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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE “NEGRO”, “PRETO”,

III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS)

DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE “NEGRO”, “PRETO”,

“NEGRO”, “PRETO”, “MULATO” e “AFRODESCENDENTE” E O SILENCIAMENTO DOS SUJEITOS NOS DISCURSOS SOBRE AS AÇÕES AFIRMATIVAS

Introdução

Marcelo Giovannetti Ferreira Luz 1

Desde o ano de 1995, quando criado o já extinto Grupo de Trabalho Interdisciplinar (GTI), há em debate na sociedade a questão das Políticas de Ações Afirmativas, que pretendem, entre outras coisas, estabalecer cotas nas universidades públicas brasileiras, baseando-se em critérios étnico-raciais. Uma das justificativas para a implantação de tais políticas baseia-se na suposta “dívida” existente para com os descendentes dos africanos trazidos para o Brasil a fim de servirem como mão-de-obra escrava nas lavouras de cana-de-açúcar, no período colonial. O interesse no estudo de tal corpus dá-se pelo seguinte questionamento: qual efeito de sentido é estabelecido pelas nomeações e reescrituras de “negro”, “preto”, “mulato”, “afrodescendente” e “afrobrasileiro” nos discursos referentes às políticas de ações afirmativas de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras, visto que tais nomeações e reescrituras são tidas como preconceituosas e racistas em determinados espaços enunciativos. Parto do princípio de que “nomear” significa muito mais que atribuir um nome, no

sentido referencial em que se pensa a relação “nome - objeto no mundo”. A meu ver, nomear produz um efeito de sentido de subjetividade, atribuindo sentidos especiais, que recortam uma memória de dizeres acerca de tal nome, constituindo, assim, seu sentido no acontecimento em que aparece. Ademais, a nomeação dá-se como funcionamento da língua em determinados espaços de enunciação, que são divididos por uma incessante disputa pela palavra. Esses espaços são, nos dizeres de Guimarães (2005:18), “( ) ... espaços ‘habitados por falantes, ou seja, por sujeitos divididos por seus direitos ao dizer e aos modos de dizer” (grifo nosso). Ao determinar um indivíduo por um nome, atribuo- lhe um sentido que se estabelece considerando-se os dizeres acerca desse nome, fazendo-o ocupar uma posição sujeito, pela ideologia, e individualizo-o, o que o fará ocupar uma posição política na sociedade, entendendo o “político”, segundo Orlandi

(2010:12), como “(

...

)

o fato de que vivemos em uma sociedade que é estruturada pela

divisão e por relações de poder que significam estas divisões. Como sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo não só os sujeitos são divididos entre si, como o sujeito é

1 Mestre em Linguística pela Universidade Federal São Carlos, doutorando em Linguística pela mesma instituição.

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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

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dividido em si”. De outro modo, a relação que o sujeito mantém com a língua constitui-se pela ideologia a que o indivíduo está submetido ao ocupar um lugar na sociedade. Os discursos sobre as ações afirmativas mobilizam dizeres sustentados por sujeitos que ocupam determinadas posições sociais, que são afetadas pela ideologia. Logo, devemos pensar em formas-sujeito que enunciam suas posições acerca das questões raciais perpassadas pela ideologia do lugar social ocupado por esses sujeitos. Desses lugares determinados ideológica e politicamente, sujeitos enunciam sobre as políticas de ações afirmativas, em sua maioria sendo contra tais políticas por compreenderem que elas ferem o princípio da igualdade supostamente existente no país, tido como democrático. Ademais, podemos encontrar em seus enunciados modos pelos quais tais sujeitos designam os indivíduos favorecidos por tais políticas – “negros”, “afrodescendentes”, “preto”, “mulato” e “afrobrasileiros” – o que corrobora no processo de individuação e identificação de tais sujeitos no acontecimento discursivo, pois tais nomes fazem trabalhar um passado de já-ditos referentes a tais designações, provocando um efeito de sentido que produz um debate sobre o que seria correto ou incorreto em tais denominações. A fim de discutirmos os sentidos dados no acontecimento pelas nomeações dadas aos indivíduos pertencentes a determinados grupos sociais, concentramos nosso trabalho pelo viés da Análise do Discurso, observando as questões colocadas por Orlandi (2010) e Pêcheux (2006), e pelo viés da Semântica do Acontecimento, focando as questões discutidas por Guimarães (2005). No que tange a Semântica do Acontecimento, analisaremos a questão da nomeação, por um viés discursivo-enunciativo, em que nomear recorta um passado como memória de dizeres acerca de um nome. Ademais, pretendo discutir como o processo de nomeação provoca o silenciamento de sentidos tidos como impróprios, dado o lugar-social de que se enuncia. Desse modo, faz-se mister a discussão sobre o “espaço de enunciação” em que se dão as nomeações, bem como questões referentes à reescrituração desses nomes, que produzem um efeito de sentido específico, dependendo da posição social em que os sujeitos estão inseridos.

Espaço de enunciação e a divisão do locutor

Tomar em consideração o espaço de enunciação é analisar a relação entre língua e falante dando-se no interior de um espaço regulado por disputas pela palavra, um espaço tomado pelo político, uma divisão da normatividade, condição sine qua non para a afirmação do pertencimento dos não incluídos, a inclusão dos desigualmente excluídos. Em nosso corpus de análise, podemos encontrar tal divisão dada na necessidade de

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afirmação do pertencimento de sujeitos que são nomeados politicamente, no espaço de enunciação, de acordo com a ideologia que se quer impor sobre as demais. Entendendo espaço de enunciação, segundo Guimarães (2005), como “( ) ... espaços de funcionamento de línguas, que se dividem, redividem, se misturam,

desfazem, transformam por uma disputa incessante. (

...

)”,

podemos perceber que a

nomeação dos sujeitos ocorre em meio a uma incessante disputa pelos sentidos, dada politicamente, ou seja, pelos direitos de dizer de cada um no interior desse espaço. Diante disso, é-nos possível compreender a disputa que ocorre por um silenciamento e, por que não, um apagamento de certas formas que nomeiam tais indivíduos, sob o pretexto de serem “politicamente incorretas”. Inicialmente, coloco como uma questão a ser discutida: o problema de analisar os discursos referentes às cotas raciais no interior de um espaço de enunciação que se constitui por uma forma peculiar de acesso à palavra. Como o espaço enunciativo é dividido de forma a distribuir os papéis a cada locutor para poder enunciar “preto”, “mulato” ou “negro” em seus dizeres? Certamente, esses direitos de acesso à palavra são sustentados por uma memória de dizeres, responsável pelo significado de tais palavras no acontecimento em que elas ocorrem. Portanto, analisar os sentidos que tais palavras produzem significa analisar o acontecimento em que elas se dão, recortando uma memória de dizeres já existentes para tais léxicos. Do meu ponto de vista, e ancorado em Pêcheux (2006), considerarei a análise dos léxicos no momento em que se faz começar trabalhar o acontecimento (o sentido novo), ou seja, o aparecimento das nomeações, em seu contexto de atualidade e no espaço de memória invocado por ele e que já começa a reorganizar os sentidos no acontecimento em questão. Para tal, considero que o acontecimento dá-se no interior de um espaço enunciativo que, como dito acima, distribui politicamente o acesso dos locutores às palavras. O acontecimento por mim analisado será o “Pronunciamento do Nação Mestiça e ACRA no Supremo Tribunal Federal”, ocorrido no dia 5 de março de 2010 por ocasião dos debates referentes à constitucionalidade das políticas de ações afirmativas para acesso ao ensino superior no Brasil. Além disso, considero as inscrições – pichações – realizadas pelos movimentos contrários a tais políticas em muros como sendo um acontecimento de linguagem a ser analisado referente a tais políticas. No interior de um espaço de enunciação, ao assumir um lugar para enunciar no acontecimento, o sujeito é agenciado de modo que ele necessita ocupar um lugar de fala, ou seja, há um agenciamento político da enunciação, de modo que há uma regularização daquilo que pode ser dito, por quem pode ser dito e para quem. Assim, como nos mostra Orlandi no trecho supracitado, os sentidos são divididos, e o acesso a esses sentidos também o são. Os sentidos não podem ser estabilizados, embora haja uma tentativa de

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que se tenham sentidos logicamente estabilizados; há, por parte dos locutores, e no interior de espaços enunciativos, um agenciamento, que é político, de tal forma que os sentidos deslizam, produzindo outros efeitos, não podendo se estabilizar. Ao garantir que o político divide os sujeitos em si, temos como conseqüência que os sentidos também são divididos, e da mesma maneira, ou seja, politicamente. Para

mim, seguindo o caminho trilhado por Orlandi e Pêcheux, o discurso é efeito de sentido entre locutores; consequentemente, no interior de um espaço de enunciação, devemos considerar o efeito de sentido produzido pelo discurso analisando, também, a divisão que ocorre no sujeito ao enunciar. Se tal sujeito é agenciado politicamente e, portanto, enuncia de um lugar-social, de uma posição-sujeito, da qual seus dizeres fazem sentido, resta-nos tentarmos compreender qual sentido temos no interior da cena enunciativa em questão.

De acordo com Orlandi (2009), “(

...

)

falar e fazer-se sujeito é estar numa região

do interdiscurso, de uma memória de sentidos.”, isto é, nossos dizeres são sustentados pela memória discursiva, pelos sentidos já-lá, que são re-significados no e pelo acontecimento em que se dão, considerando-se, também, a posição-sujeito ocupada por aqueles que os enunciam. Indubitavelmente, jamais poderemos querer tratar dos efeitos de sentido estabelecidos em um acontecimento sem considerarmos a memória de sentidos de tal léxico, aquela que se atualiza no e pelo acontecimento. Para melhor compreendermos a questão da divisão do sujeito, podemos analisar o enunciado seguinte, retirado do edital sobre a concorrência de vagas referentes às cotas raciais em seu vestibular:

Exige a UnB que “Para concorrer às vagas reservadas por meio do sistema de cotas para negros, o candidato deverá ser de cor preta ou parda, declarar-se negro e optar pelo sistema de cotas”.

www.stf.jus.br

No enunciado acima,

o

lugar

social ocupado

pelo

locutor é

o

de

diretor de

universidade. Ademais, podemos notar no enunciado a presença de uma posição sujeito

jurídica,

representante

da Universidade de Brasília,

UNB, pela

qual

se enunciam

os

direitos e deveres de um candidato a uma vaga por meio do sistema de cotas raciais.

Gostaria de chamar a atenção para os léxicos “preta”, “parda” e “negro”; no acontecimento em questão, vemos que o locutor enuncia de posições-sujeito diferentes,

pois ao designar “preto” e “negro”, fica claro o agenciamento político da língua que ocorre, levando
pois ao designar “preto” e “negro”, fica claro o agenciamento político da língua
que
ocorre, levando
à
individualização
dos
sujeitos.
Neste
ponto,
devemos
procurar
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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

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compreender como funciona na língua a memória, que torna possível a reescritura de “preta” e “parda” por “negro”. Na verdade, essa memória funciona no acontecimento como significando um outro acontecimento de linguagem existente na política brasileira, desde 2004, com a adoção da Cartilha do Politicamente Correto. Ao tratarmos tal cartilha como um acontecimento discursivo, podemos analisar os sentidos que sua adoção trouxe para a política de língua, mais, para uma política dos sentidos. Ao analisarmos as justificativas para a implantação de tal cartilha, observamos o seguinte enunciado:

Todos nós – parlamentares, agentes e delegados da polícia, guardas de trânsito, jornalistas, professores, entre outros profissionais com grande influência social – utilizamos palavras, expressões e anedotas, que, por serem tão populares e corriqueiras, passam por normais, mas que, na verdade, mal escondem preconceitos e discriminações contra pessoas ou grupos sociais. Muitas vezes ofendemos o “outro” por ressaltar suas diferenças de maneira francamente grosseira e, também, com eufemismos e formas condescendentes, paternalistas. Politicamente Correto & Direitos Humanos

A Cartilha do Politicamente Correto é uma tentativa de tornar obrigatório o uso de determinadas expressões, tidas como corretas, e proibir o uso daquelas tidas como politicamente incorretas. Vemos como uma justificativa para a adoção de tal cartilha a extinção de vocábulos que produzam um efeito de sentido preconceituoso, numa tentativa de dar cabo à discriminação existente no país. No entanto, coloco a questão de analisar essas enunciações que podem ser tidas como politicamente incorretas no interior de um espaço enunciativo, considerando a divisão dos locutores, tomados politicamente por seus dizeres.

Uma questão que levanto, considerando os dois recortes acima mostrados, é o sentido produzido na enunciação de “negro”, “pardo” e “preto”, tendo em vista seu locutor ocupar um lugar social de prestígio e marcado por um direito ao dizer. A meu ver, no primeiro recorte, ao analisarmos a questão de “negro”, “pardo” e “preto”, entramos na discussão que nos leva a considerar os estudos sobre a designação e a reescritura.

Sobre os procedimentos

Uma primeira coisa a fazer, ancorado nas teorias da semântica do acontecimento, desenvolvida por Eduardo Guimarães, é discutir acerca da designação. Contudo, devido às especificidades tanto da teoria enunciativa quanto da discursiva, deslocaremos os estudos da designação da enunciação para o discurso.

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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE De acordo

De acordo com Guimarães (2007:81), “(

)

designação é uma relação lingüística

... de sentido enquanto exposta ao real. Deste modo esta relação lingüística é uma relação

tomada na história.”; além disso, é preciso considerar que a designação “(

)

é

... produzida no acontecimento pelo processo enunciativo, e que ela é instável, embora

funcione sob o efeito da estabilidade.” Guimarães (2007:82).

Como visto acima, analisar como se dá a designação de uma palavra é considerar tal palavra inscrita em um acontecimento que atualiza uma memória de dizeres. Ademais, se analisar a designação é estabelecer uma relação entre acontecimento e memória, temos que, ao designar algo, fazemos reaparecer no acontecimento uma memória de dizeres referente a este algo que, muitas vezes, deseja-se se esquecer. Os indivíduos possuem algo que lhes é atribuído no processo de designação, visto

ser o sujeito dessas enunciações “(

)

sujeito enquanto fala de uma posição

)”

Guimarães (2005:41).

... ideologicamente configurada pelo interdiscurso (

... Evidentemente, os sentidos atribuídos pela designação constituem-se em relação à posição ideológica assumida por seu locutor, configurando a posição-sujeito da qual este enuncia. O sentido de um nome constitui um processo social de identificação, que pode,

ou não, ser apagado; ao apagar os sentidos que um nome faz surgir no acontecimento discursivo em que ocorre a designação, tem-se a constituição de outros sentidos, de outras memórias que são retomadas pelo acontecimento, pelo processo de designação. Junto ao procedimento de designação, podemos verificar um modo de redizer, insistentemente, algo que já foi dito, mas diferentemente, visto que esse “redizer” instaura no acontecimento uma nova memória de dizeres a ser recortada. A tal procedimento que constrói esse modo de redizer, damos o nome de reescrituração que,

segundo Guimarães (2007:84), é “(

...

)

o processo pelo qual a enunciação de um texto

rediz insistentemente o que já foi dito fazendo interpretar uma forma como diferente de si. Este procedimento atribui (predica) algo ao reescriturado.” Como nos diz Guimarães, o procedimento de reescritura predica algo ao reescriturado, ou seja, aquilo que é reescrito o é de forma diferente de si, fazendo significar no acontecimento diferentemente, pois também recorta uma memória distinta da anterior, que sustenta de outra maneira o dizer. Do meu ponto de vista, encaro a reescritura como uma forma de silenciamento (Orlandi 2007), visto que ela substitui a memória que sustenta o dizer, isto é, ao reescrever uma palavra, o sentido não é mantido como idêntico àquele da palavra reescrita, pois a relação entre a reescritura e os já-ditos, o interdiscurso, é diferente do recorte do interdiscurso realizado pelo termo reescrito. A fim de compreendermos melhor o que foi dito, peguemos uma definição encontrada na Cartilha do Politicamente Correto.

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Mulato –

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Mulato –

Mulato – Filho de mãe branca e pai negro, ou vice-versa. Mestiço de branco, negro ou indígena, de cor parda. Originariamente, na língua espanhola, a palavra se referia ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua, daí a sua carga pejorativa. Transposto para o português já com o sentido de mestiço, o termo serviu à ideologia do branqueamento da raça negra e entrou no imaginário popular, pela literatura nativista, para designar a pessoa sedutora, lasciva, inzoneira, sonsa, cheia de artimanhas ditas “tropicais”, um outro estereótipo.

Cartilha do Politicamente Correto

Acima temos o termo mulato sendo reescrito por definição, segundo Guimarães

(2007), por “(

)

Originariamente ( ...

)

se referia ao filhote macho do cruzamento de

)”.

Diante desse fato, afirma-se que tal

... cavalo com jumenta ou de jumento com égua (

... vocábulo possui uma forte carga pejorativa. No entanto, a memória que sustenta o dizer

de mulato não seria esta, mas sim aquela sustentada pelos discursos presentes nos dicionários, em que encontramos como sendo a mistura entre branco e negro, visto serem eles – os dicionários – instrumentos para a estabilização da língua, escolhendo que sentidos podem ou não fazerem-se presentes na memória de dizeres de uma sociedade. De outro modo, poderíamos entender o dicionário como um instrumento inserido em uma formação discursiva dominante, que almeja a regularidade dos sentidos da língua. Logo, no enunciado da Cartilha do Politicamente Correto, podemos encontrar duas posições-sujeito, isto é, aquela que sustenta os dizeres da definição encontrada nos dicionários, e aquela que sustenta os dizeres trazidos pela história – uma possível história da formação da palavra –, tendo essa como predominante. Contudo, ao fazer

com que o tido como politicamente incorreto seja predominante no sentido de mulato, temos um silenciamento de tal vocábulo, que levaria a um apagamento histórico: o da miscigenação racial. Na definição acima de mulato, dada pela Cartilha do Politicamente Correto, uma

de suas reescrituras foi “(

)

Originariamente, na língua espanhola, a palavra se referia

ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua, daí a

sua carga pejorativa (

)”,

daí a necessidade de se tentar calar, silenciar a presença

(

)

todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si

mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro ( a não ser que a proibição da interpretação própria ao logicamente estável se exerça sobre ele explicitamente) ( ) ...

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE O discurso:

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE O discurso:

O discurso: estrutura ou acontecimento.

Considerando-se a Cartilha do Politicamente Correto, e aquilo que se preconiza em seu interior, podemos perceber que ela não compreende como fato de linguagem aquilo que Pêcheux, supracitado, entende como sendo o enunciado passível de deslizes de sentidos. Na verdade, o que tal cartilha pretende é legislar sobre a língua, mais, legislar sobre os sujeitos que são tomados pela ideologia e enunciam-se sujeitos pela língua, de modo a distribuir seus sentidos politicamente em seus dizeres. Poderíamos compreender tal cartilha como uma reguladora dos sentidos da língua, como se esses sentidos fossem estanques, logicamente estabilizados, e o discurso não fosse efeitos de sentido entre locutores. Ora, de acordo com a cartilha do politicamente correto, teríamos que nomear negros, pardos, mulatos por afrodescendentes ou afrobrasileiros. Contudo, tendo em vista que nomear é um processo que se liga à memória de dizeres, penso que poderia haver a tentativa de silenciar, não só os sentidos de negro, pardo e mulato, como também um apagamento das memórias desses dizeres. Ao considerarmos que, nos dicionários, mulato é a mestiçagem entre branco e negro, o que indica uma formação da sociedade brasileira advinda da miscigenação, a proibição de circulação de tal palavra indica a necessidade de silenciamento de tal miscigenação; entretanto, qual seria a conseqüência maior desse silenciamento? Para tal análise, busco um recorte no pronunciamento da Nação Mestiça ao STF.

Alguns racistas defendiam que o mestiço seria um ser intermediário entre a raça superior e a inferior; outros que seria inferior à raça inferior. Esta última corrente racista afirmava que o mestiço, diferentemente das raças superiores e inferiores, e por não ser uma raça, seria um ser anormal, não adaptado a qualquer ambiente, propenso a doenças físicas e psicológicas, destituído das melhores qualidades das raças que lhe deram origem e tanto pior quanto mais se diferenciasse delas. Pronunciamento do Nação Mestiça e ACRA no Supremo Tribunal Federal

No recorte acima, podemos notar um locutor que enuncia de uma posição-sujeito

anti-racista. Ao reescrever mestiço, o faz baseado nos “dizeres racistas”, isto é, o locutor apresenta seu enunciado de uma posição-sujeito racista; para tal posição, mestiço seria

“(

)

um ser intermediário entre a raça superior e a inferior ( ...

)”.

Podemos perceber, por

... meio da reescritura, o posicionamento ideológico acerca do mestiço, significando no acontecimento discursivo, visto que a reescritura significa diferentemente por recortar uma memória de dizeres diferente da do termo reescrito. Segundo Pêcheux & Fuchs (1990), tentamos compreender que o recorte acima foi retirado de um discurso inserido em uma formação discursiva, de modo que o posicionamento ideológico do sujeito-enunciador fica claramente demarcado, visto que

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(
...
)
se
deve conceber o discursivo
como um dos aspectos materiais
do
que

chamamos de materialidade ideológica. Dito de outro modo, a espécie discursiva pertence ao gênero ideológico, o que é o mesmo que dizer que as formações ideológicas comportam necessariamente, como um de seus componentes, uma ou várias formações discursivas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito, a partir de uma posição dada numa conjuntura, isto é, numa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico.

A propósito de uma análise automática do discurso: atualização e perspectiva.

No recorte em questão, evidencia-se um discurso ideologicamente marcado pelo racismo, visto que se está preconizando a existência de diferenças entre raças, posicionado-as superiormente e inferiormente, de acordo com características fenotípicas, como a cor da pele. Ademais, podemos notar, pela definição de formação discursiva (FD) dada acima, que pode haver mais de uma FD no interior de uma mesma formação ideológica (FI). Como o recorte foi retirado de um texto maior, um discurso sobre políticas públicas para a eliminação da desigualdade racial, vemos marcarem-se neste discurso vários posicionamentos ideológicos acerca de tal política. Para esta análise, importa-nos como são mobilizados discursivamente os lexemas com os quais se designam os negros, visto este trabalho tratar de uma análise sobre o agenciamento dos sujeitos, no interior de uma formação discursiva dada, ao mobilizarem tais designações. Podemos perceber que, ao se tentar proibir a circulação do vocábulo mulato em discursos que se referem aos negros, há um silenciamento da miscigenação existente no país, visto fazerem-se interditados tais sentidos, tornando-os sem sentido. Cabe aqui um questionamento interessante, que seja, por que há uma tentativa de interdição, de silenciamento, dos sentidos da miscigenação em um país notadamente miscigenado? Com o propósito de analisar tal questão, procuramos discutir melhor os sentidos que o silêncio possui em tais discursos.

Silêncio e vozes sociais 2

Ao discutirmos e analisarmos um corpus referente a um assunto tão polêmico e debatido na sociedade hodiernamente, temos o cuidado de não fazê-lo de forma simplista, tampouco redundante. Sabemos que a sociedade moderna produz proficuamente movimentos de luta por direitos das minorias, mais especificamente, pela igualdade de todos os membros que nela existem. Mais, tais discussões trazem à tona

2 Este tópico é homônimo àquele presente no livro As formas do silêncio. No movimento dos sentidos, da Profª. Drª. Eni Orlandi.

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE um assunto

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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE um assunto

um assunto quiçá mais delicado ainda: o que significa ser nomeado por negro, pardo ou preto.

Ao nos defrontarmos com os discursos referentes às ações afirmativas, encontramos inúmeras vezes o termo negro referindo-se a todo indivíduo pertencentes a uma parcela da população que se identifica pela cor da pele. Entretanto, será que tal identificação se dá realmente por questões fenotípicas? Obviamente, devemos considerar, também, o processo de individuação (ORLANDI, 2008), pelo qual o sujeito torna-se individualizado pela ação do Estado, adquirindo uma forma-social, com a qual produzirá discursos na sociedade. Portanto, um sujeito tem de adquirir uma forma- sujeito histórica, no interior desse processo decorrente da ação do Estado, para que possa se identificar a uma posição social que lhe cabe. Nos dizeres de Orlandi

(2008:106)

(

...

)

é agora o Estado, com suas instituições e as relações materializadas pela

formação social que lhe corresponde, que individualiza a forma sujeito histórica, produzindo diferentes efeitos nos processos de identificação, leia-se de individualização do sujeito na produção dos sentidos. Portanto o indivíduo, nesse passo, não é a unidade de origem (o indivíduo interpelado em sujeito – I1) mas o resultado de um processo, um constructo, referido pelo Estado (teríamos então o I2, ou seja, indivíduo em segundo grau).

Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos

Portanto, se pensarmos dessa forma a relação entre o Estado e os movimentos de afirmação do negro na sociedade, como os movimentos favoráveis às políticas de ações afirmativas e igualdade racial, bem como considerarmos os processos de designação e nomeação dos negros por afrodescendentes, afrobrasileiros, mestiços, mulatos, entre outros, começaremos a compreender o papel do Estado em uma possível política de silenciamento atrelada à Cartilha do Politicamente Correto, no que tange às designações analisadas. Nos dizeres de Orlandi (2008), o Estado tornou-se responsável pelo processo de identificação que há em relação à questão racial. Contudo, ele – o Estado – também o é em relação à produção da Cartilha do Politicamente Correto, cuja

(

)

idéia do título, “Politicamente Correto”, tem, em parte, um sentido provocador.

... Foi escolhida com o objetivo de chamar a atenção dos formadores de opinião para o

problema do desrespeito à imagem e à dignidade das pessoas consideradas diferentes.

Cartilha do Politicamente Correto.

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Ora, o

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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE

III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE Ora, o

Ora, o Estado, então, é o responsável pela individualização do sujeito em uma sociedade que o trata – o sujeito – desigual apenas baseado em suas diferenças raciais,

físicas. Objetivando a extinção dessas desigualdades provocadas por tais diferenças, houve por parte do Estado a implantação de tal cartilha, na qual encontramos os termos proibidos de circularem na sociedade, visto tais termos produzirem sentidos ligados ao desrespeito dos sujeitos que os recebem. Entretanto, como conseqüência de tais políticas, o Estado acaba interferindo também em nomes que permitem a caracterização de nossa sociedade como multirracial, heterogênea, multicultural, visto que se tende a silenciarem-se os sentidos dessa miscigenação. Podemos entender tal proibição de circulação do mesmo modo que se proibiam alguns sentidos durante a ditadura, ou seja, como uma forma de censura política dos sentidos que podem circular na sociedade dita democrática. Nesse processo de silenciamento de tais palavras, vemos que elas são proibidas porque, por meio delas, faz-se circularem sentidos que se querem proibir. Ao se proibir que se circulem dizeres que contenham palavras como preto,

mulato, entre outros, “(

)

se proíbe ao sujeito ocupar certos ‘lugares’, ou melhor,

... proíbem-se certas ‘posições’ do sujeito.” Orlandi (2007), produzindo-se assim um efeito de homogeneidade social e racial entre os sujeitos. A meu ver, compreendo essa tentativa do Estado em silenciar essas palavras, com as quais se designam os sujeitos na sociedade, e por meio das quais eles ocupam certa posição ideológica em seus dizeres perante essa sociedade, como uma tentativa de classificar socialmente os indivíduos, tornando-os homogêneos em uma sociedade que, desde sua formação, é perpassada por ideologias várias, que se contrastam e se misturam, formando o que temos hoje como Brasil.

É por meio de discursos sociais que questionam essa forma de individuação do Estado que podemos compreender e, até mesmo, reverter o quadro social e ideológico de identificação racial no país. Nos discursos que tratam os indivíduos que resultam de um processo de mistura racial sob uma mesma forma de nomeação, vimos apagarem-se os processos ideológicos, simbólicos e históricos pelos quais esses indivíduos transformam- se em sujeitos e são individualizados pelo Estado. Na minha forma de compreender o silêncio, ancorado no pensamento de Orlandi (2007), trato a política do silêncio como

um efeito de discurso que instala o antiimplícito: se diz “x” para não (deixar) dizer “y”, este sendo o sentido a se descartar do dito. É o não dito necessariamente excluído. Por aí se apagam os sentidos que se quer evitar, sentidos que poderiam instalar o trabalho significativo de uma “outra” formação discursiva, uma “outra” região de sentidos.

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As formas do silêncio: no movimento dos sentidos

Nessa perspectiva dada acima pelo trabalho com o silêncio, procuro compreender de que forma ocorre a individualização do sujeito pelo Estado e quais sentidos são proibidos de circular nesses discursos, de modo a não significar, ou melhor, de modo a deixarem o silêncio tomar lugar na significação daquilo que foi excluído, que foi evitado.

Trabalhar o silêncio é perceber que ele tem seu movimento no limite em que se dão as formações discursivas em que se instauram os discursos. O silêncio traz consigo algo que significa, que o inscreve em uma dada formação discursiva, refletindo posicionamentos dos sujeitos, que são afetados pela ideologia. Só podemos ter a individualização no interior de uma formação discursiva, por meio de um processo de identificação. Vejo tal identificação resultante daquilo que está significado ao dizer, ou seja, aquilo que se faz sentido, mesmo sendo apagado no interior de uma “região de sentidos”. Trabalhar com dizeres que significam, que fazem sentido em uma determinada região do dizer, força-nos a trabalhar com a questão da memória discursiva; para tanto, faz-se mister compreendermos qual a importância dela para a produção dos sentidos. Se compreendermos que todo discurso emerge em condições que consideram o contexto sócio-histórico, ideológico, diremos, conforme Orlandi (2007:31), que

A memória, por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E, nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra. O interdiscurso disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada.

Análise do discurso: princípios e procedimentos.

Ao considerar o silêncio nos discursos referentes às políticas de ações afirmativas, penso em uma forma de compreendê-lo como funcionando não só na instância daquilo que é dito, na instância da formulação, segundo Courtine (2009), mas em uma política do silêncio, ou silenciamento, daquilo que sustenta essa formulação, que é da ordem o interdiscurso, da memória. Como vimos, acima, segundo Orlandi (2007), é a memória que disponibiliza os saberes que tornam possíveis os sentidos no discurso; ademais, também, o interdiscurso vem para auxiliar na sustentação que afeta o modo como o sujeito significa no interior de uma formação discursiva dada. Nos discursos referentes às políticas de ações afirmativas e igualdade racial e na cartilha do politicamente correto, faz-se trabalhar uma memória discursiva que sustenta discursos nos quais os nomes

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE como pretohttp://www.nacaomestica.org/audiencia_stf_pronunciamento_nm_acra.ht m Podemos notar, no recorte acima, pela formulação do enunciado “( ... ) Somar pretos e pardos e incluí-los numa categoria ‘negra’ ( ... )”, ao designar “pretos” e “pardos” por “negro”, há, pelo equívoco, um apagamento no significado de “pardos” e “negros”. " id="pdf-obj-12-2" src="pdf-obj-12-2.jpg">

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE como pretohttp://www.nacaomestica.org/audiencia_stf_pronunciamento_nm_acra.ht m Podemos notar, no recorte acima, pela formulação do enunciado “( ... ) Somar pretos e pardos e incluí-los numa categoria ‘negra’ ( ... )”, ao designar “pretos” e “pardos” por “negro”, há, pelo equívoco, um apagamento no significado de “pardos” e “negros”. " id="pdf-obj-12-8" src="pdf-obj-12-8.jpg">

como preto, pardo e mulato fazem emergir uma memória de submissão, de desrespeito, de falta de dignidade aos sujeitos que por elas são designados no processo de identificação. É fato que, na ordem dos saberes discursivos, nomes como negro e mulato fazem trabalhar no momento de sua formulação, no acontecimento em que se dão, sentidos constituídos discursivamente e historicamente, que trazem de novo para a discussão qual o significado de afirmar-se negro, pardo ou mulato em uma sociedade como a nossa, em que o preconceito e o racismo existem ainda de forma velada. No entanto, se analisarmos os discursos existentes sobre o fato de o Brasil ser um país como nenhum outro, pelo simples motivo de haver aceitação da grande diversidade existente no país, podemos notar que essa memória discursiva é silenciada, apagada, para dar lugar a outra que sustente agora os novos dizeres sobre a composição étnico-cultural da

população brasileira. É no trabalho em que se procura silenciar uma memória a respeito do negro na sociedade brasileira, bem como naquela que busca exaltar a miscigenação existente no país, que se confrontam os discursos sobre a identidade dos indivíduos nesta sociedade. O Estado, de um lado, procura enfatizar a igualdade que existe entre as diversas etnias que existem no país; os movimentos étnicos promovem uma reestruturação nos discursos de modo a fazer circularem dizeres e sentidos contrários à igualdade proposta pelo Estado, mostrando as divisões existentes e a necessidade de se valorizar tais divisões, de forma que as ideologias distintas que existem possam ocupar realmente espaços iguais, o que não significa uma igualdade de ideologias. No recorte abaixo, retirado do Pronunciamento do Nação Mestiça e ACRA no Supremo Tribunal Federal, podemos perceber como se deram as nomeações referentes à cor/raça nos censos oficiais de 1972, 1890 e censos seguintes.

No Brasil, seu primeiro censo oficial, de 1872, tinha para a variável “cor/raça” as opções ‘branca’, ‘preta’, ‘parda’ e ‘cabocla’; no censo de 1890, a opção ‘parda’ foi substituída por ‘mestiça’, retornando o termo ‘parda’ em todos os censos seguintes que tiveram o quesito “cor/raça”, passando a incluir também os mestiços caboclos. Assim, o censo brasileiro sempre trouxe um espaço para a expressão da identidade mestiça. As opções ‘preta’ e ‘branca’ sempre constaram nos quesitos “cor/raça” dos censos, os quais nunca trouxeram a opção ‘negra’. Somar pretos e pardos e incluí- los numa categoria ‘negra’ tornou-se, porém, uma reivindicação de movimentos negros, inclusive junto ao IBGE.

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Apaga-se a memória que sustenta tais dizeres, interditando-os de fazerem sentido nos discursos, pois tem-se a ilusão de que tais termos designam as mesmas coisas, ilusão de que eles produzem os mesmos sentidos no discurso, isto é, uma ilusão de sinonímia. Dessa forma, a sociedade brasileira seria dividida em brancos e negros, eliminando-se, assim, os sentidos de miscigenação, de heterogeneidade que há no país desde sua formação, desde seu descobrimento. Dessa forma, ao darmos um efeito sinonímico aos termos negro”, “preto”, “mulato”, deslocamos os sentidos já existentes para tais termos, mobilizando também a memória que os faz significar nos discursos, silenciando aquilo que, em discursos de igualdade, da existência de um país democrático, seria o que sustentaria tais discursos. Cabe a nós, agora, analisar como se dão tais processos de apagamento de memória por meio das designações ditadas pela cartilha do politicamente correto e pelos discursos dos movimentos sociais contrários a isso. Prosseguindo a análise, traremos recortes do pronunciamento do grupo Nação Mestiça e ACRA (Associação dos Caboclos e Ribeirinhos da Amazônia), proferido no Supremo Tribunal Federal, no dia 05 de março de 2010 sobre a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa. Ademais, serão analisados recortes da Cartilha do Politicamente Correto e Direitos Humanos, produzida e posta a circular durante o governo Lula, em 2004. Os recortes serão analisados tendo como base os procedimentos de reescritura, Guimarães (2007), os de paráfrase, Orlandi (1993). Parto do princípio de que nossa análise não será conteudista, ou seja, os sentidos não se dão na ou pela evidência, mas fazem parte de um constructo sócio-ideológico, no qual estão em jogo posições ideológicas manifestadas por indivíduos que ocupam determinadas posições-sujeito no discurso. De início, trago para análise um recorte da Cartilha do Politicamente Correto.

Falamos sobre a inferioridade do negro a partir da observação empírica de sua condição socioeconômica. Cartilha do Politicamente Correto & Direitos Humanos

Nesse enunciado, podemos observar uma nominalização sob a forma de pré-

construído, ou seja, dizer “(

...

)

a inferioridade do negro ( ...

)”

é uma forma nominal que

pode ser reescrita por paráfrase como O negro é inferior, materializando sob essa forma de pré-construído uma memória discursiva que sustenta os dizeres sobre a posição do negro em nossa sociedade. Tal memória, neste acontecimento, faz trabalhar enunciados que compõem um já-lá acerca do negro, mostrando de forma que tais enunciados sustentarão os dizeres em acontecimentos presentes sobre os mesmos. De acordo com a Cartilha do Politicamente Correto, denominar alguém de crioulo seria incorreto, pois ela define esse termo como “Antiga designação do filho de escravos,

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hoje é um termo pejorativo e discriminador do indivíduo negro ou afrodescendente.” Se analisarmos os discursos raciais no Brasil, verificaremos que, em sua maioria, baseiam- se no fato de os negros ou afrodescendentes atuais serem descendentes dos escravos trazidos para trabalharem aqui no país. Logo, de certa forma, todos os negros existentes no país são frutos dos antigos escravos que aqui viviam, portanto, ao tratar como “politicamente incorreto” designar alguém como “crioulo” por tal termo fazer trabalhar uma memória de discursos escravistas é fazer silenciar os sentidos de escravidão que habitam os discursos sobre o negro. Ademais, podemos notar na mesma definição de “mulato” o seguinte enunciado:

“negro ou afrodescentende”. Vemos que a partícula “ou” dá um efeito de sentido de sinonímia ao enunciado, ou seja, trata-se “negro” como sinônimo de “afrodescendente”. Contudo, sob esse efeito de sinonímia, temos um silenciamento da miscigenação que existe no país. Analisemos o que dizem os dicionários a respeito do lexema “afrodescendente”. No Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa, encontramos como definição para “afrodescendente” o seguinte:

  • 1. Adj. Que ou quem descende de família ou indivíduo africano.

Podemos observar que tal definição leva em consideração a árvore genealógica, a origem do indivíduo enquanto atrelado a seus predecessores. Em tal definição, observamos que o locutor-lexicógrafo apresenta sua posição ideológica sob uma forma- sujeito científica, sem considerar o processo de identificação a que o sujeito é submetido pelo Estado. Logo, para ser “afrodescendente”, basta ter sua origem ligada genealogicamente a um “afrodescendente”. No mesmo dicionário, encontramos a seguinte definição para “negro”:

  • 1. Adj.(Indivíduo) Que tem a pele escura;

  • 2. S. A cor preta;

  • 3. Adj. Dessa cor;

4.

Diz-se dessa cor.

Podemos notar que o locutor-lexicógrafo reescreve o lexema “negro”, definindo-o como predicando uma cor e, conforme a definição 1, como sendo sinônimo de “escuro”. Verificamos, então, que ligado aos lexemas “negro” e “afrodescendente”, temos memórias distintas trabalhando, ou seja, os saberes que são recrutados para compor a significação de tais enunciados são de ordens distintas no discurso. Portanto, ao reescrevermos “negro” como “afrodescendente”, fazemos trabalhar uma memória

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discursiva, no presente do acontecimento, da formulação do enunciado, distinta daquela que seria trabalhada pelo primeiro nome. Não obstante, estamos lidando com o

equívoco, isto é, nos dizeres de Pêcheux (2006:53), o fato de que “(

...

)

todo enunciado é

intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar

discursivamente de seu sentido para derivar um outro (

)”.

Nesse deslize dos

... enunciados, apagamos uma memória em detrimento de outra que queremos fazer trabalhar. Voltemos, agora, à análise da Cartilha do Politicamente Correto, comparando uma de sua definição para mulato” com aquela que consta do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras. Neste dicionário, encontramos a seguinte definição para o termo:

  • 1. Adj. Que descende de brancos e negros;

  • 2. Mestiço de negro, índio ou branco, de pele morena clara ou escura; pardo,

fulo (1);

  • 3. S.m. pessoa mulata.

Notamos que o locutor-lexicógrafo traz como uma reescritura de “mulato” a mestiçagem existente na sociedade brasileira, originária da mistura entre negros, brancos e índio. Logo, tem-se claramente um posicionamento ideológico por parte do locutor-lexicógrafo que ocupa uma posição-sujeito da qual enuncia essa miscigenação existente na sociedade brasileira, que se procura silenciar ao se dizer “afrodescendente” no lugar de “mulato”. Na definição dada ao mesmo termo pela Cartilha do Politicamente Correto, observamos a formulação do seguinte enunciado:

Mulato – Filho de mãe branca e pai negro, ou vice-versa. Mestiço de branco, negro ou indígena, de cor parda. Originariamente, na língua espanhola, a palavra se referia ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua, daí a sua carga pejorativa. Transposto para o português já com o sentido de mestiço, o termo serviu à ideologia do branqueamento da raça negra e entrou no imaginário popular, pela literatura nativista, para designar a pessoa sedutora, lasciva, inzoneira, sonsa, cheia de artimanhas ditas “tropicais”, um outro estereótipo.

Observamos que

a primeira definição

dada

é

aquela

mesma presente no

dicionário, como sendo “filho de mãe branca e pai negro, ou vice-versa”. Nesta

formulação, há uma estabilização do léxico, visto o locutor assumir uma posição-sujeito idêntica àquela do locutor-lexicógrafo. Em seqüência, observamos uma reescritura de

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE “mulato” como

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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE “mulato” como

“mulato” como “mestiço”, o que significa que o locutor assume uma posição-sujeito que enuncia considerando a miscigenação existente no país. Não obstante, é interessante notar uma reescritura não presente nos dicionários, ou seja, apagada da circulação da

 

)

língua, qual seja, a definição de “mulato” como “( cavalo com jumenta ou de jumento com égua (

)”.

filhote macho do cruzamento de Essa memória foi apagada dos

Considerações finais

Poderíamos pensar na Cartilha do Politicamente Correto como uma forma de fazer calarem-se as vozes sociais que buscam seu lugar nos discursos atuais. Ela busca silenciar os sentidos que existem por meio de um apagamento de certas formas históricas existentes na língua portuguesa, uma forma que o Estado tem para extinguir certas identidades em detrimento da afirmação de outras. Procuram-se apagar as identidades mestiças, fruto da miscigenação ocorrida no processo sócio-histórico da constituição do brasileiro, buscando a afirmação formas-sujeitos individuadas como puras.

Entendo que, como o intuito de corroborar para o apagamento da identidade mestiça existente no país, busca-se uma homogeneização racial da sociedade, na qual sejam bem definidas as características ideológicas de cada grupo, tendo um deles como dominante, que quer impor sua ideologia, de forma a manter sua estabilidade social. Os demais, unidos em um único grupo, acabam por perderem suas verdadeiras identidades em busca de uma hegemonia proposta pelo grupo dominante, como uma forma de controlar as posições ocupadas pelos sujeitos em tais grupos. Evidentemente, este trabalho não finaliza a análise empreendida, na busca de um entendimento discursivo das formas de individuação existentes pelo Estado em nossa sociedade. Contudo, espero ter contribuído de alguma maneira para incitar o debate sobre os silenciamentos e apagamentos que ocorrem na sociedade brasileira, como forma de identificação de certos grupos sociais, que querem ocupar uma posição-sujeito,

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responsáveis por seus dizeres, por sua ideologia, nos discursos sociais que permeiam toda a sociedade brasileira do século XIX. Mostra-se necessário insistir na diversidade étnica existente no país, de forma a dar voz a todos que dela são separados. Ademais, devemos trabalhar por uma política de línguas que considere a questão do politicamente correto e quais os sentidos dele advindos, de forma que os sentidos continuem a ser divididos, visto ser a sociedade dividida, sem um consenso, mas que mergulha no dissenso e nele constrói seus dizeres, suas formas de expressão e de pensamento. Considerar o politicamente correto como consenso é admitir a não existência do diferente, é tratar a todos como sendo iguais, quando eles carecem da desigualdade para que adquiram uma forma-sujeito histórica e façam parte de uma individuação requerida em um Estado heteróclito desde sua origem como tal.

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