método antropológico.

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Tratando de sociedade (pessoas) humana convém que assim seja para poder-se encontrar a coerência interna (cultural, económica, social, religiosa, etc., sem muitas dificuldades.

2. Este método caracteriza a especificidade da antropologia, extrapola assunto de unidades sociais sob pontos de vista de variáveis complexas da sociedade, o que obviamente é diferente de estar a observar as paisagens que são aspectos físicos, com mudanças relativamente pouco complexas que as das sociedades humanas.

3. O método antropológico é interdisciplinar, histórico, holístico e comparativo.

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Lição n 4

34 Lição n 4

Leituras aconselhadas

34 Lição n 4 Leituras aconselhadas Leitura COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas?

Leitura

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 38-56.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 16-20.

MARCONI, Marina de Andrade e PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia. Uma introdução 6ª edição. São Paulo. Editora atlas, 2006, p. 11 – 16.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 65-77.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 17-32.

Actividade Final da Unidade

Edições 70, 2000, p. 17-32. Actividade Final da Unidade Actividade Depois de fazer uma reflexão à

Actividade

Depois de fazer uma reflexão à volta das disciplinas Antropológicas, procure esboçar a utilidade da Antropologia para a sua área residencial.

Antropologia Cultural

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Unidade 2

Pensamento Antropológico:

(Teorias/Correntes)

Introdução

Benvindo a esta unidade de estudo, onde terá as noções fundamentais Benvindo a esta unidade de estudo, onde terá a ocasião de estudar a história da Antropologia sócio-cultural e as teorias da Antropologia, bem como as críticas da Antropologia em África e, em particular, em Moçambique. Terá ainda a ocasião de conhecer conceitos básicos das teorias/correntes da Antropologia, nomeadamente os conceitos de evolução, difusão, função e estrutura.

Estrutura

O estudo que você inicia tem 4 lições, com 2 horas de estudo para cada uma.

Tópicos da Unidade

Lição 1.

O debate teórico à volta da Formação e Construção da ciência antropológica.

Lição 2.

O período de convergência e de construção da Antropologia Cultural.

Lição 3.

As correntes/escolas de pensamento antropológico.

Lição 4.

Críticas à Antropologia em Geral, em África e em Moçambique.

36

Unidade 2

36 Unidade 2

Ao completer esta unidade, você será capaz de:

Unidade 2 Ao completer esta unidade, você será capaz de: Objectivos Geral Conhecer as teorias/correntes da

Objectivos

Geral

Conhecer as teorias/correntes da Antropologia cultural.

Específicos

Conhecer a história da Antropologia, que começa com a própria cultura da humanidade;

Conhecer os conceitos: Evolucionismo, Difusionismo, Funcionalismo e Estruturalismo;

Distinguir as teses de cada uma das teorias/correntes;

Explicar

as

verdadeiras

razões

históricas

do

surgimento

da

Antropologia Cultural;

 

Reflectir sobre os pressupostos da Antropologia expressas no período de Formação;

Analisar a situação da Antropologia em África e, em particular, de Moçambique, durante o domínio colonial

Motivações

Bem como o que ocorre com um ser humano, a Antropologia teve a sua história. Essa história foi marcada pela emergência de contradições quanto àquilo a que a Antropologia se devia debruçar. Assim, esta unidade vai permitir-lhe conhecer os pressupostos das origens e propósitos da Antropologia.

Sabia que Antropologia pretendia, no início, estudar as sociedades chamadas primitivas?

Meios

No estudo desta unidade você terá como material de apoio as referências bibliográficas nela presentes e textos de apoio.

Antropologia Cultural

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Lição n° 1

O Debate Teórico à Volta da Formação e Construção da Ciência Antropológica

Introdução

Trazemos nesta lição a História da Antropologia. A discussão vai centrar- se nas diferentes contribuições dos cientistas sociais de vários países e escolas, o que convencionou-se chamar-se por correntes, para a emergência da Antropologia.

Segundo Martinez 1 (2004,) o conhecimento dos rumos seguidos nos

estudos da antropologia têm como determinantes, por um lado o Critério

a consistência das orientações teóricas e

a legitimidade metodológica das mesmas”; por outro lado o critério subjectivo, que permite “avaliar os motivos que levaram determinados autores a enveredar por um determinado caminho e as razões do seu sucesso ou rejeição”( p 55) e, finalmente, o critério de utilidade, que procura “discutir a orientação teórica em razão da sua possível aplicação” (Id.).

objectivo, pelo qual se avalia “

Ao completer esta lição, você será capaz de:

avalia “ Ao completer esta lição , você será capaz de: Objectivos Conhecer a história da

Objectivos

Conhecer a história da Antropologia que começa com a própria cultura da humanidade;

Distinguir as teses de cada uma das teorias/correntes

 

Explicar

as

verdadeiras

razões

históricas

do

surgimento

da

Antropologia Cultural.

 

Reflectir sobre os pressupostos da Antropologia expressas no período de Formação

.

1 Trata-se da 5ª edição de “Antropologia Cultural, Guia para o estudo”, de Francisco Lerma Martinez, entretanto ainda não editado, mas que é uma revisão e ampliação da 4ª edição (2003), já publicada.

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Lição n 1

38 Lição n 1

Conteúdo

Tal como ficou mencionado na primeira unidade, a Antropologia é uma ciência recente. Ela forma-se como tal só no Século XIX e desde aí, a disciplina passou a conhecer várias orientações, conhecendo avanços e recuos. Contudo, por uma questão metodológica e para a identificação das abordagens teóricas, vamos avançar com uma sistematização dos

diferentes pensamentos que, enquadrados no tempo, esboçam um itinerário, isto é, a História da Antropologia. Entretanto, será difícil dar

um levantamento completo de todas as contribuições, porque elas vieram

de todos os cantos e de todos os períodos.

A emergência da Antropologia coincide com as primeiras reflexões do

Homem sobre si e sobre a natureza, o cosmos ou o universo. Uma parte desse conjunto de reflexões chegou aos nossos dias por via de lendas e mitos. É o período que Paul MERCIER indica como sendo de

“Antropologia Espontânea” ou o período da Pré-História da Antropologia.

As contribuições deste período são de diversa natureza e origens : ícones,

arte parietal (pinturas rupestres), arte móvel (esculturas), manuscritos dos primeiros povos com escrita (Babilônios, Egícios, Hindus, Fenícios, entre

outros).

Segundo Mello (2005, p. 180-185), a contribuição greco-romana na

formação da Antropologia foi enorme, com os trabalhos de Heródoto, um dos notáveis viajantes e narradores das terras visitadas; Platão, (a cidade ideal); Aristóteles, (concepções teóricas acerca do Estado); Sócrates (com

crítica à sociedade) (Grécia) e Lucrécio (que fala do Homem Primitivo, César, Tácito, Galeno, Marco Aurélio (Roma). Apesar de, como você aprendeu na História, ser considerado um período de retrocesso, tais contribuições continuaram na Idade Média com St. Agostinho (a Cidade

a

de

Deus), Avicena (defende a invariabilidade das formas), Averrois (com

o

evolucionismo) e Bacon (uso do método experimental). As

contribuições circunscreveram-se mais na conservação dos escritos, tradução dos sistemas de pensamento de outros povos e na preparação da universidade. Viagens e descrições foram também feitas pelo árabe Ibn Khaldun (séc XIV).

No conjunto dessas contribuições, Martinez (2004, p. 56), aponta que, com o Renascimento Europeu e com as viagens de exploração, houve grandes contactos, que deram origem a Tratados. Surgiram Tratados

acerca das afinidades e diferenças entre os homens e seus mundos sociais

e culturais. Por exemplo, MONTAIGNE, um francês publica os seus

Ensaios (1580), que nos transmitem contactos entre os povos, onde questiona o etnocentrismo e faz a análise comparativa das sociedades.

Ainda segundo Martinez (Id.), o Tempo Moderno, dominado pelo ilumisnismo ou o culto à razão, empresta um antropocentrismo, base para

o estudo dos factos tipicamente humanos. As maiores contribuições

ocorrem no Século XVIII, com Emmanuel Kant (1724-1804), que, com o

seu pensamento, “(

influenciou os vários ramos da ciência do tempo.

Ele ensina que o entendimento constrói o seu objecto, pelo que os fenómenos giram em torno da razão”.

)

Antropologia Cultural

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Você lembra-se das ditas viagens de “descobrimentos”, europeias, aprendidadas na História, iniciadas no fim do Século XV e que continuaram a se multiplicar a partir do século XVI? As viagens e os contactos que se multiplicaram para todos os cantos da terra foram

acompanhadas pela produção de relatórios que, mais tarde, serviram de documentos essenciais para a produção Antropológica. De facto, os estudiosos começam a dispor de maior material antropológico para as suas pesquisas. Ocorrem ainda estudos do corpo humano com Leonardo

da Vinci (1452-1518), no seu aspecto morfológico; Dürer (1514 – 1564),

nas medidas cranianas; Vessalius, com as lições de anatomia e Lineu com a classificação das raças.

No Século XIX dá-se a primeira descoberta do homem fóssil. No seu conjunto, todos esses aspectos deram subsídios para a emergência da Antropologia Física, que conhecera a sua fundação no mesmo século por Johann Blumembach (Mello, 2005, p. 189-190). Antes ou depois vieram ainda contribuições das missões científicas mais organizadas e sistematizadas, de naturalistas, geógrafos, humanistas, que tinham como objectivo principal colher informações e fazer observações. Contam-se os exemplos de A. Bering (Nordeste da Ásia); Cook (Oceania) e as viagens posteriores à organização da African Association, pela Grã-Bretanha, (1788), para o interior da África. Um contributo significativo resultou ainda da Sociedade Etnológica de Paris (França), que lançou “L’Instruction génerale aux Vovageurs”, espécie de orientação para a recolha de dados.

O maior repertório documental existente, o avanço de técnicas induziu a

especialização, possibilitando a emergência da Antropologia Cultural, da Pré-História e da Arqueologia. Lançava-se uma nova disciplina no

conhecimento humano.

Sumário

uma nova disciplina no conhecimento humano. Sumário Tome Nota! Para a emergência da Antropologia jogaram papel

Tome Nota!

Para a emergência da Antropologia jogaram papel importante as contribuições de vários povos, períodos e individualidades. Contudo, apesar de existirem subsídios importantes para o seu estabelecimento como ciência, a disciplina veio conhecer a cientificidade só no século XIX, mercê dos grandes contactos à escala planetária dos três séculos imediatamente precedentes e da insaciável busca dos conhecimentos das outras realidades geográficas, históricas, culturais então imprimida durante o período moderno europeu.

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Lição n 1

40 Lição n 1

Exercícios

40 Lição n 1 Exercícios Auto-avaliação Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu

Auto-avaliação

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às questões seguintes:

1. A formação da Antropologia resultou de vários contributos em diferentes períodos históricos. Identifique os diferentes períodos e os representantes de cada um deles.

2. Que pressupostos existiam já no Século XIX para a emergência da Antropologia?

3. Por que foi a Antropologia Física aquela que se notabilizou em primeiro?

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Foi a Antiguidade de Heródoto, a Idade Média de Sto. Agostinho, o Renascimento do francês Montaigne e o árabe Ibn Khaldun, filósofo social do século XIV, o Iluminismo de Emmauel Kant entre outros como Montesquieu.

2. O século XIX “herdara” um espólio de informações sobre os diferentes povos, mercê das viagens de exploração, das expedições científicas e que mereciam um tratamento adequado, num plano eminentemente antropológico.

3. A Antropologia Física foi a primeira a notabilizar-se em virtude de ter havido a preocupação de se fazer uma diferenciação racial dos povos ou da sua compleição física, por sua vez, como resultado de muitos trabalhos anatômicos e morfológicos até aí existentes.

De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir consulte as obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.

Antropologia Cultural

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Leituras aconselhadas

Antropologia Cultural 41 Leituras aconselhadas Leitura BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos .

Leitura

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições 70, 1974, p. 165-176.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 21-32.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 55-58.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 177-194.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 33-34.

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Lição n 2

42 Lição n 2

Lição n° 2

O Período de Convergência e de Construção da Antropologia Cultural

Introdução

Depois da emergência da Antropologia como ciência, várias discussões apareceram quanto à sua natureza, no âmbito das demais Ciências Sociais. Contudo, um primeiro momento foi caracterizado por um pensamento marcadamente evolucionista, que então dominava no segundo quartel do século XIX. É esse período que vai conhecer na presente lição. Como sempre, no fim desta lição você tem um exercício que vai aferir o grau de compreensão desta matéria.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

matéria. Ao completer esta lição , você será capaz de: Objectivos Conhecer a história do período

Objectivos

Conhecer a história do período da convergência e construção da Antropologia.

Conteúdo

PERÍODO DE CONVERGÊNCIA E DE CONSTRUÇÃO

Mesmo existindo um grande fervor científico durante o século XIX e a Antropologia tender para várias interpretações, ela parece ter procurado definir-se à volta do paradigma característico da época, o da evolução, cujos nomes sonantes do período foram: Charles DARWIN (1809-1882), Edward TYLOR (1871), Herbet SPENCER, Augusto COMTE, Matthew ARNOLD (1869). De facto, a Antropologia não fugiu esse pensamento que dominava entre o segundo quartel e fim do século XIX, o qual veio,

Antropologia Cultural

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de certa forma, definir a unidade da Antropologia. Por isso, mesmo que

alguns autores se tenham recusado no evolucionismo, este constituíu o pensamento dominante da época. Por isso diz-se que foi o período da CONVERGÊNCIA.

Segundo Martinez, (2004, p. 57) as várias formulações sobre a sociedade

e a cultura convergiram para três objectivos comuns: origens, idade e

mudança. Apareceram no mesmo período revistas de algumas associações científicas, como a revista americana Current Anthropolgy, a britânica Man e a francesa L’Home, bem como sociedades de Antropologia em Gottingen, Cracóvia, Madrid, Nova Iorque, Berlim, Viena e Estocolmo. Segundo Mello (2005, p. 191-192), tais sociedades eram científico-humanitárias e os Antropólogos eram considerados “amigos dos povos primitivos”.

A teoria evolucionista alcança as suas feições definitivas com o

aparecimento da obra de Charles DARWIN sobre a evolução, “A Origem das Espécies”. Edward TYLOR veio aplicar essa teoria na Antropologia, dando o arranque da Antropologia Moderna, isto é, o arranque da fase de construção da Antropologia. De facto, foi este que lançou a Antropologia Cultural, cujo marco foi a publicação por TYLOR da “Cultura Primitiva” em 1871. Lewis MORGAN publica na mesma altura (1877) “A Sociedade Primitiva”, procurando discutir a organização da família pelos diversos estágios de desenvolvimento, isto é, num contexto de evolução (Ibid., p. 193).

Apesar de terem existido diversas contribuições como as de: Adolf BASTIAN (1826-1905), médico viajante e antropólogo, que rejeitando os particularismos do corpo e alma do romantismo defendeu a unicidade do pensamento humano; Jacob BACHOFEN (1815-1887), jurista e antropólogo alemão, com trabalhos comparativos sobre a mitologia e o parentesco; Summer MAINE, que via na família patriarcal a base da unidade da organização social; McLennan, que lançou a ideia da noção

do

paralelismo e tentou interpretar vários costumes primitivos, TYLOR

foi

o expoente dessas contribuições ao definir o conceito de Cultura e a

colocá-la como objecto da Antropologia. Por outro, Lewis MORGAN introduz o esquema da evolução: selvageria, barbárie e civilização e FRAZER preocupa-se com o estudo do fenómeno religioso (Id).

Sumário

com o estudo do fenómeno religioso ( Id ). Sumário Tome Nota! Com a formação da

Tome Nota!

Com a formação da Antropologia, apesar de terem existido várias tendências nos estudos antropológicos, o pensamento mais comum regia-se pelo evolucionismo que então era dominante na época.

Contudo, foi no interior dessa tendência que se afirmou (construiu-se)

a Antropologia Cultural, com Edward TYLOR.

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Lição n 2

44 Lição n 2

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às Chegado ao fim desta lição pense naqu questões seguintes: questões seguintes:

1. Por que o século XIX é chamado Período de Convergência?

Auto-avaliação

2. Qual é a natureza dos estudos Antropológicos dominantes a partir do segundo quartel do Século XIX?

3. Em que consistiu o Período de Construção da Antropologia Cultural?

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos

Resposta

1. O século XIX é chamado Período de Convergência por ter sido aquele que, apesar da ter registado uma explosão do pensamento de caráacter antropológico, teve o evolucionismo como o pressuposto fundamental do pensamento.

2. A partir do segundo quartel do século XIX dominaram estudos de carácter social e cultural do Homem, diferentemente do período anterior em que eles eram orientados para os aspectos físicos.

3. O Período da Construção da Antropologia consistiu na definição da Cultura como objecto de um novo ramo da Antropologia, a Antropologia Cultural.

Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o texto. dificuldade persistir consulte as obras indicadas abaixo.

Se

a

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno- Antropológicos , Lisboa, Edições 70, 1978, p. 165-194. Introdução aos Estudos Etno- Antropológicos, Lisboa, Edições 70, 1978, p. 165-194.

Leitura

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 21-32.

MARTINEZ. Francisco Lerma. Antropologia Cultural, Guia para o estudo. p. 56-58.

MELLO, L.G. de. Antropologia Cultural. Iniciação, Teoria e Temas, 12a edição. Editora Vozes, 2005, 190-194.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 33-34.

Antropologia Cultural

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Lição n° 3

As Correntes/Escolas de Pensamento Antropológico

Introdução

Você sabia que depois da emergência da Antropologia como Ciência, surgiram várias posições quanto à sua natureza? Essas diferentes posições encerram o que hoje se designa por correntes ou escolas antropológicas. Nesta lição, você vai conhecer as diferentes escolas que se formaram e os conceitos que estiveram associados a cada uma delas. No fim da aula, você vai dispor, como sempre, de um momento para reflectir sobre aquilo que aprendeu, respondendo ao questionário respectivo. Para isso, você dispõe de quatro horas para este estudo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

estudo. Ao completer esta lição , você será capaz de: Objectivos Conhecer os principais períodos da

Objectivos

Conhecer os principais períodos da Antropologia Distinguir os vários autores que elaboraram as teorias antropológicas. Reflectir sobre as diferentes posições teóricas dessas correntes Conhecer os conceitos evolução, difusão, função e estrutura e os conceitos de Evolucionismo, Difusionismo, Funcionalismo e Estruturalismo; Explicar a história da Antropologia Cultural com base nas suas correntes/escolas; Concluir que são correntes/escolas sempre questionáveis num constante processo de retomada. Distinguir as teses de cada uma das teorias/correntes Explicar as verdadeiras razões históricas do surgimento da Antropologia Cultural.

Conteúdo

EVOLUCIONISMO CULTURAL

Como você pode depreender, o Evolucionismo deriva do termo “Evolução”. O evolucionismo Cultural surgiu com a emergência da própria Antropologia Cultural no século XIX. Contudo, a ideia da evolução surgiu já na antiguidade clássica, quando os pensadores se preocuparam com o problema da origem do Homem e do Universo, como

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Lição n 3

46 Lição n 3

no Génesis, nos textos das cilivizações mesopotâmicas, nos poemas

épicos da Ìndia, entre outras narrações. Certamente que você pode confirmar isso a partir, por exemplo, da leitura da Bíblia.

O Evolucionismo estabeleceu-se como corrente na segunda metade do

século XIX, apesar de ter as suas bases fundadas nos dois séculos precedentes, concretamente na ideia do progresso das civilizações, expressa por Condorcet e no Iluminismo. Se se recorda, o Século XIX conheceu largas transformações sociais, mas também o progresso ficou demonstrado pela Revolução Industrial, pela explosão do modo de vida urbano, que indicavam a capacidade evolutiva do homem. Como defende Martinez (2004, p. 60), o gérmen das teorias evolucionistas alcançou o seu auge neste século em virtude de haver manifestação de confiança dos estudiosos na capacidade do homem de fazer uma história cada vez mais grandiosa,

A teoria evolucionista apoiar-se-ia no transformismo de Lamarck,

identificado como fundador da teoria da evolução e nas ideias de Charles DARWIN sistematizadas na “A Origem das Espécies”. Edward TYLOR ao sistematizar o estudo da cultura seria considerado o pai da

Antropologia. Em 1871 publica o seu livro Primitive Culture, (Cultura

Primitiva), onde propôs outra sequência para o desenvolvimento religioso

no Homem: Animismo, que segundo ele teria sido o primeiro estágio; o

Feiticismo, a Idolatria, o Politeísmo e o Monoteísmo, como a última fase e a mais evoluida da manifestação religiosa. TYLOR define a cultura e segundo Bernardi (1978, p. 177), com ela estão impregnados aspectos que constituiriam centrais nos estudos antropológicos, como a integração etnémica, estrutura e função, relativismo cultural, o indivíduo e a comunidade.

Várias foram as contribuições para o evolucionismo, de entre as quais as

de Lewis MORGAN que, em 1878, publicou o livro Ancient Society.

Este estudioso ocupou-se do estudo da organização social. Segundo

estudo científico e

sistemático do parentesco como fundamento necessário da organização social e política”. James FRAZER é outro clássico deste período. Defendia que todas as sociedades passavam por três estádios: mágico, religioso e científico. Ele usou largamente o método comparativo nos

Bernardi (Ibid., p. 179) MORGAN fez um “(

)

seus estudos, que se declinavam sobre a magia, o totemismo e a exogamia.

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO EVOLUCIONISMO

Um dos aspectos dominantes entre os evolucionistas, apesar de não explicarem os seus motivos, foi conceber a sucessão dos estágios de desenvolvimento como característico nos Humanos e verem a cultura como aspecto tipicamente de todos os grupos humanos. Segundo eles, as mudanças culturais resultavam da dinâmica natural e não dependiam nem do ambiente nem da história. De modo geral, os evolucionistas debruçaram-se sobre temas religiosos, familiares, jurídicos e aspectos da cultura material, isto é, o objecto de estudo era diversificado. Tais temas eram vistos segundo uma evolução universal e unilinear. O “exótico”e os povos “primitivos” constituíam o centro dos estudos, cuja razão era encontrada nesse processo evolutivo.

Na interpretação das instituições sociais, os evolucionistas “( ) acreditavam que, voltando os olhos ao passado, teriam subsídios para

Antropologia Cultural

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determinar como a história da cultura humana se comportaria” (Mello, 2005, p. 204). Os evolucionistas introduziram um tempo cultural como uma nova dimensão cronológica. Esta foi a outra característica do evolucionismo.

Finalmente, o uso alargado do método comparativo constituíu uma das características dos evolucionistas. Contudo, o facto de não haver um grande rigor na aplicação desse método, a falta de crítica das fontes e a ausência do trabalho de campo pesaram muito no enfraquecimento desta corrente. Por outro, as dúvidas repousam sobre os factores da evolução cultural, ao indicar aspectos subjectivos de carácter psicobiológico.

O D1FUSIONISMO

O Difusionismo centra-se na difusão e nos contactos entre os povos como factores da dinâmica cultural, que é reconhecida como um fenómeno universal e humano. O difusionismo fundamenta-se no pressuposto histórico para explicar as semelhanças existentes entre as diferentes culturas particulares. É por causa disso que também se chama historicismo (Mello (2005, p. 222-223). O Difusionismo congrega várias escolas ou tendências da Antropologia Cultural: Difusionismo Inglês, Difusionismo Alemão, ou Escola de Viena e Escola ou Difusionismo Americano. O Difusionismo, difundido entre 1900 e 1930 está dentro do período da crítica, de que falaremos na lição seguinte.

Diferentemente do Evolucionismo, preocupa-se pelo rigor na pesquisa, tendo, por isso, desenvolvido um trabalho de campo, com a recolha de dados e posterior elaboração teórica. A observação participante foi privilegiada como uma das técnicas de pesquisa, e, ao mesmo tempo, foi incrementada a Linguística. Por isso, a Etnografia conheceu uma afirmação com o Difusionismo.

Foram também privilegiados estudos das culturas particulares, dando maior segurança nas informações e um maior conhecimento de fenómenos antes relegados a um segundo plano (Ibid., p. 224).

Características das Escolas Difusionistas.

A Escola Inglesa

Surgida na segunda década do século XX, a Escola Inglesa teve como estudiosos Grafton Elliot SMITH e o seu discípulo W.J. PERRY, que veio a implantar definitivamente a Escola. SMITH introduziu o fenómeno do paralelismo cultural, daí que o fundamento desta escola foi o de defender a difusão como principal motor da dinâmica cultural. Foi levada a isso talvez ao verificar quão difícil é a inovação ou a criação de novos valores culturais. Para esta escola, a cultura de todo o mundo moderno era basicamente a mesma por conta da difusão (teoria pan-egípcia), e ficou conhecida por seu método pouco científico e por sua especulação fantasiosa.

Os pontos fracos desta escola foram: a manipulação de informações inseguras e duvidosas; falta de rigor cronológico dos acontecimentos e o grande radicalismo ao considerar o Difusionismo como única base da explicação das semelhanças culturais existentes entre diferentes grupos.

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Lição n 3

48 Lição n 3

A Escola de Viena (o Difusionismo Alemão)

Esta escola teve como percursores GRAEBNER, um dos seus principais fundadores, RATZEL, FROBENIUS, W FOY, F. e SCHMIDT. É a escola também designada como histórico-cultural. Quanto à metodologia, privilegia o uso de informações seguras, tendo sido, por isso uma das

contribuições desta escola para a Antropologia. Grabener defendia que na análise da difusão cultural era necessário ter em conta o número e a

quanto maior for o número de semelhanças,

complexidade, onde “(

maiores são as probabilidades de ter havido empréstimos” (Mello, 2005, p. 228). Tanto estes, como os ingleses, o seu trabalho é basicamente o de gabinete e neste contexto aproximavam-se dos evolucionistas.

)

A

Escola ou o Difusionismo Americano.

O

principal defensor desta Escola foi Franz BOAS. Seguiram-se-lhe,

segundo Martinez, (2004, p. 63), Alfred KROEBER, Clark WISSLER, P. RADIN, E. SAPIR, Ruth BENEDICT, Margareth MEAD. Tendo como objecto a cultura universal, a principal característica foi de terem optado pelo estudo de áreas culturais muito pequenas, por considerarem a cultura complexa e ser, segundo eles, difícil conhecê-la completamente.

O

trabalho de campo foi pouco privilegiado, alias tal como ocorria com

as

outras escolas.

O

FUNCIONALISMO

O

funcionalismo é uma corrente fundada por Bronislaw MALINOWSKI,

a

partir de 1914. Esta corrente teve a sua maior influência entre 1930-

1940. Querendo ultrapassar as tendências dominantes na época (preocupações pela origem e pelos problemas das transformações sócio- culturais), o funcionalismo tenta explicar o funcionamento de uma cultura num determinado momento. As noções de utilidade (para que serve?), de causalidade (qual é a razão?) e de sistema (conhecimento da interdependência dos elementos num conjunto coerente) determinaram a emergência desta corrente.

Vários foram os representantes da corrente funcionalista: H. SPENCER, via a função como a finalidade procurada intencionalmente; E. DURKHEIM, defendia a função “como a causa eficiente dos processos sociais de adaptação, de organização e de integração” (Rivière, 2000, p. 52). Segundo DURKHEIM, os factos sociais são regras de comportamento, normas, padrões de valores, expectativas que a socie- dade tem dos seus membros. A pessoa se encontra num mundo onde

existem certas regras e onde ela sofre se as viola. E essa realidade ocorre

no seu meio de residência, não é verdade? A.R. RADCLIFFE-BROWN

era de opinião de que a função pode contribuir na organização e na acção de um conjunto, mas não predetermina a instituição que a realiza. Interessa-se pelos sistemas de relações entre homens e grupos. Uma das principais críticas desta corrente reside no facto de não explicar a génese e as transformações de uma cultura ou organização.

Contudo, foi MALINOWISKI quem revolucionou a investigação, com o privilegiamento do inquérito de campo e a elaboração do método de observação-participante. Ele definiu a cultura como “aparelho instrumental que permite ao homem resolver da melhor maneira os

Antropologia Cultural

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problemas concretos e específicos que deve enfrentar no seu meio, quando tem de satisfazer às suas necessidades”(Id.). Segundo ele, se a cultura é um mundo artificial criado pelo homem, é também uma extensão do mundo natural, dado que a satisfação das necessidades orgânicas ou básicas do homem resulta das condições impostas a cada cultura. A solução desses problemas cria como um novo ambiente que permanentemente reproduzido, mantido e administrado cria um novo padrão de vida (Martinez, 2004, p. 65).

Como modelo de análise para o trabalho de campo, MALINOWSKI elegeu a instituição. MA, que para ele era constituída pelos seguintes elementos: estatuto pessoal, normas, aparelhagem material, actividades, função. Os tipos institucionais, segundo Malinowski, eram classificados segundo o princípio de integração, como a família, a aldeia, grupos por sexos, por idades, Sociedades secretas, etc.

ESTRUTURALISMO

Embora possa ser integrado na Escola Funcionalista, Alfred R. RADCLIFFE-BROWN, é um dos mentores do Estruturalismo. Ele define estrutura como a disposição ordenada das partes ou elementos que

compõem um todo. Num sentido lato, a estrutura associa sistemas, como

o parentesco, a religião, a politica, mas num sentido restrito, põe em

relevo a rede de relações entre as posições sociais. É o sistema simbólico das relações constantes entre os factos. A análise utilizada pelo Estruturalismo apresenta-se como uma análise sincrónica, sem considerar a dialéctica que existe no desenrolar da história.

Claude LÉVI-STRAUSS acentua o valor de signo e de símbolo dos elementos singulares e a constância das suas relações mútuas. Por exemplo, sobre o parentesco, analisa-o como um sistema de comunicação

e de trocas entre estatutos e papéis sociais, de acordo com um princípio

de reciprocidade, que consiste em se interditar o parente próximo para o trocar por um cônjuge proveniente de outro grupo.

Uma estrutura oferece um carácter de sistema. Ela consiste em elementos tais que uma modificação qualquer de um deles acarreta uma modificação de todos os outros.

Em segundo lugar, todo modelo pertence a um grupo de transformações, cada uma das quais corresponde a um modelo da mesma família, de modo que o conjunto destas transformações constitui um grupo de modelos.

Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permitem prever de que modo reagirá o modelo, em caso de modificação de um de seus elementos. Enfim, o modelo deve ser construído de tal modo que seu funcionamento possa explicar todos os factos observados. Assim, segundo C. Lévi-Strauss, a estrutura é um tipo de formalização que se adapta a um conteúdo variado.

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Lição n 3

50 Lição n 3

Sumário

50 Lição n 3 Sumário Tome Nota! Após a emergência da Antropologia como ciência desenvolveram-se diversas

Tome Nota!

Após a emergência da Antropologia como ciência desenvolveram-se diversas correntes que, de certa forma, espelharam as várias concepções do que devia estudar esse ramo do conhecimento humano. Assim, seguiram-se várias posições como a dos evolucionistas, dos difusionistas, dos funcionalistas e dos estruturalistas. Apesar das divergências nos procedimentos metodológicos e conceptuais, pelo menos todas essas correntes centraram-se no estudo do Homem como um ser cultural.

Exercícios

Chegado ao fim desta lição, aparentemente longa pense, naquilo que já aprendeu e responda às questões seguintes: aprendeu e responda às questões seguintes:

Auto-avaliação

1. Quanto à sua orientação, em que se fundamenta cada uma das teorias acima expostas?

2. Procure encontrar, em cada uma das teorias, o conceito fundamental e a sua significação nas teorias elaboradas acerca da cultura humana.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Você deve procurar resumir o texto acima exposto e das obras complementares e entregar o resultado ao centro de recursos a ficha por sí elaborada.

2. Você deve procurar ligar o Evolucionismo com a evolução; o Difusionismo, com a difusão; o Funcionalismo, com a função e o Estruturalismo, com a estrutura, procurando, ao mesmo tempo, explicar como a cultura humana era entendida segundo estes conceitos.

Se teve dificuldades, não desista, volte a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir consulte as obras indicadas abaixo ou consulte o seu tutor.

Antropologia Cultural

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Leituras aconselhadas

Antropologia Cultural 51 Leituras aconselhadas Leitura BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos .

Leitura

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições 70, 1974, p. 165-223.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 21-32.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 60-68.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 199-298.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 35-60.

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Lição n 4

52 Lição n 4

Lição n° 4

Críticas à Antropologia em Geral, em África e em Moçambique

Introdução

Nesta lição terá a ocasião de conhecer as críticas que se impuseram para o desenvolvimento da Antropologia sobretudo para ela se libertar do servilismo colonial, em África e em Moçambique.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

Ao completer esta lição , você será capaz de: Objectivos Conhecer os propósitos da Antropologia Moderna;

Objectivos

Conhecer os propósitos da Antropologia Moderna; Perceber que a partir da crítica se abrem novos campos para a Antropologia e estudos sobre a cultura popular. Analisar a situação da Antropologia em África, em geral e em Moçambique, em particular, durante o domínio colonial.

Conteúdo

Depois da emergência da Antropologia como ciência, ela viu-se envolvida, quase em simultâneo, em críticas, em torno da sua essência. Por isso, pode dizer-se que a Antropologia conhece a primeira crítica internamente.

As diferentes correntes que se sucederam podem ser postas nesse nível de crítica da Antropologia, já que nos primórdios do século XX os estudos passaram a apresentar novas direcções, relativamente distantes da teoria evolucionista. De facto, a partir dessa altura passaram a ser criticados os princípios iniciais da Antropologia, foram propostas novas abordagens, condicionando a reformulação da Antropologia Cultural. Em consequência, o objecto inicial seria reformulado e haveria o enriquecimento da Antropologia, por exemplo com a integração de estudos psicológicos, linguísticos, com a pesquisa do campo. James FRAZER (1854-1941), avançou com estudos comparativos das sociedades; Alfred RADCLIFFEE-BROWN (1881-1955) e Bronislaw

Antropologia Cultural

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MALINOWSKI (1884-1942) desenvolveram intensos “trabalhos de campo”. Este último veio a ser o mais metódico pesquisador de campo, mais privilegiado na Antropologia Moderna. Edward EVANS- PRITCHARD (1902-1973), importante sociólogo, se interessou pelo estudo das dinâmicas sociais, conflitos e mudanças culturais.

O

sociólogo francês Émile DURKHEIM (1858-1917), mesmo servindo-

se

da sociologia, procurou encontrar explicação científica da acção social

e política, apresentando a religião como factor integrador fundamental da sociedade. Os seus estudos tiveram um cariz etnológico. Esse contributo foi acrescido por Marcel MAUSS (1872-1952), seu discípulo, que apesar de ser também sociólogo, formou a primeira geração de antropólogos franceses. Este promoveu o surgimento da Antropologia Contemporânea francesa ao dar maior ênfase a um “trabalho de campo” directo, prolongado e sistemático. Publicou um Manual de Etnografia, em 1947.

Franz BOAS (1858-1942), fundou a tradição antropológica americana, no fim do século XIX, defendendo, contrariamente aos evolucionistas, o recurso rigoroso à história. A geração posterior de Antropólogos, formada, entre outros, por Abrahan KARDINER, Margareth MEAD e Ralph LINTON, seguiu a corrente culturalista, que explorou as dimensões inconscientes da civilização (a personalidade individual em relação às práticas do corpo, a noção cultural de feminidade e masculinidade e seus papeis sociais, a relação entre culturas) (Martinez, 2004, p. 59).

A partir dos anos 50 do século XX, a Antropologia segue uma trajectória

complexa sob a influência de Edward EVANS-PRITCHARD (1902- 1973), Claude LÉVI-STRAUSS (1908…), e de autores contemporâneos como Mary DOUGLAS, manifestando um interesse pela história e a mudança, conflitos das dinâmicas sociais. Nas gerações dos anos 70 – 80, do século XX dá-se também um interesse pelas representações e crenças, pela ideologia e as relações de produção, pela organização social e o parentesco, pelos mitos e os sistemas de pensamento e pelo simbolismo (Id.).

A Antropologia passou a estudar não só o exótico, o primitivo, mas

também aspectos culturais do mundo ocidental. Assim, a área de estudo passou a constituir não o “outro” geográfico ou histórico, para ser o “outro” em relação ao pesquisador.

Mas essa crítica terá surgido de fora da Antropologia, quando, como aponta Mello, (2005, p. 195) os povos que antes eram apenas objecto de estudo dos europeus e norte-americanos, como os africanos, os asiáticos e os latino-americanos, começaram a cultivar também estudos antropológicos. Actualmente ocorre a reinterpretação ou a reavaliação da Antropologia Cultural, segundo perspectivas elaboradas internamente e não pela alteridade do europeu. Esperam-se ainda estudos sistemáticos tipicamente novos, como o estudo da cultura popular, o folclore, da globalização, da vida urbana, etc,. Dessa forma, a Antropologia libertou-

se do servilismo colonial.

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Lição n 4

54 Lição n 4

Sumário

54 Lição n 4 Sumário Tome Nota! Desde a emergência da Antropologia que ela passou a

Tome Nota!

Desde a emergência da Antropologia que ela passou a confrontar-se com várias críticas quanto à sua orientação. Tais críticas ajudaram na reformulação da Antropologia Cultural, a qual passou a ser uma disciplina não só de povos exóticos, mas também de todos os grupos populacionais. Face a essa crítica, a Antropologia estabeleceu-se como uma ciência objectiva de facto.

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às questões seguintes: questões seguintes:

1. Em que contribuiram as críticas feitas à Antropologia?

Auto-avaliação

2. Depois

estudos

antropológicos em Moçambique em particular do período

colonial?

deste

estudo

é

capaz

de

indicar

alguns

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Contribuíram imenso para a cientificação da Antropologia enriquecendo-a na orientação psicológica, no estudo linguístico, no incremento notável do estudo e pesquisa de campo, para além de se libertar do servilismo colonial.

2. Sobre esta questão é necessário que você procure alguns exemplos de estudos antropológicos feitos durante o período colonial. Podem-se apontar estudos como os de Jorge Dias (Os Macondes de Moçambique), de Henri Junod (Usos e Costumes dos Bantu), de Frei João dos Santos (Ethiópia Oriental), ou as monografias etnográficas dos Administradores coloniais.

Se teve dificuldades, não desista, volte a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir consulte as obras indicadas abaixo ou o seu tutor.

Antropologia Cultural

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Leituras aconselhadas

Antropologia Cultural 55 Leituras aconselhadas Leitura BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos .

Leitura

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições 70, 1974, p. 165-223.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, 1971, p. 21-32.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 60-68.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 194-197.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 35-60.

Actividade Final da Unidade

Edições 70, 2000, p. 35-60. Actividade Final da Unidade Actividade Depois de você reavaliar as noções

Actividade

Depois de você reavaliar as noções preliminares da Antropologia, como o outro, a Etnografia, a Etnologia, o objecto inicial da Antropologia Cultural, procure reflectir os passos que foram tomados entre a aplicação inicial daquelas noções e a Antropologia Contemporânea.

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Unidade 3

56 Unidade 3

Unidade 3

A Cultura

Introdução

Bem vindo à III unidade de estudo, na disciplina da Antropologia Cultural. Nesta unidade você vai aprender aspectos relacionados com a Cultura Humana, tocando um dos conceitos largamente usados e, frequentemente, de forma distorcida. Aliás, esta unidade é de capital importância em virtude de ser aqui onde pode ser entendida toda a natureza do ser Humano, a ser estudada nos capítulos subsequentes.

Estrutura

Esta unidade temática comporta 10 lições. Para cada uma delas, você vai disponibilizar o tempo recomendado para o estudo.

Tópicos da Unidade

Lição 1.

O Conceito de Cultura

Lição 2.

As Características da Cultura

Lição 3.

A Totalidade Cultural : unicidade, diversidade e etnicidade

Lição 4.

Da Diversidade Cultural à Relatividade Cultural

Lição 5.

A Aplicação do Etnocentrismo

Lição 6.

Dinamismo Cultural

Lição 7.

Os Factores da Cultura

Lição 8.

A Interacção dos Factores

Lição 9.

A Interacção entre a Cultura e a Natureza; a Sociedade e a Civilização

Lição 10:

A Identidade Cultural

Antropologia Cultural

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Ao completer esta unidade / lição, você será capaz de:

Ao completer esta unidade / lição, você será capaz de: Objectivos Geral • Conhecer a natureza

Objectivos

Geral

Conhecer a natureza da cultura.

Específicos

Conhecer o conceito antropológico de Cultura;

Distinguir as diferentes características da Cultura;

Explicar a unidade e a diversidade da cultura ;

Conhecer os factores sincrônicos e diacrônicos da cultura;

Saber identificar os aspectos que derivam do uso inadequado dos conceitos ligados à diversidade cultural.