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Caroline Kelm

Graduada em Filosofia pela UFPR e Pós-Graduada em Pedagogia Empresarial pela IBPEX/


Facinter. Professora de Filosofia do Ensino Médio e Supletivo. Já desenvolveu projetos para
cursos profissionalizantes dos Liceus de Ofícios de Curitiba. Autora de materiais didáticos na
área de Filosofia e Lógica.

Editora Gráfica OPET


Curitiba – PR

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Direção Geral
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Coordenação Editorial
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Coordenação de Editoração
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Apresentação
Ao olharmos para o mundo, vemos muitos objetos de ordens diferentes: homens, animais,
plantas e minerais, além da infinidade de objetos criados pelo homem. Todos eles são
ordenados por nós o tempo todo por meio de alguns critérios lógicos. Se prestarmos atenção
nas plantas, por exemplo, perceberemos que as classificamos de várias formas diferentes:
família, gênero, espécie, entre outras. Mas estas não são as únicas formas de as classificarmos,
poderemos utilizar outros critérios: como o fato de algumas darem flores, outras frutos,
outras serem comestíveis, outras medicinais, etc. Estabelecemos padrões lógicos de análise
porque quando procurarmos compreender o real sempre buscamos coerências, semelhanças
e critérios de análise lógicos. Caso não estabelecêssemos estes padrões, tudo se tornaria
confuso para nós, não conseguiríamos sequer pensar sobre o mundo a nossa volta. Esta é a
lógica presente no funcionamento do nosso cérebro e da linguagem humana.
A lógica também está presente quando tentamos convencer alguém sobre algum ponto
de vista, quando procuramos mostrar como uma ideia é verdadeira ou quando as nossas
conclusões se mostram como a melhor saída para algum problema. Enfim, em todos os
casos de argumentação a lógica está presente. Ou seja, ela faz parte de nossa vida e de nosso
dia a dia, como na lógica do discurso presente nas campanhas publicitárias desenvolvidas
pelos profissionais de marketing ou da argumentação coerente e logicamente encadeada
dos advogados em suas causas. Também está presente em nosso cotidiano o uso da lógica
matemática, empregada na programação de computadores, de softwares de todos os tipos
ou mesmo nas conclusões necessárias das ciências exatas, entre vários outros usos desta
ciência.
Como um ramo do saber pertencente à Filosofia, a Lógica é um de seus campos de
investigação mais antigos, que inicialmente procurava descobrir se os critérios e princípios
que regem a linguagem (Logos) seriam capazes de corresponder ao mundo, ou seja, se ao
descobrirmos as regras da linguagem seríamos capazes de encontrar a verdade. Contudo, com
o passar do tempo, a concepção sobre a Lógica se transformou e seu uso se ampliou, sendo
que atualmente ela é utilizada em vários ramos do saber como uma ciência propedêutica. É
fundamental conhecermos algumas de suas regras inclusive para obtermos um desempenho
melhor em nossas atividades profissionais. Portanto, vejamos suas regras e partamos para o
sucesso!

O Autor

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texto complementar
hipertexto
glossário
citações
dicas (livros, filmes...)
refletir
destaque de texto

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Sumário
Unidade 1
A Lógica Clássica...........................................................................................7
Conceitos Básicos Sobre Raciocínio Lógico.............................................................................7

Unidade 2
A Lógica Matemática...................................................................................26
Como Surgiu a Lógica Matemática?.....................................................................................26

Unidade 3
A Lógica de Argumentação..........................................................................46
Lógica de Argumentação....................................................................................................46
A Classificação dos Argumentos..........................................................................................55
Os Lugares da Argumentação.............................................................................................59

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Unidade 1

A Lógica Clássica
Aristóteles

Conceitos Básicos Sobre Raciocínio Lógico


O que significa a palavra Lógica?
A palavra lógica etimologicamente
provém do grego (Logos – logo ), ex-
pressão que possui vários sentidos, tais
como: “conceito”, “discurso”, “razão”,
“palavra”, “fala”, entre outros, ou seja,

http://www.sxc.hu
todos eles ligados ao uso da linguagem
falada ou do próprio raciocínio discursi-
vo do pensamento.
Parthenon.
A Lógica enquanto disciplina
a ser estudada surge com os primeiros O Parthenon simboliza sob vários aspec-
pensadores gregos, os quais indagaram tos a Grécia Antiga.
se o Logos obedecia a certas regras de utili- A Lógica Clássica surgiu na Grécia ao
zação. A principal questão era saber se ao ser formalizada por Aristóteles, contudo
descobrirmos os critérios e princípios que vários de seus princípios já se encontra-
regem a linguagem seríamos capazes de vam presentes no pensamento de alguns
encontrar a verdade. filósofos que o antecederam.

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Como a Lógica Surgiu?
É com os chamados filósofos pré-socráticos que ocorre a primeira
discussão sobre os princípios da Filósofos que antecederam Sócrates. Séc. VII-V a.C.
lógica. Esta disputa nasceu entre Heráclito de Éfeso e Parmênides de
Eléia, por apresentarem filosofias absolutamente opostas. Enquanto o
primeiro assegurava que a realidade do mundo é a mudança constante,
o segundo afirmava que o real é imutável. O que distingue a filosofia
destes dois pensadores, em sua essência primordial, é a explicação
apresentada por eles sobre o devir eterno do universo, ou seja, a aparição,
as transformações e o desaparecimento de todos os seres de nosso mundo.
Heráclito ao perceber que o mundo a sua volta está em constante
transformação afirmou: “não se pode entrar duas vezes na água do
mesmo rio”. (HERÁCLITO, 1996), visto que tudo se transforma con-
tinuamente: quem é jovem envelhece, quem está são adoece, quem
está doente encontra a cura, as estações se sucedem, os dias se tornam
noites e estas tornam a desaparecer para que novos dias recomecem.
Para Heráclito a verdade do Logos é a eterna mudança de tudo aquilo
que existe e de seus contrários.
De forma oposta a Heráclito, Parmênides afirmou que o real, a
verdade do Logos é imutável. Para este pensador, se algo se transformar
perderá a sua identidade, uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo
tempo. Por exemplo, um rio não
pode ser o rio “Iguaçu” e no mo-
mento seguinte já se transformar e
ser uma coisa diferente do rio “Igua-
çu”. Segundo Parmênides, todas as
modificações do mundo não passam
de ilusões de nossos sentidos, estas
mudanças não seriam reais, porque
ao pensarmos em algo ou ao falar-
mos sobre alguma coisa precisamos
saber que esta coisa é sempre idênti-
ca a si mesma. Uma coisa não pode
ser e não ser ao mesmo tempo, existir
e não existir, porque isto seria uma
Platão e Aristóteles. contradição em termos. Ou seja,
Escola de Atenas com estes dois filósofos pré-socráti-
Os dois maiores filósofos da antiguidade cos encontramos já alguns elementos
grega, Platão e Aristóteles, não deixaram importantes para o aparecimento da
lógica formal: o princípio de identida-
de contribuir na discussão inaugurada pelos
de e o de não-contradição, princípios
pré-socráticos sobre a imobilidade ou devir
que serão explicados na filosofia de
contínuo de nosso mundo.
Aristóteles, como veremos a seguir.

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A história da Lógica na Filosofia grega voltou-se para a tentativa de res-
ponder de forma cada vez mais coerente a oposição inicial criada pelos pré-
-socráticos entre o imobilismo e o devir contínuo de nosso mundo. As duas
principais respostas foram a de Platão e a de Aristóteles.
Platão, filósofo grego do século V-IV a.C., tentou conciliar estas duas po-
sições contrárias (a do imobilismo e a da eterna mudança) através da teoria da
existência de dois mundos: o sensível e o inteligível. O mundo sensível seria
um local de permanente mudança, sujeito a todas as transformações, enquan-
to o mundo inteligível seria imutável. Este mundo, ou mundo das idéias seria o
padrão do mundo sensível, portanto todas as idéias (ou modelos) seriam eternas.
Não iremos nos aprofundar na teoria platônica da formação de nosso mundo,
apenas apontaremos qual era o método utilizado por ele para encontrar o
Logos verdadeiro. É através da dialética
que conseguiríamos superar este mundo Teoria da Reminiscência:
de aparências e encontrar as essências do Para Platão a alma é imortal e renasce
mundo inteligível. várias vezes. Antes de nascer ela já te-
A dialética platônica ocorria por meio ria visto as idéias deste mundo imutável.
de diálogos nos quais os interlocutores Porém, quando renasce, não é capaz de
lembrar de todas. O trabalho do filósofo
possuíam posições contrárias, era através
consiste em relembrá-las e, segundo o
do embate de idéias que se chegava a uma
autor, aquele é um privilegiado, porque
posição única. A própria palavra dialética leva uma forma de vida à qual se aplica
já nos chama a atenção para este enfrenta- com todo o empenho à busca de idéias
mento de idéias contrárias. Dia quer dizer por meio da reminiscência. Ela ocorre
dois, lética é um desdobramento da palavra quando o homem consegue controlar o
logos (palavra, pensamento, discurso). Este corpo e as paixões, ou as almas inferiores
método funcionava com a divisão de idéias (irascível e apetitiva) e dedicar-se exclu-
em duas partes para a verificação de qual de- sivamente à dialética racional. Visto
las seria a verdadeira. Então ocorria mais que, para Platão, o homem possui três
uma divisão entre opostos e uma nova ave- almas, localizadas em locais distintos do
riguação da veracidade dos argumentos, e seu corpo: a alma apetitiva, localizada
assim sucessivamente, até que se chegasse a no ventre, é responsável por todas as
um termo indivisível, o qual seria o conceito paixões corpóreas, assim como pela
manutenção física/biológica do corpo.
ou a essência verdadeira.
A alma irascível localizada no peito,
Contrariamente a Platão, Aristóteles responsável pela defesa do homem, mas
não aceitava a divisão entre dois mundos, também pela ira, de onde provém seu
o das aparências e o mundo real, o qual nome. E, finalmente, a alma racional, lo-
só teríamos acesso por meio da dialética calizada na cabeça, é responsável pelos
e da recordação do que já teríamos visto pensamentos. Ao controlar estas almas
antes do nascimento, de acordo com a inferiores, o homem lembraria das idéias
teoria platônica da reminiscência. Para puras do mundo inteligível, processo fa-
Aristóteles a realidade é uma só e a mudança cilitado pela dialética.

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Teoria da potência e ato: nos seres ocorre naturalmente,
Potência – capacidade de ser. Ex: Um para que a potência das criaturas
óvulo tem em potência a capacidade de se revele, ou seja, para aquilo que
se tornar um bebê. existe na essência das coisas possa
Ato – a potência atualizada. Ex: Se o se manifestar. Portanto, a mudança
óvulo é fecundado e cresce, ele será faria parte da natureza de alguns
um bebê em ato, porque atualizou a sua seres, assim como o imobilismo
potência. seria natural para outra categoria de
O movimento no mundo se iniciaria com objetos. As transformações dos seres
o primeiro motor imóvel, ou substância para Aristóteles, diferente do que
divina, denominado por Aristóteles de afirmava Heráclito, não se dariam
Ato Puro, o qual seria a primeira causa pela oposição de contrários, por
incausada do mundo. Todas as demais exemplo, do seco para o úmido, do
transformações se explicariam por meio quente para o frio, ou do dia para a
da passagem da potência para o ato, já noite. As mutações fariam parte da
que tudo aquilo que existe em potência natureza do próprio ser, as quais
tende a se realizar plenamente, ou seja,não aboliriam a sua identidade. A
passar da potência para o ato. posição de Parmênides, segundo o
pensamento aristotélico, também
não é incorreta, porque é verdadeiro afirmar que para pensar e falar
sobre algo é necessário existir identidade nos conceitos e nas palavras.
Ou seja, o que Aristóteles nos mostra é que as duas posições não são
contrárias, mas complementares.
A dialética platônica, segundo Aristóteles, também não é ade-
quada para encontrarmos a verdade, porque ela não funciona com a
apresentação de provas, mas simplesmente oferece bons recursos para
aqueles que querem praticar a retórica ou a simples disputa verbal. A
mera apresentação de opiniões contrárias não garante que o filósofo
chegue à verdade, pelo contrário, pode afastá-lo dela cada vez mais.
Aristóteles cria um método para investigar o discurso, oposto ao
platônico: a Lógica Clássica, ou Lógica Formal, como nós a conhecemos,
mas que o filósofo chamou de Analítica. Ele organizou seus escritos em
uma série de livros: Sobre a (da) Interpretação, Analíticos I e II, Sofísticos
e Tópicos, os quais ficaram sendo conhecidos como Órganon (instrumento
ou método). Eles visavam principalmente articular e organizar a
linguagem utilizada pelos pensadores. A Lógica, segundo Aristóteles,
é um instrumento para se conhecer, que pode ser utilizado em vários
ramos do saber, portanto a Lógica aristotélica não se tornou mais uma
postura diante do mundo, ou um modo de conhecer, mas uma disciplina
propedêutica, que antecedeu o trabalho de filósofos e cientistas que
Conjunto de estudos que precedem, buscavam a verdade.
ciência preliminar.

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Raciocínio e Inferência

ADOLPH, G. Escola de Aristóteles, 1883-1888.

Antes de analisarmos como se processa a formação de raciocínios para


Aristóteles e quais regras eles devem seguir, vejamos como se caracteriza
e quais as funções a Lógica possui para este filósofo:
• Instrumental – a Lógica serve como um instrumento para se pensar
corretamente.
• Formal – preocupa-se com as formas expressas pela linguagem.
• Propedêutica – é o conhecimento inicial para qualquer ramo do saber.
• Normativa – fornece leis, regras, princípios e normas para o pensamento.
• Doutrina da Prova – estabelece as condições e fundamentos
às demonstrações. Através da conclusão é possível analisar se a
proposição é verdadeira ou falsa.
• Geral e Atemporal – as formas Escola de Aristóteles
do pensamento, os princípios e Segundo o pensamento aristotélico, a lógi-
as leis são imutáveis e universais. ca seria um instrumento para bem conduzir
O objeto da lógica são as propo- a razão contra possíveis falácias.
sições, as quais exprimem por meio Proposições:
da linguagem os juízos formulados As proposições são discursos declarati-
pelo pensamento. Estas proposições vos a respeito de alguma coisa. É todo
são formadas por termos, os quais o conjunto de palavras ou símbolos que
podem ser classificados de diversas exprimem um pensamento de sentido
formas diferentes. completo. São formadas por sujeitos
A primeira forma de classificação (substâncias) e por predicados atribuí-
são as Categorias Aristotélicas, elas dos a eles por meio de verbos de liga-
indicam o que uma coisa é; como ção. Exemplo: “Platão é esperto”. Platão
está ou a sua atividade, são elas: (substância) é (verbo de ligação) esperto
(predicado). Ou seja, são afirmações a
respeito do mundo.

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1. Substância – por exemplo, gato, menino, árvore, etc.
2. Quantidade – três quilos, um quilômetro, vinte centímetros, etc.
3. Qualidade – bondoso, malvado, rude, desagradável, meigo, etc.
4. Relação – metade, o triplo, maior, menor, etc.
5. Lugar – na rua, no quintal, na biblioteca, etc.
6. Tempo – mais cedo, agora, jamais, semana que vem, etc.
7. Posição – torto, de costas, deitado, reto, sentado, etc.
8. Posse – vacinado (no sentido de ter tomado vacinas), calçado (no
sentido de possuir sapatos), etc.
9. Ação – olhar, andar, brincar, repousar, chorar, etc.
10. Paixão ou passividade – (no sentido de estado ou situação em que
uma coisa se encontra) está sujo, está cansado, está comendo, etc.

Estes termos possuem duas propriedades lógicas:


1. Extensão – refere-se a todo o conjunto de objetos designados por
um termo ou categoria. Por exemplo: a categoria “cachorro” englo-
ba todas os cães possíveis no Universo. A categoria “dog alemão”
faz referência apenas aos cães desta raça, ou seja, sua extensão é
menor do que a da categoria “cachorro”.
2. Compreensão – é aquilo que entendemos por meio do termo. Por
exemplo, por meio da categoria “cachorro” podemos entender que
são animais que latem, brincam, rosnam, alguns são muito grandes
e ferozes, outros são muito pequenos e meigos, etc. Já por meio da
categoria “dog alemão” entendemos algo mais específico, são cães
grandes, de pêlo curto e na maior parte das vezes bravos.

Podemos deduzir que, quanto maior a extensão da categoria, por


exemplo, “cachorro”, menor será a compreensão sobre o termo, por-
que esta categoria engloba uma quantidade muito grande de seres. Por
outro lado, quanto maior for a compreensão sobre o termo, menor
será a sua extensão, como a categoria “dog alemão”. Esta possui uma
extensão menor do que a categoria “cachorro”, porém o que se sabe
sobre ela é mais específico e certo. Há casos em que a extensão se re-
fere a apenas um objeto, no caso de um nome próprio. Como o nome
“Aristóteles”, que possui uma pequena extensão, porém sua compre-
ensão é muito mais específica.

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Por meio dos conceitos de extensão e de compreensão, Aristóteles
pôde classificar os termos em três formas diferentes:
• Gênero – por exemplo, “homem” ou “animal”. Possuem grande
extensão e pouca compreensão.
• Espécie – por exemplo, “dog alemão” ou “margarida”. Possuem
extensão média e compreensão razoável.
• Indivíduo – por exemplo, “Platão” ou “Sócrates”. Possuem pouca
extensão e grande compreensão.

As proposições, formadas pelos termos classificados acima, po-


derão ser consideradas verdadeiras se reunirem sujeitos e predicados
existentes de fato no mundo, como também poderão ser consideradas
falsas se reunirem sujeitos a predicados que não lhes correspondem.

Sentenças, Proposições e Enunciados


As proposições podem ser classificadas: qualitativamente, quan-
titativamente ou de acordo com a modalidade.

Tendo em vista a qualidade, as proposições podem ser:


• Afirmativas – “Sócrates é mortal”.
• Negativas – “Sócrates não é italiano”.

De acordo com a quantidade elas podem ser:


• Universais – podem ser classificadas a partir dos termos “todos” ou
“nenhum”. “Todas as rosas são flores” ou “Nenhuma baleia é ave”.
• Particulares – referem-se a uma extensão do sujeito. “Algumas
árvores dão frutos” ou “Algumas rosas são vermelhas”.
• Singulares – referem-se a um ser específico. “Esta baleia é cinza”
ou “Este dog alemão é preto e branco”.

Tendo em vista a modalidade, as proposições podem ser:


• Necessárias – o predicado obrigatoriamente faz parte do sujeito.
“Todo homem é mortal” ou “Todas as cenouras são vegetais”.
Todos os homens morrem necessariamente e todas as cenouras
pertencem ao reino vegetal, estas características estão contidas no
que se entende por homem e por cenoura.
• Não-necessárias ou impossíveis – quando o predicado não pode
ser atribuído ao sujeito. “Todos os homens são imortais” ou
“Todas as vacas são ovíparas”. Homens não são imortais e nem
vacas botam ovos.

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• Possíveis – o predicado pode ser atribuído ao sujeito, mas não ne-
cessariamente. “Estas flores são perfumadas”. Poderiam, também,
não exalar perfume.

FRAGONARD, J.-H. Um Filósofo, 1764.

Para Aristóteles o silogismo é a forma mais adequada de se de-


monstrar o conhecimento.
Aristóteles define três princípios fundamentais para analisar todos
os juízos:
• Princípio de identidade – A é A. Ou seja, uma coisa possui uma
essência capaz de dizer o que ela é. Um ser é idêntico a si mesmo.
Ex.: Sócrates é Sócrates e não qualquer outra coisa.
• Princípio de não-contradição – A é A e é não-A ao mesmo tempo.
Porque eu não posso dizer que “o branco é preto”, “ela é bonita
e feia” ou ainda que “o claro é escuro”, tendo em vista que isto
representa uma contradição nos termos.
• Princípio do terceiro excluído – A é B ou A não é B. Dadas duas
alternativas com os mesmos termos (sujeitos e predicados), uma
das proposições será verdadeira e a outra falsa, não há a possi-
bilidade de ocorrer uma terceira alternativa. Ou seja, uma coisa
deverá ser o que é ou seu contrário, não há uma terceira possibi-
lidade. Ex: diante das duas afirmações: “o homem é bípede” e “o
homem não é bípede”, uma das duas afirmações será verdadeira e
outra falsa, não poderá haver outra opção.

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As proposições também poderão ser classificadas de acordo com as suas
relações:
• Contraditórias – não podemos falar que “todos os homens são bípedes”
para em seguida afirmar que “há um homem que não é bípede”. Há uma
afirmação universal e, em seguida, uma negação particular. Ou vice-versa,
quando há uma negação universal para, em seguida, ocorrer uma afirmação
particular.
• Contrárias – Não podemos afirmar que “todos os homens são racionais” e
que “todos os homens são irracionais”.
• Subalternas – relaciona proposições universais com proposições particulares
de mesmo sujeito e predicado. “Todos os cães latem”, portanto “este cão
late”, ou “Nenhuma flor voa”, portanto “esta flor não voa”.

O quadrado dos opostos foi criado pelos lógicos medievais para que possamos
visualizar as proposições em relação a sua qualidade, modalidade e quantidade.
Na imagem a seguir também fica claro os três gêneros possíveis de juízos:
• Juízo Apodíctico – quando as proposições forem universais e necessárias,
O que é demonstrável e evi- sejam afirmativas ou negativas. Exemplo: “Toda cobra
dente de modo necessário.
é um réptil”, ou “Nenhuma rã é ave”.
• Juízo Hipotético – quando uma proposição afirmativa ou negativa, particular
ou universal apresentar a formulação: “se... então”. Exemplo: “Se eu trabalhar
corretamente, então serei promovido”.
• Juízo Disjuntivo – quando a afirmação puder conter uma alternativa, a qual
dependerá de determinadas circunstâncias. Estes juízos poderão ser formulados
por proposições afirmativas ou negativas, universais ou particulares. Elas se
apresentam com a formulação “ou... ou”. Exemplo: “ou ganharei na loteria,
ou não ganharei”.
Universal afirmativa: Todo o A é B Universal negativa: Nenhum A é B
A Contrárias E
C

s
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Subalternas

Subalternas
ór
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a
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on

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C

as

I Subcontrárias O

Particular afirmativa: Algum A é B Particular negativa: Algum A não é B

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A partir de todas estas classificações se chegará ao conhecimento
por meio de silogismos (ligações). Ele é um encadeamento de enuncia-
dos linguísticos por meio dos quais poderemos provar ou demonstrar
o conhecimento. Os silogismos, segundo Aristóteles, seriam a forma
mais adequada de se formular os conhecimentos, os quais ocorreriam
por dedução. Ele é constituído por três enunciados: a premissa maior,
a premissa menor e a conclusão. Exemplo:

“Todos os homens são bípedes”. – Premissa Maior


“Sócrates é homem”. – Premissa Menor
“Portanto, Sócrates é bípede”. – Conclusão

Analisando o silogismo apresentado acima, também percebemos


que estas três premissas são formadas por termos. O termo maior, o
menor e o médio. É o termo médio que faz a ligação entre o termo
maior e o menor no silogismo, o qual jamais deve aparecer na conclusão:

Termo Maior – “bípede”.


Termo Menor – “Sócrates”.
Termo Médio – “homens”.

Um outro exemplo:

“Todas as flores tem perfume”. – Premissa maior


“A rosa é uma flor”. – Premissa menor
“A rosa tem perfume”. – Conclusão
Termo Maior – Perfume.
Termo Menor – Rosa
Termo Médio – Flor.

Estes silogismos devem obedecer a uma série de regras para que se


chegue a uma conclusão verdadeira:
• Um silogismo deve ter somente três termos. Um termo maior, um
menor e um médio.
• O termo médio deve aparecer nas duas premissas e não na conclusão.
• O termo não pode ser mais extenso na conclusão que nas premissas.
Ou seja, uma das premissas deverá ser universal (afirmativa ou
negativa), sendo que o termo médio deverá ser tomado em sua
universalidade pelo menos uma vez.

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• A conclusão não pode conter o termo médio. A sua única função
é ligar o termo maior e o menor.
• De duas premissa negativas nada poderá ser deduzido.
• De duas premissas particulares também não haverá conclusão alguma.
• Duas premissas afirmativas devem possuir uma conclusão afirmativa.
• A conclusão acompanha o termo mais fraco. Ou seja, se houver
uma premissa negativa, a conclusão será negativa, se houver uma
premissa particular, a conclusão será particular.

A forma do silogismo é dedutiva e obedece a seguinte estrutura:


A é verdade de B.
B é verdade de C.
Logo, A é verdade de C.

As premissas possuem termos extremos, no caso A e C. É o termo


B, ou termo médio que faz a ligação entre eles. A arte do silogismo
consiste em saber encontrar o termo médio nos raciocínios, o qual
permitirá chegar a uma conclusão válida.
As regras expostas acima dão origem aos modos de silogismos e
às quatro figuras possíveis. Os modos são as combinações possíveis
entre premissas (universal negativa, universal afirmativa, particular
negativa e particular afirmativa), as quais podem aparecer tanto na
premissa maior como na menor em várias posições diferentes. Exis-
tem 64 combinações possíveis, mas destas, apenas dez são válidas. As
figuras referem-se ao lugar ocupado pelo termo médio das premissas.
Através da combinação entre modos e figuras chega-se a 19 combina-
ções válidas de silogismos.
Das quatro figuras descritas por Aristóteles a primeira é a conside-
rada a mais adequada para os silogismos científicos. Visto que através
desta figura se faria a inclusão ou exclusão de um ser em uma espécie
e esta em um gênero. Esta figura coloca o termo médio como sujeito
na premissa maior e como predicado na premissa menor. São quatro
as combinações possíveis:

1.º As três premissas são universais afirmativas:


Premissa Maior: “Todas as flores são bonitas”.
Premissa Menor: “Todos os jasmins são flores”.
Conclusão: “Todos os jasmins são bonitos”.

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2.º A premissa maior é universal negativa, a menor é universal afir-
mativa e a conclusão é universal negativa:
Premissa Maior: “Nenhuma árvore voa”.
Premissa Menor: “Todos os ipês são árvores”.
Conclusão: “Nenhum ipê voa”.

3.º A premissa maior é universal afirmativa, a menor é particular


afirmativa e a conclusão é particular afirmativa:
Premissa Maior: “Todos os filósofos são sábios”.
Premissa Menor: “Platão é filósofo”.
Conclusão: “Platão é sábio”.

4.º A premissa maior é universal negativa, a menor é particular afir-


mativa e a conclusão é particular negativa:
Premissa Maior: “Nenhuma mulher é ovípara”.
Premissa Menor: “Inês é mulher”.
Conclusão: “Inês não é ovípara”.

O silogismo científico é apodíctico, certo e real. Ele deve obedecer


a quatro princípios:
1. As premissas devem ser verdadeiras.
2. As premissas devem ser primárias ou elementares.
3. As premissas devem ser mais inteligíveis que a conclusão.
4. As premissas devem ser a causa da conclusão.

As premissas dos silogismos científicos podem ser de três tipos:


1. Axiomas – São premissas que se admitem como verdadeiras, das
quais se podem deduzir as proposições de uma teoria.
2. Postulados – São os princípios e os pressupostos de que se valem
uma ciência para iniciar seus estudos, os quais inicialmente não
são nem evidentes e nem demonstráveis.
3. Definições – São as explicações sobre o gênero dos objetos da
ciência investigada. Neste caso, seria encontrar a diferença espe-
cífica entre os seres do mesmo gênero, ela reflete-se no termo mé-
dio da proposição, a qual permite encontrar o conceito do objeto
através de categorias.

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Argumentos
A argumentação em um texto escrito ou falado pode ocorrer de
duas formas distintas: ou por meio da dedução ou através da indução.
Estas são as duas formas argumentativas conhecidas tradicionalmente.
Também será apresentada a analogia, considerada por muitos lógicos,
como apenas mais uma forma de indução.

RODIN, A. O Pensador, 1882.

Dedução O Pensador
A dedução é a forma de racio- A obtenção de uma conclusão através
de raciocínios lógicos se dá basicamente
cínio através da qual a conclusão é
através de duas formas argumentativas:
necessariamente concluída de suas
a dedução e a indução.
premissas. Ele não apresenta con-
teúdos novos, apenas organiza aqueles que já foram apresentados e
considerados verdadeiros. A dedução obedece a leis rígidas, ela encadeia
termos (palavras) através de um discurso expresso em uma sequência
lógica e rigorosa.
O conhecimento matemático é quase inteiramente formado por
deduções. Visto que, nesta ciência, admite-se algumas proposições
iniciais como verdadeiras, delas sendo possível deduzir uma série de
outras afirmações como conclusões necessárias. Contudo, mesmo que
a Lógica guarde várias semelhanças com o saber matemático, não
podemos confundir os elementos da dedução na lógica argumentativa

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com os elementos das deduções matemáticas, tendo em vista que estes últimos possuem a
capacidade de se transformar e adquirir novos valores. Isto torna a dedução matemática
mais fecunda, o que não ocorre na Lógica argumentativa.
A forma de argumentação dedutiva é por excelência o silogismo. Enuncia-se nas premissas
aquilo que aparecerá na conclusão, a qual não excede o conteúdo já enunciado, apenas os
apresenta através de outras ligações.

TODOS OS GRANDES MINHA MÃE NÃO USA A LÓGICA


ASTROS DO ROCK NAS DISCUSSÕES, MAS É
BASTANTE PERSUASIVA.
TÊM TATUAGENS.
AH–
ENTENDI
QUERO SEU PONTO
SER UM DE VISTA.
GRANDE ASTRO
DO ROCK.

PORTANTO,
PRECISO ME
TATUAR.
http://br.geocities.com/cidadeimaginaria/lógica

Tendo como base o pensamento dedutivo, poderíamos formar o seguinte silogismo:


“Todos os sorvetes são gelados”.
“A banana split é um tipo de sorvete”.
“Portanto, a banana split é gelada”.

Termo Maior – Gelado


Termo Menor – Banana Split
Gelado
Termo Médio – Sorvete
Sorvete
O termo maior contém em si o termo menor e o
médio. O termo médio faz a ligação entre o maior e o Banana Split
menor, como na imagem ao lado:

Indução
É uma forma argumentativa oposta à dedução, porque enquanto na dedução parte-se de
um universal para conclusões particulares, por exemplo: “Todo homem é mortal”, “Sócrates
é homem”, “portanto, Sócrates é mortal”. Na indução o processo é exatamente o inverso.
Observam-se vários dados singulares (fatos ou eventos) que se apresentam sempre da mesma
forma, ou seja, que sempre se repetem. A partir deste ponto, inferimos uma verdade uni-
versal. Por exemplo, observo que quando derreto o açúcar e faço caramelo, a temperatura
do doce passa dos 120 graus Celsius, e todas as vezes que faço o mesmo doce ele apresenta
sempre a mesma temperatura. Ou seja, nesta vez ele passa dos 120 graus, na próxima vez ele

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também passa dos 120 graus, e ainda na outra e outra. Portanto, indu-
zo uma verdade universal de vários fatos particulares: “O açúcar fica
em ponto de caramelo quando passa dos 120 graus Celsius”. Há um
fenômeno de generalização, o qual sempre parte de fatos concretos.
Outra grande diferença entre a dedução e a indução é o fato da
indução ir além do conteúdo já apresentado nas premissas, enquanto
o conhecimento dedutivo apenas explicita o conteúdo já apresentado.
Este fato torna o conhecimento indutivo menos rigoroso que o conhe-
cimento dedutivo, porque se trata apenas de uma probabilidade. Como
não temos acesso a todos os fatos singulares de um determinado evento,
apenas podemos imaginar que todos irão se processar da mesma
forma que os já observados, porém jamais teremos certeza sobre isto.
Um exemplo de indução apresentado pelo próprio Aristóteles:
O homem, o cavalo e o burro vivem muito tempo.
Ora, o homem, o cavalo e o burro são animais sem fel.
Bílis. Vesícula que a
Logo, os animais sem fel vivem muito tempo. contém.
Ou seja, Aristóteles verificou um certo número de animais que
vivem muito tempo e que não possuem fel e, a partir deste ponto,
promoveu uma generalização. Porém, jamais verificou todos os casos
singulares existentes, mesmo porque isto seria impossível.
Aristóteles também afirmou que o conhecimento científico deve
ocorrer preferencialmente através de deduções, porque elas seriam a
forma mais adequada de se obter resultados seguros e rigorosos na
ciência. Porém, observamos que a ciência experimental trabalha es-
sencialmente com induções. Visto que ela observa, enumera e cataloga
os fatos, para então apresentar uma conclusão, a qual passará a ser
considerada válida para todos os eventos semelhantes. Assim como a
maioria dos conhecimentos cotidianos (não-rigorosos) também ocor-
rem por induções.
Todas as previsões que fazemos para o futuro, por exemplo, tem
base na indução. Quando vemos algo ocorrer um certo número de
vezes, induzimos que perante as mesmas circunstâncias o mesmo fato
voltará a ocorrer. Por exemplo: algumas vezes que estava muito quente
e você não guardou na geladeira os alimentos que sobraram do almoço,
eles acabaram se estragando. Em algum outro dia que também esteja
muito quente, e você também não guarde o mesmo tipo de alimento na
geladeira, você irá induzir, ou prever, que eles também se estragarão.
Uma outra forma de inferência são os argumentos de autoridade.
Acabamos inferindo muitas conclusões através de afirmações dadas por

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pessoas que merecem nosso respeito, ou que tem sobre nós autorida-
de. Por exemplo, acabamos aceitando as idéias de grandes pensadores
como corretas porque em um grande número de vezes as afirmações
apresentadas por ele foram reais. Se ele afirma “X” é porque “X” deve
ser correto e nós inferimos a sua veracidade mesmo sem verificarmos
a correção do pensamento. Outro exemplo de inferência são as afir-
mações dos médicos sobre as nossas doenças, porque eles possuem
conhecimentos, ou autoridade para afirmarem certas coisas. Se um
médico foi competente para tratar de certa doença em um número
considerável de pessoas, nós inferimos que ele também será competen-
te para tratar da nossa doença.

“A violência por parte das massas não acabará nunca com o mal. A experiência mostrou até
hoje que o sucesso da violência durou pouco. Gerou maior violência. Até hoje só foram experi-
mentadas variações da violência e controles artificiais dependentes sobretudo da vontade dos
violentos. No momento crucial, naturalmente, esses controles não funcionaram. Parece-me,
portanto, que antes ou depois as massas européias deverão recorrer a não-violência se quiserem
conseguir a libertação.” (Mahatma Gandhi, 2007).

Percebam na citação de Gandhi um exemplo de pensamento


indutivo: percebemos que todas as vezes que se procurou acabar
com a violência através de meios violentos o resultado não foi satisfatório.
Portanto, a violência não acabará com o mal. E acabamos aceitando
uma outra solução apresentada por Gandhi, principalmente pela auto-
ridade que ele possui sobre nós, como adequada: a não-violência.

Analogia
A analogia se assemelha muito à indução, mas possui algumas
características distintas. É um conhecimento que ocorre também
através de semelhanças entre idéias ou fatos, mas que não geram
conclusões universais. As conclusões são singulares porque se referem
sempre a objetos particulares, os quais apresentam algumas caracte-
rísticas semelhantes com os fatos observados inicialmente.
Por exemplo: o carro de meu amigo, de determinada marca, difi-
cilmente estraga, por isso ele raramente precisa ir ao mecânico. Prova-
velmente se eu comprar um carro igual ao dele também não precisarei
ir ao mecânico com frequência. Ou ainda um outro exemplo: minha
irmã comeu fondue de queijo e gostou muito porque ela adora comi-
das feitas à base de queijo. Provavelmente se eu também experimentar
fondue, sendo que eu também gosto de alimentos com queijo, também
gostarei da receita. As conclusões, neste caso, são sempre particulares,
elas não formam juízos universais.

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Esta forma de conhecimentos não fornece certezas, apenas proba-
bilidades, assim como na indução. A ciência também se vale de analo-
gias para formular seus conhecimentos. Por exemplo, se determinado
remédio cura uma doença no ratinho de laboratório, induz-se analo-
gamente que ele também poderá curar esta doença no homem.

A Dialética
A lógica dialética é um método e uma filosofia surgida no século XIX
com Hegel. Esta lógica opõe-se à lógica aristotélica porque nega um
Georg Wilhelm de seus princípios fundamentais: o princípio de não-
Friedrich Hegel,
filósofo alemão -contradição. A palavra dialética, como já vimos, provém
(1770-1831). do grego e faz referência a idéia de enfrentamento entre
pensamentos opostos. É da mesma raiz grega que provém a palavra
diálogo, a qual também faz referência a uma conversa entre duas ou
mais pessoas. Ou seja, o processo dialético trabalha fundamentalmen-
te com contradições, com pensamentos que se transformam em seus
contrários.
A dialética hegeliana opera com concei-
tos de tese, antítese e síntese. A tese seria
uma afirmação sobre algo. É uma primeira
explicação sobre uma questão, ainda insu-

http://www.vhs.philosophie.de/7idealism.html
ficiente, pois não seria capaz de esgotá-la.
A antítese seria a negação da tese inicial, a
qual tornaria evidente os aspectos frágeis
do primeiro posicionamento. A antítese
também se torna insuficiente para apresen-
tar uma resposta adequada à questão. E a
síntese é uma terceira posição surgida da
superação das duas primeiras, a qual, com
o passar do tempo, se transformaria nova-
mente em uma tese. Desta forma, podemos “Todo o ser contém em si mesmo o germe
concluir que a dialética, enquanto método de sua ruína e, portanto, da sua superação”.
investigativo, jamais encontra uma verdade Para Hegel é através do movimento dialéti-
definitiva. Podemos tomar como exemplo a co que o pensamento e a própria História da
própria história da Filosofia, a qual, segun- humanidade progridem.
do Hegel, também se processaria através do
processo dialético. O racionalismo, posição defendida por Descartes,
poderia ser considerado uma tese filosófica. O empirismo de Locke
e Hume, a sua antítese, enquanto que o criticismo de Kant poderia
representar a síntese, ou a superação das duas posições anteriores,
visto que Kant tentou conciliar estas duas posições em sua Filosofia.

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Não confundir a dialética platônica com a dialética hegeliana. A platônica ocorria através
do enfrentamento de idéias opostas, as quais visavam à obtenção da verdade. A idéia
considerada falsa era descartada, enquanto a verdadeira era novamente subdividida em
opostos para uma nova análise. Quando se descobrisse um termo indivisível, após a veri-
ficação de qual das idéias opostas era a verdadeira, chegar-se-ia ao conceito, ou à própria
verdade. Era simplesmente um pensamento que dialogaria consigo mesmo, levando em
consideração os prós e os contras do próprio pensamento. A dialética hegeliana, por
outro lado, operava com os conceitos de tese, antítese e síntese. O pensamento progredia
através de contradições; estas reviravoltas no pensamento discursivo permitiriam que o
pensamento avançasse em suas conclusões.

Segundo Charbonneau, o pensamento dialético apresenta três


características fundamentais:

“a) A primeira tese é a mais pobre, portanto, a menos sólida. Ela se volta sobre si mesma e impede
o progresso do pensamento.
b) A síntese primeira jamais é definitiva porque não satisfaz o espírito. Tornando-se tese, ela
exige por sua vez uma nova antítese. O pensamento dialético se desenvolve então até o
infinito: não acaba nunca de se constituir. O espírito fica sempre insaciável.
c) O pensamento dialético é sempre um progresso. O pensamento dialético está absolutamente
seguro que caminha para um conhecimento mais amplo do seu objeto”.
(CHARBONNEAU, 2007)

A dialética difere muito da lógica clássica aristotélica, porque não


diz respeito somente ao processo de adequação ou inadequação dos
pensamentos em relação ao mundo. E muito menos com a simples
constatação das regras que governam o pensamento. Pelo contrário,
é uma forma de conceber a própria natureza, a qual é vista como mu-
dança constante. O movimento dialético ocorreria não só através do
processo discursivo da razão, mas também no mundo a nossa volta.
Por exemplo, uma semente não morre ao germinar e se tornar uma
planta, mas deve ser compreendido como um encadeamento de fatos.
A semente (tese) deixa de existir (antítese), mas não é destruída, ela
simplesmente se transforma em outra coisa superior (a planta). Assim
como todas as demais transformações a nossa volta.
Outro conceito importante para Hegel é o de totalidade. Todos os
processos individuais ocorrem dentro de um todo, o qual predomina
sempre sobre as partes. Nenhum processo do pensamento ou do mundo
existe isoladamente como simples átomos, tudo acontece dentro de
uma estrutura que os contém. Como no exemplo acima, a semente só
germina porque se encontra em um local que lhe propicia umidade,
luminosidade e os nutrientes necessários para isto. Com os processos
do pensamento ocorre o mesmo, eles apenas poderão ser considerados
verdadeiros ou falsos dentro de um contexto que os comporta.

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Observem abaixo as principais diferenças entre a Lógica Tradicio-
nal e a Lógica Dialética:

LÓGICA TRADICIONAL LÓGICA DIALÉTICA


1.º Aceita o princípio de identidade (o ser é 1.º A lógica de Hegel sustenta que a realida-
idêntico a si mesmo) e o de não-contradição de é a eterna mudança, a transformação de
(exclui o seu oposto). um elemento em seu oposto.
2.º Afirma que o conceito é universal, abs- 2.º Afirma que o conceito de todas as coisas
trato e imutável. Ele poderá ser apreendido particulares aparece em conexão com o
isoladamente. todo. Nada existe isoladamente.
3.º O objeto da filosofia, é o universal e o 3.º A lógica hegeliana faz caminhar lado a
imutável. O objeto da história é o particular lado a Filosofia e a História, visto que o ser
e o mutável. é um eterno vir-a-ser.
4.º A lógica tradicional distingue-se da 4.º A dialética e a ontologia não se distin-
ontologia (estudo sobre o ser). guem (ambas tentam apreender o desenvol-
vimento do Logos divino), ou seja, as duas
falam sobre as transformações do ser.

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