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Módulo 3 - Lesões por Projéteis de Armas de Fogo (PAF) Apresentação do Módulo Uma

Módulo 3 - Lesões por Projéteis de Armas de Fogo (PAF)

Apresentação do Módulo

Uma das áreas da balística forense de grande interesse para a análise de locais de crime é a balística terminal, mais especificamente a balística das lesões, que se reveste de extrema importância quando se pretende reconstruir a dinâmica de um fato delituoso.

O Código de Processo Penal brasileiro estabelece no seu Art. 164 que:

Os cadáveres serão sempre fotografados na posição em que forem encontrados, bem como, na medida do possível, todas as lesões externas e vestígios deixados no local do crime. (Redação dada pela Lei nº 8.862, de

A importância para o perito criminal de fotografar e analisar todas as lesões

externas reside no fato de que a partir delas é possível realizar inferências, estabelecer hipóteses e concluir sobre a dinâmica do evento, mesmo que de

forma parcial, permitindo afirmar a posição dos atores envolvidos, a movimentação dessas pessoas na cena do crime, a quantidade de lesões produzidas, a intencionalidade ou não dessas lesões, entre outros fatores.

Nas lesões por projéteis de armas de fogo, há um conjunto de elementos que são importantes para a compreensão da dinâmica do crime, como:

os aspectos dos orifícios de entrada, principalmente, quanto à forma, dimensões e região anatômica atingida;

a análise dos elementos presentes nas lesões, como as diversas zonas que sempre circundam esses orifícios de entrada;

a presença ou ausência dos vestígios secundários;

zonas que sempre circundam esses orifícios de entrada;  a presença ou ausência dos vestígios secundários;
 a presença ou ausência dos efeitos explosivos;  a trajetória intracorporal;  os aspectos

a presença ou ausência dos efeitos explosivos;

a trajetória intracorporal;

os aspectos dos orifícios de saída.

Esses elementos formam um conjunto que permite estabelecer se a vítima estava em pé, caída ou em posição intermediária a essas; e se, quando foi atingida, ela encontrava-se parada ou em deslocamento. Permitem, ainda, estabelecer o diagnóstico diferencial entre suicídio, homicídio ou acidente.

Neste módulo, você estudará as lesões oriundas de projéteis de armas de fogo para responder às questões apresentadas pelas situações que as envolvem.

Objetivos do módulo

Ao final do estudo desse módulo, você será capaz de:

Caracterizar os orifícios de entrada produzidos por passagem de projéteis de armas de fogo, tanto em disparos perpendiculares, inclinados, tangenciais, bem como nas diversas distâncias de disparos;

Identificar as nuances dos efeitos secundários e as características dos efeitos explosivos;

Compreender a mecânica dos projéteis dentro do corpo e das cavidades temporária e permanente;

Identificar os orifícios de saída e suas características;

Identificar as diferenças entre os efeitos causados por armas de alma lisa e por armas de alma raiada.

 Identificar as diferenças entre os efeitos causados por armas de alma lisa e por armas
Estrutura do Módulo Aula 1- Lesões produzidas por projéteis expelidos por armas de fogo de

Estrutura do Módulo Aula 1- Lesões produzidas por projéteis expelidos por armas de fogo de alma raiada Aula 2 Efeitos explosivos Aula 3 Balística das lesões Aula 4 - Lesões causadas pelos projéteis de armas de alma lisa

Nota:

Apesar de as fotografias de lesões terem sido substituídas ao máximo por imagens de disparos de ensaios em outros suportes, neste módulo você poderá encontrar algumas fotografias impactantes.

Ressaltamos que todas as fotografias mostradas são provenientes de exames de locais de crime realizados por peritos criminais do Instituto de Criminalística do Distrito Federal ou de ensaios realizados para demonstrar esses efeitos.

criminais do Instituto de Criminalística do Distrito Federal ou de ensaios realizados para demonstrar esses efeitos.
Aula 1- Lesões produzidas por projéteis expelidos por armas de fogo de alma raiada 1.1

Aula 1- Lesões produzidas por projéteis expelidos por armas de fogo de alma raiada

1.1 Principais definições

As lesões deixadas por

pérfurocontusas devido à ação do projétil de perfurar e contundir.

projéteis

de

arma

de

fogo

são

lesões

Na dinâmica do instrumento pérfuro-contundente são vários os vestígios que podem ser encontrados no corpo da vítima, nas vestes e em qualquer suporte por ele atingido.

No estudo dessas lesões, devem ser considerados:

Ferimento de entrada Ferimento de saída trajeto

As definições a seguir ajudarão na compreensão do que deve ser considerado em cada um desses itens.

São conceitos clássicos que normalmente descrevem as lesões ocasionadas por projéteis oriundos de disparos de armas de fogo. Os efeitos descritos são observados por meio de exame necroscópico ou perinecroscópico.

Na literatura pericial, os vestígios decorrentes de lesões de entrada causadas por projéteis de arma de fogo são definidos como:

Efeitos primários;

Efeitos secundários.

Efeitos explosivos

Veja, a seguir, sobre cada um deles.

como:  Efeitos primários;  Efeitos secundários.  Efeitos explosivos Veja, a seguir, sobre cada um
1.1.1 Efeitos Primários Efeitos primários são os produzidos pela ação mecânica do projétil ao procurar

1.1.1 Efeitos Primários

Efeitos primários são os produzidos pela ação mecânica do projétil ao

procurar vencer a resistência oferecida pelo alvo, sendo, portanto, próprios do orifício de entrada. Ocorrem independentemente da distância do disparo

e compreendem: o orifício propriamente dito, a orla de contusão, a auréola equimótica e a orla de enxugo.

Veja, a seguir, cada um deles.

Perfuração ou o orifício de entrada propriamente dito

Orifício de entrada propriamente dito é

o orifício deixado pela passagem do

projétil. Em se tratando de tecido vivo, exemplo do corpo humano ou animal,

é o ferimento, lesão ou solução de

continuidade provocada pela entrada de projétil de arma de fogo para dentro do corpo.

Fotografia 25. Foto operada quando de exame de local – ICDF. Nela observa-se o orifício

Fotografia 25. Foto operada quando de exame de local ICDF. Nela observa-se o orifício de entrada produzido pela passagem de projétil de arma de fogo, de formato tendente à circular.

A forma da perfuração varia de acordo com a distância e a inclinação da

trajetória do projétil expelido por arma de fogo. Apresenta, geralmente, o formato circular nos casos de incidência perpendicular do projétil contra um plano; o formato oval ou eliptico, nos casos de impacto inclinado (oblíquo) contra a superfície suporte do disparo; o formato irregular, quando o

, nos casos de impacto inclinado (oblíquo) contra a superfície suporte do disparo; o formato irregular,
projétil sofreu impactos anteriores ou ricochetes; linear, nos casos de planificação do projétil; e estrelado,

projétil sofreu impactos anteriores ou ricochetes; linear, nos casos de planificação do projétil; e estrelado, em alguns casos de disparos encostados; entre outras formas.

Normalmente, tem os bordos invertidos (voltados para dentro), exceto nos casos em que ocorre o refluxo dos gases, como nas lesões de disparos encostados em câmara de mina de Hofmann 1 ou lesões explosivas. As dimensões (comprimento e largura) podem ser maiores, menores ou iguais

ao diâmetro do projétil. Como regra geral, não se define o calibre do projétil

a partir das dimensões do orifício de entrada, uma vez que, para um

mesmo calibre, dependendo do ângulo de incidência, do formato do projétil, dos tecidos subjacentes atingidos, entre outros fatores, eles apresentariam dimensões muito diferentes.

Na maioria dos casos, a lesão de entrada é pequena e limpa, mas com projéteis muito instáveis, tais como pequenos projéteis de altíssima velocidade e estilhaços; a lesão de entrada pode ser do tipo "blow-out", (com eversão das bordas, o orifício de entrada de diâmetro significativamente maior do que o diâmetro do projétil, apresentando a lesão de entrada

o formato semelhante à uma

cratera invertida). A fotografia 2

mostra um orifício de entrada,

1 Ver Anexo Câmara de Mina de Hofmann

FOTOGRAFIA 26 foto operada pelo autor Mostra o resultado do impacto de projétil oriundo de

FOTOGRAFIA 26 foto operada pelo autor Mostra o resultado do impacto de projétil oriundo de disparo de cartucho de calibre 7,62 x 51 mm, em chapa de aço, com 150 mm de espessura, à distância de 20 metros, no qual a explosão do núcleo resultou que a jaqueta ficasse totalmente aberta e aderida ao alvo, perfuração com diâmetro em torno de 1,5 cm e com características semelhantes a um orifício de saída.

ao alvo, perfuração com diâmetro em torno de 1,5 cm e com características semelhantes a um
numa chapa de aço de 1,5 cm de espessura, de um projétil oriundo de um

numa chapa de aço de 1,5 cm de espessura, de um projétil oriundo de um cartucho de calibre 7,62 x 51 mm, com disparo efetuado à uma distância de 20 metros, onde se nota um diâmetro muito maior que o diâmetro do projétil e o formato semelhante a um orifício de saída, numa perfuração típica "blow-out".

Orla de contusão ou Zona de Fisch

Durante o processo de penetração do projétil, a pele tende a amoldar-se ao projétil e, como conseqüência, cria uma área erodida. Isto se deve, em parte, ao atrito do projétil com a pele associado ao movimento de rotação do projétil, e em parte, à diferença de elasticidade entre a derme e a epiderme, o que resulta no arrancamento da epiderme, formando uma orla escoriada ou contundida (orla de contusão). A análise dessa erosão permite uma série de informações quanto à trajetória.

ou contundida (orla de contusão). A análise dessa erosão permite uma série de informações quanto à
Fotografia 27. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o orifício
Fotografia 27. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o orifício

Fotografia 27. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o orifício de entrada típico com orla escoriativa (zona de fisch) em toda a sua borda.

O formato circular e concêntrico da orla de contusão ou zona de Fisch em relação ao orifício de entrada, ocorre em disparos com a trajetória perpendicular à superfície de impacto.

O formato elíptico e excêntricoao orifício de entrada é notado nos casos de trajetória oblíqua à superfície de impacto. Quando do impacto oriundo de trajetória inclinada, na borda correspondente à entrada, o projétil entra em contato com a pele antes de produzir a perfuração e apresenta uma maior área de contato com a pele. Essa área apresentará maior erosão, em forma de gota invertida, indicando, assim, o sentido e obliquidade da trajetória.

área apresentará maior erosão, em forma de gota invertida, indicando, assim, o sentido e obliquidade da
Nota: Fotografia 28. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o

Nota:

Fotografia 28. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o orifício

Fotografia 28. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o orifício de saída, que apresenta escoriação de suas bordas, pois o projétil, para conseguir sair do corpo, atritou com a parade de tijolo furado no qual se encontrava apoiado (sinal de Romanessi).

Pode-se verificar, eventualmente, uma superfície escoriada junto ao orifício de saída, com o arrancamento da epiderme, que não é provocada diretamente pelo projétil e sim por uma superfície mais rígida. O projétil, ao sair, comprime o tecido juntamente com a pele contra a superfície suporte no qual o corpo encontra-se apoiado, formando essa orla escoriada ao nível do orifício de saída. Essa contusão foi descrita por Romanessi e é conhecida como Sinal de Romanessi, sendo de grande importância para explicar a dinâmica da ocorrência do fato, principalmente quando disparos são efetuados contra corpos caídos ou encostados em superfícies rígidas. A figura apresenta uma orla escoriativa de saída ou sinal de Romanessi.

caídos ou encostados em superfícies rígidas. A figura apresenta uma orla escoriativa de saída ou sinal
 Auréola equimótica (Área de equimose) Como toda equimose, a Auréola equimótica é uma infiltração

Auréola equimótica (Área de equimose)

Como toda equimose, a Auréola equimótica é uma infiltração de sangue resultante da ruptura de vasos capilares, provocada pela passagem do projétil. A auréola equimótica é formada em torno do orifício de entrada e apresenta coloração variável com o tempo, ou seja, com o transcorrer do tempo vai se acentuando até o tom roxo escurecido, como o perceptível na fotografia 29. Importante lembrar que a auréola equimótica é uma reação vital, logo ela permite definir as lesões post mortem que não apresentam esse sinal.

equimótica é uma reação vital, logo ela permite definir as lesões post mortem que não apresentam

Fotografia 29. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se a aureola equimótica ao redor da lesão, de tonalidade arroxeada.

operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se a aureola equimótica ao redor da
 Orla de enxugo O projétil carrega consigo   sujidades aderidas a ele, oriundas da

Orla de enxugo

O projétil

carrega consigo

 

sujidades aderidas a ele, oriundas da sua passagem pelo cano da arma. Ao atingir um alvo flexível, como a pele humana, normalmente adere-se a esta superfície e, em parte, envolve o projétil, resultando na “limpeza” do projétil nas bordas da superfície do suporte. Os resíduos ou sujidades deixados na pele caracterizam a orla de enxugo. A orla de enxugo é concêntrica nos disparos perpendiculares e arciforme (em forma de arco) ou elíptica nos disparos oblíquos. A

tonalidade depende das substâncias que se encontram aderidas ao projétil, sendo normalmente escura. Deve-se observar, ainda, que nas superfícies de maior resistência ocorre a deposição da liga metálica que compõe o projétil, principalmente naqueles cujo elemento principal é o chumbo.

FOTOGRAFIA 30 – foto operada pelo autor. Mostra a orla de enxugo de formato circular,

FOTOGRAFIA 30 foto operada pelo autor. Mostra a orla de enxugo de formato circular, quando de disparos realizados durante ensaios de coletes a prova de bala.

Mostra a orla de enxugo de formato circular, quando de disparos realizados durante ensaios de coletes
É importante salientar que, por vezes, os resíduos da limpeza do projétil ficam depositados nas

É importante salientar que, por vezes, os resíduos da limpeza do projétil ficam depositados nas vestes, não sendo verificados na superfície do corpo humano. Por outras, a intensidade da orla de enxugo é de tal forma intensa, mascarando a orla de contusão. Normalmente, nos casos de transfixação, só é verificada a orla de enxugo na superfície que sofreu o primeiro impacto. Entretanto, em alguns casos, é possível encontrar na orla de enxugo, resíduos e partículas oriundas da superfície que sofreu o primeiro impacto do projétil.

1.1.2 Efeitos Secundários.

Como você já estudou, quando um projétil de arma de fogo é expelido, junto com ele ocorre a expulsão de uma nuvem de resíduos, composta principalmente de gases e partículas sólidas que advêm da queima do propelente.

Os efeitos secundários (produzidos por outros elementos que não o projétil) são os efeitos resultantes do depósito dos resíduos dos demais elementos do cartucho sobre a superfície, ou seja, dos resíduos gasosos e sólidos da combustão da pólvora e da detonação da espoleta sobre o suporte.

A presença desses efeitos permite estimar a distância entre a boca do cano da arma e a superfície atingida, bem como caracteriza o disparo como tendo sido efetuado a curta distância.

boca do cano da arma e a superfície atingida, bem como caracteriza o disparo como tendo
Nota: A terminologia “ disparo a cur ta distância” não se refere a uma distância

Nota:

A terminologia “disparo a curta distância” não se refere a uma distância específica, determinada em centímetros, mas à presença dos efeitos secundários no suporte.

Para a determinação da distância específica, faz-se necessário realizar um ensaio denominado residuograma. Nesse ensaio utiliza-se da mesma arma e mesmo tipo de munição utilizada no disparo questionado, efetuando-se disparos contra suportes posicionados em diferentes distâncias. A compatibilidade entre o formato e o diâmetro da deposição dos resíduos dos disparos efetuados nos ensaios permite estabelecer a que distância o disparo questionado foi realizado.

De forma simples, no exame de residuograma são tomadas as medidas e formatos, bem como grau de concentração e características do contorno, deixados pelos resíduos do disparo quer no corpo ou vestes. Esses dados são comparados a disparos efetuados contra suporte de tecido na cor branca ou, ainda, como menciona Rabello (1995, 379), em cartolina de cor branca. Os disparos são efetuados, com a mesma arma e com munição idêntica (do mesmo lote), em diversas distâncias de disparo, até obter-se deposição de resíduos idêntica àquela encontrada no corpo ou vestes submetidas a exame. Deve-se observar que no caso do tiro incriminado ter atingido superfícies curvas, como muitas superfícies anatômicas, ou em planos inclinados, essas considerações são de fundamental importância para que sejam repetidas nesses ensaios.

ou em planos inclinados, essas considerações são de fundamental importância para que sejam repetidas nesses ensaios.
Os efeitos secundários determinam as seguintes zonas características:  Zona de chama;  Zona de

Os efeitos secundários determinam as seguintes zonas características:

Zona de chama;

Zona de esfumaçamento

Zona de tatuagem.

Estude a seguir sobre cada uma delas!

Zona de chama

A zona de chama se caracteriza pela lesão de queimadura da pele,

normalmente disposta ao redor do orifício de entrada, cuja formação se dá pela ação direta da chama e ação térmica dos gases elevadamente aquecidos. Ela pode ser produzida, ainda, por ação indireta, na qual tanto a chama quanto a ação dos gases aquecidos produzem a queima de tecido das vestes e, estes, por sua vez, a queimadura da pele. Apresenta cor avermelhada e de aspecto apergaminhado. Se houver pelos nessa região anatômica, estes podem estar chamuscados, quebradiços, crestados e ligeiramente retorcidos.

Zona de esfumaçamento

É a região na qual ocorre o depósito superficial de fuligem oriunda da

combustão da pólvora e da detonação da espoleta ao redor do orifício de entrada. Esta zona pode ser facilmente removida por lavagem. Está presente nos disparos de curta distância e sua cor depende do tipo da pólvora, da idade do cartucho, da distância do disparo, dentre outros aspectos.

distância e sua cor depende do tipo da pólvora, da idade do cartucho, da distância do
A zona de esfumaçamento tem a forma circular no tiro perpendicular; ovalar, no oblíquo; e

A zona de esfumaçamento tem

a forma

circular

no

tiro

perpendicular;

ovalar,

no

oblíquo;

e

alongada,

no

tangencial.

Fotografia 31. Foto operada quando de exame de local – ICDF- Nela observa-se zona de

Fotografia 31. Foto operada quando de exame de local ICDF- Nela observa-se

zona de esfumaçamento ao redor da lesão,

de tonalidade bem escura e contornos bem definidos.

Pode apresentar os bordos bem definidos e de tonalidade intensa nos casos

em que a boca do cano da arma se encontra mais próxima à superfície

suporte do disparo. Nesses casos o diâmetro da zona de esfumaçamento é menor e, geralmente, a zona de tatuagem encontra-se inscrita nela.

Nos casos, em que ainda se percebe a zona de esfumaçamento, resultante

de disparos efetuados com maiores distâncias entre a boca do cano da arma

e o anteparo, as bordas dessa zona não são nítidas, apresentando tonalidade suave e maior diâmetro.

Nesses casos, geralmente, a zona de tatuagem encontra-se circunscrita à zona de esfumaçamento.

O grau de concentração da zona de esfumaçamento, bem como as

dimensões e a forma do residuograma proporcionam elementos para fundamentar uma convicção quanto à direção e à distância do tiro em

relação ao alvo. Pode-se verificar zona de esfumaçamento e tatuagem sobre

a pele, com disposição e formatos peculiares, mas, geralmente puntiformes,

zona de esfumaçamento e tatuagem sobre a pele, com disposição e formatos peculiares, mas, geralmente puntiformes,
nos casos em que os gases do disparo ultrapassam a trama do tecido, vindo a

nos casos em que os gases do disparo ultrapassam a trama do tecido, vindo a aderir à pele. A intensidade do depósito depende da trama mais ou menos apertada do tecido.

Zona de tatuagem

Fotografia 32. Foto operada quando de exame de local – ICDF- Nela observa- se zona

Fotografia 32. Foto operada quando de exame de local ICDF- Nela observa- se zona de tatuagem ao redor da lesão de entrada.

É produzida pela incrustação dos grãos de pólvora incombusta ou não, que atingem o alvo ao redor do orifício de entrada, bem como de pequenos fragmentos que se desprendem do projétil. É devido à maior massa e à maior energia cinética, que os demais resíduos de disparo, como gases e produtos da combustão, vencem maiores distâncias e penetram na superfície do alvo, como micro projéteis, incrustando-se nele de forma mais ou menos profunda, não sendo removíveis por lavagem.

Nota: Quanto maior for a distância entre a boca do cano da arma e o suporte menos profunda será a incrustação.

Alguns peritos, a exemplo de Augustinho dos Santos, propõem uma subdivisão da zona de tatuagem em:

a incrustação. Alguns peritos, a exemplo de Augustinho dos Santos, propõem uma subdivisão da zona de
a) Tatuagem Indelével : quando a incrustação ocorre em camadas mais profundas, não saindo com

a) Tatuagem Indelével: quando a incrustação ocorre em camadas mais profundas, não saindo com água ou lavagem superficial; ou seja, a zona de tatuagem propriamente dita.

FOTOGRAFIA 33. Foto operada durante aula ministrada pelo autor. Mostra a distribuição da zona de

FOTOGRAFIA 33. Foto operada durante aula ministrada pelo autor. Mostra a distribuição da zona de tatuagem ao redor do orifício de entrada

b) Tatuagem Delével: quando ocorre apenas uma deposição (aderência) do grão na superfície da pele sem incrustar, podendo ser removido por uma simples lavagem.

Nos disparos efetuados com munições vencidas, mais velhas 2 , nas distâncias limites, onde ainda ocorre a zona de tatuagem, e um pouco além, verifica-se a ocorrência da tatuagem delével ou tatuagem não verdadeira.

Curiosidade

Já foi verificada a presença de tatuagem não verdadeira à uma distância de um metro e trinta centímetros (1,30 m), em disparos efetuados com revólveres de calibre .357 Magnume cartuchos vencidos, o que é uma grande distância.

2 nelas a quantidade de grãos não comburidos ou parcialmente comburidos é maior e a quantidade de energia gerada é menor

nelas a quantidade de grãos não comburidos ou parcialmente comburidos é maior e a quantidade de
A forma e a extensão da zona de tatuagem dependem da natureza da pólvora, do
A forma e a extensão da zona de tatuagem dependem da natureza da pólvora, do
A
forma e a extensão da zona de
tatuagem dependem da natureza
da pólvora, do ar ambiente e da
direção do disparo. A tatuagem,
nos disparos ortogonais, deposita-
se de maneira uniforme ao redor
do orifício de entrada, tomando a
forma aproximadamente circular,
concêntrica com o orifício de
Figura 1
entrada.
Fonte: Svensson, Ane & Wendell, Otto.
Techniques of crime scene investigation.

Nos disparos inclinados, a tatuagem apresenta-se com forma de elipse e será mais intensa e de menor extensão do lado do ângulo de menor inclinação da arma, e mais extensa e menos intensa do lado oposto, orientando, assim, a posição da vítima e do agressor.

Importante!

A presença de tatuagem ao redor de um orifício é garantia de que se trata

de um orifício de entrada em disparo direto.

O formato, a quantidade e a distribuição dos resíduos que constituem os

efeitos secundários são significativamente alterados quando da presença de

acessórios nas armas, a exemplo de supressores de ruído, compensadores de recuo e quebra chamas. Quando são utilizados esses acessórios, os conceitos clássicos não devem ser empregados, pois o autor já efetuou disparos com uma submetralhadora HK SD (dotada de supressor de ruído) a 10 centímetros de distância não se verificando nenhuma zona de esfumaçamento ou tatuagem.

de supressor de ruído) a 10 centímetros de distância não se verificando nenhuma zona de esfumaçamento
Aula 2 - Efeitos explosivos Nesta aula você estudará os efeitos explosivos dos disparos de

Aula 2 - Efeitos explosivos

Nesta aula você estudará os efeitos explosivos dos disparos de armas de fogo, característicos de disparos encostados, como também, analisará os aspectos das lesões frutos de disparos superficiais ou tangenciais. Discutiremos ainda, outra classificação proposta para a distância de disparo.

2.1 Efeitos Explosivos.

O professor Genival Veloso de França (1995, p.68), ensina que:

Orifícios de entrada nos tiros encostados têm forma

irregular, denteada ou com entalhes, devido à ação resultante dos gases que descolam e dilaceram os tecidos. É a câmara de mina de Hofmann. Na redondeza do ferimento, nota-se

crepitação gasosa da tela subcutânea proveniente da infiltração dos gases. Em geral, não há zona de tatuagem nem de esfumaçamento, pois todos os elementos da carga

penetram pelo orifício da bala

O diâmetro dessas lesões

) (

pode ser maior que o do projétil em face da explosão dos tecidos pelo efeito de mina e suas bordas algumas vezes voltadas para fora, devido ao levantamento dos tecidos pela

explosão dos gases.

de mina e suas bordas algumas vezes voltadas para fora, devido ao levantamento dos tecidos pela
O Doutor Werner U. 3 relata que : ) ( Os disparos efetuados com a

O Doutor Werner U. 3 relata que:

) ( Os disparos efetuados com a “boca” do cano da arma pressionado, apertado contra
) (
Os disparos efetuados com a “boca”
do cano da arma pressionado, apertado
contra a pele ficam evidenciados pela
lesão de forma estrelada e pela ausência
de esfumaçamento nas bordas da lesão.
Toda a fumaça oriunda do disparo
penetra na lesão
O bolsão entre a
Figura 2
Fonte: Svensson, Ane & Wendell, Otto.
Techniques of crime scene investigation.
pele e o osso é originário da expansão
dos gases formados com a queima do
propelente. Nenhuma fumaça é
depositada sobre a pele ao redor da
lesão. O formato estrelado é causado
pela laceração do tecido em
consequência da força de expansão dos
gases.

3 Spitz and Fischers Medico Legal Investigatiobn of Death 3 ed paginas 314 e 315

da força de expansão dos gases. 3 Spitz and Fischers Medico Legal Investigatiobn of Death 3
Os efeitos explosivos somente são evidenciados nas lesões quando a distância entre a extremidade livre

Os efeitos explosivos somente são evidenciados nas lesões quando a distância entre a extremidade livre do cano da arma (boca) e a vítima é muitíssimo pequena, ou mesmo nula (encostado), uma vez que tais efeitos são produzidos em decorrência da liberação instantânea dos gases, gerando ruptura e dilaceração dos tecidos, entre outros.

Fotografia 34 . Foto operada quando da realização de exame de local de morte violenta

Fotografia 34 . Foto operada quando da realização de exame de local de morte violenta ICDF Nelas observa- se os efeitos explosivos da câmara de mina de Hofmann.

4 Ver Anexos correspondentes

Devido à irregularidade das lesões de entrada nos disparos encostados, estas, algumas vezes, podem ser confundidas com lesões de saída. A diferença entre o orifício de entrada e o de saída pode ser observada pelos sinais característicos dos efeitos explosivos no tiro encostado, ou seja, a câmara de mina de Hofmann os sinais de Werkgaertner e de Benassi 4 , enquanto nas perfurações de saída tais efeitos não são verificados.

os sinais de Werkgaertner e de Benassi 4 , enquanto nas perfurações de saída tais efeitos
2.2 tangencial Lesões produzidas por ação As lesões ocasionadas por disparos tangenciais apresentam características

2.2

tangencial

Lesões

produzidas

por

ação

As lesões ocasionadas por disparos tangenciais apresentam características específicas e, dependendo do grau de engajamento desse projétil ao tecido, apresentam morfologias distintas. Nos casos em que ocorre maior contato do projétil com a pele, o esperado é verificar uma laceração (sulco) no tecido em forma de vala, com perda de material pela passagem do projétil ocasionado pelo desgaste abrasivo. Os bordos dessas lacerações são totalmente irregulares, exibindo pequenos sulcos (rasgos) superficiais, diagonalmente dispostos a partir do sulco principal, a partir dos quais é possível determinar a trajetória do projétil. A largura da ferida equivale, aproximadamente, ao diâmetro do projétil.

Fotografia 35 – operada quando da realização do exame de local de morte violenta ICDF.

Fotografia 35 operada quando da realização do exame de local de morte violenta ICDF. Mostra uma lesão produzida por ação tangencial de um projétil de arma de fogo, de sulco único, evidenciando-se, além de outras características a irregularidade e queimadura das bordas.

Fotografia 36 – operada quando da realização do exame de local de morte violenta ICDF.

Fotografia 36 operada quando da realização do exame de local de morte violenta ICDF. Mostra outra morfologia de lesão produzida por ação tangencial de projétil de arma de fogo, evidenciando-se os múltiplos sulcos.

morfologia de lesão produzida por ação tangencial de projétil de arma de fogo, evidenciando-se os múltiplos
Fotografia 37 . Foto operada quando da realização de exame de local de morte violenta
Fotografia 37 . Foto operada quando da realização de exame de local de morte violenta

Fotografia 37 . Foto operada quando da realização de exame de local de morte violenta ICD.F. Quando da formação dessa lesão o pescoço encontrava-se inclinado sobre o ombro. Nela observa-se, em decorrência da ação de um único projétil, uma lesão que formou um sulco sobre o ombro e sulcos

Nos casos em que o contato do projétil com a pele se dá de forma mais superficial, devido à ação do projétil sobre a pele, ocorre um enrrugamento desta, com a formação de porções dobradas de tecido cutâneo, o que produz significativa irregulariedade na formação da lesão. Ocorre a formação de múltiplos sulcos, intercalados por áreas sem nenhuma lesão, sendo possível verificar equimose e queimaduras nas bordas de todos os tipos de lesões tangenciais.

2.3 Classificação das distâncias do disparo segundo Di Maio 5

A grande maioria dos autores, e entre eles os autores brasileiros, classificam a distância dos disparos em: disparos encostados, disparos a curta distância e disparos a distância.

5 Di Maio, J. M. Vicent Heridas por arma de fuego, Ediciones La Rocca, Buenos Aires 1999. Paginas 177 a 205

. 5 Di Maio, J. M. Vicent Heridas por arma de fuego, Ediciones La Rocca, Buenos
Alguns dos elementos que permitem a análise e classificação conforme esse critério já foram estudados

Alguns dos elementos que permitem a análise e classificação conforme esse critério já foram estudados por você nessa aula e na aula anterior No entanto, Di Maio apresenta uma pequena modificação, classificando em quatro as situações distintas no que se refere a distância de disparo, ou seja:

Disparo encostado ou disparo de contato;

Disparo quase encostado;

Disparo a distância intermediária;

Disparo a distância.

Estude, a seguir, sobre cada um deles.

Disparo encostado

Nessa distância, a boca do cano da arma encontra-se apoiada sobre a superfície suporte, quer seja parte do corpo ou peça de vestuário. O contato pode ser firme, no qual a boca do cano é pressionada contra o suporte ou quando o toca de leve, formando um contato frouxo. Em qualquer um dos casos, os elementos do disparo (gases, pólvora parcialmente comburida, etc), acabam por penetrar na lesão, formando os efeitos explosivos como a câmara de mina de Hoffmam, o sinal de Benassi e o sinal de Werkgaertner 6 .

Disparo quase encostado

Essa é a situação diferente das demais classificações e corresponde à situação na qual a boca do cano da arma não está encostada na superfície, mas afastada dela cerca de até dois centímetros. Nesta situação, os elementos secundários do disparo podem penetrar na lesão e os efeitos da zona de chama ficar caracterizados apenas ao redor do orifício. Essa configuração apresenta o formato muito próximo àquela verificada nos disparos distância, se confundindo com ela. O principal elemento de análise é a ação térmica que ocorre em função da zona de chama (Necrose Coagulativa Térmica), evidenciada nas bordas da lesão e na parte inicial do canal formado pela passagem do projétil. Pode resultar, também, na deposição de resíduos em volta e muito próximos do orifício de entrada.

6 Ver Anexo Correspondente

também, na deposição de resíduos em volta e muito próximos do orifício de entrada. 6 Ver
 Disparos a distância intermediária Os disparos a distância intermediária são aqueles nos quais se

Disparos a distância intermediária

Os disparos a distância intermediária são aqueles nos quais se evidenciam

os efeitos secundários do disparo, ou seja, os disparos a curta distância.

Disparos a distância

Nos disparos a distância verificam-se apenas os efeitos primários já descritos.

Sinal de Werkgaertner

O Professor Genival Veloso de França (1995, p.377) enfatiza que “Os tiros

encostados ainda permitem deixar impresso o desenho da “boca” e da alça

de mira na pele através de um halo de tatuagem e esfumaçamento

conhecido como sinal de Werkgaertner.”

É a lesão de queimadura, produzida pelo cano da arma ainda quente, ao

ponto de imprimir na pele da vítima a marca circular do cano e, em alguns

casos, marcas de outras características de que a arma dispõe, como, por

exemplo, da massa de mira, guia da mola real, parte frontal da armação

nas pistolas, visto que o esfumaçamento, dependendo do tipo e das

características do propelente usado, pode não ser bem notado pelo perito.

Ressalte-se que o meio de produção deste sinal é diferente daquele que

produz a zona de chama, ou seja, esta é produzida pela chama proveniente

da alta temperatura dos gases quando de sua expansão, ao passo que o

sinal de Werkgeartner é fruto do contato da pele com o cano (da arma)

aquecido.

quando de sua expansão, ao passo que o sinal de Werkgeartner é fruto do contato da
Fotografia 38 Fotografia 39 Fotografias 38 e 39. Fotos operadas quando do exame de local
Fotografia 38 Fotografia 39 Fotografias 38 e 39. Fotos operadas quando do exame de local
Fotografia 38 Fotografia 39 Fotografias 38 e 39. Fotos operadas quando do exame de local

Fotografia 38

Fotografia 39

Fotografias 38 e 39. Fotos operadas quando do exame de local ICDF. Nelas observa-se a queimadura produzida pelo cano da arma aquecido ao redor do orifício de entrada. Na fotografia número 39 é mais fácil perceber a massa de mira da arma (veja a seta).

Sinal de Benassi

É

(esfumaçamento) no plano

ósseo,ao redor e no orifício de

depósito de fumaça

o

entrada, que ocorre quando de

disparos com a extremidade do

cano da arma (boca) encostada na

pele que revista uma placa óssea.

É muito útil, quando as partes

moles se acham em putrefação ou

não existem, para identificar lesões

de entrada com o cano encostado

no alvo.

Fotografia 40. Foto operada quando de acompanhamento de necropsia no IML – DF. Nela observa-se

Fotografia 40. Foto operada quando de acompanhamento de necropsia no IML DF. Nela observa-se o orifício de entrada no plano ósseo circundado pelo esfumaçamento oriundo dos gases do disparo.

DF. Nela observa-se o orifício de entrada no plano ósseo circundado pelo esfumaçamento oriundo dos gases
Câmara de mina de Hoffmann Em situações em que o disparo ocorre encostado contra o

Câmara de mina de Hoffmann

Em situações em que o disparo ocorre encostado contra o alvo que recobre placa óssea, os gases liberados no disparo transpõem o tecido e, ao atingirem o anteparo ósseo, descolam lateralmente o tecido e refluem com violência, resultado no estrelamento e eversão das bordas da pele. Este processo é denominado Câmara de Mina de Hofmann.

A velocidade dos gases que impulsionam o projétil é de 1,5 a 2 vezes maior que a velocidade do projétil. Quando de um disparo encostado contra uma superfície que recobre uma placa óssea, esses gases penetram na lesão e ficam retidos pelo projétil, enquanto este perfura a placa óssea; assim, aqueles, acabam por expandirem-se lateralmente entre o tecido e essa placa, descolando a pele e formando uma área inflada, cheia de gases, os quais, ao refluirem, acabam por lacerar o tecido em formato estrelado, com os bordos denteados, irregulares e muitas vezes voltadas para o exterior. A lesão geralmente apresenta-se enegrecida pelo deposito de fuligem oriundo da queima do propelente.

para o exterior. A lesão geralmente apresenta-se enegrecida pelo deposito de fuligem oriundo da queima do
Aula 3 - Balística das lesões Nas duas aulas anteriores você estudou os aspectos externos

Aula 3 - Balística das lesões

Nas duas aulas anteriores você estudou os aspectos externos das lesões. Agora estudará a mecânica dos projéteis de armas de fogo no seu trajeto dentro do corpo.

3.1

Lesão

A lesão deve ser compreendida como:

Dano tecidual, que pode não estar restrito à trilha deixada pela passagem do projétil. Porém, devido à compressão e subsequente estiramento do tecido adjacente, pode formar uma cavidade temporária de até 30 vezes o diâmetro do projétil, vindo causar lesões em estruturas que não se encontravam em seu trajeto.

Lesões por projéteis diferem de outras formas de ferimentos penetrantes porque o projétil não só rompe o tecido, como também transfere parte ou toda a sua energia cinética inerente aos tecidos adjacentes. Dessa forma, uma ferida por arma de fogo é singular. A grande velocidade dos projéteis associada à transferência de energia aos tecidos próximos não se verifica nas lesões perfuro-incisas ou em lesões contusas. Nas lesões por projéteis de armas de fogo, o grau e a extensão dos danos são proporcionais à quantidade de energia cinética dissipada na lesão.

Aumentos relativamente pequenos na velocidade do projétil resultam em

grandes mudanças na energia. Somente a parcela da energia cinética

dissipada produz a lesão e não toda a energia medida junto da boca do

cano. Mesmo assim, em termos de poder ofensivo, não se pode considerar

como de eficácia idêntica, produtora de mesmo efeito, a energia cinética

dissipada em diferentes partes do corpo como, por exemplo, na panturrilha,

quando comparada à cavidade abdominal.

dissipada em diferentes partes do corpo como, por exemplo, na panturrilha, quando comparada à cavidade abdominal.
Três fatores são relevantes na formação da lesão:  A cavidade permanente;  A formação

Três fatores são relevantes na formação da lesão:

A cavidade permanente;

A formação de projéteis secundários;

A cavidade temporária e o fenômeno da cavitação.

Estude cada um desses fatores.

3.1.1 Cavidade permanente

À medida que o projétil passa através dos tecidos, apresentará um trajeto

de dano tecidual, cujo diâmetro será proporcional à área de contato do projétil que o atravessa. Esta trilha local, com perda irreversível dos tecidos, é chamada de cavidade permanente. Esse fenômeno está sempre presente e é aumentado por projéteis de calibre maior, bem como por projéteis que expandem e se "abrem como cogumelo" quando do impacto. Os projéteis expansivos, quando animados com velocidade mínima que permita sua expansividade, apresentam uma maior área de contato. Logo, é

de se esperar uma cavidade permanente maior.

Segundo Behebeham, no artigo “War injuries during the gulf war” de 1994,

um projétil expansivo (aquele que se deforma), cuja ogiva consiga ampliar

o seu diâmetro em duas vezes e meia, provocará uma lesão com área

superior de seis vezes o diâmetro do projétil.

o seu diâmetro em duas vezes e meia, provocará uma lesão com área superior de seis
Nos projéteis do tipo Black Talon, da Winchester , além da expansividade normal de seu

Nos projéteis do tipo Black Talon, da Winchester, além da expansividade normal de seu núcleo, em forma de cogumelo, comum na maioria dos projéteis expansivos, a sua jaqueta rompe em locais pré-estabelecidos, gerando pontas afiladas e cortantes, capazes de provocar maior dano tecidual, maiores dilacerações. Por essas características, tais projéteis certamente apresentam maior potencial ofensivo.

Fotografia 41 . Foto operada pelo autor Mostra um projétil do tipo Black Talon da

Fotografia 41 . Foto operada pelo autor Mostra um projétil do tipo Black Talon da Winchester expandido, note as pontas afiladas que aumentam significativamente a cavidade permanente.

) pode ser o principal ferimento em lesões por

projéteis de armas de fogo de baixa velocidade, com destruição mínima do

tecido adjacente, uma vez que não se verifica a formação de cavidades temporárias com projéteis de baixa velocidade.

O dano localizado (trilha local

A formação de projéteis secundários

[GCD1] Comentário: A “trilha local” é o mesmo que “cavidade permanente”? Se não for, precisa fazer alguma referência conceitual Resposta Essa resposta já se encontra no texto .Esta trilha local, com perda irreversível dos tecidos, é chamada de cavidade permanente.

dos tecidos, é chamada de cavidade permanente. Quando em seu trajeto, se o projétil lesionar estruturas

Quando em seu trajeto, se o projétil lesionar estruturas vitais como a aorta,

veia cava ou qualquer outro vaso calibroso, o potencial ameaçador desta

lesão será incontestável.

Os projéteis que se fragmentam, ou que, por características de projeto

subdividem-se permitindo a formação de projéteis secundários e estes, por

sua vez, adquirem trajetórias erráticas causando lesões em direções não

necessariamente relacionadas à direção do projétil original,

indiscutivelmente, apresentam um potencial lesivo muito maior pelo

aumento da probabilidade de comprometerem estruturas vitais.

Além da fragmentação do projétil, partículas secundárias podem ser postas

em movimento. Essas partículas podem ser provenientes de metais de

projétil, partículas secundárias podem ser postas em movimento. Essas partículas podem ser provenientes de metais de
botões, fivelas, ou serem oriundas de fragmentos de ossos, cartilagens, tendões ou outros tecidos rígidos

botões, fivelas, ou serem oriundas de fragmentos de ossos, cartilagens, tendões ou outros tecidos rígidos para os quais parte da energia cinética do projétil foi transferida. Cada uma dessas partículas transforma-se, então, em um projétil secundário, causando danos em outros órgãos. Este efeito é mais notado quando um osso é colidido ou o projétil se fragmenta. As munições do tipo Glaser, da Winchester, apresentam uma das mais altas taxas de transferência de energia cinética, a ponto de não permitirem ricochetes na maioria das superfícies e, nos casos de ruptura do invólucro (ponta constituída de material sintético), liberam grande quantidade de pequenos balins, cada um deles com trajetórias distintas.

[GCD2] Comentário: Citar fonte.
[GCD2] Comentário: Citar fonte.

[GCD2] Comentário: Citar fonte.

Um caso real

Um caso real
   

Em 30 de março de 1981, John W. Hinckley Jr. disparou seis vezes com um revólver de origem alemã, marca RG, calibre .22”, carregado com cartuchos dotado de projéteis explosivos (este projétil apresenta explosivo inserido dentro da cavidade da ogiva e há uma espoleta em sua ponta para acionar este explosivo.) contra o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Regan. Hinckley queria impressionar a atriz Jodie Foster, por quem acreditava estar apaixonado, buscando a ideia no filme Taxi Driver, de 1976, interpretado pela atriz e Robert De Niro. Dos disparos, saíram feridos James Brady, secretário de imprensa, o policial Thomas Delahanty, o agente do serviço secreto Thimoty McCarthy e o presidente Reagan, que foi atingido no peito por um dos projéteis que ricocheteou junto da Limusine presidencial. O único projétil que explodiu, fragmentou-se em cinco pedaços, os quais atingiram o lado direito da cabeça de James Brady, que ficou com o lado esquerdo do corpo definitivamente paralisado. Caso não tivesse se fragmentado acredita-se que a intensidade da lesão seria muito menor.

 
paralisado. Caso não tivesse se fragmentado acredita-se que a intensidade da lesão seria muito menor.  
3.1.2 A cavidade temporária e o fenômeno da cavitação Além da cavidade permanente, outro fator

3.1.2 A cavidade temporária e o fenômeno da cavitação

Além da cavidade permanente, outro fator a ser considerado é a cavidade temporária. Quando da interação do projétil com o tecido pode ocorrer um maior ou menor afastamento dos tecidos em torno do trajeto do projétil. Esta compressão momentânea dos tecidos gera uma cavidade temporária e possibilita a propagação de ondas de choque, que podem produzir danos teciduais, estendendo-se por vários centímetros (de forma concêntrica)

lateralmente

lateralmente

lateralmente

ao projétil e ao seu trajeto.

lateralmente ao projétil e ao seu trajeto. [GCD3] Comentário: Definir melhor o lateralmente, para deixar mais

[GCD3] Comentário: Definir melhor o lateralmente, para deixar mais clara a dinâmica da lesão.

 

Note nas fotografias 42 e 43, a abertura lateral formada na massa de plastilina ocasionada pela transferência de energia quando da passagem do projétil, nela você pode perceber que os danos do tecido não ficam restritos à cavidade permanente. A cavidade temporária dura apenas alguns milissegundos (entre 5 e 20 milissegundos), mas pode produzir danos a estruturas que não se encontram no seu trajeto.

Fotografia 42 Fotografia 43 Fotografias 42 e 43. Fotos operadas pelo autor. Mostram o afastamento
Fotografia 42
Fotografia 43
Fotografias 42 e 43. Fotos operadas pelo autor. Mostram o afastamento da massa de
plastiline, quando da passagem de projétil de arma de fogo (plastilina compactada para
Mostram o afastamento da massa de plastiline, quando da passagem de projétil de arma de fogo
apresentar densidade de 800 vezes a densidade do ar, densidade semelhante ao tecido mole do

apresentar densidade de 800 vezes a densidade do ar, densidade semelhante ao tecido mole do corpo humano).

Definida de forma simples, cavidade temporária 7 é:

A curva que liga os pontos de deslocamento do tecido em torno do trajeto do projétil.

Diversos são os fatores que influenciam a formação da cavidade temporária. Veja, a seguir, cada um deles.

1. Quanto maior a área de contato do projétil com o tecido, maior será a degradação da energia cinética. Desta forma, um projétil que apresente um diâmetro de base (calibre) pequeno, porém, que seja do tipo expansivo, pode apresentar uma maior degradação da energia cinética que outro de calibre maior que não permita a expansividade de sua ponta. Portanto, quanto mais energia for transferida, maior será a cavidade temporária e o potencial lesivo.

2.
2.

Projéteis de menor massa desaceleram de forma mais rápida no tecido, logo, apresentam uma penetração menor, o que resulta na formação da cavidade temporária de forma precoce, quando comparado a outro

projétil de mesmo calibre e tipo, porém de massa maior.

Diferentes

tipos de munições utilizam projéteis de menor massa, como a THV

produzida pela Sociedade Francesa de Munições (SFM); neles, a massa

do projétil de calibre .357 magnum é de 2,9 gramas e a velocidade da

Ordem de 650m/s. Com uma maior velocidade inicial do projétil para

uma mesma pressão gerada pela queima do propelente, eles não

possuem grande quantidade de movimento, pela pequena massa, o que

leva

uma menor capacidade de penetração além de dissiparem

7 Os fatores que influenciam a formação das cavidades temporárias podem ser melhor estudados em BRUCHEY Jr, William j. e FRANK, Daniel E. Report NIJ/110- 83, U.S. Department of Justice Washington, DC, 1983

estudados em BRUCHEY Jr, William j. e FRANK, Daniel E. Report NIJ/110- 83, U.S. Department of
totalmente a energia nos tecidos,e, geralmente não apresentam lesão de saída. [GCD4] Comentário: Texto confuso.

totalmente a energia nos tecidos,e, geralmente não apresentam lesão

de saída.
de saída.
nos tecidos,e, geralmente não apresentam lesão de saída. [GCD4] Comentário: Texto confuso. A idéia não ficou

[GCD4] Comentário: Texto confuso. A idéia não ficou clara.

Comentário: Texto confuso. A idéia não ficou clara. 3. O tamanho da cavidade temporária é extremamente

3. O tamanho da cavidade temporária é extremamente influenciado pela velocidade, uma vez que, quanto maior for a velocidade, maior será a energia disponível.

4. O formato do projétil e a dureza dos materiais que constituem sua jaqueta e seu núcleo são fatores que levam a diferentes taxas de transferência de energia cinética, resultando na formação de uma cavidade temporária diferente para cada tipo de projétil.

Efeitos de Cavitação Temporária

 
 

Como você já estudou

Como você já estudou

, na passagem do projétil com alta velocidade através

dos tecidos, ondas de choque hidráulicas são estabelecidas nos tecidos aquosos adjacentes. Estas ondas de choque podem ser transmitidas a distâncias consideráveis no corpo e podem resultar no ferimento de regiões remotas em relação à trilha do projétil. Ferimentos no sistema nervoso central e na medula espinhal ilustram este ponto. O efeito pode ser mais dramático em órgãos preenchidos por líquidos e ar, tais como vesícula, estômago, fígado, baço e cólon, os quais podem se romper como resultado de lesões de projéteis animados com velocidades consideráveis, mesmo que estes projéteis produzam (ou provoquem) sua cavidade permanente distante desses órgãos.

[GCD5] Comentário: Citar curso, módulo e aula. Resposta Nessa mesma aula
[GCD5] Comentário: Citar curso,
módulo e aula.
Resposta
Nessa mesma aula
Citar curso, módulo e aula. Resposta Nessa mesma aula Esta cavitação temporária desempenha um importante papel

Esta cavitação temporária desempenha um importante papel na gênese do tecido danificado. Este fenômeno torna-se observável com projéteis com que atingem velocidades superiores a 300 m/s. Os efeitos tornam-se progressivamente mais graves com projéteis em velocidades superiores a

superiores a 300 m/s. Os efeitos tornam-se progressivamente mais graves com projéteis em velocidades superiores a
600 m/s, ocorrendo o rompimento dramático dos tecidos com velocidades acima de 1000 m/s. Apesar

600 m/s, ocorrendo o rompimento dramático dos tecidos com velocidades acima de 1000 m/s.

Apesar da cavitação temporária ser de curtíssima duração, o diâmetro máximo da cavidade pode ser de até 30 a 40 vezes o diâmetro do projétil e, portanto, pode contribuir dramaticamente para a destruição do tecido em lesões produzidas por projéteis animados com alta velocidade. O efeito é mais dramático e destrutivo em tecidos com grande conteúdo de água e com força tensional relativamente baixa, tais como o fígado, onde a cavitação manifesta-se mais rápida e extensamente que nos tecidos com força tensional maior. Desta forma, o efeito é menor em tecidos com pequeno conteúdo de água e alta proporção de fibras elásticas, tais como pulmão e pele. Depois de alguns milissegundos, a cavitação entra em colapso retomando ao tamanho da trilha local, e a pressão dentro da cavidade cai abaixo da pressão da atmosfera, resultando na sucção de materiais externos e microorganismos para dentro das lesões, facilitando, assim, a contaminação imediata do tecido traumatizado.

A forma da cavidade temporária e, assim, o potencial da lesão, são determinados pela taxa de transferência de energia do projétil para os tecidos. Se a taxa de transferência é rápida, a cavidade aumenta rapidamente e a destruição é brutal. Se a taxa de transferência de energia é lenta, o efeito da cavitação é um cone alargando lentamente.

3.2. Fatores que influenciam a transferência de energia

São fatores que influenciam na transferência de energia:

Movimento do projétil;

Formato do projétil;

Densidade do tecido.

na transferência de energia:  Movimento do projétil;  Formato do projétil;  Densidade do tecido.
Estude a seguir sobre cada um deles  Movimento do projétil Além da velocidade que

Estude a seguir sobre cada um deles

Movimento do projétil

Além da velocidade que projéteis e os "estilhaços" possuem, os projéteis disparados por rifles podem ter combinações de movimentos em dois outros planos, levando-os a "ziguezaguear", o que nada mais é do que a oscilação do projétil em torno do eixo de vôo. Quando este ziguezague torna-se excessivo, o projétil "dá saltos", ampliando seus perfis (área transversal projetada perpendicularmente ao trajeto do projétil), o que leva ao aumento da dissipação da energia cinética.

O movimento de rotação do projétil tem por função fornecer ao projétil

maior alcance máximo, maior alcance útil e melhor estabilidade frente à resistência do ar. Os tecidos do corpo humano apresentam densidade de 800 à a 900 vezes maior que a densidade do ar. Quando o projétil muda de

meio, do ar para os tecidos do corpo humano, o aumento da densidade leva

a um aumento da instabilidade. Como consequência, qualquer ângulo

oriundo

aumentado e, dependendo da sua extensão, fazê-lo girar sobre o seu eixo longitudinal, provocando uma maior transferência de energia cinética e uma lesão de dimensões muito superiores

do

movimento

de

 
 
 

precessão

pode

ser

consideravelmente

[GCD6] Comentário: Inserir link conceitual: “movimento físico que consiste na mudança do eixo de rotação de um objeto”.

consiste na mudança do eixo de rotação de um objeto”. Essas irregularidades do movimento do projétil

Essas irregularidades do movimento do projétil (precessão e

tendem a ser máximas imediatamente após a saída do cano do rifle. Esta ação de giro irregular do movimento em parafuso do projétil tende a amortecer depois de transcorrido de 50 a 100 m da trajetória. O projétil é normalmente estável quando de sua trajetória no ar, porém pode se tornar menos estável quando da penetração nos tecidos. Essa instabilidade é aumentada pela presença de movimento irregular, como ziguezague e

nutação )
nutação
)

[GCD7] Comentário: Inserir link conceitula: “oscilação periódica do eixo de rotação”.

e nutação ) [GCD7] Comentário: Inserir link conceitula: “oscilação periódica do eixo de rotação”.
“saltos" (tumbling). Lesões em curto alcance (menos 75 m) e lesões produzidas por de projéteis

“saltos" (tumbling). Lesões em curto alcance (menos 75 m) e lesões produzidas por de projéteis que são desenhados para voar irregularmente têm uma taxa de transferência de energia mais rápida, concomitantemente, mais séria é a destruição do tecido.

Formato do projétil

Projéteis que possuem a superfície da ponta plana ou que são desenhados para expandir quando do impacto apresentam uma maior área de superfície para transferência de energia aos tecidos, resultando numa maior trilha local.

Projéteis com formato e velocidade capazes de apresentar uma transferência rápida de energia levam a à expansão rápida dos tecidos, resultando numa cavidade temporária capaz de apresentar danos teciduais em regiões que não se encontram na trajetória do projétil.

Fator importante ocorre com os fragmentos e estilhaços, os quais possuem formato bastante irregular e, consequentemente, um trajeto irregular, causando lesões bastante severas. Esses fragmentos geralmente possuem pequenas massas, logo, adquirem velocidade alta, mas, devido às suas grandes instabilidades no trajeto, a velocidade diminui rapidamente.

Densidade do tecido

A transferência de energia é maior em tecidos densos com alto conteúdo de água. Lesões nos músculos, fígado, rim e ossos são mais danosas que lesões de tecidos menos densos, tais como o tecido do pulmão ou a gordura dos tecidos em geral.

são mais danosas que lesões de tecidos menos densos, tais como o tecido do pulmão ou
3.3 Ferimentos De Saída As lesões de saída de projéteis de armas de fogo irregular.

3.3 Ferimentos De Saída

As lesões de saída de projéteis de

armas de

fogo

irregular.

têm

e

Fotografia 44 Fotografia 44. Foto operada quando de exame de local – ICDF. Nela observa-se
Fotografia 44
Fotografia 44. Foto operada quando de
exame de local – ICDF. Nela observa-se o
orifício de saída produzido pela passagem de
projétil de arma de fogo.
i,

formato

Comumente

apresentam os bordos voltados

para o exterior,

apresentam

maior sangramento. Não

apresentam orla de enxugo ou

zona de Fisch, podendo

apresentar o sinal de Romaness

como você já estudou.

[GCD8] Comentário: verificar se é Romaness ou Romanessi e o texto não está entre os conteúdos enviados

– e o texto não está entre os conteúdos enviados Além da forma irregular destas feridas,

Além da forma irregular destas feridas, as dimensões verificadas geralmente são maiores que as do o orifício de entrada. Para projéteis animados com grande energia, se a cavitação 8 é máxima no ponto de saída, o resultado será uma larga saída com grande perda de tecido.

Os efeitos tornam-se progressivamente mais graves com projéteis com velocidades superiores a 600 m/s, ocorrendo o rompimento dramático dos tecidos com velocidades acima de 1000 m/s. O diâmetro máximo da cavidade pode ser dezenas de vezes maior que o diâmetro do projétil e, portanto, contribuir dramaticamente para a destruição do tecido em lesões de alta velocidade.

8 Cavitação é um fenômeno que projéteis animados com altíssima energia cinética apresentam

de alta velocidade. 8 Cavitação é um fenômeno que projéteis animados com altíssima energia cinética apresentam
Aula 4 - Lesões causadas pelos projéteis de armas de alma lisa Armas de alma

Aula 4 - Lesões causadas pelos projéteis de armas de alma lisa

Armas de alma lisa, desde simples armas artesanais de antecarga ou armas improvisadas a partir de tubulações utilizadas em construção civil e sistemas de disparos constituídos a partir de molas e segmentos metálicos, até armas automáticas de emprego militar, fazem parte de nosso dia a dia. Suas lesões diferenciam-se das lesões produzidas por projéteis de armas raiadas, devido à multiplicidade de lesões oriundas de um único disparo, associada à presença de elementos estranhos que podem ou não estar presentes nas lesões, tornando sua análise um pouco mais complexa. As armas de alma lisa permitem a utilização de cartuchos anti-motim, que vão desde o lançamento de esferas de elastômero (projéteis de borracha) produzindo apenas lesões contusas, quando disparados nas distâncias corretas de utilização, até projéteis explosivos de efeito moral, de gás lacrimogênio, entre outros, com lesões bem típicas 9 . Uma espingarda dispara ''projéteis'' que, geralmente, consistem de poucas esferas a centenas de esferas de chumbo ou de aço (balins), com uma velocidade relativamente alta (305 - 457 m/s) e com uma capacidade destrutiva maciça para um alcance menor de 3,6 - 4,5 m. A distância efetiva de utilização das espingardas é relativamente pequena, em função da grande diminuição na velocidade e, conseqüentemente, na redução da energia cinética, para distâncias maiores. Desta forma, o tamanho dos grãos de chumbo é de fundamental importância na determinação do alcance útil e no grau das lesões ou danos por eles produzidos.

Em virtude do formato aerodinâmico desfavorável de um balim esférico face à resistência do ar, os grãos de chumbo da espingarda sofrem uma desaceleração rápida, transformando a energia cinética em calor quando

9 estes conteúdos não serão estudados nesse curso

rápida, transformando a energia cinética em calor quando 9 estes conteúdos não serão estudados nesse curso
suas trajetórias divergem após deixar a boca do cano da espingarda. Além de 45 a

suas trajetórias divergem após deixar a boca do cano da espingarda. Além de 45 a 50 metros de distância, a capacidade destrutiva desses projéteis é, em geral, negligenciável (exceto para uma ferida ocular ou laríngea). Nos casos de projéteis singulares ou projétil único (Balotes ou Slugs), o alcance útil é da ordem de 100 a 110 metros, principalmente para aqueles dotados de estrias laterais, cuja intenção é fornecer movimento de rotação ao projétil.

No caso de disparos encostados ou muito próximos, eles são os que apresentam maior gravidade, face à ação conjunta da carga de balins, da quantidade de gases que penetram na lesão, que, ao se expandirem, promovem o aumento de pressão (ondas de pressão) e a grande transferência de energia cinética. O resultado são lesões com lacerações extensas, destruição de tecidos e membros, apresentando, muitas vezes, vestígos como a eversão de bordos, estrelada, enegrecida e com sinais de queimaduras, ladeada de gotículas de sangue e tecidos orgânicos. Nesses casos, não é esperado verificar a entrada isolada de balins (orifícios satelites), podendo se verificar a presença do Sinal de Werkgaertner e a bucha penetrando na lesão juntamente com os balins, conforme foto número

45.

Fotografia 45. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela, observa-se intensa destruição

Fotografia 45. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela, observa-se intensa destruição do tecido, tanto na região frontal, quanto na lesão de saída, entre as regiões parietal e occiptal, em disparo efetuado com o cano da arma encostado.

quanto na lesão de saída, entre as regiões parietal e occiptal, em disparo efetuado com o
A alta velocidade ao nível da boca do cano da arma, o grande peso total

A alta velocidade ao nível da boca do cano da arma, o grande peso total dos

grãos de chumbo (que atravessam na forma de uma única massa e, ainda,

sem sofrer dispersão) e a desaceleração rápida dos grãos esféricos não

aerodinâmicos produzem, para um alcance de 0,9 a 1,8 m, um único orifício

grande e irregular, e uma destruição tecidual intensa e extensa e,

habitualmente nas feridas do tronco, nenhum orifício de saída. Nessas

distâncias, pode-se verificar os bordos denteados ou em formatos de ondas,

sendo pouco provável, para cartuchos comerciais de boa qualidade, a

ocorrência de orifícios satélites.

Com o aumento da distância surgem os orifícios satélites, ao mesmo tempo

em que ocorre um ligeiro aumento do diâmetro do orifício central. Pode-se

verificar o impacto da bucha próximo ao orifício central, algumas vezes

penetrando e outras ficando retida no orifício de entrada.

Para um alcance de 2,7 a 3,6 metros,

dependendo do calibre e do número de

balins, o orifício de entrada será maior,

denteado e provavelmente estará

circundado por várias feridas produzidas

por balins individuais, cada uma das

quais pode mostrar uma deformação

significativa. Com o aumento da

distância, aumenta o número de orifícios

satélites e a área de dispersão,

ocorrendo, simultaneamente, a

diminuição do orifício central até que

desapareça completamente, restando

apenas um aumento gradativo do padrão

de dispersão dos balins, ou seja, o

aumento da área de impacto e uma

Fotografia 46. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o padrão

Fotografia 46. Foto operada quando de exame de local - ICDF Nela observa-se o padrão de dispersão dos orifícios de entrada produzidos por balins de um único disparo.

local - ICDF Nela observa-se o padrão de dispersão dos orifícios de entrada produzidos por balins
dispersão mais acentuada dos grãos de chumbo. Buchas plásticas podem apresentar lesões abrasivas com o

dispersão mais acentuada dos grãos de chumbo.

Buchas plásticas podem apresentar lesões abrasivas com o formato de “cruz de malta”. Para os calibres menores, dependendo do fabricante, as buchas plásticas podem apresentar três gomos em vez de quatro, o que leva a uma lesão escoriativa diferenciada. Buchas formadas por discos de papelão e buchas de cortiça ou materiais semelhantes, geralmente apresentam impactos em uma distância de até 4,5 metros de distância. As lesões abrasivas das buchas plásticas podem ser percebidas a uma distância de até 6 metros.

Além de 20 metros de distância, o padrão de dispersão dos grãos de chumbo pode ser de 0,3 a 0,9 m de diâmetro na superfície suporte deste disparo. Há probabilidade de que apenas alguns poucos grãos de chumbo alcancem o alvo e sejam moderadamente destrutivos, ficando muitos dos balins retidos nas vestes, no tecido muscular e, por conseguinte, apenas uma pequena parcela penetrada nas cavidades corpóreas, sendo as lesões, na sua grande maioria, superficiais . É importante salientar que, quanto menor a massa e menor o diâmetro, menor será a distância alcançada, pois os valores da quantidade de movimento e energia são menores. Logo, a massa dos grãos de chumbo e seu diâmetro são de fundamental importância na análise acima.

Importante!

As distâncias aqui referidas são de caráter indicativo. Só é possível asseverar sobre uma distância específica realizando ensaios com a mesma arma e munição, obtendo-se o padrão de dispersão específico para aquela distância (residuograma).

com a mesma arma e munição, obtendo-se o padrão de dispersão específico para aquela distância (residuograma).
No restante, os aspectos morfológicos verificados nas lesões produzidas por balins oriundos de disparos de

No restante, os aspectos morfológicos verificados nas lesões produzidas por balins oriundos de disparos de cartuchos de arma de alma lisa, principalmente no princípio de produção desses efeitos, são semelhantes àqueles deixados por projéteis de armas de alma raiada, como: orla de enxugo, orla de contusão, aureola equimótica, zona de esfumaçamento, zona de tatuagem, zona de chama, etc.

Finalizando

Nesse módulo, você estudou que:

As lesões deixadas por projéteis de arma de fogo são lesões perfuro- contusas devido à ação do projétil de perfurar e contundir. Efeitos primários são os efeitos produzidos pela ação mecânica do projétil ao procurar vencer a resistência oferecida pelo alvo, sendo, portanto, próprios do orifício de entrada. Ocorrem independentemente da distância do disparo e compreendem: o orifício propriamente dito, a orla de contusão, a auréola equimótica e a orla de enxugo.

Os efeitos secundários são os efeitos resultantes da deposição dos resíduos dos demais elementos do cartucho sobre a superfície, ou seja, dos resíduos gasosos e sólidos da combustão da pólvora e da detonação da espoleta sobre o suporte. A presença desses efeitos permite estimar a distância entre a boca do cano da arma e o suporte, bem como caracteriza o disparo como tendo sido efetuado a curta distância.

Os efeitos secundários determinam as seguintes zonas características:

zona da chama; zona de esfumaçamento e zona de tatuagem.

Os efeitos explosivos somente são evidenciados nas lesões quando a distância entre a extremidade livre do cano da arma (boca) e a vítima

somente são evidenciados nas lesões quando a distância entre a extremidade livre do cano da arma
é muitíssimo pequena ou mesmo nula (encostado), uma vez que tais efeitos são produzidos em

é muitíssimo pequena ou mesmo nula (encostado), uma vez que tais efeitos são produzidos em decorrência da liberação instantânea dos gases, gerando ruptura e dilaceração dos tecidos, entre outros. As lesões ocasionadas por disparos tangenciais apresentam características específicas e, dependendo do grau de engajamento desse projétil ao tecido, apresentam morfologias distintas.

A grande maioria dos autores, entre eles os brasileiros, classifica a distância dos disparos em: disparos encostados, disparos a curta distância e disparos a distância.

A lesão deve ser compreendida como dano tecidual, que pode não estar restrito à trilha deixada pela passagem do projétil.

Lesões por projéteis diferem de outras formas de ferimentos penetrantes porque o projétil não só rompe o tecido, como também transfere parcial ou totalmente a sua energia cinética inerente aos tecidos adjacentes.

Três fatores são relevantes na formação da lesão: a cavidade permanente; a formação de projéteis secundários; e a cavidade temporária e o fenômeno da cavitação.

São fatores que influenciam na transferência de energia: movimento do projétil; formato do projétil; e densidade do tecido.

As lesões produzidas por projéteis de armas de alma lisa se diferenciam das lesões produzidas por projéteis de armas raiadas, uma vez que a multiplicidade de lesões oriundas de um único disparo, associada à presença de elementos estranhos que podem ou não estar presentes nas lesões, tornam a sua análise um pouco mais complexa.

de elementos estranhos que podem ou não estar presentes nas lesões, tornam a sua análise um
Exercícios 1. Em um disparo à distância efetuado diretamente contra uma superfície- suporte, constituída de

Exercícios

1. Em um disparo à distância efetuado diretamente contra uma superfície-

suporte, constituída de tecido branco com composição de 50% de algodão e 50% de tecido sintético, poderemos encontrar neste residuograma:

a. Zona de chama, de esfumaçamento e zona de tatuagem.

b. Orifício irregular com bordos evertidos, apresentando estrelamento, e

o diâmetro do orifício no residuograma bem superior ao diâmetro do projétil.

c. Orifício regular, com bordos invertidos, apresentando orla de enxugo

e sem a presença de vestígios secundários.

d. Orifício regular com bordos invertidos, apresentando orla de enxugo e zona de tatuagem.

2. O Sinal de Benassi é:

a. O estampamento da boca do cano da arma na pele.

b. O mesmo que câmara de mina de Hofmann.

c. O estrelamento verificado na pele, devido à ação resultante dos gases que descolam e dilaceram os tecidos.

d. A deposição de esfumaçamento (halo fuliginoso) em tecidos ósseos, quando de disparo encostado, geralmente é verificada na cabeça.

3. O Sinal de Romanessi é:

a. Formado por uma área erodida da pele, devido ao atrito do projétil com a pele, associado ao movimento de rotação do

a. Formado por uma área erodida da pele, devido ao atrito do projétil com a pele,
projétil, e, ainda, a diferença de elasticidade entre a derme e a epiderme o que

projétil, e, ainda, a diferença de elasticidade entre a derme e a epiderme o que resulta no arrancamento da epiderme.

b. Trata-se de orla escoriada ao nível do orifício de saída, ocasionada pela ação do projétil que, ao sair, comprime o tecido, juntamente com a pele, contra a superfície suporte no qual o corpo encontra-se apoiado.

c. Formado por área erodida da pele, em forma de gota invertida, na borda correspondente à entrada, quando do impacto oriundo de trajetória inclinada, indicando assim o sentido e obliquidade da trajetória.

d. Formado pela infiltração de sangue resultante da ruptura de vasos capilares, provocada pela passagem do projétil.

4. Considerando a intensidade e forma das zonas de esfumaçamento, assinale (V) verdadeiro ou (F) falso em relação as afirmativas a seguir:

a. ( V ) Tem a forma circular no tiro perpendicular; ovalar, no oblíquo; e alongada, no tangencial.

b. ( F ) Está presente nos disparos de longa distância e sua cor depende do tipo da pólvora, da idade do cartucho e da distância do disparo.

c. ( V ) É a região na qual ocorre o depósito superficial de fuligem oriunda da combustão da pólvora e da detonação da espoleta ao redor do orifício de entrada, a qual é facilmente removida por lavagem.

da pólvora e da detonação da espoleta ao redor do orifício de entrada, a qual é
d. ( V ) Pode apresentar os bordos bem definidos e de tonalidade intensa nos

d. ( V ) Pode apresentar os bordos bem definidos e de tonalidade intensa nos casos em que a boca do cano da arma se encontra mais próxima à superfície suporte do disparo.

de tonalidade intensa nos casos em que a boca do cano da arma se encontra mais
Gabarito: 1 - C 2 - D 3 - B 4 - V V F

Gabarito:

1 - C

2 - D

3 - B

4 - V V F V V

Gabarito: 1 - C 2 - D 3 - B 4 - V V F V