Diário de um Pároco de Aldeia – GEORGES BERNANOS

Juliano Venturini

Georges Bernanos nasceu em 1888 e faleceu em 1948. Ele participou da vida política
francesa, foi soldado de trincheira na primeira guerra mundial, e repórter na guerra civil
espanhola, se exilou no Brasil e viu a Alemanha derrotar a França 1940.
Obteve sucesso literário principalmente por seus romances sob o sol de Satã, de 1926,
e Diário de um pároco de aldeia, de 1938. Em suas obras, Georges Bernanos explora a batalha
espiritual do bem contra o mal, especialmente por meio da personagem de um padre católico
que luta para a salvação das almas de seus paroquianos.

Este livro é um romance dividido em três partes, a primeira com a sua chegada na
paroquia, a segunda é quando se depara com a condessa onde ele tenta converter a mulher e por
fim na terceira parte trata-se da morte deste pároco. Mas além de enfrentar sua debilidade de
saúde a ponto de se alimentar somente de pão e vinho, as vezes com açúcar, mostra que mesmo
com a sua fraqueza e a descrença de seu povo é possível confiar na graça de Deus. Como ele
afirma no final de seu romance tudo é graça. Ele na obra descreve a paroquia na qual foi
confiado e assim ele descreve:
“Minha paróquia é uma paróquia como todas as outras. Todas as paróquias se parecem.
As paróquias de hoje, naturalmente. Eu dizia ontem ao pároco de Norenfontes: o bem e o mal
devem ficar em equilíbrio nelas, só que o centro da gravidade está lá embaixo, bem lá embaixo.
Ou se preferir, os dois se sobrepõem nelas sem se misturar como dois líquidos de densidades
diferentes. O padre riu na minha cara. Ele é um bom sacerdote, muito benevolente, muito
paternal, e que no arcebispado passa até por incréu, um pouco perigoso. Suas tiradas fazem a
alegria das casas paroquiais, e ele as reforça com um olhar que ele gostaria que fosse vivo, e
que acho tão gasto e cansado que sinto vontade de chorar.
Minha paróquia é devorada pelo tédio, essa é a palavra certa. Como todas as outras
paróquias. O tédio a devora diante de nossos olhos e não há nada que possamos fazer. Talvez

come e bebe essa poeira. desse modo. Já a terceira parte narra sua morte. a segunda analisa o triunfo da sua fé mas. isto é. vivendo no meio de uma comunidade que talvez o admirasse se ele cumprisse aquilo as pessoas esperavam de um pároco de aldeia. A primeira parte da obra de Bernanos é uma apresentação do próprio diário escrito pelo pároco. constata o seu fracasso como homem e sua distância da comunidade. não é uma coisa que se perceba imediatamente. por exemplo. cabendo a ele apenas a função de um instrumento anunciador da ação de Deus para os homens. onde a posição de padre torna-se um cargo respeitável e admirável socialmente. Pode-se viver muito tempo com isso. é claro. sem a ver. se fosse um homem forte. mas a obra de Cristo. Mas basta parar um momento e ela torna a cobrir o rosto e as mãos da pessoa. é preciso refletir um pouco para se dar conta disso. e descubramos em nós esse câncer. A pessoa vai e vem. sua total rejeição na aldeia. isto é. É uma espécie de poeira. Também relata que encontrou tedio nessa paroquia: “Eu me dizia então que o mundo é devorado pelo tédio. . a tradição prescrevia que um discurso episcopal nunca devia se encerrar sem uma prudente alusão – convicta. mas prudente – à perseguição próxima e ao sangue dos mártires. Por isso mesmo. mais fortemente identificado com os primórdios do cristianismo. ”. capaz de chegar até a morte. O anonimato do padre é significativo. respira essa poeira.um dia destes sejamos contagiados. que aparece aqui com as cores marcantes de uma vida que relembra o martírio e todo o seu rico significado no cristianismo. seu sacrifício. não é ele como pessoa ou indivíduo que deve ter qualquer destaque. Logo no princípio tanto do romance de Bernanos. essas predições vão se tornando cada vez mais . o mundo se agita muito. É preciso se agitar sem parar a fim de sacudir essa poeira de cinzas. ”. uma coisa parece saltar fortemente aos olhos do leitor: o padre. em momento algum têm o seu nome mencionado. Também na sua obra abordou os seguintes assuntos. mesmos de forma confessional como: Os padres “Antigamente. Penso que aqui reside talvez um dos principais pontos da trama: um padre anônimo. narrador e escritor do diário. ao mesmo tempo. Em outras palavras. Hoje em dia. Naturalmente. doente do estômago. Tal fato já é revelador da atmosfera do romance: trata-se de um padre que parece relacionado muito mais aos primórdios do cristianismo do que a uma época de cristandade triunfante. como de fato ocorre. e ela é tão fina que nem faz barulho quando é mordida. altivo e. se tornasse alguém digno de respeito e admiração social.

são Paulo não se iludia. Podemos então imaginar o que acontece no mundo invisível quando tropeça um desses ricos de quem estou falando. “Haverá sempre pobre entre vós.. A abolição da escravatura não suprimiria a exploração do homem pelo homem. é protetor do pobre.. Um rico. O pobre.” “Um problema insolúvel: restabelecer os direitos do pobre. A ideia deles é boba. num aposentado. e lá se vão milhares de pessoas para o olho da rua. ” . como diante de um espelho.. seu irmão mais velho. vive de caridade. Ricos ou pobres.. Se eu tivesse permitido que vós a considerásseis vossa inimiga.) uns vivem da idiotice de outrem. com freqüência. Somente a coloquei tão alto. de seus vícios. Provavelmente. pela mesma razão porque haverá sempre ricos. ora! – Mas ao invés de destruí-lo como gado. isto é. mas confesso que padre letrado sempre me causou horror. o matá-lo. Naturalmente. porque se encontrava previamente no âmago das consciências e porque nela o homem se reconhece imediatamente: Deus salvou cada um de nós e cada um de nós vale o sangue de Deus. ela traz para este mundo o lugar do paraíso perdido. ele é o vazio de vossos corações. ou apenas como estrangeira. porque conheço vossa malícia. Os pobres e os ricos “. Um multimilionário que quebra. de sua vaidade. a desposei.. O padre medíocre é feio”.. se eu vos tivesse deixado a esperança de expulsá-la um dia do mundo. teria com o mesmo ato condenado os fracos. como eles dizem. ele é esse irmão mais velho a contragosto. imaginaram transformá-lo numa pessoa que vive de rendas.. Homens como estes existem entre os pobres como entre os ricos.) Dizia apenas que o cristianismo havia trazido ao mundo uma verdade que nada poderia fazer cessar. e o miserável que vai curar sua bebedeira à beira do rio talvez tenha os mesmos sonhos que César. adormecido sob suas cortinas de púrpura. de vossas mãos. um intendente das graças de Deus. ” “A divisão de ricos e pobres deve responder a uma grande lei universal. Que expressão sublime. a coroei. (. homens ávidos e duros.raras. é herdeiro do povo judeu.. trata-se ainda de exterminar o pobre – o pobre é testemunha de Jesus Cristo.. que procuram menos as posses do que o poder. (... pelo simples jogo das forças econômicas. por sua vez. (. olhai-vos de preferência na pobreza. pois ele é a imagem de vossa decepção fundamental. porque sua realização parece menos incerta” .. sem estabelecê-lo no poder. aos olhos da Igreja.) pus meu sinal sobre a fronte deles . ora! Veja que.

sem jamais se saciar.) como não imaginam com mais frequência que a máscara do prazer.. e o desejo que aproxima os sexos.) A Igreja dispõe da alegria. Confundir a luxúria própria do homem. resta-lhes ainda a esperança de se fazer reconhecer por satã. a Igreja foi encarregada por Deus de manter no mundo o espírito da infância. despojada de toda hipocrisia. é justamente a máscara da angústia?” A alegria “Veja. com a qual deve se deliciar. creio.) É do sentimento de sua própria impotência que a criança tira humildemente o princípio da sua alegria. a feroz ironia do abismo. (. Sim. vou lhe definir um povo cristão pelo seu contrário... um povo de crianças abandonadas. com sua simplicidade divina: “Imitem-me! ” Ele não suporta que suas vítimas se assemelhem a ele. de toda a alegria reservada a este nosso triste mundo. O contrário de um povo cristão é um povo triste. meu filho. É necessário muito tempo para reconhecê-lo.. o mais acariciado. um povo de velhos. Evidentemente. e cujo aspecto às vezes sua deformidade reproduz de maneira assustadora. (.) Fora da Igreja. este frescor. ” Os pecados “O pecado contra a esperança! O mais mortal de todos e talvez o mais bem recebido. é o mesmo que dar o mesmo nome ao tumor e ao órgão que ele devora..O demônio da luxúria é um demônio mudo. o precede. é preciso sentir sobre si esse olhar que não é inteiramente o olhar de indulgência – pois a indulgência não existe sem alguma experiência amarga – mas o da terna compaixão. permite-lhes apenas uma caricatura grosseira. O demônio “E o demônio da angústia é essencialmente. um povo é sempre um povo de bastardos. para bem rezar a ela... a sua ambrosia.” A Virgem Maria “O olhar da Virgem é o único olhar verdadeiramente infantil.) se nos tivessem deixado fazer o que queríamos. é tão doce! É o mais rico dos elixires do demônio. (. Pois Satã é um amo muito rígido: ele não ordenaria.. e a tristeza que o anuncia. impotente. a ingenuidade. da surpresa . o único olhar de criança que jamais foi erguido sobre nossa vergonha e nossa infelicidade.. um demônio impuro.. (. como o Outro.) Ora.. a Igreja teria dado aos homens esta espécie de segurança soberana. (. (..

de não se sabe ainda qual sentimento. Ele não pertence a este mundo. Achamos que não têm perfume. faça pequenas tarefas. apesar de mãe pela graça.) Se não fosse a vigilante piedade de Deus. mais jovem do que a raça da qual provém. (.. As pequenas tarefas não parecem importantes. de nossa perpétua mobilidade. A oração das pequenas coisas é inocente. me parece que na primeira tomada de consciência que tivesse de si mesmo.. um apelo mudo. a não ser sob a forma da angústia.. disse-me ele. e que ela. o homem se tornaria novamente pó. (. ao passo que. a senhora . nem tampouco ao mundo cristão.) O inferno. e o inferno não é deste mundo. senhora. uma expiação eterna – o milagre está em termos essa idéia aqui na terra. a infelicidade terrível daquelas pedras em brasa que foram homens. é a própria alma. como uma águia. é a caçula do gênero humano.. é que elas nada mais têm a compartilhar. do alto dos céus. inconcebível. Trabalhe. um sinal. ” Mas o ponto que mais é enfocado é quando o pároco tenta convencer chantal após a morte da condessa e consegue pela sensibilização como relata na obra: "—[. (. fixadas para sempre. que. quando nos abandona às nossas próprias forças. Um castigo eterno. é não se amar mais.. basta um olhar. desde a queda. São como as flores do campo. não compreender mais.. para que o perdão mergulhe sobre ela. enquanto que elas estão fora do tempo. desespero. você sabe. dentro como fora dele.. mãe das graças. angústia..dolorosa.) A infelicidade. a condição do homem é tal que nada poderá perceber.. (. ” Nossa condição de seres caídos “Acredito cada vez mais que aquilo que chamamos de tristeza. mas dão paz. fora do movimento.) É assim que o bom Deus espera nos ver. como que para nos persuadir que se trata de certos movimentos da alma. quando juntas.) não amar mais. a falta. (. e ainda assim viver. assim que parte de nós.] Mas a senhora.. ” O inferno “Julgamos o inferno a partir das máximas deste mundo. rescendem. dia após dia. mas.. que a torna mais jovem do que o pecado. inexprimível. que prodigioso milagre! O erro comum a todos está em atribuir ainda a essas criaturas abandonadas alguma coisa de nós..

fazendo o mal pelo mal. Com certeza neste romance que todos deveriam ler nos mostra que apesar das realidades e situações é possível acreditar em Deus.. E morreu logo em seguida. para a frente como quiser. um dia. é. . a senhora é uma criança. Quando a gente caminha em linha reta. —Se a vida for ruim para mim. a senhora encontrará a Deus. é aceitação.nunca há de sonhar. afinal. a muralha há de ceder e todas as brechas se abrirão para o céu. pois. mas mesmo assim após seu amigo comerciante Louis defrety a 4 da manhã foi a seu quarto e encontrou deitado no chão inconsciente aparente fatal através de seus estudos médicos soube fazer cessar sua hemorragia e enquanto esperava o médico ele retomou a consciência aos poucos e no final expressou lentamente antes de morrer: o que importa? Tudo é graça. e sem contar que nos apresenta uma belíssima visão acerca da nossa fé e com isso mostra a belíssima descrição de François Mauriac “o dom magnifico de bernanos é o de tornar o sobrenatural natural. soube conduzir seu zelo as pessoas desde os pobres até as condessas.. Esses de quem a senhora fala são os tais que viajam ao redor do próprio quarto. a aceitação da mentira. Infelizmente suas hemorragias e fraco de saúde na alimentação que infelizmente o matou. Mostra que apesar de se encontrar com saúde frágil." (Padre e Chantal). Ele mostrou que apesar de estar diante de uma paróquia com pouca fé é possível transformá-las através do exemplo e da confiança em Deus. a terra é pequena. Lance-se. Oh! Sei que não estou me exprimindo bem e que. —Quando chegar esse momento. pois o mundo não é revolto. Mas posso dizer que a senhora caminha virando as costas para o mundo. não importa! Vingar-me-ei. ”. antes de tudo.

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