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1

O céu se fechou repentinamente. O branco assustador dos raios invadia a sala


naquele momento. Os sons estrondosos dos trovões pareciam querer quebrar tudo.
Guilherme desceu as escadas resmungando:
─ Era uma linda manhã há pouco!
Mais uma rajada de ventos, novamente os raios e, por fim, o corte da energia
elétrica.
─ Droga! ─ gritou Guilherme, que saía do banheiro e entrava no quarto da mãe.
Começou a revirar o aposento na intenção de arranjar velas. Não demorou muito e
encontrou um maço logo na entrada do guarda-roupa, ao lado das fotografias. Tirando
uma vela do maço, grudou-a junto à penteadeira.
─ Rapaz, já estou atrasado! ─ queixou-se Guilherme, que desceu as escadas
eufórico, pegou a jaqueta de couro, o capacete vermelho, sentou-se na moto e já ia
saindo, quando a mãe apareceu na varanda.
─ Já vai? Não está esquecendo nada, Gui?
─ Não, mãe, tchauzinho! ─ e, virando a cabeça, mandou-lhe um beijo.
Saiu cantando pneus e, em menos de quinze minutos, lá estava ele na
universidade.
─ Vamos Guilherme, só falta você! ─ disse a inspetora, dona Sueli, que se
dirigia ao ônibus. ─ Rapidamente, hem?
Guilherme guardou a moto e o capacete, chegou junto ao espelho e só então
percebeu o grande erro cometido. Não lembrara de prender os cabelos, estavam quase
na cintura e a pressa fora tanta que se esquecera de levar um elástico.
─ Bom ─ disse ele ─, pego emprestado de alguma garota.
Voltou correndo para o ônibus e, ao entrar, esbarrou em alguém. Virando-se para
trás, deu de cara com uma aluna nova.
─ Me desculpe! ─ pediu ele. ─ Estou com um pouco de pressa!
Ela se virou para o lado oposto, ignorando a presença dele, e começou a olhar a
paisagem através da janela.
Retirando-se daquele local, em que o clima estava um pouco pesado, ele foi para
o fundo do ônibus, onde os amigos o esperavam.
─ E aí Mona Lisa? Pensei que você não viria, venha cá, só falta você.
Mona Lisa era o apelido que os amigos colocaram em Guilherme, não por ele
ser parecido com ela, mas pelo jeito como penteava os cabelos, sempre repartidos ao
meio e pela expressão dos lábios, nunca com um sorriso total e nunca com o rosto
totalmente sério. Sempre enigmático, sempre intrigante.
─ E aí, que cara de espanto é essa, meu chapa?
─ Nada não, Nicky. Viu só que tempo feio? Nem parece, mas na hora em que me
levantei, o sol brilhava alto!
─ Mona, tudo o que a gente vir por lá tem que ser anotado. Vamos ter que fazer
um trabalho em equipe sobre isso. O pior é que eu não trouxe nada.
─ Eu trouxe uma caneta.
─ Ótimo, arranjar papel é mais fácil, é só pedir para as meninas, que elas sempre
trazem tudo!
─ Então vai lá e pede uma folha...
─ Pede você, Mona.
─ Eu? Por quê eu? Foi você quem teve a idéia; além do mais, eu sempre peço.
─ Ah, não. Vai lá e pede enquanto é cedo e ninguém tá lembrando disso agora,
Mona.
2

─ Tá bom, tá bom. Rosana, tem uma folha para me emprestar?


─ De novo, Gui?
─ De novo? É a primeira vez que peço hoje...
─ Ainda bem que você é cara-de-pau e diz que é a primeira vez de hoje.
─ Obrigadão, Rô. Tá aqui, Nicky.
─ Boa, agora é só guardar e esperar chegar lá. Já vamos chegar anotando, só
para fazer presença, viu? Para pensarem que a gente se interessa pela arte, pelos
quadros, por aqueles rabiscos que os pintores fazem e depois ficam famosos e valiosos.
Vou virar pintor, o que acha disso? ─ e virou-se no banco do ônibus, parando em pose.
Os dois começaram a sorrir; sem dúvida aquele passeio seria bom, pelo menos até
aquela hora.

II

Trimmm... trimmm...
─Alô?
─ Oi, eu poderia falar com o Mona?
─ Quem gostaria?
─ Rafael. É que nós estamos montando uma banda e eu precisava falar com ele.
─ Olha, o Guilherme saiu, foi com a turma da universidade em uma excursão
para o museu. Ele só vai chegar à noite.
─ Tudo bem. A senhora pede para ele me ligar, quando chegar?
─ Claro! Rafael, né?
─ Isso!
─ Ele tem o seu telefone?
─ Tem sim. Tchau e obrigado.
─ De nada.
Sarah levantou-se do sofá preguiçosamente, foi até a cozinha e viu um bilhete na
porta da geladeira. Chegou perto e leu: “Mãe, pede para a Benê lavar minha calça preta!
Um beijo, Guilherme”.
Enquanto Sarah lia o bilhete, Benedita apareceu na porta, carregada de sacolas;
ela voltava da feira. Pela expressão do rosto, Benê mostrava que não estava de bom
humor.
─ Bom dia, patroa! ─ disse ela se dirigindo a pia para descarregar as sacolas.
─ Bom dia, Benê. Já leu? ─ disse Sarah apontando para o bilhete do filho, preso
junto à porta da geladeira.
─ Já, Dona Sarah. E já vou lavar; mas ele deixou a chave da porta?
─ Deixou, ela está lá na sala, perto do bar.
Benedita se retirou da cozinha, arrastando os chinelos como sempre fazia
quando o reumatismo de sua perna doía.
Sarah sentou-se na cadeira, olhou em volta: a cozinha sem Guilherme era vazia.
Todas as manhãs, na hora do café, ele descia e a cumprimentava com um beijo no rosto.
Tomava um copo de água em jejum, dizia que não criava barriga e sentava-se de frente
para ela. Logo atrás descia Walter, esse sempre apressado para ir ao trabalho. Sarah
sabia que o esposo era muito nervoso, por isso, só para irritá-lo mais, dizia as horas.
Guilherme era filho único, tinha 22 anos e estudava História da Arte. Tinha uma
banda de rock e era o vocalista, por isso havia feito aulas de canto durante algum tempo.
No fundo da casa, só se ouvia o barulho da água e o som chiado do rádio de
pilha de Benedita.
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Sarah lembrou-se de quando Benedita entrou em sua casa pela primeira vez.
Tinha acabado de chegar do Ceará e precisava de um emprego, trazia nos braços uma
criança pequena. Sarah, penalizada com a estória daquela mulher, aceitou-a em casa
como empregada.
De repente, tudo isso saiu da mente de Sarah, que já estava com os olhos úmidos
de lágrimas.
─ Que bobagem! ─ disse ela. ─ É só hoje que estou sem o Gui que já começo a
pensar no passado. É o costume de vê-lo todos os dias comigo, de quando ele era
pequeno e era tão meu. Agora ele tem a banda e, daqui a alguns anos, quem sabe uma
família e aí quem vai cuidar dele será a mulher e não eu.
Sarah era uma mulher nova, tinha 37 anos. Casou-se nova, na época tinha apenas
15 anos. Estava grávida. Os pais não queriam que ela se casasse com Walter, mas ali
estava ela hoje, casada com o Walter, com um filho lindo, adulto e muito feliz.
─ A vida é engraçada! ─ disse ela enxugando os olhos, quando Benedita entrou.
─ Realmente Sarah. Eu pensava o mesmo, enquanto lavava a calça do Gui.
─ É. O Guilherme...
─ Ih, já vai começar? Eu, hem! Daqui a pouco ele já está aí, é só uma excursão.
─ Eu sei Benê, mas é que ele não é mais um garoto, e eu sinto que vou perdê-lo
logo.
─ Ah, Sarah, deixe disso, vai! Vamos fazer um bolo? Que tal um floresta negra?
─ Acho uma ótima idéia. Quer uma mãozinha?

III

O ônibus passava por um túnel escuro e as poucas luzes que restavam não
clareavam nem a metade da pista.
Os alunos já estavam cansados de tanto rodar para achar o museu, o motorista
era novo no emprego e tinha ido ao museu apenas uma vez, quando pequeno.
Guilherme, ao fundo do ônibus, pensava. Estava muito sério naquela manhã.
Estava sentado com as pernas em cima do banco, o cabelo em desalinho. O olhar era
perdido, vazio, fixo em alguma coisa que ninguém via. Suspeitava de algo, mas não
sabia o quê. Começou a folhear uma revista, virou as páginas e bem na página central
estava a figura de Mona Lisa. Ficou olhando aquela figura por um bom e longo tempo.
Prestava atenção a todos os detalhes. Nos dedos finos, nas mãos delicadas que pareciam
lhe acariciar os cabelos. Os olhos num olhar perfurante, fixo. Um olhar enigmático que
o fazia ficar preso àquela figura. O sorriso, esse sim era diferente. Parecia que estava
sorrindo e ao mesmo tempo parecia que estava séria e se olhasse mais um pouco se
tornava triste. Era uma coisa extraordinária. De repente se viu surpreso ao ver sua
própria mão acariciando a figura. Passava a mão pelo rosto da pintura, era tudo isso
muito confuso. Fechou a revista e começou a olhar pela janela, mas não conseguia se
concentrar nas paisagens. Suas mãos tremiam e seus pensamentos estavam todos
voltados para Mona Lisa.
Abriu novamente a revista e, ao folhear as páginas procurando a figura, seus
olhos cruzaram com os da aluna nova. Ele sorriu e abaixou o olhar para a página da
revista. Ela, por sua vez, levantou-se do seu lugar e aproximou-se dele.
─ Oi ─ disse ela ─, gostaria de me desculpar pelo incidente na entrada do
ônibus. Creio que fui um pouco ríspida ou até mesmo estúpida, eu estava chateada,
nervosa e não devia ter descontado em você. Me desculpe, mais uma vez.
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─ Que é isso, eu não me importo, aliás, fui mal-educado em não pedir licença e
o erro mais grave que cometi foi dizer que estava apressado, pois todos estavam, então
acho que eu também tenho que me desculpar.
─ Não, você estava certo; eu é que estava errada.
─ Não era mesmo. Era eu.
─ Não era, era eu.
─ Tá bom ─ disse ele sorrindo ─, vamos parar com isso senão vai começar tudo
de novo. Os dois estavam errados então, tudo bem?
─ Não concordo ainda, mas por via das dúvidas, tudo bem.
─ Então tá, você está perdoada.
─ E você também.
─ Aliás, qual é o seu nome? ─ perguntaram os dois ao mesmo tempo.
Começaram a sorrir, realmente tinha sido engraçado.
─ Pode falar ─ disse Guilherme ainda com o sorriso nos lábios. ─ Então?
─ Marina. E o seu, qual é?
─ Guilherme. Bonito nome o seu.
─ Obrigada. O seu também.
─ Quer sentar? ─ Guilherme ofereceu o banco ao lado para que Mariana
sentasse e assim conversasse melhor.
─ Obrigada, mas logo vou voltar ao meu lugar, minha amiga está me esperando.
─ Tudo bem, você pode ficar o tempo que quiser. Você mora perto da faculdade?
─ Moro na rua de cima, e você?
─ Moramos um perto do outro. Moro a três quadras, pertíssimo.
─ Legal. Você faz o quê?
─ História da Arte e você?
─ Também faço, comecei ontem. Deve ser superinteressante.
─ Se é... Eu adoro esse tipo de coisa!
─ Que bom, aliás, estou na sua sala. Ah... minha amiga está me chamando,
depois conversamos.
─ Tá bom.
─ Tchauzinho, Guilherme.
─ Tchau, mas prefiro que me chame de Gui ou de Mona Lisa.
─ Mona Lisa?
─ É, dizem que meu olhar lembra o dela e o sorriso também, pois é difícil eu
sorrir por completo; a expressão do meu rosto fica em meio-termo, ou seja, nem
sorrindo, nem sério.
─ Interessante, Gui. Até logo!
─ Até.

IV

Sentado na cadeira, com suas botas de cowboy em cima da mesa, estava Fred
Gibson. Usava calça jeans surrada com enormes rasgos disformes, brincos de argola nas
orelhas e cabelos presos em um rabo-de-cavalo. A jaqueta de zuarte mostrava pelo
aspecto que já havia visto dias melhores. Fumava seu cachimbo bem tranqüilo, quando
o telefone tocou.
─ Inspetor Gibson, às suas ordens.
Escutou por uns instantes e por fim disse:
─ Pode mandar entrar.
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Rapidamente foi até o banheiro e fez um penteado melhor. Sentou-se em sua


cadeira giratória, em que até mesmo as molas estavam postas para fora. Apagou as luzes
e acendeu a luz da luminária, o que não adiantou muito, pois ela estava queimada.
Novamente acendeu as luzes e sentou-se na cadeira.
Secas batidas à porta, um momento de espera e finalmente a porta se abriu.
─ Gibson, trabalho para você.
─ Sim?
─ Quero que me traga estes dois caras e esta garota ─ disse ele batendo nas
fichas. ─ Estão planejando roubar o Banco, como já fizeram dias atrás. Por favor, traga-
os até aqui, sim?
─ Pode deixar ─ disse Gibson sorrindo, deixando à mostra seus dentes
quebrados e amarelados pela nicotina.

O museu em si era lindo, enorme, com suas paredes altas e trabalhadas.


Sua escadaria imensa se abria em forma de leque e, sentados um em cada lado
do corrimão, havia leões de cimento.
Guilherme ficou olhando aqueles leões por um bom tempo e quanto mais
olhava, mais parecia que eles tinham vida própria.
As janelas do Museu eram imensas e em forma de arcos.
Começaram a subir as escadas e um arrepio percorreu a espinha de Guilherme.
Chegaram até a porta de entrada.
─ Tá com frio, cara? ─ perguntou Nicky olhando assustado para Guilherme. ─
Você está tremendo, bicho!
Guilherme se recusava a falar qualquer palavra, com medo de quebrar o encanto
daquele momento único e mágico. Não queria quebrar o silêncio daquelas pinturas
expostas nas paredes, que agora eram vistas por ele. Sentiu que estava estranho, mas
mal podia explicar para Nicky o que sentia.
─ Mona, o que você tem? ─ perguntou Roger, mostrando-se interessado.
Guilherme sentia sua própria respiração tensa. Algo estava acontecendo com ele,
mas não sabia o que era. Sentiu seu sangue sumir das veias, estava gelado. O rosto
estava numa palidez estarrecedora, as mãos, sempre firmes e sempre acompanhando
algum ritmo que estava escutando, agora estavam trêmulas. Os grandes olhos escuros
estavam arregalados e pareciam saltar das órbitas. Suava frio; o cabelo estava todo caído
para frente, tampando metade de seu rosto e deixando para fora apenas o olho direito.
Sentia as pernas bambas.
Nicky arrancou a blusa e num gesto decidido colocou-a em Guilherme,
esfregou-lhe os pulsos e caminhou com ele apoiado em seu ombro.
Guilherme continuava assim, parecia que havia saído de nosso mundo e
penetrado em outro do qual só ele fazia parte.
Piscou os olhos várias vezes seguidas, passou a mão pela face e, num impulso,
jogou a cabeça para trás, deixando à mostra todo o seu rosto e os brincos de argola
prateada. Tentou fixar o olhar à sua frente e, quando por fim conseguiu, estava diante do
quadro que minutos atrás o deixara fascinado pela figura.
Seus olhos pareciam despertar para a realidade e viu que estava deitado em um
banco, envolto num cobertor macio. Fez menção de sair; no momento em que levantava
o cobertor, uma mão o puxou pelas costas.
─ Espere um momento, Gui!
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Virou-se e viu que era Marina que seguia em direção à inspetora Sueli. Ela veio
seguida de Marina, Nicky, Roger, dona Vera e o guia do museu.
Sueli já se aproximou sorrindo.
─ O que aconteceu, Gui? Nicky me disse que estava estranho, assim que
entramos. Aliás, não foi só ele quem disse. Roger notou também algo estranho em você,
o que era?
Guilherme sentou-se no banco, estava vestindo a blusa de Nicky. Sentiu uma
forte vertigem, a cabeça doía e parecia que iria explodir. Os olhos estavam vermelhos,
sentia frio e estava com febre; sua boca estava seca e sentia uma enorme dor no peito.
Todos a sua volta estavam olhando ansiosos, esperando que ele, por sua vez,
dissesse algo.
─ Estou me sentido horrível! ─ disse Guilherme com a voz rouca. ─ Não sei o
que aconteceu comigo, mas não quero que fiquem parados aqui por minha causa. Vamos
continuar a visita...
─ Nem pensar! ─ disse dona Vera. ─ Para você ter outro faniquito e nos matar
de susto? Vamos voltar para casa agora mesmo e combinarmos de vir aqui outro dia!
─ Dona Vera! ─ disse Guilherme. ─ Não queria estragar seus planos, me
desculpe!
─ Não diga estragar, Guilherme ─ corrigiu Lourdes, professora de português ─,
diga desapontar! ─ e sorrindo passou a mão por sua cabeça.
A volta foi insuportável. Ninguém conversava no ônibus para não entediar
Guilherme. Marina a toda hora vinha ver se ele precisava de algo, se estava melhor, e
Nicky não parava de lhe contar piadas, achava que assim Guilherme se sentiria melhor e
o enfado diminuiria.

VI

Deitado na cama com os olhos fechados, Guilherme dormia.


Sarah estava ao seu lado afagando-lhe os cabelos. Mediu a temperatura e
constatou que ele estava com febre. Benê trouxe o analgésico e Sarah deu para
Guilherme tomar.
─ O que aconteceu com esse menino? ─ disse Benê para Sarah. ─ Na ida ele
estava tão bem, o que houve?
─ Não faço a mínima idéia, Benê. Dois amigos dele precisaram trazê-lo, um
menino e uma menina.
─ Nossa, Sarah, nunca vi o Guilherme neste estado. Imagina quando o pai dele
souber...
─ Vai acabar tendo um treco!
─ Realmente. O Guilherme é a menina dos olhos dele. Desça, Sarah, tome
alguma coisa, dê uma volta pelo jardim, nade um pouco, sei lá. Vai fazer alguma coisa,
tente se distrair. O Gui já está melhor.
─ Eu sei, Benê ─ dizia Sarah levantando a cabeça de Guilherme, fazendo com
que ele tomasse o analgésico ─, mas é que é difícil e eu quero estar ao seu lado quando
acordar.
Guilherme dormia profundamente, seus olhos estavam fechados e da sua testa
escorriam grossas gotas de suor. Sarah puxou o cobertor até sua cintura e tirou sua
blusa, deixando ele apenas de regata branca. Seus cabelos estavam soltos e, por causa
do suor, grudavam no pescoço. Sarah pegou um elástico e prendeu seus cabelos num
rabo-de-cavalo frouxo e baixo. Guilherme começou a se bater na cama. Benedita
precisou segurá-lo, enquanto Sarah lhe aplicava uma injeção recomendada pelo médico.
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Ele se debateu mais um pouco e parou. Seu cabelo estava parcialmente solto e seu rosto
estava rosado como se ele tivesse ido à praia. Em uma pequena fração de segundos, seus
olhos se abriram e tornaram a se fechar por causa da intensidade da luz vinda da janela.
─ Está se sentindo melhor, Gui?
─ Ah... estou sim. Nossa, como eu suei, olhe as minhas costas!
─ Eu sei, mesmo eu descobrindo você e prendendo seu cabelo não adiantou
muito.
─ Ai, quero tomar um banho, comer alguma coisa e...
─ Telefonar para o Rafael.
─ O Fael ligou? Oh, não, é sobre a banda, faz tempo?
─ De manhã.
─ Vou ligar para ele agora mesmo.
─ Primeiro tome banho, Gui.
─ É uma boa idéia. Que foi Benê?
─ Está bonzinho, Gui?
─ Novo em folha! ─ e dizendo isso deu um beijo no rosto da empregada.
Benê ficou vermelha, não sabia onde enfiar a cara. Sarah sorriu e Guilherme
dirigiu-se para o banheiro.
─ Que ótimo que ele está melhor, Benê.
─ Está bom até demais, não acha? Os jovens são assim, estão de cama e logo em
seguida já estão bem. São como os passarinhos...
─ Como passarinhos? Não diga isso Benê, ele continua como um garotinho, não
é ótimo?
─ Sim, é ótimo.
─ Manhêêêê? Me traz a toalha? Eu esqueci.
─ Um minuto, Gui. Aqui está...
─ Obrigado.
─ O que você quer comer?
─ Bife acebolado, salada de tomates e suco de laranja.

VII

Sentado no sofá com o roupão branco, estava Guilherme enxugando os cabelos.


Ouvia música e pensava na banda. Ainda não tinha um nome definido e para escolher
estava sendo uma barra. A dúvida estava entre dois nomes. Ele iria ligar para Rafael
para ver o que ele achava e, dependendo do nome escolhido, iriam pensar em um
logotipo. Realmente tudo isso era muito complicado, mas o que fazer?
─ Rafa?
─ Oi.
─ Sou eu, o Mona, tudo bem?
─ Oh, Mona, tudo em cima. E aí, o que resolveu?
─ Estou indeciso em dois nomes.
─ Diga.
─ Mr. Boris e Mona Lisa.
─ Mr. Boris é legal, mas Mona Lisa não. Onde você está com a cabeça, cara?
─ Não sei direito, Fael. Preciso conversar com você, não estou legal e tudo
aconteceu depois que fui ao museu. Eu estava bem e agora o meu astral baixou de novo.
Você já jantou?
─ O quê?
─ Já jantou? Fale rápido!
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─ Não, por quê?


─ Quer jantar? Venha aqui, assim jantamos juntos e também conversamos.
─ Sobre o quê?
─ Cara, eu não estou legal. Preciso de sua ajuda... Você sabe que você e o Nicky
são os caras em quem eu confio.
─ Eu vou Gui, pede para a Benê fazer aqueles pasteizinhos de carne?
─ Fechado.
─ Ok. Estarei aí em quinze minutos.

VIII

Cama desarrumada, sapatos jogados, as gavetas vomitando para fora todo o seu
conteúdo.
No chão, presilhas, brincos, relógio e até um lanche...
Em cima da cama roupas, discos, CDs e fitas, outra quantidade de roupas no
chão, o violão meio escondido atrás da porta e no guarda-roupa não havia nada.
Absolutamente nada. Tudo estava espalhado pelo quarto.
─ Que bagunça! ─ exclamou Marina ao entrar em seu próprio quarto. ─ Mas se
não estiver bagunçado, o que a empregada vai fazer? É até capaz de perder o emprego
por falta de serviço.
Jogou-se em cima da cama, só pensava em Guilherme. Como ele era bonito e o
mais importante: era muito atencioso. Conversou com ela numa boa... E quando ele
desmaiou? Parecia um boneco deitado naquele banco. Só o cabelo dele já tirava seu
fôlego. Na cintura, liso e preto, os olhos castanhos e grandes, a boca bem-feita, grande e
vermelha, as faces rosadas, os braços fortes, as unhas cortadas. A calça jeans desbotada
servia-lhe como uma luva, ficava perfeita no corpo. A camiseta branca e a jaqueta de
couro aberta, enfim, ele inteiro era lindo! E quando ele colocou os óculos escuros do
Nicky? Jogou o cabelo de lado e abaixou um pouco a cabeça... parecia um modelo. O
Nicky tirou foto, iria pedir para ela.
Resolveu telefonar para ele e perguntar se estava tudo bem. Sim, era isso que iria
fazer. Levantou-se da cama, foi para perto do telefone, olhou para a estante e em cima
dela viu a foto de Ronaldo. Se pudesse, jogaria aquilo fora; só não jogou porque mãe
não deixava.
─ Vou colocar no quarto dela! ─ pensou Marina encaminhando-se para janela.
A noite já havia caído e o céu estava estrelado. Havia muito mormaço, mas a
brisa suave a fez lembrar da praia. Como queria estar na praia naquele momento. Queria
andar pela areia com os chinelos nas mãos, um vestido curtinho e leve, correr com
aquele céu estrelado e ao lado de Guilherme.
De repente, lembrou-se de telefonar para ele e no momento seguinte saiu
correndo para dentro.

IX

Guilherme acordou com o barulho dos pássaros cantando, sorriu ao se lembrar


do telefonema de Marina; ela havia ficado muito preocupada com o estado de saúde
dele, por isso havia ligado.
─ Acho que ela está gostando de mim ─ pensou Guilherme. ─ Não é uma má
idéia.
Levantou-se e foi até a janela, aspirou profundamente o ar da manhã, sentia-se
muitíssimo bem para um novo dia.
9

Tomou banho e desceu ainda de roupão para o café.


─ Bom dia, Benê!
─ Bom dia, Guilherme. Dormiu bem?
─ Otimamente bem, e a mãe?
─ Saiu, foi ao médico.
─ Ah, o pai já foi trabalhar?
─ Acabou de sair.
─ Bem, vou subir e me arrumar para a faculdade.
─ Tome o seu café primeiro, Gui.
─ Depois eu tomo Benê, senão vou me atrasar.
Subiu as escadas rapidamente, estava animado com a idéia de Marina estar
gostando dele. Colocou uma calça jeans clara e camiseta branca, passou seu perfume
favorito e desceu as escadas. Tomou seu café rapidamente e escovou os dentes. Penteou
os cabelos e saiu.
─ Benê, cadê a chave do carro?
─ Seu pai guardou. Acho que está na cômoda, no final do corredor de cima.
─ Obrigado, Benê.
Subiu as escadas displicentemente, como sua mãe odiava; às vezes gostava de
fazer assim para provocá-la, mas desta vez estava com pressa.
─ Tchau, Benê, já vou!
─ Tchau, Gui, cuidado.
─ Pode deixar.
Chegou à faculdade um pouco antes do normal, guardou o carro, pegou suas
coisas e saiu do estacionamento. No corredor encontrou-se com Nicky.
─ E aí, Mona? Tudo bom?
─ Tudo ótimo. Alguma novidade?
─ Uma, já ficou sabendo?
─ O quê?
─ Da Marina, ela está caída por você.
─ Sério?
─ Sério, ela me disse.
─ Conte mais!
─ Ela disse que você é uma gracinha e, quando desmaiou no museu, ela não
parava de passar a mão no seu rosto.
─ Sério, cara?
─ Sério, ela me disse... verdade, meu!
─ Que legal! Você veio de carro hoje?
─ Não.
─ Ótimo, lhe dou uma carona!
─ Claro, eu aceito.
─ E aí, galera?
─ Oi, Roger.
─ Tudo em cima, Mona?
─ Tudo em cima.
─ Que bom cara, eu já estava preocupado.
─ Que é isso, Roger. Agora eu já estou bem, obrigado!
─ Que bom.
Já estavam na sala conversando, quando chegaram Marina e Rosana.
─ Bom dia, garotos! ─ disse Rosana sentando-se.
─ Bom dia!
10

─ Oi, Gui!
─ Oi, Marina.
─ Oi, né Marina!
─ Calma, Roger, oi. Olá Nicky.
─ Olá.
─ Já melhorou, Gui?
─ Já estou ótimo. Muito obrigado pelo telefonema de ontem.
─ Oh, que é isso, não foi nada Gui.
─ Você ficou sabendo?
─ Do quê, Rosana?
─ Nossa, a Marina lhe telefonou e não o avisou? Amanhã, às oito horas da
manhã, é para estar aqui, pois iremos a uma excursão em um sítio, onde tem pedalinho,
piscina, sauna... e é só a nossa turma.
─ Nossa, que legal! Eu vou Mona, e você?
─ Ah, eu também. Você vai, Roger?
─ É claro, e vocês duas? Também?
─ É, iremos...
─ Hum... quero beber alguma coisa ─ disse Roger encaminhando-se para a
porta. ─ Vamos à lanchonete?
─ Claro! Vocês não vêm? ─ disse Guilherme olhando para as garotas.
Entreolharam-se por um minuto e por fim concordaram.
Guilherme pediu um suco de morango e Marina um de manga. Roger e Nicky
preferiram uma coca light e Rosana se contentou com um suco de laranja.
Sentaram-se nas mesinhas, hoje as aulas começariam às 10h30 e ainda eram 8h;
tinham muito tempo pela frente. Conversavam animados os cinco e Marina não parava
de olhar para Guilherme, que estava sentado a sua frente. Ele falava e gesticulava tanto,
que sua mão tocou a mão de Marina.
─ Me desculpe. ─ pediu ele. ─ Foi sem querer.
─ Não foi nada.
─ Creio que já havíamos vivido essa cena antes ─ disse ele sorrindo e dando
uma formidável piscada.

Quando saíram, Nicky e Roger o acompanharam até o estacionamento, entraram


no carro e já iam partindo quando encontraram com Marina e Rosana na esquina.
Guilherme as chamou:
─ Querem uma carona?
─ Não precisa, Gui ─ disse Rosana. ─ Vou de ônibus, moro longe, e será difícil
para você me levar. Muito obrigada!
─ Que é isso, Rô? Eu levo sim, entra aí ─ disse ele descendo do carro e
esperando Rosana entrar. ─ E você Marina, não vem?
─ Obrigada, moro na rua de cima. É muito perto, eu vou a pé.
─ Ah, não ─ disse ele segurando-a pela cintura. ─ Você vai sim, tá?
─ Tá bom! ─ disse Marina sorrindo.
Entraram no carro. Guilherme ligou o rádio e estava tocando sua música
favorita.
─ Oh não ─ disse ele aumentando o volume ─, eu adoro essa música!
─ Aqui, na próxima à direita ─ disse Marina.
─ Legal, pertinho.
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─ Oh, meu, é aqui nesta rua! ─ disse Roger, quando Guilherme passou com o
carro pela rua.
─ Na volta eu deixo você, tá? ─ falou Guilherme olhando para ela pelo
retrovisor do carro.
─ Tudo bem ─ disse ela sorrindo.
─ Ih, qual é a dos dois?
─ Amizade... ─ disse Guilherme.
Quando deixou todos os amigos nas suas casas, ele disse que não queria ir de
chofer e então Marina sentou-se na frente.
─ Quer tomar alguma coisa?
─ Não, não, Gui, muito obrigada.
─ Quer comer, então?
─ Também não, Gui.
─ Tudo bem, mas se quiser... Um suco então, vai...
─ Tá bom, de morango.
─ E eu vou querer um de manga.
Desceu do carro e entrou na lanchonete. Marina ficou sozinha no carro de
Guilherme, ou seja, sozinha no carro daquele cabeludo lindo e atencioso... O rádio
começou a tocar uma música e Marina sorriu feliz.
Guilherme voltou com os sucos, deu o de Marina e tomou um gole do seu.
Quando pararam no farol, Marina perguntou se ele queria tomar o suco. Ele
disse que sim. O farol abriu e ela pegou o copo e segurou, enquanto ele tomava com
canudinho.
─ Obrigado, Marina.
Quando chegaram à rua dela, ela indicou a casa e ele estacionou em frente.
Desligou o motor do carro e olhou para ela.
─ Muito obrigada por me trazer até aqui, Gui ─ disse ela arrumando as coisas
para descer. ─ Obrigada, mesmo.
─ Pode deixar que os copos eu jogo em casa; e você não precisa agradecer.
Obrigado você, pela companhia.
─ Que é isso, Gui, não foi nada.
Guilherme pegou a mão de Marina, sorrindo, olhou-a bem nos olhos e lhe deu
um beijo.
─ Amanhã você vai?
─ Vou, e você?
─ Também. Posso passar aqui?
─ Claro!
─ Tchau.
─ Tchau.
Ficou com o carro desligado até que ela entrasse e fechasse o portão. Depois
ligou o carro e foi embora.
Marina entrou em casa pisando nas nuvens. Não queria acreditar no que acabara
de acontecer, estava muito feliz e isso era tudo.

XI

Sábado ensolarado, um belo dia para uma piscina. Levantou-se disposto e bem-
humorado, afinal de contas ia a um passeio muito legal e sua companhia era admirável.
Pegou a mochila e colocou dentro os óculos de sol, toalha, calção e chinelo.
Colocou também uma camiseta e bermuda, para depois da piscina e para a volta; só iria
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trocar de camiseta. Levou máquina fotográfica e, em vez de um, ele levou dois elásticos
para o cabelo. Desta vez não queria o cabelo solto.
Do outro lado da mochila, colocou uma malha, caso o tempo mudasse, escova de
dentes e de cabelo, os documentos e, o que não podia faltar, dinheiro.
Tomou banho, colocou tênis, calça jeans escura e camiseta, desceu apressado
para o café, ainda colocando o relógio no pulso.
─ Bom dia, Gui ─ disse sua mãe lhe dando um beijo no rosto. ─ Não está
esquecendo nada?
─ O perfume! ─ gritou ele já subindo as escadas. Passou o perfume, foi até a
cômoda, pegou o antitranspirante e colocou os dois na mochila.
Para qualquer emergência pegou mais uma camiseta. Fechou a mochila e
novamente desceu.
─ Tudo pronto ─ disse ele triunfante. ─ Não estou esquecendo nada. Bom dia!
─ Resolveu andar de cabelo solto?
─ É, só que hoje estou levando dois elásticos. Cadê a Benê?
─ No quintal.
─ Ah, eu não a vi hoje ainda, faz um lanche para eu levar?
─ Tá vendo aquela cesta ali? A Benê já arrumou para você.
─ Boa, a Benê é um amor.
Subiu as escadas e pegou no seu quarto a mochila. Passou na cozinha e pegou a
cesta. Deu tchau para a mãe e no quintal deu de cara com Benedita.
─ Bom dia, Benê. Obrigado pela cesta e tchau.
Deu um beijo na face dela, entrou no carro e saiu.

XII

Deitado na cama, Guilherme recordava como havia passado o dia. Tinha


conversado com todos, com Marina em especial, e lembrava-se da expressão séria no
rosto de Roger. Será que ele estaria com algum problema? Guilherme se lembrou que a
mãe dele era muito doente, a expressão séria devia ser por isto.
Roger estava esquisito, inquieto e Guilherme havia ficado preocupado. Afinal de
contas, o que isso importava? Só Marina importava para ele naquele momento.
Lembrava-se dela na parte da manhã, quando ele havia chegado dez minutos
antes do combinado e da demora dela. Lembrava-se também de que, assim que ela abriu
a porta e apareceu com os cabelos molhados, estava lindíssima. A calça preta caía-lhe
tão bem quanto a camiseta branca que usava. Do seu corpo emanava um cheiro
adocicado de perfume, a pele estava lisinha e cheirava hidratante, as longas unhas
estavam pintadas de vermelho, o mesmo vermelho do seu batom, forte e sensual.
Carregava uma bolsa de couro. Sua boca em forma de coração se abriu suavemente em
um sorriso cínico e provocante, que no fundo trazia algo de ingênuo, mostrando seus
dentes brancos e perfeitos. Os olhos castanhos e redondos, de sobrancelhas finas e
arqueadas, davam um certo charme àquela figura ali parada, abrindo o portão.
Ela era perfeita. Cintura fina, magra, não muito alta, mas também não era
daquelas baixinhas. O cabelo castanho-claro, levemente encaracolado nas pontas, caía-
lhe sobre os ombros. Suas mãos eram finas e delicadas...
De repente, lembrou-se das mãos de Gioconda, para ser mais exato, lembrou-se
das mãos de Mona Lisa. Eram finas e delicadas, assim deduzira ele aquele dia no
museu. Começou a se lembrar do seu estado de choque na hora em que colocou os pés
nas lajotas frias do museu, daquela escadaria imensa de corrimão comprido e dos dois
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gigantescos leões de cimento. Lembrou-se do tapete vermelho de veludo que recobria


metade da sala, dos lustres sinistros e pesados.
─ Por que estou pensando nisso?
Era difícil, mas, por mais que Guilherme tentasse, não conseguia tirar isso da
cabeça. Realmente Leonardo da Vinci havia pintado aquele quadro muito bem. O
engraçado era que ele, Guilherme, havia ficado tão impressionado que não conseguia
parar de pensar nele. A faculdade havia marcado uma nova visita ao museu e Guilherme
não via a hora de chegar lá, de ver o quadro, de poder analisar com todo o cuidado os
mínimos detalhes, de poder rever aquele rosto tão bem conhecido e de que se lembrava
tão bem.
Foi assim, pensando em Mona Lisa, que adormeceu.
Sonhou com museus, quadros, prisões, policiais, amigos, campos. Um sonho
muito estranho, mas que ele saberia o significado muito antes do que esperava.
No dia seguinte, Guilherme acordou assustado.
─ Nossa, que sonho estranho!
O dia amanhecera frio. Uma chuva fina caía sobre a terra, pintando a natureza
com tons mortiços. Grandes nuvens escuras se juntavam no céu, o vento soprava
impetuoso e constante. Guilherme olhou pela vidraça e constatou que aquele domingo
seria nada animador...
─ Que tempinho feio. Não dá nem vontade de sair da cama com um tempo
desses.
Entrou no banheiro e se despiu, ligou o chuveiro e entrou. Não se mexeu, ficou
imóvel, lembrando apenas do sonho que tivera na noite passada. Começou a se esfregar
com vigor, lavou os cabelos e terminou o seu banho como entrou no chuveiro: imóvel.
Colocou o roupão, enrolou os cabelos na toalha e saiu do banheiro. Sentou-se na cama e
começou a enxugar os cabelos. Ligou o rádio baixinho, eram sete e meia da manhã, e
estava passando um programa que só tocava música antiga. Começou a tocar uma
música e Guilherme voltou a pensar em Marina. Era muito bonita, sem dúvida, mas algo
dizia que ele não gostava dela e isso o preocupava e muito. Desligou o rádio e desceu
para café, ainda de roupão.
Sarah e Walter ainda não haviam se levantado e Benê ainda estava dormindo.
Guilherme tomou um copo de leite e ficou na janela vendo a chuva cair
lentamente sobre a terra e molhar as plantas.
─ Em que está pensando?
Era Benedita quem fazia a pergunta a Guilherme, que agora tinha a cabeça
encostada na vidraça.
─ Não sei ─ respondeu ele pensativo. ─ Em Marina, em Mona Lisa, no amor, no
museu, na faculdade... enfim, não sei!
─ Você anda esquisito, sua mãe é que não percebeu ainda, mas eu percebi desde
o dia em que você voltou do museu.
Benedita baixou os olhos para o bolo que estava fazendo.
─ Estou notando que você está diferente, só isso!
─ Eu não sei, Benê, quando eu estava indo para o museu, vi em uma revista o
retrato da Mona Lisa, fiquei aturdido, sei lá. Tudo ficou diferente e desde então não paro
de pensar no quadro. Quando olho para aquela pintura, os olhos dela revelam uma certa
tristeza, como se ela quisesse que eu a libertasse dele. Eu... não... não consigo explicar,
Benê, e mesmo que eu conseguisse, você não iria compreender. Não disse nada ainda a
ninguém, nem a minha mãe, você é a primeira pessoa a quem eu falo isso. Para você ter
uma idéia, até o nome da minha banda é Mona Lisa. Estou fazendo uma música para
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ela; não consigo parar de pensar nela; estou começando a passar noites em claro por
causa dela... Não sei o que está acontecendo comigo, Benê. Me ajude!
Benedita estava com a boca seca, os olhos úmidos; ela sabia que seu menino
estava sofrendo com o que acontecia e não sabia como ajudar.
─ Oh, Gui, eu vou ajudá-lo do jeito que eu puder, tá?
─ Tá bom, Benê, obrigado.
Guilherme calou-se e sentou-se na mesa com a cabeça baixa. Não sentia fome,
tentou comer uma torrada mas não descia, mordeu um pedaço de pêra, mas não
conseguia engolir; olhou para Benedita com os olhos vermelhos e úmidos. Como uma
criança, abraçou-se à empregada e começou a chorar, era um choro angustiado e febril,
como se tivesse perdido alguém muito querido. Parou de chorar, enxugou os olhos e
subiu as escadas. Benedita permaneceu petrificada do lado da mesa, sabia exatamente o
que estava acontecendo com Guilherme e isso a deixava muito triste.
Deitado na cama, Guilherme começou a escrever algumas linhas da canção para
ela; ao escrever a última linha, olhou para frente e se viu refletido no espelho; percebeu,
então, que no seu olhar havia muito cansaço e em seu rosto muita olheira. Sua expressão
era de exausto, revelando a noite mal dormida.
─ Puxa, preciso me cuidar! ─ disse ele se levantando da cama e se dirigindo ao
guarda-roupa:
─ O que vou vestir?

XIII

─ Senhora Sarah?
─ Sim, doutor, o que ele tem?
─ Nada grave, senhora, ele está apaixonado. Creio que a senhora ficará
espantada, mas ele está amando um quadro e não sabe disso. É coisa da idade, quantos
anos ele tem?
─ Vinte e dois!
─ Então, isso faz parte desta fase, não é nada grave, eu acho! Pelos sintomas, é
totalmente saudável, mas precisa de cuidados imediatos ou poderá se tornar obsessão.
─ Mas como, doutor?! Ele não come, não dorme, não conversa quase comigo e
não me deixa entrar no quarto. Ele tem uma banda de rock com o nome Mona Lisa, até
já fez uma música para ela, já leu biografias, livros, curiosidades, enfim, uma porção de
coisas. E o que eu mais acho estranho é ele ter gostado dessa imagem, sendo que tem
uma namorada linda... mas anda muito frio ultimamente com ela. Um horror, doutor!
─ Não sabia a gravidade do caso dele. O que ele faz mais?
─ Foi no mês passado com a escola a um museu e, só de entrar, ficou com febre,
desmaiou, teve dor de cabeça, tontura, tremia e várias outras coisas que no momento
não me recordo. Chegou a nossa casa acompanhado de dois amigos, deu muito trabalho,
pois suava frio e se batia na cama... Horrível, doutor Raul!
─ Bom, traga-o aqui no meu consultório que irei acompanhá-lo com um
tratamento rigoroso. Este caso é mais sério do que eu imaginava, senhora Sarah.
─ Por favor, doutor Raul, me chame de você, e faça isso pelo Gui, pelo amor de
Deus!
─ Eu farei, senhora, não se preocupe.
─ Ele precisará ser internado?
─ Por enquanto não. Se mais tarde precisar, avisarei a senhora com
antecedência, creio que não será preciso!
─ Obrigada, doutor...
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─ Não precisa agradecer e qualquer coisa é só me telefonar, tá bom?


─ Tudo bem, então.
─ Tenha um bom dia!
─ Igualmente. Até logo!

XIV

─ Guilherme, no que está pensando?


─ Em nada professora, me desculpe.
─ Guilherme, é a terceira vez que chamo sua atenção hoje. O que você tem?
─ Já disse que não é nada, foi apenas uma pequena distração...
─ Você chama isso de pequena distração? Três vezes seguidas chamei-o e é
apenas uma pequena distração? Que é isso? Onde você está com a cabeça, Guilherme?
─ Desculpe!
─ Deixe-me ver sua redação!
─ Não fiz.
─ O quê? Não presta mais atenção às aulas, não escuta quando o chamo e não
faz mais lição? Não vou suportar isso por mais tempo, Guilherme! Você não era assim,
o que aconteceu?
Guilherme, com os olhos vermelhos, estava de cabeça baixa. Não conseguia
pensar em nada, queria mesmo era ir embora e se deitar, conversar com Benê e dormir.
─ O que aconteceu, Guilherme? Estou esperando sua desculpa; ainda não a
escutei.
Guilherme levantou a cabeça, o cabelo estava preso em um rabo-de-cavalo,
usava bermudão xadrez, camiseta branca, meia e tênis, passou a mão pela cabeça e
disse:
─ Não estou passando bem, posso descer?
─ Pode, o que você tem?
─ Não sei, me sinto esquisito...
─ Pode descer, sim, deixe uma menina ir com você.
─ A Marina!
─ Tudo bem, como você achar melhor.
Desceram as escadas em silêncio, cada qual com o seu próprio pensamento.
Guilherme descia as escadas segurando no corrimão, Marina o olhava pelo canto
dos olhos. O que ele estaria pensando? Notara que estava estranho já fazia tempo, só
que ele não se abria com ela. Não falava o que se passava com ele, a não ser que ela
perguntasse; mas só ela perguntar era chato, seria mais legal se ele já chegasse e
contasse o que estava acontecendo. Ela não agüentou o silêncio, abraçou Guilherme
pela cintura e perguntou:
─ Muito bem, Gui, o que você tem? Eu sei que você tem algo, mas não quer me
contar o que houve? Pode se abrir comigo.
Guilherme empurrou a mão de Marina, fazendo com que ela parasse de abraçá-
lo. Ela ficou surpresa e parou rapidamente. Ele, por sua vez, continuou descendo os
degraus, parou e olhou para trás, viu Marina parada no topo da escada, olhando para ele,
estava com os olhos úmidos.
Ele subiu as escadas correndo e a enlaçou pela cintura, deitou sua cabeça no
ombro dela e começou a chorar; ela o desencostou de seu ombro e o fez olhar nos olhos.
─ Por que você fez isso comigo, Gui? Sabe que gosto muito de você e fazendo
isso, você me machuca... não podia ter feito isso!
Ela fez menção de sair correndo, mas ele foi mais rápido e a segurou.
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─ Eu preciso demais da sua ajuda, Marina. Não suportaria perdê-la por nada no
mundo. Você é tudo para mim, mas vai ter que me ajudar, pois estou numa situação
complicada, nem eu mesmo sei o que é direito!
─ De mim, Guilherme, você pode esperar tudo, mas desta vez você foi longe
demais. Primeiro, porque não foi em casa nem ontem, nem domingo, como
combinamos; e segundo, que você chegou hoje, nem me cumprimentou e, quando eu o
abracei, você me empurrou. Não quero mais suportar isso e não vou! Sei que você só
quis brincar comigo... Para mim, você morreu! Pensa que eu não sei que a Rosana vive
lhe telefonando? Se pensa que é ciúmes, pode ter certeza que é. Não quero ver você
mais na minha frente!
Subiu as escadas rapidamente, Guilherme ficou parado, as lágrimas teimavam
em cair, desceu os degraus e sentou-se em uma das mesinhas da lanchonete com a
cabeça baixa. Pediu um suco de morango e ficou olhando para fora da janela. Havia um
cipreste alto que, balançado pelo vento, dava a impressão de estar acenando tristemente.
Lá fora, no pátio, havia um grupinho de meninas que olhavam para Guilherme; ele,
meio sem jeito, deu um sorriso e abaixou novamente a cabeça; estava escutando uma
música e pensava em Marina, ela tinha dito que não queria mais vê-lo e isso o deixou
muito chateado.
Levantou a cabeça e tomou um gole do suco. Viu-a chegar e sentar numa
mesinha distante, estava com os olhos vermelhos e chorava sem parar.
Em menos de dez minutos desceu Nicky e foi direto falar com ela, conversaram
um pouco e Guilherme ouviu quando Marina disse que estava arrependida. Depois
disso, Nicky veio ao encontro de Guilherme.
─ E aí Mona? O que aconteceu? Por que você fez aquilo com a Marina?
─ Nicky, eu já pedi desculpas e ela disse que não queria mais me ver, me deixou
falando sozinho na escada. Eu não sei o que está acontecendo comigo, cara, eu não sei!
─ Bom, chegue lá e fale com ela. Olhe lá, ela se levantou e está indo embora.
─ Não saia daqui Nicky! Eu já volto.
Saiu correndo, Marina de costas passava a mão pelo cabelo. Guilherme chegou
por trás e a segurou pela cintura, colocou a boca no ouvido dela e sussurrou:
─ Não faça isso comigo, por favor!
Marina parou no mesmo instante, ficou assim o quanto pode, queria ser forte e
não dar o braço a torcer, mas gostava tanto dele que não agüentou e virou-se de frente.
Guilherme a abraçou com toda a doçura do mundo, acariciou seu rosto, seus cabelos,
sua cintura e a beijou suavemente, um beijo demorado, arrependido. Marina abraçou-o
com força, uma onda de sentimentos invadiu sua cabeça, mas ela não se importou,
estava com Guilherme e nada mais interessava.
Lá fora, o tempo fechava-se e uma chuva fina e triste começava a cair naquele
momento. Guilherme e Marina ficaram por algum tempo abraçados, olhando a chuva
cair e, então, retornaram para a mesa onde Nicky os esperava, sorridente.

XV

Sábado chuvoso. O vento batia nas folhas das árvores e as balançava


freneticamente. Guilherme acordou e notou que dormira com a janela aberta. Viu uma
folha da árvore cair, o vento soou forte e aí a chuva apertou. Tinha combinado com
Nicky, Roger, Artur e Pedro de irem ao clube, mas, com aquele tempo, nenhum dos
quatro iria sair de casa. Conhecia-os muito bem e sabia que eles curtiriam mais um bom
filme alugado embaixo das cobertas do que irem para o shopping, em último caso.
Aliás, odiavam shopping. Virou-se para o outro lado da cama. O telefone tocou.
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─ Droga! ─ disse Guilherme pegando o fone. ─ Alô?


─ Oi, Mona?
─ Sim?
─ Puxa, cara, que voz de sono! Vamos ao shopping?
─ Shopping? Uma hora dessas? Tá brincando?! Nem me levantei da cama ainda,
meu... Tô fora! E outra coisa: odiamos shopping, o que faremos lá?
─ Não, o que é isso? Tá ficando frouxo? Vamos passar aí na sua casa, todos nós,
nossa galera de sempre. Está chovendo mesmo, então qual o problema de fazermos um
programa não muito agradável? Podemos ir ao cinema, depois comer alguma coisa,
jogar boliche... enfim, podemos fazer um monte de coisas. O shopping tem suas
vantagens...
─ Não é questão de passar em casa. O fato é que eu não estou a fim de passear.
Quero ficar em casa.
─ Ou será que foi a Marina que o proibiu de sair com os amigos?
─ Escute aqui, cara, minha namorada não interfere em nada! Não quero ir e
pronto, tudo bem?
─ Tudo bem. Iremos às sete horas da noite. É só para dar uma olhada, comer
alguma coisa e voltar. Quero ver o que está passando no cinema também. Please, Mona
Lisa, please. Por falar em Mona Lisa, como vai a banda, Gui?
─ Muitíssimo bem. Cada dia que passa é um dia de vitória para mim.
─ Que bom, cara, e aí? Vai ou não?
─ Tudo bem, vocês venceram... vou.
─ Sete, então?
─ Ok.
Desligou o telefone e pulou da cama.
─ O sossego acabou!
Entrou no banheiro e fez o ritual de sempre, tomou banho e saiu. Colocou um
conjunto de moletom azul-marinho e cinza, desceu as escadas e foi tomar café. Comeu
bem e foi até a sala, ligou a TV e começou a assistir um seriado infantil.
─ O que o fez pular da cama tão cedo numa manhã chuvosa de sábado? ─ era
Sarah entrando na sala.
─ Falta de sono! ─ disse ele com um sorriso nos lábios. ─ Já tomei meu café.
─ É, vejo que você me deixou para trás ─ disse Sarah indo para a cozinha.
Guilherme desligou a TV e subiu para o quarto. Sentou-se na cama, com o olhar
fixo na porta, e ficou pensando. Por que fico pensando em Mona Lisa? Acho que estou
me apaixonado por ela, estou ficando louco por ela, não paro de pensar nela. Meu Deus,
como é ruim gostar de alguém... Nunca pensei que eu pudesse um dia gostar de um
quadro, o que minha mãe vai pensar de mim quando souber? E o meu pai? Não quero
nem pensar!
Por mais força que Guilherme fizesse, volta e meia o pensamento retornava, era
uma gozação.
Foi até a janela e ficou olhando para fora. A chuva havia passado, mas o frio
continuava. Pegou a chave do portão e desceu. Abriu o portão e foi andar um pouco na
rua; encontrou Nicky no portão da casa dele.
─ Aonde vamos, Mona, de moletom e chinelo?
─ Andar um pouco, vamos?
─ Claro.
Andaram lado a lado conversando, entraram em uma lanchonete no final da rua,
sentaram em uma mesinha e pediram dois mistos-quentes e sucos de morango.
Conversavam animados e riam alto.
18

─ Poxa meu ─ disse Nicky olhando para fora ─, que tempinho chato! Não dá
nem para andar de patins, pois toda hora chove.
─ Dá, sim, cara, olha para o céu, está começando a clarear, quer dizer que o
tempo vai melhorar.
─ Se melhorar, vamos amanhã ao clube.
─ Estarei lá!
─ Vai ao shopping?
─ Fazer o quê? Quem passa na casa de quem?
─ Nós passamos na sua.
─ Ótimo.
─ Por favor, mais um misto?
─ Para mim também.

XVI

Deitado na cama, Guilherme lembrava do shopping. Fazia tempo que não ia lá e


hoje tinha sido legal. Ele havia se divertido bastante com os amigos e conhecido várias
garotas. Mas o que isto tinha a ver se ele já tinha a dele?
Adormeceu logo.
Acordou de manhã bem cedo com buzinas, sirenes de ambulância, choro de
criança, gritos desesperados e bater de portas.
Abriu a janela do quarto e olhou para a rua. Havia um aglomerado de pessoas
em frente sua casa. Em poucos minutos, com uma rápida passada de olhos reconstruiu a
cena inteira. Havia um skate jogado na guia e o corpo de um menino estava na rua,
perto de um carro. A mãe estava chorando desesperada. Pensou logo: a criança estivera
andando de skate na rua, não viu o carro e foi atropelada.
Guilherme fechou a janela e deitou-se na cama; estava com pena daquela
senhora e principalmente do menino. Ele morava na casa em frente à sua, tinha nove
anos e chamava-se Marcelo. Ficou pensando nisso por algum tempo e, de repente, tudo
começou a ficar embaçado, trêmulo, escuro, seus olhos foram se fechando e ele
adormeceu.
Acordou com o telefone tocando.
─ E aí Mona? Vamos à praia?
─ Praia?
─ Isso, Ilha Bela!
─ Puxa, Ilha Bela é legal...
─ E aí? Topa? Já alugamos a casa. Vamos eu, o Pedro, Roger, Artur e você.
Desta vez queremos uma praia diferente, chega de irmos sempre para as praias em que
temos casa. Vamos inovar, fazer uma coisa nova, nós mesmos alugarmos uma casa e ver
o que acontece. É sempre bom mudar um pouquinho...
─ Opa, claro que sim, quando vamos?
─ Que tal na quarta-feira?
─ Quarta? Não seria melhor na quinta à noite?
─ Quinta?
─ É melhor.
─ Tudo bem, quinta, então!
Desceu as escadas eufórico, encontrou-se com Sarah na cozinha.
─ Bom dia, mãe!
─ Bom dia, Gui. Já de pé, tão cedo?
─ Pois é, mãe, vou à praia com o Nicky e os outros na quinta à noite.
19

─ Quinta? Vão em quantos?


─ Cinco, já temos a casa alugada. Tudo já está certo.
─ Que bom, Gui. E voltam quando?
─ Segunda, por causa das aulas...
─ Por causa das aulas ou por causa da Marina?
─ Pelos dois motivos.
─ Com licença, dona Sarah. Bom dia, Guilherme, telefone para você. É a
Marina.
Guilherme saiu correndo, atendeu ainda com a boca cheia, estava surpreso, pois
Marina não era de ligar para sua casa, ainda mais de manhã tão cedo.
─ Gui, por que não me disse que vai à praia com os meninos?
Guilherme engoliu o pão com rapidez.
─ Bom dia, Marina. Eu não a avisei nada porque o Nicky me ligou agora e
acabamos de combinar. Ele queria ir na quarta-feira, mas pedi para ir na quinta e ele
achou tudo bem.
─ Mas, Gui, como você combina uma coisa sem antes me avisar? Assim que ele
falasse com você, tinha que ter me ligado e me avisado. Poxa, não deixar que o Roger
me avisasse... é chato isso.
─ Marina, ele me ligou, desci para o café e estava dizendo isso para a minha
mãe, aí você ligou; não deu tempo de avisá-la.
─ Não é questão de tempo, é questão de consideração comigo, Gui.
─ Eu ia avisá-la na sala.
─ Não é o certo!
─ Tudo bem, me desculpe, não cairei em outra, tá?
─ Tudo bem. E quando voltam?
─ Se quiser, eu não vou.
─ Não, Gui, nem pensar. Não quero proibi-lo de nada, nem ser mandona. Só
quero que você me avise antes quando for viajar e de preferência me leve junto. Já estou
cansada de ser trocada pelos seus amigos; você não sai comigo, sai mais com eles... e
não sei se sabe, mulher leva em consideração os detalhes... então, por favor, não se
esqueça de mim da próxima vez, pois para ter um namorado assim é mais fácil não ter,
pois, independente de ter ou não, eu estou sempre sozinha mesmo.
─ Não fique assim. Já lhe pedi desculpas e disse que não farei isso novamente.
Eu prometo que farei o que me pede, e assim que chegar, na segunda-feira, irei direto
para sua casa.
─ Tá bom. Vai hoje à faculdade?
─ Vou.
─ Então tá, nos encontramos lá. Tchau.
─ Tchau, Marina, um beijo.
─ O quê?
─ Um beijo.
─ Ah... outro.

XVII

─ O Mona está?
─ Já vou, querem entrar?
─ Não precisa não, obrigado.
Da janela Guilherme gritou:
─ Entrem, estou acabando.
20

Entraram e se sentaram no sofá. Benedita serviu iogurte e bolacha para eles e se


retirou. Guilherme desceu as escadas com duas malas de viagem. Ele estava de calças
jeans escura, tênis, camiseta branca e o cabelo estava preso.
─ Ih, o que aconteceu, Nicky? Cortou o cabelo?
─ É, tenho que ficar mais bonito...
─ Vamos, então? ─ manifestou-se Guilherme pegando uma bolacha. ─ Não
agüento mais.
Sarah apareceu na sala.
─ Tchau, mãe ─ disse Guilherme dando-lhe um beijo no rosto. – Tchau Benê.
─ Tchau, Gui.
Saíram bagunçando e, ao passarem pela porta, derrubaram o fone do gancho.
─ Esses meninos...

XVIII

Sexta-feira ensolarada, duas horas da tarde e já estavam os cinco na praia, de


bermudas, chinelos e sem camisas.
Guilherme foi o primeiro a mergulhar, jogou-se na água acompanhado de Nicky
e logo depois Pedro, Artur e por último, como sempre, Roger, o mais bagunceiro da
turma. Ele mais parecia um bobo da corte com o chapéu que estava usando.
Voltaram para casa famintos, e ninguém sabia cozinhar.
─ Quem faz o rango? ─ disse Nicky olhando para os outros. ─ Estou com muita
fome.
─ Bem ─ disse Guilherme ─, sei fazer salada de tomates, arroz e fritar bife, tá
bom?
─ Tá ótimo, Mona, pode ir para a cozinha. Vou comprar os bifes, pois esqueci
em casa os que traria.
─ Ótimo, vou fazendo o arroz!
À noite, depois do banho e do jantar, se arrumaram, pegaram o carro e saíram.
Chegaram de madrugada e foram dormir. A casa era pequena, dois cômodos apenas; na
hora de alugar, como fora de última hora, só sobrara aquela. Dormiram três na cama de
casal e dois no chão; até os colchões esqueceram de levar, e agora teriam que dormir
amontoados.
As quatro noites que passaram assim, se revezando, foram até hilárias, mas
Guilherme não parava de pensar no quadro de Mona Lisa. Não contara nada aos
amigos; só o Nicky sabia; os outros certamente não entenderiam e acabariam rindo da
cara dele, já que eram tão bagunceiros...
Esforçou-se o máximo para parecer bastante falante e disposto, mas no fundo
pensava em Gioconda. Pensava em Marina também, mas como se ela fosse uma amiga e
não sua namorada.
Fazia força para não se lembrar do quadro, mas era tudo em vão. Por mais força
que fizesse, a imagem sempre voltava. Via-se no museu, depois o quadro de Gioconda,
lembrava-se de seu tratamento com o psicólogo e achava tudo aquilo muito estranho. O
que mais achava estranho era como o quadro tinha um poder tão grande de fazer com
que ele se sentisse tão desgastado daquele jeito. Nem o doutor Raul sabia explicar o que
acontecera com Guilherme, tinha sido uma coisa repentina e ao mesmo tempo
extraordinária.
Assim que Guilherme chegou em casa, ligou para Marina para não ter a surpresa
de receber um outro telefonema bronqueado. Deitou-se na cama e fechou os olhos, ligou
o som e ficou escutando música. Pensava em Mona Lisa, na música e na homenagem
21

que havia feito a ela. Sentia-se tão bem cantando a música. Quando estava triste, bravo,
chateado ou até mesmo muito feliz, cantava ou se contentava revendo-a nos
pensamentos, e isso o deixava novo em folha.
Com muito custo, Sarah conseguiu entrar no quarto de Guilherme, espantou-se
ao abrir a porta e ver tantos livros de biografia da Mona Lisa. Eram duas pilhas com uns
seis livros mais ou menos cada uma. Havia pelas paredes fotos espalhadas, fotos de
diversos tamanhos, desde a menor até a maior, de diversos ângulos, um absurdo, uma
coisa hiperbólica.
Sarah sentou-se na beira da cama com um copo de suco de laranja e duas pêras;
Guilherme nem a viu chegar e muito menos sair. Ele estava muito cansado e ela não
queria acordá-lo.
Saiu e fechou a porta atrás de si.

XIX

Som baixo, luz apagada, tênis jogado nos pés do sofá.


As meinhas brancas, estampadinhas de borboletas azuis, estavam parcialmente
fora dos pés, o cabelo estava preso em um rabo-de-cavalo todo solto e a camiseta estava
jogada por cima do short; uma cena um tanto desleixada, mas era assim que Marina
preferia ficar em casa, bem à vontade, sem nada que a atrapalhasse.
Enquanto ouvia música, pensava em Guilherme. Como será que ele havia se
comportado na praia longe dela? Conhecera muitas garotas? Ficara com alguma? Não,
não e não. Guilherme não era desses tipinhos que namoram uma aqui, ficam com outra
ali, conhecem outra lá e assim por diante. Não, ele era muitíssimo diferente, era
educado, inteligente, atencioso, romântico, bonito e, o melhor de tudo, era seu
namorado e de mais ninguém.
O que será que ele estaria fazendo naquele instante? Será que pensando nela
como ela estava pensando nele? Não, os homens são diferentes de nós, mulheres; eles
gostam, mas de um jeito diferente, precisam sempre dar uma olhadinha para os lados de
vez em quando, coisa que nós não fazemos. Não gostam que usemos roupas curtas, mas
adoram olhar para as que usam. Não gostam de ser românticos a ponto de nos enviarem
flores como esperamos receber, nem nos escreverem cartas, como adoramos fazer... Os
homens são todos iguais e depois dizem que nós é que somos, pode? Nunca nos
compreendem quando estamos irritadas, e acham que a TPM é frescura de mulher. Se
eles soubessem...
Mas é claro que ele estaria pensando nela, afinal de contas ela era sua namorada
e ambos se gostavam, então não havia possibilidade de ele pensar em outra.
Sorriu sozinha do seu próprio pensamento, levantou-se e foi até a janela da sala
e olhou: o tempo mostrava claramente que logo uma chuva impetuosa iria cair sobre a
terra. Deu de ombros, afinal de contas não iria hoje à faculdade. O Guilherme até
poderia ir, mas ela não. Se ele quisesse vê-la, que passasse depois da aula, oras.
Saiu da janela e, encaminhando-se até a cozinha, tomou um copo de leite,
colocou o copo dentro da pia e subiu para seu quarto.

XX

Deitado na cama, Guilherme estava só de bermuda. Aquela manhã estava


abafada, olhou para a janela e viu que logo cairia uma chuva daquelas. Pensou em não ir
à faculdade; depois pensou bem e resolveu ir. Não estava pensando em nada naquele
momento, até que olhou para uma das fotos e começou a pensar nela. Sorriu para a foto,
22

era impossível acreditar que ele, Guilherme, estava apaixonado por uma pintura de mais
de cinco séculos atrás, isso era extraordinário e ao mesmo tempo absurdo. Onde já se
viu uma pessoa normal gostar de um quadro? De uma pessoa que já morreu há tanto
tempo e a qual nunca mais ele iria ver? Bem, nunca viu, nem veria. Isso era monstruoso
e ao mesmo tempo engraçado. Mas ele não fazia isso por querer; por mais que tentasse,
não conseguia esquecê-la. Marina quase não fazia mais parte do seu mundo. Gostava
demais de ficar com ela, de abraçá-la, de poder conversar com ela, coisas que com
Mona Lisa eram impossíveis. Para ele, Mona Lisa era como uma namorada que ele
tivera no passado, mas que até hoje continuava viva em seus pensamentos. Era isso: ela
não era apenas uma pintura e sim uma pessoa como as outras. Para ele, Mona Lisa era
Marina.

XXI

Estava em um lugar deserto. A lua estava cheia e o céu estrelado. Nenhum


vestígio de vida no mar, apenas as ondas, os barcos à vela, o cais, as rochas, a areia solta
da praia e a linha do horizonte.
Lá longe, com sua luz vermelha, o farol brilhava no meio do mar, que, àquela
hora, estava calmo e o vento soprava sobre seus cabelos e acariciava suavemente seu
rosto e suas pernas; seus braços estavam soltos. Estava sentado na areia apenas de
bermuda e camiseta; com os pés descalços, o cabelo solto, ele contemplava o céu, o
luar, as estrelas, o mar, enfim, toda aquela imensidão.
De repente, o mar ficou revolto, suas ondas tornaram-se gigantescas e se
quebravam ruidosas nas rochas. Guilherme ficou assustado e quis levantar-se para ir
embora, mas suas pernas não obedeciam e ele continuou ali sentado, só prestando
atenção ao que aconteceria a seguir.
Lá no fundo, na linha do horizonte, viu um peixe grande pulando. Ficou
estarrecido com o que via. O peixe pulava de um lado para o outro e mergulhava no
mar. Numa espécie de brincadeira, ficou fazendo isso por um bom tempo e Guilherme
continuava ali paralisado, olhando para aquele peixe gigantesco que mergulhou e não
apareceu mais. Ele ficou chateado, estava gostando de ficar ali parado na praia vendo
aquele peixe pular com tanta perfeição e sem se cansar. Continuava ali na areia, quando
na margem algo começou a se mexer.
─ O peixe! ─ exclamou Guilherme. ─ Deve ser um golfinho que veio até a
margem brincar comigo.
Começou a levantar-se para chegar até perto da margem, quando viu emergir do
mar uma sereia: da cintura para cima era uma linda mulher, da cintura para baixo era
uma cauda enorme de peixe. Mas não era uma cauda normal, era diferente de cauda de
baleia, por exemplo. Ela era esverdeada, com uns reflexos avermelhados atrás dela; da
cintura para baixo, igual a uma linha que chegava até o rabo, havia pêlo... Não, não era
pêlo, era cabelo, da mesma cor dos cabelos de sua cabeça, castanho-escuros e lisos. Não
era uma sereia comum, dessas que se costuma ler nas estórias de folclore. Ela tinha asas,
lindas asas cintilantes e leves, não muito grandes, eram pequenas e delicadas, mas
verdadeiras asas de... fada? Algo estava acontecendo de anormal, pois até pouco tempo
atrás ela não tinha asas... Seu rosto era semelhante a de alguém que conhecia, mas não
sabia quem. Seus olhos eram enigmáticos, fixos e perfurantes, mas eram tristes, sua
boca não estava com um sorriso, mas também não estava séria, ficava no meio-termo...,
mas parecia que ela estava mais triste.
Ela começou a acenar para Guilherme e a cantar uma música suave e
encantadora. No meio da canção, ela o chamava:
23

─ Venha! ─ dizia ela como uma súplica. ─ Venha! ─ sua voz era muito distante,
parecia um eco que se perdia no meio do rugir do mar.
Guilherme esfregou os olhos e ela continuou chamando-o:
─ Venha... venha...
Guilherme notou suas mãos; eram finas e delicadas como as mãos de Mona Lisa.
Era isso, aquela sereia era Mona Lisa, bem que ele notara desde o começo que conhecia
aqueles olhos e aquele sorriso sinistros.
Guilherme deu um sorriso para ela e levantou-se; ela se afastou um pouco, quase
nada e olhava assustada para ele.
─ Não precisa ficar com medo, meu amor! ─ disse ele. ─ Quero ser seu amigo,
não irei machucá-la.
Ela sorriu e continuou meio afastada. Guilherme viu com horror que seus dentes
caninos eram muito compridos e pontudos, iguais aos de um vampiro. Olhou novamente
para suas mãos e viu que seus dedos eram compridos e finos, suas unhas eram enormes
e pintadas de vermelho; olhou bem e reparou que não era esmalte, era sangue.
A sereia estava olhando para Guilherme e, percebendo que ele notara sangue em
suas unhas, fechou a cara, seus olhos ficaram transparentes na hora, mostrando apenas o
branco e preto da pupila. Começou a bater sua cauda na água com força, suas asas
abriram-se gigantescas e negras e da sua boca saiu um grito fino e estridente.
Os olhos de Guilherme encheram-se de lágrimas e ele gritou:
─ Não vá embora, meu amor! Por favor, volte. Eu preciso de você!
Ela mergulhou nas profundas águas escuras do mar e foi embora; ele continuou
parado no meio da praia olhando para a água com um desejo enorme de que ela surgisse
novamente, mas foi em vão.
Lá, ao longe, no horizonte, ela apareceu de novo linda e majestosa como uma
sereia normal, sem asas, pulando e parou, olhou para a direção de Guilherme, sentou-se
em uma rocha, acenou tristemente para ele, mergulhou na água e foi embora. Via-se
apenas sua cauda encurvada, ora para cima, ora para baixo até ficar minúscula e sumir
nas águas profundas, indo para o seu mundo submarino.
Guilherme, parado sem saber o que fazer, gritou com toda a força de seus
pulmões:
─ Volte, Mona Lisa, volte, por favor! Não me deixe assim... não posso viver sem
você. Volte para mim, por favor... Volte aqui, meu amor...
Esperou muitos minutos, horas a fio e nada aconteceu. Jogou-se no chão e
começou a chorar. Justo agora que ele a tinha tão perto, tão perto e ao mesmo tempo tão
longe. Não negou que ficou com horror só de ver a simples aparição dela naquela forma
estranha e diabólica, mas não deixava de ser ela ali, tão perto, tão ao alcance das mãos
que podia jurar sentir a textura macia de sua pele quente e envolvente.
Continuou deitado na areia, virou-se de costas e olhou para o céu. Levantando-
se, saiu correndo na direção do mar, com os braços abertos. Enquanto corria, ouviu uma
voz que o chamava e sentiu uma mão pressionando-o pelo ombro.
─ Vamos, Mona, perdeu a hora?
─ Nicky? O que você está fazendo aqui?
─ Nós não íamos sair? Vim buscá-lo e sua mãe disse que estava dormindo; aí
resolvi acordá-lo. Nossa, seu sonho devia estar muito bom, pois faz tempo que estou
chamando e só agora você acordou. Estava sonhando com a Marina?
─ Sabe que nem me lembro? Foi tudo tão rápido... me desculpe cara, eu só vou
tomar um banho e já sairemos, ok?
─ Tudo bem, mas que você se lembra do seu sonho e não quer me contar..., isso
se lembra.
24

─ Tá legal, Nicky, eu estava sonhando com uma mulher sim, mas não era a
Marina, e agora deixe-me tomar meu banho sossegado.
─ Tá bom, tá bom. Pronto, não se fala mais nisso.
Guilherme saltou da cama e saiu correndo para o banheiro.

XXII

Tudo estava marcado, tudo estava pronto. Não podiam cometer nenhum deslize
ou tudo iria por água abaixo.
Um ronco de carro parou em frente à casa velha. A construção ficava em um
terreno baldio; suas paredes estavam esburacadas e metade do muro em ruínas. Na
frente da casa havia um poço seco. Dentro dela, uma escada interminável em caracol
dava para um pátio escuro, com algumas mesas distribuídas, como se fosse um
refeitório. Na parede havia um armário embutido cuja finalidade era uma passagem
secreta, por onde, andando um pouco encurvado, saía naquele poço em frente à casa.
Estava lá no poço, no lugar onde sempre se escondia. Ele encontrara aquele
esconderijo por acaso, num dia, quando criança, em que brincava de esconde-esconde
com os amigos dentro da casa velha. Nesse dia, um deles havia entrado no armário,
cedendo para a passagem. Dali em diante, qualquer reunião que faziam era sempre
naquele poço seco.
Ouviu alguns passos, o barulho do armário cedendo para a passagem e
finalmente ele apareceu.
─ Tudo pronto! A excursão para o museu será na próxima semana, na terça-feira.
─ Bom garoto! Ele vai?
─ É claro! Fiquei sabendo por cima que ele está vidrado; vai dar tudo certo.
─ Que bom, cara! Ninguém vai desconfiar de nada.
─ Tenho certeza, concordo com você!

XXIII

─ Rápido, Guilherme, o Roger está lá embaixo esperando por você. Não


demore!
─ Já estou indo, mãe!
─ Tá, não demore!
Guilherme colocou uma calça de moletom preta, blusa branca, chinelo, prendeu
o cabelo e desceu as escadas.
─ E aí cara? Tudo legal?
─ Opa, Mona, tudo em cima. Como você está se sentindo? Já melhorou?
─ Melhorou do quê?
─ Você não estava indo em um psiquiatra?
─ Como você ficou sabendo?
─ Ora, eu sei de tudo. Já se esqueceu? Fiquei sabendo que você estava se
tratando, só isso. Aí resolvi perguntar.
─ Bem, estou me tratando sim, mas é um assunto delicado. Quando chegar o
momento apropriado eu lhe falo, ok?
─ Claro. Bom, fiquei sabendo também que a sua musa inspiradora foi Mona
Lisa, aquela pintura famosa. Bem, até que para uma banda de rock Mona Lisa não ficou
feio, pegou legal!
─ Você achou? Quanta gentileza a sua, Roger. Percebi que hoje você quer
investigar bastante, acertei? O que mais você quer saber?
25

XXIV

Na manhã seguinte, Guilherme levantou-se e foi até a janela. O tempo havia


mudado, fazia um sol quente e o céu estava azul. Olhou para o anel e viu que estava
violeta, sinal de que ele estava calmo. Aspirou fundo o ar matinal. Fazendo isso todos os
dias, ele se sentia muito bem. Ficou mais um pouco na janela e viu Nicky passar
correndo.
─ E aí Mona? Tudo legal?
─ Tudo, Nicky.
─ Ok, depois eu passo aí!
─ Tudo bem.
Saiu da janela e ligou o rádio. Foi até o banheiro e fez a barba. Desceu para o
café e sentou-se na sala. Ligou a televisão e começou a assistir. Benedita apareceu na
porta e trouxe-lhe um sanduíche.
─ Bom dia, Guilherme.
─ Bom dia, Benê, e a mãe?
─ Saiu com o Sr. Walter.
─ Faz tempo?
─ Uma meia hora, mais ou menos.
─ Ah, obrigado, Benê. Olha, se ligarem e perguntarem por mim, diga que não
estou.
─ Até se for a Marina?
─ Ela não, nem o Nicky e o Fael; para os outros, diga que não estou.
─ Tudo bem.
─ Obrigado, Benê.
Benedita se retirou da sala. Guilherme comia o sanduíche e assistia a TV. O
calor era grande e ele estava de bermuda, camiseta e chinelo. A janela estava aberta.
Ficou assim o dia todo. Lá pelas quatro da tarde, o telefone tocou.
─ Gui, é a Marina.
─ Marina? O que foi?
─ Nada não, Gui, é que não é para você passar em casa hoje, vou sair.
─ Ontem, não era para eu passar aí, quinta também não, terça também não, e
hoje, que é sábado, também não? Algum problema?
─ Oh, Gui, não dá!
─ Tudo bem, Marina, não vou passar. Tchau!
Desligou o telefone e ficou pensativo. O que será que estaria acontecendo?
Subiu as escadas e tomou banho. Colocou bermuda preta, camiseta branca e tênis.
Desceu correndo as escadas.
─ Onde vai, Gui?
─ Na casa da Marina.
─ Mas ela não falou para não passar lá?
─ Falou, mas é por isso que vou passar. Desde terça que não posso ir lá. Ela liga
e sempre tem algo mais importante para fazer do que me ver. Vou até lá verificar o que
está acontecendo, o que ela está fazendo!
─ Ai, Guilherme, já vai começar?
─ Benê, ela é minha namorada. Tudo o que eu faço, ela me obriga a contar e eu
conto. Agora, por que ela não quer me contar? Vou ver se está havendo algo. Ela nunca
fez isso antes, não vai continuar fazendo e muito menos começar a fazer, senão acabo
com tudo. Não gosto mesmo dela, gosto é de Mona Lisa, entendeu?
26

─ Você tem que parar para pensar, ela pode estar fazendo isso porque você pode
ter mudado. Você tem tempo para ela? Ou você só tem tempo para a banda e Mona
Lisa? Você cuida dela? Escreve cartas? Manda flores? Liga? Aparece de surpresa? Tem
sempre passeios divertidos e diferentes? Sempre está ao lado dela quando ela precisa?
As mulheres, Gui, são diferentes, gostam de homens românticos, galanteadores,
sensíveis... Para elas, o importante são os detalhes. Os detalhes fazem toda a diferença.
Pare para pensar, refletir... será que você está dando valor para aquilo que recebeu nas
mãos? Está dando o real valor? Você já a viu com outra pessoa? Atendendo a outros
rapazes ao telefone? Saindo com amigos? Viajando e deixando-o para trás, como você
costuma fazer com ela? Pense, não me fale nada, só pense e faça o que achar que é o
certo!
Guilherme escutou tudo e não disse uma palavra. Saiu furioso, bateu a porta e
pegou a moto. Benedita apareceu na porta aflita:
─ Não corra, Gui, pelo amor de Deus!
─ Pode deixar, Benê, vou bem calminho. Não vou fazer nada de que possa me
arrepender depois!
Colocou o capacete vermelho, montou em sua moto e lá se foi.
Quando chegou à esquina da rua de Marina, viu um carro branco na porta da
casa dela. Ficou parado, desligou a moto, mas continuou montado nela.
Viu um cara descer do carro e cumprimentá-la, estavam de mãos dadas, quando
Guilherme parou na frente dos dois.
─ Oi, Marina, não vai me apresentar seu novo amigo?
Marina ficou vermelha de vergonha, soltou as mãos rapidamente e ficou olhando
para Guilherme.
─ É por isso que você me ligou desde terça-feira pedindo para eu não vir até
aqui? Mas, agora, parece que você está muito contente com seu novo amigo... Às vezes,
até falou para ele que não tem namorado. Se você falou isso, prazer, sou Guilherme, ex-
namorado dela! ─ disse Gui estendendo a mão ao rapaz. ─ Acho que não temos mais
nada para conversar, Marina. Talvez seu novo amigo queira saber alguma coisa depois
disso, não sei. Se ele for cauteloso, irá ter uma conversinha com você. Tchau, caro
amigo. E Marina, por favor, não ligue mais lá para casa não, tá? E não encha o Nicky
com suas estórias sentimentais... Vou dar a boa-nova para ele agora, como você me
ensinou, lembra? Desculpe o incidente, mas foi necessário!
Guilherme fez a volta com a moto e, quando passou por eles, buzinou.
Chegou em casa, abriu o portão num arranco. Benedita, na varanda, estava com
as mãos cruzadas, do mesmo jeito, desde quando ele saiu apressado; até parecia estar
petrificada. Guilherme estacionou a moto, pegou o capacete e entrou.
Subiu as escadas, abriu a porta do quarto, jogou o capacete no canto e sentou-se
na cama. Ficou pensando por um bom tempo. Não queria se apaixonar por Mona Lisa,
mas se apaixonou. Não pediu para conhecer Marina, mas acabou conhecendo. Não
pediu para nascer, mas nasceu. Não pediu para Mona Lisa morrer, mas morreu. Agora
não pedia e sim suplicava para esquecer Marina e não conseguia. Ela, com aquele
jeitinho meigo e carinhoso, o havia conquistado de tal maneira que agora ficava difícil
esquecê-la.
Por que ela fez isso? Tudo bem, ele podia ter feito alguma coisa errada desde o
começo, como estar apaixonado por outra, mas era por uma morta! Por um quadro! Ele
sempre fez de tudo para ser sincero com Marina, mas ela não tinha jeito de que o trairia
nunca, mas as aparências enganam. O jeito como ela o tratava era diferente, sempre
atenciosa, sempre meiga, sempre alegre. Nunca se deixava abater, e agora quem estava
abatido era ele.
27

Uma leve batida à porta fez com que ele despertasse de seus pensamentos.
─ Quem é? ─ disse Guilherme passando as mãos pelos cabelos.
─ Sou eu, Gui, a Benê!
─ Pode entrar.
Benedita entrou com uma bandeja cheia de chocolates e frutas e colocou na
cabeceira de Guilherme. Parou na frente dele e disse:
─ O que você tem, Gui? Foi à casa dela?
─ Fui, Benê. Não queria contar para ninguém, mas, como desde pequeno sempre
contei tudo a você, não será desta vez que não farei isso, certo?
─ Então comece, meu filho, estou muito curiosa. Você chegou muito nervoso. O
que houve? Brigaram?
─ Antes fosse isso, Benê, foi muito pior.
─ Anda logo, Gui. O que aconteceu?
─ Fiquei parado na esquina.
─ Sei.
─ E aí vi um carro branco parado na frente da casa dela.
─ E daí?
─ Daí fui até lá e vi que ela estava de mãos dadas com o cara, conversando.
Assim que cheguei perto, ela soltou as mãos dele e ficou vermelha. Falei algumas coisas
que ela precisava escutar e vim embora. Eu nunca esperaria isso dela, Benê, foi
horrível!
─ Calma, Gui! Você pode ter confundido as coisas.
─ Não sei, Benê, acho que não. Sabe, gostaria de ficar um pouco sozinho,
posso?
─ Como quiser, Gui, com licença!
Guilherme levantou-se da cama e foi até o guarda-roupa. Colocou um macacão
jeans bem largo. Em uma das prateleiras de dentro do guarda-roupa estava a foto de
Marina. Guilherme pegou a foto com todo carinho e passou a mão pela foto. Seus olhos
se encheram de água e aí ele leu a dedicatória: “... com todo amor e carinho, Marina”.
Recolocou a fotografia no lugar de onde havia tirado e sentou-se na cama.
Benedita bateu novamente à porta:
─ Guilherme, tem um carro aí fora, é um dos seus amigos que está chamando.
─ Obrigado, Benê.
Desceu as escadas, abriu a porta da sala e da varanda avistou um carro branco.
Do carro desceu o mesmo cara que estava com Marina. Guilherme já fechou a cara,
abriu o portão e saiu. Parou na frente do cara.
─ É você que é o Guilherme?
─ Sim ─ disse Guilherme secamente. ─ O que você quer?
─ Calma... Você entendeu tudo errado a respeito da Marina.
─ Errado? Como? Eu vi com os meus próprios olhos que ela estava de mãos
dadas com você, eu não sou cego!
─ Não. Não vamos misturar as coisas, certo? Deixe eu me apresentar. Sou
Luciano, primo da Marina. Na hora em que você chegou, ela estava me falando
justamente de você.
─ E as mãos dadas?
─ Calma. Então, como eu dizia, eu não moro aqui, moro no Guarujá. Eu vim
visitar minha tia e a estava cumprimentando, quando você chegou tão repentinamente e
foi embora, que não deu tempo nem de lhe explicar.
Guilherme estava pensando. Realmente, se ele estivesse ficando com ela, não
viria atrás dele para justificar nada. Simplesmente continuariam ficando ou iria embora.
28

─ Guilherme, a Marina, na hora em que você saiu, entrou em casa chorando.


Está com os olhos inchados. Com muito custo, consegui pegar seu endereço da agenda
dela. E, então, o que você diz? Vai lá conversar com ela?
─ Claro, mas vou trocar de roupa! ─ disse Guilherme animado.
─ Que nada cara, tá bom demais assim.
─ Será?
─ Claro, entre aí logo.
─ E se ela não quiser me atender depois disso tudo que fiz?
─ Difícil. O que ela mais quer é falar com você.
─ Então vamos, não quero perder tempo.
Saíram logo em seguida.

XXV

─ Guilherme, posso falar com você?


─ Claro, pai, o que é?
─ Sabe, não sei, mas suponho que você não esteja indo mais ao psicólogo!
Guilherme ficou quieto, não sabia o que responder.
─ Vamos, Guilherme ─ disse Walter sentando-se na frente dele ─, estou
esperando sua desculpa.
─ Não estou indo mais!
─ Sim, eu sei. E?
─ Porque não vejo motivos para continuar indo. Por que, já que estou gostando
de um quadro, tenho que começar a me tratar com psicólogo? Por que todos os dias
tenho que chegar àquele consultório, me deitar naquele divã e ficar descrevendo o que
fiz durante o dia? Descrevendo o meu dia anterior? Tenho que ficar contando o que fiz e
o que deixei de fazer? Por quê? Acho tudo isso pura perda de tempo. Não quero mais ir
lá, é horrível!
Walter ficou pensativo.
─ Sabe, Guilherme, certa vez, um homem começou a gostar de uma mulher que
estava em uma revista. Ele fez de tudo: entrou em contato com a revista e com muito
custo deram-lhe o seu telefone. Ele ligou e, no meio da conversa, a mulher lhe disse que
ele era muito bobo, que não era mais para ligar para ela e que se esquecesse dela de uma
vez. O que quero lhe dizer com isso é que com você está acontecendo a mesma coisa,
por isso o tratamento é necessário. Por exemplo, depois desse telefonema, o homem
caiu em profunda depressão e um dia suicidou-se. Sei que isso não passa por sua
cabeça, mas, como pai, tenho o direito de avisá-lo e exigir que prossiga com o
tratamento até o final!
─ Mas comigo não vai acontecer isso, pai, pois ela foi pintada em 1500, ou seja,
já morreu há muitos anos...
─ Eu sei, mas só de você saber que nunca a terá, vai acabar se tornando um
amor impossível, quer dizer, já é um amor impossível! Você irá chegar a um ponto em
que achará que só a morte irá tirá-lo dessa aflição e estará completamente errado.
─ Pai, há certas providências na vida que devem ser tomadas sem a autorização
de ninguém. Basta a pessoa querer e, pronto, já fez o que deu na telha!
─ E quais são as providências?
─ São muitas. O casamento é uma delas; ninguém manda em ninguém,
obrigando a se casar. Há pessoas que obrigam, essas são chamadas de ignorantes, mas
não são todas. O outro exemplo é a profissão, são essas e outras coisas que costumo
29

chamar de “certas providências”. Mas nunca irá passar pela minha cabeça um suicídio,
fique tranqüilo!
─ Eu sei, Guilherme, mas é bom você continuar indo ao psicólogo, fazer o
tratamento, esquecer esse quadro, procurar alguém... E a Marina?
─ Vai indo!
─ Como assim? Cadê a euforia do começo? Era Marina para cá, era Marina para
lá. Vamos, me diga o que aconteceu?
─ Nada pai, não aconteceu nada.
─ E quem era o cara do carro branco? Aquele que apareceu ontem e disse coisas
da Marina?
Guilherme sorriu, olhou para o rosto de seu pai, que estava convertido em uma
careta engraçada.
─ Quer dizer que o senhor andou ouvindo?
─ Não, Gui, fiquei sabendo pela sua mãe.
─ Bom, não dá mais para esconder. Terça-feira, ela me ligou dizendo para eu
não ir lá, quinta-feira também, sexta e ontem a mesma coisa; aí eu me arrumei e fui lá.
Ao chegar, eu a vi com um cara, conversando. Briguei e voltei para casa. Depois, ele
veio me explicar que era primo dela e estava cumprimentando-a; e como cheguei
rapidamente, compreendi tudo errado.
─ E os dias que não eram para você ir lá?
─ Surpresa. No meu aniversário, ela planejou uma festinha...
─ Coitada, Gui!
─ Pois é, mas já está tudo bem.
─ Que bom! ─ disse Walter levantando-se e caminhando até a porta. ─ Vou ver
minha princesa...

XXVI

O tempo havia mudado novamente, o céu estava nublado. Uma garoa fina
começava a cair naquele momento. Guilherme estava de moletom, cabelo molhado e
chinelo. Estava ao portão vendo o movimento da rua e estranhou um carro que passava
toda hora e alguém que olhava para ele; não dava para ver quem estava dentro do carro,
pois os vidros eram escuros. Guilherme entrou e foi se arrumar.
Hoje, terça-feira, iriam novamente ao museu para fazer a pesquisa. Era um
trabalho sobre alguns pintores famosos, dentre eles se destacavam Leonardo da Vinci,
Michelangelo, Rafael Sanzio, Filippo Brunelleschi, Donatello, Caravaggio e Botticelli.
Também iriam procurar sobre Ticiano, Tintoretto (que foi o grande mestre do
contraste da luz e sombra), Albrecht Duren e Hans Holbein (que pintou os retratos
Erasmo e Henrique VIII). Além disso, iriam pesquisar sobre Pedro Lescot, construtor da
fachada ocidental do pátio do Louvre e da Fonte dos Inocentes, mas isso ele já sabia.
Guilherme não via a hora de chegar até o museu e poder rever o quadro de sua amada.
Não gostava de pensar que ela estava morta, contentava-se em dizer para si mesmo que
ela simplesmente dormia, com isso ficava um pouco mais animado. Queria ir logo ao
museu para ver sua Mona Lisa, rever seus traços e poder analisar minuciosamente cada
linha, cor, forma, textura e volume.
─ Mãe, já vou!
─ Cuidado, Gui, está levando tudo o que precisa?
─ Estou.
Abriu o portão e pegou o carro. Passou na casa de Nicky e os dois foram para a
faculdade.
30

─ Oi, galera! ─ disse Roger se aproximando de Nicky e Guilherme. ─ Tudo


beleza?
─ Tudo beleza. A Marina ainda não veio, Guilherme.
─ Eu sei.
─ Ih, Mona, o que houve? Você nunca falou assim a respeito da Marina, vocês
brigaram?
─ Não, Roger, só falei que sabia que ela não estava aqui, só isso!
─ É que você está meio nervoso, o que aconteceu?
Briguei com a Benê, ela queria que eu não viesse hoje, não sei por qual motivo;
eu disse que viria, então brigamos. Ela disse que estava pressentindo que algo muito
ruim iria acontecer, pode?
─ Poxa, que chato, cara!
─ É, muito chato, mas quando eu voltar, vou falar com ela.
─ É isso aí, Mona. Você vai precisar fazer as pazes com a Benê.
─ Que história é essa, Roger?
─ Nada não, Gui, falei por falar; você não consegue ficar um minuto longe dela,
não é? E aí, vamos lá para o ônibus?
─ Claro!
O sol brilhava alto. Guilherme encontrava-se no fundo do ônibus juntamente
com Nicky e Marina estava em outro. Roger não parava de girar entre os dedos uma
pequenina corrente de metal com um pingente em formato de círculo que fazia um
barulho enervante.
Todos estavam quietos, talvez pelo tempo quente, talvez por ser muito cedo, ou
talvez por perceberem algo no ar.
O ônibus em que Guilherme estava passou de raspão pelo ônibus em que Marina
estava e os dois olharam-se pela janela. Marina mandou-lhe um beijo e ele, por sua vez,
retribuiu.
─ Roger, pegue aquela mochila para mim?
─ Está falando comigo, Mona?
─ Estou, Roger, pegue-a, por favor!
Roger parou de girar a correntinha entre dedos e tirou o fone do ouvido.
─ Está aqui! Desculpe, mas é que não escutei bem, sabe, estou com o fone...
─ Obrigado, Roger. O que houve contigo? Estou notando que parece meio
irritado esses dias. Algum problema?
Roger, percebendo que Guilherme notara algo de estranho nele, resolveu falar de
seu problema.
─ Sabe, Gui, problemas em casa com minha mãe. Mas tudo bem, preciso
aprender a conviver com isso, certo?
─ Certíssimo.
Guilherme deu a mochila de Nicky e voltou a olhar para a janela. Naquela
manhã, pensava em tanta coisa. Nada estava bom para ele. Primeiro brigou com a Benê,
que não queria que ele viesse. Mas, por qual motivo? Depois, Marina chegara atrasada
tendo que ir em outro ônibus. E, para finalizar tudo, Roger estava com sérios problemas.
Virou-se mais ainda para o lado e começou a olhar a paisagem. Viu várias lojas, bares,
bazares, praças, percebeu a pressa em cada pessoa, começou a prestar atenção aos seus
rostos e notou que a maioria não tinha uma expressão alegre; todos estavam com as
faces contraídas, aparentando preocupação ou nervosismo. Poucas pessoas se
cumprimentavam e se olhavam. Para ele, isso era uma nova surpresa, pois nunca se
preocupara em olhar absolutamente para ninguém. Sempre com pressa, ele passava
31

pelos outros quase voando. Sentiu uma mão cutucar-lhe o ombro, olhou para trás e deu
de cara com Roger.
─ Mona, não precisa se preocupar não, tá? Isso sempre acontece com ela, logo
passa.
─ Tudo bem!
O ônibus parou, os alunos desceram e Guilherme foi encontrar-se com Marina.
─ Mari, preciso falar com você uma coisa muito importante, não sei como será
sua reação, pois é uma coisa muito delicada. Não sei como falar e nem por onde
começar...
─ Sobre o que seria, Gui? O que houve? Parece estar tão nervoso!
─ Não. Eu preciso lhe dizer uma coisinha e você tem que me ajudar.
─ Pode contar comigo, Gui.
─ Ai que bom, Mari. Da outra vez que disse isso, você falou que não me
ajudaria; fiquei muito triste, mas agora estou muitíssimo feliz. Não sei o que seria de
mim sem você, sinceramente, não sei.
─ Oh, Gui, fale logo, o que você quer?
─ Sabe, eu me trato com um psicólogo, eu já lhe disse, não é?
─ Disse.
─ Então, eu me trato com ele porque comigo acontece e está acontecendo uma
coisa que não acontece com mais ninguém. Eu estou apaixonado...
─ É, Gui, até agora tudo muito normal, pelo menos eu acho.
─ Sim, isso seria normal se fosse um amor por uma pessoa normal. Eu amo um
quadro, Marina!
O rosto de Marina continuou com a mesma expressão séria.
─ Eu sei que este não é o lugar e nem a melhor hora para falar isso. Conversar
sobre este assunto é muito chato, eu sei, você pode pensar e dizer o que quiser...
─ Eu já sabia, só estava esperando você me dizer, Gui!
─ Como você sabia?
─ Eu conversei com sua mãe e ela me disse.
─ Bom, e o que achou? O que me diz a respeito disso?
─ Bem, é uma coisa surpreendente e ao mesmo tempo chata; fiquei chocada ao
ouvir isso de você, mas pelo menos vi que você me conta tudo sem esconder nada, só
omite um pouco, mas acaba contando, confio em você por isso.
─ Oh, Mari, muito obrigado. Você não sabe o quanto me deixa feliz... Eu adoro
estar com você, ficar com você, abraçá-la, conversar, enfim, eu a amo. Mas a Mona Lisa
tem um poder que me vidra e não consigo parar de pensar um só instante nela. Eu não
via a hora de vir até aqui novamente só para poder vê-la. Sei que nunca a terei comigo,
por isso digo que não sei o que seria de mim sem você. Você, minha mãe, meu pai e a
Benê são as únicas pessoas que me entendem. O Nicky também, mas você é a mais
interessada em me ajudar. Obrigado, Mari.
─ Gui, não precisa me agradecer, sei que faria o mesmo por mim. Eu vou ajudá-
lo do jeito que eu puder.
─ Obrigado.
Caminharam juntos até o meio do pátio. Lá chegando, foram separados em
grupos de cinco e ficaram Marina, Nicky, Roger, Rosana e ele, os cinco de sempre.
Cada grupo ficou com um pintor diferente, o deles era Caravaggio, o trabalho era o
seguinte: teriam que observar o quadro, analisar e escrever um texto dizendo tudo o que
viam, se existia perspectiva, sombreamento, textura, volume etc. Guilherme ficou louco,
pois um outro grupo havia pegado Leonardo da Vinci e ele é quem queria ter pegado.
Começaram a fazer o trabalho.
32

─ Pode deixar, galera, que eu mesmo escrevo tudo. Sei os mínimos detalhes.
─ Ótimo, Mona, isso é muito bom. Pode começar quando quiser!
─ Bem, vamos começar: nessa gravura vemos os cinco elementos visuais, ou
seja, linha, forma, cor, volume e textura. Aparentemente notamos vários formatos na
pintura, como o deslize das linhas, a cor das imagens, a expressão do contraste entre a
luz e a sombra e o domínio das cores.
─ Olha o Mona... gostei cara!
─ Roger, dá um tempo, deixe eu terminar, depois você faz seus comentários, ok?
─ Tá bom, já entendi.
─ Esse quadro nos revela a composição artística e não a natural. Mas o que é
“composição artística”? Composição artística é quando os elementos visuais passam
pela mão do homem, ou seja, Caravaggio quis nos mostrar, numa composição clássica, a
maneira objetiva, subjetiva e formal de se pintar o quadro. A seguir, passemos a analisar
a figura. Como se apresenta o conteúdo de uma obra de arte? O conteúdo de uma obra
de arte se apresenta como aquilo que ela contém, ou seja, a imagem principal é o que
serviu de modelo, isto é, o que denominamos conteúdo objetivo, mas não é só isso,
tendo olho e a boca, a resposta sempre sai.
─ Só uma coisinha, Gui, você não vai falar sobre o título?
─ Vou falar agora!
─ Ok!
─ O título entre aspas significa que cada um sente o que quer, porque o título fez
a obra até a hora em que ele, o pintor, terminou. Depois cada um interpreta da maneira
que desejar. Bem, a pintura também pode ser feita com um conteúdo formal, que, na
verdade, é a forma como a pintura foi tratada, é a maneira como ela foi pintada e é um
modo de representação do espaço.
─ Puxa, Mona, tá legal mesmo.
─ Obrigado. Nessa mesma gravura podemos ver que a superposição mostra o
efeito visual de profundidade. A sobreposição se encontra claramente com o claro e
escuro e nos dá um jogo de contraste, fazendo com que notemos o efeito visual de
profundidade, que é o das mãos estendidas e para frente, parecendo com que elas
fiquem menores e os braços mais compridos e largos. Também percebemos, assim que
olhamos para o quadro, que a primeira coisa que os nossos olhos enxergam é a figura
principal, ou seja, nossa visão percorre em torno da figura e sempre chega até a
principal, onde todas as linhas nos levam até a imagem central, sem que precisemos
descobri-la. Mais interessante ainda é a técnica do claro e escuro que nos revela a
intensidade da cortina sobreposta no teto, fazendo com que ela pareça real. E aí? Está
bom? Gostaram?
─ Está ótimo, Mona, simplesmente magnífico, vamos tirar uma boa nota. Você é
um crânio, cara!
─ Obrigado, mas não precisa exagerar, Nicky. Por favor.
─ Precisa sim, afinal de contas, dependo desta nota para passar de ano, Mona.
─ Se depender desta, já passou!
─ Vou confiar, hein?
─ Dou minha palavra.
Entregaram a pesquisa e foram passear pelo museu, afinal de contas, queriam
ver as pinturas, o jardim e conhecer melhor o museu.
Guilherme desceu uma imensa escadaria, entrou na porta central, caminhou por
um corredor deserto e escuro. Ao final deste havia duas entradas, entrou à esquerda,
depois à direita e finalmente lá estava ela. Caminhou até a parede central e ficou
admirando a figura.
33

Ali, naquela sala, jazia o quadro de Mona Lisa, o quadro mais lindo do mundo.
Dentro de quatro paredes frias, repousava tranqüilamente o quadro de Gioconda. Um
quadro raro, apreciado, idolatrado, venerado e acima de tudo amado, querido quadro
idealizado.
Ela era linda! Não tinha mais como definir isso, não existiam palavras para
expressar tamanha beleza. Seus cabelos longos e pretos, seus dedos compridos e finos e
seu sorriso enigmático. Seu belo sorriso triste e melancólico... essa sim era a Gioconda
de quem ele tanto ouvia dizer e que, finalmente, conseguia ver o seu quadro, mesmo
sendo uma cópia, mas uma perfeita cópia.
Sentiu um forte arrepio percorrer-lhe a espinha, seu coração batia forte, suas
mãos tremiam. Realmente ela tinha um poder inacreditável sobre ele. Como ela
conseguia exercer tamanho fascínio assim? Que poderes ocultavam-se naquela pintura
por trás daqueles olhos tristonhos?
─ Meu Deus! ─ exclamou Guilherme estarrecido. ─ Como essa pintura
consegue causar um domínio tão forte sobre mim? Parece que ela não morreu. Seus
olhos me dizem isto. Eu sinto. Parece que eles querem pedir clemência; é um olhar
triste, como se ela estivesse presa neste quadro e pedisse para tirá-la dele. Isso tudo é
simplesmente fantástico!
Guilherme continuou ali parado, fascinado por aquela pintura.
No que será que Leonardo da Vinci estava inspirado quando pintou o quadro de
Gioconda? Era óbvio que era em uma mulher, mas... ao pintar esse quadro, ele deixara
todo o seu sentimento tomar conta de cada pedacinho que ele pintava. Esse quadro é tão
real que, creio eu, quando ele o terminou, deve ter ficado encantado, assim como eu
fiquei.
Guilherme ouviu passos no corredor e, quando ia se virar, sentiu uma paulada
fortíssima em sua cabeça que o fez cair no chão desacordado.
Tudo aconteceu em uma pequena fração de segundos, mas a realidade é que ao
acordar Guilherme viu que havia muitas pessoas ao seu redor. Tentou forçar vista e viu
que todos estavam ali, sem exceções: o diretor do museu, todos da universidade, os
visitantes que estavam no museu, os seguranças, dois policiais e até mesmo o motorista
do ônibus.
Guilherme não entendia o que estava acontecendo. Foi aí que percebeu que no
seu colo estava o quadro de Mona Lisa e em suas mãos algumas ferramentas do tipo pé-
de-cabra, furadeira, broca... Guilherme ficou atônito. O que significava tudo aquilo?
Sentiu uma leve vertigem ao abaixar um pouco a cabeça e levou as mãos à nuca; suas
têmporas latejavam e ele não conseguia entender nada, só se lembrava da pancada
minutos antes de desmaiar. Não sabia ao certo, mas, no momento seguinte, os dois
policiais foram para cima dele e o algemaram.
─ O que é que está acontecendo? ─ disse Guilherme assustado. ─ Por que estão
me algemando, Marina?
─ Não sei, Gui.
─ O que aconteceu, Roger?
─ Não sei, cara.
─ Nicky?
─ Mona, não sabemos o que está acontecendo, mas iremos descobrir tudo, ok?
Esse desentendimento logo, logo, será esclarecido, eu garanto. Não gosto de vê-lo numa
pior, sei que você nunca faria uma coisa dessas, mas essa sua obsessão por este quadro
acaba complicando um pouco as coisas. Sei lá o que é isto que você chama, mas já está
se tornando perigoso. Para você, está virando uma ameaça!
─ De que você está falando, Nicky?
34

─ Nada não, Mona. Sei que está nervoso e entendo como se sente. Acredito que
não foi você quem fez isso, mas, com todas as provas voltadas para você, a coisa se
complica, entende?
─ Ainda não entendo... eu fiz o quê? E o que este quadro fazia em cima mim? E
estes policiais?
─ Ao que parece, você arrancou o quadro da parede, Mona. Eu confio em você,
sei que não fez isso. Pode deixar que tudo se resolverá e a Marina vai me ajudar a
encontrar uma solução, e rápido!
─ É isso aí, Gui. Eu vou ajudar o Nicky a tirar você desta. Nós confiamos em
você!
─ Antes de qualquer coisa, professora Sueli, a senhora pode me explicar o que
aconteceu?
─ Oh, Guilherme, realmente você sumiu, se separou dos outros e então
começamos a procurá-lo. Ouvimos o alarme ser disparado, corremos para cá e
encontramos você no chão, desmaiado, com o quadro nos braços.
─ Mas eu não fiz nada, professora! Diga para eles que eu não fiz nada, diga que
deve ter acontecido um engano, que estão acusando a pessoa errada, por favor!
─ Guilherme, não tem como mudar sua situação por enquanto, nós o vimos com
o quadro...
─ Mas, professora, enquanto estava aqui vendo o quadro, eu ouvi passos no
corredor, mas não deu tempo de me virar, pois recebi na cabeça uma pancada e já caí
desmaiado; quando acordei, encontrei todos aqui em volta de mim me apontando e me
algemando. Isto não está certo, é uma humilhação o que estão fazendo comigo. Não sei
o que houve durante o tempo em que permaneci desacordado, mas isto só pode ser um
pesadelo. Não consigo entender o que está acontecendo.
─ Deixe, Guilherme, faça o que eles mandarem e espere que vamos comunicar a
seus pais. Tudo será esclarecido em breve e você se verá livre novamente. Agora, por
favor, acompanhe-os sem mais perguntas para acabarmos logo com esta cena triste, ok?
Confie em nós. Sabemos que foi algo que aconteceu e você simplesmente estava no
local errado e na hora errada, só isso.
─ Mas, professora...
─ Guilherme, por favor, não complique mais as coisas, faça o que eu lhe pedi e
vá com eles.
─ Está bem.
Guilherme olhou para Marina e Nicky, eles estavam chorando.
─ Marina!
Marina levantou os olhos e olhou para Guilherme.
─ Esqueça o que aconteceu nessa tarde, saiba que eu amo muito você e que
nunca faria isto para entristecê-la. Nunca a trocaria por nada neste mundo.
─ Nem pelo quadro de Mona Lisa?
Guilherme olhou para Roger e notou que ele sorria com sarcasmo.
─ Nunca pensei que ouviria isto de você! Realmente cheguei a pensar que fosse
meu amigo, Roger. É isto que pensa de mim? Que sou um ladrão?
─ Mas o que é que está acontecendo aqui? Todos os problemas resolveram
aparecer hoje neste museu? Ninguém saia da sala! Encontraram um corpo na sala ao
lado, está caído na escada.
─ Mas de quem é o corpo?
─ Do senhor Francisco.
─ O quê? Do guia do museu?
─ Exatamente.
35

─ Mas como, se ele estava presente na hora do acontecido? Como pode estar
morto agora?
─ Não sei, só sei que está!
─ Mais que depressa temos que prender este garoto. Veja só o transtorno que ele
está causando...
─ Mas não fui eu. Como pode ter sido eu, se estou algemado aqui com vocês?
─ Não interessa, você pode ter os seus truques, pode ter feito isto antes de
conseguir arrancar o quadro, quando este pobre homem entrou e o surpreendeu, aí você
o silenciou antes que ele desse o alarme, mas a justiça conseguiu prender o verdadeiro
culpado disto tudo.
─ Essa não, era só o que me faltava!
─ Silêncio, chega de prosa, levem-no logo antes que aconteça mais alguma coisa
neste lugar!
No horizonte brilhava uma luz tristonha, era de fraca luminosidade e o vento que
soprava lembrava um sonho que tivera.
Estava sentado em um canto com as pernas cruzadas. As barras de ferro à sua
volta lhe davam uma certa melancolia. A dor que seu peito sentia era enorme. Estar
preso injustamente era muito humilhante.
─ Por que ninguém acreditou em mim?
Lembrava-se de como a imprensa chegou e já começou a querer entrevistá-lo e a
tirar fotos. Lembrava-se também perfeitamente da feição de Marina, ela tinha os olhos
vermelhos de chorar e com muito sacrifício conseguiu sorrir para ele.
Pois ali estava ele. Preso. Sem ninguém para conversar e sendo culpado de ter
roubado o quadro de Gioconda, sua deusa. Bem que seu pai lhe disse que isso não podia
acabar bem... mas fazer o quê? Quem iria imaginar que algo assim tão ruim aconteceria
com ele?
Bem que a Benê pediu para ele não ir ao passeio naquele dia, mas ele queria
tanto, esperou tanto tempo para ir... e foi. Mas agora estava onde estava e não tinha
outra escapatória a não ser esperar e esperar.
─ Guilherme.
─ Oi.
─ Visita para você!
─ E aí, Mona? Tudo em cima?
─ Tudo embaixo, Nicky. E a Marina?
─ Não quis vir. Disse que não agüentaria vê-lo assim e achou melhor ficar em
casa. Você sabe, né?...
─ Coitada... mas ela tem que entender que eu preciso dela agora mais do que
nunca, preciso que ela venha me ver e que converse comigo. Preciso me sentir vivo!
─ Eu sei Mona, mas vamos dar um tempo para ela, ok? Foi demais o que
aconteceu. Nós sabemos que você não fez isso, mas vamos esperar que ela se recupere.
─ Eu sei, Nicky, e os meus pais? Como estão? Você os viu?
─ Claro, Mona, eu passei na sua casa antes de vir aqui, aí conversei com eles e
aqui estou!
─ Ah. Como está minha mãe?
─ Triste.
─ E o meu pai?
─ Cabisbaixo, não fala com ninguém.
─ Oh, Nicky, o que eles estão pensando de mim?
─ Nada, Mona, eles sabem que não foi você quem despregou o quadro.
36

─ Ai, Nicky, só faz dois dias que estou aqui e não agüento mais, vou ter que
ficar aqui até quando?
─ Não sei, Mona, mas vamos tirar você daqui o mais rápido possível, tá?
─ É o que espero!
─ Ficou sabendo sobre o policial do museu?
─ Não, o que aconteceu?
─ Foi assassinado e obviamente colocaram a culpa em você. Pelo jeito está em
péssimos lençóis, Mona!
─ Essa não, Nicky, toda hora acontece alguma coisa que só me prejudica mais...
até parece que estão fazendo de propósito. Como vou me livrar disto? Era só o que me
faltava! E agora? O que fazer?
─ Agora é só dar tempo ao tempo!

XXVII

─ Manhê?
─ Oi!
─ Traz o meu roupão?
─ Já vai, Marina. Aqui está! Vai sair?
─ Sim, vou dar uma volta.
─ Não demore, viu? Ou então terei que falar para o Guilherme.
Marina baixou o olhar e Dona Nívea percebeu que havia falado demais.
─ Me desculpe, querida, ele irá sair de lá rapidinho, é o que todos esperarmos.
Subiu as escadas e se trancou no quarto. Procurou o que vestir, mas não
encontrou nada. Colocou um short, uma camiseta, tênis e prendeu os cabelos. Sentou-se
na cama. A janela do quarto estava aberta, o vento soprava uma brisa suave e leve.
Olhou para a árvore e viu como as folhas se movimentavam conforme o vento as
balançava; escutou seu farfalhar e sentiu seu perfume suave.
─ Cheirinho de mato! Parece que estou em um sítio sentindo este agradável
aroma...
Por que será que isto estava acontecendo com ela e com Guilherme. Por que
justo ele tinha que ser preso?
Isso era tudo por causa de Mona Lisa. Era ela a culpada por tudo aquilo que
estava acontecendo. Desde o início, ela sempre atrapalhou o relacionamento deles...
Lembrou-se de como havia conhecido Guilherme na entrada do ônibus, quando ele
esbarrara nela e ela ignorou sua desculpa, depois foi até ele se desculpar, começaram a
conversar e aí estavam até hoje. É claro que ainda estavam namorando, ele podia estar
preso, mas isso não significava nada demais, eram namorados e isto bastava.
Desceu para jantar.
Depois do jantar, estava assistindo à televisão, quando mostraram a reportagem
do roubo do quadro no museu. Eram alguns comentários mais recentes, mas todos
deixavam evidente que Guilherme era o culpado. Mostraram-na chorando e também a
Nicky, pois eles estavam bem próximos de Guilherme. Numa rápida passada, viu que
filmaram alguns alunos que cochichavam, dentre eles se destacava Roger, que sorria
com sarcasmo e conversava com alguém que ela não conhecia.
Assim que o jornal acabou, saiu para o alpendre e ficou debruçada no muro,
olhando as estrelas. A noite havia caído rápido durante esses quatro dias em que
Guilherme estava preso. Todos os dias eles tinham uma coisa nova para mostrar, se não
era um guia do museu assassinado, era um guarda.
37

Marina estava triste. Já havia se passado quatro dias que Guilherme estava preso
e ela não o via. A única coisa que sabia dele era o que passava na televisão e o que
Nicky lhe dizia. Não podia mais sair na rua que já vinham perguntar coisas a respeito de
Guilherme. Depois que ele foi preso não conseguiu mais encontrar ninguém da família
dele em casa. Nicky viajara, pois estava de viagem marcada e não podia adiar. Ele iria
visitar um parente no interior que não estava muito bem. Assim, ela acabou ficando sem
companhia.
Não ia à faculdade há quatro dias; Dona Nívea estava preocupada, seu Dario,
então, nem tinha mais nada a dizer. Marina andava quieta. Onde já se viu seu namorado
ser preso sem ter nada a ver com o pepino? Isso era demais, mas a lei é impiedosa e não
acredita em nada; também, se eles acreditassem, o mundo estaria pior do que já está.
Desceu para o jardim e caminhou até um banco branco, sentou-se e começou a
pensar em um plano para livrar seu amado, quando a campainha tocou.
─ Marina, é para você!
─ Quem é?
─ Camilla.
─ Camilla? Não conheço nenhuma Camilla.
Marina caminhou até o portão e viu uma garota da sua altura, morena clara com
os cabelos compridos e encaracolados, devia ter sua idade mais ou menos e seus olhos
eram verdes tão escuros que pareciam ser castanhos.
─ Oi ─ disse a estranha. ─ Meu nome é Camilla e sou namorada do Guilherme
Marina estancou no meio do caminho.
─ O que disse?
─ Que sou namorada do Guilherme. Ele me pediu para vir até aqui ver como
você está.
─ Eu é quem sou namorada do Guilherme e, outra coisa, ele não conhece
nenhuma Camilla.
─ É claro que conhece e muito bem por sinal. E quem é você para dizer que é a
namorada dele?
─ Como você já sabe, pois foi “ele” quem mandou você até aqui, sou a Marina.
─ Então, queridinha, ele fez e faz você de palhaça, pois a verdadeira namorada
dele sou eu. Sou eu quem faço tudo para ele, é ele quem me conta tudo sobre você... ou
você pensa que apareci aqui por acaso? Como acha que tenho seu endereço? Como sei
seu nome?
─ Não importa como você conseguiu meu endereço, não me importa também se
é você quem faz as coisas para ele, o que me importa é que sou a namorada dele e foi
comigo que ele estava quando foi preso. Fui eu que apareci ao lado dele para todos
verem, e neste caso a única que faz o papel de palhaça é você, pois ninguém sabe da sua
existência. Aliás, ele nunca citou nenhuma Camilla, e olha que nos vemos todos os
dias... Claro, ele não teria amizade com uma pessoa tão baixa e vulgar como você!
─ Pois é, minha querida, mas é desta vulgar que ele gosta e sempre gostou!
─ Eu não acredito no que você diz, eu perceberia algo, se você realmente
existisse na vida dele.
─ Tapada do jeito que é? Impossível! Nunca passou isso pela sua cabeça infantil.
Ele me conheceu quando foi à praia com o Nicky, Artur, Pedro e o Roger, você se
lembra? Você não foi, né? Por quê? Ficou em casa estudando, enquanto ele se divertia
com os amigos e conhecia pessoas mais interessantes?
─ Olhe aqui, minha cara, eu não sou obrigada a ficar ouvindo certas lorotas ditas
por você, uma qualquer que não tem nada para fazer e que só sabe bater perna por aí,
38

correndo atrás do namorado dos outros. Agora, se me dá licença, vou entrar e descansar,
pois já perdi muito tempo conversando com você.
─ O quê? Espere aí, não me deixe assim, preciso lhe falar mais algumas coisas a
respeito dele... volte aqui!
Marina entrou lentamente e foi até a cozinha tomar um copo de água; estava
muito nervosa, mas não deixou que ninguém percebesse.
─ Quem era, querida?
─ Ninguém importante, papai, estava me confundindo com um conhecido...
─ Bem, querida, então se sente aqui e venha assistir a um filme!
Camilla ainda ficou um bom tempo do lado de fora, olhando para a casa, depois
atravessou a rua rapidamente e saiu cantando pneus.

XXVIII

O vento soprava lá fora gelado e impiedoso, as paredes também geladas davam


um ar de coisa velha, esquecida. O frio era de gelar os ossos. Guilherme estava sentado
com as pernas para cima da cama, o cabelo estava sujo e meio despontado, sua barba
estava crescendo, ele não tinha vontade de se arrumar, não agüentava mais ficar naquele
lugar esquecido e usar sempre as mesmas roupas.
Desde que fora preso, só podia receber visitas através das grades e não podia
receber nada de ninguém. Sentia-se como um ladrão qualquer, abandonado, esquecido
naquela cela, isso tudo para ele era tão confuso. Nunca fizera nada de errado e agora
ninguém acreditava nele. Ainda, para piorar, o guia do museu fora assassinado
juntamente com dois guardas. Até quando ele iria agüentar?
Olhava para fora das grades, pela janela que ficava em cima de sua cama,
observava o vento que soprava triste e balançava as folhas das árvores, lembrava de
quando estava em seu quarto com o tempo assim e ficava ouvindo música ou
conversando com os amigos, passeando ou até mesmo na companhia maravilhosa de
Marina. Depois que ele fora preso, nunca mais ela apareceu... Será que não acreditava
nele? Será que não o amava mais? Será que tinha vergonha dele ou será que já estava
com outro?
Não, não ia pensar nisso pelo menos agora, ia pensar em como reagir quando
saísse de lá, como as pessoas iriam recebê-lo. E os seus amigos? O Nicky fora visitá-lo
apenas uma vez e ficara de voltar, mas até agora nada. O Roger era o único que não
aparecera e no dia em que ele fora preso nem sinal de Roger para lhe dar uma força, só
mesmo Nicky e Marina.
Pensava nisso e outras coisas quando o policial apareceu na porta da cela.
─ Visita para você.
─ Para mim? Não gostaria de ver ninguém no momento... quem é?
─ Marina.
Os olhos de Guilherme brilharam de alegria. Na porta apareceram Marina e
Luciano. Marina, ao vê-lo, correu em sua direção, e os dois ficaram abraçados por
alguns instantes.
Guilherme nem acreditava que aquilo estava acontecendo. Sentia-se como uma
criança que acaba de receber um doce, tamanha a alegria que sentia. Cumprimentou
Luciano sem soltar das mãos de Marina, pois estava tão contente com o que aconteceu
que não queria nem pensar em soltar-se dela.
─ E aí cara, tudo bem?
─ Mais ou menos, né Luciano. Agora estou bem melhor com vocês aqui. Pensei
que você não gostasse mais de mim, Mari.
39

─ Oh, Gui, que é isso? Só não tive tempo de vir antes, mas consegui arranjar e
estou aqui. Para falar a verdade, eu não tinha coragem de vê-lo assim, por isso demorei
tanto para aparecer e resolvi vir com meu primo, né Lóri?
─ Não, eu sei, só estava brincando!
─ É, cara, sujaram feio para você, hem?
─ Lóri, o que combinamos? Você disse que não tocaria no assunto!
─ Deixe, Mari... Pois é, você viu só? Ninguém acredita em mim!
─ Mas é assim, cara, quando essa fase passar e encontrarem o verdadeiro
culpado, aí eles pagarão com a língua, você vai ver!
─ Puxa, Luciano, você tem me ajudado um bocado, não sei mesmo como
agradecer-lhe por tudo. Muito obrigado.
─ Que é isso Mona, não fiz nada demais, mas cá entre nós: você não está nada
bem.
─ Por quê?
─ Porque quando assassinaram o guarda, você não estava com o pessoal, depois
de uns cinco minutos encontraram você com o quadro nos braços, daí começou esse
equívoco todo. Se você não aparecesse com o quadro, isso tudo não teria acontecido
com você.
─ Aconteceria, sim, Lóri!
─ Como, Mona? Não aconteceria não.
─ Aconteceria sim. Eles iriam pensar que fui eu, pois sou apaixonado por aquele
quadro. Eu amo Mona Lisa. Desde a primeira vez em que eu a vi, senti algo muito forte,
diferente, até fiz uma música para ela. O nome da minha banda é em homenagem a ela.
Eu só consigo pensar nela, já está virando um tormento, e fiz de tudo para esquecê-la,
mas ela não sai de meus pensamentos. O pior é que eu sei que nunca a terei nos meus
braços, como eu tenho você hoje Marina, e isto me deixa um pouco triste... Estou
fazendo força para esquecê-la, vocês precisam me ajudar!
─ Puxa, eu não sabia de nada disso, o tempo todo você se mostrou forte o quanto
pode e chega agora, nesse momento, ninguém o compreende.
─ Pois é, Luciano, desde o começo que eu me trato com um psicólogo, que vou
ao psiquiatra. Não que eu seja louco, mas é que o tratamento é rigoroso e requer muitos
cuidados.
─ Olhe aqui, o horário de visita acabou, só mais cinco minutos, tão me
entendendo? ─ gritou o policial.
─ Claro. Então, Mona, fica assim, eu e a Marina vamos ver se descobrimos algo
a respeito disso tudo, depois a gente volta, ok?
─ Tudo bem, tchau e muito obrigado pela visita, foi ótima!
─ Gui... fique sabendo que desde o dia em que você foi preso estou procurando
ajudá-lo de algum modo, pois o Lóri vai voltar para casa e aí só o Nicky ficará para me
auxiliar. Não se preocupe que irei visitar sua mãe, ela está meio triste, mas será
passageiro, ok? Logo, logo, você irá para casa, tenha paciência!
─ Muito obrigado por tudo, Marina!
─ Não precisa agradecer, Gui!
─ Pronto, acabou o horário de visita.
─ Tchau!
─ Tchau!

XXIX
40

Céu cinza, uma chuva grossa e o vento frio a soprar rigoroso. Camilla desceu do
carro com suas botas pretas e seu casaco de lã, pegou a bolsa e entrou em casa.
─ Que horror, molhei todo o meu cabelo! ─ disse ela olhando para o espelho.
Ouviu um barulho na cozinha, Camilla arregalou seus grandes olhos verdes e
levantou-se da penteadeira. Caminhou até o corredor e pegou a vassoura que dias atrás
esquecera do lado da estátua de porcelana. Pensou consigo mesma: “valeu a pena
esquecê-la aqui, agora você vai me ajudar”.
Desceu as escadas vagarosamente olhando para todos os lados. Novamente o
ruído se repetiu, agora com mais intensidade, Camilla estancou no final da escada,
levantou os braços com a vassoura para cima e partiu com voracidade para o interior da
cozinha, onde a luz permanecia acesa.
Tudo aconteceu numa pequena fração de segundos. A princípio só se ouviu um
suspiro de exclamação que foi logo cortado por uma batida seca e violenta.
─ Você?! ─ exclamou Camilla com a voz trêmula. ─ Nunca pensei que você
entraria em casa sem me avisar e além do mais neste estado... O que aconteceu?
─ Ainda não aconteceu nada, mas irá acontecer já!
─ O que você quer dizer? Não estou gostando de nada disso!
─ Você sabe o que eu quero dizer com isso! Não se faça de hipócrita Camilla,
você falhou e feio. Quem mandou você contar a verdade para o Nicky?
─ Mas eu não fiz isso!
─ Você é mentirosa Camilla, como eu pude acreditar em você? Fui conversar
com o Nicky e ele estava falando com a Marina sobre uma Camilla que ele nunca vira
na vida, aí a Marina confirmou com ele que devia ser a mesma que dias atrás fora na
casa dela e inventara coisas horrendas a respeito de Guilherme. Como você pode ser tão
mesquinha, armou toda a cilada comigo e de última hora dá para trás indo contar tudo
para o Nicky?
─ Mas eu não contei nada! ─ disse Camilla chorando; e o pânico brilhava com
intensidade nos seus olhos úmidos. ─ Eu já falei. Eu não contei nada para o Nicky... não
consegue entender isso? Só acredita no que o Nicky diz? Fui fazer o nosso combinado,
disse para ela que eu era a namorada do Guilherme, só isso, nada mais!
─ É claro que acredito nele sim, afinal de contas ele não a conhece e foi você
quem foi falar com ele, sua cabeçuda! Você quer ser tão esperta e acaba sendo tola como
uma mula, se não for pior ainda!
Camilla ficou junto a pia encolhida com a vassoura nas mãos. Chorava sem
parar, queria saber o motivo pelo qual resolvera entrar naquele plano maluco e agora
para sair dele estava tão difícil... Quer dizer, impossível. Quem mandou o Nicky abrir a
boca? Mas isso não podia ficar assim. Camilla iria fazer alguma coisa, era só ele se
acalmar um pouco...

XXX

─ Então, Mona, foi tudo isso que eu lhe disse o que aconteceu. Ela apareceu lá
na faculdade procurando por mim e pela Marina e nos disse tudo isto aflita, e que sentia
muito por ter ajudado a colocar você aqui neste lugar, que estava arrependida, mas que
iria achar uma boa solução para tirá-lo daqui rapidamente.
─ Eu já desconfiava mesmo dele!
─ Dele quem? Não falei nenhum nome a você... como desconfia de alguém? Ela
não me disse nome algum e não sabemos quem possa estar por trás disto tudo.
Eu sei, Nicky. Acontece que eu já desconfiava de uma pessoa, mas ainda não
tenho certeza, creio que seja esse alguém. Não vou citar nomes nem nada, vamos dar
41

tempo ao tempo certo? Eu investigo daqui e você, Marina e o Lóri investigam de fora,
tudo bem?
─ Ok, Mona. Pode deixar que eu vou procurar essa Camilla e conversar melhor
com ela, vou obter mais informações a seu respeito. Agora tchau, vou embora e assim
que eu descobrir algo, venho correndo lhe avisar.

XXXI

Era sábado, duas horas da tarde, o sol queimava como fogo em brasa. Havia um
leve vento fresco, mas mesmo assim o sol continuava intenso.
Ao longe, alguns pássaros cantavam nas copas das árvores. Era uma rua muito
gostosa, calma e tranqüila, dificilmente passavam carros e, no sábado, algumas pessoas
costumavam lavar os automóveis nas calçadas.
Marina estava na sala assistindo a um filme de terror. Como fazia muito calor, a
janela estava aberta e a luz apagada, deixando a sala numa atmosfera fresca e relaxante.
Dona Nívea, mãe de Marina, havia saído para fazer compras, e seu Dario estava
viajando; ela ficara esta tarde sozinha, apenas com Maria.
Maria trouxe da cozinha um copo de suco de laranja e um hambúrguer para ela.
Assim que terminou o filme, subiu para seu quarto a fim de descansar um pouco e
esvair a cabeça.
Deitou-se na cama e começou a pensar em Guilherme. Lembrou-se da primeira
vez em que o viu, no passeio ao museu, da primeira vez que o beijou; sentia tanta
saudade de tê-lo por perto, de poder abraçá-lo, de conversar com ele, de expressar seus
sentimentos e de dizer o quanto ele era importante para ela. Queria poder dizer o que
achava a respeito de tudo o que estava acontecendo com ele, de poder ajudá-lo.
Não gostava de ir visitá-lo na prisão, achava muito triste vê-lo numa cela escura,
como se tivesse feito algo que realmente não cometera. Oh, como podia suporta aquilo
por tanto tempo?
Estava com tanto sono, mas não conseguia dormir; era só fechar os olhos e na
sua frente aparecia Guilherme no ônibus ou no parque. Aquele dia tinha sido
maravilhoso, ninguém poderia prever que dali a dois dias Guilherme seria preso.

XXXII

Rapidamente jogou algumas pedras por cima, plantou algumas rosas e pronto, o
serviço já estava feito.
A noite era escura e fria, no ar só pairava o silêncio. Passou as costas das mãos
pela face e testa, que suavam sem parar. Apesar do vento gelado, havia no ar um bafo
quente.
Terminado todo o serviço, voltou para dentro de casa. No chão havia manchas
de sangue e no tapete havia se formado uma poça; tratou logo de lavar o tapete e o chão
da cozinha.
Foi até o banheiro e tomou banho. Na sala, sentou-se no sofá e começou a
assistir à televisão o mais calmo que pode. No quarto de Camilla revirou seus papéis,
encontrou seu diário dentro da gaveta à direita, começou a folheá-lo e deparou-se com
uma página toda em branco: só na última linha havia uma frase escrita: “Hoje entrei em
um plano diabólico, vou deixar o Guilherme em situações muito difíceis...”
Sorriu com sarcasmo ao ler aquela frase escrita por Camilla. Sentiu um forte
orgulho dela; sem dúvida, no começo do plano, ela estava decidida a arruinar a
reputação de Guilherme.
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Virou as páginas a seguir e de repente não gostou do que leu: “Hoje conversei
com Nicky e Marina, contei o plano para eles mas não disse que foi o...”
Subitamente jogou o diário no chão e começou a pular em cima. Sim, ele tinha
razão, ela havia estragado o plano dizendo para aqueles idiotas que tudo não se passava
de um plano. Como podia ter se enganado redondamente, acreditando em Camilla?
Agora mesmo é que não se arrependia de ter feito o que fez. Lembrava-se bem de seu
rosto lindo espantado de tanto terror, seus olhos verdes retratavam todo o horror que
sentia; ela tremia e repetia sem parar: “Você não vai fazer isso comigo, vai?”
Essa havia sido sua última pergunta. Lembrou-se, saboreando cada minuto, de
quando pegou a faca e num gesto lento e delicado passou-lhe a lâmina pelo pescoço. O
sangue não mais escorria e sim jorrava pelo corte aberto; ela se debatia e ele sorria.
Ainda assim, ela conseguiu jogar-se para cima dele e arrancar-lhe o brinco, rasgando
sua orelha em duas partes. Procurou por todo o lugar o brinco, mas não o encontrou.
Tratou em seguida de levar o corpo para fora e enterrá-lo na estrada de terra bem
próxima ao jardim. Depois foi até a cozinha e, lavando muito bem a faca, devolveu-a
para a gaveta. Foi até o quarto e deitando-se na cama dela, onde havia um retrato seu,
adormeceu tranqüilamente.

XXXIII

O sol brilhava alto e Marina acordou disposta. Desceu para o café e, assim que
terminou, ligou para Nicky e convidou-o para correrem.
─ Eu sempre corria com o Gui, todas as manhãs de sábado. Fiquei esses meses
sem me cuidar direito, pois não tinha cabeça para mais nada, mas hoje resolvi que vou
voltar a me cuidar. Já pensou só se ele sai da prisão e me encontra fora do peso? Ainda
não aconteceu isso e não vou esperar que aconteça, então, vamos correr?
─ Tudo bem, eu vou sim, a que horas?
─ Dá para ser agora? É que não agüento mais esperar...
─ Claro que sim, em alguns segundos estarei aí!

XXXIV

─ Acorde, visita para você!


Guilherme abriu os olhos e sorriu de alegria. Levantou-se e deu um caloroso
abraço em Roger.
─ Oi, cara, puxa vida, quanto tempo, não?
─ É, Mona, muito tempo, uns seis meses? Eu andava sem tempo, comecei a
trabalhar e aí já viu... O pouco tempo que me sobrou, eu o deixei para o descanso. Mas
como está?
─ Estou bem, na medida do possível. Mas você está trabalhando? Quem diria
hem?
─ É, às vezes precisamos fazer algum tipo de esforço...
─ Bem, sente aí ─ disse Guilherme apontando para os pés da cama. ─ Não é
aquelas coisas, mas dá para quebrar um galho!
Roger olhava tristemente para a cela em que se encontrava Guilherme. Sentia
muito pelo amigo, para ele, que sempre tivera tudo, não devia estar sendo muito fácil.
Lembrava-se de como Guilherme ficava em sua casa e o recebia, era tudo tão confuso
agora.
─ E aí, cara, como vão as coisas? E o pessoal, como está?
43

─ Bem, a galera está bem. Sempre perguntam de você e dizem que estão com
saudades. Estão combinando de virem visitá-lo.
─ Que ótimo! Assim, essa sensação de abandono se desfaz um pouco. Sabe, me
sinto bem melhor ouvindo você dizer isso, que bom que o pessoal acredita em mim e
me considera ainda como amigo!
─ Sim, nunca deixamos de considerá-lo nosso amigo! E a Marina, ela tem
aparecido?
─ Claro, não muito freqüentemente. Sabe, ela não gosta de me ver aqui, mas de
vez em quando faz um esforço e me dá a honra de sua visita!
─ Ah, legal! Ontem estive na sua casa à noite, fui saber notícias da sua mãe para
lhe contar.
─ Que ótimo, como ela está?
─ Está bem. Pediu para não ficar triste por ela demorar tanto para visitá-lo, sabe,
seus pais não conseguem vê-lo aqui... Pediram para lhe dizer que morrem de saudades!
Agora sua mãe está mais conformada, seu pai também está melhor... ele diz que sente
falta de suas partidas de baralho... Só a Benê que não está legal.
─ A Benê? O que ela tem? Está doente?
─ Bem, vive reclamando de dor de cabeça, enjôo, insônia... Sua mãe disse que
desde que você foi preso, ela anda assim deprimida.
─ Pobre Benê, gosto tanto dela. Ela cuidava de mim quando eu era pequeno e
minha mãe saia para trabalhar... Espero que se recupere logo, estou morrendo de
saudades de seus bolinhos de chuva...
─ É o que todos nós esperamos, Mona, que ela se recupere logo e que você saia
rápido!

XXXV

A noite já havia caído impiedosa e fria. O vento soprava com vigor e as folhas se
soltavam facilmente das copas das árvores e de seus galhos.
As ruas estavam desertas e escuras, pois as poucas luzes que restavam, muitas
delas, estavam queimadas.
Ao longo da calçada um casal de namorados estava ao portão conversando.
Marina apertou os passos e apressou-se ao passar por eles, para não ficar se
lembrando de Guilherme. Era triste pensar que tinha namorado, mas que não o via há
pelo menos seis meses. O caso estava meio parado, não havia nada definido ainda, pois
não tinham provas quanto à inocência dele, tudo andava devagar...
Na faculdade havia um cara que não parava de dar em cima dela; era alto como
Guilherme, bonito, educado, simpático e bem mais musculoso que Gui. Tinha os
cabelos curtos e os olhos azuis. Marina não agüentava mais; dizia-lhe que tinha
namorado, aliás, ele conhecia Guilherme, mas continuava a insistir nessa história
absurda. Ele, ao invés de animá-la, gostava de tirar uma com a cara de Guilherme para,
quem sabe assim, ela se cansar de esperar por ele e lhe dar uma chance.
Marina não mediu esforços e deu-lhe um tapa no rosto da última vez em que ele
falou absurdos de Guilherme em público.
Marcelo ─ assim era seu nome ─ ficou tão abismado com o que ela fizera que
não conseguia acreditar. Ela também ficou tão horrorizada que, mesmo ele sendo o
errado, lhe pediu desculpas e se retirou chateada.
Agora estava caminhando pela rua sozinha, pensando no que acontecera;
realmente se sentia chateada demais com o que fizera, mas ela simplesmente havia
preservado a imagem de Gui. No final das contas, bem que ele mereceu!
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Ultimamente a vida andava meio amarga para ela. Primeiro foi a prisão de
Guilherme, depois a briga com os garotos amigos de Guilherme e por último se
desentendera com Marcelo, dias antes de brigar com os pais... O que mais de ruim
estaria por acontecer? Tinha os nervos à flor da pele, tudo a irritava, a chateava, a
magoava, queria que tudo voltasse a ser como era antigamente, sem problemas, sem
brigas, sem tristeza, sem solidão...
Marina sabia que tudo isto estava acontecendo por causa da prisão de Gui e isso
a deixava mais triste ainda, pois descontava nos outros a dor que sentia por estar longe
de seu amor.
Passou em frente ao casal de namorados e escutou eles se despedirem:
─ Então você vem amanhã?
─ Claro!
Marina sentiu um aperto no coração, mas mesmo assim conseguiu dar um
suspiro profundo e sorrir timidamente. Caminhou mais um pouco e, dobrando a esquina,
foi para casa.

XXXVI

O tempo havia mudado novamente. O vento frio gelava os ossos. A garoa


começava a cair, pintando a natureza com tons mortiços.
Nicky caminhou até a lanchonete, onde Roger o estaria esperando. Ao chegar,
sentou-se à mesa do canto, um pouco afastada, mais ao fundo, onde costumava sentar-se
com Guilherme para esperá-lo. Começou a lembrar das muitas vezes em que ali
estiveram para conversar sobre garotas, sobre Marina e, claro, sobre Mona Lisa. Sim,
Mona Lisa, a bela que o levou à prisão, um quadro que teve o poder de prender um
grande admirador seu, uma obra de arte capaz de dominar a todos e principalmente um
rapaz de apenas vinte e dois anos com uma vida inteira pela frente, fazendo faculdade,
com uma família ótima e uma namorada incrível; um homem inocente e preso às garras
de uma mulher que não passa de uma pintura em um quadro antigo. Sim, um quadro
que o levou por caminhos que ele nunca devia ter trilhado, caminhos que até ele mesmo
desconhecia, uma coisa fora do comum, que agora custava a liberdade de Guilherme.
─ Puxa, quanta falta o Guilherme faz!
Durante toda a vida foram amigos, desde pequenos brincavam juntos. Sempre
unidos em tudo, como em brigas, festas, escola, rua. Em toda a parte estavam juntos
como se fossem irmãos, tanto que, quando eram menores, o que um tinha, o outro
também tinha que ter. Depois que ficaram adultos pensavam um pouco diferente, mas
nunca perderam aquele contado da infância.
Nicky lembrou-se da primeira vez em que foram dormir sozinhos na casa de
uma tia de Guilherme. Divertiram-se muito mesmo e, à noite, quando foram dormir,
resolveram sair e dar uma volta. Como já era de madrugada e a fazenda era gigantesca,
os dois acabaram se perdendo por entre as árvores. Depois do susto, tia Adelaide
colocou-os de castigo. Nicky tinha os acontecimentos vivos em sua memória como se
tivessem acontecido ontem. Sentiu um aperto no peito e uma lágrima escorreu por sua
face. Viu uma sombra sentando-se à sua frente.
─ O que houve? Algum problema?
─ Não, Roger, estava me lembrando do Guilherme e de quando éramos
pequenos. Foram bons tempos que nunca mais voltarão.
─ É, realmente, o Mona faz falta. Quem diria, hem? Já se passaram seis meses...
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─ É, sinto muito a falta dele. Sabe, ele sempre foi o irmão que não tive, e tenho
certeza de que ele pensa do mesmo jeito. Ele é um cara muito legal, e imagino como a
Marina se sente, sinto o mesmo que ela!
─ Em péssimo estado, eu acho!
─ Isso mesmo, em péssimo estado. Mas ela é forte o bastante para superar tudo
isso e então, quando menos esperarmos, ele estará de volta.
─ É isso aí Nicky, ele voltará...

XXXVII

Sarah levantou-se, saiu de seu quarto, caminhou até o final do corredor, girou a
chave na fechadura e abriu a porta cuidadosamente. Penetrou naquele lugar como se
alguém estivesse dormindo ali. Foi até a estante e pegou um retrato de Guilherme.
Estava tão feliz naquela fotografia! Ele era seu filho e naquela hora ele estaria em casa
assistindo à TV ou ouvindo música, estaria sorrindo e cantando junto; sim, este era o
Guilherme, uma pessoa viva e feliz.
Agora ele devia estar sentado numa cama dura, em uma cela escura quem sabe,
malcheirosa, sem ninguém para conversar. Isso era tão triste. Sarah sentou-se na cama
ainda com o retrato nas mãos e recordava-se daquele dia em que se sentou na cozinha e
começou a se lembrar dele. Sarah sabia que ele logo, logo, seria tirado dela, mas não
daquela maneira.
Ninguém acreditava nele e, justamente quando ele mais precisou de ajuda, ela
não soube ajudá-lo... Quando ele começou a gostar de Mona Lisa, ela não disse nada a
respeito, achou melhor deixar tudo por conta do psicólogo; justo ela que sempre fora
mãe companheira, a mãe que fazia tudo. Naquela hora não fez nada, deixou-o a mercê
de sua própria sorte. Ela, que sempre fora uma mãe amiga, que sabia ouvir e dar
conselhos, que realmente fazia parte do mundo de Guilherme; ela mesmo, que sempre
fora tão absoluta, tinha pisado na bola com ele e não conseguia mais voltar no tempo. Se
pudesse voltar, faria tudo diferente...
A casa sem Guilherme era uma casa vazia, pois, no fundo, ele ainda continuava
sendo o seu garotinho, o menininho levado que só dava trabalho, que vivia se esfolando
e caindo, que todos os dias, quando voltava da escola, trazia um bilhete da professora.
Mas, apesar de tantos bilhetes, sempre teve notas ótimas.
Walter bateu à porta e entrou. Sentou-se ao lado de Sarah e permaneceu quieto.
─ Fiquei com saudades, fazia tempo que não entrava aqui. É tão difícil se
acostumar com a ausência de alguém, então resolvi fazer uma visita. Você também não
conseguiu pegar no sono?
Walter sorriu tristonho para a esposa e olhou o retrato de Guilherme em suas
mãos.
─ É, Sarah! ─ disse ele olhando para a janela aberta, com o olhar perdido no
nada. ─ Realmente o Guilherme faz muita falta. Já se passaram seis meses e nada
aconteceu. A polícia não procura indícios de que possa haver um suposto engano e não
quer mover nem mesmo uma palha, cambada de imprestável!
─ Calma, Walter, vamos esperar mais um pouco que tudo se resolverá. Marina e
Nicky estão procurando descobrir alguma coisa...
─ É muito difícil, Sarah!
─ Eu sei, Walter, mas não vamos dizer nada disso para eles, pois estão tão
dedicados quanto ao que estão fazendo... seria muita injustiça de nossa parte jogar um
balde de água fria nas esperanças deles.
─ E o que eles estão fazendo?
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─ Não sei, não me disseram muita coisa ainda. Mas falaram que, assim que
descobrirem algo, virão nos avisar! Acho que isto é uma forma de nos acalmar e de
acalmar a eles mesmos. Creio que devam estar fazendo isso para que consigam agüentar
a dor que sentem. É uma forma de amenizá-la.
─ Queira Deus que descubram algo logo! Vamos nos deitar, querida... já é tarde!
─ Só um momento querido, quero sentir mais um pouco a presença dele. Aqui
neste quarto me sinto bem mais calma, vou ficar mais um pouco, se você deixar... Não
quero chateá-lo, mas não quero sair daqui agora!
─ Claro, querida, o tempo que quiser!
Walter levantou-se, caminhou até a porta e olhou para trás. Ali estava Sarah
sentada, o olhar fixo no retrato do filho.
─ Eu já sabia que ia perdê-lo, Walter!
─ Perdê-lo? Como?
─ Algo me dizia isso. Não sei explicar. No dia em que ele foi ao museu pela
primeira vez com os amigos, fiquei muitíssimo preocupada e só conseguia pensar no
tempo em que ele era pequeno e era tão meu. A Benedita não acreditava, dizia que era
só porque ele não estava em casa que eu começava a fantasiar, mas no fundo eu sabia o
que estava falando, não sabia a dimensão disso tudo, mas pressentia que algo terrível
estava por acontecer. Na época, eu não sabia, mas agora sei que era meu instinto
materno me alertando que algo estava acontecendo.
─ Mas, querida, eu não estou entendendo!
─ Eu sei, Walter, é difícil explicar, mas o real motivo é que eu pressentia algo,
não sei como explicar, mas só quem é mãe sabe do que estou falando.
─ É, pode ser que você esteja certa. Mas que tal você fechar o quarto do Gui,
imaginar que ele está na praia com os amigos e fazer um pouco de carinho no seu
maridão que anda meio carente e se sentido deixado um pouco de lado? Podemos fazer
alguns sanduíches e assistirmos a algum filme, o que acha?
─ Sabe... até que não é uma idéia ruim... um filme com sanduíches e um
maridão um pouco carente? Acho que vou gostar deste programa!

XXXVIII

─ Então, inspetor Gibson, não tem um meio de tentarmos descobrir quem tenha
feito isso com o Gui? Não adianta, não consigo acreditar que ele tenha feito isso, não
entra na minha cabeça... Ele jamais faria isso! Por nada no mundo ele roubaria algo de
alguém, quanto mais um quadro valioso. Isso não faz sentido!
─ Minha cara...
─ Marina!
─ Sim... minha cara Marina, não podemos mover uma palha porque todos nós
vimos pela televisão que ele foi preso por estar com as ferramentas na mão e o quadro
do outro lado. Não podemos fazer nada a respeito disso.
─ Mas, inspetor Gibson, creio que o Mona não teve culpa alguma.
─ Pode até não ter tido culpa, mas por que você tem tanta certeza?
─ Porque ele é completamente vidrado pelo quadro!
─ Aí, está vendo só? Mais uma razão para querer pegá-lo.
─ Um momento, por favor. Ele é apaixonado por este quadro, ele realmente ama
o quadro como se Mona Lisa fosse viva e ele a tivesse consigo. Ele tem uma banda de
rock e o nome é em homenagem a ela; fez música, tem biografias, fotos de todos os
tamanhos imagináveis, sabe de tudo a respeito dela, colecionador de esculturas dela que
eu nem sabia que existiam. Tenho certeza de que, se há alguém que não goste dele,
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alguém que tenha inveja, descobrindo esse seu ponto fraco, tenha feito isso para se
vingar. Alguém, querendo acabar com sua reputação e sua auto-estima, causou todo esse
equívoco, essa bagunça, e todos se viraram contra ele, inclusive o senhor.
─ O que o faz pensar assim?
─ Como ele pode ter feito isso, ter pegado o quadro, se estava desmaiado?
─ Às vezes o susto, o choque de ter o quadro nas mãos foi muito grande, pode
até ser que alguém o tenha surpreendido quando estava tirando o quadro e aí ele
desmaiou.
─ E o que o senhor me diz de uma paulada na nuca? Guilherme insiste em dizer
que levou uma bordoada na cabeça, mas ninguém lhe dá crédito... o que me diz?
─ Bem, meu filho, isto já é um caso muito complicado... precisamos apurar e ver
se ele não está inventando isso para se safar. Além do que, isto pode ser verdade como
pode ser mentira. O exame de corpo de delito realmente mostrou que ele sofreu uma
pancada na cabeça, mas que pode ter sido feita por ele mesmo, não acha? Ele, escutando
passos, acertou a própria cabeça para despistar, o que acha? Original, não?
─ Não mesmo, inspetor. O Guilherme nunca faria isto; ele jamais roubaria algo
de alguém, nem mesmo um doce, quanto mais um quadro! Ele não precisa disso.
─ Eu sei que vocês querem ajudar o seu amigo, mas sem provas não dá. Se
vocês conseguirem alguma pista que prove o que estão dizendo, aí sim, a perícia pode
investigar... Caso contrário, o amiguinho de vocês terá que permanecer na celinha por
mais tempo, ok?
─ Tudo bem, inspetor ─ disse Nicky levantando-se da cadeira. ─ Muito
obrigado por nos ajudar, qualquer coisa informaremos ao senhor.
─ Tudo bem, só mais uma coisinha ─ disse ele entregando um papel. ─ Aqui
estão meus telefones, me ligue a qualquer hora, também não acredito que tenha sido ele.

XXXIX

─ Nicky, vamos correr? Faz tempo que não me exercito um pouco. A última vez
foi há duas semanas, e preciso manter a forma!
─ Nossa, quanta frescura...
─ Frescura nada, pois preciso estar linda para quando o Guilherme voltar.
─ Tudo bem, Marina, era brincadeira, passo aí em um minuto; primeiro vou
passar no Guilherme e dizer um alô. Quer ir também?
─ Não, não, obrigada. Prefiro que você vá sozinho e me traga notícias... É muito
triste para eu vê-lo naquele estado, depois ele ficaria triste em me ver e não poder ficar
comigo. Diga-lhe que mandei um beijão, que o amo demais e que vou aparecer logo, eu
prometo. Diga também que da próxima vez levarei um bilhetinho para ele.
─ Ok, seu desejo é uma ordem, darei seu recado.
─ Então até daqui a pouco.
─ Até.
Marina desligou o telefone apreensiva, as lágrimas saltando dos olhos aos
turbilhões, apagou a luz e, fechando as cortinas, se atirou na cama aos prantos.

XL

Há quanto tempo estou aqui? Há uns seis meses mais ou menos. Era tão bom
aquele tempo em que eu estava com a minha família, minha namorada, meus amigos...
Tempos perdidos que não voltam mais e, se voltarem, não serão mais como antes, pois
sempre terei esse ressentimento dentro de mim, minha alma ficará marcada para sempre.
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Agora são três horas da tarde e eu estaria ouvindo música em meu quarto,
pensando em Marina ou, melhor ainda, estaria com ela, passeando, conversando,
sorrindo e dizendo palavras doces e amáveis, mostrando-lhe tudo o que tenho de bom
para fazê-la feliz sempre ao meu lado. Marina, Marina, quanta falta você me faz!
Por que tive que gostar de Mona Lisa? Por que, desde a primeira vez que a vi
naquele quadro, me encantei? Por que, quando olhava para ela, me sentia sugado para
dentro da pintura? Seus olhos me prendiam profundamente, me levando por caminhos
desconhecidos, por vales de águas escuras e profundas, águas negras. Olhos de águia,
olhos insanos que viviam me vigiando onde quer que eu fosse, me atormentando, me
fazendo ficar paralisado. Sim, era isso mesmo, ela, com aqueles olhos, me hipnotizava.
Eu não conseguia fazer outra coisa a não ser olhar para eles, escuros e sinistros, aquele
rosto, aquela boca... sim, naquela boca onde paira um sorriso diabólico, enigmático,
nunca desvendado por ninguém. Ninguém, com toda a sua sabedoria, conseguiu
descobrir o que realmente significa aquele sorriso. Parece uma expressão zombeteira,
mas, se olharmos bem no fundo, é uma expressão séria com um ar triste... uma figura
encantadora, os olhos, os mesmos olhos que hipnotizam, também entristecem; ela
parece estar triste de viver naquele quadro... está triste de ser esquecida pelos outros, de
viver há tantos séculos presa em lembranças.
Uma figura surpreendente, que faz qualquer um ficar abismado com a formosura
que exala de seu interior. É como se possuísse uma estranha força capaz de mudar tudo
e todos, que me transformou da água para o vinho e capaz ainda de levar um inocente
para a prisão, só por estar aprisionado aos seus encantos.
Por que Mona Lisa fez isso comigo? Eu sempre a amei e nunca menti sobre isso
para Marina. Não entendo o porquê disso tudo comigo. Estou me sentindo um
verdadeiro lixo, um marginal, um delinqüente.
Às vezes, na hora de deitar, as lembranças sempre voltavam, por mais que
Guilherme fizesse força para esquecê-las, elas sempre estavam ali presentes. Os fatos
permaneciam vivos na mente dele. Lembrava-se perfeitamente do dia em que fora com
Nicky à casa de tia Adelaide; tinha sido um dia inesquecível para ambos. Agora os
acontecimentos passados misturavam-se com os reais, com os que ele estava vivendo no
momento.
─ Puxa vida, como eu não havia pensado nisso? Naquele sonho que tive havia
prisões, campos, quadros e museus...
Sim, tudo isso parecia muito confuso para a cabeça de Guilherme; talvez aquele
sonho fosse uma dádiva divina, avisando-o de que tomasse cuidado e ele, por sua vez,
não conseguiu entender o recado. É claro que foi isso, só pode ter sido isso. Por que ele
não pensou nisto antes? Se aquele sonho foi um aviso, algo mais estava por acontecer
ou já havia acontecido...
Guilherme se levantou e sentou-se na cama, tinha a respiração acelerada e um
brilho de felicidade no olhar.
─ Será que isso tudo significa que logo sairei daqui?

XLI

─ Vamos, Nicky, você precisa correr mais no ritmo!


─ Eu sei, Marina, mas acontece que eu não estou acostumado.
─ Mas é muito fácil, venha, é só correr igual a mim, aí não tem erro.
─ Vou tentar.
─ Nicky, o que acha de irmos por trás daquelas casas, por lá têm descidas e isso
ajuda mais, o que acha?
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─ Tudo bem, por mim está ótimo!


Começaram a correr e havia muitas descidas e subidas, havia lugares por onde
não se passava correndo, só andando e com muito cuidado. Era um lugar de difícil
acesso, ninguém iria imaginar que por trás daquelas casas bonitas havia lugares tão
feios.
─ Puxa, Nicky, quando vi as primeiras ruas achei que seria bacana, pois gostei
das primeiras ladeiras, mas, como estava sozinha da outra vez, eu não prossegui. Achei
que seria melhor ter a companhia de alguém conhecido, mas não pensei que sairíamos
nessa bocada, desculpe!
─ Não tem importância Marina, já sabemos, e da próxima vez não viemos para
cá. Vamos voltar? Eu não agüento mais!
─ Claro, Nicky, só vamos passar mais estas três casas e, aí, voltamos por cima,
dando a volta, ok?
─ Ótimo!
Enquanto corriam Marina percebeu muitas pedras no meio do caminho.
Qualquer deslize poderia ser fatal, pois do outro lado havia uma espécie de penhasco
pouco adiante.
─ Escuta uma coisa, Nicky, aqui está perigoso, vamos passar andando, correr é
muito arriscado.
─ Tudo bem, vou na frente e seguro sua mão; onde eu pisar, pise também e seja
cuidadosa, já estamos enrascados o suficiente para acontecer alguma coisa pior!
─ Nicky, obrigada, mas não precisa tanto. Não é tão difícil assim.
─ É, não é tão difícil assim, mas, se você cair e acontecer algo, o Guilherme não
me perdoará nunca; agora seja boazinha e faça o que estou pedindo, tá? Para o bem de
todos nós.
─ Pode ficar tranqüilo, se acontecer algo eu mesma falarei com ele, direi que foi
por minha causa, ele sabe como sou teimosa... Sabe, Nicky, pensando bem, vá na frente
e segure minha mão; meus pés estão escorregando e estou começando a ficar com
medo.
Tudo aconteceu rapidamente, em uma fração de segundos. Marina escorregou e
ficou pendurada segurando nas mãos de Nicky.
─ Marina, balance o corpo e jogue suas pernas para cima, eu as segurarei e a
puxarei para cima. Vamos, garota, você consegue, segure nas bordas do penhasco, fica
mais fácil para eu ajudá-la e puxá-la.
─ Nicky, estou com muito medo, não vou conseguir!
─ Marina, por favor, faça isso pelo Gui. Se acontecer alguma coisa com você, aí
sim, o mundo terá acabado para ele. Seja forte, não está assim tão ruim, você consegue,
vamos, força!
─ Não consigo, minha mão está escorregando!
─ Consegue sim, balance o corpo, veja, estou segurando suas mãos novamente,
balance o corpo, assim pegará embalo e ficará mais fácil para levantá-la, vou puxá-la
para cima!
─ Não consigo!
─ Consegue sim, balance o corpo mais rápido.
─ Eu não consigo Nicky, estou sentindo que vou despencar, me solte ou irá
junto.
─ Não, Marina, não vou soltar suas mãos, se for preciso, cairemos juntos,
balance o corpo mais forte!
─ De que jeito?
50

─ De qualquer jeito, ande rápido, balance o corpo mais rápido, minhas mãos
começam a suar e você irá escorregar...
─ Nicky, por favor, me ajude!
─ Isso, Marina, isso mesmo, assim, calma, só mais um pouco, continue, estou
conseguindo, só mais um pouco, calma... é agora, vou conseguir, estou quase, só mais
um pouco vai... vai... consegui!
─ Oh, Nicky, não acredito!
Com um gesto firme e rápido, Nicky puxou Marina e a colocou em terra firme.
─ Oh, Nicky, muitíssimo obrigada! ─ disse Marina abraçando-o. ─ Não sei o
que seria de mim agora se não fosse você! Muito obrigada! Minhas pernas estão tão
bambas que nem consigo andar direito, é um alívio estar em terra firme novamente,
muito obrigada mesmo.
─ É melhor nós sairmos daqui agora! Com este monte de pedras meio soltas,
podemos escorregar os dois!
Marina tropeçou e uma pedra rolou e caiu lá embaixo. Marina teve a impressão
de ter visto um pé, agachou-se e começou a retirar algumas pedras.
Nicky olhou para trás e perguntou:
─ O que está procurando?
─ Tive a impressão de ter visto um pé, venha cá e me ajude a remover algumas
pedras para tirar esta dúvida!
Nicky aproximou-se com cautela e viu as mãos ávidas de Marina que
arrancavam as pedras com muita rapidez. Nicky ficou horrorizado. Havia realmente um
corpo, era verdade o que Marina havia dito. Ao olhar para ela, estava radiante, afinal de
contas, ela havia encontrado um corpo.
Jazia ali uma perna de mulher, uma bonita perna, meio arroxeada pelo tempo.
Há quanto tempo estava ali? Não sabiam. Marina olhou para Nicky e, como se ele
tivesse lido seus pensamento, disse:
─ Vamos chamar a polícia!
Colocaram algumas pedras em cima do corpo novamente para tampá-lo e se
retiraram.
─ Escute uma coisa, Marina, isso não pode ser contado para ninguém, entendeu?
─ Claro... mas nem para o Gui?
─ Nem para o Gui. Só depois de sabermos alguma coisa sobre o corpo, promete?
Já pensou só se tem algo a ver com o caso dele? Arruinaria tudo novamente. Espero que
não seja mais ninguém daquele museu!

XLII

─ Droga! ─ disse Roger pegando sua jaqueta de couro. ─ Caiu o botão!


Tomou seu banho, fez a barba e saiu do banheiro. Foi até o quarto e se vestiu.
Colocou uma calça jeans desbotada, camiseta branca e a jaqueta de couro preta. Estava
de frente ao espelho quando notou seus cabelos:
─ Preciso cortá-los ou irei parecer com o Guilherme!
Continuou na frente do espelho por mais um tempo, depois, sorrindo, virou-se,
pegou seu material e saiu.
Chegou em vinte minutos na faculdade e foi direto para a lanchonete.
─ Olá, tudo bom?
─ Tudo beleza, andava sumido, cara? O que aconteceu?
─ Comecei a trabalhar, Artur, aí sobra pouquíssimo tempo. Como não tinha
ânimo para levantar cedo, ficava deitado mais um pouco e acabava perdendo a hora!
51

─Ah... está explicado!


─ Nossa, quem diria hem? O Roger aqui? Tudo bem?
─ Eu estou, Pedro e o Rogério?
─ Viajando, só volta no final da semana.
─ Sério? Para onde ele foi?
─ Foi à praia.
─ Legal, vai voltar vermelhão, ele é muito branquelo!
─ Vai mesmo, vai voltar um verdadeiro camarão...
─ Poxa vida, Pedro, hoje tem prova de matemática!
─ Matemática? ─ disse Roger espantado. ─ Eu não sei nada, meu, passa as
respostas para mim?
─ Olha Roger, se der eu passo, senta na minha frente e aí vamos ver o que
acontece...
─ Ok, cara, obrigado!

XLIII

Na cela escura e fria Guilherme repousava, seu cabelo estava todo despontado,
só a barba estava feita, pois a única coisa que a família podia levar, além de alguma
roupa e guloseimas, eram as lâminas de barbear. Mas era assim: ele as usava e a família
levava de volta.
Ouviu passos em sua direção, sentou-se na cama e fixou um homem gordo a sua
frente.
─ Guilherme! ─ disse o guarda. ─ Visita para você.
Guilherme levantou-se para receber o estranho, estendeu sua mão e
cumprimentou.
─ Bom dia, Guilherme, meu nome é Fred Gibson, sou inspetor!
─ Prazer, caro Gibson, mas em que posso lhe ajudar? Não entendo, como me
conhece? Eu mesmo nunca o vi antes.
─ Eu sei, vim por meio de Nicky e Marina.
─ Nicky e Marina? O que eles fizeram?
─ Me pediram para ajudá-lo e aqui estou! Contaram-me sobre seu romance com
o tal quadro e eu achei tudo isso uma tremenda loucura, mas resolvi ajudar.
Guilherme abaixou a cabeça e passou as mãos pelos cabelos. Tornou a olhar para
o inspetor com uma expressão séria, longe e triste...
─ Então, quer dizer que o senhor já sabe de tudo a respeito de Mona Lisa? Sim,
sim... foi ela ─ disse Guilherme com os olhos cheios de água, fixos em um ponto
qualquer. ─ Foi por ela que me apaixonei. Eu era um cara muito ocupado, não tinha
namorada, mas tinha muitos amigos e uma banda, tudo o que quisesse. Fazia faculdade
e ainda faço, pois falta apenas um semestre, estava no auge e aí tudo aconteceu, o
mundo desmoronou sobre minha cabeça.
─ Me diga, Guilherme, como tudo aconteceu.
─ Ah... tudo aconteceu quando fui ao museu com os amigos da faculdade. Não
estava me sentindo bem, parecia que eu ia morrer e aí tudo aconteceu rápido demais.
Assim que entrei no museu, não me senti bem, suava frio e sentia arrepios, não
conseguia parar de tremer e queimava de febre; minha vista escurecia toda hora e tudo
girava ao meu redor; minha voz ficou rouca e desmaiei. Acordei e me levaram para
casa. Desde aí só consegui pensar na Mona Lisa, ela não saía de minha cabeça, de meus
sonhos. Eu tive um sonho muito estranho, uma alucinação, foi o que aconteceu, o
psicólogo até me chamou de alucinógeno.
52

─ Mas eram fortes suas alucinações?


─ Fortíssimas, eu a sentia perto de mim e ainda a sinto, é só olhar uma foto dela.
Quando minha mãe vem me visitar, sempre traz uma foto para eu ver, não que seja um
incentivo, mas eu insisto muito para que ela traga...
─ Sei, Guilherme, e me fale só mais uma coisa: é sobre a Marina, você amando
outra e namorando ela... como explica isso? Ela sabe? Como você se sente tendo o seu
amor por um lado correspondido e por outro não? Como é se sentir dividido?
─ Olhe, Gibson ─ Guilherme tinha o pensamento longe ─, nem sei como lhe
explicar. Quem disse que meu amor não é correspondido? Eu sinto que Mona Lisa é
viva e quer me ajudar, ela quer me ver feliz, é só eu olhar para o seu retrato que de seus
olhos eu sinto um calor que me envolve, entendeu? O seu olhar me envolve, me faz ver
que nem a morte é capaz de apagar e fazer esquecer um grande amor, uma pessoa. A
morte não passa de um sono profundo, que um dia todos iremos enfrentar, por isso, não
há motivos para deixar de amar a mulher de um quadro que se foi há mais de quatro
séculos. Sim, é isso mesmo, esse quadro foi pintado no século XVI e mesmo assim não
deixa de ser importante para mim, Gibson. Ninguém entende que sou inocente. Acham
que fui eu quem tirou o quadro da parede, mas para quê? Não fui eu. Só pode ter sido
alguém que não goste de mim, que fez isso para me incriminar. O que mais poderia ser,
então?
Guilherme tinha os olhos vermelhos. Era só começar a falar de Mona Lisa e já
acontecia isso. Ele queria provar a todos que era inocente, mas como fazê-lo?
─ Bem, Guilherme, eu já vou e espero que logo você saia daqui e descubram o
real criminoso, se é que existe. Eu também não acredito que tenha sido você, mas as
aparências enganam e, você sabe, estou do lado da lei!
Guilherme sentiu uma ponta de esperança naquele homem que estava ali e
abraçou-o com alegria.
─ Muito obrigado, senhor Gibson!
─ Gibson, por favor!
─ Como quiser.
─ Eu não queria que se sentisse constrangido ao me contar isso, mas eu
precisava saber, precisava ouvir de sua boca.
─ Não foi nada, Gibson; de vez em quando é muito bom desabafar.
─ Nos vemos em breve!
─ Até mais.

XLIV

O salão estava arrumado. O dia da grande festa chegara. Guilherme estava


fantasiado de príncipe com aquelas roupas todas feitas em cetim, com meias compridas
brancas e sapatinhos de bico preto. Estava de rabinho e sua calça era resumida em um
short com elástico nas pernas num tom forte de azul royal. Sua camisa era de mangas
longas e bufantes, na cor creme e azul royal. Sobressaía uma capa que chegava até o
tornozelo, também no mesmo tom de azul, forte e vivo.
As garotas estavam todas de roupas de época. Seus vestidos eram longos e
rodados com muitas rendas, babados, bordados, fitas e pregas; usavam luvas, cabelos
cacheados, presos em coques ou em rabos de cavalo artísticos, perucas e sombrinhas de
babadinhos e rendinhas e bolsas.
Marina ainda não havia chegado e Guilherme resolveu dar uma volta pelo
jardim. Sentou-se em um banco e começou a olhar o céu, aquela imensidão toda cheia
de estrelas, estrelas de brilho raro. Havia algumas nuvens no céu, nuvens que na
53

verdade lembravam algodão-doce, e Guilherme lembrou-se de uma música que dizia


que as nuvens não eram de algodão; nuvens de algodão estavam fora da realidade, ou
seja, mostravam para eles que a vida não era só de fantasias, como ele que amava Mona
Lisa, uma louca fantasia.
Guilherme continuou com o seu olhar perdido no espaço. Fazia calor naquela
noite e a leve brisa que soprava, refrescava. Levantou-se e se encaminhou na direção do
salão para ver se Marina havia chegado.
Entrou no salão e viu uma linda moça. Não, não ia chamá-la de linda moça e sim
de mulher. Havia no salão uma linda mulher, uma figura espetacular que era capaz de
atrair todos os olhares para si. Ela olhou para Guilherme e, ao acorde da primeira valsa,
ele a tirou para dançar. Rodopiavam alegres pelo salão. De repente não havia mais
ninguém ali, todos haviam sumido, nem se ouvia mais a valsa ser tocada, só havia eles
que continuavam dançando sem se importar com o sumiço de todos; dançavam no meio
da névoa cintilante que tomava conta de todo o espaço; a brisa suave balançava seu
vestido longo e fino.
Ela dançava com tamanha perfeição, rodopiava pelos braços de Guilherme, mas
nunca sorria, sempre mantinha o rosto enigmático, misterioso, mas com um leve ar
zombeteiro.
Continuaram a dançar no meio daquela fumaça branca cintilante e sem música e
as horas iam passando, passando, passando...
Quando o relógio deu doze badaladas, ela parou e olhou-o. Só então percebeu
que estivera dançando com Mona Lisa. Ele ficou atônito, não sabia o que fazer, tomou
as mãos dela entre as suas e as beijou. Ela continuava olhando para ele com o mesmo ar
enigmático. Ele se inclinou para beijá-la e, quando finalmente seus lábios estavam se
encostando, quando podia até sentir o calor que emanava deles, ela desapareceu
suavemente como um arco-íris.
Guilherme saiu correndo de dentro do salão para procurá-la, mas só restava ele
naquele imenso jardim. Voltou o olhar para o céu e aí viu o rosto dela formado pelas
últimas estrelas que restavam, pois o sol já começava nascer. Olhou para dentro do salão
e as luzes se apagaram. Deu uma última olhada para o céu e não havia mais nada.
Caiu no chão chorando e soluçando; não sabe quanto tempo permaneceu assim,
mas, quando se levantou, abaixou a cabeça e, virando as costas, saiu triste pelo portão.
Acordou sobressaltado e suado. Podia sentir o perfume dela até aquele instante.
Viu, penalizado, que tudo não havia passado de um simples sonho e, virando cabeça,
adormeceu novamente.

XLV

Nicky e Marina estavam no necrotério esperando ansiosos pelo inspetor Gibson.


─ Por que demorou tanto, senhor Gibson?
─ Porque fui fazer uma visita ao Guilherme. Realmente não pode ter sido ele
quem fez isso, mas como provar?
─ Ainda não sabemos ou pelo menos, por enquanto. Mas estávamos correndo
um pouco e encontramos um corpo, telefonamos para a polícia e o trouxeram para cá.
Viemos o mais depressa possível para ver de quem é o corpo. Estamos muito curiosos.
─ Então veremos juntos, garotos. Estou ansioso também.
Entraram em uma sala escura e fria. Em cima das mesas havia corpos cobertos e
um estava descoberto, no canto da parede, próximo à janela. Marina segurou a mão de
Nicky e caminhou até lá. Quando olhou para o corpo, entrou em estado de choque e não
parava de gritar, estava histérica. Quando realmente conseguiram acalmá-la, ela disse:
54

─ Foi ela, inspetor Gibson, foi ela quem esteve em casa e me disse coisas
horríveis sobre Guilherme. Chamava-se Camilla. É certo que eu não gostava dela, mas
isso era a última coisa que eu a desejava. Nunca pensei em vê-la deitada numa mesa de
mármore com a garganta cortada...
Marina começou a chorar e lembrou-se de que ela havia dito a Nicky que havia
participado de um plano para prender Guilherme, mas havia se arrependido e por isso
estava dizendo a verdade para eles. Ela não podia dizer o nome da pessoa, pois havia
sido ameaçada. E parece que acabaram descobrindo que ela tinha aberto a boca. O
resultado estava ali bem na sua frente, assassinaram-na.
─ Pobre Camilla! ─ disse Marina ao inspetor Gibson. ─ Ela contou que
participara de um plano com uma pessoa e, se essa pessoa descobrisse que ela havia
contado tudo, ela seria morta, mas, mesmo assim, falou, e aí está ela agora. Não consigo
entender como puderam fazer uma coisa dessas com ela inspetor, ela não era má.
─ Bem, você disse um plano?
─ Isso mesmo, ela disse que participou de um plano para colocar o Guilherme
na cadeia, só que se arrependeu, não resistiu e nos contou a verdade. Ela era nossa única
prova. Nós íamos combinar um dia para ela vir até aqui e conversar com o senhor. Ela
não falou o nome da pessoa, pois, se essa pessoa descobrisse, a mataria. Mas pelo jeito,
tudo indica que a pessoa acabou descobrindo.
─ Pobre garota. Mas como vamos provar se isso é verdade?
─ Vamos dar mais um tempo e esperar o resultado da autópsia.
─ Tudo bem, caso vocês descubram alguma coisa, me liguem. O Guilherme
sabia alguma coisa sobre esta garota?
─ Não, não dissemos nada a ele. Achamos melhor contar para o senhor Primeiro,
e depois contaríamos a ele.
─ Ótimo, fizeram bem. Agora me deixem trabalhar e qualquer coisa me liguem,
a qualquer hora do dia ou da noite, Até mais.
─ Até mais!

XLVI

Marina e Nicky já se encontravam na faculdade quando a galera toda chegou.


─ E aí, gente? Tudo bem? ─ disse Roger beijando a face de Marina. ─ Hum...
como está cheirosa!
─ Como estão as coisas?
─ Bem, estão muito bem...
Logo depois chegaram Artur, Pedro e Rogério.
─ Tudo bom?
─ Tudo ótimo! Andava sumido, Rogério, por onde esteve?
─ Praia, eu adoro praia. Fui passear um pouco, descansar a cabeça, sabe como é,
né? Fiquei por lá duas semanas, mas passaram tão rápido...
─ É, dá para perceber, você está bem vermelho, mas deu para pegar uma boa
cor. Muito sol por lá?
─ Muito, as duas semanas inteiras de muito sol e calor...
Marina era a única que não dizia nada, apenas observava os amigos
inexpressivamente. Primeiro olhava para Nicky. Será que ele estaria por trás daquele
jogo sujo? Quem havia assassinado Camilla? Não, o Nicky não. E os outros? Olhou à
sua volta, Pedro era um cara legal, era amigo de Guilherme e sempre esteve perto
quando ele precisou; sempre esteve ali ajudando, dando força. Ele não tinha medo de
expressar seus sentimentos, sempre fora compreensivo e atencioso.
55

E Roger? O que ele estaria sabendo que não dividia com ninguém? Será que ele
sabia de alguma coisa que ninguém mais sabia? Do jeito que ele é, deve saber um monte
de novidade e só vai dizer quando der vontade; assim deixa todo mundo surpreso, como
ele sempre gostou de fazer... Será que ele estaria envolvido em alguma coisa? Ele
também sempre fora amigo de Gui. Além do mais, Guilherme sempre o ajudou em tudo
o que pode, e Roger sempre fora grato por isso. Achava que Roger também não tinha
nada a ver com o ocorrido.
Quanto ao Artur e ao Rogério, eles são amigos de infância... mas Guilherme
sempre foi mais apegado a Nicky e Roger. É tão difícil observar uma pessoa e achar se
ela tem algo a ver ou não com o ocorrido. Esta é mesmo uma tarefa para a polícia.
Ah... tem o Rafael, que é o guitarrista da banda, esse era demais. Guilherme
sempre contou tudo a ele e vice-versa. Pensando bem, é tão difícil ter que pensar qual
deles ali reunidos poderia ter culpa no caso. Como Guilherme não possuía inimigos,
ficava complicado, muito complicado analisar. Quanto aos garotos ali reunidos, parece
que nenhum faria isso com Gui, pois todos gostavam muito dele!
─ Oi, Marina, em que está pensando? ─ disse Roger estalando os dedos na
frente de seu rosto. ─ Estou falando com você faz um bom tempo, o que houve?
Preocupada com alguma coisa?
─ Não, Roger, não foi nada. Eu só estava pensando no Guilherme, como ele faz
falta, não acha? Me desculpe por eu não estar prestando atenção. O que você perguntou
mesmo?
─ Deixe para lá, não era nada importante mesmo! Entendo você, ele faz muita
falta...
─ Me desculpe mesmo, Roger!
─ Tudo bem, esqueça isso garota!

XLVII

─ Um botão? Não estou entendendo, inspetor Gibson! O que um botão tem de


estranho?
─ Gibson, Nicky, não se esqueça!
─ Claro, claro, mas não consigo entender ainda... O que o senhor quer dizer com
isso?
─ Venha para cá rápido, assim passarei tudo e você mesmo poderá tirar suas
próprias conclusões.
─ Sim, Gibson, já estou indo, só vou passar e pegar a Marina em casa. A
propósito, isso tem alguma ligação, alguma coisa a ver com o caso do Mona? Digo, do
Guilherme?
─ Talvez, quem sabe? É sobre isso que gostaria de conversar com você!
─ Estou indo agora mesmo, inspetor, obrigado!
Gibson desligou o telefone e com o fone ainda na mão disse:
─ Gibson, Nicky, Gibson!

XLVIII

─ Mãe, pegue minha calça preta?


─ Só um instante Marina... aqui está.
─ Obrigada.
Marina saiu correndo do banheiro e entrou no quarto. Colocou tênis, camiseta
branca, prendeu os cabelos e passava batom, quando sua mãe entrou no quarto.
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─ Para que tanta pressa?


─ É que o inspetor Gibson ligou para o Nicky pedindo para irmos até lá, parece
que ele tem novidades sobre o caso do Gui. Temos que ir ao necrotério ver o corpo
novamente, parece que ele encontrou algo e quer nos mostrar, disse que pode ser
alguma pista. Dependendo do que for, se conseguirmos provas concretas, poderemos
soltar o Gui mais cedo do que esperamos, não é maravilhoso, mamãe?
─ É ótimo, Marina. Então se arrume mais rápido. Aonde você vai se encontrar
com o Nicky?
─ Ele vai passar aqui!
─ Com licença, Marina, o Nicky acabou de chegar!
─ Pede para esperar só um instante, Maria? Obrigada!
─ Tchau, mãe, me deseje sorte!
─ Boa sorte, minha filha. Até mais tarde!

XLIX

Tomou o leite rapidamente e jogou o copo contra a parede. Uma chuva de cacos
de vidro caiu sobre o piso da cozinha e também em cima da pia. Foi para o quarto e se
deitou na cama. Estava nervoso e não conseguia parar de tremer. O motivo disso tudo
era Guilherme; por causa dele acabaram descobrindo o corpo de Camilla. Mas como foi
possível?
Por que estou assim? Eu não comentei nada com ninguém... logo não vão
desconfiar de mim! Se fiz o que fiz, foi porque ela mereceu! Não fiz nada de errado, eu
até gostava dela, eu só fiz isso para ajudá-la a não ir para a cadeia, fazer companhia para
o Guilherme. Quanto a ele, sempre nos demos bem, sempre gostei dele, mas aí ele
começou a namorar a Marina e então armei tudo isso, aproveitando que ele é
apaixonado por aquele quadro estúpido. Além do mais, ele é meu amigo e estou assim
preocupado porque ele é muito esperto. Espero que ele não descubra nada.
─ Oi, Gibson, tudo bom?
─ Tudo bem crianças, que bom que vieram logo.
─ Não nos faça esperar mais. O que você já sabe que ainda não sabemos?
Alguma novidade?
─ Claro, Nicky, claro. Bem, como eu já disse pelo telefone e volto a dizer, na
autópsia que fizemos no corpo de Camilla, encontramos dentro de sua boca um botão.
─ Um botão? ─ disse Marina horrorizada. ─ Como assim um botão dentro da
boca de Camilla? Alguém colocou lá?
─ Não é só isso, como ela tinha as unhas compridas, encontramos enganchado
um brinco de argola prateado com um crucifixo. Detalhe do brinco: não era o dela, ela
estava com os dois e eram duas bolinhas douradas. O que me dizem sobre isto?
Estranho não?
─ Bem, ela pode ter sido violentada bruscamente; pelo menos isso foi a primeira
coisa que me passou pela cabeça.
─ Não, Marina, não acredito que tenha sido violentada. Na autópsia não
apareceu nada a respeito disso. Acho que a hipótese mais provável é que ela,
percebendo que a matariam, tentou obter de alguma forma algo para que, quando a
encontrassem, descobrissem o assassino ─ e virando-se para Nicky. ─ Será que acertei?
É uma boa teoria pelo menos, não é?
─ É, acho que é boa mesmo! Essa garota, se fez isso com esta intenção, foi
brilhante. Quem poderia imaginar? Agora é só descobrir a quem pertence esses objetos,
57

e aí o acusado estará preso, não é? Assim estará desvendado o caso do Guilherme, já


que ela participou do plano...
─ Mas é lógico que tem tudo a ver com o caso do Guilherme. Se antes de
morrer, ela procurou vocês, disse que ia revelar um assunto importante e que o
“mandante” não poderia saber, tudo já se encaixa. E de repente ela apareceu morta,
depois de ter contado o plano, o que mais poderia ser? Coincidência? Claro que não,
isso é resposta para o nosso pequeno mistério!
─ É, esta história é mais complicada do que imaginávamos, não é Marina?
Como vamos descobrir o assassino? Sei que será através do brinco e do botão, mas
como?
─ Bem, vocês terão que começar pela própria faculdade, pelos amigos... pois se
ela não podia dizer o nome da pessoa, isto quer dizer que vocês a conhecem e que
poderiam comentar com ela sem querer e colocar tudo a perder.
─ É... Concordo com sua teoria Gibson, mas não seria melhor nos mostrar os
objetos? Acho que deve ficar mais fácil. Se conhecemos a pessoa, como você sugere,
então se olharmos os objetos, eu acho que poderemos descobrir a pessoa!
─ É esta a intenção, que reconheçam os objetos e quem sabe descubram se
pertencem a algum conhecido... Aqui estão eles!
Ficaram um bom tempo olhando uma caixa de veludo escura. Marina foi a
primeira a abrir a caixa e não pode conter a surpresa; arregalou seus grandes olhos
castanhos e ficou perplexa!
─ O que foi Marina? Me mostra o que você viu. O que foi?
─ Nicky, eu não acredito. É muito para minha cabeça, não pode ser, deve haver
algum engano.
─ Não acredita no quê Marina?
─ Olhe você mesmo, Nicky.
Nicky pegou a caixa de veludo que estava sobre a mesa e não pode conter a
surpresa também. Olhou para Marina boquiaberto.
─ Você tem certeza, Marina?
─ Claro, Nicky, fui eu que dei esse brinco para ele, como eu não o reconheceria?
Isso nunca passaria pela minha cabeça... Ele sempre fora nosso amigo e bem... fica tão
difícil de acreditar que seja ele. Eu nunca pensei que ele faria isso, não consigo
acreditar, Nicky. Preciso ter certeza; ver se ele está usando outro brinco ou se está sem.
Como ele pode ter sido tão cínico? Visitando o Gui na prisão e dizendo palavras
confortadoras... falando que ele sairia dessa, que era forte e que iria superar tudo. Ia à
casa dele e conversava com os pais dele. O que ele estava fazendo? O que pensava
então? Por que fazer isso com uma pessoa que sempre só quis o bem dele? Realmente
não entendo o que se passa pela cabeça das pessoas... não sei mais em quem confiar.
─ Mas agora tudo fica mais claro... no dia do museu... lembra? Quando o Gui foi
preso, o Roger estava estranho, esquisito, tratou Guilherme diferente. Eu fiquei
intrigado na hora, sei lá, achei que ele estava diferente, meio nervoso, mas não sabia o
motivo. Até o Gui notou diferença, mas não conseguiu compreender o que era. Depois
ele, percebendo que notamos algo estranho, se desculpou e disse que estava chateado e
não devia ter descontado em nós... Deixamos para lá o incidente e até chegamos a
esquecê-lo, mas agora tudo fica claro para mim; ele já sabia que aquele dia algo
aconteceria com o Gui e estava só esperando. Ele também disse que o Gui iria precisar
de muita sorte quando o acusaram de ter roubado o quadro de Mona Lisa e deu a
entender que ele era um ladrão. Disse tudo isso brincando, mas agora entendo o que ele
queria dizer. Tudo isso o deixou muitíssimo triste, pois ninguém acreditou nele. Isso foi
58

o pior de tudo, um amigo fazer o que fez... nunca passou pela cabeça do Gui como o
Roger é cruel.
─ Tem razão, Nicky, mas o que não consigo entender é o que tudo isso significa,
como o Roger conseguiu ser tão falso com uma pessoa que só quis o bem dele? E se ele
desmentir o crime? Não acredito que tenha assassinado Camilla... Ele pode dizer que
não foi ele, e quem poderá provar contra? Só estes dois objetos são o bastante para
incriminá-lo?
─ Não sei, Marina, mas como tem tanta certeza que foi Roger?
─ Porque a Camilla disse que havia participado do plano para incriminar
Guilherme, só que aí se arrependeu e contou toda a verdade. Não me disse o nome dele,
mas disse que falaria depois, pois temia ser morta por ele se ela o entregasse... E sobre o
brinco, eu fui comprar com o Gui de presente de aniversário para ele. Lembro-me de
que ele me disse que queria um igual ao meu, mas que não comprava por ser caro.
Então, fui até a mesma loja onde o encomendei e pedi para fazer outro par totalmente
igual, pois eles desenham na hora o modelo que você pede. O brinco acaba se tornando
peça única, e por isso sei que é do Roger! Ainda não consigo entender, Gibson, o motivo
que o levou a fazer isso com ela! Ele é um verdadeiro monstro.
─ Calma, Marina, não vamos perder a cabeça agora que sabemos que pode ser o
Roger. Precisamos pegá-lo no pulo; continuem conversando com ele normalmente para
que não perceba nada. Agora estamos chegando ao fim de todo esse pesadelo, tente se
acalmar. Como iremos pegá-lo? Notaram algo errado com relação ao brinco?
─ Agora que tocou neste assunto, Gibson, me recordo perfeitamente. Ele
apareceu na faculdade com esparadrapo na orelha e eu perguntei o que era. Ele disse
que era uma espinha enorme que estava muito inflamada, a orelha estava
completamente vermelha. Ficou assim por vários dias. Geralmente, quando se espreme
uma espinha, ela seca no mesmo dia, ou se está muito inflamada, sei lá... em alguns dias
e não em semanas... Ele podia estar querendo disfarçar algo... um corte... um rasgo!
─ Isso, Nicky, e sobre o botão, recorda-se de quando ele colocou a jaqueta, o
Artur viu que estava sem e brincou dizendo que alguém o arrancara? Lembra como ele
ficou nervoso com esta observação e saiu da roda minutos depois? Sei lá, mas tudo isso
pode ser pura coincidência, não quero imaginar que o Roger é capaz de fazer tamanha
brutalidade! Estava tudo tão claro e nós não percebíamos o que se passava diante de
nosso próprio nariz. Ele devia se divertir às nossas custas, rindo por trás!
─ Agora que sabemos, o que fazer, Gibson?
─ Voltem para casa e amanhã apareçam na faculdade normalmente, conversem
com ele e vejam se o curativo ainda está lá ou se há uma cicatriz no lugar, depois me
liguem e aí veremos como o pegaremos. Até lá, pensarei em alguma coisa!
─ Ótimo, adorei a idéia!
─ Eu também, Gibson. Não sei o que faríamos sem você. Até amanhã.
─ Até e cuidado, isso pode ser muito perigoso, entenderam? Não resolvam fazer
nada sem me consultar primeiro, esperem novas instruções! Quero ver este garoto livre,
Nicky!

LI

─ Oi, Gui!
─ Marina, quanto tempo, como está? Estou morrendo de saudades suas e de
todos, pensei que houvesse se esquecido de mim...
59

─ Oh, meu amor, eu nunca esqueceria de você, estou ótima e morrendo de


saudades também, não vejo a hora de ficarmos juntinhos novamente... como
antigamente, vendo um bom filme, comendo uma boa pipoquinha...
─ Mas me diga, como está o Nicky? E o Roger? Faz tempo que não aparecem...
─ É... o Roger, está bem... mandou lembranças!
─ Ele está bem mesmo?
─ Claro, e por que não estaria?
─ Não sei, você vacilou um pouco para falar dele, o que aconteceu? Ele está
doente? Aconteceu algo com ele?
─ Não, Gui, não aconteceu nada!
─ Não sei não... Você está querendo me esconder algo, me diga, o que é?
Guilherme soltou-se de Marina e foi andando para trás até encostar-se na parede,
que ficava no fundo da cela, onde entrava uma fraca luminosidade pela janela. Ficou de
costas e passou as mãos pelos cabelos. Parou, respirou fundo e, virando-se de repente,
encarou-a bem nos olhos e disse:
─ Já chega, me diga o que está acontecendo... Ele está envolvido não está, Mari?
─ Ai, Gui, não vou mentir para você, você sabe, nunca menti e não vou fazer
isso agora... eu... eu... sim. Ele está, Gui!
─ Eu já desconfiava... desconfiava mesmo, mas não podia dizer nada sem
provas.
─ Como? E você nunca nos contou nada sobre isso, Gui? Qual a razão?
─ Porque eu não via necessidade, queria ter certeza do que ia falar, isso é uma
acusação muito séria... não pode ser dita assim sem certeza. Sabe, não queria culpar
meu amigo...
─ Seu amigo, Gui? Pelo amor de Deus, nunca foi seu amigo, ele é uma víbora.
Onde já se viu, um amigo de verdade nunca teria feito isso!
─ Acontece, Mari, que eu o conheço desde pequeno e nunca me passou pela
cabeça que ele faria isso comigo. Não consigo aceitar...
─ Bem, amigos você tem muitos, o Nicky, Fael, seus pais, a Benê, eu... enfim,
todos os outros, menos ele, nunca mais repita o que você disse agora, Gui. Ele nunca foi
seu amigo!
─ Tudo bem, irei me acostumar... O que mais ele fez?
─ Você não sabe nem o começo, meu amor. Ele matou uma garota; Camilla era o
nome dela!
Guilherme ficou atônito, petrificado, parecia ter recebido uma paulada na
cabeça, bem mais forte que aquela do museu, um verdadeiro balde de água fria. Olhou
para Marina com os olhos úmidos e perguntou, com um fio de voz:
─ O que você disse?

LII

─ Olá, cara, tudo legal?


─ Tudo legal, Nicky, e a Marina?
─ Visitando o Mona!
─ Ah... e ele... como está? Tudo bem?
─ Tudo ótimo, melhor agora com algumas descobertas...
─ Descobertas? Como assim? Descobertas sobre o quê?
─ Sobre nada, Roger, curioso! Depois ele fala sobre isso... Primeiro é preciso ter
certeza!
─ Oh, sim, claro!
60

─ Oi, gente.
─ Oi, Mari, como vai?
─ Muito bem, Roger. Escuta, esse botão é seu? Se não me engano vi sua jaqueta
sem... mas se não for, eu jogo fora!
Roger olhou abismado para o botão na mão de Marina.
─ Onde você encontrou isto?
─ Não precisa ficar vermelho não. Eu o encontrei na sala, perto de onde você
costuma se sentar... Você está bem? Parece meio nervoso... O que foi?
─ Eu, nervoso? Imagine, impressão sua...
─ Pelo menos pareceu!
─ Não, não ligue não, não é nada. Mas onde mesmo você o encontrou?
─ Por aí... Estou brincando, na sala.
─ Ah... mas pensando bem, acho que se enganou, Mari; não é meu, é muito
parecido, sem dúvida, mas não é o meu.
─ Roger, onde está o brinco que eu lhe dei de aniversário? Não gostou? Nunca
mais o vi usando... Resolvi perguntar!
─ Mas é claro que gostei, você sabe que adorei... Se lembra que minha orelha
estava infeccionada? Pois bem, não o estava usando por este motivo, mas assim que
melhorar, voltarei a usá-lo.
─ É mesmo, você apareceu com esparadrapo... Deixe-me ver? Está melhor?
─ Não... bem... quero dizer, olhe, mas cuidado ainda está muito dolorida... por
favor, não ponha a mão, ok?
Marina olhou assustada para Nicky e se aproximou de Roger. Estava ansiosa por
ver o curativo dele e quem sabe acabar de vez com esta dúvida que vivia martelando sua
cabeça.
─ Nossa, Roger, foi muito feio o machucado, pois até agora se vê a marca... Mas
parece um pequeno rasgo... como uma espinha poderia ter feito isso tudo? Foi uma
espinha, não foi? Lembro de você ter comentado algo a respeito. Mas o importante é
que está melhor. Sabe o que parece esta cicatriz que se formou? Parece que seu brinco
foi arrancado... que se enganchou em alguma coisa e que a força que usou para se livrar
acabou rasgando a orelha... Nossa, como gosto de imaginar coisas, não? Me desculpe,
Roger, não foi minha intenção deixá-lo chateado... desculpe, tá? Sua orelhinha está
ótima!
Roger não disse nada, mas sentia o suor escorrendo, queria sumir dali, sair
correndo, mas suas pernas estavam trêmulas e ele não conseguia sair do lugar, não
conseguia sequer articular uma única palavra.
─ Pois é, Roger, você precisa usar o brinco de novo para não fechar o furinho,
ou terá que furá-lo novamente... E olha, vou lhe falar uma coisa... furar a orelha depois
de grande dói pra chuchu! Por isso precisa cuidar para não sofrer mais tarde.
─ Eu sei, Marina, irei colocá-lo assim que estiver completamente bom... agora
deixe eu costurar este botão antes que eu o perca novamente.
─ Mas você disse que não é seu...
─ Pois é, tem razão, estou meio confuso... Vou até a lanchonete, alguém quer
alguma coisa?
─ Não, obrigada. Só mais uma coisinha...
─ Pode falar, o que é?
─ Descobrimos algumas coisas sobre o caso do Gui; não temos certeza ainda,
mas parece que há provas do autor do crime, de quem roubou o quadro e colocou a
culpa nele. Como pode alguém fazer uma coisa dessas? E quem você acha que faria isso
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com ele? Não é estranho? O inspetor disse que pode ser uma pessoa conhecida... mas
não fazemos idéia de quem possa ser...
─ Ah... só um instante, Mari, lembrei que não consigo entender os exercícios de
matemática, será que poderia me dar uma ajuda?
─ Claro, Roger, será um prazer... então chegamos mais cedo amanhã?
─ Não, podemos chegar no mesmo horário... Você pode passar em casa?
─ Na sua casa? ─ disse Marina meio desconfiada, olhando de rabo de olho para
Nicky, que já pretendia abrir a boca para se oferecer e ir junto, quando Roger
respondeu:
─ É, em casa. Você vai mais cedo, me explica e então, quando der o horário da
faculdade, a gente vem!
─ Ótimo, muito boa a sua idéia, será muito legal!
─ Ok, então, até amanhã!
─ Até!
Com passos largos e rápidos Roger se afastou. Nicky e Marina ficaram
observando-o até dobrar a esquina.
─ Nossa, você viu como ele estava estranho? Fiquei morrendo de medo.
─ Eu também. Acho que você não devia ir à casa dele. Lembra do que o Gibson
disse? Para não ficarmos com ele sozinhos?
─ Eu sei, Nicky, mas o que fazer? Se dissesse que não, ele poderia desconfiar de
que sabemos de alguma coisa; tive que concordar para ele pensar que não estamos por
dentro do assunto. O que eu poderia fazer?
─ Não sei, só sei que devia dar o cano e não aparecer lá amanhã!
─ Pode deixar que tudo dará certo. Não passa pela cabeça dele que sabemos de
tudo; pode ficar tranqüilo quanto a isto!
─ Não sei. Ainda acho que ele desconfiou de algo e quer fazer alguma coisa... e
se ele quiser matá-la?
─ Não seja ridículo, Nicky. Tenho uma idéia: é só mandarmos o Gibson até lá,
ele fica por perto e, qualquer coisa estranha, ele entra na casa e dá flagrante!
─ Como você é um gênio, mas espero que dê certo. Vamos correr e avisá-lo!

LIII

O sol brilhava alto e o vento leve que soprava era deliciosamente refrescante.
Roger ficou por algum tempo sentado na cama, pensando. Gostava muito de Marina,
desde a primeira vez em que a viu na faculdade. Era capaz de fazer qualquer coisa para
conseguir conquistá-la e era o que estava fazendo naquele momento... Já havia
conseguido tirar Guilherme do caminho, culpando-o do roubo. Onde já se viu um cara
inteligente como ele gostando de um quadro simplório? Estúpido era o que ele era!
Depois conseguira tirar Camilla do caminho, matando-a; ela só iria atrapalhar o
andamento das coisas...
Guilherme tinha tudo o que queria e o que não queria: casa, banda, pais, amigos
e Marina... Ele poderia ter todas as garotas que quisesse, mas não, resolveu que queria
justamente Marina e por isto estava pagando. Ele poderia escolher outra garota. Era
chegar e dizer suas qualidades: rico, bonito, estudante de música, vinte e dois anos, filho
único, carro, universitário... Poxa, o que mais uma garota poderia querer? A mulherada,
hoje em dia, não só quer homem de grana e com carro? Pois então, ele conseguiria outra
namorada, não haveria problemas quanto a isso. Roger começou a pensar em voz alta.
─ Foi até bom o que fiz com ele! Fiz um favor, ele é meu amigo, sempre fez
tudo por mim. Tá aí, resolvi agradecer. Sempre viajamos juntos e como sempre ele
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fazendo sucesso com a mulherada; detalhe, ele e o Nicky. Deste, preciso tomar conta
mais tarde. Não fiz nada de errado, eu simplesmente o ajudei. Agora é hora de ajudar
Marina, como ajudei Camilla. Vou ajudá-la a se libertar dele, pois naquela cabecinha de
vento ela esconde muita coisa ainda que não sei, mas saberei assim que ela chegar. Vou
propor um acordo a ela: ou eu ou a morte. Se não quiser ficar comigo, mato-a. Será um
alívio para ela. A morte nada mais é do que um sono profundo; então não devemos ter
medo de morrer. A morte é minha amiga; sempre me acompanhou e me ajudou a aliviar
o sofrimento de várias outras pessoas... Ela já deve estar chegando, deixe eu me
aprontar.
Pegou a faca que usara para matar Camilla. Passou o dedo levemente pela
lâmina e sorriu de prazer. Chegou até a estremecer de tanta satisfação. Não, pensando
bem, não iria usar a faca para cortar seu belo pescoço, iria usar uma substância mais
rápida e com resultados extraordinários. Foi até o quarto e pegou sua arma. Carregou-a
e guardou embaixo da almofada. Depois, indo até a cozinha, pegou um frasco que
continha um pó branco com o título de morfina e misturou uma dose generosa em um
suco de maracujá que estava na jarra sobre a mesa, quando um alto-falante começou a
berrar lá fora:
─ Por favor, Roger, estamos cercando sua casa inteira, saia numa boa com as
mãos na cabeça!
─ Cadela! Conseguiu me enganar!
Começou a suar realmente. Marina estava por trás de tudo aquilo mesmo. Agora
não se entristeceria, nem se arrependeria de matá-la. Ela bem que merecia. Como pôde
acreditar naquela desequilibrada?
Foi até a sala e pegou sua arma. Colocou-a na cintura e encaminhou-se até a
janela. Marina e Nicky estavam lá fora, dentro de uma viatura da polícia.
─ Então, quer dizer que os dois estavam armando uma emboscada para mim? Eu
devia ter desconfiado de que ela não estaria sozinha. Ainda não entendo como fui
acreditar neles.
─ Roger, é a última vez que vou pedir isso. Saia, que será melhor para todos.
Saia com as mãos na cabeça e não tente nenhuma gracinha, ou já sabe o que irá
acontecer. Se demorar mais um minuto, entraremos aí e o tiraremos à força!
Esperaram alguns minutos e quando se preparavam para entrar, ele apareceu na
porta.
─ Bem, creio que meus amigos me apunhalaram pelas costas... me entregaram...
fizeram um plano e eu caí como um patinho. Agora não adianta mais fugir... vocês me
traíram e deviam pagar caro por isso como a outra falsa pagou, mas acho que farei uma
coisa melhor...
Marina estremeceu, evitou olhar para Roger ali na sua frente, tão transformado.
Reuniu forças e confessou:
─ Você foi a última pessoa em que pensei, mas quando eu e o Nicky
encontramos o corpo dela e fomos até a polícia ver os objetos encontrados com ela...
não queríamos acreditar; quando mostrei o botão e toquei no assunto do brinco... você...
você ficou muito nervoso, foi então que descobrimos... me desculpe, Roger!
─ Não precisa se desculpar, nem chorar, guarde suas lágrimas para o Guilherme,
pois ele precisa mais do que eu. O que fiz, confesso, não tem como mentir. Eu sabia que
ele amava aquele quadro estúpido e por isso providenciei tudo: dei a panca nele, soltei o
quadro da parede e me mandei. A Camilla, aquela sonsa, se arrependeu e contou tudo a
vocês. Eu precisava me proteger e o único jeito foi silenciando-a. Como sempre, vocês
estragaram tudo e a descobriram; eu, de um jeito ou de outro, não consegui me livrar.
─ Mas, Roger, não consigo entender, cara, você fez tudo isso por que razão?
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─ Pela única razão da minha vida: pela Marina! Você ainda me pergunta isso?
Tudo bem, veja: o Guilherme é rico, bonito, tem banda, amigos, é bem-aceito em todos
os lugares e tem uma namorada que devia ser minha, e não dele. E eu? Eu fiquei metade
da minha vida passando por diversos psiquiatras, não sou rico, não sou bonito, a vida
toda vivi das migalhas do pão dele, não tenho banda nem tantos amigos quanto ele;
tenho que trabalhar para me sustentar, para ter o que comer, tenho que ajudar minha
mãe, tenho um monte de irmãos e a única garota de que gostei, que amei
verdadeiramente na minha vida, ele tirou de mim. Precisei matar minha própria
namorada, pois me traiu, fazendo meu plano ir por água abaixo. Se bem que não perdi
nada, afinal de contas, eu nunca a amei; só ela é que era louca por mim. Agora você,
Marina, me traiu contando para a polícia meu plano. Eu devia matá-la agora, na frente
de todos, como castigo, mas vou fazer coisa bem melhor!
─ Mas, Roger, o que eu não entendo, cara, é o motivo pelo qual você não
explicou isso para o Mona, ele iria entender...
─ Não seja burro! Não é questão de entender ou não... A questão é de ele ser
mais do que eu, poder mais, ser melhor do que eu, entendeu agora? Nunca suportei isso,
só Deus sabe o quanto sofri durante esses anos todos... Perto dele, eu não sou nada, sou
um zé-ninguém, não valho nada, não tenho nada. Não me arrependo do que fiz. Se
pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, sem mudar exatamente nada.
─ Acontece, Roger, que se o Gui fez tudo isso, foi porque realmente gosta de
você e não sabia que você se sentia humilhado. Se soubesse, com certeza, teria feito
tudo diferente. Ele fez tudo isso só para ajudá-lo, para não vê-lo assim numa pior.
Acredite, ele nunca faria nada para prejudicá-lo.
─ Não, Mari, nunca mais vou cair nos seus truques, nunca mais vou acreditar em
você! Eu juro!
Marina abaixou os olhos e começou a chorar. Não gostava de fazer isso, ainda
mais com um amigo seu, mas desta vez foi preciso.
─ Não adianta chorar, o que começou errado, sempre termina errado, nunca lhe
disseram isso?
─ Acontece que não começou errado. O erro está com você, Roger, com você.
Você é o errado!
─ Isso, Marina, o erro está comigo, o errado sou eu, mas acontece que sempre
gostei dele, do Nicky, do Rogério, do Pedro, da Rosana, enfim, de todos, mas quantos
deles realmente gostaram de mim? Meu grande amor foi por você, pensei que, fazendo
o que fiz com Guilherme, você ficaria livre e olharia para mim, mas me enganei. Você
nunca me olhou, nunca me deu bola e tinha o Nicky para dificultar tudo, que não saía de
perto de você, cuidando, correndo junto, indo a festas, passeios, não deixava ninguém
conhecê-la. Percebi que o que eu havia feito com Guilherme não estava dando certo,
precisava fazer algo mais. Foi aí que Camilla entrou em campo e logo em seguida pisou
no tomate e teve o que mereceu! Eu sempre amei você e sempre gostei dos meus
amigos... mas não consigo ficar sem fazer o que faço, essas coisas, sabe, não consigo.
Elas me atraem, me puxam para si e quando percebo, pronto, já fiz e não me arrependo
e se pudesse eu faria novamente. Por isso, vou fazer uma coisa que será boa para mim e
para todos vocês. Será bom para o Guilherme também. Venham, podem me prender...
mas antes...
Tirou da cintura a arma já engatilhada e olhando para Marina, antes que
pudessem fazer alguma coisa, apontou-a em sua direção.
─ Roger, abaixe isso ou iremos atirar!
─ Calma, Gibson, era apenas uma brincadeira... ─ e, colocando a arma na
cabeça, gritou ─ se não vai ela, vou eu!
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Ouviu-se um estrondo e um gemido alto. Marina virou o rosto para não ver a
cena, mas não agüentou e olhou rapidamente. No chão jazia o corpo sem vida de Roger.
Sua cabeça estava estourada e toda ensangüentada, seus cabelos loiros estavam
vermelhos, seus olhos saltados, suas mãos ainda se debatiam contra o asfalto e de sua
boca aberta escorria uma grossa gota de sangue. Terminou de se debater e um policial
cobriu o corpo com jornais. Gibson veio ajuntar-se a eles.
─ Sinto muito pelo amigo de vocês. Agora acabou tudo; todo o pesadelo chegou
ao final!
Na delegacia, o pôr do sol era magnífico. O vento soprava uma brisa suave, que
balançava tranqüila as palmeiras que apontavam orgulhosas para o céu azul sem
nenhuma nuvem.
Ao longe, os pássaros cantavam uma canção monótona que era espetacular de se
ouvir.
Guilherme, em pé na janela, olhava a paisagem que durante oito meses fora
obrigado a esquecer. Durante oito meses, teve que viver longe de sua família, sua
namorada, seus amigos. Guilherme lembrava-se de que passou horas horríveis trancado
naquela cela escura e úmida. Foram oito meses angustiantes, mas ali estava ele agora,
livre, solto, feliz. É claro que ficou triste quando soube que Roger se matou, afinal de
contas, ele era seu amigo.
─ Mas, Gibson, o que não consigo entender é o motivo pelo qual ele fez isso.
─ Isso é simples, Guilherme. Primeiro ele disse que sempre teve ciúmes de você
por você ser quem é: rico, bonito etc. Ele ficou sabendo de sua paixão por Mona Lisa e
acabou achando que era um prato cheio, coisa que não deixou de ser. Planejou tudo e
conseguiu o que queria, que você fosse preso e Marina ficasse livre. Só que Nicky e
Marina se envolveram e acabaram conhecendo Camilla, que, arrependida, disse toda a
verdade sobre o plano. Quando Roger descobriu, a matou, e, por uma coincidência, seus
amigos encontraram o corpo, fazendo com que chegássemos ao final de mais uma bela
história!
─ Mas, me conte os detalhes. Depois que ele a matou, como conseguira
descobrir que foi ele?
─ Pelo brinco e pelo botão na boca da morta. Ela, para se defender, puxou a
orelha dele com a mão, arrancando o brinco, e com a boca arrancou o botão da jaqueta
sem que ele percebesse. Ele só se deu conta depois que a enterrou. Quando já estava
tudo pronto para prendê-lo, ele se matou na frente de todos. Com isso, vimos que
erramos feio ao prender você, e agora o soltamos. A televisão, que só mostrava você
com o quadro na mão, não o deixou sossegado enquanto não conseguiu uma entrevista,
e assim acabou o caso de sua amada Mona Lisa. O que me diz? Alguma dúvida?
─ Por que ele fez isso?
─ Porque sempre quis ser você. Investigamos a vida dele e descobrimos que era
um psicopata, ele sentia um ciúme tão incontrolável de você que preferiu a morte a
pagar pelos crimes que cometeu; ele não se conformaria de ter que ficar preso.
Guilherme ficou pensativo por algum tempo, não queria acreditar no que acabara
de escutar. Então era isso; tudo não passava de pura falsidade! Mesmo assim, ele não
sentia raiva de Roger; ao contrário, sentia pena, pois ele era doente. Tentou segurar as
lágrimas que, teimosas, escorriam pelo seu rosto. Levantou-se da cadeira e se despediu
de Gibson.
─ Obrigado por tudo. Nunca irei esquecê-lo!
Fechou a porta, pegou sua mala e se dirigiu ao aeroporto; Nicky e Marina o
acompanharam. Quando chegaram, havia muitos amigos e parentes esperando por eles.
Sarah e Walter eram os que mais choravam.
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─ Sabe, Gui, fiquei oito meses sem ter você por perto, queria tanto protegê-lo e
não podia; me sentia um fracasso só de pensar que não conseguia tranqüilizar seu
coração no dia em que foi preso... mas... mas fique sabendo, Gui... que... que eu amo
você demais!
Sarah abraçou o filho com todo amor e carinho do mundo e começou a chorar.
Um choro sentido, angustiado, triste, mas era um choro sincero que saía lá de dentro do
coração, lá do fundo, lá de onde dói mais e de onde é mais sensível e delicado. Walter
também veio e se entregou à emoção daquele abraço.
─ É isso aí, filhão... se cuida... e... e... ─ Walter não podia terminar de falar,
abraçou o filho e o beijou.
Marina foi a última a se despedir. Guilherme não segurava mais o choro. Ele
chorava, deixando toda a tristeza, toda a amargura que sentia, sair do peito!
─ É isso aí, gente! ─ disse Guilherme já na porta do avião. ─ Vou a Paris ver a
verdadeira Mona Lisa no museu do Louvre. Só que desta vez não precisarei de
seguranças, nem de guardas; não haverá prisões, assassinatos, nem nada. Desta vez, eu
vou vê-la, apreciá-la, admirá-la. Não sei o que vai acontecer por lá ou até mesmo o que
encontrarei lá, mas sei que serei bem mais feliz. Nunca esquecerei de vocês, Nicky,
Benê, meus pais, Lóri, Rogério, Pedro, Rosana, Marina... Mari, você que teve tanta
paciência comigo. Nunca soube corresponder ao amor que você sente por mim, por isso
me perdoe! Amo todos vocês, não vou me esquecer do Roger, apesar do que me fez, de
tudo que me fez passar, todos os transtornos... enfim, não o esquecerei, pois ele sofria de
um distúrbio. Ele gostava de nós, mas era de um jeito diferente; ele só sabia maltratar,
era o jeito de ele demonstrar o afeto que sentia por nós. Minha grande tristeza é saber
que nunca percebemos o quanto ele era doente... Deixemos os mortos descansarem em
paz! Nós ainda nos encontraremos um dia e seremos felizes, todos nós. Eu amo todos
vocês!
Guilherme entrou e a porta atrás de si foi fechada. Sentou-se na janela e o avião
começou a decolar. Acenou tristemente, enquanto se distanciava, até o avião levantar
vôo.

FIM

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