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Quadro 1: vogais tônicas orais do português (SILVA, 2008, p. 79)

ɔ] em posição

pretônica acarreta a marca de variação dialetal geográfica ou mesmo do idioleto”. Ela

cita como exemplo as palavras “d[є]dal, m[o]delo”. Podemos constatar as possibilidades

de variação das vogais pretônicas no quadro 2:

 

Anterior

Central

Posterior

arred

não-arred

arred

não-arred

arred

não-arred

Alta

i

 

u

média-alta

e

 

o

média-baixa

(є)

(ә)

(ɔ)

Baixa

 

A

 

Quadro 2: vogais pretônicas orais do português (SILVA, 2008, p. 81)

Já as vogais postônicas orais, no quadro 3, apresentam variações no português

brasileiro, segundo Silva (2008, p. 85) essas vogais são caracterizadas por variações

dialetal (ou mesmo idioletal) no português brasileiro.

(2008, p. 85) essas vogais são caracterizadas por variações dialetal (ou mesmo idioletal) no português brasileiro.

 

Anterior

 

Central

Posterior

arred

não-arred

arred

não-arred

arred

não-arred

Alta

(i)

I

(u)

média-alta

 

(e)

(o)

Média-baixa

 

A

   

(a)

 

Quadro 3: vogais postônicas finais do português (SILVA, 2008, p.86)

Já as vogais nasais, para Silva (2008, p.91), são produzidas com o abaixamento

do véu palatino permitindo que o ar penetre na cavidade nasal. O abaixamento do véu

palatino altera a configuração da cavidade bucal e, portanto, a qualidade vocálica das

vogais é diferente da qualidade vocálica das vogais orais correspondentes. A

distribuição dessas vogais pode ser visualizada no quadro 4:

 

Anterior

Central

Posterior

arred

não-

arred

não-

arred

não-arred

arred

arred

 

Alta

     

Média

   

õ

Baixa

   

ã

 

Quadro 4: vogais nasais (SILVA, 2008, p.91)

Agora que vimos as vogais, vamos analisar o encontro de uma vogal e

semivogal, o que chamamos de ditongo. Também abordaremos o processo da supressão

dessa semivogal, que é a monotongação.

2.2 DITONGOS E MONOTONGOS

Conforme Aragão (2000, p. 1), o ditongo é um dos elementos linguísticos

existentes desde o latim até os nossos dias, não só no português brasileiro como também

em outras línguas românicas. Conforme a autora, o latim clássico possuía quatro

ditongos [ae], [oe], [aw] e [ew]. Esses ditongos latinos seguiram dois caminhos

diferentes na passagem para o português “ou se ampliaram em novos ditongos ou se

monotongaram”.

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dois caminhos diferentes na passagem para o português “ou se ampliaram em novos ditongos ou se

Silva (2008, p. 94), por sua vez, define ditongo como uma sequência de segmento que é constituída por uma vogal e uma semivogal ou glide. O ditongo ocorre em uma única sílaba, porém, se essa sequência vocálica ocorrer em silabas diferentes, teremos um hiato, exemplo: pais e país. No primeiro exemplo temos um encontro vocálico, já no segundo temos a presença de um hiato.

Ainda em relação o ditongo, ele pode ser crescente ou decrescente. O primeiro é uma sequência de glide-vogal, ou seja, a semivogal ocorre na parte inicial do ditongo começando em [I] ou [ʊ]. Segundo Silva (2008, p. 95) “os ditongos crescente do português são sempre orais”. Já o ditongo decrescente, consiste em uma sequência de vogal-glide, e pode ser oral ou nasal.

A monotongação é o processo em que ocorre a redução de um ditongo em uma vogal simples. É também um fenômeno que existe desde a passagem do latim clássico ao vulgar e ocorre, não só na fala do povo brasileiro, como também em outras línguas românicas. Hora (2007, p. 47) afirma que esse processo de redução é bastante produtivo no português do Brasil, pois além de não sofrer nenhuma avaliação que o estigmatize do ponto de vista sociolinguístico, não representa um “erro”, já que não há alteração no sentido da palavra.

Pelo fato dessa redução ocorrer mais na fala do que na escrita é que estudiosos consideram a monotongação uma alteração apenas fonética. Nesse sentido, Câmara Jr. (1977) define monotongação como:

Mudança fonética que consiste na passagem de um ditongo a uma vogal simples. Para pôr em relevo o fenômeno da monotongação chama-se, muitas vezes, monotongo, à vogal simples resultante,

principalmente quando a grafia continua a indicar o ditongo e ele ainda se realiza numa linguagem mais cuidadosa. Entre nós há, nesse sentido o monotongo ou /ô/, ai /a/, ei /ê/ diante de uma consoante

chiante [

].

(CÂMARA JR.,1977, p.170)

Mota (2008, p.3), por sua vez, afirma que esta redução ocorre mais na fala pelo seguinte motivo: “a monotongação é mais recorrente na fala do que na escrita, já que a

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ocorre mais na fala pelo seguinte motivo: “a monotongação é mais recorrente na fala do que

oralidade permite que se tenham várias formas de dizer a mesma coisa (cenoura/cenora) das quais uma será a forma prestigiada pela norma culta”.

Nessa perspectiva, nos remetemos aos postulados de Labov (2008) ao enfatizar

a existência de variantes linguísticas, principalmente no que se refere à língua oral. Por isso, a monotongação é mais evidente na fala, e como não é uma marca de desprestígio,

é comumente empregada. Dessa forma, a seguir, apresentamos os dados coletados e

discutimos os resultados a partir de um questionamento: será que por estarem cursando

o

nível superior, os estudantes controlam com maior frequência o uso dessa variante?

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COMPOSIÇÃO DO

Para a análise do fenômeno da monotongação, contamos com uma amostra de trinta e um alunos da Universidade Federal de Sergipe, Campus prof. Alberto Carvalho, selecionados aleatoriamente, sem restrições de sexo, idade, área do curso, período cursado etc. O questionário (anexo 1) foi elaborado de acordo com a metodologia que norteia o projeto ALIB (Atlas Linguístico do Brasil, 2001), e é constituído por doze perguntas, com respostas diretas e objetivas, como: “Qual o número que vem depois do sete?”, obviamente, a resposta dada pelos entrevistados seria: oito.

As entrevistas foram gravadas e transcritas para efetuarmos as análises cabíveis

e necessárias para a elaboração de uma tabela do fenômeno em questão. Os contextos

analisados foram: oito, biscoito, travesseiro, meia, manteiga, beijo, bandeira, torneira,

ouro, peneira, peixe, roupa, totalizando doze palavras que podem ocorrer a redução do ditongo em uma vogal simples.

4 ANÁLISE DOS DADOS

Os dados foram coletados, quantificados e correlacionados aos fatores controlados: situação de fala (espontânea e controlada), sexo e período cursado pelos universitários. Depois, os dados foram submetidos às análises estatísticas, cujos resultados estão nas tabelas 1 e 2.

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Depois, os dados foram submetidos às análises estatísticas, cujos resultados estão nas tabelas 1 e 2.

TABELA 1

Monotongação quanto à situação de fala, sexo e períodos cursados pelos alunos da UFS, prof. Alberto Carvalho

Variáveis

 

Fatores

Aplicação/total

Percentual

Peso

sociais

 

relativo

 

Espontânea (fala)

 

213/402

53%

0.58

Situação

Controlada

 

153/403

38%

0.42

(leitura)

 

Sexo

Feminino

 

134/363

36.9%

0.40

Masculino

 

232/442

52.5%

0.58

 

Segundo

 

184/390

47.2%

0.52

Períodos

Quarto

 

150/187

44.5%

0.47

Sexto

 

32/78

41%

0.47

 

TABELA 2

 
 

Monotongação quanto às palavras analisadas

 

Palavras

Aplicação/total

Percentual

Peso relativo

Oito

23/123

19%

0.13

Travesseiro

174/248

70%

0.76

Manteiga

33/62

53%

0.55

Beijo

47/124

38%

0.35

Ouro

32/62

51%

0.53

Roupa

28/62

45%

0.45

Nessa perspectiva, como demonstram os resultados acima, percebemos que o

fenômeno da monotongação possui um uso diferenciado a depender do contexto social,

sexo e período em que os estudantes estão inseridos. Desse modo, chegamos às

seguintes conclusões.

4.1 INFLUÊNCIA DA SITUAÇÃO DE FALA

Os estudos realizados pelo americano William Labov (2008), referente às

variações presentes na fala de alguns habitantes de Nova York, se opõem à tradição de

se focar o estudo da linguagem no indivíduo. Já que para este linguista, o estudo da

comunidade é anterior à capacidade do indivíduo. Isso se dá porque as estruturas sociais

mudam com o tempo, e a língua, que é uma forma de representação da sociedade,

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se dá porque as estruturas sociais mudam com o tempo, e a língua, que é uma

acompanha essas mudanças. É a partir de tal pesquisa que o estudioso comprova que a variação tem motivação na estrutura social de uma comunidade de fala.

O estudo sobre a estratificação do /r/ nas lojas de departamento de Nova York mostrou-se o mais produtivo na construção de índices e parâmetros de comparação. A investigação permitiu que Labov (2008) levantasse dados sobre este fenômeno e, conforme estes resultados, ele constatou que havia variação do /r/ em quatro níveis principais: fala informal; fala formal na entrevista linguística; leitura; e lista de palavras. Ou seja, os investigados faziam uso de variantes a depender da formalidade da situação. Assim como identificamos na pesquisa realizada com estudantes universitários, uma vez que ao responder as perguntas de forma espontânea, os alunos monotongam mais em relação à situação controlada.

Nessa perspectiva, constatamos que 53% dos alunos monotogaram na situação espontânea e 38% monotogaram quando submetidos à leitura. Percebemos que isso ocorre pelo fato de existir, na fala controlada, um maior monitoramento nas respostas a serem dadas. Isto ocorre porque os estudantes estão em contato com a escrita. Além disso, é possível destacar que pelo fato da pesquisa ser realizada por alunos universitários do curso de Letras, os entrevistados procuraram falar de acordo com a norma padrão, pois têm inculcado a visão do “certo” e do “errado” nos usos da língua.

4.2 INFLUÊNCIA DO SEXO

Ao discutir a importância do uso da língua no “mercado das trocas linguísticas”, em que as diferentes variantes da língua circulam como mercadorias que se confrontam uma contra as outras, Bourdieu (1996, p.37) afirma que as mulheres “se mostram mais prontas para adotar a língua legítima (ou a pronúncia legítima). As mulheres parecem mais predispostas a aceitar desde a escola as novas exigências do mercado de bens simbólicos”. Por isso, elas utilizam com mais ênfase essa variante por facilitar o ingresso no mercado de trabalho, possuir ascensão social etc.

Nesse sentido, observamos que as mulheres (36,9%) monotongaram menos que os homens (52,55). Assim, o grupo feminino, por questões socialmente pré-

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as mulheres (36,9%) monotongaram menos que os homens (52,55). Assim, o grupo feminino, por questões socialmente

estabelecidas, como o casamento (a mulher como exemplo para os filhos) ou um diferencial para o ingresso no mercado de trabalho, utiliza com menos frequência as marcas de monotongação.

4.3 INFLUÊNCIA DA ESCOLARIDADE

Ao analisar o corpus, observamos que o fator escolarização não exerce influência significativa sobre esse fenômeno, visto que todos os estudantes entrevistados são universitários. Em termos estatísticos, como podemos conferir na tabela 1, os estudantes apresentam pesos relativos muito próximos, que é de 0,47 no quarto e sexto períodos e de 0,52 no segundo período. A partir desses dados, constatamos que, mesmo com a progressão no curso, não há mudanças relevantes na fala quanto ao uso do fenômeno da redução de ditongos em vogais simples. Assim, esse fator extralinguístico não exerce grande influência na supressão do ditongo pelos estudantes da UFS.

4.4 INFLUÊNCIA DO CONTEXTO FONÉTICO

Dentre os fatores de níveis fonéticos, a extensão da palavra em que se dá o ditongo pode ser considerada relevante. Sobre esse fator, destacamos que nas trissílabas existe maior frequência de apagamento da semivogal. Uma possível explicação para esse resultado é que os monossílabos estariam sujeitos a menores possibilidades de supressão porque a perda de segmentos fônicos nestas palavras pode acarretar, com maior facilidade, o aparecimento de homonímia. Em relação à tonicidade, não foi possível um estudo cuidadoso, pois todas as palavras que constituem o corpus possuem ditongo em sua silaba tônica.

Segundo o modo de articulação, os segmentos vocálicos acompanhados por um “r” foram os que mais monotongaram, como exemplos temos as palavras: bandeira, torneira e travesseiro. De acordo com a tabela 2 apresentada acima, observamos também que as palavras: oito e biscoito têm o uso reduzido dessa variante, pois ocorre a palatalização, que é uma marca estigmatizada no português brasileiro. Dessa forma, os

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dessa variante, pois ocorre a palatalização, que é uma marca estigmatizada no português brasileiro. Dessa forma,

estudantes, por estarem cursando o nível superior, monitoram sua fala quanto ao uso da

palatalização.

Por tanto, notamos no decorrer da pesquisa que o fenômeno da monotongação

não é uma marca desprestigiada e, consequentemente, possui larga incidência na fala

dos graduandos como demonstrado nas análises acima.

5 CONSIDERACÕES FINAIS

Diante do que analisamos, concluímos que os universitários fazem uso

frequente da monotongação. E, a depender dos fatores controlados, percebemos

algumas variações como: na situação espontânea, a perda da semivogal foi mais

frequente do que na situação controlada (quando os estudantes liam o questionário); as

mulheres controlam mais o uso desse fenômeno em relação aos homens. Já o fator

escolaridade não exerce grande influência, pois todos os entrevistados são estudantes

universitários. Na análise do contexto fonético, por seu turno, constatamos que a

monotongação é mais recorrente quando o ditongo é acompanhado por “r”, e tem uso

reduzido se for acompanhado pela palatalização, forma desprestigiada na comunidade

de fala.

REFERÊNCIAS

ALIB – Atlas Linguístico do Brasil: Questionário 2001. Londrina: Ed. UEL, 2001.

ARAGÃO, Maria do Socorro Silva de. Ditongação x monotongação no falar de Fortaleza. UFC, 2000.

BENVENISTE, E. Vocabulário das instituições indo-européias. Campinas. Editora da UNICAMP, 2 v., 1995. (título original: 1969/1970).

d’olho s sobre o desenvolvimento da Linguística. In: Problemas de

Linguística Geral. São Paulo, Cia. Editora Nacional/EDUSP, 1976. (título original:

Vista

1963).

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Editora da Universidade de são Paulo, 1996.

CÂMARA JR. J. M. Dicionário de linguística e gramática. Petrópolis: Vozes, 1977.

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de são Paulo, 1996. CÂMARA JR. J. M. Dicionário de linguística e gramática . Petrópolis: Vozes,

HORA, Dermeval da. Contribuições da sociolinguística variacionista para o ensino:

relação entre fala e leitura. In: SILVA, Camilo Rosa (org.). Ensino de Português:

demandas teóricas e práticas. João Pessoa: Idéia, 2007.

MOTA, M. E. B. ROCHA, L. C.; SANTOS, R. F. Monotongação: um fenômeno em análise. 2008

SILVA, Thais Cristófaro. Fonética e Fonologia do Português. São Paulo: Contexto,

2008.

TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística. 5 ª Ed. São Paulo: Ática, 1997.

ANEXO 1

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Paulo: Contexto, 2008. TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística . 5 ª Ed. São Paulo: Ática, 1997.

1- Cream crack é um tipo de ?

R: biscoito

2- O que utiliza como apoio para a cabeça quando vai dormir?

R: travesseiro

3- O que você calça antes do sapato?

R: meia

4- Derivada do leite, amarela, e geralmente consumida com pão?

R: manteiga

5- Contato boca a boca?

R: beijo

6- Símbolo nacional pintado em verde, amarelo, azul e branco?

R: Bandeira

7- O que é que ao abrir há liberação de água?

R: Torneira

8- Material utilizado para fazer jóias, cara e usado por muitos?

R: Ouro

9- Objeto geralmente circular, com fundo formado por fios e que retém as partes

mais grosas de farinhas e grãos?

R: Peneira

10- Animal aquático, com o corpo coberto por escamas?

R: Peixe

11- Calça, camisa e bermuda são peças de?

R: Roupa

12- Aparelho utilizado para ouvir notícias e músicas?

R: Radio

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11- Calça, camisa e bermuda são peças de? R: Roupa 12- Aparelho utilizado para ouvir notícias