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Apostila 18

Estudando sobre a Igreja


CONSAGRADO PARA CUIDAR
Parte I

O capítulo 8 de Levítico é o cumprimento da ordem dada em Êxodo 29 em relação


à consagração dos sacerdotes (cohanim), Arão e seus filhos, dada por Moisés, o
libertador e líder do povo de Israel. É um ato de extrema seriedade que descreve,
de modo gráfico a responsabilidade dos consagrandos, que eram os guardiães
espirituais do povo de Deus.

Deste ato distante de nós cerca de 3.300 anos, desejamos extrair lições para o
ministro do século 21, tarefa esta do intérprete da Bíblia Sagrada.

O Ato de Consagração

O ritual é um sacrifício de comunhão com a função especial de consagrar. A


cerimônia pode ser dividida em quatro partes:

vv. 1-13
Purificação, Vestidura, Unção dos Consagrandos
vv. 14-17
Oferta pelo pecado dos Sacerdotes
vv. 18-21
Oferta queimada
vv. 22-36
Oferta de paz
Uma análise da liturgia nos mostra em primeiro lugar o oferecimento de uma
oferta pelo pecado, que seria totalmente consumida de acordo com as

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instruções do capítulo 4 do mesmo livro; e o oferecimento de dois carneiros.
O primeiro seria oferecido em holocausto, de acordo com o capítulo 1. O
segundo, porém tem uma parte especialíssima na cerimônia, razão porque é
chamado de "o carneiro da consagração", conforme o verso 22 deste
capítulo 8.

Lê-se no verso 23 que houve aplicação do seu sangue a algumas partes do


corpo dos consagrandos. Este sangue foi usado para trazer Arão e seus
filhos a um estado sem igual de santidade.

O restante do sangue será jogado ao redor do altar, estabelecendo com este


ato um relacionamento especial entre o altar, símbolo do ministério, e os
ordenandos, agentes desse ministério.

As partes do corpo tocadas pelo sangue são orelha, mão e pé. Esse toque
pelo sangue lava-os e dedica-os simbolicamente ao Senhor. Quer também
dizer que o ministro de Deus ouvirá e obedecerá, e suas mãos e pés servirão
ao Senhor.

As lições são extraordinárias:

O OUVIR (v. 23)

O ministro de Deus há de ouvir corretamente. Referimo-nos à conversação


pastoral, chamada por alguns de Clínica Pastoral no gabinete, na visitação
ou informalmente. Não a confunda, porém, com aquilo que jocosamente
chamam de "papoterapia".

Como ministro de Deus e da Igreja de Jesus Cristo, você deve conhecer


exatamente o papel que lhe corresponde. Não será um profissional da
psicologia, da psicanálise ou das variadas terapias oferecidas à clientela. E,
no entanto, seu ministério de ouvir é comparável ao do psicoterapeuta, do
conselheiro matrimonial, ou do psicólogo. Muito de seu trabalho tem a ver
com ouvir-e-aconselhar. Entretanto, você não receberá honorários pelo
aconselhamento, nem fará contrato de trabalho para isso. Você é um
ministro de Deus e será procurado não por um paciente ou cliente, mas por
uma ovelha sua, ou um semelhante seu que precisa de ajuda.

Há quem apenas deseja falar, conversar; dê ouvidos, pois para isso sua
orelha foi ungida. Há quem queira injeções de otimismo cristão, de
esperança. Há quem tenha sérios sentimentos de culpa, de rejeição. Há
quem precise ser confrontado. Uma coisa, porém, é certa: você tem
autoridade dada por Deus e pela igreja que o chamou para dar esse
conselho, essa exortação ou esse confronto.

O ministro de Deus deve ouvir corretamente. Assim, você precisa ouvir o


que está por trás das palavras. Palavras ditas, palavras não ditas, e palavras

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em suspenso. Talvez os lábios digam algo, mas a expressão facial, as mãos,
a expressão corporal digam outra. Você precisa "ouvir" corretamente os
sentimentos de quem está à sua frente.

Na Clínica Pastoral, ouça bastante antes de opinar. Leve a ovelha a falar;


viva a situação do outro. Você é chamado a um ministério de simpatia, de
carinho, de afeição e de amor. Sobretudo quando você é enérgico!

Desde que você começa a ouvir, está fazendo Psicoterapia Pastoral. Isso é
afirmado pelo Dr. Wayne Oates, autor ou co-autor de mais de quarenta livros
e por muitos anos professor de Aconselhamento Pastoral (Pastoral Care), no
The Southern Baptist Theological Seminary em Louisville. Você é visto
dentro de um esquema todo especial: há um significado simbólico em você
como ministro de Deus. O pastor, por exemplo, é um ponto de referência na
igreja para o povo de Deus. Ele simboliza e representa a comunidade cristã,
e é agente dessa comunidade de Cristo, de Deus.

Há muita esperança quando alguém procura o pastor. Por essa razão, é


terrível, medonho mesmo, quando as palavras do pastor são divinas, mas
seus hábitos de vida contradizem essa dimensão... Você representa e
simboliza muito mais do que você mesmo: você representa o Pai, você leva
a palavra de Cristo e o faz sob a direção do Espírito Santo. Quem vai ao seu
gabinete espera e deve sair abençoado. Você vai ouvir confissões, vai ouvir
palavras de arrependimento. Mas não pressione: ajude no processo de
crescimento.

O TOCAR (v. 23)

O ministro de Deus é ungido na mão para tocar vidas. Estamos nos


referindo, então, à influência. Você vai tocar muitas vidas e deve fazê-lo com
cuidado e leveza.

Use suas mãos para abençoar a criança, o jovem, o adulto, o idoso. E faça-o
com carinho. Leve-os à consciência do santo, lembrando ao crente em Jesus
Cristo que a rigor, para o povo de Deus, não existem espaços separados,
compartimentos estanques entre o secular e o religioso, o sagrado e o
profano, pois a vida pública, social, civil do crente em Jesus Cristo há de ser
normatizada pelo senso do santo.

Leve-os ao senso da providência, à fé, à gratidão, ao arrependimento, à


comunhão, à vocação. Você há de tocar vidas; há de xer com as emoções
das pessoas: raiva, medo, alegria. Você vai lidar com almas enfermas. São
doenças do comportamento, mazelas do espírito, enfermidades
psicossomáticas.

Você terá um ministério a desempenhar nas crises. Crise é qualquer


acontecimento que ameace o bem-estar de uma pessoa, e interfira na sua

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rotina de vida. O nascimento de uma criança, a morte de um parente, o fim
de um casamento, o desemprego, a aposentadoria são crises . Você há de
entrar em contato e reduzir a ansiedade, encorajando a pessoa a agir.
Lembre-se de que cada situação de crise é única, sem igual. Ou como o
povo diz, "Cada caso é um caso".

Você há de tocar vidas em diferentes níveis de cuidado pastoral: o Nível da


Amizade; o Nível do Conforto; o Nível da Confissão, o Nível do Ensino e o
Nível do Aconselhamento e Psicoterapia. Devo estas classificações ao Dr.
Oates. Há pessoas aflitas que necessitam de apoio; há aqueles enfrentando
a morte que precisam do poder espiritual que o pastor representa; há
pessoas com enfermidades crônicas; há deficientes físicos; há famílias com
filhos com déficit mental; há os deprimidos e os desapontados com o amor
ou outra causa. Todos estes estão no Nível de Conforto. Há o jovem solteiro,
os jovens casados, o adulto de meia-idade, a viúva, a mãe solteira, o
separado/desquitado/divorciado, o hospitalizado, todos em diferentes níveis
do seu cuidado pastoral.

O ANDAR (v. 23)

O ministro de Deus é ungido no pé para andar santamente. Estamos falando


de ética. Para isso, necessária é a ajuda do Espírito Santo. Se você não tem
a ajuda do Espírito de Deus para crescer na graça e na maturidade, vai ser
difícil entender a Bíblia, impossível aplicá-la às vidas, será um problema
conviver com as ovelhas, e terrível dominar atitudes internas.

Mais do que nunca, é preciso ser imitador de Cristo. Para sê-lo, porém, é
preciso andar no Espírito, andar santamente. E andar santamente exige
análise freqüente de nós mesmos, submissão do eu a Deus, e plenitude do
Espírito Santo, que é o Seu controle em nossas vidas.

Você há de visitar. Irá a muitos lugares e lares. Há dois tipos de visitas: as


regulares e as de emergência. Não visite só nas crises: você precisa visitar o
seu rebanho em tempos de paz. Seja ético, então, quanto ao que ouve, vê e
aconselha.

CONCLUSÃO

O final da narração de Levítico 8 registra a obediência dos consagrandos,


Arão e filhos. Isso nos ensina que consagração é entrega absoluta marcada
pela obediência irrestrita às ordens de Deus.

Nossa oração é que nosso ministério seja pontuado agora, hoje, sempre pela
disciplina, obediência, entrega e consagração total àquele que é o Mestre de
nossas vidas, Senhor do nosso futuro, Salvador de nosso ser.

A Catedral

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Uma catedral para a honra e a glória
de nosso Senhor Jesus Cristo
se constrói momento a momento
à medida que uma mão se estende
e toca outra mão
com amor humano,
e à medida que um coração responde
em amor a outro coração
capacitado pelo Espírito Santo
para anelar, escutar, elevar
e amar-nos uns aos outros.
Para que todos, em todo lugar
possamos oferecer outros dons
que Deus nos tem dado:
Integridade nas relações,
Alegria e paz na fidelidade,
Fortaleza para fazer por meio da igreja,
Mais do que pedimos ou imaginamos.

Margaret Shannon

Parte II
LEVANDO A SÉRIO A CEIA DO SENHOR

"Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus,
na noite em que foi traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse:
Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim.
Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é
o novo pacto do meu sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em
memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do
cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que
qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será
culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si
mesmo, e assim como do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come
e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor" (1Co
11.23-29).

A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente
e cheio de certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa
linguagem silenciosa porém plena de energia. Temos o pão e o vinho, elementos
simples, porém altamente destacados nesta celebração. E nesta simplicidade, ela
se torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o
povo de Deus. Quando levamos a sério a celebração da Ceia do Senhor, usamos
de determinadas linguagens:

A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25)

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Paulo diz isso: "Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice,
dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as
vezes que o beberdes, em memória de mim", ou seja, "para que pensem
novamente em mim."

A presença de Jesus Cristo é algo extraordinário na vida cristã. Pela


inspiração do Espírito de Deus, até mesmo a escolha de certas palavras tem
o seu lugar na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana lingüística: na
língua hebraica, a palavra que significa "manifestação de Deus, presença
divina" é shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada
vez que a glória do Senhor se manifestava no meio do povo de Israel, fosse
no deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre era celebrada a
manifestação da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19).

Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu
nome, ele disse "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça
e de verdade"; a palavra grega utilizada não é do hebraico: é grega, tem
outra origem. O impressionante, no entanto, é que o vocábulo utilizado por
João para dizer, "o Verbo habitou, marcou presença, manifestou-se entre
nós", é a palavra grega que diz skinê. Percebam o som do hebraico sh ki nah
e do grego s ki nê. As duas palavras têm praticamente o mesmo radical.
Coincidência, ou vontade de Deus que as palavras assemelhadas fossem
usadas pelo escritor sagrado?

Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a
Ceia do Senhor é celebrada por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas
ordenanças, e somente duas: o Batismo e a Ceia Memorial. São ordenanças
sem qualquer benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo
salva por Jesus Cristo, na verdade não precisa, para acrescentar algum valor
maior à salvação, do Batismo. O malfeitor da cruz não precisou se batizar,
mas já estava com Jesus Cristo no paraíso após a crueldade daquele
momento.

A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do


Senhor, fazemos algo pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo
Senhor, porque estamos pregando o Seu sacrifício para a salvação de todo
aquele que crê. Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos,
que é o corpo de Jesus Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o
cálice, dizemos que o sangue de Jesus Cristo foi derramado por nós.
Estamos pregando a mensagem de livramento de redenção para todo o que
crê!

Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que


nos lembremos de quem somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e
aonde estamos indo. Quando nosso país joga na Copa, os memoriais
brasileiros se apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo

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desfraldada. E não existe sentimento maior, e quem já passou por isso o
sabe, que estar num outro país, e se emocionar com o verde-amarelo
tremulando nos mastros com outras bandeiras. Isso se chama filia, o amor
cívico, patriótico. Não é doença, não: é patriotismo mesmo!

Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria,


logo lembramos do Dois de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de
amor conjugal, lembramos a aliança. Com certeza: precisamos de
memoriais. Temos que lembrar da nossa indignidade e da beleza do perdão.
Por essa razão, temos o memorial da Ceia do Senhor. É isso o exatamente o
que faz a Ceia do Senhor: ela nos relembra o dom da vida através da morte
de Jesus Cristo. Assim, quando nos reunimos seriamente para celebrar este
ato memorial, utilizamos a linguagem da comemoração.

A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20)

Paulo disse: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos
ajuntais, não para melhor, mas para pior" (v. 17). Aconteceu, infelizmente,
com a igreja de Corinto, que se reuniu não para o melhor, mas para o pior;
reunia-se para a indignidade. Não confundamos as coisas: quando falamos
de comunhão, não estamos falando de encontro sobrenatural, místico; não
estamos dizendo que nos unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como
querem pregar as religiões orientais; não estamos tendo uma visão, não;
não é comunicação com um morto como querem ensinar por aí, não! A
Palavra nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há comunhão
física, ao se participar da Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o Deus
perfeito, mas uma comunhão espiritual, sem dúvida, pela lembrança de
Cristo na cruz, se a levamos a sério.

Ao longo destes 39 anos de ministério da palavra e das ordenanças, ainda


me emociono quando participo da Ceia do Senhor! E cada vez que seguro o
pão, e o parto na frente dos irmãos, eu me emociono, porque me vem à
mente que sou indigno pecador, e que pela graça de Deus fui feito Seu filho!
Lembro-me, quando tomo a jarra de vinho, e derramo um pouco no cálice, de
que fico com as mãos trêmulas; são 39 anos celebrando a Ceia do Senhor
praticamente mês a mês (e houve época quando o fiz duas vezes no mês),
mas ainda hoje tremo quando tenho na minha memória e coração a cena de
Jesus Cristo no Calvário, e o Seu sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua
testa, pela face, e pelo tronco da cruz...

Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na cruz, e pela


nossa identificação com essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a minha
cruz!

Há uma comunhão entre os crentes na Ceia Memorial, mas não é comunhão-


de-cafezinho! Por isso, Paulo está preocupado, e diz "Mas, se alguém quiser
ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de

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Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos
ajuntais, não para melhor, mas para pior".

Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja


estava seccionada por causa de trajes (capítulo 11)?! Havia divisões por
causa de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); E depois todos queriam se
reunir para "tomar cafezinho"?! A Ceia do Senhor não é para isso, porque a
tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos com a
mesma amargura e rancor com que entramos. A conduta dos irmãos de
Corinto destruía o propósito da igreja, e o propósito da Ceia! O que Paulo
está enfatizando é a harmonia da Ceia, a qualidade de vida espiritual, a
unidade da igreja, e quando celebramos com seriedade a Ceia, é isso o que
estamos proclamando!

A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29)

Quando celebramos a Ceia usamos esse tipo de linguagem. "De modo que
qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente,
será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a
si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice".

Interessante que a Ceia do Senhor não torna ninguém melhor: ninguém vai
sair melhor porque tomou a Ceia do Senhor. E, no entanto, há um paradoxo:
o irmão pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor indignamente! É o que
Paulo diz, por essa razão é dever de cada um solene e seriamente examinar-
se sobre quais são os seus interesses e propósitos quando se aproxima da
Mesa do Senhor. Veja bem a seriedade de seus objetivos.

Estive lendo sobre os levitas e sacerdotes (Números 3 e 4). Fiquei arrepiado!


Que coisa impressionante a legislação, como eram as normas no
acampamento de Israel no deserto: somente podiam se aproximar dos
móveis os sacerdotes, nem os levitas que eram os seus auxiliares.

Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para se transferirem


para outro lugar, os sacerdotes entravam, embalavam os móveis, com várias
camadas de tecidos (e de cores diferentes para mostrar o grau de santidade
do objeto), e depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do
objeto, os levitas pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de
boi para o transporte pelo deserto. E sempre é lembrado o seguinte: "e o
estranho que se chegar será morto" (Nm 3.10, etc.).

Os levitas funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança


do tabernáculo. A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O "estranho"
não era o pagão, não; era o próprio povo de Israel. Só que há uma diferença
muito grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os outros, o
"povão"! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por isso
podemos nos aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma

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coisa: se o irmão vier à Mesa do Senhor com as mãos sujas, "será culpado
do corpo e do sangue do Senhor" (1Co 11.27b)! O irmão não sai melhor, mas
pode sair pior do santuário. Quanto seriedade é exigida dos participantes?!

Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo
poder da ressurreição de Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer!
É Jesus realmente o alimento da minha alma? Sou eu um dos Seus, e sou eu
um com os Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com
os outros crentes? Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não
conheço a Jesus Cristo, como posso me lembrar dEle?

Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve fazer três
perguntas:
· Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado
pelo Seu sangue?
· Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu
coração está limpo, ou borrado, sujo?
· Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e visões, que almejo na
Causa de Jesus Cristo?

Não é sério? Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um
diálogo com a Ceia do Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor
em espírito de comemoração porque essa é a linguagem que falamos agora,
em comunhão espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e
consagração pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa
vida sempre. E lembrando, sobretudo, que a Ceia do Senhor não é um
funeral (para que cara triste?): a Ceia do Senhor é uma celebração de fé, de
alegria, de esperança porque nós olhamos para o dia da volta de nosso
Senhor Jesus Cristo!

Parte III
O DIÁLOGO DA CEIA DO SENHOR

Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na
noite em que foi traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse:
Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim.
Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é
o novo pacto do meu sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em
memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do
cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que
qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será
culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si
mesmo, e assim como do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come
e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor" (1Co
11.23-29).
A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente
e cheio de certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa

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linguagem silenciosa porém plena de energia. Temos o pão e temos o vinho,
elementos simples e destacados nesta celebração. E nesta simplicidade, ela se
torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o povo
de Deus.

A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25)

Paulo diz isso: "Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice,


dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as
vezes que o beberdes, em memória de mim", ou seja, "para que pensem
novamente em mim".

É extraordinária a presença de Jesus Cristo na vida cristã. Pela inspiração


do Espírito de Deus, até mesmo a escolha de certas palavras tem o seu lugar
na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana lingüística: na língua
hebraica, a palavra que significa "manifestação de Deus, presença divina" é
shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada vez que a
glória do Senhor se manifestava no meio do povo de Israel, fosse no
deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre era celebrada a
manifestação da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19).

Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu
nome, ele disse "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça
e de verdade"; a palavra grega utilizada nada tem a ver com o hebraico: é
outra língua, outra origem, não tem a mesma categoria, inclusive lingüística.
Pois bem, a palavra que João utilizou para dizer "o Verbo habitou, marcou
presença, manifestou-se entre nós", é a palavra grega que diz skinê.
Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego s ki nê. As duas palavras
têm praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou vontade de Deus que as
palavras assemelhadas fossem usadas pelo escritor sagrado?

Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a
Ceia do Senhor é celebrada por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas
ordenanças, e somente duas: o Batismo e a Ceia Memorial. São ordenanças
sem qualquer benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo
salva por Jesus Cristo, na verdade não precisa do Batismo para acrescentar
algum valor maior à salvação. O malfeitor da cruz não precisou se batizar,
mas já estava com Jesus Cristo no paraíso após aquele momento cruel. Não
é preciso, mas o batismo é um ato de obediência: Jesus até foi batizado por
João, e mandou que a Igreja praticasse o batismo, o que fazemos como
testemunho público do que Jesus Cristo fez na nossa vida.

A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do


Senhor, fazemos algo pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo
Senhor, porque estamos pregando a Sua morte para a salvação de todo
aquele que crê. Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos,
que é o corpo de Jesus Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o

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cálice, dizemos que o sangue de Jesus Cristo foi derramado por mim e por
você, por nós. Estamos pregando a mensagem de livramento de redenção
para todo o que crê!

Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que


nos lembremos de quem somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e
aonde estamos indo. Quando nosso país joga na Copa, os memoriais
brasileiros se apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo
desfraldada. E não existe sentimento maior que estar em outro país, e se
emocionar com o verde-amarelo tremulando nos mastros com outras
bandeiras. Isso se chama filia, o amor cívico, patriótico.

Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria,


logo lembramos do Dois de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de
amor conjugal, lembramos a aliança.

Sem dúvida, precisamos de memoriais. Temos que lembrar da nossa


indignidade e da beleza do perdão. Por essa razão, temos o memorial da
Ceia do Senhor. É isso o exatamente o que faz a Ceia do Senhor: ela nos
relembra o dom da vida através da morte de Jesus Cristo. Assim, quando
nos reunimos para a Ceia, ela utiliza a linguagem da comemoração.

A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20)

Paulo disse: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos
ajuntais, não para melhor, mas para pior" (v. 17). Isso aconteceu,
infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reunia para a indignidade. Que
coisa triste, reunirem-se os nossos irmãos para atos indignos!

Não confundamos as coisas: quando falamos de comunhão, não estamos


falando de encontro sobrenatural, místico; não estamos dizendo que nos
unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como querem pregar orientais;
não estamos tendo uma visão, não; não é comunicação com um morto como
querem ensinar por aí, não!

É por esses erros todos que doutrinas estranhas surgiram ao longo da


história da Igreja Cristã. Como a transubstanciação, ensinando que no
momento em que são pronunciadas as palavras de instituição ("isso é o meu
corpo" e "isso é o meu sangue") que tanto o pão quanto o vinho mudam a
sua substância, e as suas substâncias tornam-se, respectivamente, a da
carne e do sangue de Jesus Cristo! O Senhor tenha piedade! Isso não se
encontra na Escritura?! A comunhão com Cristo não necessita que a
substância desses elementos materiais seja mudada.
O Novo Testamento nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há
comunhão física, ao se participar da Ceia do Senhor, entre o homem pecador
e o Deus perfeito, mas uma comunhão espiritual, sem dúvida, pela
lembrança de Cristo na cruz.

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Ao longo destes quase quarenta anos de ministério da palavra e das
ordenanças, tenho me emocionado sempre que participo da Ceia Memorial!
E cada vez que seguro a côdea de pão, e o parto na frente dos participantes,
eu me emociono, porque me vem à mente que sou indigno pecador, e que
pela graça de Deus fui feito Seu filho! Lembro-me, quando tomo esta jarra de
vinho, e derramo um pouco no cálice, fico com as mãos trêmulas ainda; são
39 anos celebrando a Ceia do Senhor praticamente mês a mês (e houve
época quando o fiz duas vezes no mês), mas ainda hoje tremo quando tenho
na minha mente e coração a cena de Jesus Cristo no Calvário, e o Seu
sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua testa, pela face, e pelo tronco da
cruz... Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na cruz, e
pela nossa identificação com essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a
minha cruz!

Há uma comunhão entre os crentes, mas não é comunhão-de-cafezinho,


porque a Ceia do Senhor não é isso! Por isso, Paulo está preocupado, e diz
"Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem
tampouco as igrejas de Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos
louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, mas para pior". Terrível!

Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja


estava dividida por causa de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); havia
divisões por causa de trajes (capítulo 11)?! E depois todos queriam se reunir
para "tomar cafezinho"?! A Ceia do Senhor não é para isso, não! Porque
tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos de novo
com a mesma raiva e amargura do nosso irmão em Jesus Cristo! A conduta
dos irmãos de Corinto destruía o propósito da igreja, e o propósito da Ceia!
O que Paulo está enfatizando aqui é a harmonia da Ceia, a qualidade de vida
espiritual, é a unidade da igreja, e quando celebramos a Ceia, é isso o que
estamos dizendo!

A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29)

Quando celebramos a Ceia usamos essa linguagem. "De modo que qualquer
que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado
do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e
assim coma do pão e beba do cálice". Interessante que a Ceia do Senhor não
torna ninguém melhor. Na verdade, ninguém vai sair melhor porque tomou a
Ceia do Senhor. E agora o paradoxo: o irmão pode sair pior se tomou a Ceia
do Senhor indignamente! É o que Paulo diz, por essa razão é dever de cada
um solene e seriamente examinar-se sobre quais são os seus interesses em
Jesus Cristo. Você participou da Ceia só porque os outros iam ver, e você ia
ficar com vergonha se ficasse sentado e não participasse? Quais são seus
propósitos quando se aproxima da Mesa do Senhor?

Estive lendo sobre a congregação dos levitas e sacerdotes (Números 3 e 4).

12
Fiquei arrepiado! Que coisa impressionante a legislação, como eram as
normas no acampamento de Israel no deserto: somente podiam se
aproximar dos móveis os sacerdotes, nem os levitas quer eram os seus
auxiliares. Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para ir
para outro lugar, os sacerdotes entravam, embalavam os móveis, com várias
camadas de tecidos (e de cores diferentes para mostrar o grau de santidade
do objeto), e depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do
objeto, os levitas pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de
boi para o transporte pelo deserto. E sempre é lembrado o seguinte: "e o
estranho que se chegar será morto" (Nm 3.10, etc.). Os levitas funcionavam,
entre outros deveres, como guardas de segurança do tabernáculo.

A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O "estranho" não era o pagão,
não; era o próprio povo de Israel. Só que há uma diferença muito grande: na
Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os outros, o "povão"! Na Igreja de
Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por isso podemos nos
aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma coisa: se o irmão
vier à Mesa do Senhor com as mãos sujas, "será culpado do corpo e do
sangue do Senhor" (1Co 11.27b)! O irmão não sai melhor, mas pode sair pior
do santuário.

Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo
poder da ressurreição de Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer!
É Jesus realmente o alimento da minha alma? Sou eu um dos Seus, e sou eu
um com os Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com
os outros crentes? Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não
conheço a Jesus Cristo, como posso me lembrar dEle?

Por isso que Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia
deve fazer três perguntas:
· Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado
pelo Seu sangue?
· Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu
coração está limpo, ou borrado, sujo? · Que é que eu desejo? Quais os meus
sonhos e visões, que almejo na Causa de Jesus Cristo?

Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um diálogo com
a Ceia do Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor em espírito de
comemoração porque essa é a linguagem que falamos agora, em comunhão
espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e consagração
pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre.
E lembrando, sobretudo, que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que
cara triste?): a Ceia do Senhor é uma celebração de fé, de alegria, de
esperança porque nós olhamos para aquele dia! Que o Senhor nos ajude e
abençoe!

Patte IV

13
VESTIMENTA NA IGREJA
Introdução:
"Nesta casa não tem moda, tem recato". Faço minhas as palavras da personagem
de Tarcísio Meira na série Um só Coração, da Rede Globo, para asseverar a
minha convicção espiritual em relação a vestimenta do cristão verdadeiro, pois
creio que na igreja de Jesus Cristo não deve existir a preocupação exagerada com
a moda, mas sim com o recato e o decoro que devem ser peculiares aos santos.
Há algum tempo temos alertado a igreja sobre esta questão, mas parece que não
temos sido bem-sucedido nestes alertas, razão pela qual decidimos tratar
francamente deste assunto com toda a igreja.

Não pretendemos desenvolver um tratado teológico sobre o tema e nem


desejamos agir com rigorismo em termos de usos e costumes. Apenas desejamos
apresentar aos irmãos textos bíblicos que devem nortear a nossa experiência de
fé e de vida cristã, causando transformações radicais em nossas mentes,
transformações essas que nos atribuam redobrada autoridade espiritual e
testemunhal diante desta geração corrompida e perversa em que vivemos.

Há uma monumental investida contra a moralidade do ser humano, que se reflete


na vestimenta. Seja em nome da moda, da liberação feminina, do tropicalismo, da
quebra dos paradigmas, dos regionalismos ou da libertinagem e do hedonismo
peculiar a pós-modernidade. Não importa a razão, as pessoas estão cada vez
mais nuas. Aquelas que insistem em se vestir bem e com decoro, parece que
estão ilhadas, ou seja, cercadas de pessoas nuas por todos os lados.

O trágico é reconhecer que esta nudez desenfreada chegou à igreja. Chegou para
ficar e se estabelecer como referencial de comportamento cristão, o que é
absurdo. Porém, em nome de Jesus, mesmo sob a pecha de radical, de
retrógrado, de antiquado ou de autoritário, pretendemos persistir no combate
desta maldição, bem como no combate de toda a sorte de malignidade que tenta
corromper os parâmetros de Deus para a santidade do cristão, permanecendo fiel
a Cristo e a convicção ministerial que temos de que a igreja brasileira necessita
urgentemente experimentar um avivamento de santidade.

Vejamos no Texto Sagrado alguns ensinamentos bem objetivos sobre a


vestimenta do povo de Deus.

Inicialmente, vejamos algo sobre...

1. A primeira roupa - Gênesis 3.21:

Vemos que o primeiro a apresentar a preocupação com a vestimenta do ser


humano foi o próprio Deus.

Tais vestimentas são precursoras de muitas outras medidas adotadas por Deus,
relacionadas a moral e aos bons costumes, visando o bem-estar físico, social e
espiritual da humanidade. Medidas que se tornaram necessárias por causa da

14
corrupção imposta pelo pecado à natureza humana.

Nos versos 10 e 11 de Gênesis 3 o homem alega medo de Deus devido a sua


nudez. A nudez neste contexto representa a consciência da corrupção, da quebra
de um padrão estabelecido por Deus. O homem foi criado em santidade e a nudez
não lhe causava constrangimento diante do Criador. Mas depois do pecado, uma
vez quebrada a imagem e semelhança moral de Deus no homem, a nudez passou
a ser motivo de medo.

Desta referência concluímos que estar na presença de Deus consciente da nudez


imoral é afronta contra o Senhor. É pecado.

Pior ainda é a seminudez, que instiga e explora a sensualidade, provocando


pensamentos impuros e constrangimentos ao desnudo.

Devemos observar que mesmo sob maldição, em pecado, Deus não expulsou o
homem do Éden nu, para a desonra. Deus fez túnicas de peles, verso 21. Ou seja,
roupa que cobre tudo o que deve ser preservado e que indica parâmetros de
moralidade e de respeito entre serem humanos.

Em segundo lugar, vejamos algo sobre...

2. As roupas para a adoração - Êxodo 28.1-4:

Neste texto Deus exige roupas especiais, roupas de gala, para o sacerdote na
ministração do culto e da adoração.

Se a sua mente tenta justificar a não aplicação deste texto em sua vida, devo
ressaltar que a Palavra de Deus assevera que, a partir do sacrifício de Jesus, com
o rasgar do véu no templo, todos fomos feitos sacerdotes para Deus, Apocalipse
1.6 e 1 Pedro 2.9.

Adoração é ato de culto. É reconhecimento do caráter divino e da santidade do


Deus objeto da adoração. Por esta razão, Deus exige roupas especiais para o ato
de culto verdadeiro.

O princípio que se encerra neste contexto bíblico é o de que as vestimentas que


usamos no ato de culto devem ser limpas, puras e santificadas, visto que nos
aproximaremos de Deus, que é santíssimo.

O conceito básico que estabelece os parâmetros da vestimenta sacerdotal é o de


que as roupas são como referencial de apresentação diante da glória de Deus e
para a glória do Deus que é adorado. A glória de Deus manifesta é símbolo real e
indiscutível da presença de Deus no culto ministrado diante dele e para ele.

Podemos verificar também os versos 31-35 e 39-43 de Êxodo 28, que fazem
referência aos paramentos e assessórios sacerdotais, destacando a preocupação

15
de Deus até com os calções, ou seja, com a roupa íntima do sacerdote, verso 42,
indicando que o cuidado de Deus vai além da roupa aparente.

Pensando ainda em roupas para a adoração, devemos observar ainda os ensinos


de Salmos 29.2 e 96.9. As afirmações destes versos, embora traduzidas como
"esplendor do seu santuário" ou "esplendor da sua santidade", ou ainda, como
"beleza da sua santidade", indicam, em sua idéia mais remota, a luz do contexto
geral da Bíblia, que devemos estar bem vestidos, ou seja, trajados com decência,
quando nos apresentamos diante do Senhor para prestar-lhe culto. Não podemos
estar na Casa de Deus com vestimentas que não sejam expressão da nossa
busca de santidade, que é o que nos habilita a estarmos diante do Senhor em
adoração, Hebreus 12.14.

Vale ressaltar que o Texto Sagrado alerta até mesmo aqueles que não são servos
de Deus e que não têm, por isso, uma experiência íntima com ele, a tomarem
cuidado com os seus trajes quando estiverem em uma situação que saibam que
estarão diante de Deus.

A realidade, amados, é que Deus requer decência de cada um de nós. Somos os


sacerdotes consagrados por ele e para ele. Deus requer moralidade na adoração
e na ministração dos cultos, bem como durante os cultos.

Vejamos em seguida algo sobre...

3. Roupas como sinal de reverência - 2 Reis 5.1-6:

Reverência tem a ver com a postura resultante da conscientização a que


chegamos em relação ao valor do outro.

Este texto mostra que Naamã ao se dirigir ao servo de Deus, desejando causar
boa impressão e agrada-lo, levou roupas finas e luxuosas, roupas de festa. Este
gesto de Naamã aponta para o reconhecimento da superioridade do profeta em
relação a ele e para o reconhecimento da soberania de Deus em relação a sua
vida e circunstância.

Naamã, o grande general, não entendia bem tudo o que estava acontecendo.
Ficou frustrado e aborrecido ao se sentir desprezado pelo profeta, bem como pelo
fato de o profeta não aceitar os seus presentes. Afinal, eram roupas especiais,
com aplicações em ouro, prata e cravejadas de pedras preciosas. Porém, o seu
coração ainda era obstinado e Deus conduziu o profeta para que, com aquela
atitude, Naamã fosse quebrantado, humilhado, curado e salvo.

Desta maravilhosa narrativa bíblica fica para nós a seguinte lição: não é molambo,
nem trapo velho encardido, nem modismo, nem roupas indecorosas ou falta de
roupa que se deve levar para a presença do Senhor ou do servo de Deus, que o
representa na ministração para as nossas vidas.

16
Devemos ter a consciência de que estamos diante do próprio Deus e que, por
isso, devemos estar bem trajados, levando o melhor possível, mesmo que com
roupas humildes e simples, mas com decência e decoro, mostrando que
reconhecemos a superioridade e a soberania de Deus, o Deus que está pronto a
nos quebrantar, a nos curar e ministrar salvação.

Vejamos ainda algo sobre...

4. Roupas como sinal de restauração - Lucas 15.21-22:

Neste texto identificamos duas questões importantes: O filho reconhecendo o seu


estado e admitindo a perda da condição de filho e o pai amoroso dando ao filho
pródigo, em seu retorno, roupas novas, sapatos e um anel. Vamos nos ater as
roupas.

A entrega de roupas novas para o filho, "a melhor roupa", indica a transformação
de vida que o jovem experimentara. Os farrapos de uma vida dissoluta e
distanciada de Deus e dos parâmetros da moralidade devem ser jogados fora e
trocados por vestimentas novas, limpas e decentes.

Quando nos convertemos Deus nos honra e nos dá novas vestes, vestes
espirituais, que simbolizam a nossa restauração e a retomada da nossa condição
de filhos. Estas roupas novas simbolizam o perdão que nos foi outorgado,
servindo também como prova da nossa aceitação na casa do Pai, bem como da
restituição do nosso direito espiritual como herdeiros de Deus em Cristo.

Em Jesus não somos mais pessoas separadas de Deus, como que deserdadas
por causa do pecado. Em Cristo nos tornamos pessoas especiais, tendo regatado
a nossa posição espiritual como filhos de Deus, não podemos mais permanecer
maltrapilhos, desnudados ou vestidos de maneira indecorosa. A condição de
coitado, miserável e nu é para aqueles que serão vomitados pelo Senhor devido a
mornidão espiritual, Apocalipse 3.14-22, em especial osversos 16-18, e não para
os filhos que vivem em perfeita comunhão com o Pai.

Por fim, vejamos algo sobre...

5. O parâmetro de Deus para a vestimenta do cristão - 1 Timóteo 2.9-10:

Estes versos falam em trajes decorosos e sem luxúria como a vestimenta ideal
para o servo de Deus.

Mais uma vez a sua mente, principalmente a dos homens, pode estar tentando se
justificar dizendo que o ensinamento paulino não se aplica a você. Isso não é
verdade. A exigência de decoro e de moralidade na vestimenta é para mulheres e
homens ao mesmo tempo. O que comprova isso é o contexto geral do capítulo,
em especial o verso 8, que exige dos homens um alto padrão de santidade para a
oração.

17
Decoro é recato no comportamento e decência no vestir. Está relacionado com a
postura que adotamos para a vida. Luxúria é comportamento desregrado em
relação a sexualidade. É licenciosidade moral que denota a lascívia, que é
pecado, e a concupiscência, que é o desejo de pecar, do indivíduo. A luxúria se
contrapõe acirradamente ao decoro.

Em contrapartida, Deus exige dos seus filhos uma vestimenta decorosa e isenta
de qualquer sintoma de luxúria. Ou seja, Deus exige de nós um comportamento
recatado através do qual as pessoas percebam que estamos libertos do desejo de
pecar e que fomos restaurados em nossa moralidade, em nosso caráter, que é
agora santificado pela ação do Espírito Santo que em nós habita.

O termo traduzido por "traje decoroso", utilizado por Paulo, no original, ultrapassa
a idéia de vestuário simplesmente. Paulo usa o termo para fazer referência
também a moralidade sexual que nos é exigida por Deus e que deve se refletir em
nossas roupas.

Nossas roupas indicam se temos maus ou bons costumes morais. A maneira


como nos vestimos ressaltam o valor moral que atribuímos ao nosso corpo diante
de Deus. O jeito como nos vestimos reflete a nossa consciência moral em termos
de sexualidade, bem como o nosso senso de preservação da nossa integridade
moral. A nossa roupa pode refletir o nosso caráter.

O que vestimos mostra o que esperamos que as pessoas pensem de nós em


relação a maneira como tratamos a nossa sexualidade. Se nos vestimos com
luxúria as pessoas poderão imaginar que somos licenciosos, ou seja, imorais. Se
nos vestimos com decoro, por certo as pessoas perceberão que nós nos
honramos e que lutamos para nos preservar em santidade diante de Deus. Isso é
verdade desde que não haja falsidade em nossos corações

A escolha não é muito difícil. Roupas sobrecarregadas de luxúria e de


sensualidade, que refletem lascívia e libertinagem imoral, ou roupa decorosa, que
reflete a sua compostura moral e espiritual. Lembre-se; suas roupas, por certo,
falarão mais alto do que as suas palavras em meio ao burburinho esganiçado da
promiscuidade na qual chafurda a nossa sociedade.

Conclusão:

Outros textos poderíamos estudar sobre o tema, tais como João 19.23-24, que
falam das roupas de boa qualidade, de valor e de discreta beleza usadas por
Jesus; Apocalipse 7.9-17, que fala da roupa dos mártires na glória, que eram as
mesmas vestes que usavam aqui na terra, pois não haverá tempo para trocar de
roupa antes de entramos no céu; e Apocalipse 16.15, que descreve o fato de
termos as roupas sempre à mão como sinal de preparo espiritual para o encontro
com Jesus, mas creio que já vimos o bastante para estabelecermos parâmetros
éticos para a nossa igreja, no que diz respeito a nossa vestimenta.

18
Talvez você esteja se perguntando: Onde se pretende chegar com este estudo?
Ou quem sabe você esta ruminando com os seus botões... "Já até sei qual vai ser
o resultado disso". Não importa. Não nos preocupa nem mesmo o fato de você
pensar que este assunto não deveria ser tratado na igreja.

Mas devemos tratar destas questões na igreja sim, visto que imoralidade,
promiscuidade, lascívia, exploração da sensualidade na vestimenta e o
cinicamente chamado nu artístico são ações maléficas do diabo contra a natureza
humana e a sociedade. O resultado dessas estratégias diabólicas tem sido a
violência sexual contra as crianças, a gravidez na adolescência, a prostituição
desenfreada, a banalização do adultério, a aceitação parcimoniosa do divórcio e,
como decorrência, famílias destroçadas. O resultado da imoralidade no vestir é
uma sociedade corrompida, desigual e agonizante como percebemos a nossa.
Será mesmo que não temos razões que justificam estudar este tema?

Vale ressaltar ainda que este estudo, embora de cunho ético, é também
evangelístico. Pois apresenta o evangelho verdadeiro, sem ajustes humanos, sem
relativizações éticas e sem a tentativa de se fazer a vontade humana. Este estudo
apresenta o evangelho que é a luta por se fazer a vontade de Deus, que nos quer
santos para ele e santificadores pelo testemunho cristão autêntico. Se você
procura outro evangelho que não o de Jesus Cristo, bateu no estudo errado. A
igreja de Cristo não é o seu lugar.
Por fim, vamos ao objetivo deste estudo que não é nada que a igreja já não saiba,
pois em diversas ocasiões manifestamos nossa posição bíblica sobre a questão
da vestimenta do cristão, como já dissemos neste estudo.

Uma vez realizado o estudo, nossa oração é para Deus, pelo Espírito Santo, toque
em nossas mentes e corações a fim de que mudemos radicalmente a maneira de
nos vestirmos. Não só na igreja, mas em casa, no trabalho, na escola, na igreja,
em fim, em todo o lugar onde estivermos e no nosso cotidiano.

Não é o pastor que manda. É Bíblia. É Palavra de Deus. Lógico que cabe ao
pastor a ministração da Palavra e a supervisão quanto a obediência aos
ensinamentos do Senhor. Por isso, de hoje em diante, devem ser estabelecidas
algumas regras bíblicas em relação a vestimenta que se usará para a participação
e para ministração nos cultos. Seria uma bênção se estas normas fossem
aplicadas pelos irmãos e irmãs de modo geral, pois o pastor não deve se dar ao
trabalho de vigiar ninguém. Deus há de restaurar e transformar a consciência de
cada um, visto que, como pastores, não podemos fazer o papel do Espírito Santo
no convencimento das pessoas.

Porém, no que diz respeito a utilização do púlpito, ao estar na frente para ministrar
o culto, para cantar, para declamar, para qualquer coisa, bem como para se subir
na plataforma para ministrar o louvor, o culto ou qualquer outra participação, não
se deve permitido blusas de alças (aquelas blusas que só tem as alcinhas e mais
nada), tomara que caia (que para os mais afoitos devia chamar "pena que não

19
caiu"), decote umbilical, no cóxi ou no "rego", e nem decotes meia-taça que
projetam os seios para os olhos incautos dos homens ávidos por aconchego ou
mesmo dos desavisados... Haja unção para olhar e não pecar.

Não mais se deve permitir o uso de mini-saia, micro-saia, vestidos curtos


(daqueles que vão só até a cabeça do fêmur) ou transparentes e translúcidos. Não
se deve ir para a igreja com calça de cós baixo (daqueles que ficam no púbis) sem
uma blusa ou camiseta que cubra os quadris, e nem com uma calça comprida
atarracada no corpo, na genitália ou no traseiro, por que estas não são roupas
adequadas para se estar na frente da congregação. Com roupas deste tipo não se
deve participar da ministração.

Seja para dirigir programa, para ministrar o culto ou o louvor. Seja para apresentar
visitantes, fazer anúncios, cantar, tocar, cantar em conjunto ou pregar. Não
importa. Diante da igreja, para ministrar na presença de Deus, não se deve
permitir mais uma vestimenta indecorosa, modismos exagerados e imorais, ou
mesmo roupas esculachadas, que não condizem com o padrão de Deus para a
vestimenta do salvo e nem com o testemunho cristão.

Diante de Deus e da congregação devemos estar bem trajados, demonstrando


que não temos mais os temores do pecado quanto a nossa nudez, e que estamos
devidamente vestidos para a adoração e em profunda e sincera reverência a
Deus.

Isto por quê? Porque fomos restaurados por Deus da nossa natureza pecaminosa
e porque estamos dispostos a obedecer ao Senhor, fazendo a sua vontade,
expressa na Bíblia Sagrada, mesmo que para isso tenhamos que fazer uma
"fogueira santa" com as roupas que usávamos até sermos exortados na Palavra
de Deus. Seria maravilhoso se num domingo fizéssemos esta fogueira para
queimar as roupas das quais o Senhor nos libertou depois de termos estudado a
Palavra.

Esperamos no Senhor que este estudo seja suficiente para uma tomada de
posição nossa como igreja de Cristo no Brasil. Não precisaríamos ouvir críticas ou
cobranças por causa de vestimenta.

Somos nós e os nossos filhos que nos vestimos indevidamente. Somos nós que
compramos as roupas dos nossos filhos. Se não compramos, admitimos que eles
comprem ou que usem. Vamos assumir a nossa responsabilidade e corrigir a
nossa conduta moral, diante de Deus, no que diz respeito a vestimenta.

Quanto às críticas ao autor e ao estudo, muito obrigado, em nome de Jesus, aos


críticos. Porém, entre a frouxidão moral e Palavra de Deus, ficamos com a Bíblia.
Entre a relativização ética e o Texto Sagrado; ficamos com a Bíblia. Entre a
perversão do modismo e as Escrituras, ficamos com a Palavra de Deus. Mesmo
que isso nos imponha a impopularidade, o estigma de radical ou a renúncia do
pastorado.

20
Amém.

Parte V
“ALEFREI-ME QUANDO ME DISSERAM..."
Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor” (Sl 122.1)

A tocante, inspiradora, edificante experiência de ver o povo de Deus chegando


cada manhã ao templo é uma alegria dominicalmente renovada. Podemos,
mesmo, imaginar as multidões indo à Beth haMikdash (Templo) em Jerusalém, e
cantando à medida que iam se aproximando dos portões da Cidade Santa. É o
que diz a nota de explicação do Salmo 122 com a expressão “cântico de degraus”
(“gradual” ou “de romagem”, “de romaria” ou “de procissão” em outras traduções).
O povo ia ao Templo de Jerusalém, e vem hoje ao templo. Porém, com que
objetivo?

A Casa de Deus

É lugar de adoração. Está na Palavra Santa: “...aonde sobem as tribos, as tribos


do Senhor, como testemunho para Israel, a fim de darem graças ao nome do
Senhor” (Sl 122.4) Jesus Cristo ensina que o Senhor busca adoradores (Jô 4.23),
ou como bem o expressou A. W. Tozer: “Deus salva os homens para fazê-los
adoradores, fato esquecido hoje em dia por liberais, seitas e (até) cristãos
bíblicos”.
Se não somos adoradores, crentes com espírito de louvor, não poderemos
trabalhar aceitável e adequadamente pelo reino de Deus, pois o Espírito Santo
age através do coração, das mãos, dos pés, dos lábios que se renderam ao
Criador. Assim, o louvor é a nossa resposta ao amor de Deus. Cantar, orar,
meditar, tudo leva à adoração. Adorar, no entanto, é mais que qualquer um desses
atos.
Na verdade, é se deixar inflamar pelo Deus Pai, pelo Deus Filho e por Deus
Espírito Santo; cultuar é confessar que se mantém um relacionamento com o
Criador. O crente troca a independência, a auto-suficiência, a rebeldia pela
rendição a Deus, pela entrega, submissão e pedido de socorro. No culto,
louvamos a Deus em conjunto, confessamos nossos pecados em conjunto,
recebemos a Palavra em conjunto, e saímos para servir com um só propósito
embora em situações e contextos distintos.
Há, porém, que ser assim, visto que, após a salvação, o passo mais importante
que o novo crente, o crente deve dar é unir-se ao povo de Deus na instituição que
Ele estabeleceu para o propósito de lhe trazer crescimento: a igreja local. No dizer
de Paulo, apóstolo: “Escrevo-te estas coisas, embora esperando ir ver-te em
breve, para que, no caso de eu tardar, saibas como se deve proceder na casa de
Deus, a qual é a igreja do Deus vivo, coluna e esteio da verdade” (1Tm 3.14,15). É
nesse pensamento que o poeta exclama com tanto entusiasmo, “Alegrei-me
quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!” (cf. v. 4).

No culto comunitário, há pessoas de diferentes origens, níveis sociais, raças e

21
culturas. Todas essas distinções, no entanto, se evaporam no canto
congregacional, no canto coral, na oração, na leitura bíblica, na entrega dos bens
e vidas, na mesma expectativa quanto à pregação. O crente há de compreender
que, ao vir ao culto, algo vai acontecer: sua vida será agraciada pela presença de
Deus, pela compreensão do grande, eterno amor, e enriquecida pela comunhão
dos irmãos, aquilo que é tão bem expresso na Bênção Apostólica: “A graça do
Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam
com todos vós” (2Co 13.13). É o senso de conjunto, de adoração conjunta em
perfeito acordo com o que Paulo acentuou em Filipenses 3.5: “Pelo que todos
quanto somos perfeitos tenhamos este sentimento, e, se sentis alguma coisa de
modo diverso, Deus também vo-lo revelará”. Há um popular hineto que diz:
“Quando estou com o povo de Deus,
eu sinto a maior alegria;
quando estou com o povo de Deus,
eu sinto real harmonia...”

É a fé estimulada, são as energias espirituais renovadas, a coragem, a robustez, a


esperança fortalecidas, por que no culto, Deus está presente: “O Senhor está no
seu santo templo...” (Hc 2.20); Jesus Cristo está presente: “onde se acham dois ou
três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18.20); o Espírito
Santo está presente: “E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam
reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a
palavra de Deus” (At 4.31). E, quando o culto termina, diz o adorador-em-espírito-
e-em-verdade, “Alegrei-me de verdade, alegrei-me com tudo o que eu sou,
alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor!”
A casa de Deus é um lugar de oração. “Orai pela paz de Jerusalém” pede o
salmista no Salmo 122.6. Assim, é ambiente de conseqüente avivamento. Por
vezes, vidas são áridas num mundo árido, surgindo a necessidade de reavivar-se
a chama dentro de nós. É o reaquecimento, o despertamento que buscamos,
prezamos, queremos e pelo qual clamamos.
Habacuque expressou este clamor ao dizer, “Aviva, ó Senhor, a tua obra no meio
dos anos; faze que ela seja conhecida no meio dos anos; na ira lembra-te da
misericórdia” (3.2). E o Senhor nos responde: “e se o meu povo, que se chama
pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se desviar dos seus
maus caminhos, então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a
sua terra” (2Cr 7.14).
A dinâmica do culto consiste em deixar-se o crente individualmente, e a igreja
como um todo tocar pelo Espírito de Deus. Isso nos recorda o ensino bíblico de
que é pecado trazer no culto divino e ao serviço do Senhor qualquer coisa que não
proceda de uma vida renascida. É o fogo estranho de que fala Levítico 10.1 e
Números 3.3,4. Irreverência na casa do Senhor é pecado grave, muito grave, e
traz sério prejuízo espiritual para toda a igreja. Não expressa a Escritura, “Guarda
o teu pé quando fores à casa de Deus” (Ec 5.1a)?

É até possível ampliar a explicação exortando a guardar os ouvidos, os olhos, a


mãos, a mente e o coração. Dominados haveremos de ser por um anseio de uma
maior consagração. O cristão evangélico não “assiste ao culto”: dele participa. O

22
culto não é um drama encenado para uma platéia de espectadores, ou realizado
tão somente pelo oficiante sem a presença de um auditório. É ato corporativo.
Aliás, a alegria do culto divino é um sentimento antecipado, e acentuada essa
alegria quando compartilhamos a adoração com outros crentes. Portanto, não
basta a um cristão dizer que pode orar, cantar, ler e meditar em casa, ou ligar a
TV e ter a igreja eletrônica com um pregador de estúdio “olhando” para você (?!)
da tela fria do televisor, porque nada vai compensar o culto que você perdeu, e
nada vai comprar as bênçãos divinas, os temores afastados, as falsas idéias e
doutrinas corrigidas, e a fé revigorada na adoração coletiva.

Algo Prático

O cantar. É errado chamar a primeira parte do culto de Louvor, visto que, na


realidade, todo culto, e o culto todo é uma tremenda apoteose de louvor. Não pode
haver culto se não há adoração com seriedade, se o louvor é sem reverência, sem
humildade, sem espírito de dependência, sem espírito de cooperação, sem
confiança, sem quebrantamento e sem consagração.
A música são as flores do jardim da adoração. O objetivo é unicamente a glória de
Deus, nunca o destaque pessoal. A música deve afunilar juntamente com as
leituras bíblicas, a oração e as ofertas para o tema a ser explanado e desenvolvido
no sermão. Cuidado com a música de qualquer jeito, sem ensaio, improvisada,
porque nosso Deus não merece nem tolera isso!
Por que substituir os teológica e musicalmente bem escritos hinos, hinetos e
doxologias por corinhos de paladar duvidoso, escritos em mau português,
popularescos, com uma teologia que não é bíblica, como, por exemplo, “Jesus é a
aliança entre você e eu...”, onde em poucas palavras há um erro crasso de
linguagem? O hino deve ser reverente, bíblico, trazer o amor de Deus e enfatizar a
adoração.
O bom hino comunica o amor do Pai. Há quem se interesse pelo som, pela
harmonia ou pelo ritmo, mas não pelo Senhor que é exaltado nos seus versos. Há
quem esteja mais interessado no que alguém imaginosamente chamou de LIT-
ORGIA, em vez da liturgia (palavrinha boa que significa “o trabalho do leigo”); há
quem se interesse pelo barulho em vez do serviço a Deus, o “trio elétrico”
evangélico”, a “axé music” evangélica em vez da calma onde se manifestou o
Espírito de Deus a Elias (1Rs 19.12b). O irmão Lawrence afirmou, “Não consigo
imaginar como pessoas religiosas podem viver satisfeitas sem a prática da
presença de Deus”. Sim, a alegria da presença de Deus, porque a alegria não é
encontrada em cantar certo tipo de música ou viver com certo grupo. Consiste na
obediência.
As ausências. A palavra de Deus é claríssima sobre esse tema: “consideremo-nos
uns aos outros, ... não abandonando a nossa congregação, como é costume de
alguns...” (Hb 10.24,25). A tradução do Pe. Negromonte esclarece ainda mais,
“Não deixando as nossas reuniões...”
É ausentar-se podendo estar presente, o velho e persistente comodismo. É não
deixar que a chuva, o calor, o frio, a TV, a corrida de automóveis, o futebol, o
dever de casa, a praia, os passeios, ou o turismo eclesiástico nos impeça de vir à
própria congregação, pois é preciso crescer com a igreja, crescer na igreja,

23
crescer para a Igreja de Cristo em sua expressão local, a comunidade de fé de
você faz parte.
Quando deixamos a congregação, quando nos ausentamos da igreja, não
recebemos as bênçãos do culto, perdemos o fervor, o espírito de unidade, não
levamos os filhos a crescer e a igreja perde a cooperação.
Se a adoração, o louvor, o culto não nos transformar, não pode ser chamado culto,
louvor, adoração (cf. Mt 5.23,24), visto que adorar, louvar, cultuar é transformar-
se. Se a adoração não nos levar a maior obediência, é só agitação, mas não um
ato de culto. Quando entramos no templo é a expectativa, quando saímos é
obediência; quando entramos é fé e esperança, quando saímos é amor.

Neemias nos inspira: “porque este dia é consagrado ao nosso Senhor. Portanto
não vos entristeçais, pois a alegria do Senhor é a vossa força” (8.10b), por isso,
“Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”

Parte VI
A IGREJA PRECISA DE TEOLOGIA?

Introdução e Conceitos

É comum ouvirmos que "a teologia mata a religião" ou que "a Igreja não precisa de
teologia e, sim, de vida". Serão verdadeiras essas afirmações? Admitimos que há
muita coisa por aí levando o nome de "teologia" que não passa de especulação
humana, por não se basear em pressupostos de uma hermenêutica bíblica. E até
a "boa teologia", quando se torna um fim em si mesma, pode não ter qualquer uso
prático e reduzir-se a mero academicismo. Não é disto que falamos aqui.
Perguntamos se a verdadeira Teologia é necessária à Igreja.

E o que é verdadeira Teologia? Como o próprio nome indica, Teologia é o estudo


de Deus, ou, definindo mais formalmente, "é a ciência que trata de Deus em Si
mesmo e em relação com a Sua obra" (B.B. Warfield). Perguntamos, por
conseguinte, se a Igreja pode prescindir do conhecimento de Deus e da Sua obra
e ainda ser Igreja de Deus. É quase certo que aqueles que negam a necessidade
da Teologia na vida da Igreja não diriam, conscientemente, que alguém pode ser
cristão sem conhecer a Deus. O que lhes falta é um bom conhecimento do que é
Teologia e de suas implicações.

Como podemos conhecer a Deus sem estudar a revelação que Ele faz de Si
mesmo? Como saber quem Ele é e o que Ele tem feito e faz, quem somos nós em
relação a Ele, o que Ele requer de nós,etc., se não investigarmos o que Ele deixou
revelado para nosso conhecimento? Pois esse é o trabalho da Teologia. Esse
trabalho parte de três pressupostos: O primeiro é o de que Deus existe; o
segundo, de que Ele pode ser conhecido, embora não de modo exaustivo e
completo; e o terceiro, de que Ele tem Se revelado tanto por meio de Suas obras
(criação e providência - Revelação Geral - Sl19:1,2; At 14:17), como,
principalmente, nas Santas Escrituras (Revelação Especial - Hb1:1,2; 1 Pd
1:20,21). É porque Deus Se revelou que podemos conhece-Lo. Nosso

24
conhecimento de Deus não é intuitivo, nem natural, mas comunicado por Ele
mesmo através dos meios que soberanamente escolheu. "Fazer teologia",
portanto, não é inventar teorias a respeito de Deus e de Suas obras, nem mesmo
"descobrir" a Deus, mas conhecer e compreender a revelação que Ele próprio deu
de Si. Por isso, qualquer estudo de Deus que não tiver a Sua revelação como
base, meio e princípio regulador não é "teologia", devidamente entendida.

A palavra "teologia" não ocorre na Bíblia e o termo que lhe é equivalente, no N.T.,
é "doutrina" ( "didache" ou "didaskalia", no grego), que vem de uma raiz que
significa "ensinar" e pode se referir tanto ao ato de ensinar, propriamente, como ao
conteúdo do que é ensinado (Rm 6:17;1Tm 6:3-4; 2Tim 4:3-4; Tito 1:2,9, etc.).
Podemos dizer, de modo mais completo agora, que Teologia é o conjunto de
verdades extraídas dos ensinos bíblicos a respeito de Deus e de Sua obra, e que
são apresentadas de modo sistemático, na forma de um corpo de doutrinas. A
essa forma ordenada de doutrinas, dá-se inclusive, o nome de "Teologia
Sistemática". O adjetivo aqui, não altera o conceito de "teologia".

Assim entendidas, fica evidente que não há diferença entre Teologia e Doutrina.
Mas voltemos ao nosso tema. Duas são as razões geralmente apresentadas para
se dizer que a Igreja não precisa de Teologia. Elas se baseiam em duas falsas
antíteses:

1. A primeira é a suposição de que o Cristianismo se baseia em fatos e não


em doutrinas

Concordamos que nossa salvação não repousa sobre um conjunto de teorias ou


idéias, mesmo que extraídas corretamente da Bíblia, a que damos o nome de
"doutrina", mas sobre os atos poderosos e eficazes do nosso soberano Deus. Não
somos salvos através de uma correta teoria a respeito da pessoa de Cristo, mas
pela própria pessoa de Cristo; nem através de um exato entendimento da doutrina
da Expiação, mas pelo próprio ato expiatório. É possível alguém ser "bom
teólogo", nesse sentido, e ainda não experimentar as graças ensinadas nas
doutrinas que expõe. A doutrina realmente não salva. A obra de Cristo,
devidamente aplicada pelo Espírito no coração do crente, é que assegura essa
graça. Seu nascimento sobrenatural, Sua vida de perfeita obediência à Lei, Sua
morte substitutiva, Sua ressurreição, Sua ascensão e assentamento à direita do
Pai, Sua segunda vinda, são os grandes fatos que tornam garantida a salvação
dos eleitos.

Mas como sabemos que esses são os fatos? Que sentido teriam esses
acontecimentos se não tivessem sido interpretados? É a doutrina que lhes dá
sentido. Como viemos a saber que aquele menino que nasceu em Belém é o Filho
de Deus? Por que descansamos na eficácia da Sua morte para a expiação dos
nossos pecados? Por que sabemos que a Sua ressurreição, há dois mil anos
atrás, garante a nossa justificação? É porque esses fatos são todos explicados e
interpretados pela doutrina.

25
Esta não só informa o fato como também dá o seu significado. A doutrina não
salva, mas pode tornar o homem sábio para a salvação (2Tm 3:15). Doutrina sem
fato é mito, mas fato sem doutrina é mera história.

O Cristianismo, portanto, consiste em "fatos que são doutrinas e doutrinas que são
fatos", na expressão de B.B. Warfield. Ele diz: "A Encarnação é uma doutrina:
nenhum olho viu o Filho de Deus descer dos céus e entrar no ventre da virgem;
mas se isso não for um fato histórico também, nossa fé é vã e permanecemos
ainda em nossos pecados"( Selected Shorter Writings, vol 2, p. 234). Fato e
doutrina se complementam no Cristianismo. Quando João diz: "E o Verbo se fez
carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade" (Jo 1:14), não está
apenas apresentando um fato; está explicando-o também. Quando Paulo afirma
que Jesus "foi entregue por causa das nossas transgressões,e ressuscitou por
causa da nossa justificação" (Rm 4:25), de igual modo está dando uma
interpretação aos fatos da morte e ressurreição de Cristo. Isto é o que se vê em
toda a Escritura, especialmente nas epístolas.

Até mesmo os fatos manifestos na natureza (Revelação Geral) não seriam


devidamente compreendidos se não fossem explicados pela Bíblia (Revelação
Especial). Podemos hoje entender que "os céus manifestam a glória de Deus" (Sl
19:1) porque o Criador nos tem revelado isso na Sua Palavra.

Sem essa explicação, sua mensagem (a dos céus) passaria despercebida e eles
poderiam até ocupar o lugar do Criador, gerando a idolatria (devido ao pecado),
como lemos em Rm 1:18-32. Não é o acontece quando as pessoas dizem que "a
natureza é sábia", ou quando a chamam de "mãe natureza"?. Sem a revelação do
Criador, a criatura toma o seu lugar. Daí dizer-se que para se conhecer a Deus é
preciso que Ele fale, e não somente que Ele aja.

Concluímos, portanto, que os fatos só têm sentido quando acompanhados da


doutrina. Nem é pertinente perguntar qual dos dois é mais importante. Seria o
mesmo que indagar qual das duas pernas é mais importante para o nosso
caminhar. O ensino da doutrina é uma das ênfases da Bíblia (1Tm 3:2; 2Tm 2:2;
Tito 1:9; Ef 4:11), pois sem ela não existe verdadeiro Cristianismo.

2. A segunda é a suposição de que o Cristianismo consiste em vida, não em


doutrina Por trás dessa afirmação podem estar raízes do conceito filosófico que
exalta o misticismo, as emoções, o sentimento religioso do homem, e que procura
eliminar da religião todo apelo ao intelecto, à razão. "Religião é vida e a vida é
dinâmica, fluente; a doutrina é estática, fria, e, portanto, não pode ser compatível
com o caráter do Cristianismo", dizem. Aqueles que assim pensam até admitem
um certo tipo de doutrina, desde que mutável, adaptada sempre à dinâmica da
vida e conformada às "necessidades" da época e do lugar onde a vida do
Cristianismo se manifesta. Até chamam a isso de "teologia contemporanizada" ou
"contextualizada". Segundo esse ponto de vista, não é a doutrina que deve dirigir
a vida, mas esta àquela. "A letra mata, mas o espírito vivifica", argumentam. A
prática (práxis) é colocada acima da doutrina não só em importância, mas também

26
no tempo: a doutrina passa a ser um produto da vida cristã, não a sua norma. Há
até quem interprete assim a célebre divisa: "Igreja reformada sempre se
reformando".

Mas será essa a visão bíblica do Cristianismo? Podemos dizer, com base na
palavra de Deus, que o Cristianismo é vida e não doutrina, ou, primeiramente vida,
depois doutrina? Existe tal antítese? Se essa posição for verdadeira, então não
haverá verdade absoluta, nem princípio fixo, nem revelação objetiva. Tudo cairá
no campo dos valores relativos e passará a depender do subjetivismo, da
"piedade", das emoções. Não admira que haja tanta "fluidez" e instabilidade entre
os que assim pensam, e que sejam facilmente levados "por todo vento de
doutrina". Para estes, a doutrina é o que menos interessa.

Concordamos também que Cristianismo é vida, e graças a Deus por isso! Onde a
vida não se manifesta, nos moldes escriturísticos, falta a alma da verdadeira
religião. Mas devemos ou podemos prescindir da doutrina para que essa vida se
manifeste? Antes de tudo, é a verdade de Deus relativa? Depende o seu valor do
lugar e da época em que se encontram os homens? Sabemos que esta é a
posição atual dos que se denominam pluralistas e esse é o pressuposto básico
desta posição. Será que aquilo que foi deixado por Paulo e pelos outros apóstolos
como doutrina para os seus dias deveria ser mudado nos dias de Agostinho,
depois nos dias de Lutero e Calvino, depois nos dias de Warfield e dos Hodge e,
assim, sucessivamente, até os nossos dias, para dar lugar às manifestações de
vida? Não creio que a Bíblia justifique essa posição nem que esses teólogos a
tenham entendido assim. O princípio de que "a Igreja reformada deve estar
sempre se reformando" visa manter sempre a mesma posição em relação à
verdade, não alterá-la, para que seja aplicável em todas as épocas. É para que
continue sempre sacudindo de si toda tradição e acréscimo humano que não
estejam de acordo com os valores fixos e absolutos da palavra de Deus.

Reformar é voltar às origens, ao que foi intencionado no princípio por Deus. E não
há outra forma de se fazer isto a não ser pela doutrina.

Foi a doutrina bíblica, tão bem exposta pelos reformadores e tão negligenciada
pela Igreja, que a trouxe de volta às origens e lhe recuperou a vida, no século XVI.
Foi a falta da verdadeira doutrina que enfraqueceu a Igreja e a lançou num
tradicionalismo vazio e pagão. É a correta aplicação da doutrina que produz a
verdadeira vida cristã. Não basta apenas um sentimento religioso para fazer de
um homem um cristão. É preciso que sua vida seja moldada na doutrina de
Cristo.É a doutrina que dá característica à vida.

Sem dúvida, não estamos afirmando que apenas a doutrina, independente da obra
santificadora do Espírito, produz vida. A doutrina é, isto sim, o meio que o Espírito
soberanamente usa para nos fazer conhecer a vontade de Deus e nos levar a
praticá-la. É através dela que ficamos sabendo que a vontade de Deus é a nossa
santificação e que, sem esta, ninguém verá o Senhor ( 1 Ts 4:3; Hb 12:14). É ela
que nos aponta os meios de graça deixados pelo próprio Senhor, que é quem nos

27
santifica (Lv 20:7-8; Ef 5:26). Nas epístolas paulinas, a íntima relação entre
doutrina e prática é evidenciada pelo seu método de apresentar primeiro a
argumentação teológica (doutrinária) para depois tirar as implicações práticas dela
decorrentes (Ex. Rm 1-11: doutrina; 12-16: prática). Isso se torna ainda mais claro
na oração sacerdotal de Cristo, em que Ele associa a prática da santificação com
a doutrina da Palavra: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade" (Jo 15 :
17) e em João 7:17, onde o fazer a vontade de Deus está ligado ao conhecer a
doutrina: "Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da
doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo".

O conhecimento de Deus começa pela porta do intelecto, da razão, para depois


pervadir todas as áreas do ser e se transformar em manifestações de vida que O
agradem e glorifiquem. Por isso, o ensino da doutrina é indispensável na Igreja,
tanto através do púlpito como pelos estudos semanais, pela Escola Dominical e
por qualquer outro meio disponível. Nossa demonstração de vida pode
impressionar as pessoas e despertar nelas certa admiração, mas é pela pregação
da Palavra que vem a fé que transforma (Rm 10:7) A espada do Espírito é a
Palavra (Ef 6:17). Conclusão

Concluímos, portanto, que a Igreja precisa da Teologia, porque precisa da doutrina


nela contida para dar sentido e expressão aos fatos do Cristianismo e para prover
os meios de manifestação da verdadeira vida cristã.

Parte VII
A IGREJA, CORPO DE CRISTO
TEXTO: EFÉSIOS 1:22-23

PROPOSTA: A nossa proposta é a de conhecer o que a Bíblia fala sobre a igreja.


Qual o verdadeiro significado deste termo!
Quais as responsabilidades daqueles que dela participam.

01. A ORIGEM DA IGREJA

1.1 - A primeira referência bíblia sobre a igreja aparece em Mateus 16:18


1.2 - O nascimento da Igreja ocorreu n dia de Pentecoste. Atos 2:1-4

02. A NATUREZA E AS FUNÇÕES DA IGREJA COMO CORPO

2.1 - No Novo Testamento - "povo de Deus"


"Ekklesia" - "chamados para fora"

- Outros títulos:

- Corpo de Cristo - Ef. 1:22-23


- Templo do Espírito Santo - Ef. 2:21-22
- Plenitude de Cristo - Ef. 1:23
- Noiva do Cordeiro - 2 Cor. 11:2; Ap. 19:7

28
- A Igreja como corpo deve:
- ministrar
- manter a unidade da fé
- reconhecer ministérios
- participar do louvor, da comunhão, dos desafios
- instruir seus filhos na Palavra

03. A FORMAÇÃO A IGREJA

- Ela é formada pela união de seus membros - 1 Cor. 12:17


- Ela tem responsabilidades - Ef. 1:4; Rom. 8:29; 1 Ped. 2:9;
Observe as expressões: "escolheu"; "conheceu"; "eleita", "para sermos";
"para serem"; "a fim de".

04. AS FUNÇÕES DOS MEMBROS

- criar unidade no corpo - Ef. 4:16


- nutrir os demais membros - 1 Cor. 12:25
- sustentar os membros - Col. 2:19
- transmitir ordens - Fil. 4:9

05. CARACTERÍSTICAS DO CORPO

- Colaboração - 1 Cor. 12:12


- Exclusividade - 1 Cor. 12:14
- Individualidade - 1 Cor. 12:21
- Harmonia - 1 Cor. 12:25
- Diversificação de ministérios - 1 Cor. 12:28-29

06. SÍMBOLOS BÍBLICOS QUE DESCREVEM A IGREJA

- Rebanho - João 10:16


- Lavoura de Deus - 1 Cor. 3:9
- Edifício de Deus - 1 Cor. 3:9
- Santuário de Deus - 1 Cor. 3:16
- Coluna e Baluarte da verdade - 1 Tim. 3:15
-
Parte VIII
A IGREJA, CORPO DE CRISTO II
TEXTO: MATEUS 28:18
PROPOSTA: Este estudo visa mostrar que a mesma autoridade que Jesus
recebeu do Pai, foi também delegada a igreja.
Ela se tornou a agência mediante a qual o Senhor manifesta o seu poder, a sua

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graça e autoridade.

01. AUTORIDADE E PODER

A autoridade representa a própria essência de Deus, enquanto o poder expressa


os seus atos! Isaías 40:25-26
Deus pode perdoar aqueles que duvidam de seus feitos, mas retêm o perdão
àqueles que menosprezam a sua autoridade.
A queda de Satanás ocorreu, porque ele desejou ser igual a Deus, e não
simplesmente realizar os mesmos feitos de Deus. Isaías 14:13-14
Obs. Satanás não tem medo de uma pessoa que prega a Palavra.
Ele tem medo das pessoas que se submetem a autoridade de Cristo.

02. AUTORIDADE E PODER DELEGADOS À IGREJA

- A igreja como corpo, recebeu do Senhor Jesus, toda a autoridade e poder para
se tornar uma igreja viva e vitoriosa.

2.1 - Autoridade sobre a natureza - Mat. 17:20; Mat. 20-21-22


- esse poder é manifestado através da oração. Ela se torna em realidade devido a
autoridade que Cristo concedeu à igreja.

2.2 - Autoridade sobre os espíritos - Luc. 10:19; Mat. 10:8


- A luta profetizada pôr Jesus:
- Igreja x Portas do inferno
- "Portas do Hades" - Hades representa o deus que tinha autoridade sobre os
mortos!
- Porta - representava a corte, o poder do reino do mundo inferior!
- Resumo: a igreja não pode morrer. Ela é eterna.

2.3 - A autoridade da igreja é maior do que o poder do Diabo


- Mar. 5:9; Luc. 8:30
- Jesus comandou o espírito que atormentava o jovem e o expulsou. A autoridade
a nós foi delegada, força o diabo a nos obedecer.

2.4 - Autoridade sobre os pecados - Mat. 6:14; Jó 20:23; Tg. 5:14-15

Diferença entre: "pecado" e "pecados"


- A igreja pode perdoar os pecados (ofensas) cometidos contra ela. Mas, o
pecado, provocado pela queda do homem, só através do sangue de Cristo.

2.5 - Autoridade para ligar e desligar - Mat. 18:18; Mat. 16:19; 1Cor. 5:3-5

- Para exercer esta autoridade a igreja precisa estar em perfeita sintonia com o
Espírito Santo. Esta autoridade não é um exercício individual, e, sim, coletivo.

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3.0 - CONTESTANDO A AUTORIDADE DELEGADA
- A nossa obediência deve ser praticada não em função da pessoa mas da
autoridade nela investida. Não se obedece a homens, e, sim, à autoridade de
Deus que está nesse homem.

- Obs. Watchamann Nee: "A maior das exigências que Deus faz ao homem não é
a de carregar a cruz, servir, dar ofertas, ou negar-se a si mesmo. A maior das
exigências é que ele obedeça" - 1 Sam. 15:22-23

- Obs. Os maiores castigos mencionados na Bíblia ocorreram em razão da


desobediência à autoridade delegada pôr Deus.

3.1 - Queda do querubim da guarda - Ezequiel 28:13-17


3.2 - Queda de Adão e Eva - Gênesis 2 e 3
3.3 - Rebelião de Cão - Gênesis 9:20-27
3.4 - Rebelião de Nadabe e Abiú - Levítico 10:1-2
3.5 - Castigo de Arão e Miriã - Números 12
3.6 - Rebelião de Coré - Números 16
3.7 - A desobediência de Saul - 1 Samuel 15
3.8 - A insubmissão de Absalão - 2 Samuel 15
3.9 - A idolatria de Salomão - 1 Reis 11
3.10 - A transgressão de Uzias - 2 Crônicas 26:16

4.0 - AUTORIDADE E A LIDERENÇA DA IGREJA


- A igreja só crescerá quando todos os membros estiverem debaixo do autoridade
de Deus delegada aos seus ministros.
1 Tes. 5:12-13; 1 Cor. 16:15-16; Heb. 13:17; Zac. 13:7

Parte IX
A IGREJA, CORPO DE CRISTO III
TEXTO: ROMANOS 12:1-2

PROPÓSITO: A maior necessidade do mundo, das pessoas, como também da


igreja, é a necessidade de adaptação ao curso da História. Esta adaptação só se
viabiliza mediante a disposição do mundo, das pessoas, e da igreja em se
transformarem. Transformação é o segredo de um organismo vivo.

Ilust. Leon Tolstói: "Todos pensam em mudar a humanidade e ninguém pensa em


mudar-se a si mesmo".

1.1 - A comunicação se processa através de três elementos básicos:


a . Kerygma - mensagem
b. Koinonia - comunhão
c. Diakonia - serviço

1.2 - Encurtando as distâncias - João 13:12-17


A mensagem - Kerygna - não funciona isoladamente. Para que ela produza

31
resultados positivos, é necessário que o membro exercite a Koinonia e a Diakonia.

0.2 - TRANSFORMANDO A NOSSA RELAÇÃO COM OS OUTROS MEMBROS

Este processo de transformação ocorre através da prática de quatro princípios


bíblicos.
2.1 - Princípio da integração - 1 Cor. 12:15-16
- cada membro tem sua função. Um membro não deve aspirar o lugar do outro,
quando isso ocorre todo o corpo é prejudicado.
- A quebra desse princípio provoca:
- desvalorização do membro
- contestação da vontade de Deus
- Afastamento dos outros membros
- desperdício de forças

2.2 - Princípio da oportunidade - 1 Cor. 12:17-18


- este princípio visa das a todos os membros a mesma chance de trabalho. Um
membro não pode inibir a ação do outro.
- A falta de oportunidade produz:
- desequilíbrio em todo o sistema
- um espírito de concorrência
- um anemiamento espiritual

2.3 - Princípio de Dependência - 1Cor. 12:21-22


- quando este princípio é quebrado, ocorre:
- um enfraquecimento de todos os membros
- o egoísmo passa a predominar nas relações
- a arrogância quebra a linha de comunicação

2.4 - Princípio da Unidade - 1Cor. 12:25-26; Ez. 34:17


- a unidade é a fonte geradora de toda a energia, de troca a mobilidade e
harmonia do corpo. Sem unidade, a igreja perde a sua função. João 17:23
3.0 - TODA TRANSFORMAÇÃO EXIGE UMA FONTE DE DISCIPLINA PESSOAL
- 1Cor. 9: 24

- A igreja precisa ser a autora e não a espectadora no processo de mudanças. Ela


foi criada para ser o instrumento de Deus na transformação da sociedade.

- Disciplina na prática de ouvir/falar - João 8:47


- Disciplina na prática do perdão - Marcos 11:25
- Disciplina na prática da fé - 2 Cor. 13:5
- Disciplina na prática da liberdade - Gal. 5:13
- Disciplina na prática dos hábitos - Col. 3:17
- Disciplina na prática do tempo - Ef. 5:15-16
- Disciplina na prática da santidade - 1 Tim. 5:22

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Parte X
A IGREJA, CORPO DE CRISTO IV
TEXTO: EZEQUIEL 37:1-14

Autor(a): PR. VANDERLEI FRARI


PROPÓSITO: Cerca de 2960 anos nos separam da experiência de Ezequiel junto
ao vale de ossos secos. Mas a realidade daquele vale ainda é a mesma em
nossos dias. O alvo deste estudo é recriar uma nova esperança no coração
daqueles que como membros, fazem parte da Igreja do Senhor Jesus.

01. UMA CONVIVÊNCIA DESAGRADÁVEL - V. 1

Ezequiel não só foi levado ao vale de ossos secos. Ele andou pôr entre aqueles
ossos. Conviveu com a morte. Sentiu os odores daquele ambiente fétido.
- A experiência de Neemias - Ne. 2:11-15
- Esta convivência foi necessária:
1.1 - para identificar a situação do povo
1.2 - para comprometer o profeta com o desafio de restauração
1.3 - para mostrar qual o propósito de Deus

02. HARMONIZANDO O CORPO

O texto de Ezequiel 37:6 nos ensina quatro verdades básicas sobre a harmonia do
corpo de Cristo.

2.1 - "Porei tendões (nervos) sobre vós..."


- "tendões" - cria a união; dá sustentação; mantém a flexibilidade e resistência do
corpo.
- "nervos" - estimulam; mantém a sensibilidade.
- hipersensibilidade - enferma o corpo!
- Rom. 12:15,17; Rom. 15:2; Gál. 5:26; Ef. 4:22

2.2 - "Farei crescer carne sobre vós..."


- Há três aspectos importantes sobre este elemento:
a . a carne representa unidade, participação, integração - Gên. 2:23
b. a carne é o elemento do corpo. A distrofia - perturbação da nutrição -prejudica o
metabolismo do corpo. Fil. 2:3; 2 Cor. 8:13-15
c. a carne fala do conhecimento da Palavra. É o alimento sólido. 1 Cor. 3:1-2;
Heb. 5:11-14

2.3 - "E sobre vós estenderei pele..."


- a pele é o elemento de proteção. Ela funciona também como um filtro. Uma pele
ressecada prejudica a respiração do corpo. Col. 3:12

2.4 - "E porei em vós o fôlego da vida e vivereis..."


O resultado final de um corpo equilibrado e harmônico é a presença do Espírito
Santo agindo em todos os membros.

33
3.0 - COMO SE PROCESSA ESTA RESTAURAÇÃO?
Ezequiel foi o instrumento usado pôr Deus para restaurar os ossos secos. Cabe a
cada membro do corpo a mesma responsabilidade. O processo de restauração
ocorre através da ação profética.

3.1 - O que profetizar?


a . que Deus pode vivificar o que está morto em nossas vidas - v.5
b. que Deus harmonizará o corpo beneficiando assim cada membro em particular -
v.7
c. que Deus fará de membros soltos e sem vida, um grande exército - v.10
d. que Deus abrirá as sepulturas e libertará todos os que vivem presos - v.12-13
e. que Deus derramará o seu Espírito Santo - v.14

Parte XI
A IGREJA, CORPO DE CRISTO V
TEXTO: PROVÉRBIOS 4:7

Pôr falta de sabedoria, a igreja tem lutado mais contra si mesma do que contra os
verdadeiros adversários; tem usado ignorantemente a armadura de Saul; tem
fomentado divisões; tem perdido enfim o poder de atuação.
"Realmente estará em perigo a sorte do mundo, se não surgirem homens mais
sábios. O homem sábio é aquele que é capaz de reconhecer um necessitado, um
pobre, um que precisa de oração".(Concílio Vaticano II)

01. DEFININDO A SABEDORIA

- Sabedoria é saber fazer a coisa certa, no momento certo, e à pessoa certa.


Moisés nos dá um bom exemplo de falta de sabedoria. Êxodo 18:13-18
a . sabedoria como doutrina - Prov. 19:18; 22:6
b. sabedoria como virtude de homem - Gên. 41:38; Dan. 1:17
c. sabedoria como atributo e qualidade de Deus - Is. 28:29; Jer. 10:12

02. A IMPORTÂNCIA DA SABEDORIA

Pôr vivermos em grupos sociais, a sabedoria torna-se em elemento indispensável


em nossos relacionamentos inter - pessoais.

2.1 - sabedoria no diálogo - Prov. 26:4; Ecl. 7:16


2.2 - sabedoria nas decisões - Prov. 8:12; 1 Reis 3:25-28
2.3 - sabedoria nas amizades - Jer. 9:4-5
2.4 - sabedoria no comportamento - Ef. 5:15; 1 Pd. 3:1-2
2.5 - sabedoria nos negócios - Gên. 41:39
2.6 - sabedoria em tudo...

03. SABEDORIA, AGENTE ESPIRITUALIZANTE

34
A sabedoria não é uma virtude isolada, e muito menos eletrizante. Não é contrária
a verdadeira espiritualidade. Ela é antes de tudo o fiel da balança espiritual.

3.1 - Exigência dos apóstolos - Atos 6:3


3.2 - A força de Estevão - Atos 6:8-10
3.3 - A oferta do Espírito Santo - 1 Cor. 12:8
3.4 - A verdadeira busca - Tiago 3:13-18
Resumo: Igreja sábia produz santos verdadeiros!

Parte XII
A IGREJA QUE FAZ A DIFERENÇA
Mateus 26.17-30
Introdução
A igreja será apenas uma instituição humana se não tiver a visão de Jesus Cristo
para o contexto e a realidade histórica na qual está inserida.

Falar dos objetivos da igreja em contraposição as megatendências da pós-


modernidade e o modismo quanto a quebra de paradigmas que resultam na perda
da identidade doutrinária, do mundanismo que gera a mundanalidade incrustada
na igreja pela relativização da ética cristã, arrefecendo a autoridade da igreja em
sua ação reformadora no mundo, Efésios 3.10.

A igreja deve interagir na história, não andar a reboque da historieta escrita nos
alfarrábios desta geração corrompida e perversa. Somos o povo do Deus que é
Senhor da história e que se manifesta através da história. A igreja é manifestação
de Deus na história. Não podemos nos contentar em causar impacto na história
com os nossos escândalos ou com a nossa inércia contemplativa enquanto o céu
não vem. É imperativo fazermos diferença no mundo, escrevendo a história da
salvação na vida das pessoas e para isto, é imperioso resgatarmos a relevância
da igreja no contexto sociocultural em que trilhamos a jornada da santificação.

Mas amados, a igreja só será relevante para o mundo e para o Reino, fazendo
verdadeira diferença neste mundo com Agência reformadora de Deus, quando...

1. Estivermos preocupados com a vontade do Mestre e não com a nossa


própria vontade – (Vs. 17).

Devemos evitar a visão antropocêntrica e buscarmos uma visão horizonal,


cristocêntrica, cristológica e cristossímel.

"Onde queres" – Théleis, vontade ativa, soberana. A vontade decisiva e decisória


de Deus onde não cabe relativizações ou negociatas, apenas a submissão.

Os anseios e vontades humanas desembocam sempre no hedonismo ou nas


guerras cruentas e desumanas. Só a vontade de Deus para a igreja é "boa,
agradável e perfeita", Romanos 12.1.

35
Como Jesus, devemos admitir nossa humanidade em sua plenitude mas sempre
orando: "não se faça a minha vontade, mas a tua", Lucas 22.42.

2. Estivermos conscientes da brevidade do tempo da salvação – (Vs. 18).

O tempo da Deus é kairós, eterno, infinito, e não kronos, limitado, mensurado e


controlado pelo homem, como se fossemos senhores do tempo.

Na dispensação da igreja, da graça salvadora, o tempo é sempre presente, é hoje,


e a pregação deve ser levada a efeito "a tempo e fora de tempo", 2 Timóteo 4.2.

Vale ressaltar a expressão "o Mestre diz". Mestre, didáskalos, alguém que ensina
revestido de capacidade, honra e dignidade. Jesus, sendo Deus, é Senhor do
tempo e fala com autoridade quanto a brevidade do tempo para a pregação do
evangelho. "Meu tempo está próximo", diz o Mestre.

A Igreja não pode postergar a pregação. Não sabemos quando o Mestre voltará,
Mateus 25.13. Estar preparados para adentrarmos com ele em sua glória implica
em testemunho e pregação incessantes.

3. Nossos cultos se tornarem verdadeira celebração ao Cristo vivo, não à


liturgia, à Denominação ou à Eclesiologia – (Vs. 18b e 19).

É imperioso buscarmos a consciência de libertação, Páscoa, e de celebração, de


festa, de alegria e satisfação prezeirosa em nossos cultos, devido a presença do
próprio Deus entre nós.

O texto não prevê sectarismo ou uniformidade. Não induz ao radicalismo ou ao


êxtase emocional espiritualista esotericamente espiritualizado. Se quer, o texto
aponta para um denominacionalismo desvairado e promotor de uma nefasta
negligência ao que é bíblico em defesa de um hediondo tradicionalismo histórico-
denominacional.

A festa, a Páscoa, era um memorial da libertação do Egito, da morte às mão do


opressor, no sangue da remissão, Êxodo 12.14-17. Da mesma forma, nossos
cultos devem ser verdadeira celebração pela e para salvação em Cristo. Uma
festa alegre e vívida em gratidão pela libertação do pecado que nos é outorgada
por Cristo.

Devemos buscar a consciência de que o Senhor está em seu trono de glória para
receber de nós um culto "vivo, santo e agradável", Romanos 12.1, resultado de
mentes renovadas em Cristo no entendimento dos mistérios da salvação, 1
Coríntios 2.14-16.

Se perseguimos palco, apresentações e números especiais, ou se queremos


vislumbrar os nossos olhos com feitos pitorescos ou com manifestações
pneumotécnicas, aqui não é nosso lugar.

36
4. Somos contristados pela possibilidade de sermos o traidor – (Vs. 21 e 22).

Qual a nossa reação diante da expressão "um de vós me trairá". Somos


assolapados pela consciência de pecado que desemboca no arrependimento ou
permanecemos insensíveis e nada nos impulsiona à santidade?

A expressão do verso 21, "me entregará", no original, denota que Jesus bem sabia
das intenções daqueles que o perseguiam. É assombroso que muitos crentes não
sintam o sabor amargo de pecado como sentiram Moisés, Jacó, Isaías, Jeremias,
Pedro, Paulo e muitos outros indicados no Texto Sagrado, insistindo nos passos
de Caim e na decisão diabólica tomada por Judas Iscariotes, persistindo na
traição.

Muitos, mesmo estando diante de Jesus e sendo desafiados ao arrependimento,


não conseguem olhar para Jesus e identificá-lo com Senhor absoluto de todas as
coisa, Kírios, admitindo-o apenas como rabi, mestre da lei, o que não é uma
característica da personalidade de Jesus.

No culto verdadeiro Deus sempre manifesta sua glória, Isaías 6.1-8, e se nos
dispomos à perfeita adoração, sempre somos levados à contrição e ao
arrependimento, a fim de que dediquemos nossas vidas em perfeito louvor,
evidenciado na proclamação do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo.

Retirar-se do culto sem experimentar restauração santificadora, permanecendo na


inércia petrificada do comodismo, é constituir-se em traidor.

Em quinto e último lugar, afirmo que a igreja fará diferença no mundo e resgatará
sua relevância e autoridade na pregação quando...

5. O sangue do pacto promover aliança de compromisso em nós – (Vs. 28).

Como igreja, se buscamos relevância para a sociedade, se pretendemos fazer a


diferença já em nosso tempo, profetizando um futuro melhor, não podemos
permanecer aguilhoados ao pelourinho do pecado e dissociados pelo preconceito
que ressalta as idiossincrasias. Se somos igreja, devemos vivenciar íntima
comunhão, irmanados em Jesus Cristo, Efésios 2.14-18 e 1 João 4.20.

O sangue do pacto foi derramado "para a remissão de pecados", para cobrir e


apagar o escrito de culpa que recaia sobre nós, Colossenses 2.14, para nos
reconciliar com Deus, 2 Coríntios 5.18 e 19, fazendo-nos um só povo, Efésios 4.4
e conjugando-nos em só coração, Atos 4.32. Não divisionismo ou sectarismo
autofágico e se quer, para um preconceito satanicamente beatificado pelo
denominacionalismo coercitivo.

O sangue que "nos purifica de todo o pecado", a partir do arrependimento e da

37
confissão sincera diante de nosso Advogado e único mediador, Jesus Cristo, l
João 1.8, 2.2 e 1 Timóteo 2.5, nos impõe a comunhão que afaga o coração e
acarinha o aflito e o existencialmente desesperançado. Pelo que, a igreja deve
retirar-se do templo, após o culto prestado, restaurada, perdoada, transbordando
em amor e alegria e amalgamada no sangue de Jesus Cristo.

Todo o nosso pecado e preconceito devem ser abandonados aos pés da cruz de
Cristo, o Cristo que "é tudo em todos", Colossenses 3.11.

Conclusão

Amados, é urgente e premente uma reflexão quanto relevância e a atuação da


igreja no mundo da globalização e, em especial, aqui em São Paulo.
Se não identificamos estas cinco assertivas em nossa expressão cúltica e
identidade doutrinária e denominacional, corremos o risco de sermos vitimados
por descomunal aridez teológica, eclesiológica e doutrinária. Nos tornaremos
insipientes, insignificantes e dispensáveis ao homem que carece de salvação e
não de liturgias, eventos sociais ou verdadeiros shows pseudo-espirituais
aromatizados com essência de enxofre, não com o hálito do Espírito Santo.

Sejamos igreja. Corpo vivo de Cristo. Submissos a ordem do Mestre e conscientes


da brevidade do tempo para a salvação. Sejamos igreja que festeja a vitória de
Cristo na Cruz e que é contristada pela consciência de pecado. Sejamos igreja
santa e poderosa na evangelização para que desfrutemos as benesses do perdão,
do amor e da comunhão íntima, expressão inconteste da nossa reconciliação com
Deus em Cristo Jesus.

Parte XIII
A LIDERANÇA CRISTÃ E O DISCIPULADO

Creio na liderança cristã e creio no discipulado. Compreendo que a liderança


cristã tem o trabalho de despertar e conduzir o ser humano para Deus e para tudo
o que de Deus recebeu. Creio numa liderança comprometida com o reino de Deus
(cf. Mt 6.33), o que, aliás, é uma qualidade-chave do líder cristão. Uma liderança
comprometida é fiel (1Co 4.2), disponível (Lc 9.57-62), receptiva à capacitação, ou
seja, ao treinamento (um teste é convidar 12 a 20 pessoas para reuniões de
treinamento, e observar quem retorna a partir da segunda reunião. O treinamento,
por sinal, já é uma seleção). Descobrir pessoas que possuam potencial é tarefa do
líder, e isso com o objetivo de treiná-las de modo a que em dado momento a
organização possa funcionar sem ele, líder. É um facilitador no ensino dos novos
discípulos e na participação deles no global do processo; é exemplo e ajuda em
vez de apenas verbalizar, valoriza a participação dos outros, é paciente e confia
no Espírito Santo como conselheiro e auxílio nas dificuldades.

Creio na liderança capacitada pelo Espírito de Deus, "carismatizada" para o


benefício da Igreja de Cristo, para que todo o edifício bem ajustado cresça para
templo santo cuja glória seja unicamente a de Deus, ou como colocou a Bíblia em

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Português Corrente (edição da Sociedade Bíblica de Portugal, 1993): "É em Cristo
que todo o edifício está seguro e cresce até se transformar num templo que honre
ao Senhor" (Ef 2.21).

Creio também no discipulado cristão, pois é somente observar a ênfase dada por
Jesus ao cuidado, carinho, busca e instrução dos que O seguiam. "Discípulo", por
sinal, parece ser a palavra favorita de Jesus para aqueles cuja vida estava ligada
a dEle. Aparece 269 vezes nos Evangelhos e no livro dos Atos dos Apóstolos.
O líder cristão do século 21 não pode esquecer que as condições do discípulo são
um daqueles princípios imutáveis, apesar das transformações litúrgicas,
administrativas, pelas quais a Igreja de Cristo vem passando através dos séculos.
Quem as declara são os Evangelhos:
· Transportar a cruz (Lc 14.27). A cruz não é brinquedo, mas instrumento de
morte, na qual o eu deve morrer. Ir-para-o-Calvário é um caminho escolhido
deliberadamente, visto que a cruz é o símbolo da perseguição, vergonha e abuso
que o mundo jogou sobre o Filho de Deus e jogará sobre os que escolhem
navegar contra a corrente, o discípulo.
· Renúncia (Lc 14.33), que é entrega irrevogável a Jesus Cristo, autonegação, nos
termos de Lucas 14.26 e Mateus 16.24. Nosso amor a Jesus e à Sua causa há de
ser tão evidente que, em comparação, todos os demais serão diminuídos. Billy
Graham afirmou que "a salvação é de graça, mas o discipulado custa tudo o que
temos".
· Constância (Jo 8.31). É passar a viver em companhia de Jesus, comunhão de
destinos com Ele, segui-Lo, permanecer nEle. O verdadeiro discípulo se
caracteriza pela estabilidade.
· Produção de frutos (Jo 15.8). União frutífera como Senhor (Jo 15.4,5).

O líder cristão há de observar os dois aspectos básicos do discipulado em sua


própria experiência de vida: a união com Cristo e a dedicação sem reservas, que
Jesus Cristo descreveu em termos de videira e ramos (cf. Jo 15.5ss). Em relação
ao primeiro aspecto, Paulo usa inúmeras vezes a expressão "em Cristo" para com
isso significar que nós estamos nEle e Ele está em nós (Cl 1.27). Por sua vez,
Romanos 6.1-12 indica o significado do regime de dedicação exclusiva a Jesus.

O alvo do discipulado deve permanecer bem definido na mente do líder cristão: é


a semelhança de Cristo em caráter e em serviço. O Espírito Santo dá-nos o
caráter de filhos de Deus, e nessa linha de raciocínio, o fruto do Espírito é o retrato
desse caráter: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade,
mansidão e autodomínio.

OIKOS, UM CONCEITO PARA O SÉCULO 21

As grandes cidades, sejam capitais legais, formais ou informais são um centro


dominante A característica maior é a concentração de população várias vezes
superior à cidade seguinte em importância. Tem primazia política, econômica,
acadêmica e cultural (a área metropolitana de Tóquio é maior que a metade da
população do Canadá). É também nessa situação que o líder cristão há de exercer

39
o discipulado.

São características dos habitantes da urbis:

· Um ser solitário. Quem mora na roça vive praticamente num sistema de clã
(estilo semita bíblico). Na cidade grande está perdido.
· Um ser pobre. Mora em invasão.
· Um ser que sonha. Não perdeu essa capacidade.
· Um ser que escuta. E a ele muitos "discipuladores" querem falar.

OIKOS, UM NOVO VELHO CONCEITO

Oikos é o "lar familiar", a esfera de influência. É o sistema social primário


composto por aqueles que que são relacionados por laços comuns de família,
trabalho e vizinhança. Três são as constantes culturais: o parentesco, a
comunidade e a associação:
· parentesco são laços de sangue ou de afinidade.
· A associação é voluntária com normas, autoridade, mobilização de recursos, e
movidas por amizade, sexo, poder, ideais, interesses, prestígio (sindicatos, igrejas,
clubes).

· A comunidade é determinada pela geografia.

Se isso existe hoje, e é uma constante antropológica, existiu nos dias


neotestamentários. É o oikos (cf. Michael Green. Evangelização na Igreja
Primitiva). Alguns casos são:

· a família de Betânia (Jo 12.1-3);


· a casa de Cornélio, oficial romano (At 10);
· a casa de Lídia (At 16.13-15);
· a família do carcereiro de Filipos (At 16.25-34);
· a casa de Prisca e Áqüila (Rm 16.3-5);
· a casa de Aristóbulo (Rm 16.10);
· a casa de Narciso (Rm 16110.

Os descrentes têm dois problemas: o de informação (não conhecem a um cristão


de verdade), e o de reputação (conhecem um "cristão" que não tem a mente de
Cristo).

IMPEDIMENTOS

Liderança que não encarna ideais e falta de mobilização do povo de Deus. Falar
de liderança é falar de pastores, presbíteros, diáconos, ministros na várias áreas,
professores, conselheiros, relatores, etc. Através da história, Deus tem chamado
homens e mulheres para abençoar Seu povo.

40
No século 21 muita coisa tem mudado: igrejas querem dinheiro, não poder do
Espírito; santuários cheios de pessoas, mas não de poder; animação, mas não
renovação.

A liderança há de ter visão.

A LIDERANÇA E A PALAVRA DE DEUS

A liderança cristã não pode prescindir de utilizar a Bíblia Sagrada como fonte de
reflexão, de meditação, de discipulado e caminho de vida. O desenvolvimento do
Salmo 119 bem o demonstra. Afinal, a Bíblia se evidencia Palavra de Deus nas
profecias e cumprimentos, em mostrar o ser humano em sua realidade e pelos
seus efeitos na vida do homem que é transformado em discípulo de Jesus Cristo.

Por essa razão, há o líder de nela meditar (Sl 1.1,2), de nela viver (v.3) e conhecê-
la para crescer em graça (v.3).

OMO A PALAVRA DE DEUS TEM SIDO DESAFIADA

A proposta de um evangelho para o Terceiro Milênio.


Exemplo típico deste desafio à Escritura Sagrada e o seu ensinamento é o feito
por Huáscar Terra do Valle em seu Tratado de Teologia Profana. No capítulo em
que trata de "Além do Bem e do Mal", Valle explica que a moral do judaísmo se
resume na expressão "Olho por olho, dente por dente", buscando provar com tal
exposição que o Deus dos hebreus, é mau e vingativo. Javé é colocado no mesmo
nível de Marduque dos babilônios, de Baal dos fenícios e outros deuses semitas.
Civilizado é, no seu entender, o Zoroastrismo que prega a eterna luta entre o bem
e o mal (Ormuz e Arimã) e a presença de Mitra, encarregado de ajudar o ser
humano a lutar pelo bem.

Chega esse pensador à conclusão que a figura de Deus vem do fundo do


inconsciente, referindo-se ao comando instintivo dos genes. Há uma tremenda
carga emocional que inspira profundo respeito e é codificada para o entendimento
do consciente como Deus onipotente, criador, etc. Expressão dessa carga
emocional é o misticismo. Religião, diz ele, é uma adoração da própria raça, que
são os genes, ou na figura de Deus ou na imagem dos ancestrais.

Pecado é a desobediência aos mandamentos dos genes, sendo, a rigor, um


conceito tribal.

A proposta de uma nova moral.

Tratando-se de uma nova moral para o Terceiro Milênio, não se pode negar a
sobrevivência do mais apto, ou seja, daquele que soubesse compatibilizar os
interesses do indivíduo com os da sociedade. As religiões nada fizeram para
melhorar os padrões de moralidade da sociedade como um todo, visto que vivem

41
confinadas em suas próprias doutrinas, e consideram os elementos de outras
religiões como gentios ou pagãos.

A nova moral, como a nova religião, tem que ser universal excluindo apenas um
grupo, os fanáticos. A idéia de Deus não é indispensável para um comportamento
moral. A proposta é a de um código de ética baseado na ciência, pois a
Astronomia mostra a insignificância do ser humano no universo; a Biologia, a
Genética, a Teoria da Evolução e a Sociobiologia de mostram que o ser humano
não foi criado à semelhança de Deus, e sim do macaco e de outros animais. Valle
declara não acreditar em outra vida, por isso o céu deve ser procurado nesta,
evitando, também que a vida se transforme em um inferno. O destino do ser
humano é entregar aos descendentes os genes que recebeu dos antepassados, o
que o transforma em uma máquina de sobrevivência apenas.

Igreja

É a prostituição da religião. A verdadeira religião consiste em agir


desinteressadamente, visando ao bem da coletividade, e não, entre outras coisas,
citar a Bíblia, fazer sermões de duvidosa sinceridade, ou pagar o imposto do céu
(o dízimo). Por isso, prescinde de Deus. O sentimento religioso pode ser
transmitido de várias maneiras, sobressaindo-se a música, que é emoção pura. O
arrebatamento religioso poderá vir por meio dela.

É PRECISO...

Resgatar o senso da soberania e majestade de Deus.


Ou seja, um conceito adequado de Deus e da sua doutrina. Porque homens e
mulheres levaram Deus a sério, foram escolhidos para altas missões (Gn 6.9; 7.1;
12.1-3; Is 6.1ss); tiveram visões (2Rs 6.17; Ez 1); foram mães de grandes homens
(1Sm 1.1ss; Jz 13.2,3; Lc 1.1ss). Deus não é algo, uma força ou uma influência.
Mas, ensina a Escritura e a nossa própria experiência, uma Pessoa com quem
podemos manter comunhão.

O Nome e o toque de Deus. O Deus à minha imagem e semelhança: o Deus


Papai Noel, o Deus da Arte, o Deus-que-me-obedece, o Deus utilitário.

Quem é Deus? É o Deus único (Is 45.22; Dt 6.4); é o Deus que está presente (Ez
48.35); é o Deus Vivo, Santo e Verdadeiro.

Resgatar o senso da messianidade e da obra de Jesus Cristo.


A doutrina de Cristo, no Cristianismo, dá significado a todas as outras (Revelação,
o Ser Humano, Igreja, Escatologia, etc.) Uma pergunta tão antiga quanto o
evangelho é "Quem dizem os homens que eu sou?" (Lc 9.18,19).
* "O Homem Perfeito"
* "O Homem Ideal", modelo dos outros
* "A mais bela alma que jamais existiu" (Auguste Sabatier, filósofo francês)
* "Curvo-me diante de Jesus Cristo como diante da revelação divina do princípio

42
supremo da moralidade" (Goethe)
* "Um grande mestre"
* "(Jesus com) seu perfeito idealismo, é a mais alta regra da vida, a mais
destacada e a mais virtuosa. Ele criou o mundo das almas puras..." (Ernest
Renan)
* "(foi Jesus quem) pôs à luz, pela primeira vez, o valor de cada alma humana e
ninguém pode desfazer o que ele fez" (Harnack).

Pedro faz a confissão de fé evangélica ao dizer "o Cristo, o Filho do Deus Vivo"
(Mt 16.16).

Um modo de reconhecer os atributos de Jesus Cristo é examinar os seus títulos


no Novo Testamento:
Jesus ("Salvação do Senhor"),
Cristo ("Ungido"),
Senhor, Verbo ou Palavra, etc.

Resgatar o valor da Escritura Sagrada como norma de vida


Os estandartes da Reforma: Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura. O propósito da
Bíblia Sagrada e dos seus registros: para que homens e mulheres venham a crer
(Jo 20.31) e os crentes cresçam (1Pe 2.2,3).

A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4.12), e penetrante e apta.

Livros sugeridos
BLANCHARD, John. Aceptado por Dios. Edinburgh, El Estandarte de la Verdad,
1974. Trad. J.M. Blauch. 128 p.
BROWN, Lavonn D. Truths that Make a Difference. Nashville, Convention Press,
1980.
CHRISTIAN, C.W. Shaping your Faith. Waco, Word, 1973.
KNUTSON, Kent S. His Only Son Our Lord. Minneapolis, Augsburg, 1966.
LAMEGO, Maria J.R. e RAHM, Haroldo. Eu Sou Quem Sou. SP, Loyola, 1976.82
p.
NEILL, Stephen. Quem é Jesus Cristo? Rio, Confederação Evangélica do Brasil,
1961. Trad. L. A Caruso
SNOWDEN, Rita. Christianity Close to life. Glasgow, Collins, 1978. 57 p.
VALLE, Huáscar Terra do. Tratado de Teologia Profana. SP, Alfa Ômega, 1998.
349 p.

Parte XIV
A MISSÃO DA IGREJA
Na confrontação com a opressão espiritual

Uma das questões mais cruciais da missiologia é a definição do próprio conceito


de missão. O que se deve entender por missões cristãs? Quais são a natureza e
os objetivos da missão da igreja? Evidentemente essas perguntas podem receber
uma grande variedade de respostas a partir de diferentes pressupostos e

43
compromissos teológicos. Uma antiga abordagem foi o debate em torno de
evangelização e “civilização.”1 Hoje é mais comum falar-se em evangelismo e
responsabilidade social. Diferentes autores do século XX têm procurado expressar
a missão da igreja em termos de desenvolvimento, presença cristã, diálogo inter-
religioso, justiça e paz, diaconia e outros conceitos.

Certamente este é um assunto controvertido, mas também sumamente importante


para a igreja e para os cristãos individuais. Como pode a igreja ser o que deve ser
e fazer o que deve fazer se não tiver uma clara compreensão acerca do seu
propósito na sociedade e no mundo?

O objetivo deste estudo é abordar o tema a partir da perspectiva de Samuel


Escobar, um dos mais destacados missiólogos evangélicos contemporâneos da
América Latina. A escolha de Escobar justifica-se por várias razões. Ele tem um
profundo conhecimento da situação religiosa, social e política da América Latina,
tendo trabalhado em vários países como pastor e missionário; é um teólogo,
escritor e orador extremamente articulado e criativo; tem sido um líder respeitado
em círculos missiológicos e teológicos; tem estado em diálogo constante com
representantes de grupos e movimentos importantes do cristianismo latino-
americano e mundial; finalmente, por vários anos ele tem sido professor em
instituições teológicas norte-americanas, o que o coloca numa posição privilegiada
para falar a uma audiência mais ampla e levar ao primeiro mundo uma valiosa
perspectiva do terceiro mundo acerca de missões.

Nossa análise começa com um retrospecto histórico da discussão missiológica


protestante na América Latina. A seguir, iremos fornecer algumas informações
biográficas sobre Samuel Escobar, fazer um apanhado dos principais movimentos
de que tem participado e apresentar alguns dos principais temas e ênfases da sua
reflexão missiológica. Ao longo dos anos, Escobar tem defendido um conceito de
missão que é ao mesmo tempo bíblico, evangélico, contextual e sensível às
complexas realidades espirituais, políticas, sociais e econômicas da América
Latina. Criticando os modelos missionários reducionistas ou dicotômicos, ele
propõe um programa que implica em levar o evangelho integral ao ser humano
integral, na amplitude de suas necessidades e relacionamentos. Concluiremos o
estudo acrescentando algumas de nossas próprias convicções a respeito do tema
em questão, ou seja, a missão da igreja na sociedade.

I. ANTECEDENTES
A reflexão sistemática e abrangente sobre o trabalho missionário protestante na
América Latina foi desencadeada pela célebre Conferência Missionária Mundial,
realizada em Edimburgo em 1910.2 Todavia, esse estímulo ocorreu às avessas,
uma vez que somente foram convidadas para a conferência as sociedades
missionárias que atuavam entre povos não-cristãos.3 Isso excluiu a América
Latina do âmbito daquele encontro, sendo admitidas apenas as missões que
trabalhavam entre as tribos pagãs desse continente.

Durante a conferência, Robert E. Speer (1867-1947), o secretário executivo da

44
Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos,
convidou vários delegados interessados na América Latina a se reunirem
informalmente para discutir como essa lacuna poderia ser suprida. Como
resultado desses entendimentos, realizou-se em Nova York, em março de 1913,
uma conferência sobre missões na América Latina, sob os auspícios da
Conferência de Missões Estrangeiras da América do Norte.4 Essa conferência
criou a Comissão de Cooperação na América Latina (CCLA), tendo como
presidente o próprio Robert Speer e como secretário executivo Samuel Guy
Inman.

Por sua vez, a CCLA patrocinou o Congresso de Ação Cristã na América Latina,
reunido no Panamá em fevereiro de 1916, o maior encontro das forças
protestantes desse continente realizado até aquela data. O Congresso mostrou a
necessidade de maior cooperação em áreas como educação religiosa, missões,
literatura e formação teológica. Mais especificamente, suas metas principais foram
a evangelização das classes cultas, a unificação da educação teológica através de
seminários unidos, o desejo de dar uma dimensão social ao trabalho missionário
na América Latina e o esforço em promover a unidade protestante.5

Na realidade, o Congresso do Panamá foi uma reunião de representantes de


juntas missionárias estrangeiras, antes que um encontro de líderes protestantes
latino-americanos. Dos 230 delegados oficiais, apenas 21 eram latino-americanos
natos.6 Mesmo assim, o evento produziu a primeira discussão séria do
protestantismo latino-americano e estimulou a criação de órgãos cooperativos
regionais em vários países. Por outro lado, o Congresso do Panamá revelou duas
ênfases que se tornariam problemáticas para os evangélicos latino-americanos:
uma atitude simpática para com a Igreja Católica e uma forte influência do
“evangelho social.”

Como resultado do encontro do Panamá, nos anos seguintes realizaram-se dois


congressos missionários regionais. O primeiro, denominado Congresso de Ação
Cristã na América do Sul, reuniu-se em Montevidéu, Uruguai, em 1925. Aqui,
embora a participação de latino-americanos tenha sido maior (o pastor
presbiteriano brasileiro Erasmo Braga foi eleito presidente do congresso), os
norte-americanos ficaram a cargo da organização e presidiram todas as
comissões. Finalmente, em 1929 reuniu-se em Havana o Congresso Evangélico
Hispano-Americano, presidido pelo metodista mexicano Gonzalo Baez-Camargo.
Desta feita, o congresso foi inteiramente organizado e conduzido por latino-
americanos e as ênfases recaíram sobre a nacionalização e o auto-sustento das
igrejas evangélicas.

Uma segunda série de encontros do protestantismo latino-americano foi


representada por três Conferências Evangélicas continentais: CELA I (Buenos
Aires, 1949), CELA II (Lima, 1961) e CELA III (Buenos Aires, 1969).7 Essas
conferências estavam ligadas às denominações históricas, que rapidamente
tornavam-se minoritárias no contexto geral do protestantismo da América Latina.
O protestantismo ecumênico das CELAs recebia a influência do protestantismo

45
histórico declinante do hemisfério norte, buscava aproximar-se do catolicismo
posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e procurava responder à difícil
situação social do continente com uma teologia radical, que eventualmente
identificou-se com a célebre “teologia da libertação.”

A teologia da libertação adquiriu notoriedade no âmbito católico romano com a


segunda assembléia da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM),
reunida em Medellín, Colômbia, em 1968.8 Anos antes, em 1962, os protestantes
haviam criado a organização Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), após
uma consulta realizada em Huampaní, Peru, no ano anterior. Ela tornou-se o
centro de convergência dos teólogos protestantes da libertação, tendo como órgão
o periódico Cristianismo e Sociedade. Em 1972, as duas correntes teológicas
puseram-se em contato no I Congresso Latino-Americano de Cristãos pelo
Socialismo, realizado em Santiago do Chile.

Ao lado das Conferências Evangélicas continentais (CELAs) e do ISAL, o


protestantismo ecumênico latino-americano criou várias estruturas para-
eclesiásticas com o fim de promover os seus objetivos. Alguns organismos
importantes são ou foram os seguintes: Movimento Estudantil Cristão (MEC),
União Latino-Americana de Juventudes Evangélicas – depois, Ecumênicas
(ULAJE), Agência de Serviços Ecumênicos Latino-Americanos (ASEL), Comissão
Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (CELADEC), Coordenadoria de
Projetos Ecumênicos (COPEC) e Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).9

Uma característica desse protestantismo ecumênico era o crescente declínio do


seu ímpeto evangelizador, em contraste com a vitalidade das igrejas vinculadas a
missões independentes ou ao movimento pentecostal, que mantinham o seu vigor
evangelístico apesar das debilidades da sua teologia. Do seio desse
protestantismo majoritário surgiu o impulso para os Congressos Latino-
Americanos de Evangelização, que constituem a terceira das séries mencionadas
acima: CLADE I (Bogotá, 1969), CLADE II (Lima, 1979) e CLADE III (Quito, 1992).
O CLADE IV deverá realizar-se em setembro do ano 2000 no Equador.10

O primeiro CLADE foi organizado pela Associação Evangelística Billy Graham, sob
o impulso do Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), convocado
pela revista evangélica Christianity Today. O CLADE I permitiu que líderes
preocupados em relacionar a fé evangélica com a realidade latino-americana
compartilhassem as suas inquietações. Para Valdir Steuernagel, esse congresso
teve duas marcas distintivas:

Manifestou com clareza que, na América Latina, somos e queremos ser


evangélicos. E, como evangélicos, somos e queremos ser latino-americanos.
Naquela ocasião e naquele contexto, tornava-se urgente que, sendo evangélicos,
buscássemos uma teologia da encarnação que estabelecesse as pautas para um
diálogo com a situação de sofrimento e opressão que se vivia em toda a América
Latina.11

46
Foi no CLADE I que se articulou a criação da Fraternidade Teológica Latino-
Americana, organizada no ano seguinte em Cochabamba, Bolívia, tendo Pedro
Savage como seu primeiro secretário e Samuel Escobar como seu primeiro
presidente. Escobar assim expressou os objetivos da Fraternidade:

Desde o primeiro momento, a FTL procurou ser uma plataforma de encontro e


diálogo teológico da qual participassem pastores, missionários e pensadores
evangélicos, dentro do marco evangélico de uma lealdade comum à autoridade
bíblica e à fé evangélica como base da reflexão e de um compromisso ativo com o
cumprimento da missão cristã.12

Por sua vez, a Fraternidade Teológica Latino-Americana convocou os CLADEs


posteriores, inclusive o que irá realizar-se no ano 2000.13 A Fraternidade procurou
estar tão consciente da problemática social latino-americana quanto o grupo ISAL,
mas ao mesmo tempo preocupou-se em abordar a questão de uma perspectiva
que entendia ser mais bíblica e equilibrada. Ela é também mais representativa do
protestantismo popular da América Latina que a sua congênere ecumênica. Entre
os seus participantes mais destacados e influentes está o líder que é o enfoque
principal deste artigo — Samuel Escobar.14
II. DADOS BIOGRÁFICOS E ESCRITOS
Samuel Escobar nasceu no Peru e freqüentou uma escola missionária inglesa em
Arequipa. Em 1956, ele recebeu o seu grau de mestre em artes e educação na
Universidade de São Marcos, em Lima, após o que dedicou-se ao ensino nos
níveis primário, secundário e superior.

Em 1959 Escobar tornou-se o secretário itinerante da Fraternidade Internacional


de Estudantes Evangélicos (International Fellowship of Evangelical Students) —
representada no Brasil pela Aliança Bíblica Universitária —, visitando praticamente
todos os países da América Latina. Ele trabalhou como missionário entre
estudantes universitários na Argentina e no Brasil15 e foi diretor da Comunidade
Evangélica Kairós, em Buenos Aires. Alguns anos depois, ele fez o curso de
doutorado em filosofia (Ph.D.) na Universidade Complutense de Madri e
eventualmente trabalhou como secretário da Fraternidade Cristã Universitária
(Inter-Varsity Christian Fellowship) do Canadá, com sede em Toronto.16

Escobar foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Fraternidade Teológica


Latino-Americana (1970-1984) e de 1979 a 1985 ocupou o cargo de secretário
geral da Fraternidade Internacional de Estudantes Evangélicos. Nas décadas de
1960 e 1970, ele e outros teólogos latino-americanos tornaram-se bem conhecidos
em círculos evangélicos e ecumênicos internacionais através de sua participação
em importantes conferências. Além disso, há muitos anos ele é membro da
Comissão Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial (World Evangelical
Fellowship), tendo participado de muitas de suas consultas ao redor do mundo.17
Atualmente, Samuel Escobar é presidente das Sociedades Bíblicas Unidas e
professor titular de missiologia no Seminário Teológico Batista do Leste, em
Filadélfia, Estados Unidos.18 Ele também leciona sobre missões em seu país
natal, o Peru.

47
Samuel Escobar é autor de vários livros sobre teologia e missiologia: Diálogo entre
Cristo y Marx (1967), Quien es Cristo Hoy? (1970, com C. René Padilla),
Decadencia da la Religión (1972), Christian Mission and Social Justice (1978, com
John Driver), Irrupción Juvenil (1978), La Fe Evangelica y las Teologías de la
Liberación (1987), Evangelio y Realidad Social (1988), Liberation Themes in
Reformational Perspective (1989), Paulo Freire: Una Pedagogia Latinoamericana
(1993), entre outros. Um dos seus livros mais recentes é Desafios da Igreja na
América Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões, publicado em 1998
pela Editora Ultimato.

Escobar também escreveu diversos ensaios que foram publicados como capítulos
de livros. Alguns títulos representativos podem dar-nos uma idéia de seus temas
prediletos: “Social Concern and World Evangelism,” em Christ the Liberator (1971);
“The Social Impact of the Gospel,” em Is Revolution Change? (1972); “Evangelism
and Man´s Search for Freedom, Justice and Fulfillment,” em Let the Earth Hear His
Voice (1974); “The Role of Translation in Developing Indigenous Theologies: A
Latin American View,” em Bible Translation and the Spread of the Church (1990);
“Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Christian Mission (1993);
“A Pauline Paradigm of Mission: A Latin American Reading,” em The Good News
of the Kingdom (1993); “La Presencia Protestante en America Latina: Conflicto de
Interpretaciones,” em Historia y Misión: Revisión de Perspectivas (1994); “The
Church in Latin America after Five Hundred Years” e “Conflict of Interpretations of
Popular Protestantism,” em New Face of the Church in Latin America: Between
Tradition and Change (1994); “The Search for a Missiological Christology in Latin
America,” em Emerging Voices in Global Christian Theology (1994); “The Training
of Missiologists for a Latin American Context,” em Missiological Education for the
Twenty-First Century (1996); “Religion and Social Change at the Grass Roots in
Latin America,”19 em The Role of NGOs: Charity and Empowerment (1997).

Finalmente, seus numerosos artigos têm aparecido em renomados periódicos


como Evangelical Missions Quarterly, Evangelical Review of Theology,
International Bulletin of Missionary Research, Transformation, Missiology e
International Review of Mission, entre outros. Uma vez mais, os próprios títulos de
alguns artigos representativos dão uma clara idéia dos principais temas com os
quais Escobar tem trabalhado ao longo dos anos: “The Social Responsibility of the
Church in Latin America” (EMQ, 1970), “Beyond Liberation Theology: Evangelical
Missiology in Latin America” (IBMR, 1982), “Transformation in Ayacucho: From
Violence to Peace and Hope” (Transformation, 1986), “Missions and Renewal in
Latin American Catholicism” (Missiology, 1987), “Recruitment of Students for
Mission” (Missiology, 1987), “Has McGavran´s Missiology Been Devoured by a
Lion?” (Missiology, 1989), “From Lausanne 1974 to Manilla 1989: The Pilgrimage
of Urban Mission” (Urban Mission, 1990), “A Movement Divided: Three
Approaches to World Evangelization Stand in Tension with One Another”
(Transformation, 1991), “Evangelical Theology in Latin America: The Development
of a Missiological Christology” (Missiology, 1991), “Mission in Latin America: An
Evangelical Pespective” (Missiology, 1992), “The Elements of Style in Crafting New

48
International Mission Leaders” (EMQ, 1992), “500 Years after Columbus: Requiem
or Te Deum?” (EMQ, 1992), “The Legacy of John Alexander Mackay” (IBMR,
1992), “The Whole Gospel for the Whole World from Latin America”
(Transformation, 1993), “Missions´ New World Order: The Twenty-First Century
Calls for us to Give up our Nineteenth-Century Models for Worldwide Ministry”
(Christianity Today, 1994), “Beyond Liberation Theology: A Review Article”
(Themelios, 1994), “A Missiological Approach to Latin American Protestantism”
(IRM, 1998).20

As influências recebidas por Escobar, especialmente através dos movimentos de


que participou a partir da década de 1960, ajudam a entender as preocupações
reveladas pelos títulos dos seus escritos.

III. REFLEXÃO TEOLÓGICA E ENVOLVIMENTOS


Samuel Escobar identifica-se como um evangélico.21 Isto significa, por um lado,
que ele não tem nenhuma conexão particular com as correntes da teologia da
libertação que foram e ainda são uma expressão importante da teologia latino-
americana, tanto católica quanto protestante. Por outro lado, ele está longe de
partilhar das idéias e compromissos do fundamentalismo, sendo bastante crítico
da sua teologia/ideologia.

Sua identidade latino-americana também é essencial para a reflexão e os


envolvimentos teológicos de Escobar. Tendo vivido em um período de grande
turbulência na história latino-americana, marcado por injustiça e opressão
generalizada, violência política, golpes militares, regimes ditatoriais e caos sócio-
econômico, Escobar e alguns colegas sentiram que não era suficiente pregar um
evangelho puramente espiritual. Para ele, o evangelho tem relevância para a
totalidade da vida. A igreja deve proclamar Jesus Cristo como Salvador e Senhor
porque os seres humanos carecem tanto de reconciliação com Deus quanto de
dignidade e integridade em sua vida neste mundo, como indivíduos e como
membros da sociedade. O evangelho tem implicações sociais e políticas
revolucionárias que não podem ser omitidas.

Conseqüentemente, Escobar tem um profundo interesse em missões. Como


pastor, líder de movimentos estudantis, professor e teólogo, ele sempre
interessou-se pela missão da igreja, especialmente em um contexto de pobreza e
sofrimento. Para ele, a mensagem bíblica em geral, e os ensinos e o ministério de
Jesus em particular, mostram o interesse de Deus por todas as necessidades
humanas, e a igreja deve partilhar desse interesse de Deus. Escobar considera
sua tarefa articular essa missiologia holística e inspirar outras pessoas —
estudantes, pastores, leigos e líderes cristãos — a compartilhar essa visão.

Em seu livro Mission Theology, Rodger C. Bassham descreve o desenvolvimento


das teologias de missão ecumênica, evangélica conservadora e católica,
especialmente entre 1948 e 1975. Ele observa que, em meados da década de 60,
os evangélicos começaram a constituir uma comunidade verdadeiramente global
com uma visão abrangente de missões, em particular depois de 1966, o ano em

49
que eles patrocinaram duas grandes conferências mundiais sobre missões e
evangelização.22

Os congressos de Wheaton e Berlim marcaram um novo estágio na emergência


de uma identidade evangélica, à medida que evangélicos de todo o mundo
começaram a empreender juntos uma análise da situação enfrentada por aqueles
que estavam envolvidos com missões e evangelismo em todos os continentes.
Nesse contexto, Bassham identifica vários desdobramentos importantes: os
primórdios de uma teologia evangélica de missão altamente representativa (a
Declaração de Wheaton), a luta em torno da relação entre evangelização e ação
social, o forte impacto do conceito de “crescimento da igreja” sobre a teologia
evangélica de missões, e o crescente número de vozes evangélicas provenientes
de fora da América do Norte.

O Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966) – a primeira grande


reunião mundial de evangélicos no século XX – também estimulou congressos
regionais de evangelização em vários continentes. Estes por sua vez contribuíram
para o Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974), que
evocou manifestações de opinião de toda a comunidade evangélica, à medida que
os participantes se debatiam com as questões da teologia de missão no mundo
contemporâneo. Para Bassham, o Pacto de Lausanne demonstra que “os
evangélicos desenvolveram uma teologia de missão amadurecida, positiva e
consistente.”23

Em todos esses acontecimentos importantes houve uma decidida participação de


teólogos latino-americanos, Samuel Escobar estando entre eles. Escobar foi
ouvido pela primeira vez por grandes audiências internacionais nas convenções
da Fraternidade Cristã Universitária realizadas em Urbana, Estados Unidos, nos
anos 60. Ele e outros oradores da América Latina desafiaram os evangélicos
norte-americanos a reconhecer a necessidade de promover justiça social e
reformas políticas como parte dos seus deveres como cristãos.24 Na convenção
de 1970, Escobar falaria apaixonadamente sobre a necessidade de se estabelecer
uma relação entre as preocupações sociais e a evangelização mundial.

No Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), Escobar estava entre os


muitos líderes do terceiro mundo que falaram enfaticamente em prol das igrejas
nativas. Ele exortou os missionários a superar a mentalidade paternalista,
imperialista e colonialista, a fim de permitir o surgimento de igrejas nativas
alicerçadas na fé, dotadas de uma liderança nacional bem-treinada, e capazes de
atuar eficazmente em seu contexto local.25

No entanto, o principal forum internacional em que se ouviu a voz de Escobar foi o


Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974). Bassham
observa que “as apresentações e discussões de Lausanne mostraram um espírito
de abertura, diversidade de perspectivas e profundidade de análise jamais
alcançado anteriormente em uma assembléia evangélica.”26 Uma das grandes
influências nas deliberações do congresso veio através das contribuições de

50
oradores do terceiro mundo. O impacto de líderes como Samuel Escobar e C.
René Padilla, através do grupo de Discipulado Radical, foi de especial
importância.

Enquanto que a orientação teológica de Lausanne permaneceu firmemente


evangélica, acentuando a autoridade da Bíblia, a singularidade de Cristo e a
necessidade da evangelização, ela também produziu algumas mudanças bem-
definidas na teologia evangélica de missões. O Pacto de Lausanne foi muito além
das declarações evangélicas tradicionais, demonstrando que o evangelismo
bíblico é inseparável da responsabilidade social, do discipulado cristão e da
renovação da igreja. Lausanne abordou o tema abrangente da evangelização
mundial, referindo-se com isso ao ministério e à missão total da igreja.

Em seu capítulo sobre a “Responsabilidade Social Cristã,” o Pacto de Lausanne


declara:

Afirmamos que Deus é tanto o Criador como o Juiz de todos os homens. Portanto,
devemos partilhar da sua preocupação com a justiça e a reconciliação em toda a
sociedade humana e com a libertação dos homens de todo tipo de opressão.
Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, não importa qual
seja a sua raça, religião, cor, cultura, classe, sexo ou idade, tem uma dignidade
intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada.
Também aqui manifestamos o nosso arrependimento, tanto pela nossa
negligência quanto por às vezes termos considerado a evangelização e a
preocupação social como mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o
ser humano não seja o mesmo que a reconciliação com Deus, nem a ação social
seja evangelismo, nem a libertação política seja salvação, todavia afirmamos que
tanto a evangelização como o envolvimento socio-político são parte do nosso
dever cristão.27

Muitas vezes durante o congresso os participantes afirmaram ter um interesse


profundo e permanente pela ação social em favor dos pobres e necessitados, até
mesmo ao ponto de se esforçarem pela mudança das estruturas sociais. Oradores
latino-americanos como René Padilla, Orlando Costas e Samuel Escobar
proferiram as declarações mais fortes no sentido de que a preocupação com as
necessidades sociais da humanidade e o envolvimento com as mesmas é uma
parte necessária do testemunho e da responsabilidade dos cristãos em favor do
mundo. Bassham cita as seguintes afirmações de Escobar:

Uma espiritualidade sem discipulado nos aspectos diários da vida — sociais,


econômicos e políticos —, é religiosidade e não cristianismo... De uma vez por
todas, devemos rejeitar a falsa noção de que a preocupação com as implicações
sociais do evangelho e as dimensões sociais do testemunho cristão resultam de
uma falsa doutrina ou de uma ausência de convicção evangélica. Ao contrário, é o
interesse pela integridade do Evangelho que nos motiva a acentuarmos a sua
dimensão social.28

51
No âmbito continental, Samuel Escobar teve uma importante participação no
Primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I, Bogotá, 1969),
planejado em resposta a pedidos de delegados latino-americanos presentes no
Congresso de Berlim, três anos antes.29 Dentre os 28 discursos principais, a sua
apresentação sobre a responsabilidade social da igreja recebeu a atenção mais
entusiástica. Ele argumentou eloqüentemente que tanto a evangelização quanto a
ação social são necessárias para o testemunho cristão.30 Escobar afirmou a certa
altura:

Existe base suficiente na história da Igreja e nos ensinamentos da Palavra de


Deus para afirmar categoricamente que a preocupação pelo aspecto social do
testemunho evangélico no mundo não é um abandono das verdades fundamentais
do Evangelho; pelo contrário, é levar às suas últimas conseqüências os ensinos a
respeito de Deus, de Jesus Cristo, do homem e do mundo, que formam a base
desse Evangelho... Sustentamos que uma evangelização que não toma
conhecimento dos problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania
de Cristo dentro do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização
defeituosa, que trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto por Cristo,
que envia o evangelista.31

Essa ênfase achou lugar na Declaração Evangélica de Bogotá, que afirmou: “É


chegada a hora de nós, evangélicos, levarmos a sério a nossa responsabilidade
social.” Os participantes afirmaram que “o exemplo de Cristo devia ser encarnado
na crítica situação latino-americana de subdesenvolvimento, injustiça, fome,
violência e desespero,”32 se os cristãos quisessem testemunhar fielmente em seu
contexto sócio-cultural.

Orlando Costas comenta que 1969 foi para os protestantes o que 1968 havia sido
para os católicos (II Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medellín,
Colômbia). Naquele ano, além do CLADE I, os protestantes latino-americanos
realizaram ainda outra grande conferência – a Conferência Evangélica Latino-
Americana (CELA III), em Buenos Aires. Apesar das diferenças existentes entre os
dois movimentos, Costa vê nos documentos de ambos os eventos a emergência
de novas tendências missiológicas caracterizadas por um tríplice interesse: a
busca de um entendimento histórico de missões, de uma expressão mais
autêntica de unidade cristã no empreendimento missionário e de uma reflexão
missiológica mais séria e profunda. Em sua opinião, essa terceira busca tem
assumido várias formas, uma das quais é o modelo ético-missiológico — missão
da perspectiva de questões éticas — articulado por, entre outros, Samuel Escobar
e C. René Padilla.33

O próprio Escobar acha que o seu modelo pode ser melhor descrito como
“holístico.”34 Ele argumenta que os evangélicos latino-americanos escolheram o
Pacto de Lausanne como uma expressão do seu consenso doutrinário básico e do
seu claro compromisso com um modelo de missão integral e bíblico.35

Em um capítulo sobre a América Latina que escreveu para o livro Toward the

52
Twenty-First Century in Christian Mission (1993), Escobar menciona duas outras
conferências missionárias latino-americanas, ambas realizadas no Brasil. Uma
delas foi o Primeiro Congresso Missionário Latino-Americano (Curitiba, 1976), cujo
pacto manteve a ênfase de Lausanne sobre a preocupação social como parte da
missão da igreja: “Assim como no passado o chamado de Jesus Cristo e da sua
missão foi um chamado para cruzar fronteiras geográficas, hoje o Senhor está nos
chamando para cruzarmos as fronteiras da desigualdade, injustiça e idolatria
ideológica.”36

Todavia, ele lamenta o fato de que o Congresso Missionário Ibero-Americano


(COMIBAM, São Paulo, 1987) deixou de abordar conceitos básicos do
entendimento de missões, inclusive a clamorosa realidade de pobreza que
circundava o próprio local em que se reuniram os delegados.37

Por essa razão, Escobar é um crítico rigoroso do movimento do Crescimento da


Igreja, iniciado por Donald McGavran em 1960. Ele preocupa-se com a
“missiologia gerencial” que dá ênfase à proclamação verbal e ao crescimento
numérico de adesões à igreja como o principal componente das missões cristãs.
Reagindo contra o triunfalismo fácil das estatísticas e a tirania do controle de
dados, Escobar acredita que o êxito do avanço protestante na América Latina
deve ser interpretado fazendo-se perguntas sérias sobre o seu dinamismo
transformador e a sua contribuição para a justiça nas relações sociais.38

Ele acha que a base desse questionamento tem sido o compromisso claro com a
tarefa de missões e evangelização, mas também o esforço consciente de executar
essa tarefa segundo moldes bíblicos. Assim sendo, testemunha-se o surgimento
de uma nova teologia contextual que conclama à “integridade” da missão e
procura associar o zelo evangelístico com a paixão holística.39

Em resposta a um artigo de McGavran, Escobar afirma que, como evangélico, ele


concorda integralmente com dois pontos do apelo de McGavran: primeiro, a igreja
nunca deve perder o seu senso de missão e do seu chamado para proclamar a
Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Segundo, porque Jesus Cristo é Senhor,
somente em seu nome há salvação para a humanidade, e essa singularidade de
Jesus Cristo é essencial para a mensagem da igreja.40 O que Escobar questiona
é se uma pessoa pode realmente evangelizar anunciando a Cristo como Salvador
e então deixar a questão do senhorio de Cristo sobre toda a criação para uma
segunda etapa, que poderá nunca chegar.

Ele observa que os grandes missionários dos primeiros 1800 anos da igreja
dificilmente fariam a distinção entre “espiritual” (evangelização) e “o resto,” que
McGavran faz. Eles não procurariam estabelecer prioridades nesses termos, pois
operavam com uma noção bíblica holística do ser humano. O que o movimento do
Crescimento da Igreja necessita é o corretivo de uma sólida teologia bíblica.
Escobar argumenta que o grande dilema para o qual a missiologia deve estar
alerta é diferente: A obra missionária será realizada segundo o modelo de Jesus e
a prática apostólica, ou irá adotar as técnicas e padrões da sociologia

53
funcionalista, do marketing e das relações públicas?41

Compreensivelmente, Escobar vê com apreciação o dinamismo e o crescimento


do protestantismo popular (pentecostalismo) na América Latina. Como evangélico,
ele aborda esse movimento na qualidade de “um observador-participante, alguém
que tem procurado ser um crítico e intérprete amoroso – um crítico severo em
alguns pontos – do lado de dentro.”42 Ele destaca várias lições missiológicas que
podem ser extraídas do impressionante crescimento do pentecostalismo latino-
americano: é um movimento religioso (e não social ou político), é um movimento
popular, mobiliza as pessoas para a missão e cria um senso de comunidade.
Escobar declara que

"para as massas em transição, essas igrejas estão oferecendo não somente um


abrigo ou refúgio no sentido mais limitado, mas a única maneira disponível de
encontrar aceitação social, alcançar dignidade humana e sobreviver ao impacto
das forças anômicas que atuam nas grandes cidades."43

Ele observa que alguns pentecostais latino-americanos também escolheram o


Pacto de Lausanne como expressão do seu compromisso com um modelo de
missão holístico e bíblico.

Se, por um lado, Escobar diverge da escola do Crescimento da Igreja, por outro
lado ele não sente entusiasmo pela Teologia da Libertação. Ele observa como, no
início das missões protestantes na América Latina, o evangelho era a verdadeira
força libertadora nas vidas dos latino-americanos, e a religião oficial uma força
opressora.44 Em décadas recentes, à medida que a Igreja Católica Romana
latino-americana buscou nova relevância social e política, a Teologia da
Libertação foi uma das conseqüências desse processo.

Escobar entende que a Teologia da Libertação é uma voz eloqüente que procura
reinterpretar a história cristã e a mensagem cristã. A missiologia evangélica deve
avaliá-la.45 A Teologia da Libertação confronta a missiologia evangélica com dois
desafios, um na área da consciência histórica e o outro na da hermenêutica. Com
relação ao primeiro, embora Escobar considere inadequadas a análise marxista e
a “escatologia” da Teologia da Libertação, ele admite que a missiologia evangélica
está aprendendo a encarar a história missionária com uma atitude menos ingênua
e mais madura. Ele admite: “Nós não mais podemos aceitar uma missiologia que
recusa-se a levar a sério as realidades políticas e sociais.”46

Na área da hermenêutica, Escobar reafirma a ênfase evangélica na centralidade


da Escritura e questiona a abordagem fortemente ideológica da interpretação
bíblica demonstrada pelos teólogos da libertação. Ele admite que a hermenêutica
evangélica necessitar ser constantemente purificada de pressuposições
ideológicas, e apela a uma genuína cristologia missiológica que, nas palavras de
René Padilla, enfatize “o discipulado cristão como algo que implica em colocar a
totalidade da vida debaixo do senhorio de Jesus Cristo.”47 Contra o Cristo
“docético” do catolicismo latino-americano tradicional, Escobar e os seus colegas

54
da Fraternidade Teológica Latino-Americana têm refletido sobre o Jesus dos
evangelhos, sobre como a sua obra e ensino são relevantes para todas as áreas
da vida, tanto individual quanto social. Essa reflexão inclui uma crítica do
cristianismo evangélico na América Latina. Escobar cita novamente seu amigo
René Padilla: “(O evangelicalismo) afirma o poder transformador de Cristo em
relação ao indivíduo, mas é totalmente incapaz de relacionar o Evangelho com a
ética social e a vida social.”48

Essa missiologia cristológica busca um novo modelo para inspirar e moldar a ação
missionária. O material bíblico é abordado a partir de várias perspectivas
possuidoras de significado missiológico. Há uma séria reflexão acerca daquilo que
os evangelhos dizem sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré. Há também
uma preocupação quanto às marcas da missão de Jesus, com o entendimento de
que ser seu discípulo é ser chamado por ele tanto para conhecê-lo quanto para
participar da sua missão. Além disso, há uma busca do significado e da
“integridade” do evangelho — Jesus Cristo é tanto o conteúdo quanto o modelo e
o alvo da proclamação do evangelho.

Escobar identifica essa reflexão missiológica que está vindo não só da América
Latina, mas também da África e da Ásia, como uma missiologia crítica da periferia.
Ele observa que tal missiologia “é caracterizada por uma forte ênfase
hermenêutica que insiste na importância de ler o mundo e ler a Palavra, mesmo
que essa leitura signifique um exame incômodo e sério da herança evangélica.”49

Ele argumenta que seria grandemente desejável para a globalização das missões
e da teologia evangélica se as diferentes correntes missiológicas do
evangelicalismo (européias, crescimento da igreja, terceiro mundo) pudessem
convergir em um movimento mais articulado e cooperativo para enfrentar a tarefa
missionária do terceiro milênio.

Em um artigo sobre a preparação de líderes de missões, Escobar observa que a


internacionalização das missões cristãs implica em reconhecer que Deus tem
levantado igrejas grandes e florescentes no terceiro mundo. Nessas igrejas do
hemisfério sul, as igrejas dos pobres, Deus está despertando uma nova força
missionária. Escobar gostaria de ouvir as igrejas norte-americanas dizerem:
“Vamos descobrir o que Deus está fazendo em outras partes do mundo,
especialmente nas fronteiras de missão, e como ele o está fazendo, e vamos unir-
nos aos nossos irmãos e irmãs a fim de completarmos a tarefa inacabada.”50

Em sua obra publicada recentemente em português, mencionada no início deste


trabalho, Escobar aborda em cinco ensaios algumas de suas preocupações mais
fundamentais. Inicialmente, ele destaca a importância do treinamento de
missionários e missiólogos para o contexto latino-americano. Nesse sentido, ele
argumenta que “nosso programa de treinamento na América Latina precisa ser
elaborado com base em convicções bíblicas, experiência de vida, consciência
histórica e preocupação pastoral.”51 Mais uma vez ele expressa o seu entusiasmo
pelo protestantismo popular (pentecostalismo) devido a sua ênfase na mobilização

55
dos leigos, suas formas contextualizadas de culto e ação missionária e o destaque
dado ao ministério do Espírito Santo e ao elemento de conflito espiritual
relacionado com a missão da igreja.

Após salientar o “fator novo” na história do cristianismo que é a transferência do


dinamismo missionário para o hemisfério sul (África, Ásia e América Latina), ele
aponta que os evangélicos latino-americanos têm maior afinidade com os
pietistas, morávios e avivalistas dos séculos XVIII e XIX do que com os
reformadores do século XVI. Isso tem levado Escobar, em anos recentes, a dar
uma grande ênfase ao papel do Espírito Santo nas missões cristãs, ao lado da sua
anterior ênfase cristocêntrica. Ele entende que “os evangélicos latino-americanos
necessitam de um impulso renovado do Espírito Santo e de uma leitura nova e
contextual da Palavra de Deus.”52

Ao mesmo tempo que expressa sua admiração pelas igrejas populares, Escobar
reconhece que, com sua ênfase na conversão de indivíduos ao evangelho, elas
enfrentam os riscos do excesso de individualismo, espírito de competição, falta de
uma eclesiologia clara e atitudes sectárias. Para superar esses problemas ele
novamente propõe o modelo de missão integral, que vai além da experiência
religiosa pessoal para incluir a comunidade e o mundo.53

Finalmente, Escobar alerta os cristãos evangélicos para a necessidade de um


constante processo de encarnação e contextualização que rejeita toda e qualquer
forma de paternalismo e discriminação, a partir da sua própria comunidade local.
Ele encarece a necessidade de uma espiritualidade profunda aliada a uma
preocupação igualmente intensa com as exigências éticas do evangelho, e conclui
com uma análise do modelo missionário de Paulo, com sua notável interação
entre reflexão e ação missionária.

REFLEXÕES FINAIS
Samuel Escobar não se identifica como um reformado ou calvinista. Sua biografia
e envolvimentos revelam uma conexão preponderante com a tradição anabatista,
uma vez que está filiado à Igreja Menonita. Não obstante, algumas de suas suas
ênfases certamente contariam com o aval de João Calvino e de muitos dos seus
seguidores. Nos escritos do grande reformador, seja em seus comentários, cartas,
sermões ou nas Institutas, vemos uma preocupação constante com as implicações
sociais e comunitárias do Evangelho, fato que tem sido amplamente documentado
por diversos pesquisadores.54 Historicamente, os reformados têm acentuado um
conceito abrangente acerca da missão da igreja, muito embora as suas práticas
nem sempre tenham correspondido às suas convicções.

Não precisamos concordar com tudo o que Samuel Escobar tem escrito. Na
realidade, alguns pontos da sua missiologia merecem reparos, como a sua ênfase
quase que exclusiva sobre as massas empobrecidas da América Latina como
objeto da ação missionária da igreja. Ainda que isso não deixe de ser importante,
o nosso continente testemunha o crescimento cada mais acentuado de uma
classe média significativa que também deve ser alvo do interesse da igreja. Ao

56
lado disso, Escobar tende a superestimar os valores positivos das igrejas
populares, dando pouca atenção a alguns sérios problemas apresentados pelas
mesmas, notadamente nas áreas doutrinária e ética, como é caso de alguns
recentes movimentos neopentecostais.

Não obstante, Escobar e seus colegas têm algo importante a dizer às igrejas
evangélicas históricas da América Latina e do Brasil, que realmente correm o risco
de tornar-se irrelevantes na sociedade caso não despertem para algumas
dolorosas realidades que existem ao seu redor. Tal ocorrência seria um retrocesso
histórico lastimável, pois que a igreja cristã em geral e as igrejas evangélicas de
modo particular têm uma longa e honrosa tradição de “missão integral” ao mundo.
Basta lembrarmos o intenso esforço de missões e de reforma social gerado pelos
grandes despertamentos dos séculos XVIII e XIX, na Europa e nos Estados
Unidos.

Ao mesmo tempo que enviavam pregadores do evangelho para todos os


quadrantes do mundo, as igrejas e cristãos individuais estavam na vanguarda de
movimentos em prol da extinção do tráfico negreiro, da abolição da escravatura,
da reforma das prisões, da luta contra o trabalho infantil, do combate ao
alcoolismo e de tantas outras causas nobres. Infelizmente, no início deste século,
as disputas teológicas tão bem exemplificadas pela controvérsia modernista-
fundamentalista nos Estados Unidos, produziram a concepção dicotômica da
missão da igreja que hoje observamos. Os conservadores em grande parte
aferraram-se à idéia de que a missão exclusiva da igreja é a evangelização, tendo
como alvo a conversão individual, ao passo que os liberais, poucos afeitos à
pregação do evangelho, optaram decididamente por atividades de cunho social.

Num período conturbado da história recente da América Latina, quando nosso


continente foi sacudido por profundas convulsões políticas, ideológicas e sociais,
muitos cristãos aderiram à agenda revolucionária da Teologia da Libertação.
Samuel Escobar e seus companheiros da Fraternidade Teológica Latino-
Americana fizeram um esforço sério no sentido de apresentar uma alternativa a
essa teologia que fosse bíblica, evangélica e igualmente radical em suas
implicações. Eles demonstraram que as igrejas podem permanecer fiéis às suas
convicções históricas e ao mesmo tempo adotar uma postura ousada e coerente
em relação aos problemas sociais.

Como cristãos brasileiros preocupados tanto com a missão da igreja quanto com
as difíceis realidades sócio-econômicas de nosso país, devemos levar a sério os
desafios desses líderes, que falam com convicção, coerência e clareza sobre a
necessidade de um entendimento abrangente da tarefa da igreja no mundo, como
agente e instrumento de Deus. Como Escobar destaca, a atitude e as ações de
Deus em relação ao mundo, especialmente como reveladas no seu Filho, Jesus
Cristo, são o nosso grande paradigma de missão. A Bíblia fala de um Deus que
toma a iniciativa, que busca a humanidade com amor e compaixão, que quer dar
vida e dignidade à sua criação. Isso foi ilustrado de maneira extraordinária por
Jesus, quando, em seu ministério terreno, manifestou o interesse de Deus por

57
todos os tipos de pessoas e pela pessoa integral.

O Cristo do Novo Testamento interessa-se por todas as necessidades humanas —


espirituais, físicas e emocionais; a sua mensagem e ações desafiam todas as
áreas da vida particular e coletiva. Tudo deve ser colocado debaixo do propósito e
do senhorio de Deus. O reino de Deus e seus novos valores devem ser manifestos
em todos os tipos de relacionamentos humanos. Por causa do seu forte senso de
missão, Jesus lutou e morreu na cruz. Ele instruiu os seus seguidores a
continuarem a sua obra de proclamação do reino (Jo 20.21s).

Evidentemente, esses sublimes ideais nem sempre encontram plena expressão


nas vidas diárias dos cristãos e das igrejas. Inevitavelmente é levantada a questão
das prioridades: uma vez que não podemos fazer tudo que Deus espera que
façamos, vamos concentrar os nossos esforços no que é primordial – a
evangelização – e as outras preocupações cuidarão de si mesmas.

Desde uma perspectiva evangélica, a evangelização – convidar os indivíduos, as


famílias e as comunidades à reconciliação e nova vida em Jesus Cristo –
certamente é básica e essencial. Todavia, a preocupação com prioridades,
praticidade ou, muitas vezes, estatísticas e resultados rápidos não deve cegar a
igreja para a integridade da missão, o propósito total de Deus para a humanidade
e para a comunidade redimida. À medida que a igreja evangeliza, ela também
precisa expressar o interesse de Deus por toda a vida e espelhar a atitude
daquele que disse: “Eu vinham para que tenham vida, e a tenham em
abundância.”

A igreja não deve ser reduzida a uma organização social ou a um grupo de


pressão política como tantos que existem na sociedade. Ela é uma instituição
singular, com uma contribuição e uma mensagem singular. Essa mensagem, se
vivida até as suas últimas conseqüências, necessariamente fará com que a igreja
enfrente as diferentes situações que afetam a vida humana neste mundo caído. É
para essas implicações mais amplas do evangelho e da missão da igreja que
cristãos comprometidos e inquiridores como Samuel Escobar chamam a nossa
atenção.

Obs.: O presente estudo é uma versão ampliada do artigo “Samuel Escobar e a


Missão Integral da Igreja: Uma Perspectiva Latino-Americana,” publicado em Vox
Scripturae 8/1 (Julho 1998): 95-111.

Ver, a esse respeito, o importante livro de William R. Hutchison, Errand to the


World: American Protestant Thought and Foreign Missions (Chicago: The
University of Chicago Press, 1987).
A Conferência de Edimburgo é considerada o berço do moderno movimento
ecumênico. Seus líderes, como Joseph H. Oldham, John R. Mott e Robert E.
Speer, eram provenientes do movimento cristão de estudantes. Ver Kenneth S.
Latourette, “Ecumenical Bearings of the Missionary Movement and the
International Missionary Council,” em A History of the Ecumenical Movement:

58
1517-1948, eds. Ruth Rouse e Stephen C. Neill, 3ª ed., 353-402 (Genebra: World
Council of Churches, 1986).
Daí o subtítulo utilizado: “Para considerar os problemas missionários relativos ao
mundo não-cristão.”
William R. Hogg, Ecumenical Foundations: A History of the International
Missionary Council and its Nineteenth-Century Background (Nova York: Harper
and Brothers, 1952), 131-32.
John Kessler e Wilton M. Nelson, “Panamá 1916 y su Impacto sobre el
Protestantismo Latinoamericano,” Pastoralia 1/2, ed. especial (Novembro 1978): 5-
21.
Entre os latino-americanos presentes no congresso estavam apenas três
brasileiros, os presbiterianos Eduardo Carlos Pereira, Álvaro Reis e Erasmo
Braga. Erasmo eventualmente tornou-se o secretário da Comissão Brasileira de
Cooperação, entidade que promoveu o maior esforço cooperativo até hoje
empreendido pelas igrejas evangélicas brasileiras e foi precursora da
Confederação Evangélica do Brasil.
O historiador Sidney Rooy identifica uma seqüência de três séries ou ciclos de
encontros do protestantismo latino-americano. Ver Samuel Escobar, “Los
‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” Iglesia y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 20.
Um dos primeiros e mais importantes articuladores dessa teologia foi o sacerdote
peruano Gustavo Gutiérrez, autor de Uma Teologia da Libertação (1971). Outros
nomes importantes no campo católico são Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, José
Porfirio Miranda, Hugo Assmann, Henrique Dussel e Leonardo Boff; no campo
protestante destacaram-se José Miguez Bonino e Rubem Alves, entre outros.
Entre os evangélicos conservadores, o órgão cooperativo correspondente ao CLAI
é a Confraternidade de Evangélicos da América Latina (CONELA).
Os próprios locais dessas conferências e congressos são reveladores. Das três
CELAs, duas realizaram-se na cosmopolita e culta Buenos Aires, enquanto que
todos os CLADEs ocorreram nos países andinos, com seus enormes problemas
sociais e suas dinâmicas igrejas populares.
Citado por Tito Paredes em “Visión Histórica de los ‘CLADEs’,” Iglesia y Misión
67/68 (Jan-Jul 1999), 13.
Escobar, “Los ‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” 22.
Os critérios de seleção procuram ser os mais abrangentes possíveis em termos de
faixas etárias dos participantes, sexo, identidade étnica e filiação eclesiástica.
Neste último aspecto, metade das inscrições é reservada para participantes
pentecostais. Iglesia y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 35.
Outros membros bem conhecidos da Fraternidade Teológica são C. René Padilla,
Rolando Gutiérrez, Tito Paredes, Emílio A. Núnez e o brasileiro Valdir
Steuernagel.
Sobre a sua relação com o Brasil, o próprio Escobar afirma em uma obra recente:
“Desde a minha primeira visita ao Brasil, em 1953, como jovem delegado peruano
a um congresso mundial da juventude batista, apaixonei-me por esse imenso país.
Em 1959 e 1960 percorri como evangelista e discipulador um bom número de
centros universitários. Cheguei de avião, um velho Catalina da Panair, de Iquitos,
na selva peruana, até Manaus. Dali percorri o Norte e o Nordeste, até chegar a
São Paulo, onde, entre 1962 e 1964, trabalhei como missionário na frente

59
estudantil, nos primeiros anos da Aliança Bíblica Universitária.” Samuel Escobar,
Desafios da Igreja na América Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões
(Viçosa, MG: Editora Ultimato, 1997), 11.
Por força de suas ocupações, Escobar também foi responsável por vários
periódicos. Por exemplo, ele foi editor de Certeza, uma revista para estudantes
universitários, e diretor de Pensamiento Cristiano, um órgão de exposição do
pensamento evangélico, publicado na Argentina.
Por exemplo, em 1982 Escobar participou da Consulta de Teólogos do Terceiro
Mundo, realizada em Seul, na Coréia do Sul. A revista Evangelical Review of
Theology, órgão oficial da referida Comissão Teológica, publicou os trabalhos
apresentados nessa consulta, um deles escrito por Escobar e três colegas latino-
americanos. Ver Samuel Escobar, Pedro Arana, Valdir Steuernagel e Rodrigo
Zapata, “A Latin American Critique of Latin American Theology,” Evangelical
Review of Theology 7, nº 1 (abril 1983): 48-62. Mais recentemente, em março de
1998, Escobar participou de uma conferência sobre economia e missões
promovida pelo Concílio de Ministérios Internacionais das igrejas menonitas norte-
americanas. Segundo o Mennonite Brethren Herald, “o missiologista Samuel
Escobar disse que um conceito holístico de missão conclama os cristãos a
compartilhar tanto a vida espiritual quanto recursos materiais e a utilizar
instrumentos espirituais, culturais e tecnológicos.”
Escobar também leciona no curso de Administração do Eastern College, em nível
de pós-gradução. Seu papel principal é ajudar os estudantes a considerar as
missões cristãs no contexto da justiça econômica.
Também publicado em Annals of the American Academy of Political & Social
Science 554 (Nov 1997).
Para os leitores não familiarizados com o inglês, esta é a tradução dos títulos dos
artigos de Escobar: “A responsabilidade social da igreja na América Latina”; “Além
da teologia da libertação: missiologia evangélica na América Latina”;
“Transformação em Ayacucho: da violência à paz e esperança”; “Missões e
renovação no catolicismo latino-americano”; “O recrutamento de estudantes para
missões”; “A missiologia de McGavran foi devorada por um leão?”; “De Lausanne
1974 até Manilla 1989: a peregrinação da missão urbana”; “Um movimento
dividido: três abordagens da evangelização mundial permanecem em tensão entre
si”; “Teologia evangélica na América Latina: o desenvolvimento de uma cristologia
missiológica”; “Missão na América Latina: uma perspectiva evangélica”;
“Elementos de estilo na formação de novos líderes missionários internacionais”;
“500 anos após Colombo: Requiem ou Te Deum?”; “O legado de John A. Mackay”;
“O evangelho inteiro para o mundo inteiro a partir da América Latina”; “A nova
ordem mundial das missões: o século XXI nos conclama a abandonarmos nossos
modelos de ministério mundial procedentes do século XIX”; “Além da teologia da
libertação: artigo-resenha” e “Uma abordagem missiológica do protestantismo
latino-americano.”
Como no Brasil, historicamente, o termo “evangélico” tem sido virtualmente
sinônimo de “protestante,” os estudiosos estão utilizado o anglicismo “evangelical”
para designar especificamente os evangélicos conservadores, em distinção dos
progressistas ou liberais, como ocorre nos Estados Unidos. David Bosch
menciona pelo menos seis tipos básicos: (1) novos evangelicais (como Billy

60
Graham), que tentam unificar todos os evangelicais; (2) evangelicais separatistas
(como Carl McIntire e o seu Concílio Internacional de Igrejas Cristãs); (3)
evangelicais por confissão (como Peter Beyerhaus); (4) evangelicais pentecostais
e carismáticos; (5) evangelicais radicais (como Samuel Escobar, René Padilla e
Orlando Costas); e (6) evangelicais ecumênicos (como John Stott, Festo
Kivengere e Arthur Glasser). Ver Internet, www.homenet.com.br/cem/postura.html.

Rodger C. Bassham, Mission Theology: 1948-1975 – Years of Worldwide Creative


Tension – Ecumenical, Evangelical, and Roman Catholic (Pasadena, Califórnia:
William Carey Library, 1979), 291.
Ibid., 295.
Ibid., 187.
Ibid., 225.
Ibid., 231.
John Stott, The Lausanne Covenant: An Exposition and Commentary
(Minneapolis: World Wide, 1975), 25.
Bassham, Mission Theology, 237.
Escobar atribui ao CLADE I, que recebeu 920 delegados de 25 países, o
surgimento de uma “teologia nacional” entre os evangélicos latino-americanos.
Desafios da Igreja, 22. Esse congresso foi o berço da Fraternidade Teológica
Latino-Americana.
Quando Escobar concluiu sua palestra, os delegados colocaram-se de pé e
demonstraram a sua aprovação aplaudindo-o entusiasticamente. A palestra foi
publicada na íntegra por Edições Vida Nova. Ver Samuel Escobar, A
Responsabilidade Social da Igreja, Tópicos do Momento 3 (São Paulo: Vida Nova,
1970).
Ibid., 7-8.
Bassham, Mission Theology, 262.
Orlando Costas, “Missiology in Contemporary Latin America: A Survey,” em
Missions and Theological Education in World Perspective, ed. Harvie M. Conn e
Samuel F. Romen (Farmington, Michigan: Urbanus, 1984), 104.
“Holístico,” do grego hólos (“inteiro”, “completo”), denota o que diz respeito a
totalidades ou sistemas completos, em contraste com a análise, tratamento ou
divisão em partes. A medicina holística, por exemplo, procura tratar tanto a mente
como o corpo.
Samuel Escobar, “Mission in Latin America: An Evangelical Perspective,”
Missiology 20 (Abril 1992), 244.
Samuel Escobar, “Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Mission,
ed. James M. Phillips e Robert T. Coote (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 131.
Ibid. O COMIBAM deu uma forte ênfase à segunda vinda de Cristo.
Ibid., 133.
Um bom exemplo das idéias de Escobar acerca da evangelização pode ser
encontrado no seu artigo “Vivir y Evangelizar,” em Pensamiento Cristiano 93
(Março 1978): 170-175.
Samuel Escobar, “Has McGavran´s Missiology been Devoured by a Lion?”
Missiology 17 (Julho 1989), 349-350.
Ibid., 350.

61
Escobar, “Mission in Latin America,” 241.
Escobar, “Latin America,” 134. “Anômicas” deriva de “anomia,” a instabilidade
social resultante do colapso dos padrões e valores; no sentido individual, significa
a inquietação, alienação e incerteza que decorre da ausência de propósito ou
ideais.
Samuel Escobar, “Beyond Liberation Theology: Evangelical Missiology in Latin
America,” International Bulletin of Missionary Research 6 (Julho 1982), 108.
Ibid., 110.
Ibid., 111.
Samuel Escobar, “Evangelical Theology in Latin America: The Development of a
Missiological Christology,” Missiology 19 (Julho 1991), 316.
Ibid., 321.
Ibid., 328.
Samuel Escobar, “The Elements of Style in Crafting New International Mission
Leaders,” Evangelical Missions Quarterly 28 (Janeiro 1992), 7.
Escobar, Desafios da Igreja na América Latina, 19.
Ibid., 48. Há poucos anos, Escobar participou de mais uma consulta da Comissão
Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial. Tal consulta, realizada em Londres
de 9 a 14 de abril de 1996, teve como tema “Fé e Esperança para o Futuro: Por
Uma Teologia Evangélica Vital e Coerente para o Século XXI.” Escobar foi o autor
de um dos seis estudos apresentados ao plenário, sob o título “Discernindo o
Espírito na América Latina,” em que revela o seu grande interesse pela dimensão
pneumatológica da missão da igreja e conclama os evangélicos a estarem
receptivos ao novo vento do Espírito que sopra na igreja, gerando uma
espiritualidade nova e radical. Samuel Escobar, “Mañana – Discerning the Spirit in
Latin America,” Evangelical Review of Theology 20/4 (Outubro 1996).
Escobar, Desafios da Igreja na América Latina, 64. É o caso de André Biéler, O
Pensamento Econômico e Social de Calvino, trad. Waldyr Carvalho Luz (São
Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990). Ver também, do autor do presente
artigo, “Amando a Deus e ao Próximo: João Calvino e o Diaconato em Genebra,”
Fides Reformata 2:2 (Jul-Dez 1997), 69-88, e “Jonathan Edwards: Teólogo do
Coração e do Intelecto,” Fides Reformata 3:1 (Jan-Jun 1998), 72-87

Parte XV
A MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA
Introdução:
Que é missão integral? O que envolve a missão da Igreja a ponto de
investigarmos o que é mito e o que é realidade?

Na procura de respostas para estas e outras perguntas semelhantes é que este


estudo veio a lume. Não é um trabalho original e nem exaustivo. Não é original
porque missão integral já faz parte da discussão teológica da Igreja há algum
tempo. Não é exaustivo porque o número de teólogos, missiólogos e pensadores
que têm escrito e palestrado sobre a missão da Igreja, e em seus vários aspectos,
é enorme. Um bom exemplo da diversidade da missão integral é o livro A Missão
da Igreja, organizado pelo Dr. Valdir Steuernagel em 1994. Nele nada menos que
27 articulistas tratam da missão integral da Igreja. Mas existem muitos outros

62
autores que não aparecem no livro de Steuernagel. Além disso, obras como as de
René Padilla e Timóteo Carriker são dignas de nota, conforme observamos no
capítulo sobre o conceito de missão integral da Igreja na teologia contemporânea.
Por causa dessa variedade de autores foi preciso adotar alguns critérios, vez ou
outra mencionados no corpo deste trabalho.

Nosso estudo divide-se em três capítulos principais. O primeiro trata da missão


integral como mito e realidade propriamente dito. Os outros dois são uma
explanação bíblico-teológica e pragmática do primeiro. Nosso objetivo é mostrar
que a Igreja evangélica brasileira só pode ser verdadeiramente missionária
quando no desempenho de sua missão integral.

I. O MITO E A REALIDADE DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

1.1. O mito da missão integral da Igreja

O que poderíamos denominar de mito ou mitos na missão integral da Igreja? Após


relativa pesquisa e análise cuidadosa deste assunto, chegamos à conclusão que
dois pontos resumiriam bem o mito de missão integral da Igreja. O primeiro deles
estaria relacionado a um debate que perdura já algum tempo na igreja evangélica
mundial e na brasileira em particular, a saber, a polarização entre evangelização e
a responsabilidade social da Igreja. O segundo mito estaria diretamente ligado à
dicotomia humana, isto é, o ser humano considerado em partes separadas ao
invés do todo. Alguns fatores que possibilitaram o surgimento desses mitos é o
que veremos, também, neste capítulo.

a. O mito da polarização teológica

Que evangelização e responsabilidade social são verdades bíblicas para a Igreja


de Jesus Cristo não há dúvida, ou pelo menos não deveria haver (1). Felizmente,
a consciência social da igreja brasileira hoje parece ser maior do que algumas
décadas atrás. Entretanto, se por um lado a Igreja vem melhorando em sua visão
social, por outro, ainda não amadureceu tanto em sua concepção de missão
integral, justamente porque ao se discutir prioridades (estamos falando apenas de
evangelização e ação social) a igreja deixa de fazer bem uma e outra coisa.

Evangelização e responsabilidade social devem andar juntas como causa e efeito


de uma mesma verdade evangélica. Com isso não queremos dizer que
evangelização e ação social devam ser entendidas como sendo a mesma coisa.
Por outro lado, também não estamos afirmando que sejam duas coisas
diametralmente separadas. "Um ministério integral verdadeiro define a
evangelização e a ação social como funcionalmente separadas, mas
relacionalmente inseparáveis e necessárias para um ministério integral da igreja"
(YAMAMORI, 1998, p. 14).

O relatório da Consulta Internacional realizada em Grand Rapids (EUA), presidida


por John Stott em 1982, concluiu que na questão da primazia entre evangelização

63
e ação social "a evangelização tem uma certa prioridade. Não estamos falando em
prioridade temporal, mas em prioridade lógica, pois há situações em que o
ministério social precisa vir primeiro" (STOTT, 1983, p. 23).

E na prática?

Na prática, como aconteceu no ministério público de Jesus, estas duas realidades


(evangelização e ação social) são inseparáveis, pelo menos nas sociedades livres,
e raramente teremos de optar entre uma e outra. Em lugar de estarem em
competição, elas se sustentam e fortalecem mutuamente, numa espiral
ascendente de preocupação crescente (STOTT, 1983, p. 23)

A discussão pouco louvável no meio cristão sobre a missão prioritária da Igreja no


mundo também levou o comitê de Lausanne a elaborar uma declaração sóbria e
amadurecida. Diz assim, em seus artigos, o chamado Pacto de Lausanne: "Os
resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua
igreja e um serviço responsável no mundo" (O PACTO DE LAUSANNE, 1983, IV).
E ainda:

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos


partilhar o seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade
humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a
humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça,
religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca
em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também
nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado
a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a
reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social
evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização
e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. (Idem, V)
(Grifos nossos)

E mais: "A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na
totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é
morta" (Idem, V).

Evangelização e responsabilidade social são partes integrantes da missio Dei,


portanto, inseparáveis e indispensáveis na missão integral da Igreja de Jesus
Cristo no mundo e para o mundo (2).

Façamos, a seguir, uma rápida apresentação de dois grandes movimentos que


contribuíram negativamente para o distanciamento da Igreja de sua missão
integral.

O evangelho social e a teologia da libertação

A influência perniciosa e nefasta do liberalismo teológico do século XX, em

64
particular das teologias do evangelho social e da libertação, foi um dos fatores que
colaboraram para a polarização entre evangelização e a ação social no meio
evangélico. O esforço de se combater a teologia do evangelho social e depois a
teologia da libertação (por causa da ênfase social à parte do evangelho bíblico e
de uma filosofia marxista, principalmente desta última), provocou um mal-estar na
igreja brasileira. Resultado: No afã de se preservar o espiritual, a Igreja acabou se
equivocando e não enxergou a mensagem social autêntica que o mesmo
evangelho oferecia.

Se de um lado as teologias liberais mencionadas cometeram o pecado do social


sem espiritualidade, a igreja evangélica brasileira, por outro lado, pecou na
espiritualidade sem encarnação. Contudo, há de se admitir que, por sua vez, tanto
o evangelho social quanto a teologia da libertação provocaram uma reação
positiva na Igreja. A Igreja foi levada a refletir seus valores, dando uma reviravolta
considerável nessa história toda. Hoje em dia, boa parte das igrejas brasileiras
está envolvida em trabalhos sociais, e sem qualquer preocupação de ser rotulada
e perseguida por isso, como ocorria em tempos atrás.

b. O mito da dicotomia humana

Ver o indivíduo completo, não dictomizado, é uma necessidade urgente em


nossos dias, conforme veremos no decorrer deste estudo. Um dos maiores males
cometidos na igreja evangélica brasileira de hoje é limitar o conceito de salvação,
achando que Cristo veio salvar apenas a alma do homem ou da mulher.
O ser humano - homem ou mulher - é um todo e deveria sempre ser visto assim,
como o é pela Bíblia. Partindo da perspectiva bíblica, o ser humano poderia ser
definido como sendo 'uma comunidade integrada de corpo e alma' (STOTT, 1989,
p. 38). Entretanto, a ausência da compreensão do indivíduo como ser integral,
pela própria Igreja, tem levado a mesma a desvalorizar não somente o ser
humano na sociedade, como também o próprio evangelho para o qual ela foi
chamada a proclamar no mundo, pois, como salientou muito bem Manfred (1987,
p. 59), "só existe fidelidade na evangelização quando existe fidelidade na missão
integral da igreja".

Veremos a seguir que pelo menos três fatores contribuíram negativamente para o
surgimento do mito da dicotomia humana, isto é, o platonismo, a influência
missionária européia e norte-americana e a teologia sistemática.

A influência missionária e da teologia sistemática

Norman L. Geisler (1985, p. 154) observa que parte do descuido do "homem total"
tem sua origem na ênfase platônica não-cristã sobre a dualidade do ser humano.
"Esta ênfase foi dirigida pelos cristãos na Idade Média e tem sido transmitida para
o presente". Em síntese o platonismo argumenta que o ser humano é
essencialmente um ser espiritual e que apenas tem conexão funcional com um
corpo que, na melhor das hipóteses, é um impedimento e, na pior, um grande mal.
A correção deste erro está no ensino bíblico acerca da unidade essencial do ser

65
humano.

Além da influência platônica, os missionários europeus e norte-americanos que


aqui estiveram parece que não conseguiram passar adiante a idéia da missão
integral. Nossa herança missionária é deveras espiritualista. O que é facilmente
percebido nas mensagens bíblicas e hinos que os missionários nos legaram.
Porém, isso não quer dizer que não houve qualquer tipo de envolvimento social,
pelo contrário, a história da igreja brasileira registra dignos exemplos de
missionários como Robert e Sarah Kalley, Ashbell Green Simonton e outros, que
desempenharam um papel social muito grande em nosso país. Mas então, por que
a igreja evangélica brasileira de modo geral não herdou a totalidade da visão
desses bons exemplos de missionários, e durante tanto tempo vem caminhando
lentamente na questão social? Pelo menos por três razões principais: Uma delas
tratamos há pouco, isto é, a omissão da Igreja, até hoje sentida, por causa
daquela reação ao evangelho social e à teologia da libertação. Outra razão é que
a maioria dos missionários estrangeiros que aqui chegaram tendia para a corrente
do evangelho individual (KRIEGER, In Teses,1988, pp. 39,40). Isso explica,
embora não justifique, é claro, nosso espiritualismo desencarnado no campo
social; o que, de certa forma, contribuiu para a difusão do evangelho social e
principalmente da teologia da libertação em nosso país. Uma terceira razão foi
observada pelo missiólogo norte-americano Timóteo Carriker, quando diz que boa
parte dos missionários europeus e norte-americanos que aqui estiveram
"realizaram o trabalho, ora nobre e sacrificial, ora dominador e paternalista, mas,
com raríssimas exceções, não transmitiam a mesma visão missionária para as
igrejas autóctones. Assim, deixaram a impressão de que missões é coisa que o
Brasil recebe e não que faz (CARRIKER, 1993, p. 55). (Grifo nosso) (3)

Outro fator que infelizmente tem colaborado para a dicotomia humana é a teologia
sistemática, independente de sua linha confessional. Embora a teologia
sistemática seja uma tentativa interessante de organizar em um ou mais
compêndios conceitos e pensamentos religiosos variados, é preciso ter cautela
com a mesma. Bruce A. DEMAREST, em seu artigo Teologia Sistemática (In
EHTIC1990, p. 515), faz uma advertência importante:

Alguns consideram a teologia sistemática como um depósito eterno e inalterável


de verdades divinas. Embora as Escrituras sejam invioláveis, novos
entendimentos teológicos e reformulações são necessários a cada geração.
Primeiro: porque à medida que a linguagem e as formas culturais mudam, o
conjunto da verdade cristã deve ser vestido em roupagens contemporâneas a fim
de permanecer inteligível; e segundo: porque novas questões e problemas
continuam a surgir para desafiar a igreja. Por isso, de tempos em tempos, o texto
bíblico precisa ser reinterpretado e reaplicado ao contexto moderno. No estudo da
natureza do ser humano na teologia sistemática, na análise da questão corpo,
alma e/ou espírito, e em seus conceitos dicotômicos e tricotômicos, perdeu-se de
vista a perspectiva bíblica de que somos um todo. E, certamente, isto tem sido um
dos fatores prejudiciais na compreensão da missão da Igreja.

66
1.2. A realidade da missão integral da Igreja

Em contrapartida ao mito da teologia de missão integral da Igreja, destaquemos


dois fatores que, em nossa opinião, expressam bem a realidade dessa missão.

a. A missão da Igreja é holística e diaconal

Por mais óbvia que pareça esta afirmação, sabemos que a ortopraxia da missão
integral não é tão óbvia como deveria ser. Não é fácil inculcar na cabeça do nosso
povo que o envolvimento da Igreja deve ser total. Não só no que se refere ao
indivíduo, mas também à criação de Deus em geral. Onde está, por exemplo, a
consciência ecológica da Igreja? (4)

Além disso, a Igreja como sal da terra e luz do mundo deve fazer a diferença nos
vários setores da sociedade, principalmente no socorro aos menos favorecidos.

A injustiça social, verdadeira afronta contra a imagem e semelhança de Deus, tem


solapado nosso país e a Igreja muitas vezes tem se afastado como se nada
tivesse com isso. É verdade que a Igreja não é uma instituição político-partidária
que deva defender qualquer bandeira política. É mais que isso. Ela é uma
instituição divina supra partidária. Por isso mesmo, tem o dever ético e moral de
ser mais justa do que qualquer governo ou partido político pretenda ser. Conforme
salientou Jorge GOULART (1941, p. 229), a Igreja "não prega uma forma de
governo, mas cria uma consciência democrática, à luz dos conceitos de liberdade,
de dignidade humana, de respeito ao próximo e, sobretudo, de amor a Deus e à
humanidade".

Os cristãos foram postos no mundo para ser a consciência da sociedade, como


diria Orlando COSTAS (1979, p. 102). A Igreja deve ser a voz do que clama no
deserto a fim de fazer a diferença no mundo. Precisa deixar o monte da
transfiguração (entenda-se contemplação) e descer até ao sopé onde se
encontram os excluídos. Uma opção preferencial pelos pobres? E por que não? O
evangelho é para todos, porém, somente o pobre precisa ser atendido também em
suas necessidades básicas prioritárias, por causa da má distribuição de renda de
nosso país, como resultado de uma política social opressora.

Quando se coloca o pobre e o rico lado a lado, em se tratando de benefícios a


serem recebidos, o primeiro sempre sai perdendo. É preciso sim que os pobres
desse mundo recebam um tratamento preferencial porque foi assim que Deus os
tratou na Bíblia, como veremos mais adiante.

Orlando Costas via nesta dimensão diaconal ou encarnacional da Igreja "a


intensidade de serviço que a igreja presta ao mundo, como prova concreta do
amor de Deus" (COSTAS, 1994, p. 113). E ainda:

Esta dimensão envolve o impacto que o ministério reconciliador da igreja exerce


sobre o mundo, o seu grau de participação na vida, conflitos, temores e

67
esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda a aliviar a dor
humana e a transformar as condições sociais que têm condenado milhões de
homens, mulheres e crianças à pobreza. Sem esta dimensão a igreja perde sua
autenticidade e credibilidade, pois somente na medida em que conseguir dar
visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar
ser ouvida e respeitada. (COSTAS, 1994, pp. 113,4).

b. A missão da Igreja é bíblica

Quando dizemos que a missão integral da Igreja é bíblica, significa que ela (a
missão integral da Igreja) não é uma filosofia cega ou um modismo passageiro. A
missão da Igreja não é filosofia e muito menos modismo. É uma verdade bíblica
que precisa ser resgatada e praticada em sua totalidade. A Bíblia não existe para
o deleite de nossa mente carnal. A Bíblia não incentiva nenhum blá-blá-blá teórico
desinteressado. A Bíblia é doutrina e prática. A opção por apenas um desses seus
aspectos (doutrina ou prática) causará profunda ojeriza em Deus. Sua Palavra é
um todo, como um todo deve ser a missão integral de Sua Igreja.

A integralidade da Igreja é bíblica e se baseia na missão integral de Deus. A


missão integral da Igreja é ampla, assim como é ampla a missão integral de Deus,
visto que a dimensão dessa missão é vertical e horizontal. O compromisso da
Igreja com Deus (vertical) resulta nela um compromisso com a criação em geral e
com o ser humano em particular (horizontal). Não é por acaso que GRELLERT
(1987, p. 22) resumiu a missão intergral da Igreja em "comunhão, adoração,
edificação, evangelismo e serviço".

No capítulo 2 desse estudo falaremos um pouco mais sobre a base bíblica da


missão integral da Igreja.

II. A BASE BÍBLICA E TEOLÓGICA DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

2.1. A missão integral na Bíblia

A missão integral tem raízes bíblicas profundas. Tetsunao YAMAMORI (1998, p.


15) salienta:

Tanto no Antigo como no Novo Testamentos a Bíblia ordena à igreja que ministre
à pessoa como um todo. Isto quer dizer que se deve atender tanto às
necessidades físicas como às espirituais, que estão inseparavelmente
relacionadas, ainda que sejam separadas em termos funcionais.

No capítulo anterior mencionamos que a missão integral da Igreja é ampla. Isso é


verdade. Por isso mesmo nosso objetivo agora será tratar, à luz da Bíblia, apenas
de um dos aspectos da missão integral, isto é, aquele que está diretamente
relacionado à pessoa do indivíduo ou, mais especificamente, aos pobres deste
mundo. "Nada é mais claro na Bíblia do que ser Deus o campeão dos pobres, dos
oprimidos e dos explorados". (BRYANT, 1988, p. 56).

68
Segue abaixo uma abordagem resumida sobre o assunto.

a. No Antigo Testamento

Se folhearmos as páginas do Antigo Testamento veremos que existe uma clara


opção preferencial de Deus pelos pobres e oprimidos. Isto não significa que Deus
faça acepção de pessoas ou de classe social. De modo algum! Mas com certeza
Ele olha de maneira especial para aqueles que não têm vez, que não têm voz. Só
no AT nós temos 300 referências sobre causas, realidade e conseqüências da
pobreza. Vinte e cinco palavras hebraicas para falar do oprimido, do humilhado, do
desesperado, do que clama por justiça, do fraco, do desamparado, do destituído,
do carente, o pobre, a viúva, o órfão, o estrangeiro. Em Isaías 58.3-8, quando o
povo de Deus pergunta: "Por que é que nós oramos e jejuamos e tu não nos
respondes?", Deus diz: "É porque vocês jejuam e oram para a iniqüidade, vocês
estão oprimindo os pobres, e seus próprios operários, e o jejum que eu quero, é
que vocês cortem as ligaduras da impiedade, é que ajam com justiça em relação
aos desamparados". Veja também Isaías 1.17; 10.1,2.

Ezequiel 16.49 afirma que o pecado de Sodoma, além do orgulho, da vaidade e da


imoralidade era que aquela cidade, sendo rica e abastada, nunca atendeu o pobre
e o necessitado. Se olharmos na legislação do povo de Deus no Velho
Testamento, veremos que o objetivo de toda a legislação era que não houvesse
miseráveis e injustiçados no meio do povo de Israel.

b. No Novo Testamento

Jesus Cristo é a revelação máxima da missão integral de Deus no mundo. No


início de seu ministério terreno o Senhor Jesus deixou bem clara a sua missão
quando declarou: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para
evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e
restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o
ano aceitável do Senhor" (Lc 4.18,19). O cuidado de Jesus com os pobres e
marginalizados é enorme. "Nós nunca encontramos Jesus Cristo de dedo
apontado contra os pobres e marginalizados, mas enfrentando exatamente
aqueles que oprimiam o povo, quer pelo sistema religioso, quer pelo sistema
econômico, ou sistema político de sua própria época". (MACEDO FILHO, 1988, p.
35).

Em Mateus 4.23 lemos também: "Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas
sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e
enfermidades entre o povo". E ainda em Mateus (cap. 25) notamos que além da
questão do se "fazer igualmente a Cristo", a nossa atitude para com os
desfavorecidos deste mundo será um critério importante de julgamento no Juízo
Final.

Os apóstolos deram continuidade ao tema da missão integral de Jesus em seus

69
ministérios. Veja por exemplo Atos 5 e 6.

Em Jerusalém as três colunas do colégio apostólico (Pedro, Tiago e João)


recomendaram a Paulo e a Barnabé que não se esquecessem dos pobres, "o que
também me esforcei por fazer", diz o apóstolo em Gálatas 2.10.

Várias igrejas foram orientadas por cartas a agirem com a mesma visão de
integralidade bíblica dos apóstolos. Destacamos, dentre outras, as igrejas de
Corinto (II Co 8 e 9), da Galácia (Gl 6.2-10) e das doze tribos da dispersão (Tg 2.
1-7,14-26; 5.1-6).

2.2. A missão integral na teologia contemporânea

O número de teólogos que escreveram e escrevem sobre a missão integral da


Igreja não é pequeno. Um bom exemplo disso é a obra do Dr. Valdir Steuernagel
em que ele reúne nada menos que 27 autores. Falar do trabalho de cada um
desses autores, sem considerar outro tanto que Steuernagel não menciona, seria
simplesmente impossível para as dimensões do nosso trabalho. Estou tomando,
então, a liberdade de selecionar apenas dois deles, a saber, Timóteo Carriker e
René Padilla, e explico porquê. Em primeiro lugar, nossos dois teólogos são duas
das maiores autoridades mundiais sobre a missão integral da Igreja. Em segundo
lugar, cada um deles escreveu um livro com o mesmo título (Missão Integral) com
cerca de 300 páginas cada. Em terceiro lugar, vale a pena conferir a ênfase e a
abordagem distintas que ambos conferem em seus respectivos livros acerca da
missão integral da Igreja.

a. O conceito de Timóteo Carriker

O livro de Timóteo Carriker é uma teologia bíblica de missões. Seu objetivo é


ressaltar as diversas dimensões, na palavra de Deus, da identidade e tarefa
missionárias do povo de Deus (1992, p. 11). A seguir exporemos alguns dos
principais conceitos da missão integral de Carriker.

No Antigo Testamento Javé é o Deus soberano sobre toda a sua criação. Esta
imagem de Deus está no coração do Novo Testamento também. Um Deus
soberano e misericordioso é o ator último das parábolas de Jesus. É este Deus
salvador que alcança além das leis judaicas. Sua aproximação do homem exige a
atitude de conversão. O seu reino tem um escopo universal até cósmico. Os
marginalizados, mulheres, samaritanos, e gentios recebem a misericórdia de
Deus.

Deus tem um plano salvífico que alcança tanto judeu quanto gentio, e Ele vai
cumpri-lo. A confiança no cumprimento do seu plano dá a igreja motivação para
perseverar até o fim.

A igreja, contudo, não fica passiva em relação à soberania de Deus. Reconhecer


que a missão é essencialmente de Deus, missio Dei, não significa que a

70
participação da igreja na evangelização mundial tem pouca significância. Muito
pelo contrário, a missio Dei exige os missiones eclesiae. São praticamente dois
lados da mesma moeda.

O Deus da Bíblia é o Deus que age na história. Não é principalmente apresentado


como um conceito ou idéia, uma doutrina que podemos elaborar. Ele é, acima de
tudo, pessoal e age nos eventos e experiências concretas das nossas vidas. Deus
não se restringe a uma dimensão mística da nossa vida. Atua através do êxodo,
do dilúvio e do cativeiro no Velho Testamento, todos eventos históricos até
"seculares". Ele atua através da vida humana do seu filho Jesus, através da sua
morte e ressurreição, eventos bem visíveis que fazem parte da nossa história.

É na nossa história humana que Deus se revela e o faz com movimento para
frente. Percebemos, através da história, a sua conclusão. Assim, a perspectiva
cristã da história é essencialmente escatológica. A humanidade está indo na
direção do cumprimento, julgamento e salvação, e este movimento entrou na sua
fase final com a ressurreição de Cristo. Hoje é o dia da salvação.

b. O conceito de René Padilla

A abordagem de René Padilla é mais teológica e menos bíblica. Por "mais


teológica" queremos dizer que os argumentos de Padilla estão mais na área das
idéias, o que não diminui, de modo algum, o valor da obra dele. Por "menos
bíblica" queremos afirmar que o livro de Padilla não é uma teologia bíblica nos
moldes do livro de Timóteo Carriker, porém, seus princípios são eminentemente
bíblicos. Apesar de não termos o objetivo de comparar os dois autores, vale
ressaltar que as aplicações de Padilla são mais contextualizadas que as de
Carriker.

Padilla desenvolve seu tratado em termos de desafios. Diz ele que o maior desafio
que a igreja enfrenta atualmente é o desafio da missão integral (1992, p. 139).

O desafio da missão integral, por sua vez, subdivide-se em outros três, a saber: O
desafio da evangelização e do discipulado, o desafio da colaboração e da unidade
e o desafio do desenvolvimento e da justiça. Seus argumentos principais são os
seguintes:

Um conceito um tanto romântico da obra missionária impulsionou as missões a


concentrarem seu esforço em pequenas tribos nas selvas, esquecendo-se das
cidades. A "explosão urbana" é um fenômeno mundial. A missão urbana, portanto,
é uma prioridade em todas as partes. Lá, na cidade, com todo seu poder
desumanizante, vê-se com clareza a necessidade de um evangelho com poder
para transformar a totalidade da vida. Num mundo que está se urbanizando
rapidamente, a cidade é, sem dúvida, o símbolo do desafio que a evangelização e
o discipulado colocam para a igreja.

Porque há um mundo, uma igreja e um evangelho, a missão cristã não pode ser

71
outra coisa que missão realizada em colaboração mútua. Chegou o momento de
encontrar maneiras de reduzir a distância entre as igrejas no Ocidente e no
Terceiro Mundo. Já há experiências úteis que estão sendo levadas a cabo com
este propósito, mas é necessário fazer muito mais para desenvolver modelos de
solidariedade acima das barreiras políticas, econômicas, sociais e culturais, e para
estimular a colaboração mútua entre as igrejas.

O desafio que a igreja encara no campo de desenvolvimento hoje é


fundamentalmente o desafio de um desenvolvimento humano, no contexto da
justiça. Fazem falta modelos de missão plenamente adaptados a uma situação
marcada por uma distância abismal entre ricos e pobres. Os modelos de missão
baseados na riqueza do Ocidente solidarizam-se com esta situação de injustiça e
condenam as igrejas do mundo pobre a uma permanente dependência. No final
das contas, portanto, são contraproducentes para a missão.

O desafio tanto para os cristãos no Ocidente como para os cristãos nos países
subdesenvolvidos é criar modelos de missão centrados num estilo de vida
profético, modelos que apontem para Jesus Cristo como Senhor da totalidade da
vida, à universalidade da igreja e à interdependência dos seres humanos no
mundo.

III. OS DESAFIOS E IMPLICAÇÕES DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

3.1. Desafios da missão integral da Igreja


Observamos no capítulo anterior que René Padilla apresenta a missão integral da
Igreja em termos de desafios. Entretanto, sua abordagem é ampla, no sentido de
envolver a missão da Igreja num âmbito mundial ou, no mínimo, na América
Latina. Os desafios que agora mencionaremos tratam da igreja brasileira em solo
brasileiro. Dividimo-nos em duas partes distintas, isto é, os desafios sociais e os
desafios eclesiais.

a. Os desafios sociais da Igreja

Não são poucos e nem pequenos os problemas sociais brasileiros. A igreja


evangélica brasileira tem desafios enormes nesta área. Porém, de início é preciso
que encaremos com seriedade e maturidade o dilema de até onde podemos e
devemos nos envolver nestes desafios. Que a igreja evangélica brasileira não
deve se esquivar de sua missão integral, é o nosso comum acordo com a
declaração de Lausanne:

Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a
ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que
evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever
cristão.

É preciso sim que a Igreja seja a consciência da sociedade e a voz profética que
denuncia os desmandos desta mesma sociedade. Não devemos, como Igreja de

72
Cristo, partir para a ignorância e violência, mas podemos e devemos fazer
confrontações sociais sérias. Confrontação não é violência. Robert C. Linthicum
(1996, pp. 171,2) explica:

Há muita confusão sobre a natureza da confrontação e da violência. Confrontação


é simplesmente a atividade entre seres humanos na qual eles discordam, e devido
a esta discordância, estão desafiando uns aos outros. A palavra significa
literalmente "testa-a-testa" - isto é, as testas colocadas fisicamente uma contra-a-
outra. É um encontro face a face, direto, procurando o fim da resolução.

Por outro lado, violência é o exercício da força física, a fim de ganhar uma disputa.
Enquanto a confrontação é verbal, a violência é física. De uma forma mais
profunda, essas palavras não são sinônimas, e sim antônimas, pois, em sua
própria natureza, um ato de violência é a indicação de que a confrontação falhou.
A confrontação boa e eficaz nunca deve levar à violência, mas à resolução do
problema.

É nesse espírito de verdadeira confrontação que a Igreja deve encarar seus


desafios sociais, com propostas terapêuticas para uma sociedade enferma.
Portanto, empenhemos-nos pela dignidade do povo brasileiro. Reivindiquemos,
pois, os seus e os nossos direitos: Saúde, segurança, educação, trabalho e salário
digno.

E até onde podemos e devemos ir nesta questão toda? Até onde os direitos sejam
verdadeiramente assegurados, o amor ao próximo evidenciado, a moral
dignificada, o evangelho e o bom testemunho não sejam prejudicados e,
sobretudo, o nome de Jesus seja glorificado.

O governo tem (e como tem!) suas culpas e responsabilidades, mas não podemos
ficar indiferentes ao que ocorre em nossa volta, simplesmente criticando por
criticar o governo. Pesa (e como pesa!) sobre o povo de Deus também a
responsabilidade pelo bem-estar social do nosso país.

b. Os desafios eclesiais da Igreja

Certamente um dos maiores desafios da igreja brasileira na atualidade é vencer


seus próprios desafios. Tentarei explicar esta minha tese.

Os desafios sociais da igreja brasileira não são combatidos e vencidos como


deveriam porque falta vontade eclesiástica por parte da mesma. Ou porque a
liderança não se empenha, ou porque os liderados não se envolvem na obra. O
certo é: Se não chegarmos a um consenso; se não juntarmos forças, jamais
sairemos do lugar comum. Continuaremos marcando passo, salgando a nós
mesmos e iluminando nossos umbigos.

Uma lição é preciso aprender com a igreja de Jerusalém. A igreja de Jerusalém


estava consciente de sua missão no mundo. Era uma igreja unida em seus

73
propósitos e se amava de verdade. Internamente ela estava pegando fogo,
desejosa de pregar o evangelho, em obediência ao mandado de Cristo. Porém,
externamente os desafios eram humanamente insuperáveis. Pilatos, Herodes e
muita gente se levantaram contra a Igreja de Deus. Então a Igreja orou: "agora,
Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem
com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes as mãos para fazer curas,
sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus" (At 4.29,30).

E Deus atendeu ao clamor de sua Igreja (At 4.31). Atendeu porque a Igreja deixou
de lado seus próprios interesses para servir ao mundo. Hoje, o que muito se vê, à
nível de igreja local, é a própria igreja criando obstáculos para não fazer a obra do
Senhor. Externamente desfruta-se de uma liberdade religiosa como nunca se viu,
mas internamente muito de nossas igrejas estão enfermas, quando na verdade
eram elas que deveriam estar curando!

A seguir daremos duas sugestões práticas para que esse quadro sombrio possa
se reverter.

3.2. Implicações da missão integral da Igreja

As implicações que aqui abordaremos não deixam de ser verdadeiros desafios


para a igreja brasileira, porém, entendemos que estes desafios são implicações
naturais para uma igreja que queira verdadeiramente cumprir sua missão integral.

a. A revisão de estruturas não-funcionais

O que muito tem contribuído para um mau desempenho da Igreja em sua missão
integral é a falta de estruturas que funcionem. Estruturas enrijecidas pelo
tradicionalismo matam ou impedem a visão de uma igreja.

A quebra de paradigmas é uma das coisas fundamentais para que a estrutura de


uma igreja se torne funcional. Às vezes é preciso muita coragem para mudar
certos parâmetros que já não funcionam mais. À primeira vista parece fácil mudar
aquilo que se tornou obsoleto, mas não é tão simples assim. Antes é preciso
mudar a mentalidade dos acomodados e principalmente dos saudosistas,
daqueles que confundem inovação com inovacionismo, tradição com
tradicionalismo. O que está "matando" muito crente novo (e velho também) é a
igreja não-funcional, que se limita a suas atividades internas, fechada em quatro
paredes.

Contudo, por uma questão de prudência e respeito àqueles que não pensam como
nós, é preciso que os paradigmas sejam quebrados aos poucos. As idéias devem
ser amadurecidas no meio da comunidade, sem atropelos, mas progressivamente.

Uma coisa aprendi em meus poucos anos de ministério pastoral: Se a igreja não
comprar a nossa idéia, não será por meio de decreto conciliar que conseguiremos

74
qualquer êxito. Um diálogo franco, aberto e amigável é a chave do sucesso.

b. A reafirmação do compromisso missionário

Aquelas igrejas que um dia receberam orientação missionária, se não forem


constantemente lembradas daquele compromisso, rapidamente minguarão.

E como revitalizar uma igreja que começou com tanto entusiasmo por missões e
de repente esfriou? Em primeiro lugar é preciso reconscientizar a igreja de sua
missão no mundo. Em segundo lugar é preciso conscientizá-la de que ela está no
mundo para servir o mundo integralmente.

Se a igreja chegou a se empolgar com missão algum dia, é sinal que ela tem
potencial para fazer, com a graça de Deus, o que fez antes. Sermões e estudos
bíblicos missionários, filmes específicos como As Primícias, Etal e Atrás do Sol,
além do auxílio de uma boa agência ou junta missionária, com certeza produzirão
novo alento. Geralmente a frieza por missões acontece por causa da rotina. Uma
vez que o mal foi detectado é necessário que seja combatido com atividades
variadas.

O mais importante é que a igreja seja cientificada de que sua missão no mundo é
integral. Evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns pensam,
mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por isso
mesmo, a Igreja nunca deveria deixar se levar pela prática do paternalismo e
assistencialismo paliativos, porém, deveria partir sempre para uma ação social
transformadora, do indivíduo e da sociedade, para a honra e glória de Deus Pai.

Cada igreja deve refletir sobre sua motivação em praticar evangelismo e ação
social, e todas as atividades nestas direções devem estar debaixo do serviço a
Deus em primeiro lugar (A. C. BARRO, sem data, p. 5). O ponto de partida é o
parâmetro bíblico e o contexto da igreja local.

Conclusão:

A missão integral da Igreja é basicamente evangelização e ação social. Dizemos


"basicamente" porque a missão integral da Igreja é na verdade universal. Abrange
vários aspectos. Evangelizar é a sua qualidade primordial. A Igreja que troca a
evangelização por qualquer outra responsabilidade social está fora de propósito e,
portanto, descaracterizada como igreja de Jesus Cristo. Por outro lado, que
nenhuma igreja pense ser mais espiritual porque optou pela evangelização.
Concordamos que uma igreja possa fazer uma opção temporária entre evangelizar
e assistir ao necessitado, mas nunca uma opção permanente. A verdadeira
espiritualidade do povo de Deus se expressa em sua integralidade. A mesma
igreja que proclama as boas novas do reino deve ser a mesma que estende a mão
ao necessitado.

Missão integral é uma realidade bíblica. Os mitos não fazem sentido quando são

75
resultados baratos de um reducionismo evangélico, polarização entre
evangelização e ação social, e quando se deixa de contemplar o indivíduo em sua
totalidade. Os mitos (pelo menos os que aqui estudamos) deturpam a missão
integral da Igreja.

Se queremos atentar para o ensino bíblico, então devemos almejar por uma igreja
brasileira autêntica, que não seja ela mesma um mito, mas a realidade bíblica de
uma missão integral em nossa sociedade.

Bibliografia
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Descoberta, 1998.

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São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1993.

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Série Lausanne. São Paulo/Belo Horizonte: ABU/Visão Mundial, 1989.

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realizda em Grand Rapids sob a presidência de John Stott. 2. ed. V.2. Série
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FÁBIO, Caio. Um projeto de espiritualidade integral. Niterói: Vinde, 1994.

GEISLER, Norman L. Ética cristã: Alternativas e questões contemporâneas. 2. ed.


São Paulo: Vida Nova, 1985.

GOULART, Jorge. A ação social da igreja. Teses, 1941.

GRELLERT, Manfred. Os compromissos da missão: A caminhada da Igreja no


contexto brasileiro. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Juerp/Mundo Cristão, 1987.

76
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LINTHICUM, Robert C. Revitalizando a igreja. São Paulo: Bompastor, 1996.

MASTON, T.B. A igreja e o mundo. 3. ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1987.

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de ministério integral. Curitiba/Londrina: Descoberta, 1998.

ZANDRINO, Dr. Ricardo. Curar também é tarefa da igreja. São Paulo: Nascente,
1986.

(1) Veja Manfred Grellert (1987, p. 41).

(2) Para um argumento interessante contra este reducionismo evangélico (a


polarização teológica ente evangelização e ação social) veja Manfred Grellert
(1987, pp. 41-43).

(3) Veja também MACEDO FILHO (In TESES, 1988, p. 33).

(4) Para uma compreensão importante sobre a responsabilidade da Igreja com a


natureza, veja Francis A. Schaeffer (Poluição e morte do homem) e Norman L.
Geisler (O cristão e a ecologia).

Parte XVI
A MISSÃO DA IGREJA
Uma perspectiva latino-americana
Uma das questões mais cruciais da missiologia é a definição do próprio conceito
de missão. O que se deve entender por missões cristãs? Quais são a natureza e
os objetivos da missão da igreja? Evidentemente essas perguntas podem receber
uma grande variedade de respostas a partir de diferentes pressupostos e
compromissos teológicos. Uma antiga abordagem foi o debate em torno de

77
evangelização e “civilização.”1 Hoje é mais comum falar-se em evangelismo e
responsabilidade social. Diferentes autores do século XX têm procurado expressar
a missão da igreja em termos de desenvolvimento, presença cristã, diálogo inter-
religioso, justiça e paz, diaconia e outros conceitos.

Certamente este é um assunto controvertido, mas também sumamente importante


para a igreja e para os cristãos individuais. Como pode a igreja ser o que deve ser
e fazer o que deve fazer se não tiver uma clara compreensão acerca do seu
propósito na sociedade e no mundo?

O objetivo deste estudo é abordar o tema a partir da perspectiva de Samuel


Escobar, um dos mais destacados missiólogos evangélicos contemporâneos da
América Latina. A escolha de Escobar justifica-se por várias razões. Ele tem um
profundo conhecimento da situação religiosa, social e política da América Latina,
tendo trabalhado em vários países como pastor e missionário; é um teólogo,
escritor e orador extremamente articulado e criativo; tem sido um líder respeitado
em círculos missiológicos e teológicos; tem estado em diálogo constante com
representantes de grupos e movimentos importantes do cristianismo latino-
americano e mundial; finalmente, por vários anos ele tem sido professor em
instituições teológicas norte-americanas, o que o coloca numa posição privilegiada
para falar a uma audiência mais ampla e levar ao primeiro mundo uma valiosa
perspectiva do terceiro mundo acerca de missões.

Nossa análise começa com um retrospecto histórico da discussão missiológica


protestante na América Latina. A seguir, iremos fornecer algumas informações
biográficas sobre Samuel Escobar, fazer um apanhado dos principais movimentos
de que tem participado e apresentar alguns dos principais temas e ênfases da sua
reflexão missiológica. Ao longo dos anos, Escobar tem defendido um conceito de
missão que é ao mesmo tempo bíblico, evangélico, contextual e sensível às
complexas realidades espirituais, políticas, sociais e econômicas da América
Latina. Criticando os modelos missionários reducionistas ou dicotômicos, ele
propõe um programa que implica em levar o evangelho integral ao ser humano
integral, na amplitude de suas necessidades e relacionamentos. Concluiremos o
estudo acrescentando algumas de nossas próprias convicções a respeito do tema
em questão, ou seja, a missão da igreja na sociedade.

I. ANTECEDENTES

A reflexão sistemática e abrangente sobre o trabalho missionário protestante na


América Latina foi desencadeada pela célebre Conferência Missionária Mundial,
realizada em Edimburgo em 1910.2 Todavia, esse estímulo ocorreu às avessas,
uma vez que somente foram convidadas para a conferência as sociedades
missionárias que atuavam entre povos não-cristãos.3 Isso excluiu a América
Latina do âmbito daquele encontro, sendo admitidas apenas as missões que
trabalhavam entre as tribos pagãs desse continente.

Durante a conferência, Robert E. Speer (1867-1947), o secretário executivo da

78
Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos,
convidou vários delegados interessados na América Latina a se reunirem
informalmente para discutir como essa lacuna poderia ser suprida. Como
resultado desses entendimentos, realizou-se em Nova York, em março de 1913,
uma conferência sobre missões na América Latina, sob os auspícios da
Conferência de Missões Estrangeiras da América do Norte.4 Essa conferência
criou a Comissão de Cooperação na América Latina (CCLA), tendo como
presidente o próprio Robert Speer e como secretário executivo Samuel Guy
Inman.

Por sua vez, a CCLA patrocinou o Congresso de Ação Cristã na América Latina,
reunido no Panamá em fevereiro de 1916, o maior encontro das forças
protestantes desse continente realizado até aquela data. O Congresso mostrou a
necessidade de maior cooperação em áreas como educação religiosa, missões,
literatura e formação teológica. Mais especificamente, suas metas principais foram
a evangelização das classes cultas, a unificação da educação teológica através de
seminários unidos, o desejo de dar uma dimensão social ao trabalho missionário
na América Latina e o esforço em promover a unidade protestante.5

Na realidade, o Congresso do Panamá foi uma reunião de representantes de


juntas missionárias estrangeiras, antes que um encontro de líderes protestantes
latino-americanos. Dos 230 delegados oficiais, apenas 21 eram latino-americanos
natos.6 Mesmo assim, o evento produziu a primeira discussão séria do
protestantismo latino-americano e estimulou a criação de órgãos cooperativos
regionais em vários países. Por outro lado, o Congresso do Panamá revelou duas
ênfases que se tornariam problemáticas para os evangélicos latino-americanos:
uma atitude simpática para com a Igreja Católica e uma forte influência do
“evangelho social.”

Como resultado do encontro do Panamá, nos anos seguintes realizaram-se dois


congressos missionários regionais. O primeiro, denominado Congresso de Ação
Cristã na América do Sul, reuniu-se em Montevidéu, Uruguai, em 1925. Aqui,
embora a participação de latino-americanos tenha sido maior (o pastor
presbiteriano brasileiro Erasmo Braga foi eleito presidente do congresso), os
norte-americanos ficaram a cargo da organização e presidiram todas as
comissões. Finalmente, em 1929 reuniu-se em Havana o Congresso Evangélico
Hispano-Americano, presidido pelo metodista mexicano Gonzalo Baez-Camargo.
Desta feita, o congresso foi inteiramente organizado e conduzido por latino-
americanos e as ênfases recaíram sobre a nacionalização e o auto-sustento das
igrejas evangélicas.

Uma segunda série de encontros do protestantismo latino-americano foi


representada por três Conferências Evangélicas continentais: CELA I (Buenos
Aires, 1949), CELA II (Lima, 1961) e CELA III (Buenos Aires, 1969).7 Essas
conferências estavam ligadas às denominações históricas, que rapidamente
tornavam-se minoritárias no contexto geral do protestantismo da América Latina.
O protestantismo ecumênico das CELAs recebia a influência do protestantismo

79
histórico declinante do hemisfério norte, buscava aproximar-se do catolicismo
posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e procurava responder à difícil
situação social do continente com uma teologia radical, que eventualmente
identificou-se com a célebre “teologia da libertação.”

A teologia da libertação adquiriu notoriedade no âmbito católico romano com a


segunda assembléia da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM),
reunida em Medellín, Colômbia, em 1968.8 Anos antes, em 1962, os protestantes
haviam criado a organização Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), após
uma consulta realizada em Huampaní, Peru, no ano anterior. Ela tornou-se o
centro de convergência dos teólogos protestantes da libertação, tendo como órgão
o periódico Cristianismo e Sociedade. Em 1972, as duas correntes teológicas
puseram-se em contato no I Congresso Latino-Americano de Cristãos pelo
Socialismo, realizado em Santiago do Chile.

Ao lado das Conferências Evangélicas continentais (CELAs) e do ISAL, o


protestantismo ecumênico latino-americano criou várias estruturas para-
eclesiásticas com o fim de promover os seus objetivos. Alguns organismos
importantes são ou foram os seguintes: Movimento Estudantil Cristão (MEC),
União Latino-Americana de Juventudes Evangélicas – depois, Ecumênicas
(ULAJE), Agência de Serviços Ecumênicos Latino-Americanos (ASEL), Comissão
Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (CELADEC), Coordenadoria de
Projetos Ecumênicos (COPEC) e Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).9

Uma característica desse protestantismo ecumênico era o crescente declínio do


seu ímpeto evangelizador, em contraste com a vitalidade das igrejas vinculadas a
missões independentes ou ao movimento pentecostal, que mantinham o seu vigor
evangelístico apesar das debilidades da sua teologia. Do seio desse
protestantismo majoritário surgiu o impulso para os Congressos Latino-
Americanos de Evangelização, que constituem a terceira das séries mencionadas
acima: CLADE I (Bogotá, 1969), CLADE II (Lima, 1979) e CLADE III (Quito, 1992).
O CLADE IV deverá realizar-se em setembro do ano 2000 no Equador.10

O primeiro CLADE foi organizado pela Associação Evangelística Billy Graham, sob
o impulso do Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), convocado
pela revista evangélica Christianity Today. O CLADE I permitiu que líderes
preocupados em relacionar a fé evangélica com a realidade latino-americana
compartilhassem as suas inquietações. Para Valdir Steuernagel, esse congresso
teve duas marcas distintivas:

Manifestou com clareza que, na América Latina, somos e queremos ser


evangélicos. E, como evangélicos, somos e queremos ser latino-americanos.
Naquela ocasião e naquele contexto, tornava-se urgente que, sendo evangélicos,
buscássemos uma teologia da encarnação que estabelecesse as pautas para um
diálogo com a situação de sofrimento e opressão que se vivia em toda a América
Latina.11

80
Foi no CLADE I que se articulou a criação da Fraternidade Teológica Latino-
Americana, organizada no ano seguinte em Cochabamba, Bolívia, tendo Pedro
Savage como seu primeiro secretário e Samuel Escobar como seu primeiro
presidente. Escobar assim expressou os objetivos da Fraternidade:

Desde o primeiro momento, a FTL procurou ser uma plataforma de encontro e


diálogo teológico da qual participassem pastores, missionários e pensadores
evangélicos, dentro do marco evangélico de uma lealdade comum à autoridade
bíblica e à fé evangélica como base da reflexão e de um compromisso ativo com o
cumprimento da missão cristã.12

Por sua vez, a Fraternidade Teológica Latino-Americana convocou os CLADEs


posteriores, inclusive o que irá realizar-se no ano 2000.13 A Fraternidade procurou
estar tão consciente da problemática social latino-americana quanto o grupo ISAL,
mas ao mesmo tempo preocupou-se em abordar a questão de uma perspectiva
que entendia ser mais bíblica e equilibrada. Ela é também mais representativa do
protestantismo popular da América Latina que a sua congênere ecumênica. Entre
os seus participantes mais destacados e influentes está o líder que é o enfoque
principal deste artigo — Samuel Escobar.14

II. DADOS BIOGRÁFICOS E ESCRITOS

Samuel Escobar nasceu no Peru e freqüentou uma escola missionária inglesa em


Arequipa. Em 1956, ele recebeu o seu grau de mestre em artes e educação na
Universidade de São Marcos, em Lima, após o que dedicou-se ao ensino nos
níveis primário, secundário e superior.

Em 1959 Escobar tornou-se o secretário itinerante da Fraternidade Internacional


de Estudantes Evangélicos (International Fellowship of Evangelical Students) —
representada no Brasil pela Aliança Bíblica Universitária —, visitando praticamente
todos os países da América Latina. Ele trabalhou como missionário entre
estudantes universitários na Argentina e no Brasil15 e foi diretor da Comunidade
Evangélica Kairós, em Buenos Aires. Alguns anos depois, ele fez o curso de
doutorado em filosofia (Ph.D.) na Universidade Complutense de Madri e
eventualmente trabalhou como secretário da Fraternidade Cristã Universitária
(Inter-Varsity Christian Fellowship) do Canadá, com sede em Toronto.16

Escobar foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Fraternidade Teológica


Latino-Americana (1970-1984) e de 1979 a 1985 ocupou o cargo de secretário
geral da Fraternidade Internacional de Estudantes Evangélicos. Nas décadas de
1960 e 1970, ele e outros teólogos latino-americanos tornaram-se bem conhecidos
em círculos evangélicos e ecumênicos internacionais através de sua participação
em importantes conferências. Além disso, há muitos anos ele é membro da
Comissão Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial (World Evangelical
Fellowship), tendo participado de muitas de suas consultas ao redor do mundo.17
Atualmente, Samuel Escobar é presidente das Sociedades Bíblicas Unidas e
professor titular de missiologia no Seminário Teológico Batista do Leste, em

81
Filadélfia, Estados Unidos.18 Ele também leciona sobre missões em seu país
natal, o Peru.

Samuel Escobar é autor de vários livros sobre teologia e missiologia: Diálogo entre
Cristo y Marx (1967), Quien es Cristo Hoy? (1970, com C. René Padilla),
Decadencia da la Religión (1972), Christian Mission and Social Justice (1978, com
John Driver), Irrupción Juvenil (1978), La Fe Evangelica y las Teologías de la
Liberación (1987), Evangelio y Realidad Social (1988), Liberation Themes in
Reformational Perspective (1989), Paulo Freire: Una Pedagogia Latinoamericana
(1993), entre outros. Um dos seus livros mais recentes é Desafios da Igreja na
América Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões, publicado em 1998
pela Editora Ultimato.

Escobar também escreveu diversos ensaios que foram publicados como capítulos
de livros. Alguns títulos representativos podem dar-nos uma idéia de seus temas
prediletos: “Social Concern and World Evangelism,” em Christ the Liberator (1971);
“The Social Impact of the Gospel,” em Is Revolution Change? (1972); “Evangelism
and Man´s Search for Freedom, Justice and Fulfillment,” em Let the Earth Hear His
Voice (1974); “The Role of Translation in Developing Indigenous Theologies: A
Latin American View,” em Bible Translation and the Spread of the Church (1990);
“Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Christian Mission (1993);
“A Pauline Paradigm of Mission: A Latin American Reading,” em The Good News
of the Kingdom (1993); “La Presencia Protestante en America Latina: Conflicto de
Interpretaciones,” em Historia y Misión: Revisión de Perspectivas (1994); “The
Church in Latin America after Five Hundred Years” e “Conflict of Interpretations of
Popular Protestantism,” em New Face of the Church in Latin America: Between
Tradition and Change (1994); “The Search for a Missiological Christology in Latin
America,” em Emerging Voices in Global Christian Theology (1994); “The Training
of Missiologists for a Latin American Context,” em Missiological Education for the
Twenty-First Century (1996); “Religion and Social Change at the Grass Roots in
Latin America,”19 em The Role of NGOs: Charity and Empowerment (1997).

Finalmente, seus numerosos artigos têm aparecido em renomados periódicos


como Evangelical Missions Quarterly, Evangelical Review of Theology,
International Bulletin of Missionary Research, Transformation, Missiology e
International Review of Mission, entre outros. Uma vez mais, os próprios títulos de
alguns artigos representativos dão uma clara idéia dos principais temas com os
quais Escobar tem trabalhado ao longo dos anos: “The Social Responsibility of the
Church in Latin America” (EMQ, 1970), “Beyond Liberation Theology: Evangelical
Missiology in Latin America” (IBMR, 1982), “Transformation in Ayacucho: From
Violence to Peace and Hope” (Transformation, 1986), “Missions and Renewal in
Latin American Catholicism” (Missiology, 1987), “Recruitment of Students for
Mission” (Missiology, 1987), “Has McGavran´s Missiology Been Devoured by a
Lion?” (Missiology, 1989), “From Lausanne 1974 to Manilla 1989: The Pilgrimage
of Urban Mission” (Urban Mission, 1990), “A Movement Divided: Three
Approaches to World Evangelization Stand in Tension with One Another”
(Transformation, 1991), “Evangelical Theology in Latin America: The Development

82
of a Missiological Christology” (Missiology, 1991), “Mission in Latin America: An
Evangelical Pespective” (Missiology, 1992), “The Elements of Style in Crafting New
International Mission Leaders” (EMQ, 1992), “500 Years after Columbus: Requiem
or Te Deum?” (EMQ, 1992), “The Legacy of John Alexander Mackay” (IBMR,
1992), “The Whole Gospel for the Whole World from Latin America”
(Transformation, 1993), “Missions´ New World Order: The Twenty-First Century
Calls for us to Give up our Nineteenth-Century Models for Worldwide Ministry”
(Christianity Today, 1994), “Beyond Liberation Theology: A Review Article”
(Themelios, 1994), “A Missiological Approach to Latin American Protestantism”
(IRM, 1998).20

As influências recebidas por Escobar, especialmente através dos movimentos de


que participou a partir da década de 1960, ajudam a entender as preocupações
reveladas pelos títulos dos seus escritos.

III. REFLEXÃO TEOLÓGICA E ENVOLVIMENTOS

Samuel Escobar identifica-se como um evangélico.21 Isto significa, por um lado,


que ele não tem nenhuma conexão particular com as correntes da teologia da
libertação que foram e ainda são uma expressão importante da teologia latino-
americana, tanto católica quanto protestante. Por outro lado, ele está longe de
partilhar das idéias e compromissos do fundamentalismo, sendo bastante crítico
da sua teologia/ideologia.

Sua identidade latino-americana também é essencial para a reflexão e os


envolvimentos teológicos de Escobar. Tendo vivido em um período de grande
turbulência na história latino-americana, marcado por injustiça e opressão
generalizada, violência política, golpes militares, regimes ditatoriais e caos sócio-
econômico, Escobar e alguns colegas sentiram que não era suficiente pregar um
evangelho puramente espiritual. Para ele, o evangelho tem relevância para a
totalidade da vida. A igreja deve proclamar Jesus Cristo como Salvador e Senhor
porque os seres humanos carecem tanto de reconciliação com Deus quanto de
dignidade e integridade em sua vida neste mundo, como indivíduos e como
membros da sociedade. O evangelho tem implicações sociais e políticas
revolucionárias que não podem ser omitidas.

Conseqüentemente, Escobar tem um profundo interesse em missões. Como


pastor, líder de movimentos estudantis, professor e teólogo, ele sempre
interessou-se pela missão da igreja, especialmente em um contexto de pobreza e
sofrimento. Para ele, a mensagem bíblica em geral, e os ensinos e o ministério de
Jesus em particular, mostram o interesse de Deus por todas as necessidades
humanas, e a igreja deve partilhar desse interesse de Deus. Escobar considera
sua tarefa articular essa missiologia holística e inspirar outras pessoas —
estudantes, pastores, leigos e líderes cristãos — a compartilhar essa visão.

Em seu livro Mission Theology, Rodger C. Bassham descreve o desenvolvimento


das teologias de missão ecumênica, evangélica conservadora e católica,

83
especialmente entre 1948 e 1975. Ele observa que, em meados da década de 60,
os evangélicos começaram a constituir uma comunidade verdadeiramente global
com uma visão abrangente de missões, em particular depois de 1966, o ano em
que eles patrocinaram duas grandes conferências mundiais sobre missões e
evangelização.22

Os congressos de Wheaton e Berlim marcaram um novo estágio na emergência


de uma identidade evangélica, à medida que evangélicos de todo o mundo
começaram a empreender juntos uma análise da situação enfrentada por aqueles
que estavam envolvidos com missões e evangelismo em todos os continentes.
Nesse contexto, Bassham identifica vários desdobramentos importantes: os
primórdios de uma teologia evangélica de missão altamente representativa (a
Declaração de Wheaton), a luta em torno da relação entre evangelização e ação
social, o forte impacto do conceito de “crescimento da igreja” sobre a teologia
evangélica de missões, e o crescente número de vozes evangélicas provenientes
de fora da América do Norte.

O Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966) – a primeira grande


reunião mundial de evangélicos no século XX – também estimulou congressos
regionais de evangelização em vários continentes. Estes por sua vez contribuíram
para o Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974), que
evocou manifestações de opinião de toda a comunidade evangélica, à medida que
os participantes se debatiam com as questões da teologia de missão no mundo
contemporâneo. Para Bassham, o Pacto de Lausanne demonstra que “os
evangélicos desenvolveram uma teologia de missão amadurecida, positiva e
consistente.”23

Em todos esses acontecimentos importantes houve uma decidida participação de


teólogos latino-americanos, Samuel Escobar estando entre eles. Escobar foi
ouvido pela primeira vez por grandes audiências internacionais nas convenções
da Fraternidade Cristã Universitária realizadas em Urbana, Estados Unidos, nos
anos 60. Ele e outros oradores da América Latina desafiaram os evangélicos
norte-americanos a reconhecer a necessidade de promover justiça social e
reformas políticas como parte dos seus deveres como cristãos.24 Na convenção
de 1970, Escobar falaria apaixonadamente sobre a necessidade de se estabelecer
uma relação entre as preocupações sociais e a evangelização mundial.

No Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), Escobar estava entre os


muitos líderes do terceiro mundo que falaram enfaticamente em prol das igrejas
nativas. Ele exortou os missionários a superar a mentalidade paternalista,
imperialista e colonialista, a fim de permitir o surgimento de igrejas nativas
alicerçadas na fé, dotadas de uma liderança nacional bem-treinada, e capazes de
atuar eficazmente em seu contexto local.25

No entanto, o principal forum internacional em que se ouviu a voz de Escobar foi o


Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974). Bassham
observa que “as apresentações e discussões de Lausanne mostraram um espírito

84
de abertura, diversidade de perspectivas e profundidade de análise jamais
alcançado anteriormente em uma assembléia evangélica.”26 Uma das grandes
influências nas deliberações do congresso veio através das contribuições de
oradores do terceiro mundo. O impacto de líderes como Samuel Escobar e C.
René Padilla, através do grupo de Discipulado Radical, foi de especial
importância.

Enquanto que a orientação teológica de Lausanne permaneceu firmemente


evangélica, acentuando a autoridade da Bíblia, a singularidade de Cristo e a
necessidade da evangelização, ela também produziu algumas mudanças bem-
definidas na teologia evangélica de missões. O Pacto de Lausanne foi muito além
das declarações evangélicas tradicionais, demonstrando que o evangelismo
bíblico é inseparável da responsabilidade social, do discipulado cristão e da
renovação da igreja. Lausanne abordou o tema abrangente da evangelização
mundial, referindo-se com isso ao ministério e à missão total da igreja.

Em seu capítulo sobre a “Responsabilidade Social Cristã,” o Pacto de Lausanne


declara:

Afirmamos que Deus é tanto o Criador como o Juiz de todos os homens. Portanto,
devemos partilhar da sua preocupação com a justiça e a reconciliação em toda a
sociedade humana e com a libertação dos homens de todo tipo de opressão.
Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, não importa qual
seja a sua raça, religião, cor, cultura, classe, sexo ou idade, tem uma dignidade
intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada.
Também aqui manifestamos o nosso arrependimento, tanto pela nossa
negligência quanto por às vezes termos considerado a evangelização e a
preocupação social como mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o
ser humano não seja o mesmo que a reconciliação com Deus, nem a ação social
seja evangelismo, nem a libertação política seja salvação, todavia afirmamos que
tanto a evangelização como o envolvimento socio-político são parte do nosso
dever cristão.27

Muitas vezes durante o congresso os participantes afirmaram ter um interesse


profundo e permanente pela ação social em favor dos pobres e necessitados, até
mesmo ao ponto de se esforçarem pela mudança das estruturas sociais. Oradores
latino-americanos como René Padilla, Orlando Costas e Samuel Escobar
proferiram as declarações mais fortes no sentido de que a preocupação com as
necessidades sociais da humanidade e o envolvimento com as mesmas é uma
parte necessária do testemunho e da responsabilidade dos cristãos em favor do
mundo. Bassham cita as seguintes afirmações de Escobar:

Uma espiritualidade sem discipulado nos aspectos diários da vida — sociais,


econômicos e políticos —, é religiosidade e não cristianismo... De uma vez por
todas, devemos rejeitar a falsa noção de que a preocupação com as implicações
sociais do evangelho e as dimensões sociais do testemunho cristão resultam de
uma falsa doutrina ou de uma ausência de convicção evangélica. Ao contrário, é o

85
interesse pela integridade do Evangelho que nos motiva a acentuarmos a sua
dimensão social.28

No âmbito continental, Samuel Escobar teve uma importante participação no


Primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I, Bogotá, 1969),
planejado em resposta a pedidos de delegados latino-americanos presentes no
Congresso de Berlim, três anos antes.29 Dentre os 28 discursos principais, a sua
apresentação sobre a responsabilidade social da igreja recebeu a atenção mais
entusiástica. Ele argumentou eloqüentemente que tanto a evangelização quanto a
ação social são necessárias para o testemunho cristão.30 Escobar afirmou a certa
altura:

Existe base suficiente na história da Igreja e nos ensinamentos da Palavra de


Deus para afirmar categoricamente que a preocupação pelo aspecto social do
testemunho evangélico no mundo não é um abandono das verdades fundamentais
do Evangelho; pelo contrário, é levar às suas últimas conseqüências os ensinos a
respeito de Deus, de Jesus Cristo, do homem e do mundo, que formam a base
desse Evangelho... Sustentamos que uma evangelização que não toma
conhecimento dos problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania
de Cristo dentro do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização
defeituosa, que trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto por Cristo,
que envia o evangelista.31

Essa ênfase achou lugar na Declaração Evangélica de Bogotá, que afirmou: “É


chegada a hora de nós, evangélicos, levarmos a sério a nossa responsabilidade
social.” Os participantes afirmaram que “o exemplo de Cristo devia ser encarnado
na crítica situação latino-americana de subdesenvolvimento, injustiça, fome,
violência e desespero,”32 se os cristãos quisessem testemunhar fielmente em seu
contexto sócio-cultural.

Orlando Costas comenta que 1969 foi para os protestantes o que 1968 havia sido
para os católicos (II Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medellín,
Colômbia). Naquele ano, além do CLADE I, os protestantes latino-americanos
realizaram ainda outra grande conferência – a Conferência Evangélica Latino-
Americana (CELA III), em Buenos Aires. Apesar das diferenças existentes entre os
dois movimentos, Costa vê nos documentos de ambos os eventos a emergência
de novas tendências missiológicas caracterizadas por um tríplice interesse: a
busca de um entendimento histórico de missões, de uma expressão mais
autêntica de unidade cristã no empreendimento missionário e de uma reflexão
missiológica mais séria e profunda. Em sua opinião, essa terceira busca tem
assumido várias formas, uma das quais é o modelo ético-missiológico — missão
da perspectiva de questões éticas — articulado por, entre outros, Samuel Escobar
e C. René Padilla.33

O próprio Escobar acha que o seu modelo pode ser melhor descrito como
“holístico.”34 Ele argumenta que os evangélicos latino-americanos escolheram o
Pacto de Lausanne como uma expressão do seu consenso doutrinário básico e do

86
seu claro compromisso com um modelo de missão integral e bíblico.35

Em um capítulo sobre a América Latina que escreveu para o livro Toward the
Twenty-First Century in Christian Mission (1993), Escobar menciona duas outras
conferências missionárias latino-americanas, ambas realizadas no Brasil. Uma
delas foi o Primeiro Congresso Missionário Latino-Americano (Curitiba, 1976), cujo
pacto manteve a ênfase de Lausanne sobre a preocupação social como parte da
missão da igreja: “Assim como no passado o chamado de Jesus Cristo e da sua
missão foi um chamado para cruzar fronteiras geográficas, hoje o Senhor está nos
chamando para cruzarmos as fronteiras da desigualdade, injustiça e idolatria
ideológica.”36

Todavia, ele lamenta o fato de que o Congresso Missionário Ibero-Americano


(COMIBAM, São Paulo, 1987) deixou de abordar conceitos básicos do
entendimento de missões, inclusive a clamorosa realidade de pobreza que
circundava o próprio local em que se reuniram os delegados.37

Por essa razão, Escobar é um crítico rigoroso do movimento do Crescimento da


Igreja, iniciado por Donald McGavran em 1960. Ele preocupa-se com a
“missiologia gerencial” que dá ênfase à proclamação verbal e ao crescimento
numérico de adesões à igreja como o principal componente das missões cristãs.
Reagindo contra o triunfalismo fácil das estatísticas e a tirania do controle de
dados, Escobar acredita que o êxito do avanço protestante na América Latina
deve ser interpretado fazendo-se perguntas sérias sobre o seu dinamismo
transformador e a sua contribuição para a justiça nas relações sociais.38

Ele acha que a base desse questionamento tem sido o compromisso claro com a
tarefa de missões e evangelização, mas também o esforço consciente de executar
essa tarefa segundo moldes bíblicos. Assim sendo, testemunha-se o surgimento
de uma nova teologia contextual que conclama à “integridade” da missão e
procura associar o zelo evangelístico com a paixão holística.39

Em resposta a um artigo de McGavran, Escobar afirma que, como evangélico, ele


concorda integralmente com dois pontos do apelo de McGavran: primeiro, a igreja
nunca deve perder o seu senso de missão e do seu chamado para proclamar a
Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Segundo, porque Jesus Cristo é Senhor,
somente em seu nome há salvação para a humanidade, e essa singularidade de
Jesus Cristo é essencial para a mensagem da igreja.40 O que Escobar questiona
é se uma pessoa pode realmente evangelizar anunciando a Cristo como Salvador
e então deixar a questão do senhorio de Cristo sobre toda a criação para uma
segunda etapa, que poderá nunca chegar.

Ele observa que os grandes missionários dos primeiros 1800 anos da igreja
dificilmente fariam a distinção entre “espiritual” (evangelização) e “o resto,” que
McGavran faz. Eles não procurariam estabelecer prioridades nesses termos, pois
operavam com uma noção bíblica holística do ser humano. O que o movimento do
Crescimento da Igreja necessita é o corretivo de uma sólida teologia bíblica.

87
Escobar argumenta que o grande dilema para o qual a missiologia deve estar
alerta é diferente: A obra missionária será realizada segundo o modelo de Jesus e
a prática apostólica, ou irá adotar as técnicas e padrões da sociologia
funcionalista, do marketing e das relações públicas?41

Compreensivelmente, Escobar vê com apreciação o dinamismo e o crescimento


do protestantismo popular (pentecostalismo) na América Latina. Como evangélico,
ele aborda esse movimento na qualidade de “um observador-participante, alguém
que tem procurado ser um crítico e intérprete amoroso – um crítico severo em
alguns pontos – do lado de dentro.”42 Ele destaca várias lições missiológicas que
podem ser extraídas do impressionante crescimento do pentecostalismo latino-
americano: é um movimento religioso (e não social ou político), é um movimento
popular, mobiliza as pessoas para a missão e cria um senso de comunidade.
Escobar declara que

"para as massas em transição, essas igrejas estão oferecendo não somente um


abrigo ou refúgio no sentido mais limitado, mas a única maneira disponível de
encontrar aceitação social, alcançar dignidade humana e sobreviver ao impacto
das forças anômicas que atuam nas grandes cidades."43

Ele observa que alguns pentecostais latino-americanos também escolheram o


Pacto de Lausanne como expressão do seu compromisso com um modelo de
missão holístico e bíblico.

Se, por um lado, Escobar diverge da escola do Crescimento da Igreja, por outro
lado ele não sente entusiasmo pela Teologia da Libertação. Ele observa como, no
início das missões protestantes na América Latina, o evangelho era a verdadeira
força libertadora nas vidas dos latino-americanos, e a religião oficial uma força
opressora.44 Em décadas recentes, à medida que a Igreja Católica Romana
latino-americana buscou nova relevância social e política, a Teologia da
Libertação foi uma das conseqüências desse processo.

Escobar entende que a Teologia da Libertação é uma voz eloqüente que procura
reinterpretar a história cristã e a mensagem cristã. A missiologia evangélica deve
avaliá-la.45 A Teologia da Libertação confronta a missiologia evangélica com dois
desafios, um na área da consciência histórica e o outro na da hermenêutica. Com
relação ao primeiro, embora Escobar considere inadequadas a análise marxista e
a “escatologia” da Teologia da Libertação, ele admite que a missiologia evangélica
está aprendendo a encarar a história missionária com uma atitude menos ingênua
e mais madura. Ele admite: “Nós não mais podemos aceitar uma missiologia que
recusa-se a levar a sério as realidades políticas e sociais.”46

Na área da hermenêutica, Escobar reafirma a ênfase evangélica na centralidade


da Escritura e questiona a abordagem fortemente ideológica da interpretação
bíblica demonstrada pelos teólogos da libertação. Ele admite que a hermenêutica
evangélica necessitar ser constantemente purificada de pressuposições
ideológicas, e apela a uma genuína cristologia missiológica que, nas palavras de

88
René Padilla, enfatize “o discipulado cristão como algo que implica em colocar a
totalidade da vida debaixo do senhorio de Jesus Cristo.”47 Contra o Cristo
“docético” do catolicismo latino-americano tradicional, Escobar e os seus colegas
da Fraternidade Teológica Latino-Americana têm refletido sobre o Jesus dos
evangelhos, sobre como a sua obra e ensino são relevantes para todas as áreas
da vida, tanto individual quanto social. Essa reflexão inclui uma crítica do
cristianismo evangélico na América Latina. Escobar cita novamente seu amigo
René Padilla: “(O evangelicalismo) afirma o poder transformador de Cristo em
relação ao indivíduo, mas é totalmente incapaz de relacionar o Evangelho com a
ética social e a vida social.”48

Essa missiologia cristológica busca um novo modelo para inspirar e moldar a ação
missionária. O material bíblico é abordado a partir de várias perspectivas
possuidoras de significado missiológico. Há uma séria reflexão acerca daquilo que
os evangelhos dizem sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré. Há também
uma preocupação quanto às marcas da missão de Jesus, com o entendimento de
que ser seu discípulo é ser chamado por ele tanto para conhecê-lo quanto para
participar da sua missão. Além disso, há uma busca do significado e da
“integridade” do evangelho — Jesus Cristo é tanto o conteúdo quanto o modelo e
o alvo da proclamação do evangelho.

Escobar identifica essa reflexão missiológica que está vindo não só da América
Latina, mas também da África e da Ásia, como uma missiologia crítica da periferia.
Ele observa que tal missiologia “é caracterizada por uma forte ênfase
hermenêutica que insiste na importância de ler o mundo e ler a Palavra, mesmo
que essa leitura signifique um exame incômodo e sério da herança evangélica.”49

Ele argumenta que seria grandemente desejável para a globalização das missões
e da teologia evangélica se as diferentes correntes missiológicas do
evangelicalismo (européias, crescimento da igreja, terceiro mundo) pudessem
convergir em um movimento mais articulado e cooperativo para enfrentar a tarefa
missionária do terceiro milênio.

Em um artigo sobre a preparação de líderes de missões, Escobar observa que a


internacionalização das missões cristãs implica em reconhecer que Deus tem
levantado igrejas grandes e florescentes no terceiro mundo. Nessas igrejas do
hemisfério sul, as igrejas dos pobres, Deus está despertando uma nova força
missionária. Escobar gostaria de ouvir as igrejas norte-americanas dizerem:
“Vamos descobrir o que Deus está fazendo em outras partes do mundo,
especialmente nas fronteiras de missão, e como ele o está fazendo, e vamos unir-
nos aos nossos irmãos e irmãs a fim de completarmos a tarefa inacabada.”50

Em sua obra publicada recentemente em português, mencionada no início deste


trabalho, Escobar aborda em cinco ensaios algumas de suas preocupações mais
fundamentais. Inicialmente, ele destaca a importância do treinamento de
missionários e missiólogos para o contexto latino-americano. Nesse sentido, ele
argumenta que “nosso programa de treinamento na América Latina precisa ser

89
elaborado com base em convicções bíblicas, experiência de vida, consciência
histórica e preocupação pastoral.”51 Mais uma vez ele expressa o seu entusiasmo
pelo protestantismo popular (pentecostalismo) devido a sua ênfase na mobilização
dos leigos, suas formas contextualizadas de culto e ação missionária e o destaque
dado ao ministério do Espírito Santo e ao elemento de conflito espiritual
relacionado com a missão da igreja.

Após salientar o “fator novo” na história do cristianismo que é a transferência do


dinamismo missionário para o hemisfério sul (África, Ásia e América Latina), ele
aponta que os evangélicos latino-americanos têm maior afinidade com os
pietistas, morávios e avivalistas dos séculos XVIII e XIX do que com os
reformadores do século XVI. Isso tem levado Escobar, em anos recentes, a dar
uma grande ênfase ao papel do Espírito Santo nas missões cristãs, ao lado da sua
anterior ênfase cristocêntrica. Ele entende que “os evangélicos latino-americanos
necessitam de um impulso renovado do Espírito Santo e de uma leitura nova e
contextual da Palavra de Deus.”52

Ao mesmo tempo que expressa sua admiração pelas igrejas populares, Escobar
reconhece que, com sua ênfase na conversão de indivíduos ao evangelho, elas
enfrentam os riscos do excesso de individualismo, espírito de competição, falta de
uma eclesiologia clara e atitudes sectárias. Para superar esses problemas ele
novamente propõe o modelo de missão integral, que vai além da experiência
religiosa pessoal para incluir a comunidade e o mundo.53

Finalmente, Escobar alerta os cristãos evangélicos para a necessidade de um


constante processo de encarnação e contextualização que rejeita toda e qualquer
forma de paternalismo e discriminação, a partir da sua própria comunidade local.
Ele encarece a necessidade de uma espiritualidade profunda aliada a uma
preocupação igualmente intensa com as exigências éticas do evangelho, e conclui
com uma análise do modelo missionário de Paulo, com sua notável interação
entre reflexão e ação missionária.

REFLEXÕES FINAIS

Samuel Escobar não se identifica como um reformado ou calvinista. Sua biografia


e envolvimentos revelam uma conexão preponderante com a tradição anabatista,
uma vez que está filiado à Igreja Menonita. Não obstante, algumas de suas suas
ênfases certamente contariam com o aval de João Calvino e de muitos dos seus
seguidores. Nos escritos do grande reformador, seja em seus comentários, cartas,
sermões ou nas Institutas, vemos uma preocupação constante com as implicações
sociais e comunitárias do Evangelho, fato que tem sido amplamente documentado
por diversos pesquisadores.54 Historicamente, os reformados têm acentuado um
conceito abrangente acerca da missão da igreja, muito embora as suas práticas
nem sempre tenham correspondido às suas convicções.

Não precisamos concordar com tudo o que Samuel Escobar tem escrito. Na
realidade, alguns pontos da sua missiologia merecem reparos, como a sua ênfase

90
quase que exclusiva sobre as massas empobrecidas da América Latina como
objeto da ação missionária da igreja. Ainda que isso não deixe de ser importante,
o nosso continente testemunha o crescimento cada mais acentuado de uma
classe média significativa que também deve ser alvo do interesse da igreja. Ao
lado disso, Escobar tende a superestimar os valores positivos das igrejas
populares, dando pouca atenção a alguns sérios problemas apresentados pelas
mesmas, notadamente nas áreas doutrinária e ética, como é caso de alguns
recentes movimentos neopentecostais.

Não obstante, Escobar e seus colegas têm algo importante a dizer às igrejas
evangélicas históricas da América Latina e do Brasil, que realmente correm o risco
de tornar-se irrelevantes na sociedade caso não despertem para algumas
dolorosas realidades que existem ao seu redor. Tal ocorrência seria um retrocesso
histórico lastimável, pois que a igreja cristã em geral e as igrejas evangélicas de
modo particular têm uma longa e honrosa tradição de “missão integral” ao mundo.
Basta lembrarmos o intenso esforço de missões e de reforma social gerado pelos
grandes despertamentos dos séculos XVIII e XIX, na Europa e nos Estados
Unidos.

Ao mesmo tempo que enviavam pregadores do evangelho para todos os


quadrantes do mundo, as igrejas e cristãos individuais estavam na vanguarda de
movimentos em prol da extinção do tráfico negreiro, da abolição da escravatura,
da reforma das prisões, da luta contra o trabalho infantil, do combate ao
alcoolismo e de tantas outras causas nobres. Infelizmente, no início deste século,
as disputas teológicas tão bem exemplificadas pela controvérsia modernista-
fundamentalista nos Estados Unidos, produziram a concepção dicotômica da
missão da igreja que hoje observamos. Os conservadores em grande parte
aferraram-se à idéia de que a missão exclusiva da igreja é a evangelização, tendo
como alvo a conversão individual, ao passo que os liberais, poucos afeitos à
pregação do evangelho, optaram decididamente por atividades de cunho social.

Num período conturbado da história recente da América Latina, quando nosso


continente foi sacudido por profundas convulsões políticas, ideológicas e sociais,
muitos cristãos aderiram à agenda revolucionária da Teologia da Libertação.
Samuel Escobar e seus companheiros da Fraternidade Teológica Latino-
Americana fizeram um esforço sério no sentido de apresentar uma alternativa a
essa teologia que fosse bíblica, evangélica e igualmente radical em suas
implicações. Eles demonstraram que as igrejas podem permanecer fiéis às suas
convicções históricas e ao mesmo tempo adotar uma postura ousada e coerente
em relação aos problemas sociais.

Como cristãos brasileiros preocupados tanto com a missão da igreja quanto com
as difíceis realidades sócio-econômicas de nosso país, devemos levar a sério os
desafios desses líderes, que falam com convicção, coerência e clareza sobre a
necessidade de um entendimento abrangente da tarefa da igreja no mundo, como
agente e instrumento de Deus. Como Escobar destaca, a atitude e as ações de
Deus em relação ao mundo, especialmente como reveladas no seu Filho, Jesus

91
Cristo, são o nosso grande paradigma de missão. A Bíblia fala de um Deus que
toma a iniciativa, que busca a humanidade com amor e compaixão, que quer dar
vida e dignidade à sua criação. Isso foi ilustrado de maneira extraordinária por
Jesus, quando, em seu ministério terreno, manifestou o interesse de Deus por
todos os tipos de pessoas e pela pessoa integral.

O Cristo do Novo Testamento interessa-se por todas as necessidades humanas —


espirituais, físicas e emocionais; a sua mensagem e ações desafiam todas as
áreas da vida particular e coletiva. Tudo deve ser colocado debaixo do propósito e
do senhorio de Deus. O reino de Deus e seus novos valores devem ser manifestos
em todos os tipos de relacionamentos humanos. Por causa do seu forte senso de
missão, Jesus lutou e morreu na cruz. Ele instruiu os seus seguidores a
continuarem a sua obra de proclamação do reino (Jo 20.21s).

Evidentemente, esses sublimes ideais nem sempre encontram plena expressão


nas vidas diárias dos cristãos e das igrejas. Inevitavelmente é levantada a questão
das prioridades: uma vez que não podemos fazer tudo que Deus espera que
façamos, vamos concentrar os nossos esforços no que é primordial – a
evangelização – e as outras preocupações cuidarão de si mesmas.

Desde uma perspectiva evangélica, a evangelização – convidar os indivíduos, as


famílias e as comunidades à reconciliação e nova vida em Jesus Cristo –
certamente é básica e essencial. Todavia, a preocupação com prioridades,
praticidade ou, muitas vezes, estatísticas e resultados rápidos não deve cegar a
igreja para a integridade da missão, o propósito total de Deus para a humanidade
e para a comunidade redimida. À medida que a igreja evangeliza, ela também
precisa expressar o interesse de Deus por toda a vida e espelhar a atitude
daquele que disse: “Eu vinham para que tenham vida, e a tenham em
abundância.”

A igreja não deve ser reduzida a uma organização social ou a um grupo de


pressão política como tantos que existem na sociedade. Ela é uma instituição
singular, com uma contribuição e uma mensagem singular. Essa mensagem, se
vivida até as suas últimas conseqüências, necessariamente fará com que a igreja
enfrente as diferentes situações que afetam a vida humana neste mundo caído. É
para essas implicações mais amplas do evangelho e da missão da igreja que
cristãos comprometidos e inquiridores como Samuel Escobar chamam a nossa
atenção.

Obs.: O presente estudo é uma versão ampliada do artigo “Samuel Escobar e a


Missão Integral da Igreja: Uma Perspectiva Latino-Americana,” publicado em Vox
Scripturae 8/1 (Julho 1998): 95-111.

Ver, a esse respeito, o importante livro de William R. Hutchison, Errand to the


World: American Protestant Thought and Foreign Missions (Chicago: The
University of Chicago Press, 1987).
A Conferência de Edimburgo é considerada o berço do moderno movimento

92
ecumênico. Seus líderes, como Joseph H. Oldham, John R. Mott e Robert E.
Speer, eram provenientes do movimento cristão de estudantes. Ver Kenneth S.
Latourette, “Ecumenical Bearings of the Missionary Movement and the
International Missionary Council,” em A History of the Ecumenical Movement:
1517-1948, eds. Ruth Rouse e Stephen C. Neill, 3ª ed., 353-402 (Genebra: World
Council of Churches, 1986).
Daí o subtítulo utilizado: “Para considerar os problemas missionários relativos ao
mundo não-cristão.”
William R. Hogg, Ecumenical Foundations: A History of the International
Missionary Council and its Nineteenth-Century Background (Nova York: Harper
and Brothers, 1952), 131-32.
John Kessler e Wilton M. Nelson, “Panamá 1916 y su Impacto sobre el
Protestantismo Latinoamericano,” Pastoralia 1/2, ed. especial (Novembro 1978): 5-
21.
Entre os latino-americanos presentes no congresso estavam apenas três
brasileiros, os presbiterianos Eduardo Carlos Pereira, Álvaro Reis e Erasmo
Braga. Erasmo eventualmente tornou-se o secretário da Comissão Brasileira de
Cooperação, entidade que promoveu o maior esforço cooperativo até hoje
empreendido pelas igrejas evangélicas brasileiras e foi precursora da
Confederação Evangélica do Brasil.
O historiador Sidney Rooy identifica uma seqüência de três séries ou ciclos de
encontros do protestantismo latino-americano. Ver Samuel Escobar, “Los
‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” Iglesia y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 20.
Um dos primeiros e mais importantes articuladores dessa teologia foi o sacerdote
peruano Gustavo Gutiérrez, autor de Uma Teologia da Libertação (1971). Outros
nomes importantes no campo católico são Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, José
Porfirio Miranda, Hugo Assmann, Henrique Dussel e Leonardo Boff; no campo
protestante destacaram-se José Miguez Bonino e Rubem Alves, entre outros.
Entre os evangélicos conservadores, o órgão cooperativo correspondente ao CLAI
é a Confraternidade de Evangélicos da América Latina (CONELA).
Os próprios locais dessas conferências e congressos são reveladores. Das três
CELAs, duas realizaram-se na cosmopolita e culta Buenos Aires, enquanto que
todos os CLADEs ocorreram nos países andinos, com seus enormes problemas
sociais e suas dinâmicas igrejas populares.
Citado por Tito Paredes em “Visión Histórica de los ‘CLADEs’,” Iglesia y Misión
67/68 (Jan-Jul 1999), 13.
Escobar, “Los ‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” 22.
Os critérios de seleção procuram ser os mais abrangentes possíveis em termos de
faixas etárias dos participantes, sexo, identidade étnica e filiação eclesiástica.
Neste último aspecto, metade das inscrições é reservada para participantes
pentecostais. Iglesia y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 35.
Outros membros bem conhecidos da Fraternidade Teológica são C. René Padilla,
Rolando Gutiérrez, Tito Paredes, Emílio A. Núnez e o brasileiro Valdir
Steuernagel.
Sobre a sua relação com o Brasil, o próprio Escobar afirma em uma obra recente:
“Desde a minha primeira visita ao Brasil, em 1953, como jovem delegado peruano
a um congresso mundial da juventude batista, apaixonei-me por esse imenso país.

93
Em 1959 e 1960 percorri como evangelista e discipulador um bom número de
centros universitários. Cheguei de avião, um velho Catalina da Panair, de Iquitos,
na selva peruana, até Manaus. Dali percorri o Norte e o Nordeste, até chegar a
São Paulo, onde, entre 1962 e 1964, trabalhei como missionário na frente
estudantil, nos primeiros anos da Aliança Bíblica Universitária.” Samuel Escobar,
Desafios da Igreja na América Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões
(Viçosa, MG: Editora Ultimato, 1997), 11.
Por força de suas ocupações, Escobar também foi responsável por vários
periódicos. Por exemplo, ele foi editor de Certeza, uma revista para estudantes
universitários, e diretor de Pensamiento Cristiano, um órgão de exposição do
pensamento evangélico, publicado na Argentina.
Por exemplo, em 1982 Escobar participou da Consulta de Teólogos do Terceiro
Mundo, realizada em Seul, na Coréia do Sul. A revista Evangelical Review of
Theology, órgão oficial da referida Comissão Teológica, publicou os trabalhos
apresentados nessa consulta, um deles escrito por Escobar e três colegas latino-
americanos. Ver Samuel Escobar, Pedro Arana, Valdir Steuernagel e Rodrigo
Zapata, “A Latin American Critique of Latin American Theology,” Evangelical
Review of Theology 7, nº 1 (abril 1983): 48-62. Mais recentemente, em março de
1998, Escobar participou de uma conferência sobre economia e missões
promovida pelo Concílio de Ministérios Internacionais das igrejas menonitas norte-
americanas. Segundo o Mennonite Brethren Herald, “o missiologista Samuel
Escobar disse que um conceito holístico de missão conclama os cristãos a
compartilhar tanto a vida espiritual quanto recursos materiais e a utilizar
instrumentos espirituais, culturais e tecnológicos.”
Escobar também leciona no curso de Administração do Eastern College, em nível
de pós-gradução. Seu papel principal é ajudar os estudantes a considerar as
missões cristãs no contexto da justiça econômica.
Também publicado em Annals of the American Academy of Political & Social
Science 554 (Nov 1997).
Para os leitores não familiarizados com o inglês, esta é a tradução dos títulos dos
artigos de Escobar: “A responsabilidade social da igreja na América Latina”; “Além
da teologia da libertação: missiologia evangélica na América Latina”;
“Transformação em Ayacucho: da violência à paz e esperança”; “Missões e
renovação no catolicismo latino-americano”; “O recrutamento de estudantes para
missões”; “A missiologia de McGavran foi devorada por um leão?”; “De Lausanne
1974 até Manilla 1989: a peregrinação da missão urbana”; “Um movimento
dividido: três abordagens da evangelização mundial permanecem em tensão entre
si”; “Teologia evangélica na América Latina: o desenvolvimento de uma cristologia
missiológica”; “Missão na América Latina: uma perspectiva evangélica”;
“Elementos de estilo na formação de novos líderes missionários internacionais”;
“500 anos após Colombo: Requiem ou Te Deum?”; “O legado de John A. Mackay”;
“O evangelho inteiro para o mundo inteiro a partir da América Latina”; “A nova
ordem mundial das missões: o século XXI nos conclama a abandonarmos nossos
modelos de ministério mundial procedentes do século XIX”; “Além da teologia da
libertação: artigo-resenha” e “Uma abordagem missiológica do protestantismo
latino-americano.”
Como no Brasil, historicamente, o termo “evangélico” tem sido virtualmente

94
sinônimo de “protestante,” os estudiosos estão utilizado o anglicismo “evangelical”
para designar especificamente os evangélicos conservadores, em distinção dos
progressistas ou liberais, como ocorre nos Estados Unidos. David Bosch
menciona pelo menos seis tipos básicos: (1) novos evangelicais (como Billy
Graham), que tentam unificar todos os evangelicais; (2) evangelicais separatistas
(como Carl McIntire e o seu Concílio Internacional de Igrejas Cristãs); (3)
evangelicais por confissão (como Peter Beyerhaus); (4) evangelicais pentecostais
e carismáticos; (5) evangelicais radicais (como Samuel Escobar, René Padilla e
Orlando Costas); e (6) evangelicais ecumênicos (como John Stott, Festo
Kivengere e Arthur Glasser). Ver Internet, www.homenet.com.br/cem/postura.html.

Rodger C. Bassham, Mission Theology: 1948-1975 – Years of Worldwide Creative


Tension – Ecumenical, Evangelical, and Roman Catholic (Pasadena, Califórnia:
William Carey Library, 1979), 291.
Ibid., 295.
Ibid., 187.
Ibid., 225.
Ibid., 231.
John Stott, The Lausanne Covenant: An Exposition and Commentary
(Minneapolis: World Wide, 1975), 25.
Bassham, Mission Theology, 237.
Escobar atribui ao CLADE I, que recebeu 920 delegados de 25 países, o
surgimento de uma “teologia nacional” entre os evangélicos latino-americanos.
Desafios da Igreja, 22. Esse congresso foi o berço da Fraternidade Teológica
Latino-Americana.
Quando Escobar concluiu sua palestra, os delegados colocaram-se de pé e
demonstraram a sua aprovação aplaudindo-o entusiasticamente. A palestra foi
publicada na íntegra por Edições Vida Nova. Ver Samuel Escobar, A
Responsabilidade Social da Igreja, Tópicos do Momento 3 (São Paulo: Vida Nova,
1970).
Ibid., 7-8.
Bassham, Mission Theology, 262.
Orlando Costas, “Missiology in Contemporary Latin America: A Survey,” em
Missions and Theological Education in World Perspective, ed. Harvie M. Conn e
Samuel F. Romen (Farmington, Michigan: Urbanus, 1984), 104.
“Holístico,” do grego hólos (“inteiro”, “completo”), denota o que diz respeito a
totalidades ou sistemas completos, em contraste com a análise, tratamento ou
divisão em partes. A medicina holística, por exemplo, procura tratar tanto a mente
como o corpo.
Samuel Escobar, “Mission in Latin America: An Evangelical Perspective,”
Missiology 20 (Abril 1992), 244.
Samuel Escobar, “Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Mission,
ed. James M. Phillips e Robert T. Coote (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 131.
Ibid. O COMIBAM deu uma forte ênfase à segunda vinda de Cristo.
Ibid., 133.
Um bom exemplo das idéias de Escobar acerca da evangelização pode ser
encontrado no seu artigo “Vivir y Evangelizar,” em Pensamiento Cristiano 93

95
(Março 1978): 170-175.
Samuel Escobar, “Has McGavran´s Missiology been Devoured by a Lion?”
Missiology 17 (Julho 1989), 349-350.
Ibid., 350.
Escobar, “Mission in Latin America,” 241.
Escobar, “Latin America,” 134. “Anômicas” deriva de “anomia,” a instabilidade
social resultante do colapso dos padrões e valores; no sentido individual, significa
a inquietação, alienação e incerteza que decorre da ausência de propósito ou
ideais.
Samuel Escobar, “Beyond Liberation Theology: Evangelical Missiology in Latin
America,” International Bulletin of Missionary Research 6 (Julho 1982), 108.
Ibid., 110.
Ibid., 111.
Samuel Escobar, “Evangelical Theology in Latin America: The Development of a
Missiological Christology,” Missiology 19 (Julho 1991), 316.
Ibid., 321.
Ibid., 328.
Samuel Escobar, “The Elements of Style in Crafting New International Mission
Leaders,” Evangelical Missions Quarterly 28 (Janeiro 1992), 7.
Escobar, Desafios da Igreja na América Latina, 19.
Ibid., 48. Há poucos anos, Escobar participou de mais uma consulta da Comissão
Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial. Tal consulta, realizada em Londres
de 9 a 14 de abril de 1996, teve como tema “Fé e Esperança para o Futuro: Por
Uma Teologia Evangélica Vital e Coerente para o Século XXI.” Escobar foi o autor
de um dos seis estudos apresentados ao plenário, sob o título “Discernindo o
Espírito na América Latina,” em que revela o seu grande interesse pela dimensão
pneumatológica da missão da igreja e conclama os evangélicos a estarem
receptivos ao novo vento do Espírito que sopra na igreja, gerando uma
espiritualidade nova e radical. Samuel Escobar, “Mañana – Discerning the Spirit in
Latin America,” Evangelical Review of Theology 20/4 (Outubro 1996).
Escobar, Desafios da Igreja na América Latina, 64.
É o caso de André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, trad.
Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990). Ver também,
do autor do presente artigo, “Amando a Deus e ao Próximo: João Calvino e o
Diaconato em Genebra,” Fides Reformata 2:2 (Jul-Dez 1997), 69-88, e “Jonathan
Edwards: Teólogo do Coração e do Intelecto,” Fides Reformata 3:1 (Jan-Jun
1998), 72-87

Parte XVII
APRENDENDO DA HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS

Estamos vivendo numa época em que muitos membros das nossas igrejas oram:
"Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos."(1) Talvez não se expressem
exatamente com estas palavras, mas de fato almejam um avivamento autêntico.
Outros se arrepiam imediatamente quando ouvem falar do assunto. Não é que não
queiram que as igrejas sejam vivas e dispostas para a obra do Senhor; ao

96
contrário. Mas avivamento? Já passamos por tanta confusão, tribulação e
separação amarga. Não seria melhor evitar o assunto? Neste artigo estudaremos
um pouco da história para ver se podemos descobrir algumas lições para os dias
de hoje. Não é possível repetir a história, mas podemos aprender com ela.

As nossas igrejas no Brasil foram plantadas por missionários da Igreja


Presbiteriana dos Estados Unidos. Nesse país também houve várias épocas de
avivamento com bênçãos e problemas incontáveis. Vamos perguntar à nossa mãe
espiritual: "Conte, mamãe, como é que foi?" Voltemos, então, para a época que
entrou na história como o "Grande Despertamento" (Great Awakening, 1739-
1745).

I. O Presbiterianismo na América do Norte

O Brasil foi descoberto em 1500. Foi na época em que Portugal e Espanha


começaram a navegar pelos oceanos e fundar o seu império ibérico. Somente um
século mais tarde nações protestantes começaram a zarpar pelos oceanos, depois
que foi quebrada a espinha dorsal marítima da Espanha com a derrota da sua
Armada (1588). A Inglaterra implantou colônias na América do Norte, sendo
Virgínia a primeira (1607), com a Igreja Anglicana como a igreja oficial.(2) Os
holandeses fundaram Nova Amsterdã (1614) com sua Igreja Reformada (mas os
ingleses capturariam a colônia cinqüenta anos depois, rebatizando-a como Nova
York). Os "Pais Peregrinos" foram para o nordeste do continente (1620) e
estabeleceram fortes colônias congregacionais.

Por volta de 1700 havia muitas famílias presbiterianas espalhadas por todas as
colônias, especialmente escocesas-irlandesas, e em 1701 um jovem pastor do
nordeste da Irlanda, Francis Makemie, iniciou o seu trabalho itinerante de Nova
York até as Carolinas.(3) Ele é considerado o "pai do presbiterianismo americano,"
tendo organizado igrejas e até consagrado ministros. Era um homem preparado
para o trabalho de Deus: conversão clara, chamada consciente, visão ampla,
santificação constante e disposição incansável. O Senhor abençoou o seu
trabalho. Muitas igrejas foram organizadas e já cinco anos depois o presbitério
reuniu-se pela primeira vez em Filadélfia. No ano seguinte, Makemie foi preso por
ter pregado em Nova York. Ele defendeu o seu próprio caso, que ficou famoso na
jurisprudência sobre a liberdade religiosa. Foi absolvido, mas adoeceu gravemente
devido à permanência no calabouço e foi promovido à glória. Porém, o
crescimento continuou e em 1717 organizou-se o primeiro sínodo. Foi adotada a
ordem eclesiástica da Escócia, e também o seu selo e lema: Nec Tamen
Consumebatur.(4)

Apesar do crescimento numérico das igrejas em geral, a situação religiosa nas


colônias não era boa. Muitos colonos viviam longe das igrejas e, pior ainda, da
Palavra de Deus. Nos lares crentes de fato havia leitura bíblica e o catecismo era
decorado, mas por outro lado existiam muitos obstáculos à santificação, mormente
a embriaguez... até entre pastores. É que os colonos eram pobres, e os preços
dos produtos da lavoura muito baixos, a não ser que pudessem ser

97
industrializados. Os escoceses sabiam fazer isto, só que não conseguiam vender
o whisky a tempo. Nesse caso, o pastor podia ser pago em espécie e, chegando
em casa depois de uma longa cavalgada numa tempestade de neve, era tentado a
tomar uns tragos. E havia outros problemas. Portanto, não é de estranhar que
algumas pessoas reconhecessem que a igreja precisava ser purificada para
tornar-se realmente uma igreja puritana. E essa purificação devia começar com o
corpo ministerial.(5)

Havia algumas escolas para preparação de pastores no nordeste americano, tais


como Harvard e Yale, mas infelizmente nem sempre zelavam pela ortodoxia e
pela ortopraxia. Além disso, as distâncias eram grandes e as despesas altas.
Então, recorreu-se ao sistema conhecido na Irlanda do Norte, em que candidatos
ao ministério eram treinados na casa de um ou outro pastor com o dom de mestre.
Um desses foi o velho Rev. William Tennent, que preparou uns poucos jovens
para o ministério sagrado, entre eles seus próprios filhos, no seu humilde "colégio
de toras" (Log College).(6) O casal Tennent era um exemplo de piedade e o
próprio George Whitefield, depois de visitá-los, comparou-os a Zacarias e Isabel. A
sua oração diária era pela "purificação dos filhos de Levi."(7) A conversão era
absolutamente necessária (inclusive para os presbiterianos) e essa conversão
devia ser visível.

II. O Grande Despertamento, 1739-1745

Essa ênfase na pregação tinha sido (re)iniciada naquela região por "Dominie"(8)
Theodore J. Frelinghuysen, o pastor de uma das Igrejas Reformadas holandesas,
que eram muitas por causa da antiga colonização holandesa e que continuaram a
crescer mesmo depois da conquista de Nova Amsterdã pelos ingleses.(9) Nesse
sentido, o Rev. Theodore era herdeiro de uma ênfase do puritanismo holandês,
que por sua vez tinha recebido muita influência do puritanismo inglês(10) não
somente uma doutrina e fé bíblicas, mas também uma ética e comportamento
bíblicos. Quando, pois, o jovem ministro Gilbert Tennent começou a pregar como o
seu colega reformado (1733), isso não foi algo estranho ao puritanismo
presbiteriano americano.(11) Ao mesmo tempo, o Senhor estava operando nas
Igrejas Congregacionais do nordeste americano (1734) e algum tempo depois o
Rev. Jonathan Edwards pregou o seu célebre sermão "Pecadores nas mãos de
um Deus irado" (1741).(12) Na Inglaterra, a pregação de George Whitefield e de
John Wesley levou muitas pessoas ao Senhor, e quando Whitefield fez uma
campanha evangelística nas colônias (1739-1741), em dois anos mais de trinta mil
pessoas foram ganhas, ou seja, 10% da população americana da época.(13)

Apesar desses resultados positivos, houve problemas humanos, como sempre


ocorre quando o Senhor dá a sua bênção. Vários pastores não souberam controlar
a sua língua. A gritaria de um certo James Davenport passou tanto dos limites,
que até os seus correligionários o consideraram mentalmente fraco. O próprio
Gilbert Tennent abusou da palavra. Em 1740 ele pregou uma mensagem com um
título apropriado sobre os perigos de um ministério não convertido, mas com um
vocabulário por vezes muito veemente, referindo-se aos colegas como "cães

98
mortos" e outros termos negativos. Não era incomum o uso de linguagem violenta,
mas o impacto do sermão de Gilbert foi mais amplo pelo fato de ter sido impresso.
(14) Também puderam ser observados vários desvios teológicos, tais como: a Lei
não se aplicaria aos crentes; se alguém não sabia quando estivera sem Cristo,
não poderia ser considerado convertido; se alguém não sentia o sopro do Espírito
Santo como um vento verdadeiro, seria um crente carnal. Algumas irregularidades
contra a ordem presbiteriana também azedaram as relações eclesiásticas, já
tensas por causa da frieza, zombaria e forte oposição dos tradicionalistas e de um
certo radicalismo e farisaismo dos avivados, afetando ambos os grupos como um
vírus maligno.

III. O Cisma Presbiteriano, 1741-1758

Infelizmente as tensões aumentaram tanto durante a época do Grande


Despertamento, que ocorreram divisões no corpo de Cristo.(15) O cisma na Igreja
Presbiteriana começou em 1741. No início do sínodo daquele ano um grupo de
doze ministros apresentou um documento chamado "Protestação," que
simplesmente declarava que os avivados não tinham lugar "neste concílio de
Cristo." Sete dos "protestadores" pertenciam ao Presbitério de Donegal, que havia
se tornado uma foco de oposição, e quatro deles deviam ser afastados do
ministério por causa de problemas graves. Dizendo-se leais a Cristo, praticaram
uma lealdade dúplice por causa do seu corporativismo.(16) Alegando apoio na
Constituição Presbiteriana, pisaram o direito eclesiástico. O grupo de
tradicionalistas ficou conhecido como a "Ala Velha" do Sínodo de Filadélfia, e os
avivados como a "Ala Nova" do Sínodo de Nova York.(17)

A Ala Nova é mais conhecida por causa do seu trabalho evangelístico. Em


primeiro lugar, pelo esforço missionário transcultural de homens como o Rev.
David Brainerd, que nos deixou o seu conhecido diário.(18) Brainerd havia sido
expulso do curso teológico de Yale por afirmar que um certo professor não tinha
mais da graça de Deus do que uma cadeira. Depois da sua ordenação, David
trabalhou incansavelmente durante quatro anos entre os indígenas, até sucumbir à
tuberculose na casa do seu futuro sogro, o Rev. Jonathan Edwards. Poucos
meses depois, a sua noiva Jerusha também faleceu vitimada pela mesma
enfermidade (1748).

Menos conhecido, mas não menos importante, foi o trabalho de "missões


nacionais" da Ala Nova. Samuel Davies, também formado num "colégio (teológico)
de toras," implantou o trabalho presbiteriano na região de Richmond, na Virgínia
(1747-1759), que resultou no primeiro presbitério do sul, o de Hanover (1755). Não
somente pregou aos colonos europeus, mas também aos escravos africanos, que
gostavam de cantar salmos em sua cozinha. No seu diário ele anotou que de vez
em quando acordava com uma torrente de melodias celestiais. Davies teve o
privilégio de batizar uns 150 deles. Nessa época, Jonathan Edwards, que era
presidente do colégio teológico de Princeton, veio a falecer por causa da varíola.
Davies foi chamado para substituí-lo, mas também faleceu depois de dois curtos
anos. Colocaram no túmulo desse servo, que pregava como o embaixador de um

99
rei poderoso, uma frase de um dos seus 600 hinos: "Inspira a minha alma, ó graça
real, e toca meus lábios com fogo celestial."(19)

Um problema muito interessante era a tensão entre educação e missão. O fato era
que as igrejas, congregações e pontos de pregação se multiplicavam, mas havia
falta de pastores para atender aqueles vastos campos. Não é que os
presbiterianos não tivessem visão, mas havia falta de obreiros por causa das
rigorosas exigências na educação teológica, o que diminuia o número dos que
podiam estudar. Mas os que conseguiam fazer o curso teológico saíam como
homens bem preparados. Quando chegavam aos seus campos de trabalho,
freqüentemente na então fronteira colonial, eram bem-vindos como pastores e
também como professores, porque eram as pessoas mais educadas da
comunidade. Os colonos pediam que o pastor ensinasse seus filhos.(20) Mas o
bom era o inimigo do melhor, porque uma vez envolvidos no ensino diário, mal
sobrava tempo para visitarem as congregações espalhadas, que às vezes perdiam
o contato com a igreja presbiteriana e filiavam-se a outras denominações.(21)

IV. A Reunião, 1758

Depois de dezessete anos, as duas alas conseguiram restabelecer a paz. Uma


das alavancas foi o sofrimento comum causado pela guerra contra os franceses. O
restabelecimento da união também foi possível porque ambos os lados haviam
permanecido presbiterianos na doutrina e os renovados não tinham rejeitado o
batismo dos filhos da aliança.

Porém, o mais importante é que o clima havia se tornado mais ameno,


basicamente por existir mais humildade nos dois lados. Os tradicionalistas ainda
tinham certas restrições, mas reconheceram que de fato houve muitas conversões
sinceras e permanentes. Também admitiram ser necessário que os pastores (e
conseqüentemente os candidatos ao ministério sagrado), tivessem uma
experiência religiosa, e não somente uma fé formal.(22) Os avivados, por outro
lado, sentiam ainda um profundo desejo de pregar em todo e qualquer lugar, mas
reconheceram que erraram algumas vezes ao invadirem campos pastorais de
colegas tradicionalistas sem serem convidados, não respeitando assim as normas
constitucionais. Também reconheceram que as suas línguas não haviam sido
batizadas pelo Espírito Santo quando usavam certas expressões pejorativas ao
referirem-se aos seus colegas. Insistiram que o avivamento era uma obra santa do
Senhor, mas admitiram que houve falta de discernimento espiritual, pois os
convertidos que apresentavam reações físicas (como arrepios, gritos, desmaios,
etc.), mas sem os frutos do Espírito Santo, estavam seriamente iludidos. E a Lei
do Senhor era sem dúvida uma norma de gratidão para a vida do crente
convertido. As duas correntes uniram-se novamente, sendo o próprio Gilbert
Tennent o maior defensor dessa reunião.(23)

Porém, a paz entre os dois grupos deve ter sido um pouco difícil, especialmente
para os da Ala Velha, por causa da maioria numérica da Ala Nova. No começo do
cisma os avivados eram uma minoria, mas cresceram muito durante os anos da

100
separação.(24) Um pouco de estatística pastoral demonstra isto claramente: em
1741 a Ala Velha tinha 27 pastores e a Ala Nova 22; em 1758 a Ala Velha tinha 23
pastores e a Ala Nova 73.

De fato, foi como o historiador Trinterud afirmou: "Two sides, two tides" (duas alas,
duas marés).(25) Mas qual teria sido a causa dessa diferença tão patente? Muito
se tem discutido. A Ala Velha insistiu que os avivados tinham sido beneficiados
pela imigração e fundos do Velho Mundo, mas assim também o foram os
tradicionalistas. Talvez tenhamos de lembrar a distinção entre causas diurnas,
patentes a todos, e causas noturnas, ocultas à maioria.(26) Embora a Ala Velha
também tenha feito algo pelas missões nacionais, a "causa diurna" do crescimento
maior da Ala Nova deve ter sido o trabalho evangelístico mais intenso e mais
descentralizado dos irmãos avivados, as missões sendo sempre um índice preciso
do avivamento autêntico.

E existiria ainda alguma "causa noturna"? Cremos que sim. O fato é que o
avivamento real procura maior santificação em todos os setores da vida,
começando pelo individual. Faltando essa característica essencial, o avivamento
não passa de emoção litúrgica. Sem dúvida, no início a Ala Velha não reconheceu
essa necessidade premente de santificação, focalizando suas críticas em
aspectos mais circunstanciais. Dos doze "protestadores" que iniciaram o cisma
expulsando os avivados, quatro tinham problemas morais e, no fim desse período,
mais quatro, ou seja, ao todo dois terços do mesmo grupo! Em virtude do
"corporativismo," os seus presbitérios faltaram com a disciplina fraternal. Sim,
infelizmente a "causa noturna" mais provável por que o braço tradicionalista da
Igreja Presbiteriana americana murchou até mesmo durante o "Grande
Despertamento" foi a falta de santificação, santificação esta que é o alvo do
Espírito Santo em cada efusão especial do poder do alto, para que a igreja seja
testemunha no tempo e no lugar onde Deus a colocou na história.

V. Dia da Renovação da Aliança

Devemos ainda acrescentar um parágrafo sobre as lições espirituais que emanam


desse período, à luz das Escrituras? Calvino certa vez disse o seguinte sobre
aqueles que querem tirar uma série de aplicações de um texto bíblico: "A Escritura
é frutífera em si mesma." Parece que as lições históricas neste caso são óbvias. E
cada um de nós deve aplicá-las à vida, dependendo da nossa posição no
processo histórico atual. Oremos para que aprendamos a andar em humildade, a
fim de não perdermos o verdadeiro avivamento, não promovendo um avivamento
pelo esforço próprio, nem rejeitando as bênçãos incontáveis da obra do Senhor.

"Avivamento" é uma palavra muito bíblica, significando reviver. Não deveríamos


perdê-la por causa de abusos. O conceito de avivamento também é muito bíblico:
retornar ao Senhor, humilhar-se e começar a ter uma vida purificada, produzindo
mais frutos do Espírito Santo.(27) Não devíamos perder o conteúdo por causa de
uma palavra. Se não quisermos usar a palavra "avivamento," para nós da tradição
reformada uma expressão como "Renovação da Aliança" ajudaria muito a

101
entender o que o Senhor quer de nós. Aquela súplica — "Aviva a tua obra, ó
Senhor, no decorrer dos anos" — é uma oração ensinada pelo próprio Espírito
Santo. E o Senhor nos convoca a renovarmos a aliança que ele estabeleceu
conosco, renová-la em todos os seus aspectos. Um dia especial para enfatizar
essa renovação da aliança pode ser para nós presbiterianos o dia do aniversário
da nossa igreja, 12 de agosto. Ou talvez o dia de Pentecoste, o dia do aniversário
da igreja universal. Mas, qualquer dia que seja, seria um dia de oração e jejum
para que o Senhor não nos lance fora, ao contrário, nos use, não para o nosso
próprio triunfalismo oco, e sim para a sua glória, para a salvação de muitos
perdidos, e para a santificação e edificação da igreja, a fim de que ela seja sal da
terra e luz neste mundo tenebroso, como é o desejo profundo de todo verdadeiro
presbiteriano.

Notas

1 Habacuque 3.2 (Almeida Revista e Atualizada).

2 Para um resumo sobre religião na América do Norte, ver W. S. Hudson, Religion


in America (New York: Scribner’s, 1993). Para o período colonial, ver W. W.
Sweet, Religion in Colonial America (New York: Scribner’s, 1942).

3 Sobre Makemie, ver I. M. Page, The Life Story of Rev. Francis Makemie (Grand
Rapids: Eerdmans, 1938).

4 Adotado pela Igreja Presbiteriana da Escócia em 1635. Os Estados Unidos


tornaram-se independentes em 1776, e em 1789, o ano em que a França
sangrava por causa da revolução, realizou-se a primeira Assembléia Geral da
Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, incorporando muitos dos antigos
huguenotes.

5 Assim também Philipp J. Spener, o grande líder do pietismo na Igreja Luterana


da Alemanha, em seu famoso livro Pia Desideria ("desejos piedosos"), publicado
em 1675.

6 Sobre Tennent e sua escola, ver M. A. Tennent, Light in Darkness: The Story of
William Tennent, Sr. and the Log College (Greensboro, NC: Greensboro Printing
Co., 1971).

7 Ml 3.3; absolutamente necessário, senão Deus amaldiçoará até as nossas


bênçãos (Ml 2.2)!

8 Como eram chamados os ministros da Igreja Reformada Holandesa: dominie, do


latim dominus, "senhor."

9 Sobre a posição oficial, o crescimento e os problemas dessas igrejas reformadas


(inclusive depois da conquista de Nova Amsterdã pelos ingleses em 1664), ver
Gerald F. De Jong, The Dutch Reformed Church in the American Colonies (Grand

102
Rapids: Eerdmans, 1978).

10 Wilhelm Goeters, Die Vorbereitung des Pietismus in der Reformierten Kirche


der Niederlande bis zur Labadistischen Krisis, 1670 (Amsterdam: T. Bolland,
1974).

11 L. J. Trinterud, The Forming of an American Tradition (Philadelphia:


Westminster Press, 1949).

12 Jonathan Edwards, Pecadores nas Mãos de um Deus Irado, 3a. ed. (São
Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, c.1993).

13 Sobre Whitefield, ver A. A. Dallimore, George Whitefield, 2 vols. ([London]: Ed.


Banner of Truth Trust, [1970]).

14 A. Alexander, comp., Sermons and Essays by the Tennents and their


Contemporaries (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, [1855]).

15 Os congregacionais dividiram-se em "Old Lights" e "New Lights," os batistas


em "Regulars" e "Separatists."

16 Se houve também uma dupla lealdade por causa de ligações maçônicas, não
ficou claro até agora. Nesse século XVIII de racionalismo, a maçonaria era uma
espécie de reação mística contra o árido deísmo. Começou em Londres em 1717
e trinta anos depois já era influente na colônia americana.

17 "The Old and New Side" do século XVIII não devem ser confundidos com "The
Old and New School" do século XIX.

18 Ver Jonathan Edwards, A Vida de David Brainerd (São José dos Campos, SP:
Editora Fiel, 1993). Para essa biografia do seu genro, Edwards baseou-se em
grande parte no diário de Brainerd.

19 "Almighty grace, my soul inspire, and touch my lips with heavenly fire."

20 Dessas escolas paroquiais nasceram instituições educacionais conhecidas,


como a Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

21 Valeria a pena um estudo aprofundado sobre as congregações da IPB que


foram perdidas.

22 Exigência incluída também na Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, no


seu Art. 32.

23 Cf. o seu sermão publicado, "Irenicum Ecclesiasticum" (1749).

24 O mesmo fenômeno de crescimento numérico ocorreu entre os

103
congregacionais: na região de Boston havia nessa altura quase três vezes mais
pastores avivados do que tradicionalistas.

25 Trinterud, Forming of an American Tradition, cap. 8: "The Withered Branch."

26 Ruy dos Santos Pereira, Piso e a Medicina Indígena (Recife: Instituto


Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e Universidade Federal de
Pernambuco, 1980), 23.27 2 Cr 7.14. Existem muitos exemplos históricos, como
Js 5, 24; 2 Cr 29-30; Ne 8, etc
Fonte: Revista Fides Reformata

Parte XVIII
AS QUATRO INDISPENSÁVEIS QUALIDADES
Uma Igreja Missionária

"E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora,
Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando,
e impondo sobre eles as mãos, os despediram" (At 13.2,3).

Como deve ser caracterizada a igreja evangélica brasileira em seu propósito de


ser uma igreja verdadeiramente missionária no Brasil e no mundo? Biblicamente
falando, todo campo missionário deveria se tornar, obrigatoriamente, numa base
missionária. Mas por uma série de fatores que lamentamos, nem sempre é essa a
realidade em termos de igreja brasileira. Já a igreja de Antioquia era, sem sombra
de dúvida, um exemplo de igreja missionária. A igreja que outrora foi campo, que o
Espírito Santo preparou para receber a boa semente do evangelho, cresceu e
frutificou, passando a ser oficialmente o portal da missão entre os gentios; pois
quando o Espírito Santo disse em Atos 13.2, "Separai-me agora ..." a partir
daquele momento a igreja de Antioquia não seria mais a mesma em termos de
visão e ação missionárias.

Os princípios que nortearam a vida da igreja de Antioquia, e que, com certeza,


deveriam inspirar todas as igrejas, foram cuidadosamente observados e
registrados por Lucas em Atos 13.

Igreja missionária é igreja adoradora

Atos 13.2 inicia assim: "E, servindo eles ao Senhor...". O particípio presente
leitourgountwn (servindo [ARA], workshiping [NIV]), do verbo leitourgéw, é
empregado por Lucas em Atos 13.2 com o mesmo significado de latréw, isto é,
"servir em adoração"; "prestar culto a Deus". O particípio presente indica ação
contínua.

Uma igreja só pode ser verdadeiramente missionária se for verdadeiramente


adoradora e vice-versa. Orlando Costas estava certo quando disse que "o culto
está intrinsecamente relacionado com a ação de Deus na história e a conversão

104
das nações ao Deus trino e uno".

E ainda:

O culto, em sua dimensão humana, surge da missão. É o resultado espontâneo da


experiência da redenção. Do mesmo modo, a missão deve ser vista como um
acontecimento cultual, porquanto celebra o que Deus tem feito por homens e
mulheres em Jesus Cristo e os chama a receber e compartilhar o dom da graça de
Deus.

Talvez um dos piores males que têm assolado, dividido e enfraquecido a igreja
brasileira em nossos dias seja os constantes debates em torno da tarefa prioritária
da igreja. E não estamos nos referindo à questão da evangelização e
responsabilidade social, outro assunto desnecessariamente polarizado. Ao
contrário, estamos falando da dicotomia existente entre culto e missões. E a
discussão não é se a igreja deve adorar ou evangelizar (embora às vezes é o que
de fato acontece), mas sim, o que deve ser considerado em primeiro lugar.

As opiniões são as mais variadas e extremistas até. De um lado temos os que


insistem que "missões são a segunda mais importante atividade no mundo", ou
que "missões existem porque o culto não existe". Do outro lado, tem quem afirme
ser "um absurdo dizer que muitas são as responsabilidades da igreja. Igreja é
missões". Para os defensores da primeira posição, só o fato do culto ser dirigido a
Deus e as missões aos homens já definiria, por si só, a questão da prioridade da
igreja. Os defensores da segunda posição argumentam, por sua vez, que é
preciso mais que adoração. "É preciso ter paixão pelos perdidos e obedecer ao
ide de Jesus". Será que precisamos mesmo priorizar uma tarefa em detrimento da
outra, como temos visto na prática? Será que podemos afirmar que culto é mais
importante que missões ou vice-versa? Mais uma vez contamos com o argumento
equilibrado de Orlando Costas:

Não existe dicotomia alguma entre culto e missão. O culto é a reunião do povo
enviado ao mundo para celebrar o que Deus fez em Cristo e está fazendo
mediante a participação deles na ação testemunhal do Espírito. A missão é a
culminação e antecipação do culto. No culto e na missão a comunidade redimida
dá evidência concreta do fato de que é, ao mesmo tempo, um povo de oração e
testemunho".

Vemos, então, que o culto deve levar a igreja a fazer missões (cf. At 2.42-47), e
missões, por sua vez, devem levar os perdidos a prestarem culto a Deus (cf. At
13.44-49). Pois uma adoração que não leva a igreja a evangelizar não passa de
mera contemplação, e uma evangelização que não leva os pecadores a adorarem
a Deus está fora dos propósitos do próprio Deus. "A liturgia sem missão é como
um rio sem manancial, a missão sem culto é como um rio sem mar. Ambos são
necessários. Sem um o outro perde sua vitalidade e significado".

Igreja missionária é igreja de oração

105
José Martins disse corretamente: "A oração é a essência da obra missionária. Não
é só uma atividade necessária ao sucesso da obra - é a obra em si. É a prática
mais missionária possível, quando vivida de maneira bíblica". É evidente que
Martins não quer dizer que oração e missões são a mesma coisa, e sim, que
essas duas atividades devem vir interligadas uma na outra. Nunca é demais
enfatizar a importância da prática da oração na obra missionária.

Quando o Espírito Santo ordenou que a igreja de Antioquia separasse Paulo e


Barnabé para a obra que os tinha chamado, a igreja estava em oração. Esta
verdade está implícita e explícita em Atos 13.2 e 3, respectivamente.

Implicitamente porque o versículo dois diz o seguinte: "E, servindo eles ao Senhor,
e jejuando...". O fato da igreja estar jejuando subentende-se que ela estava
também orando.

Seria incoerente pensar que uma igreja que estava adorando a Deus e jejuando
não estivesse em oração. Nem toda oração é feita em jejum, mas todo jejum
bíblico é feito com oração. Além disso, temos uma evidência explícita de que a
igreja de Antioquia realmente orava naquela ocasião: "Então, jejuando e orando..."
(v3). Não sabemos ao certo se o jejum do verso 3 é o mesmo do verso 2. Pela
urgência do chamado do Espírito, tudo indica que sim. Mas se é o mesmo ou
deixa de ser, não é tão importante sabermos. Basta saber que a igreja de
Antioquia era uma igreja de oração e que fazia da oração a base de sua missão.

É provável que o exemplo da igreja de Antioquia tenha marcado positivamente o


ministério de Paulo. Paulo foi um homem de oração e recomendava às igrejas que
orassem por ele e pela expansão do evangelho de Jesus Cristo.

Agora, mais do que simplesmente orar, a igreja de Antioquia era uma igreja que
exercia a prática do jejum. É impressionante a ênfase que Lucas dá ao jejum na
igreja de Antioquia. Em Atos 13.2 ele diz que a igreja jejuava, e não menciona a
oração, embora sabemos que ela também orava, conforme dissemos acima. No
verso 3, do mesmo capítulo 13, Lucas coloca a palavra "jejuando" na frente de
"orando". No texto grego é a mesma coisa: nestéusantes kai proseuxamenoi. A
ordem das palavras é significativa e não pode ser menosprezada, como tem feito
a maioria dos autores que consultamos.

A ênfase de Lucas é importante por duas razões pelo menos: 1) Não devemos
pensar que a igreja de Antioquia jejuava porque trazia resquícios do judaísmo.
Esta não seria uma forma inteligente de pensar, primeiro porque Lucas era gentio
(provavelmente da cidade de Antioquia da Síria) e, por isso mesmo, qual o
interesse dele em dar tanta ênfase a uma prática estritamente judaica? Segundo,
a igreja de Antioquia foi uma das igrejas mais anti-judaicas do passado, naquilo
que se refere às práticas religiosas do judaísmo. Direta ou indiretamente o
Concílio de Jerusalém de Atos 15 aconteceu em razão desse anti-judaísmo-
cerimonialista. 2) Acreditamos que Lucas fez questão em enfatizar a prática do

106
jejum pela igreja de Antioquia, primeiramente para mostrar que jejum e oração não
são incompatíveis na vida de uma igreja e, em segundo lugar, mostrar como esta
prática era (e deve ser) valorizada no meio de uma igreja verdadeiramente
missionária.

Se muitas de nossas igrejas têm falhado na prática da oração, e falhado mais


ainda em rogar ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara,
em interceder pelos missionários e orar pela obra missionária de um modo geral, o
que dizer então da prática do jejum em nossas igrejas?

Acredito que as igrejas históricas têm falhado até agora em subestimar a


importância do jejum na vida do povo de Deus. Quantos são os membros destas
igrejas que jejuam? Quantos de seus pastores jejuam? Muitos de nós mal oramos,
diga-se de passagem.

Na minha própria denominação, Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), aprendi: "Sem


o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o
dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como
guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de
jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças" (Princípios de Liturgia,
XI). Se o povo de Deus tiver que jejuar "em casos muito excepcionais de
calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc.", conforme
prescrevem os princípios de liturgia da IPB, nunca existirá um dia de jejum neste
país! Que o jejum deve ser praticado em dias de calamidades públicas não
questionamos, pois a Bíblia nos dá vários exemplos disso. Mas será que devemos
jejuar somente em casos muito excepcionais de calamidades públicas? Da forma
como foi redigido o princípio para a prática de jejum na IPB, ao invés de estimular
o crente a praticá-lo, ele faz exatamente o contrário. Não que o princípio fora
escrito com o objetivo de desestimular quem quer que seja, porém, na prática é o
que tem acontecido. Creio que o capítulo sobre jejum deveria ser revisto pela IPB,
primeiro porque ele não expressa corretamente a realidade brasileira e também
por não apresentar uma definição mais completa do verdadeiro conceito bíblico de
jejum.

Apesar da Igreja Primitiva ter vivido momentos de muitas provações, nada indica
que naquela ocasião especial de Atos 13 a igreja de Antioquia estivesse jejuando
e orando porque passava por momentos difíceis. Pelo contrário, o contexto
próximo (cap. 12) indica que a Igreja Primitiva, de modo geral, estava vivendo um
dos seus melhores dias. Pedro havia sido libertado milagrosamente da prisão e
um dos maiores inimigos da igreja, o rei Herodes Agripa I, foi morto mediante a
intervenção de um anjo do Senhor. Enquanto isso, "a palavra do Senhor crescia e
se multiplicava" (At 12.24).

A igreja de Antioquia buscava a presença de Deus pelo simples prazer de estar


servindo a Deus.

E continuou assim quando enviou seus missionários e os sustentou com

107
fervorosas orações.

Que Deus conceda à igreja brasileira a graça de ser uma igreja que se alegre em
estar em Sua presença, intercedendo dia após dia pela obra missionária do Brasil
e do mundo.

Igreja missionária é igreja que ouve a voz do Espírito Santo

Enquanto a igreja orava, é provável que o Espírito Santo falou pelos profetas que
ali estavam, tornando Sua vontade conhecida. Não sabemos ao certo como o
Espírito Santo falou aos profetas da igreja de Antioquia. Seja como for, Ele falou e
a igreja ouviu.

O verbo "ouvir" é empregado em mais de um sentido nas Escrituras. Pode


significar: captar, entender, abraçar e obedecer o que se ouve. Alguém pode
escutar e ouvir, no sentido literal, o som das palavras, entender as palavras, mas
ser totalmente surdo quanto à prática dessas palavras.

A igreja de Antioquia era uma igreja sensível à voz do Espírito, e mais do que
aguçar os ouvidos para ouvir a Sua voz, ela ouviu, principalmente, obedecendo. E
é exatamente nesse sentido de fazer o que Deus ordena que a igreja brasileira
hoje deve ouvir, através da Escritura, o que "o Espírito diz às igrejas".

O Espírito Santo continua falando e ouvimos a Sua voz, mas lamentavelmente,


este "ouvir" nem sempre tem sido traduzido em termos de "obediência". O Espírito
Santo falou à igreja de Antioquia e ela imediatamente colocou Paulo e Barnabé no
mundo. Eis aí a voz do Espírito que muitas vezes tem sido ignorada pelos crentes:
A igreja no mundo e para o mundo. É nisso que Deus espera ser ouvido e
obedecido.

Se ouvir o Espírito Santo significa obedecê-lo, uma das grandes expressões dessa
obediência é estar no mundo para ouvir o mundo. E o que significa ouvir o
mundo? John Stott responde: "O mundo de hoje está repleto de clamores que
refletem ira, frustração e sofrimento. Mas muitas vezes nós nos fazemos de
surdos diante dessas vozes de angústia". Stott nos lembra, ainda, que existem
dois grupos de pessoas no mundo que, além de precisarem ouvir o que a igreja
tem a lhes dizer, precisam, antes, ser ouvidos pela igreja. Diz ele:

Primeiro, temos o sofrimento daqueles que nunca ouviram o nome de Jesus, ou


que, embora tenham ouvido falar nele, ainda não o aceitaram e, portanto, em sua
alienação e perdição, estão sofrendo terrivelmente. Neste caso, o que
costumamos fazer é sair correndo com o evangelho nas mãos, subir no nosso
poleiro e vomitar a nossa mensagem, sem a mínima consideração para com a
situação cultural ou as verdadeiras necessidades dessas pessoas. O resultado é
que, com muito mais freqüência do que gostaríamos de admitir, nós afastamos as
pessoas e até mesmo aumentamos sua alienação, pois a forma como
apresentamos a Cristo é insensível, desajeitada e até irrelevante. De fato,

108
"responder antes de ouvir é estultícia e vergonha".

A melhor coisa é ouvir antes de falar, procurar penetrar no mundo das idéias e
pensamentos da outra pessoa, tentar descobrir quais são as suas possíveis
objeções ao evangelho e então compartilhar com ela as boas novas de Jesus
Cristo de uma maneira que fale às suas necessidades. Esta atividade desafiadora,
humilde e perspicaz é chamada, e com razão, de "contextualização". Mas é
essencial acrescentar que contextualizar o evangelho não é de maneira alguma
manipulá-lo.

... Em segundo lugar, temos o sofrimento dos pobres e dos famintos, dos
despossuídos e dos oprimidos. Muitos de nós só agora é que estão despertando
para a obrigação que a Escritura sempre colocou sobre o povo de Deus, de
preocupar-se com a justiça social. Nós deveríamos ouvir com mais atenção os
clamores e os suspiros daqueles que estão sofrendo. Quero compartilhar aqui um
versículo bíblico que nós temos negligenciado e que, em se tratando deste
assunto, quem sabe deveríamos destacar. Ele contém uma solene palavra de
Deus para aqueles que, dentre o seu povo, carecem de consciência social.
Encontra-se em Provérbios 21.13: "O que tapa o ouvido ao clamor do pobre
também clamará e não será ouvido.

Complementando Jonh Stott, lembramos ainda de Orlando Costas, que também


costumava chamar o compromisso da igreja para com a sociedade e o mundo de
dimensão diaconal ou encarnacional, isto é, "a intensidade de serviço que a igreja
presta ao mundo, como prova concreta do amor de Deus". E mais:

Esta dimensão envolve o impacto que o ministério reconciliador da igreja exerce


sobre o mundo, o seu grau de participação na vida, conflitos, temores e
esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda a aliviar a dor
humana e a transformar as condições sociais que têm condenado milhões de
homens, mulheres e crianças à pobreza. Sem esta dimensão a igreja perde sua
autenticidade e credibilidade, pois somente na medida em que conseguir dar
visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar
ser ouvida e respeitada.

Se a igreja brasileira der ouvidos à voz do Espírito, com certeza ouvirá a voz dos
que precisam ser ouvidos.

Igreja missionária é igreja compromissada com os missionários

O que determina, de certo modo, se uma igreja é ou não missionária é o seu


envolvimento e compromisso com os missionários. Este compromisso
mostrará até onde a igreja está engajada em missões e, principalmente, até
onde ela tem sido obediente à voz do Espírito de Deus, mesmo quando atua
na retaguarda.

A igreja de Antioquia era uma igreja de compromissos. Ela estava

109
compromissada com Deus (servindo a Deus, jejuando e orando, Atos 13.2,3)
e com os missionários (impondo sobre eles [Barnabé e Saulo] as mãos, os
despediram, Atos 13.3).

É importante destacar, antes de tudo, que o envolvimento missionário da


igreja de Antioquia não estava limitado àqueles cinco nomes de Atos 13.1. E
mesmo se a imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé tivesse sido
realizada por apenas três deles, nem por isso deixaria de ser o trabalho da
igreja toda. Comentando o envio dos missionários pela igreja de Antioquia,
Kistemaker diz com razão que "toda a igreja de Antioquia estava envolvida
em comissionar Barnabé e Saulo, pois quando os missionários retornaram,
eles relataram à igreja o que Deus tinha feito (14.27)". E ainda, "o Espírito
Santo movimenta a igreja e não meramente cinco pessoas para se
engajarem na obra missionária".

A imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé não deve ser entendida,


conforme observa Liefeld, como "uma ordenação para ensinar (Paulo e
Barnabé já tinham estado no ministério cristão, e Paulo considerava que a
sua autoridade vinha diretamente de Deus, e não dos homens, nem sequer
por intermédio dos homens, Gl 1.1)". E ainda: "O certo é que Paulo e
Barnabé foram enviados para uma obra específica numa atmosfera de
adoração, oração e jejuns (At 13.1-3), uma ação que, segundo Atos 14.26, os
'recomendou à graça de Deus'".

A interpretação de Liefeld quanto à imposição de mãos em Atos 13.3 é boa


mas poderia ser melhorada. É que, além do que Liefeld diz, houve naquela
ocasião um "pacto" entre a igreja de Antioquia e os missionários, no qual a
igreja ficaria definitivamente vinculada aos missionários e os missionários à
igreja.

Uma palavra grega que expressa muito bem o vínculo do relacionamento e


do compromisso cristãos entre missionário e igreja é koinwnéw (associar).
Certa vez o apóstolo Paulo expressou sua gratidão para com os filipenses,
pelo cuidado a ele dispensado e, depois de observar que "tudo posso
naquele que me fortalece" (Fp 4.13), acrescentou: "Todavia, fizestes bem,
associando-vos na minha tribulação. E sabeis também vós, ó filipenses, que,
no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se
associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros"
(Fp 4.14,15, grifos nossos). Por duas vezes o apóstolo usa o verbo
"associar" nesta passagem. Comentando este texto de Filipenses 4.14,15,
Edison Queiroz destaca:

A palavra que Paulo está usando aqui para "associar-se" é uma palavra
comercial, usada quando duas pessoas decidem formar uma sociedade.
Assim como eles se tornam sócios, em um projeto missionário um dos
sócios é o missionário e sua família, e o outro é a igreja local; a igreja e a
família estão indo juntas ao campo.

110
Lucas registra que a igreja de Antioquia "acompanhou" as viagens
missionárias de Paulo e este, por sua vez, relatava a ela as coisas que Deus
fazia por seu intermédio. Em Atos 14.26-28, por exemplo, a primeira viagem
missionária termina com o retorno de Paulo e Barnabé à igreja enviadora
para repartir os "lucros" com os "sócios", para compartilhar os frutos do
trabalho com ela: "... navegaram para Antioquia, onde tinham sido
recomendados à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido. Ali
chegados, reunida a igreja, relataram quantas cousas fizera Deus com eles e
como abrira aos gentios a porta da fé. E permaneceram não pouco tempo
com os discípulos".

A igreja de Antioquia tomou para si a responsabilidade da obra missionária.


E por que? Porque ela se propôs a ser co-participante do Espírito no envio e
sustento dos missionários. A missão do Espírito seria a missão da igreja.

Em Atos 13.3 não aconteceu o que vemos hoje em dia. Paulo e Barnabé não
foram lançados num campo e deixados "ao deus dará". A igreja não se
esqueceu daqueles que enviou e os missionários, por outro lado, não se
lembraram da igreja somente quando o dinheiro da missão encurtou. Não
queremos generalizar, mas não é, infelizmente, o que muitas vezes temos
visto? Além disso, a igreja de Antioquia não entregou Paulo e Barnabé aos
cuidados da igreja de Jerusalém e muito menos os deixou por conta de uma
agência missionária. De maneira nenhuma! A igreja de Antioquia tinha
responsabilidade missionária. Havia nela o que Queiroz chama de
"personalização".

Atualmente, o que temos visto com freqüência são as agências ou juntas de


missões ocupando o lugar da igreja local. Não que as agências não tenham
seu devido valor, é claro que têm. Ademais, as agências de missões, em si,
não tiram a responsabilidade missionária das igrejas. Contudo, se hoje elas
estão ocupando o lugar das igrejas, indo além de suas atribuições, é porque
as igrejas estão aquém de sua vocação.

Del Pino complementa o conceito da responsabilidade missionária da igreja


dizendo: Um grande número de igrejas espalhadas por este nosso Brasil
precisa ver-se como vocacionadas por Deus para exercerem a tarefa
missionária como um fator de peso em seu ministério, precisa ver-se como a
força missionária de Deus nesse mundo e em nosso país.

Falando ainda acerca da importância da igreja local em missões, Del Pino


destaca quatro coisas que, segundo ele, deveriam acontecer em nossas
igrejas. Em resumo, são elas:

1. A igreja local como um todo precisa receber, compreender e assumir a


visão de seu lugar na obra missionária, além de compreender as dimensões
bíblica, espiritual, cultural e financeira desta tarefa.

111
2. A igreja local, compreendendo sua importância para missões, não pode
transferir esta responsabilidade.

3. A igreja local, ainda, precisa assumir por completo a sua responsabilidade


missionária. O que mais comumente vemos é que a igreja muito se alegra
com o despertar de uma vocação em seu meio, ora por aquele irmão e diz
para ele ir. Mas quando chega o momento de assumir o compromisso
financeiro regular e decente, ela se silencia, como se isso não fosse
problema dela.

4. Por fim, a igreja local precisa conscientizar-se e ver-se como a principal


agência missionária da face da Terra. Orar tendo isso em mente, agir tendo
isso em mente, pregar tendo isso em mente, trabalhar tendo isso em mente.

Para Deus só existem duas coisas: Ou somos campo, ou somos base


missionária. Se somos campo, precisamos ser evangelizados, mas se somos
base, então está na hora de trabalhar. A omissão não pode ser a missão de
uma igreja vocacionada pelo Espírito Santo de Deus.

Notas
Segundo Orlando Costas, "a prova de uma vigorosa experiência cultual será
a participação dinâmica na missão: a prova de um fiel compromisso
missionário será uma profunda experiência de culto" (Orlando E. COSTAS,
Compromiso y misión. San José-Costa Rica: Editorial Caribe, 1979, p. 151).
Idem, p. 150.
Ibidem.
Cf. Evangelização e responsabilidade social. 2a ed. São Paulo-Belo
Horizonte: ABU Editora/Mundo Cristão, 1985, p. 17-25. Por falar em
evangelização e responsabilidade social da igreja, vale a pena ressaltar que
o verdadeiro conceito de missão para a igreja de Antioquia era (como os
missiólogos contemporâneos costumam denominar) o de missão integral,
isto é, o indivíduo assistido em sua totalidade, conforme Atos 11.27-30.
COSTAS, op. cit., p. 150.
Idem, p. 150,151.
7 José MARTINS, A oração dominical e missões. In: Missões e a igreja
brasileira: perspectivas teológicas, p. 67. V. t. Durvalina B. BEZERRA, A
missão de interceder: oração na obra missionária. Londrina: Descoberta,
2001, p. 229-244.
Cf. Simon J. KISTEMAKER, New Testament Commentary: Exposition of the
Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 20,21..
Cf. KISTEMAKER, op. cit., p. 455.
John STOTT, Ouça o Espírito, ouça o mundo. 2ª ed. São Paulo: ABU Editora,
1998, p. 123..
STOTT, p. 123-125.
COSTAS, p. 113.
Idem, p. 113,114.

112
KISTEMAKER, op. cit., p. 455. V. t. J. H. BAVINCK, An introduction to the
science of missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed
Publishing Company, 1960, p. 58-60.
KISTEMAKER, p. 455. Cf. Atos 15.40.
Walter L. LIEFELD, Imposição de mãos. In: ELWELL, Walter A. (ed.).
Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã, Vol. II. São Paulo: Vida
Nova, 1990, p. 323.
Idem, p. 324.
A expressão "os despediram" de Atos 13.3 reforça a idéia de que a igreja de
Antioquia estava enviando Paulo e Barnabé, e continuaria vinculada a eles,
uma vez que o verbo apolyw, diferentemente de apospaw (At 21.1), não
sugere "despedida definitiva". V. t. Paul E. PIERSON, Atos que contam.
Londrina: Descoberta, 2000, p. 117.
Edison QUEIROZ, O melhor para missões. 2a ed. Londrina-Curitiba:
Descoberta, 1999, p. 50. V. t. Neal Pirolo, A missão de enviar: como sustentar
o seu missionário. Londrina: Descoberta, 2001, p. 13-31,179-200; Hugo PIRIZ,
A igreja e a integridade pessoal e familiar do obreiro do Senhor. In:
STEUERNAGEL, Valdir (ed.). E o Verbo se fez carne: desde a América Latina.

Curitiba: Encontrão Editora, 1995, p. 153-160.


E, certamente, este "sustento" significava mais do que orar por eles. Não
concordo com A. T. Robertson (em Word Pictures in the New Testament: The
Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1930, p. 178,9)
quando afirma que "Paulo e Barnabé tiveram que financiar a própria
viagem", com base em Filipenses 4.15. De fato, Paulo passou por muitas
dificuldades em seu ministério, inclusive financeiras (cf. Fp 4.12), mas isto
não aconteceu por falta de compromisso da igreja de Antioquia, e sim, por
causa das circunstâncias político-religiosas da época. Às vezes faltava
oportunidade para uma melhor participação da igreja (cf. Fp 4.10).
E. QUEIROZ, op. cit., p. 60. Diz ele: "O objetivo da igreja, ao fazer missões,
deve ser promover a máxima personalização, fazer com que o maior número
possível de membros da igreja tenha contato com os missionários". V. t.
Oswaldo PRADO, Do chamado ao campo. São Paulo: Sepal, 2000, p. 87,88.
Edison Queiroz destaca muito bem alguns pontos que evidenciam a
importância de uma agência missionária. Diz ele: "Há inúmeras dificuldades
para o envio de um missionário. Precisa haver contatos com outras agências
missionárias, com autoridades governamentais, emissão de vistos de
entrada e permanência, câmbio e envio de dinheiro, orientação quanto aos
relacionamentos no campo com igrejas, governo e outras agências e
avaliação in loco do andamento do trabalho.
Todas estas tarefas são difíceis para a igreja. Daí, a importância das juntas e
organizações missionárias" (E. QUEIROZ, Igreja local e missões. 3a ed. São
Paulo: Vida Nova, 1991, p. 56).
Cf. Carlos Del PINO, A importância da igreja local em missões. In: Missões e
a igreja brasileira, p. 60.
Idem, p. 60,61. V. t. E. QUEIROZ, op. cit., p. 43-58; A missão da igreja e o
despertar missionário na América Latina. In: STEUERNAGEL, Valdir R. (ed.).

113
A missão da igreja. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994, p.117-126 e O. E.
COSTAS, La misión, el ministerio y el Espírito Santo: el caso de la iglesia de
Antioquia. In: Misión y ministerio en America Latina, artigo não publicado, p.
1-7.

Parte XIX
ATOS 1.8 E A MISSÃO DA IGREJA

O contexto de Atos 1.8 é a ascensão de Cristo. Os que estavam reunidos no


monte das Oliveiras perguntaram ao Mestre quando seria o tempo da restauração
do reino de Israel. O Senhor respondeu que não competia a eles conhecer tempos
e épocas que o Pai reservou para a Sua exclusiva autoridade. Porém, prometeu:

"Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas
testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos
confins da terra".

Em Atos 1.8 o Senhor Jesus repete as promessas da Grande Comissão (Mt


28.18-20; Mc 16.14-18; Lc 24.44-49; J.o 20.21).

1. O poder do Espírito

Há uma série de termos para "poder" no Novo Testamento. Lucas empregou


dynamis em At 1.8, mas tem também exousia, thronos, bia, ischys, energia, kratos
e keras. Será que existiu algum motivo especial para que Lucas usasse a palavra
dynamis ao invés de qualquer outra, ou ele a escolheu aleatoriamente? Vejamos:
exousia é uma palavra usada com muita freqüência no Novo Testamento. A rigor é
traduzida como "autoridade". Contudo, geralmente era empregada num contexto
político (cf. Rm 13.1-3). Thronos indicava, a priori, a sede do governo, mas depois
passou a significar a pessoa que detinha semelhante posição de autoridade ou
força. Bia está associada ao emprego da força coerciva. Energia é poder no seu
exercício; força em ação. Ischys significa força física. Kratos tem um sentido
semelhante ao de ischys, mas se refere mais ao exercício da autoridade. E keras
(lit.: chifre), por sua vez, indica força e, juntamente com kratos, formam as duas
palavras do NT cujo significado fica mais perto de exousia e dynamis. Contudo,
dynamis tem um sentido todo exclusivo. É a palavra do poder sem fronteiras, por
assim dizer. Ela é a palavra por excelência para se referir ao poder do Espírito
Santo. Portanto, Lucas sabia muito bem que ao escolher dynamis estava
utilizando o termo que melhor representava a ação poderosa do revestimento do
Espírito na vida do crente e da igreja. "... permanecei, pois na cidade", disse Jesus
aos discípulos, a quem Ele havia comissionado para evangelizar o mundo, "até
que do alto sejais revestidos de poder..." (Lc 24.49; At 1.8).

Quando o Espírito Santo foi derramado por ocasião do Pentecostes, "com grande
poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor Jesus..." (At
4.33). E ainda: "Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes
sinais..." (At 6.8). Temos também a declaração de Pedro na casa de Cornélio a

114
respeito de Jesus, que "Deus ungiu...com o Espírito Santo e poder..." (At 10.38).
Nestes exemplos Lucas revela que desde o princípio o evangelho foi disseminado
pelo poder do Espírito Santo.

O poder do Espírito é o segredo do sucesso da missão da igreja. Lembremos que


os discípulos de Jesus foram homens que andaram cerca de três anos com o
Mestre. Conheceram-nO intimamente, foram ensinados por Ele, ouviram Seus
sermões e viram Seus milagres. Viram Seus sofrimentos, morte, ressurreição e
ascensão. Se alguma vez existiram homens que estivessem em melhor posição e
condição de falar ao mundo acerca da ressurreição de Jesus e de todos os fatos a
respeito dEle, estes homens eram Seus discípulos. Entretanto, o que o Senhor
Jesus diz é que eles seriam totalmente incapazes de fazê-lo se do alto não fossem
revestidos do poder do Espírito.

2. Poder e testemunho

No dia de Pentecostes a promessa de Atos 1.8 se cumpriu (1). A igreja foi


batizada e revestida do poder do Espírito Santo. Entretanto, o poder do Espírito
para a igreja não tem, como nunca teve, um fim em si mesmo. Em Atos não existe
esta concepção moderna equivocada de que o poder do Espírito é para edificar o
crente e ficar tudo por isso mesmo. Não! O poder do Espírito tinha como finalidade
primordial capacitar os crentes para dar testemunho de Cristo. No Novo
Testamento os dons ou manifestações do Espírito (línguas, curas, profecias, etc.)
foram dados com o único objetivo de que a igreja testemunhasse de Jesus ao
redor do mundo. (2). Nada do que a igreja recebe do Espírito tem nela um fim em
si mesmo. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis
minhas testemunhas...", disse Jesus (At 1.8).

Neste tópico procuraremos observar, de modo prático, o que significava nos


tempos bíblicos e o que deveria significar para a igreja evangélica brasileira hoje
ser testemunha de Jesus Cristo. E para uma reflexão imediata, vale conferir um
alerta do Dr. Charles van Engen:

"Logo antes de sua ascensão, Jesus disse a seus discípulos, como está registrado
em Atos 1.8: "... sereis minhas testemunhas [kai esesthe mou martyres]...",
começando em Jerusalém e espalhando-se geográfica e culturalmente para fora,
para os confins da terra (eôs eschatou tês gês). Muito dessa comissão, quanto à
expansão geográfica e cultural da Igreja, se cumpriu. Mas provavelmente não
captamos as palavras de Cristo em todo o seu peso: "...sereis minhas
testemunhas...".(3)

O substantivo grego martys (4) (martyres) do verbo martyreo já possuía, nos


tempos bíblicos, cinco significados principais, sendo que o último deles era a
expressão mais elevada daquilo que significava ser testemunha de Jesus; a saber:

testemunha judicial de fatos;


testemunha de fatos numa confissão de fé;

115
declaração de um fato como testemunha ocular de um ocorrido;
o testemunho evangelístico da natureza e da importância de Cristo;
martírio. (5).
Pela própria natureza da evangelização e pelas perseguições e adversidades
futuras que desafiariam a Igreja Primitiva, seria imprescindível o poder do alto para
testemunhar de Jesus. Que a igreja muitas vezes testemunhou ao preço de
sangue é algo que dispensa comentários. Contudo, é importante ressaltar, pelo
menos, dois aspectos do testemunho pelos quais os cristãos muitas vezes tiveram
que pagar com a vida. A Igreja em Atos testemunhava:

1) No poder do Espírito com sinais e maravilhas


Quanto a esta questão, vale a pena conferir o teólogo alemão Otto Betz:

"Cristo era "poderoso em obras e palavras" (Lc 24.19). Seus milagres são
chamados dynameis (cf. Heb. gebûrôt; i.é, "atos poderosos"), porque neles, o
reino de Deus na terra começa a ter efeito poderoso, e a luta contra o diabo é
levada a efeito no nível da existência humana (Mt 12.22-30; Mc 6.2; Lc 19.37; At
10.58). Jesus é o "mais forte" que, como Representante de Deus, subjuga o
"homem forte", o diabo (cf. Mc 1.8 com 3.22-30). Os milagres de Jesus são
operados por um poder dentro dEle (Mc 5.39 par. Lc 5.17; Mc 6.14). Lucas liga
este poder, dado por Deus, com o Espírito Santo em Lc 1.35; 4.14; At 1.8; 10.38.
Os milagres, portanto, são encarados como evidência da parte de Deus quanto a
Jesus ser o Messias, Aquele que foi ungido pelo Espírito (At 2.22; 10.38). A
glorificação do Messias faz dEle, em grau ainda maior, Mediador do poder
salvífico de Deus. É, pois, pelo poder do Espírito que Jesus derramou sobre os
Seus servos, que estes podem operar atos poderosos (At 4.7; 6.8; 8.13; 19.11)".
(6).

Às vezes os sinais e prodígios preparavam o palco, por assim dizer, para uma
pregação cheia do Espírito (cf. At 3; 16.16-34); outras vezes estavam intercalados
numa pregação (cf. At 20.7-12), mas na maioria das vezes sucediam a mensagem
do evangelho (cf. At 19.8-12).

2) No poder do Espírito na pregação da Palavra

Em Atos o Espírito Santo, a pregação e o ensino da Palavra estão estritamente


relacionados. Isto salienta o fato de que o Espírito de Deus costuma agir através
da Palavra de Deus. A Palavra é a espada do Espírito (cf. Ef 6.17). Michel Green
diz que um dos grandes méritos do livro de C.K.Barret, Luke the Historian, é a
maneira como ele destaca esta verdade da ligação do Espírito Santo com a
Palavra. "O principal meio através do qual o Espírito estende a soberania de Cristo
é a Palavra de Deus" (7), que incluía expressões como "palavra do Senhor",
"palavra da salvação", "palavra do evangelho", e "a palavra" tout simple. (8).

Os cristãos primitivos levavam a Palavra para qualquer lugar que fossem (8.4). O
que manteve Paulo dezoito meses ou mais em Corinto foi a Palavra (18.5). Em
Éfeso a mesma coisa, durante os dois anos em que trabalhou ali (19.10). E

116
quando Lucas quer indicar o sucesso de uma missão, ele diz que a Palavra do
Senhor "crescia e prevalecia poderosamente" (9).

"A pregação autoritativa dos apóstolos (At 4.33; Cf. 6.8-10) é vista como prova de
um poder sobrenatural" (10). Não é por menos que o evangelho causou tanto
impacto sobre Teófilo (At 1.1; cf. Lc 1.1), o centurião Cornélio (10.44), o procônsul
de Chipre (13.7) e os cidadãos de Antioquia (13.44). Não é de admirar que o
ministério da Palavra fosse prioridade para os doze (6.4). Também não é de
admirar que eles comprometessem seus convertidos com ela (20.28) e que os
missionários anônimos de Atos 8.4 a tinham como sua grande arma. Quando
alguém cria é porque a Palavra trouxe fé (4.4). Quando alguém recebia o Espírito
isto acontecia por ouvir a Palavra (10.44). Quando alguém se tornava cristão é
porque o Espírito iluminava o coração dos ouvintes com a mensagem apostólica
(16.14). "Não é exagero dizer que a Palavra é o principal instrumento na missão
evangelizadora da igreja, sob o poder do Espírito de Deus". (11).

Será que o poder do Espírito dos tempos bíblicos continua sendo o mesmo para a
igreja evangélica brasileira hoje? Com certeza, pois precisamos testemunhar. E
não é possível um testemunho autêntico de Jesus sem o poder do Espírito. A
Igreja Primitiva tinha desafios imensuráveis, mas não se curvava diante deles.
Clamava a Deus para ser revestida com mais e mais poder para proclamar com
ousadia e intrepidez as verdades do Senhor a quem ela tanto amava (At 4.23-31).
Era uma igreja de oração que buscava constantemente a plenitude e enchimento
do Espírito Santo. A igreja de hoje, principalmente no mundo ocidental, também
possui seus desafios. Felizmente (ou seria infelizmente?) seus desafios são mais
de ordem interna que externa. Atualmente já não são tantos os Pilatos, os
Herodes, os judeus e gentios que estão perseguindo a igreja. Hoje, a igreja é
perseguida pelo fantasma de sua própria morbidez por persistir, muitas vezes,
numa vida contemplativa, alienada do mundo, com pouca ou nenhuma perspectiva
da missão para a qual ela foi chamada.

Em outro estudo de minha autoria (A Missão Integral da Igreja), disse algo a


respeito da igreja de Jerusalém que poderia ser repetido aqui. "Uma lição é
preciso aprender com a igreja de Jerusalém: A igreja de Jerusalém estava
consciente de sua missão no mundo. Era uma igreja unida em seus propósitos e
se amava de verdade. Internamente ela estava pegando fogo, desejosa de pregar
o evangelho, em obediência ao mandado de Cristo. Porém, externamente os
desafios eram humanamente insuperáveis. Pilatos, Herodes e muita gente se
levantaram contra a igreja de Deus. Então a igreja orou: "agora, Senhor, olha para
as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez
a tua palavra, enquanto estendes as mãos para fazer curas, sinais e prodígios por
intermédio do nome do teu santo Servo Jesus" (At 4.29,30).

E Deus atendeu ao clamor de sua igreja (At 4.31). Atendeu porque a igreja deixou
de lado seus próprios interesses para servir ao mundo. Hoje, o que muito se vê, à
nível de igreja local, é a própria igreja criando obstáculos para não fazer a obra do
Senhor. Externamente desfruta-se de uma liberdade religiosa como nunca se viu,

117
mas internamente muito de nossas igrejas estão enfermas, quando na verdade
eram elas que deveriam estar curando!".

Esta é a triste realidade de muitas igrejas históricas e pentecostais brasileiras em


nossos dias. Mas graças ao bom Deus, não é a realidade de todas elas. O vento
sopra onde quer e está soprando em muitas de nossas igrejas. Deus seja louvado!
Entretanto, precisamos orar mais, precisamos ser avivados (no verdadeiro
conceito bíblico desse avivamento), precisamos do poder e enchimento do Espírito
para transpor nossos próprios portões, a fim de sermos o verdadeiro sal da terra e
a verdadeira luz do mundo. A ordem e a promessa de Atos 1.8 é para a gente
também!

Gostaria de concluir este tópico com uma declaração urgente e atual do Comitê de
Lausanne sobre a importância do poder do Espírito Santo na missão da igreja:

"Cremos no poder do Espírito Santo. O Pai enviou o seu Espírito para dar
testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão.
Convicção de pecado, fé em Cristo, novo nascimento e crescimento cristão, é tudo
obra dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário; de maneira
que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito.
A igreja que não é missionária se contradiz a si mesma e debela o Espírito. A
evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja
na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder. Portanto,
instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do soberano
Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu povo, e que
todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja inteira se
tornará um instrumento adequado em suas mãos, para que toda a terra ouça a
Sua voz". (12).

. A esfera de atuação da igreja

A missão da igreja consiste em percorrer o mundo todo para pregar o evangelho a


toda criatura (cf. Mc 16.15). Em Atos 1.8 Jesus especifica a missão global da
igreja dizendo que ela deveria testemunhar "...tanto em Jerusalém, como em toda
a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra". A expressão "tanto...como" de
Atos 1.8 é formada, no grego, pela partícula enclítica te mais a conjunção kai. Em
grego "tanto...como" equivale ao nosso adjetivo comparativo e sugere, em Atos
1.8, simultaneidade de trabalho; isto é, Jesus não estava dizendo simplesmente
que a Sua igreja precisava escolher uma dessas áreas geográficas para trabalhar
ou que deveria começar por uma de cada vez. Pelo contrário, a idéia bíblica do
termo aqui é: atuar ao mesmo tempo em todos os lugares da terra. (13).

Infelizmente, hoje em dia não são poucos os crentes equivocados quanto à


compreensão da ordem do Mestre. Quantas vezes já não ouvimos indagações
mais ou menos assim: "Por que mandar ou sustentar missionários no estrangeiro
se temos tanto o que fazer no Brasil?". Como sabemos, a maioria dos que pensam
assim não está preocupada com a obra missionária nem mesmo no seu próprio

118
país. Jesus ordena que o trabalho missionário da igreja seja te...kai, isto é, temos
que evangelizar lá sem esquecer de cá e vice-versa.

Uma aplicação contextualizada das regiões citadas por Jesus fica por conta da
nossa imaginação, mas sem, evidentemente, deturpar o texto bíblico. Jerusalém
foi o berço dos acontecimentos básicos do cristianismo. Boa parte do ministério de
Jesus ocorreu em Jerusalém. Nela Jesus morreu, ressuscitou e ordenou a
evangelização do mundo. Nela Jesus prometeu o Espírito Santo e nela, no dia de
Pentecostes, a igreja cristã foi inaugurada e habilitada para cumprir a Grande
Comissão. Para efeito de comparação e aplicação da ordem de Jesus, podemos
identificar Jerusalém com a cidade em que moramos. A Judéia, por sua vez, era a
província que tinha Jerusalém como capital. Supomos que a nossa Judéia seja o
estado onde estamos vivendo. Samaria era uma região mais afastada, situada ao
norte da Judéia. Poderíamos comparar Samaria ao nosso paísl? Os confins da
terra (14) significam, naturalmente, que devemos ser testemunhas de Jesus para
todos os povos. Atualmente sabe-se que "os confins da terra" de Atos 1.8 é mais
que "universalidade concebida de forma geográfica". É geografia sim mas também
é etnia. A missão da igreja contemporânea é mais do que missão estrangeira, é
missão transcultural que envolve, por exemplo, os índios do Brasil.

NOTAS
(1) Harry Boer, missionário reformado na Nigéria na década de 50, escreveu
Pentecost and Missions (1961). "A tese desse trabalho", segundo Samuel Escobar
(Desafios da Igreja na América Latina (São Paulo: Ultimato, 1997), p. 43), "é que
no estudo de missões prestou-se muita atenção à Grande Comissão, mas não de
igual modo a Pentecostes, e que o ponto de partida de missões no Novo
Testamento é o que aconteceu em Pentecostes. Ele propõe uma revisão não só
da teologia de missões, mas da teologia em geral, à luz desse fato. Seu cuidadoso
estudo do material bíblico seguia a convicção de que escreveu-se muito sobre a
obra do Espírito Santo na salvação dos seres humanos, mas muito pouco sobre
seu significado crucial para o testemunho missionário da igreja. O assunto não foi
totalmente ignorado, mas deveria ser central na reflexão sobre missões, e tem
sido relegado à periferia". Desde que não se entenda que o Pentecostes deve ser
desvinculado da Grande Comissão, a ponto de não ter ligação alguma com ela,
estou de pleno acordo com Boer e Escobar.

(2) Cf. R. C. Sproul, O Mistério do Espírito Santo (São Paulo: Cultura Cristã,
1997), p. 144.

(3) (3) C. van Engen, Povo Missionário, Povo de Deus (São Paulo: Vida Nova,
1996), pp. 122,3 (Grifo nosso).

(4) Das 34 ocorrências de "martys" no Novo Testamento, 13 estão em Atos.

(5) Cf. Kittel, G. & Friedrich, G., "martys", em The Theological Dictionary of the
New Testament apud C. van Engen, Op. Cit., p. 123.

119
(6) O.Betz, "Poder" em Dicionário de Teologia do Novo Testamento, Vol. III (3. ed.
São Paulo: Vida Nova, 1985), p. 576.

(7) Barret apud M.Green, Evangelização na Igreja Primitiva (2. ed. São Paulo: Vida
Nova, 1989), p.185. Barret, segundo Green, afirma que "a pregação ou
recebimento desta Palavra é mencionado nada menos que trinta e duas vezes em
Atos" (p. 202).

(8) Idem, p. 185.

(9) Foi assim na Judéia (6.7), Samaria (8.4-7,14), na primeira viagem missionária
(13.49) e na Ásia (19.20).

(10) O. Betz, Op. Cit., p. 576.

(11) M. Green, Op. Cit., p. 185.

(12) O Pacto de Lausanne, XIV. V.t. Jonh Stott Comenta o Pacto de Lausanne
(São Paulo: ABU Editora), 1983.

(13) Júlio Paulo Tavares Zabatiero discorda da idéia de simultaneidade de Atos


1.8. Para ele "a expressão grega te kai, em Lucas, significa simplesmente "e" (Lc
23.12; At 1.1; 4.27; 5.24; 21.30)" (Zabatiero, "Poder e Testemunho - Missões em
Atos 1 e 2" em Missões e a Igreja Brasileira, Vol. III (São Paulo: Mundo Cristão,
1993), p. 83). Pela fraseologia de Zabatiero e as referências citadas, tudo indica
que ele está seguindo o Léxico do N.T. Grego/Português de F. Wilbur Gingrich e
Frederick W. Danker do qual ele foi o tradutor. Para Gingrich e Danker te kai
"freqüentemente significa simplesmente e" (p. 204). Entretanto, "freqüentemente"
não é o mesmo que "sempre". Além disso, na relação das referências de Atos,
onde te kai poderia possivelmente ser traduzido como "e", Gingrich e Danker não
mencionam Atos 1.8. E esta omissão não aparece somente na tradução de
Zabatiero, que até justificaria por ser um resumo de A Greek-English Lexicon of
the New Testament and other Early Christian Literature, porém, nem mesmo nesta
volumosa obra (900 páginas!) Atos 1.8 é citado para provar tal argumento. Será
que os autores simplesmente, sem mais nem menos, deixaram de incluir na lista
deles uma das principais passagens de Atos? Acredito que não.

(14) Convém lembrar que o conceito de confins da terra da maioria das pessoas
nos tempos bíblicos não era o mesmo conceito de Jesus e do Espírito Santo. A
concepção geográfica dos cristãos primitivos era limitada. Paulo, por exemplo,
mostrou-se desejoso de ir à Espanha (Rm 15.24,28), naturalmente porque
entendia que ela fosse os confins do extremo ocidental da terra.

BATISMO DE CRIANÇAS
Algumas Considerações

120
A prática de batizar os filhos dos cristãos vem desde os primórdios do
cristianismo. Pais da Igreja, como Irineu (século II), se referem ao batismo infantil.
Orígines (século IV) foi batizado quando criança. Hoje, milhares de cristãos
evangélicos no mundo continuam a prática, embora alguns pais permitam que
seus filhos sejam batizados apenas porque faz parte da tradição religiosa na qual
nasceram. Para outros, o batismo é um ato pelo qual consagram seus filhos ao
Senhor, com votos solenes de educá-los nos caminhos de Deus até, a idade da
razão.

Evidentemente nem todos os evangélicos concordam que o batismo infantil seja a


única maneira de se fazer isso. Muitos preferem apresentar seus filhos ao Senhor,
sem batizá-los, pois acreditam que o batismo é somente para adultos que crêem.
Porém, tanto os que batizam seus filhos, quanto os que os apresentam, têm um
desejo só, de vê-los crescer nos caminhos do Evangelho, e, quando chegarem à
idade própria, publicamente professar sua fé pessoal em Cristo Jesus.

Alguns me perguntam por que apresentei meus quatro filhos para serem
batizados, quando cada um ainda não tinha mais que dois meses. Minha resposta
é que acredito estar seguindo a tradição bíblica, que remonta ao tempo do Antigo
Testamento, e que não foi abolida no Novo, de incluir os filhos dos fiéis na aliança
de Deus com o seu povo. Batizei meus filhos crendo que, através desse rito
iniciatório, eles passaram a fazer parte da Igreja visível de Cristo aqui na terra.
Minha crença sé baseia no fato de que, quando Deus fez um pacto com Abraão,
incluiu seus filhos na aliança, e determinou que fossem todos circuncidados (Gn.
17.1-14). A circuncisão, na verdade, era o selo da fé que Abraão tinha (ver Rm 4-
3,11 com Gn 15.6), mas, mesmo assim, Deus determinou-lhe que circuncidasse
Ismael e, mais tarde, Isaque, antes de completar duas semanas (Gn. 21.4).
Abraão creu e o sinal da sua fé foi aplicado à Isaque, mesmo quando este ainda
não podia crer como seu pai. Mais tarde, quando Moisés aspergiu com o sangue
da aliança as tábuas da Lei dada por Deus, aspergiu também todo o povo
presente no monte Sinai, incluindo obviamente as mães e seus filhos de colo (Hb
9.19-20).

Estou persuadido de que a Igreja cristã é a continuação da Igreja do Antigo


Testamento. Símbolos e rituais mudaram, mas é a mesma Igreja, o mesmo povo.
O Sábado tomou-se em Domingo, a Páscoa, em Ceia, e a circuncisão, em
batismo. Os crentes são chamados de "filhos de Abraão" (Gl 3.7,29) e a Igreja de
"o Israel de Deus" (Gl 6.16). Não é de se admirar que Paulo chame o batismo de
"a circuncisão de Cristo" (C12.11).

Foi uma grande alegria ter meus filhos batizados e vê-los, assim, receber o selo
da fé que minha esposa e eu temos no Senhor Jesus. Deus sempre tratou com
famílias (Dt 29.9-12), embora nunca em detrimento da responsabilidade individual.
Assim, Deus mandou que Noé e sua família entrassem na arca (Gn. 7.1), chamou
Abraão e sua família (Gn 12.1-3) e castigou Acã, Coré e suas famílias juntamente.
Paulo, ao refletir sobre a história de Israel e ao mencionar a passagem dos
israelitas pelo Mar Morto, diz que todo o povo foi batizado com Moisés, na nuvem

121
e no mar inclusive as crianças, é claro, pois havia milhares delas (1 Co 10.1-4).
Não é de se admirar, portanto, que Pedro, no dia de Pentecostes, ao chamar os
ouvintes ao arrependimento, à fé em Cristo e ao batismo, disse-lhes que a
promessa do Espírito Santo era para eles e para seus filhos (At 2.38-39). E não é
de admirar que os apóstolos batizavam casas inteiras em suas viagens
missionárias: Paulo batizou Lídia e toda sua casa (,At. 16.15), o carcereiro e todos
os seus (At 16.3233), a casa de Estéfanas (1 Co 1.16). É verdade que não se
mencionam crianças nessas passagens, mas o entendimento mais natural de
"casa" e "todos os seus" é que se refira à família do que creu e fica difícil imaginar
que, se houvesse crianças, elas teriam sido excluídas. Pois, para Paulo, os filhos
dos crentes eram "santos" (1 Co 7.14), ao contrário dos filhos dos incrédulos.
Talvez ele estivesse seguindo o que o Senhor Jesus havia dito, que não
impedissem as crianças de virem a Ele (Mc 10.13-16).

Compreendo a dificuldade que alguns terão quanto ao batismo infantil, pois não há
exemplos claros de crianças sendo batizadas no Novo Testamento. É verdade.
Mas é igualmente verdade que não há nenhum exemplo de um filho de crente
sendo batizado em idade adulta. Neste caso, talvez seja mais seguro ficar com o
ensino do Antigo Testamento., Se os judeus que se converteram a Cristo não
podiam batizar seus filhos, era de se esperar que houvesse alguma proibição
neste sentido por parte dos apóstolos, já que estavam acostumados a incluir seus
filhos em todos os aspectos da religião judaica. Mas não há nenhuma proibição
apostólica quanto a isso.

Compreendo também que alguns têm dificuldades com o batismo infantil por
causa da prática da Igreja Católica e de algumas denominações evangélicas, que
adotam a idéia da regeneração batismal, isto é, que, pelo batismo, a criança tenha
seus pecados lavados e seja salva. Pessoalmente não creio que seja este o
ensino bíblico. O batismo infantil não salva a criança. Meus filhos terão de exercer
fé pessoal em Cristo Jesus. Não serão salvos pela minha fé ou da minha esposa.
Eles terão de se converter de seus pecados e crer no Senhor Jesus, para que
sejam salvos. O batismo foi apenas o ritual de iniciação pelo qual foram admitidos
na comunhão, da Igreja visível. Simboliza a fé dos seus país nas promessas de
Deus quanto aos seus filhos (cf. Pv 22.6; At 2.38; At 16.31) e expressa os termos
da aliança que nós e nossos filhos temos com o Senhor (Dt ' 6.6,7; Ef 6.4). Se, ao
crescer, uma criança que foi batizada resolver desviar-se dos caminhos em que foi
criada, é da sua inteira responsabilidade, assim como os que foram batizados em
idade adulta, e que se desviam depois.

Certamente que o Novo Testamento fala do batismo como sendo uma expressão
de fé e de arrependimento por parte daqueles que se convertem a Cristo - coisas
que uma criança em tenra idade não pode fazer. Por outro lado, lembremos que
passagens assim não tinham em vista os filhos dos fiéis, mas toda uma primeira
geração de adultos que se converteram pela pregação do Evangelho.

Mas, ao fim, tanto os que batizaram seus filhos quanto os que os apresentaram,
devem orar com eles e por eles, serem exemplos de vida cristã, levá-los à Igreja,

122
instruí-los nas Escrituras e viver de tal modo que, ao crescer, os filhos desejem
servir ao mesmo Deus de seus pais.

Fonte: Revista Fides Reformata

Parte XX
COMO MEMBROS DO CORPO DE CRISTO

"Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros
do corpo, embora muitos formam um só corpo, assim também é Cristo. Pois em
um só Espirito fomos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos,
quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espirito. Para
que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns
dos outros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se
regozijam com ele. Ora, vos sois corpo de Cristo, e individualmente seus
membros"
(1Co 12.12,13,24-27)

A Igreja de Jesus Cristo tem uma natureza militante, e é descrita através de


imagens riquíssimas como "Povo de Deus", "Corpo de Cristo" e "Comunhão no
Espírito". Expressa-se também como um corpo local. Assim, falamos na Igreja
Batista Sião, na Igreja Presbiteriana da Bahia, na Igreja Evangélica Fluminense
como uma dessas comunidades locais, onde o nome de Jesus Cristo é exaltado,
Sua palavra, estudada, e onde nos estimulamos e encorajamos a crescer em
amor. "A Igreja é uma companhia de crentes regenerados e batizados que se
associam num conceito de fé e fraternidade do evangelho".

A IGREJA

A Igreja é isso: uma congregação de crentes cuja única cabeça é Jesus Cristo. É
uma fraternidade de pessoas que crêem em Jesus Cristo como Salvador pessoal,
e Lhe obedecem seguindo-O como discípulos e tendo-O como Senhor.

Sim, formamos uma comunidade (At 2.42; 1Jo 1.3,6,7), e, se comunidade temos
algo em comum: a fé comum em Cristo Jesus (Tt 1.4; 1Co 1.9), o sangue de
Cristo (1Co 10.16), o Espírito Santo (Fp 2.1; 2Co 13.13). A verdadeira comunidade
cristã é criada e sustentada por uma fé e uma vida comuns em Cristo, um
compromisso de obediência comum a Cristo como Senhor, uma participação
comum no Espirito.

Somos "irmãos". É a mais freqüente designação do Novo Testamento para os


crentes em Jesus Cristo. Aparece cerca de 250 vezes nos Atos e cartas. É uma
saudação natural (cf. Rm 8.29; Tg 2.15; 1Jo 2.10), e quer dizer que fraternidade
tem a ver com amor, com responsabilidade mútua, plena participação na família
de Deus, e um compartilhar pleno na realização da vida da igreja. Jesus disse que
"irmão" era quem fazia a vontade de Deus: "Pois aquele que fizer a vontade de

123
Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mc 3.35).

Não há superioridade, não há diferença quando chamamos o outro de "meu


irmão" (Mt 23.8). Diferença que exista é de dom e função na Causa de Cristo, "Ora
há diversidade de dons, mas o Espirito é o mesmo. E há diversidade de
ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o
mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação
do Espirito para o proveito comum" (1Co 12.4-7).

Somos membros uns dos outros, sim, porque confessamos a um só Senhor:


Jesus Cristo (Mt 10.32; 1Jo 2.23; 4.15); porque filhos do mesmo Pai (Jo 1.12, Rm
8.14-17); porque regenerados pelo poder do Santo Espírito (Tt 3.5; Ef 1.13; Lc
11.13).

A Igreja de Jesus Cristo, da qual somos membros pelas razões já expostas, é ,


então, um centro de trabalho e de lealdade. E visto que o propósito redentor de
Deus é para ser realizado por meio da Igreja, "Para que agora a multiforme
sabedoria de Deus seja manifestada , por meio da Igreja, aos principados e
potestades nas regiões celestes, segundo o eterno propósito que fez em Cristo
Jesus nosso Senhor." (Ef 3.10,11), a participação nesse plano deve ser o ponto
focal da lealdade do irmão e do seu trabalho. E é realizado através da Igreja local,
o que significa que seu esforço, sua atividade, sua iniciativa devem ser através
desta abençoada comunhão local. É uma questão de investimento espiritual,
investimento de alto retorno em termos de crescimento, de conhecimento, de
graça, de amor alegria, paz, bênçãos! Muitas bênçãos!

E PARA SER MEMBRO DA IGREJA?

Há condições, pois pode uma pessoa ser cristã e não ser membro de uma Igreja
local. Por outro lado, há quem participe da comunhão terrena, mas não do
nascimento celestial. Por isso, "Saíram dentre nós, mas não eram dos nosso;
porque, se fossem dos nosso, teriam permanecido conosco; mas todos eles
saíram para que se manifestasse que não são dos nossos" (1Jo 2.19).

Todos devem ser salvos antes de se tornarem membros de uma Igreja; e se é


salvo, é normal que busque a comunhão do povo de Deus. Então, aí esta a
primeira exigência para ser membro da Igreja de Cristo: regeneração através do
arrependimento, "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de
Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o Dom do Espirito
Santo" (At 2.38).

Importa que isso aconteça porque o salvo é batizado no Espírito Santo, e assim
unido à Igreja de Deus: "Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um
só corpo , quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi
dado beber de um só Espírito" (1Co 12.13), e essa expressão "batismo no Espírito
Santo"significa o ministério do Espírito em favor do que crê. Não se pode ser
membro por ordem de outros, por procuração, ou sem exercício da fé como no

124
caso de recém-nascidos.

Após a regeneração, o passo da obediência: o batismo. O ingresso tem


seguimento pelo batismo: Jesus deu ordem definida sobre isso (cf. Mt 28.19; cf. At
8.36-38; 10.47; 16.33; Gl 3.27), e o batismo há de ser realizado em nome do Pai, e
do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.19). Deste modo, o novo convertido é batizado
para se tornar célula viva, membro ativo na comunhão de irmãos que se chama
Igreja de Jesus Cristo.

QUALIDADES DO MEMBRO DA IGREJA DE CRISTO

1. Amor ao estudo da Palavra de Deus. Na Reforma Protestante do século 16, a


exclamação "Sola Scriptura!" ("apenas e unicamente a Escritura Sagrada!"). A
Palavra de Deus que alegra o coração, fortalece o espirito e alimenta a alma (Mc
12.24; 2Tm 3.16,17). Tomá-la para "ler, viver e crescer", lembrando a exortação:
"Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de
que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade". Com o objetivo de
"antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre
preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a
razão da esperança que há em vós" (2Tm 2.15; 1Pe 3.15).

2. Fervor na Oração. Jesus ensinou: "Contou-lhes também uma parábola sobre o


dever de orar sempre, e nunca desfalecer" (Lc 18.1); Paulo exortou "orai sem
cessar" (1Ts 5.17), e Tiago deixou claro: "Confessai portanto, os vossos pecados
uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados. A súplica de um
justo pode muito na sua atuação" (Tg 5.16). Pois oração implica em atitude de
dependência de Deus, em comunhão com Deus, em absoluta confiança em Deus.

3. Assiduidade os cultos. Está em Hebreus 10.25: "Não abandonando a nossa


congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros;
e tanto mais, quando vedes que se vai aproximando aquele dia" (cf. At. 2.42)

E isso para ir ao encontro do Senhor e dos irmãos (Sl 84.2,4; 133.1), para receber
do Senhor bênçãos e mais abundância de vida (Sl 133.3; Mt 18.20; Jo 10.10),
para imitar o exemplo dos primeiros cristãos (At 2.46).

4. Atividade. Consciência dos dons que recebeu e usá-los: pregar, ensinar,


exortar, consolar. Socorrer, cantar, administrar, o que quer que seja.

Há membros e há membros. Há os salvos, batizados no Espirito, regenerados,


portanto; lavados no sangue de Cristo, exemplares, úteis, vidas inspiradoras, e
que levam a igreja a crescer. Há os postiços, agregados ao Corpo de Cristo, mas
como um corpo estranho. Não crescem, não fazem crescer escandalizam até.
Jesus os chamou "joio"no meio do trigal, "bodes" no meio das ovelhas (Mt
13.24ss; 25.32ss). Levam freqüentemente a igreja à tristeza, criam problemas.

Mas é preciso recordar e viver a comunhão com Cristo no batismo (Rm 6.3,4), na

125
morte (v.4), na ressurreição (v.5; Ef 2.6), na vida eterna (v.8). Crucificados com
Ele (Gl 2.20), vivificados com Ele (Ef 2.5), e com Ele nos céus (Ef 2.6; cf. Mt 8.11;
23.2; Cl 3.1; 2Ts 2.4; hb 8.1; Ap 3.21). E também a comunhão com os outros, tão
essencial que João a põe como prova de conversão (1Jo 3.14-18; cf. Jo 13.35;
17.21; 1Co 13.1-13).

A IGREJA LOCAL

O princípio da Igreja diz que pertencer-lhe é um santo privilégio e um sagrado


dever. Há uma alegria especial em ser membro da igreja. Aliás, o Novo
Testamento não fala de experiência cristã praticada independentemente, e isolada
dos outros crentes. Jesus andava e mantinha comunhão com seus discípulos,
homens e mulheres, unidos todos em amor comum e lealdade (cf. Mt 10.1ss, 28;
27.55; Mc 6.7ss; Lc 8.1-3; 9.1ss; Mt 20.17).

Como é você como membro da Igreja de Cristo? Como eram os primeiros


cristãos? É somente ler Atos ou as Cartas. Era imperativo que vigiassem sua
conduta, que preservassem a harmonia entre eles, e tivessem a consciência de
que a verdade divina lhes fora confiada; eram ativos no testemunho de Jesus
Cristo; estavam vigilantes quanto à Sua Segunda vinda, encontravam alegria na
comunhão, a igreja era um investimento de vida. Na igreja, todos os crentes têm
direito a privilégios iguais. Isso não se refere a diferenças de habilidades ou
capacidades espirituais das pessoas.

Dizer isso significa que ninguém tem privilégio especial sobre outro. Só Cristo!
Então, já que há direitos iguais de acesso a Deus, há privilégios iguais na igreja.
Essa é a razão porque somos uma fraternidade, uma família da qual Deus é o Pai,
e Jesus Cristo o irmão mais velho (R.M. 8.29; Mt 6.9; 12.50; 23.9; Lc 8.21; Ef 4.6;
1Pe 1.17). A igreja não é uma relação de sócios ou de membros ou de filiados. É
uma comunhão. Se alguém está fora dessa comunhão, seja por falta grave,
abandono, escândalo, falsa doutrina, deve ser excluído da igreja porque, de fato,
já se auto-excluiu (Rm 16.17; 1Co 5.5,3-5, 9-11,13; 2Ts 3.6,14,15; 1Tm 1.18-20; Tt
2.10,13; 2Jo 9-11; Jd 4,10-13, 16-19; 1Tm 5.2b; 2Tm 3.5; Tt 3.10).

O falecido mestre do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil (no Recife),


Pr. Harald Schaly, ensinou haver três tipos de membros de igreja que podem ser
comparados a barcos: os que tem motor próprio; os que possuem vela (precisam
de vento, de agitação, de movimento, de campanhas, de novidades para vir à
igreja); aqueles que são como balsas (são puxados). Estes são peso morto na
igreja, alguns fazem pouco ou nada fazem, não trabalham e dão trabalho; têm
nome no rol de membros, mas só aparecem no Natal ou Noite de Ano Novo. Vão
à igreja como quem vai ao teatro: esperam boa música, bom sermão, e que todos
sejam sociáveis. Há quem, sendo membro da igreja, espere convite especial para
vir; há quem venha se tiver cargo; há quem, sendo membro de uma igreja, é muito
operoso, apreciado, mesmo, porém em outras igrejas, nunca na sua (?!). O
mesmo Pr. Schaly conta uma história. A do vaqueiro crente: "eu trabalho para
"seu" Vicente; mas mesmo que eu passasse todo o tempo falando de "seu"

126
Vicente , dizendo que é o melhor patrão, e cantasse muito para ele (já que ele
gosta de música sertaneja), e não fizesse meu serviço com o gado, ele me
mandaria embora!" Jesus não falou naqueles que dizem "Senhor, Senhor! E que
não entrarão no reino dos céus?"

Pois é; a igreja é chamada a crescer. E o modelo é o de Atos 2.47: "Louvando a


Deus, e caindo na graça de todo p povo. E cada dia acrescentava-lhes o senhor
os que iam sendo salvos".

Crescer em todas as direções:

para o alto, buscando o altar de Deus;


para baixo, aprofundando-se na doutrina do Senhor;
para os lados, atingindo os não conhecem a salvação em Cristo Jesus;
de dentro para fora, pela vida espiritual intensa pela consagração à causa;
e de fora para dentro, agregando pecadores regenerados.
Cresce a igreja, cresce o reino de Deus. É um crescimento lento porem
continuado. Como árvore que nasce da semente, ou o fermento na massa do pão
(Mt 13.31-3). Crescimento, não inchação!

É isso: precisamos de crentes que busquem o reino de Deus em primeiro lugar;


que sejam luz do mundo; que sejam santos porque o Senhor é santo; que amem a
Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento; que amem ao
próximo como amam a si mesmos; que confiem no poder da intervenção; que
exerçam o sacerdócio dos crentes; que amem a Palavra de Deus; que façam do
crescimento pessoal assunto de perseverança, cuidado e prática diária.
Precisamos de crentes que entendam ser a igreja local o lugar previsto por Deus
para a comunhão, e onde os recursos para o crescimento cristão ao dispor
(venha, portanto, à EBD!). É esse, aliás, o mais eficiente meio de deter nossa
tendência de fazer renascer a velha criatura. Por isso, "Antes exortai-vos uns aos
outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de
vós se endureça pelo engano do pecado" (Hb 3.13).

Que nos comprometamos a ter cuidado uns dos outros, que nos lembremos uns
dos outros em nossas orações, que nos ajudemos mutuamente em nossas
enfermidades (Tg 5.16b), a cultivar relações francas e a delicadeza no trato e a
estar pronto a perdoar as ofensas (Mt 6.12-15), a buscar a paz com todos. Que
Deus nos ajude!

Parte XXI
COMO SE FAZ UMA GRANDE IGREJA

"Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse,
tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a
si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém
santa e sem defeito" (Ef 5.15b-27).

127
É desejo comum que esta nossa igreja seja grande em todos os sentidos. Por
isso, oramos no sentido que cresça em número e espiritualidade. Uma grande
igreja não é a que tem o maior templo da cidade, nem as melhores salas para a
educação religiosa do seu povo, o melhor coro, ou o maior balancete mensal, ou a
que levanta as maiores ofertas missionárias e para outros fins. Não é aquela cujo
pastor é o melhor orador da cidade, e os membros os mais destacados da
sociedade.

No entanto, incidentalmente, uma grande igreja pode ter tudo o que foi
mencionado.. No entanto, uma grande igreja é a quem tem certas características
bíblicas que passaremos a enumerar.

UMA GRANDE IGREJA É A QUE TEM UM MINISTÉRIO PARA TODOS

Cada crente é chamado por Deus para ser um ministro. Isso é interessante porque
podemos pensar que a palavra "ministro" é tão elevada, pois, afinal de contas, é
utilizada no primeiro escalão do governo. Falamos em Ministro da Educação,
Ministro das Finanças, e assim por diante. Palavra, portanto, usada para pessoas
de altíssimo gabarito, do alto escalão do governo.

No entanto, é palavra tão simples. Há uma diferença abismal entre as palavras


"ministro" e "mestre". "Mestre" vem de uma palavra da língua latina, magister, de
onde procedem, ainda, "magistério", "magistrado", designando alguém que era
procurado por ter "algo a mais (magis)". Era que tinha com que contribuir.
"Ministro" vem de minister, procedente de minus, alguém que tem "algo de
menos", o servo, o escravo.

A Bíblia diz que nós temos um serviço. Essa palavra "ministro" é usada,
sobretudo, para dizer "servo" e o conseqüente serviço prestado. Somos todos
chamados para ser ministros de Jesus Cristo. Isso é algo básico, é um conceito
bíblico, evangélico em todos os sentidos porque Jesus declarou "O Filho do
Homem (Cristo) não veio para ser servido, mas para servir...",e é igualmente
prático (cf. Ef 4.11,12; Mc 10.45).

Talvez uma pergunta esteja na mente dos leitores: "se todos vão ser ministros,
quem vai ser o pastor?" É precisamente neste tipo de pergunta que há mal-
entendidos, pelo fato de algumas pessoas ainda presumirem que o pastor tem que
fazer tudo na igreja, de preferência ao mesmo tempo, e, estar em todas as
reuniões, algumas marcadas ao mesmo tempo, e, se possível, que ele tenha o
singular condão nunca esperado de outras pessoas, de estar presente em todas
essas reuniões.

No entanto, ensina a Palavra Santa que a principal tarefa do pastor é preparar,


capacitar os cristãos para o exercício eficiente de seus ministérios. Lembremos
que o pastor trabalha COM a igreja capacitando-a, treinando-a para o exercício
eficaz do ministério de cada pessoa. Esse é um fato altamente prático, e quer

128
dizer que cada um de nós tem um ministério. Você vai dizer, "Pastor, não sei qual
é o meu ministério, o meu dom". Os chamados testes dos dons dão uma pista.
Dom não é o talento natural, pois alguém pode ter um grande talento em certa
área, e não ter sido capacitada por Deus para exercê-lo no ambiente de formação
espiritual da igreja. Você reconhece o seu dom espiritual pela compulsão que
parte do seu íntimo. Você sente o desejo de realizar algo. Há um irmão em nossa
igreja que tem o evidente carisma do socorro, da ajuda. Não é a contribuição em
dinheiro para resolver a débil situação econômica de alguém. É que no momento
em que você diz "Preciso de tal coisa", ele responde "Pronto, diga onde está que
vou buscar". Sem alarde, ele diz "Vou resolver".

Essa é uma grande igreja, a que tem um ministério para cada pessoa. Cada um
sabe qual o seu ministério, se evangelismo, se ação social, se ensino. Cada um
faz alegria, com prazer, e não é preciso pedir "Por favor" porque o Espírito Santo
já capacitou para tal trabalho. Soube de uma igreja no estado da Flórida (EUA)
onde não indicação para os cargos. As posições são disponíveis e os membros
dizem à Comissão, "Quero trabalhar nessa função", e os cargos vão sendo
preenchidos de acordo com a vontade de trabalhar da pessoa. Assim fazendo,
trabalha quem quer trabalhar, porque infelizmente, muita gente fica esquecida
quando a Comissão de Indicações vai estudar os nomes e cargos. Uns são
esquecidos, outros recebem três, quatro, cinco cargos. Com um ministério para
cada um, essa é uma grande igreja!

UMA GRANDE IGREJA É AQUELA QUE TEM FIRMEZA DE FÉ E DE


DOUTRINAS

Como é possível obter uma fé estável, firme, que não seja levada por todo vento
de heresia ou de corrupção? Temos algumas pistas na Palavra de Deus. Uma
muito simples é compartilhando as experiências nos cultos. A Carta aos Hebreus
quase que diz "Não deixando a vossa congregação como é costume de... Fulano
de Tal..."Mas o Espírito Santo diz "Não deixando a vossa congregação como é
costume de alguns". E esses "alguns" sabem quem são e quais são os costumes:
de faltar sem necessidade, de passear pelas outras igrejas (o chamado "turismo
eclesiástico").

Irmão amado, irmã querida, qual a sua mesa espiritual? Já imaginou se seu filho
resolvesse que amanhã vai almoçar na casa do vizinho, e terça-feira na casa da
tia, quarta-feira vai para a do primo, e assim cada dia da semana. Seria uma
tremenda economia para o irmã, mas o feijão-com-arroz é em casa. Fora, há
banquete, mas há tantos banquetes que fazem mal. Feijão-com-arroz bem
preparado, bem temperado edifica, faz crescer, engorda e faz ficar bonito. O
mesmo com a doutrina: edifica, fortalece, encaminha.

O hábito da freqüência sistemática aos cultos é uma bênção na vida do cristão por
ser fundamental para a firmeza de suas convicções. Li uma frase (mas não vou
dar 100% de crédito porque conheço a luta de alguns irmãos): "No domingo de
manhã, vêm todos; à noite, só os fiéis". Achei-a um tanto pesada. É meio

129
complicado para um igreja de centrão da cidade ter uma altíssima freqüência à
noite: há quem more muito distante, há quem seja idoso, há quem tenha filhos
ainda pequenos, e outra tantas razões. Porém, se você não tem nenhum desses
impedimentos, venha. Traga sua alegria, seu louvor, sua contribuição de presença
à Celebração do Nome de Jesus.

E o Culto de Oração nas quartas ou quintas-feiras que tem virado uma lástima em
algumas igrejas? Alguém me repassou uma Nota de Falecimento que diz o
seguinte:
Nota de falecimento
Faleceu, na Igreja dos negligentes e frios na fé, dona "Reunião de Oração", que já
estava enferma desde os primeiros séculos da era cristã.

Foi proprietária de grandes avivamentos bíblicos e de grande poder e influência no


passado. Os médicos constataram que sua doença foi motivada pela "frieza de
coração", devido à falta de circulação do "sangue da fé".

Constataram ainda: "dureza de joelhos" - não dobravam mais - "fraqueza de


ânimo" e muita falta de boa vontade. Foi medicada, mas erroneamente, pois lhe
deram grande dose de "administração de empresa", mudando-lhe o regime; o
xarope de reuniões sociais" sufocou-a; deram-lhe "injeções de competições
esportivas", o que provocou má circulação nas amizades, trazendo ainda os males
da carne: rivalidades, ciúmes, principalmente entre os jovens. Administraram-lhe
muitos "acampamentos", e comprimidos de "clube de campo". Até cápsulas de
"gincana" lhe deram pra tomar!

RESULTADO: Morreu Dona "Reunião de Oração"! A autópsia revelou: falta de


alimentação, como "pão da vida", carência de "água viva", e ausência de vida
espiritual. Em sua memória, a Igreja dos negligentes, situada na Rua do
Mundanismo, número 666, estará fechada nos cultos do meio da semana. Aos
domingos, haverá Culto ou Escola Bíblica, só pela manhã, assim mesmo quando
não houver dias feriados, emendando o lazer de sexta a segunda e vigília, nem
pensar.

Agora, uma pergunta: SERÁ QUE O LEITOR NÃO AJUDOU A MATAR A


DONA "REUNIÃO DE ORAÇÃO"?

Quantos pastores se ressentem da ausência de irmãos (até da liderança...) que


deveriam e até poderiam estar presentes no Culto de Oração. A presença nos
Cultos é fundamental para a solidez da fé, tanto quanto participar das atividades
da Denominação fortalece os laços de amor entre as igrejas locais.

UMA GRANDE IGREJA É A QUE TEM UMA VIDA DE DISCIPLINA

Os primeiros seguidores de Jesus foram chamados de "discípulos", isto é,


"aqueles que estão debaixo de uma disciplina". Na Palavra de deus, a disciplina
de Jesus Cristo é uma atitude e uma atividade. É uma atitude de submissão, de

130
entrega, de quebrantamento, de reconhecimento do senhorio de Jesus Cristo
sobre nós com o objetivo nosso de aprender.
E é uma atividade que se demonstra em tudo o que fazemos. Como Jesus
expressou: "São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem
bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em
trevas"(Lc 11.34), e Paulo, o apóstolo, em Filipenses 3.13,14, "Irmãos, quanto a
mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das
coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão,
prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo
Jesus". É uma atividade que olha para o alvo que é a cruz de Jesus Cristo, o
próprio Senhor Jesus Cristo.

Essa disciplina se manifesta na devoção e na vida de serviço. O exercício da


oração é prova disso. Jesus manteve uma vida de oração. Sua vida de oração era
intensa: ou Ele Se levantava de madrugada para orar, ou ficava até de madrugada
em oração. Orava durante o dia, orava na sinagoga, no Templo, chegou a ensinar
uma oração-modelo, pela qual pautamos a nossa oração; modelo porque não é
recitada simplesmente, embora até a recitemos. Mas temos que nela colocar alma
para que não vire reza (palavra que vem de "recitar"). Observem que os discípulos
não pediram a Jesus "Ensina-nos a pregar", mas "Ensina-nos a orar". A oração
torna a nossa marcha mais firme, a nossa vida mais constante, e o nosso trabalho
mais abundante no Senhor.

Através do estudo da Palavra. Não posso entender o crente que não se alegra
com a leitura da Palavra de Deus. Isso quando a Bíblia fala tanto de alegria e
felicidade. Há até uma bem-aventurança: no Salmo 1, onde fala do "varão que tem
o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita dia e noite". Prefiro esta última
expressão "dia e noite" a uma outra tradução que ensina "de dia e de noite",
porque a primeira fala de constância, permanência na Palavra, enquanto a
segunda pode dar idéia de tirar uma horinha de dia, e outra horinha de noite para
meditar na Palavra. Ela só é meditação constante quando aplicada à vida e cada
coisa que fizermos, cada palavra que pronunciarmos, cada atitude que
expressamos está marcada por essa disciplina que vem da Escritura Sagrada.

O propósito da leitura e estudo da palavra de Deus é confirmar e estimular nossa


fé, como ensina Paulo: "a fé vem pela... palavra de Cristo" (cf. Rm 10.17). Lemos
a Bíblia com o objetivo de estudá-la e de nela meditar. Há, aliás, uma bem-
aventurança para aquele que "tem prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita dia
e noite".

Através de vida disciplinada no serviço. Todos somos chamados, e aquele que


deseja fazer de sua vida um real ministério, deve nele disciplinar-se. As horas
consumidas no preparo disciplinado não constituem tempo perdido.

Nossa igreja tem realizado seminários e simpósios de capacitação. Eles vêm para
melhorar a nossa vida pessoal e da igreja como um todo.

131
UMA GRANDE IGREJA É AQUELA QUE TEM UMA VIDA DE TESTEMUNHO

Mateus 5.16 e Atos 1.8b são textos basilares sobre o testemunho do cristão:
"Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens..."; "Vós sois a luz do mundo";
"Vós sois o sal da terra". Tudo isso é testemunho! O apóstolo Paulo tem uma
expressão em 2Coríntios 3.2< "Vós sois... conhecida e lida por todos os homens,
estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo ministério, escrita não
com tinta, mas pelo espírito do Deus vivente..." O que é impressionante é que
muita gente nunca vai abrir a Bíblia Sagrada, mas vai ler a minha e a sua vida, a
única Bíblia que estas pessoas irão ler. Portanto, uma grande igrejaé aquela que
tem uma vida de testemunho.

Outra realidade impressionante é que o melhor testemunho não é aquele que eu


pesquiso e repasso às pessoas: é o da minha vida, é o que eu conto sobre o que
Deus fez por mim. Nos bondes, no passado bem passado, havia uma propaganda
que dizia

"EU ERA ASSIM (e mostrava um indivíduo bem apessoado)


CHEGUEI A FICAR QUASE ASSIM (a figura era de um esqueleto)
TOMEI [E DIZIA O NOME DO FORTIFICANTE],
FIQUEI ASSIM (corado, bonito, forte).

Perceberam que isso é o que Jesus faz? É o evangelho! EU ERA ASSIM (o


pecado em deixou desta maneira, na lama, quase me arrastando, e o evangelho
veio e me resgatou para Jesus!!!) É a minha história e a sua também. Nós éramos
assim (que palavra terrível!), e a Bíblia diz, "Não há um justo, nem um sequer""
(Rm 3.10), e , ainda, ""pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus
(Rm 3.23). Ninguém fique iludido pensando não ter pecado. Se disse que não o
tem, já está pecando.

Que é, no entanto, ser testemunha de Jesus Cristo? É compartilhar algo da


própria experiência. Pode até acontecer que em nosso testemunho ao mundo
perdido sejamos um tanto vacilantes, mas sempre devemos começar com a nossa
própria experiência nos termos de 1João 1.3, "O que temos visto e ouvido
anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais
comunhão conosco". O que eu vi, eu conto. O melhor testemunho é contar a vida;
o melhor testemunho é dizer "eu era ssim, eu fazia isso, mas a minha vida
mudou", e você passa a ser respeitado. E sabe quando você começa a ser
respeitado? Quando aquela rodinha no trabalho ou na escola se cala quando você
chega, e não conta mais aquela piada indecente que você costumava ouvir.

O conteúdo do testemunho aponta para Jesus Cristo e Sua obra na vida humana.
Somente temos que ler o livro dos Atos dos Apóstolos para confirmar o que foi
dito. Que livro extraordinário! É uma leitura empolgante. Parece que estamos
andando com os discípulos, e entrando com eles nas cidades, e participando das
pregações. Nesse livro, o testemunho é pessoal, e começa na própria experiência
de Pedro (At 2.32), de Pedro e João (3.4-6), de Estêvão (7.56), de Paulo (20.24;

132
22.14,15).

Fico impressionado com o testemunho de Estêvão. Ele estava sendo apedrejado,


e naqueles momentos finais, ele exclamou: "Eis que vejo os céus abertos e o Filho
do Homem, em pé à direita de Deus" (7.56). Não foi ele que pediu a Deus que
peroasse os seus algozes? (7.60). Olha o nome: Atos dos Apóstolos: o
Testemunho dos Apóstolos! Um livro inteiro só de testemunhos do que Deus fez
através dele.

É, em todos os casos, testemunho pessoal que parte da experiência pessoal. Um


testemunho eficaz inclui dois elementos básicos: um modo de viver: um modo de
vida e uma comunicação oral. A única prova disponível para que o mundo veja a
obra de Cristo em nós é nossa própria vida. Deste modo, o mundo quer ver esta
realidade vital genuína que só Cristo pode oferecer.

O Pr. Tomás Munguba contou-me sobre um operário de uma fábrica em sua


cidade (João Pessoa). O homem tem dez filhos, e todo início de semana chegava
embriagado ao trabalho. Seu chefe, um descrente, amigo do Pr. Tomás, se
perguntava o que poderia fazer para ajudar. Numa certa segunda-feira, deu-se um
milagre: chegou sóbrio à fábrica e assim permaneceu por toda a semana e
sempre. Quando o chefe soube que ele estava freqüentando uma igreja
evangélica, perguntou ao Pr. Tomás, usando a linguagem da psicologia: "Que
vocês, protestantes, estão fazendo para condicionar a atitude comportamental de
Fulano?" Responde o pastor, "Nada. Não fizemos qualquer lavagem cerebral,
nada. Mas o Espírito Santo trabalhou..."

UMA GRANDE IGREJA É AQUELA QUE TEM O PODER DO ESPÍRITO SANTO

Não obstante, nada acontecerá sem o poder do Espírito Santo. Absoluta nada.
Não haverá um ministério para cada um; não haverá estabilidade de fé; nem vida
de disciplina, nem vida de testemunho.

Há uma história sobre um grupo de missionários acampados na selva perto das


vilas e aldeias, mas também perto de uma colônia de chimpanzés selvagens.
Cada tardinha, voltavam das aldeias, acendiam uma fogueira e ficavam ao redor
contando as experiências e as bênçãos. Uma tarde, quando os missionários
regressaram, viram os macacos que os estavam imitando: puseram lenha para
fazer uma fogueira, e estavam sentados ao redor da fogueira apagada se
"esquentando" como os missionários faziam nas noites frias: esfregavam as mãos,
faziam ruídos. Faltava, porém, algo importante naquela fogueira: o fogo. Era
apenas uma imitação.

Assim é com a igreja: sem o fogo do Espírito, a igreja não tem sentido. É um clube
religioso, é uma reunião de amigos, de gente idealista, mas não é uma igreja onde
Jesus Cristo é Senhor. É uma mascarada, uma fantasia. Lembremos que o fogo
que aquece a igreja é o Espírito Santo, na inspiração de Zacarias 4.6, "Não por
força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos".

133
EXPRESSÕES PARA DESCREVER O MINISTÉRIO DO ESPÍRITO

O Novo Testamento tem dois termos para descrever o ministério do Espírito Santo
na vida e experiência dos crentes: a habitação do Espírito Santo e a plenitude do
Espírito Santo ou ser cheio do Espírito. O primeiro se refere à conversão (1Co
3.16; Tg 4.5). O segundo significa ser controlado pelo Espírito Santo (Ef 5.18).

Por incrível que possa parecer, Paulo faz uma analogia entre a intoxicação
alcoólica, a embriaguez, e o controle do Espírito de Deus. Ele o faz em Efésios
5.18: "Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do
Espírito". Quando uma pessoa está "cheia de vinho" não significa que está cheia
da cabeça aos pés como uma garrafa, mas que cada parte de seu corpo está
afetada pela bebida: seu modo de caminhar, sua conversa, seu olhar, seus
pensamentos.

Ser "cheio do Espírito" significa que cada ação nossa, cada pensamento e palavra
está sob Sua influência. É o controle e o domínio do Espírito Santo sobre. A
plenitude do Espírito Santo não é instantânea como a embriaguez também não o
é. Sua comunhão com o Espírito vai fazendo com que sua vida seja controlada, e
cada vez mais controlada, de tal modo que quando você fala, anda ou toca as
pessoas, todos compreendem que você está sob o domínio do Espírito de Deus.

Esta deve ser uma nova hora para cada pessoa que lê esta reflexão. A hora de
cada crente renovar sua aliança com Deus. A hora de se firmar mais e cada vez
mais em Jesus Cristo, nossa Rocha Eterna. A hora de buscar a plenitude do
Espírito, se o que desejamos é uma vida abundante e vitoriosa.

Este é o momento sério de renovar o pacto com suas convicções, se o que


queremos é uma grande igreja, forte e espiritual!

Parte XXII
CREIO NA CONTRIBUIÇÃO CRISTÃ

"Fazei todas as vossas obras com amor"


(1Co 16.14)

A causa de Jesus Cristo tem seu lado financeiro, o que ninguém desconhece. Isso
faz lembrar a palavra de um evangelista que afirmou com muita propriedade, "Na
verdade, a água da vida é grátis, mas o balde em que é transportada tem que ser
comprado." Quer isso significar que quando se anuncia o reino de Deus isso é
feito de modo absolutamente gratuito, havendo, no entanto, um custo financeiro.
Quando os irmãos se reúnem para o crescimento, quando a igreja se reúne para a
edificação ou quando espalha a mensagem através de ondas do rádio, da
televisão, ou através da imprensa escrita, a água da vida é levada. E o crente que
se consagra, reconhece que o dinheiro não é o lado profano, secular, de algo

134
sagrado chamado Igreja. A contabilidade de uma igreja local é tão sagrada quanto
a mensagem que sai do púlpito, tão sagrada quanto a lição da Escola Bíblica que
é repassada para os alunos em uma classe; tão sagrada quanto uma cesta básica
que é dada para uma família menos valida, porque na Igreja de Jesus Cristo não
reconhecemos coisas profanas e coisas sagradas. Para o cristão, tudo tem
sacralidade. Assim o era no Antigo Testamento. A Constituição do povo de Israel
era a própria Lei de Moisés. O aspecto civil da lei de Moisés confundia-se com o
lado cultual, ritual e litúrgico.

Dinheiro, portanto, é assunto sério. Tão sério, tão sagrado que Jesus tinha um
tesoureiro no colégio apostólico. E havia pessoas fiéis que sustentavam o Seu
ministério. Vamos a Lucas 8.2,3, que apresentam o seguinte: "E também algumas
mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades:
Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; E Joana, mulher de
Cusa, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras as quais o serviam com
seus bens." Sustentavam a obra de Jesus Cristo.

Sim; existe um aspecto sagrado no dinheiro que entregamos à igreja. Há, até,
quem pense que a Bíblia ensina que o dinheiro é a raiz de todos os males. E
alguém disse, "Está na Bíblia". Isso não existe na palavra de Deus. Se assim
fosse, não seria ordenado "trazei todos os dízimos à casa do tesouro". O que a
Bíblia diz, é que "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males". O que a Escritura
ensina é que a avareza, o amor ao dinheiro, a ganância, é a raiz de todos os
problemas e sofrimentos. No livro de Jó no capítulo 31, diz o verso 24: "Se no ouro
pus a minha esperança, ou disse ao ouro fino: Tu és a minha segurança; Se me
alegrei por ser grande a minha riqueza, e por ter a minha mão alcançado muito;
Também isto seria pecado para ser punido pelos juizes, pois eu teria sido infiel a
Deus que está lá em cima." Na palavra de Jesus, em Lucas 12.15: "Acautelai-vos
e guardai-vos da avareza; a vida de um homem não consiste na abundância dos
bens que ele possui". Mateus 6.24, faz parte do "Sermão do Monte. Nele está que
"Ninguém pode servir a dois senhores. Ou a de odiar a um e amar o outro, ou se
devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas".
Algumas traduções têm "Não podeis servir a Deus e a Mamon". Mamon é a
personalização do dinheiro, das riquezas.

Aliás, neste último versículo, há um sugestivo ensinamento sobre uma gradação


no relacionamento entre o homem e o seu dinheiro. Porque começa dizendo
assim, "Ninguém pode servir, ninguém pode se devotar e ninguém pode cultuar."
A idéia é essa mesmo: servir, amar e dedicar-se a Deus e dedicar-se aos bens, às
posses, à conta bancária. Não servir, odiar e desprezar a Deus. Não pode ser
dessa maneira.

Temos nesta história todo um sistema de valores. Dinheiro, não é apenas um meio
de adquirir bens. Dinheiro é um sistema de valores. É um sistema de valores
econômicos, espirituais e morais. Por isso que o valor de um objeto é medido pela
quantidade de dinheiro que nós gastamos nele. Se alguém vai comprar um
refrigerador, e a loja diz que custa R$ 450,00, e há um outro bem semelhante nas

135
características e funções e custa R$ 580,00, você vai querer saber porque um
custa duzentos e pouco e o outro quinhentos e alguma coisa. E normalmente se
dá mais valor ao que custa mais caro. Então, nós colocamos no dinheiro um
sistema de valores porque damos preço a um objeto pela quantidade de dinheiro
investido nele.

O dinheiro é, também, um sistema de valores morais porque representa o seu


tempo, o seu trabalho, e, até, a sua personalidade. É um sistema de valores
espirituais, dependendo do modo como você o usa, como o emprega na causa de
Jesus Cristo. E então, nós entramos na questão do dízimo.

O dízimo faz parte desse sistema de valores. Dar é sinal da graça de Deus. Tive a
curiosidade de olhar na Concordância Bíblica a palavra dar, que também pode ser
doar e oferecer. A lista de versículos relacionados com dar, doar e oferecer é
imensa, indo de Gênesis 4:12 a Apocalipse 22:12. Por isso, a Bíblia diz tantas
vezes, "Que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu filho unigênito".
Também há uma palavra de Jesus registrada fora dos Evangelhos, no livro dos
Atos dos Apóstolos (chamado, aliás, de "o Evangelho do Espírito"): "Mais bem
aventurada coisa é dar do que receber".

Realmente, a Escritura mostra que dar é sinal da graça de Deus na sua vida e a
disposição de fazê-lo é dom da operação do Espírito Santo no coração. Romanos
12 fala sobre isso, e uma das graças do Espírito na nossa vida chama-se o dom
da liberalidade, o carisma de ser liberal. É aquela pessoa que dá o dízimo, no
entanto, o carisma é tão forte na sua vida que se a igreja pedir o segundo dízimo
dá, e se a igreja pedir uma contribuição para ajudar a uma determinada causa,
também dá. Contribuir está intimamente ligado ao estado de vida espiritual e onde
há contribuição generosa e liberal a Deus, podemos reconhecer a ação do Espírito
Santo de Deus.

Contribuir significa companheirismo no serviço cristão; significa assistência aos


pobres. Quando contribuímos, há pessoas que são ajudadas com as cestas
básicas há pouco mencionadas; a manutenção do culto (ou alguém não paga
essas luzes que são acesas durante o culto? Ou outros bens que nós usamos,
outros serviços públicos que a igreja utiliza?). A própria expansão do evangelho
quando mandamos um missionário ou uma família missionária, e a sustentamos
em um determinado país. O crente faz isso através do seu dízimo.

No caso particular dos Batistas, quando o fiel entrega o dízimo, uma parte dele é
enviada para a Convenção Batista do seu Estado. A Convenção estadual reúne
das igrejas do seu campo e remete uma porcentagem para a Convenção Batista
Brasileira, a qual, por sua vez, divide toda a contribuição recolhida pelos diversos
apostolados e ministérios que realiza, enviando uma parte à Aliança Batista
Mundial. Nesse ponto, forçosamente nós temos que entrar no sistema de Deus
para o financiamento do Seu projeto. O projeto de Deus é o programa de
expansão do Seu reino neste mundo. É o governo soberano de Deus nos
corações. E parte desse projeto é 10% da renda pessoal.

136
Então o que é e o que não é o dízimo? Vamos esclarecer algumas coisas. Vamos
começar com o que o dízimo não é:

O dízimo não é um meio de pressionar a igreja a levantar dinheiro a fim de suprir


necessidades do seu orçamento.
O dízimo não é cumprimento de exigência da lei de Moisés. Já vi gente dizer isso,
"Não dou dízimo porque é da lei de Moisés. O Novo Testamento acabou com o
dízimo." Não acabou nada. A palavra de Jesus diz que nós devemos, além de
realizar obras caracteristicamente cristãs, dar o dízimo também. E ele até
mencionou temperos usados no trivial da cozinha: dízimo do cominho, do endro,
do coentro, da hortelã, mostrando como é natural, Porque o povo dava o dízimo
não só de dinheiro, mas, dava o dízimo também de espécie. Por exemplo: trigo, se
tinha vinte sacas de trigo, duas pertenciam ao Senhor entregava ao Templo. Se
tinha naquele ano uma produção de dez bezerros, um era do Senhor, então, um
era do Templo.
Não é uma maneira de mostrar posição pessoal. Porque alguém pode pensar
assim: "Bom, mas irmão Fulano ganha R$ 15 mil, ele dá R$ 1.500,00 de dízimo.
Eu só ganho R$ 151,00, o salário mínimo, dou R$ 15,10". Então, um tem mais
posição que o outro. Diante de Deus é a mesma coisa. R$1.500,00 para R$
15.000,00 é a mesmíssima proporção de R$ 15,10 para quem recebe R$ 151,00.
Talvez seja até mais sacrificial, os 15 reais e 10 centavos que os 1.500 reais que o
outro entregou.
Não é um meio de pagar para que outros façam a obra no meu lugar. Já vi isso
também, "Se ele é o Diretor de Evangelismo, ele que evangelize." Não é assim
não. O Diretor de Evangelismo dirige a evangelização, por isso, ele é o Diretor. O
Coordenador de um Ministério, coordena, por isso, ele é o Coordenador, mas,
quem realiza é a Igreja de Jesus Cristo. Ela é evangelista, ela é visitadora, ela é
aconselhadora, enfim, cada ministério é realizado pela igreja, com pessoas que
treinam, que dirigem, que levam para o campo. Por isso, não é um meio de pagar
para que outros façam.
Não é um meio de subornar a justiça de Deus. Há quem pense, "Isso me
aconteceu porque eu não dei o dízimo. Agora vou dar o dízimo para não acontecer
mais. Vou dar o dízimo para ficar rico." Não dê o dízimo com intenção de pagar
pecados, não! Dízimo não é para isso. Hebreus 10.8 coloca o assunto da seguinte
maneira: "Depois de dizer como acima: Sacrifício e oferta, e holocausto e oblações
pelo pecado não quiseste, nem neles te deleitaste os quais se oferecem segundo
a lei." Faziam sacrifícios de animais, oblações com vinho, ofertas com massas
para pagar pecados. Mas, Deus não se deleitava com essas coisas.
Nem para criar um saldo de graças com Deus. Ouvi contar de certo pastor que
falou para alguém, e essa pessoa repassou que ele dissera, "Eu tenho crédito
com Deus, e agora posso exigir dele." Como pode?! Deus não está me devendo
nada; eu, sim, que lhe devo! Deus só me cobre de graça sobre graça, benção
sobre benção, glória sobre glória! Agora, eu preciso cumprir a minha parte. Não é
que Deus me deva alguma coisa e com isso eu tenho credito com Ele. Eu não
tenho que criar um saldo de graças com Ele, não. As bênçãos de Malaquias 3.10,
não são apenas bênçãos materiais. A promessa é de bênção, "Se eu não vos

137
derramar sobre vós uma benção em abundância." Há outras bênçãos além de
dinheiro. Quantas vezes o dinheiro tem sido maldição; mais dinheiro uma pessoa
tem, mais miserável é, às vezes, para a obra de Cristo. As bênçãos são a graça, a
misericórdia, o crescimento espiritual. Por isso, não dê o dízimo para pagar
promessa. Não dê o dízimo com medo, não.
"Então o que é o dízimo, pastor?"

Dízimo, é 10% da renda. É um referencial simbólico de tudo aquilo que o crente


entrega a Deus. Ou você pensa que 10% é de Deus e 90% é seu? Não é, não!
"Dez por cento é de Deus, do resto eu faço o que quiser". Não é, não!
Dízimo é expressão de adoração; é forma de cultuar a Deus, por isso, nós não
podemos fazer o que umas igrejas andaram fazendo. Entregaram um boleto
bancário para os membros, que deveriam pagá-lo no banco. Como quem paga
carnê do Baú da Felicidade, ou fatura de clube. No banco, paga-se luz, água,
telefone, pagam-se duplicatas e prestações. Mas, o dízimo é do Senhor e eu o
trago à casa do Senhor. Acho que é uma boa prática não entregar dízimo na
tesouraria. De vez em quando, alguém pergunta, "Pastor, dá para entregar o
dízimo na tesouraria?" Respondo, "Faça o seguinte irmão, vá lá no santuário e
coloque no gazofilácio. O tesoureiro depois vai recolher os dízimos e ofertas". É
uma boa prática não entregar na mão de ninguém, nem na tesouraria. Mas, não é
por outra razão, não. É porque é um ato de louvor e deve, por isso, ser trazido ao
culto e entregue em adoração.
O dízimo é reconhecimento de que eu aceito o fato de que Deus é soberano sobre
o mundo e sobre a minha vida também.
Então, qual é o motivo real para que eu dê o dízimo? Creio que só há um motivo
irmãos, e está em 1Coríntios 16.14: "Fazei todas as vossas obras com amor". É
assim que está na Escritura Sagrada, que ensina que é até uma coisa mesquinha
pensar apenas em 10% porque Jesus Cristo realmente pede 100% de nós. O que
Ele quer é você, minha irmã; o que Jesus Cristo quer é você, meu irmão querido.
Dez por cento é apenas o começo dessa expressão de entrega.

Onde devo dar o dízimo? Na "casa do tesouro"; na igreja em culto. Alguém de


uma igreja irmã me disse certa vez que para pressionar a saída do pastor estava
com outros irmãos depositando o dízimo em uma caderneta de poupança. Esse
irmão de outra igreja falou isso: "Há um grupinho da igreja que está depositando o
dízimo em uma poupança, que é para ver se com isso o pastor sai." Está errado.
Há designações para isso: conspiração e formação de quadrilha. É crime e dá
cadeia. É errado por vários motivos: por não trazer o dízimo, por usar um
expediente errado e por pressionar o pastor daquela maneira. O pastor pode estar
errado, mas não é dessa maneira que se faz. Se para entrar, houve muita oração,
para sair tem que haver muita oração.

Aprendo que o dízimo é uma solução. A Bíblia me mostra que o dízimo é uma
solução para o crente pessoalmente falando. Porque um vai dizer, eu ganho
pouco e o outro vai dizer, eu ganho muito. Eu vou dar quanto? A resposta é a
mesma. 10%. Isso significa que o dízimo é proporcional. Isso diz que o dízimo é
adequado, é ponderado. É um guia para o padrão de crescimento do crente na

138
contribuição. E assim, nos ajuda a desenvolver a disciplina de um padrão, o
padrão de contribuir, além de nos ajudar também a estabelecer corretamente
quais são as prioridades da nossa vida.

É solução para não só para o crente individual, mas, é solução para a expansão
da igreja, porque as causas missionárias, os planos evangelísticos, o
desenvolvimento na educação dos novos e dos antigos crentes, tudo se executará
com largueza, com amplitude, com visão por causa do dízimo. Um problema
financeiro que a igreja tem será resolvido com facilidade. Aliás, não haverá
problema financeiro.

Dízimo é solução para a vida de qualquer denominação evangélica como agente


da causa de Jesus Cristo nesse mundo através de um plano de cooperação. A
igreja local e a obra de Cristo não se sustenta através de bazares, chás sociais,
rifas, sorteios, leilões, shows e coisas assemelhadas. Talvez os crentes mais
novos tenham ouvido muito superficialmente na Classe de Preparação para o
Batismo. O Plano Cooperativo é um programa de integração das igrejas. O nome
está dizendo Plano de Cooperação das Igrejas. E esse programa começa com o
crente. Ele coopera com outros crentes e dessa maneira todos trazem seu dízimo,
sua oferta ao Senhor.

Oferta alçada é mais do que dízimo, sabiam? Há quem pense que oferta é menor
do que o Dízimo. Se o seu dízimo é de R$ 100,00, oferta é R$ 120,00, 200,00,
250,00, etc. Contribuição é menos. Se você deve dar R$ 100,00, e dá R$ 80,00,
está dando uma contribuição. Está fora do padrão. Quando você então se une a
outros crentes na sua igreja e você dá o dízimo, você começou a cooperar. O
plano cooperativo começa com você.

Qual é a próxima etapa do Plano Cooperativo? A igreja local. A nossa igreja


contribui com 10%; poderia contribuir com 5%; ou 20%, 50%.. Está estipulado pela
assembléia da igreja que nós daremos 10% da entrada. Então, a nossa igreja
mensalmente envia 10% para a Convenção Batista Baiana. As outras igrejas
locais do Campo Baiano fazem o mesmo: cada igreja do interior e da capital
manda este sua parte e, através do Plano Cooperativo, a Convenção Batista
Baiana estabelece seu programa de ação, que não é outro senão o programa da
igreja local. Coloca missionários em cidades, vilas, vilarejos do interior.

Que mais? A Convenção Batista Baiana por sua vez, remete 20% para o Rio de
Janeiro, onde fica a sede da Convenção Batista Brasileira. E a Convenção Batista
Brasileira recebe da Convenção Baiana; da Sergipana; da Capixaba; da Mineira;
da Amazonense; da Paraense; da Paraibana e assim por diante. Todas as
Convenções mandam uma parte (20%, 30%, 10%), quanto estiver estipulado em
assembléia da respectiva Convenção. A Convenção Batista Brasileira recebe
então, o dinheiro das Convenções que na verdade é o dinheiro que veio das
igrejas; que na verdade é o seu dinheiro; que na verdade é o dinheiro do Senhor.
E dessa maneira distribui pelos diversos ministérios que ela executa: Junta de
Missões Mundiais; Junta de Missões Nacionais; Junta de Rádio e Televisão;

139
JUERP, Seminários, Aliança Batista Mundial, e assim por diante... Os missionários
que estão no Japão, no Canadá, na Romênia, na África, enfim, espalhados pelo
mundo, recebem porque o irmão deu o dízimo na igreja.

Isso é o que se chama de Plano Cooperativo na igreja local, na Bahia, no Brasil e


no mundo. Esse Programa de Cooperação só vai trazer uma coisa: bênçãos!
Vamos para Malaquias 3.10, "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que
haja mantimentos na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos
Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós benção
tal, que dela vos advenha a maior abastança". Abundância é questão de valores,
não é questão de dinheiro. Não faça negociação com Deus. Há uma história que é
passada às vezes de um modo muito lindo, no entanto, na minha interpretação,
essa história, não guarda nada de nobreza.. É a história de quando Jacó estava
em Betel, e teve a revelação de que naquele lugar o Senhor estava; que ali era
Beth-El, a casa de Deus. Ele fez um voto dizendo: "Se Deus for comigo e me
guardar nessa viagem que ora faço; e me der pão para comer e vestes para vestir,
e eu em paz voltar a casa de meu pai, o Senhor será o meu Deus". Por que ele
disse, "Se Deus for comigo", o problema é esse "se...", "Se Deus for comigo; se
Deus me guardar; se ele me der comida; se ele me der roupa; se me fizer voltar
em paz, então, eu darei o dízimo". Parece bonito, mas, o problema é que Deus lhe
foi fiel e ele continuou o mesmo enganador de todo o sempre, porque dízimo é
uma questão de valores espirituais e não de recompensas materiais como ele
estava colocando diante do Senhor.

O pastor Roberto McAlister, já falecido, faz uma pergunta, "Que é melhor: saúde
ou um bom tratamento médico?". O que é que você prefere irmão, saúde ou o
melhor médico da cidade tratando do seu terrível caso ? "Que é melhor, um filho
simples e obediente ou um filho brilhante sem caráter? Que é melhor, um
casamento humilde com muito amor ou um casamento infeliz com muito dinheiro?"
O que é melhor? Porque tudo depende do senso de valores e Jesus Cristo fala de
valores quando diz que devemos buscar o Reino de Deus e a sua justiça, porque
o restante vem acrescentado.

Quer dizer, se eu colocar o dízimo como o meu ponto de partida, a minha falta de
fé vai se transformar em confiança e em sinceridade. Não vai haver falta de
recursos para fazer a obra do Senhor, na casa do Senhor. A conquista de almas
vai aumentar porque eu só tenho que fazer uma coisa, uma aliança com Deus;
uma aliança com o Senhor na base da fé, na base da dependência Dele, pois
certas coisas só podem ser realizadas com o Espírito Santo. Por isso, não é
dever, é privilégio do crente, o de participar da obra do Senhor, da causa do
Senhor; do projeto de Deus.

Parte XXIII
DESAFIOS DA LIDERANÇA CRISTÃ

A verdade é que entramos no século 21 com tremendos desafios para a liderança


na igreja. Um deles é, no dizer de Warren Wiersbe uma crise de integridade. E ela

140
atinge o cerne da autoridade e da liderança da Igreja de Jesus Cristo. Wiersbe
lembra que Paulo exclamou com as veras da sua alma: "não me envergonho do
evangelho!" E sugere que talvez o evangelho afirme: "(mas) eu me envergonho
dos cristãos". Quanta coisa tem sido praticada em nome do evangelho, com
aparência de evangelho, com linguagem de evangelho, e tem dado como
resultado superficialidade de convicções, confusão mental e espiritual, e
enfraquecimento da fé porque os líderes, pastores ou não, têm aberto campo para
a falta de ética, para a manipulação dos sentimentos, para a falta de integridade.

Excelente palavra a que traduz o conceito de integridade na língua hebraica:


shalom, a qual é vertida para o português com alguns ricos significados, tais como
"inteireza, integridade, plenitude, sucesso, salvação, saúde, prosperidade e,
também paz".

Não podemos fazer por menos: o instrumento que Deus tem para unir as pessoas,
fatos e acontecimentos é a Igreja de Cristo. O líder há de ser íntegro, "limpo de
mãos" (cf. Cl 1.9,10; 2.10; Sl 24.3,4), e "puro de coração" (cf. Sl 24.3,4). O líder
cristão deve possuir uma mente como a de Cristo (cf. 1Co 2.16); sua vontade é
honesta (Ed 9.6).

O fato é que na época de Jeremias a religião parecia com esta do século 21: o
povo dizia crer, mas havia influência secularista, pois o que cria não fazia
diferença quanto ao modo de viver. O ideal evangélico está expresso em
2Coríntios 5.17. Além disso, na época de Jeremias, a religião havia se tornado um
"grande negócio". É só conferir com as exclamações do profeta Jeremias que não
tolerava os abusos como em 5.30,31 e Lamentações 4.13. Tudo isso é o que A.
W. Tozer chamou de "tratamento comercial" do evangelho. Esse mesmo
"tratamento comercial" é responsável pelo pragmatismo religioso: "visto que a
igreja está cheia, Deus está abençoando", afirmam.

Outro desafio às portas do século 21 são os novos estilos de culto. O que em


outros países é denominado histórico ou contemporâneo, em nosso país é objeto
da pergunta "tradicional ou renovado?" Outras comunidades têm utilizado a
terminologia Culto Jovem contrapondo-se ao estilo recebido de liturgia e rito.

É evidente que o culto é mensurado pela transformação causada nos que cultuam
a Deus, e há de ser sempre "em espírito e em verdade" (Jo 4.23,24), ou não há de
ser culto. É gratidão, reconhecimento, louvor, e (embora não seja o propósito
primário) terapêutico. Ao tempo que o cultuante reconhece o cuidado, carinho e
amor de Deus, louva-O e sai aliviado das tensões, dos cuidados e preocupações,
terapia grupal no louvor comunitário.

O culto, por ser dinâmico, envolve mudanças, mas envolve igualmente o que
nunca deve ser mudado. Deus não muda; as verdades eternas não mudam; a
Palavra de Deus não muda. Questiona-se a ressurreição de Jesus Cristo, a
realidade do pecado, a necessidade de salvação, e a singularidade da obra
redentora de Cristo. Mas o método pode mudar porque não são estáticos, mas se

141
adequam aos tempos e circunstâncias.

A liderança da igreja às vésperas do século 21 há de estar aberta para o novo


sem perder a visão do permanente na igreja. Afinal, somos líderes e capacitadores
numa comunidade local sem perder a visão do todo da Igreja de Jesus Cristo; e
capacitadores e líderes da Igreja de Deus sem perder a visão da comunidade
como expressão local dessa Igreja. Numa análise do que chama "a Igreja do
Futuro", Ralph W. Neighbour destaca que a "Igreja do Presente" se caracteriza por
ser tridimensional: tem largura, comprimento e profundidade, mas não possui
poder espiritual para dar à luz outra geração de cristãos. A "Igreja do Futuro", além
dessas dimensões, tem mais uma: altura, ou seja, vive num mundo físico, de três
dimensões como a outra, mas vive em acréscimo num ambiente espiritual onde
"principados, potestades, príncipes do mundo destas trevas, hostes espirituais da
iniqüidade" são diariamente enfrentados.

É o caso, então, de examinar o que Neighbour destaca quanto ao que caracteriza


essa Igreja dinâmica, ativa, viva, quadridimensional:
· O Espírito Santo é Quem a dirige. É só permitir que Ele a controle nos termos de
Efésios 3.16. A Igreja e sua liderança não são significativas pelo que possuem,
mas porque são usadas por Deus.
· Essa Igreja vive na quarta dimensão, sem qualquer alusão à ideologia esposada
pelo pastor coreano David (antes Paul) Yongi Cho. Humanos, somos seres
tridimensionais; mas como povo de Deus, e ainda mais, liderança desse povo,
temos por conceito o sublime e urgente dever de ser quadridimensionais. Afinal, é
nessa dimensão que o poder de Deus se revela e Satanás é vencido (cf. Jo 3.3; Ef
2.18,19). Onde se enfatizam as três dimensões, a liderança trabalha para o povo;
nas quadridimensionais, a liderança trabalha com o povo.

Não é de estranhar, portanto, que na Igreja onde se enfatizam as quatro


dimensões a liderança seja composta por aqueles em quem os milagres de Deus
acontecem de modo pessoal, e não de segunda mão. Ver a Deus, por exemplo, é
experiência de primeira mão: Noé teve uma experiência sensorial com Deus e
tornou-se o arauto divino para o arrependimento do seu povo (Gn 6.13); Abraão
viu a Deus, e isso resultou num rompimento com a velha e surrada vida no
politeísmo de sua terra natal (Gn 12.1ss); Jacó viu a Deus, e desde esse momento
tornou-se "o princípe de Deus" ((israel, cf. Gn 32.22-32); Moisés viu a Deus e isso
fez diferença na sua vida (Ex 3. 1-12; 34.29-35); Gideão que teve um encontro
transformador com o Todo-Poderoso (Jz 6.11-24); Elias recuperou-se de um
processo de depressão para a vitória porque viu a Deus (1Rs 19.8ss); Isaías
nunca mais foi o mesmo depois da visão de Deus (Is 6.1ss); foi o caso de Paulo
(At 9.1.ss). E "ver a Deus" dá novas energias.

Quando se experimenta pessoalmente o poder de Deus, não se necessita ser


aguilhoado para crer que todas as coisas são possíveis por meio de Cristo Jesus.
Um líder que tenha tido uma visão definida de Deus será capaz de amar, terá
todas as condições de repassar esperança, assim como capacidade de comunicar
a fé. Na verdade, só podemos influenciar e liderar outros até o ponto a que nós

142
mesmos chegamos. Nesse ponto, vai se revelar o líder espiritual em
contraposição ao líder natural. Segundo Sanders, o paralelo entre estas duas
qualidades de líderes é o seguinte:

O Líder Natural

· É autoconfiante
· Conhece os homens
· Toma as próprias decisões
· Usa os próprios métodos
· Gosta de comandar os outros (e ser obedecido)
· É motivado por questões pessoais
· É independente.

Bem diferente, portanto, do Líder Espiritual, o qual:


· Confia em Deus
· Conhece os homens e conhece a Deus
· Faz a vontade de Deus
· É humilde
· Usa o método de Deus
· Busca obedecer a Deus
· É motivado pelo amor a Deus e aos homens
· Dependência de Deus

Parte XXIV
DISCIPLINA NA IGREJA

Introdução
Disciplina eclesiástica é um termo em risco de extinção no atual vocabulário
cristão. Desde que os princípios do pós-modernismo encontraram lugar no
seio da igreja,(1) qualquer conceito que ameace o individualismo e a
liberdade de escolha quanto ao estilo de vida, comportamento, etc., é logo
taxado de arcaico, passé. A dicotomia prática de muitos cristãos gera a
ilusão de que a igreja não tem nada a ver com o procedimento "secular" de
seus membros. Nessa "nova era" antropocêntrica, a igreja é vista como uma
organização altamente dependente do indivíduo, e que precisa conservá-lo
ao custo de várias exceções. O medo da impopularidade leva muitos líderes
à cumplicidade e pecados são justificados em nome de uma atitude mais
"humana."(2) Por outro lado, o que dizer daqueles que, em nome do zelo
pela disciplina, cometeram injustiças e causaram mais males que bens?(3)
Em todo esse contexto, a disciplina tem uma vida curta e a tolerância
consagra-se como a virtude da moda.(4 )Porém, o que acontece com uma
igreja sem disciplina?

O termo "disciplina," em geral, é empregado em vários sentidos. Podemos


usá-lo para referir-nos a uma área de ensino, ao exercício da ordem, ao
exercício da piedade(5) ou a medidas corretivas no seio da igreja. O objetivo

143
deste artigo é delinear alguns fatores da importância da disciplina
eclesiástica entre os membros do corpo de Cristo. O autor está plenamente
consciente de que um artigo como este não coloca um ponto final no diálogo
sobre o assunto. Porém, o que motiva esta reflexão é a esperança de que a
mesma seja útil para elucidar a muitos quanto ao aspecto bíblico-teológico
da disciplina.

I. Errando o alvo

A igreja cristã tem sido acusada de ser o único exército que atira nos seus
feridos.(6) O grau de verdade dessa acusação é, muitas vezes, devido a mal-
entendidos com relação à disciplina eclesiástica. Tais mal-entendidos estão
presentes em pelo menos dois grupos: 1) os que aplicam a disciplina, e 2) os
que sofrem a aplicação da mesma. Como cada caso deve ser analisado
individualmente, só nos cabe aqui listar os mal-entendidos mais comuns em
relação à disciplina eclesiástica.

A. Disciplina e Despotismo

Com a subida ao poder do Partido Nacional na África do Sul, em 1948, a


segregação foi legalizada em nome da disciplina. Como resultado, foi
sancionado o aprisionamento de negros sem nenhum julgamento formal.(7)
Isso não foi disciplina, mas despotismo.

A história da Igreja Medieval apresenta uma vasta galeria de ilustrações da


confusão entre o uso da disciplina e o exercício do despotismo.(8) Seria isto
apenas um fenômeno do passado? Infelizmente basta familiarizar-se com os
círculos eclesiásticos para se descobrir que o espírito medieval ainda está
vivo e ativo na mente e atitude de alguns líderes modernos. Há aqueles que,
como resultado da ganância pelo poder, seguem o caminho de Balaão e
amam a injustiça (2 Pe 2.13,15). Estes estarão sempre prontos a "disciplinar"
por motivos interesseiros (Jd 16). Não se deve esquecer, porém, que a culpa
de Edom consistiu no fato de que "perseguiu o seu irmão à espada, e baniu
toda a misericórdia; e a sua ira não cessou de despedaçar, e reteve a sua
indignação para sempre" (Amós 1.11).

B. Disciplina e Discriminação

A confusa identificação entre disciplina e discriminação pode ser vista sob


dois aspectos: 1) no abandono do disciplinado por parte da igreja, e 2) na
recusa do disciplinado em receber a disciplina. Para se evitar o primeiro erro
é imprescindível que a família cristã não desista de um dos seus membros
que caiu. Paulo exorta a igreja para que manifeste perdão, conforto e
reafirmação de amor para com o arrependido, para que "o mesmo não seja
consumido por excessiva tristeza" (2 Co 2.7-8). Outra razão para esta
exortação é para que "Satanás não alcance vantagem" sobre a igreja,
criando amargura, discórdia e dissensão (v. 11).

144
Há sempre a possibilidade de que o disciplinado não se submeta à
disciplina, e acuse a igreja de discriminação. Tal atitude apenas manifesta
ignorância e estupidez (Pv 12.1 - tradução literal). Segundo as Escrituras, é o
pecado e a determinação em segui-lo que gera discriminação, e não a
disciplina (1 Co 5.5 e 1 Tm 1.20).

C. Disciplina e Arbitrariedade

"Com que direito fizeram isso?" Tal é a pergunta que constantemente se


ouve em casos de disciplina. Essa pergunta revela um mal-entendido
comum entre disciplina e arbitrariedade. Ou seja, é como se aqueles que
aplicam a disciplina não tivessem nenhum direito de fazer tal coisa debaixo
do sol. "Aliás," alguns argumentariam, "não somos todos pecadores?"

Primeiramente, é preciso lembrar que toda atitude pecaminosa precisa ser


corrigida, mas há algumas que requerem correção pública. Por exemplo, em
Mateus 18.16-17 o evangelista fala daqueles que se recusam a abandonar o
pecado mesmo diante de uma amorosa exortação pessoal. Na sua Primeira
Carta aos Coríntios 5.1-13, Paulo descreve as pessoas cujas práticas trazem
escândalo à igreja, e na Primeira Carta a Timóteo 1.20, na Segunda Carta a
Timóteo 2.17-18 e na Segunda Carta de João 9–11 são mencionados os que
dissimulam ensinos contrários ao Evangelho. Por outro lado, na Carta aos
Romanos 16.17 o apóstolo recomenda disciplina aos que causam divisões
na igreja e, ao escrever a Segunda Carta aos Tessalonicenses 3.6-10 ele
prescreve disciplina eclesiástica para aqueles que se deleitam na preguiça.
Há um princípio claro: "Os pecados que foram explicitamente disciplinados
no Novo Testamento eram conhecidos publicamente e externamente
evidentes, e muitos deles haviam continuado por um período de tempo."(9)

Com relação à autoridade, é importante lembrar que a autoridade na


disciplina nunca vem daquele que a aplica, mas daquele que a ordenou, ou
seja, o Cabeça e Senhor da Igreja (Ef 1.22-23). Além do mais, a pergunta a
ser feita dever ser: "Com que direito um membro da Igreja do Cordeiro
profana o sangue da aliança e ultraja o Espírito da graça?" (Hb 10.29).
Também, "Que direito temos nós de tomar o corpo de Cristo e fazê-lo um
com a prostituição?" (1 Co 6.15). Nenhum direito nos é dado, mas sim a
responsabilidade de amar o pecador e vigiar para que também não caiamos
(1 Co 10.12).

Concluindo, somente a ignorância, equívocos, ou dureza de coração


poderiam levar alguém a deturpar os princípios bíblicos sobre a disciplina
eclesiástica e justificar sua ausência entre os membros do corpo de Cristo.

II. O Ensino Bíblico

A. A Necessidade da Disciplina

145
Aquele que ordena a disciplina na igreja é o mesmo que estabelece o padrão
a ser seguido no exercício da mesma. Esse padrão consiste primeiramente
em amor paternal (Hb 12.4-13). É certo que o mundo vê a disciplina como
expressão de ira e hostilidade, mas as Escrituras mostram que a disciplina
de Deus é um exercício do seu amor por seus filhos. Amor e disciplina
possuem conexão vital (Ap 3.19). Além do mais, disciplina envolve
relacionamento familiar (Hb. 12.7-9), e quando os cristãos recebem disciplina
divina, o Pai celestial está apenas tratando-os como seus filhos. Deus não
disciplina bastardos, ou seja, filhos ilegítimos (v. 8). O padrão de disciplina
divina revela também maravilhosos benefícios. A disciplina que vem do
Senhor "é para o nosso bem (v. 10)." Ainda que seja inicialmente doloroso
receber disciplina, a mesma produz paz e retidão (v. 11). O v. 13 ensina que o
propósito de Deus em disciplinar não é o de incapacitar permanentemente o
pecador, mas antes de restaurá-lo à saúde espiritual.

O termo hebraico rasUm é usado no Antigo Testamento como sinônimo de


"instruir" (Pv 1.3, 8), "corrigir" (Pv 22.15 e 23.13) ou "castigar" (Is 53.5). No
Novo Testamento, o grego paidei/a possui sentido semelhante e é
freqüentemente usado na analogia entre a disciplina dos filhos por seus pais
e a correção que vem do Senhor (ver Hb 12.1-10 e Ap 3.19). Nesse sentido,
disciplina e sabedoria estão intimamente ligadas nas Escrituras (Sl 50.17; Pv
1.1-2 e 15.32). A correção é fonte de esperança para os que a aplicam e vida
para aqueles que a recebem corretamente (Pv 19.18 e 4.13). A correta
disciplina deve ser sempre aplicada com amor e não com ira (Pv 13.24).

Segundo as Escrituras, a disciplina na igreja está fundamentada não apenas


no exercício do bom senso, mas principalmente nos imperativos do Senhor.
O mandato bíblico referente à disciplina é encontrado especialmente no
ensino de Jesus (Mt 18.15-17) e nos escritos de Paulo (1 Co 5.1-13). Também,
há clara referência bíblica de que a igreja que negligencia o exercício desse
mandato compromete não apenas sua eficiência espiritual mas sua própria
existência. A igreja sem disciplina é uma igreja sem pureza (Ef 5.25-27) e
sem poder (Js 7.11-12a). A igreja de Tiatira foi repreendida devido à sua
flexibilidade moral (Ap 2.20-24).

B. Os Passos da Disciplina

Biblicamente, a disciplina na igreja tem um triplo objetivo: 1) restabelecer o


pecador (Mt 18.15; 1 Co 5.5 e Gl 6.1); 2) manter a pureza da igreja (1 Co 5.6-8)
e 3) dissuadir outros (1 Tm 5.20). É este triplo propósito que aponta para os
passos a serem seguidos em uma aplicação correta da disciplina
eclesiástica. Esses passos são especialmente mencionados em Mateus
18.15-17.

1. Abordagem individual- O v. 15 (Se teu irmão pecar vai argui-lo entre ti e ele
só...) ensina que a confrontação é um tarefa cristã. Uma das melhores coisas

146
a se fazer por um irmão em pecado é confrontá-lo em amor (Pv 27.5-6). Mas é
sempre arriscado confrontar alguém, pois nunca se pode prever a reação do
mesmo. Jesus, todavia, dirige nossa atenção para a alegre possibilidade de
que tal irmão nos ouça. Além do mais, o termo grego e)/legcon ("arguir,
instruir, confrontar," v. 15) também pode ser traduzido como "trazer à luz,
expor."(10) É significativo o fato de que esse é o mesmo termo usado em
João 16.8 para descrever o ministério do Espírito em relação àqueles que
estão no mundo, em convencê-los (confrontá-los) "do pecado, da justiça, e
do juízo." Assim, antes de confrontar um irmão, podemos sempre clamar por
socorro Àquele cujo ministério de confrontação é sempre eficaz.

2. Admoestação privada - No caso de o ofensor não atender à confrontação


individual, Jesus ordena que haja admoestação privada (v. 16). Nesse caso,
um número maior de pessoas é envolvido. A princípio, pode parecer que o
objetivo desse passo é intimidar o ofensor. Uma atenção maior, porém, leva-
nos a entender que o propósito do mesmo pode ser o de conscientizar o
ofensor quanto aos prejuízos de sua atitude para com a comunidade do
corpo de Cristo. Em outras palavras, nosso pecado traz conseqüências
pessoais e coletivas. Além do mais, Jesus afirma que as outras pessoas
envolvidas nesse processo serão testemunhas. Isto é uma referência à
prática vetero-testamentária de não se condenar alguém com base apenas
em uma opinião pessoal (ver Nm 35.30, Dt 17.6 e 19.15). Com isto, a
objetividade do caso é preservada, o que diminui as chances de injustiça, e
o ofensor é beneficiado.

3. Pronunciamento público (v. 17) - Tal proceder nunca é violação de


segredos, pois o ofensor deliberadamente recusou os caminhos prévios do
arrependimento. Diante de tal pronunciamento cada membro do corpo de
Cristo deve orar pelo pecador, evitar comentários desnecessários (2 Ts 3.14-
15) e vigiar a si próprio (1 Co 10.12). Tal oficialização pública da disciplina
traz implicações temporárias em relação aos sacramentos (1 Co 11.27).(11)

4. Exclusão pública - O último recurso da disciplina é o da excomunhão (do


latim ex, "fora," e communicare, "comunicar"), na qual o ofensor é privado
de todos os benefícios da comunhão. Nesse caso, o ofensor é tido como
gentio (a quem não era permitido entrar nos átrios sagrados do templo do
Senhor) e publicano (que eram considerados traidores e apóstatas: Lc 19.2-
10). Com estes não há mais comunhão cristã, pois deliberadamente recusam
os princípios da vida cristã (1 Co 5.11). Se o seu pecado é heresia, ou seja, o
desvio doutrinário das verdades fundamentais ensinadas nas Escrituras,
eles não devem nem mesmo ser recebidos em casa (2 Jo 10-11).

É claro que cada um desses passos envolve dor, tempo, amor e


transparência. Nenhum deles é agradável e eles só prosseguem diante de
dureza de coração do ofensor, ou seja, a recusa ao arrependimento. Há
porém o conforto de saber que a presença e o poder de Jesus são reais
mesmo no contexto desse processo (Mt 18.19-20). Assim, a disciplina

147
eclesiástica "não é uma atividade a ser realizada facilmente, mas algo a ser
conduzido na presença do Senhor."(12)

III. Implicações teológicas

Sem a intenção de limitar, mas tão somente de elucidar, oferecemos três


tópicos teológicos que estão vitalmente ligados ao processo da disciplina
eclesiástica.

A. Disciplina e a Adoração Cristã

A verdadeira adoração "é a mais nobre atividade de que o homem, pela


graça de Deus, é capaz."(13) A exclusiva adoração a Deus é um mandato
divino (Mt 4.10 e Ap 19.10), é uma marca da fé salvadora (Fp 3.3), e deve
seguir os princípios revelados por Deus em sua Palavra.(14) Um princípio
essencial da adoração cristã é o zelo pela santidade do nome do Senhor (Ex
20.7 e Mt 6.9). A negligência do povo de Deus quanto aos mandamentos do
Senhor motiva os incrédulos a blasfemar o nome de Deus (Rm 2.24). Assim,
o zelo pela santidade do nome de Deus implica diretamente no exercício da
disciplina eclesiástica. Uma igreja adoradora e ao mesmo tempo tolerante
para com o pecado no seu seio é uma contradição de termos e recebe a
repreensão do Senhor (Ap 2.18-29).

B. Disciplina e as Marcas da Igreja

A Reforma Protestante do século XVI considerou importantíssima para a


teologia cristã a seguinte questão: Como distinguir entre a igreja verdadeira
e a falsa? Em outras palavras, quais são as marcas da verdadeira igreja
cristã? Para o reformador João Calvino, tais marcas consistem da
proclamação da Palavra, da administração dos sacramentos e do exercício
da disciplina eclesiástica. Segundo ele, "aqueles que pensam que a igreja
pode sobreviver por longo tempo sem disciplina estão enganados; a menos
que pensemos que podemos omitir um recurso que o Senhor considerou
necessário para nós."(15) Nesse sentido, "a disciplina eclesiástica é tão
necessária quanto os ligamentos do corpo humano, ou como a disciplina em
família."(16)

Sendo que Cristo deseja sua igreja "sem mácula, nem ruga, nem coisa
semelhante, porém santa e sem defeito" (Ef 5.27), a disciplina eclesiástica é
altamente relevante, pois é um meio instituído por Deus para manter pura a
sua igreja. O servo de Deus sempre deve almejar a pureza da noiva do
Cordeiro (2 Co 11.1-3), mesmo diante da possibilidade da sua contaminação
pelo mundo.

C. Disciplina e Evangelismo

A disciplina evidencia o amor cristão pelo pecador, ainda que esse pecador

148
seja um dos membros da igreja. Esse amor pelo pecador cristão também
reflete o amor da mesma pelo pecador incrédulo. A disciplina eclesiástica
ressalta a seriedade do pecado. Sem a visão dessa seriedade, a igreja não é
corretamente motivada a buscar a redenção do pecador. Há uma relação
entre disciplina eclesiástica e evangelismo.

Uma igreja sem disciplina torna-se um impecilho para o avanço do


evangelho. Essa relação vital entre evangelismo e disciplina é clara à luz de
1 Co 5.12-13. O evangelismo é dirigido aos que estão fora dos portões da
igreja e que estão escravizados pelo pecado. A disciplina é dirigida àqueles
que estão dentro dos portões da igreja e que estão se sujeitando ao domínio
do pecado. Assim, ambos (evangelismo e disciplina) almejam a liberdade do
pecador e a concretização do triunfo histórico da graça sobre o pecado na
vida do mesmo (Rm. 6.1-23). Uma igreja sem disciplina proclama uma
liberdade desconhecida, ou rejeitada, pelos seus próprios membros. Como
diz Barnes, "há pouca vantagem em uma greja que tenta vencer o mundo se
ela já tem se rendido ao mundo."(17)

Conclusão

Laney adverte para o fato de que "a disciplina é como um medicamento


muito forte: pode trazer a cura ou causar maior dano."(18) Nenhum
profissional médico, porém, se recusa a aplicar um medicamento que pode
curar o seu paciente apenas porque o mesmo é forte. Também, nenhum
doente faz opção pela morte ou pela continuidade da doença se a vida e a
cura podem estar tão próximas.

Uma séria reflexão bíblica sobre a disciplina eclesiástica evidencia dois


princípios básicos. Primeiro, que a disciplina na igreja não é uma opção,
mas sim uma ordenança e, conseqüentemente, uma bênção divina (Hb 12.5-
7). Segundo, que a disciplina requer profundo amor por parte da igreja que a
aplica e semelhante humildade e quebrantamento por parte daquele que é
disciplinado (2 Co 2.5-11).

1 Ver Os Guinness, Dining With the Devil: The Megachurch Movement Flirts
With Modernity (Grand Rapids: Baker, 1993).

2 Ver Guilherme de Barros, "O Pastor da Esquerda Evangélica," Vinde (Julho


1997):7-12. Nessa entrevista, o bispo Robson Cavalcanti teoriza sobre casos
em que a poligamia poderia ser considerada uma atitude mais humana. O
presente autor discorda do bispo e crê que a questão retórica a ser
levantada não é se condenar a poligamia "seria humano," mas sim se a
prática atual da mesma "é bíblica."

3 Essa é uma constante referência à obra clássica de Nathaniel Howthorne,


The Scarlet Letter.

149
4 Josh N.D. McDowell, Tolerating the Intolerable: A Mandate of Love
(Wheaton, Illinois: Josh McDowell Ministry).

5 Richard J. Foster, Celebração da Disciplina: O Caminho do Crescimento


Espiritual, trad. Luiz Aparecido Caruso (São Paulo: Vida, 1983).

6 Carl J. Laney, "The Biblical Practice of Church Discipline," Biblioteca Sacra


(Outubro-Dezembro 1986): 353-64.

7 Compton’s Interactive Encyclopedia, 1997 (The Learning Company, Inc.


CD).

8 Justo L. González, The Story of Christianity (Nova York:


HarperSanFrancisco, 1984), 277-359.

9 Wayne Grudem, Systematic Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1994),


896. Minha tradução. A única exceção a esse princípio foi "o pecado secreto
de Ananias e Safira (At 5.1-11). Nesse sentido a atuação extraordinária do
Espírito Santo resultou em grande temor entre os membros da igreja."

10 F. F. Bruce, ed., Vine’s Expository Dictionary of Old and New Testament


Words (Nova Jersey: Fleming H. Revell, 1981), 283-4.

11 R. N. Caswell, "Discipline," em New Dictionary of Theology, eds. S. B.


Ferguson, D. F. Wright, e J. I. Packer (Downers Grove: InterVarsity, 1988),
200.

12 Grudem, Systematic Theology, 898. Minha tradução.

13 John R. W. Stott, Christ the Controversialist: A Study in Some Essentials


of Evangelical Religion (Londres: Tyndale Press, 1970), 160. Minha tradução.

14 Confissão de Fé de Westminster, XXI.i.

15 John Calvin, Institutes of the Christian Religion, ed. John T. McNeill


(Filadélfia: Westminster, 1960), 4.7.4. Minha tradução.

16 Caswell, "Discipline," 200. Minha tradução.

17 Peter Barnes, "Biblical Church Discipline," The Banner of Truth 414


(Março 1998): 20. Minha tradução.

18 Laney, "The Biblical Practice of Church Discipline," 363.


Parte XXV
É MARAVILHOSO...

150
“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos
de Deus; e nós o somos. Por isso o mundo não nos conhece; porque não
conheceu a ele. Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o
que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos
semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos” (1Jo 3.1,2).

Sou fascinado pela Primeira Carta de João. Ela tem qualidades extraordinárias.
Este é o mesmo João que um dia, ao passarem Jesus e os discípulos por
Samaria, ao perceber a má vontade dos samaritanos em receber o grupo porque
era composto de judeus (pois havia inimizade entre samaritanos e judeus, como,
por sinal, ainda hoje acontece), indaga de Jesus se não seria conveniente pedir
um raio que acabasse com os samaritanos tão sem hospitalidade (cf. Lc 9.51-54).
Este tão intolerante e raivoso João é o mesmo que quase sessenta depois,
amadurecido, experimentado, tem agora um tratamento absolutamente diferente.
Escreve esta carta debaixo de uma ternura tão grande, como atestam suas
palavras do início até o verso final.

É nessa carta que ele diz que “Deus é amor” (4.8); que “temos um advogado para
com o Pai” (2.1); e, ainda, “Eu escrevi, jovens, porque sois fortes, e a palavra de
Deus permanece em vós, e já vencestes o Maligno” (2.14).

Fizemos o destaque dos versículos iniciais do capítulo 3, que passaremos a


comentar. Estes dois versículos nos dão uma grande descoberta: o evangelho de
Jesus Cristo tem uma mensagem de alcance mundial, tão extraordinária que fala
de quando nosso passado foi obliterado, jogado para trás, fala de uma experiência
presente na nossa caminhada em e com Cristo, e fala do futuro, daquilo que nos
aguarda, da gloriosa epifania, da presença de Jesus Cristo, de Sua manifestação
na Segunda Vinda. Algo especial vai acontecer, e isso é maravilhoso!

É MARAVILHOSO...

“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos
de Deus; e nós o somos” (v. 1). É maravilhoso sermos “chamados filhos de Deus”.

Quem são os filhos de Deus? A pergunta tem pertinência porque existe uma
teologia popular que afirma que todos são filhos de Deus. Ouvi nesta semana um
pedaço de conversa no supermercado em que um cidadão dizia para o outro: “...
mas eu também sou filho de Deus...” Talvez fosse, não queremos julgar, mas a
idéia geral e popular é essa.

É popular, mas não é da Bíblia, que ensina que somos criaturas de Deus, ou como
o apóstolo Paulo deixou registrado, “somos feitura sua, criados em Cristo Jesus
para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas” (Ef
2.10). A palavra “feitura” é muito sugestiva na língua em que Paulo escreveu esta
carta; é poeimia, de onde vem nossa palavra “poema”. Somos uma obra de arte
de Deus, mas tão somente criaturas.

151
Então, se todos somos criaturas, quem é filho de Deus? Há inúmeras referências
na Bíblia Sagrada sobre isso. Gálatas 3, verso 26, não deixa por menos: “Pois
todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.” Já fez uma tremenda limitação,
pois quem não tem fé em Jesus Cristo não é filho de Deus!

Se assim é, que teologia é essa que ensina que todos somos filhos de Deus? Se
alguém não acompanha a Jesus, não o considera com responsabilidade na vida,
não tem um comprometimento sério com Ele pode efetivamente ser chamado
“filho de Deus”? Pela Escritura Sagrada, não. Vamos, então, ao Evangelho de
João. É o mesmo escritor da carta que estamos apreciando. Diz ele: “Veio [Cristo]
para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o
receberam, aos que crêem no seu nome [aos que têm fé-adesão, compromisso],
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1.11,12).Quem é filho de
Deus? Os que têm fé e crêem em Cristo Jesus.

Diz a Palavra de Deus, ainda, que são filhos de Deus os que andam em
sinceridade. Ser sincero é ter uma face autêntica, ser puro de mãos e limpo de
coração. A palavra sincero vem do teatro greco-romano. O modo de fazer teatro
era diferente do nosso, visto que a postura corporal, o tom da voz, a expressão
facial têm enorme importância no teatro moderno. No teatro romano, usavam-se
máscaras: uma tinha a boca voltada para cima como se estivesse sorrindo, e dava
idéia de alegria, e a outra tinha a boca voltada para baixo como se chorasse, e
denotava tristeza. Para passar alegria, colocava-se no rosto a máscara feita de
cera denotando felicidade; se tristeza, a máscara triste de cera era colocada no
rosto. Quando o ator não estava de máscara, sem a cera no rosto, portanto,
estava com a verdadeira face aparecendo. Uma pessoa “sincera” (sem cera) ´não
está mascarada, mostra quem é. E diz a Bíblia que quem anda na honestidade de
seu coração voltado para a fé em Jesus Cristo, essa pessoa é filha de Deus. E o
propósito do evangelho é patente: “...para que vos torneis irrepreensíveis e
sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa,
entre a qual resplandeceis como luminares no mundo” (Fp 2.15).

Diz a Palavra Santa que é filho de Deus quem é praticante da justiça. Palavrinha
boa... justiça! Ser justo é ser reto no que se faz. Nas artes gráficas, justificar é
colocar tudo reto; o mesmo em informática: pode-se justificar pelo lado esquerdo,
pelo direito ou pelo meio. A Palavra de Deus é tão clara quando diz, “Justificados,
pois, pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
Glória a Deus porque pela fé somos considerados retos diante de Deus: tudo o
que é passado vai para a lixeira da eternidade, e agora temos uma vida toda nova
porque fomos considerados justos pelo Senhor, palavras Suas. Essa citação
encontra outra versão em 1João 3.10: “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e
os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus”. A Bíblia diz, ainda,
que são filhos de Deus os que promovem a paz. “Bem-aventurados os
pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9).

Pacificador não é o não-violento, nem o que foge de conflitos: é o que promove a

152
paz.

Uma melhor tradução para esta afirmação de Jesus Cristo é “Bem-aventurados os


promotores da paz, porque eles serão chamados filhos de Deus”, ou. A modo
exclamativo, “Como são feliz os artesãos da paz porque Deus os tem como
herdeiros de Sua natureza”. Uma oração atribuída a Francisco de Assis pede
“Senhor, faze de mim um instrumento de Tua paz”. Está dentro do espírito do
evangelho. Filhos de Deus são os guiados pelo Espírito Santo de Deus. “Pois
todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus ... O
Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm
8.14, 16); “E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de
seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4.6).

Voltando ao texto básico (“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que
fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos. Por isso o mundo não nos
conhece; porque não conheceu a ele.

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de
ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele;
porque assim como é, o veremos”, 1Jo 3.1,2), descobrimos que é mais
extraordinária uma declaração que vem a seguir:

É MAIS MARAVILHOSO... O fato de que agora somos filhos de Deus, pois


“Amados, agora somos filhos de Deus...” (1Jo 3.2a). Além de referendar a primeira
e já comentada declaração, acrescenta que “neste momento, neste instante, agora
somos filhos de Deus”! E isto é mais extraordinária porque ninguém precisa ficar
esperando que uma determinada situação aconteça para tentar obter a filiação
divina. Paulo e João nos dizem que a relação fundamental dos salvos com Deus é
filial. Paulo nos dá o aspecto legal. Diz que fomos adotados por Deus: é a adoção,
portanto. Gálatas 4.5 esclarece: “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu
Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei, para resgatar os que estavam
debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” e “Bendito seja o Deus e
Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual ... nos elegeu nele antes da fundação do
mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos
predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo,
segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1.3-5; cf. Rm 8.15).

João nos apresenta o aspecto natural: fala de geração.. Paulo diz que fomos
adotados, mas João diz que fomos gerados, e isso é mais íntimo. Uma pessoa
quis falar de uma criança que havia adotado. Ao ser indagada pelo interlocutor,
“então, é seu filho de criação?”, respondeu com muita ternura, “Não, é meu filho
do coração...” Que lindo jogo de palavras. Há o filho que nasce do ventre e há o
que nasce do coração. Os apóstolos usam ambas as figuras. A Bíblia diz que
Deus nos gera no coração agora! Precisamos entender, no entanto, na lei romana,
sob a qual Paulo viveu, adoção era considerada como equivalente à verdadeira
filiação. E como a nossa lei é herdeira direta da linha-mestra do Direito Romano,
também no nosso Direito o filho adotado é reputado como filho que nasceu do

153
ventre daquela mãe. Neste verso, duas das suas idéias centrais se encontram: o
amor e a filiação da parte de Deus. Um amor que tem como fim, como objetivo
que os seres humanos sejam chamados Seus filhos. É como claramente diz João:

“somos filhos de Deus”, palavras que anunciam o glorioso fato de que


pertencemos à família divina. E isso é simplesmente maravilhoso porque não
acontecerá no futuro, mas já acontece agora. Observe o relato a seguir: “Disse-lhe
alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram falar contigo.
Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe? e quem são meus
irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis aqui minha mãe
e meus irmãos. Pois qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus,
esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12.46-50, itálico do autor). E porque filhos de
Deus, Seus interesses se tornam nossos interesses. Filhos da ira que éramos,
tornamo-nos, por adoção, herdeiros da Sua glória. No nascimento carnal, filhos da
desobediência; no segundo nascimento, no espiritual, filhos de Deus. E esse
estado é desfrutado agora, seja a pessoa abençoada rica ou pobre, letrada ou
não. Isso quer significar uma série de privilégios:

? Somos congregados num só corpo: “o sumo sacerdote naquele ano, profetizou


que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também
para congregar num só corpo os filhos de Deus que estão dispersos” (Jo 11.52).

? Somos herdeiros de Deus: “e, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e


co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com
ele sejamos glorificados” (Rm 8.17).

? Recebemos o amor e a disciplina da parte do Pai: “Vede que grande amor nos
tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus” (1Jo 1.3) e “É para
disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a quem o
pai não corrija?” (Hb 12.7).

? Somos filhos da ressurreição: “porque já não podem mais morrer; pois são
iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição” (Lc 20.36).

E vivemos na expectativa de um futuro glorioso e radiante, como destaca 1João


3.2, a ser explicado em seguida.

É AINDA MAIS MARAVILHOSO... “... sabemos que, quando ele se manifestar,


seremos semelhantes a ele” (Jo 3.2b). Aqui temos três informações
importantíssimas: O Senhor Jesus ainda se manifestará. Estamos no aguardo do
retorno de Cristo, ansiamos por Sua vinda. Ele virá e nos tomará para Si como nos
prometeu em Mateus 24.30, 31: “aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e
todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as
nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com
grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro
ventos, de uma à outra extremidade dos céus”.

154
Este texto é referendado por “o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado,
à voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo
ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos seremos arrebatados
juntamente com eles, nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim
estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.16, 17).

Nós o veremos como é. Não como homem de dores, não na Sua Paixão, isso já
ficou para trás! Vamos vê-Lo gloriosamente retornando como a Bíblia descreve:
“Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap 1.7a), e, repetimos, “Então
aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se
lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e
grande glória” (Mt 24.30). Agora o veremos na Sua glória como Rei dos reis e
Senhor dos senhores! Há uma terceira etapa: isso vai completar nossa
semelhança com Ele. Isso é extraordinário porque “Quando Cristo, que é a nossa
vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Cl
3.4). Agora, precisamos ter a mente de Cristo como Paulo enfatiza (“nós temos a
mente de Cristo, 1Co 2.16), precisamos imitar a Jesus Cristo agora (“sede pois
imitadores de Deus, como filhos amados”, Ef 5.1). Mas quando Jesus retornar, vai
de tal maneira que não somente teremos a mente de Cristo, mas também o corpo
semelhante ao corpo glorioso de Cristo. A Bíblia é um tanto econômica sobre esse
assunto. Paulo, por exemplo, não soube como dizer como seria este corpo igual
ao corpo glorioso de Cristo. Por isso, colocou uma expressão, “corpo espiritual”.
Como seria este “corpo espiritual”? É só lembrar o episódio da transfiguração:
“tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, e os conduziu à
parte a um alto monte; e foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandeceu
como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mt 17.1, 2). Esta
visão extraordinariamente gloriosa pode ser uma pista para entendermos o “corpo
espiritual” de que fala Paulo. Implícito em todo o que foi dito por João e Paulo está
a Segunda Vinda, a transformação dos corpos operada na ressurreição, a
reconfiguração dos que estiverem vivos naquela ocasião. E tudo isso começa com
uma coisa: a fé. E não é verdade? Tudo começa com fé. E essa felicidade de que
estamos gozando tem algo tremendamente emblemático: a própria palavra
começa com a sílaba – FÉ -. Diga a Jesus: “Senhor, eu creio no que Tu falas,
creio no que Tu pregas, creio na salvação trazida por Ti! Eu creio na Tua cruz,
creio e quero receber as bênçãos do Calvário!” O pecado é incompatível com o
fato de ser filho de Deus; é incompatível com o propósito da manifestação de
Cristo. Mas o querido leitor não precisa esperar pela Segunda Vinda de Jesus
Cristo para receber a filiação divina: pela fé, agora, segundo o ensino da Bíblia,
você pode se tornar filho de Deus!

Parte XXVI
EVANGELIZAÇÃO - A AÇÃO DO EVANGELHO
O mundo atual no qual vivemos se encontra em um estado terrível
pecaminosidade, onde muitas pessoas a cada dia seguem rumo à morte, sem
esperança alguma de salvação. Porém há um povo sobre a terra que recebeu
uma mensagem de vida, de luz, para ser entregue aos homens. Este povo não

155
pode parar diante das densas trevas que se levantam.

Este povo é diferente, pois serve a um Deus inigualável, possui uma mensagem
diferente, faz uma oração distinta e tem um poder único, este povo são os remidos
do Senhor Jesus Cristo, comprado pelo sangue, comprados por um alto preço de
sangue. Não fomos tomados emprestados da mão do diabo, fomos conquistados
por Cristo.
Este povo não pode calar, porque se isto fizer-se até mesmo as pedras clamariam.
Não podemos nos deter, com as coisas deste mundo. Temos que avançar,
colocando o reino das trevas em retirada. Levantando bem alto a bandeira do
Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Muito campo ainda falta para ser conquistado, muita terra para ser alcançada,
nada pode nos impedir, Deus nos chamou para destruir as obras do diabo, e
anunciarmos ao mundo que o Rei está voltando.
O Evangelismo é uma arma poderosa se usada de forma correta, para isso vamos
analisar o que a Bíblia nos ensina com respeito a este tema.

Definindo Três Palavras: Evangelho, Evangelização & Evangelismo

Estas três palavras possuem definições fortes e contundentes em nossas vidas,


enquanto uma se torna uma tarefa, a outra é a descoberta da salvação e a outra é
a ação.
Uma delas é voltada para o mundo em pecado a outra é voltada para a Igreja,
ambas dependem uma da outra, e estão nas mãos da Igreja.

EVANGELHO

O termo evangelho vem do grego evanguélion, que significa, literalmente,


boas novas. Quando os anjos anunciaram aos pastores o nascimento de
Jesus (Lc 2.10,11) foi empregado o verbo correlato evanguelizo, que tem o
significado de levo ou trago boas novas, naquele exato momento começa-se
a cumprir as promessas de Deus com relação ao Salvador da humanidade.
Evangelho é então o anuncio do cumprimento da providência de Deus para
salvação dos pecadores, que se realizou com a vinda de seu filho ao mundo.

EVANGELIZAÇÃO

A palavra evangelização provém do grego evaggelizo, cujo significado é:


"Anuncio boas novas". Basicamente, pois, evangelização é levar o
evangelho às pessoas, é a apresentação de Jesus Cristo no poder do
Espírito Santo, de tal maneira que os homens possam confiar nele como
Salvador e servi-lo como Senhor de suas vidas.
Desta forma podemos definir que evangelização é quando levamos as
pessoas ao pleno conhecimento da verdade de Deus em relação ao seu filho
Jesus Cristo. Aqueles, porém que entendem que a evangelização é uma ação
que consiste em levar perdidos a Jesus para serem salvos por Ele, hão de

156
empenhar-se apaixonadamente na propagação do evangelho.

EVANGELISMO

Evangelismo é a ação cujo objetivo é levar os homens a conhecerem sua


condição de pecadores perdidos e a conhecerem o plano de Deus para sua
salvação; induzi-los à aceitação de Jesus Cristo como Filho de Deus,
Salvador e Senhor, e integrá-los na vida cristã.
Nesta definição vamos encontrar três pontos básicos de apoio que devem
ser verificados, são eles:

1 - Informação: Evangelismo é uma ação que tem por fim informar. Se faz
necessário que o ser humano seja informado de sua condição de pecador e
de sua vida distanciada da presença de Deus, da necessidade de arrepender-
se de seus pecados e ser informado que Deus o ama (Jo 3.16), que entregou
seu filho para salva-lo. Nesta área de informação deve-se utilizar todos os
meios de comunicação possível, desde o rádio até a Internet.

2 - Convencer: Evangelizar também é convencer o homem de seu estado


pecaminoso, além de anunciar ao homem o seu estado é necessário que o
evangelista dê lugar ao Espírito Santo para que este possa usá-lo para
convencer o pecador que ele precisa de salvação.

3 - Integração: Consiste no discipulado, durante o qual o novo crente


aprende as doutrinas bíblicas, cresce em poder e fé e se desenvolve,
aplicando-se cada vez mais ao serviço de Deus. Desta forma a evangelização
de uma pessoa não termina quando ele aceita a Jesus mas está apenas
começando.

Depois de examinarmos estas definições, chegamos a conclusão, que


evangelizar é uma tarefa muito importante e difícil, a qual não pode estar nas
mãos de pessoas individualistas que não possuem compromisso com a obra
de Deus, é preciso investir, treinar, capacitar e ter métodos avançados e
modernos de evangelização.

MOTIVOS QUE NOS LEVAM AO EVANGELISMO

Quando lemos a Bíblia Sagrada, vamos encontrar alguns motivos fortes que
nos levam a querer fazer evangelismo, vejamos alguns destes pontos fortes:

1 - O Conhecimento da Vontade de Deus - Quando lemos a Bíblia Sagrada e


nela encontramos que a principal vontade de Deus é que todos cheguem ao
pleno conhecimento da Salvação (I Tm 2.4), nos colocamos em posição de
ordem, pois sendo Deus meu Senhor devo fazer de tudo para que a sua
vontade seja cumprida. Essa vontade revela o amor de Deus para com todos
os pecadores e ao mesmo tempo a grandiosidade da obra que é a
evangelização.

157
2 - A Ordem de Jesus - Nesta ordem de Jesus podemos ver que se faz
necessário a existência de um discipulado obediente, espiritual e dinâmico;
implica também, na organização eficiente da evangelização local e
missionária. Na ordem de Jesus registrada em Marcos 16.15, distinguem-se
os seguintes elementos:
a) O Campo de Atividade para a Evangelização - O mundo inteiro;
b) O Alvo a ser Atingindo - O homem;
c) A Tarefa específica a ser cumprida - A pregação do evangelho.

3 - A Revelação das Sagradas Escrituras - Quando lemos na Bíblia Sagrada,


como se encontram as almas sem Cristo ( Rm 3.10-12, 23; 6.23), e
começamos a pensar no sofrimento que há no inferno e que este sofrimento
é eterno para aqueles que não aceitaram a Jesus Cristo e que eles poderão
estar lá porque eu não fiz a minha parte. E nesta mesma revelação vamos
encontrar a Bíblia afirmando que uma só alma vale mais que o mundo inteiro
( Mc 8.36,37). Para podermos evangelizar as almas precisamos olhar como
Jesus olha para elas; como ovelhas sem pastor, desgarradas e sofrendo, se
não tivermos esta visão das almas nunca teremos coragem de evangelizar.

4 - Compreensão de que Somente o Evangelho pode Salvar - É tolice tentar


encontrar salvação fora do Evangelho (Rm 10.13-17), e os crentes tem este
poder. A grande solução da humanidade não está na política bem feita, ela
pode até ajudar na vida material mas, não servirá de nada no lado espiritual,
o desenvolvimento econômico também não têm capacidade de oferecer
salvação, nem a ciência tem poder para isto, mas o evangelho têm, e este
evangelho que está em nós devemos repartir com aqueles que ainda não
conhecem a Salvação que está em Cristo Jesus.

5 - A Visão da Extensão da Obra - Jesus disse que o nosso campo seria o


mundo (Mc 16.15), haja vista que a cada dia que se passa milhões de
pessoas nascem, muitas em países comunistas, que ainda impõem as
cortinas de ferro, e estão esperando por nós, será que vamos cruzar os
braços diante desta grande tarefa ?

6 - Visão da Responsabilidade Pessoal - Quando Deus chamou a Ezequiel,


Ele o colocou como atalaia sobre a casa de Israel, (Ez 3.17) será que é
diferente? Deus tem nos constituído como um atalaia não apenas em Israel
mas principalmente para o mundo. E como podemos escapar desta
responsabilidade? Não podemos, Deus ordenou e temos que cumprir nossa
missão.

O EVANGELISMO VISTO NOS QUATRO EVANGELHOS

Dentro dos quatro evangelhos, vamos encontrar um personagem central,


voltado inteiramente para a obra de evangelização das almas, Ele é com toda
a certeza o maior de todos os evangelistas que o mundo já teve.

158
Vamos ver algumas características que este grande evangelista possuía, e
como ele organizou uma campanha de evangelismo bem preparada e
equipada.

JESUS O PRIMEIRO EVANGELISTA

1 - Características Pessoais

a) Esforçado - Jesus era esforçado na obra que realizava, a Bíblia relata que
dois dos discípulos de João Batista o seguiam, desejosos de saber onde o
mestre morava, Jesus os convidou a acompanhá-lo e permaneceu com eles
quase todo aquele dia, ensinado-lhes a palavra de Deus, eles queriam
apenas conhecer aonde o Mestre morava porém Jesus aproveitou a
oportunidade para convence-los de que Ele era o Messias esperado por
Israel.
b) Paciência e Determinação - Neste mesmo episódio revela duas outras
características de Jesus a Paciência e Determinação, Ele não tinha pressa
em evangelizar, ele podia apenas ter mostrado onde morava e pronto, mas
ele viu a oportunidade de ensinar mais a respeito dEle e da sua missão.
c) Compaixão - Em Mateus 14.14, vamos encontrar quando a Bíblia afirma
que Jesus por compaixão as almas que ali estavam as curou de suas
enfermidades, e nós quantas vezes passamos perto de pessoas que
precisam de uma palavra e nada fazemos.
d) Espírito de Sacrifício - Jesus durante toda a sua vida, viveu uma vida de
sacrifícios, pois ele mesmo declarou (Mt 20.28). Foi justamente isso que ele
fez durante seu ministério terreno, passava noites inteiras orando, passava
horas e mais horas curando os enfermos, percorria vilas e cidades pregando
a palavra de Deus e jamais despediu uma pessoa sem lhe ajudar, este
exemplo é que nós devemos seguir.
e) Preciso - Jesus não gastava tempo com filosofias humanas e
especulações Ele ia direto ao ponto sem perda de tempo. ( Lc 5.21-24). Jesus
não permitia que qualquer debate que Ele tivesse, tomasse outro rumo a não
ser o reino de Deus (Jo 3.1-21; Jo 4.1-30), infelizmente quando muitos vão
evangelizar se deixam levar com conversas que os desviam totalmente do
objetivo.
f) Espírito Compreensivo e Perdoador - Jesus compreendia as fraquezas
humanas, e ao invés de ser um juiz implacável, Ele perdoava aos que se
arrependiam, podemos ver isso claramente na mulher adúltera (João 8.1-11).
O evangelista precisa aprender com o Mestre a combater o pecado,
procurando, contudo, salvar o pecador, a considerar o pecador como um
enfermo, que precisa de cuidados e não de açoites.
g) Dinamismo - Jesus era dinâmico não parava um momento a não ser o
necessário para descansar e repor as energias perdidas das caminhadas,
precisamos aprender com Ele.

MÉTODOS DE EVANGELIZAÇÃO UTILIZADOS POR JESUS CRISTO

159
Jesus empregou, na evangelização, dois métodos: Ensino Pessoal (Zaqueu,
A Mulher Samaritana, Nicodemos) e Proclamação às Massas. Os métodos de
evangelismo são imutáveis. As técnicas, estas sim, podem evoluir, serem
substituídas, modificadas para se adaptar-se as necessidades.
Atualmente contamos com grande variedade de recursos técnicos, que
ajudam a divulgação do evangelho; ampliação sonora, projeção luminosa,
gravação em discos, CDs, rádio, televisão, Internet e etc. Contudo seja qual
for o recurso empregado como auxiliar na evangelização, forçosamente
teremos de usar um dos dois métodos de Jesus - ou ensinar individualmente
ou Proclamar às Massas.
A Obra de evangelização necessita de grandes e poderosos pregadores para
as massas e de inumerável quantidade de pessoas treinadas para o ensino
individual.

A ORGANIZAÇÃO DA CAMPANHA DE EVANGELIZAÇÃO POR JESUS


CRISTO

Jesus não podia deixar a evangelização do mundo confiada à iniciativa


pessoal e espontânea, resultante das emoções, por isso organizou o
movimento de evangelização. A evangelização deve ser um movimento
racionalmente organizado, para tal Jesus a organizou da seguinte maneira:

1. Chamada - O primeiro passo na organização do evangelismo foi chamar


discípulos (Mc 1.16-20; 2.13-17);
2. Instrução - Tendo escolhido os apóstolos, Jesus passou a instruí-los para
o desempenho da missão que lhe daria;
3. Treinamento - Além de instruir, Jesus proporcionou um treinamento
eficaz, organizando campanhas de evangelização (Mc 6.6-13; Lc 10.1-29);
4. Definição da Tarefa - Podemos notar que me ambas as tarefas Jesus
especificou o local exato para que pudessem desenvolver o trabalho.

Cristo ofereceu-nos o perfeito exemplo de evangelista, cumpre-nos imitá-lo,


se quisermos ser testemunhas eficientes, Ele deu ênfase à evangelização
pessoal, porém não descartou a evangelização em massa, é necessário que
hoje haja um despertamento entre os crentes para ganhara almas para o
reino de Jesus Cristo.

CARACTERÍSTICAS DO EVANGELISMO REGISTRADO NO LIVRO DE ATOS

Se quisermos melhorar nossas atividades evangelizadora teremos que


analisar os métodos utilizados pela Igreja Primitiva, e buscarmos colocá-los
em prática hoje. Eles sem os meios necessários para evangelizar
conseguiram levar a mensagem da salvação em todo o mundo habitado de
sua época.

1. O Evangelismo Primitivo era Intenso - Os discípulos testemunhavam


todos os dias, não cessando de anunciar a Jesus Cristo (At 2.46,47; 5.42). Se

160
estivermos todos empenhados em falar de Cristo todos os dias; se
estivermos determinados a abrir novas frentes e organizarmos novas
igrejas, os resultados de nosso trabalho serão multiplicados.
2. O Evangelismo Primitivo era Dinâmico - Os discípulos não esperavam que
os pecadores lhe viessem ao encontro, pelo contrário, saíam a procura
deles, percorrendo ruas, vilas e cidades, ensinando e proclamando
incessantemente o evangelho.
3. O Evangelismo Primitivo dava Ênfase ao Ensino - A Evangelização atual
com a tendência de supervalorização das concentrações, em detrimento da
evangelização pessoal, restando ao ensino quase exclusivamente o campo
da educação religiosa para os já crentes. O ensino tendo por objetivo a
evangelização pode facilmente ser usado pelas igrejas, organizando classes
especiais para interessados e visitantes.
4. O Evangelismo Primitivo era Ousado - Homens iletrados enfrentam
sábios; pobres e humildes desafiaram ricos e poderosos, testemunhando de
Cristo, mesmo quando a sombra das mais terríveis ameaças.
5. O Evangelismo Primitivo era culto - Assim como Deus usou a Pedro e
outros incultos para darem testemunho da Palavra de Deus, também se
utilizou de homens como Lucas, Mateus, Paulo e tantos outros, homens
formados, que diante da alta sociedade dava grande testemunho e defesa a
causa do Mestre.
6. O Evangelismo Primitivo era Impulsionado e Dirigido pelo Espírito Santo -
Os primitivos discípulos viviam cheios do Espírito Santo, de alegria e gozo
espiritual. Isso explica todas as demais características da evangelização
daqueles dias. (At 4.8,31; 5.17-41; 7.55).
Se colocarmos em prática estes métodos utilizado pela Igreja Primitiva,
iremos logra êxito, na evangelização do mundo no qual vivemos.

A PESSOA DO EVANGELISTA

A responsabilidade de evangelizar não é somente dos ministros. É de todos


os discípulos, há todavia, crentes que se limitam a cooperar com a obra de
evangelização freqüentando os cultos contribuindo, pensando que desta
forma estão fazendo o suficiente, porém se esquecem que a ordem de
ganhar as almas foi para todos e é infinita até a volta de Jesus Cristo, até os
confins da terra.

Como Deve ser a Pessoa do Evangelista ?

1. O Evangelista Deve ser um Verdadeiro Crente, Salvo por Jesus - Esse


requisito é óbvio, mas é necessário lembrá-lo. Infelizmente existe a
possibilidade de pessoas tentarem evangelizar sem que, elas próprias
tenham experiência de regeneração;
2. O Evangelista Deve ser Afável e cheio de simpatia - O evangelista deve
lembrar-se de que está tratando com enfermos, quando evangeliza, o pecado
é enfermidade. Existem evangelistas que ao invés de tratar os pecadores
com amor e carinhos os tratam com pedradas e desrespeito, desta forma ao

161
invés de ganharem perdem.

O Que o Evangelista Deve Saber ?

1. O evangelista Deve Conhecer a Bíblia - É necessário que o evangelista


possa ajudar o pecador a examinar a Palavra de Deus de modo a
compreender o plano da Salvação, é preciso portanto, que os crentes que
desejam, ganhar almas para Cristo estudem sistemática, metódica e
perseverantemente a Bíblia.

2. O Evangelista Deve Conhecer a Vida dos Homens e suas Desculpas - via


de regra, as pessoas que o crente procura evangelizar tenta escapar à
responsabilidade de enfrentar o problema do pecado com desculpas, o
evangelista não deve ser apanhado de surpresas por essas desculpadas, é
preciso saber rebater cada uma delas com a Palavra de Deus.

3. O evangelista Deve Conhecer as Diversas Religiões - O evangelista


precisa estar preparado não só para enfrentar as desculpas, mas também os
contra-ataques dos que têm convicções em falsas religiões.

O Que o Evangelista Deve Cultivar ?

1. O Evangelista Deve Cultivar a Oração Fervorosa - A Evangelização é um


combate espiritual contra as hostes das trevas, cuja vitória depende do
poder do Espírito Santo. E a oração, é o meio pelo qual Deus outorga esse
poder, não há evangelista bem sucedido que não seja dedicado à oração.

2. O evangelista Deve Cultivar a Leitura - O Evangelista deve estar sempre


procurando aumentar seus conhecimentos pela leitura.

3. O Evangelista Deve Cultivar o Desejo de ver as Almas Salvas - O objetivo


da evangelização é ganhar almas para Cristo, enquanto o evangelista não
estiver dominado pelo desejo de conquistar almas, não poderá ser bem
sucedido.

4. O Evangelista Deve Cultivar o Hábito de ir à Casa de Deus - Quem não ama


a sua Igreja, não dá valor aos cultos e não tem prazer em tomar parte em
suas reuniões jamais estará em condições de ganhar almas, estes são
apenas alguns deveres dos evangelistas.

O Que o Evangelista não Deve Fazer ?

1. O Evangelista Nunca Deve dar ênfase a Igreja e sim à Jesus - Entre o


diálogo travado entre Jesus e a mulher Samaritana, vemos um exemplo claro
de que a ênfase do ganhador de almas deve ser dada ao Senhor Jesus e
nunca a Igreja, ou a uma religião, ou a um lugar (Jo 4.20-29; At 4.12).

162
2. Nunca Discutir - E ao servo do Senhor não convém contender (II Tm
2.24,25).
Existem muitas outras atitudes que não são corretas à um evangelistas
porém se ele tem êxito nestes dois pontos estará realizando um bom
trabalho.

TRAÇANDO UMA ESTRAGÉGIA DE EVANGELISMO

Todo trabalho para se obter êxito se faz necessário que se tenha uma
estratégia de ação. Este tipo de assunto é bastante utilizado pelas grandes
empresas que desenvolvem seus planos de trabalho anual ou mensal.

Para que Ter uma estratégia ? Será que isto é bom ? Traçar ou ter uma
estratégia nada mais é que realizar o que Jesus realizou , Ele tinha um alvo a
alcançar e para chegar a este alvo Ele usou de estratégias de trabalho., Ele
próprio nos ensinou a traçar nossos objetivos para se analisar se os
recursos são suficientes. (Lc 14.28-33).

A estratégia não anula a direção que recebemos do Espírito Santo, a


estratégia apenas põe em prática a ordem que dEle recebemos.
O Apostolo Paulo utilizou de estratégia para ganhar almas para o reino de
Cristo, ele mesmo escrevendo disse que quando estava evangelizando os
judeus guardava a lei judaica, mas relaxava quando este evangelizava os
gentios que não estavam debaixo da lei (I Co 9.22; I Co 9.19).

Ter uma estratégia de trabalho não é coisa da invenção do homem, Ter uma
estratégia é até mesmo recomendada pela Bíblia, vejamos o que diz:

Pv 16.9 "Devemos fazer nossos planos, confiando na direção que Deus nos
dá"
Pv 18.15 "O homem inteligente sempre está pronto para considerar novas
idéias."

Desta forma notamos que a estratégia tem respaldo Bíblico, basta apenas
que nós venhamos a aceitar e pratica-la.

VANTAGENS EM SE TER UMA ESTRATÉGIA

Se aceitarmos o padrão Bíblico iremos descobrir que existe uma série de


vantagens em se traçar uma estratégia de trabalho:

1. Aumenta a nosso eficiência - em qualquer coisa que fazemos é necessário


gastar tempo, energia e dinheiro. A estratégia não apenas no ajuda a decidir
o que fazer, mas também nos ajuda a decidir o que não fazer, e isto é
igualmente importante. Um grande número de recursos dados por Deus são
desperdiçados porque líderes cristãos estão concentrando-se nas coisas
menos importantes.

163
2. Ajuda a medir a eficácia - Uma tarefa é eficaz quando ela atinge seus
objetivos. O planejamento estratégico requer que os alvos sejam expressos
de forma clara, isto nos capacita a medir o progresso e saber quando o que
foi projetado a fazer não esta ocorrendo bem.

3. Permite Correção no meio do Caminho - Se uma estratégia bem planejada


irá prever diversos pontos de averiguação onde nós verificamos a
metodologia que estamos usando, se o que estamos fazendo não está
funcionando bem, quando mais cedo nós descobrimos melhor.

4. Une a Equipe - Muito freqüentemente as estratégia para evangelismo e


missão envolve a participação de mais de uma pessoa, se faz necessário a
criação de uma equipe, quando a estratégia é adequadamente planejada,
cada membro desta equipe entenderá a contribuição que se espera dele,
cada membro do grupo saberá sua tarefa e desta forma poderão cumprir
com os objetivos de todo o grupo.

5. Permiti uma responsabilidade natural - Muito do que é feito para a obra de


Deus é voluntário, quando as pessoas não estão sendo pagas pelo que
estão fazendo corrigi-las não é fácil, uma estratégia claramente preparada
evita estas dificuldades porque a estratégia é como um contrato que une as
pessoas que estarão realizando tal trabalho.
6. Ajuda Outros - Embora as estratégias sempre precisem ser adaptadas a
cada situação, quando uma certa estratégia é bem sucedida, ela se torna um
modelo, outros que desejem realizar tarefas iguais, podem aprender muito
de uma boa estratégia e orientar-se por ela.

Desta forma notamos a importância em se Ter uma estratégia de trabalho


bem elaborada e definida, esperamos em Deus, que os queridos irmãos
possam usar este método para melhorar o seu desempenho em ganhar
almas para o reino de Deus.

CRUZADA EVANGELÍSTICA

A importância da Oração.

Para êxito real numa campanha evangelística, a oração intercessória deve


começar meses antes. Grupos de oração, vigílias, jejuns e muita oração, e
sem dúvida os resultados aparecerão.
Planejamento e Finanças
Planejar local, pregador, cantor, hospedagem para pregador e equipe, som,
iluminação, devem ser providenciados com muita antecedência. Além do
mais, há necessidade de uma comissão de finanças para cuidar dos custos e
dos gastos da Cruzada.

Publicidade

164
Os planos de publicidade de uma Cruzada devem ser feitos com muitos
meses de antecedência.

Música

A Música tem papel muito importante numa Cruzada. Meses de ensaio para
bandas, conjuntos, orquestras e corais, para que se apresentem muito bem.

Literatura e Treinamento de Pessoal

A comissão de literatura é de grande utilidade. O diretor desta comissão, em


consulta com o Pastor, deve cuidar da literatura a ser distribuída antes,
durante, e depois da Cruzada. O treinamento de cooperadores para trabalhar
na Cruzada é de máxima importância. Conselheiros e acomodadores, para
ajudar na manutenção de ordem e cuidar dos novos-convertidos, precisam
de treinamento especial para que cumpram bem suas responsabilidades.

Começada a Cruzada a Campanha de Oração não pode parar as reuniões de


oração devem prosseguir pela manhã, nos templos.

A Publicidade chega ao seu auge durante a Cruzada

Entrevistas ao vivo pela rádio e televisão despertam a atenção da população


para a Cruzada. Um testemunho notável de cura ou conversão pode ser
publicado no jornal local. Visita de casa em casa deixando um convite
impresso para cada família, um telefonema convidando a redondeza, etc.

A Pregação

A pregação deve consistir da mensagem direta e simples da salvação de


modo que o pecador possa entendê-la.

O Apelo

Durante o apelo, os obreiros da plataforma devem estar em seus postos.


Muitos pecadores vão à frente sem um crente se oferecer para acompanhá-
los até ao altar. Por outro lado, esses obreiros da plataforma não devem ser
demasiadamente insistentes e indelicados.

O Trabalho após a Cruzada não pára

É aí que precisa entrar em ação uma campanha intensa de visitação e os


cuidados necessários para com os novos decididos. Se não houver este
acompanhamento todo o trabalho será em vão mesmo que tenha havido uma
boa pescaria.

165
CONCLUSÃO

Todo o evangelho a todo o mundo nesta geração! Isto demanda a


mobilização e treinamento de toda a Igreja; exige oração e submissão ao
Espírito Santo. Depois ele fará, por nosso intermédio, o que jamais
poderíamos fazer sozinhos.
Evangelizar o mundo em nossa geração: cada geração de cristão tem esta
dívida para com seu próprio tempo. Podemos consegui-lo se permitirmos
que Deus opere por nosso intermédio em um ciclo perpétuo de
evangelização.

"Tua Incumbência Única Sobre a Terra é Ganhar Almas."

Referências Bibliográficas
1. BÍCEGO, Valdir Nunes - Manual de Evangelismo, Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembléias de Deus, 1999.
2. LIMA, Delcyr de Souza - Doutrina e Prática da Evangelização, Rio de
Janeiro.
3. WAGNER, Peter - Estratégias Para o Crescimento da Igreja, Editora Sepal,
Julho/1995 - São Paulo/SP
4. ELISANGELA, IDACI - Dinamismo no Evangelismo Atual - Semadeal
-Fevereiro/2001 - Maceió/AL

Parte XXVII
IGREJA: RETOMADA DO PROJETO DE DEUS

Neste texto, penso que Paulo, além de descrever o processo da formação da


Igreja, fala do projeto que Jesus retoma para a Trindade.

(EFÉSIOS Cap: 2)

[11] Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados


incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos
humanas,

O apóstolo começa a conversa lembrando aos efésios o seu passado espiritual:


eram incircuncisos, isto é, não tinham pacto com Deus.
Paulo falava do pacto celebrado entre Deus e Abraão: (GÊNESIS Cap: 17)
[1] Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o
SENHOR e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e
sê perfeito.
[2] Farei uma aliança entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente.
[3] Prostrou-se Abrão, rosto em terra, e Deus lhe falou:
[4] Quanto a mim, será contigo a minha aliança; serás pai de numerosas nações.
[5] Abrão já não será o teu nome, e sim Abraão; porque por pai de numerosas
nações te constituí.
[6] Far-te-ei fecundo extraordinariamente, de ti farei nações, e reis procederão de

166
ti.
[7] Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso
das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência.
[8] Dar-te-ei e à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de
Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus.
[9] Disse mais Deus a Abraão: Guardarás a minha aliança, tu e a tua
descendência no decurso das suas gerações.
[10] Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua descendência:
todo macho entre vós será circuncidado.
[11] Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre
mim e vós.
[12] O que tem oito dias será circuncidado entre vós, todo macho nas vossas
gerações, tanto o escravo nascido em casa como o comprado a qualquer
estrangeiro, que não for da tua estirpe.
[13] Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu
dinheiro; a minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua.
[14] O incircunciso, que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa vida será
eliminada do seu povo; quebrou a minha aliança.

A circuncisão é anterior à lei, é a marca que denota que o homem em questão, o


que, no caso, incluia sua descendência, é um dos escolhidos de Deus, que entre
eles há um pacto. Deus é dele e ele é de Deus (v 7).

Entretanto, Paulo, adverte que essa circuncisão, de que tanto os circuncisos se


orgulham, a ponto de estigmatizar os que não o são, é feita por mãos humanas. A
impressão é a de que o apóstolo chama atenção para um elo fraco da corrente: é
feito por homens, logo é externa e imperfeita.

Contudo, é aliança.

[12] naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e


estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.

Algum efésio poderia perguntar: "e daí que eu não sou circuncidado, que não faço
parte desse pacto?" Esta é a resposta de Paulo: estar fora do pacto é estar sem
saída existencial. Literalmente perdido. Não adiantava o efésio tentar seguir a lei
moral, ele não passara pela circuncisão (que era uma ordenança); não pertencia
ao povo para quem valia a pena cumprir a lei, por causa do pacto que havia
celebrado com Deus. Não bastava converter-se ao Deus dos judeus, era
necessário tornar-se judeu.

[13] Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes
aproximados pelo sangue de Cristo.

O sangue de Jesus quebrou a lógica angustiante da circuncisão; aproximou os


efésios e todos os não judeus que crerem em Jesus, de Deus e de suas
promessas. Isto quer dizer que já não estamos mais separados da comunidade de

167
Israel, uma vez que fomos aproximados ao mesmo Deus e às mesmas
possibilidades.

[14] Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a
parede da separação que estava no meio, a inimizade,

E mais: em relação a Deus não há mais privilegiados, somos um povo só. A


inimizade, constituída pelos privilégios de um frente ao infortúnio do outro, foi
derrubada. Estamos nas mesmas condições, há paz.

[15] aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para
que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz,

Por isso o sangue de Jesus nos aproximou: ao morrer sem pecado, Jesus, o
representante da raça humana, satisfez a justiça divina, isto é, pagou pelo nosso
crime; tornando-se, portanto, única porta de entrada para o pacto com Deus.
Quem entra por essa porta recebe a verdadeira circuncisão, que o torna, de fato,
membro do povo de Deus: CL 2:11 - Nele, também fostes circuncidados, não por
intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão
de Cristo

Além do mais, muitas das ordenanças tipificavam o próprio Cristo: CL 2:16,17 -


Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua
nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de
vir; porém o corpo é de Cristo.

A sombra que esses vestíbulos (as ordenanças) para o pacto eram, foi projetada a
partir do corpo de Cristo, com a chegada de Jesus fomos libertos da caverna
(Platão dizia que estávamos todos presos numa caverna, de costas para a
entrada, só víamos as sombras do mundo real, o mundo das idéias).

Jesus fez isto com um objetivo: criar um novo homem. Segundo Francis Foulkes
(Efésios: introdução e comentário; série cultura cristã - Eds. Mundo Cristão e Vida
Nova) a idéia presente aqui é a de, dos dois, criar uma coisa única - muito mais
profunda que a idéia de um único povo.
É um conceito de unidade absoluta.

Penso que isso nos remete à questão do significado desse novo homem. Parece
claro que não se trata de fazer de todos os cristãos uma única pessoa, pois, nem
Deus é uma pessoa só. Também, não se reduz ao fato de cada seguidor de Cristo
ser uma nova criatura, como deixou claro a colocação de Francis Foulkes.

William Barclay, citado por Foulkes, diz que é um novo tipo de criação. Não seria,
entretanto, uma retomada da criação?

Voltemos ao início.

168
GN 1:26, 27- Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme
a nossa semelhança; (...) Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de
Deus o criou;

Esse texto marca uma mudança de ritmo e de forma na criação: até então Deus
falava e tudo vinha à existência, na criação do homem temos, antecedendo-a,
uma declaração de intenção e uma descrição.
Façamos o homem...

A teologia cristã entende que essa afirmação nos apresenta a Trindade, doutrina
que afirma haver um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, como
declara G. W. Bromiley1

Gosto de pensar nesse texto como uma declaração de intenção, é como se fosse
o resultado de uma conferência entre as três Pessoas.

Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;

Eis a descrição do projeto: o homem seria à imagem e semelhança de Deus, a


Trindade.

O que significaria isto?

Segundo Derek Kidner2, para alguns teólogos "imagem é a indelével constituição


do homem como ser racional e como ser moralmente responsável, e a
semelhança é aquela harmonia com a vontade de Deus, perdida com a queda".
Ele, porém, diz que não há, no original, a partícula aditiva "e", de modo que os
termos se reforçam (a palavra, então, seria imagem-semelhança). A imagem seria
"expressão ou transcrição do Criador eterno e incorpóreo em termos de uma
existência temporal, corpórea e própria de uma criatura - como se poderia tentar a
transcrição, digamos, de um poema épico numa escultura, ou de uma sinfonia
num soneto." O que, segundo Kidner , perdemos dessa imagem-semelhança, na
queda, foi o amor, que recuperaremos quando for retomada nossa plena
comunhão com o Senhor.

Algo, entretanto, penso que precisa ser considerado: se ser moralmente


responsável e racional é ser imagem de Deus, então os anjos também não o
seriam?

Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram (2 Pe 2:4)

Como os anjos poderiam pecar se não fossem moralmente livres; uma vez que
pecar (pelo menos no ato primeiro) exige capacidade de escolha?

...reservando-os para juízo; (2 Pe 2:4)

Como qualquer ser pode ser julgado, se não for moralmente responsável?

169
Além do que, parece não haver dúvidas de que os anjos, também, são racionais,
senão estariam impossibilitados de comunicar-se e de arrazoar conosco, como
fizeram, por exemplo, com Ló (Gn 19:10-22).

Se ser imagem-semelhança é ser transcrição do eterno em termos de existência


temporais, os anjos, também, estão incluídos, pois, são criaturas e estão no
tempo, pois, tiveram começo, ainda que o tempo, talvez, não lhes faça diferença.
E, em ambos os casos, os anjos fiéis não perderam nada de sua criação original.

Entretanto, somente do homem é dito que foi criado à imagem e semelhança de


Deus.

Gosto de pensar que esta imagem-semelhança inclui, além do já citado, algo que
só é comum a Deus e a nós: a unidade.

"A última palavra hebraica da Shema (Dt 6.4,5) é echad, um substantivo coletivo,
em outras palavras, um substantivo que demonstra unidade, ao mesmo tempo que
se trata de uma unidade que contém várias entidades. Poderíamos citar um bom
número de exemplos.(...) Em Nm 13.23 os espias pararam em Escol, onde
'cortaram um ramo de vide com um cacho de uvas'. A palavra que aqui aparece
com 'um', em 'um cacho', novamente é echad, no hebraico. Mas, como é evidente,
esse único cacho de uvas consistia em muitas uvas."
Stanley Rosenthal3

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus os criou; macho e


fêmea os criou. Gn 1.27 (RC).

Seriam, realmente, duas criações?

Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas


narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. (Gn 2:7)
Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu;
tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o
SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. (Gn
2:21,22)

Macho e fêmea parecem ser uma criação só, pois, o barro e o sopro (que dá vida
ao ser humano) só aparecem uma vez. O segundo ser não é uma segunda
criação, é uma duplicação. Sendo que, no segundo ser, Deus fez desabrochar
características que não fizera desabrochar no primeiro.

Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à


semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes
chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. (Gn 5:1,2)

Duas pessoas, um só nome. De fato, a mulher só ganhou o nome de Eva depois

170
da queda: E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos
os seres humanos (Gn 3:20). E por que? Penso que só após a queda o macho
teve autoridade para tal: e à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos
da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu
marido, e ele te governará (Gn 3:16). Se Deus condenou a mulher a essa
condição subserviente ao homem como consequência da queda, é de se supor
que antes não era assim, isto é, a relação entre ambos não era de autoridade; era,
quero crer, de unidade.

O homem à imagem e semelhança de Deus, sugiro, é um ser coletivo. Quando


Deus chamava: Adão! Macho e fêmea se voltavam para falar com Ele.
"Em Gn 2.24, Deus (...) instruiu marido e mulher a tornarem-se 'os dois uma só
carne', indicando que aquelas duas pessoas unir-se iam, formando perfeita e
harmônica unidade. Em tal caso, novamente a palavra hebraica é echad."
Stanley Rosenthal4

Se Deus é uma família, que criatura poderia expressar sua imagem-semelhança


senão se constituísse, também, numa família?

Se Deus é uma unidade-comunhão como uma criatura que não se constituísse


noutra unidade-comunhão poderia ser chamado de sua imagem-semelhança?

Me parece que o projeto divino passava estritamente pela unidade: criou um casal
apenas, logo, uma só família; criou-os tendo a si como modelo: o que caracteriza
a trindade é o amor, vínculo da perfeição, isto é, que une perfeitamente; logo,
criou-os para, a exemplo da trindade, amarem-se com esse amor que unifica.
Criou-os para viverem em unidade. Criou-os como unidade. Se não tivéssemos
caído, seríamos bilhões, talvez, entretanto, à semelhança da trindade, nos
amaríamos tanto que, apesar de muitos, seríamos um só homem: o homem à
imagem e semelhança de Deus.

O homem à imagem e semelhança de Deus é unitário-coletivo.

A queda foi marcada pela quebra de unidade entre o homem e Deus; entre o
macho e a fêmea.

Ainda que a graça comum tenha nos mantido em condições de experimentarmos,


de modo extremamente rarefeito, a unidade; o que perdemos é inapreensível para
nós.

para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz,

Esse, penso eu, é o projeto de Jesus, a retomada do homem à imagem e


semelhança de Deus; o homem-comunhão que, guardadas as devidas
proporções, expressa o que a Trindade é.

Não seria uma nova criação, pois, para admitir isso teríamos de considerar que a

171
primeira continha uma falha. Creio, de fato, tratar-se da retomada do projeto do
Gênesis; como disse Jesus: LC 19:10 - Porque o Filho do Homem veio buscar e
salvar o que se havia perdido. (ed. revista e corrigida)

Segundo vejo, a Igreja é, por definição, este novo homem. Por esse novo homem
Jesus se sacrificou.
Se esse é o destino da Igreja, este deve ser o moto de seu dia a dia.

[16] e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz,


destruindo por ela a inimizade.

Esse novo homem é mais que comunhão, é um organismo vivo (tem


funcionalidade). O papel da Igreja, enquanto corpo, é fornecer a possibilidade da
expressão (como o corpo humano é em relação a alma) e exprimir por meio da
ação (corpo inerte não exprime). Tem de ser saudável, de estar em forma.

[17] E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos
que estavam perto;

A paz é o princípio da unidade: paz com Deus; paz consigo mesmo; paz com o
próximo. Interessante pensar que evangelizar é chamar à paz. Uma outra forma,
portanto, de definir pecado é estado de guerra consigo mesmo, e/ou com Deus,
e/ou com o próximo, e/ou com a natureza.

Não seria essa a melhor forma de diagnosticar o que está acontecendo na


sociedade? Não estariam todos os relacionamentos marcados por alguma forma
de violência?

Paz ,penso, entre outras coisas, é uma aceitação geral: aceitamos as demandas
de Deus; aceitamos o que somos e as mudanças que precisamos sofrer;
aceitamos o próximo; aceitamos a natureza.

Gosto da idéia de que aceitar é admitir e compartilhar espaços.

Sem paz, isto é, sem que nos aceitemos mutuamente, o novo homem não pode
ser vivido.

[18] porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito.

Todo mundo pode ir ao Pai, Jesus Cristo é a estrada e o Espírito Santo é o ônibus
que nos leva. Todos estamos dentro desse ônibus (fomos batizados, mergulhados
nele - 1Co 12.13). Certamente é por isso que cada um de nós chega à presença
do Pai e tem de dizer: "Pai nosso". A gente está na presença do Pai, mas, não
está sozinho, todos os irmãos foram junto.

É o novo homem que vai à presença do Pai.

172
[19] Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e
sois da família de Deus,

Somos da mesma nação; estamos no mesmo lugar, um lugar de todos nós; temos
o mesmo nome e o mesmo pai. Somos irmãos.

[20] edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo,
Cristo Jesus, a pedra angular;

Cremos na mesma coisa (senão, não estaríamos na Igreja) apesar de insistirmos


nas diferenças. Estamos, enquanto pedras vivas (1 Pe 2.5), assentados sobre o
mesmo alicerce.

[21] no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao
Senhor,

Propósito 1: serrnos o lugar onde Deus é adorado perfeitamente (1PE 2:5 -


também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para
serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a
Deus por intermédio de Jesus Cristo.)

A Igreja, para ser santuário, tem de crescer em Cristo, para crescer em Cristo tem
ter unidade (bem ajustado - formando uma parede só), Jesus é o alicerce e o
construtor que ajusta cada pedra e material: (EF 3:18,19 - a fim de poderdes
compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura,
e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento,
para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.)

É na realidade do novo homem que Deus é adorado como quer e deve ser.

[22] no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de
Deus no Espírito.

Em Jesus estamos sendo tornados um, para que Deus possa ter sua morada;
apesar da boa vontade de Davi e de Salomão, um Deus vivo tem de morar numa
casa viva.

Edificar é tornar um (vários materiais, uma só casa).

Deus nos criou como unidade para que o expressássemos. Perdemos isso, ainda
que a graça comum o tenha mantido em parte.

Jesus Cristo retoma o projeto do gênesis: cria o novo homem.

O novo homem retoma o seu destino: (AP 21:3 - Então, ouvi grande voz vinda do
trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com
eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.) ser a morada

173
de Deus - a Trindade.

Penso que esse é o desafio dado a cada igreja local: alcançar essa unidade.

Isso implica em que o primeiro projeto para a igreja local deveria ser um projeto de
comunhão e, consequentemente, de pastoreio.

1 in artigo Trindade, in Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã - v.3 -


W..A. Elwell - editor - ed. Vida Nova
2 Gênesis - introdução e comentário - série cultura bíblica - Derek Kidner - eds
Mundo Cristão/Vida Nova
3 A Tri-unidade de Deus Velho Testamento - Stanley Rosentahl - Fiel
4 A Tri-unidade de Deus no Velho Testamento - Stanley Rosenthal - Fiel

Parte XXVIII
MÁRTIRES CRISTÃOS

De acordo com o Dicionário Aurélio, Mártir é: "Pessoa que sofreu tormentos,


torturas ou a morte por sustentar a fé Cristã", no passado da Igreja, logo em seu
primeiro século, muitos foram aqueles que morreram em favor do evangelho, o
mesmo evangelho que hoje em dia nós temos a liberdade de defender.

Muitos foram os Mártires Cristãos, mas fizemos uma coletânia dos mais famosos e
armazenamos a maior quantidade de informações possíveis neste estudo.

Nem todos os mártires do cristianismo viveram junto com Cristo, os que isso
fizeram eram os apóstolos; também fizemos um breve esquema para que se tenha
uma idéia de quem eram os Apóstolos de Cristo.

Clique nos nome dos mártires que estão sublinhados para ver uma breve biografia
sobre os mesmos.
(Setor Personagens Bíblicos).

Os Mártires Apóstolos

Pedro - Tiago (o grande) - João

Faziam parte do círculo íntimo de Cristo, pois tinham privilégios especiais:

"Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, e
os conduziu à parte a um alto monte;" (Mt. 17:1) "E levando consigo Pedro e os
dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se."
(Mt. 26:37)

"E não permitiu que ninguém o acompanhasse, senão Pedro, Tiago, e João, irmão
de Tiago." (Mc.5:37)

174
Os Trabalhadores Silenciosos

André - Felipe - Bartolomeu - Tomé - Mateus

Os Pouco Conhecidos

Tiago (o pequeno) - Judas Tadeu - Simão

O Traidor

Judas Iscariotes
Foi substituído por Matias após ter traído o Senhor e ter se matatado:

16 - Irmãos, convinha que se cumprisse a escritura que o Espírito Santo predisse


pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a
Jesus;
17 - pois ele era contado entre nós e teve parte neste ministério.
18 - (Ora, ele adquiriu um campo com o salário da sua iniquidade; e precipitando-
se, caiu prostrado e arrebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se
derramaram.
19 - E tornou-se isto conhecido de todos os habitantes de Jerusalém; de maneira
que na própria língua deles esse campo se chama Acéldama, isto é, Campo de
Sangue.)
20 - Porquanto no livro dos Salmos está escrito: Fique deserta a sua habitação, e
não haja quem nela habite; e: Tome outro o seu ministério.
21 - É necessário, pois, que dos varões que conviveram conosco todo o tempo em
que o Senhor Jesus andou entre nós,
22 - começando desde o batismo de João até o dia em que dentre nós foi levado
para cima, um deles se torne testemunha conosco da sua ressurreição.
23 - E apresentaram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o
Justo, e Matias.
24 - E orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra
qual destes dois tens escolhido
25 - para tomar o lugar neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou
para ir ao seu próprio lugar.
26 - Então deitaram sortes a respeito deles e caiu a sorte sobre Matias, e por voto
comum foi ele contado com os onze apóstolos. Atos 1:16-26

Convertidos a Apóstolos depois da ascensão de Jesus

Matias - Paulo

Outros Mártires Cristãos

Marcos - Lucas - Barnabé - Estevão

Mártires que viveram ainda com os últimos apóstolos

175
Policarpo - Inácio - Papias

Mártires Após a Época dos Apóstolos

Jorge - Cosme e Damião - Orígenes - Sebastião

Fontes de Pesquisa:
- Dicionário Aurélio
- Bíblia Thompson
- Manual Bíblico Halley
- The Grolier Multimedia Encyclopedia, 1997
- Barsa Enciclopédia, 1974
- Centro de Pesquisas Religiosas
- Encyclopédia Universal Ilustrada Europeu-Americana, pp. 1262 - 1265.
- Encyclopédia e Dicionário Internacional, p. 10486.

Colaboradores:
- Verônica
- Carlos Magno
- Iranilde Campos

Parte XXIX
MORDOMIA DO DÍZIMO

Introdução (1)
O dízimo é o método de Deus para abençoar seus filhos na vida material, como os
têm abençoado, pela fé, na vida espiritual.

Crer ou não crer na Palavra de Deus é crer ou não crer no próprio Deus. A pessoa
que diz crer em Deus e não entrega seus dízimos está negando, na prática, a fé
que diz ter no coração. Nós somos salvos pela fé, não pelas obras, mas a fé que
não se transforma em atos de obediência não é a fé válida para a salvação. Além
de ser uma prova de fé, o dízimo é também uma demonstração de amor a Deus.
Amor que nos identifica com o caráter e os propósitos do Senhor e que nos leva a
adora-lo com atos objetivos, e não apenas com palavras.

O dízimo é também uma prova de santificação da vida ao Senhor. É como o


cordeiro do holocausto no altar da consagração. Um cordeiro santificado no altar
santifica todo o rebanho. Cada real que você santifica para Deus significa que os
outros nove reais também são santos ao Senhor.

Dízimo não é tributo. O imposto é compulsório. Quem não paga é autuado. Dízimo
é compromisso que pauta a partir do voluntariado consciente, Gênesis 14.20 e
28.22. É o reconhecimento de que, não apenas o dízimo, mas a totalidade dos
bens e do ser pertencem ao Senhor.

176
1. Conceito e origem da mordomia do dízimo (2)

A mordomia do dízimo é o perfeito uso do dinheiro que pertence a Deus por direito
de criador e sustentador de todas as coisas que compõem o universo, onde Deus
colocou o homem para cultivá-lo com inteligência, habilidade e fidelidade. A
mordomia do dízimo envolve, portanto, tanto á fidelidade na entrega do que
pertence a Deus como na habilidade na aplicação ou gasto deste dinheiro
consagrado. Não é difícil entender que o dízimo só deve ser usado em coisas
consagradas e para a glorificação do de Deus, preservando-se o que se denomina
de fidelidade de propósito, Salmo 24.1-10.

O dízimo tem sua origem na economia divina ao preparar o projeto de criação do


mundo. Deus não resolve nada em seus planos de última hora, porque cremos
que nos propósitos de Deus não há variantes que não foram previstas com
milhares de anos de antecedência. O dízimo faz parte do planejamento de
sustento da sua grandiosa obra de redenção do mundo.

Sua aplicação aparece em toda a Bíblia na medida em que o homem é chamado a


assumir seu dever de entregar ao Senhor os dez por cento de sua renda para que
Deus possa realizar também seus planos espirituais para o mundo. O dízimo não
é uma invenção do homem para sustentar a religião, mas uma exigência de Deus
para sustentar espiritualmente o homem, Levítico 27.30-32, Números 18.21 e 24,
2 Crônicas 31.4-12.

2. Natureza e finalidade da mordomia do dízimo (3)

Enquanto cálculo matemático de 10% de uma quantia é isto e nada mais. Não
pode ser menos como alguns gostariam e não pode ser mais porque é inalterável
no tempo e no espaço. 10% de uma determinada quantia de dinheiro ou do peso
de um corpo qualquer será sempre 10%.

Enquanto dinheiro separado para Deus, o dízimo sofre uma certa força
carismática, visto que o Senhor de todas as coisas promete bênçãos especiais
aos fiéis dizimistas conforme o Texto Sagrado, Malaquia 3.10-12.

Os dizimistas fiéis sabem o quanto é bom confiar em Deus e praticar esta doutrina
bíblica tão negligenciada por muitos servos. O desafio é aprendermos a
dependência da graça sustentadora do Senhor e não essencialmente dos
recursos financeiros.

A mordomia do dízimo pode e pretende conscientizar os crentes do valor e


importância prática fiel e constante do dízimo para o reino de Deus. A participação
dos crentes no sustento diário da causa de Deus envolve todos os fiéis de todos
os tempos e lugares.

Aumentar a confiança dos crentes no poder e na providência de Deus conforme a


Bíblia tem nos ensinado é a finalidade da mordomia do dízimo. O poder

177
sustentador de Deus tem-se manifestado por meio da confiança daqueles que
fielmente dizimam em amor de suas rendas para o Senhor.

3. Como devemos dizimar (4)

É dever de todo cristão dizimar à luz de Malaquias 3:10 onde Deus nos ordena
dizendo: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na
minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos exércitos, se eu não
vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dele
vos advenha a maior abastança".

Se é uma ordem, só posso obedecê-la trazendo o dízimo inteiro, não a metade ou


apenas uma parte. Meia obediência é igual à desobediência total. Foi o caso de
Ananias e Safira que não queriam ser completamente desobedientes, mas
terminaram sendo os exemplos de deslealdade em matéria de contribuição, Atos
5. 1-11.

Todo o cristão sincero deveria ter verdadeira alegria ao contribuir para o sustento
do Reino de Deus. Esta atitude é a normal e correta, mas em se tratando de uma
ordem, mesmo que não seja com muita alegria, vale a pena cumpri-la para o
nosso próprio bem. Como alguém afirmou, o crente deve começar a dizimar ainda
que sem muito entusiasmo porque é tão bom contribuir que começando por
obrigação terminará por alegria e consagração.

Deve-se ter a preocupação de se contribuir com regularidade efetiva. Muitos


contribuem com tanta irregularidade que o dinheiro chega a perder o valor. São
aqueles que dão de quando em vez e não podem ser conhecidos como dizimistas
porque têm renda todo mês, embora contribuam eventualmente.

Supostamente baseados nos ensinamentos de Paulo, 2 Coríntios 9.7, alguns


dizem que devem contribuir segundo propôs no coração e assim o fazem. Estão
errados quanto à interpretação do Texto Bíblico que neste caso, trata de ofertas
alçadas para obras sociais, não do dízimo. O crente pode usar a medida do
coração, porém, quando se trata de dízimo, Deus já determinou 10% e isso é
inegociável.

Verificamos ainda, em Malaquias 3.8, que o crente só pode ser ofertante depois
de ser dizimista. O povo de Israel roubava a Deus nos dízimos e nas ofertas
alçadas. É uma questão lógica, o que é de Deus é o dízimo e não podemos ofertar
ao Senhor usando o que pertence a ele.

Quem poderá ser bom mordomo deixando de fazer o que Deus ordenou?
Certamente o servo fiel é mais agradável ao seu Senhor. Por muitos séculos Deus
tem comprovado sua fidelidade para com os homens que lhe obedeceram com
amor e dedicação.

Vale ressaltar que o dízimo deve ser entregue do valor bruto dos nossos

178
rendimentos. Os descontos previdenciários e os impostos que nos são deduzidos
em folha de pagamento ou em carnês, são para nosso benefício e são também
um compromisso espiritual, Mateus 22.21. Deus não deve pagar nosso impostos
ou taxas previdenciárias. Entregar ao Senhor o dízimo do valor líquido não é
fidelidade integral. O problema é que não existe fidelidade parcial.

4. A quem entregar os dízimos? (5)

O texto de Malaquias é muito claro. O dízimo deve ser entregue na Casa do


Tesouro, isto é, na igreja de Jesus Cristo em ato de adoração e culto solene.

Fala-se em cristãos que dão o seu dízimo parte em casas filantrópicas e parte na
igreja. Este não é o método bíblico que manda trazer todo dízimo a Casa do
Tesouro e consequentemente o dízimo todo para a administração da igreja. O
crente não deve fazer as coisas conforme sua conveniência somente, mas de
acordo com a consciência de Deus refletida nos ensinos da Bíblia, a sua Palavra
Santa e Infalível.

Como agência do Reino de Deus a igreja está credenciada para gerenciar os seus
negócios do Rei quer sejam especificamente espirituais ou materiais. Se houver
falha na mordomia da administração do dízimo por parte da igreja, o membro tem
direito de questionar e até de orientar a correção, mas nunca de tomar atitudes
pessoais para as quais não foi credenciado por Deus. É pecado, conforme o
preceito bíblico, o cristão arrogar-se o direito de aplicação e administração do seu
próprio dízimo.

Conclusão (6)

Nós, os cristãos evangélicos, nos orgulhamos em afirmar que a Bíblia é o nosso


único livro de fé, prática e conduta. Muito bem, se assim é, então por que não
pomos em prática a doutrina do dízimo como a Bíblia ensina?

No Novo Testamento, 90 (noventa) passagens falam sobre dinheiro. O batismo é


mencionado 17 vezes. A igreja aparece em 21 versículos. Inferno, 11 vezes. O
hades, 4 vezes. O arrependimento, 21 vezes. A vida eterna, 47 vezes. Eleição, 7
vezes. Pecado e pecadores, 72 vezes. Espírito Santo, 27 vezes. Vemos, pois, que
no Novo Testamento muito mais se pregou sobre dinheiro que sobre qualquer
outra coisa. Jesus, quando reuniu os apóstolos, elegeu um tesoureiro. Para que
um tesoureiro? Para receber ofertas, é claro. Dízimos e ofertas alçadas.

A Bíblia chama de ladrão a quem não entrega o dízimo, asseverando que os


roubadores não herdarão o Reino de Deus, 1 Coríntios 6.11. A situação dos
irmãos que insistem na infidelidade é crítica. Ou não entenderam de forma
apropriada o compromisso da fé salvadora ou não experimentaram a salvação que
se opera pela fé que desemboca na fidelidade incondicional.

Causa perplexidade ouvir certos membros de igreja afirmando que não dão o

179
dízimo porque não podem. Caso isso fosse verdade, teríamos de eliminar da
Bíblia Filipenses 4.13. Ora, se eu posso todas as coisas, então posso entregar o
dízimo a Deus. Pela fé, o crente pode todas as coisas que não contrariam a
natureza de Deus, e as que contrariam o caráter do senhor, que constitui pecado,
nos são lícitas mas não devemos praticá-las, 1 Coríntios 6.12 e 10.23.

Muito mais valem 9/10 do nosso salário com as bênçãos de Deus, do que todo um
salário sem as suas bênçãos, Ageu 1.3-6. E não só sem as bênçãos, mas com as
maldições previstas no juízo divino que se impõe pela suserania (7) do Senhor.

Amém.

Notas
(1) FALCÃO SOBRINHO, João. Estou Convosco. Rio de Janeiro: CPCCBB, 1997.
124 p. (pp. 74-75).
(2) CÂNDIDO, Daniel Oliveira. Reflexões sobre Mordomia Cristã. Duque de
Caxias: AFE, 1982. 231 p. (pp. 161).
(3) Id. Ibid. pp. 162.
(4) Id. Ibid. pp. 162-163.
(5) Id. Ibid. pp. 163-164.
(5) MOTTA, Waldomiro. A Doutrina Bíblica da Mordomia. 3. Ed. Rio de janeiro:
JUERP, 1986. 62 p. (pp. 31-32).
(7) Ação de soberania em conceder livre arbítrio ao seus vassalos para o exercício
de aparente ou relativa autonomia

Parte XXX
MOTIVAÇÕES PERIGOSAS PARA O MINISTÉRIO
Uma breve Reflexão sobre alguns motivos errados para o Ministério

Falar de vocação não é uma tarefa fácil. Como explicar os vislumbres de certezas
espirituais ?
Pode a vocação de Deus ser descrita ?
Talvez devesse deixar tal desafio para os mais experientes nas lidas pastorais;
não obstante, quero pisar neste terreno mui solenemente.
Nestes doze anos de ministério tenho visto alguns pastores perderem o rumo
original e ministérios infrutíferos com igrejas fracas e em declínio. Entendo que
grande culpa dos problemas destas igrejas deve-se a nós mesmos, seus pastores.

Notem as palavras de Eugene Peterson: "Os pastores estão abandonando seus


postos, desviando-se para a direita e para a esquerda, com freqüência alarmante.
Isto não quer dizer que estejam deixando a igreja e sendo contratados por alguma
empresa. As congregações ainda pagam seus salários, o nome deles ainda
consta no boletim dominical e continuam a subir não púlpito domingo após
domingo. O que estão abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram após
outros deuses.Aquilo que fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor
relação com as atitudes dos pastores que fizeram a história nos últimos vinte
séculos" . Uma reflexão dura, mas realista. Alguns pastores estão abandonando

180
seus postos. Após ler estas considerações de Peterson, fiz a seguinte pergunta: O
que tem levado nossos jovens ao ministério ? Minha pergunta levanta a questão
sobre as reais motivações de nossos vocacionados para o Ministério Pastoral.
Talvez nem todos têm consciência de que errar na vocação trás conseqüências
desagradáveis para si mesmos e também para suas futuras igrejas. Embora uma
vaga vocação para o ministério possa levar ao pastorado, não sustentará o pastor
através das ásperas realidades da vida na igreja. É preciso avaliar as verdadeiras
motivações, antes de ingressar nos seminários.

Por motivação queremos dizer os motivos internos que levam uma pessoa à ação.
Todos nós tomamos decisões na vida motivados por algo ou alguma coisa em
dado momento de nossa existência e considerando as diversas situações da vida.
Falando da motivação que leva um jovem a decidir pelo ministério, entendemos
que todo genuíno vocacionado deve ter como ambição ser um instrumento de
Deus . Sua única motivação para ser pastor é seu desejo ardente de realizar a
obra de Deus e para a glória de Deus. Contudo, é possível que nem sempre esta
seja a mola propulsora de um ou outro aspirante ao pastorado. A título de alertar-
nos para este perigo, alisto cinco possíveis motivações erradas e egocêntricas que
podem levar alguém ao Ministério:

1) Adquirir estabilidade financeira: Os motivos da nossa sociedade seculare são


controlados pelo cifrão. Vivemos uma época de recessão e de desemprego. São
só na cidade de São Paulo, quase 2 milhões de desempregados. O tempo médio
hoje para alguém que perde o emprego é de 1 ano até conseguir outro. É com
temor e tremor que arrisco raciocinar desta maneira, mas temo que alguns jovens
em nossas Igrejas, passe a compreender o ministério como uma profissão e um
meio de ganhar a vida. Penso que todo candidato ao ministério deveria responder
a esta pergunta: O motivo que tenho para desejar ser pastor é porque serei pago
para isto?

Quanto a isto, Spurgeon escreveu: "Se um homem perceber, depois do mais


severo exame de si mesmo, qualquer outro motivo que a glória de Deus e o bem
das almas em sua busca do pastorado, melhor que se afaste dele de uma vez,
pois o Senhor aborrece a entrada de compradores e vendedores em seu templo"

2) Status social: Não é de hoje que a sede de posição cega as pessoas . O "ser
pastor", mesmo que em nossos dias não é lá muito bem visto, até mesmo pelos
escândalos envolvendo alguns líderes cristãos, os títulos de Reverendo e Pastor
transmitem uma certa dose de autoridade que dignifica o ser humano, e lhe
confere status social. Não obstante, liderar não é fácil. Às vezes pregar pode ser
uma tortura. Pastorear ovelhas relutantes é uma atividade esmagadora. Ser uma
figura pública sob os olhares de todos e viver sob constantes cobranças, mesmo
que estas não sejam verbais, sacodem o nosso coração. Nós pastores
inevitavelmente armazenamos um certo nível de frustração em nosso trabalho.
Ficamos frustrados com os conflitos da igreja, com a futilidade de nossos planos e
com o fracasso do nosso povo. O status social não pode sustentar o nosso

181
ministério e fazer com que vivamos nossa vocação de modo responsável.

Em I Tm 3:1, Paulo escreve: "se alguém deseja o pastorado, excelente obra


almeja" O termo "deseja"na língua grega é epithumeo, que tem o significado de
"colocar o coração, ambicionar, desejar". Precisa ser observado que o objeto do
desejo é a obra, o serviço, e não a posição ou status. Este foi um erro cometido
por Tiago e João (Mc 10:35:45). Alguém motivado por posição elevada e pelo
desejo de atenção trará com certeza prejuízo a si mesmo e à Igreja de Cristo.

3) Necessidade de firmar-se como pessoa: É possível que alguém caia na


armadilha de desejar o ministério por entender que a posição e o status
conquistado forçam os outros a lhe dedicarem atenção. O desejo que um ser
humano tem de que os outros o respeitem é um sinal louvável de sua auto-estima.
Não há nada de errado em desejar ser respeitado e admirado, mas não é a
motivação correta para o ministério. É comum termos notícias de líderes que
avaliam sua eficiência ministerial através de quantas pessoas da denominação o
conhecem. Conheci um pastor que guardava todo exemplar do jornal Brasil
Presbiteriano em que saía uma matéria com sua foto e que falava a seu respeito.
São líderes que buscam a fama e serem aplaudidos pelos homens.

4) O Senso de obrigação: Há quem se torne ministro, pois depois de ter passado


pela família, conselho, presbitério e ter feito o curso teológico no seminário, sente-
se na obrigação de ter que ir até o fim de seu "chamado". Sente-se culpado se
não fizer aquilo que todos esperam dele. É desnecessário dizer que este líder não
desenvolverá seu ministério com alegria e prazer. Um velho pregador deu um
sábio conselho a um jovem quando indagado sobre sua opinião quanto a seguir o
ministério: "Se você pode ser feliz fora do ministério, fique fora, mas se veio o
solene chamado, não fuja" Precisamos instruir aos nossos seminaristas que
mesmo que tenham feito o curso de teologia no Seminário, caso sintam que não
foram chamados ao pastorado, entendam que o tempo de estudos e de
preparação não será perdido. Poderão ser uma excelente ajuda às igrejas como
pregadores, professores, oficiais e líderes. O peso de um sentimento de obrigação
não pode levar ninguém ao pastorado. O Ministério deve ser obedecido por
vocação e não por obrigação. Alguém pontuou o seguinte: "os ministros sem a
convicção do chamado carecem muitas vezes de coragem e carregam uma carta
de demissão no bolso do paletó. Ao menor sinal de dificuldade, vão-se embora".

5) Falta de opções: É possível que alguém decida ser um pastor, pois depois de
tentativas inglórias de ingressar em alguma outra faculdade, ou por não ter
condições financeiras de custear um curso em uma universidade , percebeu que
poderia fazer um curso de nível superior pago pelo Presbitério e ainda recebendo
ajuda de custo de sua Igreja. Nossos jovens precisam ver que o candidato ao
ministério, sendo seu chamado imposto por Deus, não é uma preferência entre
outras alternativas, ou por falta delas. Ele é pastor não por falta de alternativas,
mas porque esta é a única alternativa possível para ele, e insisto: Vocação
pastoral não pode ser por falta de opções, mas porque foi imposta por Deus.

182
Todos nós que somos pastores sabemos como o ministério é desgastante, e
ninguém pode cumprir o difícil papel de pastor se não tiver a consciência de que
foi comissionado por Deus. Na qualidade de pastores e tutores eclesiásticos, faz-
se necessária nossa orientação aos aspirantes e candidatos ao Ministério de que
não há como alguém sobreviver no pastorado, caso sinta que esta foi uma escolha
sua e não de Deus.

Parte XXXI
O ANÚNCIO DA IGREJA

Neste trecho, entendo que o Senhor Jesus apresenta a Igreja como seu propósito;
assim como esboça sua composição, seu caráter e missão:

(MATEUS Cap: 16)

[13] Indo Jesus para os lados de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos:
Quem diz o povo ser o Filho do Homem?

Embora, em seu ministério público, Jesus tenha interagido com quase todos os
partidos judaicos: os herodianos, que, conforme indica o nome, eram partidários
de Herodes; os zelotes, que queriam, pela força das armas, libertar Israel do
domínio romano; os fariseus, ortodoxos estudiosos das escrituras; e os saduceus,
partido da classe sacerdotal; foi com o povo que Jesus, de fato, desenvolveu o
seu ministério. Ao povo pregou; alimentou; curou. Foi com o povo que andou e
que se confundiu.
A pergunta era, portanto, uma aferição: o que as bençãos recebidas pelo povo
geraram neste em termos de compreensão de quem Jesus era?

[14] E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros:
Jeremias ou algum dos profetas.

A resposta deixou a desejar, conseguiram ver em Jesus um grande profeta,


catalogaram-no entre os maiores, porém, não acertaram. Ouvir, ser curado e
alimentado por Jesus não é garantia de chegar a ter dele o conhecimento que dá
vida eterna (Jo 17.3).

[15] Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?


Outra aferição, esta mais importante: os discípulos conviveram com Jesus,
obtiveram informações privilegiadas, quer pelas perguntas que puderam fazer,
quer por ensino exclusivo, quer pela observação no dia a dia. Detendo mais
informações, estavam mais preparados para responder; era de se supor que
acertariam.

[16] Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.


"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", responde Pedro. Tu és o Cristo, o messias,

183
o salvador vislumbrado pelos patriarcas e anunciado pelos profetas. Certo, porém,
incompleto, se parasse por aí: todos criam que o messias seria o maior dos
profetas (Dt 18.15), entretanto, um profeta. Pedro teria ido apenas um pouco mais
adiante que o povo. Ele vai mais longe: "o filho do Deus vivo". Revolucionário! Os
teólogos, de então, diziam que Deus era único, logo, não podia ter filho. Por que?
Porque se Deus tivesse um filho, este teria de ser um Deus também, então, já não
seria um único Deus, mas, dois deuses. Eles não conheciam a doutrina da
Trindade, não sabiam que há três pessoas e um só Deus. Pedro disse-o: Jesus de
Nazaré é o Cristo; Jesus de Nazaré é Deus. Resposta completa. Os teólogos
entenderam que Deus haveria de mandar um salvador, entenderam ser um
grande profeta - Moisés assim pareceu dizer (Dt 18.15) - não entenderam que, ao
anunciar um salvador, Deus anunciava a sua visita. Não imaginavam que a
salvação humana custaria tão grande preço.
Franco Zefirelli, cineasta italiano, fez o filme Jesus, que chamou de seu afresco. O
filme, originariamente, apresentado em duas partes, tinha, como término de sua
primeira parte, cena que procurava retratar o texto que estamos trabalhando:
Zefirelli descreve Pedro ajoelhando-se enquanto proferia a declaração em questão
e, ato contínuo, os demais discípulos tomados pelo impacto da afirmação,
testemunhando sua concordância, também se ajoelham. Não sei se foi assim
mesmo que aconteceu, porém, indubitavelmente, é a cena que mais se coaduna
com a profundidade do que foi dito. Jesus é mais que um profeta a ser ouvido;
mais que um mestre a ser seguido; é Deus a ser adorado. Esse é o conhecimento,
acerca de Jesus, que dá vida eterna (Jo 17.30).

[17] Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi
carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.

Não foi a convivência com Jesus que os fez saber a verdade. Foi uma revelação!
O conhecimento-experiência, acerca de Jesus, que dá vida eterna, é uma
revelação do Pai - Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o
TROUXER; e eu o ressuscitarei no último dia. (JO 6:44).

[18] Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Que pedra?

A afirmação, ou melhor, a revelação: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo".

Que igreja?

Igreja é uma palavra que pode ser traduzida por reunião, assembléia, nação e
afins; por se tratar de ajuntamento de pessoas que têm afinidades, características
e/ou objetivos comuns. Portanto, Jesus está falando de um grupo de pessoas
especiais: as pessoas que receberam a mesma revelação que Pedro e os
discípulos.
A Igreja é a reunião daqueles que, a exemplo de Pedro, receberam, do Pai, a

184
revelação de que Jesus Cristo é Deus vindo para salvar-nos, que deve ser
adorado, adoração, esta, que começa com a entrega da vida.
A Igreja é a reunião dos adoradores de Jesus. Neste sentido a missão da Igreja é
agradar o seu Senhor; é a Igreja como noiva: - Então, veio um dos sete anjos que
têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem,
mostrar-te-ei a noiva , a esposa do Cordeiro (AP 21:9); - Vi também a cidade
santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como
noiva adornada para o seu esposo (AP 21:2).
A noiva, na sua ação de adorar, é a satisfação do desejo do Pai: - Mas vem a hora
e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em
verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores (JO 4:23).

e sobre esta pedra edificarei a minha igreja

A partir da confissão-adoração: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" Jesus


construirá a sua igreja. Será que a Igreja é edificada enquanto e na medida em
que adora?
Paulo parece dizer que sim: - E todos nós, com o rosto desvendado,
contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de
glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito (2CO 3:18).
Será que adorar passa, também, pela contemplação?
Adorar tem várias conotações: prestar homenagens; reverenciar; prestar culto e,
entre outras, também, contemplação. Por exemplo: Adorai o SENHOR na BELEZA
da sua santidade (SL 96:9). Derek Kidner (Salmos - introdução e comentário - ed.
Vida Nova e Mundo Cristão) diz sobre adorar na beleza da santidade: "a
verdadeira adoração reflete isto no amor e admiração dados a Ele." Adoração,
aqui, é o mesmo que contemplação amorosa.

Nesta contemplação (adoração) somos edificados.

O Pai desvenda-nos o rosto (por meio da revelação), mostra-nos o Filho e o


Espírito Santo nos transforma. Assim Cristo edifica a sua Igreja. Torna-nos
parecidos com Ele à medida que o adoramos.
Igreja é, portanto, também, a reunião das pessoas que estão sendo transformadas
pelo Espírito Santo à imagem e semelhança de Cristo.

contemplando, como por espelho, a glória do Senhor,


Qual é o espelho?
Penso e algumas coisas que devem ser usadas como espelho:
i- a bíblia: JO 5:39 - Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida
eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. A Igreja lê as escrituras para
ver Jesus, não apenas para ter informações sobre ele. Ele é a vida eterna que
está no texto sagrado.
ii- a criação: SL 19:1 - Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento
anuncia as obras das suas mãos. A natureza expressa a glória de Deus. A glória
de Deus é a sua bondade (Ex. 33.19). A igreja perscruta a natureza para ver
Jesus, a encarnação da bondade de Deus.

185
A palavra reunião pode dar uma conotação equivocada: de que só há igreja
quando essas pessoas, de características especiais, e encontram. Por isso gosto
muito do que o Pedro disse: 1PE 2:9 - Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio
real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes
as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
Aliás, Jesus disse "e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" num contexto
muito peculiar: Haviam três nações, representadas por três cidades, que tinham
pretensões universais: romanos, representados por Roma; judeus, representados
por Jerusalém e os gregos, representados por Atenas. Os romanos acreditavam
que a salvação do mundo estava em todos se submeterem à sua "pax", o que
significava submeter-se a eles. Os judeus acreditavam que a salvação dos
homens estava na submissão destes a eles que, como sacerdotes, os conduziriam
no caminho de Deus; os gregos, por sua vez, acreditavam que a tal salvação
estava em todos submeterem-se a seu modo de pensar.

e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Jesus diz que vai fundar uma nação que libertará de fato os homens do inferno.
Pois, sua nação atacará o inferno e as portas deste não resistirão ao ataque
daquela, liberando os seus prisioneiros. Por que ataque? Porque fala das portas
não prevalecerem. Jesus falava no contexto das cidades muradas, onde a porta é
o último bastião, a última defesa, se as portas não resistem ao ataque, a cidade é
invadida e tomada.

Outro elemento que, penso, está contido nessa afirmação é o fato de a igreja ser o
braço ministerial de Jesus Cristo, uma nação de soldados da libertação, pois,
como disse João: 1JO 3:8 -Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir
as obras do diabo.

Eis o projeto de Jesus: uma nação de adoradores - a noiva; uma nação de


soldados - o corpo.

O corpo depende da noiva.

A medida que a igreja vai sendo edificada vai, também, assumindo seu papel
ministerial, ou seja, destruindo as obras do diabo. Quanto mais a igreja adora,
mais eficaz se torna contra o inferno.

Parte XXXII
O PADRÃO BÍBLICO DE AVIVAMENTO

Qual o padrão bíblico de avivamento? Os avivamentos bíblicos oferecem alguma


coordenada para a renovação da igreja evangélica no Brasil de hoje?

Estas são algumas das perguntas que procuraremos responder no decorrer desse
estudo.

186
I - O significado bíblico do termo "Avivamento":.

1.1. No Antigo Testamento:.

O verbo hebraico hyh (avivar) tem o significado primário de "preservar" ou "manter


vivo". Porém, "avivar" não significa somente preservar ou manter vivo, mas
também purificar, corrigir e livrar do mal. Esta é uma conseqüência natural em
toda vez que Deus aviva. Na história de cada avivamento, dentro ou fora da Bíblia,
lemos que Deus purifica, livra do mal e do pecado, tira a escória e as coisas que
estavam impedindo o progresso da causa (1).

O verbo "avivar", em suas várias formas (2), é usado mais de 250 vezes no Antigo
Testamento, das quais 55 vezes estão num grau chamado piel. Um verbo nas
formas do Piel expressa uma ação ativa intensiva no hebraico. Neste sentido, o
avivamento é sempre indicado como uma obra ativa e intensiva de Deus. Alguns
exemplos de sua ocorrência são as clássicas orações de Davi, como esta:
"Porventura, não tornarás a vivificar-nos (3), para que em ti se regozije o teu
povo?" (Sl 85.6) (4), e da clássica oração do profeta Habacuque: "Tenho ouvido, ó
Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, no
decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te
da misericórdia" (Hc 3.2).

1.2. No Novo Testamento:.

Encontramos no Novo Testamento grego um conjunto de palavras que expressam


o conceito básico de avivamento. São elas: 'egeíro, 'anastáso, 'anázoe e
'anakaínoo. Outras palavras gregas comparam o avivamento ao reacender de
uma chama que se apaga aos poucos (cf. 'anazopyréo em 2 Tm 1.6) ou uma
planta que lança novos brotos e "floresce novamente" (cf. 'anaphállo em Fp 4.10).

No Novo Testamento grego as palavras supracitadas aparecem, no contexto de


avivamento, apenas sete vezes, embora a idéia básica de avivamento seja
sugerida com mais freqüência. Uma possível explicação para o uso escasso dos
termos, em comparação ao Antigo Testamento, é que o Novo cobre apenas uma
geração, durante a qual a Igreja Cristã desfrutou, na maior parte do tempo, um
grau incomum de vida espiritual.

II - O que não é avivamento bíblico:.

Antes de falarmos sobre avivamento bíblico, propriamente dito, acreditamos ser de


grande ajuda uma abordagem, mesmo que rápida, do que não é o padrão bíblico
de avivamento.

O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro AVIVAMENTO URGENTE, apresenta


sete interessantes razões sobre o que não deve ser entendido como avivamento
de verdade. Sou devedor ao dileto colega por suas pertinentes observações.

187
Transcrevo-as quase que na íntegra.

2.1. Avivamento não é um programa

agendado pela igreja.

Avivamento não é ação da igreja, mas de Deus. Avivamento é obra soberana e


livre do Espírito Santo. A igreja não promove e nem faz avivamento. A igreja não é
agente de avivamento. A igreja não agenda e nem programa avivamento. A igreja
só pode buscar o avivamento e preparar o caminho da sua chegada. A igreja não
produz o vento do Espírito, ela só pode içar suas velas em direção a esse vento.

A soberania de Deus, no entanto, não anula a responsabilidade humana. O


avivamento jamais virá se a igreja não preparar o caminho do Senhor (5). O
avivamento jamais acontecerá se a igreja não se humilhar. Sem oração da igreja,
as chuvas torrenciais de Deus não descerão. Sem busca não há encontro. Sem
obediência a Deus, jamais haverá derramamento do Espírito. Contudo, quem
determina o quando e o como do avivamento é Deus. Ele é soberano. David
Brainerd orou vários anos pelo avivamento entre os índios peles vermelhas no
século XVIII. Aquele jovem, ajoelhado na neve, suava de molhar a camisa, em
agonia de alma, em oração fervente, em favor daqueles pobres índios. Quando o
seu coração parecia desalentado e já não havia prenúncios de chuva da parte de
Deus, o Espírito foi poderosamente derramado e os corações se dobraram a
Cristo aos milhares.

2.2. Avivamento não é mudança doutrinária.

Cometem ledo engano aqueles que querem descartar a teologia e desprezar a


doutrina na busca do avivamento. Desprezar a doutrina é dinamitar os alicerces da
vida cristã. Desprezar a doutrina é querer levantar um edifício sem lançar o
fundamento. Desprezar a doutrina é querer por um corpo de pé e em movimento
sem a estrutura óssea.

Não há vida piedosa sem doutrina. A doutrina é a base da ética. A teologia é mãe
da ética. "Assim como o homem crê no seu coração, assim ele é" (Pv 23.7).

Vida sem doutrina gera misticismo e experiencialismo subjetivista. Avivamento


sem doutrina é fogo de palha, é movimento emocionalista, é experiencialismo
personalista e antropocentrista. Deus tem compromisso com a verdade e a sua
Palavra é a verdade e todo avivamento precisa estar fundamentado na Palavra. O
avivamento precisa estar norteado pelas Escrituras e não por sonhos e visões.
Precisa estar dentro das balizas da Bíblia e não dentro dos muros de revelações
subjetivistas, muitas vezes feitas na carne.

2.3. Avivamento não é mudança litúrgica.

Muitos crentes confundem avivamento com forma de culto, com liturgia animada,

188
com coreografia e instrumental aparatoso.

Louvor não é encenação. Não é mimetismo. Não é ritualismo. Não é


emocionalismo. Não é apenas seguir formas pré-estabelecidas, como bater
palmas, dizer aleluia, amém e levantar as mãos. Louvor não é pululância, gingos e
dança (6). Louvor que apenas levanta as mãos para o alto, mas não as estende
para o necessitado não agrada a Deus. A Bíblia ordena levantar mãos santas ao
Senhor, num gesto de rendição e entrega (I Tm 2.8). Louvor em que a pessoa
apenas saltita e pula, mas não vive em santidade, é ofensa a Deus. Louvor que
apenas verbaliza coisas bonitas para Deus, mas não leva Deus a sério na vida é
fogo estranho diante do Senhor.

Louvor que não produz mudança de vida, quebrantamento, obediência e não leva
as pessoas a confiarem em Deus, não é louvor, é barulho aos ouvidos de Deus.
Assim diz o Senhor: "Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não
ouvirei as melodias das tuas liras" (Am 5.23).

Hoje estamos vivendo a época dos shows evangélicos, dos show-men, dos
animadores de programas religiosos, do "rock evangélico", das músicas badaladas
por um ritmo sensual.

Mais do que nunca é preciso tocar a trombeta em Sião e condenar a idéia de que
precisamos imitar o mundo para atrair o mundo. A música do mundo tem entrado
nas igrejas, para vergonha nossa e para derrota nossa. O louvor que agrada a
Deus precisa ser em espírito e em verdade. O louvor precisa ser bíblico, senão é
fogo estranho. Davi, no Salmo 40, versículo 3, fala-nos sobre as balizas do louvor
que agrada a Deus: "E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao
nosso Deus; muitos verão estas coisa, temerão e confiarão no Senhor". Primeiro,
vemos a origem deste cântico: "E me pôs nos lábios". Este louvor vem de Deus e
não do homem. Segundo, vemos a natureza deste cântico: "E me pôs nos lábios
um novo cântico". Não é um novo de edição, mas novo de natureza. É um cântico
que expressa a marca da sua nova vida, liberta do tremendal de lama (v2).
Terceiro, vemos o objetivo deste cântico: "... Um hino de louvor ao nosso Deus".
Este cântico não é para entreter ou agradar o gosto e preferência das pessoas.
Este cântico vem de Deus e volta para Deus. Deus é o seu alfa e o seu ômega.
Quarto, vemos o resultado deste cântico: "Muitos verão estas coisas, temerão e
confiarão no Senhor". O louvor bíblico leva as pessoas a temerem a Deus, a
confiarem em Deus. O verdadeiro louvor leva as pessoas a se voltarem para
Deus.

O louvor não é um espaço da liturgia. Louvor é a totalidade da vida. "Bendirei ao


Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios" (Sl 34.1).

À luz destas coisas, é preciso dizer que avivamento não é mudança litúrgica, é
mudança de vida. Avivamento não é histeria carnal, é choro pelo pecado. Deus
não procura adoração. Ele procura adoradores.

189
Todavia, é preciso dizer que, embora o avivamento não seja mudança de liturgia,
todo avivamento mexe com a liturgia. O avivamento desinstala a liturgia ritualista,
cerimonialista, formalista, fria e morta e põe em seu lugar uma liturgia viva, alegre,
ungida, onde há liberdade do Espírito, sem abandonar a ordem e a decência. Em
épocas de avivamento, a liturgia é desingessada e o povo com alegria e liberdade
do Espírito adora a Deus, em espírito e em verdade, sem regras rígidas pré-
estabelecidas. Cada culto é um acontecimento singular, novo, onde há abertura
para o que Deus deseja falar e fazer com o seu povo.

Hoje existem muitos cultos solenes, aparatosos, pomposos, mas estão mortos.
Disse J. I. Packer no seu livro "Na Dinâmica do Espírito": "Não há nada mais
solene do que um cadáver. Há cultos solenes que estão mortos". Embora o
avivamento não seja mudança litúrgica, todo avivamento muda a liturgia,
tornando-a bíblica, alegre, ungida, dirigida pelo Espírito de Deus. Devemos clamar
como os puritanos: "Queremos liturgia pura".

2.4. Avivamento não é uma ênfase carismática unilateral.


Muitas pessoas hoje estão limitando o avivamento a milagres, curas e exorcismos,
sem observarem a abrangência global da doutrina pneumatológica. Este é um
sério perigo. Toda vez que super-enfatizamos uma verdade em detrimento de
outra, nós produzimos deformações e distorções nesta verdade.

Deus pode e faz maravilhas, curas e prodígios extraordinários quando Ele quer.
Ele é soberano. Ninguém pode deter a sua mão. Ninguém pode ser o conselheiro
de Deus. Ninguém pode instruir a Deus e dizer o que Ele pode e o que Ele não
pode fazer. Ninguém pode obstaculá-lo nem ensinar-lhe qualquer coisa. Ele faz
tudo quanto Ele quer, como quer, onde quer, quando quer, com quem quer. "Ele
faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Ele não
obedece à agenda dos homens. Ele não se deixa pressionar. Ele é livre.

Entretanto, esta não é a ênfase do avivamento. A igreja hoje está correndo mais
atrás de sinais do que atrás de santidade. A igreja hoje empolga-se mais com
milagres do que com vida cheia do Espírito. A igreja hoje anseia mais as bênçãos
de Deus do que o Deus das bênçãos. A igreja hoje busca mais uma vida
antropocêntrica do que teocêntrica.

Avivamento não é efervescência carismática. Uma igreja pode ter todos os dons
sem ser uma igreja avivada. Avivamento não é conhecido pelos dons do Espírito,
mas pelo fruto do Espírito.

A igreja de Corinto possuía todos os dons, todavia, era uma igreja imatura e bebê
espiritualmente. Naquela igreja profundamente carismática, havia divisões,
cismas, brigas, partidos, contendas, imoralidade e irmãos levando outros irmãos
aos tribunais mundanos. Havia falta de compreensão acerca do casamento e da
liberdade cristã. Naquela igreja a ceia do Senhor estava sendo incompreendida,
os dons estavam sendo usados erradamente, a ressurreição dos crentes estava
sendo negada, e a cooperação financeira com os pobres negligenciada.

190
É verdade que, em épocas de avivamento, os dons são buscados e exercidos
para a glória de Deus e a edificação da igreja, mas a ênfase carismática não é
sinônimo de avivamento.

2.5. Avivamento não é modismo.


Muitos crentes, por desconhecimento, se posicionam contra o avivamento porque
acham que ele é a mais nova onda da igreja. Acham que avivamento é uma
coqueluche moderna e uma inovação sem nenhum respaldo bíblico e histórico.

Certamente, aqueles que assim pensam não estudam com critério a Bíblia nem a
história da igreja. Os pontos culminantes da igreja aconteceram em épocas de
avivamento. Desde o Antigo Testamento que esta é uma verdade incontestável. É
só olhar para os grandes despertamentos na época de Ezequias, de Josias e de
Neemias. É só ver o grande avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia
da Síria e em Éfeso. É só ver o que Deus fez na Reforma do Século XVI, na
Inglaterra, no século XVIII e em outros grandes avivamentos da história.
Certamente, avivamento não é uma onda, não é um modismo. Ele possui firmes
lastros históricos. Ele é nossa herança e nosso legado e deve continuar sendo
nossa aspiração e nossa busca constante.

2.6. Avivamento não é uma visão

dicotomizada da vida.

Muitas pessoas, quando começam a buscar avivamento, saem da realidade e


enclausuram-se nos castelos inexpugnáveis de uma espiritualidade isolada e
monástica. Tornam-se tão "espirituais" que já não sabem mais conviver com a
vida, isolam-se, fazendo da vida uma caverna de fuga. Querem sair do mundo em
vez de serem guardados do mal. Dividem a vida entre sagrado e profano, corpo e
alma, matéria e espírito. Acham que Deus está interessado apenas nas coisas
espirituais. Acham que Deus só olha para a vida de trabalho na igreja, sem
observar os negócios, a família, o trabalho, os estudos e a vida do dia-a-dia com o
mesmo interesse.

Esta não é a visão bíblica nem a visão do verdadeiro avivamento. Tudo em nossa
vida é vazado pelo sagrado. Toda a nossa vida é cúltica. Todo o nosso viver é
litúrgico. O grande avivalista John Wesley lutou pelas causas sociais na Inglaterra
ao mesmo tempo que pregou sobre avivamento. Finney pregou ardorosamente
contra a escravidão nos EUA no século passado ao mesmo tempo que foi o maior
avivalista do seu país. João Calvino atacou com veemência os juros extorsivos em
Genebra. O avivamento sempre traz profundas mudanças políticas, econômicas,
sociais e morais. O avivamento não leva a igreja à fuga, mas ao enfrentamento.

2.7. Avivamento não é campanha de evangelização.

Não podemos confundir avivamento com campanhas evangelísticas. Avivamento

191
é para a igreja, pessoas que já têm vida; evangelização é para o mundo, pessoas
que estão mortas em delitos e pecados. Avivamento é para crentes nascidos de
novo; evangelização é para pecadores inconversos. Na evangelização, a igreja
trabalha para Deus; no avivamento, Deus trabalha para a igreja. Na
evangelização, a igreja vai aos pecadores; no avivamento, os pecadores correm
para a igreja. Na evangelização, os pregadores apelam aos pecadores; no
avivamento, os pecadores apelam aos pregadores.

III - O Padrão Bíblico de Avivamento:

Podemos definir o avivamento bíblico em dois sentidos distintos:

3.1. O sentido estrito de avivamento.

Estritamente falando, avivamento é algo que acontece unicamente no meio do


povo de Deus. O Espírito Santo renova, reaviva e desperta a igreja sonolenta. É
revitalização onde já existe vida. Ou, como disse Robert Coleman, é "o retorno de
algo à sua verdadeira natureza e propósito" (7).

Comentando um pouco mais sobre o sentido estrito de avivamento, diz o Dr.


Martin Lloyd-Jones:

É uma experiência na vida da Igreja quando o Espírito Santo realiza uma obra
incomum. Ele a realiza, primeiramente, entre os membros da Igreja: é um reviver
dos crentes. Não se pode reviver algo que nunca teve vida; assim, por definição, o
avivamento é primeiramente uma vivificação, um revigoramento, um
despertamento de membros de igreja que se acham letárgicos, dormentes, quase
moribundos (8).

Quando há esse impacto da obra do Espírito de Deus na vida da igreja, os


resultados imediatos do avivamento são sentidos no povo de Deus: senso
inequívoco da presença de Deus; oração fervorosa e louvor sincero; convicção de
pecado na vida das pessoas; desejo profundo de santidade de vida e aumento
perceptível no desejo de pregação do evangelho. Em outras palavras, a igreja
amortecida e tristemente doente é a primeira a ser beneficiada pelo avivamento.

3.2. O sentido amplo de avivamento.

Como a própria expressão define, neste sentido não apenas a igreja, mas a
sociedade não-cristã também é beneficiada pelo avivamento. Isto acontece
porque, além da atuação soberana do Espírito Santo no mundo, na igreja passa a
existir uma conscientização profunda de sua missão; isto é, a missão integral de
servir o mundo evangelística e socialmente. No avivamento a igreja vive a missão
para a qual foi chamada.

A sociedade não-cristã, por sua vez, volta-se para Deus em resposta ao


evangelho. Acertadamente o Dr. Héber de Campos comenta que "o reavivamento

192
começa na igreja e termina na comunidade maior onde ela vive. Os efeitos do
reavivamento são muito mais perceptíveis nas mudanças morais que acontecem
na região ou num país onde ele acontece. Ele não se limita simplesmente aos
membros das igrejas atingidas pela obra de Deus. Ele causa impacto em toda a
comunidade onde a igreja de Deus está inserida" (9).

Em suma, as duas características principais do avivamento são 1) o extraordinário


revigoramento da igreja de Cristo e 2) a conversão de multidões que até o
momento estiveram fora dela na indiferença e no pecado.

3.3. Avivamento e a Bíblia.

Aqui também abordaremos dois aspectos essenciais do avivamento.

1) O padrão bíblico de avivamento é a Bíblia

Por mais simplória e pleonástica que esta declaração pareça ser, ela é tão
autêntica e singular como dois e dois são quatro. Estamos falando do único
padrão inerrante e infalível de avivamento: a Bíblia.

Uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela
que nos pode dar a direção certa deste assunto. A relação entre a Bíblia e o
avivamento é tão intrínseca que é impossível um avivamento de verdade sem que
a Bíblia faça parte dele.

Além disso, numa época de tantos extremos como este em que vivemos, é
fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde
aqueles que vêem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento,
até àqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento
é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação
humana sem respaldo bíblico. É necessário, mais do que nunca, recorrermos à lei
e ao testemunho.

Permita-me ilustrar o que queremos dizer por "extremos". Edwin Orr (10), uma das
maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados
Unidos convidando pessoas para suas reuniões de avivamentos. Uma delas dizia:
"Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra
prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr
menciona este fato para relatar um desses extremos em que a palavra
"avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o avivamento
fosse produzido simplesmente pelo desempenho humano com data e hora
marcadas.

Voltando ao lugar da Bíblia no avivamento, é importante salientar que ela foi, é e


sempre será a espada do Espírito Santo em todo avivamento bíblico. Não existe
verdadeira espiritualidade sem a Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na
Bíblia e na história da igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre

193
persuadidos com e para a Bíblia. Avivamento onde a Bíblia não está presente não
passa de um mero pentecostalismo convencional.

"Um reavivamento", diz o Dr. Héber de Campos, "que é produto da obra do


Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido
esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus
passa ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A
Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus"
(11).

2) O padrão bíblico de avivamento está na Bíblia

Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o


que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete,
pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o
nome do Senhor" (Gn 4.26) (12). O nome Enos quer dizer fraco ou doente. O que
é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o
aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era
bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da
depravação humana e da necessidade da graça divina" (13). À parte desta
indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da
raça humana. O relato subseqüente do dilúvio ilustra de modo dramático o que
acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.

Depois temos os patriarcas que por vários séculos lideraram o povo de Deus.
Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia, eles agiam como a
força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom
exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos
empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira
páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8;
32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).

No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas


campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js
7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar
os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que
seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu
que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um
verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os
dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois
de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31).

O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de


quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus
é inevitável. Então, após longos anos de opressão, o povo se arrepende e clama
ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as
orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os

194
inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período,
sob a direção de Samuel (I Sm 7.1-17).

Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha


de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um
avivamento (2 Sm 6.12-23). A dedicação do templo, no início do reinado de
Salomão, é outro grande exemplo (I Rs 8). O avivamento também chega a Judá
nos dias de Asa (I Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (I
Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2 Rs 11.4-12.16). Outro poderoso
despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2 Rs 18.1-
8). Por fim, a descoberta do livro da lei, durante o reinado de Josias, dá início a um
dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2 Rs 22,23; 2 Cr 34,35).

Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um


novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os
judeus a interromperem a reconstrução do templo, os profetas Ageu e Zacarias
entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc
1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição
liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais
atenção à lei (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois,
quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de
Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31).

Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos


também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.

No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João


Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na
expectativa de receberam a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O
poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o
avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma
nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação
desse dia - o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo,
redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a
proclamar o Evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)" (14).

O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém,


em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá, são muitos os
relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na história da igreja, como por
exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI, na Inglaterra no
século XVIII, entre os negros Zulus da África do Sul na década de 60 e na Coréia
do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.

Que Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e
povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador" que nos
purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.

195
NOTAS
(1) Cf. D. M. Lloyd-Jones, DO TEMOR À FÉ (2ª ed. São Paulo: Editora Vida,
1987), pp. 73,4. Veja também, de Gerard Van Groningen, AVIVAMENTO SOB UM
PRISMA VÉTERO-TESTAMENTÁRIO no site www.ipcb.org.br.
(2) Os termos "avivamento", "reavivamento", "renovação", "despertamento",
"vivificação", "reviver" e "tornar a viver" são usados no mesmo sentido.
(3) O significado literal da expressão hebraica "vivificar-nos", do Salmo 85.6, é
"causa-nos viver", onde se reconhece que a vitalidade espiritual depende
inteiramente de Deus.
(4) O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, dá a este Salmo o sugestivo
título: UMA ORAÇÃO PEDINDO REAVIVAMENTO.
(5) Para um ponto de vista diferente, veja a obra do Dr. Paul E. Pierson, A
HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS, material apostilado pela Faculdade Teológica
Sul Americana de Londrina - PR.
(6) Uma posição semelhante foi apresentada pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira,
em entrevista ao Jornal Brasil Presbiteriano (Abril/94, p. 12): "Confunde-se
avivamento com atitude pessoal e inclusive corporal (física), com expressão
emocional, levantar de mãos, etc. Essas atitudes em si não são propriamente
prejudiciais. Todavia, pela confusão que se faz a doutrina sai perdendo. Há uma
superficialidade doutrinária muito grande, porque se dá ênfase excessiva ao
louvor, a sermões eletrizantes, a práticas pentecostais, quando avivamento é tão
somente uma consciência clara e profunda da vontade de Deus (que é doutrinária)
e uma disposição plena de obediência (que é prática)".
(7) R. Coleman, A CHEGADA DO AVIVAMENTO MUNDIAL (São Paulo: CPAD,
1996), p. 18.
(8) D. M. Lloyd-Jones, OS PURITANOS: SUAS ORIGENS E SEUS
SUCESSORES (São Paulo: PES, 1993), pp. 15,6. Veja também, do mesmo autor,
o excelente livro AVIVAMENTO (São Paulo: PES, 1992) 320 pp.
(9) Héber C. Campos, CRESCIMENTO DA IGREJA: COM REFORMA OU COM
REAVIVAMENTO? In Fides Reformata, Vol I, Nº 1 (São Paulo: 1996), pp. 44,5.
(10) Citado por Brian H. Edwards em REVIVAL! A PEOPLE SATURED WITH
GOD
(England: Evangelical Press, 1994), p. 25.
(11) H. C. Campos, op. cit., p. 45.
(12) R. Coleman, op. cit., p. 53.
(13) Idem.
(14) Idem, p. 61

Parte XXXII
O QUE É MINISTÉRIO?
TEXTO 2 CORÍNTIOS 6:1-10

01. O MINISTÉRIO NÃO É UMA PROFISSÃO E SIM UMA VOCAÇÃO

- vocação pressupõe - compromisso, disposição e acima de tudo uma visão clara


do trabalho que vai realizar.

196
- qual a sua visão do seu ministério pessoal?

02. VAMOS VER O MINISTÉRIO PELA PERSPECTIVA DE PAULO


- 2 Coríntios 6: 1-10

2.1 - Em primeiro lugar vamos examinar os fatores internos que influem no


ministério cristão. Se não soubermos administrar esses fatores, acabaremos
desistindo no meio do caminho.

A - Na muita paciência

- paciência - significa a habilidade em conservar o projeto do ministério mesmo


quando as águas são agitadas. Esta habilidade hoje está muito comprometida.
Poucos são os pastores que demonstram paciência no exercício do ministério.
- Ser paciente - não é ser simplesmente ser gentil. O sentido da palavra aponta
para um espírito de perseverança, de permanência, de estabilidade, de firmeza!
- Crisóstomo afirmou: "a paciência é um porto que desconhece tempestades".

- Pergunta: você tem exercido esta paciência em seu ministério?

B - Nas aflições

- esta palavra tem o sentido de "espremer", "restringir", "afligir". Não podemos nos
esquecer de que o pastor é antes de tudo um sacerdote chamado para interceder
junto a Deus pelo povo. As aflições não podem nos afastar deste propósito.
- Há duas situações neste contexto que precisam ser compreendidas:
- A primeira é a de aceitar as aflições como uma disciplina de Deus. Isto é. Tudo o
que acontece nesse campo de dores vem de Deus. Esse conceito nasceu no Séc.
XVII na França e na Itália e foi chamado de Quietismo. A síntese desse
movimento era que o mal foi planejado para o nosso bem. Portanto devemos nos
aquietar.
- O outro lado que se opõe frontalmente ao quietismo, é chamado de Ativistas.
Para os ativistas, através do exercício da fé, podemos acabar com todas as
enfermidades, com todas as dificuldades da vida. Todo mal vem de Satanás e
deve ser enfrentado com ousadia!
- O pastor segundo os ativistas não deve ficar deprimido. Tem de ser um heroi 24
horas por dia!

Nós sabemos que há momentos no ministério em que a vontade é de


desaparecer, de vesuviar, de largar tudo. Vale a pena reler Romanos 12:12 -
"Sede pacientes na tribulação..."

C - Nas privações

- um dos grandes problemas do ministério é que o pastor nunca se acha fraco.


Somos e procuramos exteriormente demonstrar uma força que muitas vezes não
temos. O medo de fracassar é um fantasma que ronda com muita freqüência o

197
pastorado.
- Privação - tem o sentido de passar por "experiências adversas". Quem ainda não
passou por esses vales profundos de pobreza ministerial.
- Há momentos em que a Bíblia parece um livro fechado. Você não consegue tirar
nem uma gota de inspiração.
- Ilust. eu ouvi uma certa ocasião um pastor afirmar que nós precisamos ter pelo
ao menos três pessoas compartilhando do nosso ministério.

- Em primeiro lugar você precisa de um Timóteo - alguém a quem você possa


ensinar. Alguém que dependa de você para vencer as dificuldades da vida.
Quando você tem alguém sob sua responsabilidade você se desdobra em busca
de socorro. É o que os pais fazem com os filhos.
- Em segundo você precisa de um Barnabé - alguém que esteja no mesmo nível
espiritual que você. Alguém com quem você possa se abrir, contar suas
frustrações e receber todo apoio. Este ponto é muito importante no ministério
pastoral. Você não pode caminhar sozinho, e não deve se abrir com muita gente.
Eu sei que é muito difícil você se abrir com um colega com o qual você não tem
uma amizade verdadeira. Mas sempre há alguém mais próximo de nós.
- Em terceiro lugar você precisa de um Paulo - alguém que esteja acima de você e
que possa orientá-lo nos seus momentos difíceis. Alguém que possa servir de
referencial para você nos momentos de provação.

D - Nas angústias

- o sentido aqui é de "estreitamento". A idéia é que o ministro pode a qualquer


momento ser confinado, ser levado a um ambiente apertado, fechado.
- São frequentes os momentos em que os espaços diminuem. Você se esforça,
luta mas não consegue avançar, não consegue progredir.
- Aqui surge um outro problema. Nestas circunstâncias o pastor é levado a se
esconder atrás de disfarces.
- Adão tentou se disfarçar com uma folha de figueira. Procurou encobrir o seu erro
camuflando-se diante de Deus.
- Pedro por sua vez demonstrou um espírito de arrogância quando foi confrontado
pela criada - Marcos 14:66-71
- Ananias e Safira - usaram a aparência de santidade para impressionar o
apóstolo Pedro. Angústia faz parte do ministério.

2.2 - Em segundo lugar vamos examinar os fatores externos que acontecem


com muita frequência no ministério.

A - Em açoites

- o sentido desta palavra aponta para um dos sofrimentos maiores do ministério.


Esse sofrimento não tem muito a ver com sofrimento físico. Hoje isto quase não
acontece.
O enfoque maior desta palavra se refere as "feridas", aos "golpes" que recebemos
em nossas emoções, em nossa mente.

198
- Aqui também corremos um outro perigo: o de produzir um estado de melancolia.
Freud analizando os aspectos da melancolia chegou à conclusão que ela produz
"uma anulação do interesse pelo mundo exterior, uma perda da capacidade de
amar, uma inibição de toda atividade e uma diminuição dos sentimentos de valor
próprio até o ponto de auto-recriminações e auto-injúrias..." (As Máscaras da
Melancolia, pg. 87).
- Paulo tinha as marcas de Cristo em seu corpo. Estas marcas ainda são
necessárias ao ministério.
- Lembre-se: ministério sem dor não é ministério. Precisamos estar preparados
para sofrermos esses golpes. Eles fazem parte da nossa chamada.

B - nas prisões

- eu creio que não estamos ferindo o texto bíblico ao aplicarmos estas


experiências de Paulo em nosso contexto social. Hoje poucos sabem o que é uma
prisão. Poucos são os pastores que exercem esse ministério.
- Devemos portanto pensar em prisão no sentido de não termos outro espaço para
viver a não ser o do ministério. Fomos aprisionados por Cristo. (Efésios 3:1).
Mesmo com todas as dificuldades já apontadas, não podemos fugir desse
compromisso.

C - nos tumultos

- o sentido aqui é de "vacilação", de "instabilidade", de "desesperança". Neste


ponto nós podemos nos identificar com o apóstolo Paulo. Ainda hoje sofremos
este tipo de problema na igreja. Há muita gente interessada em tumultuar o
ambiente. Há correntes contrárias que tentam desestabilizar o nosso ministério. É
importante saber que não estamos livres de tumultos na igreja.
- O perigo é querer punir os autores desses conflitos. C.S. Lewis fala da "paixão
vingativa". Ele diz que é fácil alimentar um espírito de desforra. Ficamos na
espreita aguardando uma oportunidade para crucificar aqueles que provocaram as
divisões.

2.3 - Em terceiro lugar Paulo mostra o que o ministério exige de cada um de


nós. Ele aponta um trio de atividades que não podem ser menosprezadas.

A - nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns.

- O Bispo Roberto sempre dizia: "ministério é trabalho, não é distração". Eu não


sei quanto tempo você dedica ao exercício de vigiar, de jejuar.
- Eu sei que cada pastor tem um sistema próprio de vida. O que não pode ser
esquecido é que sem trabalho o ministério não cresce. E esse trabalho exige
momentos de reflexão, de isolamento, de afastamento de tudo e de todos para
ouvir a voz de Deus.
- Sobre o isolamento pastoral, George Barna diz algo muito interessante: Ele fala
da ausência programada do pastor. "Uma estratégia que funciona bem, no caso
da maioria das igrejas crescentes, é fazer o pastor afastar-se da igreja, para uma

199
ausência planejada". E afirma: "Nas igrejas crescentes, a breve ausência do
pastor realmente fortalece a sua igreja, fazendo o resto da equipe funcionar como
uma unidade . Eles experimentam a alegria de saber que a igreja não é um
espetáculo de um único homem." (Igrejas amigáveis e acolhedoras).

2.4 - Em quarto lugar Paulo nos mostra como devemos ser. Uma série de
virtudes são apresentadas neste bloco.

A - na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no


amor não fingido.
- pureza - significa simplicidade, sinceridade, transparência.
- saber - estar afinado com o movimento da ciência. Não ficar alheio ao que
acontece no mundo.
- longanimidade - fala de tolerância, de resistência. Ser paciente para com os
demais.
- na bondade - generosidade, gentileza.
- no Espírito Santo - no poder do Espírito.
- eu disse a igreja que nós perdemos um pouco da nossa característica. Pouco
falamos sobre os dons do Espírito. Temos dado pouca ênfase nas manifestações
do Espírito. Esta falta enfraquece o ministério.
- no amor não fingido - amor não teatral. Não devemos apenas interpretar um
papel que não vivemos na realidade.

2.5 - Em quinto lugar Paulo mostra o que devemos fazer em nosso


ministério.

A - na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer


ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama,
como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto bem
conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como
castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres ; pobres, mas
enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.

- Há uma série de paradoxos neste texto. Assim é o ministério pastoral. Temos


tudo e ao mesmo tempo não temos nada.
- Quem consegue entender esta composição bíblica consegue também exercer
um trabalho rico e abençoado por Deus.
- Nós fomos chamados para um ministério singular. Há muitas oportunidades a
nossa frente. Que ninguém desanime nesse caminhar.

ORLANDO COSTA E A IGREJA BRASILEIRA

Introdução
Orlando E. Costas (1942-1987) nasceu em Porto Rico e faleceu nos Estados
Unidos, vitimado por um câncer, aos 45 anos de idade. Era pastor e teólogo
batista. Graduou-se doutor em teologia e missiologia nos Estados Unidos. Foi
reitor e professor do Seminário Bíblico Latino-Americano de Costa Rica; fundou o

200
Centro Evangélico Latino-Americano de Estudos Pastorais (CELEP), em 1973, em
San José, Costa Rica. Atuou como administrador da faculdade do Eastern Baptist
Theological Seminary, na Filadélfia, onde também foi professor de missiologia e
diretor de estudos hispânicos. Além disso, ocupou o cargo de segundo vice-
presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e, na ocasião de seu
falecimento, atuava como professor no Andover Newton Theological School, em
Massachussetts, e como vice-presidente da Fraternidade Teológica Latino-
Americana.

Orlando Costas esteve no Brasil em junho de 1984, participando da V Semana de


Atualização Teológica. Admirou a liderança jovem da igreja brasileira e criticou seu
fraco desempenho teológico. O renomado teólogo considerava-se um "teólogo na
encruzilhada". Entendendo que a fé não é "uma herança familiar", sentiu-se
atraído pela evangelização do povo latino-americano. Costas rompeu com a
cultura anglo-saxônica e a mentalidade colonialista que subjuga os povos latino-
americanos. Questionou a hegemonia política na América Latina, rejeitando o que
chamou de "império norte-americano". Assim, enveredou-se pela "libertação social
e cultural", entendendo que a missão da igreja não é simples comunicação da fé,
mas o mundo em sua complexidade, o que requer a mobilização da igreja em
busca de uma prática libertadora integral. Entre seus escritos são dignos de
destaque o artigo Dimensões do Crescimento Integral da Igreja e o livro
Compromiso y Misión. (1).

Esta pesquisa é uma simples tentativa de se aplicar os conceitos de crescimento


da igreja de Orlando Costas a nossa realidade brasileira. Não é um trabalho
original no que se refere ao estudo dos tipos de crescimento propriamente dito.
René Padilla, por exemplo, faz um comentário interessante sobre as dimensões
do crescimento integral de Orlando Costas em seu artigo Avaliação Teológica do
Ministério Integral em Servindo com os pobres na América Latina: Modelos de
Ministério Integral. Contudo, Padilla é amplo demais. Seu enfoque é a América
Latina como um todo. Nosso trabalho visa a igreja brasileira em solo brasileiro.

1. O CRESCIMENTO NUMÉRICO DA IGREJA BRASILEIRA

O crescimento numérico da igreja evangélica brasileira deve fazer parte do desejo


de todo cristão sincero, porque uma igreja que não cresce está fora dos propósitos
de Deus. Entretanto, tal crescimento não deve ser almejado e nem considerado
sadio quando a ética cristã está em jogo. Crescimento de igreja sem saúde é mera
inchação; saúde sem crescimento é contradição de termos, pois o crescimento
deve ser o resultado natural de uma igreja saudável.

Orlando Costas, por exemplo, era cuidadoso em sua análise de crescimento


numérico de uma igreja. Embora reconhecesse o valor, a importância e a
necessidade de uma igreja crescer, não se deixava impressionar simplesmente
com números. Haja vista o clássico episódio em que Orlando Costas visitou uma
igreja pentecostal no Chile. Chegando lá, constatou que uma igreja como aquela
não podia crescer saudavelmente estando, ao mesmo tempo, atrelada à ditadura

201
militar do general Augusto Pinochet.

Além disso, o rol de membros de uma igreja, segundo Costas, também não pode
servir como critério de avaliação de crescimento. Ele entendia que antes de tudo
algumas questões importantes deveriam ser levadas em consideração, como por
exemplo: O crescimento é motivado pelo Espírito Santo? O crescimento está
relacionado com os frutos do Espírito? A fé do crente é vibrante, calorosa e
esperançosa? Ele é amoroso? Sua fé é vista através da ação? A fidelidade,
espiritualidade e encarnação (2) estão presentes na vida da igreja?

Estas questões são fundamentais para se avaliar o crescimento da igreja brasileira


hoje. É preciso discernimento e critério de avaliação. Todo crescimento de igreja,
ou mesmo a falta dele, deve ser criteriosamente analisado. Na questão de
crescimento da igreja não podemos ser totalmente crédulos de um lado e nem
céticos do outro. Os extremos são sempre perigosos. As indagações levantadas
por Costas precisam ser ponderadas por todos nós, e por uma razão óbvia: no
Brasil existe uma forte tendência em se achar que todo e qualquer crescimento de
igreja é obra do Espírito Santo.

É importante deixarmos claro que Orlando Costas não era (e jamais foi) contra o
crescimento da igreja. Pelo contrário. O que Costas questionava, e com razão,
eram os meios muitas vezes utilizados para se chegar em tal crescimento.

Orlando Costas dizia que o crescimento numérico da igreja, propriamente dito, "é
parte fundamental do ser da igreja" (3), pois nenhuma igreja foi formada para ficar
estagnada e parada no tempo. Embora nem todas as igrejas tenham vocação para
ser mega-igreja, todas devem crescer. Isto é um princípio bíblico que Costas fazia
questão em destacar.

Temos no Brasil igrejas abençoadas: algumas grandes, outras nem tanto, mas
que estão crescendo saudavelmente. Contudo, esta não é a realidade geral em
nosso país. Independente de ser pentecostal ou histórica, sabemos de tantas
igrejas que estão marcando passo, engessadas em suas tradições ou em seus
usos e costumes, com pouca ou nenhuma perspectiva de sua missão e de seu
crescimento. Por outro lado, existem aquelas que experimentam um crescimento
fenomenal e intrigante até. As igrejas pentecostais do Brasil sempre serão um
desafio saudável às igrejas históricas. Contudo, fica a pergunta: aquelas estão
crescendo realmente com saúde, do mesmo modo como estas deveriam crescer?

2. O CRESCIMENTO ORGÂNICO DA IGREJA BRASILEIRA

Vimos no tópico anterior que o crescimento numérico não tem sido tão favorável
para a igreja evangélica brasileira de modo geral. O que não significa dizer que
não haja igrejas crescendo com autenticidade, de acordo com os preceitos
bíblicos. Porém, esta não é a regra geral. E por que não? Porque nem sempre a
ética cristã de uma vida santificada tem andado de mãos dadas com o
crescimento de nossas igrejas. O que, por si só, segundo Orlando Costas, não

202
pode ser aceito como crescimento verdadeiro.

E o que dizer do crescimento orgânico da igreja? Primeiramente é preciso saber o


que é crescimento orgânico na concepção de Costas. De acordo com ele, esta
dimensão inclui aspectos da vida interna da igreja como "sua forma de governo,
sua estrutura financeira, seus líderes, o tipo de atividade na qual investe seu
tempo e recursos e sua celebração cultural" (4). Costas entendia que estas devem
ser preocupações salutares e necessárias. Entretanto, o crescimento orgânico da
igreja não deve ser introspectivo, voltado para dentro de si mesmo. Costas fazia
questão de deixar isso bem claro (5) e René Padilla interpretou muito bem o
pensamento do missiólogo quando disse: "Ele (o crescimento orgânico) abrange,
entre outras coisas, o desafio da contextualização da igreja em uma situação
histórica definida, na intenção de constituir-se em uma verdadeira comunidade
com raízes autóctones" (6).

O crescimento orgânico é um dos tipos mais naturais de crescimento


experimentado pela igreja brasileira, pena que às avessas. Segundo pesquisas,
cerca de 80% a 90% dos recursos financeiros, formação de líderes, uso do tempo
e do templo estão voltados para o deleite de nossas próprias igrejas. A igreja
evangélica brasileira de modo geral ainda não se conscientizou de sua missão
fora dos portões como sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5.13,14). Um bom (ou
seria mau?) exemplo disso é o que a igreja geralmente faz com seus novos
membros ou recém-convertidos. Bruce Shelley expressou a mesma preocupação
de Costas quando advertiu:

"Infelizmente, as igrejas tendem a 'eclesiastizar' seus membros. Sua obediência a


Cristo se faz apenas mediante canais institucionais ou pietistas: reuniões e
programas, ou reuniões de oração e grupos de discipulado.

A nossa evangelização, no geral, tira o convertido do mundo e jamais o envia de


volta a ele. Nosso alvo deve ser a missão da mesma pessoa no mundo, todavia
uma nova pessoa com novas convicções e padrões. Se o primeiro mandamento
de Jesus foi 'Vinde' o segundo foi 'Ide'. Devemos reentrar no mundo de que
saímos, só que agora como embaixadores de Cristo" (7).

As palavras de Shelley deve nos levar a uma reflexão séria, até porque o maior
potencial de uma igreja é o crente novo. A igreja não pode servir de tropeço para
ela mesma. Há alguns anos escrevi uma lição para a escola dominical na qual
dizia: "Reconhecemos que há muita coisa boa que uma igreja local pode fazer
além de missões, mas, por outro lado, se a 'muita coisa boa' estiver desassociada
de missões, então não é tão boa quanto se pensa'.

À luz do que vimos até aqui, a conclusão que chegamos é que a igreja brasileira
não é, essencialmente, uma igreja missionária. Boa parte de nossas igrejas que
pensam serem missionárias na verdade apenas fazem missões, quando fazem!
Um exemplo a ser considerado é a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB),
denominação da qual sou pastor. Infelizmente a IPB é hoje o que jamais deveria

203
ser. A igreja que se orgulha de sua teologia calvinista esquece que Calvino
possuía uma consciência missionária profunda (8) sendo, inclusive, o responsável
pelo envio dos primeiros missionários ao Brasil em 1555 (9).

Fruto direto da obra missionária de Ashbel Green Simonton em 1859, a IPB


deveria ser, atualmente, uma das denominações mais missionárias do país. É
verdade que sua visão e missão, de uns tempos para cá, vem progredindo ,
porém, ainda tem muita estrada para se rodar, pois é preciso resgatar por
completo a boa herança reformada, não apenas em seu aspecto teológico, mas
sobretudo na totalidade daquela missão integral que ficou perdida em algum lugar
do passado.

Saindo do particular para o geral, além de uma conscientização missionária,


propriamente dita, a igreja brasileira precisa passar por uma revitalização de suas
estruturas, tornando-as mais funcionais e principalmente por uma estruturação
doutrinária que se expresse na vida prática. Infelizmente falta sã doutrina e
santidade de vida no povo de Deus, o que vem comprometendo seriamente o
evangelho e a aceitação do mesmo por parte da sociedade.

3. O CRESCIMENTO CONCEITUAL DA IGREJA BRASILEIRA

A igreja brasileira não é um caso perdido. Pelo contrário, é uma igreja que está
caminhando, embora a passos não tão largos como gostaríamos, mas caminha na
esperança de um futuro promissor. Com a graça de Deus chegaremos lá! Aos
poucos o velho conceito de fazer missões vai dando lugar ao ser missões. Isto
está acontecendo porque a igreja, consciente ou inconscientemente, começa a
crescer conceitualmente também; o que significa, segundo Costas, "expansão na
inteligência da fé: o grau de consciência que a comunidade eclesial tem a respeito
da sua existência e razão de ser, sua compreensão da fé cristã, seu conhecimento
da fonte dessa fé (as Escrituras), sua interação com a história dessa fé e sua
compreensão do mundo que rodeia. Esta dimensão dá à igreja firmeza intelectual
para enfrentar a todo tipo de doutrina e capacidade crítica para evitar a
fossilização e garantir a criatividade evangelizadora, orgânica e ética" (10).

Talvez um dos teólogos que mais chamou a atenção da igreja para sua dimensão
conceitual (embora não com esta terminologia, mas com a mesma ênfase), tenha
sido o Dr. Martin Lloyd-Jones, um pastor britânico já falecido. Li vários livros do Dr.
Jones e notei que muito da preocupação conceitual de Orlando Costas era a
daquele também. O doutor costumava dizer, por exemplo, que "se você estiver
errado em sua doutrina, estará errado em todos os aspectos da sua vida" (11).

O crescimento conceitual da igreja é o que poderíamos chamar de "dimensão


central da igreja". A qualidade da qual se derivam todas as outras dimensões.

É importante lembrar que Orlando Costas entendia corretamente as dimensões do


crescimento integral da igreja como um sistema interligado. A ausência de
qualquer uma daquelas dimensões (numérica, orgânica, conceitual ou diaconal)

204
acarretaria numa deficiência danosa. Na verdade, cada dimensão da igreja só tem
razão de ser se for vivenciada nas outras. Citemos um pequeno exemplo:
Crescimento numérico sem qualidade pode ser comparado ao câncer que cresce
mas não é bom. Qualidade sem crescimento é inconcebível. A igreja evangélica
brasileira ainda não entendeu como deveria essas dimensões e suas implicações.
E de quem é a culpa? Certamente são daquelas lideranças que muitas vezes
refletem em suas igrejas uma mentalidade tacanha e retrógrada. São aquelas
pessoas que confundem a boa tradição bíblica e evangélica pelo tradicionalismo
mórbido; inovação saudável e revitalizadora pelo inovacionismo e oba-oba.

À luz do que vimos até aqui fica difícil dizer: "A igreja brasileira tem esta cara". De
certo modo, ainda somos uma grande colcha de retalhos; porém, esta dimensão
que nos faz olhar para dentro de nós mesmos, sem deixar de olhar para fora,
precisa ser devidamente analisada e exercitada pela igreja brasileira como um
todo. Estamos adentrando em um novo milênio e a igreja continua sonolenta em
muitos dos aspectos de sua missão integral.

4. O CRESCIMENTO DIACONAL DA IGREJA BRASILEIRA

Esta é a dimensão encarnacional da igreja. Orlando Costas entendia que sem este
crescimento a igreja perderia sua autenticidade e credibilidade no mundo, já que
"somente na medida em que conseguir dar visibilidade e concreticidade à sua
vocação de amor e serviço ela pode esperar ser ouvida e respeitada" (12). Para
Costas, os cristãos foram colocados no mundo "para ser a consciência da
sociedade" (13). Uma consciência que estende a mão em ajuda aos fracos e
oprimidos. Felizmente, a consciência social da igreja brasileira hoje parece ser
maior do que algumas décadas atrás. Contudo, se por um lado a igreja vem
melhorando em sua visão social, por outro, ainda não amadureceu tanto em sua
concepção de missão integral, justamente porque ao se discutir prioridades (como
por exemplo as que envolvem evangelização e ação social) a igreja deixa de fazer
bem uma e outra coisa. Evangelização e responsabilidade social são partes
integrantes da missio Dei, portanto, inseparáveis e indispensáveis na missão
integral da igreja de Jesus Cristo no mundo e para o mundo.

O crescimento diaconal da igreja brasileira, assim como as demais dimensões do


crescimento integral, caminha lentamente pelo que a gente tem visto. Mas ele não
está estagnado. De uns tempos para cá a igreja melhorou consideravelmente.
Vale lembrar, e não faz muito tempo, a igreja que assumia sua responsabilidade
social no mundo era taxada de comunista, liberalista, etc. Hoje, graças ao bom
Deus, boa parte das igrejas brasileiras está envolvida em trabalhos sociais, e sem
qualquer preocupação de ser rotulada e perseguida por isso, como ocorria em
tempos atrás.

É pena que a igreja foi, e muitas vezes tem sido ainda hoje, influenciada pelos
sistemas políticos e deixado de ser a voz profética de Deus na sociedade. A igreja
brasileira não pode se calar diante dos males sociais.

205
A igreja brasileira não está parada, mas poderia andar um pouco mais depressa,
porque, quanto à participação nos problemas da sociedade, ainda temos um longo
caminho pela frente. Que Deus nos ajude!

Conclusão:
Vivemos na esperança de dias melhores para a igreja brasileira. De uma igreja
que se consolide pela visão integral de sua missão no mundo.

Comparando os quatro conceitos de crescimento de Orlando Costas à igreja


brasileira, podemos notar um avanço em todos eles.

Nossa igreja brasileira ainda não é a igreja dos sonhos, a igreja que gostaríamos
de ser, mas com certeza esse dia vai chegar.

Deus visitará seu povo e o avivará para honra e glória do Seu nome!

NOTAS
1. L. A. T. Sayão, verbete ORLANDO E. COSTAS em Enciclopédia histórico-
teológica da igreja cristã, Vol. I (São Paulo: Vida Nova, 1988), p. 362.

2. "Para Costas, estas três qualidades ou critérios teológicos - fidelidade,


espiritualidade e encarnação - são as variáveis de controle em seu modelo de
crescimento integral. Trata-se dos fatores ou princípios críticos em função dos
quais avalia-se qualitativamente as várias classes e dimensões do crescimento
eclesial e se prova a validez teológica de dito crescimento" (Daniel S. Schipani,
CREZCAMOS EN TODO...EN CRISTO em Misión en el camino (Buenos Aires:
FTL, 1992) p. 117, nota 6.

3. Orlando E. Costas, DIMENSÕES DO CRESCIMENTO INTEGRAL DA IGREJA


em A missão da igreja (Belo Horizonte: Missão Editora, 1994) p. 113.

4. Idem.

5. Idem.

6. René Padilla, AVALIAÇÃO TEOLÓGICA DO MINISTÉRIO INTEGRAL em


Servindo com os pobres na América Latina (Curitiba-Londrina: Editora Descoberta,
1998) p. 29.

7. Bruce Shelley, A IGREJA: O POVO DE DEUS (São Paulo: Vida Nova, 1984) pp.
126,7.

8. Cf. Antonio Carlos Barro, A CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA DE JOÃO CALVINO


em Fides reformata, Vol. III, nº 1 (São Paulo: 1998) pp. 38-49.

9. Cf. Fred H. klooster, MISSIONS - THE HEIDELBERG CATECISM AND CALVIN


em Calvin theological journal (1972) pp. 183,4.

206
10. Costas, op. cit., p. 113.

11. D. M. Lloyd-Jones, O COMBATE CRISTÃO (São Paulo: PES, 1991) p. 101.

12. Costas, op. cit., p. 114.

13. Costas, COMPROMISO Y MISION (San José: Editorial Caribe, 1979) p. 102.

Parte XXXIII
PERIGOS SUTIS AO MINISTÉRIO PASTORAL

"Quando fui convidado para escrever este artigo para a nossa Revista
PROPOSTA, logo pensei em algo sobre o ministério pastoral. Trata-se de um
desejo de compartilhar com meus irmãos e colegas pastores, alguns perigos do
ministério, os quais tenho constatado em minha própria caminhada. Como
sempre, são sutilezas que procuram desestabilizar e adulterar o nosso pastorado.

1º Perigo: O perigo de envolver-se tanto em atividades que negligenciamos


nossa vida devocional.

Penso que na essência, todo pastor deseja grandes mudanças em suas igrejas e
daí a quantidade exorbitante de atividades a que nos entregamos todos os dias:
aconselhamentos, visitas, escrever artigos, fazer ligações telefônicas, preparar
estudos e sermões, separar tempo para planejar, reunir-se com a liderança, etc...

Obviamente, existe por trás deste excesso de atividades uma cultura – nosso
mundo é voltado para o sucesso. Em razão disso, em nossas muitas atividades
eclesiásticas somos cada vez mais dominados por superlativos. Orgulhamos por
ter uma grande Igreja, um grande coral, um grande...

Conscientemente ou não, corremos atrás de atender a um modelo ideal de pastor


estigmatizado por esta cultura do sucesso que é aquele líder que está sempre
ocupado, sem tempo para mais nada. Se estar atarefado é ser importante, então
preciso estar atarefado. Tornamo-nos daí pastores compulsivos, onde nossa
identidade pastoral passa a ser derivada de nossas atividades.

Sutilmente somos enganados, e por fazermos parte de uma sociedade


competitiva, constantemente temos que provar o nosso valor, a nossa utilidade, e
para tanto, procuramos nos manter sempre ocupado. Abro aqui um parêntesis
para recomendar a leitura do livro de Henry Nouwen “ No Nome de Jesus” , onde
o autor fala de três tentações mais comuns no ministério pastoral: ser relevante,
ser espetacular e ser poderoso. Mas voltando; como evitar cair na armadilha do
excesso de atividades ? A resposta é a mais simples possível: Precisamos praticar
um tempo a sós com Deus. Parece uma ousadia falar assim aos pastores, mas
aqui falo também como pastor - em nossa vida agitada e cheia de atividades
temos fracassado em separar tempo para a solidão afim de aprofundarmos nossa

207
vida espiritual. Solidão é o remédio contra o ativismo pastoral. Cito Henry Nouwen
quando ele afirma que na solidão, descobrimos que ser é mais importante que ter
e que valemos muito mais que o resultado de nossos esforços.

Aprendemos com nosso Senhor Jesus em Lucas 5:15,16, que a ação interna
(oração) tem precedência sobre a ação externa (proclamação). O v.15 nos informa
que muitas pessoas procuravam a Jesus para serem curadas por ele e o v.16
afirma “ele porém se retirava para lugares solitários e orava”. Jesus percebeu o
perigo e não caiu na armadilha de se entregar ás atividades, negligenciando sua
vida devocional.

O pastor que imita as ações e a pregação de Jesus, sem, ao mesmo tempo, imitar
sua vida profunda de oração, são um prejuízo para a fé e um empecilho para o
crescimento da igreja.

Nós pastores insistimos com nossas ovelhas sobre a necessidade delas terem um
tempo a sós com Deus. Mas não podemos nos esquecer que somos ovelhas
também, e que ter uma vida profunda de oração não perde o seu valor quando
somos ordenados ao ministério.

2º Perigo: O perigo de reduzir a funções e projetos a pessoas que Deus nos


mandou pastorear.

Corremos o perigo de abandonarmos nossa função como pastor, deixando de


pastorear pessoas, e nos tornamos administradores e secretários de Igrejas.
Começamos a medir o sucesso no ministério pela popularidade de nossos
projetos, dos terrenos que a igreja adquiriu, das reformas feitas na estrutura física
da igreja durante nosso pastorado ali, do formato novo do boletim informativo,
etc... Quando olhamos para o ministério de Jesus, verificamos que ele passou
mais tempo cuidando de pessoas e conversando com elas do que em qualquer
outra coisa. Jesus não era inclinado à programas, mas à pessoas. Diferentemente
de nós que somos movidos para a produção.

Não me entendam mal. A princípio não há nada de errado em tudo isto; o perigo é
sutil. Neste processo da secularização da igreja, movida á produção, homens e
mulheres com quem vivemos e trabalhamos podem se tornar meros objetos.
Pouco a pouco todos se transformam em instrumentos de trabalho. Sob a pressão
de que estão trabalhando para Jesus, usamos estas pessoas como empregados
para cumprirem uma missão que nem sempre é de Deus e sim do pastor.

Talvez devêssemos perguntar: Como posso saber se estou sendo bem sucedido
no cumprimento de meu ministério? Creio que Efésios 4:11-15 delineia qual é a
expectativa de Deus para nós pastores – Dentre algumas das medidas de sucesso
em nosso ministério, está o fato de que precisamos preparar pessoas para o
ministério. Para fazer isto preciso gastar tempo com as pessoas – ajuda-las, ouvi-
las, aconselha-las, etc...Pessoas são a razão de nosso ministério.
Precisamos ser lembrados que fomos chamados para pastorear e não para

208
administrar. Para isto é que existem presbíteros regentes e docentes. Nós
pastores precisamos pastorear, dedicar tempo ás nossas ovelhas para visitá-las e
orienta-las espiritualmente. Deixe a administração com o presbítero regente.

3º Perigo: O perigo de se afastar tanto do mundo que perdemos a


consciência de que o mundo é nossa paróquia.

Quando nos tornamos pastores, a “ exigência” é que devemos nos retirar do


mundo e nos entregarmos ao trabalho de uma instituição religiosa que se dedica a
seus próprios assuntos, seguindo seu próprio cronograma e agenda.
Erroneamente, vemos o mundo como algo mal, um inimigo ou um competidor de
nossa espiritualidade.Assim, nos enfiamos nos trabalhos da Igreja que consomem
todo nosso tempo e energia e cada vez menos nos interessamos pelo mundo lá
fora.

É surpreendente ver que Jesus não agiu desta maneira. Em Mateus 9:36 lemos
que Ele andava pela cidade e vendo as pessoas compadecia-se delas porque
eram como ovelhas sem pastor. Eram pessoas aflitas. Aflitas por falta de trabalho,
medo da violência, sem acesso a uma boa escola e inseguras quanto ao dia
seguinte. Eram pessoas exaustas, talvez pela sobrecarga de trabalho, não ter
tempo para o lazer ou por causa dos problemas do dia-a-dia. O texto ainda fala
que eram pessoas sem rumo na vida. Pessoas com crises no casamento,
problemas com os filhos, na vida profissional, emocional e existencial.

Nós pastores precisamos seguir o exemplo de Jesus e olhar para a nossa cidade,
para o nosso bairro e ter uma proposta pastoral para estas pessoas aflitas,
exaustas e sem rumo na vida. Nosso ministério corre o perigo de ser exercido
basicamente dentro da Igreja. Creio que já está na hora de desenvolve-lo “fora da
igreja” também. De tanto se afastar do “mundo”, nossa linguagem vai se tornando
“igrejeira” e quem é de fora entende muito pouco do que falamos.

Creio que para evitar que nosso pastorado seja adulterado, precisamos buscar a
“paz da cidade” ( Jr 29:7 ) e para tanto é mister nos envolvermos com ela. Se faz
necessário construir relacionamentos, estabelecer amizades e se identificar com
as pessoas da comunidade, sejam crentes ou não. Nossa espiritualidade pastoral
não pode ser desenvolvida apenas dentro da igreja; precisamos, por exemplo,
fazer parte da sociedade amigos de bairro, visitar a Câmara Municipal, o prefeito
da cidade, nos envolver em atividades promovidas pelas pessoas da vizinhança,
etc... Imagine se Jesus fosse o pastor de sua igreja! Por onde você acha que ele
andaria ? Quem ele visitaria ? Se formos bem honestos, teremos que duramente
admitir que ele andaria pela nossa cidade, visitando asilos, hospitais, lanchonetes,
prisões, os vizinhos que moram próximos á igreja, etc...Ele não resumiria seu
ministério apenas aos salvos.

Nas palavras de Eugene Peterson “quando o trabalho que executamos para Jesus
como pastores esmaece nossa consciência do mundo, afasta dele o foco de
nossa atenção, colocamo-nos em competição contra ele, ou, simplesmente leva-

209
nos a evita-lo, podemos dizer que nossa ordenação foi adulterada”.

A título de aplicação daquilo que foi dito aqui, penso que temos que responder a
três perguntas:

1) Quais são as atividades que você tem durante a semana em que você se
coloca na presença de Deus na perspectiva de ovelha, de filho e não de um
funcionário da igreja?

2) Quem são as pessoas que estão sendo afetadas pela sua vida? Pela
convivência espiritual com você?

3) Quais os lugares, ambientes que você freqüenta e pessoas com quem se


relaciona que facilitam sua ação como sal da terra e luz do mundo?

Parte XXXIV
REFLETINDO SOBRE LIDERANÇA CRISTÃ

Há um lugar especialíssimo para a liderança na visão do Novo Testamento. Assim


é que Efésios 4. 11-16 apresenta a plataforma de liderança da Igreja Apostólica, e
1Timóteo 3.1-13 oferece o padrão para os ministérios pastoral (ali denominado
"episcopado") e diaconal.

Parece ser o óbvio, mas a função do líder é liderar. Na Igreja de Cristo é a


liderança desse corpo, e detêm funções de liderança aqueles soberanamente
escolhidos para esse cometimento. Paulo usa a expressão "a graça que nos foi
dada" (Rm 12.6). Não é função de mando, mas de presidência a ser exercida
zelosamente, segundo a Versão da IBB (Rm 12.8). Nancy DUSILEK no seu
Liderança Cristã: a arte de crescer com as pessoas, cita o ex-reitor da
Universidade de Colúmbia, nos EUA, Dr. Nicholas Murray Butler que disse haver
três tipos de pessoas no mundo:
· as que não sabem o que está acontecendo,
· as que observam o que está acontecendo e
· as que fazem com que as coisas aconteçam.

São essas últimas que detêm o dom de liderança. Uma música popular dos anos
70 de forte mensagem diz que "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

FUNDAMENTO BÍBLICO DA LIDERANÇA CRISTÃ

Deus utiliza seres humanos como seu método. Assim aconteceu com Moisés, com
Josué e com os apóstolos. Um líder tem limitações, e Moisés reconhecia as suas
próprias (Ex 4.10), mas no seu aprendizado teve que aprender a delegar (Ex
18.27). Como parte do seu aprendizado, foi humilde bastante a ponto de atender
conselhos que lhe foram dados. Desse modo, treinou os líderes escolhidos dentre
critérios bem determinados: que fossem capazes, tementes a Deus, pessoas de
palavra e não avarentos (Ex 18.20,21). É um Josué, homem submisso ã vontade

210
de Deus (Js 6.2), hábil na distribuição de tarefas (vv. 6,7), e em dar ordens claras
(v.10). Quanto à liderança espiritual e à preparação de outros líderes da igreja
apostólica, há de ser lembrada a palavra de Paulo em 2Timóteo 2.2: "e o que de
mim ouviste diante de muitas testemunhas, transmite-o a homens fiéis, que sejam
idôneos para também ensinarem os outros".

TEOLOGIA DA LIDERANÇA

Recorde-se de que liderança cristã é "o trabalho de despertar e conduzir o ser


humano para Deus e para tudo o que dEle recebeu", conforme ensinou
MINERVINO. Se estamos falando de conduzir para Deus, falemos igualmente de
fé, pois sem essa virtude é impossível agradar a Deus (cf. Hb 11.6). O líder cristão
deve agir com fé, pois essa virtude determina o verdadeiro objetivo da liderança
cristã que é o ser servo (cf. Mt 20.28; Lc 22.27; Gl 5.13; 1Co 9.19; Fp 1.1).

Além disso, pela fé a unidade da igreja é mantida. Não é demais dizer que a Igreja
é variada e multiforme. Romanos 16 o lembra com extrema clareza: havia naquela
comunidade cristã: mulheres, homens, judeus e gentios, livres, libertos e escravos,
jovens e idosos, todos agindo, reagindo e interagindo para o bem comum e para o
bem da causa de Jesus Cristo.

Pela fé, o líder é estimula a desenvolver seu potencial (1Co 11.1), e pela fé, o líder
cristão exerce a perseverança.

É observar o que diz 2Coríntios 11.24-31. Pelo próprio conceito da palavra


(leader>líder), o líder é um condutor, e desse modo leva os seus liderados aos
cometimentos propostos, e utiliza para tanto os dons dos seus liderados e
associados. Mas o líder cristão reconhece que não o faz por mérito próprio: Deus
está com ele (Ex 3.10-12; 1Co 12.4). Porque o serviço é inerente à função, o líder
é servo. É um com o seu povo.

Mais: o líder tem poder. Duas palavras gregas são elucidativas do conceito de
poder: kratos e dynamis. Kratos é "poder, autoridade", especialmente no sentido
de "poder político, comando, autoridade de mando". Vocábulos como democracia,
tecnocracia, gerontocracia veiculam a idéia de "poder do povo", "poder da técnica"
e "autoridade dos idosos". Dynamis, por outro lado, traduz "força, potência",
permitindo que se chegue ao universo semântico de "força ou espiritual, atividade,
energia", e dando-nos vocábulos como dínamo, dinamite e dinamismo.

Do líder cristão é esperada a dynamis como fundamento e veículo da sua


autoridade espiritual e da sua atividade de condutor de vidas. Lamentavelmente,
observa-se uma profusão de kratos em numerosos líderes com sede de
manipulação, de detenção de poder decisório que só evidenciam que, na falta de
autêntica autoridade espiritual, de dinamismo ungido, passam a buscar o controle,
a preeminência, assumindo, mesmo, determinados títulos "religiosos" com o
propósito de "autenticar" o poder de mando e comando. Lucas 12.41-48 apresenta
uma palavra de Jesus Cristo a esse respeito.

211
QUALIDADES DO LÍDER

· No mínimo as seguintes qualidades podem ser destacadas. A primeira é ter


ideal, e, aliada a esta, ter visão: alma e olhar de condutor de vidas.

· A competência e o espírito de iniciativa, que é o "partir para a ação", são


igualmente basilares.
· Segue-se a tenacidade aliada à serenidade.
· Em seguida, segurança e confiança,
· que, ao lado da simpatia, autenticidade e comunicação, formam o perfil do líder
cristão. O líder há de ser equilibrado, e Atos 6.3 descreve o equilíbrio desejado:
boa reputação (cf. 1Tm 3.2), plenitude do Espírito Santo, plenitude de sabedoria e
de fé (cf. v.5).

Funções do Líder

Previsão e visão que envolvem, sem sombra de dúvida, análise dos


acontecimentos do passado, das circunstâncias do presente e das tendências do
futuro, imaginação e rapidez de raciocínio.

Planejamento que envolve algumas análises preliminares: estabelecimento de


objetivos, escolha dos meios para a realização do planejamento, controle da
situação e avaliação do realizado. Outra importante função da liderança é a
defesa. E dentro disso, vale ressaltar, a postura apologética diante das ameaças à
doutrina, às posturas e aos valores da instituição.

Parte XXXIV
REVITALIZANDO A IGREJA

Introdução:
Aonde chegaremos como igreja se continuarmos insistindo em ser apenas o
que temos sido e em praticar somente aquilo que temos praticado nestes últimos
anos?

Essa pergunta estabelece a relevância do presente trabalho, que se justifica


quando confrontamos o projeto da maioria de nossas igrejas com o potencial das
igrejas batistas; o compromisso dos membros no exercício de cargos e no
sustento da igreja com a indiferença reinante, expressa na média Brasil batista de
integração que é de 40% apenas; a necessidade de revitalização da igreja para a
sobrevivência no mundo globalizado com o tradicionalismo embotador imposto por
um seguimento de líderes denominacionais ideologicamente ultrapassados e
quando confrontamos a gradativa contextualização denominacional em seu
interminável repensar, com o arcaísmo saudosista e excludente praticado por
aqueles que insistem em não pensar a batistandade.

212
Tais confrontações se materializam na leitura do perfil traçado de muitas de
nossas igrejas, tomando-se por base o alto índice de exclusões, o número de
dizimistas fiéis, a média do número de membros e a incontável massa de líderes
neopentecostais oriundos de nossa denominação.
Se analisarmos muitas de nossas igrejas sem ufanismo e sem o amor platônico
que nos foi inculcado, temos que a admitir que a situação é caótica. Precisamos
estudar mais as nossas doutrinas, deveríamos corre o risco de rever os nossos
posicionamentos doutrinários, carecemos de uma reformulação da proposta de
educação teológica e prosseguir repensando a denominação, mas creio que
devemos urgentemente buscar a revitalização de nossas igrejas, para a retomada
dos ideais de Cristo para a igreja e a manifestação da glória de Deus em nossos
arraiais.

Este momento, em Eclesiologia, é a leitura hermenêutica do traçado histórico da


igreja e a constatação da situação real em que nos encontramos, o que realmente
permite que a igreja redirecione seu foco e retome os propósitos de Deus para o
seu ministério e para o cumprimento de sua missão evangelizadora.
Antes que a igreja se prostre em nostalgia e desemboque nos questionamentos
que provocam a rotura que tem como fim último o desaparecimento da igreja.
Antes que a perda da identidade e da relevância no mundo como igreja ocorram,
devemos avaliar as nossas convicções doutrinárias, os nossos objetivos e a nossa
estrutura organizacional. Devemos revitalizar.
Revitalizar é reafirmar tudo aquilo que é bíblico, é retomar os princípios bíblico-
teológicos desprezados e é reordenar a estrutura, o modelo e as estratégias para
que não sejamos vitimados por uma nulidade eclesial devastadora. A igreja que
busca a revitalização tem o privilégio e o compromisso de prosseguir sempre
vitoriosa.

I - Missão e Visão: ferramentas para a revitalização da igreja

Se é nosso desejo revitalizar a igreja para augurarmos relevância ministerial na


proclamação do evangelho, precisamos desenvolver uma genuína consciência de
missão que propicie uma visão objetiva do que somos e do mundo para o qual
pregamos.
Qualquer instituição, principalmente a igreja, se não sabe ao certo o que deve
fazer e se não tem noção clara das estratégias possíveis para fazer o que deve,
sucumbe a historicidade e torna-se dependente do tradicionalismo conservador de
nulidades e acalentador da nostalgia petrificante.
Se esperamos ser igreja viva para cumprirmos o nosso papel no reino de Deus,
devemos elaborar a nossa declaração de missão, que nos manterá atrelados a
Palavra de Deus, bem como a nossa declaração de visão, que direcionará os
nossos olhos sempre para o ideal de Cristo para a igreja.
Aqui, cabem duas perguntas; o que é a nossa missão e qual seria, a luz dessa
missão, a nossa visão? Vejamos, a partir de uma conceituação teológica, as
devidas respostas. A primeira resposta é sobre a missão.

213
* Missão é a definição objetiva e clara da nossa identidade como igreja local,
independente da Denominação, buscando compreender o nosso corpo de
doutrinas, o que cremos, e a nossa missão prática no mundo, o que devemos
fazer.

É essa consciência de missão, quando bem definida, que estabelece a nossa


identidade, quem somos, e que determina a qual denominação nos filiar. No nosso
caso, fica mais fácil por que somos batistas e não devemos prescindir dessa
identidade denominacional, mas carecemos de saber e de definir conceitualmente
o que é ser batista no terceiro milênio. O que a CBB busca fazer com a aprovação
do parecer do GT Repensando na última Assembléia convencional.

Agora vejamos a resposta sobre visão.

* Visão é, a partir da compreensão de nossa realidade efetiva, a imagem futura


que fazemos do lugar onde pretendemos chegar como igreja e a concepção
filosófica de como vivemos como igreja de Jesus no mundo.

Nossa visão do mundo e de nós mesmos como igreja é determinada e


condicionada pela nossa consciência de missão. Se não sabemos quem somos, o
que cremos e o que devemos fazer, não temos o que olhar ou, sequer, para onde
direcionar os nossos olhos.

Temos um verdadeiro desafio missionário no Brasil e no mundo. Não podemos


acreditar que está tudo muito bom, basta olharmos para o tempo de permanência
da igreja batista no País e confrontarmos com o número de membros que
somamos. Mais de 120 anos de igreja contra aproximadamente um milhão de
batistas, conforme as últimas estatísticas denominacionais. Um número
inexpressivo se comparado a densidade demográfica verificada no censo 2000 e
divulgada pelo IBGE.

Precisamos ou não de revitalização? Carecemos ou não de redescobrir a nossa


missão? Necessitamos ou não de restaurarmos a nossa visão? A resposta para
estas questões é um altissonante e retumbante sim! Não podemos negar a
necessidade de restaurarmos a nossa visão para que obtenhamos vitória de Deus
no cumprimento da nossa missão. Negar a necessidade de revitalização é como
usar antolhos históricos e eclesiológicos.

Nossa missão precípua é a evangelização, mas para levarmos a cabo esta


grandiosa tarefa carecemos de uma previsão dotada de discernimento e
alicerçada na compreensão do que deveríamos ter feito como igreja de Cristo
nestes mais de 120 anos de história. Isso é ter visão.
Na verdade, nos deparamos com a premente necessidade de definirmos as
nossas reais intenções ministeriais a fim de que adquiramos características
eclesiológicas e expressão cúltica puramente bíblicas, bem como uma identidade
denominacional definitivamente Batista, não tradicionalista.

214
II - Declaração de Missão e de Visão cabíveis para a revitalização da igreja

Acreditando serem positivas as respostas às questões colocadas, buscamos nos


arraiais batistas as respostas possíveis e as apresentamos no presente trabalho,
no afã de definirmos nossa declaração de missão, bem como a nossa declaração
de visão. Vale ressaltar a necessidade de adaptação à realidade da igreja local, no
caso de se considerar apropriada a presente propositora.
Tomando por base o livro de Darrell Robinson, que apresenta a nova análise
bíblica dos dons espirituais no contexto Batista, visto que desejamos estar
afinados com a batistandade, definimos a nossa declaração de missão e de visão.

Sobre a missão, podemos asseverar que:

* A missão da nossa igreja é evangelizar os pecadores, capacitando-os, após a


conversão, como santos de Deus, para a exaltação de Cristo.

Não há mistério nem inovações. A nossa missão só pode ser baseada em textos
como Mateus 28.19 e 20 e Marcos 16.15, que apresentam a Grande Comissão
delegada por Jesus e ainda, em textos como Lucas 24.44-48 e João 20.21, que
determinam a formatação missiológica designada pelo próprio Cristo para a sua
igreja.
Esta declaração de missão proporciona uma vida eclesiástica equilibrada e
contém tudo que é essencial para o fortalecimento doutrinário, para a maturidade
espiritual e para o crescimento numérico da igreja. Logo, essa missão promoverá
relevância histórica e ministerial para a igreja, incitando seus membros e sua
liderança à constante renovação do entendimento de si mesma, de suas doutrinas
e de suas estratégias ministeriais. A igreja deve se permitir a uma permanente
autocrítica e praticar uma continuada hermenêutica histórica, se deseja cumprir
sua missão.

Com relação a visão, ainda tomando por base Darrell Robinson, afirmamos que:

* Nossa visão é ser Corpo Vivo de Cristo, com todas as suas implicações, vivendo,
coletiva e individualmente, sob sua autoridade e seu senhorio, cumprindo a nossa
missão evangelizadora com autoridade espiritual e relevância sociocultural,
exercendo influência ético-cristã na sociedade.

Essa visão está de acordo com os princípios do Novo Testamento e vem do


Cabeça da igreja, Jesus. É isso que podemos deferir de textos como Mateus
16.18, que apresenta a igreja como poderosa e vitoriosa no embate contra o
inferno, e de 1 Pedro 2.1-5, que nos posiciona como casa espiritual e
ministradores do sacerdócio universal praticado em genuína espiritualidade, a fim
de que obtenhamos contundente autoridade testemunhal em Cristo.

Temos o mesmo Senhor e Cabeça, Jesus, Colossenses 1.18. É a cabeça que


impõe a visão. A imagem visual se projeta e se define a partir da construção da
imagem mental que se faz. O tamanho da igreja é diretamente proporcional a

215
visão que seus membros têm de Deus e ela cumpre sua missão na mesma
proporção em que crê no poder de Deus ainda atuante no mundo.

III - Antíteses indispensáveis para a revitalização bem-sucedida

É extremamente produtivo definir a declaração de missão e de visão, ou mesmo


redefini-las, se entendemos que se faz necessário, mas este labor impõe antíteses
entre o tradicionalismo da batistandade e a tradição bíblica que deve ser abraçada
pela igreja de Cristo denominada Batista.

Muitas vezes, lidar com estas antíteses não é nada agradável e exige uma firmeza
doutrinária hercúlea e uma identidade denominacional capaz de intercambiar
relacionamento sem se permitir ser influenciado. Diversos líderes postergam ao
máximo a decisão de iniciar a revitalização da igreja na tentativa de evitar os
desgastes decorrentes destas antíteses, muitas vezes lamentando, ao final, a
perda de seus membros para a igreja neopentecostal que se acampou nas
redondezas.

Em síntese, a questão reside na compreensão da diferença entre o que é ser uma


Igreja Tradicional ou uma Igreja Tradicionalista, visto que a maioria dos nossos
membros, e até mesmo boa parcela dos nossos líderes, não sabe a diferença
efetiva entre uma coisa e outra.

Tradição é ato de transmitir ou de entregar. É a transmissão de valores espirituais


através das gerações. Filosoficamente, tradição é a herança cultural transmitida
de uma geração para outra, visando preservar as crenças. É o único
reconhecimento e a única garantia da verdade. Em Teologia, tradição consiste em
sabedoria e discernimento quanto a validade das instruções e as noções religiosas
transmitidas de geração para geração.

Na Bíblia, vemos em 2 Tessalonicenses 2.15 e em 1 Coríntios 11.2 indicações


para se preservar a tradição, onde a palavra no original significa preceitos
doutrinários e está condicionada a doutrina dos apóstolos citada em Atos 2.42.

A doutrina dos apóstolos nada mais é do que os ensinamentos espirituais


transmitidos por Jesus, que são verdadeiros e que estabelecem os parâmetros e a
validade do cristianismo. Não há na Bíblia qualquer referência a tradição
denominacional, até porque denominação não existia no período da Igreja
Primitiva.

A primeira Denominação Cristã surgida foi o Catolicismo Romano, no século IV,


que monopolizou a igreja até o movimento de Reforma Protestante, no século
XVII.

Tradicionalismo é aferro ou apego, ou seja, amor exagerado aos usos antigos.


Filosoficamente, tradicionalismo é a defesa explícita da tradição no âmbito do
espírito romântico, classificando como tradição o que se entende ser verdadeiro e

216
não necessariamente a verdade.

Em Teologia rejeita-se o tradicionalismo devido a sua origem no iluminismo e o


seu ponto culminante, a Revolução Francesa, visto que tais movimentos foram
uma tentativa idealista de se devolver à Igreja Católica Romana a absoluta
autoridade sobre as questões religiosas.

No contexto bíblico, tradicionalismo é um mal devastador que afasta as pessoas


do ideal de Deus para escravizá-las com rudimentos humanos ou para enganá-las
com sutilezas diabólicas, Marcos 7.1-13 e Colossenses 2.8-15.
Jesus combateu a tradição dos anciões, escribas e fariseus, que impunham ao
povo 365 proibições e 250 mandamentos, acusando-os de subjugar o povo com
um fardo extremamente pesado que nem mesmo eles suportariam carregar,
Mateus 23.1-7.

No contexto da igreja que busca a revitalização e que está disposta a se permitir


as antíteses necessárias na avaliação de sua prática eclesiológica e cúltica, a
diferença fundamental entre tradição e tradicionalismo se identifica no quadro que
se segue
Este quadro reflete algo que já ouvi do próprio Pr. Ed Kivitz em assembléias
convencionais: "Tradicionalismo é a fé morta dos vivos. Tradição é a fé viva dos
mortos".

Depois de se permitir a estas antíteses, a pergunta talvez seja; o que vai mudar
realmente? A resposta não é simples e nem resumida na palavra tudo. Na
verdade, as mudanças reais acontecerão, primeiro, por que a igreja terá uma
identidade denominacional e doutrinária própria, não o perfil do pastor. Segundo;
na formação da liderança, que será mais efetiva e sempre direcionada pelo
serviço cristão, e não pela iconografia muitas vezes perniciosa. Terceiro,
doutrinariamente, nada. Os ajustes doutrinários possíveis são os promovidos pela
CBB, como no caso do Espírito Santo. A igreja apenas se adequará a estes
ajustes para permanecer fiel a Declaração Doutrinária da Convenção Batista
Brasileira.
Em quarto lugar, no que diz respeito a Eclesiologia, nada mudará também. A
Eclesiologia trata dos postulados filosóficos sobre o ser igreja, o que não se pode
prescindir como Batistas. As mudanças se efetivarão na expressão cúltica, na
forma do praticar o culto, que será ajustado ao Texto Sagrado, renunciando
tradicionalismo histórico e promovendo mudanças radicais de vida nos membros
da igreja. A igreja se tornará mais contextualizada e menos ritualista; mais informal
e menos eclesiástica, visto que bater palmas, utilizar bateria e guitarras, bem
como cantar hinetos ou fazer coreografias nas músicas, não são temas
contemplados no estudo da Eclesiologia Batista.
IV - Objetivos gerais para uma igreja de visão no cumprimento de sua
missão

217
Para que a igreja tenha a motivação correta, após a revitalização, deve-se
estabelecer os objetivos gerais que a impulsionarão e que indicarão o seu modo
peculiar de ser igreja viva na adoração, na educação cristã, na comunhão, nos
ministérios e na proclamação, fazendo o que todas as igrejas devem fazer, porém
do jeito e da maneira mais apropriada para a realidade sociocultural na qual
interage.
Tendo definido, como batistas, a Declaração de Missão e de Visão, pode-se então
estabelecer os objetivos gerais que nortearão a eclesiologia, a expressão cúltica,
as estratégias ministeriais e a identidade denominacional levados a efeito pela
igreja revitalizada.
Vale ressaltar que a motivação da igreja deve ser a consciência objetiva quanto a
missão e quanto a visão futura que se projeta do quanto se deseja alargar os
horizontes do reino de Deus a partir do ministério prático da igreja. Em outras
palavras, a motivação da igreja revitalizada deve derivar dos objetivos gerais
definidos a partir da consciência de missão e da visão alargada em seus
horizontes.

Podemos agora asseverar que os objetivos gerais de uma igreja revitalizada são
os seguintes:

4.1 Instrução bíblica promotora de maturidade cristã e autoridade testemunhal -


Deve-se desenvolver um programa de educação cristã com embasamento bíblico
sólido, ensinando aos membros da igreja as verdades de Deus em sua Palavra,
capacitando-os a vivenciar o quotidiano conforme o propósito de Deus, Josué 1.8;
João 5.39-47 e Tiago 1.21-24.

Somente instrução bíblica com esta perspectiva pode oferecer à igreja referências
claras de ensino bíblico profundo que se conciliem com uma unção incontestável
na vida comunitária do cristão.

4.2 Consciência ético-cristã para o exercício do sacerdócio universal e do


ministério eclesiástico - Deve-se levar os membros da igreja ao entendimento de
que todos somos sacerdotes para Deus, o que nos exige um padrão ético e moral
elevados, pois representamos o povo diante de Deus, e uma dedicação extremada
ao serviço cristão na igreja, 2 Coríntios 5.14 e 15, Gálatas 2.20, Tito 2.11-14 e 1
Pedro 2. 9-10.
À medida que os cristãos trabalharem nas igrejas conscientes dos compromissos
do sacerdócio e sabedores dos seus Dons espirituais para o ministério, não
trabalharão mais por suas próprias forças, mas o Espírito Santo trabalhará neles e
através deles.

4.3 Evangelismo responsável e baseado no testemunho pessoal - Praticar o


evangelismo responsável é, certamente, não depender de campanhas ou de
programas especiais, mas motivar a cada cristão a uma ação pró-ativa na
evangelização, seja em casa, no trabalho ou na rua, para que quando o visitante
chegar a igreja já tenha no seu coração o interesse pelo evangelho, despertado

218
pela amizade e pela convivência com o cristão, Mateus 3.8-9 e 28.19-20, Lucas
24.45-48, Atos 1.8, 2 Timóteo 4.1-2 e 1 Pedro 3.14-16.
A vivência prática da fé, com dedicação, com amor extremado pelos pecadores e
com entusiasmo contagiante, é fator determinante na evangelização. Uma igreja,
por mais ortodoxa que seja e por melhor que seja a sua doutrina, mesmo que
tenha um conhecimento bíblico apurado, dificilmente experimentará crescimento
real se não aprender a vivenciar e a transmitir a outros a sua fé de forma pessoal
e contagiante.

4.4 Adoração cristocêntrica que propicie verdadeiro louvor em culto vivo - Isto é o
que nos permite libertação da preocupação escravista com a liturgia ou com os
estilos, motivando-nos à participação efetiva e vívida na adoração, a partir da
convicção de que Deus se faz presente em nossas celebrações. É a igreja se
tornar sensível à ação do Espírito Santo que a guiará na exaltação a Cristo e na
ministração de um culto vivo, santo e agradável a Deus, Salmo 92.1-4; Isaías
38.17-20; Sofonias 3.17; Romanos 12.1; Apocalipse 5.11-12.
A verdadeira adoração nos conclama a declararmos a superioridade absoluta de
Deus, bem como a pequenez do adorador. Adoração é um mistério. É um
exercício do espírito humano no encontro pessoal com Deus, no qual cantamos,
glorificamos e magnificamos ao Senhor por sua santidade e por sua ação salvífica
em nosso favor. Adorar é abrir o coração ao amor de Deus e render a nossa
vontade aos propósitos dele.

4.5 Comunhão dinâmica vivenciada em amor, sinceridade e alegria produtiva - Isto


é a decretação do fim do preconceito e da segregação na igreja. É a compreensão
efetiva de que todos somos um. É a prática da empatia e da mutualidade na
consolação, na intercessão confidente e na ministração da bênção àquele que foi
vitimado pelas amputações existenciais ou pelas confrontações espirituais, Atos
2.44-47 e 4.32-35; Romanos 12.9-18, 13.8 e 15.1-7; 2 Coríntios 1.3-5;
Colossenses 3.12-17; Hebreus 10.19-25 e 1 João 4.18-21.

A igreja que vivencia este tipo de comunhão valoriza as pessoas e torna seu
ministério muito mais efetivo, visto que são satisfeitas as necessidades do ser
integral. A prática do verdadeiro amor dá à igreja um brilho divino e uma alegria
que se intensificam nos relacionamentos interpessoais de seus membros.
4.6 Fidelidade voluntária e incondicional na consagração de vidas e no sustento
financeiro da obra - Isto é o entendimento pessoal de cada membro no fato de que
é Deus quem nos sustenta e de que a contribuição financeira é apenas um reflexo
da dedicação amorável de nossas vidas ao Senhor. É saber que conversão e
senhorio estão amalgamados e que a insistência em não dizimar e ofertar é
confissão objetiva de incredulidade, 1 Crônicas 29.10-17; Ageu 2.8-9; Malaquias
3.7-12; Atos 2.45 e 4.34-35 e 2 Coríntios 9.6-14.

Não se pode permitir a crença em uma dispensação automática ou mecânica de


bênçãos para os contribuintes. Não se pode comprar o Dom de Deus, Atos 8.20. A
oferta deve ser feita com fé e pela fé, como devoção amorosa ao Senhor e à sua
obra, bem como ao seu povo. Esta é a oferta que propicia bênçãos incontáveis

219
para o cristão. Em vez de encararmos a contribuição como uma obrigação
desagradável e penosa, devemos compreender que a dedicação de vidas
expressa na fidelidade nos dízimos e ofertas é um fértil meio de graça na igreja,
pois por intermédio dela o Espírito Santo ministra graça e prosperidade à igreja.

4.7 Crescimento integrado da igreja a partir do equilíbrio entre quantidade e


qualidade - Isto é o mesmo que dizer que não se deve estar preocupado com o
número de membros no rol, com o patrimônio ou com a conta bancária. A
preocupação certa é com a qualidade da vida espiritual dos membros da igreja. Se
para ter dez mil membros, uma catedral, um edifício anexo moderno e funcional,
um palacete pastoral, uma frota de veículos e uma equipe ministerial bem
remunerada tivermos que prescindir da ética cristã e do embasamento bíblico
continuaremos pequenos e pobres, porém, fiéis ao Senhor Deus, Levítico 19.1-5;
Salmo 15; Mateus 10.7-10; Atos 2.46-47 e 9.31; Tito 2.11-15; 1 Pedro 2.9e
Apocalipse 2.19-21.

A maior contribuição que a igreja tem para oferecer ao mundo é o evangelho de


Cristo e seu poder libertador, por isso, jamais haverá crescimento verdadeiro na
igreja se nos aprisionarmos ao poderio concedido pelo número de membros no rol
ou pelo saldo financeiro e patrimonial, não dando atenção às questões mais
profundas que afetam a humanidade em decorrência do aviltante paradoxo entre o
ser e o ter, e entre o saber e o fazer.

4.8 Identidade doutrinária e denominacional definidas a partir do Texto Sagrado e


não pelo conservadorismo histórico ou tradicionalismo - Isto é o mesmo que dizer
que a igreja deve querer ser batistas, mas que não aceita um doutrinismo
antibíblico. Deve-se querer ser batista, mas principalmente deve querer a
liberdade para praticar os ensinamentos da Palavra de Deus, sem receios da
crítica mordaz da batistandade. A Declaração Doutrinária dos Batistas preceitua
que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, mas deve-se desejar também
que a Palavra de Deus seja a única regra de conduta, mesmo que para isso se
tenha que renunciar a história, que se reconhecer erros doutrinários
historicamente defendidos ou que se quebrar alguns paradigmas
denominacionais, Marcos 7.5-9, Atos 2.41-42, Colossenses 2.8-10 e 2
Tessalonicenses 2.15.

Sempre que o tradicionalismo denominacional se sobrepõe a doutrina bíblica ou


que o tradicionalismo histórico se torna ineficiente diante dos propósitos de Deus,
é necessário substituí-los ou desmascará-los a luz da Palavra de Deus, o que nos
exige uma reflexão crítica sobre o denominacionalismo a luz da Bíblia Sagrada.

4.9 Constante autocrítica e permanente avaliação do contexto histórico, da


expressão cúltica e da estrutura organizacional - Neste objetivo reside a
probabilidade de vitória. Quando se estabelece a autocrítica e a constante
hermenêutica da própria realidade, do que se faz e de como se fazem as coisas, a
luz da Palavra de Deus, evita-se a petrificação das estruturas, o arcaísmo dos
estratagemas, o embotamento das idéias e o esvanecer dos ideais. Evita-se a

220
tradicionalização suicida da igreja, bem como a mortificação da consciência cristã
no fazer igreja.

A constante autocrítica e a avaliação permanente exigirá uma continuada


revitalização, outorgando cognição no pensar a igreja, bem como saúde e
maturidade espirituais na prática efetiva do fazer igreja, Mateus 26.20-23;
Romanos 12.3 e 1 Coríntios 11.28-32.

A prática constante da autocrítica e da interpretação investigativa dos


comportamentos da igreja revitalizada permite o desmascarar as vacas sagradas,
como denomina George Barna. Tudo o que somos e fazemos como igreja deve
estar aberto à análise e à crítica. Não há pessoa, programa, estrutura ou idéia que
esteja fora do alcance de uma avaliação justa e alinhada com o propósito de Deus
para a igreja. A insistência de uma igreja em não se submeter à autocrítica e à
hermenêutica imparcial, negando-se a um processo de avaliação justo e
construtivo, é prova inconteste de sua vulnerabilidade à deterioração e à
petrificação motivadas pela maldição da negligência preceituada em Jeremias
48.10.

Conforme ressaltamos anteriormente, identificamos nestes nove objetivos gerais


os cinco propósitos eternos de Deus para a igreja, que são: louvor, evangelismo,
discipulado, ministério e comunhão. Estes propósitos sintetizam o Grande
Mandamento e a Grande Comissão de Jesus para a igreja, conforme Mateus
22.37-40 e Mateus 28.19 e 20, que foram praticados de forma efetiva e vitoriosa
pela Igreja Primitiva, Atos 2.37-47. São estes os mesmos propósitos que devem
ser perseguidos e praticados pela igreja que busca revitalização,
independentemente da tradição denominacional, se pretendemos relevância
testemunhal e autoridade espiritual no cumprimento da nossa missão.

Pode-se inovar no fazer igreja sem se alterar a essência do ser Igreja, se há


comprometimento com o Grande Mandamento e com a Grande Comissão, o que
fará da igreja revitalizada uma grande igreja.

Conclusão

Finalizando esta proposta de trabalho com vistas a revitalização da igreja, deixo


como sugestão a realização de estudos amplos e de debates francos, porém
respeitosos, para que se defina o seguinte:

a) O tipo de igreja que se pretende ser.


b) A expressão cúltica que será praticada.
c) O referencial de ética que a igreja perseguirá.
d) O tipo de mensagem que se proclamará.
e) O nível de compromisso exigido dos membros da igreja.
f) O padrão de relacionamento interpessoal e de comunhão que se desenvolverá.
g) O método de evangelização que será usado.
h) Qual a periodicidade da avaliação.

221
Sem tais definições, penso, é impossível levar adiante a revitalização da igreja que
carece de resgatar sua identidade doutrinária e denominacional, voltando a sentir-
se uma Igreja Viva que proclama a salvação e a libertação em Cristo em meio a
esta geração corrompida e perversa, Atos 2.40.

Na verdade, o presente trabalho visa embasar a assertiva de é que possível


promover a revitalização da igreja de maneira bíblica, seguindo os preceitos de
Jesus e desenvolvendo uma perspectiva correta de renovação espiritual e
eclesiológica, bem como um método prático para se introduzir as mudanças
necessárias para a contextualização da igreja.

O relato bíblico nos incentiva a perceber a dialética inevitável e continuada entre a


identidade eclesial e o chamamento para a missão, isto é, entre o ser e o fazer
igreja. Por isso, nenhuma igreja que afirme compromisso de missão conforme os
postulados bíblicos e o mandamento de Jesus pode esquecer que o cumprimento
da missão acontece em meio a difícil dialética entre o conservar a identidade
doutrinária e o renunciar a tradição histórica.

Uma igreja verdadeiramente viva e motivada pela missão não tem receios de
ultrapassar barreiras, de quebrar paradigmas, de romper as fronteiras e de alargar
seus horizontes. Não se pode ter medo de se praticar culto vivo, santo e agradável
a Deus. Não se pode ter fobia de evangelismo responsável, de discipulado
biblicamente instrutivo, de sacerdócio universal e de comunhão dinâmica em
amor. Pois estas são as características distintivas da igreja de Jesus Cristo no
Texto Sagrado.

Finalmente, desejo ressaltar que a igreja, como Corpo Vivo de Cristo, não é mera
sociedade de pessoas humanas. Se considerarmos apenas a tradição histórica e
os pressupostos denominacionais para sermos e fazermos igreja, jamais
compreenderemos o que realmente significa ser o povo de Deus que em Cristo é
chamado para as boas obras. As denominações são expressões sociológicas. A
diferença básica entre o ser e o fazer igreja e uma denominação reside na
comunhão com Cristo, que somente a igreja pode desenvolver. Não existe
Eclesiologia, o fazer igreja, dissociada da Cristologia, do ser igreja.

Pense em tudo isso e ore pedindo a Deus discernimento espiritual e


direcionamento para a decisão que você precisa tomar juntamente com a sua
igreja para a revitalização. Abrace este projeto, se considera-lo procedente e
biblicamente correto, leve a sua igreja entender o que é e a desejar a
revitalização. Trabalhe para que você, juntamente com sua igreja, seja despertado
por Deus para os nove objetivos aqui propostos. Não critique ou refute sem
estudar e orar. Permita-se a Deus e ao Espírito Santo para que estes objetivos
sejam realidades efetivas em sua vida, em sua igreja e em nossa denominação.
Sejamos Igreja, Corpo Vivo de Cristo. Amém.

Parte XXXV

222
UM PROJETO DE REVITALIZAÇÃO PARA A IGREJA LOCAL
O presente trabalho é uma tentativa de se apresentar, de modo prático (assim
esperamos), alguns princípios fundamentais de revitalização da igreja local,
visando seu crescimento numérico. Como ficará evidente, a nossa intenção não é
lidar com modelos de igrejas propriamente dito, porque acreditamos que cada
caso é um caso, mas nos basearemos em princípios gerais e em nossa
experiência pastoral.

1. A REVITALIZAÇÃO DA LIDERANÇA

Não são poucas as igrejas que conhecemos que nos obrigam a fazer uma
inevitável pergunta: "Onde está a liderança?". Um líder não é capaz somente pela
sua boa reputação dentro e fora da igreja, o que é deveras significativo. Mas
também é preciso que ele capacite e equipe novos líderes, que por sua vez
capacitem e formem outros líderes.

A pessoa do pastor é fundamental para a formação de uma liderança capaz e


capacitadora. Existe boa literatura sobre administração eclesiástica que ajudarão o
pastor neste empreendimento. Uma das funções do pastor é equipar os santos.
Investir na formação de uma boa liderança é garantir o sucesso da igreja local.
Para isso, a liderança deve ser constantemente revitalizada, receber novas
orientações, a fim de contribuir na formação de novos líderes.

O pastor precisa delegar e distribuir tarefas. Um pastor centralizador compromete


seu ministério e o futuro de sua própria igreja. Um pastor que pretende levar a
carga sozinho não conseguirá ir muito longe. O que não falta nas igrejas são
pessoas que querem trabalhar, mas não sabem como fazer. Pastor, ensine sua
igreja a fazer. Confie no potencial de seu rebanho. Os resultados serão
simplesmente surpreendentes!

Os líderes de igrejas que crescem concentram seus esforços em capacitar outras


pessoas para ministérios específicos. Líderes capacitadores formam
colaboradores, e não meros "ajudantes" ou "marionetes" com o intuito de alcançar
seus próprios interesses. Pelo contrário, a pirâmide de autoridade é invertida: os
líderes ajudam cada cristão de sua igreja a chegar à medida de plenitude
intencionada por Deus para cada um. Eles capacitam, apóiam, motivam e
acompanham a todos individualmente para se tornarem aquilo que Deus tem em
mente; a saber, a varonilidade do Corpo de Cristo. "Líderes que se vêem como
instrumentos para capacitar outros cristãos e levá-los à maturidade espiritual,
descobrem como esse aspecto leva ‘por si mesmo’ ao crescimento" (C. A.
Schwarz, O crescimento natural da igreja, p. 23). Em vez de fazer a maior parte do
trabalho, esses líderes investem a maior parte do tempo na formação de novos
líderes através do discipulado e do compartilhamento de tarefas. Assim, a energia
investida por eles pode multiplicar-se quase infinitamente.

Sendo assim, como revitalizar uma igreja cuja liderança está cansada e os
liderados insatisfeitos? Em nossa pouca experiência temos aprendido que o

223
segredo do sucesso está no investimento. Invista-se na liderança e na formação
de novos líderes e a igreja como um todo reagirá positivamente.

Quando fui pastor em uma das igrejas da Grande São Paulo, pude perceber um
pouco da força do que acabamos de dizer. Pegamos uma junta diaconal debilitada
e sem muito compromisso. Aos poucos (ir devagar é fundamental quando se
chega em uma nova igreja) fomos renovando a junta diaconal, trocando os
"irrecuperáveis" por novos. Investimos na nova liderança, viajamos com eles para
um encontro de diáconos no Rio de Janeiro, recebemos orientações específicas
de líderes de juntas diaconais que estavam dando certo e em pouco tempo a junta
diaconal de nossa igreja se tornou uma das mais atuantes da Grande São Paulo.
Os diáconos reconquistaram a credibilidade da igreja, e a mesma se colocou à
disposição para ajudá-los no que fosse preciso. O que seria daquela igreja se
todos os setores fossem revitalizados? Infelizmente não foi possível continuar ali
para ver os resultados.

Minha proposta é: 1) Quando uma liderança está "viciada" é preciso ser trocada.
Geralmente não vale a pena tentar recuperá-la. É perda de tempo. Tem que ser
trocada. Aos poucos, mas precisa ser trocada. Revitalização nem sempre significa
tentar recuperar o que não tem jeito. Mudança também é revitalização. Existe
muita gente boa no ministério errado. 2) Tem muita gente nova na igreja que daria
um bom líder. Meu ex-professor, Dr. Elias Dantas, disse acertadamente que "o
maior fenômeno de revitalização na igreja é o crente novo". E ele sabia o que
estava dizendo porque levava isso a sério nas igrejas que pastoreava.

Mas como preparar uma liderança capaz e capacitadora, verdadeiramente


revitalizada, sem que haja frustrações no futuro?

1º) Os ministérios devem ser orientados pelos dons

Acredito que muitos dos problemas de uma igreja, quer sejam de ordem espiritual,
quer sejam de ordem administrativa, seriam resolvidos com mais facilidade, ou até
mesmo não existiriam, se todos os membros da igreja descobrissem e usassem
seus dons ministeriais. Orlando Costas (Compromiso y misión, p. 62) acertou
quando disse que "o crescimento da igreja depende de uma eficaz mobilização de
seus membros". E esta "mobilização", a meu ver, só é possível quando os
membros de uma igreja estão no lugar certo.

Schwarz faz uma declaração alarmante: "De uma pesquisa que fizemos com 1600
cristãos ativos em suas igrejas, no ambiente de fala alemã, na Europa,
descobrimos que 80% deles não sabem os seus dons espirituais". Será que o
resultado da pesquisa seria diferente se fosse feita com 1600 cristãos ativos nas
igrejas do Brasil? Acredito que não e digo por quê. Ministrei sobre o tema na
região sul do País durante quase um ano, e pude constatar que o resultado da
pesquisa não foi diferente.

Além de outros fatores indispensáveis para o crescimento da igreja, como

224
veremos adiante, é fundamental que os ministérios sejam orientados pelos dons.
Novos líderes devem ser formados a partir de seus dons.

Existem bons livros que poderão ajudar na formação de ministérios orientados


pelos dons. Em português há pelo menos dois que recomendo: Quem é você no
Corpo de Cristo?/ Lida E. Knight. Campinas: Luz Para o Caminho, 1994 e O teste
dos dons/Christian A. Schwarz. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1997.

2º) Formar discípulos para serem discipuladores

O discipulado que gira em torno de si mesmo está fadado ao fracasso. A


preparação de um discípulo que não tem como objetivo a formação de outros não
é bíblica. Um discípulo deve ser preparado para discipular e formar novos
discípulos, que por sua vez discipularão e formarão outros e assim
sucessivamente. Isto sim é bíblico, pois foi a tônica do ministério terreno de Jesus.
Para isso preparou seus discípulos.

A ênfase da Grande Comissão foi: "fazei discípulos".

Infelizmente, o que temos visto na prática, em termos de discipulado, é a


preparação que visa o crescimento espiritual do discípulo e nada mais que isso.
Toda ovelha deve ser preparada para produzir outras ovelhas. Os discipuladores
não devem perder isso de vista se realmente desejam formar líderes capazes.

E quem, por assim dizer, daria o ponta pé inicial do discipulado? Como pastor,
entendo que os próprios pastores deveriam iniciar o processo de discipulado, por
uma simples razão: Uma das principais atribuições do pastor é instruir, orientar e
superintender as atividades da igreja, a fim de tornar eficiente a vida espiritual do
povo de Deus.

<B< ECLESIAIS ESTRUTURAS DAS REVITALIZAÇÃO A>

O que muito tem contribuído para o não crescimento, e até decréscimo na


membresia de algumas igrejas, são aquelas estruturas enrijecidas pelo
tradicionalismo e, portanto, não funcionais. Duas coisas, pelo menos, são
necessárias para que as estruturas de uma igreja se tornem funcionais.

1º) A quebra de paradigmas

Paradigma é uma palavra de origem grega que significa "modelo" ou "padrão". Os


paradigmas podem ser definidos como "verdades" que se fixaram na mente,
indicando um jeito de ser, viver ou fazer as coisas. Para um estudo interessante
deste tema sugiro a leitura do livro Quebrando Paradigmas/Ed René Kivitz. São
Paulo: Abba Press, 1995.

Às vezes é preciso coragem para quebrar paradigmas que não funcionam mais e
que, portanto, já não têm nenhum valor prático.

225
À primeira vista parece fácil mudar aquilo que se tornou obsoleto. Mas nem
sempre é tão simples assim. Primeiro é preciso mudar a mentalidade dos
acomodados e principalmente dos saudosistas, daqueles que confundem
inovação com inovacionismo; a boa tradição com tradicionalismo.

O segredo do sucesso está num trabalho de conscientização sério e paciente. Por


uma questão de prudência e respeito com aqueles que não pensam como nós, é
preciso que os paradigmas sejam quebrados aos poucos. As idéias e conceitos
devem ser amadurecidos no meio da comunidade, sem atropelos, mas
progressivamente. Uma coisa aprendi em meu ministério pastoral: Se a igreja não
"comprar" a nossa idéia, não será por meio de decreto conciliar que
conseguiremos qualquer êxito. Um diálogo franco, aberto e amigável é a chave do
sucesso.

2º) Testes de qualidade

As estruturas da igreja devem ser constantemente testadas por sua liderança, a


fim de serem revitalizadas e, desse modo, servirem melhor o organismo. Tudo que
não contribui para esse objetivo deve ser mudado ou eliminado.

Algumas coisas podem ser citadas como exemplos do que não devem passar pelo
teste de qualidade de uma igreja local: liderança inibidora, horário e duração do
culto inadequados, conceitos desmotivadores de administração das finanças, etc.

Por meio de um processo constante de avaliação e renovação, o surgimento de


estruturas enrijecidas é evitado em grande parte.

3. A REVITALIZAÇÃO DO COMPROMISSO MISSIONÁRIO

Com o passar do tempo os membros de uma igreja local tendem a esquecer-se de


seus compromissos missionários. Para se evitar isso é preciso lembrá-los
constantemente da importância da igreja local para com a obra missionária no
mundo. Neste caso específico, o livro Igreja local e missões, de Edison Queiroz,
pode ser muito bem aproveitado.

1º) Um exemplo que deu certo

Aprendi com um colega de ministério a separar um domingo por mês para falar de
forma mais específica sobre a importância da igreja local em missões. O Domingo
Missionário, como era chamado, era dedicado às missões. Pregávamos sobre
missões, a igreja orava por missões e contribuía financeiramente com a obra
missionária. Mas isso não aconteceu de um dia para o outro. Foi preciso um
trabalho de base, de muita conscientização e investimento que valeram a pena.

Entendíamos que separar um domingo por mês para missões era o mínimo que
estávamos fazendo. O ideal seria todos os domingos. Mesmo assim foi

226
gratificante. Segundo testemunho de irmãos antigos (que a principio foram
relutantes), aquele foi um dos períodos mais abençoados na vida daquela igreja. E
não poderia ser diferente. Quando uma igreja se envolve com missões, todas as
demais áreas são abençoadas por Deus, inclusive a financeira. Prove!

2º) Uma questão de obediência e prioridade

A experiência nos ensinou que evangelizar não é uma opção de vida de uma
igreja local, mas a própria vida de uma igreja local. O que está "matando" muito
crente novo (que desperdício!) é a igreja não-funcional, que se limita a suas
atividades internas, fechada em quatro paredes. A igreja local precisa resgatar sua
visão missionária, excelência maior de seu chamado, como bem declarou o
apóstolo Pedro: "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo
de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que
vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (I Pe 2.9).
Vejamos alguns exemplos de como a igreja poderá revitalizar sua visão
missionária.

3º) Revitalizando a missão integral da igreja local

Como revitalizar uma igreja que começou com tanta empolgação para fazer
missões e de repente esfriou? Em primeiro lugar, é preciso reconscientizar a igreja
de sua missão no mundo. Em segundo lugar, é preciso conscientizá-la de que ela
está no mundo para servir o mundo integralmente.
Se a igreja chegou a se empolgar com missão algum dia, é sinal que ela tem
potencial para fazer, com a graça de Deus, o que fez antes. Sermões e estudos
bíblicos missionários, filmes específicos como por exemplo As Primícias, Etal e
Atrás do Sol, além do auxílio de associações evangélicas e agências missionárias,
certamente produzirão novo alento.

A igreja deve ser redirecionada. Geralmente a frieza por missões acontece por
causa da rotina. Uma vez que o mal foi detectado é necessário que seja
combatido com atividades variadas.

Além disso, é importante que a igreja saiba que sua missão no mundo é integral.
Isto é, evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns pensam,
mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por outro lado,
a igreja nunca deve deixar se levar pela prática do paternalismo e assistencialismo
paliativos, mas sempre partir para uma ação social transformadora, do indivíduo e
da sociedade, para a honra e glória de Deus Pai. O ponto de partida será o
parâmetro bíblico e o contexto da igreja local.

Conclusão:
Mais coisas poderiam ser ditas como parte integrante de um projeto de
revitalização para a igreja local, como por exemplo, a espiritualidade contagiante
da igreja local com relacionamentos marcados pelo amor fraternal, um culto
inspirador, a formação de grupos familiares ou células, etc. Entretanto,

227
entendemos que a formação de uma liderança capacitadora, as estruturas da
igreja sendo funcionais e o compromisso missionário revitalizado, naturalmente
resultarão em novas realizações.

Parte XXXVI
UMA IGREJA RENOVADA
TEXTO: ROMANOS 12: 1-2

PROPÓSITO:

Uma das maiores necessidades do mundo, das pessoas e também da igreja é a


de se adaptar ao curso da história. Esta adaptação só se viabiliza mediante a
disposição do mundo, das pessoas e da igreja em se transformarem.
Transformação é o segredo de um organismo vivo.
- Ilust. Leon Tolstói: "Todos pensam em mudar a humanidade e ninguém pensa
em mudar-se a si mesmo".

01. TRANSFORMAÇÃO ATRAVÉS DA COMUNICAÇÃO

A igreja não sobrevive sem uma comunicação interna. O grande fator de dispersão
que a enfraquece é a falta de uma boa comunicação entre seus membros.

1.1 - A comunicação se processa através de três elementos básicos:


a - Kerigma - mensagem
b - Koinonia - comunhão
c - Diakonia - serviço

1.2 - Encurtando as distâncias - João 13: 12-17

A mensagem Kerigma - não funciona isoladamente. Para que ela produza


resultados positivos é necessário que o membro exercite a Koinonia e a Diakonia.

02. TRANSFORMANDO A NOSSA RELAÇÃO

Este processo ocorre através da prática de quatro princípios bíblicos:

2.1 - Princípio da integralização - 1 Coríntios 12: 15-16

- cada membro tem a sua função. Um membro não deve aspirar o lugar do outro.
Quando isto ocorre todo o corpo é prejudicado.
- A quebra deste princípio provoca:
a - desvalorização do membro
b - contestação da vontade de Deus
c - afastamento dos outros membros
d - desperdício de forças

2.2 - Princípio da oportunidade - 1 Coríntios 12:17-18

228
- este princípio visa dar a todos a mesma chance de trabalho. Um membro não
pode inibir a ação do outro.

- A falta de oportunidade produz:

a - desequilíbrio em todo os sistema


b - um espírito de concorrência
c - uma anemia espiritual

2.3 - Princípio da dependência - 1 Coríntios 12: 21-22

- todos os membros devem participar das atividades que os demais realizam. A


independência enfraquece o corpo.

- Quando este princípio é quebrado, ocorre:


a - enfraquecimento de todos os demais membros
b - o egoísmo passa a predominar nas relações
c - a arrogância quebra a linha de comunicação

2.4 - Princípio da unidade - 1 Coríntios 12: 25-26

- a unidade é a fonte geradora de toda a energia, mobilidade e harmonia do corpo.


Sem ela, a igreja perde a sua função. João 17:23

3.0 - TODA TRANSFORMAÇÃO EXIGE DISCIPLINA PESSOAL -


1 Coríntios 9:25

- A igreja precisa ser a autora e não a espectadora no processo de mudanças. Ela


foi criada para ser o instrumento de Deus na transformação da sociedade. Para
isto o exercício da disciplina é imprescindível.

- Disciplina na prática de ouvir e falar - João 8:47


- Disciplina na prática do perdão - Marcos 11:25
- Disciplina na prática da fé - 2 Coríntios 13:5
- Disciplina na prática da liberdade - Gálatas 5:13
- Disciplina na prática das ações - Colossenses 3:17
- Disciplina na prática do tempo - Efésios 5:15-16
- Disciplina na prática da santidade - 1 Timóteo 5:22
- Disciplina na prática do amor - João 13: 35

Parte XXXVII
UNIDADE NA VARIEDADE
Romanos 16.3-16
No último capítulo da Carta aos Romanos, Paulo faz recomendações, saudações
e votos. São saudações individuais a vinte e seis pessoas e a cinco famílias,
grupos de pessoas ou "igrejas no lar". Das pessoas mencionadas, pelo menos oito

229
são mulheres. Treze dos nomes aparecem em inscrições ou documentos que tem
a ver com a nobreza e com o palácio do imperador naquela cidade (cf. Fp 4.22).
No entanto, são, na maioria, escravos.

É uma esclarecedora lista de como a fé evangélica se havia espalhado entre todas


as classes sociais. Há uma mistura de judeus e gentios; nobres, libertos e
escravos; homens e mulheres; idosos e jovens. Mostra como aquela comunhão de
fé na cidade de Roma era formada de gente de várias nacionalidades,
procedências e estratos sociais. Registra, ainda, como o muro de separação entre
judeus e não-judeus fora derrubado, exatamente nos termos de Efésios 2.14,16
(cf. Gl 3.28).

A COLORIDA VARIEDADE

Como já enfatizado, há nesta passagem uma visão da intensa vida da Igreja-dos-


Primeiros-Dias. A relação de nomes é de altíssimo significado, e examinando-os
com alguma análise, vemos que os tipos são tão diferentes que só um milagre
chamado evangelho pode explicar a interação naquela comunidade de fé.

Há judeus e há gentios, já o dissemos, ou seja, gente que vem de um profundo


contexto espiritual, e gente que vem do paganismo. Há ricos e há pobres. Há
homens e há mulheres.

Os judeus. Era o caso de Priscila e Áquila (v.3), de Maria (v.6), de Andrônico e


Júnias (v.7), de Apeles (v.10), de Herodião (v.11).

Há romanos: Ampliato (v.8) e Urbano (v.9), e, pelo menos, um grego, Epêneto.


Escravos: Ampliato, Urbano, Estáquis, Flegonte, Pérside e Hermas.

O significado dos nomes é igualmente muito interessante:


· Áquila = águia
· Asíncrito = incomparável
· Epêneto = louvado
· Estáquis = espiga
· Filólogo = falador, erudito
· Flegonte = ardoroso
· Hermes = intérprete (daí a palavra hermenêutica, a arte da eloqüência)
· Júlia = juvenil
· Maria = bela (alguns traduzem como "teimosa, obstinada")
· Nereu = molhado
· Olimpas = descido dos céus
· Pátrobas = vida do pai
· Priscila = venerável
· Trifena = delicada
· Trifosa = mimosa, graciosa
· Urbano = criado na cidade.

230
As saudações não são longas, mas são muito expressivas, cheias de gratidão e
plenas de amor:

Em relação a Prisca e Áquila (vv. 3,4): "meus cooperadores em Cristo" e "pela


minha vida expuseram as suas cabeças" . Para Epêneto (v.5b): "meu amado" e
"primícias da Ásia para Cristo". Maria (v.6) foi a que "muito trabalhou por vós". No
verso 7, Andrônico e Júnias são "meus parentes", "meus companheiros de prisão"
e "bem conceituados entre os apóstolos".

No verso 8, Ampliato é "meu amado no Senhor"; no 9, Urbano é "nosso


cooperador em Cristo"e Estáquis é chamado de "meu amado". Apeles (v. 10) é
denominado "aprovado em Cristo"; no verso 12, as irmãs Trifena e Trifosa são as
que "trabalham no Senhor", e Pérside, veterana senhora, é amada" e "muito
trabalhou no Senhor". E passando ao verso 13, Rufo é o "eleito no Senhor".

MEMÓRIAS

Há algumas histórias por trás das lembranças de Paulo. A história de Prisca e


Áquila. Eu escrevi Prisca? Prisca ou Priscila? Dá no mesmo, porque Priscila é o
diminutivo de Prisca (cf. At 18.2, 18,26), como Lucia faz Lucila, Drusa, Drusila e
Lívia, Livila. Era um casal devotadíssimo ao apóstolo Paulo, a ponto de sofrerem
perigo de vida (cf. 1Co 15.32; At 19.23) Tinham a mesma profissão de Paulo, que,
por um tempo, morou com eles. Quando Paulo deixou Corinto indo para Éfeso, o
casal o acompanhou (At 18.18). É possível, até, que Priscila pertencesse a uma
família da nobreza romana, e Áqüila fosse um judeuda Ásia menor setentrional.
Um estudioso do Novo Testamento diz que não há no Novo Testamento um casal
mais fascinante que este.

Outra história interessante é a de Rufo. No verso 13, Paulo chamou à senhora,


mãe de Rufo, de sua mãe, de acordo com o costume oriental de assim chamar
uma senhora mais idosa. Há quem admita ser Rufo filho de Simão, o cireneu que
carregou a cruz de Jesus compartilhando com Ele a dor, o maltratto, a humilhação
daquela manhã em Jerusalém (cf. Mc 15.21). Se assim ocorreu, que gente
extraordinária são os pais de Rufo: o pai carregou a cruz de Jesus Cristo, e a mãe
"adotou" Paulo, o grande apóstolo aos gentios.

As duas idosas irmãs em Cristo têm histórias não contadas no texto. Pérside
("natural da Pérsia") e Maria são pessoas que não se entregam. Eram avançadas
na idade, e incansáveis no trabalho. Aliás, Paulo usa uma palavrinha que diz isso:
kopian, que significa "trabalhar até o cansaço"

A UNIDADE

Não é fácil viver em unidade, em concórdia. Dietrich Bonhoffer usa as expressões


"dom de uma vida comum" e "dom da adoração em comum aos domingos",
aplicando-as à bênção de Deus que se chama Igreja. Diz ele que o estilo de vida
que acontece na igreja é um privilégio. Mas a verdade é que é muito difícil viver

231
em comunidade. E se não há o alicerce de Jesus Cristo, essa experiência que
deveria ser abençoada, abençoadora, enriquecedora, torna-se amarga e, em
certos casos, traumatizante. Muitos problemas afloram porque nossos irmãos em
Cristo (em quem corre o mesmo de Jesus nas veias) são tratados apenas como
outras pessoas, gente que enche os bancos da igreja, mas não como irmãos no
Nome de Jesus Cristo, nosso Salvador.

Pois é; o relacionamento humano é uma teia delicadíssima, tenuíssima e fragílima


que pode se romper com coisas mínimas e minúsculas, mas que se fortalece
quando está fundamentada no respeito, na confiança, na honestidade, na
tolerância, no querer o bem, no bem-querer e nas atitudes de boa vontade.

Na verdade, o relacionamento humano e cristão é dinâmico, poderoso e incentiva


o crescimento pessoal e da Igreja como um corpo.

PRECIOSAS LIÇÕES

Sacrifício de uns pelos outros (vv. 3-5a). Aqui temos Priscila e Áqüila, o casal
amado, recebendo do apóstolo o reconhecimento pelo modo através do qual
compartilharam de suas lutas, a ponto de quase serem mortos.

Desde o princípio desta genuína e profunda amizade, Priscila e Áquila foram


pessoas que mantiveram aberto o coração, abertas as mãos, e aberta a porta para
a expansão do nome e reino de Cristo

Trabalho pelo bem comum (v.6). Paulo saúda a irmã na fé chamada Maria. É
digno de observação que as mulheres são significativamente proeminentes na
vida da Igreja de Cristo. Nesta lista há solteiras, casadas, viúvas, mães e todas
executando um admirável ministério na Causa do Senhor.

Temos membros de uma mesma família fazendo parte com outras famílias de
uma mesma família de fé. Paulo até o menciona. No verso 10, ele fala dos "da
casa de Aristóbulo"; no verso 11, "os da casa de Narciso", no verso 13, de Rufo,
sua mãe e sua irmã, e no verso 15, de Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã
(provavelmente, pai, mãe e filhos).
O Novo Testamento menciona que, em muitas ocasiões, famílias inteiras eram
batizadas (cf. At 10.44-48; 16.15, 33330-34; 18.8; 1Co 1.16; 16.19; Cl 4.15; Fm 2).
Havia casos em que pequenos grupos se reuniam em uma casa. É o caso de um
núcleo que tinha seus encontros na casa de Áquila e Priscila (v. 5a). Alguns foram
companheiros de prisão do apóstolo (cf. v.7). Dr. Dale Moody, nosso ex-professor,
fez uma significativa afirmação ao dizer que será um dia glorioso quando os
cárceres forem transformados em púlpitos.

Aceitação de uns pelos outros (v. 16). Paulo recomenda uma saudação muito
comum no Oriente Próximo ainda hoje: o beijo (cf. Gn 29.11; 33.4; 1Sm 10.1).
Além de ser um sinal de afeição entre parentes,um sinal de amor, havia, também,
um tom de homenagem (Gn 29.11; Ct 1.2). No Novo Testamento,é um sinal de

232
amizade e saudação (Mt 26.48).

Era, lembremos, um ato de fraternidade entre os semitas, mas não entre os


romanos. Por outro lado, o costume já se havia difundido nas igrejas conforme
atestam os seguintes exemplos textuais: 1Coríntios 16.20; 2Coríntios 13.12;
1Tessalonicenses 5.26 e 1Pedro 5.14.. Paulo, porém, não o entende só como
sinal de amizade, nem como uma ordenança ritual. Paulo usa a palavra "santo",
"ósculo santo", para evitar toda e qualquer conotação maldosa. Equivale, então,
em nossa cultura, a um fraternal abraço e aperto de mãos, um cordial "Bom dia!"

É preciso recuperar o significado da comunhão. Aliás, comunhão (koinonia) é uma


das grandes palavras do Novo Testamento. Fala de uma abordagem sistêmica,
pois é vital para a saúde espiritual da igreja e do crente como indivíduo. Pode não
parecer, mas uma há uma comunhão o dedo e o fígado de alguém, a perna e o
coração porque corre um sangue vital. Devemos buscar a comunhão, nos
aproximar de alguém. É preciso lembrar que avivamento e comunhão andam de
mãos juntas.

Há uma recomendação do apóstolo que é apropriada para encerrar esta reflexão.


Encontra-se em 1Coríntios 16.14b: "Fazei todas as vosss obras com amor". É
recomendação perfeitamente pertinente porque nenhum dom espiritual, nenhum
desejo de unidade ou de comunhão é coisa alguma sem o amor. É ele quem põe
um ponto final nas divisões, faz desaparecer o orgulho, que regenera o interesse,
a solidariedade e a fraternidade de uns pelos outros.

O amor é o começo do crescimento espiritual. Será preciso lembrar que o primeiro


aspecto do fruto do Espírito é o Amor? Por ele, manifesta-se a humildade (Rm
12.4), desenvolve-se a compreensão e o ministério do ouvido amigo. Assim é:
"Todas as vossas obras sejam feitas com amor".

Oração
Senhor, nós Te pedimos:
Que nos conheçamos sempre melhor
Em nossas aspirações e nos compreendamos
Mais e mais em nossas limitações.
Que cada um de nós sinta e viva
as dificuldades dos outros.
Que ninguém fique alheio aos momentos
De cansaço, dissabor e desânimo do próximo.
Que nossas discussões não nos dividam,
Mas nos unam na busca da verdade e do bem. Que cada um de nós, ao construir
a própria vida,
Não impeça o outro de viver a sua.
Que nossas diferenças não excluam ninguém da comunidade.
Que olhemos para cada um, Senhor,
Com os Teus olhos e nos amemos com o Teu coração.
Que a nossa fraternidade não se feche em si mesma,

233
Mas seja disponível, aberta e sensível
Aos problemas de cada um.
E que, no fim de todos os caminhos,
Além de todas as buscas, e depois de cada encontro,
Não haja vencidos nem vencedores,
Mas somente irmãos.
Assim seja. Amém!

(Autor desconhecido)

Parte XXXVIII
O QUE LEVOU A IGREJA
Em Antioquia a fazer Missões
Em Atos 13 o horizonte de Lucas se alarga pois o nome de Jesus seria
maciçamente testemunhado além da Judéia e Samaria. A partir de Antioquia
chegaria aos confins da terra. Os dois diáconos evangelistas prepararam o
caminho. Estevão através de seu ensino e martírio, Filipe através de sua
evangelização ousada junto aos samaritanos e ao etíope. O mesmo efeito tiveram
as duas principais conversões relatadas por Lucas, a de Saulo, que também fora
comissionado a ser o apóstolo dos gentios, e a de Cornélio, através do apóstolo
Pedro. Evangelistas anônimos também pregaram o evangelho aos "helenistas" em
Antioquia. Mas sempre a ação esteve limitada à Palestina e à Síria. Ninguém tinha
tido a visão de levar as boas novas às nações além mar, apesar de Chipre ter sido
mencionada em Atos 11:19. Agora, finalmente, vai ser dado esse passo
significativo.

A população cosmopolita de Antioquia se refletia nos membros de sua igreja e até


mesmo em sua liderança, que consistia em cinco profetas e mestres que moravam
na cidade. Lucas não explica a diferença entre esses ministérios, nem se todos os
cinco exerciam ambos os ministérios ou se os primeiros três eram profetas e os
últimos dois mestres. Ele só nos dá os seus nomes. O primeiro era Barnabé, que
foi descrito com "um levita, natural de Chipre" (Atos 4:36). O segundo era Simeão
que tinha o sobrenome de Níger, que significa Negro, provavelmente um africano
e supostamente ninguém menos que Simão Cireneu, que carregou a cruz para
Jesus. O terceiro era Lúcio de Cirene e alguns conjecturam que Lucas se referia a
si mesmo o que é muito improvável já que ele preserva seu anonimato em todo o
livro. Havia também Manaém, em grego chamado o "syntrophos" de Herodes o
tetrarca, isto é, de Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande. A palavra pode
significar que Manaém foi "criado" com ele de forma geral ou mais
especificamente que era seu irmão de leite. O quinto líder era Saulo. Estes cinco
homens simbolizavam a diversidade étnica e cultural de Antioquia e da própria
igreja.

Foi quando eles estavam "servindo ao Senhor, e jejuando" que o Espírito Santo
lhes disse: "separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado" (At.13:2). Algumas perguntas precisam ser respondidas.

234
A quem o Espírito Santo revelou a sua vontade? Quem eram "eles", as pessoas
que estavam jejuando e orando?

Parece-me improvável que devamos restringi-los ao pequeno grupo dos cinco


líderes, pois isso implicaria em três deles serem instruídos acerca dos outros dois.
É mais provável que se referia aos membros da igreja como um todo já que eles e
os líderes são mencionados juntos no versículo 1 de Atos 13. Também em Atos
14:26-27, quando Paulo e Barnabé retornam, prestam conta a toda a igreja por
terem sido comissionados por ela. Possivelmente Paulo e Barnabé já possuíam
anterior convicção do chamado de Deus e esta verdade foi aqui revelada para
toda a igreja.

Qual o conteúdo da revelação do Espírito Santo à Igreja em Antioquia?

Foi algo muito vago e possivelmente nos ensina que devemos nos contentar com
as instruções de Deus para o dia de hoje. A instrução do Espírito Santo foi
"separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado",
muito semelhante ao chamado de Abrão: "vai para a terra que te mostrarei". Na
verdade em ambos os casos o chamado era claro mas a terra e o país não.

Precisamos observar também que tanto Abrão como Saulo e Barnabé


precisariam, para obedecerem a Deus, darem um passo de fé.

Como foi revelado o chamado de Deus?

Não sabemos. O mais provável é que Deus tenha falado à igreja através de um de
seus profetas. Mas seu chamado também poderia ter sido interno e não externo,
ou seja, através do testemunho do Espírito em seus corações e mentes.
Independente de como o receberam, a primeira reação deles foi a de orar e jejuar,
em parte, ao que parece, para testar o chamado de Deus e em parte para
interceder pelos dois que seriam enviados. Notamos que o jejum não é
mencionado isoladamente. Ele é ligado ao culto e à oração, pois raras vezes, ou
nunca, o jejum é um fim em si mesmo. O jejum é uma ação negativa em relação a
uma função positiva. Então jejuando e orando, ou seja, prontos para a obediência,
"impondo sobre eles as mãos os despediram".

Isto não era uma ordenação ao ministério muito menos uma nomeação para o
apostolado já que Paulo insiste que seu apostolado não era da parte de homens,
mas sim uma despedida, comissionando-os para o serviço missionário.

Quem comissionou os missionários?

De acordo com Atos 13:4 Barnabé e Saulo foram enviados pelo Espírito Santo que
anteriormente havia instruído a igreja no sentido de separá-los para ele. Mas de
acordo com o versículo seguinte foi a igreja que, após a imposição de mãos, os
despediu. É verdade que o último verbo pode ser entendido como "deixou-os ir",
livrando-os de suas responsabilidades de ensino na igreja, pois às vezes Lucas

235
usa o verbo "adulou" no sentido de soltar. Mas ele também o usa no sentido de
dispensar. Portanto creio que seria certo dizer que o Espírito os enviou instruindo
a igreja a fazê-lo e que a igreja os enviou, por ter recebido instruções do Espírito.
Esse equilíbrio é sadio e evita ambos os extremos. O primeiro é a tendência para
o individualismo pelo qual uma pessoa alega direção pessoal e direta do Espírito
sem nenhuma referência à igreja. O segundo é a tendência para o
institucionalismo, pelo qual todas as decisões são tomadas pela igreja sem
nenhuma referência ao Espírito.

Conclusão

Não há indícios para crermos que Saulo e Barnabé eram voluntários para o
trabalho missionário. Eles foram enviados pelo Espírito através da igreja. Portanto
cabe a toda igreja local, e em especial aos seus líderes, ser sensível ao Espírito
Santo, a fim de descobrir a quem ele está concedendo dons ou chamado.

Chamado missionário não é um ato voluntário, é uma obediência à visão do


Senhor.

Assim precisamos evitar o pecado da omissão ao deixarmos de enviar ao campo


aqueles irmãos com clara convicção de que foram chamados por Deus, bem como
a precipitação de o fazermos com outros que possuem os dons para tal, mas sem
confirmação do Espírito à igreja.

O equilíbrio é ouvir o Espírito, obedecê-lo e fazer da igreja local um ponto de


partida para os confins da terra.

Parte XXXIX
MINISTÉRIOS FIÉIS

"...passei pregando o reino de Deus... não me esquivei de vos anunciar todo o


conselho de Deus... estou limpo do sangue de todos" (Atos 20. 25 – 27).

Não existe chamada mais honrosa e elevada que a divina para o ministério
integral. É senso comum que qualquer outra atividade desenvolvida pelos cristãos
tem sua pertinência na Causa de Cristo e não deve ser minimizada. No entanto, a
Escritura Sagrada dá grande importância a homens e mulheres que foram
separados como profetas, evangelistas, missionários e pastores. O apóstolo Paulo
mesmo demonstrou uma clara visão do seu ministério, e suas cartas o revelam
(1).

O contexto da porção bíblica escolhida é que Paulo, apóstolo, está deixando um


lugar onde tem exercido um ministério fiel e pleno de frutos. Paulo está com
sentimentos divididos: está triste e alegre. É tristeza por deixar aqueles a quem
ama, mas prazeroso por ter sido o instrumento de sua conversão.

É, na verdade, uma despedida carregada de emoção. E há, no seu

236
desenvolvimento, detalhes que merecem análise. Paulo menciona que sua palavra
sempre foi destemida, havia transmitido a vontade de Deus sem quaisquer
reservas; menciona, ainda, que sempre trabalhou com as próprias mãos para
satisfazer as suas necessidades pessoais, nada cobiçou de outras pessoas, pelo
contrário, seu trabalho, não o reservava para si, mas ajudava a suprir as
necessidades de outros menos validos.

Outra expressão de Paulo em sua despedida é o enfrentamento do futuro com


confiança visto que depende unicamente do Espírito Santo. Mesmo não sabendo
o que virá no dia seguinte, espera-o e o enfrenta com a plena consciência de toda
a direção é do Espírito.

Paulo recorda aos seus colegas de ministério algumas realidades próprias do seu
múnus ministerial e profético: o dever que não é outro senão vigiar, alimentar,
cuidar do rebanho do Senhor que lhes foi confiado, tarefa que ninguém escolhe,
antes, pelo contrário, para ela é escolhido; o perigo a que estão sujeitos, bem na
medida do pensamento contemporâneo de que "o preço da liberdade é a eterna
vigilância". Os participantes da obra divina correm o perigo da contaminação do
mundo, do secularismo, da inveja ou do sucesso. É verdadeiramente uma luta
ingente, feroz e constante mantida pelos profetas, pastores, evangelistas,
educadores, missionários, obreiros em geral para manter a pureza e a
intocabilidade da Igreja de Jesus Cristo sob a sua liderança espiritual.

Antes de sua partida, traz à memória de seus amados três características de seu
próprio ministério, e, por extensão, de todos os fiéis ministros, missionários,
profetas, obreiros do Reino de Deus.

CARACTERÍSTICA 1:FIDELIDADE À DIVINA COMISSÃO

"Passei pregando o reino de Deus" (v. 25). O método de Deus para a salvação
dos perdidos não é outro senão a pregação, pois "aprouve a Deus salvar pela
loucura da pregação...(2)" Outros métodos são auxiliares, contribuem, ajudam,
não são, porém, prioritários.

A palavra pregar é usada por Paulo cinqüenta e nove vezes nas suas cartas. Até
mencionou que "Cristo não me enviou para batizar"(3). Da mesma forma,
escreveu, "cheguei a Trôade para pregar o evangelho"(4), e a Timóteo exortou
com a seguinte expressão: "Prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo"(5).

Para Paulo, precioso é o evangelho, não a sua vida(6). Esta convicção que
queimava a sua consciência ela a reflete igualmente em Atos 21.13, Filipenses
1.19-26 e 3.8, entre outros tocantes exemplos de dedicação, consagração e
abandono de seu espírito ao Espírito de Deus. Para o apóstolo, prioritário é
pregar, proclamar essa mensagem abençoada e abençoadora de um evangelho
eficaz para a salvação de todo aquele que crê.

CARACTERÍSTICA 2: APRESENTAÇÃO PLENA

237
"Não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus" (v. 27). Spurgeon fez
referência a pregadores que enfatizavam apenas certas doutrinas. É o que
podemos chamar de "evangelho light". Esses pregadores falam de doutrinas como
o reavivamento, a cura divina, e outras igualmente populares. Entretanto, os
ministros fiéis não se prendem a um assunto favorito, mas proclamam todas as
Doutrinas da Graça.

O apóstolo Paulo não se esquivava de fazê-lo. Não deixava de pregar porque


certas verdades não satisfaziam os paladares de seus ouvintes porque um
ministro fiel não se amedronta diante dos homens. Na verdade, o ministro fiel e
destemido não busca a popularidade "amaciando" certas ênfases do evangelho
que não apoiadas por alguns. Seu tema principal é a salvação, incluindo seus
aspectos como a eleição, a justificação, a redenção, a santificação e a glorificação
a serem explicados com toda a clareza possível, e tudo o mais que está contido
na Palavra de Deus, ou como já foi resumido com muita pertinência, "o ser
humano, o pecado e a graça".

CARACTERÍSTICA 3: OBRIGAÇÃO SEM CULPA

"Estou limpo do sangue de todos" (v. 26). Estas palavras são um eco de Ezequiel
33.1 - 9,

"todo aquele que ouvir o som da trombeta, e não se der por avisado; e vier a
espada, e o levar, o seu sangue será sobre a sua cabeça"(7).

Diz a Bíblia na Linguagem de Hoje: "Esse alguém é responsável por sua própria
morte". Paulo também o disse ecoando o profeta Ezequiel, "estou limpo do sangue
de todos" (8), frase do missionário vertida pela BLH como "se algum de vocês se
perder, eu não sou responsável"

Paulo era, na verdade, um pregador tremendamente linear. Pregava todo o plano


de Deus, e cumpria sua tarefa. A resposta dos ouvintes não era sua
responsabilidade. A referência à culpa pela morte de alguém aplica-se, como se
depreende, ao dever espiritual do missionário/evangelista pela apresentação fiel
da mensagem de vida abundante: o pecador é advertido, a responsabilidade de
atender ao convite para a bênção já lhe foi passada, e assim o pregador cumpriu o
seu sagrado dever de ressaltar o pecado, a justiça e o juízo, deixando que o
Espírito faça a obra de convencimento, e apelando para que se escolha a vida.

Nosso problema, quantas vezes, tem sido o desejo de ver resultados visíveis em
lugar de deixarmos os resultados com Deus. Pode o missionário, o evangelista, o
pastor ficar tão ansioso e não se lembrar da recomendação bíblica, "Lança o teu
pão sobre as águas", até porque nos garante a conclusão desta recomendação
que "depois de muitos dias o acharás"(9). Garante a Escritura que a Palavra de
Deus "não voltará vazia"(10), razão porque não precisamos nos preocupar com os

238
resultados visíveis imediatos. O Senhor da seara é fiel, desse modo, os Seus
servos devem ser fiéis na entrega da mensagem e na obrigação por causa de sua
divina comissão.

ÚLTIMO PENSAMENTOS

"E eis agora sei..." (v. 25a). Gloriosa certeza! Extraordinária convicção! Em outro
espaço, também o fez com a afirmação de "sei em quem pus a minha confiança e
estou certo de que ele tem poder para me guardar na minha missão até ao dia
marcado", o Dia do Juízo(11). Com esta expressão de fé e esperança, o apóstolo
introduziu os pensamentos acima analisados.

Sem qualquer sombra de dúvida, o missionário/profeta/pastor/obreiro/obreira dirá


"EU SEI..!" Sim; tem conhecimento de sua pequenez, fragilidade e tremenda
dependência de um Pai amoroso, cuidadoso, e sempre pronto a dar sustento
emocional, espiritual e forças físicas para o desempenho da tarefa proposta.

Há lobos vorazes rondando o rebanho, prontos a entrar no santo aprisco. Quanta


deturpação doutrinária, quanta novidade penetrando como se fossem
moderníssimos métodos de proclamação, e, no entanto, quanto poder nas
palavras emanadas por vidas confiantes, corajosas, ousadas que podem afirmar

"EU SEI...! EU CONHEÇO O SENHOR DA SEARA!"

Que não passemos adiante a sagrada missão evangelizadora que o Senhor


poderia ter confiado aos Seus anjos, por essência e definição Seus autênticos
mensageiros e ministradores; porém, foi a nós que Ele o fez. Cabe-nos
corresponder!

NOTAS
(1) Cf. 15.14ss.; 1Coríntios 16.10ss.; 2Coríntios 2.14-6.10; 10.1ss.; Colossenses
1.24-2.23; etc.
(2) 1Coríntios 1.21b.
(3) 1Coríntios 1.17.
(4) 1Coríntios 2.12a.
(5) 2Timóteo 4.2a.
(6) Cf. Atos 20.24
(7) Cf. v.4.
(8) Cf. Atos 20.26b.
(9) Eclesiastes 11.1.
(10) Isaías 55.11.
(11) 2Timóteo 1.12 (O Novo Testamento, Tradução Interconfessional, Lisboa,
Sociedade Bíblica de Portugal, 1978)

O MINISTÉRIO DA PALAVRA

239
Introdução(1)

É interessante observarmos a exigência que muitos cristãos fazem a seus


pastores para que dediquem tempo em atividades secundárias, prescindindo
aquelas que o Texto Sagrado preceitua como sendo a função pastoral.

Vemos em Atos 6.4 que a tarefa pastoral precípua é a oração e o ministério da


Palavra. A pregação da Palavra deve ser efetivada por cristãos especialmente
vocacionados em distinção a todos os demais Ministérios Eclesiásticos. A idéia
radical inerente ao Ministério, em todo o Novo Testamento, é serviço prestado em
submissão, subserviência, diligência e fidelidade, que emprestam ao ministro
dignidade e importância oficial devido a natureza e a qualidade do serviço
prestado.

Dentre os Ministérios alistados na Bíblia o Ministério da Palavra é o mais rico na


sua significação. É o Ministério do Logos, que no Novo testamento é o equivalente
a Davar Elohim, Palavra de Deus, citada em hebraico 394 vezes no Antigo
Testamento. O Ministério da Palavra, portanto, é o que encerra o compromisso de
anunciar a Revelação de Cristo no sentido de uma comunicação divina em forma
de mandamentos, profecias e conforto para o povo de Deus.

O pregador da Palavra de Deus é um profeta que deve compreender claramente a


beleza e a universalidade do evangelho, absorto pelo Dom de proclamá-lo com
persuasão, zelo e extremado amor, sempre divinamente inspirado e autorizado
para esclarecer as manifestações de Deus decorrentes da mensagem
proclamada. O pregador da Palavra é o mensageiro de Deus e o verdadeiro
mestre da sociedade, eleito pelo próprio Deus da Palavra para arquitetar os ideais
divinos para a sociedade, afim de que os ouvintes passem a orientar e dirigir suas
vidas a partir da Palavra proclamada.

I – Finalidade específica do Ministério Pastoral (2)

Em uma pesquisa realizada entre pastores perguntou-se qual seria o alvo final do
trabalho pastoral e muitos responderam ser a evangelização, outros a união dos
crentes com o Senhor, uns poucos disseram ser o preparo do crente para a
eternidade e para o mundo atual e, lamentavelmente, muitos não souberam
responder a questão proposta.

É espantoso notar que muitos pastores dirigem igrejas e pregam sem ter uma
noção clara quanto a finalidade do Ministério, o que ressalta o fato de que não
desenvolveram uma visão bíblica para o Ministério da Palavra. Estão pastores
mas não são Pastores na acepção bíblica da tarefa pastoral.

Quando buscamos no Texto Sagrado a finalidade específica para o Ministério


Pastoral encontramos, além das tarefas primordiais indicadas em Atos 6.4, as
responsabilidades alistadas a seguir.

240
1. Aperfeiçoamentos dos crentes

O pastor não pode contentar-se em visualizar nos membros da igreja apenas


certas atitudes éticas pautadas na Palavra de Deus ou algumas poucas posturas
próprias dos costumes e princípios denominacionais. Deus espera mais dos
pastores e a tarefa pastoral deve esmerar-se em apresentar ao Senhor pessoas
maduras e adultas na fé que sejam cumpridores da Palavra, cristãos "perfeitos em
Cristo", Colossenses 1.28.

Deus espera que os pastores entreguem a Cristo a obra acabada, isto é, cristãos
aperfeiçoados em Jesus, edificados na igreja, cheios do pleno conhecimento e
firmados doutrinariamente. Cristãos que tenham uma identidade doutrinária
definida e que interagem na obra do ministério da igreja de modo geral, Efésios
4.10-16.

2. Capacitar os cristão para o serviço.

A igreja é uma escola de vida e de serviço. A convivência na igreja deve nos


ensinar a servir no presente, preparando-nos para o serviço futuro na glória
celestial, 1 Pedro 4.7-10.

O Senhor espera que nos preparemos e aprendamos sobre fidelidade e dons de


ministérios, independentemente da condição social ou cultural, servindo na igreja
local, que é a figura da igreja universal gloriosa, Mateus 25.14-30. A igreja não é
um estágio no qual apenas esperamos passar o tempo até que Jesus volte.

Devemos servir com esmero e amor no presente para que sejamos encontrados
fiéis no tempo em que formos convocados ao serviço celestial, Mateus 6.21-24;
Marcos 10.43-45; Lucas 12.35-38; João 12.26; 13.13-17; Gálatas 5.13; Hebreus
10.22-25 e Apocalipse 22.3-4.

3. Preservar a unidade da igreja

A unidade da igreja é um desafio ao amor e ao respeito que os cristãos devem uns


aos outros. É um chamado à compreensão das diferentes manifestações de Deus
no mundo através da igreja local sem prescindir da comunhão em Jesus e da
sinergia cooperativa entre as diversas igrejas para que cada uma delas cumpra o
seu Ministério.

O pastor deve ter uma visão horizonal do Reino de Deus, isto é, deve enxergar
além do horizonte da igreja local ou de sua denominação. Há uma realidade muito
maior e superior do que a própria igreja local que é a Igreja Universal, Invisível e
Gloriosa, sendo a igreja local condicionada pelos sinaléticos denominacionais
apenas uma ínfima expressão da grande totalidade do que constitui-se a Igreja de
Deus em Cristo, João 17.11 e 20-23; Efésios 4.4-7; Hebreus 12.22-24; Apocalipse
7.9-15.

241
II – A Relevância da Tarefa Pastoral para a Sociedade (3)

Nossa sociedade se admite pós-moderna e adota novos paradigmas


socioculturais e eclesiológicos, o que nos exige a compreensão das rupturas que
se refletem no nosso cotidiano a partir da substituição da mecanicidade pela
informação e informatização.

Vivemos em uma sociedade cibernética e de realidades virtuais. A igreja não pode


ser acometida de refração causada pelas lentes do virtuosismo ufanista e sectário
que se recusa à novas e diversificadas percepções da sociedade. O pastor não
pode fechar os olhos às transmutações da sociedade que privilegia a privatização
e a heterogeneização de interesses e valores, que vive em constante suspeição
da própria razão ressaltando a espontaneidade em contraposição à subordinação.

Não há como não enxergar a pluralidade dos conceitos éticos e morais


estabelecidos pelo situacionismo degradante ancorado e aglutinado em torno de
interesses egocêntricos, o que exige da igreja o redirecionamento dos
comportamentos eclesiológicos e pluralidade na expressão cúltica, o que só será
possível a partir do reposicionamento da atuação pastoral. Há que se redefinir a
homilia, sem contudo, descambar para a relativização dos absolutos estabelecidos
na Palavra de Deus.

Nossa sociedade admite variegadas contemplações do mundo supondo que a


realidade seja ordenada a partir da observação das leis naturais e do ciclo
existencial. Mediante a essa miopia sociológica é imperioso desenvolvermos uma
cosmovisão pastoral que se contraponha à predisposição pós-moderna de rejeitar
uma perspectiva unívoca e correta, como preceitua a Palavra de Deus. A pós-
modernidade implica no abandono de qualquer mito legitimador dominante
desacreditando das meta-narrativas predominantes, refutando e ridicularizando as
micro-narrativas que se auto-arrogam credibilidade insofismável, como faz
discurso evangélico tradicionalista que reproduz uma eclesiologia arcaica em
detrimento da edificação e da relevância da igreja para a sociedade.

Uma cosmovisão pastoral para a pós-modernidade deve considerar o fato de que


o mundo não é algo exterior e que dele extraímos nossos conhecimentos. Uma
atuação pastoral instrutiva e construtiva, bem como uma igreja relevante, deve
entender e visualizar a possibilidade de criarmos os mundos, as realidades
existenciais, por meio da pregação contextualizada que considera as influências
recebidas na formatação da personalidade, dos conceitos éticos e da própria
religião. A Bíblia tem pressupostos para o ceticismo humano e os pastores devem
ser dotados de graça e qualificados para a interpretação dos absolutos de Deus
em qualquer época da história.

Se na pós-modernidade a realidade é relativa, indeterminada e participável, os


pastores devem atuar na formação da consciência cristã, ética e social orientando
a igreja para que condicione sua mentalidade, sua eclesiologia e sua expressão
cúltica em paralelo a recusa do verdadeiro conhecimento de Deus, considerando a

242
validade das emoções e da intuição na percepção ideológica da verdade e da fé,
tornando a igreja e o labor pastoral relevantes e essenciais para o nosso contexto
sociocultural.

O pastor tem a vantagem de estar presente em quase todas as ocasiões da vida


das pessoas podendo interpretar as revelações proposicionais da Bíblia a partir da
atuação de Deus na história, isto por quê uma mensagem bíblica e profeticamente
contundente aborda sobre uma variedade de problemas existenciais e práticos,
jamais apresentando-se como um discurso paliativo e superficialmente
direcionado às necessidades imediatas. O ministério pastoral é a única tarefa que
pode oferecer renovada razão de ser para a sociedade em decadência ética e
espiritual por enunciar mensagem verdadeira e mística, no sentido pleno do termo,
pois a fé cristã é o único misticismo que permite ao homem comunhão consigo
mesmo, com a sociedade e com o Deus verdadeiro de forma completa, sem
deixar de lado o intelecto, a volição e as emoções, proporcionando ao ser uma
experiência agregária, a igreja, inigualável.

Podemos ainda considerar de extrema relevância a tarefa pastoral por ser o


pastor, quando consciente de sua tarefa e de seu compromisso como profeta, o
único com argumentos capazes de superar as controvérsias ideológicas e
restaurar a unidade, a amplitude, a totalidade e a integralidade do ser, levando-o,
pela exortação bíblica e ensino da Palavra, a comunhão com o Deus que pode
restaurar e regenerar a sociedade. Nenhum outro Ministério Eclesiástico é
chamado, vocacionado e lapidado para a proclamação da sã doutrina, para o
ensino da Palavra de Deus e para o exercício da liderança na igreja de Jesus
Cristo, agindo como salvaguarda da Verdade Apostólica.

Conclusão (4)

Não é difícil perceber que a igreja sofre as mais variadas influências e se vê


pressionada pelas mais diversas tendências no atual contexto sociocultural. Os
resultados disto é profundamente perturbador e causador de uma verdadeira crise
de identidade ministerial entre os pastores, o que se verifica pela esquizofrenia
resultante do trauma causado pela confrontação da liderança.

Na melhor das hipóteses, a igreja pós-moderna tem desvalorizado a autoridade


pastoral quando exige do Ministro permanecer alheio ao desenvolvimento
tecnológico e atrelado as expectativas denominacionais tradicionalistas que jamais
promoverão desenvolvimento e maturidade para a igreja e para o próprio pastor.
Alguns membros das igrejas tecnicamente treinados têm dificuldades em respeitar
e ouvir os ministros formados e habilitados em retórica e idealismo
denominacional devido a crescente confiabilidade dos modelos de gerenciamento
e ao pragmatismo situacionista que corroem as bases bíblico-teológicas legadas
aos pastores para a realização de seus ministérios. O triunfo do individualismo
criou uma igreja cheia de pessoas que se recusam a aceitar alguém que lhes diga
em que devem crer ou o que devem ou não fazer. O padrão sociológico é muito
forte e o padrão bíblico é quase utópico no mundo estético e pictórico. (5)

243
É urgente e premente a necessidade de resgatarmos a credibilidade do Ministério
da Palavra pois somente aqueles que abrem seus corações e suas mentes para a
mensagem bíblica e à instrução pastoral crescerão espiritualmente. Os cristãos
que resistem a autoridade pastoral ou que vivem buscando referenciais externos
para abalizar a proclamação de seu pastor, além de se tornarem infelizes,
excluem-se da nutrição espiritual que emana do púlpito da igreja.

Não é exagero asseverar que no século 21 o exercício do ministério pastoral ficará


ainda mais difícil, visto que nossa sociedade se pauta pela negação da autoridade
e pelo fato de nenhum outro ministério eclesiástico exigir cometimento e
subordinação a autoridade como no caso do Ministério da Palavra. O tom da
liderança pastoral deverá ser estabelecido na autoridade moral e espiritual que os
pastores exibirão na pregação bíblica. Pregar deverá ser a demonstração pública
de que a Palavra de Deus opera no pastor, sendo o instrumento que o Senhor
utiliza para ministrar à igreja e ao mundo. Pregar sem autoridade rouba a essência
da Palavra de Deus.

O trabalho do pastor atinge seu auge no púlpito, resultado de oração incessante e


de inspiração autoconfrontante. Quando o pastor prega a Palavra de Deus, na
unção e instrumentalidade do Espírito Santo, o Senhor cria um momento que é
especialmente divino e que não pode ser repetido. Cada sermão é uma
proclamação específica de Deus para um momento específico na vida de seu
povo.

Que Deus nos ajude.

Notas

(1) CRABTREE, Asa R. A Doutrina Bíblica do Ministério. 2. Ed. Rio de Janeiro:


JUERP, 1981. 148 p. (pp. 37-38 e 46)
(2) BARRIENTOS, Alberto. Trabalho Pastoral. Trad. Kédma Rix. Campinas:
Associação Evang. Menonita, 1991. 278 p. (pp. 31-37).
(3) FERNANDES, Fernando C. Pastor-teólogo na Pós-modernidade: Uma
abordagem teológico-fiolosófica a respeito da atuação pastoral na sociedade pós-
moderna. Rio de Janeiro, 1998. 128 p. [Dissertação - Mestrado em Teologia -
Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil] - (pp. 99-107)
(4) FISHER, David. O Pastor do Século 21. Trad. Yolanda Krievin. São Paulo:
Vida, 1999. 334 p. (pp. 304-307 e 318).
(5) Pictórico é algo relativo ou próprio da pintura. O termo é usado aqui para
indicar o vislumbre de nossa sociedade pelo colorido das imagens e da televisão
na formação de conceitos os mais diversos.
QUE É UM PASTOR?

De acordo com Efésios no capítulo 4, os versos 11e 12, o ministério da Palavra é


um dom especial de Jesus Cristo à Sua igreja, havendo um objetivo definido para
esse ministério. O propósito é o treinamento dos crentes; é o estimulo à obra do

244
discipulado; é o crescimento do crente individual e da igreja como corpo forte,
robusto, poderoso. É, ainda, a consecução do múltiplo propósito que Jesus tem
para Sua igreja que é o de derrubar as portas do inferno, o de resgatar vidas das
mãos de Satanás, de batizar essas pessoas e de discipulá-las. E esses dom foram
dados por Deus em resposta às orações do Seu povo. O povo de Deus pedia.

Em Mateus 9.37, 38 está registrado: "Jesus diz aos discípulos: A seara é


realmente grande, mas os ceifeiros são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara
que envie ceifeiros para a sua seara". Por isso, o que se requer daquele que
busca o ministério da Palavra é uma convicção da chamada especial da parte de
Deus. Não pode ser uma pessoa que não tenha chamada, porque o ministério, o
pastorado, o episcopado não pode ser abraçado como se escolhe uma profissão.
Lembro-me de um moço que me procurou uma ocasião e disse que achava que
Deus o estava chamando para o ministério. Perguntei-lhe, "Qual é a evidência que
você tem de que Deus está chamando você para ser pastor?" Ele não era ovelha
minha, era de uma outra igreja e viu escrito na parte externa do templo
ACONSELHAMENTO, então entrou e veio se aconselhar. Respondeu-me:
"Pastor, eu acho que Deus está me chamando para o ministério porque já fiz o
vestibular três vezes e fui reprovado. Então eu acho que é por isso que Deus está
me chamando para ser pastor". Disse-lhe que não fosse para o seminário, que ele
estava muito enganado, porque Deus não chama fracassados nem desocupados.
Quando Jesus Cristo chamou os seus apóstolos, todos estavam trabalhando.
Todos estavam na sua profissão, consertando redes, pescando ou no escritório
como fiscal de rendas.

Relatos da Bíblia mostram que quando Deus ou o Senhor Jesus Cristo chamou, o
vocacionado estava numa atividade como Moisés que apascentava ovelhas. Ou
como Davi que também apascentava ovelhas e os outros que acabei de
mencionar. A Escritura Sagrada enfatiza a vocação divina, um sentimento tão forte
naquele que é chamado que levou Isaías, que estava cultuando no templo, a
exclamar como está registrado em Isaías no capítulo 6, no final do verso 8 onde
ele diz: "Envia-me a mim". A mesma coisa aconteceu com Amós. Amós estava
apascentando o gado e quando ele estava pastoreando o gado, ouviu a palavra do
Senhor. E respondeu "Eu não era profeta, nem filho de profeta". Ele está falando
aqui a Amazias. "Mas boieiro e cultivador." Era agricultor. "Mas o Senhor me tirou
de após o gado e me disse: Vai, profetiza o meu povo Israel." É assim que Deus
faz. É assim que Deus age. Ou como dizia o saudoso pastor Valdívio Coelho,
"Uma chamada divina, que envolve um preparo divino para uma obra divina". E
isso tem base bíblica, 2Coríntios, capítulo 3, fala sobre esse assunto. Por essa
razão, se alguém entra no ministério sem chamada vai ser um infeliz; mas, se
você também ouviu a chamada e não entrou no ministério, vai ser tremendamente
infeliz por uma razão, e essa razão está na palavra de Jesus Cristo em João no
capítulo 15 que diz "Não fostes vós que me escolhestes mas fui eu que vos
escolhei e vos designei para que vades e deis fruto." E se alguém abandona essa
chamada há de ser infeliz. Por isso a pergunta base é: Que é um pastor?

Estamos trabalhando em cima de um tema que já foi objeto de reflexão. Talvez

245
temos agora alguma variante. E quero dizer aos irmãos, especialmente os crentes
mais novos, aqueles que estão ainda se preparando para o batismo, Que é um
Pastor?

O PASTOR É UM PROFETA

E essa é uma palavra muito interessante, no entanto, ninguém queira que eu


adivinhe o futuro. Profeta não é isso. Profecia não é adivinhação do futuro. Na
mente de muitas pessoas significa uma predição do futuro, uma adivinhação.
Talvez na linha daquele povo que diz assim: "Previsões para o ano 2000". Não,
isso não é ser profeta.

No entanto, a palavra tem conotação muito mais ampla, muito mais profunda e
mais consistente e séria porque pela Bíblia Sagrada, profeta é quem fala em nome
de Deus, é o porta-voz de Deus. E a Bíblia ensina que isso é um carisma.
1Coríntios capítulo12 menciona entre os dons o de profecia. E porque profetiza,
ou seja, por que proclama a palavra do Senhor, porque edifica, exorta, consola
homens individualmente e a igreja como um todo, quando a proclamação não
existe, vai chegar a derrota e na Palavra Santa está com toda clareza e com toda
as palavras a expressão de Provérbios 29 que fala "Não havendo profecia o povo
se corrompe". Portanto, a função primária, basilar, fundamental do profeta é se
colocar entre Deus e a pessoa humana e comunicar o propósito eterno, comunicar
a sua vontade.

Sem dúvida alguma irmãos há uma tradição milenar atrás de cada sermão que é
pregado de qualquer púlpito cristão. E mesmo assim, cada sermão deve ser atual.
Apesar de uma tradição milenar desde o tempo dos profetas, cada sermão deve
advertir sobre o pecar, deve advertir sobre a justiça e deve advertir sobre o juízo
de Deus. Cada sermão há de chamar a atenção para as conseqüências morais e
espirituais da conduta do ouvinte. E aquele que é arrependido deve apontar a
misericórdia e deve apontar o perdão de Deus e a bênção da vida com Deus. Por
isso, a palavra do profeta nunca é: "Assim eu digo", "assim diz Walter Baptista",
não. A palavra do profeta é: "Assim diz o Senhor". "Ou palavra do Senhor que veio
a...". Como está na Bíblia Sagrada. Como profeta, o ministro da palavra tem
mensagem. Mensagem de luz, mensagem de vida, mensagem de conforto, de
inspiração, de salvação que deve ser sempre fiel e reta e ortodoxa. Palavra de
orientação para a vida porque Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente.
Cada profeta então é uma sentinela guardando a doutrina que veio dos lábios do
Senhor e do ensino apostólico. Sentinela e pastor.

Acontece que hoje está muito fácil se chamar "pastor". Há tantos desqualificados
sendo chamados de "pastor" que é uma verdadeira calamidade. É um quadro que
vemos amiúde. Mas a Bíblia mostra que não é assim. A Bíblia diz que sempre
existiram aproveitadores, que sempre existiram mal intencionados, que sempre
existiram cavadores de lucro. E a palavra de Deus vai dizer assim,

"Estes cães são gulosos, nunca se podem fartar; são pastores que nada

246
compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para sua
ganância, todos sem exceção" (Is 56.11).

É como está colocado. Querem ver mais? Jeremias 14:14,

"Disse-me o Senhor: Os profetas profetizam falsamente em meu nome, não os


enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, adivinhação, vaidade e o
engano do seu coração é o que vos profetizam".

Há outros textos da palavra.

Nunca foi tão fácil para alguns, talvez devêssemos dizer para tantos,
reivindicarem, falarem em nome do Senhor, explorando uma pessoa simples,
incauta e até mesmo aquele que está desejosa de ser manipulada. Nunca foi tão
fácil como nos dias de hoje, e, no entanto, a palavra do Senhor é tão clara sobre
este assunto porque diz em Jeremias 3:15 "Dar-vos-ei pastores segundo o meu
coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência". Por isso,
Paulo recomenda "Não desprezeis as profecias". Pastor é, então, o quê? Um
profeta.

O PASTOR É UM ANJO.

Agora ninguém espere ver um par de asas nas costas do pastor Walter nem
debaixo do paletó. É porque tem uma história que diz que o pastor foi almoçar na
casa de uma família. E quando chegou, a menininha da família começou a andar
por trás da cadeira do pastor. Ia lá e vinha cá, fazia a volta e ia, olhava e mexia e
tocava no pastor. Aí a mão disse: "Rosinha pára com isso, menina! Que história é
essa, você andando para lá e para cá?!". A menina respondeu: "Eu estou
procurando as asas: a senhora não disse que o pastor é um anjo...". Então há
quem queira ver essas asas nas costas do pastor.

Mas vamos entender irmãos. Porque a palavra "anjo" tem significado. Anjo é
aquele que traz uma mensagem, um mensageiro. E Paulo se refere a isso quando
em Gálatas no capítulo 4.14, ele diz: "Embora minha enfermidade na carne vos
fosse uma tentação, não me rejeitastes, nem me desprezastes antes me
recebestes como a um anjo de Deus". E no Apocalipse também a palavra "anjo" é
usada largamente quando as sete cartas são enviadas ao pastor, ao anjo, da
igreja de Filadélfia e às demais.

A pregação é algo extraordinário! Fico fascinado pela pregação. Quando saio de


férias, recomendam-me: "Pastor, não leve o paletó: porque se levar o paletó, vai
ter que pregar em algum lugar", mas, eu sempre levo o paletó. Pregar não cansa.
Pregar não me cansa. Sou fascinado pela pregação. Spurgeon, o grande Charles
Spurgeon, entrou em um auditório que recém-inaugurado em Londres, o Albert
Hall. Naquele tempo não havia microfone, nem ampliação de som. Tudo era à viva
voz, e aquele auditório havia sido construído dentro dos mais modernos recursos
de acústica da época. E o evangelista havia ouvido falar sobre isso. Entrou no

247
auditório, que estava completamente vazio. Quando ali chegou, foi para o palco, e
com a voz poderosa de pregador, exclamou:

"EIS O CORDEIRO DE DEUS QUE TIRA O PECADO DO MUNDO!!!"

e repetiu,

"EIS O CORDEIRO DE DEUS QUE TIRA O PECADO DO MUNDO!!!"

Experimentou e saiu convencido de que a acústica era excelente. Quando chegou


à porta. um homem o procurou e disse: "O senhor que é o pastor Spurgeon?" Ele
disse: "Sou eu". Continuou o homem, "Só quero dizer que aceito a Jesus Cristo.
Eu sou pedreiro, estava trabalhando na sala do lado quando ouvi o senhor falar lá
dentro. E essa palavra me tocou". A pregação dele foi só isso: "Eis o cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo". O homem ficou convencido dessa verdade e
se converteu.

É necessário que haja da parte do pastor verdadeira conversão. Como poderia ele
falar de uma experiência que não conhece? O que se pode dizer de uma
determinada fruta, o seu gosto, se nunca se experimentou da mesma? Quando eu
estava em Singapura, falaram de uma fruta chamada durian. É da família da jaca,
da fruta-pão, da pinha, da graviola. Essa fruta é um pouco maior que uma graviola;
mais espinhenta que a jaca, e dizem que é a fruta mais saborosa do mundo. Essa
foi a declaração que ouvi por lá, e li, até, afirmando esse fato. Fomos, finalmente,
apresentados à durian. Se é mais saborosa, não sei porque não tive coragem de
experimentar. No entanto, eu sei que é a mais fedorenta do mundo... Fede que
nem esgoto. Dizem que quando se come um bago da fruta, é algo deliciossíssimo.
Não tive coragem porque o fedor era de esgoto em dia de chuva. Meus amados,
não posso falar do sabor da durian porque não o conheço.

Outra coisa que o pastor deve ter é piedade cristã para resistir ao escrutínio das
outras pessoas. Está na palavra em 1Timóteo 4.12. O apostolo Paulo ele diz o
seguinte ao jovem pastor Timóteo, "Ninguém despreze a tua mocidade: mas sê o
exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na amor, no espírito, na fé, na pureza". No
boletim de hoje, foi transcrita uma palavra do Pr Nilson Fanini bem parecida com
essa. Como o pastor tem sido vítima de cobranças fiscais. Sua vida é vasculhada
e os procuradores de agulha no palheiro usam lente de aumento sobre as falhas
do ministro do evangelho. Por quê? Para orar com ele? Nem sempre.

Ele precisa ter uma fé sadia também e ter uma fé que seja ortodoxa. Aliás, se não
for ortodoxa nem é sadia nem é fé. Que não seja amante de novidades. Hoje é um
tempo em que se ama a novidade. Nós preferimos ficar com a Palavra sempre. Há
muita novidade barateando o culto divino, nós preferimos o culto digno do nome
do Senhor. Há muito culto que satisfaz mais ao ego dos chamados pastores que
realmente às necessidades do povo.

Pois é, o pastor é um anjo. Por isso ele precisa de ter todas essas características

248
aí. Ele precisa conhecer a Deus, andar com Deus, ter comunhão com Ele. Ele
precisa conhecer as ciências teológicas. Ele tem que ter capacidade mental e eu
diria capacidade acadêmica, conhecimento bíblico adequado. Ele pode não saber
tudo, é verdade, mas o que ele sabe, deve saber bem e ele deve continuar
aprendendo, lendo, lendo muito para saber cada vez mais. Por isso, não é demais
até lembrar que Paulo tinha muito amor pelos livros, por isso pediu que quando
viesse, Timóteo trouxesse o livro.

Precisa conhecer o ser humano também, conhecer as ciências humanas,


conhecer a pedagogia, conhecer a psicologia, conhecer as relações humanas,
conhecer aquilo em que o ser humano é forte e aquilo que o ser humano é fraco.
Agir para aquilo que é forte na sua ovelha continue forte e progrida até e aquilo
que é fraco seja colocado com resistências, fortaleza e ele possa crescer
igualmente. Como mensageiro de Deus, como anjo de Deus, deve fortalecer
aquele que está triste, animar o cansado, levantar o que está derrubado na vida, o
joelho tremente, consolar aquele que está desconsolado, fortalecer o debilitado e
mostrar o caminho ao que está indeciso.

Como anjo de Deus é mensageiro do Espírito de Deus, da fé, da esperança, do


amor, da salvação e da libertação e do perdão que vem de Deus. Por isso, como
mensageiro de Deus, como mensageiro da palavra divina, sinto ao meu lado
quando prego, as testemunhas do Senhor, essa legião de testemunhas de que
Hebreus fala. Sinto ao meu lado Elias e Moisés e Isaías e Jeremias e Ezequiel e
Daniel e Oséias, Joel, Amós e os apóstolos. Não é que esteja tendo visões nem
fantasmas juntos de mim, mas, na mesma linha, na mesma tradição e na mesma
palavra que eles anunciaram e pregaram ao seu povo.

Primeira coisa que nós dissemos é que o pastor é um profeta. Segunda coisa, o
pastor é um anjo, mas há uma terceira o pastor é um homem. Descobri que ser
anjo não é difícil e que também não é difícil ser profeta. Difícil é ser humano.
Pastores são não somente humanos mas precisam ser plenamente humanos.
Razão porque todo pastor pede uma dose de compreensão, uma dose de
paciência e uma dose de tolerância. Isso é dito porque há quem espere que o
pastor, qualquer pastor de qualquer igreja em qualquer lugar, seja um bom
pregador e que tenha dois bons sermões todo domingo e que tenha um bom
estudo em todo Culto de Oração e que atenda no gabinete a qualquer hora do dia,
inclusive no seu dia de folga, e que seja somente sorrisos; que não canse e que
não desanime em certas horas, e que não tenha tristezas e que tenha inclusive p
condão de fazer a maravilha das maravilhas que é estar em dois lugares ao
mesmo tempo. Talvez, se possível for, em três lugares ao mesmo tempo, como já
tem acontecido comigo, dois compromissos, três compromissos e a pessoa fica
zangada porque a só se pode atender a um deles.

O Pastor é um homem num mundo de homens. Em 2Timóteo 3, apresentam-se as


condições do mundo nos últimos dias. Essas condições que estão aqui em
1Timóteo 3:1-5 são as nossas condições hoje. Aliás, 2Timóteo 3:1-5,

249
"Sabe, que nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis. Os homens serão amantes
de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a
pais e mães, ingratos, profanos",

e aí segue com um catálogo de coisas do nosso tempo. É nesse mundo que nós
exercemos o ministério. São dias difíceis. E a descrição do coração desses
homens ímpios é a de um povo que se distancia de Deus, de um povo que
transgride as leis da decência. É um povo saturado de orgulho, de lascívia, com
novas formas de piedade, negando, porém, o Deus vivo e verdadeiro. E Paulo fala
de blasfêmia; fala de ingratidão, de calúnia, de atrevimento, de orgulho. Por isso,
enquanto o mundo desce a ladeira do inferno, Timóteo, o jovem pastor, é exortado
à fidelidade à palavra de Deus bem como todos os outros pastores. Porque de
hora em hora o mundo piora. Mas como o pastor é um servo da palavra, ele deve
manter na consciência que ele pertence ao seu povo. Ao povo que o Senhor lhe
confiou. Ele pertence à palavra que ele anuncia. Ele pertence a Deus que o
escolheu e o comprou e o fez ministro de Sua palavra. Isso quer dizer que há de
ser homem de oração e totalmente submisso e consagrado a Cristo e à Sua
causa, pois sem Deus na vida, não tem o que oferecer, não tem o que dizer a
quem busca o seu conselho ou a quem vai ouvir os seus sermões.

O pastor é um homem no mundo dos homens, mas é um homem de Deus. Ele é


um símbolo diz o doutor Wayne Oates em um livro sobre este assunto. Que ele é
um símbolo da fé cristã, um símbolo do evangelho, um símbolo da graça e é por
esse motivo que lá na Segunda Carta aos Coríntios, no capítulo 4 está dito da
seguinte maneira:

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder
seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados;
perplexos, mas não desanimados; Perseguidos, mas não desamparados;
abatidos, mas não destruídos; Levando sempre por toda a parte o morrer do
Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em
nossos corpos".

É homem que se apropria portanto da verdade divina e a repassa a suas ovelhas.


Ele é um mestre e é um ministro. Aí eu quero explicar a palavra mestre e a palavra
ministro. Os irmãos sabem que a palavra mestre vem do latim magister, de onde
vem magistério, de onde vem magistrado, de onde vem magistratura. E essa
palavra magister, ela guarda uma raiz, magis, que quer dizer "mais". Por que é
que o mestre, o magister ou o magistrado eram procurados? Porque tinham algo a
mais a oferecer.

Mas ele é um ministro. Ministro vem de minister onde está a raiz minus que quer
dizer menos. Ministro era o escravo. Ministro quer dizer isso aí. Pensa-se que hoje
a palavra "ministro" é pomposa e nós dizemos o primeiro escalão do governo, os
ministros. Ministro quer dizer escravo. Porque era uma pessoa que tinha de
menos. Não o procuravam porque tinha de mais, mas, sim tinha de menos. Por
isso, era ele que tinha que carregar cargas, transportar uma mesa, pegar uma

250
coisa ali adiante, fazer isso. Trabalho pesado era do minister, do escravo. O pastor
é ao mesmo tempo um mestre e um ministro. Ele ao mesmo tempo passa e
repassa aquilo que ele tem de mais, mas, ao mesmo tempo ele também sendo
mestre, ele é um servo, é um ministro.

É um homem de Deus mas não é um super-homem, é um ser humano vulnerável,


e é por esse motivo que ele busca ser fortalecido pelo poder do Alto. É vulnerável
por isso, infelizmente, comete o pecado de envelhecer. Dizem que uma igreja
estava procurando um pastor. A Comissão de Sucessão Pastoral entrevistou um
determinado obreiro já maduro e ficou muito satisfeita com os resultados da
entrevista, quando alguém se lembrou de fazer uma perguntinha que estragou
tudo: "Pastor, quantos anos o senhor tem?" Responde o candidato, "Tenho
sessenta e dois." Aí, a igreja sentiu que a Comissão murchou, porque ele tinha
sessenta e dois anos: não foi convidado...

Virou moda fazer o perfil do pastor. Uma igreja em nossa cidade, quando foi
escolher o novo pastor, fez o "perfil do pastor". Entre outras coisas dizia que o
pastor deveria ter até determinada idade. Nilson Fanini não poderia ser pastor
daquela igreja, Billy Graham. Nenhum desses grandes homens de Deus podia ser
pastor. Porque já haviam passado daquela idade. O único perfil que conheço e
reconheço é o que está no Novo Testamento, na palavra de Deus: 1Timóteo 3;
Tito 1;1Pedro 5.

O pastor é humano, muito humano, é vulnerável, razão porque ele busca o poder
de Deus; e não pode ter medo de responsabilidades; não pode ter medo de
críticas e não pode ter medo do aparente fracasso.

Pastores são profetas, são anjos e são homens, simples homens, mas, pastores
são cooperadores, são facilitadores na obra do Senhor e o ministro do evangelho
é um servo voluntário como Jesus e há de caracterizar-se pela unção do Espírito
debaixo de cujo poder vive. E já que um enorme muro de separação existe e
sempre tem existido entre os homens (Paulo fala disso em Efésios 2), ao ministro
do evangelho é confiada a causa da reconciliação porque já chegou a boa nova de
que em Jesus Cristo há salvação, a barreira foi quebrada e nós somos feitos um.

O que é necessário é amar a Cristo. Porque quando isso acontece, esse amor de
Cristo se estende naturalmente àqueles a quem Jesus Cristo também ama, o Seu
rebanho. Jesus perguntou a Pedro: "Pedro, tu me amas? Simão, filho de Jonas, tu
me amas verdadeiramente?" A pergunta foi essa. A pergunta foi Pedro agapos
me? Tu me amas verdadeiramente? E Pedro deu uma resposta infeliz. Os irmãos
viram que na Bíblia, Pedro dizer assim: "Senhor, Tu sabes que eu Te amo." Mas
Jesus perguntou três vezes, "Senhor, Tu sabes que eu Te amo". Ele não disse
agapo te. Pedro, agapos me? Ele devia responder, "Agapo te". Ele disse: "Filo te"
é outra palavra. Filo, vem de filos que quer dizer amigo. "Senhor, Tu sabes que eu
sou teu amigo". Foi isso que Pedro respondeu para Jesus, que pergunta de novo:
"Pedro, tu me amas de verdade?". "Ó Senhor, Tu sabes que eu sou teu amigo." E
finalmente, a resposta, "Senhor, Tu sabe todas as coisas. Tu sabes que eu te

251
amo". Por isso, Jesus disse, "Apascenta os meus cordeirinhos, pastoreia minhas
ovelhas." O amor a Jesus Cristo meus irmãos, é condição sine qua non para que
um ministro do evangelho possa se sustentar no evangelho da Palavra, no
ministério e sempre nesse amor a Cristo, a Deus, e aos irmãos.
Parte XXXX
Dos Sínodos e Concílios
Comentário do Capítulo XXXI da Confissão de Fé de Westminster
As várias denominações de hoje empregam a palavra “sínodo” de maneiras
diferentes. Para nós, os presbiterianos, o sínodo – composto de ministros e
presbíteros dos presbitérios – é o grau acima do presbitério e abaixo do supremo
concílio (ou assembléia geral) na sua ordem de governo eclesiástico.

A distinção entre os vocábulos “sínodo” e “concílio” é mais aparente que real; ou


seja, assim como o presbitério e o supremo concílio, o sínodo também é um
concílio [1]. “Sínodo” ou “Concílio” é uma conferência convocada pelos líderes
eclesiásticos para dar orientação à igreja.

Um concílio pode ser ecumênico (geral) e, portanto, representar a igreja inteira, ou


pode ser local (particular), tendo representação regional ou local. Por exemplo:
Doze concílios regionais reuniram-se para debater a heresia ariana entre os
concílios ecumênicos de Nicéia, em 325, e de Constantinopla, em 381. O primeiro
concílio ecumênico na história da Igreja foi o de Jerusalém (c. 50 A. D.) e está
registrado em Atos 15. Os resultados daquele Concílio foram normativos para toda
a igreja cristã primitiva. No entanto, o Concílio de Jerusalém deve ser distinguido
dos concílios posteriores, pelo fato de ter tido uma liderança apostólica [2].

A Assembléia de Westminster (1643-1649) foi um dos maiores concílios na


história da igreja cristã de origem reformada. O capítulo que passamos a
compartilhar é parte integrante da Confissão de Fé, um dos grandes tratados
teológicos produzidos por aquela histórica e notável assembléia.

I O propósito dos sínodos e concílios

“Para melhor governo e maior edificação da Igreja, deverá haver as assembléias


chamadas sínodos e concílios. Em virtude do seu cargo e do poder que Cristo lhes
deu para edificação e não para destruição, pertence aos pastores e aos outros
presbíteros das igrejas particulares criar tais assembléias e reunir-se nelas
quantas vezes julgarem útil para o bem da Igreja”.

Os sínodos e concílios existem “para melhor governo e maior edificação da igreja”,


ou seja, “para o bem da igreja”.
Cristo dotou a igreja do poder necessário para levar a efeito a obra que lhe
confiou. Investe todos os membros da igreja com uma certa medida de poder, mas
outorga uma medida especial dele aos oficiais da igreja. O governo da igreja
presbiteriana pertence aos pastores e presbíteros. Sua autoridade não lhes é
delegada pelos membros da igreja, embora a igreja os escolha para o ofício.
Enquanto participam do poder geral dado a todos os membros, recebem

252
diretamente de Cristo aquela medida adicional que é exigida para o seu trabalho
como oficiais da igreja do Senhor.

O poder governante da igreja reside primariamente nos conselhos locais e destes


é passado aos sínodos e concílios. Cada igreja local tem um certo grau de
autonomia ou independência, mas este é naturalmente restrito de várias maneiras
tão logo ela se associe a outras igrejas locais. Os interesses da igreja em geral
não podem ser sacrificados pelos de qualquer igreja local [3].

As assembléias maiores, ou concílios, não representam uma espécie de poder


superior do que se investe nos conselhos. É a mesma espécie de poder, mas
representado num grau maior. Desde que diversas igrejas são representadas há,
naturalmente, uma acumulação de poder. Além disso, as decisões dessas
assembléias não são meramente só consultivas, mas obrigatórias, exceto em
casos em que sejam explicitamente declaradas somente consultivas. São
obrigatórias às igrejas, a menos que sejam demonstradas como contrárias à
Palavra de Deus.

II A autoridade dos sínodos e concílios

“Aos sínodos e concílios compete decidir, ministerialmente, controvérsias quanto à


fé e casos de consciência; determinar regras e disposições para a melhor direção
do culto público de Deus e governo de sua Igreja; receber queixas em caso de má
administração e com autoridade decidi-las. Os seus decretos e decisões, sendo
consoantes com a Palavra de Deus, devem ser recebidos com reverência e
submissão, não só pela sintonia com a Palavra, mas também pela autoridade
através da qual são feitos, visto que essa autoridade é uma ordenação de Deus,
designada para isso em sua Palavra”.

A autoridade dos sínodos e concílios deve ser segundo a Palavra de Deus. Do


contrário correm o risco de ficarem a quem do que se exige deles, ou mesmo de
irem além, beirando (ou até praticando) o despotismo e abuso de autoridade.
Segundo Calvino, se queremos saber qual é a autoridade dos concílios segundo a
Escritura, não há promessa maior do que a que se encontra nas palavras de
Cristo: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu
no meio deles” (Mt 18.20). Isso se aplica não somente a qualquer reunião
particular, mas aos concílios em geral. Contudo, não é essa a dificuldade da
questão, mas a condição que se adiciona: que Cristo estará no meio do concílio
sempre que o mesmo for reunido em seu nome. Cristo não promete nada a não
ser para quem esteja reunido em seu nome. O que isso significa?

Não estão reunidos em nome de Cristo os que, sem ter em conta o mandato de
Deus, no qual proíbe que se acrescente ou diminua algo à sua Palavra, decretam
o que lhes dá na telha; pois estes, não contentes com os oráculos da Escritura,
que são a regra da perfeita sabedoria, não cessam de inventar coisas novas. E
visto que Jesus Cristo não promete estar presente em todos os concílios, mas
tenha posto um sinal particular para diferenciar os verdadeiros dos que não são,

253
não podemos fazer pouco caso dessa diferença. O pacto que Deus fez
antigamente com os sacerdotes levitas foi que ensinassem o que ouviam de sua
boca (Ml 2.7). Ele também pediu o mesmo aos seus profetas e apóstolos. E
àqueles que quebrassem esse pacto Deus não os reconheceria como sacerdotes
seus, nem lhes daria autoridade alguma. Resolvam essa dificuldade os
adversários, diz Calvino, se desejam que se dê crédito às decisões dos homens
tomadas à margem da Palavra de Deus [4].

III A falibilidade dos sínodos e concílios

“Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer
particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem
constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e
outra coisa”.

Todos os sínodos e concílios podem errar, e muitos têm errado no decorrer da


história porque são formados por homens que podem e têm errado [5]. Isso,
porém, explica, mas não justifica uma decisão conciliar equivocada.

Uma decisão conciliar equivocada é aquela que resulta em algum prejuízo para a
igreja. O concílio não é a igreja, mas o seu representante. Uma igreja pode ser
bem ou mal representada. Qualquer resolução do concílio, seja ela boa ou má, vai
refletir primeiramente na igreja representada por ele. A igreja é o termômetro das
resoluções de um concílio. O Novo Testamento é muito claro nisso. Após a
decisão do primeiro concílio da Igreja – que se reuniu com o propósito de opor-se
aos esforços judaizantes – os que foram enviados à Jerusalém desceram logo
para Antioquia e, tendo reunido a comunidade, entregaram a epístola. “Quando a
leram, sobremaneira se alegraram pelo conforto recebido” (At 15.31). Percebe-se
que a igreja de Antioquia foi ricamente abençoada pela decisão daquele Concílio.
E não podia ser diferente porque o que foi resolvido ali “pareceu bem ao Espírito
Santo e a nós” (At 15.28). “O Espírito revelou o que os líderes da igreja deveriam
dizer e fazer” [6].

Quando um concílio se submete verdadeiramente ao Espírito de Deus o resultado


são decisões positivas e salutares para a vida da igreja. Mas quando o Espírito
Santo (assim como a Bíblia) não passa de inocente útil para satisfazer a
carnalidade humana, o resultado pode ser terrivelmente desastroso para a igreja.

Embora os sínodos e concílios não devam constituir regra de fé e prática, eles


podem e devem ser usados como auxílio em uma (fé) e outra coisa (prática). Se
as decisões deles forem pouco sábias, mas não se opõem diretamente à vontade
de Deus, recomenda-se a submissão a elas por amor à paz. Mas se as decisões
são contrárias à Palavra de Deus, então devemos rejeitá-las e sofrer as
conseqüências [7].

IV O caráter eclesiástico dos sínodos e concílios

254
“Os sínodos e concílios não devem discutir nem determinar coisa alguma que não
seja eclesiástica; não devem imiscuir-se nos negócios civis do Estado, a não ser
por humilde petição em casos extraordinários, ou por conselhos, em satisfação de
consciência, se o magistrado civil os convidar a fazê-lo”.

O caráter eclesiástico dos sínodos e concílios nunca deve ser perdido de vista.
Por serem assembléias eclesiásticas, não estão sob a jurisdição dos sínodos e
concílios assuntos meramente científicos, políticos, comerciais ou equivalentes.
Não devem se envolver nos negócios civis do Estado, a não ser por humilde
petição deste em casos extraordinários, quando toca diretamente nos interesses
da igreja [8], ou por conselhos, em satisfação de consciência, se o magistrado civil
os convidar a fazê-lo. Isso tudo é compreensível porque aos sínodos e concílios
somente lhes correspondem assuntos como os de doutrina e moral, de governo da
igreja e disciplina, e quaisquer outros que tenham a ver com a preservação da
unidade e da boa ordem na igreja de Jesus Cristo. Mais particularmente, têm que
ver com (a) assuntos que devido a sua natureza correspondam à jurisdição de
assembléias menores, mas que por uma ou outra razão, ditas assembléias
menores não podem resolver; e (b) assuntos que devido a sua natureza,
correspondam à jurisdição de uma assembléia maior, visto que pertencem às
igrejas em geral, tais como assuntos relacionados com a confissão, a ordem
eclesiástica ou a liturgia da igreja.

Contudo, se por um lado os sínodos e concílios não devem tratar de assuntos que
pertencem à jurisdição do magistrado civil, do outro eles devem ensinar aos
membros das igrejas seus deveres com respeito ao poder civil, e do cumprimento
desses deveres como obrigação religiosa (cf. Rm 13.1-7; 1Pe 2.11-17).

Notas
[1] Portanto, toda vez que aparecer a palavra “concílio” neste artigo entenda-se
concílios em geral.
[2] Cf. J. H. Hall, Concílios eclesiásticos, p. 318.
[3] Cf. L. Berkhof, Manual, p. 261.
[4] Institución, IV,ix,2. Calvino está pensando principalmente nos concílios católico-
romanos.
[5] Cf. Calvino, Institución, IV,ix,10,11.
[6] Kistemaker, Acts, p. 562.
[7] Cf. A. A. Hodge, Comentário, p. 350,51.
[8] Cf. A. A. Hodge, Comentário, p. 350.

Bibliografia

A Confissão de Fé de Westminster. 3a ed. São Paulo: Cultura Cristã, 1997.


BERKHOF, L. Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: LPC/Ceibel, 1985.
___________ Teologia Sistemática. 2a ed. Grand Rapids: T.E.L.L., 1987.
CALVINO, J. Institución de la Religión Cristiana. Vol. II. Países Bajos: Felire, 1986.
HALL, J. H. Concílios Eclesiásticos. In: EHTIC. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988.
HODGE, A. A. Comentário de la Confesión de Fé de Westminster. Barcelona:

255
CLIE, 1987.
KISTEMAKER, S. J. Exposition of the Acts of the Apostles. New Testament
Commentary. Grand Rapids: Baker Book House, 1990.
WHEATON, D. H. Sínodo. In: EHTIC. Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990.

Parte XXXXI
Obedeçam a Seus Líderes
Comentário de Hebreus 13.17 - Por Simon Kistemaker

Este versículo não tem conexão com os versículos precedentes. Nós precisamos
voltar ao versículo 7 onde a mesma expressão – seus líderes – ocorre. E no
versículo 24 o escritor mais uma vez emprega essa expressão.

17. Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam
por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com
alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.

Nesse versículo em particular, o autor enfatiza três pontos.

a. Obediência exigida. Os líderes que haviam falado a Palavra de Deus


anteriormente não estavam mais presentes. Eles devem ser relembrados por sua
conduta e fé, diz o autor de Hebreus (13.7). Líderes após líderes tomaram seus
lugares. O escritor não está interessado na posição desses líderes – ele não dá
qualquer idéia se eram presbíteros, bispos, pregadores ou professores. Antes, ele
pede ao leitor que obedeça a eles.

A falta de obediência prevalece entre alguns dos leitores. Observe, por exemplo, a
admoestação do autor para não se deixarem “envolver por doutrinas várias e
estranhas” (13.9). Os líderes precisavam de ajuda e encorajamento. Assim, o
apelo para obedecer a eles e submeter-se à sua autoridade é oportuno. É claro,
os leitores poderiam questionar se essa autoridade era auto-imposta pelos líderes
ou delegada a eles por Cristo. Se um líder é um ministro dedicado da Palavra de
Deus, ele prova, assim, que Cristo lhe deu autoridade. E se Cristo confiou a tarefa
de liderança a alguém, as pessoas não devem questionar sua autoridade (At
20.28; Ef 4.11; 1Pe 5.1-3).

b. Cuidado prestado. Os líderes levavam a sério a tarefa que lhe havia sido dada
por Deus. “Pois velam por vossa alma.” Eles literalmente perdem sono por causa
do bem-estar espiritual dos crentes. Eles conhecem a Palavra de Deus falada ao
profeta Ezequiel: “Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da
minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte. Quando eu disser ao
perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o
advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na
sua iniqüidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei” (3.17,18).

Os líderes ficam com a congregação, são vigilantes em cuidar dos membros,


nutre-os espiritualmente, desviam ataques malignos e administram disciplina

256
quando necessário. João Calvino escreve que, “Quanto mais pesada a
responsabilidade deles, maior honra merecem, pois quanto mais alguém sofre por
nossa causa, e quanto maior for sua dificuldade e maiores os riscos que
enfrentam por nós, maiores também nossas obrigações para com eles”. Esses
líderes devem prestar contas a Deus, porque ele é o superior deles; isso não quer
dizer que os membros não são tidos como responsáveis. Eles certamente são.
Eles, também, devem trabalhar juntos, harmoniosamente, para que a tarefa dos
líderes seja uma alegria e não um peso.

c. Alegria experimentada. Por toda sua epístola o autor enfatizou a


responsabilidade corporativa dos crentes. Para mencionar um exemplo, ele exorta
os leitores a encorajarem-se mutuamente: “Pelo contrário, exortai-vos mutuamente
cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja
endurecido pelo engano do pecado” (3.13). De maneira semelhante, como um
corpo eles devem responder a seus líderes, pois, então, há alegria nos
relacionamentos interpessoais da igreja. Eles recebem as bênçãos do Senhor ao
obedecer os líderes que Deus lhes deu. Se eles todos respondem de modo
favorável, o trabalho de seus líderes se torna muito mais alegre.

Quando os membros se recusam a obedecer e não respeitam seus líderes, o


trabalho na igreja se torna um grande peso. Os membros devem entender que
nem eles nem os líderes são donos da igreja. A igreja pertence a Jesus Cristo, a
quem os leitores são responsáveis. Ao dificultar o trabalho e a vida dos líderes,
eles serão os perdedores. Os líderes podem testificar diante do Senhor que
advertiram a pessoa desviada, que escolheu não abandonar o pecado. Essa
pessoa morrerá em seu pecado, mas os líderes estão livres da culpa (Ez 3.19). No
final das contas, então, o Senhor vinga e julga seu povo (Hb 10.30; Dt 32.35,36; Sl
135.14). De maneira pastoral e prudente, o escritor de Hebreus observa que um
relatório triste, ao invés de alegre, sobre a conduta espiritual dos leitores não será
vantajoso para nenhum deles.
Parte XXXXII
Evangelismo Ontem e Hoje
INTRODUÇÃO
Podemos aprender com a História da Igreja, ou ela nos serve apenas para
mostrarmos conhecimento livresco e ostentação de datas e nomes antigos? Foi
desta pergunta que surgiu o interesse em escrever sobre este assunto! O
evangelismo na Igreja Primitiva tem muito a nos ensinar hoje. Por que não
observarmos o mover do passado tirando dele lições preciosas para o presente? A
Igreja Primitiva tem muito a ver com o que pensamos sobre evangelismo na Igreja
Contemporânea!

I. OS RUMOS DO EVANGELISMO NA IGREJA PRIMITIVA E NA IGREJA


CONTEMPORÂNEA

Apesar de muitos pensamentos ao contrário, aquele foi o melhor momento de


Jesus vir ao Mundo. Mas, Roma não era a potência mundial? César não era o
“senhor” da época? Não havia pobreza e opressão por causa do Império ditador

257
vigente? A resposta é sim, é deve ser sim! Roma construía grandes estradas para
cidades circunvizinhas, onde o comércio se propagava com facilidade. Todo o
comércio era obrigado a caminhar pelas estradas de Roma. Foi a época da frase:
“Todos os caminhos levam à Roma”. Onde um Império destes beneficia o
Evangelho? A resposta é simples! Os evangelistas utilizavam-se das mesmas
estradas usadas pelos comerciantes para disseminar a Palavra de Deus. A
diferença estava nos propósitos de cada um, isto é, o comerciante ia pelo dinheiro,
já os evangelistas iam por Cristo. Um outro benefício disto, era que, para se viajar,
não necessitava-se de passaporte! Sabe-se até de um certo homem que viajou
para Roma 72 vezes, sem precisar de “burocracia” nenhuma.

O judaísmo foi, ao contrário do que alguns pensam, uma faísca que ajudou na
grande fogueira do cristianismo. Principalmente porque os judeus tinham grandes
privilégios para com os romanos, pois ficaram ao lado de César na guerra e, eram
fiéis à preferência deste Imperador, até os tempos da Igreja Primitiva. Os
romanos, inclusive, passaram até a admirar os costumes e religião dos judeus. E
isto foi causa até mesmo de grandes proselitismos e ajudas vindas deles (Lc. 7:5).

No Primeiro Século a.C., os filósofos começaram a disseminar o politeísmo


(embora crescem eles em algum tipo de monoteísmo). Porém, os judeus, que são
monoteístas, continuaram com sua crença e, por sua vez, conseguiram disseminá-
la também. Assim, na época da Igreja Primitiva, haviam religiões fundamentadas
nos dois princípios – monoteísta e politeísta.

Muitos romanos da época não aceitavam o judaísmo como religião por causa de
seus rituais, principalmente o da circuncisão, que achavam ser um ato de
selvageria. Mas, quando a circuncisão foi substituída pelo batismo nas águas, na
Graça, muitos começaram a aceitar a religião cristã. Num período onde as
religiões de “mistério”, onde as pessoas tinham que ser “iniciadas”, isto é, passar
por processos de “batismos” de aceitação e “pactos” de sangue, onde haviam
morte ou dor, de uma vítima ou do próprio iniciado, o Evangelho veio como um
refrigério, pois exigia-se do convertido, renúncia do “eu” (Mt. 16:24) através do
sacrifício já feito na cruz do Calvário, por Cristo Jesus, não necessitando o ser
humano fazer mais sacrifício ou penitência alguma! Isto era algo muito chamativo
para as pessoas da época, que apenas conheciam deuses carrascos e
extremamente exigentes! Sabe-se de uma religião daqueles tempos, por exemplo,
que a pessoa, para ser iniciada nela, devia deitar-se no chão, de barriga para
cima, e um animal era sacrificado sobre sua barriga, para que seus pecados
fossem perdoados! Os romanos se assustavam com a religião judaica porque
acabavam generalizando, achando que os sacrifícios deles também eram assim.
As religiões serviam para saciar o desejo de segurança espiritual dos homens,
principalmente a segurança após a morte. Mas, muitas delas, ofereciam medo
para adentrar-se nelas e ainda, após serem iniciados, os homens ainda ficavam
na incerteza, com tantas exigências rituais enquanto participavam das tais. Na
verdade, quando as pessoas adentravam as religiões da época da Igreja Primitiva,
seus pontos de interrogações e incertezas não diminuíam, ao contrário disto,

258
geravam mais dúvidas e indagações como: “estaríamos conforme as exigências
rituais religiosas prescritas na lei por nós seguidas?”; “estariam nossas atitudes
agradando as exigências de tais leis?”; “como consegue-se alcançar exigências
tão transcendentes sendo o homem tão falho?” O Evangelho, com seu sacrifício
perfeito – Jesus Cristo – conseguiu suprir todas as necessidades e incertezas
humanas, para aqueles que crêem (Hb. 8 – 10).

Percebe-se também a facilidade de se espalhar os ensinamentos de Cristo, pelo


fato de a língua grega ser uma língua quase que Mundial naquela época. Por
causa da helenização, a maioria das pessoas entendiam o grego, assim, podia-se
pregar o Evangelho em grego e ser entendido em quase todos os lugares
civilizados daquele período.

Desta forma, assim como Roma foi o berço de muitos filósofos ateus, contribuiu de
igual modo com a pregação do Evangelho. Vê-se isto até mesmo através da
tolerância e conservação dos judeus neste Império. Os judeus nunca foram
proibidos de terem sua religião por nenhum imperador romano. É certo que
houveram tempos onde os cristãos foram fortemente perseguidos por alguns
líderes romanos, mas isto, no fundo, contribuiu muito mais do que atrapalhou, pois
com a perseguição assirrada, houve uma disseminação maior dos cristãos pelo
mundo, pois quando havia afronta em uma região, os cristãos acabavam se
espalhando por outros lugares, levando consigo o Evangelho da Graça.

Enfim, na igreja contemporânea não temos de igual modo uma língua quase que
mundial como nos tempos romanos? Sim! O inglês, que é uma língua muito
conhecida por onde passamos (quase todo o mundo tem o inglês como língua
comercial). Ou ainda o espanhol (está em 84 países, também como língua
comercial). E isto, sem contar com os meios de comunicação de que dispomos na
atualidade, como a Internet. Se temos, atualmente, tanta chance quanto a Igreja
Primitiva teve de pregar o Evangelho a toda a criatura, se o evangelismo “Ontem”
e “Hoje” seguem rumos bem semelhante, o que estamos esperando?

II. O EVANGELISMO COM SUAS DIFICULDADES PRIMITIVAS E ATUAIS

Apesar de tantos benefícios, mostrados no capítulo anterior, haviam também as


dificuldades para se pregar o Evangelho na época da Igreja Primitiva! Muitas
vezes, achamos que só na atualidade existem as dificuldades! Achamos isto,
também, porque pensamos que se antigamente não havia tanta tecnologia, então,
talvez seria mais fácil as pessoas crerem em um mundo espiritual. Porém,
esquecemo-nos que nos tempos da Igreja Primitiva, a idolatria era predominante,
e havia se tornado parte da cultura religiosa do povo e que os únicos que tinham
liberdade religiosa eram os judeus, e ainda eram discriminados por isto! Nós,
diferentemente deles, temos liberdade religiosa apoiada pela nossa Constituição!
As pessoas de hoje que não crêem em Cristo, o fazem por liberdade, pior foi o
tempo onde não criam porque isto resultaria em discriminação e, em algumas
localidades, perseguição, sofrimento e até mesmo morte!
Os judeus acreditavam em um tipo de monoteísmo absolutizado em uma só

259
pessoa da Trindade. Neste tipo de monoteísmo, Jeová era visto como o Deus
solitário, sem ninguém que se equiparasse a Ele, nem que o Ser equiparado a Ele,
fosse de Sua mesma natureza. Para expor tal fato, necessita-se de argumentos
bíblicos bem apurados e, muitos dos que seguiam a religião judaica, eram bem
instruídos, em contrapartida, os cristãos eram bem pouco estudados! Por este
motivo, muitos dos principais e fariseus não criam no Evangelho. Isso não ocorre,
às vezes, também em nossa época? É claro que sim! Porém, a culpa agora é
nossa, pois temos condições de estudar para atingirmos tanto a doutos quanto a
indoutos em nossas pregações e, por motivos variados, não estudamos, não
pesquisamos, não crescemos “na Graça e no conhecimento” junto (2ª Pe 3.18), e
acabamos, em muitos lugares, só alcançando os indoutos! É claro que para a
pregação do Evangelho, o primordial são os valores espirituais, mas, os materiais
também contam. Não façamos da nossa “preguiça” ou “falta de vontade” um
estorvo à pregação das Boas Novas do Reino de Deus! Nenhum dos discípulos de
Cristo saíram a pregar o Evangelho sem antes serem preparados para tal.
Perceba-se que deixaram de ser chamados de “discípulos” (literalmente “alunos”
ou “aprendizes”) e só foram chamados de “apóstolos” (que significa “enviados”)
depois do período de aprendizado com Jesus Cristo! Chega de desculpas irmãos!
Vamos nos preparar, os “campos brancos estão para a ceifa” (Jo 4.35).

Outra dificuldade de se pregar o Evangelho naquela época, era pelo fato de que
os judeus sabiam que “o Cristo” havia morrido numa cruz. A cruz, segundo o livro
de Deuteronômio 21:22,23, era o lugar onde morriam os malditos e, para os
judeus, o Cristo nunca teria de passar por esta humilhação, aliás, para eles, o
Cristo não passaria por humilhação nenhuma! Esqueceram-se de ver em Isaías
53, que o Messias seria também o Servo Sofredor que levaria sobre Si a nossa
“maldição” através de Sua expiação. Eles achavam, ao contrário do que o próprio
Jesus ensinou, que Ele teria grandes poderes políticos, e nada disto aconteceu,
pois O Messias, na verdade, não seria o “rei do pecado”. O Império que realmente
subjugava a humanidade, não era o de César, mas sim o Império da Morte. Como
o Império da Morte estava em outra dimensão, no mundo espiritual, e isto acabava
prejudicando a esfera do material, Cristo aniquilou o mal pela raiz, pela causa, no
mundo espiritual, isto é, o Reino dele não foi deste mundo porque Sua luta foi
contra um reino que também não era daqui (Jo. 18:36; Hb. 2:14).

A perseguição ao cristianismo começou porque não eram os cristãos como os


religiosos judeus antigos. A única religião que poderia existir, para os romanos,
além da religião romana, era a dos judeus, o que diferenciasse destas duas, tinha
de ser examinada. Com isto, começaram a perseguir os cristãos, e a expulsá-los,
e quem também sofreu com isto, foram os judeus, pois os romanos achavam que
se o cristianismo havia surgido do judaísmo, estes também não poderiam
permanecer mais, porque haveria o risco dos judeus, como os cristãos, aderirem a
muitas outras crenças paralelas e excluírem as já existentes no Império Romano.
O cristianismo primitivo, ao que parece, era mais excludente que o judaísmo do
período, pois, os judeus viviam entre os pagãos romanos e até mesmo se
adaptavam ao governo de César sem muito problema, porém, o cristianismo não
aceitava os dias de festas pagãs, por isso não os comemorava e nem ia à praça

260
pública comemorá-las e, ao contrário do judaísmo, que esperava-se a pessoa vir
por si mesma e tornar-se um prosélito, o cristianismo por sua vez, ia até as
pessoas proclamando as Boas Novas e convidando-as a renunciarem todas as
práticas antigas, principalmente as práticas religiosas romanas. Perceba-se que os
pregadores primitivos “ia” às pessoas, não as esperava “vir” até elas. Isto é para
que percebamos como o Evangelho também encontrou dificuldades contra o
paganismo greco-romano, não tão diferente como hoje!

O culto greco-romano era realizado apenas por uma questão de cultura. Ninguém
queria saber se realmente haviam ou não os deuses aos quais adoravam e
serviam, simplesmente cultuavam sem inquirirem nada à respeito do que criam.
Os seus cultos eram apenas um ritual passado de geração-a-geração, e seguiam
apenas para não perderem as tradições. Era o famoso: “Nasci nesta religião e vou
morrer nela!” Seguiam os ritos, então, apenas por uma questão de tradicionalismo,
mas não porque era a verdade. Isto tudo era bem diferente do Evangelho, com
seus cultos calorosos e avivados. Cultos esses aos quais não prostravam-se
diante de imagens ou objetos considerados sagrados, mas sim, uma crença no
Deus que havia morrido e ressuscitado, e que estava ainda no meio deles por
intermédio do Espírito Santo.
Não seriam estas as dificuldades básicas de hoje também? Não temos atualmente
religiões bem semelhantes às judaicas e às romanas do período da Igreja
Primitiva? Não pregaram eles o Evangelho, apesar de tudo isto, a toda a criatura?
Se o evangelismo “Ontem” e “Hoje” encontra as mesmas dificuldades, e mesmo
assim eles conseguiram, o que estamos esperando?

III. A IGREJA PRIMITIVA E A DE HOJE NA EVANGELIZAÇÃO DOS JUDEUS

Se pregar o Evangelho aos desconhecedores de Deus já é difícil, imagine só


pregar o Evangelho àqueles que se julgam conhecedores plenos de Deus?! Isto
ocorreu com os primeiros cristãos em Roma. Lá, haviam muitos judeus que ainda
seguiam sua religião à risca, porém, poucos que realmente buscavam a Deus!
Aconteceu que, os que simplesmente seguiam a religião por motivo semelhante
aos romanos, apenas por tradição, não aceitavam de maneira nenhuma a Jesus
como Senhor e Salvador de suas vidas, pois eram fanáticos materialistas. Porém,
os que realmente buscavam a Deus, conseguiam enxergar a verdade sobre Jesus
e a Sua Salvação proporcionada na cruz. Quantas pessoas hoje, que você
conhece, seguem sua religião porque aderiram cegamente a ela? Quantas que
não querem ser alertadas, pois acham que aceitar a Jesus é trocar de “religião”?
O pior cego não é aquele que não quer ver? Esta era a situação dos judeus, como
também hoje ainda o é.

Os judeus materialistas esperavam – como ainda hoje – o Messias político, que


dominaria todo setor econômico, administrativo, legislativo e territorial do mundo
todo e cederia tudo a Israel. Um pensamento bem semelhante ao de Hitler quando
na época do “Holocausto”! O exclusivismo absoluto foi e é o grande problema do
judeu.

261
Esqueceram-se eles de seus próprios pecados e da necessidade primordial do
perdão de Deus para que o “Reino dos Céus” fosse manifesto em sua vida
espiritual. Queriam eles resolver um problema terreno e material olvidando o
espiritual (Mt. 6:33).

Os cristãos sempre usavam como fato e como prova de que Jesus era o Messias,
as promessas feitas por Deus aos profetas no Antigo Testamento. Fatos estes,
que nunca ninguém conseguiu refutar. Os judeus-cristãos mostravam que todas
as promessas cumpriram-se em Jesus, e com isto, conseguiram ganhar muitos à
Salvação. Porém, também perderam muitos, como já exposto anteriormente, pelo
fato de os judeus não aceitarem a idéia de que Jesus era o Messias tendo morrido
numa cruz. Não entendiam que Jesus não era maldito, mas sim, que tornou-se
maldição por nós (II Co. 5:21). Jesus ressuscitou ao terceiro dia, não como
maldito, mas como o Vitorioso, pois não recebeu o salário do pecado, que é a
morte, mas garantiu-nos o Dom gratuito de Deus, a Vida Eterna, vencendo as
ânsias da morte (Rm. 6:23).

Os judeus tentavam argumentar o fato de não ser Jesus o Messias, por intermédio
de muitas afirmações que diziam não ter respostas, porém, quando chegavam à
ressurreição de Cristo, não havia como negar, Ele realmente ressuscitara, andou
entre seus discípulos por espaço de quarenta dias (At. 1:3) e apareceu a mais de
quinhentos irmãos (I Co. 15:3-8). Não somente isto levava os judeus da época a
se calarem diante da Verdade, como também, toda a vida de Jesus, onde não
houve sequer uma profecia que não foi cumprida Nele, e onde não houve pecado
algum (Mt. 26:56: Jo. 8:46).

Os judeus reclamavam também o fato de os cristãos usarem os mesmos livros do


judaísmo (a Lei e os Profetas). Diziam que haviam sido roubados, porém, os
cristãos diziam que os judeus não davam o valor correto à Palavra de Deus, e
provaram isto com passagens como “o bezerro de ouro”, “as murmurações no
deserto”, etc. A Palavra de Deus não é de cunho exclusivo e particular, mas, para
todos os que crerem (Rm. 1:16,17).

Muitos, no decorrer da história, disseram que apesar desta briga judaica contra o
cristianismo, na verdade, são ambas as religiões a mesma coisa. Disseram até
mesmo que Jesus foi uma tolice judaica seguida por pessoas sem escrúpulo e que
não raciocinam. Porém, tolices não permanecem por tanto tempo sem serem
desmentidas, e Jesus permaneceu, firmando ainda a Sua Igreja para continuar
disseminando a Verdade através da pregação do Evangelho a todos os povos (Mt.
28:18-20).

Se as dificuldades na evangelização dos judeus e das pessoas semelhantes a


eles foram superadas pela igreja de “Ontem”, podem, de igual modo, ser
superadas na igreja de “Hoje”. O que estamos esperando?
IV. A IGREJA PRIMITIVA E A ATUAL NA EVANGELIZAÇÃO DE TODOS OS
POVOS EM TODAS AS CULTURAS E RAÇAS

262
O Evangelho tem uma mensagem que alcança todo tipo de coração. E isto foi
mostrado desde os tempos de Jesus até aos nossos dias. Percebemos na História
da Igreja Primitiva que o Evangelho foi bem recebido pelos gentios, pois estes
eram comumente considerados como sem valor pelos judeus tradicionais da
época. Os gentios eram tratados como servos, eram humilhados e sofriam para
que outros se alegrassem. É aí onde o Evangelho foi de encontro às necessidades
deles! Imaginem só um Deus que já havia passado pela situação de servo, sendo
humilhado, que sofreu para a alegria de muitos, enfim, que conhecia de perto o
que eles passavam?! Este era o Deus que precisavam!

Antioquia foi o início de tudo. Ali aconteceu a primeira faísca que acendeu a
grande fogueira da evangelização mundial. Parece que a grande dificuldade
encontrada por eles, foi apenas a tradução do Evangelho para as línguas dos
povos evangelizados. Não a tradução somente das palavras mas principalmente a
tradução das idéias. Existiam palavras escritas nos originais, ou em suas cópias,
que não eram muito convenientes entre os gentios, pois traziam sentido estranho
quando traduzidas literalmente. Mas, graças a Deus, muitos eruditos da época,
como também os contemporâneos, passaram a traduzir as Escrituras de forma
mais empática. Isto gerou uma boa recepção do Evangelho entre os intelectuais e
os escravos.

Um outro motivo pelo qual o Evangelho era bem aceito, foi o medo dos demônios
que os gentios tinham, principalmente os que seguiam religiões animistas.
Percebendo que pelo nome de Jesus os demônios eram expulsos, e não através
de sacrifícios aos espíritos, encontraram segurança na mensagem cristã,
facilitando a aceitação de Jesus Cristo como único e suficiente Salvador. Para que
outros deuses ou intermediários, pensavam, se Jesus era Todo-Poderoso e Auto-
Suficiente contra os ataques dos maus espíritos?
Os primeiros cristãos, ao que percebe-se, lutavam principalmente contra a
idolatria. Tudo o que tivesse apenas aparência de idolatria era de imediato
abandonado por eles. Um exemplo claro quanto a isso foi a perseguição de Nero
aos cristãos que não declaravam que o Imperador era “Senhor” (Kyrios no grego).
Os primeiros cristãos consideravam que se chamassem César de “Senhor”
estariam tirando o senhorio absoluto de Jesus Cristo! Isto lhes seria abominável! É
claro que historicamente falando, César não exigia apenas a proclamação dele
como “Senhor”, mas, como mostra-nos historiadores como Eusébio de Cesaréia,
exigia até mesmo sacrifícios e cultos a ele mesmo. Estes primeiros cristãos
sabiam que toda e qualquer semelhança com o mal prejudicaria suas vidas,
concernente à salvação, como também a proclamação do Evangelho. O que
estamos esperando para sermos diferentes também em nossa época?

O cristianismo sempre foi ousado! Sempre se arriscou! E isto fez com que o Reino
dos Céus lucrasse. Os cristãos primitivos se arriscavam bastante, mesmo que
olhando para as lutas impostas pelo mundo. Com tudo isto, Jesus foi anunciado
até os confins da terra, pois a Palavra de Deus nunca volta vazia. As tribulações
que pareciam servir de derrota para a mensagem cristã, foram na verdade usadas
por Deus como meio para chamar a atenção de todos os povos ao Evangelho. Os

263
mártires cristãos, que talvez até pensavam alguns que tornariam-se em escândalo
para as pessoas da época, exterminando até mesmo o desejo de servir a Cristo
dos que assistiam seus martírios, acabaram por incentivar muitos que iam nas
arenas para ver sangue e sofrimento por diversão, a também aceitarem o Grande
e Único Deus – Jesus Cristo – por Quem esses homens e mulheres corajosos
morriam! Ninguém morreria por uma farsa, por um deus que não fosse menos do
que o Único e Verdadeiro! Isto não aconteceu com os japoneses Kamikazes e
nem ocorre com os muçulmanos, pois os que morriam por Cristo sabiam que não
eram eles mesmos quem impetravam sobre si a morte, mas que eram levados ao
matadouro para serem oferecidos como oferta com cheiro suave ao Deus que
tudo aquilo permitia por causa de seu Plano Eterno da Salvação. Não morriam
para serem salvos, porque já eram salvos em Cristo Jesus! Não morriam para
salvar, pois sabiam que eles mesmos necessitaram da salvação outorgada por
Cristo no Calvário.

V. A CONVERSÃO NA IGREJA PRIMITIVA E NA ATUAL

A conversão foi uma questão difícil de conscientização para os primeiros séculos


da Era Cristã. Foi um assunto que levou muitos pensadores a quebrarem a
cabeça sobre a natureza dessa exigência. Tudo ficava mais difícil ainda de se
compreender quando falava-se em batismo nas águas! Alguns pensavam que este
ato de batismo era como as iniciações feitas nas religiões de mistério da época.
Haviam também os que achavam que o batismo tinha um certo poder mágico que
capacitava as pessoas a alcançarem a salvação. Em nossa época, não muito
diferente dos primeiros séculos do cristianismo, também devemos trabalhar a
compreensão das pessoas quanto ao valor do batismo nas águas. Saber explicar
que tal ato não salva, mas sim, que é para os salvos é de fundamental importância
às nossas igrejas.
A pregação dos nossos primeiros evangelistas não era extremista quanto a
questões de costumes, não visavam ganhar o povo pela emoção, fazendo com
que dessem passos no escuro, fazendo uso abusivo da palavra “mistério”, sem a
real compreensão e conscientização da Verdade. Os filósofos ensinavam que as
pessoas não podiam dar “passos no escuro”, referindo-se às religiões que
pregavam uma fé cega, onde as pessoas seguiam suas crendices sem ao menos
terem explicações um pouco mais concretas do “por quê” as seguiam!
Diferentemente de tais religiões cegas, Jesus não é só uma Luz, mas um Farol
aceso nas densas trevas do pecado. Os primeiros evangelistas pregavam com a
ajuda do Espírito Santo, que fazia com que as pessoas aplicassem e
compreendessem o Evangelho em suas próprias vidas. A pregação do Evangelho
era a luz num caminho de trevas, e não uma porta de mistérios às muitas dúvidas!
O Evangelho explica, e não complica a vida do ouvinte.

Hoje, infelizmente, alguns têm como visão primordial na pregação do Evangelho o


emocionalismo. Muitas igrejas não são mais o veículo do Evangelho para a
salvação das almas, mas sim, “o Clube do Bolinha”, onde procuram somente
evidências pessoais visíveis e materialistas da “presença” de Deus, e quem não
consegue tais evidências, por favor, se quiserem participar de outro grupo, quem

264
sabe “o Clube da Luluzinha”, façam o favor! Acreditem se quiser, existem igrejas
onde a frase que mais se ouve do púlpito é: “Quem não quiser seguir a nossa
cartilha, a porta da rua é a serventia da casa!” O interessante é que Jesus não
ordenou à Sua Igreja seguir cartilhas de homens, mas Sua Santa Palavra – A
Bíblia Sagrada, como vemos em Marcos 7:

Então os fariseus e os mestres da lei perguntaram a Jesus: “Por que os seus


discípulos não vivem de acordo com a tradição dos líderes religiosos...?” Ele
respondeu: “Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está escrito:
‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em
vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por
homens’. Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às
tradições dos homens”. E disse-lhes: “Vocês estão sempre encontrando uma boa
maneira de pôr de lado os mandamentos de Deus, a fim de obedecerem às suas
tradições!... Assim vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que
vocês mesmos transmitiram. E Fazem muitas coisas como essa”. (Mc 7.5-9,13)

A conversão é uma mudança total de vida. É nascer de novo. O batismo não é


objeto salvador, mas selo de autenticação da Salvação, pois, tomando o lugar da
circuncisão outorgada por Deus a Abraão, ao qual sabemos que não foi justificado
por esse ato cerimonial e figurativo, mas pela fé, do mesmo modo, o batismo é
para quem já é salvo, para quem já foi justificado por Cristo Jesus.
Muitos pensadores da época da Igreja Primitiva se converteram a Jesus Cristo.
Tais conversões não se baseavam no emocionalismo, como também não tinha
uma visão materialista. Quando tais pessoas se convertiam, era porque
compreenderam e assimilaram Jesus Cristo como o Único e Suficiente Salvador.
O que salva não são os rituais, as iniciações, o Rock in Roll Gospel, o barulho
pentecostal, as profecias, etc., mas o que leva as pessoas à Salvação, é a
pregação genuína da Palavra de Deus, pois “...a fé vem por se ouvir a mensagem,
e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo.” (Rm 10.17).

O autor Jorge A. Leon, em seu livro “La Comunicación Del Evangelio en el Mundo
Actual”, afirma que: “1º A evangelização deve ser tensora – o ponto em que a
pessoa se decide por Cristo; 2º Deve haver constante evangelização, tanto para
os que não conhecem a Cristo, como àqueles que já conhecem, devido
exatamente às conversões erradas.”
VI. O ENTUSIASMO DOS EVANGELISTAS DE ONTEM E DOS DE HOJE
Os evangelistas da Igreja Primitiva usavam um meio muito eficaz na proclamação
do Evangelho: seus próprios testemunhos de vida. Eles não somente pregavam o
Evangelho – eles eram o Evangelho. Eles não somente pregavam a mensagem da
cruz – eles tomavam cada um a sua cruz. Não somente pregavam a Jesus Cristo
– eram verdadeiros imitadores de Cristo.

A pregação do Evangelho não estava limitada apenas aos homens. As Sagradas


Escrituras mostra-nos que mulheres valorosas também tomaram parte nessa
missão mundial ordenada por Cristo. Os evangelistas do primeiro século
pregavam o Evangelho com toda a ousadia, mesmo que para tal fosse preciso

265
perder a própria vida! A vida dos evangelistas era um grande exemplo de fé,
coragem e desprendimento material. Sua devoção fazia com que outros se
contagiassem e acabassem também se convencendo de que Cristo é real e
verdadeiramente ressuscitou!

Havia entre eles uma comunhão muito grande. Ninguém naquela época passava
necessidades enquanto outros tinham de sobra, pois todas as coisas eram
comuns entre eles. Quem tinha muito, não suportava ver o sofrimento do que nada
tinha! Como já ouviu-se em um hino cristão, éramos conhecidos pelo amor. Muitos
até diziam: “Vejam como se amam!”, mas infelizmente hoje, somos conhecidos de
forma diferente. Atualmente ouvimos pessoas dizendo: “Vejam com se separam!”

O caráter dos cristãos daquela época era totalmente modificado. Enquanto isso,
muitos evangelistas de hoje não ensinam que o “barro” deve ser moldado pelo
“Oleiro”. Muitas vezes tentamos encaixar a Palavra de Deus em nossas maneiras
mesquinhas e exclusivistas de viver, e ainda chamamos a isso de liberdade cristã!
Porém, não somos livres para fazer o que quisermos da maneira que queremos,
como se houvesse um tipo de ética cristã individualista. Somos livres para
servirmos a Deus através da “Ética Absoluta Univérsica” por meio de Sua Palavra.
Além de tudo, os primeiros cristãos eram felizes, mesmo numa arena cheia de
leões famintos querendo devorá-los, envoltos em faixas embebidas em azeite ou
piche amarrados a um poste pegando fogo, ou em qualquer outro lugar de
martírio. Eles sentiam-se lisonjeados quando surrados por causa da fé cristã. A
alegria deles, mesmo diante de tais circunstâncias, fazia com que muitos
espectadores se convertessem ao Evangelho.

Os evangelistas eram pessoas perseverantes. Não se deixavam vencer


facilmente. Não ouvia-se de suas bocas nenhum tipo de murmúrio ou reclamação
por estarem sofrendo. Diferente de alguns contemporâneos a nós, participantes da
“geração microondas”, onde tudo é imediato, da “geração procon”, onde Deus é a
loja e nós os consumidores insatisfeitos. Muitas teologias baratas nos são
ensinadas por alguns televangelistas, tentando nos mostrar que cristianismo é
somente riquezas e alegrias externas. Acham que Deus está somente nos
prazeres da vida. Enquanto os evangelistas da Igreja Primitiva mostravam que
somos peregrinos na terra, e que as demais coisas nos seriam acrescentadas
conforme a necessidade real e a vontade de Deus, muitos evangelistas atuais
tentam nos convencer de que esta terra é um lugar definitivo e que nossa maior
alegria está em tirarmos o maior proveito daqui.

Preguemos com a convicção e com o entusiasmo que pregaram os evangelistas


da Igreja Primitiva. Não estamos aqui ensinando “primitivismo”, mas relembrando
o que fez a Igreja Primitiva de positivo. Se a História da Igreja não nos servir de
apoio para a conscientização, então nunca passará de uma matéria técnica onde
guardamos apenas nomes e datas. Não façamos da vida cristã uma monotonia,
através de nossas tradições dogmatizadas. Nosso Deus não depende do tempo,
mas também não significa que Ele seja um Ser “anacrônico”. Quando aquelas
mulheres foram ao sepulcro de Jesus, viram que Ele não estava lá, isto é, Ele está

266
vivo, não é Deus de mortos!

O Evangelho deve ser para nós o que foi para os primeiros evangelistas: a razão
da estada da Igreja aqui na terra, a razão de sermos luz, sal e imitadores de
Cristo. O Evangelho deve ser uma chama ardendo em nossos corações, e o amor
às almas a lenha que ajuda esse fogo a queimar!

VII. MODOS DE PREGAÇÃO DA IGREJA PRIMITIVA E CONTEMPORÂNEA

Os evangelistas da Igreja Primitiva não faziam grandes congressos evangelísticos


com temas pré-determinados. Não que isto seja errado. Apenas lembramos que
muitos evangelistas contemporâneos ocupam-se de tais coisas como se o foco
principal dos grandes congressos fosse a satisfação pessoal do pregador e a dos
crentes que lá estão. Parece que alguns congressos evangelísticos
contemporâneos são mais congressos “evangelásticos”, onde o intuito é juntar a
maior quantidade de pessoas que puderem, e o pior, só vai crente, e não almas
perdidas para serem ganhas pela pregação do Evangelho.

Os primeiros evangelistas da História da Igreja, evangelizavam através de


métodos dados por Deus. Um desses métodos era a evangelização ao ar livre.
Método este bem improvisado. Este tipo de evangelização era feito em locais onde
não eram de uso exclusivo para pregadores, mas sim, locais improvisados na
hora, por uma mente fértil e preocupada não com a aparência, mas com as almas.
Não faziam isto apenas como tarefa, como algumas igrejas contemporâneas que
marcam seus cultos ao ar livre apenas para depois ficarem se gabando de que
fazem isto enquanto outras não. Escolhiam lugares não evangelizados e levavam
a Igreja ao povo, mas já que seria mais difícil o povo ir à Igreja. O evangelismo ao
ar livre pode ser improvisado na polpa de um barco, em uma montanha, em uma
carruagem, na carteira de uma escola, na mesa de uma casa, na poltrona de um
ônibus, etc.

Em muitas de suas pregações, davam lugar também à profecia, mas, mas


percebe-se que essas eram totalmente baseadas nas Escrituras Sagradas (Is
8.20). Quando alguém era usado no dom de profecia, não se via Deus
prometendo carro, casa, boa situação financeira, marido, dor de cabeça, etc. A
profecia tinha em sua essência a vontade salvadora de Deus na vida do ser
humano. E isto, porque “quem profetiza o faz para edificação, encorajamento e
consolação dos homens” (1ª Co 14.3), e não para a mera satisfação material,
passageira e individualista de cada um!

Na verdade, a pregação teve um valor imensurável na Igreja Primitiva. E para tal,


o ensino foi um método muito utilizado por eles pois, tinham em mente que o
Evangelho deveria ser compreendido e não seguido cegamente como se fosse
uma religião de mistérios só para “iniciados”. Entristece perceber que hoje alguns
preocupam-se só com barulho, esquecendo-se da eficácia regeneradora do
Evangelho. A evangelização pelo método do ensino não produz pessoas que
sempre necessitarão de alguém para ser uma “muleta espiritual” para fazê-las

267
caminhar. O ensino produz na vida do ser humano a fé e o sustento necessário
para que nos tornemos discípulos e discipuladores. O ensino evangelístico mostra
o que Deus quer de cada um e o que quer da sociedade evangélica: um corpo
bem ajustado, pela ligação de cada uma das partes.

O testemunho da Obra Salvadora de Cristo feita em suas vidas também era um


meio de evangelização. Era o método evangelístico que mostrava a prova de que
o que pregavam realmente era verdade. Os lares eram pontos estratégicos do
evangelismo. Quando se ganhava uma alma em um lar, principalmente quando se
tratava do cabeça da família, este poderia evangelizar o restante da casa, através
de seu testemunho pessoal. Contudo, quando era a esposa quem aceitava a
Cristo, e não o marido, normalmente passava por grandes lutas quando este não
simpatizava com o Evangelho. Mas isto não era um fator impedidor para essas
mulheres valorosas, porque lembravam-se das palavras de Cristo dizendo-lhes a
que amassem mais a Ele do que a família.
O evangelismo pessoal teve destaque nos primórdios da Igreja. Os amigos e os
familiares eram os ouvintes. Esses evangelistas não se preocupavam somente
com a quantidade, pois uma única alma tinha um valor extraordinário. Felipe e o
Eunuco de Candace foram um exemplo disto. Hoje, porém, o que importa a alguns
é o “movimento” e não o “avivamento”. E avivamento, em seu sentido real, parece
ser “geração de novas vidas na igreja” e não “barulhão” de velhos crentes da
igreja.

Enfim, o último método utilizado que descreveremos aqui, apesar de muitos outros
utilizados pela Igreja Primitiva, foi o da evangelização literária. Um tipo de
evangelização diferente da oral, no sentido que não mudava-se o teor da
mensagem quando era passada de pessoa a pessoa, pois o que está escrito não
se muda. A escrita foi um método que muito ajudou, e ainda ajuda, a examinar-se
com detalhes o quer-se dizer com a mensagem. E isto de uma maneira bem mais
hermenêutica, pois temos o texto ali diante de nós para inquirirmos sobre ele. Os
crentes de Beréia por exemplo foram evangelizados por tal método, ao que
parece! Porque não conhecermos mais a Bíblia para podermos fazer como o
apóstolo Paulo diante do povo bereano? Qual o valor dado ao estudo minucioso
da Palavra de Deus em cursos e seminários pelos nossos atuais evangelistas?
Esperamos que a resposta seja positiva!

VIII. A MOTIVAÇÃO PARA SE PREGAR O EVANGELHO ENTRE OS


PRIMEIROS EVANGELISTAS ERAM AS MESMAS DOS DE HOJE?

Todas as pessoas têm motivações para fazerem algo! Então, os primeiros


evangelistas da Igreja tiveram suas motivações para evangelizar o mundo de sua
época. Quais eram tais motivos? Em primeiro lugar, eles eram motivados pelo
sentimento de gratidão. Eles sabiam que Deus havia provado Seu amor para com
eles, que sendo ainda pecadores, enviou-lhes Seu Único Filho para morrer pela
humanidade, incluindo eles! Assim, percebiam que a Graça de Deus era manifesta
em suas vidas. Era favor imerecido! Com isto, em forma de agradecimento,
levavam o Evangelho a toda criatura, até os confins da terra, nem que isto lhes

268
custasse a vida! Eles tinham sentimento agradecido pela salvação até mesmo
diante de uma perseguição ou agravos físicos sofridos nesta vida. Não
murmuravam, não reclamavam a vida financeira, dos cultos que não estavam
como eles queriam, a falta de um meio de transporte para levá-los aos locais de
evangelismo, etc. Parece que mesmo diante de muitas dificuldades, se lhes
perguntássemos como estavam passando, a resposta seria: “melhor do que
mereço”!
A segunda motivação era o sentimento de responsabilidade. Eles sabiam que
eram os “atalaias” de Deus. A função do atalaia era ficar de guarda no ponto mais
alto dos muros do reino. Conforme o toque de sua trombeta o povo se comportava
de maneira diferente. Por exemplo, se o atalaia percebia que um reino inimigo se
aproximava, tocava a trombeta no ritmo de guerra para que o povo se preparasse
para tal. Se fosse uma visita cordial de um reino amigo, o toque da trombeta seria
em ritmo amistoso, e assim por diante. Os evangelistas dos primeiros séculos
tinham semelhante responsabilidade concernente à pregação do Evangelho.
Sabiam que se eles não dessem o “sonido da trombeta” ou se este fosse incerto,
muitas pessoas seriam dizimadas ao inferno. Toquemos a trombeta em Sião!
A terceira motivação era o sentimento de preocupação, que é semelhante ao de
responsabilidade. Eles preocupavam-se com o futuro das pessoas. Não o futuro
temporal, com o que se vestiriam ou o que comeriam. A preocupação primária
deles era com a eternidade do ser humano. Por causa disto alguns até acham que
os evangelistas da Igreja Primitiva tentavam ganhar as pessoas através do medo
quanto a vida após a morte, mas não era esta a causa do evangelismo deles –
ganhar as pessoas – como se fosse um jogo de quem convence mais. Não é uma
questão de quem tem mais seguidores, de qual a maior religião do mundo, mas
sim, uma questão de amor e compaixão pela vida do próximo. É uma preocupação
que vem pelo fato de sabermos o que o futuro sem Cristo reserva para a
humanidade descrente. Eles choravam com os que choram. Não se conformavam
em saber que seu Imperador, seu vizinho, seu irmão, seu pai ou mãe iriam para o
inferno! Sabiam que isto era um fato, e não um “conto de fadas”. Será que muitos
de nós, atualmente, não nos acomodamos a ponto de sermos passivos quanto a
salvação do próximo? Moisés colocou sua vida em risco por causa de um povo
pecador! Não colocamos nem mesmo nosso tempo, nosso nome, nossa vida
financeira, nosso cargo eclesial, etc. em risco por causa de uma alma. Será que
não seremos culpados de muito sangue? Não estaria na hora de despertarmos do
sono? Não está na hora de pregarmos o Evangelho a todo o mundo?
O mundo, às vezes, não está tão longe de nós! Pode estar em nossa volta, isto é,
no serviço, na escola, na rua, ou mesmo em nossa casa. Evangelizemos a tempo
e fora de tempo. Mas, preguemos a Palavra de Deus, e não conceitos humanos,
passageiros e exclusivistas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A história deve servir-nos como alerta. O que aconteceu de ruim no passado deve
valer-nos como disciplina para não mais errarmos como antes. O que aconteceu
de bom deve servir-nos como auxílio para a compreensão de nossa tarefa e para
que possamos continuar a desenvolvermo-nos na “economia divina”. A História é

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linear, e não circular como pensa as religiões orientais. Assim, devemos sempre
nos perguntar: como posso melhorar na linha do tempo? Olhando a linha e
aprendendo através dela parece ser um bom começo!

O evangelismo de “Ontem” pode auxiliar bastante no desenvolvimento e no


aprimoramento do evangelismo de “Hoje”. A nossa História não é uma História
Sem Fim. Vivemos a História promulgada por Deus: a História com começo, meio
e fim. Não sejamos meros espectadores da História da Humanidade. Deus nos
conclama a participarmos dela com mais responsabilidade. Que o “Ontem” de
desperte para “Hoje”, pois devemos nos preocupar com o “Amanhã”!

NOTA BIBLIOGRÁFICA

CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 1999;
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1995;
GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova,
1989;
LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. 1ª ed. São Paulo: Exodus,
1997;
PENHA, João da. Períodos Filosóficos. Série Princípios. 3ª ed. São Paulo: Ática,
1994.

Estude com fé depois de ter terminado os seus estudos, envie seu questionário
com as respostas devidas para o endereço de e-mail: teologiagratis@hotmail.com,
se assim quiser, logo após respondido e corrigido o questionário, alcançando
media acima de 7,5, solicite o seu Lindo DIPLOMA de Formatura e a sua
Credencial de Seminarista formado, também poderá solicitar estagio missionário
em uma de nossas igrejas no Brasil ou exterior traves da Federação Internacional
das Igrejas e Pastores no Brasil ou Fenipe, que depois do Estagio se assim o
achar apto para o Ministério poderá solicitar a sua ordenação por uma de nossas
organizações filiadas no Brasil ou no exterior, assim você poderá também receber
a sua Credencial de Ministro Aspirante ao Ministério de Nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo. Esta apostila tem 270 pagina boa sorte.

Sem nadas mais graça e Paz da Parte de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo
bons estudos.

Reverendo Antony Steff Gilson de Oliveira


Pastor da Igreja Presbiteriana Renovada de Nova Vida
Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou Fenipe

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