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MARTIR
Na Guarda dos Prados, vila do arcebispado de Taragona naceu Pedro Armengol, filho de
Arnaldo, cujo nome hoje permanece na ilustre casa dos barões de Rocafort, descendente da casa dos
condes de urgel, família nobilíssima cujos ascendentes tiveram laços muito estreitos com os condes de
Barcelona e reis de Aragão e Castela. Achou-se presente em seu nascimento o venerável Pe. Fr.
Bernardo Corbera, religioso mercedário queprofetizou do recém nascido infante dizendo: «A este menino
um patíbulo há de fazê-lo santo.» Aplicaram seus pais o maior cuidado na educação do menino, a fim
de que procedesse conforme às obrigações que lhe impôs o Pai; mas tiveram o desconsolo de ver inúteis
todas suas diligências num jovem que, havendo saído de um natural altivo e soberbo, nem os bons
exemplos dos pais, nem os conselhos dos melhores mestres, foram bastante para conter sua arrogância;
pois evanescendo-se mais do que convinha a sua nobreza, este respeito, que devia conter-lhe para que
obrasse segundo sua distinção, lhe serviu de motivo para que discorresse ter salvo conduto de proceder
com total abandono.
Muito contribuiu a sua decadência a companhia de outros jovens dissolutos e levianos, que em
pouco tempo sem muita resistência o conduziram pelo espaçoso caminho dos vícios. A dissolução de
sua vida afogou inteiramente em seus peitos aqueles piedosos sentimentos que nos princípios de sua
educação lhe haviam impresso. Não como um qualquer começou a perder-se, senão que se gabava de
ser um dos mais perdidos. E como a liberdade orgulhosa desterra o coração, não só a urbanidade e
modéstia, senão também que o embrutece e faz feroz e intratável; ouvia Pedro com arrogância e ainda
com desprezo as saudáveis advertências de seus pais.
A desatenção e pouco caso que fazia dos outros cavaleiros de suas circunstâncias lhe
acarretaram não poucas tristezas e sentimentos, e como um abismo atrai outro abismo, desejoso de
vingar-se deles, juntou uma patrulha de gente infame, capaz de abraçar seu sistema, a que animava à
sombra de um caudilho tão visível, cometeram tais excessos, que intoleráveis no país, perseguidos da
justiça, se viram na necessidade de retirar-se aos montes, de onde tomaram a infame profissão de
bandoleiros, sendo Pedro seu chefe e capitão, com total abandono de sua nobreza.
A dor e sentimento que causou ao pai o rumo de um filho tão perdido, que punha a sua família
na situação mais denegrida, o fez, para temperar esta pena, deixar o povoado de sua habitação, e retirar-
se ao reino de Valença recém conquistado pelo rei D. Jaime, com ânimo de seguir a corte e empregar-se
no serviço de um monarca tão recomendável. Determinou este príncipe passar a Montpelier para ver-se
com o Rei de França para tratar negócios importantíssimos a ambas coroas; e havendo ouvido que nos
montes Pirineus havia não poucos salteadores que roubavam e matavam aos passageiros, para transitar
sem perigo, deu ordem a Arnaldo, sujeito de conhecido valor e notória experiência, que livrasse o
caminho daquele perigo.
Ocorreu a Arnaldo o que podia suceder em uma expedição tão perigosa; mas desejoso de
remediar a afronta que causava a sua linhagem o filho, que presumia fosse o capitão dos salteadores,
partiu logo com alguns a cavalo e duas bandeiras de infantes. Logo que reconheceu os lugares propor-
cionados das montanhas, soube, à virtude das mais vivas e eficazes diligências, que se reuniram as
companhias dos bandidos para apoderar-se das riquezas da real comitiva. Ocultando-se num bosque
com uma porção de infantes, dispôs jogar no caminho umas malas mais carregadas de ruído que de
dinheiro, a fim de atrair à armadilha os ladrões. Saiu-lhe muito bem o pensamento, e quando se
achavam mais engolfados na presa, caiu sobre eles Arnaldo e sua tropa com o maior esforço, ferindo a
uns e prendendo a outros. Mas advertido que uma parte daquela escolta se defendia com particular
denodo, suspeitanto pelo mesmo que nela se acharia seu capitão, se apeou do cavalo, e empunhando a
espada e animando aos seus, começou a brandi-la como um leão.
A boa sorte de Arnaldo e de seu filho Pedro fez que fossem os dois primeiros que se
apresentassem em combate corpo a corpo e parando-se ambos depois dos primeiros encontros, até
certificar-se de suas pessoas respectivamente; reconhecidos, converteram a cólera em compaixão ao
mesmo tempo, doendo-se de terem-se ferido reciprocamente; e envergonhando-se Pedro de atacar a
quem lhe deu o ser, banhado em ternas lágrimas, prostrado aos pés do pai, lhe entregou a espada e com
ela o coração, rogando-lhe que fizesse com ele os ofícios do juiz mais severo.
Guillelmo Florentino. soltos os laços que o oprimiam. por uma contínua mortificação dos sentidos e por uma oração perpétua. Vendo os superiores seu grande talento e raro mérito. admiraram seu fervor os mais perfeitos. De maneira que quando chefe de malfeitores os precedeu nas desordens. Em lugar das armas ofensivas que usou quando libertino. depois que seguiu a milícia de Jesus Cristo se avantajou aos da profissão na reforma. alentado com um novo espírito e cheio de novo alento. que antes de acabar o ano de provação logrou ver todas reduzidas à servidão da razão. ao pro-ferir por sua boca as execráveis maldades que havia cometido. alentou sua desconfiança a voz viva de vários sermões que dispôs ouvir no decurso daquele tempo. e levando-o consigo para esperimentar se era verdadeiro seu arrependimento. apesar de sua humilde resistência. Os dias e as noites passava feito um mar de lágrimas. Em 1266 chegou a Bugia com seu companheiro Fr. fiou-lhe aos oito anos de professo o importante cargo de redenção de cativos. em cuja dignidade se portou como o mais digno ministro do Altíssimo. que como inocentes cordeirinhos se achavam no poder daqueles lobos. Todos os dias celebrava o santo sacrifício da missa com tanta devoção. com a condição de que se não se entregava no tempo estipulado. Não pode Arnaldo. prudente e experimentado no ministério. e foi para todos de tão inexplicável gozo e satisfação que deram a Arnaldo os parabéns pela recuperação de um filho que consideravam inteiramente perdido. o ficar cativo pelo resgate dos cristãos. e assim se ofereceu gostosamente em refém pela quantidade que acertou o resgate dos 18 inocentes. As paixões a que se havia entregue tão desrregradamente no século se amotinaram com violência. Apenas se viu vestido com a insígnia militar da Rainha dos Anjos. que foi causa de renovar naquela planta uma agigantada árvore. meditando sobre seus enormes delitos. conhecendo a veemência da dor e sinceridade do arrependimento do penitente. pontualidade e obediência. chegando seu rigor a tais termos que assim como a outros religiosos se lhes fazem capítulos de culpas. que quantos o viam no altar saiam compungidos. ternura e lágrimas. Refletiu Pedro que era este o caso de cumprir o voto particular de sua Religião. que dispôs o memorável feito referido para a conversão de Pedro. fez que chegasse à sua notícia a escravidão de 18 meninos. pois se confessava indigno de ascender ao sacerdócio. isentar-se do amor de pai. vendo a seu filho prostrado. capaz de produzir os mais assombrosos frutos de penitência. vendo-se reprimidas na religião. como dizia com frequência. caiu em uma profunda melancolia. mas soube sujeitá-las com tanta prontidão por meio de rigorosas penitências. ouvindo-o em confissão um mestre sábio. pedindo ao Senhor misericórdia. Abrasado Pedro em vivíssimos desejos de reparar as injúrias feitas a Deus na vida precedente. se na juventude desacreditou a sua ascendência com suas ações. Retirado nosso Santo da vida dos mortais. apresentando-lhe com a maior viveza o rubor que era indispensável padecesse um sujeito nessas circunstâncias. ainda que tão ofendido. pediu o hábito com tantas instâncias. para merecer a absolvição delas por meio da confissão. ora pelos castigos dos bárbaros. que foi recebido no convento de Barcelona com particular aplauso em 1258. mas como toda sua ânsia era passar à África e seu maior consolo. dentro de muito breve tempo acreditou com provas práticas o que jamais pode pensar-se de um homem tão abandonado. como se ouvissem o sermão de um predicador apostólico. tomou a generosa resolução de fazer-se religioso mercedário. mas como Deus tinha alí disposto o teatro das glórias de Armengol. a Pedro eram necessários fazer-lhe contínuos exames sobre sua penitência. expostos a renegar a Fé de Jesus Cristo. Passou ao convento das Mercês da cidade de Barcelona para desafogar sua consciência. Bem satisfeita a religião de seu fervor e zelo. continuando com seus sábios desígnios fez dele um herói que. substituiu diferentes instrumentos de mortificação para crucificar sua carne. Soube-se o sucesso por todo Aragão e Catalunha. e reconheceram os mais anciãos seus progressos no noviciado. pois não pode subir mais alto sua humildade. . alentou seu espírito em tais termos. sofresse as penas que quisessem impôr-lhe. depois recuperou a honra vulnerada de sua ilustre família e elevou sua estima. até mandar-lhe por obediência que ponderasse nelas. cheio de confusão e vergonha. Mas como Deus tinha determinado formar de tão grande pecador um dos maiores Santos de sua Igreja. lhe mandaram com ordem expressa recebesse as sagradas ordens. Valeu o inimigo da salvação desta constituição triste para tentar-lhe ao desespero. movidos ora pelos afagos. Desempenhou a comissão completamente nas províncias de Espanha que estavam ainda em poder dos agarenos. A divina Providência. varão de grande mérito e resgataram 119 cativos. e deu provas tão concludentes de ser verdadeira sua vocação. sem oferecer acidente que os embaraçasse fazer desde logo a vela para voltar à Pátria.
respondia sempre: «Não o sei. Dispuseram os dois amados companheiros voltar para Barcelona. o condenou ao castigo de forca. depois que recebeu com seu acostumado fervor os últimos Sacramentos. não podendo sofrer sua humildade as honras e aplausos que lhe tributava toda a cidade. Irritou a novidade o ânimo do juiz de tal maneira. perguntando-lhe depois o que sucedia. Não podendo resistir à obediência. e havendo chegado a ela. lhe falou Armengol da forca. bem que por ministério dos Anjos socorreu Deus a seu fidelíssimo servo milagrosamente. os assegurava nas repetidas vezes que falava da glória: Crede-me. sem que ninguém se atrevesse a baixá-lo dele. mas felicíssimos. e conseguido este favor. mas não o puderam conseguir com rogos. mas uma frangância celestial. irregular entre os sarracenos. que sem embargo. para que com o peso do corpo não me afogasse na corda que estava suspenso. porque o Senhor o fez bem contigo». Mãe de Deus e nossa. se lhe puseram em uma prisão chegando a inumanidade a termos de negar-lhe até o preciso sustento. e ao dizer estas palavras foram tais os afetos de doçura que sentiu seu coração. do mesmo arcebispado. de que não faltou quem defendesse a Armengol entre os infiéis. muitos se converteram a nossa santa fé. em virtude da proibição que publicaram os mouros. a quem agradecido do dito favor professava tanto afeto. a mesma Soberana Rainha me susteve com suas santíssimas mãos. mas havendo sabido o atentado que executaram os bárbaros. que assombrados de tão estupendo prodígio. e havendo feito o mais copioso fruto nelas por meio de sua predicação e admiráveis portentos. dignando-se o Senhor desde logo acreditar a glória de seu servo com sete milagres de prodigiosas curas de três homens e quatro mulheres antes que sepultasse a seu venerável corpo. e advertido a aproximar-se que não só não desprendia mau odor algum o cadáver depois de tanto tempo. a que previu com espírito profético. cheio de pena e sentimento passou a ver o lastimoso espetáculo com alguns cativos. se retirou ao pobre convento de Nossa Senhora dos Prados. cantando aquele verso de David: «Volta-te alma minha. irmãos caríssimos. pediu a seu Santíssimo Filho a conservação de minha vida. Inocêncio X aprovou seu culto com bula de 18 de abril de 1683. mas de prisão e cárcere. Deus o sabe». Manifestando sempre Pedro no pescoço torcido e na cor pálida os sinais mais autênticos do sucesso. o receberam todos com imponderável gozo. o fez humilde e modestamente neste termos: «A Virgem Maria. E ordenando-lhe que o baixasse do cadafalso. que não parecia possível nem mais reverente devoção. até que o Prelado mandou-lhe o referisse. acompanhando-lhe desde o porto até deixá-lo em seu convento. nem ternura mais filial. alegando o motivo que excitou muito seu furor a falsa acusação de que blasfemava contra seu profeta desprezando sua lei. ficando suspenso. . Cansados já os bárbaros de atormentar-lhe conspiraram contra sua vida. E lembrando-se daqueles dias que esteve na forca. Guillelmo com a quantidade estipulada para o resgate de Pedro. Suas relíquias se têm em grande veneração na paróquia da Guarda dos Prados. senão aqueles poucos. Chegou por este tempo seu companheiro Fr. Executou-se enfim a sentença e esteve oito dias pendente do madeiro. que já sabedora do portento esperava ver com impaciência o invicto mártir de Jesus Cristo. manifestando-lhe que a Santíssima Virgem o havia conservado a vida naquela disposição para que publicasse suas maravilhas perpetuamente. convertendo à fé de Jesus Cristo a não poucos deles com a eficácia de suas pregações autorizava com muitos prodígios. entregou seu espírito nas mãos do Criador no dia 27 de abril de 1277. em terno pranto. Como notassem os religiosos que em seus frequentes arroubos dizia muitas expressões doces. Destinou-lhe a obediência o emprego que mais desejava seu apostólico zelo. contudo. que era a conversão das almas. a teu descanso. que ficou arrebatado em um admirável êxtase. de onde o Senhor continuou obrando vários prodígios pela intercessão de seu fidelíssimo servo. Desejavam os religiosos saber de sua boca o sucesso.» Finalmente oprimido de uma grave enfermidade. local no arcebispado de Taragona. dando graças ao Senhor por suas maravilhas. o executou Florentino imediatamente com admiração dos assistentes e de todos os bárbaros. mas havendo passado tempo prescrito para o pagamento do crédito. viveu dois anos depois em Barcelona todo ocupado nas altas contemplações e assombrosas penitências. em que pendente de um madeiro estava reputado por defunto. dizendo que o acertado no acordo não era a pena de morte. nas quais parecia que estva em conversação com alguma pessoa invisível. repetindo outro do mesmo Profeta: «Eu agradarei ao Senhor na região dos vivos». Partiu Guillelmo com os cativos e ficou Armengol a padecer e a obrar prodígios de caridade entre os infiéis. que eu não julgo haver vivido dia algum. de onde sua vida foi uma contínua série de heróicas virtudes e familiares colóquios com a Rainha dos Anjos. para que se ostentasse um dos prodígios assombrosos da divina Providência. sabendo que se aproximava a hora de sua morte.
Pgs. 424 a 430 .Fonte:Ano Cristiano 1882-Abril-27 P. Juan Croisset S.J.