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Joáo Lutz Lafetâ

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A representaçãodosujeitolírico naPaulicéia desvairada

Parao leitor dehoje, a leitura da Paulicéiadesuairadaéuma experiênciaainda capazde provocarmuito estranhamento,mas por motivos obviamentediversosdaquelesque comoveramos contemporâneos.O que estranhamosé tomar contato, pelapri- meiravez,com versosque não foram escritos "para leitura de olhosmudos", maspereseremcontados,urrados,chorados-

como diz o autor no "Prefácio interessantíssimo".Ao longo do século,apoesiamudou demais,foi baixandoderom, alterouseu registrono sentidode cortar boaparteda eloqüênciadeclamató- ria herdadado Romantismo e do Parnasianismo.Caminhamos mesmopaÍaa poesiadeolhosmudos;o canto,o urro e o choro foram substituídospor ume espéciede lowproflr do verso,que abandonou o destaquehiperbólico em favor da discriçãoame- na do coloquial.E é assimque,acostumadosà forçainsinuante de Manuel Bandeira,ao poder suaveda fala de Drummond, ao encantoantidiscursivodeJoãoCabral,éinevitávelquetenhamos a estranhasensaçãode deslocamentodiantedesseque foi o pri- meiro esforçode secriar entre nós o versomoderno, capazde representara agitaçáoe o tumulto da vida nasgrandescidades

- agitaçãoe tumulto que de resto,hoje em dia, também nos parecemtão relativos. Mas tal sentimentonão nos desobrigada necessidadede tentar compreendero fenômeno da Paulicéiadesuairadanoins-

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A representaçãodo sujeitolíricona Paulicéiadesvairada

tante de seunascimento.Como estelivro pôde entusiasmartan- tos jovensescritorese poetasda época?Como conseguiuelele- var Oswald de Andrade a escrevero comovido texto "O meu poetafuturista"?Sabemosque asleiturasfeitaspor Mário para pequenosgrupos de amigosobtinham grande sucesso,e que o próprio Manuel Bandeiraimpressionou-sevivamentecom os poemas:o autor de Carnauale de Cinza dashoras(quemaistar- de, falando sobreHá urnagota desangueemcadapoema, acharia a fórmula lapidar do "ruim esquisito"paraqualificara poesia "passadista" do amigo), saiu do encontro realizadona casade Ronald de Carvalho, em I92I, estimuladoa modificar seusru- mos criativosa partir do impacto da Paulicéia. Outras conversóes,sepodemosfalar assim,ocorreriamnos anossubseqüentes.O livro escandalizavaos arautose fascinava os espíritosmais livrese criativos.De certo modo, como um evangelhoestético,elevazia a boa nova dasmudançasimedia- tase necessárias- eo contato de suaspalavrascatalizavaasvon- tadestransformadoras,precipitando aquilo que a própria época preparara.Mantidas asescalas,ocorria com a Paulicéiadzsuaira- da algoparecido com o que Lacanl nota a respeitoda força da psicanáliseem seusprimeirosanos:suanovidadedesarmavae desconcertavaasresistências. Está claro que isto serveparâ explicar, e ainda assimape- nasem parte,somenteo impacto inicial da obra de Mário de Andrade.Certo: éprecisovê-laem seudesenvolvimentoaolongo dosprimeirosanosdo Modernismo - vê-lamodificar-see avul-

1 "Paraque a mensagemdo analistarespondaà interrogaçãoprofunda do sujeito,é precisocom efeitoqueo sujeitoa ouçacomo a respostaquelhe é parti- cular,e o privilégio que tinham ospacientesde Freudde recebera boapalavrada bocamesmadaqueleque erao anunciador,satisfazianelesessaengëncia".Escri- ras,SãoPaulo,Perspectiva,1978, pp. 155-56.

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tar, em apenasquatro anos,entre I92l e 1925,do ritmo har- mônico da Paulicéiaao registrocoloquial do Losangocáqut,e daí

é preci-

àvariedadedapesquisaetnográficado Ck dojabuti-,

soentendersuainquietanteexploraçãodetantosângulosdacul-

tura internacionale brasileira,parapodermosaquilatarsuain- fluênciadecisivanosjovenspoerasda época,nomescomo Drum-

mond, Murilo Mendesou Jorge de Lima, que chegarama assi- milar atémesmoseuscacoetes.Mas senoslimitarmosaoexame do fenômeno da Paulicéiadesuairada,veremosque seucaráter de novidadedesconcertanterem papeldecisivona recepçãoen, tusiásticadoscontemporâneos.O charmeda novidadetinha suas raízesnum impulso profundo de mudanças.Paraagircomo agiu, não podia apenasostentaralevezadasmodaspassageiras,mas necessitavaradicar-seem estímulointerior persistente,provocado tanto pelo contâtocom aspoéticasvanguardistaseuropéias,como pelavivênciaintensada nova realidadede SãoPaulono início dosanos1920.Poderíamosdizer,um poucorebarbativamente, quee necessidadeprofundaaanimaro sujeitoé a representaçáo modernado seupróprio eumoderno,emesrreitacorrelaçãocom a cidademoderna.

É conhecidaaanedotado "estouro" queestánasorigensda

Paulicéia.Em cartaa Augusto Meyer,2Mário de Andrade con- ta quedesejara,inspiradopor leiturasdeVerhaeren,escreverum livro de poemassobreSãoPaulo,semenrrerantoconseguirfa- zê-lo.Na mesmaépoca,encantadopor um bustode Cristo es- culpido emgessopor Brecheret,decidecompráJo.Semdinheiro, entraem negociaçóescom o irmão,conseguelevantara quântia necessáriae autorizao artistaa passara obraem bronze. Quan-

z Em Mário

de Andrade

escreuecartas a Alceu, Meyr

anotadaspor Lygia Fernandes,Rio de Janeiro, Ed. do Autor,

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e outros. Coligidas 1968, pp. 49-57.

e

ffi

A representaçãodo suieitolíricona Paulicéiadesvairada

do elaficapronta,afamília(alvoroçadapor maisestaloucurado doido-da-casa)reúne-separaconhecêla.Trata-sedo famosoCris- to de trancinha,de fato notávelcriaçãode Brecheret.Mas o es- cândaloé imediato:diantedaartemodernaafamíliatradicional seenfurecee recriminao compradorinfeliz.Mário defende-see

defendeo Cristo, inutilmente -

depoisdestacenameio farsescaque ele,enervadoe exasperado, sentea inspiraçãosúbita,abanca-see escrevede uma sóassenta- da o que viria depoisa constituir a Paulicéiadesuairada, Acho a anedotasignificativapor váriasrazóes,entreelaspor revelar-noso curiosofundo psicológicoda criação:a um perío- do depressivo,em queo poetaprocuraenãoencontraasuains- piração,segue-sea irrupçãode uma correntede energiacriado- ra suficientepararemovertodososobstáculos.A energiaé des- pertadapor umabrigaem família,emtorno daartemoderna- e os fatores familialarte moderna, opondo-seem táo forte ten- sáo,devemter revolvidoconflitosprofundosda personalidade (conflitosqueMário representarámaistarde,transfiguradoscom humor e freudianaironia, nos Contosnouos).Sejacomo for, o episódiomodifica p situação:o poetaque antestentaraescre'rer

ninguém seconvence.Mas é

maneirade Verhaeren",encontradentro de si a linguagem novapararepresentar-see pararepresentara suacidade.

A recepçáoda obra foí capazde captar esteélan.Foi capaz

de captartambémosproblemasque eleimplicava.Veja-se,por exemplo,o seguintetrechodeTristão deAthayde,escritoime-

diatamentedepoisda publicaçãodo livro: "Haverá muita coisa transitória,nestapoesiaa um tempo demolidorae construtora, não poderáagradarfacilmenteagrandemaioria dosleitorescujo gostoaindarefugacom razáoa certasousadiasdassíntesespoé- ticasatuais,já superadascomo vimos em outrasliteraturas- forçarâmuitasvezesa notacom o simplesintuito deespantaros

burgueses [

]

-,

terápor vezescondescendênciasexcessivascom

?Ã1

A dimensãoda noite

o seusubconscientelírico.Serátudo issoexato,semdúvida,mas

representao livro uma corajosaclarificaçáode tendências,uma visãopoderosadavida atuale de todososcontrastesda civiliza- ção moderna,uma reaçáonecessáriacontraa asfixianterotina das formasconsagradasebemgramaticadas,e,sobretudo,uma ten- tativade originalidadeliteráriabrasileira- aindapresademais

ao urbanismo talvez,parapoder alcançaruma realidademais

vasta-,

conquistadora.A poesianãoé sóisto,écerto.Nem há formulas de arte;o necessárioé quecadaartistaseprocurea si mesmo.E

o encantodavidaliteráriaéjustamenteadiversidadedastendên-

ciase o jogo daspersonalidades.O Sr.Mário deAndradeé um homem de muito espíritoparanãocompreendertudo isso,as- sim como viu em seulivro a 'blague' seentrelaçavaà seriedade. Sejacomo for, valepor toda uma vanguarda".3 O trechoélongo,maspelasuaimportânciamereceatrâns- criçãointegral.TristãodeAthaydedesconfiousempredos "exa- geros"jacobinosdosmodernistas,e não deixariade assinalá-los

aqui;masissonáoo impededereconhecerqueo livro tem "uma visãopoderosadavida atuale de todososcontrastesda civiliza- ção moderna".Estesentimentode verem-seretratadosfoi, tal- vez,o queentusiasmouoscontemporâneos. Interessante,também,é o fato de que o próprio Mário de Andrade,emboraadmitindo osdefeitosdo livro, timbrasseem

mascheiade força,de possibilidades,de inteligência

3 TristãodeAthayde,"Vida Literária" , O Jornal" Rio de Janeiro, 211111923. Transcritoem Marta RossettiBatista,Telê PortoAnconaLopeseYoneSoaresde Lima Brasil:prìmeiro tempoms6lsTnisya- 1917-1929, Documentação,SãoPau- lo, IEB-USP,1972,pp.200-207.A citaçãoseguinte,deMário deAndrade,está em "Crônicas de MalazarteVII", originalmentepublicadanaAmérìu Brasìleìra, Rio deJaneiro,abril de 7924,e republicadanestelivro (pp. 71-72).

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verneles,aomesmotemPo,qualidades.Posiçãoparadoxal,que eleexprimiunaépoca (1924)com umaintuiçãofulgurante: "Foi nessedelírio de profunda raivaque Paulicéiadesuairadaseescre' veu,no final de 1920.Paulicéiamanifestaum estadode espíri- to eminentementetransitório:cóleracegaque sevinga,revolta quenãoseesconde,confiançainfantil no sensocomum dosho- mens.Estessentimentosduram pouco.A cóleraesfria'A revol-

ta perdesuaï^záodeser.A confiançadesilude-senum segundo.

Comigo durarampoucomaisqueum defluxo.Passaram.Deve- ria corrigiro livro e apagar-lheestesaspectos?Náo. Os poemas foram muito corrigidos.Muita coisadelessetirou. Alguma se

ajuntou,masosexageros,tudo quantoererePresentativodo es- tado da alma, e não desfalecimentosnaturaisem toda criação artística,aí seconservou.Uma obra de artenáo é expressivasó pelasbelezasque contém. Ou o Sr. Alberto de Oliveirâ seria superiora CastroAlves.Muitas vezesosdefeitossãomaisinte- ressantese comoventesque asbelezas.Direi mais:muitasvezes

o defeitoé uma circunstânciade beleza". Estaidéiafinal, de que "o defeitoé uma circunstânciade beleza",parece-mede grandeimportânciaparaentendermoso alcancee a repercussãoinicial da Paulicéia.Não pelo sentido comum, bem banal,dequeuma obrapossasercomoventepela granáezaquenelafoi tentada,emboranáotenhasidoconseguida. Isto talvezsejao queMário deAndrade,em Parte' quis dizer,e

tambémnãodeixadeserverdadeiro:defato,háobrascujogran-

de intuito -

de CastroAlves,lembradopor Mário, poderíamospensarem ÁlvaresdeAzevedoou Lima Barreto'Masvejoo problematam- bém por outro lado. Quero lembraruma frasedeAdorno, cujo

alcanceparece-mepertinenteparaa questãoquediscutimosaqui. "Quase sepoderiamedir a gtandezadaartedevanguarda",escre- veAdorno, "com o critériodesaberseosmomentoshistóricos,

apesarde não alcançado-

nosemociona.AÌém

A dimensãoda noite

comotais,fizeram-senelaessenciais,ou, pelocontrário,afunda_ ram-senaintemporalidade."a

ora, justamente o "momento histórico"fez-seessencialna Paulicéiadesuairada-Aquelesque depreciamuma obra por ser eladatada,querendodizercom issoque elanão superasuacir-

cunstancialidade -

deveriam

refletirmelhorsobreessafrasedeAdorno. Ela indicaqueo mo-

e portantonãoseuniversaliza-

mento histórico moderno -

mundo, o esmagamento da subjetividade, a negaçãodo huma_ no (vários nomesdo mesmofenômenobásico)tornou-seessen- ciaÌna artemodernaporqueseincorporou à sualinguagem,vi_

rou procedimento artístico,foi integradono coraçãod" for-"

de tal

exa_

geros",pois eleseram"bem representativos" do "estado da alma"

como bem viu Mário deAndrade,eraprecisomanreros

a coisificaçáo,aprepotência do

modo que fez-se"representarivo". No casod.a paulicéia,

- maisquedocumentocondescendente do subconscientelíri- co,comopensavaTristão,eleserammarcasnegativas(quase no

mesmosentidoem que sefalade negativofotográfico)de um

momento histórico. Era atravésdestasmarcas_exageros que o

mundo da negaçãoficavarepresentado nospoemas,for-"r.r

gativasbem dignas dagrandezada arte de vanguarda. Mostrar como sedá issona paulicéia desuairadaédifïcil e complexo.Parteda demonstração, entretanto,é o que tentarei

fazeraqui, buscando focalizaro problema

sujeitoÌírico,como sesabecentralna artemodernadesdeBau- delaire,e que asvanguardas do começodo séculotenraram re- solverem duasdireçóesprincipais:ora equacionando a relação

da representação do

a Theodor ìW. Adorno, "Lukács y el equívocodel realismo,,,in Realismo:

mito,doctrinaotendenciabisairicalBuenosAires,Tiempo Contemporâne o, 1969,

p.49.

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sujeito-objetoem formasconstrutivaseobjetivas (nalinha do Fu- turismo,do Cubismoe do Abstracionismo),ora invertendoa ênfrueatravésda elaboraçãodeformasdestrutivasesubjetivas(na linha do Expressionismo,do Dadaísmoe do Surrealismo).t Essadistinção,feitaassimem traçostãolargos,serveapenas paranosmostrarcomoa oscilaçáoentreuma arteextremamen- te impregnadade subjetividadee outra marcada,ao contrário, pelaobjetividadedasformas,acompanhoude modo profundo o desenvolvimentodasvanguardashistóricas.No casodaPauli- céiadesuairada,como em tantos outros, a separaçãodaslinhas nãosedáinteiramentebaseadano "moto lírico",naliberaçãodos impulsosdo que Mário chamavade "subconsciente", a lingua- gemtendeparaa linha destrutiva,deforte influênciaexpressio- nista;contrabalançandoisso,entretanto,évisíveltambémtodo um esforço(explicitadona teoriado versoharmônico)de carâ- ter construtivo,a tendência "pronunciadamente intelectualista" do livro, à qualo poetaserefereno "Prefácio interessantíssimo". A críticaatualassinalouestatensãonaobradeMário, mos- trando como elaé constitutivade seuestiÌo.RobertoSchwarz, por exemplo,no seuensaio "O psicologismona poéticadeMá- rio deAndrade",referiu-sea "polaridades irredutíveis",que di- lacerariamo pensamentoestéticodo autor.6Luiz CostaLima, em "Permanência e mudançana poesiade Mário deAndrade", partiu destaobservaçãode Schwarzsobreo "traço psicologizante" paradesenvolvera tesede que a poesiamário-andradinadeixa

t A distinção entre aslinhas "impressionista-cubista-abstracionista" e "pri-

mitivista-expressionista-surrealista" ratura brasileira,São Paulo, Cultrix, dernistas da fase heróica baralhavam

está em Alfredo 1970, p.378. as duas linhas".

Bosi, História concisada lìte- O autor observaque "os mo-

6 Rob.rto

sltelra.IYO).

Schwarz, A sereìaeo desconfiado,Rio de Janeiro, Civilização Bra-

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escaparaquilogue,desdeBaudelaire,forafundamental"ao sen-

timento da poesiamoderna: o impactoda grandecidade".Isso sedaria na medidaem queMário, levadopelodesejode "conri- nuar a exploraçãode seueu", resquíciode um subjetivismoro- mântico, é ìncapazde representara cidade,pois roma-aapenes

para logo mergulhá-la"no anonimatoda subjetividadepoética".7 Adiante voltarei a esteponto, everemosque talveznão seja isto exatamenteo que ocorre.Por enquanto,observemosquea tensaoscilaçáoentre subjetividadee obietividadefoi assinalada pelos contemporâneosda Paulicéiadesuairada. Já Ronald de Carvalho, escrevendosobreo livro em 1922,anotava:"Seu im- pressionismoé aomesmo tempodeformadoreexpressionista".S

E Carlos Alberto de Araújo, em anigo de Klaxon,desenvolviaa mesma idéia: "Dissemos que Mário é um objetivo.Mas é um objetivo paradoxal,isto é,quetoma à cidadeem queviveaqui-

lo apenasquelhe pode servir.É portanto um objetivona sense-

çáo (recebe tudo, emborasóguardealgumacoisa),maséum sub- jetivo, seassimpodemosnosexplicar,na expressão".E prosse- gue: "Este subjetivismo,aliás,como é naturalnum livro de se-

paração,de rompimenro enrreo eu quepossuíaartificialmente

e o eu que afinal reconheceuem si mesmo,é um subjetivismo

exagerado".9

Estasobservaçõessãodo maiorinteresse,poismostramco- mo os próprioscontemporâneossentiama tensãosignificativa

7 Luiz CostaLrma, Lira eantilira (Mtirio, Drumrnond,Cabral),Rio de Ia-

neiro,CiviiizaçãoBrasileira,1968.

8 Ronaldde Carvalho,"Os independentesde SãoPaulo",artigo de 1922,

republicadoem Brasil:primeirl tem?omodzrnista,op.cit.,p. 198-200.

e CarlosAlberto deAraújo, Klaxon,n" 7, nov. 1922,p. I 3, ediçãofac-simi-

lar com introduçãodeMário daSilvaBrito,SãoPaulo,MartinsISCET,1972.

A representaçãodo suieitolíricona Paulicéiadesvairada

que há no livro, entreâ representaçãodo eue a representação da cidade.Impressionismoe expressionismo,naspalavrasde Ronaldde Carvalho,ou objetivismoe subjetivismo,na formu- laçãode CarlosAlberto deAraújo, o movimento tensoaponta paraasduasgrandeslinhasquedividiram asvanguardas.No meu entendimento,esteponto deirresoluçáo- quetrazconseqüên- ciasgravespareo acabamentoformal dospoemas- é de mui- ta relevânciaparasediscutirosmodosde representaçãodo su- jeito lírico na poesiâda modernidade. Quando CarlosAlberto deAraújo sugerequeMário éobjetivonasensação,emborasub- jetivo na expressão,suâmâneirade formular o problemalem- bra-mea análisefeitapor Auerbachdosprocedimentosnarrati- vosde escritorescontemporâneosda Paulicéia:Virginia-Woolf

e Proust.Auerbachmostra,em "A meiamarrom", que nelesos

recursosdo foco nerrativovisama objetivar,ao máximo possí- vel, a reproduçãodosmovimentosda consciência,maso resul- tado final é paradoxalmenteo máximo de subjetivaçãoda nar-

rativa.O eu quenosfalaescaPaem meio a meandrosdepensa-

mentos,senseções,desejos,percepçóesincompletasetc.Ou seja:

o eu aïtifrcial e uno do séculoXIX dá lugar a rm eumúltiplo e

desagregado,de um "subjetivismo exagerado"-

CarlosAlberto deAraújo. Talvezsejaesteo grandeproblemadelinguagemda Pauli-

céiadesuairada:equilibrara notaçãoobjetiva dosaspectosda ci- dademodernacom o tumulto de sensaçóesdo homem moder- no, no meio da multidão. Estejogo arriscado,do qual Prouste

Virginia'Woolf sesaíramtão bem, nem semPre-

avedade:muito raremente-

te primeiro livro. A delicadacristalizaçáodo lirismo, quesegundo

Hegelconsistenapassegemdetodaaobjetividadeàsubjetivida-

6srns dilix

s paradi7sl

1ç5slvsu-sea favorde Mário nes-

de,é perturbadapelo movimento incessanteentrea Paulicéiae

o desvairadotrovadorarlequinal.Mas o fatodeter tentadoisso'

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de ter tentadoforjar essamodernidade da representação,foi o lancefeliz de Mário de Andrade: nesseinstante,e reromando agoraa frasedeAdorno, um momento históricofez-seessencial na suaobra. Ou por outraspalavras:o mesmomovimento que pertur_

ba a cristalizaçãodo lirismo, cria nospoemasuma d.issonância queé índicedasdissonânciasdavida moderna.o lirismo difïcil e incompletorepresenraasdificuldadese incompletudes do su_

jeito lírico na modernidadeincipiente.Nestecaso,estariabem

justificada a intuiçãodeMário, aodizerquemuitasvezesosde- feitossãocircunstânciade beleza,e ao recusar-sea limpar o li-

vro dosexagerosapontados.A tensãotranspereceporque estáno fundo-de-origem da forma,nasrelaçõesentrerecidaspelo sujei- to lírico com a realidadequeo circundae quepor issomesmoo artistanão consegueresolver(com prejuízo,é claro,do equilí-

brio formal dospoemas,coisaque uma estéticaclassicizanievê naturalmentecomo defeitoe mau gosto).

Seessahipótesefor verdadeira,estudara representaçáo do sujeito lírico na Paulicéiadesuairadae algocomo estudarsuas "vicissitudes". Talveznão sejaapenas,como pensaRoberto Schwarz,queo psicologismoleveapoéticadeMário deAndrade

a um dilaceramenroentre"polaridades irredutíveis".E talveznão sejatambém,como achaLuiz CostaLima, que o poema-calei_

doscópiorepresentativoda cidademodernasejaprejudicadopor umaconsumaçãosubjetivado assunro.Há tudo issosemdúvida,

masa mobilidadedo sopropoéticona paulicéiaé muito maior do queessasformulaçóesparciaispossibilitamenrrever.De fato,

a subjetividadeestáali submetidaagrandepressão,que estoura

tudo -

mentação.Como no casodaspulsõesanalisadaspor Freud,nun_ casepodeapreenderdiretamenteo sujeitolírico, que deslizade

metamorfoseemmetamorfose,oranuma,or^.,o.,,â forma.Suas

o eu,a cidade,alinguagem-,

rudo submetendoà frag-

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vicissitudesdeixammarcasna linguagemdospoemas,cicatrizes que testemunhama complexidadedasforçasliberadorase re-

pressivasem jogo. Veiamosagoracomo sedá esse Processo em algunsdos

Poemas. Antes,o título do livro: há neleum cruzamentocurloso'

talvezreminiscência (voluntáriaou não) de Émile Verhaeren' uma dasobrasdo poeta belgaintitula-se Lesuillestentaculaires

précédéesdu

Campagneshallucinëes,lOo que sugerea possiyef

j,.rnçao, no

titulo Paulicéia desuairada,do substantivo "uillei'

qualificando as"camltagnes")' Atransposiçáorealizadapor

i"ni.,

Mário àeAndrade cria efeitosnovos.Em primeiro lugar," uilles" é substituídopor "Paulicéia",o plural abrangentee universali-

zantecedepassoà limitaçãoprecisado objeto' Issoparecesero primeiro indício de uma tendênciaà individualizaçáoconcre-

tit dor^do materialtemático.Mas a operaçãoseguinte,a troca dos adjetivos,é ainda mais sugestiva.A aplicaçáodo adjetivo "tentaculares"àscidadesmodernasdecorredeum modo devê- las.comoseresvivose monstruosos,cujasruase Praçes seesten-

dem de maneiraanimal, enleandoe apreendendoos homens:

,, Leursd.oigtsuolontaires,qui secompliquent/De mille doigtsprécis et métalliques".11 Seniimosdiantedas "cidadestentaculares"uma misturade

fascinaçáoe repulsa;fascinaçãopelo movimento poderosoque elascontêm, repulsapelapartemonstruosae envolventedesse

mesmomovimento:

10 Émile Verhaeren, Les uilles tentacalaires Precedées d.esCampagnes hallu-

cinées,Paris,Mercure de France, 1917' Consultei, no IEB/USP' o exemplar que pertenceu à biblioteca de Mário de Andrade'

11 E. Verhaeren , o?. cit., p. 107 .

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A dimensãoda noite

"La plaine est morne et morte -

et la ville

Telle une bêteenormeet taciturne

Qui bourdonne derrièreun mur,

Le ronflement s'entend, rythmique et dur,

Des chaudièreset desmeulesnocturnes [

]"12

Os "mil dedosprecisose metálicos"desaparecemno título deMário, substituídospor "desvairada", assimseatenuandouma dasconotaçóes.E emborasejamantida aidéia de movimento anormal,desatinado,sentimosdesaparecera repulsae aumen- tar a aproximação.A dupla substituiçãotem como efeitoprin- cipal um sendmentode proximidade.Nomeando e individua- lizandoseuprimeiro motiyo temático,acidade-Paulicéia,o poeta sefazmaisligadoa ela;atribuindolhe a seguirseupróprio esta- do deânimo,criaumaidentidadeentreosdois.Poisqueméque seencontredesvairado,o eu ou a cidade? A vida modernadesvairao poeta,e estetransfereseudes- vairismoparaavidamoderna.A cidadenão surgeapenascomo

o "correlato objetivo" (Eliot) dos sentimentosdo eu, pois tais sentimentosexistemem funçãodacidade,demodo quea auto- descriçãotem de sertambéma descriçãoda cidade. Quero di- zerqueno câsodeMário deAndradenãosetratasimplesmente de buscarfora da subjetividadea imagemobjetivaque a repre- sente(comonosmauspoetas),masqueestesujeitoda poesiaé, elemesmo,formado pelarealidadeque cânta,e estátão ligado a elaquantoo título geraldospoemasprocurasugerir. Insisto nessespormenoresapenaspara destacaro proce- dimento que é básicona Paulicéiadesuairada:diante da paisa- gemcitadinao poetanãoregistrasimplesmenteafaceexternaque

12 lbidem,pp. 105-106

JbU

A representação do suieitolíricona Paulícéia desvairada

seusolhos enxergam, masprocura em suassensaçóes' nasim-

pressóesque

i-"g.rr.úrrica edúplicedeambos' Já no primeiropoema' "Ins-

" pir"ção", percebe-seque SáoPaulovai servir-lhemenoscomo

ãbj.,o deãescriçáoe

a ciãadedeixadentro dele'asmarcasque revelem

maiscomo uma espéciede musaconcreta

proximidade despertao canto'No verso "Sio

. Áod.rrr", cuja

Paulo!comoçáoãe minha vida".'' é possívelnotar com clateza

estafusáo:acomoçãodo

na,a

poetaseidentifìcacom a realidadeurba-

exclamaçáo (funçáodo eu) é o mesmovocativo (funçáodo

SãoPauloédirigido, comoseapelasseàvindadamusa'

,.rj q,r. a

A identificaçáo entreo espaçoexternoe a interioridade é

epígrafe ("Ondeaté na forçado verãohavia

deventosefriosdecrudelíssimo inverno")' Que su-

po, meio dalinguagemantitética ehiperbólica' um espaço

perceptíveldesdea

i.-p.r,"d.,

g.r",

mítico eprimordial, lugarondesedefrontam elemen-

tos contrários. No corpo do poemaestacontradiçáo' digamos'

L.t"fori.o,

meteorológica e elementar, é retomada'passandoparao traie er-

dãpo"," e daí,de novo' Para acaÍ^cterlzação da cidade:

lequinal

"Arlequinal! Trajedelosangos"'Cinzaeouro"'

Luz e bruma," Forno e inverno morno"'"

Assimsefundem osdois,o arlequim (cujaroupadourada

ecinzenrarefleteluz ebruma,calore frio) eacidade,lugarcon- uaditório ondesedesenvolveum confronto de forças.13A dua-

lidadedascoresque lutam no trajede losangosé a dualidadedos elementos quelutam naPaulicéia,eambosencontram â mesma representação simbólica:arlequinal!

cidadearlequinal, cuja dualidade contém a dualidadedo eu, espe-

lhadoe revestidopor elacomo Por um trajede losangos"' José Miguel'W'isnik'

I3 Na

O corodoscontrários:a rnúsìca€rnturnoda Semanade22' SáoPaulo' DuasCida-

des,1977, P. 122.

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A dimensãoda noite

KrystynaPomorska,utilizandoosconceirosde similarida- de e contigüidadetaiscomo definidospor Jakobson, e aplican- do-osà relaçãomensagem/emirente,concluiquea poesiameta- fóricapoderia"ser compreendidacomo uma espéciede poesia naqualamensagemestáintimamenteligadaaoemitente",eeste

setorna "uma espéciedefiltro em quetodasascoisassefundem atravésdesuaprópriapersonalidade".CriadapeloRomanrismo, 'levada eoextremopeloSimbolismo,a poesiado "ego lírico" foi aindaadotadapelosacmeíras,queemborainsurgindo-secontra

a "predominância do espiritualsobreo concreto",mantiveram intacto o "princípio metaforicode transformaçã.o".14 Estasduascaracterísticasdo acmeísmorusso,taiscomo des- critaspor Pomorska,servemparagrandeparteda dicçãopoéti- cadaPaulicéiadesuairada.Trata-sede uma poesiado "eu lírico",

muito marcadapela função emoriva,mas trata-setambém de uma poesiamuito concreta,no sentidode que a paisagem,em- borafiltradapeloemitente,deformadamesmopor ele,tem não âpenasuma enorme presençanos poemas,mas também uma paradoxalautonomia.A imagem(arlequinal é o poetae é a ci-

dade)que une e concilia os dois pólos, identificando-os,náo apagaentretantoasdiferençasentreeles. "Os elementosdaima- gem",comodiria OctavioPaz,"náoperdemseucaráterconcreto e singular."l5 Assimcomo não secompreendea cidadesemas deformaçõesdo eu,tambémnãosecompreendeo eusemasde- formaçóesneleprovocadaspelacidade.Vejamos,como exemplo destainterrelação,o segundopoemado livro:

14 KrystynaPomorska,Formalismoefuturismo,sãoPaulo,Perspectiva,1972,

pp.108-109.

t5 Octavio

Paz, Signosem rotação, São Paulo, Perspectiva, 1972, p. 38.

362

A representaçãodo suleitolíricona Paulicéiadesvairada

"O rRovRooR

Sentimentosem mim do asPeramente

dos homens das Primeiras eras"' As primaveras de sarcasmo intermitentemente no meu coraçãoarlequinaÌ"'

Outras vezesé um doente, um frio na minha alma doente como um longo som redondo"'

Cantabona! Cantabona!

Dlorom

Sou um tuPi tangendo um alaúde!"

O poemaestáde novo estruturadosobreum jogo de opo-

sições,d.rt"

dasprimeiraseres"aproximam-se,atésonoramente,das "prima- ',rar", dasarcasmo",eambosopõem-seao "frio" e à "almadoen- te". A onomatopéiadossinosduplicaa oposiçáo,contrastando o repiquefestivode "Cantabona!Cantabona!"àplangênciame-

rra,entreo "primitivo" eo "civilizado"'Os "homens

lanólica de "Dlorom

ma obedeceaomesmoprincípioanritéricoestruturadorde "Ins- piração":asprimaverasdaqui equivalemà forçado verão,à luz ."1o, de lá, assimcomo o frio e a doençaequivalemà bru-

. ma "o e aosfrios de crudelíssimoinverno.De novo, SáoPauloe o

trovadorseidentificam,e de tal maneiraque osúÌtimosversos dosdoispoemassãoperfeitamentesimétricos:SãoPauloé "Ga- licismo " b.rr", nos desertosda América", isto é, civilizaçãoe

barbárie,enquantoo trovadoré "tupi tangendoum alaúde",is- to é, primitivo e civilizado' Èr,"r.to, aqui em meio ao maiscompletosubjetivismo,ede tal modo que a cidadenem é referidanosversos'Suapresença'

".

Bem observada,a construçáodo poe-

no entanto,édeterminante.Aliás,entretodasascomposiçóesdo

363

A dimensãoda noite

)parecesero casoextremo

de expulsãodos elementosdescritivose de pura expansãodo sujeito.Apesardisso,note-sequeum cerrotom analíticoperma-

necepresenteno poeme,que o eu toma-secomo objeto e fala diretamentesobresi mesmo.Daí o procedimento,nadasimbo- lista,da "referência diretaao objeto ao invésde alusõesindire- tasao mesmo",como diz Pomorskasobreo acmeísmo;daí, tam- bém, o fato de uma poesiatão carregadade subjetividadeper- manecer,no entanto,muito pouco introspectiva. Quanto a esseúltimo ponto, seriabom insistirum pouco mais. O terceiropoemada Paulicéiadesuairada,mantendo ain- da o procedimentobásicoda transformaçãometafórica,deixa entrevercom nitidezasesferasdistintasdesujeitoe objeto,for- çando a partede oposiçãoentreambos,masmantendoaindaa identidade.

livro. "O trovador" (etpour cause

"Os conrl;os

Monotonias dasminhas retinas

Serpentinasde entesfrementesa sedesenrolar

Todos os sempresdasminhas visões!'Bon giorno, caro.'

Horríveis ascidades! Vaidadese mais vaidades

Nada de asaslNada de poesia!Nada de alegria!

Oh! os tumultuários dasausências!

Paulicéia -

e os jorros dentre a língua trissulca

de pus e de mais pus de distinção

Giram

Serpentinasde entesfrementesa sedesenrolar

a grande boca de mil dentes;

homensfracos,baixos,magros

Esteshomens de São Paulo,

todos iguais e desiguais,

A representaçãodo suieitolíricona Paulicéiadesvairada

quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,

parecem-meuns macacos'uns macacos'"

A identidade (ea fusãosujeito-objeto)é criadano Primei-

ro verso,quandoa monotonia da multidáo é deslocadae atribuí-

da àsretinasdo poeta-

posiçáometafórica:oscorteiossão "serpentinasde entesfremen- tes".A seguiro terceiroversorePeteo Primeiro: amultidáo évista de novo como monotonies (metaforizadasem "Todos ossem-

pres")dasretinas (tambémmetaforizadasem "minhasvisóes")'

Todasestastransformaçóes Permitem-nos âfirmarqueo princí- pio construtivodalinguagem,nestaprimeiraestrofe,éa expan- sãodo discurso,por meio da qual o poeta'insistindosemprena

mesmasignificaçãocentrel,ampliao númerode signose busca precisarcom maior forçaexpressivaaquilo que desejadizer' O primeiro versojá contém,implícitos,osdoisversosseguintes'que vãoapenasexpandi-lo,defini-lo discursivamente: "monotonias dasminhasretinas" = "serpentinasdeentesfrementes" = "todos

ossempresdasminhasvisões". Estatendênciaà definiçãodiscursivaé uma dascaracterís-

ticasformaisdapoesiadeMário' A redundânciado significado, compensadapelamultiplicaçáo dossignificantes'revelauma in- clinaçãoà explicitaçãoprogressivado sentido;daíum afastamen- to do modo alusivode dizere uma aproximaçãoao modo dire-

uma metonímia.Depoisvem a trans-

to, quealiássurgeplenamentenosversosquatroe cinco: "Hor- ríveisascidades!/Vaidadese maisvaidades.'.".

A nomeaçãodiretaeliminaa possibilidadede hermetismo

subietivistae concretizaa realidadeque sequer descrever'En- tretanto,emboraa metáforaestejatraduzida,a linguagemcon- tinua a sermetaforica,a óticado emitentecontinue a afetara mensagemea tingir o realrepresentado.A Paulicéiasetransfor- ma em "grandebocademil dentes" (eiscomosetransfiguraram

36s

A dimensãoda noite

os " mille doigtspreciset métalliques",de Verhaeren),e asmulti-

dóessão"pus de distinção".Na última estrofea metáforadesa-

Es_

teshomensde SáoPaulo,/todosiguaise desiguais,/quandovi_

vem dentro dosmeusolhostão ricos,/parecem-meuns maca_ cos,unsmacacos".

pârecede novo, paradar lugar à explicaçãoquaseprosaica:

Parece,portanto,quehá doisprocedimenroschocando_se:

a metáfora,presaà posturasubjetiva,à poesiado ,,ego lírico,',e

a definiçãodiscursiva,presaà posturaobjetivae intelectualista.

F.ssaúltima rompe muitas vezesa cristalizaçãolírica e provoca dissonâncias.Na Paulicéiadesuairada,aliás,asdissonârrciaspa-

recemserdedoistipos:ou desejadas,procuradas(como asantí_

tesesluz rbruma, forno rinverno morno), e queseintegramao

tom do poema,ou involuntárias,que escapamao

sujeitolírico (como estaestrofefinal do poema

rompendoa unidadede tom, por causada durezaprosaicaque

resultada explicitaçãodesentido,eproduzindo um efeitop

de coisanão resolvida. Penosoparanós, bem entendido.É possívelque estejaaí

um dos "defeitos" queMário deAndradedeixoufi.",

domínio do

,,Os correjos"),

rÀro

po.

.or_

siderálos "circunstância de beleza",restemunhas de ,,r" ,.rrr"-

tiva derepresentarem linguagemmodernaaaventurâdo homem

na grandecidade.A ruptura de tom é uma dasvicissitudesdo sujeitolírico: desequilíbrioformal,defeitoestético(se noscolo- camosdaperspectivadeuma estéticada unidadee do equilíbrio), aponta-nosentretanto,comodissonânciaqueé, paraasgrandes

tensõesda vida (e da arte) daquelaépoca.É sinal essencialdo momenrohistórico.

A grandepoesiado Modernismobrasileirosósefarámais

tarde.O próprio Mário terásuafasemadura,esplêndida,repre_ sentadapor algunspoemasbelíssimosdo final dosanosW)O

dosanos1930:"Poemas daamiga","poemas danegra",

e

.,Giras_

366

A representaçãodo suieitolíricona Paulicéiadesvairada

solda madrugada"

to da descobertae da invenção;suasdissonânciassoamcomo anúnciosde um novo tempo,signosde luta criativa. Paraconcluir,gostariadecomentarbrevementeaindadois poemas,duasdasquaffo paisagensqueeleincluiu no livro. Ve- remoscomo a representaçãodo sujeitooscila,no primeiro caso, entrea expansãolíricae a interferênciaprosaica,masem com-

pensação,no segundocaso,conseguegrandeunidadeexpressiva.

O

arrancoinicial,porém,guardao encan-

"Parsactv

N"

I

Minha Londres dasneblinasfinasl Pleno verão. Os dez mil milhóes de rosaspaulistanas.

Há neve de perfumes no ar.

Faz frio, muito frio

E a ironia das pernas das costureirinhas

parecidascom bailarinas

O vento é como uma navalha

nasmáos dum espanhol.Arlequinal!

Há duashorasqueimou Sol. Daqui a duas horasqueima Sol.

Passaum SáoBobo, cantando, sob os plátanos,

um tralalá

Necessidadea prisão

pâra que hqa

Meu coraçãosente-semuito triste Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas

dialoga um lamento com o vento

A

guardacívica!Prisão!

civilizaçáo?

Meu coraçãosente-semuito alegre! Este friozinho arrebitado

dá uma vontade de sorrir!

367

A dimensão da noite

E sigo. E vou sentindo,

à inquieta alacridade da ìnvernia,

como um gosto dè lágrimas na boca

,,

A primeira esffofe desencadeia uma sériede

imagens que

paracompor.a prerendidâ paisagem. Na aparêná", o r|'r_

,r-"quadro ondesole nebli_

.*ord.

por

trása.

."ã

roupaarlequinal

da cida_

jeito

na seconfundem. Na verdade, .1. ,.

noração, de cadaimagem, vestindo a

:ervem

estáausenre e sóvemos,u.gi,

de.É um

crever: asneblinas opacas, o, p.rfu

neve'o frio, o ventocomo uma

tido pelapele,como sea cidadereyesrisse o

procsso sensível, concrero, quaseepidérmico de des-

,

que setransformam em

navalha aorr"arr. -

tudo ésen-

homem.

* Também-a linguagem é,

em.conseqüência, sensível e opa_

u_

.ntrr.iado

como,

,.

"l_

ca.Possoparafrasear aestrofeereduzi_la

"

por exemplo,"no verão da paulicéia a neblina . o .,r.rr,o

ternam com o sol". Mas a

naso núcleológico

tividade quetransfigur"

na linguagem aréque a linguagem

paráfrase assimrealizada nosda "p

eperdeo queéfundamental: a flama,;*j;

a linguagem, ;;;;,;;

p,*.i,lìã

-.r"foricamente

mesmar. f"!, p"

Nestemomento do poema o lirismo

te realizado, semprejuízo paraaobjetividade.

paraâsestrofes seguintes, a tensão vai diminuindo,

afrouxa e perde a

enconrra_se plenamen_

Mas, ,r" p"rr"g.-

afi;gró;

versos. A

qual,rlade compacra dosprimeiros

partir da segunda estrofe o movimenro lírico vai sendorefreado

aospoucos, e

um pensamento maisnítido-e

maisexplícita, eo reormeta6rico dimïnui na mesmaproporção.

assensações,livremente registradas cedemlugar a

maislógico.

A linguagem

,. ,ãrr"

r6 T. \tr. Adorno, .,Discurso sobrelírica

Notas deliteratu_

Ariel,s.d.,pp. 60-61 [háedição brasileira: vernoraà p. 101deste

y sociedad,,, in

ra,.Barcelona,

volumeÌ.

368

'

A representaçãodo sujeitolíricona Paulicéiadesvaìrada

Esteponto do poemaé importante pela suaintençãode combateestético.O SaoBoboquepassaemliberdadesobosplá- tanos,cantarolandoo tralaláirracional, é talvezuma boae irôni- caalegoriada "loucura" modernista.A guarda-cívicae a prisão parnasianassãoparodiadaspelo poetanosversos "Necessidade a prisáo/ para que haja civtlízação?",uma redondilha e um de- cassílaborimadosem -ão,o "admirabilíssimo ão".Admitida tal leitura,haverianapassagemuma correspondênciaentrelingua- geme intençãoparódicae o tom irônico predominarianela.O problemaé que o lirismo do poemaé rompido pelasúbitair- rupçãodaparódia,a coerênciainternadacomposiçãoé abalada e asdissonâncias- antesintegradas- produzemagoradesa- gradávelefeitode irregularidadeformal.

E aindamais:a prisãoparnasiana,mesmocombatida,vai acabarpor impor algodassuaslimitaçõesaopoeta.A estrofefi-

nal ("E sigo.E vou sentindo,/à inquietaalacridadeda invernia/

comoum gostodelágrimasnaboca

fecho-de-ourobem ao gostoparnasiano,sejapelaforma decas- silábicadosdoisúltimos versos,sejapelafacilidadesentimental da imagem,sejapelo fato de buscarresumirlapidarmenteasten- sóestodasqueatravessamo poema.

"),constituium verdadeiro

É importanteobservarque asruprurasde tom náo sede-

vem,noscasosexaminados,aum subjetivismoexcessivodo poe- ta. Pelocontrário,é a definiçãodiscursiva,a necessidadede ex- plicitaçáodo sentidoque interferena maior parte dasvezese destróia qualidadelírica.No poemaqueestemoscomentando, a rupturaparecedar-seem decorrênciade uma espéciede con- flito de linguagens:a grafiado lirismo, responsávelna primeira estrofepelo acúmulodesensaçóessimultâneas,permite entretan- to queafloremtambémvelhoshábitosdeversejar,anterioresao estouroda Paulicéia. "ljso de cachimbs"- 2n61suMário no "Prefácio interessantíssimo".Mas a intromissãodo Parnasianis-

369

A dimensãoda noite

mo nestepoemabem podeserconsiderada,ainda,como um ou- üo sinal do momento histórico. De outrasvezes,entretanto, o dado bem lançadofavorece o poeta.É o casodo seguintepoema:

"PRrsecev No3

Chove?

Sorri uma garoacor de cinza,

muito triste,como um tristementelongo

A casaKosmosnãotem impermeáveisem liquidação

Mas nestelargo do Ârouche

possoabrir o meu guarda-chuvaparadoxal, estelírico plátanode rendasmar

Ali em frente

-

Mário, põea máscara!

-

Tensrazão,minha Loucura,tensrazão.

O

reideTule jogou a

taçaaomar

Os homenspassemencharcados ,

Os reflexosdos vultos curtos

manchamo petitpaué

As rolasda Normal

esvoaçamentreosdedosda geroa

(E sepusesseum versode Crisfal

no De Profundis?

)

De repente

um raio de Sol arisco

riscao chuviscoao meio."

O procedimento básico é o mesmo que vimos desde o poe-

ma "Inspira$o" e que consiste em desenvolver o jogo de oposi- çóes entre luz e bruma, chuva e sol. Aqui, porém, os harpejos

harmônicos quese desaparecem, e os versos se tornam melódi-

370

A representação do suieitolíricona Paulicéia desvairada

cos- a tensáodiminui, sutiliza-se em contrastes aPenasesbo-

triste, o plátano substitui os impermeáveis'

a lo.ra.rr" tem

ç.dor, ^ paÍoesorri

Íazío, assombraspesadasdos homens oPõem-se

aoscorposlevesdasmoças'A

oporiçá.rt

imagem final suavizatambém as

o raio de sol é

ariscoe a' 3aÍoa é chuvisco' Mas este

amortecimentos náo levaa qualquerpenumbrismo sim-

fo"listatardio. logo pelo contrário, apesarde marcadapelasubjetivi-

i.

" linguagemdo

poemamantém grandeconcretude' ePre-

ã"i.,

endea Paisagem atravesde referências diretas (a casaKosmos' o

úrgo ao fuãu.h.,

gi;-

a Normal) e aproxima-se eo máximo do re-

que na faseseguintedo Lwlngo cáquiserâa mais

da poesiade Mário' Mas já aqui o tableau

.otoq,rial,

í-porr"rr,.

p"ïf,r.*;tt

i"l"

"onqr'rirr" esticompletã e perfe-ito;assimilado de maneiratotal

lírica, o

teÍnedo movimento cosmopolita en-

representaçáo na levezade versosque exprimem o livre

r,rbl.tiuidade

"onrr" movimento dos sentimentos e mediações do poeta'

17 A alusãoa Baudelaire me foi sugeridapor Tableatuberlinois, tesede li-

BoÌÌe, a quem agradeço também pela cópia de seutexto "A

vre-docência de \íilli

cidadesemnenhumcatáter:leituradePaulicéiadesuairadadeMáriodeAndra-

de", análisebenjaminiana dos Poemas desselivro'

371