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Apresentaçãoàediçãobrasileira

LUCIANOFIGUEIREDO*

Bandode ladrões”,“vermes”,“vagabundos”,“celerados que nada têm dehumano”.Parecedi ícilacreditarqueomesmoautordede iniçõestão fortes e sinceras a respeitodos piratas tenha também contribuído para ilustrar a aura romântica, heroica e às vezes até libertária que esses personagens viriam a merecer séculos depois. Esse sinal trocado, algo involuntário, é uma das dimensões mais fascinantes da obra que se publica. O livro original, do qual selecionamos alguns capítulos, nasceu na

Inglaterraem1724comoquilométricoesensacionalistatítulodeHistória

geraldosrouboseassassinatosdosmaisconhecidospiratas,etambémsuas regras,suadisciplinaegovernodesdeoseusurgimentoeestabelecimentona ilha de Providence em 1717, até o presente ano de 1724. Com as notáveis açõeseaventurasdedoispiratasdosexofeminino,MaryReadeAnneBonny antecedida pela narrativa do famoso capitão Avery e de seus comparsas, seguidadaformacomoelemorreu naInglaterra.Era assinadopor certo capitãoCharles Johnson,oque ajudou a sustentar a versãode que fora escrito por um marinheiro ou por um ex-pirata. Isso até os anos 1930, quando foi estabelecida a autoria de ninguém menos que Daniel Defoe (1661?-1731), escritor prolí ico de libelos políticos e de algumas obras

consagradas,dentreasquaisRobinsonCrusoé(1717).

Otítuloeasaventurascativaramopúblico,transformando-seemum retumbante sucesso que assegurou recursos muito bem-vindos ao eternamente endividado Defoe, protegido pela falsa autoria. O original completoé formadopor trechos mal costurados pela urgência daqueles que,vivendodaagilidadedasuapena,precisavamlançarcomfrequência novoslivros.Poucolembraafluênciaquemarcouseunomenaliteratura. Se escondia o autor, eram claros os objetivos do livro: oferecer subsídios críticos bem fundamentados para a política de destruição de initiva dos piratas. Daniel Defoe promove um verdadeiro ajuste de contas com o passado da Inglaterra. O reino que tanto dependera da pirataria, incentivando e patrocinando suas ações nos mares que se abriramcomaexpansãomarítimaeuropeia,tempressaemexterminá-la quandoasituaçãointernacionalseredefinenoiníciodoséculoXVIII.Como imdaGuerradeSucessãodaEspanhaeoreconhecimento,pelaPazde

Utrechtem1713,dosdireitosdasnaçõeseuropeiassobreocomércionas

Antilhas e América, assiste-se ao re luxo da pirataria. A trajetória dos

“pequenoslobos”queoutrorafrequentavamacorte–comonoperíodode ElizabethI,quandofustigavamaexclusividadedeespanhóiseportugueses naAméricaenaÁfricacomoscélebresJohnHawkinseFrancisDrake– converte-seem lagelo.Apesardasaçõesisoladas,foideterminanteaação repressiva movida pela Inglaterra e a França, defendendo agora o comércio legal e regular por um lado e, por outro, investindo no aperfeiçoamentodasdefesasdosnaviosdecomércio. Nessesnovostempos,omardeDefoenãoéocenárioderomancese aventuras para distrair leitores. Coalhado de piratas, ali prosperam os vícios e as ambições que ameaçam a Inglaterra, exposta à leniência da monarquiaemcombatê-los.Aoavisarnoprefácioqueamovimentaçãodos piratasestavasujeitaàsestaçõesdoano,atacandonacostadaAméricado NortenoverãoedescendoparaoCaribenoinverno,Defoeprovoca:“Já quetemosplenaciênciadetodososseusmovimentos,nãopossoentender por que as nossas fragatas, sob uma regulamentação adequada, não podem também dirigir-se para osul, em vez de permanecerem inativas durante todo o inverno.” Ele também não perdoa, nesse escrito de intervenção a favor do sucesso do comércio marítimo inglês, os governadores coloniais por sua confortável permissividade. Ainda que descrevaumbandodeladrões,comoacreditaDefoe,olivromerecetrazer notítuloanobrepalavrahistória,poisencerraliçõesquepoderiamsalvar o Império da destruição. Não é por outro motivo que evoca o que se passaranaAntiguidadecomosromanosesuaatitudeparacomospiratas doMediterrâneo. Asnarrativasqueoautorproduzestãoirrigadascombebida–muita bebida –, constantes traições, crueldades, precariedade e miséria, naufrágios, saques de riquezas fabulosas, tempestades devastadoras, combates navais espetaculares, abordagens, duelos, prostituição e devassidão moral.Uma história dos piratas expõe vidas sem qualquer virtude, expostas a situações plenamente verossímeis em cidades, províncias ultramarinas,tavernas e rotas reconhecidas pelos leitores.Ali qualquerumsucumbiairremediavelmenteàpirataria:o iciaisdemarinha, comerciantes,fidalgos,mulheres. Todos esses traços ilustram este livro, que tomou como base a cuidadosa e completa ediçãocrítica deHistóriageral feita em1972 –e

corrigidaeaumentadaem1999–porManuelSchonhorn.Dessevolumoso

material, selecionamos alguns capítulos que procuram oferecer aoleitor umacombinaçãoderegistrosfamiliaressobreapiratariacomdocumentos

de época e situações relevantes apesar de poucoconhecidas.Estãoaqui igurascélebrescomooBarba-Negra,ocapitãoKid,JohnSmith e outros quemarcaramseutempo–porexemplo,oe icienteBartho.Roberts,que

aprisionoumaisde400navios,eMaryReadeAnneBonny,mulheresque

atuaram como piratas. Pelos quadrantes da geogra ia comercial inglesa, essespersonagenscircularamnaEuropa,AméricadoNorte,Caribe,África eOriente. AsvaliosasnotasdaediçãodeSchonhorn,aquireproduzidas,ajudama compreenderosfundamentosdaobradeDanielDefoe,desenhandocom grande precisão as fontes originais dos relatos, além de situar personagens,lugaresefatos. Não deixamos escapar também a possibilidade de divulgar alguns documentos preciosos na presente edição, como a proclamação da monarquia inglesa concedendo o perdão aos piratas em 1718 e prometendo pesada repressão aos que insistissem na atividade; transcrições dos depoimentos feitos durante o julgamento de réus suspeitosdepirataria,assimcomosuaspunições;eoscódigosdeconduta formalizados pelos próprios piratas para ordenar seu modode vida.Ou, como diz o autor, os “principais costumes e a forma de administração daquelacomunidadedebandidos”. Não escapou da escolha a passagem – tomada emprestada de um viajante inglês – em que Defoe trata da situação do Brasil (repleta de equívocos na ixação das datas) no século XVII e início do XVIII, com algumas lutas entre piratas e portugueses na costa, descrições sobre a condutadoscolonoseasituaçãodascidadesdeSalvador,RiodeJaneiroe “Pernambuco”. Claramente, ele sinaliza oportunidades comerciais com dicasparaasseguraraosinglesesumbomrelacionamentoporaqui. Aseleçãofeitasugeretambémumconviteparaaquelesquejáforam conquistados pelo fascínio dessas histórias: ao percorrer as passagens escolhidas, o leitor aos poucos poderá identi icar a origem dos personagensedascenasapresentadasemóperas,noteatro,nosromances históricos e no cinema, responsáveis por formar o vasto imaginário da pirataria. Sobre essa pedra fundamental, quem sabe também o pesquisador brasileiro descubra esse tema tão negligenciado por aqui, malgradoaabundânciadedocumentoseoindiscutívelpapelqueasações desses grupos desempenharam no vasto e rico litoral da América portuguesa. Já é hora de içar âncora e navegar por algumas extraordinárias

histórias de piratas. Brutais e gananciosos, eles não têm o charme românticodeErolFlinn,JohnnyDeppouGeenaDavis,massuastrajetórias, contadasaquinocalordahora,alertamparavaloresuniversais.Emelhor ainda:sãocapazesdenosdivertiresurpreender.

ainda:sãocapazesdenosdivertiresurpreender. * Luciano Figueiredo é professor do Departamento de

* Luciano Figueiredo é professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e editor daRevista de História da BibliotecaNacionaldoRiodeJaneiro.

Prefácio Depoisdeenfrentarmosdi iculdadesmaioresqueonormalparareunir osmateriaisdestahistória,nãoestaríamossatisfeitosseaelafaltassealgo que izesse o público aceitá-la integralmente. Por este motivo é que lhe acrescentamosumpequenoresumodaleioraemvigorcontraospiratas,e selecionamos alguns casos particulares (os mais curiosos que pudemos encontrar) que já chegaram ao tribunal, e através dos quais icarão evidentesosatosconsideradoscomopirataria,eosquenãooforam. É possível que este livro venha a cair entre as mãos honestas de comandantes de navios e de outros homens do mar, que vivem enfrentandograndesa liçõesporventosadversosououtrosacidentestão comunsnasviagenslongas,taiscomoaescassezdeprovisõesouafaltade estoques.Achoqueolivropoderáservir-lhescomoumaorientação,sejam quais forem as distâncias a que se aventurarem sem violar a Lei das Nações, no caso de serem lançados a alguma praia inóspita ou se depararemcomoutrosnaviosnomar,queserecusemanegociaroquefor extremamentenecessárioàpreservaçãodavida,ouàsegurançadonavio edacarga. No decorrer desta história, forneceremos instâncias de alguns recrutamentos,quandooshomensnãoencontramoutraopçãosenãoade mergulharemnumtipodevidaqueparaelesétãocheiadeperigose,para a navegaçãocomercial,tãodevastadora.Para remediar esse mal,parece nãohavermaisquedoiscaminhos:ousearranjaempregoparaogrande número de marujos que icaram sem destino após o im da guerra — impedindoassimqueelesrecorramataissoluções—ouseexerceuma vigilância satisfatória nas costas da África, das Índias Ocidentais e de outroslocaisaosquaiscostumamrecorrerospiratas.

DevoregistraraquiqueduranteestalongaPaz 1 quasenãoouvifalar de algum pirataholandês. Não que eu considere os holandeses mais honestos que os seus vizinhos, mas, quando vamos dar uma explicação para esse fato, talvez ela represente para nós uma censura pela nossa inatividade.Arazãodisso,ameuver,équedepoisdeumaguerra,quando osnaviosholandeses icaminativos,recorre-sealiaoexercíciodapesca,no qual em pouco tempo os marujos vão encontrar trabalho e ganho tão garantido quanto antes. Tivéssemos nós esses mesmos recursos nos tempos de necessidade, e estou certo de que chegaríamos a resultados equivalentes.Poisapescaéumcomércioquenãopodeserestocadoem

excesso.Omarésu icientementegrandeparatodos,nãohánecessidade desebrigar por espaço.Sãoin initasassuasreservas,quesempreirão recompensaraquemtrabalha.Alémdisso,amaiorpartedasnossascostas abasteceosholandeses,queestãoconstantementeempregandocentenas de barcos nesse comércio e, dessa forma, vendendo para nós o nosso própriopeixe.Digoonossopeixe,porqueasoberaniadaságuasbritânicas é até hoje reconhecida pelos holandeses, como por todas as nações vizinhas; pelo que, se existisse algum espírito público entre nós, muito valeria a pena que estabelecêssemos uma pesca nacional, o que representaria o melhor recurso do mundo para se impedir a pirataria, paradarempregoamuitospobresetambémaliviaranaçãodessegrande fardo,baixandoopreçogeraldos mantimentos,alémde diversos outros artigos. Nãoénecessárioapresentarprovaalgumadoqueestouinsinuando,ou seja,quehojeexistemcentenasdemarujosdesempregados.Isso icalogo evidenteaoseconsiderarasuaperambulaçãoemendicânciaportodoo Reino Unido. E tampouco se deve atribuir o fato de serem desprezados apósaconclusãodotrabalho,depassaremfomeoupraticaremroubos,a algumainclinaçãonaturalpelainércia,ouaoseuprópriodestinodi ícil.Há muitos anos não chega ao meu conhecimento de alguma fragata

encarregadadeumamissão,porémjáportrêsvezes,numperíodode24

horas,todaumatripulaçãoseofereceuparatrabalhar.Oscomerciantesse aproveitam disso, diminuindo os salários, e os poucos (marujos) em atividade são mal pagos, e praticamente mal alimentados. Tal costume aumentaosdescontentes,fazendo-osansiarempormudanças. Nãovourepetiroquedissenestahistóriasobreosnavioscorsáriosdas ÍndiasOcidentaisnosquais,segundoeusoube,elessobrevivemgraçasaos butinsdeguerra.Umavezqueohábitosetornaumasegundanatureza, não nos surpreende que, diante das di iculdades em se conseguir um modohonestodevida,elesrecorramaalgumoutromeiotãosemelhante aoanterior.Tantoquesepodedizerqueosnavioscorsários,nostempos daguerra,sãoumverdadeiroberçáriodepiratas,nostemposdapaz. Agoraquedemosumaexplicaçãoparaasuaorigemeproliferação,será naturalpesquisaroporquêdenãoseremelespresoseaniquiladosantes de ocuparem alguma posição eminente. Devemos observar que di icilmente se encontram menos que doze fragatas estacionadas em nossascolôniasnaAmérica,mesmoduranteosperíodosdepaz.Essaforça ésu icienteparaenfrentaruminimigopoderoso.Apresenteinvestigação

talvez não resulte muito favorável aos que se relacionam com esse trabalho. Entretanto, espero que me desculpem, pois as minhas insinuaçõesvisamapenasaserviraopúblico. Quero dizer que acho muito estranho uns poucos piratas poderem devastarosmaresduranteanos,semquenemaomenossejamlocalizados por algumdos nossos navios de guerra.Enquantoisso,eles (os piratas) podemapossar-sedefrotasinteiras.Écomoseaquelesfossemmuitomais e icientesemseusnegóciosdoqueestesúltimos.SóRoberts,comosseus tripulantes,seapoderoudequatrocentosbarcos,antesdeserderrotado. Provavelmenteireiexporessetemaadequadamenteemoutraocasião. Agora limito-me apenas a observar que os piratas têm, no mar, uma sagacidade equivalente à dos ladrões emterra.Assimcomoeles,sabem quaisestradassãomaisfrequentadaseondehámaior probabilidadede encontrarbutimetambémconhecembemalatitudeemquedevem icar para interceptarem os navios. Uma vez que os piratas estão sempre precisandodeprovisões,estoquesouqualqueroutrotipodecarregamento e circulam sempre em busca dos navios que os transportam, animados pelacertezadeencontrá-los;pelomesmomotivo,seasfragatasnavegarem poraquelaslatitudes,poderãotertantacertezadealiencontrarempiratas quantoos piratas têmde alise depararemcomnavios mercantes.Se as fragatasnãoencontrarempiratasnaquelasdeterminadaslatitudes,então com toda certeza os navios mercantes poderão chegar a salvo a seus portos,navegandoporelas. A imde tornar issoumpoucomais simples para os leitores domeu país, devo observar que todos os nossos navios que seguem para o exterior,àsvezespoucodepoisdeseafastaremdacosta,dirigem-separaa latitude do local aonde se destinam: se é para as ilhas das Índias Ocidentais,ouqualquerpartedocontinentedaAmérica,comoNovaYork, NovaInglaterra,Virgíniaetc.,elesentãovelejamnadireçãodooeste—já queaúnicacertezaquesepodeternessasviagenséadalatitude—até chegarem a seu portosem que oseu cursosofra qualquer alteração. É nessecaminhoparaooestequeseencontramospiratas,sejanadireção daVirgíniaetc.,sejanadeNevis,SãoCristóvão,Montserrat,Jamaicaetc.,de maneiraqueseosnaviosmercantescomtaldestinonãosetornaremum diavítimasdealgumdeles,emalgummomentofatalmentesetornarão.Por isso,sabendo-sequealiondeestáacaça,tambémseencontramosvermes, a irmoque se as fragatas seguirempela mesma trilha,infalivelmente os piratasirãocair-lhesnasmãos,ouserãoafugentadosparalonge.Seisso

acontecer,osnaviosmercantes,comofaleiantes,poderãopassarasalvo, semseremmolestados,eospiratasnãoterãooutraopçãosenãoadese refugiarem naqueles buracos onde costumam icar à espreita, nas ilhas desertas, e nos quais o seu destino será como o da raposa na toca:

arriscando-seasair,serãocaçadosepresos,esepermaneceremládentro, morrerãodefome. Precisofazernotaraindaumaoutracoisa:geralmenteospiratasvivem mudando seus trajetos de acordo com a estação do ano: no verão, eles circulamprincipalmenteaolongodacostadocontinenteamericano,mas noinverno,queéumtantofriodemaisparaeles,seguemembuscadosol e se encaminham para as ilhas. Qualquer pessoa com experiência no comérciocomasÍndiasOcidentaissabequeissoéverdade.Porisso,jáque temosplenaciênciadetodososseusmovimentos,nãopossoentenderpor queasnossasfragatas,sobumaregulamentaçãoadequada,tambémnão podem dirigir-se para osul, em vez de permanecerem inativas durante todo o inverno. Porém eu poderia ir longe demais nessa investigação, e assimdevodeixá-laagoraparafalaralgoarespeitodaspáginasseguintes. Aventuro-meaa irmaraomeuleitorqueelaspossuemalgoquemuitoas recomenda:averdade.Osfatosdosquaiseumesmonãofuitestemunha ocular,obtiveatravésderelatosautênticosdepessoasrelacionadascoma captura dos piratas, como também pelos próprios piratas após serem presos,eachoqueninguémpoderiaproduzir melhorestestemunhosem apoioàcredibilidadedequalquerhistória. Poderáobservar-sequeanarrativadasaçõesdopirataRobertsémais longaqueasdemais,eistopordoismotivos:primeiro,poreleterassolado os mares por mais tempo que os outros piratas, e consequentemente, haver um cenário maior de atividades em sua vida; em segundo lugar, porqueresolvinãoaborrecer oleitor comrepetiçõescansativas.Quando constatamos que certas circunstâncias são as mesmas tanto na vida de Robertsquantonadeoutrospiratas,quersejasobreassuntosdepirataria, querdequalqueroutracoisa,achamosmelhorapresentá-lasapenasuma vez,eavidadeRobertsfoiescolhidacomestepropósito,porterprovocado nomundomaioralardedoquemuitosoutros. Quanto às vidas das duas piratas femininas, devemos confessar que elas podem parecer um tantoextraordinárias, mas nãomenos verídicas por isso. Como as duas foram julgadas publicamente por seus atos de pirataria,existemtestemunhas vivas emnúmerosu iciente que poderão con irmartudooqueregistramossobreelas.Éverdadequeapresentamos

algunsdetalhesmenosconhecidosporpartedopúblicoporquefomosmais investigativos sobre as circunstâncias do passado delas do que outros pesquisadores,osquais nãotinhamoutrodesígniosenãoode satisfazer sua curiosidade particular.Se nessas histórias temos incidentes e lances que lhes podem conferir um certo ar romanesco, estes não foram inventadosoutramadoscomtalpropósito.Esseéumtipodeleituracoma qual este autor não tem muita familiaridade, mas, assim como eu me diverti imensamente quando me foram relatados, achei que poderiam causarigualefeitosobreoleitor. Presumonãosernecessárionosdesculparmosporatribuironomede Históriaàspáginasqueseseguem,emboraelasnãocontenhamsenãoos feitosdeumbandodeladrões.Sãoabravuraeaestratégianaguerraque fazem com que as ações mereçam ser relatadas. Neste sentido, pode-se pensar que as aventuras narradas aquimerecemesse nome.Plutarcoé muitocircunstancialquandodescreveasaçõesdeSpartacus,oescravo,e fazdavitóriasobreeleumadasmaioresglóriasdeMarcusCrassus.Eé provável,casoaqueleescravotivessevividoumpoucomais,quePlutarco

nos tivesse dado a sua vida mais extensamente. 2 Roma, a senhora do mundo,inicialmentenãopassavadeumrefúgiodeladrõesedeforadalei. E,seoprogressodosnossospiratasequivalesseàsuafaseinicial,setodos setivessemunidoparaseestabelecerememalgumadaquelasilhas,eles agora poderiam estar sendo honrados com o nome de nação, sem que nenhumpodernestasregiõesdomundopudessecontestá-lo. Sedemosaimpressãodealgumaliberdadequantoaocomportamento de certos governadores de província no exterior, foi com cautela que o izemos. E é possível mesmo que não tenhamos declarado tudo o que sabíamos. Noentanto, esperamos que os que ocupam talposição, e que jamais deram motivo para censura, não se sintam ofendidos, embora a palavra“governador”sejaaquiempregadaváriasvezes. P.S. É necessário incluir ainda uma ou duas palavras neste Prefácio, para informar ao leitor sobre os diversos acréscimos de material que foramfeitosnestasegundaedição,osquais,dilatandootamanhodolivro, aumentaram também uma pequena parcela do seu preço,

consequentemente. 3 Tendoa primeira impressãoconseguidotantosucessocomopúblico, isto levou a uma demanda muito grande para uma segunda. Nesse intervalo, várias pessoas que haviam sido levadas por piratas, como

tambémoutrasqueatuaramnacapturadestes,tiveramaamabilidadede noscomunicardiversosfatosecircunstânciasquenoshaviamescapadona primeiraedição.Issocausouumcertoatraso,eassim,seestaediçãonão chegouaopúblicotãocedoquantoesperávamos,foiparaquepudéssemos torná-lamaiscompleta. Não vamos entrar em detalhes sobre o novo material inserido aqui, porémadescriçãodasilhasdeSãoToméetc.,comotambémadoBrasil, não devem passar sem uma pequena nota. Deve-se observar que os nossos tãoespeculativos matemáticos e geógrafos — cuja erudição, sem dúvida alguma, é grande —, entretanto, quando querem obter suas informaçõesetc.,vãopoucoalémdoque aosseusprópriosgabinetesde estudo, sendo incapazes de nos fornecer uma descrição satisfatória dos países. Por esta razão todos os nossos mapas e atlas contêm erros tão grosseiros, pois eles só podem conseguir seus relatórios através de descriçõesdegenteignorante. Deve-se notar também que quando os comandantes de navio descobrem algum novo percurso, eles não têm muita inclinação em divulgá-los. O fato de alguém conhecer melhor do que outros este ou aquelelitoralgeralmenteorecomendaemseusnegócios,tornando-omais necessário,e,assimcomoocomerciantepreferenãorevelarossegredos doseucomércio,tampoucoonavegadoriráfazê-lo. Ocavalheiroquesedeuaotrabalhodefazerestasobservaçõeséosr.

Atkins, 4 cirurgião,homemmuitohabilidosoemsuapro issão,alguémque não se prende a escrúpulos menores para prestar algum serviço ao público,e que icou generosamente satisfeitopor comunicá-las pelobem da sociedade. Não tenho dúvidas de que as suas observações serão consideradas interessantes e de muita utilidade para o comércio com aquelasregiões,e,alémdisso,éaquiapresentadoummétododecomércio segundoosportugueses,oqualpoderáserdegrandeproveitoparaalguns conterrâneosnossos,casosejaseguidoliteralmente. Esperamosquetaisinformaçõespossamsatisfazeraopúblico.Oautor destaspáginasnãoconsiderounadamaisimportantedoquetornarolivro útil, apesar de ter sido informado de que certos senhores levantaram objeçõesquantoàverdadedoseuconteúdo,como,porexemplo,queeste parecetersidocalculadocomo itodeentreterededivertiropúblico.Se os fatos nele relacionados assumem um certo tom agradável e vívido, esperamosqueistonãosejaimputadocomodefeito.Mas,emnomedesua

credibilidade, podemos garantir que os senhores navegantes, isto é, aquelesqueconhecembemanaturezadessascoisas,nãopuderamopora menorobjeçãoaessamesmacredibilidade.Eoautora irma,comamaior franqueza,que emtodoolivrodi icilmente se encontrará algumfatoou circunstânciaquenãopossaserprovadoporconfiáveistestemunhos. Alémdospiratascujahistóriaéaquirelatada,houveaindaoutros,que posteriormenteserãomencionados,ecujasaventurassãotãorepletasde extravagânciasemaldadesquantoasquesãotemadestelivro.Oautorjá deu inícioà sua compilaçãometódica, e assim que receber os materiais necessários para completá-la (os quais espera chegarem em breve das Índias Ocidentais), caso o público lhe dê estímulos para isso, ele tem a intençãodeseaventuraremumsegundovolume.

Introdução UmavezqueospiratasnasÍndiasOcidentaistêmsemostradoterríveis e numerosos a ponto de interromperem o comércio europeu naquelas regiões e que os nossos comerciantes ingleses, particularmente, têm sofridomaiscomassuasdepredaçõesdoquecomasforçasreunidasda

França e da Espanha na última guerra, 1 não temos dúvidas de que o mundo terá curiosidade de conhecer a origem e a evolução desses facínoras,queforamoterrordaatividadecomercialdomundo. Mas,antesdepenetrarmosemsuahistóriaparticular,seráoportuno,à guisadeintrodução,demonstrar,poralgunsexemplos,agrandemaldadee operigoqueameaçamreinosenaçõesprovenientesdodesenvolvimento dessetipodeladrão,quando,querporproblemasdaépocaemparticular, quer pela negligência dos governos, eles não são esmagados antes de ganharemforça. Atéagora,oquevinhaacontecendoéque,aosetolerarqueumsimples pirata percorresse livremente os mares — como se não merecesse nenhuma atençãopor parte dos governos — ele crescia gradativamente

atésetornartãopoderosoque,antesqueopudessemeliminar,despendia-

se muito sangue e riquezas. Não iremos analisar como se passou o constante crescimento dos nossos piratas nas Índias Ocidentais, até recentemente.EstainvestigaçãocabeàLegislatura,aosrepresentantesdo povonoParlamento,eadeixaremosaseuencargo.

Nosso trabalho será demonstrar brevemente como outras nações já sofreram também do mesmo problema, iniciado de forma igualmente trivial.

Nos tempos de Marius a e de Sylla, 2 Roma se encontrava noauge do poder, e mesmo assim foi tão dilacerada pelas facções daqueles dois grandeshomens,quetudooqueserelacionavaaobempúblicotambémfoi negligenciado. Foi quando irromperam na região certos piratas provenientes da Cilícia, país da Asia Minor situado na costa do Mediterrâneo,entreaSíria,aleste,daqualseseparapelomonteTauris,e aArmeniaMinor,aoeste.Esseiníciofoimedíocreeinsigni icante:nãomais que dois ou três barcos e uns poucos homens, com os quais eles circulavam pelas ilhas gregas apossando-se dos navios que se encontravam desarmados e desprotegidos. Entretanto, ao capturarem grandesquantidadesdedespojos,logoelescresceramemriquezaepoder. Suaprimeiraaçãoa icarfamosafoiosequestrodeJúlioCésar,entãoainda

um jovem e que, vendo-se forçado a fugir das crueldades de Sylla, que pretendiaacabarcomasuavida,partiuparaaBitínia.Alipermaneceupor algumtempocomNicomedes,reidaquelepaís.Emseuretornopormarfoi

interceptadoe presopor alguns piratas, pertoda ilha de Pharmacusa. 3 Essespiratastinhamobárbarocostumedeamarrarosprisioneirosunsao outros pelas costas e depois atirá-los ao mar. Porém, percebendo que César deveria ser alguém de alta linhagem, a julgar pelas suas vestes púrpuraepelograndenúmerodecriadosqueocercavam,acharamque seriamaislucrativopoupá-lo,podendoreceberumagrandesomaporseu resgate.Assim,disseram-lhequeeleobteriasualiberdadeselhespagasse vintetalentos,oqueachavamserumaexigênciabemelevada—emnossa moeda,cercadetrêsmileseiscentaslibras.Césarsorriue,porsualivre vontade,prometeu-lhescinquentatalentos.Eles icarammuitosatisfeitose aomesmotemposurpresos com a resposta, consentindoem que vários criadosdelepartissemcomassuasinstruçõesparalevantarodinheiro.E assimCésarfoideixadonomeiodaquelesru iões,comtrêscriadosapenas. Ficoualiportrintaeoitodias,epareciatãodespreocupadoesemmedo que muitas vezes,aoir dormir,costumava ordenar que ninguém izesse barulho,ameaçandoenforcarquemoperturbasse.Tambémjogavadados com eles, e algumas vezes escreveu versos e diálogos que costumava repetir em voz alta, obrigando-os também a repeti-los, e se eles não os elogiassemeosadmirassemxingava-osdeanimaisebárbaros,declarando que os cruci icaria. Eles interpretavam aquilo como meras tiradas de humorjuvenil,emaissedivertiamcomacoisadoquesedesagradavam. Passado o tempo, os criados retornaram, trazendo o resgate, que foi devidamente pago, e César foi libertado. Velejou então para o porto de

Miletum 4 onde,tãologochegou,concentroutodasuaarteediligênciana preparação de uma esquadra naval, equipada e armada à sua própria custa. E, içando suas velas na busca dos piratas, foi surpreendê-los ancoradosentreasilhas.Prendeuaquelesqueohaviamsequestrado,além de mais alguns outros, tomou-lhes como butim todo o dinheiro que possuíam para reembolsar suas despesas no empreendimento, e os transportou para Pérgamo — ou Troia deixando-os presos lá. Em seguida,recorreu a Junius,que entãogovernava a Ásia,e a quemcabia julgar e determinar a punição devida àqueles homens. Mas Junius, percebendoquenãolhecaberianenhumdinheirocomaquilo,respondeu que ia pensar com calma no melhor a fazer com os prisioneiros. César despediu-sedeleeretornouaPérgamo,ondeordenouquelhetrouxessem

osprisioneiroseosexecutassem,segundoaleiprópriaparaaquelecaso,a qual vem referida em um capítulo ao inal deste livro sobre os regulamentos nos casos de pirataria.E assim,comtoda a seriedade,ele lhesaplicouamesmapuniçãocomque,brincando,tantasvezesoshavia ameaçado. CésarpartiudiretamenteparaRoma,ondepassouaempenhar-senos desígnios de sua própria ambição, como faziam quase todos os homens importantes de Roma, e dessa forma, os piratas que restaram tiveram tempo su iciente para crescerem até atingir um poder prodigioso. Pois, enquantoperduravaaguerracivil,osmares icavamdesprotegidos,tanto

quePlutarconosconta 5 queospirataspuderamconstruirváriosarsenais, comtodootipode estoques de guerra,amplos portos,erguer torres de observaçãoefaróisaolongodetodaacostadaCilícia;quedispunhamde umapoderosafrota,muitobemequipadaeabastecida,comgaleotesnos remosemanobradasnãoapenasporhomenscomacoragemqueconfere odesespero,mastambémporexperientespilotosemarinheiros;possuíam potentesnavios,alémdelevespinaçasparacircularpelosmaresefazer descobrimentos, num total não inferior a mil barcos. E se exibiam com tamanhamagni icênciaquedespertavamtantoinvejapelasuaaparência galantequantotemorpelasuaforça.Apopaeosalojamentosdosnavios eramfolheadosaouro;osremos,revestidosdeprata,easvelaseramem tecidodepúrpura.Assimcomoseomaiordeleitedelesfosseglori icara própriainiquidade.Etambémnãosecontentavamemcometernomaros seusatosdepiratariaedeinsolências,maspraticavamalémdissograndes depredações em terra, e realizavam conquistas, pois tomaram e saquearamnadamenosdoquequatrocentascidades,exigindotributosde muitas outras, devastando também os templos dos deuses e se enriquecendo com as oferendas ali depositadas. Muitas vezes desembarcavambandosdehomensquenãoapenassaqueavamascidades do litoral, como também assaltavam as belas residências dos nobres ao longodoTibre.UmgrupodessessequestroucertavezSextiliuseBellinus, doispretoresromanos,queseencontravamemseustrajespúrpura,indo de Roma para os seus governos, e os levaram com todos os seus atendentes,o iciaisemestresdecerimônia.Tambémraptarama ilhade Antonius—umcônsulquejáforahonradocomoTriunfo—quandoela viajavaparaacasadecampodopai. Mas seu mais bárbaro costume acontecia quando se apoderavam de algumnavio,aointerrogaremospassageirossobreosseusnomesepaíses

deorigem.Sealgumdelesdeclarasseserromano,elesentãoseatiravam teatralmenteaosseuspés,comoseestivessemapavoradosdiantedetoda a grandiosidade daquele nome, e lhe suplicavam perdão pelo que lhe haviamfeito,implorando-lhe misericórdia,agindoaoredor dele comose fossem verdadeiros criados. Quando percebiam que o haviam iludido quantoàsuasinceridade,entãodesdobravamaescadaexteriordonavioe, aproximando-se da vítima cheios de demonstrações de cortesia, declaravam-lhequeelaestavalivre,equepodiair-seemboradonavio,e isso em pleno oceano. Vendo a sua surpresa, o que era perfeitamente natural,entãoa jogavamaomar,aos gritos e gargalhadas,tãolibertinos eramemsuacrueldade. Assim, Roma, nos tempos em que era a “senhora do mundo”, sofria, mesmoàssuasportas,taisinsultoseafrontasdessespoderososladrões. Masoqueporalgumtempofezcessarofaccionarismointernoelevantara coragemdaquelepovo,quejamaisforaacostumadoasofrerinjúriasdeum inimigo à sua altura, foi a excessiva escassez de provisões em Roma, ocasionadapelofatodetodososnavioscomgrãoseoutrossuprimentos, vindos da Sicília,da Córsega e de outros lugares,sereminterceptados e tomados por aqueles piratas, a pontode ser a cidade quase reduzida à situaçãodefome.Naquelemomento,Pompeu,oGrande,foiimediatamente nomeadogeneralparadarinícioàguerra.Quinhentosnaviosforamlogo equipados, e ele contou com quatorze senadores como vice-almirantes, todos com grande experiência na guerra. E os ru iões se haviam transformado num inimigo tão considerável, que foi necessário nada menosqueumexércitodecemmilsoldadosapéecincomilcavalarianos paraosenfrentarporterra.ParagrandesortedeRoma,Pompeulançou seus barcos ao mar antes que os piratas fossem informados sobre a operaçãoquesearmavacontraeles,deformaqueosseusnaviostiveram de debandar por todo o Mediterrâneo, assim como abelhas fugindo em todas as direções da colmeia, tentando levar para a terra os seus carregamentos. Pompeu dividiu a sua frota em treze esquadras, que destinouadiversospostos,demodoqueospiratasforamcaindoemsuas mãos,emgrandenúmero,naviopornavio,semquenenhumseperdesse. Quarenta dias ele passou vasculhando o Mediterrâneo em todas as direções, alguns barcos da frota circulando pela costa da África, outros pertodas ilhas,e outros ainda percorrendoas costas italianas,de modo que frequentemente os piratas que fugiam de uma esquadra eram capturados por outra. Mesmo assim, alguns conseguiram escapar, indo

diretamenteparaaCilíciaedandoconhecimentoaseusconfederadosna praia sobre oque havia acontecido.Marcaramumencontrode todos os navios que se puderam salvar noportode Coracesium, naquele mesmo país.QuandoPompeuviuqueaságuasdoMediterrâneojáestavamlimpas, acertou uma reunião de toda a sua frota no porto de Brundisium. Em seguida,velejandodaliparaoAdriático,foiatacardiretamenteosfugitivos emsuascolmeias.AssimqueseaproximoudeCoracesium,naCilícia,onde estavamospiratasremanescentes,estestiveramaousadiadesevoltarem paraenfrentá-loembatalha.MasprevaleceuogêniodavelhaRoma,eos piratas sofreram uma arrasadora derrota, sendo todos capturados ou aniquilados. Entretanto, como haviam construído um grande número de sólidasfortalezasportodoolitoral,etambémcastelosefortesnointerior, pertodabasedomonteTaurus,Pompeuviu-seforçadoasitiá-losalicom seu exército.Algunslocaisele tomou nosataques,outrosse renderamà sua mercê, e a estes ele poupou suas vidas, realizando inalmente uma

conquistatotal. 6 Entretanto, é provável que caso aqueles piratas tivessem recebido informaçãosu iciente sobre os preparativos dos romanos, de maneira a terem tempo de reunir as suas forças espalhadas em um só corpo, enfrentandoPompeu nomar,a vantagempenderia grandemente para o ladodeles,tantoemnúmerodenaviosquantodehomens.Tampoucolhes faltava coragem, o que icou claro quando eles saíram do porto de Coracesium para enfrentar Pompeu em batalha, contando com forças muito inferiores às dele. Acho que se houvessem derrotado Pompeu, provavelmente executariam outros atentados maiores, e Roma, que conquistaraomundointeiro,poderiavirasersubmetidaporumaturma depiratas. Estaéumaprovadecomoéperigosoosgovernosseremnegligentese não tomarem providências imediatas para suprimir esses bandidos do mar,antesqueelespossamsefortalecer. Averdadedestamáximapodesermaisbemexempli icadanahistória

deBarbarouse, 7 naturaldacidadedeMitylene,nailhadeLesbos,nomar Egeu.Homemdeorigemsimplesque,educadoparaavidamarítima,partiu dali pela primeira vez, segundo relatos de piratas, apenas com um pequeno barco, porém, pelos despojos que capturou, pôde juntar uma riquezaimensa.Aosaberemqueelejádispunhadenumerososnaviosde grande porte, todos os sujeitos atrevidos e dissolutos daquelas ilhas

acorreramparaele,alistando-seaoseuserviço,cheiosdeesperançaspor butins.Demaneiraqueassuasforçascresceramatéseconverteremnuma imensa frota. Com esta, ele realizou tais proezas de audácia e aventura, que acabou se transformando no “Terror dos Mares”. Por essa época, aconteceu que Selim Entemi, rei da Algéria, que se recusava a pagar tributoaosespanhóis,eviviaemconstanteapreensãoanteumapossível invasãodeles,fezumtratocomBarbarouse,combasenumaaliança,pelo qual aquele viria dar-lhe ajuda e liberá-lo do pagamento do tributo. Barbarouse concordou prontamente. Partindo para a Algéria com uma grandefrota,desembarcounaquelapraiaumapartedeseushomense,de acordocomumplanopara tomar de surpresa a cidade,executou-ocom grande sucesso, assassinando Selim quando este se encontrava na banheira.Logoemseguida,foicoroadoelepróprioreidaAlgéria.Depois disso, declarou guerra a Abdilabde, rei de Túnis, derrotando-o numa batalha.Ampliouassuasconquistasemtodasasdireções.Eassim,passou deladrãoapoderosorei.E,nãoobstantetersido inalmentemortonuma batalha, mesmo assim se estabelecera tão bem naquele trono que, ao morrersemherdeiros,deixouoreinoparaseuirmão,umoutropirata. AgorapassoafalardospiratasqueinfestamasÍndiasOcidentais,onde são mais numerosos que em qualquer outra parte do mundo, e por diversasrazões:

Aprimeira:porqueexistemtantasilhotasdesertasebancosdeareia, b com portos convenientes e seguros para se descarregarem os barcos, e abundantes naquilo que eles estão sempre necessitando: provisões, ou seja, água, aves marinhas, tartarugas, mariscos e outros peixes. Ali, se trouxerem consigo bebidas fortes, eles icam se deliciando por algum tempo até estarem prontos para novas expedições, antes que alguma denúnciaosalcanceeosderrube. Talvez não seja desnecessária aqui uma pequena digressão para explicaroquesechamakeynasÍndiasOcidentais.Sãopequenasilhasde areia, aparecendo apenas um pouco acima da super ície da água, com algunsarbustossomente,ousargaços,porém(aquelasmaisdistantesde terra irme) cheias de tartarugas, esses animais an íbios que escolhem sempreoslocaismaistranquilosemenosfrequentadosparadepositaros seus ovos, atingindo um grande número na estação apropriada, e que poucosãovistos (excetopelos piratas)a nãoser nessas ocasiões.Então, barcos vindos da Jamaica e de outros governos empreendem até elas viagens chamadasturtling, c que se destinama suprir a populaçãodesse

tipodealimento,quealiémuitocomumeapreciado.Soulevadoacrerque essaskeys,especialmenteasmaispróximasdasilhas,eramunidasaelas emtempos passados,e depois foramseparadas por terremotos (que ali são frequentes) ou inundações, pois algumas delas, que eram sempre visíveis,comoas que icammais pertoda Jamaica,agora veri ica-se,em nossa época, que estão se consumindo, e desaparecendo, e diariamente outrastambémvãoreduzindodetamanho.Elasnãotêmexclusivamentea utilidademencionadaparaospiratas,masacredita-sequesempreforam usadas como esconderijo de tesouros, nos tempos dos bucaneiros, e frequentemente como abrigo enquanto os seus protetores, em terra, tentavamencontrarmeiosdelhesconseguirimunidadepelosseuscrimes. Poiséprecisoqueseentendaquequandoosatosdeclemênciaerammais frequentes, e menos severas as leis, aqueles homens continuamente conseguiam favores e estímulos na Jamaica, e talvez mesmo agora nem todosaindaestejammortos.Disseram-mequemuitoscomomesmotipode prática ainda estão vivos, e que só são deixados em paz porque agora podem ganhar honestamente a vida, com risco apenas dos pescoços alheios. Asegundarazãopelaqualaquelesmaressãopreferidospelospiratasé o grande comércio que ali se pratica com navios franceses, espanhóis, holandeses e principalmente ingleses. Ali, na latitude daquelas ilhas tão boas para o comércio, eles estão certos de encontrar muitos despojos, butinsdemantimentos,vestuárioseestoquesnavais,etambémdinheiro, umavezqueporaquelarotaseguemgrandessomasparaaInglaterra(os

pagamentos pelos contratos doAssiento 8 ou pelocomércioparticular de escravos com as Índias Ocidentais espanholas), resumindo: todas as riquezasdoPotosí. d Umaterceirarazão é a natural segurança que lhes proporcionam as di iculdades das fragatas para persegui-los, em meio àquelas inúmeras enseadas e lagoas e ancoradouros das ilhas solitárias e dos bancos de areia. Égeralmentealiqueospiratasdãoinícioaosseusempreendimentos, estabelecendo-seprimeirocomumaforçabemreduzida.Depois,àmedida que vão infestando os mares locais e do continente norte-americano, dentrodeumano,seasortelhesforfavorável,elesconseguemacumular um poder que os habilita a se lançarem em expedições ao estrangeiro. Normalmente, sua primeira expedição é para a Guiné, atacando pelo caminhoasilhasdosAçoresedeCaboVerde,edepoisoBrasileasÍndias

Orientais,e,casotenhamsidolucrativasessasviagens,desembarcamem Madagascar ou nas ilhas vizinhas, onde, junto aos seus companheiros veteranos, vão desfrutar com total impunidade as riquezas que conseguiramilicitamente.Mas,paranãoparecerqueestamosencorajando essapro issão,devemosinformaraosleitoresquesededicamànavegação que a grande maioria desses bandidos é logo exterminada durante as perseguições,equedeumahoraparaoutraelessevêmprecipitadosno “outromundo”.

AascensãodessesvagabundosdesdeaPazdeUtrecht(1713)—ou,

pelo menos, a sua grande proliferação — pode imputar-se com toda a justiçaaoestabelecimentodascolôniasespanholasnasÍndiasOcidentais. Lá os governadores, muitos deles cortesãos ávidos, que para ali foram enviados com o ito de fazerem fortuna, ou reconstruí-la, geralmente empregam todos os procedimentos que costumam acarretar lucros:

pretendendoimpediraintromissãodealgumoutrocomerciante,concedem autorizações a grande número de fragatas para capturarem quaisquer naviosoubarcosqueultrapassemolimitedetrintaquilômetrosaolongo dacosta,coisaqueosnossosnaviosinglesesnãoconseguemevitarmuito bem,quandosedirigemparaaJamaica.Porém,seacontecerdeoscapitães espanhóisabusaremdessaincumbência,roubandoesaqueandoàvontade, permite-sequeasvítimasapresentemqueixaeentremcomumprocesso notribunal. Após muitas despesas com trâmites legais, prorrogações de prazoe diversos outros inconvenientes, é possível que eles acabem por obterumasentençafavorável.Mas,quandovãoreclamaronavioeacarga, depoisdenovasdespesasprocessuais,elesdescobrem,parasuaangústia, queestesforampreviamentedesapropriadoseoespólio,distribuídopela tripulação. Vemse a descobrir que o comandante que fez a captura, considerado o único responsável, é um pobre-diabo desonesto, que não vale um vintém e que, sem dúvida, foi colocado naquele posto propositadamente. As frequentes perdas sofridas pelos nossos comerciantes noexterior, graçasaessespiratas,constituíramumaprovocaçãosu icienteparaquese tentasse alguma coisa em represália. E no ano de 1716 uma ótima oportunidade para isso se apresentou, e os comerciantes das Índias Ocidentaistiveramtodoocuidadodenãodeixá-laescapar,fazendodelao melhorusoqueascircunstânciaspermitiam. Cercadedoisanosantes,algunsgaleõesespanhóis—aFrotadaPrata —tinhamnaufragadonogolfodaFlórida,ediversosbarcosdeHavanaali

se encontravam trabalhando, com equipamentos de mergulho, para

recuperaremaprataqueestavaabordodaquelesgaleões. 9 Osespanhóisjátinhamrecolhidoalgunsmilhõesemmoedasdeourode oito dólares, e levado todas para Havana. Porém agora já estavam com cerca de 350.000 moedas de prata de oito dólares, ali naquele local, e diariamente conseguindo resgatar ainda mais moedas. Foi quando dois navios e três barcaças,comtripulações da Jamaica,Barbados etc.,sob o comandodocapitãoHenryJennings,velejaramatéogolfo,deparando-se comosespanhóisalinolocaldonaufrágio.Odinheiroaquenosreferimos antestinhasidodeixadonumarmazémnapraia,sobasupervisãodedois comissáriosedeumaguardadecercadesessentasoldados. Para resumir, os bandidos foram diretamente para o local, desembarcando trezentos homens que atacaram a guarda, que se pôs imediatamente em fuga, e se apoderaram do tesouro, levando-o o mais rapidamentepossívelparaaJamaica. Infelizmente,nocaminhoencontraramumnavioespanhol,viajandode PortoBellocomdestinoaHavana,cheiodeartigospreciososcomofardos decochonila,tonéisdeíndigoemaissessentamilmoedasdeouro,doque seapoderaramlogoe,tendopilhadotodoonavio,deixaram-noir. ZarparamparaaJamaicacomoseubutim,masforamseguidosatéo portopelosespanhóisque,tendo-osvistosedirigindoparalá,retornaram até Havana, onde relataram o ocorrido ao governador, o qual imediatamentemandouumnavioaogovernodaJamaicaparasequeixar daquelerouboereclamardevoltaosartigosroubados. Comoaquelefatoocorreraemperíododeplenapaz,efossetotalmente contrárioàJustiçaeaoDireito,ogovernodaJamaicanãopôdetolerarque eles icassemimpunes,emuitomenosquerecebessemproteção.Porisso, nãotiveramoutrasaídasenãoarranjarem-sesozinhos.Assim,parapiorar ainda mais as coisas, eles voltaram ao mar, mas não sem antes dispor vantajosamentedesuacargaeseabasteceremdemunição,provisõesetc. Então,odesesperofezcomqueacabassemsetornandopiratas,roubando nãoapenas os espanhóis,mas tambémos seus próprios conterrâneos,e naviosdequalquernacionalidadeemquepudessempôrasmãos. Por esse tempo aconteceu que os espanhóis, com três ou quatro pequenasfragatas,caíramsobreosnossoscortadoresdepau-campeche 10 nasbaíasdeCampeachyedeHonduras.E,apósteremcapturadoosnavios ebarcosaseguirmencionados,entregaramtrêschalupasaoshomensque

neles se encontravam, para conduzi-los de volta. Mas os homens, desesperados com sua desgraça e depois do contato com os piratas, passaram-separaoladodeles,aumentandoassimoseunúmero. Listadenavioseembarcaçõestomados

pelasfragatasespanholasnoanode1716

OStafford,capitãoKnocks,daNovaInglaterra,comdestinoaLondres

Anne,

Gernish,paraodestinocitado;

Dove,

Grimstone,paraaNovaInglaterra;

Umabarcaça,

Alden,paraolocalcitado;

Umbergantim,

Mosson,paraolocalcitado;

Umbergantim,

Turfield,paraolocalcitado;

Umbergantim,

Tennis,paraolocalcitado;

Umnavio,

Porter,paraolocalcitado;

IndianEmperor,

Wentworth,paraaNovaInglaterra;

Umnavio,

Rich,comandante.

Idem,

Bay;

Idem,

Smith;

Idem,

Stockum;

Idem,

Satlely;

Umabarcaça,

Richards,pertencenteàNovaInglaterra;

Duasbarcaças,

pertencenteàJamaica;

Umabarcaça,

deBarbados;

Doisnavios,

vindosdaEscócia;

Doisnavios,

vindosdaHolanda.

Sentindo-se agora muitopoderosos, aqueles bandidos consultaram-se entresisobreanecessidadedearranjaralgumlocalparaondeseretirar, emquepoderiamacomodartodasassuasriquezas,limpareconsertaros navios, arrumando também algum tipo de residência duradoura. Não demoraram muito em fazer a sua escolha, ixando-se na ilha de Providence,amaior dasilhasBahamas,nalatitudedeaproximadamente

24grausNorte,ealestedaFlóridaespanhola.

Essa ilha mede aproximadamente quarenta e cinco quilômetros de comprimento e dezoito e meio na sua parte mais larga. O porto é su icientementegrandeparaabrigarquinhentosbarcos,ediantedele ica

uma pequena ilha, formando duas enseadas; de ambos os lados uma barragemimpedeapassagemdequalquernaviodequinhentastoneladas.

AsilhasBahamasforampossessãoinglesaatéoanode1700,quandoos

franceseseespanhóisdePetitGuavus e asinvadiram,capturaramofortee prenderamogovernadornailhadeProvidence,pilharamedestruírama colôniaetc.,levarammetadedosnegros,eorestantedapopulação—que fugiuparaaselva—retirou-sedepoisdissoparaaCarolina.

Emmarçode1706,aCâmaradosLordes,emmensagemàsuaúltima

rainha, f descreveu como os franceses e espanhóis haviam devastado e saqueadoasilhasBahamasporduasvezes,duranteaguerra,equealinão estavahavendonenhumaespéciedegoverno;quesepoderiafacilmente equipar o porto da ilha de Providence como posição de defesa, e que haveria perigosas consequências se aquelas ilhas caíssem nas mãos do inimigo;peloqueoslordeshumildementeimploraramqueSuaMajestade empregasseosmétodosqueachassemaisadequadosparamanteraposse daquelasilhas,comoobjetivodegaranti-lasparaaCoroadoReino,como tambémparasegurançaeproveitodocomércionaregião. Mas, apesar do ocorrido, nada se fez para cumprir aquela petição garantindoapossedasilhasBahamas,atéqueospiratasingleses izeram dailhadeProvidenceoseuretiroeabrigo.Emseguida,achou-sequeera absolutamente necessário desocupar aquela tumultuada colônia. E, após chegaremaogovernoinformaçõesdoscomerciantessobreasatrocidades que ali se cometiam, e as que fatalmente ainda se iriam cometer, Sua Majestadedignou-seaexpediraseguinteOrdem:

WHITEHALL,15DESETEMBRODE1717

Tendo chegado até Sua Majestade queixas vindas de um grande númerode comerciantes,comandantes de navioe outros,comotambém por parte de vários governadores das ilhas e colônias de Sua Majestade nasÍndiasOcidentais,dequeospiratascresceramemnúmeroatalponto que infestam nãoapenas os mares próximos da Jamaica, mas até os do continente norte da América; e que,a menos que se empreguemcertos meios e icazes, todo o comércio da Grã-Bretanha com aquelas regiões icaránãoapenasobstruídocomoemiminenteriscodeserperdido,Sua Majestade, após madura deliberação em Conselho, tem a satisfação, em primeiro lugar, de ordenar o emprego de uma força adequada para a supressãodosreferidospiratas,eestaforçadeverásercomosesegue:

ListadosnaviosebarcosdeSuaMajestadequejáestão

sendoempregados,eosquedeverãoserempregadosnosgovernos

ecolôniasbritânicosnasÍndiasOcidentais:

ecolôniasbritânicosnasÍndiasOcidentais: OsqueseencontramnaJamaica,BarbadosenasilhasLeewarddevemse

OsqueseencontramnaJamaica,BarbadosenasilhasLeewarddevemse juntar,deacordocomaocasião,paraperseguiremospiratasetambémpela segurançadocomércio.EosdaNovaInglaterra,VirgíniaeNovaYorkdevem fazeromesmo. Alémdessas fragatas,duas outras foramdesignadas para atenderem

aocapitãoRogers,últimocomandantedosdoisnaviosdeBristol,denomes Duke e Dutchess, que capturaram o rico navio Acapulco e izeram uma volta ao redor do mundo. 11 Aquele cavalheiro foi encarregado por Sua Majestade para ser governador da ilha de Providence,e foiinvestidodo poder deempregar quaisquer métodosparaaniquilar ospiratas.Epara quenadalhefaltasse,elelevouconsigoaProclamaçãodePerdãodoRei, paraosqueretornassemaseudeverdentrodeumdeterminadotempo.A Proclamaçãoéaseguinte:

PELOREI,

PROCLAMAÇÃOPARAASUPRESSÃODOSPIRATAS

GEORGER.

Embora nos tenham chegado informações de que diversas pessoas,

súditosdaGrã-Bretanha,vêmcometendodesdeodia24dejunhodoano

deNossoSenhorde1715diversosatosdepiratariaederoubosemalto-

mar,nas Índias Ocidentais,ou próximoàs nossas colônias,que podeme deverãoocasionargrandeprejuízoparaoscomerciantesdaGrã-Bretanha, edeoutrasnaçõesquecomerciamnaquelasregiões;eemboratenhamos designado uma força que consideramos capaz de suprimir os referidos atosdepirataria,ecomamaiore icáciapôrum imaestes,pensamosser apropriado, segundo o parecer do nosso Conselho do Rei, expedir a presente ProclamaçãoReal,por meioda qualprometemos e declaramos

quenocasodeumdessespiratas—oualgunsdeles—nodia5,ouantes,

do mês de setembro do ano de 1718 de Nosso Senhor, pretender ou pretenderem se render a algum dos nossos principais secretários de Estado na Grã-Bretanha ou Irlanda, ou a qualquer governador ou vice- governador dequalquer dasnossascolôniasdealém-mar,esseouesses piratasqueserenderem,comojáfoidito,obterãoonossograciosoPerdão dos seus atos de pirataria cometidos antes dodia 5 dopróximomês de janeiro.Epormeiodapresente,ordenamosestritamenteatodososnossos almirantes,capitãeseoutroso iciaismarítimos,eatodososgovernadores e comandantes de quaisquer fortes,castelos ou outros locais emnossas colônias, e a todas as nossas demais autoridades civis e militares, que capturemeprendamospiratasqueserecusaremouquecustaremase renderdevidamente.Epelapresente,declaramostambémquenocasode

qualquerouquaisquerpessoasque,nodia6desetembro—ouantes—

doanode1718,venhamadescobrirouacapturar,ouadescobriroufazer

comquesejamdescobertosqualquerouquaisquerdessespiratasquese

recusamoudemoramemserender,comofoiditoantes,fazendocomque estes compareçamperante a Justiça e sejamcondenados pelas referidas ofensas,essaouessaspessoas,efetuandoassimtaldescobertaoucaptura, ou causando ou provocando essa descoberta ou captura, deverão ter e receber de nossa parte uma Recompensa por isso, ou seja: para todo comandantedequalquernaviooubarcoparticular,asomadecemlibras; para todo tenente, comandante, contramestre, carpinteiro, atirador de canhão,asomadequarentalibras;paratodoo icialsubalterno,asomade trinta libras;e para todohomemparticular,a soma de vinte libras.Ese algumapessoa,oupessoas,pertencendooufazendopartedatripulaçãode algum desses navios ou barcos piratas, no dia 6, ou antes, do mês de setembrode1718,capturaremeentregarem,ou izeremcomquesejam capturados e entregues qualquer ou quaisquer comandantes desses navios ou barcos piratas, de forma que estes venham a comparecer peranteaJustiça,easeremcondenadospelasreferidasofensas,talpessoa ou pessoas receberão como recompensa por isso a soma de duzentas librasparacadacomandantecapturado.OLordeTesoureiroouosatuais Encarregados do Tesouro têm orientação para pagarem devidamente essasquantias.

EXPEDIDOEMNOSSACORTE,EMHAMPTON-COURT,

NODIA5DESETEMBRODE1717,

NOQUARTOANODENOSSOREINADO.

DEUSSALVEOREI.

AntesqueogovernadorRogerspartisse,aProclamaçãofoienviadaaos piratas,que izeramcomelaamesmacoisaqueTeaguefezcomoacordo g , ouseja:apossaram-sedetudo—donavioetambémdaproclamação.Em todocaso,mandaramretornarosqueandavamcirculandopelosmares,e convocaramumconselhogeraldeguerra.Porémotumultoeaconfusãono decorrer desteforamtaisquenãosepôdechegar aacordoalgum.Para uns,asoluçãoseriaforti icaremailha,permaneceremnassuasposiçõese negociaremcomogoverno,comoseconstituíssemumanaçãodeverdade. Outros, que também eram a favor de se forti icar a ilha em nome da segurança,poroutroladonãodavammuitaimportânciaàsformalidades, preferindo um perdão generalizado que não os obrigasse a qualquer restituição, retirando-se, com todos os seus bens, para as colônias britânicasmaispróximas. Porém o capitão Jennings, que era o seu comodoro e que sempre exerceu grande in luência sobre todos eles, sendo um homem de bom

senso,etambémbompolítico—antesdeserassaltadopelocaprichode tornar-se pirata —,resolveu render-se semmais delongas,aceitandoos termosdaproclamação,oquedesarticuloudetalmaneiraoCongressoque esteterminouprecipitadamente,semsechegaraconclusãoalguma.Então Jennings—ecomoseuexemplo,maisoutroscentoecinquentahomens— dirigiram-se até o governador das Bermudas e obtiveram os seus certi icados,embora a maioria deles retornasse depois à pirataria,como cãesretornandoaoprópriovômito.Oscomandantesqueseencontravam então na ilha, além do capitão Jennings, acho que eram os seguintes:

Benjamin Hornigold,Edward Teach,John Martel,James Fife,Christopher Winter,NicholasBrown,PaulWilliams,CharlesBellamy,OliverlaBouche, major Penner, Ed. England, Thomas Burgess, Tho. Cocklyn, R. Sample, Charles Vane, e mais dois ou três outros. Hornigold, T. Burgess e La Bouchenaufragaramposteriormente.TeachePennerforammortosesuas tripulações,presas;JamesFifefoiassassinadoporseuspróprioshomens;a tripulaçãodeMartelfoianiquiladaeele,abandonadoemumailhadeserta. Cocklyn,SampleeVaneforamenforcados.Winter eBrownserenderam aosespanhóisemCuba,eEnglandvivehojeemMadagascar.

Nomêsdemaiooujunhode1718,ocapitãoRogerschegouaolocalde

seugoverno,comdoisnaviosdeSuaMajestade.Aliencontrouváriosdos piratasacimareferidos,osquais,àvistadasfragatas,renderam-setodos paraobteremoperdão,excetoCharlesVaneeseustripulantes,fatoquese passoudaseguintemaneira. Jáantes izreferênciaàsduasenseadasqueoportopossuía,formadas porumapequenailhaque icavadiantedesuaabertura.Porumadessas enseadas entraram as duas fragatas, deixando livre a outra, pela qual Vane soltou suas amarras, ateou fogo a um grande barco roubado que mantinhaalieretirou-seintempestivamente,disparandocontraosnavios enquantoseafastava. Tão logo instalou-se o capitão Rogers em seu governo, construiu um forteparadefendê-lo,guarnecendo-ocomtodososhomensqueconseguiu reunir na ilha. Os ex-piratas, em número de quatrocentos, foram organizadosemcompanhias,eeleconcedeupatentesdeo icialàquelesem que mais con iava. Em seguida, partiu para fazer comércio com os espanhóisnogolfodoMéxico.Efoiemumadessasviagensqueelemorreu. OcapitãoHornigold,umdaquelesfamosospiratas,foilançadocontrauns rochedos a grande distância da terra, e pereceu, embora cinco de seus homensconseguissemsubiraumacanoaesesalvar.

OcapitãoRogerstinhaenviadoumachalupaparaobtermantimentos, entregandoocomandoaumcertoJohnAugur,umdosantigospiratasque aceitaramoAtodeClemência.Duranteaviagem,elescruzaramporduas chalupas,eentãoJohneosseuscamaradas,aindanãoesquecidosdoseu anterior meiode vida,usaramde sua antiga liberdade e as capturaram, roubandoodinheiroeartigosnovaloraproximadodequinhentaslibras. Depois disso, dirigiram-se para Hispaniola [Haiti], sem saber se o governadoradmitiriaquemantivessemduasatividadescomerciaisaumsó tempo,edessaforma,decidiramdaradeusàsilhasBahamas.Mascomoa másorteospegou,enfrentaramumviolentotornado, icandosemomastro do barco, e foram arrastados de volta a uma das ilhas desertas das Bahamas,perdendo-secompletamenteachalupa.Oshomensconseguiram chegar até a praia, e viveram como puderam por um certo tempo na loresta,atéqueogovernadorRogers,ouvindofalardaquelaexpedição,e aondeelestinhamidoparar,enviouumachalupaarmadaparaareferida ilha.Ocomandantedesta,combelaspalavraseboaspromessas,conseguiu que os náufragos subissem a bordo, levando-os todos para Providence. Eramonzehomens.Dezforamjulgadospor umtribunaldoalmirantado, condenados e enforcados, graças ao testemunho do décimo primeiro, diantedetodososantigoscompanheirosderoubos.Oscriminososestavam loucosparainstigarosantigospiratasperdoados,erecuperá-losdasmãos dos o iciais da justiça, dizendo-lhes, de dentro da prisão, que jamais poderiam pensar que dez homens como eles se deixassem amarrar e enforcar como cães, enquanto trezentos de seus leais companheiros e amigos, comprometidos por juramento, tranquilamente assistiam ao espetáculo.UmcertoThomasMorrisfoimaislongeainda,acusando-osde fraquezaedecovardia,comosefosseumadesonraelesnãoserevoltarem eossalvaremdamorteignominiosaqueiriamsofrer.Masfoitudoemvão. Oque lhes responderamfoique agora oque eles precisavamfazer era voltarsuasmentesparaooutromundo,esearrependeremsinceramente de todas as maldades que haviampraticadoneste.“Sim”,respondeu um deles,“eumearrependoterrivelmente,mearrependodenãoterpraticado mais maldades ainda, e que não tenhamos degolado todos os que nos prenderam, e sinto uma pena enorme que vocês não sejam enforcados comonós.”Aoqueumoutrocomentou:“Eutambém.”Eumterceiro:“Eeu a mesma coisa.” E assim, foram todos eliminados, sem poder fazer mais nenhumdiscurso inal,anãoserumcertoDennisMacarty,quecontouaos presentesqueunsamigosseusmuitasvezeslhediziamqueelehaveriade morrer calçadoem seus sapatos, mas que agora ele faria com que eles

fossem uns mentirosos, e então chutou os sapatos para longe. E assim, chegaramao imasvidaseasaventurasdaquelespobresdesgraçados,as quaispoderãoservircomotristeexemplodequeoperdãodepoucoserve paraosquesedeixaramlevarporummaucaminhonavida. Para que nãome julguemmuitoseveroquantoaorepúdioque sinto pelo modo como nos tratavam os espanhóis nas Índias Ocidentais, mencionareiapenasumoudoisexemplos,procurandoseromaisconciso possível, e em seguida transcreverei algumas cartas originais, do governadordaJamaicaedeumo icialdeumadasfragatas,aosalcaidesde Trinidado,nailhadeCuba,comassuasrespectivasrespostastraduzidas paraoinglês.Depois,procedereiànarrativadaquelashistóriasdepiratas eseustripulantesquemaiorperturbaçãocausaramnomundodosnossos dias.

Porvoltademarçode1722,ocapitãoWalron,comandantedeumade

nossasfragatas—agaleraGreyhound—duranteumaviagemcomercial pelolitoraldeCuba,convidoualgunscomerciantesparajantar,comseus atendenteseamigos,osquaissubiramabordo,emnúmerodedezesseis ou dezoito pessoas. E, após as mesuras de praxe, seis ou oito deles sentaram-se à mesa do comandante, na cabine, enquanto os outros permaneciamnoconvés.Nessemomento,ocontramestresoouoapitodo jantar para toda a companhia do navio. Imediatamente os tripulantes apanharamasbandejas,receberamsuasrefeiçõesedesceramaoporão, deixandoláemcima,alémdosespanhóis,apenasquatrooucincomarujos, os quais imediatamente foram mortos, enquanto os alçapões eram fechados sobre os demais.Os que se encontravamna cabine já estavam preparadosparaaquilo,assimcomoseuscomparsas,poisnamesmahora sacaramsuas pistolas e mataramocapitão,ocirurgiãoe mais umoutro convidado,ferindogravementeotenente.Esteentretantoconseguiufugir pela janela e salvar-se, utilizando uma escada lateral. Dessa forma, em apenasuminstanteeles icaramsenhoresdonavio.Porumaacidentalboa sorte, entretanto, antes que pudessem levá-loembora, ele foiresgatado. PoisocapitãoWalronalgunsdiasantesenviaraaWindward,parafazer comércio,umachalupalevandotrintamarujosdesuatripulação,fatoeste que era de plenoconhecimentodos espanhóis.Assimque a açãodestes terminou,elesavistaramareferidachalupaaproximando-sedonaviocom ventos favoráveis. Imediatamente eles apanharam dez mil libras em espécie,segundomeinformaram,abandonaramonavioeseforamnasua embarcação,semseremmolestados.

Aproximadamentenamesmaépoca,umaGuardadelCosta, 12 dePorto Rico,comandadaporumitalianodenomeMatthewLuke,capturouquatro embarcaçõesinglesas,matandotodoostripulantes.Porémfoiporsuavez

capturada,emmaiode1722,pelafragataLanceston,quealevouparaa

Jamaica.Ali,excetuando-sesetedosseushomens,todososdemaisforam devidamente enforcados. É provável que a fragata não lhes houvesse prestadomuitaatenção,casonãofossemelesprópriosque,porconfusão, abordaramoLanceston 13 pensandotratar-sedealgumnaviomercante,e que, portanto, conquistariam uma bela presa. Mais tarde, durante as buscas,foiencontradoumcartuchodepólvorafabricadocomumpedaço de jornal inglês e que, em minha opinião, pertencia ao brigue Crean. Finalmente, após os devidos exames e serem interrogados, descobriu-se queeleshaviamcapturadoaquelebarcoeassassinadotodaatripulação. Umdosespanhóisconfessou,antesdeserexecutado,quesóele,comsuas própriasmãos,mataravinteingleses.

JAGODELAVEGA,20DEFEVEREIRO.

CARTADESUAEXCELÊNCIASIRNICHOLASLAWS,NOSSO

GOVERNADOR,PARAOSALCAIDESDETRINIDADO,EMCUBA,

DATADADE26DEJANEIRODE1721.

CAVALHEIROS

As frequentes depredações, roubos e outros atos de hostilidade cometidoscontraossúditosdemeuRealSenhor,oRei,porumaturmade bandidosquepretendepossuirautorizaçãoV.Sas.,equesãonarealidade protegidospelovossogoverno,dãomotivoaqueeuenvieoportadordesta, capitão Chamberlain, comandante do brigue Happy, de Sua Majestade, para exigir satisfações de V. Sas. por tantos roubos evidentes que recentementevossopovotemcometidocontraossúditosdoReinestailha. Particularmente,pelostraidoresNicholasBrowne Christopher Winter,a quem V. Sas. concedem proteção. Procedimentos como esses não constituemapenasumabrechanaLeidasNações,masdevemaparecerao mundocomodenaturezaabsolutamenteextraordinária,quandosevêque ossúditosdeumpríncipequemantémrelaçõesdecortesiaeamizadecom outro aprovam e encorajam essas vilanias. Confesso que sempre tive a maior paciência, evitando empregar meios violentos para obter uma satisfação,comesperanças notratadode deposiçãode armas 14 que tão

oportunamentefoi irmadoentreosnossosrespectivossoberanos,eque teria colocado um ponto inal nessas desordens. Mas, pelo contrário, descubroagoraqueoportodeTrinidadoéumabrigoparavilõesdetodos ospaíses.Por isso,achobomavisar aV.Sas.—eoa irmoemnomede meuSenhor,oRei—quesenofuturoefetivamenteeuvieraencontrar algumdessesvelhacosnavegandopelascostasdestailha,vouordenarque sejamimediatamenteenforcados,semapelação.EesperoeexijodeV.Sas. que façam plena restituição ao capitão Chamberlain de todos os negros que os referidos Brown e Winter recentemente levaram da parte norte destailha,comotambémdaschalupaseoutrosbensqueforamcapturados eroubadosdesdeaassinaturadotratadodedeposiçãodearmas.Espero também que V. Sas. entreguem ao capitão portador os ingleses que se encontramagoracon inados,ouqueaindapermanecememTrinidado,e que de agora em diante evitem conceder quaisquer autorizações, ou tolerar que esses notórios bandidos sejam equipados e preparados em vossoporto.Casocontrário,podemV.Sas.teracertezadequeosqueeu vieraencontrarserãoquali icadosetratadoscomopiratas.Doqueachei apropriadodar-vosconhecimento,esou&c.

CARTADOSR.JOSEPHLAWS,TENENTEDOBRIGUEHAPPY,

NAVIODESUAMAJESTADE,AOSALCAIDESDETRINIDADO.

CAVALHEIROS,

FuiencarregadopelocomodoroVernon,comandanteemchefedetodos osnaviosdeSuaMajestadenasÍndiasOcidentais,deexigir,emnomede nosso senhor, o Rei, [a devolução de] todas as embarcações, com seus bens,&c.,etambémdosnegrostomadosdaJamaica,desdeacessaçãodas hostilidades.Igualmente,detodososinglesesqueseencontramdetidos,ou que permanecem em vosso porto de Trinidado, especialmente Nicholas Brown e Christopher Winter, ambos os quais são traidores, piratas e inimigos comuns de todas as nações. O referido comodoro também ordenou-me que vos desse conhecimentoda sua surpresa aosaber que súditosdeumpríncipe,quetemrelaçõesdecordialidadeeamizadecom outro, conceda abrigo a tão notórios vilões. Aguardando vossa imediata concordância,sou,cavalheiros,

VOSSOHUMILDESERVIDOR,

JOSEPHLAWS.

AOLARGODORIOTRINIDADO

8DEFEVEREIRODE1721.

RESPOSTADOSALCAIDESDETRINIDADOÀSCARTASDOSR.LAWS:

CAPITÃOLAWS,

Emrespostaavossacarta,apresentepretendedar-vosconhecimento dequenemnestacidade,nemnoportoencontram-sequaisquernegrosou embarcações que tenham sido tomados na vossa ilha de Jamaica, ou naquela costa, desde a cessação das hostilidades. E que os navios apreendidosnaquelaépocaoforamporquerealizavamumcomércioilegal nestacosta.Quantoaosinglesesfugitivosmencionados,elesseencontram aqui, assim como outros súditos do Rei nosso senhor, tendo-se voluntariamente convertido à nossa fé católica, e recebendo a água do batismo.Masseelesprovaremser bandidosenãocumpriremcomseus deveres, para os quais estão presentemente destinados, serão devidamentecastigadossegundoasprescriçõesdenossoRei,queDeuso preserve. Pedimos que vosso navio recolha sua âncora o mais rápido possível,eseafastedesteportoedestascostas,poisemhipótesealguma serátoleradoqueesterealizecomércioouqualqueroutraatividade,pois estamosdecididosanãomaispermitirestascoisasdeoraemdiante.Que Deusvosguarde.Beijamosasvossasmãos.

ASSINADO,HIERONIMODEFUENTES, BENETTEALFONSODELMANZANO TRINIDADO,

8DEFEVEREIRODE1721.

RESPOSTADOSR.LAWSÀCARTADOSALCAIDES:

CAVALHEIROS,

Vossa recusa em entregar os súditos do senhor meu Rei é de fato surpreendente pois acontece em tempos de paz. A detenção deles consequentementeécontráriaàLeidasNações.Apesar davossafrívola pretensão (para a qual o único fundamento é forjar uma desculpa) de impedir-mederealizaruminquéritoparachegaràverdadedosfatosque expus em minha carta anterior, devo dizer-vos que minha decisão é de permanecer na costa até realizar minhas represálias. E se por acaso encontrar algumnaviopertencente a vossoporto,nãoireitratá-locomo súditodaCoroadaEspanha,massimcomopirata,umavezqueépartede Vossareligiãonesselugarprotegeressesbandidos.

VOSSOHUMILDESERVIDOR

JOSEPHLAWS.

AOLARGODORIOTRINIDADO,

8DEFEVEREIRODE1721

RESPOSTADEUMDOSALCAIDESÀRÉPLICADOSR.LAWS:

CAPITÃOLAWS,

Podeis icar certode que jamais faltareicomos deveres próprios do meuposto.Osprisioneirosqueaquiseencontramnãoestãonaprisão,mas sim são mantidos aqui apenas para serem posteriormente enviados ao governador de Havana. Se, como dizeis, vós comandais no mar, eu comandoemterra.Setratardesosespanhóis,queporacasocapturardes,

comopiratas,fareiomesmocomqualquerumdovossopovoqueeuvenha

a capturar. Usarei de boas maneiras, se assim também izerdes. Sei

tambémagircomosoldado,casoaocasiãoseofereça,poiscontoaquicom

muita gente para tal propósito. Caso exista alguma outra pretensão de vossaparte,podeisexecutá-lanestacosta.QueDeusvosguarde.Beijoas vossasmãos.

ASSINADO,BENETTEALFONSODELMANZANO

TRINIDADO

20DEFEVEREIRODE1721.

AsúltimasinformaçõesqueobtivemosdasnossascolôniasnaAmérica, datadas de 9 de junho de 1724, relatam-nos o seguinte: que o capitão Jones,donavioJohnandMaryencontrou,nodia 5doreferidomês,nas proximidades dos cabos da Virgínia, uma Guarda del Costa espanhola comandada por um certo Don Benito, que dizia estar autorizado pelo

governador de Cuba. Sua tripulação era de sessenta espanhóis, dezoito franceses, dezoito ingleses e um capitão que era tanto inglês quanto

espanhol,umtalRichardHolland,queantespertenceraàfragataSuffolk,

daqualdesertouemNápoles,asilando-seemumconvento.Serviunafrota

espanholasoboalmiranteCammock, 15 naguerradoMediterrâneo.E,após

o tratado de deposição de armas com a Espanha, estabeleceu-se com

diversosconterrâneosseus(irlandeses)nasÍndiasOcidentaisEspanholas. Essa Guarda delCosta capturou onaviodocapitãoJones,mantendosua posse do dia 5 até o dia 8, e durante esse tempo ela também tomou o Prudent Hannah, de Boston, cujo comandante era Thomas Mousell, e o

Dolphin, de Topsham, cujo comandante era Theodore Bare, ambos carregadosecomdestinoàVirgínia.Enviaramoprimeirodestes,comtrês

homens e o imediato sob o comando de um o icial espanhol e de uma tripulaçãotambémdeespanhóis,nomesmodiaemquefoicapturado.O segundoeleslevaramconsigo,colocandoocomandanteetodaatripulação abordodonaviodocapitãoJones.Saquearamesteúltimo,apoderando-se de trinta e seisescravoshomens,certa quantia de ouroempó,todasas suasroupas,quatrocanhõesgrandesepequenasarmas,eaindacercade quatrocentosgalõesderum,alémdosmantimentoseestoques,numtotal demilequinhentaslibrasesterlinas.

demilequinhentaslibrasesterlinas. aOptamosporconservaragra iaqueoautordáaosnomespróprios.

aOptamosporconservaragra iaqueoautordáaosnomespróprios. Assimprocedemostambémcomnomesespanhóiseportugueses,taiscomo Martinico,Pernambuca,BahialostodosSantosetc.(N.T.) bNooriginal:key.(N.T.) cPescadetartarugas.(N.T.) d Potosí, cidade na Bolívia, tinha a famosa montanha de Prata, consideradaamaiorjazidadepratadomundo.(N.T.)

eCidadedoHaiti.(N.T.)

fArainhaAnne,quemorreusubitamenteem1714.(N.T.)

g Teague é o nome da personagem principal da comédia “The Committee or the Faithful Irishman”, do dramaturgo inglês sir Robert

Howard(1626-1698).

I

OcapitãoAvery esuatripulação Jamais algum desses intrépidos aventureiros conseguiu ser tão comentado,eportantotempo,quantoocapitãoAvery.Produziueletanto

alarde pelomundoquantoagora ofazMeriveis. 1 Efoiconsideradouma pessoa de extrema importância. Na Europa, representavam-no como alguémquechegaraatéadignidadedeumverdadeirorei,comcapacidade para fundar uma nova monarquia. Dizia-se que ele se apoderara de

imensasfortunas,equesecasaracoma ilhadoGranMogol, 2 raptadade um navio indiano que ele capturou. E que teve muitos ilhos com ela, vivendo em grande fausto e realeza. Que construiu fortalezas, grandes arsenais e que foi senhor de uma poderosa esquadra de navios, manobrados por indivíduos capazes e desesperados, provenientes de todasasnaçõesdomundo.Quedistribuíaautorizaçõesemseunomeaos capitãesdosseusnavioseaoscomandantesdosfortes,equeporestesera reconhecidocomooseuPríncipe.Escreveu-seatéumapeçateatralsobre

ele, chamadaTheSuccessfulPirate. 3 Essashistóriasconseguiramumatal credibilidadequediversosplanosforamapresentadosaoConselhoparaa equipagemdeumaesquadraparaaprisioná-lo,aopassoquemuitosoutros eramafavordeconceder,aeleeaseuscomparsas,umAtodeClemência, chamando-oparaaInglaterracomtodososseustesouros,umavezqueo seu crescente poder ameaçava o comércio da Europa com as Índias Orientais. Entretanto,tudoissonãopassavadefalsosrumores,aumentadospela credulidade de uns e o senso de humor de outros, que adoram contar coisas bizarras. Pois, enquanto se dizia que ele aspirava à Coroa, na verdadeeleestavaàcatadepelomenosalgumshilling.Eaomesmotempo queseespalhavaserimensaasuariquezaemMadagascar,narealidade eleestavapassandofomenaInglaterra. Semdúvidaalguma,oleitorterácuriosidadedesaberoqueaconteceu comessehomem,equaisseriamosfundamentosparatantosrelatosfalsos aseurespeito.Porisso,damaneiramaissucintaquepuder,ireicontara suahistória. ElenasceunooestedaInglaterra,pertodePlymouth,emDevonshire. Tendorecebidoeducaçãoparaavidamarítima,serviucomoimediatonum naviomercanteemdiversasviagenscomerciais.IssofoiantesdaPazde

Ryswick (1697), 4 quando havia uma aliança entre Espanha, Inglaterra, Holanda&c.contraaFrança,poisosfrancesesdeMartinicorealizavamum comérciodecontrabandocomosespanhóisdocontinente,noPeru,oque, pelasleisdaEspanha,nãoépermitidoàsnaçõesamigasemtemposdepaz, pois ninguém, a não ser os espanhóis nativos, têm permissão para comerciarnaquelaregião,oudesembarcarnolitoral,amenosquesejam trazidos comoprisioneiros.Por issosãomantidos navios constantemente circulandoaolongodacosta,chamadosGuardadelCosta,comordensde apreenderquaisquerembarcaçõesquepossamserlocalizadasdentrodo limitedetrintaquilômetrosdaterra.Comosfrancesesmostrando-secada vez mais audaciosos no comércio, e os espanhóis dispondo de pouquíssimos navios — e os que possuíam, sem poder algum —, frequentementeaconteciaqueaolocalizaremoscontrabandistasfranceses eles não contavam com uma força su iciente para atacá-los. Por isso a Espanha resolveu contratar dois ou três navios estrangeiros poderosos para o seu serviço. Ao saberem disso em Bristol, alguns comerciantes daquela cidade equiparam dois navios, cada qual com trinta e poucos canhões e cento e vinte tripulantes, bem abastecidos de provisões e munição, e com todos os demais estoques necessários. E, uma vez aprovadoocontratoporalgunsagentesdaEspanha,osnaviosreceberam ordens para navegar com destino a Corunna (Groine) para ali serem instruídosetomaremcomopassageirosalgunscavalheirosespanhóisque

iamparaaNovaEspanha. 5 Em um daqueles navios — que segundo acredito, chamava-se Duke, comandadopelocapitãoGibson—Averyestavacomoprimeiroimediato. Sendoumindivíduomaisastuciosodoquepropriamentedecoragem,ele soubeinsinuar-senasboasrelaçõescomváriostripulantesdentreosmais corajosos,abordodeambososnavios.Sondandoasinclinaçõesdelesantes de revelar suas verdadeiras intenções, e percebendo que eles estavam maduros para os seus desígnios, inalmente lhes propôs fugirem com o navio,falando-lhessobreaimensafortunaquepoderiamobternascostas da Índia.Malacabou de falar e já todos concordavam, icandoresolvido queaconspiraçãoseriaexecutadaàsdezhorasdanoiteseguinte. Deve-se notar que ocomandante era daqueles profundamente dados aovíciodoponche,tantoqueamaiorpartedotempoelepassavaemterra, bebendo em alguma pequena taverna. Entretanto, naquele dia, contrariando o costume, ele não foi para terra, o que contudo não atrapalhouoplano,poisele icoubebendoassuasdosesusuaisabordo

mesmo,eassim,foideitar-seantesdahoracombinadaparaonegócio.Os homensquenãoestavaminformadossobreaconspiraçãotambémforam para os seus catres, não icando ninguém no convés além dos conspiradores. Os quais, diga-se de passagem, constituíam a maioria da tripulação.Nahoracombinada,oescalerdoDuchesssurgiue,aumsinal combinadodeAvery,oshomensqueseencontravamnelederamasenha:

“Seucomandantebêbadoestáabordo?”Àrespostaa irmativadeAvery, dezesseishomensmuitofortessubiramabordoesejuntaramaogrupo.

Quandoonossopessoalviuqueestavatudoemordem,aferrolharamos

alçapões e puseram-se ao trabalho. Não recolheram a âncora, mas sim deixaramqueestapendessesolta,paraquedessaformapudessemirpara o mar sem qualquer distúrbio ou perturbação, apesar de vários navios estaremnaquelemomentoancoradosnabaía,entreosquaisumafragata holandesadequarentacanhões,cujocapitãoreceberaumagrandeoferta para que acompanhasse o navio em sua viagem. Porém Mynheer, certamentenãopretendendoencarregar-sedetalmissão,etambémnão podendoconvenceralgumoutronavioafazerotrabalho,permitiuqueo sr.Averyseguissesuaviagem,paraondetivesseaintençãodeir.

O capitão, que nesse meio-tempo acordou, quer pelo movimento do

navio,querpelobarulhonoscordames,tocouasineta.Averyemaisdois

outroschegaramatéacabine,eocapitão,aindameiodormindoenuma

espéciedepavorperguntou:“Oqueéisso?”Averyrespondeufriamente:

“Nada.”Aoqueocapitãoreplicou:“Estáacontecendoalgumacoisacomo navio,eleestáàderiva?Comoestáotempo?”—achandoquecertamente estava havendo uma tempestade, e que o navio fora arrastado do ancoradouro.Averyrespondeu:“Não,não.Estamosemalto-mar,comvento favorávele otempoestá muitobom.”Exclamou ocapitão:“Emalto-mar! Comoépossível?”EAvery:“Vamos,não iquetãoapavorado.Olha,vista-se, quevoulhecontarumsegredo:Vocêprecisasaberqueagoraeuéquesou ocomandantedestenavio,equeestaéaminhacabine,equeporissovocê deve dar o fora daqui. Nosso destino é Madagascar, onde vou fazer a minhaprópriafortuna,etodososcompanheirosdecoragemestãocomigo.”

O capitão, que ainda não recobrara totalmente os sentidos, só então

começou a entender oque se passava. Mas oseu pavor continuava tão grandecomoantes,eAvery,percebendoisso,disse-lhequenadatemesse; “Pois”,falou,“seosenhorquisersejuntaranós,nósoaceitaremos,ese icarsóbrioecuidardassuascoisas,talvezoportunamenteeuotorneum dosmeustenentes.Senão,temumescalerpreparadoeosenhorpoderá

voltarneleparaterra.” Ocapitãogostoudeouviressaproposta,eaaceitou.Chamou-seentão toda a tripulação para saber quem queria voltar para a terra, com o capitão,e quempreferia icar e buscar sua fortuna comos demais.Não mais do que cinco ou seis homens apenas mostraram-se desejosos de abandonaronavio.Peloque,foramnomesmoinstantepostosnoescaler, comocapitão,dirigindo-separaolitoraldojeitoquepuderam. O navio seguiu viagem para Madagascar, porém parece-me que eles não capturaram nenhum navio pelo caminho. Ao chegarem à região nordestedailha,deramcomduaschalupasancoradasnacosta.Oshomens queláseencontravamlargaramimediatamenteoscabosecorrerampara terra,embrenhando-senomato.Asembarcaçõestinhamsidousadaspor eles para fugirem das Índias Ocidentais. Ao verem o barco de Avery, acharamquedeviatratar-sedealgumafragataenviadaparaprendê-lose assim,sabendoque nãodispunhamde força su iciente para enfrentá-la, fizeramopossívelparasesalvar. Imaginandoondepoderiamestar,Averyenvioualgunsdeseushomens parainformá-losqueeramamigosepropor-lhesque icassemjuntosem nome da segurança comum. Os homens das chalupas estavam bem armadosesehaviamembrenhadonumbosquedeixandosentinelaspara observar seonavioiriadesembarcar osseushomensparapersegui-los. Aoveremapenasdoisoutrêscaminhandoemsuadireção,edesarmados, nãolhesopuseramresistência.Masderam-lhesordensparaseidenti icar, earespostafoiqueeramamigos.Entãoosconduziramatéoseugrupo, ondeamensagemfoitransmitida.Aprincípioacharamquepodiaseruma armadilha para prendê-los, quandoestivessem a bordo, mas à proposta dosembaixadores,dequeoprópriocapitãoealgunstripulantes,citados nominalmente,estavamdispostosaencontrá-lossemarmasnapraia,eles acreditaramnasuaseriedadeeimediatamenteseestabeleceuumamútua con iança: os que estavam a bordo desceram à praia, e alguns dos que estavamnapraiasubiramabordo. Os homens das chalupas comemoraram a nova aliança, pois as suas embarcaçõeserampequenasdemaisparaatacaralgumnavio,dequalquer potência que fosse,tantoque até entãonãohaviamcapturadonenhuma presaconsiderável.Masagoraesperavampodervoarbemmaisalto.Avery também gostou daquele reforço, que vinha aumentar a sua capacidade para algum empreendimento mais audacioso, e não obstante o butim tivesse de diminuir para cada um, tendo de dividir-se em muito mais

partes,mesmoassimele descobriu umexpediente para que ele próprio nãolevasseprejuízoporisso,comoserádemonstradooportunamente. Tendotodosdeliberadooquefazer,decidiu-sequeagaleraeasduas chalupaslargariamvelasnumaviagemdeexploração.Assim,lançaram-se todosàpreparaçãodasduaschalupasparaaviagem,partindoemseguida emdireçãoàscostasdaArábia.AochegarempertodorioIndus,ovigiado mastroprincipalavistouvelasaolonge,eimediatamenteelesiniciarama perseguição.Aproximando-semais,perceberamqueonavioeradegrande altura,eacharamquepoderiaseralgumnavioholandêsretornandodas Índias Orientais. Porém logo descobriram que a presa ainda era maior. Quando deram tiros para rendê-la, ela içou a bandeira do Mogol, aparentando icarnadefensiva.Averyatiroucomseuscanhõesapenasde longe,peloquealgunsdosseushomensdescon iaramqueelea inalnão era aquele heróique esperavam.Entretanto,as chalupas nãoperderam

tempoe,chegandoumaatéaproaeaoutraaotombadilho, 6 chocaram-se

com o casco 7 e invadiram o navio, que imediatamente recolheu sua bandeiraeseentregou.OnaviopertenciaàfrotapessoaldoMogol,enele seencontravamváriosdosmaisimportantesmembrosdasuacorte,entre osquais,dizia-se,umadesuas ilhas,emviagemdeperegrinaçãoaMeca —poisosmaometanossãoobrigadosafazer,peloumaveznavida,uma visitaàquelelocal.Elevavamricasoferendasparacolocaremnotúmulode Maomé. Como se sabe, os povos orientais costumam viajar em grande magni icência, e assim, vinham com todos os seus escravos e criados, riquíssimos vestuários e joias, jarros de ouro e prata, e ainda, grandes somasdedinheiroparaarcaremcomsuasdespesasemterra.Peloque,o queseconseguiusaquearalidificilmentepoderásercontabilizado. Depois de transportarem todo o tesouro para os seus navios, e de despojaremapresadetudoomaisqueadmirassemoucobiçassem,eles deixaram o navio partir. Como este não tinha mais condições para prosseguirviagem,tevederetornar.Tãologoasnotíciaschegaramatéo Mogol,e este icou sabendoque oroubofora praticadopor ingleses,fez grandes ameaças, declarando que iria enviar um poderoso exército, armadocomespadasearmasdefogo,paraexpulsarosinglesesdetodos osseuspovoadosnacostaindiana.ACompanhiadasÍndiasOrientais,na Inglaterra, icou grandemente alarmada. Entretanto, pouco a pouco foi encontrandomeios para paci icar oMogol,prometendoenvidar todos os esforçospossíveispara prender os ladrões e entregá-los nas suas mãos. Emtodoocaso,ograndealardequeanotíciaprovocounaEuropa,como

tambémna Índia,foioque ocasionou a criaçãode todas essas histórias românticasarespeitodagrandezadeAvery. Enquantoisso,osnossosbem-sucedidossaqueadoreseramdeopinião quesedeviafazertudopararetornaraMadagascar,estabelecendoalium localpara armazenar seus tesouros, coma construçãode uma pequena fortaleza, e deixando sempre na praia alguns homens para vigiá-la e defendê-ladepossíveisassaltosdosnativos.MasAveryrejeitouoprojeto, achando-odesnecessário. Enquantoeles seguiam seu caminho, comofoidito, Avery enviou um escaler até cada uma das chalupas,solicitandoa vinda de seus chefes a bordo do navio para realizarem um conselho. Assim izeram, e ele lhes declarouterumaproposta,emnomedobemcomum,relativaàsmedidas necessárias de precaução contra acidentes. Propôs que considerassem bem se os tesouros que possuíam eram su icientes para todos, e se poderiamresponderpelasuasegurançaemalgumlocal,oualgumapraia. Caso contrário, tudo que tinham a temer seria que alguma desgraça acontecesse aos tesouros durante a viagem. Sugeriu-lhes que examinassembemasconsequênciasdeseverem,deumahoraparaoutra, separadosunsdosoutrospelomautempo,casoemqueaschalupas—se

caíssemempoderdealgumnaviodeguerra, 8 qualquerumadelas—ou seriamapreendidas,ounaufragariam,eostesourosquelevavamabordo seriam fatalmente perdidos para todos. Isto, para não mencionar os acidentesquecostumamacontecernomar.Ele,porsuaparte,dispunhade forçasu icienteparaenfrentarqualquerbarcoquelhesurgisseàfrente, nosmares;esealgumsemostrasseacimadassuaspossibilidades,eele nãopudessecapturá-lo,tampoucoopoderiamcapturaraele,umavezque contavacomumatripulaçãotãocapacitadacomoasua.Alémdisso,oseu navionavegavaemgrandevelocidade,epodiadesfraldarvelasquandoas chalupas não o podiam. Pelo exposto, o que lhes recomendava era que colocassemtodos os tesouros a bordodoseu navio,lacrandocada cofre com três selos, um selo para cada um deles. E propunha também combinarem um ponto de encontro, para o caso de uma consequente separaçãoentreasembarcações. Depois de examinarem bem a proposta, a acharam tão razoável que prontamente concordaram, raciocinando que de fato poderia ocorrer algumacidentecomumadaschalupas,enquantoaoutrapudesseescapar, peloqueaquelamedidaerapelobemdetodos.Apropostafoiconcretizada conformeocombinado,ostesourosforamtransportadosparaonaviode

Averyeoscofres,devidamenteselados.Elesnavegaramjuntosnaqueledia e nodia seguinte comtempobom.Nesse ínterim,Avery icou tramando com seus companheiros, dizendo-lhes que agora sim, dispunham do su iciente para viver folgadamente, pois o que os impediria de ir para algum país onde ninguém os conhecesse, e viver na abundância, nas praias, pelo resto dos seus dias? Todos compreenderam o que ele insinuava, e concordaramemludibriar os novos aliados, os homens das chalupas. Acho que nenhum sentiu a menor náusea percorrer-lhe o estômago,diantedaqueladesonra,equeo izessedesistirdaqueleatode traição.Emresumo,elesseaproveitaramdaescuridãodanoite,mudaram orumoparaoutradireçãoe,pelamanhã,jánãomaispodiamservistos. Vamos deixar que o leitor imagine as pragas e a balbúrdia que reinaramentre opessoaldas chalupas pela manhã,aoperceberemque Averylhespregaraumapeça.Poislogopuderamver,pelasboascondições dotempoearotaquetinhamcombinado,queacoisasópoderiatersido proposital. Mas devemos deixá-los agora, passando a acompanhar o sr. Avery. Avery e os seus homens, após deliberarem qual destino a tomar, chegaramaumaresolução:adeprocuraremomelhormeiodechegarà América.Comonenhumdeleseraconhecidonaquelasregiões,aintenção erarepartirostesouros,trocarosseusnomes,desembarcaremdiferentes partes dolitoral, comprar casas e entãopassar a viver folgadamente. A primeira terra a que chegaram foi a ilha de Providence, recentemente colonizada.Ali icarampor algumtempo.Atéque,re letindoquequando eles chegassem à Nova Inglaterra, as grandes proporções do navio haveriam de provocar muitas perguntas; e que, possivelmente, algumas pessoasdaInglaterra,játendoouvidocontarahistóriadonavioroubado emGroine,poderiamsuspeitarseremelesosautoresdoroubo;emvista disso, eles resolveram colocar à venda o navio, em Providence. Avery, pretendendo que ele fora equipado particularmente como um navio corsário,noquenãoforabem-sucedido,declarouterrecebidoordensdos proprietáriospara que dispusesse dobarcoda melhor forma possível,e logoencontrouumcomprador.Imediatamente,eleprópriocomprouuma chalupa. Nessa chalupa, ele e seus companheiros embarcaram, parando em diversospontosdaAméricaondeninguémsuspeitavadeles.Algunsforam para terra, e ali se dispersaram pelo país, depois de receberem os dividendos que Avery lhes deu. Pois ele escondeu a maior parte dos

diamantesconsigo,jáquenapressadosaquedestesnãoprestarammuita atençãoàquantidadeetampoucoconheciamoseuvalor. FinalmentechegouaBoston,naNovaInglaterra,aparentementecoma intenção de se estabelecer ali. Alguns companheiros também desembarcaram, mas ele acabou mudando de ideia. Propôs aos poucos homens que ainda o acompanhavam navegarem rumo à Irlanda. Todos concordaram. Achava que a Nova Inglaterra não era o lugar adequado, poisumagrandepartedasuariquezaeraemdiamanteseseosexibisse ali,comtodacertezaseriapresocomosuspeitodepirataria. Em sua viagem à Irlanda, eles evitaram passar pelo canal de São George, desembarcando num dos portos ao norte daquele reino. Venderamonavioe,chegandoatéapraia,alisesepararam,algunsindo paraCork,outrosparaDublin.Dentreessesdezoitoobtiveram,maistarde, operdãoconcedidopeloreiWilliam.Depois que Averypermaneceu por algum tempo naquele reino, começou a sentir medo de colocar os seus diamantes à venda, pois uma investigaçãosobre a maneira como foram obtidos poderia levar à descoberta de tudo. Assim, re letindo consigo mesmoomelhor a fazer, lembrou-se de que em Bristol viviam algumas pessoas nas quais ele poderia arriscar-se a con iar. Imediatamente resolveu atravessar para a Inglaterra. Assim que chegou lá, foi a Devonshire,ondemandouumrecadoparaumdessesamigosencontrá-lo nacidadedeBiddiford.Encontrando-secomeleeconsultando-osobreos meiosdedispordasuamercadoria,amboschegaramàconclusãodequeo melhorseriacolocá-lanasmãosdealgunscomerciantesqueeleconheciae que, sendo homens ricos e com crédito na sociedade, não provocariam nenhuma investigação a respeito. Aquele amigo lhe revelou ser muito íntimodealgunsdeles,queerammaisindicadosparaonegócio,eselhes fosse concedida uma boa comissão, realizariam a coisa de forma bem con iável.ApropostaagradouaAvery,quetambémnãoviaoutromodode conduzir os seus negócios, visto que não podia aparecer neles pessoalmente.Assim,seuamigoretornouaBristoleapresentouaquestão aos comerciantes.Estes seguirampara Biddiford,para encontrar-se com Avery. Ali, depois de muitos argumentos em favor de sua honradez e integridade, Avery lhes entregou sua mercadoria, que consistia em diamantesealgunsvasosdeouro.Oscomercianteslhederamumpouco de dinheiro, para sua subsistência por aquele momento. E se foram embora. Avery trocou de nome e viveu em Biddiford sem chamar atenção, e

assimquasenãofoipercebidaasuapresençaali.Entretanto,deixouque uns poucos conhecidos seus soubessemdoseu paradeiro,e eles vieram vê-lo. Em pouco tempo, o seu dinheiro acabou, e ele continuava sem qualquernotíciadoscomerciantes.Escreveu-lhesmuitascartase,aocabo demuitosincômodos,elesacabaramenviando-lheumapequenasoma,o bastanteapenasparaelesaldar assuasdívidas.Resumindo,asquantias quelheenviavam,detemposemtempos,eramtãoescassasquenempara opãoeramsu icientes,etampoucopodiaobtê-lassenãoàcustademuitos problemaseincômodos.Peloque,cansadodaquelavida,elefoiemsegredo aBristolentender-sepessoalmentecomoscomerciantes.Maslá,aoinvés dedinheiro,oqueelerecebeufoiumaviolentarejeição.Poisquandoquis quelheprestassemcontas,eleso izeramcalar-se,ameaçandodenunciá-lo. Assim, os nossos comerciantes se revelaram tão bons piratas em terra quantoelehaviasidonosmares. Nãosesabeseeleseamedrontoucomasameaças,ouseviualguém queachouqueoreconhecia,ocertoéqueelepartiuimediatamenteparaa

Irlanda, de onde icava insistentemente

comerciantes,mas semqualquer resultado,pois chegou mesmoa ver-se

reduzidoàmendicância.Naquelasituaçãoextrema,decidiuvoltareatacá-

los,fossemquaisfossemasconsequências.Embarcounumnaviomercante paraPlymouth,pagandoasuapassagemcomtrabalho,edalifoiapéaté Biddiford onde, apenas alguns dias depois, icou doente e morreu, sem mereceraomenosquelhecomprassemumcaixão. Assim,apresenteitudooquemefoipossívelreunircomalgumacerteza arespeitodessehomem,rejeitandoashistóriasinfundadasquesecriaram sobre a sua fantástica grandeza, e pelas quais ica demonstradoque as suasaçõesforammaisinconsequentesqueadeoutrospiratasdepoisdele, emboraprovocassemmaioralardepelomundo. E agora retornaremos para oferecer aos nossos leitores alguma informaçãosobreoquesepassoucomasduaschalupas. Referimo-nos ao ódio e à confusão que certamente tomaram conta deles, ao darem pelo desaparecimento de Avery. Prosseguiram no seu curso,algunsaindaanimando-seunsaosoutros,dizendoqueeleapenasos ultrapassaraduranteanoiteequecomcertezairiamencontrá-lonolocal combinado. Mas ao chegarem lá, sem quaisquer notícias sobre ele, as esperançasseextinguiram.Erahoradepensarnoquefazer,elesmesmos:

todo o estoque de mantimentos estava quase acabado e, não obstante haverarrozepeixe,eavesquesepoderiamabaternapraia,aindaassima

pedindo dinheiro aos

quantidade não seria su iciente para se manterem no mar sem se abastecerem adequadamente de sal, o que não era possível fazer ali. Assim,jáquenãomaispodiamsaircirculandopelosmares,eratempode pensar em se estabelecerem em terra. E com esse propósito, retiraram tudo das chalupas, fabricaram barracas com as velas e armaram um acampamento.Eragrandeaquantidadedemuniçãoedepequenasarmas dequedispunham. Ali encontraram vários conterrâneos, da tripulação de um navio corsário comandado pelo capitão Thomas Tew. E, uma vez que isto constituirá apenas uma pequena digressão, vou relatar como eles chegaramatélá. OcapitãoGeorgeDeweocapitãoThomasTewtinhamsidoautorizados peloentãogovernadordasBermudasalevaremseusnaviosdiretamente até o rio Gâmbia, na África, onde, com a assessoria e a assistência dos agentesdaRoyalAfricanCompany,tentariamocuparumafábricafrancesa

em Goorie (Goree), que icava no litoral. 9 Poucos dias após a partida, duranteumaviolentatempestade,Dewnãosóviurachar-seomastrodo seu navio,comotambémperdeu de vista ocompanheiro.Assim,teve de retornar para fazer reparos na embarcação, enquantoTew, aoinvés de prosseguir viagem, dirigiu-se para o cabo da Boa Esperança, que contornou,direcionandoentãooseucursoparaoestreitodeBabelMandel [BabelMandeb],queéaentradaparaomarVermelho.Láelesedeparou com um grande navio, ricamente carregado, viajando da Índia para a Arábia,e comtrezentos soldados a bordoalémdos marinheiros.Mesmo assim,Tewteve a audácia de abordá-lo,dominando-ologo.Edizemque, comaquelapresa,oshomensdividiramcercadetrêsmillibrasparacada um.Conseguiramdosprisioneirosainformaçãodequeoutroscinconavios, comcarregamentosigualmentericos,iriampassarporali,eseguramente Tew os teria atacado, mesmo sendo eles muito poderosos, não fosse dissuadido disso pelo contramestre e por outros tripulantes. Essa desavençadeopiniõescriouumcertoclimarancorosoentreeles,tantoque resolveramacabarcomapirataria.Nenhumlugarseriamaisapropriado para recebê-los do que Madagascar, e foi para lá que se dirigiram, decidindovivernaspraiasedesfrutaroquehaviamganho. Quanto a Tew pessoalmente, em pouco tempo, com alguns outros, embarcouparaRhodeIsland,paraviverempazdalipordiante. Assim descrevemos a companhia que os nossos piratas acabaram

encontrando. Deve-seobservarqueosnativosdeMadagascarsãonegros,porémde uma espécie diferente dos da Guiné: ocabeloé compridoe a teznãoé negroazeviche.Organizam-se empequenos principados numerosos,que estãoconstantementefazendoguerraunsaosoutros.Escravizamosseus prisioneirose,oubemosvendem,ouosmatam,segundosuadisposiçãode ânimonomomento.Aprimeiravezqueosnossospiratasseestabeleceram ali,aaliançacomelesfoialgoqueaquelespríncipesmuitodesejaram,de formaqueàsvezesospiratasseassociavamaumdeterminadopríncipe, outrasvezesaumoutro,mas,dequalquerladoquesecolocassem,sempre saíamvitoriosos.Poisosnegrosnãotinhamarmasdefogo,enemsabiam como usá-las. Tanto que, por im, os piratas se tornaram iguras tão terríveisparaelesque,aoentrarememguerraentresi,ofatodehaver mesmoqueapenasdoisoutrêspiratasdandoapoioaumdosladosfazia comqueooutrofugisseimediatamente,semdesferirnemumsógolpe. Dessa forma eles se tornaram não apenas temidos, como também poderosos. Todos os prisioneiros eram escravizados. Tomaram como esposas as mais belas negras, não uma ou duas, porém quantas desejassem.Etantasquecadaumdelesdispunhadeumharémtãovasto quantoodoGrandeSenhor deConstantinopla.Empregavamosescravos naplantaçãodearroz,napesca,nacaçaetc.,alémde,parasegarantirem contra possíveis ataques de seus poderosos vizinhos, darem também proteçãoamuitosoutrosnativos,osquaisporessemotivoretribuíam-lhes prestando-lhesespontâneashomenagens.Atéquecomeçouaseveri icar uma divisão entre os próprios piratas, cada qual indo viver com suas esposas, seus escravos e dependentes, como um verdadeiro príncipe, separadodosdemais.E,comoopodereafarturanaturalmentegeramas contendas, algumas vezes eles brigavam um com o outro, atacando-se reciprocamente diante de seus numerosos exércitos. E muitos foram mortosnessasguerrascivis.Porémumacidentesucedeuqueosforçoua seuniremnovamente,emnomedasalvaçãocomum. Deve-se observar que esses homens, tornados grandes de uma hora para outra, usavam o poder como verdadeiros tiranos, e foram icando cadavezmaisdesumanosemsuacrueldade.Nadamaiscomumentreeles doque,pelamaissimplesofensa,mandaremamarraraumaárvorealgum dosseusdependenteseomataremcomumtironocoração,qualquerque fosse a espécie de crime cometido, leve ou grave. Era essa sempre a punição.Diante disso,os negros tramaramuma conspiraçãopara,numa

únicanoite,livrarem-sedaquelesdepredadores.Ecomoagoraelesviviam separados,a coisa poderia ter sidofacilmente executada,nãofosse uma mulher,que fora esposa ou concubina de umdeles,ter corridoemtrês horasquasetrintaquilômetrospararevelar-lhesoplano.Imediatamente apósoavisoelessejuntaramomaisdepressaquepodiam,demodoque quando os negros chegaram lá encontraram-nos completamente em guarda.Assim,bateramemretirada,semnadatentar. Ofatodeconseguiremescaparfezcomquedaliemdianteeles icassem muito mais cautelosos. Vale a pena descrever aqui a política desses homensbrutais,easmedidasquetomaramparasegarantirem. Descobriramque omedoque despertava oseu poder nãoconstituía nenhumasegurançacontraumpossívelataquedesurpresa:quandoestá dormindo,omaiscorajosohomempodesermortoporqualquerum,por pior que seja, em coragem e força. Por isso, sua primeira medida de segurança foi fazer tudo para fomentar as guerras entre os negros vizinhos,enquantoparasimantinhamsempreaneutralidade.Assim,era frequentequeosderrotadoscorressemparaelesembuscadeproteção, para não serem mortos ou escravizados. E eles apoiavam aquele determinadopartido,forçandoalgunsmembrosasecomprometerem,por interesse. Quando não estava havendo nenhuma guerra, icavam maquinandoalgummododeincitaremumadisputaqualquerentreelese, aomenor desentendimento,faziamque umladoou ooutrose vingasse,

ensinando-oscomoatacarousurpreenderosadversários,eemprestando-

lhespistolasoumosquetescarregadosparadaremcabounsdosoutros.A consequência disso era que o assassino era forçado a procurar refúgio entreeles,parasalvarasuavida,edassuasmulheres,filhoseparentes.

E esses então se tornavam amigos iéis, uma vez que as suas vidas dependiam da segurança daqueles protetores. Pois, como observamos antes,nossospiratastinhamsetornadodetalformaterríveisquenenhum dosvizinhoserasu icientementeaudaciosoparaatacá-losemumaguerra declarada. Comsemelhantes artimanhas,e nodecorrer de alguns anos,ogrupo delesaumentoumuito.Entãocomeçaramaseseparar,distanciandosuas moradiascadavezmaisumadaoutra,pretendendonecessitaremdemais espaçoparasi,esedividiramassimcomoosjudeus,emtribos,cadaqual carregandoconsigomulheres, ilhos(poressaépocaelesjácontavamcom famílias muito numerosas), e também a sua cota de dependentes e de seguidores.E,seopodereocomandoservemparadistinguirumpríncipe,

entãoaquelesru iõesportavamconsigotodasasmarcasdarealeza,eaté maisqueisso,poissofriamdosmesmostemoresquecomumenteafetamos tiranos, como se pode constatar pelo extremo cuidado com que fortificavamsuasmoradias. Quantoaoplanodessasforti icações,elessecopiavamunsaosoutros. Suasresidênciaserammaispropriamentecidadelasdoquecasas.Olugar queescolhiamerasemprecercadode lorestas,próximoaalgumlago,ou rio,en im,algumafontedeágua.Aoredor,construíamumamuralhatão vertical e alta que seria impossível escalá-la, principalmente quem não dispunha de escadas de assalto. Sobre aquela muralha, faziam uma passagem para a selva. A residência, que na verdade era apenas uma cabana,situava-se naquela parte da loresta considerada maisadequada pelo príncipe morador, porém icava tão encoberta pela vegetação que ninguém podia vê-la antes de chegar bem perto. Mas a maior demonstração de astúcia era o caminho que levava até a cabana, tão estreitoque sóuma pessoa roçando-lhe ambos os lados podia caminhar porele,econcebidodemaneiratãointrincadaquenaverdadeconstituía um confuso labirinto, dando voltas e mais voltas, e com diversos cruzamentos.Assim,alguémquenãoconhecessebemocaminhopoderia icar andando ali, para lá e para cá, por horas e horas, sem conseguir encontrar a cabana. Além disso, por todos os lados dessas estreitas passagens eram incados no chão longos espinhos de uma determinada árvore da região,coma ponta emriste para cima,e,comootraçadodo caminho era recurvo e serpenteante, se alguém pretendesse chegar à cabana durante a noite,certamente seria atingidopor umdeles,mesmo quecontassecomamesmachavequeAriadnedeuaTeseu,quandoeste penetrounagrutadoMinotauro. Eassimviviamtodos lá,comoverdadeiros tiranos,a tudotemendoe por todos temidos. E nessa situação foram encontrados pelo capitão WoodesRogers,quandoestefoiaMadagascarabordodoDelicia—um naviode quarenta canhões destinadoà compra de escravos —a imde vendê-loaosholandesesnaBatávia,ounaNovaHolanda. 10 Aconteceude ele aportar a uma regiãoda ilha emque,nos últimos sete ou oitoanos, jamaisnavioalgumforavisto,encontrandoalgunspiratasque,poraquele tempo,jáseencontravamalihaviamaisdevinteecincoanos,agoracom umavariegadadescendênciade ilhosenetos,onzedosquaisaindaestão vivos. Quando viram aquela embarcação de tamanha potência e tantos

carregamentos, acharam que seria algum naviode guerra enviadopara prendê-los. Por isso, correram a esconder-se em suas fortalezas. Mas, quando alguns homens do navio desembarcaram na praia sem darem qualquersinaldehostilidade,eaindaoferecendo-separacomerciarcom os negros,entãoeles se aventurarama sair de suas tocas,cercados por seus criados, assim comouns verdadeiros príncipes. E, uma vez que de fatoeramreis,porumaespéciededireitoadquirido,éassimquetemosde falarsobreeles. Pode-se bem imaginar que, tendo passado tantos anos naquela ilha, suas roupas há muito se haviam rasgado, tanto que Suas Majestades tinhamoscotovelosdefora.Nãopossodizerqueestivessempropriamente esfarrapados, visto que não eram roupas de verdade o que vestiam:

cobriam-seapenascomcourosdeanimais,crusecomtodapelagem.Não tinhamsapatos ou meias,parecendo-se coma igura de Hércules coma peledoleão.Etambém,comasbarbaseoscabeloscrescidos,seuaspecto eraomaisselvagemqueaimaginaçãohumanapodeconceber. Entretanto,logoelespuderamrecompor-se,poisbarganharammuitos daqueles coitados que subjugavam por roupas, facas, serras, pólvora, balas,etantasoutrascoisas.Esemostraramtãoàvontadequedecidiram subir a bordo do Delicia, sempre tantas curiosos a respeito de tudo, examinando todo o interior do navio, e também amigáveis com os tripulantes, a quem convidaram para visitá-los em terra. Seu propósito, comomaistardeconfessariam,eratomardesurpresaonaviodurantea noite, o que pensavam que seria fácil pois a guarda de bordo era insu iciente,e eles dispunhamde barcos e de muitos homens sob oseu comando. Mas parece que o capitão estava ciente da sua intenção, pois manteve uma vigilância tãocerrada noconvés que eles concluíram que seriavãqualquertentativanessesentido.Diantedisso,aodesembarcarem alguns tripulantes, eles procuraram engodá-los, propondo-lhes uma conspiração para sequestrar o capitão e prender o resto dos homens debaixodosalçapõesquandoestesfossemfazeravigianoturna.Ficaram de lhes dar um sinal para subirem a bordo e se juntarem a eles. Caso fossembem-sucedidos,aideiaerasaíremjuntospelosmares,praticandoa pirataria.Semdúvidaquecomumnaviodaqueleselesseriamcapazesde capturar qualquer coisa que encontrassem pelo mar. Porém o capitão, observando a crescente intimidade entre os piratas e alguns dos tripulantes,concluiu que aquilonãopoderia visar nada de bom,e assim pôs-lheumponto inalantesquefossetarde,enãopermitiumaisqualquer

comunicaçãoentreeles.Equandoenviouàpraiaumbarcocomumo icial para negociar a venda de escravos,a tripulaçãoteve de permanecer no barco,nãosepermitindoqueninguémmaisseentendessecomeles,anão serapessoadesignadaparaisso. Antes que o barco partisse, e vendo que nada poderiam fazer, eles confessaramosdesígniosquetinhamcontraocapitão.Eassim,ocapitão deixou-osdamesmaformaqueosencontrou,ouseja,nomesmoestadode realezaedeimundícieecommuitomenossúditosdoqueantespois,como observamoshápouco,váriosforamvendidos.E,seaambiçãocostumaser apaixãopreferidadoshomens,nãohádúvidadequeeleseramfelizes.Um daquelesgrandespríncipeshaviasidoantesbarqueironoTâmisadeonde, depois de cometer um assassinato, escapou para as Índias Ocidentais. Faziapartedogrupoquefugiucomaschalupas.Orestantecompunha-se deantigosvigiasdemastro.Entreelesnãohaviaumsóquesoubesseler ou escrever, e tampouco os seus secretários de Estado tinham mais instrução. E é este o relato que podemos fazer sobre aqueles reis de Madagascar,algunsdosquaisprovavelmenteaindaestejamreinandoem nossosdias.

OpirataBarba-Negra

OpirataBarba-Negra

II

OcapitãoTeach, conhecidocomoBarba-Negra EdwardTeacheranaturaldeBristol.Nasceuali,masporcertotempo velejouemnavioscorsáriosaserviçodaJamaica,duranteaúltimaguerra contra os franceses.Entretanto,embora muitas vezes ele se distinguisse pelaaudáciaeacoragempessoalincomuns,jamaischegouaumpostode comando. Isto, até iniciar os seus atos de pirataria, o que creio ter acontecido em ins do ano 1716, quando o capitão Benjamin Hornigold colocou-o para comandar uma chalupa que havia capturado. A parceria delesprosseguiuatépoucoantesdeHornigoldserender.

Naprimaveradoanode1717,TeacheHornigoldzarparamdailhade

ProvidenceparaocontinentedaAmérica,epelocaminhocapturaramuma chalupa procedente de Havana, com 120 barris de farinha de trigo, e tambémoutradasBermudas,comandadaporThurbar,dequemlevaram apenas alguns galões de vinho, deixando-o depois seguir seu rumo. E tambémapreenderamumnaviodailhadaMadeiracomdestinoàCarolina doSul,noqualfizerampilhagensdevalorconsiderável. ApóslimparemascostasdaVirgínia,retornaramàsÍndiasOcidentaise,

nalatitude24,tomaramumnaviodegrandeportedaGuinéFrancesa,com

destinoaMartinicoonde,comoassentimentodeHornigold,Teachassumiu ocomandocomocapitão,iniciandoumcruzeironaembarcação.Hornigold voltou com sua chalupa para Providence e ali, quando da chegada do capitão Rogers, o governador, ele aceitou o Ato de Clemência do rei, conformeaproclamação. Já no comando de sua embarcação da Guiné, Teach equipou-a com

quarenta canhões, trocando o seu nome para Queen Ann’s Revenge. a Vagueou pelas proximidades da ilha de São Vicente, capturando outro grandenavio,oGreatAllen,comandadoporChristopherTaylor.Ospiratas saquearamtudooquelhesinteressava,desembarcaramtodaatripulação namencionadailha,eemseguidaoincendiaram. Algunsdiasmaistarde,Teachdeparou-secomafragataScarborough, de trinta canhões,que oenfrentou emcombate por algumas horas.Mas vendoqueospiratassedefendiammuitobem,mesmotendousadotoda sua munição, a fragata desistiu da luta e retornou para Barbados, onde costumavaficarestacionada.ETeachsedirigiuparaaAméricaespanhola. Pelo caminho encontrou com um navio pirata de dez canhões,

comandado por um certo major Bonnet (que mais tarde tornou-se um cavalheirodeboareputaçãoeproprietárionailhadeBarbados),eaoqual ele se juntou. Porém poucos dias depois, achando que Bonnet nada entendiadavidanomar,colocououtrohomem,chamadoRichards,para comandar a chalupa, com o consentimento dos próprios tripulantes. E levou Bonnet para o seu navio, dizendo-lhe que, já que não estava acostumado às fadigas e aos cuidados de um posto como aquele, seria melhor ele renunciar a ele, vivendo mais folgadamente e à vontade ali naquele outro navio, onde ninguém o forçaria a realizar as obrigações necessáriasaumaviagemmarítima. EmTurniff,asessentaquilômetrosdabaíadeHonduras,ospiratasse abasteceramdeáguafresca.Eenquantodesciamâncoraali,avistaramum barcoaproximando-se,aoqueRichards,nachalupaRevenge,recolheuas amarras e apressou-se a enfrentá-lo. Este, assim que viu hasteada a bandeira negra, baixou suas velas e se rendeu ao implacável capitão Teach.Obarcochamava-seAdventureeeradaJamaica,sobocomandode David Harriot. Teach conduziu este e os seus homens ao seu navio, e mandoucertonúmerodetripulantescomIsraelHands,contramestre do naviodeTeach,paradirigiremachalupaemoutrasaçõesdepirataria. No dia 9 de abril eles levantaram âncora de Turniff, depois de permaneceremaliporcercadeumasemana,evelejaramparaabaía.Ali avistaram um navio e quatro chalupas, três das quais pertencentes a JonathanBernard,daJamaica,eaoutraaocapitãoJames.Onavioprocedia de Boston, chamava-se ProtestantCaesar, e tinha ocomandodocapitão Wyar.Teachiçouasuabandeiranegraedisparouumcanhão,aoqueo capitãoWyaretodososseushomensimediatamenteabandonaramonavio emumescaler,eforamparaterra.OcontramestredeTeachemaisoito homensdesuatripulaçãotomarampossedonaviodeWyar,eRichardse encarregou das chalupas, uma das quais foi incendiada, por ódio a seu dono. Também incendiaram o Protestant Caesar, depois de saqueá-lo, porque ele era de Boston, local onde alguns homens haviam sido enforcadosporpirataria.EàstrêschalupaspertencentesaBernardeles derampermissãoparairem-seembora. Daliemdiante,osbandidosvelejaramparaTurkill,depoisparaGrand Caimanes,pequenailhaacercadecentoeoitentaquilômetrosaoesteda Jamaica, onde capturaram um pequeno pesqueiro de tartarugas, e em seguidaparaHavana,paraascarcaçasdasBahamas,seguindodaliparaa Carolina,epelocaminhocapturandoumbrigueeduaschalupas.Fizeram

uma parada de cincoou seis dias aolargoda baía de Charles-Town.Ali capturaramumnaviocomdestinoaLondres,comandadoporRobertClark, assimqueestezarpavaparaaInglaterra,comalgunspassageirosabordo. No dia seguinte, apossaram-se de uma outra embarcação que saía de Charles-Town,emaisdoispesqueirosquesedirigiamparalá.Emaisum brigue, com quatorze negros a bordo. Tudo isso diante da cidade, provocandoumgrandeterroremtodaaprovínciadaCarolinaque,tendo poucoantesrecebidoavisitadeVane,outrofamosopirata,rendeu-seao desespero,semquaisquer condiçõesderesistência.Haviaoitobarcosno porto, prontos para partirem, mas sem coragem de se aventurar a isso, poisseriaquaseimpossívelescapar.Igualmente,osbarcosquechegavam também sofriam do infeliz dilema, tanto que o comércio dali fora totalmenteinterrompido.Oqueagravavaaindamaisessasdesgraçasera que,poucoantesqueospiratasinfestassemaregião,acolôniaenfrentara uma longa e dispendiosa guerra, recentemente encerrada, contra a

populaçãonativa. 1 Teach deteve consigotodos os navios e prisioneiros que capturara e, comoestavaprecisandodemedicamentos,resolveuexigirqueoGoverno daProvíncialheentregasseumacaixadeles.Por issoenviouRichards,o capitãoda chalupa Revenge,acompanhadode mais dois ou três piratas, comosr.Marks—umdosqueforamfeitosprisioneirosnonaviodeClark. Fizeramassuasexigênciasdaformamaisinsolente,ameaçando,casonão recebessem logo a caixa de medicamentos, e não se permitisse que os piratas-embaixadores retornassem sem se cometer qualquer violência contra eles, todos os prisioneiros seriam assassinados, suas cabeças enviadas ao governador, e também seriam incendiados todos os navios capturadosporeles. Enquanto o sr. Marks apresentava ao Conselho o requerimento dos piratas,Richardseseuscompanheiroscaminhavamostensivamentepelas ruas,àvistadetodos.Eramolhadoscomtodaindignação,comoladrõese assassinos,autoresdeatosdeinjustiçaedeopressão.Porémnãosepodia pensaremvingança,pormedodeseprovocaraindamaiorescalamidades contrasimesmos.Assim,foramtodosforçadosadeixarqueosbandidos passeassemimpunespelomeiodeles.OGovernonãolevoumuitotempo paraconcluiradeliberação,apesardeseraquelaamaiorafrontaquejá recebera.Mas,parasalvartantasvidashumanas(entreasquais,adosr. Samuel Wragg, membro daquele Conselho), eles agiram conforme a necessidade,eenviaramabordoumcofre,comumvaloraproximadode

quatrocentaslibras,eospiratasretornaramincólumesaosseusnavios. Barba-Negra (pois foi assim que Teach passou a ser geralmente conhecido,comoadiantemostraremos),tãologorecebeuosmedicamentos eseuscompanheirosbandidos,libertouosnavioseosprisioneiros,tendo antes tirado deles, em ouro e prata, cerca de mil e quinhentas libras esterlinas,alémdemantimentoseoutrosbens. DabaíadeCharles-Town,elesnavegaramparaaCarolinadoNorte.O capitãoTeachseguianonaviochamadoporelesdefragata,eoscapitães Richards e Hands nas chalupas, chamadas de navios corsários, e mais outra chalupa servindo como barco de apoio. Agora, Teach já planejava desfazeracompanhia,garantindoparasipróprioeparaoscompanheiros com quem tinha mais amizade, o dinheiro e a maior parte dos bens roubados,aplicandoumgolpe nosdemais.Assim,sob a alegaçãode que precisavaentrarnoestreitodeTopsailparafazerumafaxina,elefezcom que seu navio encalhasse. Depois, como se aquilo tivesse acontecido acidentalmente,deuordensparaqueachalupadeHandsviesseajudá-lo, mandando-oseguirnovamente,eaofazerisso,levouachalupaasejuntar à outra, na praia, e assim ambas se perderam. Feitoisto, ele foipara o barcodeapoio,comquarentahomens,edeixouláoRevenge.Tomouentão dezessete outros homens e os abandonou numa pequena ilha de areia deserta, a cerca de seis quilômetros do continente, sem quaisquer pássaros, animais ou vegetação para que pudessem subsistir, e onde teriam fatalmente morrido se o major Bonnet não aparecesse dois dias depoiseosresgatassedali. Então,TeachfoiatéogovernadordaCarolinadoNorte,acompanhado de uns vinte homens, e apresentou a sua rendição, de acordo com a proclamaçãodeSuaMajestade,recebendooseucerti icadodeperdãodas mãos de Sua Excelência. Mas parece que aquela submissão ao Ato de Clemêncianadatinhaavercomumaregeneraçãorealdecomportamento, sendoapenaspretextoparaaguardaramelhoroportunidadeparaseguir comomesmojogodeantes.Oqueeleconseguiudefato,poucodepois,e com maior segurança para si próprio, além de perspectivas de sucesso muitomaiores,poisporessetempoelehaviacultivadoumrelacionamento

muitobomcomCharlesEden,Esq.,ogovernadorquemencionamosantes. 2 OprimeirofavorqueesseamávelgovernadorprestouaBarba-Negra foi conceder-lhe direitos sobre o grande navio que capturou — e que passouachamar-seQueenAnne’sRevenge—quandonelepercorriaos

mares praticandoseus atos de pirataria.Para isso,umtribunaldoVice- almirantado foi realizado em Bath-Town. E, apesar de Teach jamais ter recebidoqualquerautorizaçãoemsuavida,edeaembarcaçãopertencer aos comerciantes ingleses, sendo capturada em tempos de paz, mesmo assimaquelebarcofoidesapropriadoequali icadocomopresatomadaaos espanhóis pelo referido Teach. Tais procedimentos demonstram que governadores,afinal,nãopassamdesimpleshomens. Antesdezarparparanovasaventuras,Teachcasou-secomumajovem deunsdezesseisanos,numacerimôniaquefoio iciadapelogovernador. Enquanto aqui o costume é um padre celebrar os casamentos, lá é um magistradoqueoscelebra.Eaquelaesposa,segundofuiinformado,eraa décimaquartacomqueTeachsecasou,dondeseconcluiquepelomenos doze outras esposas ainda deviam estar vivas. O comportamento dele naquele estado foi simplesmente extraordinário, pois, enquanto a sua chalupaseencontravanoestreitodeOkerecock(Ocracoke),eeleemterra, nafazendaondeviviasuaesposa,ecomaqualpassavatodasasnoites,era seuhábitoconvidarcincoouseisdosseusbrutaiscompanheiros,eforçara sua mulher a se prostituir com todos eles, um em seguida ao outro, e diantedosseusolhos. Emjunhode 1718 ele seguiu emnova expediçãomarítima,dirigindo suarotaparaasBermudas.Encontroupelocaminhodoisoutrêsbarcos ingleses,roubando-lhesapenasasprovisões,osestoqueseoutrosartigos necessários para o seu consumo. Porém perto das mencionadas ilhas, deparou-secomdoisnaviosfranceses,umcarregadodeaçúcarecacaueo outro vazio, ambos com destino a Martinico. O que nada transportava, permitiram que seguisse viagem, antes transferindo para ele todos os homensdonaviocarregado,eesteeletrouxedevoltaàCarolinadoNorte, ondeogovernadoreospiratasdividiramobutim. QuandoTeach e a sua presa chegaram,ele e maisquatrotripulantes foramatéSuaExcelênciaeassinaramumadeclaraçãodequeencontraram o navio francês no mar, sem sequer uma alma a bordo. Em seguida, reuniu-se uma corte e o navio foi desapropriado para o bem público, icandoogovernadorcomsessentatonéisdeaçúcarcomoseudividendo, um tal sr. Knight, secretário do governador e coletor de impostos da província, icoucomvintetonéis,eorestantefoidivididoentreosoutros piratas. Antesaindadeseconcluironegócio,onaviopermaneciaancorado,com apossibilidadedealguémvir pelorioereconhecê-lo,edescobrir todaa

velhacaria.MasTeachmaquinouumjeitoparaevitarissoe,sobopretexto

dequeonavioestavacommuitosvazamentosecomoriscodeafundar,

obstruindo assim a saída do estreito, ou enseada, onde se encontrava,

obteveumaordemdogovernadorparaconduzi-loatéorioealiincendiá-

lo,oquefoilogoexecutado:onaviofoiqueimadopertodamargem,ocasco afundoue,comele,todosostemoresdeporacasoselevantaremsuspeitas contraeles. OcapitãoTeach, conhecidocomoBarba-Negra,passou três ou quatro mesespercorrendoorio,algumasvezesancorandonasenseadas,outras velejando de um estreito a outro, comerciando com os barcos que encontrava o butim de que se apropriara, muitas vezes dando-lhes de presenteosestoqueseosmantimentosquetiraradelespróprios.Istoé, sempre que se encontrava com humor propenso à generosidade. De outras vezes, ele se mostrava atrevido, apossando-se de tudo o que

quisesse,semnemdizer“Comasuapermissão”,sabendoqueninguémse atreveriaaenviar-lhedepoisaconta.Muitasvezeselesedivertia,indoa terra misturar-se aos fazendeiros, onde fazia farras por vários dias e noites. Era bem recebido por eles, mas não posso garantir se era por

amizadeoumedo.Àsvezeselesemostravaextremamentecortês,dando-

lhesrumeaçúcardepresente,emrecompensapeloquelheshaviatirado. Quantoàslibertinagens(eraoquesedizia),eleeosseuscompanheiros frequentementetomavamasesposase ilhasdosfazendeiros,enãoposso assumir a responsabilidade de a irmar se ele pagava ou nãopor elasad valorem. Outras vezes, comportava-se com nobreza para com eles, colocandomesmoalgunscomoseuspensionistas.Enãoapenasisso,muitas vezes ele intimidava ogovernador.Nãoque eu tenha descobertoomais leve motivo de rixa entre ambos, mas parece que ele o fazia só para mostrarquedoqueeracapaz.

As chalupas que faziamocomércioacima e abaixodaquele rioeram saqueadas com tanta frequência peloBarba-Negra, que elas resolveram entrar em entendimentos com os comerciantes e alguns dos melhores fazendeirosdaregiãoquantoaomelhorcaminhoaseguir.Tinhamperfeita noçãoda inutilidade de qualquer recursoaogovernador da Carolina do Norte,aquemcabiapropriamenteencontraralgumtipodereparação,de modoque se nãorecebessem algum socorropor parte de outra região, provavelmenteBarba-Negracontinuariareinandoimpunemente.Porisso, sobmaiorsegredopossível,elesenviaramumadelegaçãoàVirgíniapara

apresentar oassuntodiante dogovernador daquela colônia, 3 solicitando

umaforçaarmadadasfragatasqueláseencontravam,paraprenderou eliminaraquelepirata. Ogovernadorconferencioucomoscapitãesdasduasfragatas,aPearle aLime,quehádezmesesaproximadamenteseencontravamestacionadas no rio James. Ficou combinado que algumas chalupas menores seriam contratadaspelogovernador,easfragataslhesforneceriamoshomense asarmas.Istofoifeito, icandoocomandodelascomosr.RobertMaynard, primeiro-tenente da Pearl, um o icial experiente e cavalheirode grande bravura e resolução, como icará demonstrado por seu valente comportamentonessaexpedição.Aschalupasforambemequipadascom muniçãoe armas de pequenoporte, porém nãodispunham de nenhum canhão. Próximo ao momento da partida, o governador convocou uma assembleia na qual icou decidido publicarem uma proclamação oferecendo recompensas a todos que, no período de um ano a contar daqueladata,prendessemouacabassemcomqualquerpirata.Temosessa proclamaçãoemnossasmãos,eareproduzimosaseguir:

PELO VICE-GOVERNADOR DE SUA MAJESTADE E COMANDANTE-EM-CHEFE DA COLÔNIAEDOMÎNIODAVIRGÎNIA.

PROCLAMAÇÃO

Ondesepublicamasrecompensaspelaprisãooumortedospiratas Pela qual — por um Ato de Assembleia aprovado em uma sessão,

realizadanacapital,Williamsburg,nodia11denovembrodoQuintoAno

doReinadodeSuaMajestade,eintituladoAtoParaEncorajaraPrisãoeo Aniquilamento dos Piratas ica aprovado, entre outras questões, que todapessoa,oupessoas,apartireapósodécimoquartodiadenovembro doanode NossoSenhor de milsetecentos e dezoito,e antes dodécimo quartodiadenovembrodoanodemilsetecentosedezenove;todapessoa ou pessoas, pois, que prender — ou prenderem — qualquer pirata, ou piratas, em mar ou em terra, ou que em casode resistência, venham a mataressepirata,ouessespiratas,nalocalizaçãoentreosgraustrintae quatroetrintaenovedelatitudenorte,edentrodoslimitesdeseiscentos quilômetros do continente da Virgínia, ou no âmbito das províncias da Virgínia,oudaCarolinadoNorte,diantedaconvicçãooudadevidaprova damortedetodosedecadaumdessespiratas,peranteogovernadoreo Conselho,estarãocapacitadosatereareceberdoscofrespúblicos,pelas

mãos do tesoureiro desta Colônia, as diversas recompensas a seguir

relacionadas,equesão:paraEdwardTeach,comumentechamadocapitão

Teach,ou Barba-Negra,cemlibras;para qualquer outrocomandante de

navio,chalupaouqualqueroutraembarcaçãopirata,quarentalibras;para

todo imediato, comandante, timoneiro ou contramestre, mestre de

equipagem,oucarpinteiro,vintelibras;paraqualqueroutrooficialinferior,

quinzelibras,eparatodopiratacapturadoabordodeumnavio,chalupa

ou qualquer embarcação desse tipo, dez libras. E para qualquer pirata

capturadoemqualquernavio,chalupaouembarcaçãopertencenteaesta

Colônia,ouàCarolinadoNorte,dentrodoprazomencionadoacima,eem

qualquerlocalização,asmesmasrecompensasserãopagasdeacordocom

a qualidade e a condição desses mesmos piratas. Pelo que, para o

encorajamentodetodososquedesejamserviràSuamajestadeeaoseu

paísnumempreendimentotãojustoehonrável,qualsejaodasupressão

de um tipo de pessoas que podem ser verdadeiramente chamadas de InimigosdaHumanidade.Portudoisso,acheiapropriado—comaopinião

e o consentimento do Conselho de Sua Majestade — expedir esta

Proclamação, pela qual declaro que as referidas recompensas serão

pontualejudiciosamentepagas,emmoedacorrentedaVirgínia,deacordo

comasinstruçõesdoreferidoAto.Eordenoefetivamenteedeterminoque esta Proclamação seja publicada pelos o iciais municipais, em suas respectivassedesadministrativas,e por todos os prelados e leitores nas diversasigrejasecapelasportodaestaColônia.

APRESENTADOEMNOSSACÂMARADOCONSELHO

EMWILLIAMSBURGNESTEDIA24DENOVEMBRODE1768,

NOQUINTOANODEREINADODESUAMAJESTADE.

DEUSSALVEOREI.

A.SPOTSWOOD.

No dia 17 de novembro de 1718, o o icial zarpou de Kicquetan [Hampton], no rio James, Virgínia, e na noite do dia 31 chegou à embocadura do estreito de Okerecock, onde logo pôde avistar o pirata. Aquela expedição fora feita sob sigilo, e ele manobrou com toda a prudência necessária, impedindo que todos os navios e barcos que passavam pelo rio prosseguissem viagem, impossibilitando dessa forma

quequalquerinformaçãochegasseatéBarba-Negra,aomesmotempoque

recebiadestesrelatóriossobreolocalondeopirataseemboscava.Porém,

apesar das precauções tomadas, Barba-Negra conseguiu informações sobreaoperação,pormeiodesuaExcelênciaoGovernadordaProvíncia.E o secretário deste, o sr. Knight, escreveu a ele uma carta mostrando-se particularmentepreocupado,einsinuandoter-lheenviadoquatrodosseus homens,osquepôdeencontrarpelacidadeearredores,eporissoinsistia paraqueele icasseemalerta.AqueleshomenspertenciamaBarba-Negra etinhamsidoenvidadosdeBath-TownparaoestreitodeOkerecock,onde a chalupa estava estacionada, e que ica a cerca de cento e vinte quilômetros. Barba-Negrajáreceberadiversosrelatóriosantes,queprovaramnão serverdadeiros,demodoquedeupoucaatençãoàqueleaviso.Etampouco icouconvencidodofato,atéqueavistouaschalupas.Então,jáeratempo depôronavioemposiçãodedefesa.Nãotinhamaisdoquevinteecinco homensa bordo,embora dissesse que eramquarenta a todososbarcos com que se comunicou. Quando viu que já estava preparado para a batalha,entãodesembarcouepassouanoitebebendocomocomandante deumnaviomercanteque,comosedizia,tinhamaisnegócioscomTeach doquedeveria. OtenenteMaynardprecisouancorar,poissendoaquelaumaregiãode águasrasas,eocanalmuitointrincado,nãohaviacomochegaratéTeach aquelanoite.Porémnamanhãseguinteelelevantouferros,enviandooseu escaler à frente das chalupas, para fazer uma sondagem. Assim que chegou à distância de um tiro de canhão do pirata, este disparou imediatamente, ao que Maynard içou a bandeira do rei, partindo diretamenteparacimadele,comomáximodevelocidadequepermitiam suas velas e seus remos. Barba-Negra recolheu os seus cabos e tentou combaterduranteafuga,mantendoumfogoincessantedecanhõescontra osadversários.Maynard,quenãodispunhadenenhumcanhão,respondia aoataquecomassuasarmasdepequenoporte,enquantoalgunshomens davamtudooquepodiamnosremos.Poucotempodepois,achalupade Teachencalhou.MaynardretiravadoseubarcomaiságuadoqueTeach dodele,demodoquenãopodiaaproximar-se.Tevedeancoraràdistância dametadedeumtirodecanhãoe,paraaliviaropesodesuaembarcaçãoe lançar-seàabordagem,otenenteordenouquetodoolastrofosselançado aomar,equeseabrissemburacosnocascoparaquetodaaáguapudesse sair.Logoemseguidalevantouferroserumouparaondeestavaopirata. FoiquandoBarba-Negragritou-lhegrosseiramente:“Malditosvilões,quem sãovocês?Deondevêm?”,aoqueotenenterespondeu:“Podesverpela

nossa bandeira que não somos piratas.” Barba-Negra propôs que ele viessenumescaleratéoseunavio,parasaberdequemsetratava.Porém Maynard respondeu: “Não posso desperdiçar o meu escaler, mas abordareioteunavioomaisrápidoquepuder,ecomaminhachalupa.” Ouvindo isso, Barba-Negra apanhou uma taça e fez um brinde a ele, proferindo as seguintes palavras: “Maldita seja a minha alma se eu me apiedar de ti, ou merecer alguma piedade de ti.” A isto, Maynard respondeu que nãoesperava piedade alguma de sua parte, e tampouco teriaalgumaporele. Nessemeio-tempo,onaviodeBarba-Negraconseguiu lutuar,enquanto as chalupas de Maynard remavamemsua direção. As velas, entretanto, tinham na sua parte baixa poucomais doque trinta centímetros, oque deixavaoshomenscadavezmaisexpostos,àmedidaqueseaproximavam (até aquele momento pouco ou nada ainda fora feito, por qualquer dos lados). Foi quando do lanco do navio o pirata disparou uma descarga simultâneadetodasassuasarmas,oquefoiumafatalidadeparaMaynard, poisvintedosseushomensmorreramou icaramferidos,emaisnovede outro barco também morreram. A situação não apresentava saída, pois, sem que qualquer vento soprasse, eles eram forçados a continuar remando, caso contrário o pirata poderia fugir, e isto, ao que parece, o tenenteestavaresolvidoaimpediratodocusto. Depoisdessedesafortunadogolpe,achalupadeBarba-Negraadernou napraia.UmaoutraembarcaçãodeMaynard,quetinhaonomedeRange, recuou, por estar muito avariada naquele momento. Então o tenente, achandoqueoseuprópriobarcotinhacondições,equeempoucotempo poderiaabordarodeTeach,ordenouquetodosdescessemaoporão,com medo de uma outra descarga de tiros, o que poderia signi icar a sua destruiçãoeofracassodaexpedição.SóMaynardpermaneceunoconvés, além do timoneiro, a quem ele mandou que se agachasse e icasse escondido.Eaoshomensembaixoordenouqueestivessemcomaspistolas easespadasprontasparaumalutacorpoacorpo,equesubissemassim queeleoschamasse.Paraisso,puseramduasescadasjuntoaosalçapões, para maior agilidade. Quando o barco do tenente abordou o do capitão Teach, os homens deste começaram a atirar-lhes granadas feitas com

garrafas 4 cheias de pólvora,chumbo,balas,pregos e outros pedaços de ferro, com um pequeno pavio preso no gargalo. Quando aceso este, a chamaiadogargaloatéapólvorae,atirando-selogoemseguidaagarrafa, geralmente o dano era muito grande, além de provocar uma enorme

confusão entre os homens. Porém graças à boa sorte, ali elas não produziramoefeitodesejado,poisoshomensseencontravamescondidos no porão. Barba-Negra, quando não viu ninguém a bordo, concluiu que estavamforadecombate,anãoserunsdoisoutrês.Portanto,exclamou ele:“Vamospularabordoefazertodosempedaços!” Em seguida, oculto pela fumaça da explosão de uma das garrafas mencionadas, Barba-Negra penetrou no barco seguido de quatorze homens,semque Maynard se desse conta logo.Entretanto,assimque a fumaça se foi dispersando, Maynard deu o sinal para seus homens subirem ao convés, e então eles atacaram os piratas com uma bravura inigualada numa ocasião daquelas. Barba-Negra e o tenente foram os primeirosaatirar,umcontraooutro,deixandoopirataferido.Emseguida, eles lutaram com as espadas até que, por má sorte, a de Maynard se partiu. Quando este recuou para recarregar sua pistola, Barba-Negra atacou-ocomumcutelo,masumdoshomensdeMaynarddesferiu-lheum terrível golpe no pescoço e na garganta, salvando Maynard, que icou apenascomumpequenoferimentonosdedos. Agora,todoslutavamardentementenumcorpoacorpo,deumladoo tenente com doze homens; do outro, Barba-Negra e os seus quatorze piratas, até o mar ao redor da embarcação se tingir completamente de sangue. Barba-Negra levou um tiro de Maynard, mas mesmo assim se manteve irmeeprosseguiulutandofuriosamente.Recebeuaotodovintee cincoferimentos,cincodosquaisabala.No inal,quandoengatilhavauma outraarma,depoisdetantasquehaviausado,eletomboumorto.Atéentão, oitodos seus quatorze companheiros já haviam morrido, e os outros, já gravementeatingidos,pularamnomaresuplicaramporclemência.Eisto lhes foi concedido, embora aquela prorrogação de suas vidas não fosse alémdeunspoucosdias,apenas.AchalupaRangerchegouefoicombater ospiratasquehaviampermanecidonobarcodeBarba-Negra,lutandocom amesmabravura,atéqueelestambémpediramclemência. Ealiseacabouavidadaquelehomembrutal,queeradotadodemuita coragem,e que poderia ter passadopelomundocomoumheróicasose houvesse empregado em uma boa causa. Seu aniquilamento, que foi da maiorimportânciaparaascolônias,deveu-seinteiramenteàcondutaeà bravuradotenenteMaynardedeseushomens.Elespoderiamtê-lomorto aocustodemuitomenosvidas,casopudessemcontarcomumnaviobem equipado com canhões. Mas foram forçados a empregar embarcações pequenas,poisnãosepoderiachegaratéastocaseoutrosredutosondese

escondia o pirata em navios de maior calado. E não foram poucas as di iculdades que aquele cavalheiro enfrentou para chegar até ele, encalhandocomseubarcoumascemvezes,pelomenos,nasubidadorio, alémdeoutrastantassituaçõesdesanimadoras,queteriamfeitoqualquer outrosenhor,menosresolutoeaudaciosoqueaqueletenente,desistirda empresasemprejuízodaprópriahonra. AdescargadeartilhariadisparadaporTeach,quetantodanoproduzira antesdaabordagem,comtodacertezaacabousalvandoosoutrosdeuma destruição total, pois pouco antes Teach, já sem esperança alguma de poderescapar,postaranoquartodapólvoraumcomparsacriadoporele próprio, um negro resoluto, mantendo um pavio aceso entre as mãos e prontoadetonartudoali,aumaordemsua.Omomentocombinadoseriao da entrada no barco de Maynard com os outros homens. Assim, ele destruiria tanto os vencedores quanto a si mesmo. E quando o negro descobriu o que se passara com Barba-Negra, dois prisioneiros que estavam no porão da chalupa o dissuadiram a muito custo daquele ato temerário. O que nos parece bastante estranhoé que alguns homens daqueles, que comtanta bravura se comportaramcontra Barba-Negra,mais tarde também se tornaram piratas, um deles tendo sido levado por Roberts. Porémnãoachoqueestivessempreparadosparatalatividade,anãoser umdeles,quefoienforcado.Masistoéumadigressão. O tenente ordenou que arrancassem a cabeça de Barba-Negra e a

pendurassemna ponta dogurupés. 5 Em seguida ele zarpou para Bath- Town,paratratardosseusferidos. Devemos observar que, ao ser revistada a chalupa do pirata, foram encontrados cartas e documentos diversos, que revelaram a correspondência entre Barba-Negra e o governador Eden, com o secretárioecoletor,etambémcomalgunscomerciantesdeNovaYork.É provável que ele, em consideração aos seus amigos, destruísse aqueles papéisantesdabatalha,a imdeimpedirquecaíssememmãosquenão dariamumdestinonadabomparaareputaçãodessescavalheiros.Isto,se nãofosseasua irmeresoluçãodeexplodircomtudo,aoverquenãohavia possibilidadedeescapar. Quando o tenente chegou a Bath-Town, ele foi corajosamente até o depósito do governador tomar os sessenta tonéis de açúcar que ali se encontravam,etambémosvintetonéisdohonestosr.Knight,coisasque,

aoqueparece,eramoseudividendopelapilhagemdonaviofrancês.Este últimocavalheironãosobreviveuàquelavergonhosaapreensãopois,com medodeserchamadoaexplicarsemelhantesquinquilharias,caiudoente detantopavor,vindoamorrerpoucosdiasdepois. Depois que os feridos se recuperaram completamente, o tenente velejoudevoltaaorioJames,naVirgínia,ondeseencontravaafragatade Barba-Negra.Acabeçadopirataseguiapenduradanapontadogurupés,e obarcotambémconduzia quinze prisioneiros,treze dos quais acabaram enforcados. Durante o julgamento, revelou-se que um deles, de nome Samuel Odell, saíra com o navio mercante apenas na noite anterior à batalha. Esse pobre indivíduo teve muito pouca sorte naquela nova pro issão: depois da batalha, apresentava no corpo nada menos que setenta ferimentos, e apesar disso conseguiu sobreviver e se curou de todoseles.AoutrapessoaaescapardasgalésfoiumcertoIsraelHands, contramestredachalupadeBarba-Negra,eex-capitãodesta,antesqueo QueenAnne’sRevengeencalhassenoestreitodeTopsail. Acontece que oreferidoHands nãoparticipou da batalha,tendosido presomaistarde,emterra irme,emBath-Town.Barba-Negraoaleijara poucotempoantes,numdaquelesseusselvagensacessos,oquesepassou daseguintemaneira:certanoite,bebendoemsuacabineemcompanhiade Hands,dopilotoedemaisoutrohomem,Barba-Negra,semqueninguémo provocasse,pegouescondidoumpardepequenaspistolasecarregou-as por debaixodamesa.Percebendoisso,oterceirohomemimediatamente saiu para o convés, deixando na cabine Hands, o piloto e o capitão. Carregadasaspistolas,Teachsoprouavelae,cruzandoasmãos,disparou contraoscompanheiros.AcertouHandsnumjoelhoeodeixoucoxopelo restoda vida.Aoutra pistola nãoacertou ninguém.Aolhe perguntarem porquetinhafeitoaquilo,elerespondeuapenas,enquantoosxingava,que sedevezemquandonãomatassealguémali,elesacabariamporesquecer quemeleera. Depoisdepreso,Handsfoijulgadoecondenado,mas,poucoantesda sua execução, aportou na Virgínia um navio com uma Proclamação que prolongavaporumdeterminadoprazooperdãodeSuaMajestadeparaos piratas que se rendessem. Apesar de já sentenciado, Hands requereu o perdão e obteve o bene ício. Há pouco tempo ele foi visto em Londres, pedindoesmolasparasobreviver. AgoraquejáapresentamosumrelatosobreavidaeosfeitosdeTeach, não seria inoportuno falarmos a respeito da sua barba, já que a

contribuição desta não foi de pouca monta para que o seu nome se tornassetãoterrívelnaquelasregiões. Plutarco e outros historiadores sérios já observaram que entre os romanosdiversoshomensnotáveisrecebiamosseusapelidosporcertos sinais característicos em suas isionomias. Como Cícero, que era assim

chamadopor umsinal,ou verruga,nonariz; 6 Tambémonossoherói, o capitãoTeach,ganhouocognomedeBarba-Negraapartirdaquelaenorme quantidadedepêlosocultandototalmenteoseurosto,eque,talcomoum terrível meteoro, amedrontou a América muito mais do que qualquer cometaqueporlátivessesurgidohátempos. A barba era efetivamente negra, e ele a deixou crescer até um comprimentoextravagante.Detãoampla,batia-lhenosolhos.Costumava amarrá-lacom itas,empequenoscachos,lembrandoasperucasemestilo

Ramilies, 7 contornandocom eles as orelhas. Quandoem ação, ele trazia umafundasobreosombros,ondecarregavaàbandoleiratrêsbraçadeiras depistolas,dentrodosseuscoldres.Eprendiamechasdefogonochapéu, decadaladodorosto,oquelhedavaumatal igura—quenaturalmente jáeratãoferozeselvagem,pelaexpressãodoolhar—quenãosepoderia imaginarumafúriadopróprioinfernomaisaterrorizante. Se o seu olhar era o de uma fúria, os seus humores e paixões não icavamatrás.Vamos contar mais duas ou três extravagâncias dele,que omitimosnocorpodestanarrativa,eatravésdasquais icaráevidenteaté quepontodemaldadeanaturezahumanapodechegar,seassuaspaixões nãoforemcontidas. Na comunidade dos piratas, aquele que levar mais longe as suas maldades é invejado pelos outros, como um homem de extraordinária valentia, e capacitadopor issoa destacar-se em algum posto. E se além dissoessealguémaindaédotadodecoragem,entãocomtodacertezadeve ser um grande homem. O herói sobre o qual escrevemos aqui era totalmente realizado naquela maneira, e algumas das suas loucuras e maldades eram de tal forma extravagantes que o seu objetivo parecia querer que seus homens acreditassem ser ele a encarnação de um demônio. Pois certa vez, nomar, já umtantotontode bebida, ele disse:

“Venham, vamos criar nosso próprio inferno, e ver até que ponto poderemosaguentar.”Então,acompanhadopormaisdoisoutrêshomens, desceuatéoporãoonde,depoisdefechadastodasasescotilhas,encheu váriosjarroscomenxofreeoutrosmateriaisin lamáveis,eatearamfogo

neles.Ealipermaneceramatéalgunssufocarem,gritandoqueprecisavam dear.No imeleabriuasescotilhas,enão icounemumpoucosatisfeito porterresistidomaisqueosoutros.

Nanoiteanterioràsuamorte,elesesentouparabeberatédemanhã comalgunsdosseushomensecomocomandantedeumnaviomercante. Informado que duas chalupas aproximavam-se para atacá-lo, como já observamos antes, um dos homens lhe perguntou se, caso algo lhe acontecesseduranteabatalha,asuamulhersaberiaondeeleenterrarao seudinheiro,elerespondeuquealémdeleedodiaboninguémmaissabia, equequemvivessemaistempoficariacomtudo. Osquesobreviveramdesuatripulação,equeforampresos,contaram uma história que pode parecer um tanto inacreditável. No entanto, achamos que nãoseria justoomiti-la,uma vezque a obtivemos de suas própriasbocas.Umdia,duranteumcruzeiro,elesdescobriramquehaviaa bordoum homem a mais na tripulação. Ohomem foivistopor diversas vezesentreeles,umasvezesnoporão,outrasnoconvés,masninguémno naviosabiadizerquemeleeraoudeondeviera.Eeledesapareceupouco antes de haverem naufragado em seu navio, e parece que todos acreditavamquefosseodiabo. Imaginávamosqueessetipodecoisapudesseconvencê-losamudarde

vida,mastodaaquelagenteperversasereuniaotempotodoencorajando-

seeanimando-seunsaosoutrosparacometermaldades,alémdabebida constante que também nãoera um estímulopequeno. Pois nodiáriode Barba-Negra,queseconseguiuobter,haviadiversosmemorandos,escritos deprópriopunho,edaseguintenatureza:“Quedia,todoorumfoiembora. Nossa turma um tanto séria. Maldita confusão entre as pessoas! Os velhacos conspirando. Muita conversa de separação. Por isso tive que procurar muito por uma presa. Dia desses consegui uma, com muita bebidaabordo,eaturma icouquente,quentepradanar,eaítudo icou bemnovamente.”

E era dessa maneira que os desgraçados passavam a vida, com pouquíssimoprazerousatisfação,napossedaquiloqueelesviolentamente tomavamdosoutrosenacertezade, inalmente,teremdepagarportudo umdia,comumamorteignominiosa.

Osnomesdospiratasmortosnabatalhasãoosseguintes:

EdwardTeach,comandante.

PhilipMorton,artilheiro. GarratGibbons,contramestre. OwenRoberts,carpinteiro. ThomasMiller,intendente. JohnHusk JosephCurtice

JosephBrooks(1)

Nath.Jackson

Todos os demais,comexceçãodos dois últimos,foramferidos e mais tardeforamenforcadosnaVirgínia. JohnCarnes

JosephBrooks(2)

JamesBlake

JohnGills

ThomasGates

JamesWhite

RichardStiles

Caesar

JosephPhilips

JamesRobbins

JohnMartin

EdwardSalter

StephenDaniel

RichardGreensail

IsraelHands,perdoado.

SamuelOdell,absolvido.

Naschalupaspiratasenointeriordeumgalpãoemterra,pertodolocal do navio, havia vinte e cinco tonéis de açúcar, onze barris e cento e quarenta e cinco sacos de cacau, um barril de índigo e um fardo de algodão. Isto, com oque se recuperou dogovernador e dosecretário, e acrescentadoàvendadachalupa,chegouaumvalortotaldeduasmile

quinhentaslibras,tudodivididoentreascompanhiasdosdoisnavios,Lime ePearl,ancoradosnorioJames.Alémdisso,asrecompensasforampagas pelogovernador da Virgínia,de acordocomsua proclamação.Os bravos companheirosqueasreceberam,equeo izeramapenasparaobteremo seuquinhãoentreosdemais,sóforampagosquatroanosmaistarde. SobreocapitãoTeach [DoapêndicenovolumeII] VamosagoraacrescentaralgunsdetalhessobreofamosoBarba-Negra —quenãoforammencionadosemnossoprimeirovolume—relativosà capturaporeledosnaviosdaCarolinadoSul,edoinsultoàquelacolônia. Issofoinostemposemqueospiratastinhamconseguidoumtalpoder,que nãosepreocupavamabsolutamenteemsepreservaremperantealeiea justiça. Só pensavam em fazer progredir esse poder, mantendo sua soberania nãoapenas sobre os mares, mas, além disso, estendendoseu domínioàsprópriascolônias,eaosgovernadorestambém,poressemesmo fato. Tanto que, quando os prisioneiros chegavam ao navio dos seus captores, os piratas revelavam abertamente o relacionamento que mantinhamcomaquelasautoridades,ejamaisseesforçaramparaocultar os nomes deles, ou onde moravam, assim como se fossem cidadãos de algumalegítimanação,resolvidosatrataratodosnabasedeumEstado livre. Todos os processos judiciais que se faziam em nome de Teach qualificavam-nocomotítulodecomodoro. Todos os prisioneiros da Carolina foram colocados no navio do comodoro, e depois minuciosamente interrogados sobre a carga que transportavameonúmeroeasituaçãodeoutroscomerciantesancorados noporto,quandoachavamqueelesiriampartir,equaloseudestino.Eo inquérito era realizado de forma tão severa que os piratas chegavam a fazerumjuramentodequetodoaquelequementisse,ouquemodi icasse assuasinformações,ourespondessedeformaevasivaàsperguntas,seria morto.Aomesmotempo,todososseusdocumentoseramexaminadoscom igual diligência, assim como se aquilo se passasse no escritório do secretário,aquinaInglaterra.Aoterminaraquelaparte,ordenou-sequeos prisioneirosfossemimediatamenteencaminhadosdevoltaaoseunavio,do qualpreviamentejásehaviamretiradoosmantimentoseestoques.Etudo com tanta pressa e precipitação, que provocou um grande terror entre aquelas infelizes criaturas, que acreditavam estarem sendo verdadeiramenteencaminhadasparaaprópriadestruição.Oqueparecia con irmar essa impressão era que não se manifestava nenhuma

consideração pela situação social dos prisioneiros: comerciantes, cavalheiros de posição, e até mesmo uma criança, o ilho do sr. Wragg, foramjogadosabordoemmeioagrandeconfusãoetumulto,etrancados sobosalçapões,acompanhadosdeapenasumpirata. Aquelesseresinocentesforamlargadosnaqueladeprimentesituação,a lamentardurantehorasoseudestino,eesperandoacadainstantequese acendessealgumpavioetudoalifossepelosares,ouqueseincendiasse ouafundasseonavio.Deummodooudeoutro,todosaliacreditavamque seriamsacrificadosàbrutalidadedospiratas. Mas inalmente, um lampejo de luz caiu sobre eles, fazendo seus abatidosânimosseelevaremumpouco:osalçapõesforamdestrancadose elesreceberamordensderetornarimediatamenteabordodocomodoro.E entãocomeçaramaacharqueospiratashaviamdesistidodasuaselvagem resolução,equeDeusosinspiraracomsentimentosmenosatordoantesà naturezaeàhumanidade,esubiramtodosaonaviocomoseestivessemse

encaminhandoparaumanovavida.SeuchefefoitrazidodiantedeBarba-

Negra,ogeneraldos piratas,que lhe informou sobre umextraordinário

procedimento que iriam ter. Que eles tinham apenas sido afastados temporariamentedali,enquantoserealizavaumconselhoduranteoqual nãoeratoleradaapresençadenenhumprisioneiroabordo.Barba-Negra

revelou-lhes que

medicamentos,equeprecisavaobtersuprimentosdaprovíncia;queoseu primeiro cirurgião redigira uma lista desses medicamentos que deveria serenviadaaogovernadoreàCâmarapordoisdosseuso iciais.E,para garantir oretornoasalvodesseso iciais,comotambémdacaixacomos medicamentos,eleshaviamresolvidomanterosprisioneiroscomoreféns, osquaisseriamtodosmortoscasosuasexigênciasnãofossematendidas pontoporponto. O sr. Wragg respondeu que talvez eles não tivessem condições para atender a todas aquelas exigências,e que temia que algumas drogas da listadocirurgiãonãosepudessemencontrarnaprovíncia.Eque,sefosse este ocaso,esperava que eles se satis izessemcomalguma substituição. Também propôs que um dos prisioneiros acompanhasse os dois embaixadores,paramanifestaremoperigorealqueestavamcorrendo,e convencêlosasesubmeteremdeformamaisimediata,a imdesalvaras vidas de tantos súditos do rei, e ainda, também, para impedir qualquer insulto às pessoas da comitiva por parte da gente comum (por cujo comportamento, em semelhante ocasião, eles não podiam se

a

companhia estava

necessitando muito de

responsabilizar).

SuaExcelênciaBarba-Negraachourazoáveisasponderações,eporisso

convocouumaoutraassembleia,queigualmenteaprovouaemenda.Então

o sr. Wragg, que era a maior autoridade ali, e conhecido por ser um

homemdegrandediscernimentoentreoscidadãosdaCarolina,ofereceu-

separaircomadelegação,dispostoadeixarseujovem ilhonasmãosdos piratas até sua volta, o que ele prometia fazer, mesmo que o governo recusasse as condições para a libertaçãodos prisioneiros.PorémBarba-

Negra negou peremptoriamente esta oferta, alegando que conhecia demasiadobemaimportânciadaquelesenhornaprovíncia,oqualtambém eradeenormeimportânciaalieque,portanto,seriaoúltimohomemque permitiriamdeixá-los. Depois de algumas discussões, concordou-se que o sr. Marks ia

acompanharosembaixadores.Eassim,elesseafastaramdafrotaemuma canoa,estipulando-se dois dias para oseu retorno.Nesse meio-tempo,o naviodocomodoropermaneceriaacercadetrintaecincoquilômetrosde distânciadolitoral,aguardandoascondiçõesrequeridasparaapaz.Porém aoexpirar oprazo,e vendoque nãosurgia nada vindodoporto,Teach

chamouosr.Wraggàsuapresença,e,comumahorrívelexpressão,disse-

lhe que eles não admitiriam ser trapaceados, que achava estar sendo tramadaalgumaloucatraiçãoequenada,anãoseramorteimediatade todos, seria a consequência disso. O sr. Wragg implorou-lhe que prorrogasse por mais um dia a terrível execução, pois tinha absoluta certeza de que todos na Província estimavam tanto as suas vidas que teriamamaiorprestezapossívelemconseguiroseuresgate.Equecom todacertezaalguminfelizacasoteriaacontecidocomacanoa,naida,ouos seuspróprioshomenspoderiamtambémtercausadooatraso,equalquer

dasduashipótesesseriamdifíceisdesuportar. Por aquele momentoTeach conseguiu acalmar-se, permitindoque se aguardassemaisumdiapeloregressodadelegação.Porém indotambém aqueleprazo,eleseenfureceuaover-sefrustrado,chamandoatodosmil vezesdevilõesejurandoqueninguémaliteriamaisqueduashorasde vida.Osr.Wraggtentavaapaziguá-lodetodasasformas,insistindoemque se izesseumaminuciosaobservaçãoaoredor.Acoisapareciaterchegado aoextremo,agora,eninguémentreosprisioneirospodiapensarquesuas vidasvalessemumdiaapenas,quefosse.Osinocentespassavamporuma terrívelagonia,certos de que sóummilagre poderia impedir que todos fossemesmagadospeloinimigo.Foiquandoseouviudocastelodaproaa

notíciadequeumpequenobarcosurgiaàvista.Issoelevounovamenteos

ânimosefezrenasceremasesperanças.OpróprioBarba-Negrafoiolhar

com sua luneta, e declarou que estava vendo o seuScarlet Cloak, b que haviaemprestadoaosr.Marksparaqueestefosseaterra.Aquilofoiuma segurança para todos, embora temporária, pois, ao se aproximar novamenteobarcodonavio,ostemoresvoltaram,umavezqueentreos passageiros nãose viamnemos piratas,nemosr.Marks e tampoucoa caixacomosmedicamentos. Aquela embarcação tinha sido enviada pelo sr. Marks e trazia uma mensagemescritacomamáximaprudência,a imdequeademoranão fosse mal interpretada. A causa dessa demora fora um infeliz acidente, devidamente relatado ao comodoro pelos recém-chegados. O barco que foraenviadoaterraafundou,depoisdeviraraumasúbitarajadadevento, e com grande di iculdade os homens conseguiram nadar até a praia de umailhadeserta,ailhade[embranconotexto],situadaacercadevintee poucosquilômetrosdocontinente,ondepermaneceramporalgumtempo até se verem reduzidos a uma situação extrema, sem qualquer tipo de mantimento, e apavorados diante do desastre que iria acontecer aos prisioneirosabordo.Oshomenscolocaramosr.Markssobreumatábua nomar,emseguida se despirame foramnadandoatrás, empurrando-a para adiante, tentandover se daquela forma conseguiriamchegar até a cidade.Aqueletransportemostrouserextremamentepenoso,ecomtodaa certezateriamtodosperecido,nãotivesseumbarcodepesca,quelargara velaspelamanhã,avistadoalgoa lutuarsobreaágua.Dirigiram-seentão para o local e recolheram os homens, quando estes já se encontravam quaseexaustospelocansaço. Quandotodosjáseencontravamprovidencialmenteasalvo,osr.Marks foi até [em branco no texto], alugando ali uma embarcação para transportá-losaté Charles-Town.Nesse meio-tempo,enviouaquele barco para fazer a todosumrelatóriosobre oacidente.Osr.Teach acalmouse maisouvindoanarrativa,econsentiuemqueseesperassemaisdoisdias, jáqueoatrasonãopareciaculpadeles.Mas,passadososdoisdias,todos acabaramperdendoapaciência.Agora,ninguémmaispodiaconvencero comodoroalhesprorrogaravidamaisqueatéamanhãseguinte,casoo barco não retornasse dentro daquele prazo. Ainda na expectativa, e também desiludidos, os cavalheiros não sabiam o que dizer, nem como explicar ocomportamentodos seus amigos emterra.Alguns declararam aos piratas que tinham motivos iguais ao deles para condenar aquela

conduta.Quenãotinhamdúvidasquantoaosr.Marksterrealizadoasua tarefacomtodaalealdade.Mas,umavezquehaviamrecebidonotíciasda idaasalvodobarcoatéCharles-Town,nãopodiamimaginaroquepoderia atrapalhar a execução do plano, a menos que lá eles estivessem dando maisvaloràcaixademedicamentosdoqueaoitentahomensprontospara seremexterminados.Porsuaparte,Teachacreditavaqueosseushomens tinhamsidopresos.Recusava-seaaceitarumaoutraprorrogaçãodeprazo paraosprisioneiros,ejuroumaisdemilvezesquenãoseriamsóelesa morrer,massim,qualquer cidadãodaCarolinaquelhecaíssenasmãos. Por im, os prisioneiros pediram que aomenos um últimogrande favor lhes fosse concedido: que se pudesse deslocar a esquadra até certa distânciadoporto,eentão,semesmoassimelesnãoavistassemobarco aproximando-se, os próprios prisioneiros dirigiriam os navios até em frenteàcidadeonde,sequisessemabatê-losatodos,elessemanteriamde péali,atéoúltimohomem. Aquela proposta de vingança contra a suposta traição (como o comodoro gostava de se referir ao fato) mostrou-se muito adequada ao selvagem temperamento do general e de seus brutamontes, e ele concordou imediatamente. O projeto foi igualmente aprovado pelos

Mirmidões c e assim, um total de oito navios — a presa que os piratas mantinhamemcustódia—içaramsuasâncoras,eseen ileiraramaolongo do litoral da cidade. Foi quando os habitantes tiveram o seu quinhão naquele horror, pois icaram esperando nada menos que um ataque generalizadoàcidade.Todososhomensforamconvocadosasearmarem, porém não da forma apropriada, caso fosse menor a surpresa. As mulhereseascriançascorriamenlouquecidaspelasruas.Mas,antesque as coisas chegassem a um ponto extremo, avistou-se o barco que se aproximavatrazendoconsigoaredençãoparaospobrescativos,eapaz paratodos. Acaixafoilevadaparabordo,econvenientementerecebida.Alémdisso, icouclaroqueosr.Markshaviarealizadobemasuatarefa,aopassoque a culpa por todo o atraso coube exclusivamente aos dois piratas que seguiramnaembaixada.Pois,enquantoreuniam-seoscavalheiroscomo governador em assembleia, para discutirem a questão, os outros dois grandes personagens passeavam pela a cidade, bebendo com antigos amigos e companheiros, de taverna em taverna, de forma que não puderamserlocalizadosquandoosmedicamentos icaramprontosparaa remessa.Eosr.Markssabiaquepartirsemosdoispiratassigni icariaa

morte para todos os prisioneiros, uma vez que o comodoro não iria acreditar facilmente, casoeles nãoretornassem, na velhacaria praticada por ambos. Mas agora só se viam expressões sorridentes no navio. A tempestade que tão pesadamente ameaçara os prisioneiros dissipou-se, sucedendo-seumbelodiaensolarado.Pararesumir,Barba-Negralibertou atodos,conformeprometera,mandou-osnosnaviosapósservir-sedestes, eemseguidavelejouparaalto-mar,comojámencionado. Oquesesegueagorasãoreflexõessobreumcavalheiro,jáfalecido,que foigovernadordaCarolinadoNorteecujonomeeraCharlesEden,Esq.É necessáriodizeraquialgoquepossaanularacalúnialançadacontraele poraquelesquenãointerpretarambemsuacondutaduranteosgrandes eventos da época. Recebemos ultimamente informações a esse respeito, emboraestascareçamdeumjustofundamento. AoanalisaropapelqueeledesempenhounahistóriadeBarba-Negra, nãonosparece,considerandoimparcialmenteosepisódios,queoreferido governador tivesse qualquer ligação criminosa com o pirata. E fui informado posteriormente, e por fontes muito boas, que o sr. Eden, na medida das suas possibilidades, sempre se comportou de forma convenienteaoseuposto,demonstrandoumcaráterdebomgovernadore dehonestocidadão. Porémasuadesgraçafoiafragilidadedacolôniaquegovernava,asua faltadepoderparapunirasdesordenscometidasporTeach,quemandava e desmandava em tudo, não somente na colônia, mas até mesmo na residência do governador, ameaçando destruir a cidade pelo fogo e a espadasequalquergolpefossedesferidocontraeleouseuscomparsas,a ponto de algumas vezes chegar a direcionar os seus canhões contra a

cidade.Certavez,suspeitandoquehaviaumplanoparaprendê-lo,armou-

sedospésàcabeçaefoitercomogovernador,emterra,deixandoordens com seus homens para que, no caso de ele não retornar em uma hora (segundo determinou com total liberdade), eles arrasassem completamente a residência, apenas isso, e mesmo que ele próprio se encontrassenoseuinterior.Eramassimasultrajantesinsolênciasdaquele vilão, tão grande na maldade, que decidiu vingar-se a todo custo dos inimigos,mesmotendodedaraprópriavidaemsacri ícioparaconseguir aquelesobjetivosperniciosos.

Devemos observar, entretanto, a respeito dos atos de pirataria de Barba-Negra,queeleassinaraaProclamaçãodePerdãoe,portanto,estava quite com a lei. E, tendo nas mãos um certi icado expedido por Sua

Excelência, ninguém poderia processá-lo pelos crimes cometidos até ali, pois todos haviam sidoapagados pela referida Proclamação. E quantoà desapropriação do navio franco-martiniquês, que posteriormente ele trouxeparaaCarolinadoNorte,ogovernadorprocedeujudiciosamenteao convocar um tribunal do Vice-almirantado, em virtude de seu cargo, no qual quatro tripulantes juraram ter encontrado o navio à deriva, sem ninguémabordo.Consequentemente,otribunalexpropriouonavio,como qualqueroutrotribunalteriafeito,colocandoacargaemdisponibilidade, tambémdeacordocomalei. SobreaexpediçãosecretaàVirgínia,empreendidapelogovernadore pordoiscapitãesdefragatas,todostinhamosseusinconfessadosobjetivos nela:as fragatas haviampermanecidoancoradas durante os dezúltimos meses, enquanto os piratas infestavam o litoral, praticando inúmeros desmandos.Éprovávelqueporessarazãoelesdevessemserchamadosa

seexplicar.MasosucessodaaçãocontraTeach,conhecidocomoBarba-

Negra,talveztenha impedidoessa investigação,embora eu me perca ao quererlevantartodososatosdepiratariacometidosporele,depoisquese

rendeuàProclamação.Onaviofrancêsfoidesapropriadoconformealei,

comojásedisseantes,eseBarba-Negracometeudepredaçõesentreos

fazendeiros,comoparecequeelessequeixaram,istonãoocorreuemalto-

mar,mas simnorio,ou nas praias e,portanto,nãopoderia estar sob a

jurisdição do Almirantado, nem tampouco das leis antipirataria. O governador da Virgínia se bene iciou com ofato, pois enviou aomesmo

tempoumaforçaporterraqueapreendeuconsideráveisbensdeBarba-

Negra,naprovínciadogovernadorEden,oquecertamenteeraalgonovo para um governador de província — cuja autoridade limitava-se à sua própriajurisdição—exercerautoridadesobreumoutrogovernoesobre o próprio governador local. Assim, foi o pobre sr. Eden insultado e maltratadodetodososlados,sempoder sejusti icar oua irmar osseus direitoslegais. Em suma, para se fazer justiça ao caráter do governador Eden, que morreu depois disso, não foram encontrados indícios — tanto nos documentosecartasapreendidosnachalupadeBarba-Negra,quantoem todas as demais evidências — de que o referido governador estivesse envolvido em alguma prática malé ica. Pelo contrário, durante todo o tempoemquepermaneceunoposto,foielehonradoeamadopelopovoda suacolônia,porsuaretidão,probidadeeprudenteadministração.Quanto às questões particulares do seu secretário, não tenho nenhum

conhecimento. Ele morreu alguns dias depois da liquidação de Barba- Negra,enenhuminquéritofoiinstaurado.Talveznãotenhahavidoocasião parafazê-lo.

parafazê-lo. a “VingançadaRainhaAnn”.(N.T.) b

a “VingançadaRainhaAnn”.(N.T.)

b Mantoescarlate.(N.T.)

c MirmidõeseraonomedopovoaoqualpertenciaAquiles,personagem

daOdisseia.(N.T.)

III

OmajorStedeBonnet

esuatripulação

EssemajoreraumcavalheirodeótimareputaçãonailhadeBarbados. Senhordeumaimensafortuna,etendoconhecidotodasasvantagensde uma educação liberal, seria o último dos mortais a optar por um tal caminhonavida,ajulgarporsuasituação.Foiumaverdadeirasurpresa paratodosnailhaondeviviaanotíciadesuadecisão.Ecomo,antesdedar início a seus atos declarados de pirataria, todos, de um modo geral, o estimavamehonravammuito,posteriormentemaisolamentaramdoque propriamente condenaram, atribuindo aqueles seus impulsos de sair praticando a pirataria apenas a alguma perturbação mental, que se evidencioupoucoantesdeelepartircomseusmalé icosobjetivos.Diziam tambémque essa perturbaçãofora ocasionada por certas angústias que ele vivenciou aoconhecer a vida de casado. Seja comofor, omajor não estavaquali icadoparaaqueletipodeatividade,etambémnãoentendia nadadequestõesmarítimas. Masmesmoassim,eleequipouumachalupacomdezcanhõesesetenta marujos,arcandosozinhocomoscustos,ezarpoudeBarbadosdurantea noite. Sua embarcação chamava-se Revenge [vingança]. O primeiro cruzeiroquerealizoufoipelascostasdaVirgínia,ondecapturoudiversos navios, saqueando-os de suas provisões, vestimentas, dinheiro, munição etc., particularmente o Anne, comandado pelo capitão Montgomery, de Glasgow; o Turbet, de Barbados, o qual, em razão de sua origem, foi incendiado pela tripulação depois de retirarem dele a maior parte da carga;oEndeavour,docapitãoScot,deBristol,eoYoung,provenientede Leith.DaíelesrumaramparaNovaYorke,napontalestedeLongIsland, capturaramumachalupaquesedirigiaàsÍndiasOcidentais.Depoisdisso atracaramedesembarcaramalgunshomensemGardner’sIsland,porém de maneira pací ica, comprandoprovisões para a companhia e pagando porelas,partindoemseguidasemprovocaremqualquerperturbação. Algum tempo depois, no mês de agosto de 1717, Bonnet chegou à barragemdaCarolinadoSul,ondecapturouumachalupaeumbrigueque sedirigiamparalá.AchalupapertenciaaBarbados,eoseucomandante era Joseph Palmer. Ia carregada com rum, açúcar e escravos negros. O briguevinhadaNovaInglaterra,sobocomandodeThomasPorter,efoi liberado depois do saque. Mas a chalupa foi levada por eles e, numa

enseadanaCarolinadoNorte,aadernaram 1 eaincendiaramemseguida. Depoisdefazeremalimpezanoseubarco,elesopuseramnovamente no mar, porém não conseguiam chegar a um acordo quanto à melhor direção a tomar. As opiniões estavam divididas entre a tripulação, uns querendoumacoisa,outrospensandodeformadiferente,eassimapenas aconfusãopareciaparticipardetodososplanos. Como estava longe de ser um marinheiro, como já se falou antes, o major tinha de ceder a frequentes imposições feitas a ele durante as operações, por sua total falta de conhecimentos marítimos. No inal, ele acabou acompanhando um outro pirata, um tal Edward Teach (homem que, devido à sua barba negra, notavelmente feia, era conhecido como Barba-Negra):esseindivíduoeraummarinheiromuitobom,mastambém era o mais cruel dos bandidos, corajoso e audacioso como ninguém, incapazdehesitardiantedomaisabominávelatoquesepossaimaginar. Assim, foiele declaradoochefe daquela execrávelturma. Pode-se dizer queoseulugar nãofoiindevidamenteocupado,poisnaverdadeBarba- Negra era superior emvilania a qualquer outrodaquele bando,comojá relatado. Todosostripulantes icaramdoseulado,relegandoBonnetaosegundo plano,nãoobstantefossedeleaembarcação.Eeleprosseguiuabordodo naviodeBarba-Negra,semparticipardenenhumadassuasquestões,eali permaneceu até o barco se perder na enseada de Topsail, quando um certoRichardsfoinomeadocapitãoemseulugar.Agoraomajorconseguia perceberasuapróprialoucura,porémnadapodiafazer,oqueodeixou presa de melancolia. Re letia sobre o curso passado de sua vida e atormentava-se de vergonha ao lembrar-se do que izera. Seu comportamento foi notado pelos outros piratas que, apesar de tudo, gostavamdele.Emuitas vezes ele confessou a alguns deles que de bom grado abandonaria aquele meio de vida, já estando totalmente farto daquilo. Mas sentiria vergonha de encarar novamente qualquer cidadão inglês.Porisso,sepudesseirparaaEspanha,ouPortugal,ondenãoseria reconhecido,elepassariaorestodosseusdiasemqualquerdaquelesdois países.Ouentãocontinuariaalimesmo,oquantovivesse. Quando Barba-Negra perdeu o seu navio na enseada de Topsail e apresentou sua rendição conforme a proclamação do rei, Bonnet reassumiuocomandodesuachalupa,aRevenge,efoidiretamentepara Bath-Town,naCarolinadoNorte,tambémparaapresentarasuarendição

aoperdãorealereceberoseucerti icado.Aguerraagorairromperaentre os membros da Tríplice Aliança e a Espanha. Assim, o major Bonnet conseguiu,naCarolinadoNorte,permissãoparaircomsuachalupaparaa ilhadeSt.Thomas,comopropósito(pelomenos,eraistooquepretendia) de conseguir uma autorização do imperador para partir como corsário contraosespanhóis.QuandoBonnetvoltouàenseadadeTopsailviuque Teach e sua turma tinham ido embora, levando todo o dinheiro, as pequenas armas e os artigos de valor do navio maior, abandonando dezessete homens num pequeno banco de areia a cerca de seis quilômetrosdeterra irme,evidentementeparaquealielesencontrassem amorte.Ailhotaeradeserta,eelesforamdeixadossemquaisquermeios desubsistência,tampoucoumbarcooumaterialparapoderemfazerum boteouumacanoaparaescapardali.Ali icaramelesporduasnoiteseum dia, sem alimento ou qualquer perspectiva de conseguirem algum, não esperando outra coisa senão uma morte lenta. Foi quando, para o seu inexprimívelalívio,elesavistaramasalvaçãoaaproximar-se.Poisomajor Bonnet, informado de que eles estavam lá por dois piratas que haviam conseguido escapar da crueldade de Teach, conseguindo ir para uma pobre aldeia na extremidade superior doporto,enviou seu escaler para constatar a verdade. Os pobres desgraçados lhes izeram sinal, e foram todoslevadosparabordodachalupadeBonnet. O major Bonnet declarou a todos da companhia a sua intenção de solicitarumaautorizaçãoparainvestircontraosespanhóis,ecomesse im

iriaparaailhadeSt.Thomas.Quemdesejasseacompanhá-loseriabem-

vindo.Todoobandoconcordou,masquandoachalupasepreparavapara partir, um pesqueiro trazendo maçãs e cidra para vender aos marujos passou-lhesainformaçãodequeocapitãoTeachseencontravanoestreito deOkerecockcomapenasunsdezoitoouvintemarujos.Bonnet,quelhe dedicava um ódiomortaldevidoaos insultos que ele lhe dirigira, partiu imediatamentenoseuencalço,porémdemasiadotarde,poisBarba-Negra não se encontrava mais lá. Depois de quatro dias de buscas, não tendo novasnotícias,dirigiuseucursoparaaVirgínia.

Nomêsdejulho,osaventureiroschegaramaolitoraldosCabose,ao cruzarem por uma embarcação que transportava mantimentos, como justamenteestavamprecisandodisso,tomaramdeladezoudozebarrisde carnedeporco,emaiscercadequatrocentosfardosdepão.Mas,comonão queriam dar um aspectode pirataria, entregaram-lhes em troca oitoou deztonéisdearrozeumcordamevelho.

Dois dias depois, perseguiram uma chalupa de sessenta toneladas, levando-a até doze quilômetros da costa do cabo Henry. Tiveram a felicidade de encontrar umsuprimentode bebida,e retiraramdela dois tonéis de rum, e mais dois de melaço, que ao que tudo indica estavam precisando, embora não dispusessem de dinheiro vivo para realizar o pagamento.Nãoseiinformar quetipodegarantiaelestencionavamdar- lhes.OfatoéqueBonnetenviouoitodeseushomensparacuidaremda presa, e estes, como não estivessem habituados a tais liberdades, aproveitaramaprimeirachanceparaseirememboracomaembarcação. E Bonnet, que agora estava muito satisfeito por ser chamado capitão Thomas,nuncamaisosviunovamente. Depois disso, o major se livrou de quaisquer outras restrições que pudesseabrigarconsigoe,emborapoucoantestivesserecebidooperdão de Sua Majestade, sob onome de Stede Bonnet, sofreu uma recaída na antiga vocação — estando plenamente consciente disso — agora com o nome deCapitão Thomas. Retomou explicitamente a vida de pirata, capturandoesaqueandotodososnaviosquelhepassavampelocaminho. AolargodocaboHenryelecapturoudoisnaviosdaVirgínia,emviagem paraGlasgow,dosquaispoucacoisaretiroualémdecemfardosdetabaco. Nodia seguinte tomou uma pequena chalupa que ia da Virgínia para as Bermudas, que o abasteceu com vinte barris de carne de porco e uma certaquantidadedebacon.Emtrocaderam-lhesdoisbarrisdearrozeum toneldemelaço.Daquelachalupa,doishomensvieramespontaneamente fazerpartedoseubando.Opróximobarcoacapturaremfoioutronavioda Virgínia, com destino a Glasgow, do qual nada de valor puderam tirar, salvoalguns pentes,al inetes e agulhas,trocandotudopor umbarrilde carnedeporcoedoisdepão. DaVirgíniaelesvelejaramparaaFiladél ia.Quandoseencontravamna latitude 38 norte, capturaram uma escuna proveniente da Carolina do NorteeseguindoemdireçãoaBoston.Delaretiraramapenasduasdúzias decourosdeboi,parafazeremcoberturasparaoscanhões,etambémdois deseustripulantes,mantendoobarcocomelesporalgunsdias.Tudoisso erapoucomaisdoqueummeropassatempo,comoseelespretendessem apenasabastecerasuachalupaenquantosepreparavamparaachegada a St. Thomas. Pois até ali haviam demonstrado boa vontade para com aquelesquetinhamamásortedecairemsuasmãos.Porémosquevieram

depoisnãoencontraramtratamentotãobom.Nalatitude39,aolargodo

rioDelaware,próximoàFiladél ia,tomaramdoispaquetesquesedirigiam

a Bristol, dos quais retiraram certa quantia de dinheiro, além de mercadorias, tudo talvez no valor de cento e cinquenta libras. Logo em seguidatomaramumachalupadesessentatoneladas,queiadaFiladél ia para Barbados. Depois de se apossarem de algumas mercadorias, deixaram-napartircomosdoispaquetes. No dia 29 de julho, o capitão Thomas capturou uma chalupa de cinquentatoneladas,aumadistânciadeunstrintaecincoquilômetrosda baía de Delaware, e que se dirigia da Filadél ia para Barbados, sob o comandodeThomasRead.Iacarregadadeprovisões,queelestomaram, colocandoabordodelaquatrooucincodosseushomens.Noúltimodiade julhotomaramumaoutrachalupadesessentatoneladas,comandadapor PeterManwaring,quevinhadeAntíguaparaaFiladél ia,aqualtambém apreenderamcomacarga,queconsistiaprincipalmenteemrum,melaço, açúcar, algodão, índigo e cerca de vinte e cinco libras em dinheiro, chegandoototalaproximadamenteaquinhentaslibras.

Em31dejulhoosnossosbandidos,acompanhadosdosbarcosrecém-

capturados,deixaramabaíadeDelawareevelejaramemdireçãoaorio CapeFear,ondesedemoraramporumtempodemasiadolongoparasua segurança,poisoseubarcopirata,queagorareceberaumnovonome—o deRoyalJames—apresentavamuitosvazamentos,eassimelestiveramde permanecer ali por cerca de dois meses, para reequipá-lo e reparar o casco. Naquele rio eles tomaram uma pequena chalupa, que foi desmontadaparasepoderemfazer osconsertosnecessários,ecomisso icou atrasado o prosseguimento das suas viagens, como já se disse. E assim,asnotíciasdequeumbarcopirataseencontravalá,adernado,com assuaspresas,acabaramchegandoàCarolina.

Com essa informação, o Conselho da Carolina do Sul icou alarmado, poistambémsoubequedentrodepoucotemporeceberiamavisitadeles. Paraimpedi-lo,ocoronelWilliamRhet,daquelamesmaprovíncia,foiatéo governadoroferecendo-segenerosamenteparapartircomduaschalupas eatacaropirata.Ogovernadorprontamenteaceitouaoferta,eemseguida deu ao coronel a autorização com plenos poderes para tratar aquelas embarcaçõesdamaneiraqueeleachassemaisapropriada. Empoucosdias,duaschalupasforamequipadasetripuladas.Achalupa Henry, de oitocanhões e setenta homens, comandada pelo capitão John Masters,eaSeaNymph,deoitocanhõesesessentahomens,comandada pelocapitãoFayrer Hall, ambos sob a direçãoe ocomandodoreferido

coronelRhet.Este,nodia14desetembro,embarcounachalupaHenrye,

acompanhadodaoutra,zarpoudeCharles-TownparaailhadeSwilllivant [Sullivan],a imdeseprepararemparaabusca.Logoemseguidachegou um pequeno navio de Antígua, comandado por um certo Cock, com a informaçãodeque,foradabarra,umbriguededozecanhõesenoventa homensche iadosporumcertoCharlesVane,opirata,ohaviacapturadoe saqueado. E que além daquele barco, Vane havia tomado também duas outrasembarcaçõesquealichegavam,umachalupapequena,comandada pelo capitão Dill, de Barbados, e um brigue sob o comando do capitão Thompson,vindodaGuiné,commaisdenoventanegros,osquaisforam retirados do barco e colocados a bordo de uma outra chalupa, sob o comandodeumtalYeats,seuassociado,ecomquinzemarujos.Essefato veioasemostrarvantajosoparaosproprietáriosdonaviodaGuiné,uma vezqueYeats,quepordiversasvezeshaviatentadodeixaraqueletipode vida,aproveitouachanceparaduranteanoiteabandonar Vaneepartir rapidamente para o rio North-Edisto, ao sul de Charles-Town, onde apresentou a sua rendição ao perdão de Sua Majestade. Os donos dos negrosostiveramdevolta,eYeatscomseushomensreceberamosseus certificadosfornecidospelogoverno. Vanecirculouporalgumtempopelascostasdabarra,naesperançade apanhar Yeats,mas logoconseguiu capturar dois navios,para infortúnio destes,que partiamcomdestinoa Londres.Enquantoos prisioneiros se encontravam a bordo, alguns piratas revelaram a sua intenção de se dirigiremaumdosriosaosul.OcoronelRhet,obtendoessainformação, velejou até a barra no dia 15 de setembro, nas duas chalupas já mencionadas.Ecomoventosoprandodonorte,foinoencalçodopirata Vane,realizandobuscasemtodososrioseestreitosaosul.Mascomonãoo encontrasse,modi icouocursoepartiuemdireçãoaorioCapeFear,para

darcontinuidadeaoseuprimeirodesígnio.Nodia26seguinte,ànoite,o

coronelesuapequenaesquadrapenetraramnorio,avistando,diantede umpromontório,trêschalupasancoradas:adomajorBonnetesuasduas presas. Mas aconteceu que ao subirem o rio, o piloto acabou fazendo encalhar a chalupa do coronel, e como já estava escuro quando conseguiram novamente lutuar, isto impediu que prosseguissem na subidaaquelanoite.Ospirataslogodescobriramaschalupas,porémcomo não conhecessem a sua procedência, ou com que propósito haviam penetrado naquele rio, eles baixaram três botes com marujos para as capturarem.Mas estes logoveri icaramoseu engano,e retornaramaos navios trazendo notícias nada boas. O major Bonnet fez os seus

preparativosparaocombateduranteanoite,retirandotodososhomens

dasduaspresas.MostrouaocapitãoManwaring,umdosseusprisioneiros,

a carta que acabara de escrever e que seria enviada aogovernador da

Carolina. A carta dizia o seguinte: que se as chalupas que ali surgiram

tivessemsidoenviadascontraelepeloreferidogovernador,eledesejava

deixar bem claro que haveria de incendiar e destruir todos os barcos chegandoepartindodaCarolinadoSul.Namanhãseguinteasvelasforam

içadaseelesdesceramorio,comoúnicopropósitodetravarumcombate

depassagem.TambémaschalupasdocoronelRhetenfunaramassuase

partiramatrásdeBonnet,aproximando-secadavezmaisdopiratacoma

intençãodeabordá-lo.Este,percebendoisso,avançouparaolitoral,porém, no calor da luta, suas chalupas acabaram por encalhar. As da Carolina,

encontrando-senasmesmaságuasrasas,viram-senamesmasituação.A Henry, onde estava o coronel Rhet, encalhou à distância de um tiro do naviopirata,enafrentedasuaproa.Aoutrachalupaencalhoubemmais adiante,quase tambémà distância de umtiro,oque fezcomque pouca utilidadetivesseparaocoronel,naquelascircunstâncias. Aessaalturaopiratalevavaconsiderávelvantagem,poisoseubarco,

depoisdeencalhar,adernouparaoladoopostoaodocoronelRhet,eassim

todosemseuinterior icaramprotegidos.Achalupadocoronel,entretanto, que também icou inclinada, estava com os seus homens inteiramente expostos. Apesar disso, eles mantiveram um intenso fogo de artilharia, durante o tempo em que permaneceram encalhados, por quase cinco horas. Os piratas izeram um determinado sinal com a sua sangrenta

bandeira 2 e por diversas vezes saudaram ironicamente os homens do

coronel com os seus chapéus, instigando-os a virem a bordo, ao que os

outrosresponderambradandohurrasedeclarandoquedentrodemuito

poucotempoiriampoderconversarcomeles.Oquedefatoaconteceu,pois

a chalupa do coronel foi a primeira a desencalhar. Ele se afastou para

águasmaisprofundase,logodepoisdeconsertaratravedobarco,muito

dani icada durante o combate, eles partiram para cima do pirata, para desferir-lheogolpe inaleabordá-lo.Masantesdissoopiratahasteoua

bandeiradetrégua,elogodepoiscapitulou.Todosospiratasserenderam

e foram feitos prisioneiros. O coronel tomou posse da chalupa e icou

extremamente satisfeito ao descobrir que aquele capitão Thomas, seu comandante, nãoera outrosenãoomajor Stede Bonnet, que por tantas

vezeslhesderaahonradeirvisitá-losnascostasdaCarolina. Houve mortos durante aquela ação: a bordo da Henry, dez homens

morreramequatorze icaramferidos.AbordodaSeaNymph,houvedois mortos e quatro feridos. Os o iciais e marujos das duas chalupas conduziram-se com a maior bravura possível. E, não tivessem aquelas embarcaçõesamásortedeencalharem,eelesteriamcapturadoopirataà custa de muito menos perdas. Mas, como aquele resolvera enfrentá-los num combate de passagem, os barcos se viram forçados a se manter próximos a ele, para impedir uma possívelfuga. Entre os piratas houve setemortosecincoferidos,doisdosquaisvieramamorrerpoucodepois, emconsequênciadosferimentos.OcoronelRhetzarpoudorioCapeFear

em30desetembro,chegandoaCharles-Townnodia3deoutubro,paraa

grandealegriadetodaapopulaçãodaprovínciadaCarolina. Bonnetesuatripulaçãodesembarcaramdoisdiasdepoise,comonão existisse aliuma prisãopública, os piratas foram trancados na torre de observação,sobaguardademilicianos.MasomajorBonnetfoicolocado sob a custódia na residência do prefeito. Passados poucos dias David Hariot, o comandante, e Ignatius Pell, o contramestre, que foram designados para dar depoimentos sobre os demais piratas, foram separadosdorestodatripulaçãoetambémcolocadosnareferidacasado prefeito,onde duas sentinelas montavamguarda todas as noites.Porém, quer tenha havido alguma corrupção, quer pela falta de atenção na vigilânciasobreosprisioneiros,issoeunãosaberiadizer,ofatoéqueno dia 24 de outubro, o major e Hariot conseguiram escapar, tendo o contramestre se recusado a acompanhá-los. Isso provocou um grande rebuliço na província, e a população manifestava abertamente a sua indignação contra o governador e outros membros da magistratura, acusando-os de terem sido subornados e de terem alguma conivência naquelasfugas.Essas invectivas surgiamdomedoque todos sentiamde queBonnetpudesseorganizarumaoutracompanhiaevingar-sedetodaa cidadeportudoaquiloquerecentemente,ecomjustiça,sofrera.Masem pouco tempo puderam tranquilizar-se a esse respeito, pois tão logo o governadorteveconhecimentodafugadeBonnet,expediuimediatamente umaproclamaçãonaqualprometiaumarecompensadesetecentaslibras paraquemquerqueoprendesse,etambémenviouemsuaperseguição diversosbarcos,tantoparaonortequantoparaosul. Bonnetpartiunumpequenobarcoemdireçãoaonorte,mas,nafaltado mínimonecessárioeenfrentandotambémomautempo,elefoiforçadoa recuar, retornando em sua canoa para a ilha de Swillivant, perto de Charles-Town, para conseguir suprimentos. Mas dali enviaram-se

informaçõesaogovernador,quemandouchamarocoronelRhetparaque saísse em perseguição a Bonnet, entregando-lhe para isso uma autorização. Em seguida o coronel, com um barco adequado e alguns homens,zarpounaquelamesmanoiteparaailhadeSwillivante,apósuma diligentebusca,conseguiuencontrarBonneteHariotjuntos.Oshomensdo coronel dispararam suas armas contra eles, matando Hariot no próprio local, e ferindo também um negro e um índio. Bonnet acabou por se

submetererender-see,namanhãseguinte,dia6denovembro,foitrazido

pelocoronelRhetatéCharles-Townonde,comagarantiadogovernador, foicon iadoaumaseguracustódia,a imdeserlevadoposteriormentea julgamento.

Nodia28deoutubrode1718,otribunaldovice-almirantadoreuniu-se

em Charles-Town, na Carolina do Sul. Após sucessivos adiamentos, as sessões prosseguiram até o dia 12 de novembro seguinte, uma quarta- feira,comojulgamentodacompanhiadepiratasaprisionadosnachalupa conhecida antes como Revenge, e agora chamada Royal James, perante Nicholas Trot, Esq., juiz do vice-almirantado e juiz supremo da referida provínciadaCarolinadoSul,acompanhadoporoutrosjuízesassistentes. Foi lida a autorização do rei conferida ao juiz Trot, e o grande júri comprometeu-se sob juramento a dar sua posição sobre as diversas denúnciasesobreadoutaexortaçãoapresentadaaelespeloreferidojuiz, pela qual se demonstrava, em primeirolugar: que omar é um dom de Deus,parausodoshomens,eésujeitoaodomínioeàpropriedade,tanto quantoaterra. Emsegundolugar:destacava-separticularmenteasoberaniadoreida Inglaterrasobreosmaresbritânicos. Emterceiro:observava-seque,umavezqueocomércioeanavegação não podem realizar-se sem leis, por isso sempre houve leis especí icas paraamelhorordemeregulamentodasquestõesmarítimas,seguindo-se aistoumarelaçãohistóricadessasleisedesuaorigem. Emquartolugar,prosseguia-sedemonstrandoaexistênciaanteriorde tribunais e cortes particulares a cuja jurisdição pertenciam as causas marítimas,tantoemassuntoscivisquantocriminais. Emquintolugar,era-lhesespecialmentedemonstradaaconstituiçãoea jurisdiçãodaquelacortedesessõesdoAlmirantado. Eporúltimo,oscrimesdecompetênciadareferidacorte,especialmente ampliadaparaoscrimesdepirataria,quenomomentoeramapresentados

aeles. Pronunciadas as acusações,umpequenojúriprestou juramento,e as seguintespessoasforamindiciadasejulgadas; Stede Bonnet, Edwards, conhecido como Thomas, originário de Barbados,marítimo. RobertTucker,origináriodailhadaJamaica,marítimo. EdwardRobinson,deNewcastlesobreoTyne,marítimo. NealPaterson,deAberdeen,marítimo. WilliamScot,deAberdeen,marítimo. WilliamEddy,conhecidocomoNeddy,deAberdeen,marítimo. AlexanderAnnand,daJamaica,marítimo. GeorgeRose,deGlasgow,marítimo. GeorgeDunkin,deGlasgow,marítimo. +ThomasNicholas,deLondres,marítimo. JohnRidge,deLondres,marítimo. MatthewKing,daJamaica,marítimo. DanielPerry,deGuernsey,marítimo. HenryVirgin,deBristol,marítimo. JamesRobbins,conhecidocomoRattle,deLondres,marítimo. JamesMullet,conhecidocomoMillet,deLondres,marítimo. ThomasPrice,deBristol,marítimo. JamesWilson,deDublin,marítimo. JohnLopez,deOporto,marítimo. ZachariahLong,daprovínciadaHolanda,marítimo. JobBayly,deLondres,marítimo. John-WilliamSmith,deCharles-Town,marítimo. ThomasCarman,deMaidstone,emKent,marítimo. JohnThomas,daJamaica,marítimo. WilliamMorrison,daJamaica,marítimo. SamuelBooth,deCharles-Town,marítimo. WilliamHewet,daJamaica,marítimo. JohnLevit,daCarolinadoNorte,marítimo.

WilliamLivers,conhecidocomoEvis.

JohnBrierly,conhecidocomoTimberhead a ,deBath-Town,Carolinado Norte,marítimo. RobertBoyd,dareferidaBath-Town,marítimo. +RowlandSharp,deBath-Town,marítimo. +JonathanClarke,deCharles-Town,CarolinadoSul,marítimo. +ThomasGerrard,deAntígua,marítimo.

E todos, à exceção dos três últimos e de Thomas Nicholas, foram declaradosculpadosesentenciadosàmorte. Amaioriadelesfoijulgadaporapenasduasacusações,comoseexplica aseguir:

OSJURADOSDE NOSSO SENHORSOBERANO oReideclaramsobjuramentoque StedeBonnet,origináriodeBarbados,marítimo;RobertTucker&c.&c.,no segundodiadomêsdeagosto,noquintoanodoreinadodenossoSenhor SoberanoGeorge&c.,pelaforçadasarmas,emalto-mar,numcertolocal chamado cabo James &c., cometeram atos criminosos e de pirataria ao atacarem, dani icarem, abordarem e invadirem uma certa chalupa mercante, chamada Frances, sob o comando de Peter Manwaring, pela força &c., em alto-mar, num certo local chamado cabo James, também conhecido como cabo Inlopen, a cerca de três quilômetros e meio de

distânciadolitoral,nalatitude39,ouaproximadamenteisso.E,dentroda

jurisdiçãodoTribunaldovice-almirantadoda Carolina doSul,a chalupa transportava certas pessoas (desconhecidas dos jurados) e então, e ali, comopiratasecriminosamente,elesrealizaramoataqueaoseuinteriore ao referido Peter Manwaring, e a outros marinheiros de sua tripulação (cujos nomes são desconhecidos dos referidos jurados) que se encontravamnamesmachalupa,contrariamenteàPazdeDeusedonosso Senhor Soberano o Rei, então, e ali estando, como piratas e criminosos, transferiramoreferidoPeterManwaringeoutros,eosseustripulantesda mesma chalupa,para a outra chalupa mencionada antes,numestadode temor ísicopelasprópriasvidas,entãoeali,nareferidachalupa,emalto- mar,nolugaracimamencionado,chamadocaboJames,oucaboInlopen,a cerca de três quilômetros e meio da costa, na latitude 39, ou aproximadamente isso, como foi referido anteriormente, e dentro da jurisdição já referida, como piratas e criminoso, eles roubaram, se

apossaramelevaramconsigotodaacargadareferidachalupamercante, que se chamava Frances,alémde vinte e seis barris &c.&c.,que foram encontradosnareferidachalupaequeestavamsobacustódiaeaposse do referido Peter Manwaring e outros, seus tripulantes da referida chalupa,retirandoestesdasuacustódiaeposse,entãoeali,emalto-mar comojáfoidito,nochamadocaboJames,oucaboInlopen,comoreferido,e dentro da jurisdição já referida, contrariamente à paz do nosso Senhor SoberanooRei,àsuaCoroaeSuaDignidade.

Foi essa a forma de acusação na qual foram eles citados e, embora pudessemterprovadomuitosoutrosatoscontraamaioriadatripulação,o tribunalachou mais apropriadolevar a julgamentoapenas dois deles.O segundo foi a captura criminosa por pirataria da chalupa Fortune, comandada por Thomas Read, e, como seguiu a mesma forma que a mencionadaacima,achamosdesnecessáriodizermaisalgumacoisasobre ela.

Todos os prisioneiros citados declararam-se inocentes, decidindo enfrentaroseujulgamento,àexceçãodeJamesWilsonedeJohnLevit,que se declararam culpados das duas acusações, e de Daniel Perry, que se declarouculpadodeapenasuma.Omajordeveriaresponderporambasas acusaçõesconcomitantemente,porémaCortenãoaceitouisto,aoqueele se declarou inocente emambas.Mas tendosidoconsideradoculpadode uma delas,ele recuou de sua declaraçãoanterior e declarou-se culpado tambémdasegundaacusação. Osprisioneirosapresentarampoucaounenhumadefesa,cadaumdeles pretendendo apenas ter sido recolhido em uma praia deserta, onde haviamsidoabandonados,equetodosembarcaramcomomajorBonnet para seguirem para a ilha de St. Thomas; mas que já em alto-mar, e necessitandode provisões, foram forçados por outras pessoas a fazer o que izeram.TambémfoiestaadeclaraçãodomajorBonnet,pretendendo ter sido pela necessidade, e não por uma inclinação própria, que tudo aconteceu.Entretanto,comoosfatosprovavamplenamente,poistodosali haviamdivididodezouonzelibrasparacadaum,excetoostrêsúltimos mencionadosemaisThomasNicholas,foramtodosconsideradosculpados. Ojuiz pronunciou um discursomuitoseveropara eles, demonstrandoa enormidadedosseuscrimes,asituaçãoemqueagoraseencontravam,ea natureza e a necessidade de um sincero arrependimento. Em seguida recomendou-osaosclérigosdaprovínciaparareceberemorientaçõesmais

amplas, e para os preparar para a vida eterna, pois (concluiu ele) “os lábiosdospreladosconservamoconhecimento,evósireisbuscaraleipor suas bocas. Pois eles são os mensageiros do Senhor,” Mel. 2.7. “os embaixadoresdoCristo,eaelesfoicon iadaapalavra”(ouDoutrina)“da

reconciliação”,2.Co.,v.19,20.Emseguidapronunciouasuasentençade

morte. No dia 8 de novembro de 1718, sábado, Robert Tucker, Edward Robinson,NealPaterson,WilliamScot,JobBayley,John-WilliamSmith,John Thomas, William Morrison, Samuel Booth, William Hewet, William Eddy, conhecidocomoNeddy,Alexander Annand,GeorgeRoss,GeorgeDunkin, MatthewKing, Daniel Perry, Henry Virgin, James Robbins, James Mullet, conhecidocomoMillet,ThomasPrice,JohnLopezeZachariahLongforam executadosemWhitePoint,pertodeCharles-Town,conformeasentença quehaviamrecebido. Quanto ao capitão, a sua fuga prolongou um pouco o seu destino, e

esticouasuavidaporunsdiasmais,ocorrendooseujulgamentonodia10.

Foideclaradoculpado,recebendoamesmasentençaqueosdemais.Diante

disso,ojuizTrotpronunciouumdiscursoextremamentebrilhante,talvez

umtantolongoparaserincluídoemnossahistória,emboraeunãopossa

passarporcimadeumaobratãoinstrutivaeútil,jáquenãoseiporque

mãosestelivropoderápassar.

DISCURSODO SENHORPRESIDENTEDO TRIBUNALAO PRONUNCIARSUASENTENÇA PARAOMAJORSTEDEBONNET.

Major Stede Bonnet, sois aqui condenado por duas acusações de pirataria:uma,peloveredictodojúri,eaoutraporvossaprópriaconfissão. Emborafosseisindiciadoporapenasduasações,sabeisentretantoque durantevossojulgamento icouplenamenteprovado,atémesmoporuma testemunhainvoluntária,quepormeiodeatosdepiratariavóstomastese saqueastesnadamenosdoquetrezeembarcações,desdeavossapartida daCarolinadoNorte. Tantoque poderíeis ser indiciadoe condenadopor mais outras onze açõesdepirataria,desdequerecebestesobene íciodoAtodeClemência dorei,quandoa irmastesavossaintençãodeabandonarde initivamente esseperversomeiodevida. Paranãomencionarmostambémoutrostantosatosdepiratariaantes cometidospor vós.Pelosquais,emboraoperdãoquepedistesnãofosse

autêntico,aindaassimdevereisresponderporelesperanteDeus. Sabeis que os crimes que cometestes são maus por si mesmos e contrários à Luze à Leida Natureza,comotambémà Leide Deus,pela qualvosordenamanãoroubar(Ex20.15).EoapóstolosãoPauloa irma expressamente que “osladrõesnãoherdarãooReinode Deus”(1Co6.

10).

Porémaorouboacrescentastes umpecadoainda maior:oassassínio. Quantospoderãotersidoassassinadosporvós,entreosqueresistiamaos vossosatosde pirataria,istoeu nãosaberia a irmar.Porémoque todos sabemoséque,alémdosferidos,nãomenosquedezoitoforammortospor vós,dentreosqueforamenviadospelaautoridadelegalparavossuprimir ecolocarumpontofinalnasrapinasquepraticáveisdiariamente.

E mesmo que penseis que ali se matavam homens num justo e declaradocombate,mesmoassimsabe-sequeopoderdaespada,quando não é con iado por nenhuma autoridade legal, não confere o direito de usarqualquerforça,oudecombateraquemquerqueseja.Eporisso,os quetombaramnaquelasações,cumprindocomseudeverparacomseurei eseupaís,foramnaverdadeassassinados,eoseusangueagoraclamapor vingançaejustiçacontravós.Poiséavozdanatureza,con irmadapelaLei de Deus, que declara: “Aquele que derramar o sangue do homem, pelo

homemseusangueseráderramado”(Gn9.6).

Econsideraiqueamortenãoéaúnicapuniçãoparaosassassinos,pois sobre eles recai a promessa de ocuparem o seu lugar num lago que

queimacomofogoeoenxofre,equeéasegundamorte(Rev21.8).Veja-

seocap.22.15.Essaspalavrascarregamoterrorconsigoeconsiderando-

seavossasituaçãoeavossaculpa,comcertezaoseusomvosdevefazer

tremer.“Poisquempodeviveremmeioaumeternoincêndio?”(Cap.33.

14).

Como o testemunho da vossa consciência vos deve convencer dos grandes e numerosos males que cometestes, pelos quais ofendestes seriamente a Deus, provocando mui justamente a Sua ira e indignação contra vós, assim possosupor nãoser necessáriodizer-vos que a única maneira de obterdes de Deus operdãoe a remissãode vossos pecados serápormeiodeumverdadeiroesinceroarrependimentoefénoCristo, por cuja gloriosa morte e paixão, somente, podereis ter esperanças de salvação.

Comosoisumcavalheiro,tendoconhecidotodasasvantagensdeuma

educaçãoliberal,econsideradotambém,demodogeral,comoumhomem letrado,acreditoser desnecessáriopara mimexplicar-vos a natureza do arrependimentoedafénoCristo,jáqueestãomencionadasnasEscrituras comtantafrequênciaeamplidãoqueéimpossívelnãoasconhecerdes.E assim,talvez,por essa razãopoder-se-ia pensar nãoser próprioque eu vosfaletantosobreelas,comoofaçonopresentemomento.Nãodeveria fazê-lo. Porém, ao examinar o curso da vossa vida e das vossas ações, tenhojustos motivos para temer que os princípios da religião instilados duranteavossaeducaçãosetenhamcorrompidoao inal—senãoéque foramtotalmente apagados —peloceticismo e ainfidelidadedessaépoca pervertida.Equeotempoquepassastesnosestudosfoidedicadoantesa uma literatura galante e à vã iloso ia dos nossos tempos,doque a uma sériabuscapelaLeieaVontadedeDeus,taiscomonosforamreveladas pelas Santas Escrituras. Porque, “tivésseis tido vosso deleite na Lei do

Senhor,meditandodiaenoitesobreela”,(Sl1.2),teríeisdescobertoque“a

palavra de Deus era uma lâmpada aos vossos pés e uma luzemvosso

caminho”(Sl119.105),equenãoteríeisobtidooutroconhecimentosenão

odaperda,emcomparaçãocom“aexcelênciadoconhecimentodoCristo

Jesus”(Fp3.8)poiséopoderdeDeuseaSabedoriadeDeusqueaele

chamam(Co1.24),“mesmoasabedoriaocultaqueDeusestabeleceuno

Mundo”(Cap.2.7).

EntãoteríeisamadoasEscriturascomoaGrandeCartadoscéus,que nostransmitiramnãosóasleiseosregulamentosmaisperfeitosdaVida, como também nos revelaram os atos de perdão de Deus por termos ofendidoaquelasjustasleis.Poisapenasnessasleispoderemosdescobrir ograndemistériodaredençãodopecador,“queosprópriosanjosdesejam

ver”(Pe1.12)

Eelasvosteriamensinadoqueopecadoéoaviltamentodanatureza humana, sendoum desvioda pureza, da retidãoe da santidade com as quais fomos criados por Deus.Eque a virtude e a religião,e ocaminho segundo as leis de Deus, são totalmente preferíveis aos caminhos do pecadoedesatã.Poisoscaminhosdavirtudesão“caminhosdodeleite,e

todasassuasformassãodaPaz”(Pv3.17).

Mas o que a palavra de Deus não vos ensinou, devido à atenção descuidada ou apenas super icial que dedicastes a ela, espero que o decursodaSuaProvidência,easatuaisa liçõesqueElelançousobrevós, tenhamvosagoraconvencidodela.Poismesmonaaparenteprosperidade

poderíeis“zombardosvossospecados”(Pv14.9),emesmoassim,agora

que podeis ver que a Mão de Deus vos alcançou, trazendo-vos para a

justiça pública,esperoque a vossa infelizcondiçãoatualvos tenha feito

re letirseriamentesobreasvossasaçõespassadaseovossorumonavida.

E que sejais agora sensível à magnitude dos vossos pecados, e que

descubraiscomoéintoleráveloseufardo.

consequentemente, estando assim “em trabalhos e

E

que

sobrecarregado com o peso dos vossos pecados” (Mt 2. 28), possais estimaraqueleconhecimentocomoomaisvalioso,quevospodemostrar

comosereconciliarcomoDeussupremo,aquemtantoofendestes,eque pode revelar-vos aquele que não é apenas vosso poderoso advogado

peranteoPai(Jo1.2),mastambém,oquepagoucomsuaprópriamortena

cruz,porvós,aqueladívidacontraídapelosvossospecados.Equedessa formadeuplenasatisfaçãoàjustiçadeDeus.Eistosósepodeencontrar napalavradeDeus,quenosrevelaque“oCordeirodeDeusquetiraos

pecadosdomundo”(Jo1.29),éoCristo,oFilhodeDeus.Poristosabei,e

icaicertodequenãoháoutroNomesoboscéus,entreoshomens,pelo qualpossamos ser salvos (At4.12),que nãoapenas onome doSenhor Jesus. MasentãoconsideraicomoEleconvidaatodosospecadoresaviraté

Ele,poislhesdarádescanso(Mt28),poisElenosgarantequeveiobuscar

e salvar aquele que se perdeu (Lc 19. 10. Mat 18. 2) e prometeu que

“quemvieratéEle,Elenãoolançaráfora”(Jo6.37).

Assim, se agora vos voltardes sinceramente para Ele, embora tarde,

aindaquena“undécimahora”(Mt20.6,9).Elevosreceberá.

Mas certamente não preciso dizer-vos que as condições para a sua misericórdiasãoaféeoarrependimento. Enãovosiludaissobreanaturezadoarrependimento,pretendendoser este apenas uma mera tristeza por vossos pecados, surgida da re lexão sobreoMaleaPuniçãoqueagoraelestrazemsobrevós.Avossatristeza deve surgir da re lexãosobre as ofensas que izestes a umDeus que é benevolenteemisericordioso. Porém não pretendo aqui dar-vos orientações detalhadas sobre a naturezadoarrependimento.Achoquemedirijoaalguémcujasofensas são provenientes não tanto por não saber, mas sim por desrespeitar e negligenciar seus deveres. Tampouco é adequado que vos dê conselhos tiradosdaminhaprópriaprofissão. Podereis obter esses conselhos mais propriamente daqueles que

fizeramdaDivindadeoseuparticularestudo,eque,porseuconhecimento,

comotambémporsuaatividadecomoEmbaixadoresdoCristo,2Co5.20,

estãomaisbemqualificadosparavosdarasdevidasinstruções. Só desejo ardentemente que tudo o que disse agora, nesta triste e soleneocasião,porcompaixãopelavossaalma,exortando-vosdeummodo geralàféeaoarrependimento,possaproduziremvósodevidoefeito,e queassimvospossaistornarumverdadeiropenitente. E assim, já que agora cumpri, como um cristão, com meu dever em relaçãoavós,dando-vososmelhoresconselhosquepudesobreasalvação davossaalma,devoagoracumprircomomeudever,comojuiz. A sentença que a Lei indicou para ser aplicada a vós por vossas ofensas,equeestaCorteconsequentementeconfere,é:

Quevós,ocitadoStedeBonnet,ireisdaquiparaolugardeondeviestes, edaliparaolocaldasexecuções,ondesereisenforcadopelopescoçoatéa morte. EqueDeus,infinitamentemisericordioso,tenhapiedadedaVossaalma. SobreomajorBonnet [DoapêndiceaovolumeII] Tenhoapenas umas poucas palavras a acrescentar sobre a vida e os feitosdomajorBonnet.Aoseaproximaromomentodasuaexecução,toda asua irmezafaltou-lhe,eosseusmedoseagoniasseapoderaramdelede tal forma que ele parecia quase insano quando chegou ao local das execuções. O seu lastimável comportamento depois da sentença afetou muito as pessoas da província, especialmente as mulheres, e muitas solicitaçõesforamfeitasaogovernadorparaquesuavidafossepoupada, masfoitudoemvão.NãoqueSuaExcelência,ocoronelJohnson,sentisse alguma satisfação pessoal com aqueles atos severos de justiça, mas ele conhecia bem demais o seu dever para se deixar levar por lágrimas e oraçõesdegentefracaeirre letida,quandotantoobempúblicoquantoa suaprópriahonraestavamemjogo.SeBonnetnãotivessefugidodesua guarda, após ter sido preso, ocasionando com isso a morte de seu companheiro de prisão, Hariot, ao resistir à autoridade do governador, fornecendoassimmaisumexemplodesuasintençõesdesleais,teriasido possível fazer algo em seu favor. Mas ele se tornara um criminoso demasiadamente notório e perigoso para que sua vida fosse poupada. Entretanto,ogovernador,quesecomportouemseuposto,comotambém nas suas atividades particulares, com grande probidade, honra e

sinceridade,ouviuumapropostafeitapor algunsamigosdeBonnet, que era a de enviá-lopresopara a Inglaterra,a imde que oseucasofosse levadoatéSuaMajestade.OcoronelRhetofereceu-separaacompanhá-lo, prometendosu icientesegurançaparaentregá-loláasalvo,a imdeque SuaMajestadeotratassesegundosuavontade.Masosprópriosamigosdo major consideraram, por im, que isso causaria grandes despesas e problemas,enãoteriaoutropropósitosenãoodealongarumpoucomais aquelamiserávelvida.Poisachavampoucoprovávelconseguir-seoperdão para ele, tanto na Inglaterra quanto na Carolina do Sul. E assim, eles própriosacabaramporaceitaraexecuçãodasentença,queforaaplicada comtantajustiçacontraomajor.Agoraacrescentareiaquiumacópiada cartaescritaaogovernadorpeloprisioneiro,poucoantesdasuaexecução.

MEUNOBRESENHOR,

Tomoaliberdade,con iandonavossaextremabondade,delançar-me aosvossospés,porassimdizer,paravosimplorarque,pormisericórdia, tenhais a bondade de considerar o meu caso com toda piedade e compaixão.Equeacrediteisquesouhojeomaismiseráveldoshomensa respirar neste mundo.Que as lágrimas que jorramda minha tristíssima almapossamamenizarovossocoração,inclinando-vosalevaremcontao meu lamentável estado, o qual, devo confessar, está totalmente despreparadopararecebertãocedoessaterrívelexecuçãoquedecidistes designarparamim.Eassim,suplico-vosquepenseisemmimcomooobjeto dovossoperdão. Pelo amor de Deus, bondoso senhor, permiti que a palavra de três homenscristãossobjuramentopossapesarsobreessavossadecisão,eles que estão dispostos a depor, assim que tiverdes a bondade de lhes permitirfazê-lo,sobreascompulsõesquemepossuíamquandopratiquei aquelesatospelosquaisestouagoracondenadoamorrer. Imploro-vos que não me deixeis ser sacri icado pela inveja e o impiedosoódiode alguns poucos,os quais,nãoestandoainda satisfeitos comtodoessesangue, ingemacreditarquesemeconcederemafelicidade deobterumavidamaislonganestemundo,aindaireiempregá-ladeuma formaperversa.PararemoverestaequaisqueroutrasdúvidasdeVossa Excelência,euvossuplicocomtodooardorquemepermitaisviver,eeu voluntariamente colocareitodas aquelas coisas longe de mim,separando osmembrosdomeucorpoeconservandoapenasousodeminhalíngua, paraquecontinuamentepossaclamarerezarparaoSenhormeuDeus,e

lamentarpelorestodosmeusdias,penitenciando-meemvestesdesacoe cinzas, a im de criar novas e con iantes esperanças na minha própria salvação,naquelegrandeeterríveldiaemquetodasasalmasdireitasirão receberasuajustarecompensa.E,paradaraVossaExcelênciamaisuma garantia de ser eu agora incapaz de prejudicar qualquer um de meus companheiros cristãos, se eu ainda estivesse tão perversamente intencionado assim, humildemente eu vos suplico (como punição aos pecados devidos à minha pobre alma) que me contrateis como o mais desprezívelservodeVossaExcelênciaedesteGoverno,pelorestodavida, emeenvieisparaamaislongínquaguarniçãooucolôniadointeriordeste país,ouqueempregueisqualqueroutraformacomquepossaisdisporde minhapessoa.Eigualmentepresenciareisaboavontadedetodososmeus amigos, que responderão pelo meu bom comportamento e constante obediênciaàsvossasordens. UmavezmaisimploropelagraçadeDeus,caroSenhor,que,umavez que sois umcristão,sereis tambémbastante caridosopara se apiedar e compadecer desta minha miserável alma, que só mui recentemente foi despertada de seu hábito de pecar, e para abrigar as mais con iantes esperanças e garantias de que ela será recebida nos braços do meu abençoado Jesus, como se faz necessário para reconciliar-me com uma morte tão imediata. Por isso, como minha vida, meu sangue, como a reputaçãodeminhafamíliaeminhafelicidadefuturaestãointeiramenteao vossodispor, imploro-vos que me considereis com um coraçãocristãoe caridoso, e que determineis misericordiosamente que eu possa para sempre ser-vos reconhecido e amar-vos logo em seguida a Deus, meu Salvador.EquemeobrigueissempreaorarparaquenossoPaiCelestial tambémvenhaaperdoar-vosporvossasfaltas. Agora,que oDeus da Paz,que trouxe de volta de entre os mortos o nosso Senhor Jesus, aquele grande Pastor de ovelhas, pelo sangue do eternoacordo,vosfaçaperfeitoemtodasasboasobras,nocumprimento daSuavontade,aperfeiçoandoemvóstudoaquiloqueLheagradaàvista, por meio de Jesus, com quem a Glória esteja para todo o sempre, é a ardenteoraçãodo

MAISMISERÁVELEANGUSTIADO

SERVIDORDEVOSSAEXCELÊNCIA,

STEDEBONNET

a“Cabeçadepau”.(N.T.)

a“Cabeçadepau”.(N.T.)

IV

OcapitãoJohnRackam esuatripulação John Rackam era contramestre da companhia do pirata Vane, desligando-se dele quandoeste recusou-se a fazer a abordagem e lutar contra uma fragata francesa. Então Rackam foi eleito capitão da divisão

quepermaneceunobrigue.Odia24denovembrode1718foioprimeiro

doseucomando,eoseuprimeirocruzeirofoipelasilhasdoCaribe,onde capturouesaqueoudiversosnavios. JáobservamosquequandoocapitãoWoodesRogersfoiparaailhade Providence, levando o perdão do rei para aqueles que se rendessem, o briguequeRackamagoracomandavaescapoupor umaoutra passagem, desafiandooatodeclemência. A barlaventoda Jamaica,umnavioda Madeira foiinterceptadopelos piratas,queodetiveramdurantedoisoutrêsdias,atéqueseapoderassem de tudo o que levava. Depois o devolveram ao comandante, e também permitiramque umcertoHosea Tisdell,proprietáriode uma taverna na Jamaica e capturado numa daquelas pilhagens, embarcasse nele, pois destinava-seàquelailha. Apósessecruzeiro,elesseguiramparaumapequenailha,fazendoalia limpeza donavioe passandooNatalna praia,a se embriagar e farrear enquanto tinham bebidas em estoque. Quando acabaram, de novo eles partiram para o mar à cata de mais, e conseguiram alguma coisa, não obstantenãocapturaremnadaextraordináriopor maisdedoismeses,a não ser um navio cheio de ladrões vindos da prisão de Newgate com destinoàscolônias.Masempoucosdiaselefoirecapturado,comtodasua carga,porumafragatainglesa. RackamsedirigiuentãoparaasBermudas,apossando-sedeumnavio queiadaCarolinaparaaInglaterra,edeumpequenopesqueirodaNova Inglaterra,levandoambosparaasBahamas.Ali,usandoopiche,obreue osestoquesdonavio, izeramnovaslimpezaseconsertosnobarco.Mas, por terem permanecido demasiado tempo pelos arredores, o capitão Rogers,queeraogovernadordeProvidence,acabousabendodoocorrido, eenviouparaláumachalupabemequipadaearmada,querecapturouos doisbarcos.Nessemeio-tempo,opiratateveasortedeescapar. DaíelesvelejaramparaCuba,ondeRackammantinhaumaespéciede família, e lá permaneceram por um tempo considerável, vivendo pelas

praiascomassuasDalilasatéqueodinheiroeasprovisõeschegaramao im, quando então a conclusão foi que já era hora de sair novamente, procurandomais.Apósrealizaremconsertosnobarco,elesseaprontavam para içar velas quando uma Guarda del Costa surgiu trazendo uma pequena chalupa inglesa que prendera por estar invadindo águas territoriaisdacosta.Aguardaespanholaatacouospiratas,porémpouca coisapodiafazernaposiçãoemqueseencontrava,umavezqueRackam seesconderapordetrásdeumailhota.Porisso,osespanhóisseretiraram para o canal, por aquela noite, a im de garantirem a captura deles na manhãseguinte.Rackamviuqueasuasituaçãoeradesesperadora,sema menor possibilidade de escapar, e então resolveu tentar a seguinte façanha: como a presa dos espanhóis, por questão de segurança, icara ancorada perto da praia, entre a pequena ilha e a terra irme, Rackam embarcou seus homens num escaler, armados com pistolas e cutelos, contornousilenciosamenteailhotaelançou-seabordodapresa,nomeio da noite, sem que ninguém notasse. Disse aos espanhóis a bordo que bastavaamenorpalavraouomenorruídoeelesseriamtodosmortos,e dessa forma tornou-se senhor do navio. Feito isto, recolheu os cabos e zarpou para alto-mar. A fragata espanhola estava tão concentrada na próximacapturadonavio,quenadamaislhepassavapelospensamentos. Eassimqueraiouodia,desferiuumafuriosadescargadeartilhariacontra a chalupa — que estava totalmente vazia. Não demorou muito para se daremcontadoquerealmentesepassava,eentãoamaldiçoaram-seasi próprios, chamandose de tolos por deixarem escapulir uma tão valiosa presa, como ela mostrara ser, obtendo em seu lugar apenas um velho cascotodoesburacado. Rackameosseustripulantes,porseulado,nãotinhamnenhummotivo para estareminsatisfeitos coma troca.Graças a ela,puderamcontinuar pormaisunstemposnaquelemododevidatãoadequadoàssuasmentes depravadas. Em agosto de 1720, vamos novamente encontrá-lo no mar, explorando os portos e enseadas das regiões norte e oeste da Jamaica, ondecapturouváriasembarcaçõespequenas,queprovaramserumbutim poucoexpressivoparaosvadios.Maselecontavacompoucoshomens,e assim, todos tinham de se contentar com cacifes não muito altos, até poderemaumentarasuacompanhia. Noiníciodesetembro,elescapturaramseteouoitobarcosdepescana Harbour Island, roubaram as redes e outros equipamentos, seguindo depois para a parte francesa de Hispaniola. Ali desembarcaram e

roubaramgado,comaajudadedoisoutrêsfrancesesqueencontraram perto do litoral, e que caçavam porcos selvagens à noite. Os franceses subiramabordo,emboraeunãopossaa irmar queotivessemfeitopor livre vontade ou forçados a isso. Depois, os piratas saquearam duas chalupas,retornandoparaaJamaica,emcujacostanorte,próximoàbaía dePortoMaria,capturaramumaescunacomandadaporThomasSpenlow.

Eraodia19deoutubro,nodiaseguinte,Rackamavistouumachalupana

baíadeDryHarbour.Deteve-seedisparouocanhãocontraela.Oshomens todosfugiramparaapraiaeeleseapossoudaembarcaçãoedesuacarga. Porém,quandoosqueestavamnapraiadescobriramtratar-sedepiratas, todosacenaramparaaescunaquerendosubirabordo. O fato de Rackam icar constantemente percorrendo o litoral da ilha teve um resultado fatal para ele, pois informações sobre a sua movimentaçãochegaramaogovernador,trazidaspor tripulantesdeuma canoaqueoviranavegandopertodacosta,nabaíadeOcho[OchoRios]. Imediatamenteequipou-seumachalupa,sobocomandodocapitãoBarnet ecomumbomnúmerodemarinheiros,cominstruçõesparacontornara ilhaàprocuradele.Rackamprosseguiaoseucaminhoaoredordailha,até que, aproximando-se dopontomais ocidental, chamadoPointNegril, ele avistouumapequenapettiauga a aqual,aoverachalupa,correuparaterra e desembarcou seus homens. Assim que um pirata lhes acenou informando que eram ingleses, eles responderam. Os piratas então convidaramoshomensdapettiaugaasubiremabordoparaumajarrade ponche, o que foi aceito. Segundo os relatos, veio toda a companhia a bordo. Eram nove homens, chegando num mau momento. Estavam armados de mosquetes e cutelos, mas o seu real desígnio ao agirem daquelaforma,nãotenhocondiçõesdeinformar.Assimquedescansaram suasarmaseencheramoscachimbos,apareceunohorizonteachalupade Barnet,embuscadeRackam. Quandoperceberamqueestavamdiretamentesobamiradachalupa, os piratas sentiram medo e levantaram âncora, ainda que tarde, e mantiveram-se a distância. Em seguida o capitão Barnet partiu em sua perseguição, e, com a vantagem de ventos favoráveis que sopravam da terra, chegou até eles e, após uma disputa muito breve capturou-os, trazendo-osparaPortRoyal,naJamaica. Emcercadeduassemanasapósaconduçãodosprisioneirosaterra,ou

seja,em16denovembrode1720,realizou-seumtribunaldoAlmirantado

em Santo Jago de la Vega, diante do qual as seguintes pessoas foram

acusadas,esuasentençademorteproferidapelopresidente,sirNicholas Laws:John Rackam,capitão;George Fetherston,mestre;Richard Corner, contramestre;JohnDavis,JohnHowell,PatrickCarty,ThomasEarl,James Dobbin e Noah Harwood. Os cinco primeiros foram executados no dia seguinte, em Gallows Point, na cidade de Port Royal; os outros, um dia depois, em Kingston. Os corpos de Rackam, Fetherston e Corner foram posteriormentependuradoseacorrentados,umemPlumbPoint,outroem BushKeyeoterceiroemGunKey. Masoquemuitosurpreendeufoiacondenaçãodosnovehomensque subiramabordodachalupanodiadasuacaptura.Foramjulgadosapós umadiamentodotribunal,nodia 24 de janeiro,à espera,supõe-se,das evidênciasqueprovassemsuaintençãocriminosaaosubiremabordode umnaviopirata.Poisaoqueparecenãohouveatosdepiratariacometidos porelesabordo,comoseevidencioupeloquedisseramastestemunhasde acusação,doisfrancesespresosporRackamnacostadailhadeHispaniola, ecujodepoimentofoicomosesegue:

Que os prisioneiros ali no tribunal — John Eaton, Edward Warner, ThomasBaker,ThomasQuick,JohnCole,BenjaminPalmer,WalterRouse, JohnHansoneJohnHoward—foramtransportadosatéachalupapirata, em Negril Point, numa canoa enviada por Rackam com este im. Que trouxeramconsigoassuasarmasecutelos.QuequandoocapitãoBarnet deuinícioàperseguição,unsbebiam,outrospasseavampeloconvés.Que houve tiros de canhão e de uma arma menor, disparados pelos piratas contra a chalupa do capitão Barnet, e que quando o navio deste último atirou contra Rackam, os prisioneiros ali no tribunal desceram para o porão.QueduranteaperseguiçãodocapitãoBarnet,algunsprisioneirosali (quaisdeles,atestemunhanãosoubedizer)ajudaramnosremos,a imde escaparemdeBarnet.Equetodospareciamagiremcombinação. Foiesteoteordetudooqueseevidencioucontraeles.Emsuadefesa, os prisioneiros declararam que não tinham testemunhas. Que tinham comprado umapettiauga para a pesca da tartaruga, e que, quando se encontravam em Negril Point, assim que desembarcaram viram uma chalupa com uma bandeira branca aproximando-se deles, ao que imediatamentetomaramsuasarmaseseesconderamna loresta.Queum delesfezsinalparaachalupa,queemrespostadissequeeraminglesese quedesejavamquefossemterabordocomelesparaumajarradeponche. Que se recusaram a princípio, mas que depois de muita persuasão concordaram,equeforamnoescalerdonavio,deixandoancoradaasua

pettiauga.Queestavamapenashápoucotempoabordo,quandoachalupa docapitãoBarnetsurgiuàvista.QueimediatamenteRackamordenouque elesajudassemalevantaraâncora,oquetodosserecusaramafazer.Que Rackam empregou meios violentos para forçá-los a obedecer. E que quando o capitão Barnet chegou até eles, todos, na mesma hora e espontaneamente,serenderam. Quando os prisioneiros foram retirados do tribunal, e os presentes saíram, a Corte examinou os casos. A maioria dos seus membros foi de opiniãodequetodoseramculpadospeloscrimesdepiratariaetraiçãode que os acusavam, porque, com intenção criminosa e pér ida, foram até onde se encontravam John Rackam e seus comparsas, notórios piratas, comoelesbemsabiam,eporissoreceberamasentençademorte.Oque, deve-sereconhecer,foiumaterrívelmásorteparaoscoitados. No dia 17 de fevereiro, John Eaton, Thomas Quick e Thomas Baker foram executados em Gallows Point, na cidade de Port Royal. No dia seguinte,foramexecutadosJohnCole,JohnHowardeBenjaminPalmerem Kingston. Se posteriormente os outros três foram ou não executados, jamaispudesaber. Doisoutrospiratasforamajulgamento,porpertenceremàtripulação deRackam.Aoseproferiracondenação,foi-lhesperguntadoseachavam queasentençademortedeveriaserdescartadanocasodeles,comofora aplicada para todos os demais. A resposta foi que ambos estavam esperandobebê,ejápertodedaremàluz,esuplicarampeloadiamentoda execução. O tribunal aprovou a sentença adequada para os casos de pirataria,porémordenouqueosdoisaguardassemaindicaçãodeumnovo júriparaexaminaraquestão. AvidadeMaryRead Agoravamosdarinícioaumahistóriacheiadesurpreendenteslancese aventuras. Re iro-me à vida de Mary Read e de Anne Bonny, conhecida como Bonn, que eram os nomes verdadeiros daqueles dois piratas. Os estranhosincidentesdassuasvidaserrantessãotaisquemuitos icarão tentadosaacharquetodaessahistórianadamaiséqueumanovela,ou um romance. Mas, uma vez que ela conta com o apoio de milhares de testemunhas — re iro-me à gente da Jamaica, presente durante o seu julgamentoequeouviuahistóriadassuasvidas,quandopelaprimeiravez foidescobertooseuverdadeirosexo—averdadedelanãomaispodeser contestada, como também não se contesta que piratas como Roberts e Barba-Negratambémexistiramnestemundo.

Mary Read nasceu na Inglaterra. Sua mãe casou-se jovem, com um homemque fazia sempre viagens marítimas.Logoapós ocasamentoele partiu,deixando-acomum ilho,ummenino.MaryReadjamaispôdesaber seaquelehomemveioamorrernumnaufrágio,ounonavionodecorrer deumaviagem.Ofatoéquenuncamaiselevoltou.Amãe,entretanto,que era jovem e frágil, deparou-se com um acidente muito comum entre mulheres jovens que não tomam certas precauções: em pouco tempo estava grávida novamente e agora sem um marido para assumir a paternidade.Comoaquiloacontecera,ecomquem,ninguémanãoserela mesma poderia dizer, pois desfrutava uma reputação muito boa na vizinhança.Vendoqueoseuventrecresciaeafimdeocultarsuavergonha eladespediu-seformalmentedosparentesdoseumarido,explicandoque partiaparavivercomalgunsamigos,nointerior.Eassimelasefoi,levando consigo o seu pequeno ilho, que nesse tempo ainda não tinha um ano. Poucodepoisdapartidaomeninomorreu,porémaProvidênciaachoupor bem conceder-lhe uma menina, em seu lugar. O parto se passou sem quaisquer problemas, no seu retiro, e aquela criança foi a nossa Mary Read. Aliamãeviveuportrêsouquatroanos,atéquaseacabarodinheiro que tinha consigo. Então começou a pensar em voltar para Londres, lembrando-sedequeamãedeseumaridoláviviaemmuitoboasituação. Nãotinhadúvidasdeque,casopudessefazerqueaquelacriançapassasse pelaoutra,poderiaconvencerasograasustentá-la.Mastransformaruma meninaemmeninoeratarefabastantedi ícil,eiludirumavelhasenhora experientenumaquestãodessas,pareciaquaseimpossível.Entretanto,ela se aventurou a vesti-la como menino, e a trouxe para a cidade, apresentando-a à sogra como o ilho de seu marido. A velha senhora propôs-sedebomgradoa icarcomacriança,paraeducá-laealimentá-la, mas a mãe alegou que separar-se dela deixaria o seu coração partido. Assim, icouacertadoentreasduasqueacriançaviveriaaoladodamãe,e asupostaavócontribuiriacomumacoroasemanalparasuasubsistência. Assimamãeconseguiuoquequeria,crioua ilhacomomenino,etão logoestaadquiriucertanoçãodascoisas,achoumelhorinformá-lasobreo segredodoseu nascimento,convencendo-a a esconder oseu verdadeiro sexo. Mas aconteceu que a avó veio a falecer, e consequentemente, os meios de subsistência que vinham dali cessaram, e as duas viram a situaçãopiorarcadavezmais.Entãoamãeseviuforçadaamandara ilha, queagorajáestavacomtrezeanos,sairdecasa,eameninafoitrabalhar

para uma senhora francesa, icando ali como menino de recados. Não permaneceu lá por muitotempo,pois logotornou-se atrevidoe violento. Como possuía também uma mente errante, inscreveu-se para servir a bordo de uma fragata, onde icou por algum tempo. Depois saiu, viajou paraFlandres,alistando-secomocadetenumregimentodeinfantaria.Eali, embora emtodas as ações se comportasse comgrande bravura,mesmo assimnãofoipromovido,poisaspromoçõesaligeralmenteeramobtidas pela compra e venda. Por isso largou o serviço, ingressando num regimento de cavalaria. Portou-se tão bem, ali, em diversas ações, que acabou por obter a estima de todos os o iciais. Mas o seu parceiro, um lamengoque,entreoutrasvirtudes,eraumbelojovem,despertou-lheo amor,eapartirdalielasetornoumaisnegligentenoserviço,pois,aoque tudoindica,nãosepodeserviraMarteeaVênusaomesmotempo.Suas armaseuniformes,queanteseramsempremuitoarrumados,comamaior ordem, passaram a icar completamente desleixados. É incrível, mas quando o seu parceiro tinha de comparecer a alguma festa, ela o acompanhavasemquetivesserecebidoordensparaisso,emuitasvezes arriscando-se,poisnadatinhaafazerali,senão icarpertodele.Orestoda tropa, que mal suspeitava do secreto motivo que a levava a tal comportamento, imaginou que tivesse enlouquecido. O seu próprio parceironãoencontravaexplicaçõesparaaquelaestranhaalteração.Maso amor é muitocriativo.Assim,uma vezemque ambos icaramjuntos na mesma barraca — e eles estavam sempre perto um do outro — ela encontrou um meio de fazê-lo descobrir o seu verdadeiro sexo, sem parecerquefaziaissopropositadamente.

MaryReadeAnneBonny Ele se surpreendeu muito com o que viu, e icou bastante satisfeito,

MaryReadeAnneBonny Ele se surpreendeu muito com o que viu, e icou bastante satisfeito, achandoqueassimeleteriaumaamantesóparaelenoacampamento,o que não era comum, já que é muito di ícil uma dessas mulheres de campanhaser ielaumsósoldado,ouaumasócompanhia.Tantoqueele decidiu simplesmente satisfazer os seus desejos, quase sem qualquer cerimônia.Porémviu-seestranhamentedecepcionado,poiselasemostrou muito reservada e modesta, resistindo a todas as tentativas dele, e ao mesmotempomostrando-setãoobsequiosaeinsinuanteemseusgestos, queacabouporfazê-lomodi icarcompletamentesuasintenções.Assim,ao invésdefazerdelasuaamante,elepassouacortejá-laparasuaesposa. Este o maior desejo que ela abrigava no coração. Para resumir, eles trocaram promessas, e ao terminar a campanha, quando o regimento marchou para os alojamentos de inverno,compraramroupas de mulher paraela,comodinheiroguardadoporambos,ecasaram-sepublicamente. Ahistóriadosdoissoldadosquesecasaramumcomooutroprovocou umgrande alarde,tantoque diversos o iciais vieramsópor curiosidade assistir à cerimônia, e todos combinaram dar um pequeno presente à

noiva,paraasuacasa,emconsideraçãoaostemposemqueelaforaoseu companheirodecaserna.Comascoisassolucionando-sedessaforma,eles decidiram abandonar oserviçomilitar e se estabelecerem no mundo. A aventura doseu amor e casamentoobteve tantoapoiopara ambos,que obtiveram com facilidade a sua liberação do serviço, e logo depois montaram um restaurante, ou estalagem, cujo nome era Three Horse-

shoes b ,pertodocastelode Breda, 1 e onde conseguiramprosperar,pois muitos o iciais faziam frequentemente suas refeições naquele estabelecimento. A felicidade durou pouco, pois logo o marido morreu. Além disso, assinada a Pazde Ryswick,acabou-se comopostode o iciais emBreda, como era o costume, e por consequência o movimento caiu muito, ou completamente, no restaurante da viúva, vendo-se ela forçada a abandonar ostrabalhosdomésticos.E,comoodinheiroqueeconomizara foisendotodogastogradativamente,maisumavezprecisouadotarroupas de homem e partiu para a Holanda, onde se alistou num regimento de cavalaria,sediadonumacidadefronteiriça.Alinãopermaneceupormuito tempo, pois em época de paz eram impossíveis as promoções. Por isso, tomou a resolução de procurar fortuna de outra maneira. Saiu do regimentoeembarcounumnaviocomdestinoàsÍndiasOcidentais. Masaconteceuqueonaviofoicapturadopelospiratasingleses,e,como Mary Read era a única pessoa de nacionalidade inglesa a bordo, eles a mantiveram consigo depois de saquearem o navio e o deixarem partir. Depois de ter ela adotado esse tipo de atividade, publicou-se, sendo também distribuída em todas as regiões das Índias Ocidentais, a ProclamaçãodoReiconcedendoperdãoaospiratasquevoluntariamente se rendessem dentro de determinado prazo, mencionada no texto. A tripulação de Mary Read aceitou o bene ício da proclamação e, após renderem-se, foram viver todos paci icamente nolitoral. Mas odinheiro começou a encurtar. Com a notícia de que o capitão Woodes Rogers, governadordailhadeProvidence,estavaequipandonavioscorsáriospara saírememcruzeirocontraosespanhóis,elaembarcouparalá,commuitos outros companheiros, a im de se engajarem na atividade corsária, pois estavaresolvidaafazerfortunadequalquermaneira. Tão logo os navios corsários içaram suas velas e partiram, alguns tripulantes,que tinhamrecebidoocerti icadode perdão,amotinaram-se contra os comandantes e retornaram à antiga atividade. E entre estes estava Mary Read. É verdade que muitas vezes ela declarou que sentia

horror pela vida dos piratas, tendoingressadonela apenas porque fora forçada a isso, tanto daquela como de outras vezes, e sempre com a intençãodelargartudosealgumaboaocasiãoseoferecesse.Mesmoassim, duranteoseujulgamento,algumastestemunhasdepuseramcontraela— homens forçados, que haviam viajadoem sua companhia — declarando sob juramentoque emtempos de açãoninguémentre eles se mostrava maisresoluto,ouprontoparaaabordagemouparaempreendertudode mais arriscado, do que ela e Anne Bonny. Especialmente ao serem atacadosecapturados,quandopartiramparaumalutacorporal.Ninguém, além de Mary Read e Anne Bonny, permaneceu no convés — ninguém mais. Depois disso ela, Mary Read, chamou os que estavam lá embaixo para subirem e lutarem como homens. Vendo que não se mexiam, ela apontouedisparousuasarmasparaoporão,bemnomeiodeles,matando umtripulanteeferindooutrostantos. EstefoiumtrechodotestemunhocontraMaryRead,equeelanegou. Mas,verdadeounão,ocertoéqueaelanãofaltavacoragem,etampouco sua modéstia foi menos notável e segundo todas as noções de virtude. Ninguéma bordosuspeitou doseu verdadeirosexo,até certa vezAnne Bonny—quenãoeraabsolutamentereservadaemquestõesdecastidade —sentirumaespecialatraçãoporela.Pararesumir,Anneatomouporum belojoveme,poralgummotivoquesóelaprópriaconhecia,foiaprimeira arevelar-lheoseuverdadeirosexo.MaryRead,conhecendooterrenoem queestavapisando,emuitoconscientedeser incapazparaumarelação daquelas,foiobrigadaaentender-secomela,permitindoassimqueAnne Bonny,paraoseugrandedesapontamento,soubessequeelatambémera uma mulher. Mas a intimidade entre as duas perturbou tanto o capitão Rackam,ogarbosoamantedeAnneBonny,queele icouloucodeciúmese anunciou-lhequeiriacortaragargantadaqueleseunovoamor.Porisso, paratranquilizá-lo,elatambémoincluiunosegredo. OcapitãoRackammanteve emsegredoocasopara todoonavio(foi obrigadoaisso),masmesmoassim,eapesardetodaaastúciaereservade Mary Read, o amor conseguiu descobri-la debaixo do disfarce, não deixando que ela esquecesse seu sexo. Durante aquele cruzeiro eles capturaram um grande número de navios pertencentes à Jamaica e a outraspartesdasÍndiasOcidentais,notrajetodeidaevoltadaInglaterra. Semprequeencontravamalgumbomartista,ouqualquerumquepudesse ser de bom proveito para a companhia, caso este não viesse espontaneamenteabordo,ocostumedeleseratrazê-loàforça.Entreessas

pessoas estava umjovemrapazde modos cativantes,ou pelomenos,foi assimqueelefoivistopelosolhosdeMaryRead,que,detãoperturbada porsuapessoaecompostura,nãopôdemaisterdescanso,nemdedianem denoite.Masnãoexistenadamaisengenhosodoqueoamor:nãofoidi ícil para ela,que já tinha tanta prática nesse tipode arti ício,encontrar um meio para ele descobrir o seu sexo. Primeiro, ela cativou sua simpatia, falandomal,nasconversascomele,davidadospiratas,coisapelaqualele também sentia aversão, e assim eles se tornaram amigos íntimos e inseparáveis. Quando percebeu que ele sentia amizade por ela como homem, então permitiu a revelação, mostrando-lhe distraidamente os seios,queerammuitoalvos. Orapaz,queerafeitodecarneeosso,teveasuacuriosidadeeoseu desejo tão excitados com aquela visão, que nunca mais deixou de importuná-la,atéelalheconfessarquemrealmenteera.Eaíteveinícioa cenadoamor.Assimcomoelesentiraamizadeeestimaporela,sobsua supostapersonalidade,agoraaquilosetransformouemloucuraedesejo. Não era menos violenta a paixão que ela sentia, e talvez a tenha expressadoporumdosatosmaisgenerososjamaisinspiradospeloamor. Aconteceucertavezqueaquelejovembrigoucomumdospiratase,como onavioseencontravaancoradopertodeumadasilhas,elesmarcaramum desembarque para lutarem em terra, conforme o costume dos piratas. MaryRead icouextremamenteapreensivaeansiosapelasortedoamante. Não queria que ele recusasse o desa io, pois não poderia nem sequer pensarqueochamariamdecovarde;poroutrolado,ofatoaapavorava, sabendoqueopirataeramuitomaisfortequeele.Quandooamorpenetra umaveznopeitodealguémcomfagulhasdegenerosidade,eleestimulao coraçãoapraticarasmaisnobresações.Emmeioàqueledilema,mostrou quetemiamaispelavidadeledoquepelaprópria.Eentão,decidiubrigar elamesmacomopirata,desa iando-oparalutaremnapraia,emarcandoo dueloparaduashorasantesdocombinadoentreeleeoseuamante.Eali MaryReadbrigou,comespadaepistola,atématá-lonoprópriolocal. Éverdadequejálutaraantes,semprequealgumdaquelessujeitosa insultava,masagorao izeratotalmentepelacausadoamante.Sentiu-se comoseestivesseentreeleeamorte,comosenãopudesseviversemele. Casoelenãosentissenenhumaconsideraçãoporelaatéali,sóaquelaação os ligaria para sempre. Mas não houve ocasião para laços ou compromissos, bastava a sua inclinação por ela. Em resumo, eles empenharam a sua palavra um para o outro, naquilo que Mary Read

quali icoucomoumcasamentotãoválido,naconsciência,quantosetivesse sidocelebradopor umpreladona igreja.Ea ele se devia oseu grande ventre,queexibiunotribunalparasalvaravida. Eladeclaroujamaistercometidoadultériooufornicaçãocomqualquer homem.Elogiouajustiçadotribunalperanteoqualestavasendojulgada por saber distinguir a natureza dos seus crimes. Seu marido, como o chamava, fora absolvido com diversos outros. Quando lhe perguntaram quem era ele, ela nãorevelou, mas disse que se tratava de um homem honesto, sem a menor inclinação para aquelas práticas, e que ambos haviam resolvido abandonar os piratas na primeira oportunidade e se dedicaraalgumhonestomeiodevida. Semdúvida muitos sentiramcompaixãopor ela, mas mesmoassima Corte nãopôde evitar que a declarassem culpada. Porque, entre outras coisas,umadastestemunhasdeacusaçãodisseemdepoimentoque,sendo sequestradoporRackamedetidoalgumtempononavio,veioporacasoa conversar com Mary Read, a quem tomou por um rapaz. Perguntou-lhe qual o prazer que poderia sentir envolvendo-se em semelhantes atos, colocandoavidaconstantementeemperigo,oupelofogooupelaespada.E nãosóisso,masinevitavelmenteviriaatermorteignominiosa,casofosse capturado com vida. Mary Read respondeu-lhe que, quanto ao enforcamento, ela não considerava uma grande di iculdade porque, não fosseassim,qualquercovardepoderiavirarpirataeinfestarosmares,a pontodeoscorajososacabaremporpassarfome.Quesedependesseda escolhadospiratas,elesnãoaceitariamoutrapuniçãomaissuavedoquea morte,cujotemor mantémalguns bandidos pusilânimes na honestidade. Quemuitosdosqueagoraestãoiludindoasviúvaseosórfãos,eoprimindo os seus pobres vizinhos sem dinheiro para conseguir justiça, passariam entãoaroubarnosmares,eooceanosecobririadebandidos,assimcomo aterra,enenhumcomerciantesearriscariamaisaviajar.Edessaformao comércio,empoucotempo,nãovaleriamaisapena. Porjáestaràsvésperasdedaràluz,comojáseobservou,suaexecução foi adiada, e é possível que ela conseguisse algum apoio, porém pouco depoisdojulgamento,teveumaviolentafebre,daqualveioamorrerna prisão. AvidadeAnneBonny Comoentramosemmaioresdetalhesnasvidasdessasduasmulheres doquenasdosoutrospiratas,énossodever,como iéishistoriadoresque somos,começarpeloseunascimento.AnneBonnynasceuemumacidade

pertodeCork,noreinodaIrlanda.Seupaieraadvogado,porémAnnenão era ilhalegítima,oqueparececon irmarumantigoprovérbiosegundoo qual“os bastardos sempre têma melhor sorte”.Seu paiera umhomem casadoesuaesposacertavez,tendoque icarderepouso,acabouporcair

doente.A imderecuperar asaúde,foiaconselhadaamudar deares.O localescolhidopor ela icava a alguns quilômetros de casa,onde vivia a mãe de seu marido. Ali ela permaneceu por algum tempo, enquanto o marido icava em casa para dar prosseguimentoaos negócios. A criada, queeladeixouparatomarcontaedarassistênciaàfamília,eraumabela jovem,eestavasendocortejadaporumrapazquevivianamesmacidade,

trabalhandonacurtiçãodecouros.Aquelecurtidorcostumavaaproveitar-

sedasvezesemqueafamíliaseausentavaparavirnamorar.Ecertavez emqueaempregadatrabalhavanacasa,orapaz,queeradesprovidode qualquertemoraDeus,assimqueelavirouascostas,aproveitouachance edeslizouparaoseubolsotrêscolheresdeprata.Nãodemoroumuitoea criadadeupelafaltadascolheres.Sabendoqueninguém,alémdelaedo rapaz,tinhamestadonaquelasala,eelaasvirapoucotempoantes,elao acusou de tê-las roubado.Ele negou irmemente,aoque ela se mostrou violenta,ameaçandoircontartudoàpolíciaelevá-loperanteajustiça.As ameaçasoamedrontaramapontodedeixá-loforadesi,sabendobemque não poderia fazer face a uma busca. Por isso tudo fez para acalmá-la,

sugerindo que ela procurasse mais pelas gavetas e outros lugares, que comcertezairiaachá-las.Nessemeio-tempoeleseesgueirouparaoutro quarto,oquartode dormir da criada,e alicolocou as colheres entre os

lençóis.Depoisescapoupelaportadosfundos,concluindoqueaoirdeitar-

seelaasencontraria.Assim,nodiaseguinteelepoderiafingirquesófizera aquilopara lhe dar umsusto,e ambos poderiamrir da coisa comouma simplesbrincadeira. Mas tão logo deu pela falta das colheres, a criada desistiu da busca, certa de que ele as tinha levado consigo. Então correu diretamente à polícia,paraqueoprendessem.Aosaberqueapolíciaestavaatrásdele,o rapaz nãodeu muita importância, certode que nodia seguinte tudose esclareceria.Maspassaram-sedoisoutrêsdias,edenovovieramdizerlhe que a polícia estava noseu encalço.Istofezcomque ele se escondesse, embora não pudesse compreender o que se passava. A não ser — imaginou—queacriadativesseresolvido icarcomascolheresparaela mesma,atribuindoaeleoroubo. Nesse meio-tempo a dona da casa, já perfeitamente recuperada da

recente indisposição, retornou a sua casa, acompanhada da sogra. As primeiras novidades que ouviu foram sobre o desaparecimento das colheres,edomodocomohaviamsidolevadas.Acriadainformou-aqueo rapazestavaforagido,masorapazsoubedachegadadapatroa.Re letiu consigomesmo,pensandoquejamaispoderiaretornaraoseutrabalho,a menos que a questão icasse resolvida. Comosabia que aquela senhora tinhabonssentimentos,tomouentãoadecisãodeir diretamenteaelae contar-lhetodaahistória,apenascomumadiferença:que izeratudopor brincadeira. A dona da casa custou a acreditar no que ouvia. Entretanto, correu imediatamenteaoquartodacriadaonde,depoisdereviraroslençóisda cama,parasuagrandesurpresaencontrouastrêscolheres.Entãomandou queorapazvoltasseparacasaetratassedasuavida,poisnãomaisseria importunado. Porémelanãoentendiaoquesepassara.Jamaisteveomenormotivo paradescon iarqueacriadapudessefurtarqualquercoisa.Nãoentrava emsuacabeçaqueamoçapretendesserealmenteroubarascolheres.No im,elaacabouconcluindoqueacriadanãodormianasuacamadesdea épocaemqueascolheresdesapareceram.Imediatamenteociúmecresceu dentrodela,eelacomeçouasuspeitarqueacriadaestivessedeitando-se comoseu maridodurante sua ausência.Por issoé que as colheres não haviamsidoencontradasmaiscedo. Começouarelembrarcertasamabilidadesqueomaridodemonstrava pelacriada,coisasquenaépocahaviampassadodespercebidas.Masagora que ela contava com aquele atormentador, o ciúme, as provas da intimidade entre ambos se acumulavam na sua cabeça. Uma outra circunstânciaquereforçavaaindamaisahistóriafoique,mesmoomarido sabendo que ela voltaria para casa naquele dia, depois de icar quatro meses sem se comunicar com ela, durante sua doença, ainda assim ele encontrou um jeito de sair da cidade aquela manhã, alegando alguma razão insigni icante. Juntando todas essas coisas, ela viu con irmados os motivosdosseusciúmes. Como só muito raramente as mulheres costumam relevar ofensas assim,ela resolveu descarregar a sua vingança na criada.Comesse im, deixouascolheresnomesmolugarondeasencontrara,edeuordenspara queacriadatrocasseoslençóisdacama,informando-lhequeiapassara noite naquele quarto, pois sua sogra iria dormir no seu. A criada devia passar a noite emalgumoutrocômododa casa.Quandoesta foifazer a

cama, surpreendeu-se ao ver ali as colheres, porém tinha razões muito boasparanãorevelaradescoberta.Porisso,trancou-asnoseubaúcoma intenção de deixá-las depois em algum lugar, onde um acaso as izesse encontrar. Paraquetudosepassassecomamaiornaturalidade,apatroadeitou-se aquela noite na cama da criada, sem nem sequer sonhar com toda a aventura que adviria. Após permanecer por algum tempo deitada, pensandoemtudooque ocorrera e semconseguir conciliar osonopor tantos ciúmes, ela escutou um ruído de alguém penetrando no quarto. Primeiroachouqueeramladrões,eseapavorou,semcoragemparagritar. Quando ouviu as seguintes palavras: “Mary, você está acordada?”, reconheceuavozdomarido.Imediatamenteoseupavorsedissipou,mas mesmoassimelanadarespondeu,poisdocontrárioeleadescobririaali, casofalasse.Assim,resolveu ingirqueestavadormindoeaguardaroque seseguiria. Omaridodeitou-se na cama e aquela noite desempenhou opapeldo vigoroso amante. Só uma coisa estragou um pouco o prazer da mulher:

saber que tudo aquilo não se destinava a ela. Mas mesmo assim ela mostrou-semuitopassiva,aceitandotudocomoverdadeiracristã.Noinício damadrugada,elapuloudacama,deixandoomaridoadormecido,efoiter comasuasogra,aquemrelatoutodooocorrido,semesquecerdecontar tambémomodocomoeleusaradela,aotomá-lapelaempregada.Omarido tambémpuloucedodacama,achandoquenãoserianadaconvenienteser surpreendido naquele quarto. Nesse meio-tempo, a vingança da patroa desabouviolentamentecontraacriadae,semqualquerconsideraçãopor todo o prazer da noite anterior, que devia exclusivamente a ela, e sem pensarqueumaboavezsempremereceumaoutra,elamandouchamara polícia e acusou a criada do roubo das colheres. O baú da criada foi arrombado,ealiestavamascolheres.Emseguidaelafoilevadaperanteo tribunal,queacondenouàprisão. Omarido icou lanandopelosarredoresatécercadomeio-dia,quando retornouparacasa,dizendoqueacabaradechegar àcidade.Assimque soubedoquesepassaracomacriada, icoufuriosocomamulher.Issopôs ainda mais lenha na fogueira e a mãe dele se colocou doladoda nora, contra opróprio ilho.A briga entãoatingiu umpontoinsuportávele as duasmulherestomaramimediatamenteumacarruagem,queaslevoude volta à casa da sogra. Depois disso, nunca mais o marido e a mulher deitaram-sejuntos.

Acriada icou bastante tempona cadeia,e ainda faltavamquase seis meses para o julgamento. Mas antes que isso acontecesse, descobriu-se que ela estava grávida.Aoser apresentada aotribunal,ela foiabsolvida porfaltadeprovas.Amáconsciênciadapatroatinha-adeixadoabalada, poissabiaqueacriadanãoeraculpadapor nenhumroubo,anãoser o roubodoseuamor,eporissoelanãocompareceuaotribunalparadepor. Poucodepoisdaabsolvição,acriadadeuàluzumamenina. Porém o que mais alarmou o marido foi descobrir que sua esposa também estava grávida, quando ele tinha certeza de que não tivera nenhumarelaçãoíntimacomeladesdeasuaúltimaindisposição.Eassim foiasuavezdeenciumar-secontraelaefazerdissouminstrumentopara suaautojusti icação.Ele ingiuquedesdemuitotemposuspeitavadela,e que agora a prova estava ali: ela deu à luz gêmeos, um menino e uma menina. A sogra caiu enferma e mandou chamar o ilho, para que ele se reconciliassecomaesposa,maselenãolhedeuatenção.Entãoelafezum testamento,deixandotudooquetinhaemmãosdecertoscuradorespara ousodesuanoraedosdois ilhosrecém-nascidos,edepoisdealgunsdias, morreu. Aquele foi um rude golpe para o ilho, que dependia, quase inteiramente,da mãe.Entretantoa esposa foimais generosa comele do que ele merecia, pois concedeu-lhe uma pensão anual sobre o que ela recebera, embora continuassem a viver separados. Aquilo durou quase cinco anos. Nessa época, como ele sentisse um amor muito grande pela criançaquetiveracomacriada,tinhaaintençãodetrazê-laparavivercom eleemsuacasa.Mas,comotodosnacidadesabiamqueseu ilhoerauma menina, achou melhor disfarçar o caso de todos, como também da sua esposa,de modoque passou a vesti-la comcalções,fazendocrer que se tratavadofilhodeumamigo,queeleiriaeducarparaserseufuncionário. Amulher soubequeeleestavacomumgarotinhoemcasa,peloqual sentiamuitaafeição,mas,comonãosoubessedenenhumamigodeleque tivesse um ilho correspondendo àquela descrição, ela encarregou uma pessoadesuasrelaçõesparainvestigarocaso.Estapessoa,aoconversar comomenino,descobriuquesetratavadeumamenina,equesuamãeera aquelamesmacriada,equeomaridoaindaserelacionavacomela. Comessainformação,amulhernãoquismaisqueseusasseodinheiro dos seus ilhos na manutenção de bastardos, e cancelou a pensão. O maridoseenfureceue,numaespéciedevingança,trouxeostensivamente

acriadaparavivercomeleemsuacasa,oqueprovocougrandeescândalo entreavizinhança.Logoelepôdeveri icaroefeitoruimdaqueleato,pois foi perdendo a sua clientela pouco a pouco, até descobrir que simplesmente não podia mais viver ali. Assim, resolveu mudar-se e converter os bens que possuía em dinheiro e foi para Cork. Ali, na companhiadacriadaedafilha,embarcouparaaCarolina. Noprincípioele continuou praticandoa advocacia naquela província, mas depois passou-se para o comércio, onde mostrou ser mais bem- sucedido,poisganhouosu icienteparacomprarumafazendadetamanho considerável.Suacriada,quepassavaporsuaesposa,veioafalecer,depois doquea ilha,anossaAnneBonny,queagoraestavacrescida,passoua tomarcontadacasa. Elaeraorgulhosaedetemperamentocorajoso,razãopelaqual,quando estava sendo julgada, relataram-se diversas histórias a seu respeito, e muitoaseudesfavor,comoavezemqueteriaassassinadoafacadasuma criadainglesa,numacessodecólera,quandoaindatomavacontadacasa paterna.Porém,apósinvestigaçõesmaisprofundasque iz,descobrique essahistórianãotemfundamento.Semdúvidaalguma,eraextremamente forte:umrapazquissedeitarcomelaàforça,maselalhedeutamanha surraqueeleficoudecamapormuitotempo. Enquanto viveu com o pai, todos achavam que haveria de conhecer muitaprosperidade,ecomentavamcomoopaisonhavaumbompartido paraela.Masacabouestragandotudo,poissecasousemoconsentimento delecomumrapazquevivianomar,equenãovaliaumvintém.Estefato irritouopaiatalpontoqueeleaexpulsoudecasa.Emseguidaomoço, desiludido nas suas esperanças, embarcou num navio com a esposa, e foramambosprocurartrabalhonailhadeProvidence. FoialiqueconheceuRackam,opirata,queimediatamentegostoudela, encontrando meios para afastá-la do marido. Assim, consentiu em fugir desteúltimoefazer-seaomar comRackam,vestidacomoumhomem.E eratãoboaquantoprometia.Apóspassaremalgumtempoviajando, icou evidente a sua gravidez. Como a barriga aumentava, Rackam a fez desembarcarnailhadeCuba,recomendando-aaalgunsamigosseus,para quecuidassemdelaatéqueacriançanascesse.Assimquepôde icardepé enovamenteemforma,eleamandoubuscar. Quando da divulgação da Proclamação do Rei com o perdão para os piratas, Rackam resolveu bene iciar-se e se render. Depois, enviado em uma missão corsária, ele voltou para a antiga atividade, como já nos

referimosnahistóriadeMaryRead.Emtodasaquelasexpedições,Anne Bonny o acompanhava, e quando qualquer coisa se interpunha em seu caminho, ninguém se mostrava mais valente e corajoso do que ela, especialmentequandoelesforamcapturados.ElaeMaryRead,commais um companheiro, foram as únicas pessoas a permanecerem no convés, comosemencionouantes.

O pai dela icou conhecido por muitos proprietários de fazendas na Jamaica,quetinhamtidonegócioscomele,eentreosquaisdesfrutavauma

boareputação.Algunsdeles,queviveramnaCarolina,lembravamsedetê-

la visto em sua casa. Por esse motivo, inclinavam-se em seu favor, não obstanteofatodeabandonaromaridofosseumacircunstânciaagravante

contraela.NodiaemqueRackamfoiexecutado,permitiram-lhe,porum especialfavor,queeleavisse.Todooconsoloqueelapôdedarlhefoi“que lamentava vê-loali,mas que se ele tivesse lutadocomoumhomemnão precisavaserenforcadofeitoumcachorro”. Elacontinuounaprisãoatéaépocadedaràluz,easuaexecuçãofoi adiada por diversas vezes. Mas o que aconteceu com Anne Bonny posteriormente,nósnãosabemos.Sóoquepodemosa irmaréqueelanão foiexecutada.

irmaréqueelanão foiexecutada. a Trata-se de um barco ou barcaça chata próprio para

a Trata-se de um barco ou barcaça chata próprio para águas rasas, ocasionalmentedotadodedoismastros.(N.T.) b“AsTrêsFerraduras”.(N.T.)

V

OcapitãoBartholomewRoberts esuatripulação BartholomewRobertsembarcoudeLondrescomumempregohonesto, trabalhando como segundo imediato no navio Princess, comandado pelo capitãoPlumb.Saíramda Inglaterra emnovembrode 1719,chegandoà Guiné mais ou menos em fevereiro do ano seguinte. Quando se encontravam em Anamaboe, recolhendo escravos destinados às Índias Ocidentais, o navio foi capturado pelo capitão Howel Davis. No início Robertsdemonstrouumarepugnânciatotalporaquelavida,ecomtodaa certezateriafugidodalicasoumaboaoportunidadeseapresentasse.Mas comotempoeleveioamodi icarosseusprincípios,comomuitosalémdele tambémo izeram,enavegandoemoutroselementossenãoaáguadomar, epelomesmomotivo,qualseja,odapromoção.Etudoqueanteselenão gostava,quandonãopassavadecidadãocomum,elereconcilioucomsua consciência,aosetornarelemesmoumcomandante. Com a eliminação do capitão Howel Davis pelos portugueses, a companhiaseviunanecessidadedepreencher olugar dele,paraoque apareceramdoisoutrêscandidatosdeumselecionadonúmero—homens digni icados comtítulos de nobreza,tais comoSympson,Ashplant,Anstis etc. E durante os debates que precederam a votação, lorde Denis, re letindosobremaneiracomoestavaabaladoefrágilogovernodonavio, semchefedepoisqueocapitãoDavisforamorto,fez,pois,umaproposta,é clarodiantedeumajarradebebidacolocadaaliparaessefim. Declarou que naquele navio, o fato de alguns portarem um título nobiliárquico não tinha grande signi icado. Pois, em realidade — e na verdade—todososgovernos(assimcomoodeles)retiravamoseupoder supremodointeriordacomunidade,aqualsemqualquerdúvidatinhao poder de delegar, ou de revogar, na medida do seu interesse e do seu estadodeespírito.Disseele:

“Nósestamosnaorigemdessedireito.Esealgumcapitãoforatrevidoa pontodeexagerarnosregulamentos,entãoforacomele!Seráumalertaao seusucessor,depoisqueeleformorto,sobreasconsequênciasfataisde qualquer tipo de arrogância. Entretanto, a minha opinião — enquanto aindaestamossóbrios—équedevemosescolherumhomemdecoragem, competentenanavegação,alguémque,pelosseusconselhosesuabravura sejaomaiscapacitadoadefenderestacomunidade,enosprotegercontra os perigos e as tempestades desse instável elemento, e contra as

consequênciasfataisdaanarquia.Eessealguém,euachoqueéRoberts:

um companheiro que, sob todos os aspectos, acho merecedor da vossa estimaedovossoapoio!”

Essediscursofoicalorosamenteaplaudidoportodos,excetoporlorde Sympson, que alimentava secretas esperanças para si próprio. O desapontamento deixou-o taciturno, e ele abandonou a reunião jurando quenãoseimportavacomaescolhadelesparacapitão,contantoquenão fosseumpapista,poiscontraesteselesentiaumódioimplacávelportudo queseupaisofreranarebeliãodeMonmouth. a Dessa forma, Roberts foi o escolhido, embora o tempo que passara entre eles não chegasse a seis semanas. A decisão foi con irmada tanto peloslordesquantopeloscomuns,eRobertsaceitouahonra,declarando que,jáquemergulharaasmãosemáguaslamacentas,etivessedeserum pirata,eramelhorserocomandantedoqueumhomemcomum. Assimque icouestabelecidoogovernodonavio,promovendo-senovos o iciais em lugar dos que tinham sido mortos pelos portugueses, a companhia resolveu vingar a morte do capitão Davis, a quem todos respeitavam mais que o normal, por toda sua afabilidade, a sua boa natureza,etambémpelacoragemqueelesempredemonstrou.Eseguindo essaresolução,cercadetrintahomensforamparaterracomoobjetivode atacar o forte, cujo acesso exigia que escalassem uma montanha muito íngreme, que se estendia à frente dos canhões. Esses homens eram che iados por um certo Kennedy, um indivíduo de muita coragem e ousadia, embora muito perverso e libertino. Galgaram diretamente a montanha, enquanto o navio disparava seus canhões. Assim que os portugueses os avistaram, abandonaram seus postos e fugiram para a cidade.Os piratas entãopenetraramnoforte,semencontrar resistência alguma, atearam fogo em tudo e lançaram todas as armas montanha abaixo,nomar.Depoisretornaramaonavio,comamaiortranquilidade. Porémaquilonãofoisu icienteparacompensar-lhesainjúriarecebida, eporissodecidiramincendiartambémacidade.Robertsdeclarouque,se lhe apresentassem alguma forma de fazer isso sem destruírem a si mesmos,eleconcordariacomaproposta.Porqueasituaçãodacidadeera bemmaisseguraqueadoforte,comumacerrada lorestamuitopróxima

proporcionando-lhecoberturaparaadefesa.Comaquelavantagem,disse-

lhesRoberts,oinimigoestariaemmelhorescondiçõesparaatacá-loscom suasarmas.Alémdisso,ocuparcasasabandonadaseraumarecompensa muito insigni icante para todos os males e a perda que sofreram. Esse

prudente conselho prevaleceu. Mesmo assim, eles encheram com doze canhõesumnaviofrancêsquetinhamcapturadolámesmo.Esvaziaram-no paraque icassemaisleveeassimpudessechegaratéacidade,jáqueas águasalierammuitorasas,eentãopuseramabaixodiversascasas.Depois, retornaram ao navio, entregaram-no a quem mais direito tinha a ele, e zarparam do porto, iluminados pelas labaredas das duas embarcações portuguesasque,comamaiorsatisfação,eleshaviamincendiado. Robertsdirigia-separaosul,quandodeparoucomumnaviodaGuiné Holandesa, que capturou mas que, após saqueá-lo, permitiu que o comandante o tivesse de volta. Dois dias depois tomou um navio inglês, chamado Experiment, comandado pelo capitão Cornet, no cabo Lopez Todososseustripulantessepassaramparaopiratae,comoonavionão mais tivesse serventia para eles, incendiaram-no, rumando depois para SãoTomé,semencontrarnadapelocaminho.Emseguida,velejarampara Annobono,ondeseabasteceramdeáguaeprovisões.Eentãoacompanhia colocouemvotaçãoseapróximaviagemseriaparaasÍndiasOrientaisou paraoBrasil.Asegundaopçãovenceu.Dessaforma,elesnavegarampara láe,passadosvinteeoitodias,chegaramaFerdinando,umailhadeserta naquela costa. Ali recolheram água, izeram uma limpeza na quilha do

navio, 1 eseprepararamparaoplanejadocruzeiro. Agora que nos encontramos naquelas costas, achoque é o momento adequadoparaapresentarmosaosnossosleitoresumadescriçãodaquele país,alémdealgumasobservaçõesinteligentesdeumamigomeusobreas vantagensqueteriamnossosmercadoresdasÍndiasOcidentaismantendo aliumcomérciobomepoucoarriscado. UmadescriçãodoBrasil OBrasil—cujonomesigni icaasantaCruz—foidescobertoparaorei

dePortugalporAlvarezCabral,em1501,eestende-seaproximadamente

desde o Equinocial até 28º ao sul. O ar ali é temperado e fresco, se comparadocomodasÍndiasOcidentais,graçasàsbrisasmaisintensasea umaamplasuperfíciequeopõemenorresistênciaaosventos. Oextremonorteestende-seporcercademilquilômetros(éumaterra muitofértil)efoitomadoaosportuguesespelaCompanhiaHolandesadas Índias Ocidentais, por volta do ano de 1637. Porém os conquistadores, comoénaturalquandoareligiãoépoucaounenhuma,mostravam-setão severos com os portugueses, estendendo a sua crueldade também aos nativos,que issoestimulou a uniãode ambos emuma revolta,facilitada

tambémpelamáadministraçãoholandesa.Poisestanação,poressaépoca, estava muito absorvida pelos seus empreendimentos na Índia, não só tendo chamado de volta o governador, o conde Morrice [Maurício de Nassau], como também negligenciando os fornecimentos para as suas guarnições.Noentanto,emboraseusadversárioscontassemcomoapoio deumafrotavindaexpressamentedePortugal,etambémcomaamizade dosnativos,mesmoassimosholandesesencontrarammeiospararesistire

enfrentaraquelaforçasuperior,numperíodoqueseestendeude1643a

1660, até inalmente terem de abandonar tudo, porém sob condições desonrosasparaosportugueses.Essascondiçõeseramasseguintes:

Que os holandeses, ao renunciarem, deveriam continuar dominando todososlocais,naÍndia,quetinhamconquistadodePortugal.Queeles[os portugueses] deveriampagar ànaçãoholandesaaquantiade oitocentas mil libras e permitir-lhe, além disso, a liberdade para comerciar com a África e o Brasil, com direitos e deveres alfandegários iguais aos dos súditos do rei de Portugal. Mas como, desde aquele tempo, novas estipulações e tratados foram feitos, os holandeses, que tinham sido totalmenteexcluídosdocomérciocomoBrasil,passaramaganharapartir

deentãoumacomissãode10%docomérciocomaÁfrica.Eestaquantia

sempre vemsendopaga pelos navios portugueses (antes de iniciaremo seu trá ico de escravos) ao general holandês na Costa do Ouro, na localidadechamadaDesMinas. Existem apenas três grandes cidades comerciais na costa brasileira, quesão:St.Salvadore[Bahia],St.Sebastian[RiodeJaneiro]ePernambuca [Recife]. St.Salvadore,naBahialostodosSantos,éumarcebispado,asededo Vice-Reinoetambémomaisimportanteportodocomérciodeimportação. Éalique icaarmazenadaamaiorpartedoouroprovenientedasminas,e deondepartemasfrotasparaaEuropa.Omaréabundanteembaleias, que durante a temporada são pescadas em grande número. Salgase a carne,queserviráparaoabastecimentodosnaviosdeescravos,eoóleoé reservadoparaexportação,a30e35millrays b cadamedida. ORiodeJaneiro—acidadedeSt.Sebastian—éacidadeportuguesa que ica maisaosul,e a maismalabastecida de artigosde necessidade, porémmuitoboaparaalguémseestabelecer,pois icapertodasminase também porque ali é fácil supervisionar os escravos que, segundo me informaram, dão ao seu senhor um dólarper diem do seu trabalho, e o excedente(sehouver)ficaparaeles.

Oourodaliéconsideradoomelhor(porterumacoloraçãoacobreada) eelesdispõemdeumacunhagemdemoedasdeouro,tantoaliquantona Bahia.Osmoidores c deambasascidadestêmgravadasassuasrespectivas iniciais. Pernambuca,emboramencionadaporúltimonalista,éasegundaem importância,umagrandeepopulosacidadequeseergueusobreasruínas deOlinda(“alinda”),cidadecujalocalizaçãoémuitomaisagradável,cerca dedezquilômetrosrioacima,porémnãotãoconfortávelparaotráfegoeo comércio.Poucoacimadela,orioabre-seemduasrami icações,quenão corremdiretamenteparaomar,massimparaosul.E,aumcantodailha queseformacomessadivisão, icaaresidênciadogovernador,construída para o príncipe Maurice, quadrada, térrea e com duas torres, onde há

apenasumainscriçãocomadata:Anno1641.Asavenidasquelevamatélá

sãoextremamenteagradáveis,emmeioapaisagenscomaltoscoqueiros. Cadaumadasrami icaçõesdoriotemumaponte.Aquelevaaointerior étodademadeira,porémaoutra,aqueconduzàcidade(comvinteeseis, ouvinteeoitoarcos),temumadasmetadesfeitadepedrasefoierguida pelosholandesesnumaépocaemquedecadaladodelaexistiampequenas lojasecasasdejogopararecreação. A pavimentação em alguns locais é de grandes ladrilhos, fragmentos querestaramdostemposdaconquista.Arami icaçãoexternadoriopassa pordetrásdacidade,eoporto icaadiante,esobreeleprojetam-sepostos, muitopróximosentresi,paraapesagemeosprocedimentosalfandegários das mercadorias, e também para a reunião e a conferência dos comerciantes e mercadores.As casas têmuma construçãosólida,porém sãosimples,comtreliça comoas de Lisboa,para arejá-las,mas nãotêm sanitários e,oque é pior,nemfornos,oque fazcomque a culinária ali consistasomenteemfriturasecozimentossobreumfogão.Ecozinhamaté acarnesetornartenrabastanteparacortá-laemfatias,eumafacaapenas éconsideradasuficienteparaumamesadeumasdezpessoas. A maior inconveniência de Pernambuca é que lá não existem hospedarias,e assimos estrangeiros sãoobrigados a alugar quartos em qualquer taverna que consigam encontrar, e por um guinéu por mês. E outros,quechegamàcidadepararealizartransaçõesimportantes,devem trazer recomendações consigo, quando mais não seja por questões de privacidade.

Omercadoébemabastecido,acarnebovinacustacincofarthing d por

umalibra,acarnedecarneirooudecabracustanoveshillings,umperu, quatroshillings,e aves custamdois shillings,e sãoas maiores que já vi, podendo-se obtê-las bem mais barato se alguém se encarregar de ir comprá-lasforadacidade.Oquecustamaiscaroaliéaágua,que,trazida deOlindaemcanoa,nãochegaàsestradaspormenosdedoiscruzadoso barril. OsportuguesesalitêmapelemaisescuraqueosdaEuropa,oquenão se deve apenas ao clima mais quente, mas aos muitos casamentos realizados com negros, que ali são numerosos, muitos dos quais desfrutando crédito e boa situação. As mulheres (nada diferentes da geraçãodemulatasemoutroslugares)sãoloucasporestrangeiros.Nãosó ascortesãs,cujosinteressespode-sesuporqueestimulemosseusafetos, mastambémasmulherescasadas,quesemostrammuitogratasquando alguémasbrindacomumencontrosecreto.Masadesgraçanessabusca peloamoréqueamaioriadaspessoas,deambosossexos,estáatingida pordoençasvenéreas,edispondoapenasdeumcirurgião,oudealguém versado em medicina para curar ou oferecer algum paliativo ao crescimentodomal.Aúnicapessoaquealegaseguiressecaminhoéum padre irlandês, cujo saber inclui apenas as virtudes de duas ou três substâncias,eestas,comasalubridadedoareamoderaçãodoshábitos sãotudoque eles dispõem para subjugar opior da doença. E nãoserá inoportuno observar aqui que, embora não sejam muitos os que conseguiram escapar às desgraças de um corrimento, das erupções ou algoassim,eunãotiveconhecimentodeninguémquechegasseaoestado deploráveldaquelesquesetrataminabilmentecommercúrio. Hátrêsmonastérios,ecercadeseisigrejas,nenhumadasquaisricaou magní ica,anãoseradedicadaasantoAntonio,opatronodoreino,eque brilhaemsofisticadasobrasdepinturaeourivesaria. AsexportaçõesdoBrasil(alémdoouro)consistemprincipalmenteem açúcar e tabaco. Este é enviado em rolos com um quintal de peso, e mantidocontinuamente umedecidocommelaço.Otabaco,comosolodo qualbrota,desprendeumodorforteepeculiar,queémaissentidonorapé quesefazcomele.ComoéproibidaasuaexportaçãoparaLisboa,aquiele évendidopordoisshillingsalibra,aopassoqueoseupreçochegaacerca deseismillraysorolo.Omelhoraçúcarchegaaoitoshillingsasaca,euma pequena garrafa de rum, de gosto azedo, tirado da borra e do melaço, vende-seadoistestunes[tostões]ogalão. Além disso, eles mandam para o exterior muito pau-brasil e óleo de

baleia, certa quantidade de borracha e também papagaios. Estes são diferentesdospapagaiosafricanos,tantonacorquantonotamanho,pois enquantoaquelessãoazuisegrandes,osdoBrasilsãoverdesemenores. Easfêmeasnuncaesquecemocantoselvagemenãoaprendemafalar. Emtrocadessaprodução,umavezpor anoosportuguesesimportam todotipodeartigoseuropeus,atravésdesuafrotadeLisboa,equemnão podeoutardaemseabastecer,compraráaumpreçomuitomaisaltoantes dapróximaleva. Para otransporte de passageiros, escravos e outras mercadorias, de umacolôniaparaoutra,ouparaapesca,elesusambarcosfeitoscomtoras demadeira,queosbrasileiroschamamdejangadas:sãofeitascomquatro troncosdemadeira(osdoismaisexternosdemaiorcomprimento),unidos longitudinalmente entre si, e com as pontas aguçadas. Perto de cada extremidadeépregadoumbanco,paraelespoderemsesentar,oupara remarem, ou se sustentarem quando o mar está mais agitado que o normal.Ecomessa estranha espécie de engenho,acima doquala água atravessacontinuamentedeumladoaoutro,essaspessoas,comapenas umapequenavelatriangularcomaespichanocentro,seaventuramaté perderemdevistaaterra,eseguempormuitosquilômetrosaolongodas costas, e sob qualquer condição de tempo. E se a jangada virar a uma rajada mais forte do vento (o que não é raro), eles nadam e acabam fazendo-avoltaràposiçãonormal. Os nativos da região têm uma coloração escura, acobreada, sua estruturaéaprumadaeforte,sãomusculososeocabeloé ino.Masnão sãotãobonitos quantoos da geraçãode cabelos encaracolados.Aceitam compaciênciaocomandodosportugueses,queostratamdeumaforma muito mais humana e cristã do que os holandeses antes, e que assim conseguiramaumentarsuatranquilidadeepaz,comotambémsuasposses emmaisdequinhentosouseiscentosquilômetrosparaointeriordopaís.A terra é farta em pastagens e rebanhos de gado, e produz um grande aumento em tudo o que se cultiva. Dali, eles nos enviam papagaios, macaquinhos,tatusesaguis.Alémdisso,garantiram-mequeláexiste(bem no interior) uma serpente de enorme tamanho, chamada jiboia, capaz, segundodizem,deengolirumcarneirointeiro.Eumesmojávi,aqui,apele deumaoutraespécie,comquaseseismetrosdecomprimento,eporisso nãoachoqueessahistóriasejaimprovável. O porto de Pernambuca é único, talvez. Forma-o uma barragem de rochasque icaacercademeiaamarradocontinente,equesurgempouco

acima da super ície domar,prosseguindopor vários quilômetros,coma

mesma altura e distância da praia, em direção ao cabo Augustine. Este último é um outro porto entre as rochas, com capacidade para receber

naviosdegrandecalado.Oextremonortedessamuralhadepedraeleva-

se mais que qualquer outro ponto nessa linha contínua, e sobre ele foi construídoumpequenoforteparavigiarapassagemdosbarcosounavios, quandoestes se aproximamda barra e penetramnoporto.A estibordo (i.e.,emterra irme),apósadentrarumpoucomaisnoporto,situa-seum outroforte (emforma de pentágono),oqual,nomeu entender,seria de pouca valia até mesmo contra uns poucos homens bem treinados. E no entanto,nissoconsistetodaaforçaesegurançadequedispõem,sejaem relaçãoaoporto,seja emrelaçãoà cidade.Éverdade que se começou a construirumamuralha,desdesuatransferênciadeOlinda,comoobjetivo de contornar Pernambuca. Mas o lento progresso da obra leva-nos a suspeitarquehádepassarmuitotempoantesqueelesacabem.

O caminho para o exterior é usado pelos portugueses quando se encontramprestesazarparparaaEuropa,eaguardamsuaescolta,ouse destinam à Bahia para juntar-se a ela. Por estrangeiros, só quando forçadospelanecessidade.Amelhorpartedopercursotemcercadevinte metros de profundidade, a uns cinco quilômetros a oeste-noroeste da cidade.Maisperto,ocaminhoéruim,cheiodasâncorasperdidasalipor naviosportugueses.Emaislonge(commaisdevinteecincometros),tudo sãocoraiserochas.Julhoéopiormês—aestaçãodeinvernodessacosta —quandoosventosalíseosficammuitoviolentosedevastadores,trazendo um incrível e perigoso aumento no tamanho das ondas, que se hoje misturam-se a rajadas,chuva e horizontes enevoados,amanhã ofarãoa céusserenosesolclaro. Nessa latitude sul é possível ver uma constelação que, por sua semelhançacomacruzdeJerusalém,temonomedeCruzeirodoSul,eéa mais brilhante do hemisfério. Pode ser observada quando a Estrela do Norte está na latitude norte. Mas digo isto apenas para introduzir um fenômeno admirável que acontece nesses mares, o das nuvens de

Magalhães, 2 quesurgemeseposicionamdeformatãoregularque,jáme garantiram,podem-sefazersobreelasomesmotipodeobservaçãoquese fazsobrequalquerestrela.Sãoduasnuvens,pequenaseesbranquiçadas, aparentementenãomaioresqueumchapéudehomem,epodemservistas

aquiduranteomêsdejulho,nalatitudede8ºsul,pertodasquatrohoras

da manhã. Se o seu aspecto se deve à luz que alguns corpos estelares

acima delas re letem, mesmo assim o problema de saber como essas nuvens, mais do que quaisquer outras, se mostram tão duradouras e regularesemseumovimentonãoseexplicafacilmente. Depoisdessascasuaisobservaçõessobreaterra,ascidades,ascostase osmaresdoBrasil,estaríamossendoomissosseencerrássemosoassunto semtentarincluiraquiocomércioescravonaquelepaís,comércioesteque nenhum dos nossos compatriotas se aventurou ainda a empreender, embora muito provavelmente, sob uma prudente administração, ele pudesseserconduzidocomsegurançaegrandelucro.Ecadavezmaisme admironãoter ainda ocorridoaos nossos navios vindos da costa sulda ÁfricaprolongarempormaistempoasuaviagematéasÍndiasOcidentais, eincluíremoBrasilemseucaminho. Asdesvantagensqueosportuguesesenfrentamparacomprarescravos sereferemaofatodeseremmuitopoucasasmercadoriasdequedispõem para negociar coma Guiné.Oouro,que era a principaldelas,nãopode

maissertransportadoparaládevidoaumeditodejulhode1722,tanto

que nãosãomuitos os navios que se dedicama isso,e que tambémsão insu icientesparaenfrentarograndeíndicedemortalidadeeadi iculdade na convocação para suas minas. Também, mesmo que se arriscassem a desobedecer uma lei tão terrível assim (o que não há dúvida que eles fazem,casocontráriosópoderiamcomprarmuitopoucacoisa,oumesmo nada), apesar dissoovalor doouronãoaumenta, comoas mercadorias transportadaspornavios(principalmenteparaaÁfrica).Ademais,depois depagaremataxadoacordoaosholandeses,pode-sedizerquecompram osseusnegrosquasepelodobrodoquepagamosingleses,osholandeses ouosfranceses,oquenecessariamenteencarecemuitoopreçodelesno Brasil (o preço que pagam por um equivale a toda uma anuidade nos maresdosul). Isto,porenquanto,ésuficientequantoàprocuraporescravosnoBrasil. Agora vamos examinar e demonstrar as di iculdades que certos estrangeiros encontram (os ingleses, por exemplo) ao se intrometerem nesse tipo de comércio, alguns colocando-se do lado dos portugueses, outrosdonossolado. Doladodosportugueses,acompradeescravoséproibidasobpenade morte,leiestaqueémenose icazdoqueoseriamasmultaspecuniárias na prevenção do fato, já que uma pena assim, tão inadequada e desproporcional, existe apenasin terrorem, tornando o governador, por meiodos seus regulamentos,alguémconsideradomuitopiedosoquando

aceita uma taxa de oito a dezmoidores toda vez que um súdito é surpreendido. Essa prática é muito comum, e tão frequente quanto o númerodevezesemqueainfraçãoédescoberta. Donossolado,con isca-seoquefoiganhonatransação,oque,levando- seemcontaqueosportuguesesnãopossuemnenhumafragatavigiandoa costa,significamuitopouco,casonãohajanegligênciaedescuido. [Suponhamos] que eu seja uma fragata, ou um navio corsário que, precisando de provisões, ou estando à caça de piratas, aporte em Pernambucaparaconseguir informaçõesquemepossibilitemprosseguir nabusca.Opavoraospiratasmantémtodomundoadistância,atéquese envie primeiramente um o icial, transmitindo os cumprimentos ao governador,oqualimediatamenteconcederáapermissãoparacompraros artigosnecessários,contantoqueopagamentosejafeitoemdinheiro,enão portrocademercadorias,queécontraasleisdopaís. Destaprimeiradescidaaterradependeosucessodetodoonegócio,e exige um comportamentocautelosoe discretode parte doencarregado. Imediatamente,estapessoaserácercadaemterrapelograndeepequeno povinho,queiráperguntar:“Queméele?Deondevem?Paraondevai?”,e ohomemterárecebidoinstruçõespararesponder:“ViemosdaGuiné”,e negandoquetenhaquaisquerescravosabordo,osquaisseencontramde fato abaixo das escotilhas, lá no porão, sem poderem ser vistos. Nem precisariamsê-lo,poisquemtemodinheiroparapagarirátirarassuas própriasconclusões. Até que os cumprimentos sejam convenientemente transmitidos ao governador, já as notícias se espalharam por toda a cidade e algum mercador virá dirigir-se a você, como estrangeiro, com toda a devida polidezsenhorial,porémna verdade desejandomesmoé saber quantos negros poderá conseguir,e a que preço.Ogovernador poderia usar um dosseusregulamentosparainvestigarocaso,mas,diantedaaparênciatão boa do cavalheiro, e também de ter ele se apresentado imediatamente, após o seu contato anterior, tudo concorrerá para compor a sua boa opiniãosobreele,semquesemelhanteartimanhaprovoquemotivoalgum de suspeita. Entretanto, para exercer uma devida vigilância, bastariam apenasalgumasintimações,e,parafazercomqueeleeosseusamigosse livrem da parte melhor da sua carga em apenas duas noites, um pagamentodevinteatrintamoidoresporumescravomenino,edetrinta ouquarentaporumescravoadulto.OriscoébemmenornoRiodeJaneiro. Tentou-setambémumoutrométodo,queeraodesecorrespondercom

certosmercadoresportugueses,osquais,comotinhamcondiçõesdesaber quenumprazodequinzediaschegariaàcostaalgumnaviocomescravos, poderiam combinar sinais para o seu desembarque numa parte pouco frequentada da costa. Mas, seja porque se izeram certas restrições ao preço,sejaporqueosportuguesestinhampavordeseremdescobertose processados duramente por uma tãonotória desobediência à lei,istoeu nãopossoassegurar,masofatoéqueoplanonãodeucerto. Aindaassim,valeapenatentarem-senovosestratagemas,louváveise lucrativos, sem nenhum outro risco (como posso perceber) a não ser apenas o da perda de tempo. E é isso que os espanhóis da Jamaica praticamtodososdias. Foinaquelascostasqueosnossosvilõesvaguearamdurantecercade novesemanas,mantendo-sedemodogeralalémdoalcancedavistapor terra. Mas, como não localizaram nenhum barco por ali, isso os desencorajoutantoqueelesdecidiramabandonaraquelaposiçãoerumar para as Índias Ocidentais. E nessa disposição custaram um pouco para partir, quando, inesperadamente, se depararam com uma frota de quarentaedoisbarcosportuguesesseguindoparaLisboa,diantedaBahia los todos Santos. Alguns pareciam bem armados, repletos de carregamentos, aguardando a chegada de duas fragatas de setenta canhões cada uma, que lhes serviriam de escolta. Roberts, no entanto, mesmoconsiderandomuitodi ícilaquelaoperação,decidiufazercontato,e comesseobjetivomisturou-seàfrota,mantendoescondidosseushomens atésetomaremasresoluçõesadequadas.Feitoisso,elesseaproximaram de umdos barcos mais carregados,ordenando-lhe que lhe enviassemo seucomandanteabordo,semnenhumalarde,ameaçando-osdenãoterem a menor piedade no caso de alguma resistência ou sinal de alarme. Os portugueses, surpreendidos com as ameaças e vendo, subitamente, os cutelos aparecendo nas mãos dos piratas, submeteram-se sem uma palavra, e o capitão veio a bordo. Roberts saudou-o amigavelmente, declarando-lhequeeleseramaventureiros,masqueosseusnegóciosali se limitavam a lhes informarem qual era o navio, em toda a frota, que transportava as cargas mais ricas. Se ele lhes desse uma informação correta, seria restituídoaoseu naviosem omolestarem. Casocontrário, podiaestarcertodesermortonoato. O comandante português logoapontou um dos navios, com quarenta canhõesecentoecinquentatripulantes,emuitomaispotentequeodos bandidos. Mas isso de forma alguma os desanimou, pois, como

comentaram:eramportugueses.Assim,imediatamenterumaramnaquela direção. Ao chegarem à distância própria de uma saudação, os piratas mandaram o comandante prisioneiro perguntar como estava oseignor capitão, convidando-o a vir a bordo, pois tinha um assunto muito importante a tratar com ele. A resposta que veio do navio foi que o aguardavam a bordo imediatamente. E, por um certo alvoroço que se seguiu,ospiratasperceberamquetinhamsidodescobertosequeaquela respostaforaapenasumdisfarceparaganharemtempoecolocaronavio em posição de defesa. Então, sem mais delongas, eles correram para o costado,abordaramecapturaramonavio.Alutafoicurtaeacalorada,com amortedemuitosportugueses,masdeapenasdoispiratas.Aessaaltura, toda a frota já fora avisada, os rojões cruzavam os céus, os canhões disparavamparadar alarmeàsfragatas,asquaisaindaseencontravam ancoradas, e que só mostraram uns débeis sinais de estarem se apressandoparaajudá-los.Eseéverdadeoqueospiratasrelatarammais tarde,oscomandantesdaquelesnaviosforamculpadosnomaisaltograu,e indignos dos seus títulos,ou até mesmoda quali icaçãode homens.Pois Roberts, achando que a sua presa estava muito pesada para poder manobrá-la, embora estivesse decidido a não perdê-la, colocou-se em posiçãodecombatenafrentedonavioqueseadiantavaaosdemais(eque eramuitomaispotentequeoanterior),masque,noentanto,serecusoua reagir,numcomportamentoignominiosoparaaquelaesquadra,cujaforça era de tal superioridade. O navio, sem querer se arriscar a enfrentar sozinhoopirata,seatrasoutantoàesperadeoutroqueoviesseajudar, que isso deu tempo a que Roberts e sua presa fossem embora sem o menorproblema. Descobriram que a carga do navio era imensamente rica, principalmentecomaçúcar,courosdeanimaisetabaco,alémdenoventa milmoidores de ouro, colares e balangandãs de elevado valor, particularmenteumacruzcravejadadediamantesquesedestinavaaorei dePortugal,ecomaqualposteriormenteelespresentearamogovernador deCaiana(Guiana),aquemsentiam-semuitogratos. Entusiasmados com o butim, agora nada mais os preocupava senão encontrarumlocalseguroparapoderementregar-seatodasortedesses prazeres próprios à luxúria e à devassidão. E naquele momento, escolheramumlugarnascostasdeCaianachamadoilhadoDiabo,norio Suriname,ondetiveramamaiscalorosarecepçãoquesepossaimaginar, nãosóporpartedogovernadoredetodaafeitoria,comodasesposas,que

trocaramporcelanascomeleseentabularamumconsiderávelcomércio. Naquele rio eles capturaram uma chalupa, obtendo através dela a informaçãodequeumoutrobrigue,provenientedeRhodeIsland,também navegavaacompanhando-a,carregadodeprovisõesedirigindo-separaa costa.Quecargabem-vinda!Poisosseusestoquesmarítimosestavamse esgotandoe,comodiriaSancho:“Nãosefazemaventurassemlenhaparaa pança.” Certa noite, enquanto vasculhavam em busca da sua mina de tesouros—apresaportuguesa—atãoesperadaembarcaçãofoiavistada pelovigiadomastro.Roberts,achandoquesóeleprópriopoderiarealizar aquelafaçanha,selecionouquarentahomensesaiucomelesnachalupa, em perseguição ao navio. Porém um grave acidente seguiu-se àquela aventuraimpetuosaeirre letida.Robertsnãopensavanoutracoisasenão em trazer aquele brigue naquela mesma tarde, e nem sequer se preocupoucomasprovisõesdachalupa,tampoucoexaminandosehaviaa bordoalgoparasustentartodosaqueleshomens.Elançou-senacaçaàsua presa, que não só acabou perdendo de vista como, depois de oito dias enfrentando fortes ventos e correntezas, viu-se a cento e oitenta quilômetros a sotavento. Com as correntezas a se opor incessantemente aosseusesforços,vendo-sesemnenhumaesperançadeconseguirremar até onavio,ancoraram.E,semse deterempara pensar noque estavam fazendo,enviaramumescalerparainformaraorestantedacompanhiao que eles estavam passando, ordenando também que o navio os viesse resgatar. Porém em pouco tempo, na manhã seguinte mesmo, eles se deramcontadasuaobsessãoaoperceberemquetodaaáguaseacabara, semquetivessemsepreocupadocomoseureabastecimentoatéachegada donavio,ouaoretornodoescaler,coisaqueprovavelmentenãosucederia antesdecincoouseisdias.Ali,talcomoTantalus,quasemorreramdesede, enquantoaolongepodiamverosrioseoslagosdeáguasfrescas.Emmeio àquela situação extrema, inalmente não tiveram outra opção senão arrancar as tábuas do soalho da cabine, amarrando-as a uma bacia, ou uma bandeja, para com aquilo poderem remar até a praia e conseguir imediatamenteágua,eassimpoderemsobreviver. Passados uns dias, o tão esperado escaler retornou, porém com as piores notícias que se possa imaginar: pois oimediatoKennedy, que na ausênciadeRobertsforadeixadoparacomandaronaviocorsárioeasua presa, tinha ido embora, levando consigo as duas embarcações. Aquilo, além de uma forte humilhação, foi uma vingança, pois, não é di ícil de imaginar,Roberts e os homens,aose lançaremàquela aventura,tinham

ouvido duras palavras por parte dos que icaram, e que se sentiram traídos.E,para que nãoprecisemos mais mencionar esse Kennedy,vou, por uma página ou duas, deixar de ladoocapitãoRoberts e orestoda tripulação, enquanto dão vazão a toda sua ira com pragas e maldições,

paraacompanharooutro,rumandoagoraemdireçãoaExecution-Dock. 3

Kennedy fora eleito capitão da tripulação amotinada, porém não conseguiafazerqueacompanhiachegasseaalgumadecisãoprecisa.Uns

queriamprosseguircomovelhomeiodevida,masamaiorpartemostrava

desejo de deixar aquele trabalho ruim e retornar à casa secretamente (poisnaquelemomentonãoestavaemvigornenhumAtodePerdão).Por

issotodosconcordaramemabandonarapirataria,ecadaumsearranjar

por si mesmo quando a ocasião se apresentasse. A primeira coisa que izeram foi se desfazer da grande presa portuguesa. Tinham a bordo o comandante da chalupa (creio que o seu nome era Cane), que todos

achavamser umbomsujeito(pois sempre os havia apoiado)e que lhes dera informações sobre o brigue ao qual Roberts saiu em perseguição.

Quandoospiratascapturaramessecomandante,eleossaudoudaforma

mais estranha,declarando-lhes que eramtodos muitobem-vindos à sua

chalupaeaoseucarregamento,lamentandoqueonavionãofossemaiore

a carga ainda mais rica, para os servir. A esse homem, de natureza tão

bondosa,elesentregaramonavioportuguês(queestavaentãoaindacom

a metade da carga), além de três ou quatro negros e todos os seus

próprios tripulantes Ele agradeceu muito aos seus benfeitores e se foi embora. OcapitãoKennedyzarpou nonaviocorsáriopara Barbados.Próximo àquelailha,capturouumnaviomuitopací ico,daVirgínia.Ocomandante era umquaker chamadoKnot.Abordonãohavia pistolas,ou espadas,e tampoucocutelos.Eosr.Knotpareciatãoreceptivoatudoqueselhedizia, que alguns acharam estar alia sua oportunidade para irem embora de umavez.Assim,oitodospiratasembarcaramnonaviodo quaker,queos transportou a salvo à Virgínia. Os piratas deram de presente ao comandante dez barris de açúcar, dez rolos de tabaco brasileiro, trinta moidoresecertaquantidadedeouroempó,tudonumvaloraproximado

de250libras.Tambémpresentearamosmarinheiros,dandomaisauns,e

a outros menos, mas estabelecendo um relacionamento muito jovial durantetodaaviagem—ocapitãoKnotdeixando-ostotalmenteàvontade. Na verdade, ele não podia fazer nada, a menos que surgisse alguma chancedesurpreendê-losquandoestivessemembriagadosoudormindo.

Poisquandodespertoselesexibiamostensivamenteassuasarmas,oque punhaatodosnumcontínuoterror.Porumaquestãodeprincípio(tanto docapitãoquantoda sua seita)eles nãopodiamlutar,a nãoser que se valessemdearti íciosoumaquinações.Ocapitãoconseguiuevitaromelhor que pôde que eles recorressem às armas, até se aproximarem do continente,quandoentãoquatropiratasforamparaterra,numbarcoque tinhamtrazidoconsigoparafacilitarsuasincursões.Atravessaramabaía emdireçãoaMaryland,masumatempestadeosforçouarecuar,etiveram de descer numa região pouco conhecida do país. Ali, encontrando boa diversãoentreosfazendeiroslocais,permanecerampordiversosdiassem ninguém descobrir que eles eram piratas. Nesse meio-tempo, o capitão Knot, tendo deixado os outros quatro piratas a bordo do navio (que desejavamseguirviagematéaCarolinadoNorte),foiàspressasrevelarao governador,osr.Spotswood,que tipode passageiros ele fora forçadoa trazer consigo. Por sorte, conseguiram prendê-los. E, depois de novas incursõesembuscadosoutrosquatro,queseentregavamafazerfarras pelaregião,tambémessesforampresos.Asprincipaistestemunhascontra elesforamdoisjudeusportugueses,queeleshaviamcapturadonolitoral doBrasile que depois trouxerampara a Virgínia. No inal,foramtodos julgados, condenados e enforcados. Os últimos piratas tinham guardado parte das suas riquezas com os fazendeiros, que no entanto nunca prestaram contas disso. Mas ocapitãoKnotrenunciou a tudooque lhe deram,e tambémaoque haviamdeixadononavio,alémdas coisas que roubaramdurante a viagem,e a todos os presentes,e ainda obrigou os seushomensaagiremdamesmaforma. DiasdepoisdatomadadonaviodaVirgínia,acimarelatada,Kennedy, aovelejarpelalatitudedaJamaica,capturouumachalupaprocedentede Bostonecarregadacompãoefarinha.Paraelatransferiram-setodosos piratasquepretendiamacabarcomaatividadedobando,deixandopara trásosque queriamprosseguir emnovas aventuras.Entre os primeiros estava Kennedy, o capitão, de cuja honra tinha-se uma impressão tão desfavorávelqueporpoucoelenãofoilançadoaomar,assimqueoviram nachalupa,demedoqueostraíssequandochegassemtodosàInglaterra. Pois na sua infância ele fora batedor de carteira, e antes de se tornar pirata,ladrãoearrombador decasas,eessasduaspro issõescostumam terumconceitomuitobaixoentreaquelessenhores.Entretanto,ocapitão Kennedyjurousolenemente idelidadeatodos,easuapresençafoientão tolerada.

Naquela turma só uma pessoa tinha pretensões de ter algum conhecimento sobre navegação — pois Kennedy nem ler ou escrever sabia,tendosidoescolhidoparacomandarosdemaisunicamenteporsua coragem, que na verdade já fora demonstrada por várias vezes, especialmenteduranteatomadadonavioportuguês—masmesmoessa pessoa acabou mostrando que só estava ingindo que sabia. Ao direcionaremocursopara a Irlanda,onde todos tinhamconcordadoem desembarcar, viram-se de repente arrastados para a costa noroeste da Escócia, e ali foram arremessados de um lado a outro por terríveis tempestadesdevento,porváriosdias,semsaberondeseencontravame ameaçados de naufragar a qualquer momento. Finalmente conseguiram levarobarcoatéumapequenaenseada,edesceramapraia,deixandoa chalupaancoradaali,paraquemchegassedepois. Ogrupotodorecuperouasforçasnumapequenaaldeia,acercadeoito quilômetros de onde tinham deixado a chalupa, fazendo-se passar por marujos vitimados por um naufrágio. E sem dúvida teriam conseguido seguir sem levantar suspeitas, não fosse o modo enlouquecido e desordeirocomque se comportarampelas estradas,fazendocomque a viagemfosselogointerrompida,comoserávistoagora. Kennedy e mais alguns deixaram os outros e seguiram até um dos portos marítimos, onde embarcaram para a Irlanda, lá chegando sem problemas. Seis ou sete deles sabiamente separaram-se dos demais, viajaram com toda tranquilidade, conseguindo chegar ao tão almejado porto de Londres sem serem perturbados ou levantar suspeitas. Mas o bandoprincipaldeixavatodomundoalarmadoporondepassava,bebendo efazendoalgazarraaumpontotalqueaspessoas,emcertoslugares,se trancavamemcasasemseatreveremasairnomeiodetantosloucos.Em outras aldeias, convidavam todos para participar das diversões, desperdiçando o dinheiro que tinham como se, assim como Esopo, pretendessem aliviar o seu fardo. Essa dispendiosa forma de vida conseguiu fazer com que dois daqueles extraviados bêbedos fossem golpeados na cabeça e encontrados mortos na estrada, com os bolsos completamentevazios.Osoutros,emnúmerodedezessete,forampresos aoseaproximaremdeEdinburghejogadosnacadeia,suspeitosdealguma coisa, embora não se soubesse ainda do quê. Mas os magistrados não icarammuitotemposemencontrarasacusaçõesapropriadas,poisdoisdo bandoseofereceramparadepor,oquefoiaceito.Osdemaisforamentão levados a um julgamento sumário, no qual nove foram condenados e

executados.

Depoisdegastar seudinheironaIrlanda,Kennedyreapareceu.Ficou

morandonumapensãomuitopobre,depropriedadedeB

deDeptford,deonde,devezemquando—pelomenoséoqueseimagina

— ele partia para uma excursão ao exterior exercendo sua antiga

pro issão.Atéqueumadasmoradorasdapensão—asra.W

dele à polícia por roubo, pelo qual foi encarcerado em Bridewell. Mas, como aquela senhora não gostava de fazer as coisas pela metade, foi

encontrar-se com um homem que trabalhara como imediato num navio atacadoporKennedy,fatoestequeforairresponsavelmenterelatadoaela pelopróprioKennedy.Esseimediato,chamadoGrant,foiatéacadeiade Bridewell e, reconhecendo Kennedy, obteve um mandado para o encaminharemàprisãodeMarshalsea. Ojogoagora para Kennedyseria ele própriodepor contra osantigos comparsas.Porissoeleapresentouumalistadeoitooudeznomes.Mas, comonãosoubesseondeestavammorando,apenasumdelesfoipreso,e mesmoesse,emboracondenado,pareceuserumhomemdebomcaráter, tendo ingressado à força naquele serviço, e que aproveitou a primeira chanceparair-seembora.Porisso,obteveoperdão.AopassoqueWalter

Kennedy,porserumnotórioinfrator,foiexecutadonodia19dejulhode

1721,emExecution-Dock.

Os demias piratas,deixados nonavioRover,nele nãopermaneceram por muitotempo, desembarcandonuma das ilhas das Índias Ocidentais. Não sei dizer o que posteriormente foi feito deles, porém uma chalupa pertencenteàilhadeSt.Christophersencontrouonavioàderivaeolevou paraaquelailha,eneleestavamapenasnovenegrosabordo. Dessa forma,vemos que para os maus sempre chega umdesastroso inal,esóraramenteelesconseguemescapardapuniçãoporseuscrimes, porsuavidapromíscua,pelosroubos,saquesedepredaçõesquecometem contra seres humanos,crimes que contrariama luze a leida Natureza, como também a lei de Deus. Podia-se esperar que os exemplos dessas mortes fossem como alertas para o resto do bando, avisando-os como evitar os rochedos contra os quais seus companheiros se haviam espatifado.QueserendessemaoAtodeClemência,ouseafastassempara sempre daquelas incursões, as quais no inal— podiam estar certos — haveriamdesubmetê-losàsmesmasleisepuniçõesqueosoutros,eque eles deviam ter consciência de merecerem. Aquela mesma lei, pairando sempre sobre eles, e jamais os deixando dormir, a não ser quando

,naestrada

deuparte

embriagados. Porém para eles a única consequência que aquiloteve foi elogiarem a justiça do tribunal ao condenar Kennedy: “pois ele não passava de umcachorrovelhaco”,assimdisseram“e mereceu odestino queteve”. Mas retornemos a Roberts, a quem deixamos nas costas de Caiana furioso com Kennedy pelo que este e a tripulação lhe haviam feito. Já estavaeleagoraaprojetarnovasaventurascomoseupequenobando,na chalupa. E, vendo como até então a composição deste fora algo extremamente instável,eles decidiramelaborar regulamentos,que todos deveriamassinarsobjuramento,quepreservassemmelhorsuasociedade e também proporcionassem a aplicação da justiça entre eles. Todos os irlandeses estavam excluídos dos seus bene ícios, pois por causa de Kennedy eles sentiamuma implacávelaversãopor aquele povo.Nãosei dizer como Roberts pôde pensar que alguém pudesse sentir-se comprometidoporumjuramento,ali,ondeasleisdeDeusedoshomens eramvioladas comtamanha frequência.Mas ele achou que a sua maior segurança estava naquele regulamento,e que era dointeresse de todos observarem as suas leis, se é que pretendiam manter unida uma associaçãotãoabominávelquantoaquela.

Os trechos seguintes transcrevem o conteúdo desses regulamentos, recolhidossegundoinformaçõesdosprópriospiratas. I.QUALQUERMEMBROTEMOdireitodevotarnasquestõesdomomento.Tem igual direito a provisões frescas, ou bebidas fortes, sempre que estas foremcapturadas,epodeusá-lasàvontade,amenosqueaescassez(coisa nada incomum entre eles) torne necessário, para o bem de todos, um racionamento. II.QUALQUERMEMBRO DEVE SER convocadojustamente,emturnos,através deumalista,paraabordarosnavioscapturados,porquenessasocasiões — além da sua quota de direito — eles receberão uma nova muda de roupas.Porémsefraudaremacompanhiaemumdólarqueseja,emprata, joiasoumoedas,suapuniçãoseráo“abandono”.(Segundoessebárbaro costume,abandonava-seoinfrator emalgumapraia,numcaboounuma ilhadeserta,deixando-lheumrevólver,algumasbalas,umagarrafad’água e umsacode pólvora,para alisobreviver,ou morrer.)Se oroubofosse praticadoentreosmembros,elessesatisfaziamemcortarasorelhaseo nariz do culpado e abandoná-lo numa praia, desta vez não num local deserto, mas sim onde certamente ele haveria de enfrentar sérias

dificuldades. III.ANINGUÉMÉPERMITIDOjogaradinheiro,sejamcartasoudados. IV. DEVEM SER APAGADAS LUZES e velas às oito horas da noite. Se algum tripulante,depoisdessahora,aindaquisercontinuarbebendo,devefazer issonoconvésdescoberto(assimRobertsacreditavaquepoderiapôr im àsorgiasdospiratas,poiselepróprionãoeradadoàbebida.Masno inal eleviuquetodososseusesforçosparaacabarcomaquiloeraminúteis). V. DEVEM-SE MANTER ESPINGARDAS, pistolas e cutelos sempre limpos e prontos para a ação. Nisso eles eram extravagantemente meticulosos, esforçando-separasuperarumaooutronabelezaenariquezadasarmas, àsvezeschegandoaoferecerememleilão(queserealizavaaoredordo mastro principal) até trinta ou quarenta libras por um par de pistolas. Durante as batalhas, essas armas eram penduradas aos ombros, à bandoleira,cheiasde itasmulticoloridas,numestilomuitopeculiaraeles, equelhesdavaumimensoprazer. VI. NÃO SE PERMITE NAQUELE meio a presença de nenhum menino ou mulher.Sefordescobertoquealgumhomemseduziuqualquerpessoado referidosexo,trazendo-aparaomardisfarçada,eledeverásermorto.E assim,quandoalgumamulhercaíaentreassuasmãos,comoaconteceuno navio Onslow, imediatamente eles designavam um guarda para tomar conta dela e impedir as más consequências daquele tão perigoso instrumento de divisão e disputa. Mas aí então entrava a bandidagem:

disputava-sequemhaveriademontarguarda,quedemodogeralacabava sendoumdosmaisvalentões,oqual,paragarantiravirtudedasenhora, nãodeixavaqueninguémsedeitassecomela.Alémdelepróprio. VII. DESERTAR DO NAVIO OU DOS alojamentos durante uma batalha era punidocomamorteouoabandononumailha. VIII.NÃOSEPERMITIAMLUTASA bordoentreospiratas.Todasasdisputas deviam ser resolvidas em terra, pela espada e a pistola, e da seguinte maneira:Ocontramestredonavio,quandoaspartesnãochegavamauma conciliação, os acompanhava até a praia, com a assistência que julgasse adequada,faziaosdisputantesvoltarem-sedecostasumparaooutro,a uma certa distância. À sua voz de comando, eles deviam voltar-se e dispararimediatamente(ouentãoaarmalhesseriaarrancadadasmãos) Se ambos errassem oalvo, a disputa seria entãocom ocutelo, e vencia quemprimeirofizesseooutrosangrar. IX.NÃOSEPERMITIAA ninguémabandonaraquelemeiodevida,antesde

atingir uma quota de participação de mil libras. No caso de, no cumprimento do serviço, um homem vir a perder um membro, ou icar aleijado,deveriareceber oitocentosdólares,retiradosdocofrecomum,e emcasosdedanosmenores,umaquantiaproporcional. X. OCAPITÃO E O CONTRAMESTRE recebiamduasquotasdeparticipaçãono butim.Omestre,oimediatoeoartilheiro,umaquotaemeia.Outrosoficiais, umaquotaeumquarto. XI.OSMÚSICOSDEVIAMDESCANSARaossábados,porémnosoutrosseisdiase noites,sóporumalicençaespecial. Garantiram-nos que eramesses alguns dos regulamentos de Roberts mas,comoospiratastiveramocuidadodelançaraomarosoriginaiscom asassinaturaseosjuramentos,háfortesrazõesparasesuspeitarqueali havia algo demasiado horrível para ser revelado, exceto aos que participavam voluntariamente das iniquidades. Fosse como fosse, os regulamentosconstituíamumtesteparaosrecém-chegados,cujainiciação sefaziajurandosobreumaBíblia—guardadaexclusivamenteparaesse im—equeemseguidaeramregistrados,empresençadovenerávelsr. Roberts.Enocasodequalquerdúvidasobreaaplicaçãodaquelasleis—e deveriahaverumpréviodebateparasaberseogrupoasinfringiraounão —nomeava-seumjúriparaexplicá-lasechegaraumveredictosobreo casocolocadoemquestão E já que estamos falando sobre as leis daquela companhia, vou prosseguiragorarelatando,daformamaisbrevequemeforpossível,os principais costumes e a forma de administraçãodaquela comunidade de bandidos,equesãoexatamenteosmesmosqueseveri icacomtodosos piratasemgeral. Para a punição por pequenas ofensas, não contempladas nos regulamentos, e cuja importância não era su iciente para que se convocasseumjúrisóparaelas,existiaumoficialsuperior,ocontramestre, escolhido pelos próprios piratas, e que, a não ser durante as batalhas, exercia sua plena autoridade da seguinte forma: se desobedecessem ao seu comando, se fossem arruaceiros e rebeldes uns com os outros, se maltratassemosprisioneiros,sesaqueassemalémdoquefoiordenado,e principalmente, se fossem desleixados com as suas armas, que ele examinavasemprequelhedavavontade,eleéquedecidiriaqualocastigo a ser aplicado, se bordoadas ou chicotadas, coisa que ninguém mais ali ousaria fazer semser atacadopor toda a tripulaçãodonavio.Emsuma, esse o icial era encarregado de tudo, sempre o primeiro a abordar as

presas,comodireitodesepararparaousodacompanhiaoqueachasse melhor,edevolvendooquejulgassemaisapropriadoaseusdonos,com exceção de ouro e prata, que por decisão em assembleia são bens não retornáveis. Após a descrição dos deveres do contramestre, que constituía uma espéciedemagistradocivilnosnaviospiratas,analisaremosooficialmilitar —ocapitão.Quaisosprivilégiosqueestedesfrutavaemmeioatalclima de anarquia e falta de disciplina? Na verdade, muito poucos. Permitiam apenas que ele fosse o capitão, e ainda assim, com a condição de que também eles pudessem atuar comocapitães sobre ele. Separavam-lhe a maior cabine, e algumas vezes conferiam-lhe pequenas quantidades de prata e de porcelanas (pois é precisoobservar que Roberts tomava chá constantemente),mastambémqualquerum,deacordocomseuhumordo momento, podia usar a prata e as porcelanas comoquisesse, invadir os seus alojamentos, praguejar contra ele, se apoderar de parte dos seus mantimentosebeberàvontade,semqueelepudesseobjetaroureprovar nada.NoentantoRoberts,porserumadministradormelhorqueocomum, tornou-seaprincipalautoridadeemtodasasquestõesimportantes,eisso peloseguinte:comosechegavaaopostodecapitãoporvotaçãodamaioria, geralmenteopostoiaparaalguémcommaioresconhecimentosecoragem, alguém,comodiziameles,“àprovadebalas”ecapazdeinspirarmedoa quem não gostasse dele. Dizem que Roberts superou todos os concorrentesnessesitens,equecomotempoaindafezcrescerorespeito aoseu redor aoestabelecer uma espécie de ConselhoSecreto,composto por meia dúzia dos mais valentões.Esses tinhamsidoseus concorrentes antes, e tinham interesse em facilitar a sua administração. Mas mesmo esses,nostempos inaisdoseucomando,eleseviaforçadoaseopor,ao apresentaremprojetoscontráriosàssuasopiniões.Porisso,etambémpor ter se tornadocada vez mais reservado, sem beber ou fazer algazarras comoosdemais,formou-seumaconspiraçãoparadestituí-lodocomando,o quesómesmoamorteconseguiuefetivamente. Eraabsolutoopoderdocapitãoduranteaperseguiçãoaumapresa,ou emuma batalha,e espancava,esfaqueava ou atirava contra todoaquele que se atrevesse a contestar sua autoridade. Gozava dos mesmos privilégiostambémsobreosprisioneiros,quepodiamreceberbomoumau tratamento,adependerdeeleaprovarounãooseucomportamento.Pois, embora os piores piratas queiramsempre maltratar umcomandante de navio, mesmo assim ele poderá controlá-los se presenciar o fato. E

alegremente,diantedeumagarrafadebebida,informaráaosprisioneiros seus dois motivos para comemorar: oprimeiroé ver sua superioridade mantida.Osegundo,éterretiradoapuniçãodasmãosdeumbandomuito mais brutal e maluco que ele próprio. Ao ver que nenhum prisioneiro esperavasertratadocomrigor,porpartedesuagente(poiseleprocurava sempre acalmá-los), então ele faria todos entenderem que só por uma inclinação convenceu os companheiros a lhes darem bom tratamento, e nãoporamorouparcialidadeporsuaspessoas.Pois,diziaele,“qualquer um de vocês, na primeira oportunidade que tiver de me agarrar, irá enforcar-me,euseidisso”.

E agora — prosseguindo a nossa narrativa — quando eles viram a precária situação em que se encontravam, naquele pequeno barco precisandode consertos e semprovisões ou estoques,por unanimidade resolveramseguir paraasÍndiasOcidentais,comospoucossuprimentos quepuderamconseguir,certosdeencontraremumasoluçãoparaaqueles problemas,ederecuperaremasperdas. Nalatitudedeumadasilhas—Deseada—capturaramduaschalupas, que os abasteceram de mantimentos e outros artigos necessários. Passados uns dias, tomaram um brigue procedente de Long Island, e depoisseguiramparaBarbados.Nolitoraldessailhadepararamcomum naviovindodeBristol,comdezcanhões,emviagemparaoexterior,edo qualseapossaramderoupasemabundância,dinheiro,vinteecincofardos demercadorias,cincobarrisdepólvora,cordas,amarração,deztonéisde farinhadeaveia,seisdecarnedeboiemuitosoutrosartigos,alémdecinco tripulantes.Edepoisdedeteremonavioportrêsdias,deixaram-nopartir. Comoessenaviosedestinavaàilhaacimareferida,assimqueláchegoua tripulaçãoinformouaogovernadortudooquesepassara. Imediatamente,comoalinãoestacionassenenhumafragata,umagalera de Bristol ancorada no porto recebeu ordens de, com a maior pressa possível, equipar-se com vinte canhões e oitenta homens, e também prepararumachalupacomdezcanhõesequarentahomens.Agaleratinha ocomandodeumcertocapitãoRogers,deBristol,eachalupa,docapitão Graves, daquela mesma ilha. O capitão Rogers, por uma delegação do governador,foinomeadocomandantedaexpedição. Nosegundodia,depoisqueRogerszarpoudoporto,elefoiavistadopor Roberts, que, sem saber nada sobre as suas intenções, deu início à perseguição.OsnaviosdeBarbadosmantiveramamesmavelocidade,até

ospiratasseaproximaremmais,quandoRobertsdisparou-lhesumtirode canhão, esperando que imediatamente eles fossem arriar as suas velas, submetendo-seàbandeirapirata.Masemvezdisso,oquerecebeufoium potenteemaciçocanhoneio,ouvindo-seaomesmotempotrêsclamoresde hurras.Eentãoseguiu-seocombate.Roberts,sabendo-sesemforçaspara enfrentá-lo,tevedeiçartodasasvelasefugir.Agaleotaseguiu-odeperto durantemuitotempo,mantendoconstantesdisparoscontraeleeferindo diversospiratas.No inal,entretanto,depoisdelançaraomarasarmase as mercadorias mais pesadas,para que a embarcação icasse mais leve, Roberts,àcustademuitoesforço,conseguiufugir.Porémnuncamaispôde suportar qualquer naviode Barbados.Se alguma embarcaçãodessa ilha lhe caísse nas mãos,ele se mostrava muitomais severocomela doque comqualqueroutra. A chalupa do capitão Roberts velejou até a ilha de Dominico, onde ancorou, e eles conseguiram provisões com os habitantes, aos quais em troca forneceram mercadorias. Treze ingleses estavam lá, deixados por umaGuarddelaCostefrancesa,deMartinico,depoisdeseremretirados de dois navios da Nova Inglaterra capturados pela chalupa francesa.De bomgradooshomenssubiramabordodonaviopirata,oqueprovouser umoportunorecrutamento. Emboraaocasiãofossepropíciaparafazeremumafaxinanachalupa, elesacharamquealinãoseriaumbomlugar,noquepensarambem,pois icarmaistemponaquelailhateriasigni icadosuadestruição.Ofatoéque eles tinham decidido seguir para as ilhas de Granada, para limparem o barco, mas, por algum acidente, a notícia chegou ao conhecimento da colônia francesa, que avisou o governador de Martinico, o qual logo equipoucomarmasehomensduaschalupasparasaírememsuabusca.Os piratas velejaram diretamente para as Granadilloes (Grenadines), ancorandonumalagoa,emCorvocoo(Carriacou),onde izeramalimpeza comumapressainusitada,permanecendoalipoucomaisqueumasemana. Essapressapermitiuque,porumaquestãodehoras,elesescapassemdas chalupas de Martinico. Roberts zarpou durante a noite, e os franceses chegaram na manhã seguinte. Aquela foi uma escapada de muita sorte, especialmenteseconsiderarmosquenãofoiomedodeseremdescobertos queprovocouapressa,mastãosomentesuaprópriasem-vergonhice,pois estavamloucosporvinhoemulheres. Escapando, assim, por muito pouco, eles seguiram para Terra Nova chegandoaessacostaem insdejunhodoanode1720.Penetraramno

portodeTrepassi,comsuasbandeirasnegrastremulandoeostambores rufandoaosomdastrombetas.Haviavinteeduasembarcaçõesnaquele porto,que imediatamente foramabandonadas pela tripulação,aover os piratas,equefugiuemmassaparaaspraias.Éimpossíveldescreveraqui toda a destruição e devastação que eles causaram, incendiando e afundandoosnavios,comexceçãodeumagaleotadeBristol,destruindoos armazéns de pesca e os galpões dos coitados dos fazendeiros, sem qualquerremorsooucompaixão.Nadaémaisdeploráveldoqueopoder quando nas mãos de gente inferior e ignorante: torna os homens insensíveis e tresloucados, sem quererem saber das desgraças que impõemaseussemelhantes,rindodasmaldadesquepraticamequenão lhes trazem vantagem alguma. “São como loucos, que lançam fogo, lechadas e morte, e que depois exclamam: mas não estamos nos divertindo?” Roberts tomou para sinoportoa galeota de Bristole equipou-a com tripulação e dezesseis canhões. Enquanto se distanciava da costa, ele encontrou nove ou dez embarcações francesas, todas as quais destruiu, exceto uma com vinte e seis canhões, dos quais se apossou para uso próprio.AessenavioelesderamonomedeFortunee,deixandoagaleota deBristolparaosfranceses,partiram,comachalupa,emoutrocruzeiro, no qual tomaram diversas presas, tais como o Richard, de Biddiford, comandadoporJonathanWhit ield;oWillingMind,dePool;oExpectation, deTopsham,eoSamuel,comandadopelocapitãoCary,deLondres.Coma tripulaçãodessesnavioseleaumentouasuacompanhia,admitindoparao seu serviço todos os que puderam ser poupados. O navio Samuel transportavaumricocarregamento,etambémlevavaváriospassageirosa bordo,queforambrutalizadosparaquelhesentregassemseudinheiro,a todo instante ameaçados com a morte se não renunciassem a tudo que possuíamemfavordeles.Ospiratasarrebentaramosalçapõeseinvadiram oporãocomoumbandodefúriase,commachadosecutelos,rasgarame arrombaramfardos,cofres,caixas,tudoemquepudessempôrasmãos.E quandochegavamaoconvésmercadoriasqueelesnãoqueriamlevar,ao invésdedevolvê-lasaoporão,lançavam-naspelaamurada.Efaziamtudo issoaosomdeincessantespragasexingamentos,maiscomodemôniosque comohomens.Carregaramconsigovelas,armas,pólvora,cordame,eoito ounovemillibrasemmercadoriasdesuperiorqualidade.Edisseramao capitãoCaryquenãoaceitavamnenhumAtodeClemência.Queoreieo parlamentopodiamsedanarcomosseusatosdeclemência.Etampouco

iriamparaHope-Pointparaaliseremenforcadosecurtidosaosol,como

izeramcoma companhia de Kide Braddish. 4 Mas se algumdia fossem vencidos,elesexplodiriamsuaprópriapólvora,comumtirodepistola,e iriamtodosjuntos,alegremente,paraoinferno. Depoisquelevaramtodoobutim,reuniram-separadebatersedeviam afundarouincendiaronavio.Mas,enquantoaquestãoeradiscutida,eles avistaramumbarco,eporissoabandonaramoSamuelparadaremcaçaà nova presa. À meia noite eles a alcançaram: era uma embarcação de Bristol,comdestinoa Boston,sob ocomandodocapitãoBowles.Eles os trataramdemaneirabárbara,porqueonavioeradeBristol—cidadedo capitãoRogers—,aquelequeoshaviaatacadonacostadeBarbados. Nodia 16 de julho,passados dois dias,eles capturaramumnavioda Virgínia chamado Little York, com James Philips como comandante, e o Love, de Liverpool, o qual saquearam e depois deixaram partir. No dia seguinte foia vezde umbarcode Bristolencontrar omesmodestino:o Phoenix,comandadopor John Richards.Etambémumbrigue,oCapitão Thomas, e uma chalupa de nome Sadbury. Todos os homens do brigue foramrecolhidos,edepoiselesoafundaram. Ao deixarem a costa de Terra Nova, eles seguiram para as Índias Ocidentais e, como as provisões estavam acabando, dirigiram-se para a latitudedailhaDeseada,paraalivelejaremàcatadosnaviosconsignados, comocostumavam dizer alegremente, carregados com suprimentos, pois aquele era considerado o melhor lugar para encontrá-los. E é muito suspeitoqueosnaviosrecebessemcargasdemantimentosalinascolônias inglesas,napretensãodeiremcomerciarnascostasdaÁfrica,quandode fatoacabavamsedestinandoaospiratas.Eemboradessemdemonstrações deviolênciaaoseencontrarem,aindaassimnãotinhamdúvidadeestarem levandosuacargaparaumbommercado. Entretanto,daquelavezospiratasnãotiveramacostumeirasortee,à medidaqueasprovisõeseosartigosindispensáveisescasseavamdiaadia, eles se retiraram em direção a St. Christophers, onde lhes foi recusado qualquersocorroouassistênciaporpartedogoverno.Comovingança,eles atiraramcontraacidadeeincendiaramdoisnaviospelocaminho,umdeles comandado pelo capitão Cox, de Bristol. Depois se afastaram para mais longe,paraailhadeSt.Bartholomew,ondereceberamtratamentomuito melhor.Aliogovernadornãosóosabasteceucomcomida,comotambém ele e as demais autoridades demonstraram-lhes o maior carinho. E as

mulheres,diantedetãobomexemplo,disputavamentresiqualdelasse vestiaesecomportavamelhor,a imdeatraíremasgraçasdeamantestão generososcomoaqueles,quepagavamtãobemporseusfavores. Saciadospor imdaquelesprazeres,eembarcandoumbomsuprimento deprovisõesfrescas,aassembleiavotouunanimementepelaidaàscostas da Guiné. Na viagem até lá, quando se encontravam na latitude 22° N, encontraram um navio francês proveniente de Martinico, ricamente carregadoe—oquefoimuitafaltadesortedoseucomandante—com características muitomais adequadas aos propósitos dos piratas doque aospróprios.“Trocar nãoéroubar”,declararam,eassim,comumafalsa expressão de gratidão para com Monsieur, pelo grande favor que lhes prestava,elestrocaramdenavioeseforam.Foiessaaprimeiraviagemdo RoyalFortune. Naquelenavio,Robertsprosseguiusuaplanejadaviagem.Porém,antes quechegassemàGuiné,elepropôsfazeremumaparadaemBrava,ailha mais ao sul do arquipélago de Cape de Verd, para uma faxina. Mas aí também, por total estupidez e falta de bom senso, eles de distanciaram tanto de seu porto, a sotavento, desesperados por não conseguirem retornaraele,ouaqualqueroutraregiãoabarlaventodaÁfrica,quese viramforçadosmaisumavez,empurradospelosventosalíseos,avoltaràs Índias Ocidentais, o que quase signi icou seu aniquilamento. Agora o destinoeraoSuriname,queseencontravaanãomenosdequatromile duzentosquilômetrosdedistância,eelesdispunhamdeapenasumtonel de água para satisfazer cento e vinte e quatro homens até lá. Triste circunstância,quetantasvezesexpõeospiratasàloucuraeàdemência. Quem,apesardesabersepararamaldadeeocastigodofatoemsi,ainda assim arrisca sua vida em semelhantes perigos deve ser mesmo um desgraçadoirresponsável.Easuafaltadehabilidadeedeprevisãofazem comqueelessecomportemassim. Pode-sepresumirqueosseuspecadosjamaisperturbaramtantosuas lembranças como ali, ameaçados pela destruição total e sem o menor lampejode confortoou de alíviopara suas misérias.Pois,comque cara iriam buscar consolo aqueles desgraçados, que tanta destruição haviam espalhado, criandotantos necessitados? Até alieles viviam desa iandoo únicopoderemqueagoradeviamcon iarparasesalvarem,edefato,sem a intervenção da Providência, só havia uma lamentável escolha: a de morrerempelasprópriasmãos,ousedeixaremmorreràmíngua. Mas eles prosseguiram seu curso, racionando o consumo de água,

permitindo só um gole por pessoa a cada vinte e quatro horas. Muitos bebiamaprópriaurina,outroságuadomar,oque,emvezdealiviá-los, aumentava-lhes insaciavelmente a sede, o que acabava por matá-los. Outros de inhavam e morriam, a cada dia, de disenteria e febres intermitentes. Quem suportava melhor a miséria eram os que voluntariamentepassavamfome,evitandoqualquerespéciedealimentoa nãoserumbocadooudoisdepãopordia,deformaquequemconseguiu sobreviver icou com o máximo de fraqueza possível para um homem, emboravivo. Mas,seaperspectivalúgubrecomquesehaviamlançadonaviagem lhesdeutantaansiedade,tantosproblemasesofrimentos,qualnãofoiseu temoreaapreensãoaoveremquenãosobravamaisnenhumagotad’água oudebebidaparaseumedecerem,ouanimarem.Eraessaasuasituação quando (por obra da divina Providência, claro) izeram sondagens e à noiteancoraramaumaprofundidadedesetebraças.Foiumainexprimível alegriaparatodos.Comoseaquiloviessealimentarcomumnovoalentoa chama quase extinta da vida. Mas isso não durou muito, pois, ao amanhecer,eles avistaramterra domastroprincipal,mas tãolongínqua que pôde apenas proporcionar indiferença naqueles homens que nos últimos dois dias nãohaviam bebidonada. Entretanto, mandaram oseu escaler, que naquela mesma noite retornou e, para seu grande alívio, trazendo uma carga de água. Informaram que tinham chegado à embocaduradorioMeriwinga(Maroni),nacostadoSuriname. Poderíamos achar que aquela salvação tão milagrosa pudesse acarretar-lhesumareformaemseucomportamento,mas,éumapena:mal saciaram a sede e o milagre já fora esquecido, até que a escassez de mantimentosdespertoudenovoosseussentidos,eoscolocouemguarda contraafome.Erapequenaaquantidadediáriadealimentopermitidaa cadaum,emesmoassimelescomentavamdeformaprofanaqueamesma Providênciaquelhesderaáguasemdúvidalhestrariatambémcarne,se elesempregassemesforçoshonestos. Nabuscaporessesesforçoshonestos,elesrumaramcomopoucoque lhes sobrava para a latitude de Barbados, para conseguirem mais mantimentos,ouentão,morreremdefome.Enocaminho,encontraramum navioquecorrespondeuàssuasnecessidades,edepoisdele,umbrigue.O primeirochamava-seGreyhoundeviajavadeSt.Christopherscomdestino àFiladélfia.Seuimediatoassinouosregulamentosdospiratas,emaistarde setornoucapitãodoRanger,companheirodoRoyalFortune.

Do navio e do brigue, os piratas obtiveram um bom suprimento de comidaebebidas,tantoquedesistiramdoplanejadocruzeiroeancoraram em Tobago. Ao ouvirem notícias de que em Corvocoo haviam equipado duaschalupasparapersegui-los,elesvelejaramparaailhadeMartinicoa imderetribuirtodoocuidadoeprestezaqueogovernadordeláhavia demonstradonaquestão. É o costume em Martinico, para que se possa reconhecer os navios holandeses que vêm comerciar ilegalmente com o povo da ilha, que os naviosicemsuasbandeirasaochegardiantedacidade.Robertsconhecia bemaquelesinale,comoeraseuferrenhoinimigo,concentrousuasideias paraelaborarumamaldade.Assim,aproximouoseunaviocomabandeira tremulandonomastro,oque,talcomoesperava,elesinterpretariamcomo sinaldeumbomnegócio, icandomuitofelizesporpoderemlogomandar as suas chalupas, e outras embarcações, para fazer ocomércio. Quando Roberts viu que os tinha a seu alcance (um logo em seguida ao outro) declarou-lhes que eles não tinham vindo ali a troco de nada, mas que podiamdeixartodooseudinheirocomaquelebandodeladrões,osquais esperavamque eles pudessemsempre encontrar umcomércioholandês tãobomquantoaquele.Emseguida,separouumbarcoparalevardevolta ospassageirosatéaterra,eincendiouosdemais,cujonúmerochegavaa vinte. Roberts estava tão furioso com as tentativas dos governadores de Barbados e de Martinicopara prendê-lo,que mandou confeccionar uma novabandeira,posteriormenteiçadaaomastro,comoseuretratoladeado porduascaveiras,esobestasasiniciaisA.B.H.eA.M.H.,quesigni icavam [eminglês]:UmaCabeçadeBarbadoseUmaCabeçadeMartinico. EmDominico,ailhaàqualsedirigiramaseguir,elescapturaramum

navioholandêsquefaziacomércioilegal,com22canhõese75homens,e

umbriguepertencenteaRhodeIsland,comandadoporumtalNorton.O primeiro tentou defender-se até que, com a morte de alguns de seus homens,osdemaisperderamacoragemebaixaramasuabandeira.Com essas duas presas eles prosseguiram até Guadalupe, capturando uma chalupa e uma chata francesa carregada com açúcar. A chalupa eles incendiaram, prosseguindo para Moonay (Mona), uma outra ilha, com a intençãode fazer uma limpeza nocasco,porémacharamque a maré ali estava demasiado alta para que pudessem realizá-la em segurança. Mudaramseucurso,então,paraaregiãonortedeHispaniolaonde,nabaía de Bennet,nogolfode Saminah (Samana), izerama limpeza donavioe

tambémdobrigue.Porque,emboraHispaniolatenhasidocolonizadapor espanhóis e franceses, e ali se encontre a residência de uma alta autoridadedaEspanha,querecebeepronunciaadecisão inalsobreos apelos provenientes de todas as outras ilhas espanholas das Índias Ocidentais,mesmoassimasuapopulaçãonãoéproporcionalaotamanho, deformaqueexistemmuitosportosaliaqueospirataspodemrecorrer comsegurança,semmedodeseremdescobertospeloshabitantes. Durante a sua permanência lá, duas chalupas se aproximaram, querendovisitarRoberts.TalcomoarainhadeSabáfezcomSalomão,os comandantes delas — chamados Porter e Tuckerman — dirigiram-se ao piratadeclarando-lheque,“tendoouvidofalardasuafamaerealizações”, eleshaviamdecididoconhecê-loparaaprenderasuaarteesuasabedoria nasquestõesdapirataria.Acrescentaramqueassuasembarcaçõestinham o mesmo e honroso desígnio que a dele, e que esperavam que com a comunicaçãodoseu conhecimentoviesse tambémalguma caridade,pois estavamnecessitandodosartigosindispensáveisataisfaçanhas.Roberts sentiu-se seduzido pela peculiaridade e pela franqueza daqueles dois homens, e lhes deu pólvora, armas e tudoomais de que necessitavam, passando duas ou três noites alegres em sua companhia. Quando eles partiram,declarou-lhesesperarqueoSenhor izessesempreprosperaras suascompetentesobras.Depoisdeaprontaremobarco,elescontinuaram alipor algumtemponas suas habituais orgias.Haviam-se apoderadode uma quantidade considerávelde rume de açúcar,de forma que bebida eraalgotãoabundantequantoaágua,epoucosentreelessenegavamao seuimoderadoconsumo.Pelocontrário,asobriedadepodiafazercomque um homem fosse suspeito de conspirar contra a comunidade e, no entenderdeles,quemnãobebiaeravistocomovilão.Isto icouevidenteno caso de Harry Glasby, que fora escolhido como contramestre do Royal Fortune e que, com mais dois outros, não quis participar de uma comemoração da companhia, na última ilha em que estiveram, indo embora sem dar adeus aos camaradas. Glasby era um homem sóbrio e reservado,dando,dessa forma,motivos para que suspeitassemdele.De modoquelogoderampelasuaausência.Foienviadoumdestacamentoà cata dos desertores, e os três foram trazidos de volta no dia seguinte. Aquiloera uma ofensa capital, e por issoeles foram levados a imediato julgamento. Alisepraticavaumaformadejustiçamuitosemelhanteàquesevêem muitostribunaisdemaiorlegitimidade.Nãosegrati icavaoconselho,eo

subornoatestemunhaseraumhábitoignoradoali.Nãohavianomeações fraudulentas de jurados, torturas ou distorções do sentido da lei com objetivos e propósitos secretos, nem jargões ininteligíveis ou distinções inúteis para confundir a causa e torná-la incompreensível.Tampoucoas sessõeseramsobrecarregadasdeintermináveisautoridades,ministrosda rapinaedaextorsão,comaresdemauagouro,su icientesparaafugentar

Astrea 5 dotribunal. O local do julgamento foi a antecâmara do navio. Para o evento, preparou-seumagrandetigeladeponchederum,colocadasobreamesa. Quando os cachimbos e o tabaco já estavam prontos, deu-se início aos trâmitesjudiciais.Fizeramavançarosprisioneiroseprocedeu-seàleitura dos artigos de acusação contra eles. As denúncias eram feitas segundo estatutos da própria autoria deles. Comoa Carta da Leiestava pesando muitocontraeles,eofatoeraplenamentecomprovado,asentençaestava apontodeserpronunciadaquandoumdosjuízesdeclarouqueanteseles deveriamfumaroutracachimbada,oquefoidevidamentefeito. Os acusados requereram emocionados a suspensão do julgamento, porémacortenutriaumtalhorrorpeloseucrimequenãopôdeserlevada anenhumamercê.Foiquandoumdosjuízes,chamadoValentineAshplant, levantou-se e, retirando o cachimbo da boca, declarou que tinha algo a exporaotribunalemfavordeumdosprisioneiros.Efoicomessaintenção queelefalou:“PorDeus!Glasbynãopodemorrer!Queeumedaneseele morrer!” Depois desse erudito discurso, ele voltou para o seu lugar e retomou o cachimbo. Essa moção foi ruidosamente contraposta pelos demaisjuízes,eemtermosequivalentes.PorémAshplant,muitodecidido emsuaopinião,pronunciououtropatéticodiscurso:“Deus!Quesedanem ossenhorescavalheiros,eusouumhomemtãobomquantoqualquerum dos senhores! Que minha alma se dane se jamais virei as costas para qualquer homem na minha vida, ou se jamais vier a fazê-lo! Por Deus! Glasbyéumsujeitohonesto!Apesardessadesgraçaeugostodele,queo diabo me dane se eu não gosto! Eu espero que ele possa viver e se arrependerdoquefez.Masqueeumedaneseelemorrer,euvoumorrer comele!”Emseguidaelesacouumpardepistolaseasexibiuparaalguns dos eruditos juízes sobre obanco.Estes,compreendendobemosentido daquele argumento da defesa, acharam razoável que Glasby fosse absolvido. E então todos foram da mesma opinião, e permitiram que a decisãofosselegitimada. Porém para os outros prisioneiros, a maior mitigação que puderam

obter foipoderemescolher quemna companhia os haveria de executar. Amarraram imediatamente os pobres desgraçados ao mastro, e ali eles forammortosatiros,deacordocomasuainfamesentença.

Ao se lançarem novamente ao mar, decidiu-se o destino das presas, detidas exclusivamente para não espalharem notícias deles — o que certamenteseriatãofatalquantoemCorvocoo—quefoioseguinte:asua própriachalupafoiincendiada;obriguedeNorton,foiequipadocomasua tripulação;eocontramestrefoimandadoemboranonavioholandêsilegal, oqueelefezmuitosatisfeito. ComoRoyalFortuneeobrigue—agoracomonomedeGoodFortune —elesavançaramparaalatitudedeDeseadaembuscadeprovisões,que já estavam novamente no im. Foi quando, exatamente como era seu desejo, a má sorte do capitão Hingstone, que transportava um rico carregamentopara a Jamaica, ocolocou nocaminhodeles. Foram todos levadosparaBarbudasealisaqueados.DevoltaàsÍndiasOcidentaiseles encontraram seguidamente com um ou outro navio consignado (principalmente franceses) que os abasteceram de muitas provisões, e eliminaramasuasituaçãodefome.Tantoque,umavezabastecidoscom essa espécie de munição, já começavam eles a pensar em algo que realmentemerecesseosseusobjetivos,poisaquelesroubos,que apenas supriam o que se despendia, de forma alguma correspondiam às suas intenções. E assim rumaram novamente para as costas da Guiné, onde pretendiam comprar ouro em pó muito barato. No seu trajeto para lá, capturaram diversos navios de várias nacionalidades, incendiando uns, afundandooutros,deacordocomoníveldedesagradoquelhesinspirasse ocomportamentoouapessoadocomandante. Apesar do sucesso das aventuras daquela tripulação, só com muita di iculdade eles conseguiam se manter unidos sob alguma espécie de regulamento. Pois, estando constantemente enlouquecidos ou embriagados,oseucomportamentoproduziadesordensin indáveis,cada qual imaginando ser um capitão, ou um príncipe, ou um rei. Quando Robertspercebeuquenãohaviameiospací icosparaadministraraquela

comunidadedebrutamontesselvagenseingovernáveis,nemcomoimpedi-

losdebeberexcessivamenteeprovocartodososdistúrbiosaqueestavam acostumados, ele passou a adotar ares mais rudes e uma postura mais autoritária,corrigindoquemeleachavaquemerecesse.Ecasoalguémse ressentissecomotratamento—declarou-lhes—poderiamdesceraterra etomarsatisfaçõescomele,sequisessem,pelaespadaeapistola,poisele

nemvalorizava,nemtemianinguémali.

A cerca de dois mile quatrocentos quilômetros da costa da África,o brigue que até então os acompanhara numa relação amigável resolveu aproveitar-sedeumanoitemaisescuraparaabandonarocomodoro.Isso leva-me a relatar um incidente acontecido numa das ilhas das Índias Ocidentais,onde eles ancoraramantes de empreender aquela viagem,e que provavelmente poderia ter desestabilizado o seu governo, como realmenteofez,eemparteconstituiuomotivodaseparação.Ahistóriaéa seguinte:

Tendoumtripulante bêbedoinsultadoocapitãoRoberts (onome do tripulanteeuesqueci)este,nocalordafúria,matouosujeitoalimesmono local,oqueprovocougranderevoltaemmuitagente,principalmenteem umtalJones,umjovembrutoe muitoativo,companheirode arruaça da

vítima,equemorreurecentementenoMarshalsea.EsseJonesencontrava-

se então em terra, aonde fora buscar água para o navio, mas logo que subiu a bordo soube que o capitão Roberts matara o seu amigo. Imediatamente ele amaldiçoou Roberts, declarando que ele merecia receber o mesmo destino. Roberts escutou a invectiva de Jones, correu para ele com a espada e a trespassou em seu corpo. Jones, apesar da ferida,segurouocapitão,lançou-osobreumdoscanhõeselhedeuuma bela de uma surra. Essa aventura alvoroçou toda a companhia, uns tomandoopartidodocapitão,outros icandocontraele,eprovavelmente umabatalhageneralizadaseseguiria,unscontraosoutros,assimcomoos galos de briga de lorde Thomont. e Entretanto, o tumulto acabou sendo apaziguadopelaaintermediaçãodocontramestre.E,comoamaiorparte da companhia achava que a dignidade docapitãodevia ser preservada, porseraqueleumpostohonorí ico,nãodeveriaserpermitidoaninguém agredi-lo.Consequentemente,poraquelamácondutaJonesfoicondenado a sofrer duas chibatadas dadas por todos os membros da companhia, o quefoifeitoassimqueelesecuroudasuaferida. Aquela severa puniçãode modoalgumconvenceu Jones doseu erro. Pelo contrário, estimulou-o a procurar vingar-se de alguma forma. Mas, comonãopodiafazerissoali,abordodonavio,contraapessoadeRoberts, eleevárioscompanheirosseentenderamcomAnstis,ocapitãodobrigue, econspiraramcomeleealgunsoutrospiratasimportantesdaquelebarco parasesepararemdorestodacompanhia.Anstissentiaseinsatisfeitocom ainferioridadedesuaposiçãoemrelaçãoaRoberts,queseconduziacom ares senhoriais e arrogantes, em relação a ele e à sua tripulação,

considerando o brigue apenas como um navio auxiliar e que, com base nisso,sórecebiaorefugodosbutins.Emsuma,Joneseseuscompanheiros foramabordodobrigue,alegandoumavisitaaocapitãoAnstis,eali,em consultas com os parceiros, veri icaram que a maioria queria deixar Roberts.Assim,decidiramdar-lhe umsilenciosoadeus — foiessa a sua expressão — naquela noite. Quem não concordasse seria lançado pela amuradadonavio.Masficoucomprovadaaunanimidade,eelesrealizaram oseuprojetocomojáreferidoacima. Nada mais tenhoa dizer sobre ocapitãoAnstis até que se conclua a história de Roberts,quandoentãoretornareia ele,na sequência da sua viagemà Guiné.Aperda dobrigue constituiu umsofridochoque para a tripulação, pois aquele era um excelente barco, e além do mais levava setenta homens a bordo. Mas Roberts, que fora a causa de tudoaquilo, mostrou-se despreocupado em relação àquele erro de conduta e de administração,eresolveunãoalterarosseuspropósitos. Continuou a barlavento até aproximar-se do Senegal, rio de grande comérciodeborracha,naquelapartedacosta.Orioémonopolizadopelos franceses, que mantêm navios constantemente circulando por ali para impediremocomércioilegal.Naqueletempo,dispunhamdedoispequenos barcosparaessetrabalho,umcomdezcanhõesesessentaecincohomens, ooutrocom dezesseis canhões e setenta e cincohomens. Quandoesses barcosavistaramosr.Roberts,acharamquesetratavademaisumdesses comerciantesintrusos,edesfraldaramtodasasvelasparaosperseguire alcançar. Mas a sua esperança, que os levou até tão perto deles, se desvaneceu tarde demais, e ao verem içar-se a Jolly Roger (nome que davam à bandeira negra dos piratas), os seus corações franceses se debilitaram e os dois navios se renderam sem qualquer resistência, ou pelomenos,comquasenenhumaresistência.Comaquelasduaspresas,os piratas foram para Sierraleon, fazendode uma delas seu navioauxiliar, agora de nome Ranger, enquantoooutro icava como navio-armazém e tambémparaseincumbirdalimpeza. O rio Sierraleon desemboca numa ampla foz, onde, a estibordo, as correntezasformampequenasbaíasseguraseadequadasparaalimpeza dos navios e o abastecimento de água. O que torna o lugar ainda mais apropriado para os piratas é que os comerciantes dali são amigos por natureza.Hánototalcercadetrintaingleses,homensqueemcertaépoca jáforamcorsários,bucaneirosoupiratas,equeaindaconservamogosto pelasdesordenseaspaixões,tãocomunsnaqueletipodevida.Convivem

deformamuitoamigávelcomosnativosemantêmváriosdeles,deambos ossexos,comoseusgromettas,oucriados:oshomenssãocon iáveis,eas mulherestãoobedientesqueestãosempreprontasaseprostituíremcom qualquerumqueseussenhoreslhesordenem.ARoyalAfricanCompany mantém um forte, na pequena ilha de Bence, que é de pouca serventia alémdoabrigode escravos. A distância impossibilita qualquer ataque à suapraia,situadaaestibordo.Nelaviveumvelhohomem,conhecidocomo Crackers,equenopassadofoiumfamosobucaneiroque,nostemposem quepodiaseguir suavocação,roubouesaqueoumuitosnavios.Édelea melhorresidênciadolugar,comdoisoutrêscanhõesnafrentedoportão, comosquaiscostumasaudarseusamigos,ospiratas,todavezquechegam para visitá-lo, e mantém com eles um alegre relacionamento durante o tempoquepermanecemali. Segue-seagoraumalistacomorestantedosnomesdoscomerciantes ilegais, e de seus criados, que realizam um comércio privado com os negociantesintrusos,comgrandeprejuízoparaaRoyalAfricanCompanya qual,àcustadeextraordináriaindústriaeinvestimentos,instaloueainda mantém aquelas instalações e fortes, sem levar em consideração todos aqueles que, não fosse isso, logo estariam incapacitados de realizar qualquercomércioparticularquefosse.Peloque,espera-sequemedidas adequadassejamtomadasparasearrancardaliaquelegrupopernicioso degente,quesobrevivedotrabalhodosoutros. Dois daqueles homens entraram para a tripulação de Roberts e continuaramnelaatéadestruiçãototaldacompanhia. Listadehomensbrancosvivendoagora emSierraleon,edeseusbarcos:

JohnLeadstone,trêsbarcoseumapettiauga.

Umcriado,Tom.

Umcriado,JohnBrown.

AlexanderMiddleton,umacanoalonga.

Umcriado,CharlesHawkins.

JohnPierceeWilliamMead–sócios.Umacanoalonga.

Umcriadodeles,JohnVernon.

DavidChatmers,umacanoalonga.

JohnChatmers,umacanoalonga.

RichardRichardson,umacanoalonga.

Norton,RichardWarreneRobertGlynn,sócios.Duascanoaslongas

edoispequenosbarcos.

Umcriado,JohnFranks.

WilliamWaitseumrapazjovem.

JohnBonnerman.

JohnEngland,umacanoalonga.

RobertSamples,umacanoalonga.

WilliamPresgrove,Harry,Davis,Mitchel,RichardLamb:umachalupa,

duas

canoaslongas,umpequenobarcoeumapettiauga.

ComRoquisRodrigus,português.

GeorgeBishop.

PeterBrown.

JohnJones,umacanoalonga.

Umjovemirlandês.

NorioPungo,BenjaminGun.

EmKidham,GeorgeYeats.

EmGallyneas,RichardLemmons.

Oportoétãoconvenienteparaoabastecimentodemadeiraedeágua, quefazcomquemuitosdosnossosnaviosmercantes,principalmenteosde Bristol,dirijam-separalálevandograndescarregamentosdecerveja,cidra e bebidas fortes, que irão trocar com esses comerciantes ilegais por escravosemar im.Essasmercadoriassãocompradaspelosúltimosnorio Nuneseemoutroslocaisaonorte,tantoquealitodoslevamoquesepode chamarumaboavida. Alichegou Roberts em ins de junhode 1721.Foilogoinformadode que duas fragatas de cinquenta canhões cada uma — a Swallow e a Weymouth—haviamdeixadooriocercadeummêsantes,esperando-se queretornassemporvoltadoNatal.Assim,ospirataspodiampermitir-se toda a espécie possível de satisfação, pois sabiam que não só estavam segurosali,comotambém,porteremchegadoàcostadepoisdasfragatas, poderiammanter-se sempre beminformados dolocalaonde estas iriam encontrar-se na volta, o que tornava sua expedição totalmente segura. Assim, passadas seis semanas de permanência, com os navios limpos e

equipados,eoshomenscansadosdetantaorgiaebebedeira,elesentãose lembraram dos negócios e saíram ao mar em princípios de agosto, movimentando-se ao longo de toda a costa, até Jaquin, mais abaixo, saqueandotudode mais valiosoque encontravamemtodos os navios,e certasvezesdemonstrandoumamaldadeaindamaior,quandoatiravamao mar tudo o que não queriam, acrescentando também a crueldade à roubalheira. Durante esse percurso eles trocaram o seu velho navio francês por uma bela fragata, convertida em navio comum, chamado Onslow, e que pertenciaàRoyalAfricanCompany.Obarcoeracomandadopelocapitão Gee, que então se encontrava em Sestos para se abastecer de água e mantimentosparaacompanhia.GrandepartedoshomensdocapitãoGee estava em terra quando Roberts atacou, e dessa forma o navio foi capturadodesurpresacomamaiorfacilidade.Muitoemboraoresultado

nãofosse muitodiferente se toda a tripulaçãoestivesse a bordo, pois a maior parte dos marinheiros voluntariamente se juntou aos piratas, encorajando também um grupo de soldados — que ali se encontravam comopassageirosdirigindo-seaCape-Corso-Castle—afazeremomesmo. Com os ouvidos ardendo das histórias sobre a valentia e a audácia daqueleshomens,ossoldadoscomeçaramaimaginarqueseguircomeles seriacomosetornaremcavaleirosandantes,aliviandoossofrimentosdo mundoe tornando-se famosos,e entãoeles tambémse oferecerampara juntar-seaobando.Masaíospiratassemostraramresistentes,poisaideia quefaziamdoshomensdeterra irmeeramuitodesfavorável,eissopor muito tempo fez com que os recusassem. Até que por im, cansados de tantospedidos,etambémcompenadaquelesbravoscompanheiros—os quais,diziam,iriamsaberoqueépassarfome,alimentando-seapenasde

algumaspitangasebananas—elesacabaramporaceitá-los,permitindo-

lhes uma participação de um quarto dos butins. Eram essas as suas condições,eaindaassim,movidospelacaridade. Havia um clérigoa bordodoOnslow, enviadoda Inglaterra para ser capelãoemCape-Corso-Castle.Algunspiratasqueriamqueele icasseno seu meio, alegando alegremente que o navio precisava muito de um capelão. Por isso ofereceram-lhe também uma participação nos butins, prometendo-lhequeemtrocasóprecisariafazeroponcheepronunciaras orações. Por mais embrutecidos que fossem em relação a tudo, ali no entanto eles demonstraram um grande respeito ao prelado, tanto que decidiramnãoforçá-loa nada contra suas inclinações.Eopadre,semo

menorpendorparaaquelavida,desculpou-seporrecusarahonraquelhe prestavam. Eles se deram por satisfeitos e se mostraram bastante generosos,devolvendo-lhetodososseuspertences.Opadretiroupartido daquela disposição favorável para solicitar também vários objetos pertencentes a outras pessoas,os quais tambémforamdevolvidos,para suagrandesatisfação.Finalmente,elesnão icaramcomcoisaalgumada Igreja,anãosertrêslivrosdeoraçõeseumsaca-rolhas. Ospiratas icaramcomoOnslowparaseuprópriousoedeixaramcom o capitão Gee o navio francês. Em seguida, aplicaram-se a realizar alterações para transformá-lo em navio pirata, derrubando todas as sacadas e proporcionando-lhe um vigor maior, tanto que ele acabou tornando-se, em todos os aspectos, um navio adequado aos seus propósitos,naopiniãodetodos.MantiveramonomedeRoyalFortuneeo equiparamcomquarentacanhões. Acompanhado pelo Ranger, o navio prosseguiu (como já falei) para Jaquin, e de lá para Old Calabar, aonde chegou por volta do mês de outubro.Olugareraomelhoremtodaacostaparaelesfazeremalimpeza doscascos,poisumbancodeareia,aumaprofundidadenãomaiordoque quatrometrosemeio,eumacomplicadarededecanaisconstituíamuma segurançaparaospiratas,aopassoqueparaasfragataseramumdesa io à sua força e um impedimento intransponível, devido à pouca profundidadedaáguaeàfaltadepilotosexperientes,pormaiscertasque elasestivessemdeelesseencontraremali.Entãoeles icaramàvontade, dividindoosfrutosdeseutrabalhodesonesto,ebebendoeafugentandoas preocupações.OpilotoqueosguiaraatéaqueleportoeraocapitãoLoane, que, de acordo com o livro-caixa dos piratas, foi regiamente pago por aquele e também por outros serviços. Esse livro-caixa não era como o comum com o cabeçalho Devedor de um lado e Credor do outro. Muito maisconciso,juntavasob oCréditotodososamigos,enoaltodacoluna, como Débito, vinha o nome do próximo comerciante honesto que iriam atacar. ElestomaramocapitãoLoaneemCalabar,emaisdoisoutrêsnaviosde Bristol. Os detalhes dessa operação nos levariam a uma desnecessária prolixidade, pelo que agora falarei apenas sobre o tratamento que lhes deramos nativos dolugar.Os negros de Calabar nãose mostraramtão cortesescomoseesperava,pois,assimqueentenderamqueerampiratas, recusaram-se a ter qualquer relação ou comércio com eles. Esta é uma prova de que aquela pobre gente, nas circunstâncias limitadas em que

vive,sema luzdoEvangelhoou as vantagens de uma educação,possui, apesardisso,umatalhonestidademoralinataqueserviriadecensuraede vergonha ao mais erudito cristão. Mas isso de forma alguma exasperou aquelesforadalei,quedestacaramumgrupodequarentahomenscomo objetivode forçar umcontato,ou levar os negros aodesespero.Eassim eles desembarcaram, debaixo do fogo dos próprios canhões. Dois mil negros se levantaram num só bloco para enfrentá-los, e permaneceram