Você está na página 1de 15
Revista de Economia Politica, vol. 16, n° 2 (62), abril-junho/96 A URV e sua funcao de alinhar precos relativos* JOAO sicst** The Real Plan of stabilization was divided into three phases. The first phase concerned problems of fiscal nature: the govemmental deficit. The second one, performed from March to June of 1994, purposed to balance relative prices and remunerations, The third step would knock down the inflation. The article’s aim is to discuss if the device introduced in the second step of the Plan, the Unidade Real de Valor (URV), carried out the goal of aiding the Brazilian economy in the discovery of a balanced vector of relative prices. One carries to the conclusion that the URV did not play its role properly and that the Plan, despite this problem, was successful in the initial period of the third step due to other motives — also discussed in the text. 1. INTRODUGAO Na segdo “Documentos” da Revista de Economia Politica (vol.14, n° 4, 1994), o professor Bresser Pereira reproduz uma série de artigos que publicou em 1993/94 sobre “A economia e a politica do Real” nos jomais Fotha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Nos textos referentes 4 segunda fase do plano de estabilizagao, a fase da Unidade Real de Valor (doravante URV), defendeu a idéia de que tal instrumento era fundamental para alinhar pregos relativos. Referindo-se a URV, aduziu: “...com a introdugio de um indexador didrio amarrado na variagao da taxa de cAmbio (. . .) teriamos, na pratica, as condigées da dolarizagao sem que a economia estivesse dolarizada. Terfamos reajustes didrios de pregos, que estariam, portanto, sendo aumentados de forma sincrénica”(Bresser Pereira, 1994, p.137).! * O autor agradece os comentarios e sugesties dos professores e dos colegas de curso feitos nas reunides regu- lares de discussdo dos “textos discentes” do programa de doutorado do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Agradece, ainda, a Adriana de Queiroz.o valioso trabalho de célculo das correlagbes ca claboragdo das tabelas e grificos e a Cornélia Porto 0 envio dos dados do DIEESE-SP. ** Doutorando do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. ' Vertambém Cardim de Carvalho, 1994a. n Neste ensaio, concorda-se com a tese defendida pelo professor Bresser Pereira de que o objetivo da URV era induzir a economia a encontrar um vetor de equilibrio de pregos relativos. Contudo, mostra-se que as evidéncias empiricas indicam que a URV niio cumpriu 0 papel de instrumento sinalizador da reorganizagao do sistema de pre- 0s no periodo marco-junho de 1994, relativo a segunda fase do Real. O artigo esté dividido em cinco segdes. Na segio 2, apresenta-se a teoria que fundamentou a reali- zagdo de uma fase preparatéria anterior estabilizacio, a fase da URV. Na segao 3, expde-se 0 método utilizado para aferir se a URV foi um instrumento eficaz de alinhamento de pregos da economia naquele periodo. Na segio 4, apresentam-se 08 resultados ¢ as conclusées do teste realizado. 2. O MECANISMO DA URV: FUNDAMENTOS TEORICOS A economia brasileira viveu durante anos sob a alta inflago. Esse contexto inflacionario possui caracteristicas especificas que o diferem de qualquer ténue e passageiro processo inflacionario. Nesse regime, a moeda-de-conta oficial (0 cru- zeiro, 0 cruzeiro novo, o cruzado ou cruzeiro real) desapareceu dos contratos, pois utilizé-la seria uma atitude irracional, significaria aceitar a priori contratos cujo valor futuro seria incerto em fungiio da volatilidade da inflagao e da dispersio de pregos relativos causada pelo proprio processo inflaciondrio. Portanto, cada grupo de agentes adotou uma nova unidade de conta para proteger seus compromissos (recebi- mentos e pagamentos) contratuais futuros. Existiram, também, certas operagdes que tinham clausulas especificas de corregdo/indexagaio, Cada unidade de conta ou regra de indexagiio estabelecida estava intimamente relacionada com os desejos de apro- priagdo do produto de cada grupo social. Os agentes econémicos perceberam que, apesar da indexagio, suas remune- rages reais oscilavam. Assim, todos desejavam manter-se na conhecida posigéio de pico. Cada grupo de agentes vivenciava episodicamente uma situagao de pico e ava- liava que tal posig&io era, com toda a certeza, sustentavel para si e, talvez, para os demais. Além disso, periodicamente experimentavam novamente a situago dese- jada. Dessa forma, confirmavam que suas aspiragdes eram possiveis. E cada grupo conquistava em algum momento a posigdo desejada, Mas, logo em seguida, tal posi- gio dissipava-se pelo simples movimento dos demais. Essa situagGo indesejada era o estimulo para um novo combate de reconquista da posigao perdida. Esse é 0 meca- nismo que explica o permanente desalinhamento do sistema de pregos relativos e as constantes reivindicagdes de recuperagao de perdas salariais durante o regime de alta inflagdo no Brasil. Se na alta inflagdo os agentes abandonam a moeda-de-conta oficial, na hiperin- flagdo abandonam os indices que refletem a inflago passada: os empresarios adotam as variagdes do délar como referéncia para os seus reajustes, enquanto os trabalhado- res exigem a adogdo da mesma regra para os salarios (Merkin, 1988). Com a inflagdo se acelerando, uma média que reflete as variagdes de pregos do més anterior torna-se indtil para uma economia que tem scus precos se elevando diariamente. Os agentes deixam de considerar relevantes as variagdes de pregos passadas. As economias conta- n minadas pela hiperinflago, ao mesmo tempo em que se dolarizam, se diarizam. O acirramento paulatino do conflito distributivo leva 4 diarizagdo/dolarizagao das eco- nomias de inflagio aguda? Na fase mais avancada das hiperinflagdes, as estratégias defensivas sio tio apri- moradas que qualquer tentativa de mudanga de posigiio relativa torna-se ineficaz(Cardim de Carvalho, 1990), Somente é possivel permanecer na posigao que os resultados do conflito determinaram. As remunerages permanecerdo em algum ponto entre as anti- gas posigdes de pico e vale. O poder de mercado de cada agente determinara se sua remunerago ficara mais préxima de um ponto ou de outro. A hiperinflagZo, portanto, congela um perfil de saldrios ¢ precos relativos. Enquanto na alta inflagdo buscava-se 0 pico, na hiperinflagao tenta-se permanecer na posigao em que foi possivel sobreviver. ‘A diarizagao reorganiza, portanto, as demandas pelo produto social e expressa-as em uma tinica moeda de conta: o délar. Assim, o produto existente & coerentemente repartido entre seus demandantes, isto é, a soma das remuneragées dolarizadas ex- pressa o valor real da renda. Nesse sentido, a diarizagao deixa a economia pronta para sofrer uma reforma monetiria estabilizadora. Com adiarizacdo do processo eco- némico, o célculo de perdas passadas suprimido do cotidiano dos agentes. Assim, & eliminada uma das principais fontes perturbadoras do perfil distributivo alcangado. Um plano de estabilizaco deve, portanto, necessariamente reorganizar 0 rol das, demandas sociais pelo produto, compatibilizando-as e unificando-as em uma nica unidade monetiria. Nas hiperinflagdes, isso ocorre como conseqiiéncia da aceleragio avassaladora dos pregos. Na alta inflagio, as condigées propicias & estabilizagao nao surgem espontaneamente, Nesse sentido, devem ser estimuladas artificialmente com politicas econdmicas. A URV foi criada com o objetivo de cumprir o mesmo papel que o délar cumpre nas hiperinflagdes. A URV foi criada para diarizar a economia, para organizar a demanda pela renda real. A soma de todas as remuneragdes em URV deveria ser exatamente igual ao valor do produto medido na mesma unidade. O objetivo da segunda fase do Plano Real era introduzir a URV como principal instrumento para auxiliar a reorganizagao das demandas sociais em novas bases, ou seja, expressar as demandas em uma tinica unidade de conta ¢ fix4-las consistente- mente com a magnitude do produto, A diarizacéio da economia via URVerizacdo, entre outras medidas, era a principal ferramenta utilizada na busca desse objetivo, Alcan- gado um perfil aproximadamente estavel do sistema de remuneragdes e pregos rela- tivos, a terceira fase concluiria a reforma monetiria materializando a Unidade Real de Valor como meio de pagamento, o Real. Essa era também a expectativa do pro- fessor Bresser Pereira (1994, p. 138) antes da segunda fase do Plano Real: A inércia inflacionéria deriva da assincronia nos reajustes de pregos, que sio aumenta- dos defasadamente. E precisamente esse problema que o Plano Fernando Henrique vem resolver ao introduzir, na sua segunda fase, a Unidade Real de Valor. Ao adoté-la 0 objetivo é permitir que os pregos de cada mercadoria aumentem todos os dias, como acontece nas economias dolarizadas, em que o indexador é a variagio da taxa de cim- bio. Uma vez obtida essa sincronizagao dos aumentos dos pregos, bastard fazer uma reforma monetiria, transformar o indice-moeda URV em moeda... 2 Para uma descrigao do processo de diarizagao/dolarizago da economia alema na década de 20, ver Bresciani Turroni, 1937. 3 Detalhes sobre os objetivos da segunda fase do Real ea reforma monetaria estabilizadora podem ser encon- trados em Cardim de Carvalho, 1994b. 3 3. MEDIDA DO GRAU DE URVERIZACAO DA ECONOMIA: BREVES CONSIDERACOES SOBRE O METODO Se os pregos de uma economia, durante algum tempo, seguem praticamente a mesma trajet6ria, ou seja, variam em uma mesma diregdo e medida, pode-se dizer que existe um perfil estavel do vetor de precos, ou seja, um alinhamento de pregos relati- vos. Este, por sua vez, é reconhecidamente fundamental para garantir 0 sucesso das reformas monctarias estabilizadoras, pois atenua os conflitos distributivos e climina, portanto, pressées inflaciondrias durante a fase inicial da estabilizagdo. Se a variagiio percentual dos pregos em cruzeiro real foi aproximadamente coincidente com a varia- 40 percentual do valor da URV, durante a segunda fase do Real, pode-se afirmar que 0 sistema de pregos relatives estava equilibrado. Para testar se esse objetivo foi alcan- gado com o auxilio da ferramenta chamada URV, estimou-se o grau de URVerizagio dos pregos de diversos itens e setores da economia, Para medir o grau de URVerizagao, calculou-se o grau de correlagao entre a variagiio percentual dos pregos de diversos itens (e de varios setores) € a variagio percentual do valor da URV. Foram utilizados os dados fornecidos pelos boletins mensais do DIEESE (Departamento Intersindical de Estudos Estatisticos e Sécio- Econémicos) relativos 4 variagio percentual dos precos de inumeros itens da cesta de consumo das familias com renda de um a trés salarios minimos e, também, os niimeros da coleta didria de variagdo dos pregos dos itens da cesta basica (DIEESE/ PROCON-SP). Nesse sentido, a andlise do grau de URVerizagao mostrard o grau de relacionamento entre a varidvel preco e a URV. grau de URVerizagao mede, portanto, 0 grau de aderéncia da trajetéria da curva de variag&o percentual dos pregos em relagdo a trajetoria da curva de variagiio percentual do valor da URV. Nesse sentido, um item ou um setor com um clevado indice de URVerizagao possuiu uma curva de variagao percentual do seu preco bas- tante proxima da curva de variagao percentual do valor da URV durante a segunda fase do Real, em 1994, Idealmente, se os pregos relativos estavam mudando exclu- sivamente por causa da inflagao, todos os precos deveriam ter obtido um grau de URVerizagao préximo de 100%. Assim, as trajetérias das curvas de variagao percentual dos precos da economia praticamente coincidiriam com a curva de varia- do percentual do valor da URV. 4, MEDIDA DO GRAU DE URVERIZAGAO DA ECONOMIA: RESULTADOS OBTIDOS E CONCLUSOES 4.1 Andlise dos itens da cesta de consumo Da cesta de consumo utilizada para a produgao do indice de inflagio mensal do DIEESE, foram pesquisados oito setores, totalizando vinte ¢ oito itens (v. Tabela 1), Dos itens analisados, apenas seis obtiveram grau de URVerizagao entre 60% ¢ 90%. Vinte itens obtiveram grau de URVerizacio abaixo de 60%. Apenas os “servigos piblicos”, que foram na sua maioria URVerizados pelo governo, na metade da segun- 14 TABELA1 Grau de URVerizacao de diversos itens da economia —margo-junholt994 Ttens dos Grau de tens dos Graude diversos setores URVerizagao diversos setores URVerizagao (em%) (em%) Alimentagao Vestiério 1) Cereais, massas e farinhas A 1) Roupas para homens 639) 2) Cames e derivados 28 2) Roupas para senhoras 28 3) Leite e derivados 837, '3) Roupas para criangas 153 4)Arligos de sobremesa 304 4) Calgados a7, 5) Frutas 705 ‘Satide Habitagao 1) Assisténcia a sade 12.9 1) Locagdo e taxas 64 2) Medicamentos 89 2) Servigos publicos 98.5 '3) Outros produtos farmacéuticos. 716 3)Servigosemat.dereparago | 48,7 Equip. Doméstico ‘4) Manutengao do domictlio. 299 1) Méveis, 475 '5) Compra da casa propria 179) 2) Utenslios domésticos 402 Transporte 3) Eletrodoméstioos 64 1) Transporte coletivo 225 Educagao/Cultura 2) Transporte individual 408 1) Mensalidades e taxas escolares 13 RecreagaolFumo 2) Livros 29,3 1)Recreagao 539 3) Material didatico 125) 2)Fumo 46 4) Jomais e revistas 241 Fonte: elaborado pelo autor com base nos dados dos boletins mensais do DIEESE e com base nas infor- mages concedidas diretamente pelo DIEESE-SP. da fase alcangaram um elevado indice de URVeriza¢ao, 98,5%. Diferentemente do governo federal, os governos locais (prefeituras) que controlam ¢ autorizam os reajus- tes dos “transportes coletivos” nao utilizaram a variagio percentual da URV como balizador dos reajustes que concediam mensalmente para esse item. Seu grau de URVerizagao foi reduzido, apenas 22,5%. Ademais, aceitaram que a variagao acu- mulada pelos “transportes coletivos” nos quatro meses fosse superior @ variagao da URV em aproximadamente 8% (v. Tabela 2). Para aqueles itens cujo reajuste de pregos era regulado por regras estabelecidas contratualmente, tais como “locagio e taxas”, “compra da casa prépria” ¢ “mensali- dades ¢ taxas escolares”, era esperado que o grau de aderéncia das variagdes de seus pregos em relagiio as oscilagdes da URV fosse baixo. Respectivamente, obtiveram os seguintes resultados: 6,1%, 17,9% ¢ 1,3%. O reduzido grau de URVerizagao desses itens pode ser explicado por dois motivos. Primeiro, os contratos que ja estavam em vigor durante a segunda fase do Plano Real continham regras proprias de reajuste, fixadas anteriormente 4 existéncia da URV. E, segundo, os novos contratos, embora tivessem a obrigagao de fixar regras de reajuste de acordo com a variagiio da URV, nao obedeceram a regra de conversio pela média dos pagamentos passados, Exem- plos, amplamente conhecidos, da indiferenga em relagfio 4 URV sio as renovagdes dos contratos de aluguéis realizadas durante o periodo margo-junho de 1994. 15 TABELA2 Ganhos e perdas em retagao a URV no periodo mar¢o-junho/1994 tens dos Graude Tens dos Graude diversos setores URVerizagaio diversos setores URVerizagao (em%) fem%) Alimentagao Vestuério 1) Cereais, massas efarinhas 0,69 11) Roupas para homens “1,88 2) Cames e derivados 860 2) Roupas para senhoras 17,08 3) Leite @ derivados zn 3) Roupas para criangas “19,78 4) Artigos de sobremesa 73,03, 4) Calgados 18.77 5) Frutas 15,09 Satide Habitagao 1) Assisténcia a saude 27.35 ‘)Locagéoe taxas 20,03 2) Medicamentos 9.42 2) Servigos piblicos 3.63 3) Outros produtos farmacéuticos 21,88 3)Servigose mat. dereparacao | _-6,87 Equip. Doméstico ‘4) Manutengao do domicilio 087 i) Méveis 818 '5) Compra da casa propria 9,60 2) Utensitios domésticos 24,06 Transporte 3) Eletrodomésticos 2.25 1) Transporte coletivo 7.93 Educagao/Cultura 2) Transporte individual 25,86 1) Mensalidades e taxas escolares 235 Recreacao/Fumo 2) Livros: 7.63 Ty Recreagao 36.17 '3) Material didatico 6.43 2)Fumo 3.65 4) Jornais e revistas “2,93 Fonte: elaborado pelo autor com base nos dados dos boletins mensais do DIESE e com base nas infor- mages concedidas diretamente pelo DIEESE-SP. A obtengo por um item de um elevado grau de URVerizagao de seus pregos significou que seus reajustes acumulados ao longo de um més somaram aproxima- damente o valor da variagio percentual da URV no mesmo més. E, além disso, que essa sincronia ocorreu durante os quatro meses da etapa da URV. Conseqiientemente, a variagaio percentual acumulada dos pregos do item na segunda fase do Real foi necessariamente préxima a variaco percentual da URV no mesmo periodo. Entao, se um item obteve um elevado grau de URVerizagao pode-se afirmar que seu prego real, na unidade de conta URV, praticamente nfo se alterou durante os meses de margo, abril, maio e junho do ano de 1994. Portanto, segundo a tese de criacdo da URY, esse item nao transferiria pressdes inflaciondrias para a terceira fase do Pla- no. Um exemplo desse caso sio os “servigos piblicos”, que obtiveram um grau de URVerizagio de 98,5% e que se defasaram somente em 3,65% em relagao a varia- cdo da URV no perfodo marco a junho de 1994 (v. Tabelas I e 2). Se a curva de variagao percentual dos pregos de um item obteve um reduzido grau de aderéncia em relagao A curva representativa das variagdes percentuais da URV, isso nao implica que a variagio percentual acumulada dos pregos desse item tenha sido superior ou inferior & variagio percentual acumulada da URV durante os quatro meses da segunda fase do Real. Tal constatago nao pode ser feita, pois podem ter ocorrido diferengas significativas entre o reajuste dentro de cada més em relagdo & variagiio da URV, o que implicaria uma redugdo do indice de URVerizaco. Mas, apesar 16 disso, a variagao acumulada da URV e do prego do item podem ter sido coincidentes no periodo de quatro meses. Sao exemplos desse caso os itens “cereais, massas e fari- nhas” e “manutengio do domicilio”. Ambos obtiveram um baixo grau de URVerizagio com reduzidas disparidades em relagao a variagao acumulada da URV no periodo. Os “cereais, massas e farinhas” obtiveram 8,1% de grau de URVerizagao ¢ se defasaram em somente 0,69% em relagio a variagdo acumulada da URV (v. Tabelas 1 ¢ 2). O item “manutengdo do domicilio” obteve 29,9% de grau de URVerizagao e aumentou apenas 0,97% além da variacio acumulada da URV. A Tabela 2 comparada com a Tabela 1 mostra, entretanto, que, na maioria dos casos, a obtengaio de um baixo grau de URVerizagao significou — além de diferengas mensais entre os valores percentuais de reajuste da URV e do item analisado — que as variagdes percentuais acumuladas de pregos no period margo-junho superaram ou se defasaram em relago a variagdo percentual da URV no mesmo periodo de tempo. Essa é uma questo fundamental porque, por um lado, pregos defasados provocariam reagGes inflaciondrias durante a fase de estabilizagio e, por outro lado, precos majorados permitiriam a convivéncia com taxas de inflagdo na terceira fase compativeis com os ganhos acumulados. E digno de destaque o avango dos pregos obtidos em relacao & URV dos seguintes itens: “recreagdo”, 36,17%; “calcados”, 15,77%; “utensilios domésticos”, 24,06%; “artigos de sobremesa”, 13,03%; “outros produtos farmacéu- ticos”, 21,88%; “leite e derivados”, 24,71%; “transporte individual”, 25,86% e “rou- pas para senhoras”, 17,09% (v. Tabela 2). Normalmente, tende-se a associar a categoria pregos majorados aos itens dos setores com estrutura oligopolizada (¢ a categoria pregos defasados aos itens dos setores considerados competitivos). Entretanto, os dados destacados de precos majorados indicam que somente o item “outros produtos farmacéuticos” (algodao, cotonetes, gaze...) € produzido por uma estrutura oligopolizada.* Os demais itens produzidos em estruturas oligopolizadas obtiveram pequenos ganhos em relagio a variago acumulada da URV ou, até mesmo, tiveram seus pregos defasados. Desta- cam-se “cereais, massas e farinhas”, defasagem de 0,69%; “fumo”, ganho de 3,65%; “medicamentos”, perda de 9,12%, “eletrodomésticos”, defasagem de 2,25% e “ma- terial didatico”, perda de 6,43%. Portanto, os resultados encontrados demonstram que 0 corte oligopolizado/competitivo nao é util para a andlise do sistema de pregos relativos durante a segunda fase do Real. Os oligopélios estiveram sob a mira da imprensa e, portanto, sob um controle informal da sociedade e, também, sob 0 acom- panhamento do governo na segunda fase do Real. © corte pregos vigiados/nao-vigiados ¢ mais util para explicar 0 movimento dos pregos naquele periodo. Vigiados eram aqueles itens ou setores que estavam sob o acompanhamento atento da imprensa, da sociedade e do governo. Os setores ou itens considerados vigiados sao todos aqueles que, mesmo diante da inexisténcia de qualquer controle formal de pregos, sofreram alguma forma de press&o que res- tringia a condigao de fazer precos com plena autonomia. Considera-se pressio, por * O item “Leite e derivados” tem uma estrutura complexa de produso € comercializagao. Em geral, produ- ‘io de let é pulverizada; entretanto, a sua comercializacio é concentrada em cooperativas. Os “derivados” ‘tém uma estrutura em que convivem grandes firmas com intimeras médias e pequenas empresas. 1 exemplo, a exigéncia governamental a determinadas empresas de apresentagao de planilha de custos com vistas a caracterizar, como sugere a Constituigio, “abuso do poder econémico”. Portanto, os pregos vigiados, em geral (mas nem sempre) asso- ciados a estruturas oligopolizadas, sofreram enormes restrigdes no que diz respeito a liberdade de precificar. Os niio-vigiados, isentos de qualquer pressfo formal ou informal da imprensa, da sociedade ou do governo, permaneceram livres para precificar de acordo com suas conveniéncias. Alguns itens sio nao-vigiados pelo governo, principalmente, em ra- zo da reduzida influéncia que exercem sobre os indices de inflagao. E so poucoacom- panhados pela imprensa em virtude de nao despertarem a atengio do leitor. Contra- riamente, os setores ou itens vigiados possuem um elevado peso na cesta de bens € servigos que gera 0 célculo dos principais indices de inflagao produzidos no Pais. O item “outros produtos farmacéuticos” é um exemplo de nao-vigiado; sua con- tribuigdo para a constituigao do indice de inflagio do DIEESE (1 a 3 SM) é de apenas 0,06%, ¢ a imprensa tem dado pouca importincia aos aumentos de algodio, cotonetes, gaze ¢ lamina de barbear. O item “recreagao” ¢ outro exemplo de item nao-vigiado; sua contribuigdo para a composigo do indice de inflagiio do DIEESE (1 a 3 SM) é, aproximadamente, de 0,5%. So exemplos de itens vigiados os “medicamentos”, “ele- trodomésticos” e “‘cereais, massas e farinhas”: seus pesos para a formagio do indice supracitado so, respectivamente, 2,1%, 2,5% ¢ 8,1%. item “outros produtos farmacéuticos”, embora produzido por oligopélios, ¢ pouco vigiado; isso explica porque péde ter seus pregos majorados, enquanto o item “medicamentos”, sob a detida atengdo da imprensa ¢ do governo, teve seus pregos defasados. E provavel que varias empresas que produzem, ao mesmo tempo, “medi- camentos” e “outros produtos farmacéuticos”, o que é comum, tenham decidido acu- mular “gordura” no item ndo-vigiado (21,88% além da URV) e aceitar defasagens nos remédios, item de preos vigiados (9,12% abaixo da URV). 4.2, Anilise dos setores da cesta basica A anilise da variago percentual didria da URV e da variagio percentual dos precos no mesmo periodo dos setores alimentagdo, higiene ¢ limpeza da cesta basica (DIEESE/PROCON-SP) mostra resultados semelhantes aos obtidos para os 28 itens da cesta de consumo do indice de inflagiio do DIEESE, isto é, demonstra que o con- junto dos pregos nao estava URVerizado durante a segunda fase do Real. Os graus de URVerizagao obtidos foram os seguintes: setor alimentacio, 13,6%; higiene, 13,3% ¢ limpeza, 11,6%. O Grafico | ilustra que, de fato, a trajetéria da variagao didria da URV niio foi acompanhada pela trajetoria dos pregos desses setores. Embora os resultados encontrados indiquem, preliminarmente, que a URV nao funcionou como instrumento sinalizador da reorganizagiio do sistema de pregos rela- tivos, reconhece-se que os testes realizados até 0 momento representam situagdes extremas. O primeiro teste (da cesta de consumo) supunha a possibilidade de uma sincronia exclusivamente mensal. O segundo teste (da cesta basica) avaliou a exis- téncia de uma sincronia didria dos pregos, situagio que somente é alcancada nas fases mais agudas das hiperinflagdes. Portanto, considera-se que a realizacao de 78 GRAFICO14 Variagao percentual dos precos dos setores alimentacdo, higiene e limpeza e da URV — reajuste a cada dia util outros testes que avaliem a existéncia (ou nao) de sincronias com periodos menores que um més e maiores que um dia faz-se necessdria, Nesse sentido, também foram construidos grificos que simularam comportamentos de reajuste de pregos a cada trés, cinco, sete ¢ dez dias uiteis para todos os setores da cesta bisica. Os Graficos 2, 3, 4 ¢ 5 simulam, respectivamente, os comportamentos de rea- juste a cada trés, cinco, sete dez dias tteis, isto é, dias em que houve variacdo da URV. Em todos os graficos, pode-se perceber que, para qualquer regra de precificagdo, as curvas de variagdo percentual dos pregos dos setores higiene, lim- peza ¢ alimentagio ndo possuiram trajetéria semelhante A trajetéria representativa da variagio da URV. Com 0 objetivo de reforgar essa conclusio ¢, também, com 0 intuito de eliminar qualquer ilusdo dtica que porventura as escalas dos eixos dos grificos tenham produzido, calculou-se o grau de URVerizagao de cada setor para as diversas regras de reajuste de pregos (v. Tabela 3). Todos os setores obtiveram um grau de URVerizagao inferior a 50% para qualquer regra de precificagao, exceto TABELA3 Grau de URVerizagao dos setores da cesta basica com diversas regras de precificagdo — periodo marco-junho/1994 Rogras de precificagao ‘Grau de URVerizacao | Grau de URVerizagao | Grau de URVerizacdo dosetoralimentagao | dosetorlimpeza do setorhigiene Reajuste a cada dia ctt 13,6% 11.6% 13,3% Reajuste a cada 3 dias iteis, 23.6% 458% 25.2% Realuste a cada 5 dias iteis 23.4% 46.7% 8.4% Reajuste a cada 7 dias iteis, 27.8% 65.7% 28.5% Reajuste a cada 10 dias iteis 27.5% 44.8% 45.8% Fonte: elaborado pelo autor com base nos dados dos boletins mensais do DIEESE e com base nas informagées ‘concedidas diretamente pelo DIEESE-SP. 19 ‘0 setor “limpeza”, com regra de reajuste a cada sete dias uteis que alcangou 65,7%. Portanto, os calculos apresentados na Tabela 3 confirmam as observagGes ¢ as con- clusées indicadas pelos Graficos 2, 3, 4 € 5. Poder-se-ia argumentar, contudo, que um elevado grau de URVerizacao apenas seria obtido pelo conjunto de pregos da economia se, e somente se, houvesse uma adap- tagdo imediata (isto é, ainda nos primeiros dias de margo de 1994) por parte dos agen- tes precificadores a regra de reajuste sugerida pela URV. Supondo-se, entretanto, que os agentes nao apreendem instantaneamente as regras econdmicas de novos contex- tos, entio, o grau de URVerizagiio da economia nos primeiros dias/meses da segunda fase do Real seria necessariamente baixo. Nesse sentido, o reduzido grau de URVerizagiio dos primeiros dias/meses contribuiria decisivamente para diminuir esse grau referente aos quatro meses da etapa da URV. Portanto, o reduzido grau de URVerizagao dos pregos do conjunto da economia poderia ser atribuido aos primeiros dias/meses da segunda fase do Real, que, supostamente, por ser um periodo de apren- dizado, reduziria o indice de URVerizagao na segunda fase do Real. Entretanto, essa argumentago ni resiste a andlise dos Graficos 1, 2, 3, 4 € 5, que mostram que mes- mo com o passar dos dias as curvas de pregos, para qualquer regra de reajuste, perma- necem no coincidentes com a curva da URV. Em suma, niio existiu qualquer periodo de aprendizado (quando as trajetérias das curvas eram nao-coincidentes) e, posterior- mente, um periodo em que os empresdrios jd estavam ajustados a regra da URV (em que as trajetérias das curvas seriam praticamente coincidentes). Vejamos mais. Com 0 intuito de averiguar definitivamente o problema, calculou-se o grau de URVerizagao de um setor (escolhido aleatoriamente) na fase inicial e na fase final da segunda etapa do Real para cada regra de reajuste. Para a regra de reajuste a cada dia util, o grau de URVerizago do setor alimentagdo foi de 37,03% nos dez primeiros dias uteis de margo e de 8,66% nos ultimos dez dias wteis de junho. Para a regra de reajuste a cada trés dias uteis, 0 grau de URVerizagao do setor limpeza GRAFICO 2 Variagao percentual dos pregos dos setores alimentagao, higiene e limpeza e da URV — reajuste a cada 3 dias uteis GRAFICO3 Variagao percentual dos precos dos setores alimentagdo, higiene e limpeza e da URV — reajuste a cada 5 dias iteis GRAFICO4 Variagdo percentual dos pregos dos setores alimentagao, higiene e limpeza e da URV — reajuste a cada 7 dias uteis a 19 7 5 3 "1 foi de 55,46% para os primeiros quinze dias da segunda fase do Real e de 16,33% para os tltimos quinze dias. Para a regra de reajuste a cada cinco dias titeis, 0 setor higiene obteve 52,49% de grau de URVerizacio para os primeiros vinte dias viteis da fase da URV e 24% para os iiltimos vinte dias. Para a regra de reajuste a cada sete dias titeis, verificou-se no setor limpeza um grau de URVerizagao de 83,46% nos primeiros 28 dias titeis da segunda etapa do Real e 25,74% nos tiltimos 28 dias liteis. Para a regra de reajuste a cada dez dias iteis, o setor limpeza obteve um grau 81 de URVerizagao de 69,09% para os primeiros trinta dias Uteis e 34,84% para os Ultimos trinta dias. Tais resultados destroem a tese de que no periodo inicial — supostamente um periodo de aprendizado — o grau de URVerizagio da economia seria menor do que no periodo final da segunda fase do Real — um periodo no qual 0s agentes j4 estariam adaptados. Para qualquer regra de reajuste, 0 setor analisado indicou que o grau de URVeriza¢ao foi menor nos ultimos dias da fase da URV do que nos primeiros dias. Em todos os casos, o grau de URVerizago tendeu a reduzir-se com o passar dos dias, contrariando a argumentagao que vislumbrava um aumento do grau de aderéncia da curva de variago percentual dos pregos em relagio a curva de variagao percentual do valor da URV. Esse fenémeno provavelmente pode ser explicado pela corrida dos pregos durante 0 tiltimo més da segunda fase do Real. Os agentes nesse periodo estavam, provavelmente, buscando uma posigdo mais favoravel em fungdo da expectativa de um possivel congelamento na terceira fase do Plano. Em conclusio, pode-se afirmar que, dado 0 baixo grau de URVerizagao obser- vado na economia, a URV nao funcionou como instrumento sinalizador para facilitar a reorganizagao do sistema de pregos relativos. A URV nao cumpriu durante o regime de alta inflagdo 0 mesmo papel que o délar espontaneamente cumpre nas fases mais agudas das hiperinflagdes. O exercicio realizado neste artigo comprova que a URV no cumpriu 0 papel destacado pela teoria de sua criago. Pode-se concluir, ainda, que os pregos relativos nao estavam alinhados ao final da segunda fase. Se é uma caracteristica do regime de alta inflagio o permanente desequilibrio do sistema de precos e a URV nao cumpriu o seu papel, enti, tal conclu- sao é factivel. Nesse sentido, a reforma monetaria estabilizadora, ou seja, a substituigao da velha moeda pelo Real, foi implementada em um contexto desfavoravel. Um con- texto sujeito a pressées inflaciondrias advindas dos setores que tiveram seus pregos defasados.‘ Contudo, observou-se que essas potenciais pressdes altistas nao se efetiva- ram ¢ 0 Plano Real foi bem-sucedido nos primeiros meses da fase de estabilizagio. Diante da inexisténcia de congelamentos de precos, tal fendmeno de sucesso do Plano em condigées adversas pode ser explicado pelo pacto informal empresarial de apoio A estabilizagdo que emergiu paralelamente a criagdio da nova moeda. Esse pacto empresarial, que operava na economia pela prtica dos ndo-reajustes, somente foi possivel porque grande parte dos itens acumulou “gordura” na fase pré-cstabilizagio, ‘ou seja, teve seus precos majorados em URV (v. Grifico 6, construido com base nos dados da Tabela 2). Ademais, aqueles que tiveram pregos defasados possuiam maior resistencia para operar em situagdes adversas: cram os oligopélios — tal como ja foi visto. O sucesso do Plano Real nos seus primeiros meses de vida pode ser atribuido, portanto, a esses fatos. Os diversos exercicios realizados no permitem, contudo, que se conclua que a URV nio teve qualquer utilidade no processo de estabilizagdio. Apenas inferiu-se que a URV nao desempenhou a fungio teérica que the foi atribuida originalmente. Contudo, arrisca-se uma conclusio mais ousada. Embora este néo seja 0 espago adequado para se avancar nesse rumo, afirma-se que a URV cumpriu, na pritica, 5 Para a identificagio de outros problemas relativos a reforma monetaria, v, De Paula & Sicst, 1994, 82 um outro papel. Diferentemente das expectativas dos tedricos em geral, e da equipe econémica, em particular, a URV foi uma forma eficaz de converter salarios pela média sem produzir insatisfagdes sindicais. Com a regra de reajustes de salarios em cruzeiros reais com base na variagdo da URV, atendeu-se no periodo pré-estabili- zacaio a uma antiga reivindicagao sindical. As rendas contratuais tiveram os seus periodos de recomposigao reduzidos, portanto, os salarios passaram a incorporar de forma mais répida as perdas geradas pela inflag&io.6 A URV cumpriu apenas, mas nao irrelevante, papel de conter as pressées inflacionarias advindas das potenciais reivindicagées dos sindicatos. 5. CONCLUSAO Neste artigo, buscou-se avaliar se a URV cumpriu o papel tedrico que Ihe foi atribuido. Em particular, destacaram-se as afirmagées feitas pelo professor Bresser Pereira a respeito dessa fungiio teérica. Acreditava-se que a URV reproduzisse na pratica as condigdes de dolarizagao das hiperinflagdes sem que a economia estivesse dolarizada, Ao se adotar a URV, esperava-se que os pregos aumentassem de forma sincronizada. Obtida essa sincronizagio da variagio dos precos, bastaria executar a reforma mone- taria estabilizadora. Essa explicagiio teérica para a criagdo de uma moeda-indexador, a URV, nao era exclusiva do professor Bresser Pereira; a maioria dos economistas acreditava nesse modelo. GRAFICOS do percentual dos pregos dos setores limpeza e da URV — reajuste a cada 10 dias titeis vi alimentaco, higi ALM UMP HIGl © Ossalirios foram compulsoriamente convertidos para URY pela média dos meses de novebro, dezembro, janeiro ¢ fevereiro, no primeiro dia de margo de 1994. Portanto, a partir dessa data estavam fixos em URV, mas cram reajustados em cruzeiro real més a més de acordo com a variagdo do valor da URV. Esta, por sua vez, variava aproximadamente segundo a tiima apurago dos indices IGPM/FGV, IPC/FIPE ¢ IPCA/IBGE. 83 GRAFICO6 Ganhos e perdas percentuais em relago 4 URV—margo-Junho/1994 price Mostrou-se, contudo, que a tentativa artificial de encontrar um perfil estavel de precos relativos via URVerizagao da economia nio foi bem-sucedida. Nenhuma das regras de precificago testadas (didria, de trés dias, cinco dias, sete dias, dez dias ou mensal) evidenciou que os empresdrios consideravam as variagdes da URV como balizadoras dos reajustes de seus pregos. Se a URV ndo cumpriu na pritica o seu papel tedrico, os pregos permaneceram desequilibrados quando a economia sofreu 0 transplante monetério. Apesar desse desequilibrio, 0 Plano Real foi bem-sucedido nos seus primeiros meses. Provavelmente, a “gordura” acumulada em relagao a URV por um considerdvel mimero de itens e, em segundo lugar, a defasagem obtida em relacdo 4 URV por setores oligopolizados, portanto mais resistentes, sao os fatores que explicam a suspensdo temporaria da “danga” dos pregos relativos na etapa ini- cial da terceira fase do Real. Os diversos exercicios realizados nao permitiram, entretanto, que se concluis- se que a URV nio foi itil a estabilizacéo. Constatou-se, tio-somente, que a URV no desempenhou a sua fungao tedrica idealizada. Contudo, afirmou-se que a URV desempenhou um papel fundamental no processo de conversao dos salérios pela mé- dia. Com a regra de reajustes de salérios baseada nas variagdes da URV instituida na segunda fase do Real, as remuneragdes dos trabalhadores tiveram os seus perio- dos de recomposi¢ao reduzidos, portanto, os salarios incorporaram de forma mais rapida as perdas geradas pela inflagdo no periodo margo a junho de 1994. Foi aten- dida, assim, uma antiga reivindicagao dos sindicatos, 0 que neutralizou qualquer movimento de oposigao a regra de conversio dos salérios pela média. Conseqiiente- mente, pode-se inferir que a URV foi um instrumento positivo a estabilizagio. Alguns economistas, entre eles André Lara Rezende, defenderam a idéia de que a URV teria cumprido a sua fungo com mais eficacia se o tempo de duragio da segunda fase do Real tivesse sido mais longo. Motivos politico-eleitorais talvez ex- 84 pliquem 0 curto espago de tempo do experimento da URV. Entretanto, essa é uma possibilidade que, embora possa ser considerada, nfo é evidente. Independentemente do motivo que explique a curta durago do experimento, um fato torna-se dbvio: se 0 perfodo da URV tivesse sido mais longo, no minimo isso entiqueceria a discussiio tedrica acerca do tema. REFERENCIAS BRESSER PEREIRA, L.C. (1994) “A economia e a politica do Plano Real”. Revista de Economia Politica 14(4), out.-dez BRESCIANI-TURRONI, C. (1937) The Economics of Inflation. London, George Allan & Anwin. CARDIM DE CARVALHO, F. (1990) “Alta inflagdo e hiperinflagdo: uma visio pos-keynesiana”. Revista de Economia Politica 10(4), out.-dez. CARDIM DE CARVALHO, F. (1994a) “URV: novo enigma”. Revista Ciéncia Hoje 17(99), abr. CARDIM DE CARVALHO, F. (1994b) “Reforma monetéria, indexagdo generali- zada e 0 plano de estabilizagao”. Revista de Economia Politica 14(2), abr.-jun. DE PAULA, LF. & SICSU, J. (16/08/94) “Afinal, quais so as ancoras do Real?”. Folha de S. Paulo. MERKIN, G. (1988) “Para uma teoria da inflagdo alema: algumas observagdes pre- liminares”. In Rego, J. M., org. Hiperinflacdo: algumas experiéncias. Rio de Janeiro, Paz e Terra 85