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NOSSA BúSSOlA

NOSSA BúSSOlA Ricardo Neves é consultor de empresas e escreve quinzenalmente em Época. www.ricardoneves. com.br

Ricardo Neves é consultor de empresas e escreve quinzenalmente em Época.

www.ricardoneves.

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rneves@edglobo.

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Ricardo Neves

A última lição de meu pai

N ãO PRORROgAR A VIDA VEgETATIVA

mundo globalizado podemos comparar nossa realidade com a de outros países, e isso nos faz perceber que certos rituais podem ser mudados. A tristeza da perda não é possível evitar. Mas obrigações desgastantes, como velório, enterro e manu- tenção de túmulos em cemi- térios abarrotados e inóspitos, isso dá para evitar. Além disso, porque é simplesmente mais

conveniente e mais barato. Finalmente, porque quase todos os cemitérios estão saturados. Viraram problemas ambientais urbanos. Poluem, esterilizam e deixam mais feias as áreas que poderiam ser transformadas em parques. Meu pai foi um inovador até em sua morte. Vi- timado por um câncer que o levou em pouco mais de dois meses, ele morreu em casa, neste princípio de março, contando com o suporte de uma uni- dade domiciliar de tratamento médico. Seguindo suas diretrizes, evitamos a desnecessária estadia em UTI. Negociamos com a equipe de médicos que o acompanhou em casa para que sua agonia e morte transcorressem da forma mais digna possível. Sem tubos, sondas e cortes. Sem forçar alimentação por meios invasivos ou transfusões de sangue, recursos que atendem mais ao desespero da família de manter a vida a qualquer preço, mesmo a contragosto da pessoa que agoniza.

Contando apenas com sedativos e oxigênio para possibilitar mais serenidade, meu pai foi embo- ra. Conseguiu a proeza de viver uma vida longa. Apesar de seus 76 anos, driblou os achaques da velhice. Foi embora sem passar por

UTIs, casas de recuperação ou asilos. Em sua hora final de lucidez, nos despedimos dele ao som da ave-maria cantada por minha mãe, que, apesar de toda a emoção, conseguiu fazê-lo sem perder o ritmo e a respiração. Obrigado, meu caro pai, por seu

por meio de paliativos e intervenções invasivas

e cruentas. Não realizar velório nem enterro.

Fazer uma cremação com aspersão das cinzas em um de seus locais favoritos. Essas foram algumas das re- comendações que ouvi de meu pai ao longo de vários anos depois que me tornei adulto, principalmente em alegres e descontraídos almoços familiares regados a bons vinhos em meio a barulhentos brindes.

Meu pai temia que a velhice representasse a nega- ção de sua vida ativa, cheia de lutas, plena de desa- fios, em sua maioria vencidos, e de realizações. Não era capaz de se ver confinado em seus últimos dias a um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Por isso recomendava a seus filhos com muita ênfase, mas de forma galhofeira, o que deveria ser feito. Em um almoço de domingo do mês de agosto do ano passado, antes de abrir um de seus vinhos

especiais, meu pai apresentou um documento a ser firmado e reconhecido em cartório. Esse documento formalizava seu desejo de ser cremado e que suas cinzas fossem atiradas ao vento pelos filhos no ponto mais alto da pedra da Praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. Sua nora, sua cunhada e uma sobrinha fo- ram convidadas por ele a assinar como testemunhas em meio aos protestos dos familiares, que alegavam

extemporaneidade do ato. Mas assim foi feito, e brindamos a uma vida longa para todos. No mundo todo cresce a prática da cremação. Na Alemanha e na Dinamarca, o número de cremações excede desde o ano 2000 o número de enterros. Na Austrália são cremados 50% dos

a

o número de enterros. Na Austrália são cremados 50% dos a O encontro com a morte

O encontro com a morte pode ser também uma parte positiva da

celebração da vida

mortos. Nos Estados Unidos, 26%, a maioria nas grandes cidades. No Japão, desde o século XIX a cremação é o cos- tume predominante, e hoje 99% dos mortos são cremados. Na Índia, a cre-

mação tem uma tradição forte. Já no Brasil, temos 1,2 milhão de mortos por ano, e apenas 3% são cremados. Mas

a tendência está crescendo por três

razões nos grandes centros urbanos. Em primeiro lugar, porque no

derradeiro exemplo. De que o inevitável encontro com a morte pode ser tam- bém uma parte positiva da celebração

da vida. Muitas saudades.

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