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REDES DIGITAIS E A CULTURA DA AUTONOMIA: INTRODUGAO A EDIGAO DE 2013* © argumento central apresentado neste livro é que as relagdes de poder, base das instituigdes que organizam a sociedade, sto amplamente construfdas na mentalidade das pessoas através de processos cle comunicagao. A moldagem de mentalidades é uma forma mais decisiva e duradoura de dominagao do que a subordinacéo de grupos pot intimidacdo ou violencia, Praticas de comunicacdo jincluem a comunicacao interpessoal e a comunicagio mediada. Na escala so- cietal, éa comunicagao mediada que constitui o ambiente simbélico no qual as pessoas recebem, processam enviam os inais que produzem sentido em suas vidas. A dindmica ¢ 0s efeitos da comunicagao mediada dependem da cultura, a organizagdo e da tecnologia de sistemas de comunicayao especificos. Além disso, a transformagao da comunicacio pelo advento da comunicacao digital, ‘eas correspondentes mudangas na organizagao e na cultura modificaram profundamente os modos pelos quaisas relagdes de poder operam; argumento {que é compativel com as evidéncias reunidas neste livro. (A TRANSFORMACAO DA COMUNICACAO NA ERA DIGITAL ‘Atransformagao mais importante na comunicagao nos tltimos anos foi tran sigio da comunicacao de massa paraa intercomunicacio individual, sendo esta iiltima o processo de comunicacdo interativa que tem o potencial de alcangar ‘uma audigncia de massa, mas em que a produgéo da mensagem ¢ autogerada, ‘a recuperacio da mensagem é autodirigida, ea recepgao e a recombinagao do contetido oriundo das redes de comunicagao eletrénicas sio autosselecionada. Organizacionalmente, a ascensio da comunicagao de massa unidirecional, *‘Traducdo de Thiago Ponce de Moraes. © Poper pa Comuntcagio | 29 essa defesa. Entretanto, os problemas do WikiLeaks nao estavam resolvidos, tuma vez que seus servidores sofreram uma série de ataques de negacdo de servico, presumidamente por parte dos servigos de inteligéncia dos governos pelo mundo, Tentou-se, ento, a mudanga de seu website para os servidores da Amazon, experiéncia que teve vida curta, jé que a Amazon acabou se jun- tando aos ataques corporativos ao WikiLeaks ¢ 0 removeu de seus servidores, supostamente por violagio de leis de direitos autorais. Em seguida, 0 WikiLeaks: se mudou para 0s servidores da OVH, um servigo de hospedagem privado na Franga. O governo frances imediatamente se movimentou para requerer uma ordem judicial que declarassea mudanga ilegal. No momento de sua prisioem 2010, Assange estava considerando realocar as operagoes na Suiga ena Islandia, pafses que ofereciam uma melhor protegao legal ‘A ameaca sentida pelos governos e corporacdes do mundo inteiro em resposta as atividades do WikiLeaks nao é nada menos que extraordinaria. Em uma série de ataques coordenados internacionalmente, Assange foi pes- soalmente o alvo, servidores ficaram sob ataque cibernético, companhias que apoiavam foram pressionadas pelos governos, companhias de seguranga cibernética foram contratadas para penetraras fontes do WikiLeaks ¢ o finan- ciamento foi completamente cortado quando as empresas Visa, MasterCard ¢ Paypal se recusaram a processar as doacGes. A razéo por tris dessa reagao furiosa dos governos e corporagdes parece ser que milhares de documentos confidenciais obtidos e divulgados pelo WikiLeaks forneceram uma perspec- tiva privilegiada do que governos e corporagdes realmente fazem enquanto estio fora do alcance de visdo dos cidadas e clientes. Como o poder ¢ baseado no controle de informacao, que requer sigilo, a reivindicagao de livre acesso informagio como direito constitucional ameaga as proprias raizes do poder no alto escalao da sociedade, Entretanto, aferocidade desse ataque multifacetado nao obteve sucesso em acabar com o WikiLeaks ou em parar com suas campanhas contra irregulari- dades politicas e corporativas pelo mundo, que vio de corrupsao a abusos 10s direitos humanos (incluindo assassinatos “egais” e torturas), e de destruigda ambiental a censura mididtica. Isso se deu porque as redes de defensores da internet livre se uniram a batalha, tendo o Anonymous e sua legido de hackers cativistas na dianteira do combate. Quanto questdo financeira, ap6s o Paypal ter parado de processar as doacdes 20 WikiLeaks em 2010, o financiamento efetivo que chegou ao WikiLeaks equivalia a um tergo do que eles tinham recebido em 2009. Dessa maneira, em 2011, 0 WikiLeaks comecou a receber doacdes por meio da Bitcoin, uma nova rede de financiamento alternativo noe Estados Unidos. O judicidrio istandés também proteyen 0 WikiLeaks contra as priticas de confisco da companhia Valitor, que eetave i doacdes. Kin junhe de 2012, 0 Wilkileakyy & Heltah fal velwenielo wlgurnas daw som a Fundo de Defesa da Neutralidade da Rede (FDNR) para canalizar as contribuigdes feitas a eles por meio do grupo Carte Bleue, sob uma protecto ‘contratual legal que impediria a interferéncia das empresas MasterCard e Visa fins transagdes, ‘Além disso, estando o WikiLeaks sob ataque incansavel e Assange isolado ‘hums sala da embaixada de Londres, 0 modelo de informacio independente iclidlo pelo WikiLeaks foi difundido em uma série de novas organizacdes. do ora da livee comunicagao digital, tais como a Friends of WikiLeaks, uma twile social para apoiadores do WikiLeaks, iniciada em dezembro de 2011; a IWjusiels Leaks, uma rede de ativistas e jornalistas que pretendiam “jogar os {eesnismos obscuros internos do sistema da Unio Europeia no dominio illico’; 0 PPLeakse o PSOBLeaks, que tinham como objetivo expor 0s escan- alow requentes nos dois maiores partidos espanhéis, o Partido Popular e 0 ‘0H €o TradeLeaks, criado por Ruslan Kogan, na Austrélia, para “fazer com ‘08 € com o comércio o que o WikiLeaks fez com a politica”, Hé também o NoLeaks, queaspiraaimplantaro modelo do WikiLeaks na Russia, O Indoleaks, que tein como alvo o governo indonésio. O Leakymails, que tem como foco * iwouperagio a difusao de informacdes sobre corrupcao da classe politica WWoAygentina, além de varias outras redes locais e regionais “tipo WikiLeaks” hi Fstaclos Unidos e no Reino Unido estarem colocando as elites locais sob a ‘#idlise piblica. De fato, todo més organizacées de noticias alternativas estio ‘Wiyindo, geralmente tendo muito menos preocupagio com a seguranca, em cia com o crescimento dos movimentos sociais criticos na Era da In- el os quis o WikiLeaks, 0 Anonymous e uma miriade de redes hackers \vas € presentes. No entanto, 0 WikiLeaks foi contido em sua capacidade de expor infor- wien woullas que os cidados deveriam tomar conhecimento por meio da Wisiaqv le repressdo global e procedimentos de controle interno elevados overnos © corporagdes. Desa maneira, enquanto a pratica do sigilo ‘sqntinnia, uima vex que esta no cerne do poder, os poderosos agora vivem sob 0. eri ate de serem vigiados por redes auténomas, independentes de seu siiyle, Quando os inspetores milenares passama ser também inspecionados, * orque tly fundamental se modificou nas relagdes de poder da era digital. y onan Ih) QMNET f O8 MOVIMENTOS SOCIAIS EM REDE Hive 4010.8 201), unr ourte perianto adv a publicagto deste livro, inespera- dasivente, wiyion yranctos mavimen m pelo mundo, da Whine A Twuisla ¢ outa &inalor p Expanba soz Ynys van | ap Estados Unidos, ¢ a milhares de cidades (aproximadamente mil somente nos Estados Unidos) em mais de cem paises. ‘As razdes € os resultados desses movimentos ainda séo muito diversos. No Ocidente, eles foram motivados por protestos contra a mé administragao governamental da crise financeira de 2008-12; nos paises érabes, por uma combinagao de crise alimentar e rejeico de regimes ditatoriais. Mas, em todos os casos, havia um sentimento individual e coletivo de indignagao em relagdo & injustica social e & humilhagdo fomentadas pela arrogancia da classe politica. Além disso, hé um padrao amplamente comum que transcende os contextos cultural e institucional. Para identificar esse padrao, vou contar coma pesquisa de campo que conduzi junto a uma rede de colaboradores na Espanha, nos Estados Unidos, na Europa e nos paises arabes, bem como com uma variedade de fontes secundérias, incluindo relatos postados na internet. Os resultados dessa pesquisa séo apresentados no livro Redes de indignagdo esperanca (Castells, 2012), a0 qual recorro para obter o suporte empirico € a elaboracdo teérica sobre a andlise apresentada neste texto. Os movimentos sociais que estudei, bem como outros que aconteceram ao redor do mundo nos anos recentes, compartilham uma série de caracteristicas comuns que podem ser mais bem entendidas em conexao com a teoria do poder e do contrapoder proposta neste volume. Cada um desses movimentos sociais recentes esta conectado de miltiplas formas, € 0 uso da internet e das redes de comunicagdo méveis foram essen- ciais para sua organizacio, Cada movimento se iniciou nas redes de internet, ¢ seus membros continuaram a debater ea mobilizar pela internet muito tempo apés a midiaacreditar que os movimentos tinham terminado. A comunicagao sempre foi essencial aos movimentos sociais, seja na forma de panfletos ou manifests, seja pela televiséo ou pelo rédio, e a internet ¢ particularmente adequada a autonomia comunicativada qual os movimentos sociais dependem: ‘0s governos e corporagoes nao conseguem, na maior parte das vezes, controlar com facilidade essas comunicagdes e, quando o fazem, geralmente jé é muito tarde para interromper 0 movimento. Mas a forma em rede é multimodal, e inclui tanto redes on-line quanto off-line, bem como redes sociais preexistentes e redes geradas organicamente durante o curso do proprio movimento. As redes s4o encontradas dentro do movimento, com outros movimentos ao redor do mundo, com a blogosfera da internet, com a midia e com a sociedade em geral. As tecnologias de rede sao significativas porque fornecem a plataforma para essa pritica expansiva € constante que evolui com a mudanga de forma do movimento, Embora ox ‘movimentos sejam geralmente bascados no espago urbano pur melo de vew pagoes ¢ manifestagdes de rua, sua existOncia definitive Onnrye Ww I page da internet. Eles ndo peeciaarn de Literanga, ie convene ¢ ie exntt0 de con at | Mauwin 6a {role formais, nem de uma organizacao vertical para distribuir informacées € Instrugdes, Nao por faltarem pretensos lideres, mas per causa da desconfianca tofunda eespontdnea da maioria dos participantes no movimento em relacao ‘qualquer forma de delegacio de poder. Por serem redes de redes, eles podem se dar ao luxo de ndo terem um centro identificavel,e ainda assim garantir as {ungies de coordenagao, bem como as de deliberacéo, por meio da interacéo ‘nice mltiplos nés de comunicacao. Dado que sao redes que esto em aberto, ein fronteiras definidas, sempre se configurando de acordo com o nivel de fvolvimento da populagdo em geral, essa estrutura descentralizada amplia 4 oportunidades para participagio no movimento, além de também reduzir # vulnerabilidade do movimento & ameaga de repressio, uma vez.que hé pou- ws alyos especificos a serem reprimidos, exceto nos locais ocupados. E, desde {que haja participantes o bastante no movimento, conectados por objetivos € ‘lores compartilhados, a rede pode se regenerar. Desse modo, estar em rede Je apenas protege o movimento de seus adversérios, como também de seus perigos internos de burocratizagao e manipulacio. limbora esses movimentos frequentemente se iniciem em redes sociais da WWternet, eles ndo sdo identificados como movimentos até que tomem 0 espago lwleano, em geral pela ocupacdo permanente de pracas piblicas ou pela per- ienicia nas manifestacées de rua. O espaco do movimento consiste em uma JiWeragho entre o espago dos fluxos na internet nas redes de comunicagao ho, € v espago dos lugares das areas ocupadas e dos edificios simbélicos que sho alvo de agdes de protesto. Esse hibrido de ciberespaco ¢ espago urbano ‘soin{itul wm terceiro espaco que chamo de espago da autonomia, Isso se dé Wve 4 wutonomia apenas pode ser garantida pela capacidade de organizayao «pag livee das redes de comunicagao, mas, ao mesmo tempo, somente Joule wer exercitada como uma forga transformadora quando desafia a ordem ‘Wipliae institucional por meio da recuperagdo do espago da cidade para seus ‘shutter Autonomia sem desafio se torna desisténcia. Desafio sem uma base Jerinanonte para & autonomia no espaco dos-fluxos equivale a um ativismo pemniinuo. Bossa maneira, o espago da autonomia é a nova forma espacial des iwvinentos sociais em rede. (wun movimentos sociais sao, simultaneamente, locais ¢ globais. Eles Wi Wirloem contextos especiticos.a partir de razdes particulares,econstroem jHoptiae veces © seu proprio espago pablico ocupando o espaco urbano e vwla 4 fedden de internet. Nesse sentido, s0 movimentos locais, mas Ji conectados pelo mundo, aprendendo com ¢ se poise writncias dos outros. Akém disso, eles se envolvem em am inte nia dnternet, e, 8 veres, estimulam manifestagdes Hetieiladdon: global & sirmuttancain nw rede de espacos locais. E win agua subse queatdes interliyadas ¢ problemas huima fapeniann Knmgnienyder | nitdrios em geral, ¢ claramente exibem uma cultura cosmopolita ao mesmo tempo que se mantém enraizadosem sua identidade especifica. Eles prefiguram, em alguma medida, a superagao da divisto atual entre identidade comunitéria local e rede individual global. ‘No que concerne a sua génese, esses movimentos so amplamente espon- taneos em sua origem, geralmente desencadeados por uma faisca de indig- nagio relacionada a um evento especifico ou pelo nojo insuportavel as agdes dos governantes, Em todos os casos, eles se originam de um chamado & agéo do espaco dos fluxos que visa criar uma comunidade instantanea de pratica insungente no espaco dos lugares. A fonte do chamado é menos relevante que © impacto da mensagem nos destinatirios miltiplos e ndo especificados, cujas temogdes se conectam ao contetido e & forma da mensagem. O poder das ima- gens é fundamental. © YouTube tem sido uma das ferramentas mais eficientes Ge mobilizagao nos estgios iniciais dos movimentos. Ter & mao imagens de repressio violenta da policia ou dos bandidos tem sido algo particularmente significativo. Seguindo a logica das redes de internet, os movimentos sao virais, nao 6 pela natureza viral da difusio da mensagem, mas também por conta do feito imitador, que resultou em movimentos brotando em toda parte. Temos: ‘obser- vado a viralidade de um pais para outro, de uma cidade para outra, de uma instituicao para outra. Ver e ouvir protestos em todo lugar, mesmo em contextos distantes e culturas diferentes, inspira a mobilizagao porque desencadeia a esperanca da possibilidade de mudanga. E quando a deliberagéo acontece no cespago da autonomia, a esperanga se transforma em indignagao. Redes horizontais multimodais, tanto na internet quanto no espago urbano criam sentimento de unidade; isso é importante porque ¢ através da unidade que as pessoas superam 0 medo e descobrem a esperansa. Unidade nao ¢ 0 mesmo que comunidade, uma vez que esta tiltima implica um coajunto de: valores comuns, que, dentro do movimento, €algo que est em processo, ja que: a maior parte dos participantes chega com seus proprios objetivos ¢ motivagdes ¢,entio, partem para descobrir o potencial comum na pratica do movimento, Dessa forma, comunidade é um objetivo a se alcangar, enquanto unidade & ponto de partida ea fonte de empoderamento: Juntas podemos. Movimentos sociais em rede sao altamente autorreflexivos: eles todo tempa se questionam nao apenas como movimento, mas também como individuos, sobre quem so, 0 que querem, o que pretendem alcangar, que tipo de demo cracia ede sociedade almejam e como podem evitar as armnadilhas ¢ ciladay die tantos movimentos que falharam ao reproduzir em si ments ox mecenismey do sistema que ees querem modificar, particuncrerte eu terms se elec politica de autonomia e soberania, Eryx autorrellenivid i fstucla nk pproceaso de deliberaydo em axvennbleing, mas tamil Hados Forwns 0 én fe | Pannen Cannenir i. internet, na miriade de discussGes que acontecem Nos Dings € em Brus Has redes sociais. Um dos temas chaves no debate ¢ a questio da violencia, que os ‘movimentos inevitavelmente encontram em sua pratica. 'No principio, eles sio movimentos ndo violentos, geralmenteenvolvidos em slesobediéncia civil pacifica. Mas acabam sendo obrigados a participar na ocu- ppagdo de espacos publicos e em taticas desordeiras afim de colocar pressio nas jutoridades politicas eas oxganizacdes de negocios, uma vez que reconhecem ssimprobabilidade de sesem tratados de maneira justa nos canaisinstitucionais, esse modo, a repressao, em diferentes escalas de violencia — que dependem do Contexto institucional e da intensidade do desafio colocado pelo movimento | € uma experiéncia recorrente ao longo do processo de agao coletiva. Uma ez que 0 objetivo dos movimentos ¢ falar em nome da sociedade de maneira eral, torna-se primordial sustentar sua legitimidade pela justaposicao do seu ‘ariter pacifico a violéncia do sistema. De fato, em todos os casos, imagens de yioléncia policial aumentaram a solidariedade ao movimento entre os cidadaos ‘ cativaram o proprio movimento. Por outro lado, é dificil, individual e cole- livamente, reprimir o instinto basico de autodefesa. Isso foi particularmente slocisivo no caso das rebelides arabes quando, confrontados pelos reiterados assucres que utilizavam de violéncia militar extrema, alguns movimentos \iemocriticos acabaram se tornando adversérios em guerras civis sangrentas, shoo muncira se dissolvendo enquanto movimentos sociais. A situagao é obvia- iliferente em democracias liberais, mas aarbitrariedadeeaimpunidade ‘is violbiicta policial em muitos casos abrem caminho para a acao de grupos Jeers, mas decididos, prontos a confrontar o sistema com violéncia a firm le expor sew carter violento, A violencia fornece cenas espetaculares e seletas jain n midis e serve Aqueles politicos e lideres da opiniao piblica cujo objetivo } suprimir o mais rapidamente possivel a critica incorporada ao movimento. 1 questo da violencia nao é s6 um problema de titica, Ela é uma s dlecisiva, de vida ou morte, para os movimentos, uma vez que 0s mo- de engendrar uma mudanga social se sua pratica € » discarso gerarem consenso na sociedade de maneira geral (0s 99%). ‘avon movimentok raranyente sie programiticos, exceto quando focam em ih problema dnicoe clare abaixo o regime ditatorial. Eles tém demandas varia- idoe- 1» lor parte do tempo, podem-se incluir todasas demandas concebiveis lad vs por decicdirem as condigdes de suas proprias vidas. No a vee slo as deiniandtas sto variadase as motivagdes ilimitadas, eles orgunizacao ou lideranga, pois seu con- aie, depevude ve deliberagae ad hoc e de protestos, nao de um étanto sua forga ngado quando 0s ioe guwent Formalinar qual loom tornoder las especificas in Fraquenn (von algo pode ser ale ), Assim eles nao peter focar em 0) Powe Co Av | a uma tarefa ou projeto. Por outro lado, eles nfo podem ser canalizados em uma agao politica que seja estritamente instrumental. Logo, eles dificilmente podem ser cooptados pelos partidos politicos (que sao universalmente desacreditados), embora esses partidos possam lucrar com a mudanga de pensamento provocada pelo movimento na opiniao piblica, Dessa forma, eles so movimentos sociais, que visam modificar os valores da sociedade, e podem ser também movimen- tos da opinio piblica com consequéncias eleitorais. Eles visam transformar o Estado, mas nao apreendé-lo. Eles expressam sentimentos e movimentam 0 debate, mas néo criam partidos ou apoiam governos, embora possam se tor- nar alvo de escolha para o marketing politico. Entretanto, os movimentos si0 muito politicos em um sentido fundamental. Especialmente, quando propem e praticam a democracia deliberativa direta baseada na democracia em rede. Eles projetam uma nova utopia da democracia em rede baseada em comuni- dades locais e em comunidades virtuais em interacao. Mas as utopias ndo sto eras fantasias — a maior parte das ideologias politicas modernas na raiz dos sistemas politicos (liberalismo, socialismo, comunismo) se originou a partir de utopias, Assim é porque as utopias se tornam forga material por se conso- lidarem na mente das pessoas, por inspirarem seus sonhos, por guiarem suas agdes ¢ induzirem suas reacdes. O que esses movimentos sociais em rede esto propondo em sua pratica ¢a nova utopia no coragao da cultura da sociedade em rede: a utopia da autonomia do sujeito em face das instituigdes da sociedade. De fato, quando as sociedades nao conseguem gerir suas crises estruturais por ‘meio das instituicdes existentes, as mudangas somente podem acontecer fora do sistema por uma transformacdo das relagbes de poder que comegana mente das pessoas ¢ se desenvolve na forma das redes construidas pelos projetos de novos atores que se constituem como sujeitos da nova histéria em curso. Ea internet, que, como todas as tecnologias, incorpora a cultura material, é uma. plataforma privilegiada para a construgao social da autonomia. ‘Movimentos sociais em rede, como todos os movimentos sociais na hist6~ ria, carregam a marca de sua sociedade. Fles sAo amplamente realizados por jovens adultos que vivem a yontade com as tecnologias digitais no mundo hibrido da virtualidade real. Seus valores, objetivos ¢ estilo organizacional se referem diretamente & cultura da autonomia que caracteriza as gerasdek de jovens de um século jovem. Eles nao poderiam existir sem a internet ¢ as, redes horizontais de comunicacao multimodal que tornam possivel sua ago. ‘Mas seu significado é muito mais profundo. Eles sa0 adequados a seus papéis como agentes do contrapoder na sociedade em rede, em acentuado contraste com as instituigdes politicas de poder obsoletas hecdadas dle ima estrutura: joricamente superada. social | Mant or MOVIMENTOS SOCIAIS EM REDE E MUDANGA POLITICA o pnsenso da maioria dos observadores dos movimentos ociais atuais parece S«" gue, ao fim e a0 cabo, os sonhos de mudanca social terdo de ser diluia €