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ANTERO Det GIUEN: AL causas da decadéncia dos povos peninsulares nv Composigio e Impressio: Ligrate, Lda. — Lisboa Fs poeents ees ences TFA PROGRAMA DAS CONFERENCIAS DEMOCRATICAS Ninguém desconhece que se esta dando em volta de nés uma transformacio politica, © todos pressentem que se agita, mais forte que ‘nunca, a questio de saber como deve rege nerar-se a organizagSo social. Sob cada um dos partidos que lutam na Burapa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, ha uma id eum interesse que sto a causa e o porqué dos Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revolugdes, e antes que nés mes- ‘mos tomemos nelas 0 nosso lugar, estudar sserenamente a significagdo dessas ideias e a legitimidade desses interesses: investigar ‘como a sociedade ¢, como ela deve ser: ‘como as Nagdes tém sido, ¢ como as pode fazer hoje a liberdade; e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século, Nao pode viver ¢ desenvolver:se um povo, isolady das grandes preocupagdes intelec: tuais do sew tempo; 0 que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser 0 assunto das nossas constantes medita- oes. Abrir uma tribuna, onde tenham vor as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupandenos sobre: tudo com a transformagio social, moral ¢ politica dos povos; Ligar Portugal com © movimento, mo- derno, fazendoo assim nutrir-se dos elemen- tos vitais de que vive a humanidade civli ada; Procurar adquirir a conscigncia dos fac tos que nos rodeiam, na Europa; ‘gitar na opinigo piiblica as grandes ques. tes da Filosofia e da Ciéncia moderna; Estudar as condigdes da transformagio politica, econdmica e religiosa da sociedade portuguesa: Tal € 0 fim das Conferéncias democri- ticas. ‘Tem elas uma imensa vantagem, que nos ‘cumpre especialmente notar: preocupar a ‘opiniao com o estudo das Ideias que deve. presidir a uma revolusio, do modo que para cla a consciéncia piblica se prepare e ilu ¢ dar nfo s6 uma segura base & constitulgao Futura, mas também, em todas as ocasides, uma sélida garantia & ordem. Posto isto, pedimos 0 concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquclas pessoas que, ainda que nao partilhem fas nossas opinides, nio recusam a sua aten- ‘Glo aos que pretendem ter uma acco — em- hora minima — nos destinos do seu pats, expondo publica mas serenamente a8 suas conviegdes e 0 resultado dos scus estudos trabalhos, Lisboa, 16 de Maio de 1871 — Adolfo Coetho, Antero de Quental, Augusto Sorome nho, Augusto Fuschini, Ega de Queiroz, Germano Vieira de Meireles, Guilherme de Azevedo, Jaime Batalha Reis, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Salomao Saragga, Teofilo de Braga. PROTESTO Contra © Encerramento da Sala das Conterén- clas Democréticas Em nome da liberdade-de pensamento, da liberdade de palavra, da liberdade de reunido, bases de todo o diteito publico, inicas garan- tias da justiga social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a porta- ria que mandou arbitrariamente fechar a sala das conferéncias democraticas. Apelamos para a opinigo publica, para a consciénc liberal do pais, reservando-nos a plena liber- dade de respondermos a este acto de brutal violéncia como nos mandar a nossa conscién- cia de homens e de cidadios. Lisboa, 26 de Junho de 1871, — Antero de Quental, Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis, Salomio Saragga, Esa de Queiror. CAUSAS DA DECADENCIA DOS POVOS PENINSULARES NOS OLTIMOS TRES ‘SECULOS Discurso pronunciado na noite de 27 de Maio ‘de 1871, na sala do Casino Lisbonense Meus Senhores' ‘A docadéncia dos povos da Peninsula nos és tiltimos séculos é um dos factos mais incontestaveis, mais evidentes da nossa histé- ria: pode até dizer-se que essa decadéncia, ‘seguindo-se quate sem transigio a um periodo de forga gloriosa e de rica originalidade, & fo tinico grande facto evidente e incontestavel que nessa hist6ria aparece aos olhos do his- toriador filésofo. Como peninsular, sinto pro- fundamente ter de afirmar, numa assemblei de peninsulares, esta desalentadora eviden- cia. Mas, se no reconhecermos confessar- ‘mos francamente os nossos erres passados, como poderemos aspirar a uma emenda sin. cera e definitiva? O pecador humilhase diante do seu Deus, num sentido acto de con triglo, © $6 assim € perdoado. Fagamos nos também, diante do espirito de verdade, v acto de contrigho pelos nossos pecados histéricos, Porque s6 assim nos poderemos emendar ¢ regenerar ‘Conhego quanto ¢ delicado este assunto, fe sei que por isso dobrados deveres se im poem & minha eritica. Para wna assembleia de estrangeiros no passara esta duma tese hhistorica, curiosa sim para as inteligéncias, mas [ria e indiferente para os sentimentos pessoais de cada um, Num auditério de, pe- ninsulares, no & porém assim. A histéria dos ltimos trés séculos perpetuase ainda hhoje entre nds em opinives, em crengas, em Interesses, em tradigdes, que a representam nna nossa sociedade, e a tornam de algum modo actual. Ha em nés todos uma vor Intima que protesta em favor do. passado, quando alguém 0 ataca: a razio pode con. dené-lo: 0 coragio tenta ainda absolvélo, E que nada ha no homem mais delicado, ‘mais melindroso do que as ilusées: ¢ sio as nnossas ilusées 0 que a razio critica, dis cutindo 0 passado, ofende sobretudo em nés. Nao posso pois apelar para a fraternidade das ideias: conheco que as minhas palavras rn devem ser bem aceites por todos. As ideias, porém, nlo sio felizmente o tinico lago com que se ligam entre si os espiritos dos hhomens. Independentemente delas, sendo cima delas, existe para todas as conscincias rectas, sinceras, leais, no meio da maior di vergéncia de opiniges, uma fraternidade mo- ral, fundada na mitua tolerncia e no matuo respeito, que une todos os espiritos numa mesma comunhio — 0 amor ¢ a procura desinteressada da verdade. Que seria dos hhomens se, acima dos impetos da paixio ¢ dos desvarios da inteligéncia, nao existisse ssa regio serena da concérdia na boa fé e na tolerincia recfproca! Uma regio onde os pensamentos mais hostis se podem encon- trar, estendendo-se lealmente a mio, ¢ zendo uns para os outros com um sentimento hhumano e pacifico: és uma consciéncia con- vvietal ® para essa comunhio moral que ett apelo. E apelo para ela confiadamemte, por- que sentindeme dominado por esse senti- mento de respeito e caridade universal, no posso crer que haja aqui alguém que duvide dda minha boa-fé,e se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade ¢ tolerdncia Ji o disse ha dias, inaugurando © expli- cando o pensamento destas Conferéncias: no pretendemos impor as nossas opinides, mas simplesmente expd-las: nfo pedimos a adesio das pessoas que nos escutam; pedimos $6 a discussdo: essa discussdo longe de nos assus- tar, € 0 que mais desejamos; porque ainda {Mian cantante que essa condenagio Tosse fasta’ cineligente, fcariamos contents, ten contribu, posta que iniretannente fara a publicagio de algumas verdades, S40 rota da ainceriade. deste deseo aqucles Taares ¢ aguelas mesas, destinadas. pati Calarmente aos, joralistas, aonde podem Tomar nota das_nosas palaers, torando thes nds assim franca fail a contradigio Neus senbores: Peninsula, durante os séculos XVI, XVIIL © XIX, aprsentanos tim quadro de abatimento e insigifcinea tame mats sensivel quanto contrasta dole Tonamente com a grander, a Importineia © fy ovlgnalidade do papel que desempenh thon no primelro peviodo da Renascena, du fame toda a dade Meda, ainda n05 alti snow selon da Antiuidade. Logo na epoca Tomana aparecem ob caractores essenia droge peninsular: espirto de Independén tia local orginalidade do génio inventive fm parte alguma custo tanto dd roman @ enabelecerse, nem chepou nunca Wace comple ease eatabelclinento. Essa personalidade independente mostrase clara Mrcnte na, literatura, aonde os espanhéis Tucano, Seneca, Marcial, introduzem no Tati um estilo e uma fei Intcramente insures, esigularmente crac Eram os pronincios da viva orignalidade ue Ta aparecer nas épocas seguines. Na Idade Média a Peninsula, livre de estranhas influéncias, brilha na plenitude do seu génio, slas sttas qualidades naturais. O instinto poll. tico de descentralizagio e federalismo paten- teiasse na multiplicidade de reinos ¢ condados soberanos, em que se divide a Peninsula, como lum protesto © uma vitéria dos interesses energias locals, contra a unidade uniforme, esmagadora e artificial. Dentro de cada uma dessas divisoes, as comunas, os forais, locali- zam ainda mais os direitos, ¢ manifestam ¢ firmam com um sem nimero de instituigoes, © espirito independente © autonémico das populagoes. E esse espirito no € s6 indepen- dente: é, quanto a época o comportava, sin- gularmente democritico. Entre todos os po- vos da Europa Central ¢ Ocidental, somente fs da Peninsula escaparam ao jugo de ferro do feudalismo, O espectro torvo do castelo Feudal ndo assombrava os nossos vales, niio se inclinava, como uma ameaca, sobre a mar: gem dos nossos rios, ndo entristecia os nossos horizontes com o seu perfil duro e sinistro. Existia, certamente, a nobreza, como uma fordem distinta. Mas 0 foro nobilirio gene- ralizara-se tanto, e tornarase de tio Fécil acess, naqueles séculos herdicos de guerra incessante, que no ¢ exagerada a expressio daquele poeta que nos chamou, a nés Espa. nhéis, um povo de nobres. Nobres © popu lares uniam-se por interesses ¢ sentiments, e diante deles a coroa dos reis era mais um simbolo brithante do que uma realidade poderosa. Se nessas idades ignorantes a ideia do Dircito era obscura e mal definida, o ins tinto do Direito agitava-se enérgico nas cons: cigncias, e as acces surgiam viris como os ccaracteres. ‘Atais homens nao convinha mais o despo- tismo religioso do que o despotismo politico: opressio espiritual repugnavathes tanto como a sujeicio civil. Os povos peninsslares sio naturalmente religiosos: so-no até duma maneira ardente, exaltada ¢ exclusiva, € esse tum dos seus caracteres mais pronunciados. Mas sio ao mesmo tempo inventivos ¢ inde- peridentes: adoram com paixéo: mas s6 ado- ram aquilo que cles mesmo eriam, nao aquilo ‘que se hes impie. Fazem a religido, aceitam feita, Ainda hoje duas tergas partes da populagao espanhola ignora completa. mente os dogmas, a tcologia © os mistérios cristos: mas adora fielmente os santos padroeiros das suas eidades. Porqué? Porque 08 conhece, porque os fez. 0 nosso génio € criador e individualista: precisa rever-se nas suas eriagées, Isto (junto a falta de coestio do maquinismo catélico da dade Média, ainda mal difinido © pouco disciplinado pela nexoravel escola de Roma) explica suficien: temente a independéncia das igrejas penin- sulares, ea atitude altiva das coroas da Penin- sula diante da ciiria romana. Os papas eram 46 muito: mas os bispos e as cortes eram ainda bastante. Para as pretensées italianas hhavia um ndo muito franco e muito firme. E essa resistencia néo safa apenas da vontade ¢ do interesse de alguns: saia do impulso incontrastavel do génio popular. Esse géni criador viase no aparecimento de rituai indigenas, numa singular liberdade de pensa- mento e interpretacéo, ¢ em mil originali dades de disciplina. Era o sentimento cristio, nna sua expressio viva e humana, nao formal ininteligente: a caridade e a toleréncia tinham um lugar mais alto do que a teologia dogmatica. Essa tolerdncia pelos mouros © judeus, racas infelizes e to meritérias, sera Sempre uma das glérias do sentimento cris tio da Peninsula da Idade Média, A caridade twiunfava das repugndneias e preconeeitos de raga e de erenga. Por isso 0 seio do povo era fecundo; salam dele santos, individualidades & uma ingénuas e sublimes, simbolos vivos da alma popular, e cujas singelas histérias ainda hoje nao podemos ler sem enterneci- No mundo da inteligéncia ndo & menos notivel a expansio do espirito peninsular durante a Idade Média, O grande movimento intelectual da Europa Medieval compreende a filosofia escolistica ¢ a teologia, as eriagées nacionais dos ciclos épicos, e a arquitectura, Em nada disto se mostrou a Peninsula infe- ior as grandes nagoes cultas, que haviam reeebido a heranca da civilizagéo romana Demos a escola filésofos como Raimundo LLillio; & Tereja, tedlogos € papas, um destes portugués, Jodo XXI. As escolas de Coimbra € Salamanca tinham uma celebridade euro peia: nas suas aulas viam-se estrangeiros de Uistingdo, atraidos pela fama dos seus douto: res. Entre os primeiros homens do século XIE esti um monarea espankol, Aforso © Sabio, espitito universal, fildsofo, politico © legislador. Nem posso também deixar esque cidos os mouros e judeus, porque foram uma das glorias da Peninsula. A reforma da esco listiea, nos séculos XIII e XIV, pela renova- gio do aristotelismo, foi obra quase exclusiva das escolas arabes ¢ judaicas de Esraaha. Os noes de Averris (de Cérdova), ds Thr. "Tophail (de Sevilha), ¢ os dos judeus Mai: ndnides © Avicebron serio sempre contados tenire os primeiros na historia da filosofia na Idade Média. Ao pé da filosofia, a poesia Para opor aos ciclos épicos da Tivola Re- donda, de Carlos Magno e do Santo Graal tivemos aquele admiravel Romancero, a8 len- das do Cid, dos Infantes de Lara, ¢ tantas 0% tras, que se teriam condensado em verdadet ras epopeias, se 0 espirito clissico da Renas- ‘cenga no tivesse vindo dar A Poesia uma Outra direcgio, Ainda assim, grande parte, @ melhor parte talvez, do teatro espanhol Sniu da mina inesgotével do Romancero. Para opor aos travadores provencais, tivemos também trovadores peninsulares. Dos nossos cee vels¢cavarostrovasam alguns com tanto Prinor como Beliao de Bor ou o conde de Tolos, Quanto argutectura, basta lembrara Batatha ea catedral de Burgos, das das mais betas rosas qiticas desabrochadas no elo dh Tdade Média Em tudo Isto compan ‘anos Eurepa, apa do movinento gra Nua coon, 9 sxecomes, oman jos nkciadores os estos guages © 5 grandes navegasoes. As desoberias, ue Coroaram to brithantementeo fim do século XV. nao se fiseram ao aco, Precedeas um ‘cabana, Go ckntio quanto poca © permit, Inaugurado plo nosso infant D. Henrique, nesan famosa escola de Sagres, de onde saiam homens como aqule herleo Bartolome Dias, e cua infagnca directa ou indirectamente, produzia um Magalies ¢ win Colombo. Fol uma ond, ae levatala aqu, crescea até ie rebentar nas praias do Novo Mundo, Vise de quanto i ape nlp ea een penis or isso a Europa tia os aos em nos, © na Europa nossa influcia nacional era das que mats pesvam,Contavase pra tudo com Portugal e Espanta. © Santo Imperio alemto oferece a orglhosa coro imperial a tm re de Castel, Afonso Sabo, No seulo XV, D. Joio I, drbltro em virias-questes intemacionas & geralmente considera, em Inflancia e capsidade, como um dos pr meros monareas da Europa, Tudo isto nos mos, chegada a prepara para_desempenks Renascenca, um papel glories © preponde- ante, Desempenhimo-lo, com efeito, bri: Thante e ruidaso: os nossos ervos, porém, nao consentiram que fosse também duradouro © profiquo, Come foi que 6 movimento regene: fador da Renascenga, tio bem preparado. abortou entre nds, mostréloci logo com factos decisivos. Esse movimento s0 foi entre nds representado por uma geragio de homens superiores, a primeira, As seguintes, que 0 deviam consolidar, fanatizadas, entorpecidas, impotentes, no souberam compreender nem praticar aqucle espirito Uo alto e tao livre: Gesconheceram-no, ow combateramno. Hou ve, porém, uma primeira geraglo, que res pondeu ao chamamento da Renascenga; ¢ fenquanto essa geragdo ocupou a cena, isto é ‘até.ao meado do século XVI, a Peninsula con: servourse & altura daquela época extraordiné ria de criaglo © liberdade de pensamento. A renovagio dos estudos, recebewa nas stias tuniversidades novas ou reformadas, onde se explicavam os grandes _monumentos litera rios da Antiguidade, muitas vezes na prop lingua dos originais, Entre as 43 univers dades estabelecidas na Furopa durante 0 século XVI, 14 foram fundadas pelos reis de Espanha, A filosofia neo-platénica, que subs- tituta por toda a parte a velha e gasta escolés. tica, foi adoptada pelos espiritos mais emi- nentes, Um estilo ¢ uma literatura nova sur- iu com Canoes, com Cervantes, com Gil Vicente, com Si de Miranda, com Lope de Vega, com Ferreira. Demos is escolas da Eurapa sibios como Miguel Servet, precur- sor de Harvey, filésofos como Sepalveda, um dos primeiros peripatéticos do tempo, & 0 portugués Sanches, mestre de Montaigne. A familia dos humanistas, verdadeiramente caracteristica da Renascenga, foi represen: tada entre nés por André de Resende, por Diogo de Teive, pelo bispo de Terragona, Antonio Augustin, por Damiao de Geis, e por Camoes, cuja inspiragio nao exctufa uma cerudigao quase universal. Finalmente, @ arte peninsular ergue nessa época um voo pode. oso, com a arquitectura chamada manuelina, criagdo duma originalidade e graga surpre- cendentes, ¢ com a brilhante escola de pintura espanhola, imortalizada por artistas como Murillo, Velasquez, Ribera. Fora da Patria guerreiros ilustres mostravam ao mundo que © valor dos povos peninsulares nio era infe. Flor & sua inteligéncia, Se as causas da nossa decadéncia existiam jé latentes, nenhum olhar podia ainda entdo descobrilas: a gléria, e uma sléria merecida, s6 dava lugar & admiragéo. Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansio, passamos ‘quase sem transi¢ao para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhe- ido. Dirse- que entre um e outro se mete- am dez séculos de decadéncia: pois bastaram para essa total transformagio de 50 ou 60 anos! Em tio curto perfodo era imposstvel caminhar mais rapidamente no caminho da perdigho, No principio do século XVIT, quando Por tugal deixa de ser contado entre as nage se desmorona por todos os lados a monar” quia anémala inconsistente ¢ desnatural de Filipe 11; quando a gloria passada jé nfo pode encobrir 0 ruinaso do edificio presente, se afunda a Peninsula sob o peso dos mu tos erros acumulados, entio aparece franca patente por todos os lados a nossa improcras- tinavel decadéncia. Aparece em tudo; na poli- tica, na influéncia, nos trabalhos da inteligén cia, na economia social e na indastria, ¢ como consequéncia de tudo isto, nos costumes. [A preponderdncia, que até entio exercéramos nos negécios da Europa, desaparece para dar lugar & insignificimeia e & impoténéia. Nagdes nnovas ou obscuras erguem-se, € conquistam no mundo, & nossa custa, a influéncia de que nos mostrdmos indignos. A corea de Espanha € posta em leilio sangrento no meio das nagaes, © adjudicada, no fim de doze anos de guerra, a um neto de Lufs XIV. Com a dinas- tia estrangeira comeca uma politica antina- cional, que envilece € desacredita a monar- quia. E esse rei estrangeiro custa & Espanha a perda de Napoles, da Sicilia, do Milants, ddos Paises Baixos! Em Portugal, ¢ a influén- cia inglesa, que. por meio de cavilosos tra tados, faz de nis uma espécie de colénia britanica. Ao mesmo tempo as nossas pré: prias colsnias escapam-nos gradualmente das ‘aos: as Molucas passam a ser holandesas; nna India Iutam sobre os nossos despojos hholandeses, ingleses e franceses; na China € no Japao desaparece a influéncia do nome portugués. Portugueses © Espanhdis vamos de século para século minguando em exten: ‘sfo ¢ importincia, até no sermos mais que duas sombras, duas nagdes espectros, no meio dos povos que nos rodeiam!... e que istissimo quadro o da nossa politica inte rior! As liberdades municipais, & iniciativa local das comunas, aos forais, que davam a cada populagio uma fisionomia © vida pré: prias, sucede a centralizagio uniforme e este- rillaadora, A realeza, deixa entio de encon tar uma resisiéneia ¢ uma forga exterior que 1 equilibre, e transforma-se no puro absolu tismo; esquecendo a sua origem a sua mis. so, cté ingenuamente que 0s povos nio sie mais do que o patriménio providencial dos reis. O pior & que os povos acostumam-se a erélo também! Aquele espirito de indepen- déncia, que inspirava o firme sino, no! da Idade Média, adormece e morre no seio popu: lar. 0 povo emudece; negam-the a palavra, Fechandosthe as Cortes; nio o consultam, nem se conta jd com ele. Com quem se conta & com a aristocracia palaciana, com uma nobreza cortesa, que cada vez se separa mais do povo pelos interesses e pelos sentimentos, fe que, de classe, tende a tranformar-se em ‘asta, Essa aristocracia, como um embaraco na circulagio do corpo social, impede a ele vacio natural de um elemento novo, elemento cessencialmente moderno, a classe média, e contraria assim todos os progressos ligados ‘aessa elevagio. Por isso decai também a vida econémica: a produgdo decresce, a agricul tura recua, estagnase 0 comércio, desapa- recem uma por uma as indistrias nacionais; a riqueza, uma riqueza faustosa ¢ estéril, cconcentra-se em alguns pontos excepcionais, fenquanto a miséria se alarga pelo resto do pais: a populagio, dizimada pela guerra, pela emigracio, pela miséria, diminui duma ma- neira assustadora. Nunca povo algum absor veu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo to pobre! No meio dessa pobreza e dessa atonia, o espirito nacional desanimado e sem estimulos, devia cair naturalmente num estado de torpor e de indiferenca. E 0 que nos mostra claramente este salto mortal dado pela inteligéncia dos povos peninsulares, pas: sando da Renascenca para os séculos XVII © XVIII. A uma geragio de filésofos, de sabios de artistas criadores sucede a tribo vulgar dos eruditos sem eritica, dos académicos, dos imitadores. Saimos de uma sociedade de ho- ‘mens vivos, movendo-se ao ar livre: entré ‘mos num recinto acanhado e quase sepulcral, ‘com uma atmosfera turva pelo pé dos livros | | | | | | ‘ethos, ¢ habitado por espectros de dow 1 poesia, depois da exaltagso estéril « arlficialmente provoeada do gongori depois da afectagao dos conceitos (que ainda mais revclava a nulidade do pensamento), ca na imitagio servil ¢ ‘ninteigente da pocsia latina, naquela escola cldssia, pesada fra desea, que ¢ a antitese de toda a inspiracio ¢ de todo 0 sentimento, Um poema compsese dostoralmente, como uma disscragio tls ica. Traduzir ¢o ideal: inventar,considerase tum perigo ¢ ima inferioridade: uma obra podtica € tanto mais perfeita quanto, maior nnimero de versos contiver {raduzidos de Horécio, de Ovidio. Florescem a tragédia, a ode pindarica,e 0 poema herdicmico, isto é @ afectagao ¢ a degradacio da poesia. Quanto A verdade humans, a0 sentimento popular € nacional, ningucm se preacupaya com sso. ‘A invengao © originalidade, nessa, época deploravel, concentra-se toda’ na. descrigio cinicamente galhofeira das misérias, das intrigas, dos expedientes da vida ordinéria. 0s romances picarescos espanhdis, eas come. dias populares portuguesa, si0 08 irvefuté vis actos de acusagdo, que, contra si mesma, nos deixou essa sociedade, cuja profunda esmoralizacéo tocava os limites ‘da inge- hnuidade e da inocéncia no vicio. Fora desta realidade pungente, a literatura oficial e pala- ciana, espraiava-se pelas regidesinsipidas do discurso académico, da oragdo finebre, do anegiico encomendado — géneros art Fine, pueris, e mais que todo soporificos Com um tal estado dos expritos, © que s© potia experar da are? Basta ergucr os olhos Tra esas higubres moles de peda, que s© hamam o Eseurial e Mafra, para vermos que Sheena austncia de sentimento inven, {ue produrly 0 gosto pesado insipido do Sfncstcomo,erguew também as massa com- pcan iment covets nf de presto, da arquitectura Jesutica, frnte contaste enice esses montanhas de tntrmore, com ue se ulgou atingiro grande, SSmplesmente porque se fez 0 monstruoso, Seonstrugodeleada, aes, proporcional €, por assim dizer, esplritual dos Jerénimos, Ga" Batalha, da ctedral de Burgos! O esp tito sombrio edepravado da sociedade reflec tuto a Arte, com wna fidelidade desespera dora que ser sempre petante a historia uma shcorruptve testemuinha de scus3580 contra ucla epoca de verdadeira morte moral. Essa tmorte moral néoinvadira 360 sentiment, 9 Imaginagto, © gosto: invadira tambem, inva dim sobretudo a intligincia. Nos ultimos dos séculos no produia a peninsula um nie homem superior, qe se possa pOr a0 Tado dos grandes criadores da cgncia moder tata stfa da Peninsula uma 36 das grandes descoberas intelectual, que fo maior obra tcamalor hon do epi oderne, Durante Senanos de fesundaeaborago, reforma a Europa culta as cigncias antigas, eria seis ou sete ciéncias novas, a anatomia, a fisiolo quimica, a mecénica celeste, 0 cileulo dife- rencial, a critica histérica, a geologia: apare- cem os Newton, os Descartes, os Bacon, os Leibnitz, os Harvey, os Buffon, os Ducange, os Lavoisier, os Vico — onde esti, entre os nomes destes e dos outros verdadeiros hersis dda epopeia do pensamento, um nome espa- nhol ou portugués? Que nome espanhol ou portugues se liga A descoberta duma grande lei cientifica, dum sistema, dum facto capital? A Europa culta engrandeceu-se, nobilitow-se, subiu sobretudo pela ciéncia: foi sobretudo pela falta de ciéncia que nés descemos, qué nos degradmos, que nos anuldmos. A alma, moderna morrera dentro em nés completa: ‘mente, Pelo caminho da ignorancia, da opressio e da miséria chega-se naturalmente, chega'se fatalmente, & depravagio dos costumes. E os costumes depravaram-se com efeito. Nos grandes, a corrupsdo faustosa da vida da corte, onde os reis so os primeiros a dar 0 exemplo do vicio, da brutalidade, do adulté- rio: Afonso VI, JoBo V, Filipe V, Carlos IV. Nos pequenos, a corrupsio hipécrita, famflia vendida pela miséria aos vicios dos nobres ¢ dos poderosos. & a época das amé- sias e dos filhos bastardos. © que era entio a mulher do povo, em face das tentagées do ouro aristocratico, vé-se bem no escandaloso 2 processo de nulidade do matriménto de Ifonso Vi, © nas memérias do Cavaleiro de Olivia Ser afin € win fico geralmente admit, © que so pratca com aproveta mento na propria tore. A rligito debra de Ser um seatimento vivo; torn ma ratca inintligent, formal, mecinica, O que ram os trades sabemeto todos: os costumes ca Fescon€ igndels desea classe sfo anda hole mmemorados. pelo Decameron da tradigdo Popular, © por € que estes histries tons Palos cram ao mesma tempo. sanguin I Inuisigdo pesava sobre ax conscioncias omo' a abubada, dum ‘cirere, O explo Pablicoabalnavase gradualmente sob apres Soo do terror, enguarto o veo, ada ver mals requiniado, se apossavaplacidamente do Ingar varo que desava nas almas 4 dade, o sentimento morale a energia da vor tade’ pessoal esmagados, destruldos pelo Imedo. Os casustas dos salon XVIT e XVIIT dinaramnos. um vergonkowo monunento de requinte bestia! de todos 08 wcos, da depravacio. das imaginagoes, das. miséras Tntimas da fal, da perdigio de costumes, aque eovria aquslas sociedades deploraves Tato por um lado! porgue, pelo oulro, ot casuiStas mostram-noe também a que abal amento moral chegara 0 expirto do ler, Cavan todos 08 dias ese loo, revolvendo fom afinco, com predilecgao, quase com mor, aquele montzo gravelente de abjec ues, Todas essay miscérias intimas_ reflec emse fielmente na literatura. O que era no século XVI a moral publica, as intrigas pol tieas, © ntpotismo cortesio, © roubo audaz ‘ou subrepticio da riqueza piblica, vé-se (© com todo o relevo duma pena sarcéstica joxorivel) na Arte de Furtar, do. padre Antonio Vieira. Quanto aos documentos para 4 historia da familia ¢ dos costumes priva- dos, encontramolos na Carta de Guia de Casados, de D. Francisco Manucl, nas Farsas Populares portuguesas, © nos romances pica rescos espanhéis. O espirito peninsular des. cera de degrau em degrau, até ao tltimo termo da depravagao! Tais temos sido nos altimos trés séculos: sem vida, sem liberdade, sem riqueza, sem cia, sem invencio, sem costumes, Ergue- monos hoje a custo, espanhis e portugueses. desse tiimulo onde os nossos grandes erros nos tiveram sepultados: erguemonos, mas 9s restos da mortalha ainda nos embaragam-os ppassos, e pela palidez dos nossos rostos pode bem ver o mundo de que regides ligubres ‘© mortais chegamos ressuscitados! Quais as causas dessa decadéncia, t8o visivel, t30 ur versal, e geralmente tio pouco explicada? Examinemos os fenémenos, que se deram na Peninsula durante o decurso do século XVI, periodo de transicao entre a Idade Média e os tempos modernos, ¢ em que aparecem os gérmens, bons e maus, que mais tarde, desen- volvendosse nas sociedades modernas, deram cada qual o seu verdadeiro caricter. Se esses fenémenos forem novos, universais, se abran- gerem todas as esferas da actividade nacio- nal, desde a religigo até indiistria ligando se assim Intimamente ao que hi de mais vital ros povos — estarei autorizado a empregar 0 argumento (neste caso, rigorosamente logico) ppost hoc, ergo propter hoc, e a concluir que nesses novos fenémenos que se deve bus- car e encontrar as causas da decadéncia da Peninsula, Ora esses fendmenos capitais do trés, © de tres espécies: um moral, outro politico, ‘outro econémico. O primeiro é a transfor magio do catolicismo, pelo coneilio de Trento. 0 segundo, o estabelecimento do absolutismno, pela ruina das liberdades locais, © terceiro, © desenvolvimento das conguistas longin: ‘quas, Estes fenémenos assim agrupados, com: preendendo os tris grandes aspectos da vida social, © pensamento, a politica c o trabalho, Indicam-nos claramente que uma profunda universal revolugo se operou, durante o século XVI, nas sociedades peninsulares. Essa revolugdo foi funesta, funestissima. Se fosse necessiria uma contraprova, bastava consi- derarmos um facto contemporineo muito simples: esses trés fenémenos eram exacta- mente 0 oposto dos trés factos capitais, que sse davam nas nagdes que Ia fora cresciam, se ‘moralizavam, se faziam inteligentes, poderosas, € tomavam a dianteira da civil rac. Aqueles trés Factos civilizadores foram 4 liberdade nioral, conquistada pela Reforma ou pela filosofia: a clevagio da classe média, instrument do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou: a industria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que velo dar as mages uma concepsdo nova do Direito, substituindo o trabalho & forca, ¢ © ‘comércio guerra de conquista. Ora, a liber dade moral, apelando para o exame ¢ a cons. cigncia individual, é rigorosamente 0 oposto do catolicismo do Concilio de Trento, para ‘quem a razio humana e o pensamento livre so um crime contra Deus: a classe media, impondo aos reis os seus interesses, e muitas veres 0 seu espirito, & 0 oposto do absolu- tismo, esteado na aristocracia e s6 em pro- veito ‘dela governando: a industria, final mente, € 0 oposto do espirito de conquista, antipitico ao trabalho e ao comér Assim, enquanto as outras nagdes subiam, 1nés baixivamos. Subiam elas pelas virtudes ‘modernas; nds desciamos pelos vicios antigos, concentrados, levados ao sumo grau de desen- volvimento e aplicagio, Baixavamos pela in- dustria, pela politica. Baixévamos, sobretudo, pela religiso, Da decadéncia moral é esta a causa culmi- ante! O catolicismo do Concilio de Trento ‘nao inaugurou cértamente no mundo des- potismo religioso: mas organizouo de uma ‘maneira completa, poderosa, formidivel, © até entao desconhecida, Neste sentido, pode dizer-se que 0 catolicismo, na sua forma defi nitiva, imobilizado ¢ intolerante, data do séeulo XVI, As tendéncias, porém, para esse estado vinham j4 de longe; nem a Reforma significa outra coisa seno o protesto do sen: timento evistao, livre e independente, contra essas tendéncias autoritérias © formalisticas. Essas tendéncias eram logicas, © até certo onto legitimas, dada a interpretagio ¢ orga- nizago romana da religido cristi: nfo o eran porém, dado 0 sentimento cristio na sua pureza virginal, fora das condigSes precétrias a sua realizacio politica e mundana, 0 sen- timento cristo, numa palavra, no seu domt- rio natural, a consciéncia religiosa. F neces sfirio, com efeito, estabelecermos cuidadoss- ‘mente uma rigorosa distingdo entra cristia rnismo e catolicismo, sem 0 que nada com. preenderemos das evolugdes historias da religido cristi, Se nao ha cristianismo fora do ‘grémio catélico (como asseveram os tedlogos, ‘mas como nio pode nem quer aceitar a razio, ‘a equidade e a critica), nesse caso teremos de recusar 0 titulo de cristdos aos luteranos, ea todas as scitas safdas do movimento protes- tante, em quem todavia vive bem claramente © espirito evangélico, Digo mais, teremos de negar o nome de cristéos aos apdstolos e evan- gelistas, porque nessa época o catolicismo cestava tio Tonge do futuro, que nem ainda a palavra catélico fora inventada! E que real- ‘mente 0 cristianismo existiu e pode existir fora do catolicismo. 0 cristianismo é sobre- tudo um sentimento: 0 catolicismo é sobre- tudo uma instiruigdo, Um vive da fé e da ins piragio: 0 outro do dogma e da disciplina. Toda a historia religiosa, até ao meado do século XVI, no é mais do que a tranforma- ‘Gao do sentimento eristao na instituigao caté- Tica, A Tdade Média € o periodo da transigao: hha ainda um, e 0 outro aparece jé. Equili- bramse. A unidade vé-se, far-se sentir, mas nao chega ainda a sufocar a vida local e autonémica. Por isso é também esse 0 periodo das igrejas nacionais. As da Pennsula, como todas as outras, tiveram, durante a Idade ‘Média, liberdades e iniciativa, coneilios nacio- nais, disciplina prépria, e uma mancira sua de sentir e praticar a religiio. Daqui, dois grandes resultados, fecundos em consequén- cias benéficas. O dogma, em vez de ser im: ‘posto, era aceite, e, num certo sentido, eriado: fora, quando a base da moral é o dogma, s6 pode haver boa moral deduzindoa de um dogma aceite, ¢ até certo ponto criado, e hnunca imposto. Primeira consequéncia, de incaleulivel alcance, O sentimento do dever, fem vez de ser contradito pela religiio, api vase nela. Daqui a forga dos caracteres, a ele- vagio dos costumes. Em segundo lugar, essas Igrejas nacionais, por isso mesmo que eram independentes, nao precisavam oprimir. Eram tolerantes, \ sombra delas, muito na sombra & verdade, mas tolerades em todo 0 caso, vivian Judeus © Mouros, racas Inteligentes, industriosas, a quem a indistria © © pense mento peninsulaves tanto deveram, © cuja expulso tem quase as proporgdes duma cala midade nacional. Segunda consequéncia, de rio menor aleance do que a primeira. Se a Peninsula no era ent&o tho catdlica como 0 foi depois, quando queimava os judeus © recebia do Geral dos Jesuftas 0 santo ¢ a senha da sua politica, era seguramente muito mais crista, isto , mais caridosa e moral, como estes factos 0 provam. Rasga-se, porém, 0 século XVI, tio prod sioso de revelagdes, ¢ com ele aparece no ‘mundo a Reforma, seguida por quase todos os povos de raga germinica. Esta situagao cria para os povos latinos, que se conservavam ligados a Roma, uma necessidade instante, que era ao mesmo tempo um grande pro- blema, Tornava.se necessario responder aos ‘ataques dos protestantes, mostrar ao mundo {que 0 espirito religioso nao morrera no sei¢ das racas latinas, que debaixo da corrupcic romana havia alma e vontade. Um grito uni hime de reforma saiu do meio dos represen tantes da ortodoxia, opondose a0 desafio ‘que, com a mesma palavra haviam langadc ‘20 mundo catélico Lutero, Zwingle, OEco lampado, Melanchthon e Calvino. Reis, povos | | | sacerdotes clamavam todos reforma! Mas aqui aparecia 0 problema: que espécie de reforma? A opiniio dos bispos e, em geral, das populagdes catélicas pronunciavam-se no sentido duma reforma liberal, em harmonia com 0 espirito da época, chegando muitos até a desejar uma conciliagio com os protes- tantes: era a opinigo episcopal representante ddas igrejas nacionais. Em Roma, porém, a solugio, que se dava a0 problema, tinha um bbem diferente cardcter. 0 édio ¢ a célera dominavam os coragbes dos sucessores dos apéstolos. Repelia-se com horror a ideia de conciliaco, da mais pequena concessio. Pen savase que era necessério fortificar a otto- doxia, concentrando todas as forgas, nando e centralizando; empedernir Tere} para a tornar inabalével. Era a opiniio absolutista, representante do papado. Esta opiniéo (para no dizer este partido) triun- fou, e foi esse triunfo uma verdadeira calami- dade para as nagdes catélicas. Nem era isso ‘0 que elas desejavam, e 0 que pediram e sus. tentaram os seus bispos, lutando indefesos durante 16 anos contra a maioria esmaga- dora das criaturas de Roma! Pediam uma verdadeira reforma, sincera, liberal, em har- ‘monia com as exigéncias da época. O pro- grama formulavase em tés grandes capl- tulos fundamentals. 1° — Independéncia dos 3pos, autonomia das igrejas nacionais, inau- guragio dum parlamentarismo eligioso pela convocagio amiudada dos concilios, esses estados gerais do cristianismo, superiores ao Papa e atbitros supremos do mundo espiri tual, 2" — O casamento para os padres, isto 6,a seculatizagio progressiva do clero, a volla as leis da humanidade duma classe votada durante quase mil anos a um duro ascetismo, entao talver necessério, mas j4 no século XVI absurdo, perigoso, desmoralizador. 3° — Restrigies A pluralidade dos beneficios ecle sldsticos, abuso odioso, tendente a introdu- zir na Tgreja um verdadeiro feudalismo com todo 0 seu poder ¢ desregramento. Destas reformas sala naturalmente a humanizagio gradual da religiio, a liberdade crescente das consciéncias, ¢ a capacidade para o cristia- nnismo de se transformar dia a dia, de pro- gredir, de estar sempre & altura do espfrito humano, resultado imenso e capital que trouxe a Reforma a0s povos que a seguiram. Os graves prelados, que entio combatiam pelas relormas que acabo de apresentar, no desejavam, certamente, nem mesmo previam estas consequéncias: 0 préprio Lutero nao fas previu, Mas nem por isso as consequén: clas deixariam de ser aquelas. Bartolome dos Martires e os bispos de Cédis e Astorga ‘no eram, seguramenje revoluciondrios: re presentavam no Coneilio de Trento a dltima defesa e 0 protesto das jgrejas da Peninsula, contra o ultramontanismo invasor: mas a ‘obra deles € que era, pelas consequéncias, “ revoluciondria; e, trabalhando nela, estavam ra corrente e no espirito do grande e eman- cipador século XVI. Se houvessem aleancado essa reforma, terfamos nés talvez, espanhois © portugueses, escapado & decadéncia. Quem pode hoje negar que ¢ em grande parte & Reforma que os povos reformados devem os rogressos morais que os colocaram natural mente & frente da civilizagao? Constraste ignificativo, que nos apresenta hoje o mundo! As nagSes mais inteligentes, mais moralizadas, mais pacificas e mais indus- triosas so exactamente aquelas que seguiram a revolugio religiosa do século XVI: Alema- nha, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos, Sulga. As mais decadentes so exactamente ‘as mais catdlicas! Com a Reforma estariamos hoje talvez a altura dessas nagdes; estariamos livres, prosperos, inteligentes, morals... mas Roma teria cafdo! Roma nio queria cair. Por isso resistiu longo tempo, iludiu quanto pode os votos ddas nagdes, que reclamavam a convocagio do conctlio reformador. Nao podendo resistir ‘mais tempo, cede por fim. Mas como o fez? Como cedeu Roma, dominada desde entio pelos Jesuitas? Estamos em Itélia, meus senhores, no pais de Machiavell!.,, Eu nao ddigo que Roma usasse deliberada ¢ conscien- temente duma politica maquiavélica: nio pposso avaliar as intencSes. Digo simplesmente politica romana em toda esta questio do Concilio de Trento aparece com um notavel cardcter de habilidade ¢ célculo.... muito pouco evangélicos! Roma, no podendo resis: tir mais a ideia do Concilio, explora essa ideia em proveito préprio. Dum instrumento de paz © progresso, faz uma arma de guerra © dominagio; confisca o grande impulso reformador, e fé-lo convergir em proveito do ultramontanigmo. Como? Duma maneira simples: 1%, dando sé aos legados do Papa © direito de propor reformas; 2”, substi- tuindo, a0 antigo modo de votar por nagoes, © voto por cabegas, que the di com os seus cardeais e bispos italianos, criaturas suas. luma maioria compacta ¢ resolvida sempre a cesmagar, a abafar os votos das outras nagoes. Basta dizer que a Franca, a Espanha, Portugal € os Estados catélicos da Alemanha nunca tiveram, juntos, nimero de votos superior a 60, enquanto 0s itlianos contavam 180 ¢ mais! Nestas condigées, 0 concilio deixava de ser universal: era simplesmente italiano; nem italiano, romano apenas! Desde o primeiro dia se pode ver que a causa da reforma libe. ral estava perdida, Provocado para essa refor: ma, 0 coneilio $6 serviu contra cla, para a sofismar e anular! Composta e armada assim a méquina, vejamola trabalhar Para sujeitar na terra ‘0 homem, era necessirio faré-lo condenar primeira no céu: por isso 0 coneilio comeca por estabelecer dogmaticamente, na sesstio 52,0 pecado original, com todas as suas con: sequéncias, a condenagio hereditéria da hu: manidade, © a incapacidade de 0 homem se salvar por scus merecimentos, mas 46 por obr: confirma-se e precisa-se 0 dogma da eucaristia, j4 definido, ainda que vagamente, no 4° Concilio de Latrao, vibrase andtema sobre quem no crer na presenca real de Cristo no pfio € no vinho depois da consagracdo. E mais um passo (e este decisivo) para fazer entrar o cristianismo ‘no caminho da idolatria, para colocar o divino cilia cea no absurdo. Poucos dogmas contribuiram tanto como este materialismo da presenca real para embrutecer 0 nosso povo, para fazer reviver nele os instintos pagios, para Ihe sofismar a razio natural! Parece que era isto © que 0 concilio desejava! Na sesso 14" trata-se detidamente da confissio. A confissio existia ha muito na Igreja, mas comparativamente livre © facul tativa. No 4° Concilio de Latrio restringt rase jé bastante essa liberdade. Na sessio 142 de Trento é a consciéncia crista defint vamente encarcerada. Sem confissio nao hi remissio de pecados! A alma é incapaz de comuniear com Deus, sendo por intermédio do padre! Estabelece-se a obrigagao dos fiis ‘se confessarem em épocas certas, © exor ftam-se a que se confessem 0 mais que pos sam, Fundase aqui o poder, tio temivel quanto misterioso, do confessionario. Apa- rece um tipo singular: 0 director espiritual. Dat por diante hi sempre na familia, imével ‘a cabeceira, invisivel mas sempre presente, tum vulto negro que separa o matido da mulher, uma vontade oculta que governa a ‘casa, um intruso que manda mais do que 0 dono. Quem ha aqui, espanhol ou portugués, {que mio conheca este estado deplorivel da familia, com um chefe secreto, em regra, hhostil a0 chefe visivel? Quem no conhece as desordens, 08 escindalos, as misérias intro- duridas no lar doméstico pela porta do confessiondrio? © concilio no queria isto, decerto: mas fez tudo quanto era necessétio para que isto acontecesse, Na parte disciplinar © nas relagées da Igreja com o Estado predomina © mesmo espirito de absolutismo, de concentraglo, de invasto de todos os dircitos, Na sessio 5. tornam-se as ordens regulares independentes los bispos, ¢ quase cxelusivamente depen: ma esta na mio do Papado, que jé de si nao era mais do que luna arma na mio de jesuitismo! Na sessio 13." $6 © Papa, pelos seus comissirios, pode julgar os bispos e os padres. E a impunidade para o clero! Na sessio 4* poem se restri a leitura da Biblia pelos secular tais que equivalem a uma verdadeira pr bigao. Ora, o que ¢ isto sendo a suspeicio da razio humana, condenada a pensar ¢ a ler pelo pensamento e pelos olhos de meia dazia de eleitos? Nas sessies 72, 92, 182, 24° esta belecemse jgualmente disposigies ‘tendentes todas a sujeitar os governos, a impor aos poves a policia romana, apagando implach- vvelmente por toda a parte os iltimos vestigios das igrejas nacionais, Finalmente, a superio- ridade do Papa sobre os concilios triunfa nas sessdes 232 e 25,, pela boca do jesuita Lainer, inspirador e alma do concilio... se & permi tido, ainda metafdricamente, falande dum jesuita, empregar a palavra alma... A redac- ‘so dum catecismo vem coroar esta obra de atta politica, Com esse catcismo, iposio rue Ba parte por todon 0s modos 208 Devaritos mogose simples, tratouse de malar SMiberdage no seu permen, de absorver as fagBeanascntes, de ae deformare fOr. weesrnindoas nos moldes estritos dum Seana seca formal, excaaatica ¢ subi stant inimtligiel Se se conecguiu ou 1 pet's eultadoTunesto, respondam mas Sloeas de nagocs. moribundas,enfrmas da vror day enermidades, «arofa moral im meus senhores essa maquina teme ross Je compress, que fot catollsmo {epots do Cone. de Trento, que poia la reer sos poves? A ntlernci, © embru- eect e depots a more! Tomo tes exem™ ioe Soja o prmelro. a Guerre dos Trina Ress, a mats crue, mals frlamente encarn ange als sbtemtcamente destrudore de Sttanas tem visto os tempos moderio8, ¢ Ghee por pouco na aniqila a Alemaoha, Essa Micwra, provoeada peo partido calico, © Por sie ign com uma, peacveranga infernal resto bem ao mundo que abies de odio elem caller palavras de. par © relgio. Brgadre ng dig somente,asista d exe cares cada, general traia sempre congo Cm director jesutta: esses generis cham ‘Mint ily icolomint os mais endureldos Mow verduges,Salvou eno Alemanka € a arpa a trmeraindomivel dum corago tho grande quanto puro, sereno em face dessas ordens fanaticas. © verdadeiro her6i (e nico também) dessa guerra maldita, © verdadeiro santo desse periodo tenebroso, é tum protestante, Gustavo Adolfo. Quanto ao Papa, esse aplaudia a matanga! O segundo exemplo é a Itélia, O terror que inspirava 20 Papado a criagao em Italia dum Estado forte, que lhe pusesse uma barreira & ambigio eres: cente de dia para dia, tornowo o maior migo da unidade italiana. Eo Papado quem semeia a discdrdia entre as cidades ¢ os prin: Cipes italianos, sempre que tentam ligarse. Eo Papado quem convida os estrangeiros a descerem os Alpes, na cruzada contra as for- gas nacionais, cada vez que parecem querer organizarse. +O Papado», diz Edgard Quinet, stem sido urn ferro sagrado na ferida da deixa sarars, Hoje mesmo, se ‘essa suspirada unidade se consumou, nao foi no meio das maldigoes céleras do clero € de Roma? © tinico pensamento que hoje absorve 0 Papado, é desmanchar aquela ‘obra nacional, chamar sobre ela os olhos do mundo, o ferro estrangeiro, podendo ser; é assassinar a Itélia ressuscitada! Estes factos sho por todos sabidos. O que talver_nem todos saibam é 0 papel que jsmo representou no assassinato da «A intolerancia dos jesuitas e ultra montanos, diz Emilio de Lavelaye, foi a causa pprimdria do desmembramento e queda da Polénia.» Esta naglo herdica, mas pouco organizada, ou antes, pouco unificada, era ‘uma espécie de federagio de pequenas nacio. nalidades, com costumes e religioes diferen: tes, Encravada entre monarquias poderosas ambiciosas, como a Austria, a Riissia © a Turquia de entSo, a Poldnia s6 podia viver pela liberdade politica, e sobretudo pela tolerdncia religiosa, que conscrvasse amigos fe unidos contra o inimigo comum os grupos ‘autondmicos de que se compunha. A essa tolerincia deveu ela, com efeito, a forga importancia que teve na historia da Europa até ao século XVII: catdlicos, gregos cismé. ticos, protestantes, socinianos viveram muito tempo como irmdos, numa sociedade verda- deiramente erista porque era verdadelmente tolerante. Um dia, porém, os jesuitas, 16 do centro de Roma, olharam para a Polénia ‘como para uma boa presa. Aquela nagdo era efectivamente um escindalo para os bons padres, Tanto intrigaram, que em 1570 tinham 4 logrado introduzir-se na Polonia: o rei Estévao Bathory concededhes, com uma cul- pavel imprudéncia, a universidade de Wilna Senhores do ensino, ¢ em breve das cons- eiénclas da nobreza catdlica, os jesultas sio tum poder: comecam as perseguigdes religio sas, Em 1648, Jodo Casimiro, que antes de ser rei fora cardeal ¢ jesuita, quer obrigar os camponeses raténios, sectérios do cisma {grego a converterem-se a0 catolicismo, Estes levantam-se, unem-se aos cossacos, também do tito grego, ¢ comega uma guerra formidé. vel, cujo resultado foi separarem-se cossacos © ruténios da federacio polaca, dando-se & Rassia, em cujas mos se torneram uma arma terrivel sempre apontada a0 coragio da Polénia. Nunca esta nagio teve inimigos {Yio encarnigados como os cossacos! Sem eles, a Polénia enfraquecida entre vizinhos for- midaveis, devia cair, e caiu efectivamente. A partilha expoliadora de 1772 nao fez mais do que confirmar um facto jé antigo, a nuli- dade da naco polaca. ‘Assim pois, meus senhores, o catolicismo dos ulimos trés séculos, pelo seu principio, pela sua disciplina, pela sua politica, tem sido no mundo 0 maior inimigo das nagées, © verdadeiramente © timulo das nacionali. dades. «O antro da Esfinges, disse dele um poeta filésofo, «reconhece-se logo & entrada pelos ossos dos povos devorados.» E a nos, espanhéis e portugueses, como foi que o catolicismo nos anulou? 0’ catoll- cismo pesou sobre nés por todos os lados, ‘com todo o seu peso. Com a Inquisicéo, um terror invistvel paira sobre a sociedade: a hipocrisia torna-se um vicio nacional e neces- sfirio; a delagio é uma virtude religiosa: a ex- pulsao dos judeus e moiros empobrece as dduas nagbes, paralisa 0 comércio e a indis- (tia, e dé um golpe mortal na agricultura em todo o sul da Espanha: a perseguico dos cristdos-novos far desaparecer os capitais: a Inquisigio passa os mares, e, tornando-nos hostis os indios, impedindo a Tusdo dos con- quistadores © dos conquistados, torna impos- || o estabelecimento duma colonizagio Sélida © duradoira: na América despovoa as ‘Antilhas, apavora as populagoes indigenas, fe far do nome de cristio um simbolo de morte; o terror religioso, Finalmente, cor- rompe 0 caracter nacional, € faz de duas ages generosas, hordas de fanaticos endurecidos, @ horror da civilizagao. Com © jesuitismo desaparece 0 sentimento fristio, para dar lugar aos sofismas mais deploraveis a que jamais desceu a cons. ciéncia religiosa: métodos de ensino, a0 mesmo tempo brutais ¢ requintados, ester zam as inteligéncias, dirigindose & meméria, com 0 fim de matarem © pensamento inven: tivo, ¢ alcangam alhear o espirito peninsular do grande movimento da ciéncia moderna, fessencialmente livre ¢ criadora: a educacio jesultica faz das classes elevadas méquinas ininteligentes e passivas; do povo, fanaticos corruptos e cruéis: a funesta moral jesuitica, explicada (e praticada) pelos seus casuistas, com as suas restrigBes mentais, as suas sub- tilezas, os seus equivocos, as suas condes- cendéncias, infiltra'se por toda a parte, como lum veneno lento, desorganiza moralmente sociedade, desfaz 0 espirito de familia, cor- rompe as conscigncias com a oscilagio conti rnua da nogio do dever, e aniquila os caracte- res, sofismando-os, amolecendo-os: o ideal da educagéo jesuitica é um povo de criangas mudas, obedientes e imbecis, realizou-os nas famosas misses do Paraguai; 0 Paraguai foi ‘9 reino dos céus da Companhia de Jesus; per- feita ordem, perfeita devordo; uma coisa s6 faltava, a alma, isto é, a dignidade e a vontade, (© que distingue © homem da animalidade! Eram estes 0s beneficios que levavamos as ragas selvagens da América, pelas mos civi lizadoras dos padres da Companhia! Por isso © génio livre popular decaiu, adormeceu por toda a parte: na arte, na literatura, na regi. Os santos da época ja nto tém aquele carécter simples, ingénuo, dos verdadeiros santos populares: sio frades beatos, sfo jesultas habeis. Os sermonérios e mais livros de devo- io, nfo sei por que lado sejam mais vergo- hosos; se pela nulidade das ideias, pela ba xeza do sentimento, ou pela pucrilidade ridi- ccula do estilo, Quanto & arte ¢ literatura ‘mostrava-se bem clara a decadéncia naquelas, massas estipidas de pedra da arquitectura Jesuitica, e na poesia convencional das acs- demias, ou nas odes ao divino e jaculatérias fradescas, O génio popular, esse morrera as mifos do clero, como com tanta evidéncia 0 deixou demonstrado nos seus recentes livros, ‘Wo cheios de novidades, sobre a literatura portuguesa, o senhor Teéfilo Braga. Os costu- ‘mes safdos desta escola sabemos nés 0 que foram. J4 citei a Arte de Furtar, os romances picarescos, as farsas populares, 0 teatro ‘espanhol, os escritos de D. Francisco Manuel fe do Cavaleiro de Oliveira, Na falta destes documentos, bastava-nos a tradigio, que ainda hoje reza dos escindalos dessa socie- dade aristocratica e clerical! Essa funesta fluencia da direcgao catdlica no € menos visivel no mundo politico. Como é que 0 abso- lutismo espiritual podia deixar de reagir sobre © espirito do poder civil? 0 exemplo do des- potismo vinha de t3o alto! Os reis eram to religiosost Eram por exceléncia os reis caté- licos, fidelissimos. Nada forneceu pelo exem- plo, pela autoridade, pela doutrina, pela inst {gaclo, um tamanho ponto de apoio ao poder absolute como 0 esplrito catélico e a influén- cia jesultica. Nesses tempos santos, os verda- eiros ministros eram os confessores dos res. A escolha do confessor era uma questio de Estado. A paixto de dominar, e 0 orgulho ceriminoso de um homem, apoiava-se na pala vra divina. A teocracia dava a mio a0 despo- tismo, Essa direceSo via-se claramente na politica externa. A politica, em ver de curar dos interesses verdadeiros do povo, de se ins- pirar dum pensamento nacional, trafa a sua Imissto, fazendo-se instrumento da politica ccatslica romana, isto 6, dos interesses, das ambiges de um estrangeiro. D. Scbastiio, ‘© diseipulo dos jesuitas, vai morrer nos areais de Africa, pela {é catélica, no pela nacdo portuguesa. Carlos Ve Filipe IT poem 0 mundo a ferro ¢ fogo, porque? pelos inte rresses espanhois? pela grandeza de Espanha? Nao: pela grandeza e pelos interesses de Roma! Durante mais de 70 anos, a Espanha dominada por estes dois inquisidores coroa- dos, dé o melhor do seu sangue, da sua riqueza, da sua actividade, para que © papa desse outra vez leis A Inglaterra e & Alemanha. Era essa a politica nacional desses reis famo- sos: eu chamo a isto simplesmente trair as ages, “Tal € uma das causas, seno a principal, da decadéncia dos povos peninsulares. Das influéncias deletérias nenhuma foi tio uni- versal, nenhuma langou tio fundas raizes Feriu © homem no que ha de mais intimo, nos pontos mais essenciais da vida moral, no ‘rer, no sentir — no ser: envenenou a vida nas suas fontes mais secretas. Essa transfor- magio da alma peninsular fezsc em tio {ntimas profundidades, que tem escapado as maiores revolugées; passam por cima dessa regio quase inacessivel, superficialmente, fe deixam-na na sua inércia secular. Ha em todos nés, por mais modernos que queirs mos ser, hd li oculto, dissimulado, mas nio intciramente morto, um beato, um fandtico ‘ou um jesulta! Esse moribundo que se ergue dentro de nés & a inimigo, & 0 passado. E pre- ciso enterré-lo por uma vez, ¢ com ele 0 espl- sinistro do eatolicismo de Trento. Esta catisa actuou principalmente sobre a vida moral: a segunda, 0 absolutism, apesar de se reflectir no estado dos espiritos, actuou principalmente na vida politica © social A hist6ria da transformacio das monarquias peninsulares ¢ longa, e, para a minha pouca cigncia, obscura e até certo ponto desconhe- ida: nio a poderia eu fazer aqui. Basta dizer ‘que o cardeter dessas monarquias durante a Tdade Média contrasta singularmente com 0 que Thes encontramos no século XVI e nos seguintes. Os reis entlo nao eram absolutos: € no 0 eram, porque a vida politica local, forte e vivaz, nio sé no thes deixava um grande circulo de acgio, mas ainda, dentro desse mesmo circulo, Ihes opunha & expan: so da autoridade embaragos e uma continua vigilancia, Os privilégios da nobrera ¢ do lero, por um lado, e, pelo outro, as institu: ‘g6es populares, os municipios, as comunas, equilibravam com mais ou menos oscilacdo (© peso da coros. Para as questdes. sums, para os momentos de crise, lé estavam as Cortes, aonde todas as classes sociais tinhar representantes e voto. A liberdade era entio © estado normal da Peninsula. ‘No século XVI, tudo isto mudou. © poder absoluto assenta-se sobre a ruina das institul- ‘s0es locais. Abaixou a nobreza, é verdade, mas 50 cm proveito seu: 0 povo pouco lucrou com essa revolugo. O que é certo é que per: dou a liberdade. A vida municipal afroux gradualmente, as comunas espanholas, depoi dum sangrento protesto, caem exinimes, aos és dum rei, que nem sequer era inteiramente ‘espanhol. As instituigdes locais, cerceadas por todos os lados, sentem faltar-Ihes em volta 0 ar, € © chio debaixo de si. Quem poderd Jamais contar essas invasées surdas, insens!- veis do poder real no terreno do povo, essas lutas subterraneas, as abdicagles sucessivas da vontade nacional nas mos dum homem, a resistencias infelizes, a longa e cruel hist’ tia do desaparecimento dos foros populares? E uma histéria tio triste quanto obscura, que ninguém fez nem fara jamais! Vése 0 desfecho do drama: os incidentes escapam- ‘nos. Mas ao lado dessa luta surda, houve outra manifesta, cuja histéria se erguerd sempre como um espectro vingador, para acusar a realeza. Essa luta é a grande guerra ‘comurunera das cidades espanholas. Vencidas, esmagadas pela forca, as cidades espanholas encontraram um herdi, de cujo peito salu ardente um protesto, que seri eterno como a condenagdo de quem 0 provocou, Eis aqui ‘© que D. Juan de Padilla, chefe dos commu. nneros, escrevia a sua cidade de Toledo, horas antes’ de ser decapitado, «A ti, cidade de Toledo, que és a coroa de Espanha, e a luz do mundo, que ja no tempo dos Godos eras livre, ‘€ que prodigalizaste 0 teu sangue para asse gurar a tua liberdade e a das cidades tuas irmas, Juan de Padilla, teu filho legitimo, te faz saber que pelo sangue do seu corpo mais uma ver vio ser renovadas as tuas antigas Vitérias...» A cabeca de Padilla rolou, e com cle, decaptitada também, caiu a antiga liber. dade municipal. A centralizagio monérquica, pesada, uniforme, caiu sobre a Peninsula como a pedra dum timulo. A respiracto de milhares de homens suspendewse, para se concentrar toda no peito de um homem excepcional, de quem 0 acaso do nascimento faria um deus. Se, a0 menos, esse deus fosse propicio, bom, providencial! Mas a centr zacio do absolutismo, prostrando © povo, corrompia a0 mesmo tempo o rei. D, Joao IIT, esse rei fandtico ¢ de ruim condicio, Fi lipe 11, 0 deménio do Meio-Dia, inquisidor & verdugo das nagées, Filipe 111, Carlos IV, Toko V, Afonso VI, devassos uns, outros de. ‘sordeiros, outros ignorantes ¢ vis, sio bons exemplos da realeza absoluta, enfatuada até ‘20 vicio, até ao crime, do orgulho do proprio poder, possessa daquela foucura cesariana, ‘com que a natureza faz expiar aos déspotas a desigualdade monstruosa, que os pde como que fora da humanidade. A tais homens, sem garantias, sem inspecio, confiaram as nagdes cegamente os seus destinos! Se ilipe TL nfo fosse absoluto, jamais teria podido tentar o seu absurdo projecto de con- quistar a Inglaterra, nio teria felto sepul- tar nas Aguas do oceano, com a invencivel armada, milhares de vidas e um capital pro- digioso inteiramente perdido. Se D. Sebastiao hao fosse absoluto, nlo teria ido enterrar em Aleacer Quibir a nagdo portuguesa, as alti mas esperangas da patria ‘Outras monarquias, a francesa por exem- plo, sujeitayam © povo, mas ajudavam por outta lado 0 seu progresso. Aristocraticas pelas raizes, tinham pelos frutos muito de populares. A burguesia, a quem estava dest nado o futuro, erguia-se, comegava a ter vor. [As nossas monarquias, porém, tiveram um cardcter exclusivamente aristocratico: eram- ‘no pelo prinefpio, e eram-no pelos resultados. Governavase entio pela nobreza e para a nobreza, AS consequéncias sabemolas nés todos. Pelos morgados, vinculow-se a terra, ceriaram-se imensas propriedades. Com isto, anulot-se a classe dos pequenos proprietérios: a grande cultura sendo entio imposstvel, fe desaparecendo gradualmente a pequena, a agricultura caiu; metade da Peninsula trans formowse numa charneca: a populacio de- cresceu, sem que por isso se aliviasse a miséria. Por outro lado, o espirito aristocré- tico da monarquia, opondo-se naturalmente aos progressos da classe média, impedia 0 desenvolvimento da burguesia, a classe mo- derna por exceléncia, civilizadora ¢ inicia. dora, ja na industria, j4 nas cidncias, j4 no ‘comércio. Sem ela, o que podiamos nés ser nos grandes trabalhos com que 0 espirito ‘moderno tem transformado a sociedade, a inteligéncia e a natureza? O que realmente fomos; mulos, gragas & monarquia aristocré- tical Essa monarquia, acostumando 0 povo fa servir, habituando-o a inéreia de quem espera tudo de cima, obliterou 0 sentimento instintivo da liberdade, quebrou a energia das vontades, adormeceu a iniciativa; quando mais tarde Ie deram a liberdade, nio a compreendeu; ainda hoje a no compreende, nem sabe usar dela, As revolucdes podem chamar por ele, sacudilo com forsa: con- tinua dormindo sempre o sew sono secular! A estas influéncias deletérias, e estas duas ccausas principais de decadéncia, uma moral outra politica, juntase uma terceira, de cardcter sobretudo econémico: as conquistas. Ha dois séculos que os livros, as tradigdes ‘¢ a meméria dos homens, andam cheios dessa cepopeia guerreira, que 0s povos peninsulares, atravessando oceanos desconhecidos, deixa ram escrita por todas as partes do mundo. Embalaram-nos com essas histdrias: atacélas 6 quase um sacrilégio. E todavia esse bri- Ihante poema em acsio foi uma das maiores ccausas da nossa decadéncia. & necessirio Jo, em que pese aos nossos sent ‘mais caros de patriotismo tradicional. Tanto mais que um erro econémico nfo é neces- sériamente uma vergonha nacional. No ponto de vista herdico, quem pode negé-lo? foi esse movimento das conquistas espanholas e por- tuguesas um relampago brilhante, e por cer- tos lados sublime, da alma intrépida penin- ular, A moralidade subjectiva dese movi- mento é indiscutivel perante a histéria: sio do dominio da poesia, ¢ s-loo sempre acon- tecimentos que puderam inspirar a grande ‘alma de Cam@es. A desgraga éque esse espt- Fito guerreiro estava deslocado nos tempos Imodernos: as nagdes modernas estio conde- nnadas a nio fazerem poesia, mas ciénc Quem domina nio & jé a musa herdica da cepopeia; € a economia politica, Caliope dum mundo novo, senko tio belo, pelo menos mais justo e légico do que o antigo. Ora, é a luz da economia politica que eu. condeno ‘as conquistas © o espirito guerreiro, Quise- ‘mos refazer os tempos heréicos da idade moderna: engandmo-nos; nfo era posstvel; caimos. Qual é, com efeito,o espirito da idade moderna? & 0 espirito de trabalho e de indus ria: a riqueza e a vida das nacdes tém de se tirar da actividade produtora, e ndo ja da guerra esterilizadora. O que sa da guerra nio s6 acaba cedo, mas é além disso um capital morto, consumido sem resultado. E necessé- rio que o trabalho sobretudo a inddstria agricola o fecunde, Ihe dé vida, Domina todo este assunto uma lei econémica, formulada por Adio Smith, um dos pais da ciéncia, nas seguintes palavras: «O capital adquirido pelo comércio e pela guerra s6 se torna real e pro- dutivo quando se fixa na cultura da terra e hnas outras inddstrias.» Vejamos o que tem feito a Inglaterra com a {ndia, com a Austré- lia, © com © comércle do mundo, Explora, combate: mas a riqueza adquirida fixaa no seu solo, pela sua poderosa indistria, © pela sua agricultura, talvez a mais florescente do mundo. Por isso a prosperidade da Ingla- terra ha dois'séculos tem sido a admiracio e quase a inveja das nagées, Pelo contritio, 1nés, Portugueses e Espanhois, que destinos demos as prodigiosas riquezas extorquidas aos povos estrangeiras? Respondam a nossa industria perdida, 0 comércio arruinado, a populacio diminulda, a agricultura deca- dente, e esses desertos da Beira, do Alentejo, da Estramadura espanhola, das Castelas aonde no se encontra uma arvore, um ani ‘mal doméstico, uma face humana! Um exemplo, 0 da agricultura portu- guesa antes ¢ depois do século XVI, port em evidéncia, com factos significativos, essa in- fluéncia perniciosa do espirito de conquista no ‘mundo econdmico. Esses factos so extraidos de trés obras, cuja autoridade é incontesté- vel: 2 Meméria historica de Alexandre de Gusmio sobre a agricultura portuguesa; 0 livro de Camilo Pallavicini La economia agraria del Portogallo; e a Histéria da ag ‘cultura em Portugal, pelo sr. Rebelo da Silva. Uma coisa que impressiona quem estuda os primeiros séculos da monarquia portuguesa € 0 cardcter essencialmente agricola dessa sociedade. Os cognomes dos reis, 0 Povoador, © Lavrador, j4 por si sio altamente significa tivos. No meio das guerras, ¢ apesar da im- perfeigio das instituigdes, a populacdo cres- cia, e a abundancia generalizava-se. A arbo- rizagio do pais desenvolvia-se, a charneca recuava diante do trabalho. As armadas, que mais tarde dominaram os mares, safram das matas semeadas por D. Dinis. No reinado de D. Fernando era Portugal um dos pafses que mais exportavam. A Castela, a Galiza, a Flan- dres, a Alemanha forneciam-se quase exch vamente de azeite portugués; a nossa pros. peridade agricola era suficiente para abas- tecer tho vastos mercados. O comércio dos cereais era considerével. No século XV vi tnham os navios venezianos a Lisboa e aos por tos do Algarve, trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe sal gado ¢ frutas secas, que espalhavam pela Dalmécia e por toda a Italia, Sustentivamos também um activo comércio com a Ingle terra, As classes populares deserivolviam-se pela abundancia e 0 trabalho, a populagio crescia, No tempo de D. Joo II chegara a populagio a muito perto de trés milhoes de hhabitantes... Basta comparar este algarismo com o da populacio em 1640, que escassa- ‘mente excedia um milhio, para se conhecer que uma grande decadéncia se operou durante ‘este intervalo! Dera-se com efeito, durante o século XVI. uma deplordvel revolucio nas condigées ‘econémicas da sociedade portuguesa, revolu- ‘io sobretudo devida ao novo estado de cot sas criado pelas conquistas. 0 proprietério, fo agricultor, deixam a charrua ¢ fazem-se sol dados, aventureiros. Atravessam 0 oceano & procura de gléria, de posicdo mais brilhante fou mais rendosa. Atraida pelas riquezas acumuladas nos grandes centros, a populago rural aflui para ali, abandona os campos, © ver aumentar nas capitais 0 contingente da miscria, da domesticidade ou do vicio. A cul- tura diminui gradualmente. Com essa dimi- nuisdo, © com a depreciagio relativa dos ‘metais preciosos pela afluéncia dos tesouros do Oriente © América, os cereais chegam a pregos fabulosos. O trigo, que em 1460 vs 10 réis por alqueire, tem subido, em 1520 12.20 réis, 30 ¢ 35! Por isso 0 prego nos mer- cados estrangeiros, nem sequer pode cobrir © custo origindrio: a concorréneia doutras nnagdes, que produziam mais barato esmaga- -nos. Nao s6 deixamos de exportar, mas pas. ‘samos a importar: «do reinado de D. Manuel fem dianter, diz Alex. de Gusmlo, «somos sustentados. pelos estrangeiross. Esse sus- tento podiamno pagar os grandes, que a India e 0 Brasil enriqueciam. A multidio, porém, morria de fome. A miséria popular era grande. A esmola & portaria dos conven- tos © casas fidalgas passou a ser uma inst tuiggo, Mendigavam aos bandos pelas estra- das. A tradigéo, num simbolo terrivelmento expressivo, apresentanos Cam@es, 0 cantor dessas glérias que nos empobreciam, ment gando para sustentar a velhice triste e desa- lentada, & uma imagem da nagio. As crénicas falam-nos de grandes fomes. Por tudo isto, decrescia a olhos vistos a populacio. Que remédio se procura a este mal? um mal incomparavelmente maior: a escravidao! Tentase introduzir 0 trabalho servil nas cul- turas, com escravos vindos da Africa! Feliz mente nfo passou de tentativa. Bra a trans. formagao dum pals livre ¢ civilizado, numa coisa monstruosa, uma oligarquia de senho- res de roga! a barbaridade dos devastadores da América, transportada para o meio da Europa! Com estes elementos o que se podio esperar da indastria? uma decadéncia total. Nao se fabrica, no se cria: basta 0 ouro do Oriente para pagar a inddstria dos outros, enriquecendo-os, instigandoos a0 trabalho produtivo, e ficando nés cada vez mais pobres, com as mos cheias de tesouros! Importavamos tudo: de Italia, sedas, veludos bbrocados, massas; da Alemanha, vidro; de Franca, panos; de Inglaterra e Holanda, ce- reais, las, tecidos. Havia entio uma tinica industria nacional... a India! Valse & {ndia buscar um nome ¢ uma fortuna, € volta-se para gozar, dissipar esterilmente. A vida con- centra-se na capital. Os nobres deixam os campos, os solares dos seus maiores, onde viviam em certa comunhio com 0 povo, & vém para a corte brilhar, ostentar... e men- dligay nobremente, © fidalgo faz-se cortesio: fo homem do povo, no podendo jé ser traba- Thador, faze lucaio: a libré é 0 selo da sua devadéncia. A erindagem duma casa nobre tera um verdadeiry estado. O luo da nobreza tinha alguma coisa de Oriental, Do luxo desen- freado, ao vicio, & corrupgio, mal dista um asso. A paixio do jogo estendewse terrivel: mente: jogavarse nas tavolagens, e jogava-se hos palicios. O cio, acendendo as imagina ‘goes, levava pelo galanteio as intrigas amo rosas, as aventuras, a0 adultério, e arruinava ‘a familia. Lisboa era uma capital de fidalgos ‘ociosos, de plebeus mendigos, e de rufides. ‘Ao Tonge, fora do pais, foram outras as consequéncias do espirito de conquista, mas igualmente funestas. A escravatura (além de todas as suas deploréveis consequéncias ‘morais) esterilizou pelo trabalho servil. $6.0 trabalho livre ¢ fecundo: s6 0s resultados do trabalho livre sio duradoiros. Das colénias ‘que 05 europeus fundaram no Novo Mundo, ‘quais prosperaram? quais ficaram estaciond- vias? Prosperaram na razio directa do tra balho livre: @ Norte dos Estados Unidos mais do que 0 Sul: os Estrados Unidos mais do fque o Brasil, E essa jovem Australia, caja populagdo duplica todos os 10 anos, que j& exporta para a Europa os seus produtos, ccujas instituigbes sdo jé hoje modelo e inveja para os povos civilizados, e que sera antes de lum século uma das maiores nagdes do mundo, ‘a que deve ela essa prosperidade fenomenal. Seno ao influxo maravilhoso do trabalho livre? numa terra que ainda no pisou o pé de um homem que se mio dissesse livre? 1A Austrélia tem feito em menos de 100 anos dd liberdade o que o Brasil nio alcangou com mais de trés séculos de escravatura! Fomos nds, foram os resultados do nosso espirito guerreiro, quem condenou o Brasil av esta: tionamento, quem condenou & nulidade toda essa costa de Africa, em que outras méos podiam ter talhado 4 larga uns poucos de Impérios. Esse esplrito guerreiro, com os colhos fitos na luz duma falsa gléria, desde- tha, desacredita, envilece o trabalho manual 6 trabalho manual, a forca das sociedades modernas, a salvacdo e a gloria das futuras, Mas ui fantastico idealismo perturba a alma do guerreiro: no distingue entre interesse hhonroso e interesse vil: s6 as grandes accoes de esforgo herdico so belas a seus olh para ele a industria pacifica é s6 propria de mos servis, A tradiglo, que nos apresenta D. Joko de Castro, depois duma campanha em Africa, retirando-se & sua quinta de Sintra, fonde se dava Aquela estranha e nova agricul: tra de cortar as arvores de fruto, e plantar em lugar delas Arvores silvestres, essa trai ‘gio deu-nos um perfeito simbolo do espirito Guerreiro no seu desprezo pela industria. Portugal, o Portugal das conquistas, ¢ esse guerreiroaltivo, nobre e fantastico, que volun- thriamente arruina as suas propriedades, para maior gloria do seu absurdo idealismo. Ej que falei em D. Joao de Castro, direi que 1poucos livros tém feito tanto mal ao espirito portugués, como aqucla biografia do herdi escrita por Jacinto Freire. J. Freire, que era padre, que nunca vira 1 India, e que ignorava tao profundamente fa politica como economia politica, fer da vida e feitos de D. Joio de Castro, nio um estudo de ciéncia social, mas um discurso académico, literério € muito eloquente, sexu- ramente, mas enfatico, sem critica, e animado por um falso ideal de gloria & antiga, gléria Classica, através do qual nos faz ver continua: ‘mente as acgées do seu herd. Ha dois séculos {que lemos todos 0 D. Joio de Castro, de Jacinto Freire, e acostumsmonos a tomar ‘aquela fantasia de retérico pelo tipo do ver dadeiro heréi nacional, Falsedmos com isto ‘0 nosso juizo, ¢ a critica de uma época im- portante, £ preciso que se saiba que a ver- Gadeira gloria moderna no é aquela: é fexactamente © contrério daquela. Uma s6 coisa ha ali a aproveitar como exemplo: é a nobreza de alma daquele homem magnanimo: mas essa nobreza de alma deve ser aplicada pelos homens modernos a outros comet ‘mentos, e dum modo muito diverso. Foi faquele género de herofsmo tio apregoado por J. Freire, que nos arruinow! ‘Como era possivel, com as mos cheias de sangue, © 0s coragbes cheios de orgulho, Iniciar na eivilizagao aqueles povos atrasados, unir por interesses e sentimentos os vence- dores © os vencidos, cruzar as racas, ¢ funda assim, depois do dominio momentineo da violénela, 0 dominio duradoiro ¢ justo da superioridade moral e do progresso? As con ‘quistas sobre as nagoes atrasadas, por via de fegra, no so justas nem injustas. Just: ficam se ou condenam-nas os resultados, 0 uso que mais tarde se faz do dom{nio estabele cido pela forca. As conquistas romanas sio hoje justificadas pela fisolofia da histor porque criaram uma civilizagio superior Aquela de que viviam os povos conquistados. A conquisia da India pelos Ingleses & Justa, porque cvilizadora. A conquista da India pelos Portugueses, da América pelos Espa. tuhois, foi injusta, porque nao civilizou. Ainda quando fossem sempre vitoriosas as nossas armas, a India ternosia escapado, porque sistematicamente alhedvamos os espiritos, aterrivamos as populagdes, cavévamos pelo espirito religioso e aristocrético um abismo entre a minoria dos conquistadores e a’mai ria dos vencidos. Um dos primeiros benef cios, que levamos Aqueles povos, foi a Ingui- siglo: os Espanbois fizeram © mesmo na América. As religides.indigenas no eram s6 escarnecidas, vilipendiadas: eram atrozmente perseguidas. 0 efeito moral dos trabalhos dos missionérios (tantos deles santamente he- r6icos) era completamente anulado por aqucla ameaga constante do terror religioso: nninguém se deixa converter por uma cari dade, que tem sirés de si uma fogueiral A fe- rocidade dos Espanhéis na América é uma coisa sem néme, sem paralelo nos anais da Destialidade humana, Dois impérios flores- centes desapareceram em menos de 60 anos! ‘em menos de 60 anos sio destruidos dez milhies de homens! dex milhies! rismos so tragicos: ndo precisa trios. E todavia, poucas ragas se sentado aos conquistadores (0 brandas, ingé- nuas, déceis, prontas a receberem com 0 coragao a civilizagio que se thes impunha pelas armas! Bartolomeu de las Casas, bispo de Chiapa, um verdadeiro santo, protestou ‘em vio contra aquelas atrocidades: consagro a sua vida evangélica & causa daqucles mi- Ihdes de infelizes: por duas vezes passou Europa, para advogar solenemente a causa doles perante Carlos V. Tudo em vio! « obra da destruigio era fatal: tinha de se consumar, Hi, com efeito, nos actos condendvels dos povos peninsulares, nos erros da sua politica, ena decadéncia que os colheu, alguma coisa de fatal: 6 a lei da evolucio histérica, que inflexivel © impassivelmente tira as conse 4quéncias dos principios uma ver introduridos nna sociedade. Dado 0 catolicismo absoluto, ‘era impossivel que se Ihe no seguisse, dedu- vindose dele, 0 absolutisme monarquico. Dado o absolutismo, vinha necesshriamente 0 espirito aristocritico, com 0 seu cortejo de privilégios, de injusticas, com 0 predominio das tendéncias guerreiras sobre as industrials Os erros politicos e econémicos saiam daqui naturalmente; e de tudo isto, pela transgres- so das leis da vida social, sala naturalmente lambém a decadéneia sob todas as formas. E essas falsay condigdes sociais nio pro- duziram somente os efeitos que apontei..Pro- duziram um outro, que por ser invisivel € insensivel, nem por isso deixa de ser 9 mais fatal. E 0 abatimento, a prostragio do espi rite nacional, pervertido e atrafiado por uns poucos de séculos da mais nociva educagao, As causas, que indiquei, cessaram em grande parte: mas os efeitos morais persistem, e é a cles que devemos atribuir a incerteza, o desi: hhimo, o malestar da nossa sociedade con lcmporiinea, A influéncia do espirito cat Tico, no seu pesado dogmatismo, deve ser atribuida esta indiferenga universal pela filo sofia, pela cigncia, pelo movimento moral e social moderno, este adormecimento sont. hulesco em face da revolugio do século XIX, que € quase a nossa feigio caracteristica & nacional entre os povos da Europa, J4 nio ceremos, certamente, com 0 ardor apaixonado cego de nossos avis, nos dogmas catélicas: ‘mas continuamos a fechar os olhos as ver dades descobertas pelo pensamento Se a Igreja nos incomoda com as suas cexigtncias, nfo deixa por isso também de nos incomodar a Revoluco com as lutas. Fomos (05 Portugueses intolerantes e fandticos dos ‘séculos XVI, XVII e XVIII: somos agora os Portugueses indiferentes do século XIX. Por ‘outro lado, se o poder absolute da monar quia acabou, persiste a inércia politica. das populagses, a necessidade (e 0 gosto talvez) de que as governem, persiste a centralizagao 0 militarismo, que anulam, que reduzem 20 absudo as liberdades constitucionais. Entre © senhor rei de entdo, e os senhores influen 125 de hoje, nfo ha tio grande diferenga: para © povo & sempre a mesma servidio. Eramos ‘mandados, somos agora governados: os dois termos quase que se equivalem. Se a velha monarquia desapareceu, conservouse 0 ve. Tho espirito monarquico: € quanto basta para nio estarmos muito melhor do que nos- sos avis. Finalmente, do espirito guerreiro dda nagdo conquistadora, herdimos um in- vencivel horror ao trabalho e um fatimo des prezo pela industria. Os netos dos conquis: tadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no écio 0 tempo ea fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: 0 que nao podem, sem indignidade, ¢ trabalhar! uma fébrica, uma oficina, uma exploragio agricola ow mineira, sio coisas impréprias da nossa fidalguia, Por isso as melhores inddstrias nacionais est8o nas mios dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, ¢ se riem das nossas pretensées. Contra 0 tra- balho manual, sobretudo, € que ¢ universal © preconceito: parece-nos um simbolo servll Por ele sobem as classes democriticas em todo 0 mundo, © se engrandecem as nagées nnés preferimos ser uma aristocracia de po- bres ociosos, a ser uma democracia pros: pera de trabathadores. E 0 fruto que colhe- mos duma educagio secular de tradi guerreiras e enfiticas! Dessa educagio, que a nés mesmos demos durante trés séculos, provém todos os nossos. rales presentes, As raizes do passado reben- tam por todos os lados no nosso solo: reben- tam sob forma de sertimentos, de hibitos, de preconceitos. Gememos sob 0 peso dos ‘eros histiricos. A nosso Fatalidade & a nossa historia, Que ¢ pois necessirio para readquirirmos © nosso lugar na civilizagio? para entrarmos outra vez na comunhao da Europa culta? E nevessario um esforgo viril, um esforgo supremo: quebrar resolutamente com 0 pas- Sado. Respeitemos a meméria dos nossos avis: _memoremos piedosamente os actos deles: mas nio os imitemos. Nao sejamos, & luz do século XIX, espectros a que dé uma vida emprestada 0 espirito do século XVI. Avesse espirito mortal oponhamos franca: ‘mente 0 espirito moderno. Oponhamos a0 catolicismo, nao a indiferenca ou uma fria negagio, mas a ardente afirmagio da alma ova, a consciéncia livre, a contemplacs directa do divino pelo humano (isto &, a fusio do divino e do humano), a filosofia, a cigncia, € a erenga no progresso, na reno: vagio incessante da humanidade pelos recur 0s inesgotaveis do seu pensamento, sempre inspirado, Oponkamos & monarquia central zada, uniforme ¢ impotente, a federacao rept blicana de todos os grupos autonémicos, de todas as vontades soberanas, alargando e re- novando a vida municipal, dandothe um caricter ridicalmente democrético, porque s6 cla é a base e o instrumento natural de todas as reformas priticas, populares, nivela doras. Finalmente, & inévcia industrial opo- snhamos a iniciativa do trabalho livre, a iudis- tria do povo, pelo povo, e para 0 povo, nio dirigida e protegida pelo Estado, mas espon- tinea, nfo entregue & anarquia cega da con- éncia, mas organizada duma maneira ria equitativa, operando assim gradual- mente a transigio para 0 novo mundo indus- trial do socialismo, a quem pertence o futuro. Esta ¢ a tendéncia do século: esta deve tam: ‘bém ser a nossa, Somos uma raga decafda por ter rejeitado 0 espirito moderno: regenerar- snosemos abragando francamente esse espi Fito, O seu nome é Revolugio: revolucso nao ‘quer dizer guerra, mas sim paz: nfo quer di zer licenca, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para « insurregio, pretonde preven, tor Mira mpossivet s0 os seus inimigos, ses Fearon, poem obrigar a langar mao das rman Em sh umn verbo de paz, porque € sr erbo humano por excelfneia Meas were hi 1800 ans apresentava os amundo romano rm singular espectdculo, tha sciedade asta ques alla, mas que fur se alu se debata, Tata, pevsepuia Bo tao dele, no melo. dela, uma soctedade Nova, embrioni, 6 rea de Hels, aspire Ses e justos-semtimentos, sofrendo, pade- Sendo. nos crescendo. por enire 08 padet tmentos Aida desse mando novo impoese fradanimente. ao. mundo. veho, converte, Transform: chega um dia em que © el fnina, ca hamanidade conta’ mais “uma trande cvilagio hamouse a isto 0 Cristanismo. Pos bem, meus senhores: 0 Cristianismo do mundo antigo. A Revol do no «mais do. que 0 Cristianismo. do Tmundo modern SBo/reNTUSE ———} econo wef shies “CTE ten on 1 AY 20