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Rainer Kessler

Universidade de Marburgo, Alemanha

Profetismo: rumos atuais da pesquisa

[Tradução do alemão por Monika Ottermann]

Na minha contribuição a esta mesa, eu gostaria de me concentrar nas correntes atuais da

pesquisa sobre o profetismo na Alemanha. No grande mapa da exegese científica, a Alemanha

é uma província. Característico para essa província é que ela se dedica principalmente à

tradicional pergunta histórico-crítica pela formação dos livros bíblicos. Até hoje, esta pergunta é absolutamente predominante na academia da Alemanha. Existem trabalhos com conceitos alternativos, por exemplo, leitura científico-literária, conceito feminista, estudos pós-coloniais, pesquisa em torno de traumas, e outros mais. No entanto, são casos isolados. Se eu propusesse para um congresso de biblistas na Alemanha o tema Ética profética para um mundo sustentável”, a reação seriam sorrisos, na melhor das hipóteses. Muito mais provável seria que o pessoal me julgasse louco. Temas aceitáveis seriam, por exemplo, “Redação Deuteronomista no Livro dos Doze Profetas” ou “As fontes do Livro de Jeremias”.

Com base neste aviso segue agora meu relato sobre a situação na província alemã. Há dois fenômenos que são característicos para o estado atual da pesquisa alemã em torno dos profetas, e eles se contradizem apenas aparentemente. O primeiro fenômeno é uma grande e surpreendente unanimidade. O consenso consiste no reconhecimento de que toda exegese de algum profeta precisa ser feita a partir do livro que porta o nome desse profeta. Isto é uma reviravolta total em relação à exegese mais antiga. Antigamente, a exegese começava com a palavra do profeta. Por exemplo, um comentário sobre Amós começava com observações sobre a pessoa do profeta, seu tempo, sua linguagem, seu imaginário, sua metafórica e sua teologia. No caso de Amós, isto nos levava para o século oitavo antes de Cristo. Somente no fim da introdução aparecia um capítulo “Da palavra profética para o livro profético”, e nesse capítulo abordava-se a redação dos ditos proféticos e sua releitura até a redação e forma final do livro.

Hoje, os comentários começam pelo livro. O livro é o único elemento seguro que temos. Todo

o resto é reconstrução científica. É mera hipótese. O Livro de Amós, porém, não é do século

oitavo, e sim talvez do século quinto ou quarto. Podemos afirmar com bastante certeza que todos os livros proféticos receberam sua forma final apenas na época da dominação persa ou até mesmo helenista. Olhando o Livro de Amós sob este aspecto, ele não trata do fim de Israel. No entanto, ainda para o grande comentário sobre Amós escrito por Hans Walter Wolff, o versículo Amós 8,2 (oito, dois) foi a chave hermenêutica para o livro inteiro:

Chegou o fim sobre o meu povo Israel. Quando partimos, ao contrário disso, do livro inteiro, então esse livro não anuncia o desaparecimento de Israel, mas a reconstrução da tenda desmoronada de Davi e um futuro sustentável para os agricultores israelitas (9,11-15 nove,

onze a quinze). Por isto, um dos livros sobre Amós, que eu gostaria de apresentar depois aqui, tem o título «Vom Gericht zur Vergebung», Do juízo para o perdão. Todos os livros

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proféticos terminam com a afirmação de que Deus se volta novamente para Israel. Quando a exegese dos profetas começa com o livro, devemos levar este fato teologicamente a sério.

Até aqui vai o atual consenso: a exegese dos profetas deve partir do livro profético. Com isto passamos para a segunda característica da exegese contemporânea dos profetas na Alemanha. E esta característica é um enorme dissenso. Pacífico é que a gente precisa partir do livro. Mas, a partir do livro, para onde devemos ir?

A seguir, eu começo por um extremo e vou indo para o outro. Vamos tomar primeiro o

comentário de Georg Fischer sobre Jeremias. Ele parte do livro, e ele não vai além do livro. Para ele, o livro de Jeremias é a obra de um autor genial que escreveu no final do século quatro um livro sobre o profeta Jeremias. Ele não levanta a pergunta se esse autor usou para isto alguma fonte. E é claro que a leitura nos revela muito sobre a imagem de Jeremias acalentada por um autor do fim do século quatro, mas nada sobre o profeta histórico que, segundo o livro, viveu no final do século sete e início do século seis. Como eu já disse, a

posição de Fischer é extrema e encontrou muita crítica. Mas, efetivamente, aumenta cada vez mais o número de comentários que se limitam exclusivamente à forma de um livro bíblico como nós o conhecemos e que não fazem pergunta alguma sobre a origem e a formação do livro.

Um pouco menos extremo é Georg Steins, cujo estudo sobre Amós eu já mencionei, aquele livro com o título «Vom Gericht zur Vergebung» (Do juízo para o perdão). Também ele parte do livro de Amós redigido no século cinco. À diferença de Fischer no comentário dele, porém, ele admite efetivamente que esse livro tem uma longa história que remonta até o profeta do século oito. Mas ele é extremamente cético em relação à possibilidade de podermos saber alguma coisa segura sobre essa pré-história do livro. Para ilustrar isto, ele utiliza uma imagem interessante. O livro profético é como uma imensa caverna que leva para dentro das profundezas de uma montanha. O pesquisador fica na entrada dela, mas ele tem somente uma lanterna. E esta lanterna mal ilumina a parte da entrada dessa caverna. Ela não consegue iluminar as profundezas dela ou seja, saindo da imagem, o pesquisador não consegue chegar até as figuras históricas dos profetas. Na realidade, Steins fica praticamente parado junto à forma final do livro profético. O perigo desta aproximação é que nela se perde a maior parte

do perfil particular de Amós, ou seja, sua crítica às situações desumanas sociais, econômicas,

políticas e religiosas. Repito aqui mais uma vez o título do estudo de Stein sobre Amós: «Do

juízo para o perdão». Sob este título poderíamos escrever também um estudo sobre Isaías, Jeremias, Ezequiel ou Miqueias.

O

outro extremo é marcado por Reinhard Gregor Kratz. Também ele compartilha o consenso

de

que precisamos partir do livro profético. Mas, à diferença de Steins, a opinião dele é que se

pode chegar realmente até o profeta histórico, numa espécie de arqueologia textual que afasta uma camada após a outra. No entanto, o resultado é muito decepcionante. A camada mais antiga da escavação realizada por Kratz neste tell, nesta colina de estratos que se chama

Amós, consiste em algumas pedras espalhadas, e nem sequer é possível estabelecer uma relação entre elas. Segundo Kratz são da autoria de Amós tão-somente algumas frases ou

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meias frases que ficam na maioria dos casos sem sentido. Elas contêm denúncias genéricas e vagas por causa de problemas sociais, mas elas não interferem absolutamente na sociedade em sua totalidade. Tampouco anunciam o juízo castigador de Deus sobre Israel. Segundo Kratz, essas ideias não remontam a Amós, mas são a obra de teólogos posteriores que as desenvolveram para digerir teologicamente a queda do Reino do Norte, Israel. A meu ver estamos aqui diante de uma imagem do mundo que é típica de um professor universitário alemão: as coisas mais importantes na vida não acontecem nos conflitos políticos em manifestações e reuniões, mas são o resultado do trabalho de estudiosos sentados em suas escrivaninhas.

De resto aplica-se também aqui a velha percepção de que os extremos se tocam les extrêmes se touchent, como dizem os franceses. Para o arqueólogo textual Kratz, a verdadeira crítica anunciada por Amós é tão pouco relevante como para o cético histórico Steins.

Atualmente, a maioria dos estudiosos na Alemanha que pesquisam os profetas move-se entre esses dois extremos. Também eu mesmo defendo esta posição: precisamos partir do livro profético. Este é o consenso. Precisamos voltar para antes do livro em sua forma final. Isto é defendido pela maioria. Nossas lanternas não são tão fracas como pensa Steins. É possível reconstruir etapas prévias dos livros proféticos. E diferentemente daquilo que imagina Kratz, essas etapas não são fragmentos sem nexo, mas são efetivamente grandezas dotadas de sentido, cada uma com seu próprio perfil de anúncio.

Para mim, o desafio decisivo da pesquisa sobre os profetas é não perder o perfil dos distintos livros proféticos, mesmo partindo do livro profético final. Somente quando captamos esse perfil podemos fazer também afirmações pertinentes para temas tão importantes como o tema deste seminário e dizer em que consiste a contribuição da ética profética para um mundo sustentável.