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Regina Celly Nogueira da Silva

Departam ento de Geografia - FFLCH/USP

RESUMO:

Este artigo visa apreender as diferentes form as de uso do bairro enquanto um fragmento no vasto universo que é a cidade, lugar que guarda um a singularidade, antigas e novas form as de apropriação e uso mas, principalm ente, uma identidade histórica/espacial. PALAVRAS-CHAVE:

lugar - bairro - uso - cidade

RÉSUMÉ:

Us'agit de prendre en com pte les differents m aniéres de l'usage du quartier com m e un fragment dans le vaste univers qui est la ville, lieu qui garde une singularité, anciennes et nouvelles form es d'appropriation et d'usage, mais principalem ent une identité historique/spaciale. MOTS-CLÉS:

lieu - quartier - usage - ville

"Mas porque estar aqui é excessivo e todas as coisas parecem precisar de nós, essas efém eras

que estranham ente n os solicitam . A nós, os m ais efém eros. Urna vez cada uma, so m en te um a vez. Uma vez e nunca m ais. E n ó s tam bém , um a vez, jam ais outra. Porém este ter sido um a vez, jam ais outra. Porém este ter sido um a vez, ainda que

apenas um a vez, ter sido terrestre, não revocável." RILKE

parece

1Este trabalho foi elaborado no primeiro sem estre de 1997 enquanto parte do exam e de qualificação. 2 O Bairro da Torre localiza-se a sudeste do centro antigo da cidade de João Pessoa no nordeste brasileiro. Enquanto

um

dos bairro mais antigos da cidade de João Pessoa,

O Bairro da Torre2 pode ser considerado co­ mo um a realidade que abrange ou encerra muitos elem entos, observáveis sob diferentes aspectos e que responde a diferentes form as de uso: é o lugar por excelência de um habitat, um lugar de trabalho, um lugar onde o m orador passa o seu tem po livre e visita fam iliares e am igos, ou ainda um lugar de

visto que a sua origem data do final da década de 20 d e ste século e n q u an to um e sp aço em in e n te m e n te residencial e hoje se tran sfo rm an d o em um bairro prestador de serviços a cidade de João Pessoa.

30 Revista Geousp, n2 3, p. 29-37, 1998.

passagem para outros lugares da cidade. Todavia, co­ locam os a seguinte questão: em que m edida é pos­

sível afirmar as várias formas de uso do bairro da Tor­ re? E, quais as su as várias faces? As diversas form as de uso do bairro são veri­ ficadas no dia-a-dia das atividades estabelecidas pelo morador. É a nível deste estabelecim ento prático-co- tidiano que se travam os em bates e as lutas pelo uso

e

É

no ato de apoderar-se do lugar que o morador vive essencialm ente os sentidos da vida e as dim ensões da existencia, tendo-se em vista que, é no viver o lu­ gar que se encontram as resistencias ou o que na denom inação de Lefebvre é concebido com o os resíduos irredutíveis ao dominio da lógica, da razáo (SEABRA, 1996, p.71). Buscando encontrar "os resíduos irredutíveis ao dominio da lógica e da razão" é que nos debru­ çam os sobre as diferentes formas de apropriação do

nesta perspectiva que Henri Lefebvre afirma que é

pela apropriação do lugar (LEFEBVRE, 1979, p.85).

Bairro da Torre. O morador, ao viver a cotidianidade do bairro, privilegia certos usos em detrimento de ou­ tros, rechaçando-os ou aceitando-os por distintos mo­ tivos (SILVA, 1993, p. 88). Ou ainda, nesse viver a co­ tidianidade do bairro o m orador tem acesso limitado

a determ inadas form as de uso; esses limites são im­ postos pelas relações sociais que ai se estabelecem

e que se expressam no processo de segregação dos lugares no interior do bairro.

O

uso é aqui com preendido com o um con­

ceito que nos perm ite apreender as diversas formas de apropriação do bairro pelo morador, m ediada por um a prática social criadora que explora o encontro,

a festa, a brincadeira, o trabalho, o simples cam inhar

pelas ruas e, sobretudo, o habitar poeticam ente o bairro. Por outro lado, o uso é tam bém revelador das fo rm as de p ro p rie d a d e q u e se c o n tra p õ e m à apropriação (SEABRA, 1996). Nesse sentido, o uso se liga ao bairro, ao local e nos permite apreender tanto as possibilidades, aceitas ou rejeitadas pelos m oradores, com o os li­ mites que aí se estabelecem e se expressam na sua

Regina Celly Nogueira da Silva

paisagem urbana e na vida dos seus m oradores, seus trajetos e percursos dizem respeito à vida apropria­ das pelo corpo e tam bém com o consum o do espaço (CARLOS, 1996). É habitando poeticam ente o bairro que o mo­ rador constrói ao nível do vivido um a relação afetiva com o lugar. Para o m orador o ato de habitar significa, antes de tudo, o sentir-se em casa, o manter-se afeti­ vam ente com o outro. É o não ter sentim ento de es­ tranhamento diante do lugar. É o sentir-se familiarizado com as calçadas por onde passa, das quais conhece todas as pedras (HALBWACHS, 1990, p. 134) e que des­ pertam o sentim ento de enraizam ento no lugar. Pode- se dizer que esta é um a das prim eiras e mais im­ portantes formas de uso do bairro pelo seu morador. Talvez tenham os algum a possibilidade de com preender esta questão, guiando-nos por uma citação significativa de Simone Weil: "O enraizamento é talvez a necessidade mais im portante e mais des­ conhecida da alma hum ana e um a das mais difíceis de definir. O ser hum ano tem um a raiz por sua parti­ cipação real, ativa e natural na existência de um a co­ letividade que conserva vivos certos tesouros do pas­ sado e certos pressentim entos do futuro" (WEIL, 1979, p. 317). O próprio m orador da Torre com pre­ ende esse enraizamento:

realm ente é um a coisa m uito im portante e boa, porque você m orando m uito tem po num canto assim é certeza que você tem tranqüilidade, né! Pra m im é gratifícante m o­ rar há quarenta e cinco anos num a casa, porque eu tenho tranqüilidade, num é! Foi onde eu construi m eu lar e a tranqüilidade gira em torno disso. Adoro p assar p elo s

lugares, porque em todo o canto que eu p a sso eu ten h o a m igo s e m u ita g e n te conhece a m im e a toda a m inha família. Em todo canto que eu p a sso , eu ten h o conhecim ento, é m uito bom a turm a m e conhece bastante. Como m orador antigo do bairro, eu tenho um conhecim ento profundo do bairro. Tem p esso a s que m e conhecem , fala o m eu nom e, que às vezes eu não se i nem quem é, se i que m ora no bairro, m as é preciso dem orar um pouco para recuperar

a

m em ória e saber quem é (Seu Zito).

As várias faces do uso do bairro e a cotidianidade do m orador

Na Torre, ainda se conservam vivos certos tesouros do passado. Esse sentim ento de que nos fala Sim one Weil, é perceptível através da sua pai­ sagem . Entretanto, essa relação afetiva do m orador com o bairro é algo com plexa e feita de várias m a­ neiras. Cada rua, cada pedra, cada praça, a simpli­ cidade de suas casas traz sua contribuição para a es­ sência afetiva, assim , cada parte do bairro contribui para chamá-lo ao imaginário do seu m orador (WEIL, Idem, Ibidem, p. 172). Deitar o olhar sobre algum as ruas ou lugares que se localizam no seu interior com o: as ruas Marroquina Ramos, a Hortense Peixe, a Joaquim Tor­ res, a Feliciano Dourado, a Professor Paredes, é nos depararm os com esse tem po passado que insiste em perm anecer, de casas sim ples com pequenos terra­ ços e cadeiras nas calçadas, enquanto local da con­ versa, da troca de inform ação, da sociabilidade. O portão e o muro baixo, os velhos nas esquinas con­ versando no final da tarde, a porta da frente aberta onde basta um olhar para se ver o fundo do quintal, crianças jogando bola na rua, muitos seriam os exem­ plos para justificarm os esta realidade. Esse habitar poeticam ente o lugar ainda é um a realidade possível para o m orador do Bairro da Torre. Sobretudo, aquele morador que habita ruas que se m antêm residenciais, abrigando m uitas vezes ap en as um pequeno co­ mércio local, do próprio bairro, que atende ao seu

m orador a exem plo dos arm arinhos, das m ercearias

e das oficinas de pequenos consertos. Algo que nos cham a a atenção são as suas

antigas vilas. As vilas são resíduos de um tipo de mo­ radia que rem onta à gênese do bairro. No passado, elas eram com uns, tendo-se em vista a escassez de

m oradia na cidade de João

Pessoa. A m oradia na

Torre sem pre esteve voltada para atender a um a po­

pulação em pobrecida, oriunda do interior do Estado, que migrava para a cidade expulsa de suas terras pe­ las constantes estiagens, como tam bém por questões políticas ligadas à luta pela posse da terra. Essa população via na cidade a única possibilidade para sobreviver ao violento processo de expropriaçào.

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Esse tipo de m oradia abrigava tam bém uma classe trabalhadora em pobrecida, desem pregada,

em purrada para os subúrbios da cidade. Ou ainda, m oradores do próprio bairro, filhos de antigos m ora­ dores, que casavam e não queriam se afastar das suas famílias indo m orar em lugares mais distantes. Quase sem pre são casas conjugadas, com um a porta de entrada e um a janela na frente, possuindo às ve­ zes um pequeno terraço, um as de frente para as ou­ tras. Algumas vilas possuem um a só entrada, e outras ligam muitas vezes duas ruas paralelas, o acesso qua­ se sem pre é pelo oitão3estreito da casa do proprie­ tário que, através da sua presença m antinha a ordem

e

liares já existentes e os laços de solidariedade m útua que resultam na apropriação do espaço e na sociabi­ lidade típica do lugar. Um antigo m orador do bairro da Torre nos relata a existência das vilas dizendo/

Eu m esm o tenho um a vila aii na General B ento da Gamar, com dezenove casinhas, riaquela época nào existia conjunto habita­ cional, quem tinha um quintal grande fazia um quartinho e alugava, outro quartinho e alugava, e ai foram surgindo as vilas. A vila Patriarca, a vila Ponce León, a vila Levi e outras. Essa população vinha do cam po ou daqui da Torre m esm o. Os fílhos iam ca­ sando e iam para onde? A í que alugavam um quartinho num a vila para ficar próxim o da família. ( Sr. Vitórío Trocoli).

a boa vizinhança. É a articulação de vínculos fami­

Nesse sentido, se por um lado, as vilas ex­ pressam na sua realidade sócio-espacial as desi­ gualdades e contradições de um a sociedade hierar- quizada e dividida em classes sociais, por outro lado, elas são lugares onde o nível de solidariedade ainda

é exercitado, as relações de am izade e vizinhança

tendem a se aprofundar e se tornarem mais duradou­

ras, sobretudo por um a questão de sobrevivência

3 Oitão- cada uma das paredes laterais da casa situada nas linhas de divisa do lote. Cf. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Tiovo Dicionário da Língua Portuguesa. Ed. Nova Fronteira, 1986.

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dessa população. É lugar com um o conhecim ento e

a participação m útua. Tais relações se estreitam na

cotidianidade através do encontro, sem pre freqüente das festas com em orativas, a exem plo das com em o­ rações juninas, das festividades natalinas, dos bati­ zados e dos velórios. Estas são algumas dentre tantas outras form as de envolvimento. Todavia, os pressentim entos do futuro, de que nos fala Simone Weil, m udam o sentido do habi­

tar o bairro. Hoje, muitos são os m oradores que utili­ zam o espaço da casa para o com ércio. Criam-se assim, por um lado, novas possibilidades de ganho e, por outro, um novo sentido para o lugar. Utilizando

o m esm o espaço de moradia, os m oradores montam

na parte de baixo ou na frente da casa pequenos esta­ belecim entos com erciais, tais como: lanchonetes, fiteiros, m ercadinhos, arm arinhos, oficinas de pe­ quenos concertos. Esse novo sentido de uso da casa, deve-se, sobretudo, ao processo de em pobrecim ento crescen­ te dessa população, que procura na multiplicação de pequenos negócios se defender da crise econôm ica por que passa o país. Ou ainda, chegando-se a ca­ sos extrem os, quando o capital e o progresso, com sua força devastadora, operam m udanças considerá­ veis, expulsam o m orador da casa e adentram pelas salas, quartos, cozinha, impondo-lhe um novo senti­ do ou, para o morador, a falta de sentido. A casa e o bairro já não lhe pertencem mais, quando muito, ele os carrega apenas em sua memória, a exemplo do que nos diz um morador:

O problem a do dia-a-dia do bairro hoje é diferente de seu s quarenta anos atrás. Por­ que aqui nâo existia nenhum a atividade

com erciai ou industrial que desse para o p o ­

deslocava

para outros locais; para o centro da cidade, para as indústrias. H oje a maioria do povo que m ora aqui, p o r causa do crescim ento do bairro vive aqui m esm o, trabalha aqui

esm o, convive aqui m esm o. Tanto através

de um com ércio ou na pequena indústria ou ainda com o em pregado. O que m udou ais no bairro fo i isso. A m aioria do povo usa o bairro para m oradia e tam bém para

m

vo sobreviver. Então o povo se

m

Regina Celly Hogueira da Silva

um pequeno com ércio de sobrevivência. Pa­ ra você ter um a idéia, hoje eles adotaram fazer a parte de baixo da residência com ér­ cio e fazer um tipo de sobradinho para m orar em cima, que dizer, eles usam hoje o bairro assim pra própria m oradia e pra sobrevivên­ cia. A diferença é grande do tem po passado

p o r causa disso. (

m uitos ainda m oram no bairro outros se m u­ daram para a praia e outros bairros, os novos que vieram para cá negociam aqui e m oram

em outros bairros. (

bém é que m uita g en te vendeu seu im óvel

)

Os com erciantes antigos

)

O que ocorreu tam ­

saiu da Torrepara outros bairros m ais tran­

e

qüilos. (Seu Zito)

Hos últimos anos da década de oitenta e iní­ cio dos anos noventa, o bairro viu se desenvolver uma econom ia urbana pautada no setor secundário

e terciário. Lojas de peças para autom óveis, conces­

sionárias de carros, consultórios m édicos, clínicas

m édicas, depósitos de material de construção, que

passaram a se concentrar nas avenidas principais que cruzam o bairro na sua porção central, e nas suas laterais, e que servem como corredores de circulação

e eixos de ligação do bairro com outras partes da ci­ dade. O seu ritmo se intensifica, as pessoas passam

a freqüentar o bairro a procura de novos serviços,

suas ruas se tornam m ais m ovim entadas e a sua paisagem social se transforma, criam-se novos signos

e significados para o bairro. E ntretanto, cam inhando pelo interior da Torre, encontram os ainda pequenos negócios e for­ mas de trabalho que rem ontam o seu passado. Has esquinas das Avenidas Bento da Gama com a Car­ neiro da Cunha, na Barão de M amanguape com a Manoel Deodato e na Manoel Deodato com a Julia Freire, é possível encontrarm os as antigas m ercea­ rias4 com suas portas altas e largas que quase sem ­ pre abrangem as transversais, com suas paredes pou­ co acabadas e seus balcões de m adeira desgastados

4

Loja onde

se

vendem

a retalho

gêneros

alim entícios;

arm azém . Cf. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Tiovo Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Hova Fronteira, 1986.

As várias faces do uso do bairro e a cotidianidade do m orador

pelo uso, as m ercadorias expostas nas prateleiras guardando assim um aspecto de um tem po passado,

com o tam bém , antigas form as de negociação, com o

a caderneta, onde o m orador com pra para pagar no

final do m és e volta todos os dias para realizar alguma compra. Q uase sem pre são fregueses que moram no bairro há m uitos anos e construíram no dia-a-dia rela­ ções de confiança m útua com o proprietário. Mora­

dores que quase sem pre possuem pouco poder aqui­

sitivo e que não se sentem à vontade para freqüentar

o superm ercado. Essa form a de com ercialização é

rem em orada pelo morador:

A qui na

com pram nas m ercearias para pagar no fim

do m ês, com caderneta, e com pra todos os dias, to d o s o s dias um pouquinho, tem

orador que nunca entrou no superm erca­ do Frimo5 (Seu Zezé).

m

Torre há

m oradores

que

ainda

Aos domingos, dia de feira, o ritmo do bairro intensifica-se, so b retu d o , ao redor do m ercado Joaquim Torres, quando um núm ero considerável de pessoas se deslocam em direção ao m ercado para as com pras. O m ercado Joaquim Torres foi cons­ truído em terreno doado pelo Sr Joaquim Torres, sendo inaugurado pelo então prefeito Miranda Freire em 30.11.1962. Contudo, anos depois, na adm inis­ tra ção do en tã o P refeito H erm ano A ugusto de Almeida, o m ercado passou por reform as considerá­

veis, sendo assim reaberto em 14.03.1979, no m an­ dato do Prefeito Dorgival Terceiro Neto (SILVA, 1997).

O

m ercado abrange um a área total de 5.060,00m e

possui apenas 1.260,00m de área construída, contém 69 boxes e 190 barracas (JOÁO PESSOA, 1985), ofe­ rece um a grande variedade de produtos hortigranjei-

ros e atrai a população residente no bairro, como tam ­ bém , pessoas de outras localidades da cidade. Esta prática não atende apenas a um a população pobre,

m as tam bém

um a população de um m aior poder

5

S uperm ercado

Avenida Jo sé

Américo de Almeida- Beira Rio, com instalações m odernas

e um a grande diversidade de produtos.

construído

em

1990

na

3 3

aquisitivo, sobretudo do próprio bairro. Ao redor do

m ercado, concentram -se aqueles pequenos serviços

com o os arm arinhos, as lanchonetes, os sapateiros,

e um número considerável de carroceiros6 que trans­

portam as feiras dos usuários que m oram naquelas im ediações ou em lugares mais distantes da cidade. Vale salientar que esses carroceiros são tra­ dicionais no bairro e podem ser vistos, sobretudo,

aos sábados e dom ingos quando o m ovim ento do

m ercado aum enta. Eles se aglomeram ao redor do

m ercado a partir das 5:00 horas da m anhã e só se

vão ao entardecer quando a feira acaba. Q uase sem ­ pre são trabalhadores oriundos das vacarías que se

localizam às m argens do rio Jaguaribe ou nas suas proximidades, vindo ainda de outras partes mais po­ bres da cidade. Pessoas que trazem em sua história

de vida uma origem rural e com o eles próprios dizem "para sobreviver na cidade adquirem uma carroça pa­

Durante a sem ana, com um ente são

vistos transportando outros tipos de m ercadorias

como material de construção e m udanças, atenden­ do quase sem pre a um a população pobre que reside tanto no bairro como em outras partes mais distantes da cidade. Os carroceiros significam, à sua maneira, resíduos de hábitos ainda rurais encravados no inte­ rior do bairro e da cidade de João Pessoa. Segundo Maia, João Pessoa é um a cidade que ainda guarda no seu espaço urbano a existência de hábitos rurais. O encontro nas ruas e avenidas da cidade com as carroças e pequenas boiadas, desve­ lam a resistência de hábitos rurais no interior da pró­ pria cidade e do bairro. Maia constata que em João Pessoa o campo não se limita apenas a ocupar as bor­ das do seu tecido urbano, m as entranha-se pela sua

ra ganhar a vida"

m alha urbana, através de vazios urbanos, nas mar­

gens dos vales dos rios7que a entrecortam . São nes-

6Carro grosseiro, geralmente de traçáo animal, para cargas. 7 Nos vales dos rios Jaguaribe, Timbó, Laranjeiras, Cuiá e

de

Bomba que

João Pessoa.

entrecortam

a m alha

urbana

da cidade

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ses espaços que se encontram vacarías, currais, granjas, pocilgas e chácaras, onde, de urna forma ou de outra, realizam-se práticas de trabalho tipicamente rurais (MAIA, 1994). Desse m odo, ainda é possível nos depararm os com a presença de animais bovinos e eqüinos passando ou pastando em terrenos vazios, praças e áreas vazias da cidade e do bairro da Torre. Não obstante, a prática destes trabalhos e/ou hábitos rurais estão presentes na Torre, na margem esquerda do vale do rio Jaguaribe. A prática mais usual é a da criação de gado leiteiro ou de corte, quase sem pre praticado por um a população carente como forma de sobrevivência mas, tam bém , por um a população que possui melhores condições de vida e que faz des­ sa atividade um a segunda fonte de renda, servidores públicos, trabalhadores liberais. Desse modo, ruas, praças, esquinas e outros lugares estão lá, com seus usos e sentidos habituais. De repente, tornam -se outra coisa: a rua vira trajeto devoto em dia de procissão de São Gonçalo, vira o espaço da festa de São João com suas fogueiras e seus pavilhões, as esquinas local do encontro e da conversa dos velhos, as áreas vazias local de pasta­ gem para o gado. Na realidade, são as práticas sociais que dão significado ou resignificam tais espaços, atra­ vés de um a lógica que opera com muitos eixos de significação: casa/rua; masculino/feminino; sagrado/ profano; público/privado; trabalho/lazer; proprieda­ de/apropriação e assim por diante. Para a Torre as festas eram consideradas muito mais do que um sim ples evento social. No pas­ sado elas tinham um com ponente afirmativo referido ao estabelecim ento e reforço de laços de sociabili­ dade, desde o núcleo familiar até o círculo mais am ­ plo que envolvia os amigos, os chegados e até desco­ nhecidos" (MAGNANI, 1996). Assim, a festa, enquanto um a prática cultural popular que supõe a formação de vínculos e implica determ inadas formas de relação com o espaço, sem pre teve um a im portância singu­ lar para o bairro. Q uase sem pre a festa de São João é iniciada na noite antecedente ao dia do Santo. São acesas as

Regina Celly Nogueira da Silva

fogueiras, faz-se adivinhações, ocorrem os banhos rituais, dança-se, come-se, soltam -se fogos. Assim, toda a com em oração é de caráter noturno. A fogueira (CHIANCA, p. 113) é identificada na festividade en­ quanto um a prática purificatoria, com o força reno­ vadora e vital. Não obstante, esta é na realidade a forma com o a festa é apreendida na experiência dos que a comemoram. Desse m odo, a festa de São João surge enquanto celebração onde a preocupação co­ mo fecundidade hum ana ou agrícola, se revela em toda ordem de associação (CHIANCA, 113) se refere sobretudo às m ulheres, e ao casam ento, construção social religiosa cristã oficializadora das uniões. No entanto, a celebração, refere-se sobretudo ao Santo

e encerra um universo de sím bolos e valores ligados

a uma vida rural. Segundo Chianca, no Brasil, sobretudo no Nordeste, o São João coincide com o período em que as populações rurais festejam as colheitas, as foguei­ ras teriam um a im portância fundam ental, visto que afastariam a possibilidade de estiagem , pestes, este- relidade do solo etc. Também a Europa conheceu es­ ta tradição de acender fogueiras nas suas planícies, de dançar ao redor do fogo, de saltar sobre as cha­

m as, assim, todas as esperanças do convívio e das expectativas de m eses abundantes.

No dia 23 de junho à noite, iniciou-se a festa. As fogueiras foram acesas e dois eram os pavilhões arm ados para as festas juninas. Um na Carneiro da Cunha no sentido bairro-centro, o Selva de Pedra e

o outro na Feliciano Dourado com a Avenida Prof.

Paredes, o Pindura a Saia. Todos os dois em estilo chalé, de m adeira e plástico preto no teto com fiti- nhas de papel branco, verde e am arelo penduradas em cordões no teto e folhas de coqueiro verde no interior dos pavilhões. Na realidade, o bairro parecia deserto, apenas com alguns bares abertos e pessoas tomando cerveja próximo a um dos Pavilhões, o Selva de Pedra, na Carneiro da Cunha. Em algum as ruas crianças brincavam nas calçadas com fogos de arti­ fício, donas de casa vendiam milho cozinhado nas portas das casas e o m ercado Joaquim Torres já se

As várias faces do uso do bairro e a cotidianidade do m orador

encontrava fechado, totalm ente tom ado pelas palhas do milho verde que foram vendidas durante o dia. Mo interior das casas as m oças faziam adivinhações, presságios, plantavam alhos para que se ao am anhe­ cer estivessem germ inados, seria sinal de que a m oça se casaria. Assim, nos dirigimos para o pavilhão do Pin- dura Saia, na rua Feliciano Dourado, onde fom os in­ form ados pelos m oradores de que não haveria apre­ sentação de quadrilha naquela noite, pois a costu­ reira contratada para confeccionar as roupas não conseguira term inar tudo a tem po. Assim, seguim os pela Feliciano Dourado em direção ao m ercado, en­ tram os à direita na Barão de Mamanguape e pegamos

a Carneiro da Cunha em direção ao pavilhão Selva

de Pedra. Conseguim os chegar a tem po de assistir a

apresentação da quadrilha infantil que, como nos ha­ via relatado seu Bomba rouca ao entardecer de uma

sexta-a-feira quente ao lado do m ercado, "o São João

e as quadrilhas da Torre já não existem mais como

no passado, estão todas descaracterizadas" Entre­ tanto, não conseguíam os entender com clareza a m arcação da quadrilha, visto que, o organizador que

a ditava não parecia muito preocupado com os visi­

tantes e tam pouco em estim ular a graça da dança e

suas especificidades. As m úsicas eram conhecidas,

havia um pequeno conjunto com um sanfoneiro, um triángulo e um surdo. As m eninas trajavam vestidos de algodão com duas saias, sendo um a saia quadriculada de ver­

m elho e azul e a outra de chifon verm elho com en­

feites de bico de algodão branco nas pontas. Ma blu­ sa, o enfeite com fita de seda vermelha, mangas fofas com bico de algodão nas pontas, chifon verm elho, chapéu com o m esm o tecido da saia de algodão qua­ driculado com fita de seda verm elha e, em volta, um bico de algodão branco. Os vestidos não eram muito com pridos, ficando na altura da canela. Mem todas as m eninas trajavam o m esm o m odelo, o verm elho era a cor predom inante e algu­ m as m eninas estavam de saia longa e blusa muito curta com lenço na cabeça; algum as tinham chapéu

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de palha e quase todas calçavam sandálias. Os m eni­ nos, quase todos de calça jean s e cam isa quadricu­ lada, m as com cores diferenciadas, de tènis, alguns trajavam calça preta, blusa branca e colete preto. Pelo depoim ento dos seus antigos m orado­ res, no passado, o São João da Torre era conhecido, sobretudo, por concentrar um considerável núm ero de pavilhões e pela sua grande animação, como tam ­ bém , por concentrar um sofisticado com ércio de fogos de artifícios e com idas típicas. Eram com uns os bazares nas portas das casas, confeccionados pe­ los próprios m eninos do bairro: eram "caixinhas de madeira" com várias divisórias, enfeitadas com papel colorido, algumas tinham até gavetinhas para colocar o dinheiro. Mas nossas cam inhadas pelo bairro durante as festas juninas, poucos foram os pavilhões que en­ contram os e muito m enos as tradicionais barracas de fogos de artifícios, nem tam pouco os bazares nas portas das casas. O São João do bairro modernizou- se com o relata seu Bomba rouca:

A festa de São João na Torre era conhecida,

nove eram os pavilhões de m adeira com pa­ lha, decorados com bandeirinhas de papei coloridas, o n o sso pavilhão era aqui na Feliciano Dourado com a Miguel Santa Cruz, era o local central. O nosso pavilhão com e­ çou em 1955, na Joaquim Torres na casa de

seu Agrísio, e em 5 6 viem os para a Feliciano Dourado, fo i quando fundam os a fazenda Findura a Saia que naquela época causou

m uita poiêm ica p or causa do nom e. (

gam ente, para dançar a g en te tinha que dar os trajes da dam a eprecisava ir à casa dela para pedir consentim ento ao p ai da m oça.

uando term inavam o s ensaios tinha que

levara dam a em casa, bater na porta e dizer, olha ai seu fulano a m oça já esta em casa.

nossa roupa era de m atuto m esm o, os

A

h om ens tudo de um jeito , cam isa quadri­ culada, chapéu de palha, causa de m atuto

)

Anti­

Q

as dam as de vestido de chita estam pado,

e

de m angas com pridas, bem com prido, com um totó e um a flor no cabeio e ruge. Isso era antigam ente, o n osso traje só era visto na véspera do São João e quem prim eiro via era o p essoa l que n os visitava no nosso

pavilhão. Q uem quisesse ver a nossa qua-

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Revista Geousp, n 9 3, p. 29-37,

1998.

drilha e o nosso traje que vinhesse para o nosso pavilhão.

nosso tem po, toda fazenda, com o

eram cham ados os pavilhões, só podía ter um coronel e era o coronel que abría a qua­

drilha e ditava tudo e o p ovo ia entendendo

dança e o que estava acontecendo. Todo

com ponente pagava para participar da qua­

drilha, não existia isso do Estado e Prefeitura dar dinheiro. Moje em dia estão se prevale­ cendo disso. O tocador hoje em dia cobra dois m ilreais, um som m elhorzinho oitocen- tos reais, o pavilhão não é m ais de palha de coqueiro seca é de m adeira e lona ou plás­ tico preto com uns enfeitos. Fio m eu tem po,

a

a

(,

)F1o

gente é que fazia a decoração.

(

)

São João na Torre tinha m uita im por­

tância, hoje em dia o povo não está m ais ligando. Fiaquela época o pessoa! tinha am or

aos festejo s jun ino s, hoje em dia não tem

ais, só tem g en te bebendo, a quadrilha se

descaracterizou, agora só tem dois pavilhões e esse ano a quadrilha que eu fundei não dançou a Pindura a Saia. O hom em se m o­

m

dernizou dem ais, hoje em dia os com po­ nentes não querem m ais brincar o São João,

agora se forpara um show eles dão d ez reais,

as se for para brincar quadrilha eles não

querem pagar. Por isso eu deixei de m arcar

m

Regina Celly Nogueira da Silva

(Sr. José Coutinho, mais conhecido como, Bomba-rouca).

O São João da Torre m udou, com o mudou

a sua paisagem urbana. A descaracterização das fes­

tas é resultado das transform ações que se processa­ ram no bairro nos últimos anos com a chegada de

uma nova cultura, a cultura do capital, do consum o, do novo. Como argum enta Ecléa Bosi "quando duas culturas se defrontam , não com o predador e presa,

m as com o diferentes form as de existir, um a é para a outra com o um a revelação. Mas essa experiência ra­ ramente acontece fora dos pólos submissão-domínio.

A

expressar sua originalidade" (BOSI, 1987, p. 16). O pensam ento de Ecléa Bosi ganha uma for­ ça contundente diante da realidade social e cultural

do bairro da Torre, quando a cultura do capital des­ poja o homem de sua própria hum anidade, quando

o bairro se transform a em local de consum o de mer­

cadoria, sendo ele próprio um a mercadoria com o ou­ tra qualquer, vendida e com prada aos pedaços, em detrimento da sua apropriação pelos seus m oradores através da festa, do encontro, da brincadeira.

cultura dom inada perde os m eios m ateriais de

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