Você está na página 1de 183
Um século e Favela Alba Zaluar Marcos Alvito wr ISON — sars53.6 Coys © Ae Zale Macs Avo Die des eit reer 8 EDHTORA FOV Praia de Bao, 190 — 14 ander 12235090 Ria de ane, J — Bri Jel onai-rrm— aan lt estratevbe Soo os weet be Inte no Bl Printed in Brat “Totos os iis reservados. A reprodust no aut desta pubic, 20 tod oe em pre, cosia vinate doeopyrih (Lei 9.61058), Revsho ot Onan « Tzu oo Tar Cocaine snd parallel pits nthe ‘ein ua periphery consist o ll leel deer de Ebth {se Laie Ate Medan ‘Ca: venta Dei Soles Geese cha cnlgrfi abraapla Biren Maio Herigue Sion FGY ‘Un al dela Alb Zar Mason Ait orgs) — ‘Pe Rode lana Es FV, 206, Inc Mog 1. Flas — Asp sodas — Rd ai RD, 2 Bo se an Rf) — Canin sca alae ib. 1A, Maro Feng Cera age, Sumério Introdusio Flo Zar e Marcos Ato ‘as favelos do Rio de Janeeo Morale Bama Bngos “Apslaveat favel” Jone Sout de Ost « Mors Hortense Maer Manguelae Impéro:acarnvallzasto do poder elas escolas desimba ren Selves cos Sortos Galera funk cariocas os bales ea conatituiSo do thor goer Fine Ragin Cech CCapociaealteridade: sobre medlagbes,trnsitos froneiras Um bichodesste-cabesae Marcos Aveo 2s or us Ms 17 11 Crime, medoe polities be Zour CCocanae poderespatlelosnaperiferi wana brasileira: smeagas 9 democratzasSo em nivel local Drogas ¢vimbolosredes de solldaiedade em contexts Margins delingdentsevtinas: um estado sobre a ‘epresentagio da eategoria favelado ao telbunal do jit da cidade do Rio de Janeiro Feseonco oe Prt Reo (Os universitiio da favela Cech. Were, Siva Bagh Ries Feteandes@ bene Botta Poems Dat do Feary Cidade de Deas Fotlo dos Oneras an 209 23 30 9 Introdugéo* (five Zalver (Marcos Aveo ALAR DE FAVELA é fala da histria do Brasil desde a vind so séculopassado flarpartcularmente da cidade do Rio de Janets na Republica, enteecortada por interesesv conti regionals pron tos. Pode-se dizer que as falas tommaram-se ua mates da capital e- eral, em decoréncia (do ntencional) das tentatvas ds repablianos radicais edo tesco do emiranqucimenta —inlindose a o8 men bros de varias oligarqulas regions — para oma uma cidade euro pla Cidade desde otic anseada pelo paradono a derrabada dos cor ‘ios resultw no crescimento da populagio pobre nos morte, carcos ‘demais Sess vavias em torno da expt, Ma eso tanbém se deve 8 ‘sitvidade cultura e polit &capacdade de st ede organizago de ‘monstradas pelos favelados nos 1) anos de sun histia. Ea capital le eral munea'se tomou expe, gracas 8 fora que comtinsaram ter nel a capoeira (ou perada ou batucada, as fests populares que ainda ‘euniam pessoas de diferentes clases soci e raga, a diversas formas Espero manque um web eo popular pecans © ‘Mas a favea fou tab segistrada ofcalmente camo a Sea de Inbitagoesieegularmente construlas, sem aruamentos sam plano ub ‘ho, ser egos, Sem gu Sem hz Desa prearedade bans esulado { pobres de es habitats do desens do poser ulin surgiram as imagens que Hera da velo haga da area, la, do vaio ase * Ganramos de agradecer pe. Zana Cai, qu ea aida psa ne eo quae {sere pment hm che ees i Pe renchido pelos sentinentos humanitirioe, do pig a ser erradicado pois exten polticas que Rueram do favelado un bode expats fos problemas daidade 0 “outo"dstinto do moradorcvlizado da pv tne metipoe que o Beal eve, Lugat do lodo eda or ie le nae, [gr dae mais eas vista edo maior acmalo de sjia ugar da nurs csepinia de tants sambisas, desde sempre, eda wolnci dos mais ‘moss handidos ques cide conoeu ltmamente, a favea sempre ks ‘tou e continua a inspira tanto imaginsrio preconcetuno dos que ‘ela querem se dings quanto os tanto poeta e esos que cate ‘ram su ras formas de marca vida bana no Rio de Jane. Do duismo que persist em mists dap ati interprets das faves, 0 Arquivo Nacional no Rio de Jneito, guard um interessante documento datado de 4 de novemro de 1K Tate de uma crt do delgado da 10" cxcunserigo ao chete depois dr. Eas Gav. Neb pode ler: bedecendo ao pedido de iformagaes que V. Excla, em ofcio $0 1° 7072, ontem me diigivrelatvamente a wm local do oral 1s Bras, qe diz estar moro da Providenca infestado de vag trundos¢eiminosoe questo bres das familias no loa de- ignado, se bem que no hsp fas no eal designade,€ al im possvel ser foo poliamento porquanto esse lel, foo de Sesertores, Ins e pragas do Fadel, noi Tuas, os casebres ‘So cosuidos de madeira e cobetos de snc, enio existe em tooo morro um 3 ico de gis, de modo qu pare a completa ex ting dow malfetores apontados se toma necesirio um prance ‘ero, que para prod estado, precisa pelo menes de un a xo de 80 pragas completamente armada A proposta do crc, prossegue o delegado ner ao menos era ink bite ‘os livros desta delegaci const te al sido fia uma diligncia pelo mew antecessor que feve Eo, endo, com um contingent ‘Se 80 pga, captas, numa 86 me, ceca de 92 ndivicvos Pergo, exh i Me porn ot, gw dln a0 de de polices Pareceentetant, que o meio mais prtico de car completamen te limpo o audio morro ¢ ser pela Dieta de Sede Psi o- dead a demoligo de todos os parce que cm al sito see nla, pos 880 edicadce ser a respctvalcenga mucpal ¢ fo temas devas conde Nghe Saude e fatenidace, odelegado ‘A carta do dlagado fl encaminada a ur assessor do chefe de pols, acompanhaca o seguinte parecer, datado de 8 de nove de {0 Pareceme que a0 se. refit devem ser pedidas, a bem da ot dem e moralidade publics, a providéncis que jugar neces ‘as para aextingo dos caret pardiviros 2 que aude o dele ao. Dois das depois, com um lacdnico "sim", @ dt. Enéss Calvo, cle de palit do Dstito Federal endoesava o parecer de se assessor ‘Aqui petemos of da meada histrica en saber se jamais 0 pref to vei areaber tal cerspondencis. De qualquer forma os dole Joc- mentee exstntes no Arguve Nacional sfo importantes pox dois mot ‘vos. Em priniro haga, mostram que © "morre da Fave”, apenas rs anos depais de o Minstéto da Guerra permite que al ves ase lo Jar es veteranos da campanha de Cantos (terminada em T° de outubro {de 197), era perebide pels atoidades polis como um “Toco de Sesertoes, Indo eprgas do Exérito™E mais a cara do delgado da AW" reunsergs0 parece cones 9 primeira mengin 8 fave como ons liarquas das provinis que apoara o olpe de Fado des fechado pelos mitre © que paseo 3 tri emia proclamacio da Republics”? Qual lugar que ela ceupaa fave que reaches ses mo dons do ssaltoe dome, mart ents? ’ claescagto bipolar surge de inn sem soca imaginads de tal mode que gualqer ambiguidade, rontera sombyenda e exper ontimis ofrecer pcos instruments part pens ses proletas: esa claslengio€devedora de una orem sol que se esrb na clare ‘ade quem s30 on amigas emis on sea wa ordem prémode- 9 das socidades de pagum ex an provi, mas ifisimete pict v metpoleNevos arte etans no evade {higu urge se mar do ag do mara, os qe pn ton somo enpo do ponniate das rae sored da {ado quente aver, mando mtr camer ee sign ¢ rig Ora cenit ope represen pos Intra de oem e drt qu senge races 0 Ri ef elo Mesos, poste! ec fa mem cide, errs Imai de leona com exe, og 10 amigo ne trig ani como dre moos de coos pin ete sig © tumigs Ei ur se apecne sree de on,» pr Noto owe sc afc epecinent sae A ede clap mio pes contro. thea ene cna, os Fado Unies logo sn es nn 5S el og feos uo oe i Un porimigrnts qu sind ns va neg oe ake {tno Jv Rio elanaepsterente ots das res drs neon peo pm, us veces popula a {Sco desanbn oto decal ene eb par re Struts exper asad ene ce. Viv regi eto {Ep carded eee on gangs ideas 0 Contos cram manent iknow spe pte 3 igure ser ferns eon en dere sop ere ica ede ban ‘oto gr psa sera snes de ads edness ee precrfurdn ec agen, een nmi deseo ‘Esse um chs psa vt queen aber pobre deo {old steal comctr ama sai da csc Sa mans lg0 {ese ain antansunsd sinone ro no gua se bse he eputgies dor homens pes uv vem porns anges {onus r hves dv ome ¢goe nceam @eepecmen pes trete qu ange como neg onan ® RoR dene aade ceo tir pbs ea vel sem ec tnlmento confit let expense ne poe dos {ise cone cave acpi sprnos ee Sess nis morc smo ems ties ‘SEs que pega une scones s mitre fer como Sedo dave sme prune av ota anand pla inna pete arn span comnts ester nese his une eee amen Aas de tata depose vi: © Emir muvendo, ambi pesos ees ea matt to moe ei on em cheer 9 fetes rncis con bcm sete ns Ens Ui [io e pode dear de subliaha também a cpacidade de ata dos favelados ra defesa de sea bale estilo de moras, Ape 100 anos de Tata, empregando dierents formas de rganizacio ¢ demanda poltin, inchsive o-camaval, a favela vence. Hs menos de duss decades, rmodou a leislaio, e hoje a fava ¢ feta cde habits em alvenati, Os frags barracos facimente destrtiel,desapareeram, Desde © fsa dos anos 7a favela tem lz em cade cara, Durante os ance Sela aut tin servigos, mas ou menos precirios, de dgua eengoo. Ninguém ala mais de remocio, Mais recertement, os projets de ubanizagi aan ment, fato de pequenasvtorisscumlladas do movisento de Favela: sis, fazem surgi ruase pragas, mals ou menos planeadas, ma 0 ‘menos dscutias com a populagio local Tudo indica ques faves garan- tid a continidade da pottica poli, independenemente do partido politico no poder, pert ter fnalmente si infestrtutauibana cele. {te melhorads, tansformandose em bart de cidade. Ertan lita ‘sth loge determinar- Nao s8 porque os prjetos so lente ple ‘mentados, mas porque hoje a faves enfentn novos textes pole. ‘mas em face do terror impesto tanto pla poi, na epreaio 90 to, ‘quanto eles propriestafcane, cada ves mae alstados da populgio Iba. Alam disso novas confite surgiam eameaaraqulo gue fer da favela um espace propico a organizagio e 3 eiagio caltral, ve do constrangimentos da erengsincorestada, do maniguemo ed ite "inci eligiosos fe a faveladesapaecer? Fetudar uma favela cavoca, ho, € sobretado combate: certo Senso comum que possi longa hse e um pensamento académico ‘que apenas reproduz pate das images, iis e pitica correntes Que Ihe diem respi. certo pon, mayer as eapas de elboragto de ‘uma mitolgin urbana. & também tentar masta, por exempo, que af vela no €o mundo da desordem, que sei de ceénia (comunidades ‘rents, de fla, insufcente para entende la E,sobetudo, mostrar ‘que a favela do pele, nem ents 3 marge: Acai, por exemple, € 0 ett, o nd deus sce de prise eeatagis de grupos ben expec feos a burocracia municipal stadsale federal, polticone/ou candid tos, jomalitas,policas, membros de endades cvs lls e religions, assotiagoes de moradores,comeciants, taints, moradorer em era «ls bu not es, pesquisadoresataando de forma perene os cessor) no no catsiano da fave, Cidade de Dew, conjuto habacor ‘al constrldo om odinheiro da Alianga para o Progresso num projets de Caves Lacerda, vnga se dos defensoves da remoqio e repro, no Plane horizontal cheo de rus epragas, todas ae formas de asocagio © todos os problemas que existam nar 23 favelas de onde vera seus mo sdres A favela lege politics (ou os la ai er desgags), propor: [a Un Stevie de fovelo material pats um produto midi valloso soba forma de med ot (Stranhes, gern financiamentos racionais einlernacionas arto pars (ghee dieas de carder asistencia e/ou rlgeso quanto para pes SSS favela€ o campo de Batalha frequents pla cnquista daopingo Dublin £0 espago de priticas de eniquecimento (ate « kt), & 0 palo de ages gue se lrtduzem em promogdes a carr, em presto fn desgag unto aos pares (do quate ou da academia, por expo). E Sempre fo! sbreudo © espogo onde e predua o que de mais oiginal Se crow clfralmente venta cidade: o samba caola de samba, 0 Beco ‘de camaval, 9 capoeira, 0 pagode de undo de quintaly 0 pagode de ‘habe, Mas oe mbm ef utr po de musa (como ofl), onde “Se escrevem tives onde se compe verso besos anda no mus dos, nde se mont pers de etro, onde Se paticam todas as mods Tidades esportvas, dexedbrindose novos signiicades para a eapoets, isto de dang, esport eta ritaizada ‘Osatigcs dete vo comprem ens fngiodesmisifcaora de d- ‘vetsas forms sino sa leu variado de temas s pliteas publics, ‘or favelados” dant do trbura do ii, sepresetagi da fovea a ‘Ska popular Brasleia, s novos confitos regan e famares que div ‘dma fvsaiternament,«guerta de sibolos no “amp religinso"as “cols de sa, sun tages e patos, 0 ico de droga seprs So poi es taeformaghes da tinsmica Joa 6 organlzagbes com rls e os desfios no avango da cidodania raldade ee galeras Jk, os trajeténaeindvidune de “feelades” qu chegam 2 universida- ‘de A lima playa fe por conta dos vtsos de Deley de Acre abl {oda Cae de Deus, potas emoradores de favelas, ps lia nose ‘Sh qu somente os poets so capazes de encergaro pasado eo fr Notas 1. Breas (195770, 2 Apia Zlberberg 095228) Ap Zlbrterg 0952210, 4. Apad Zytberberg (99239, 5. Dusham 097389) 6.Carvatho (19816. Arendt (0987) a. 9 Habermas (93). 10, Sasen (991) eCastel de Molenkop 1982). Gomes (96. 12. Vlas (996), Cabral (19), Vianna (195), Gadel (1996) Braga (957). 18 Visi, Pimentel & Valen (955, 14. Bauman (1995) 15 Janos (590, Referéncias bibliogréficas Avent Hanah A condi ama Se Ri de Jani, Forense Universi "9, 1987335, [Azevo, Also de, Mis, Mas Mats. ode Janez, Nova Front, 1385 Bouman, Zygmunt. Mdrty and ambiance. Ine Featherstone, ke (od). Gla ure 7 ed London, Sige 1995. Braga, Sebasto, O lentir Pingu. Rod one, Meigs 197, Betas, Marcos. gues rs ou ee ide de i de fone. Rio lanes, Arvo Nacional, 297 owe, Renato, Popul faa do esto Guta. Rio de Janet, ‘Dos, 1970 Cabra, Sergio As els de ota do Ris de Jair. Rio de Janez, Lamia, ‘Cara, Maris Ale Rezende- Quatro ees elie. lode Jani, Ste Lex (Css Manu e Mallonkop, ohn (es). Dal iy: vesracturng Naw Yok ‘New Yoo, Russel age Foundation, 922 ‘Dirham, Eunice. cami aide SS Palo, Perspect, 197. ‘Gadel, André © ent ere Bona Sin. Ri de Jane, Boteca Cae noe, 156, Games, Resto Cafe do Ro, Rio de Jane, Reme Duar, 1956 iakermas, Jigen. onsnnt pemfie io de Jane, Tempo Base Jankowski, Marin anche. eae He st Behees, University of Cal tora Prees, 19 Pera, Jie. The myth of magi. Berkley, Univers of Calor Sten Sasha The gl! cle New Yor, London, Talo. Princeton, Princeton University Press 19 ‘ells, Moi Peta, Mart mo Rid ci. Ri defn, Funda "0 Geto Vargas 196 Vianna, enano. © mits Rs defn, Joge Zaha, 1985. ‘Vii, L. Pimentel. & Vaan, 5. tin earn drei, oa ecb de Gers Peri Ri de er, Reams Damar, 1938 2ylerberg, Sia. Mo dt Provide: mara de Feel io de ane, ‘Seren Meniipl de Calta, 1982 (Cleo Bsitca Carioca) FAFICH/UFMG - BIBLIOTECA Dos parques proletarios ao Favela-Bairro as politicas puiblicas nas favelas do Rio de Janeiro* Amo iro Riso Ta MAIS DO QUE uma cronoogi das intervenes pblcas em fave las do io de Janeiro, este wabalho pretend caacorar 0 nex extent lente 35 reprsentagdes do "problema fala” ¢ 9 aiagSo, fem 90 ‘mesmo, do poder publico ede nstiulghs sais como a gre Caio, CConsderando que oinkio das potas publics em favelas do Rio remonta década de 4, es erospectiva percore 50 anos de hstria de intervenes, dado que indica a extrema difculdade de resohugto do problema. Fado fo! por fala de vontade pica que o problema favela Adeiou de ser resnvide:o que o came dessasintervengoes publics em favela autora a conclu € que o obstcul central sua solu fa ain ‘erred, pel regime muta, da lata democratzante que winks sendo