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Thais Oliveira Ponte
Thais Oliveira Ponte
Thais Oliveira Ponte

Thais Oliveira Ponte

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

Apresentado como requisito parcial à obtenção grau de Bacharel em arquitetura e Urbanismo junto a Coordenação do Centro de Ciências Tecnológicas da Universidade de Fortaleza - UNIFOR

UMA LEITURA CRÍTICA DA

POLÍTICA HABITACIONAL EM FORTALEZA:

ANÁLISE E PROPOSTA PARA O POÇO DA DRAGA

Thais Oliveira Ponte

Orientadora: Profª Msc. Amíria Bezerra Brasil

Fortaleza

Junho 2013

Thais Oliveira Ponte

UMA LEITURA CRÍTICA DA POLÍTICA HABITACIONAL EM FORTALEZA:

ANÁLISE E PROPOSTA PARA O POÇO DA DRAGA

Apresentado em 21/06/2013

Banca Examinadora

Profª Msc. Amíria Bezerra Brasil (Orientadora) UNIFOR

Profª Msc. Carla Camila Girão Albuquerque UNIFOR

Prof°. Dr. Luis Renato Bezerra Pequeno - UFC

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Ao Tarciso e ao Thiago à minha mãe, que me deu a vida e ao Pedro que me faz nascer de novo todo dia

Gostaria de agradecer a minha mãe, Maria Auxiliadora de Oliveira, que me declara todos os

Gostaria de agradecer a minha mãe, Maria Auxiliadora de Oliveira, que me declara todos os dias, através de pequenos atos, seu amor incondicional e acredita com toda a força na minha vitória, seja ela qual for. Ao pequeno grande homem, Pedro Ponte Mota, que em sua pequenez possui a força para arrebenta todos os paralelepípedos da minha vida. Ao Gatinho mais manhoso que já encontrei pela vida, Thiago Mota Fontenele e Silva que enche de alegria meu ser com seu ronronado. A todos da família, tios, tias, avós, avôs e primos, por ser sempre um ponto de aconchego.

Àqueles que se tornaram minha segunda família, fazendo parte do meu cotidiano e mais que isso, me ajudando nas descobertas e desafios. Em especial às minhas amigas Sara Aragão, Rostana Anizia, Lorena Morais, Manuela Figlioulo, Juliana Queiroz, Michelle Pessôa, Fátima Cassandra e Ilana Aguiar, pelos momentos de alegria e pelas discussões que ajudaram a fazer da minha graduação uma experiência maravilhosa e enriquecedora.

Agradeço aqueles aos quais devo boa parte do meu aprendizado e conhecimento dentro da escola, aos mestres de profissão que dão sentido à palavra universidade. Agradeço em especial à minha orientadora Amíria Bezerra Brasil, pela paciência, dedicação, atenção, incentiva e, principalmente, por guiar meus passos nos caminhos do urbanismo. Aos professores e colegas, Carla Camila Girão, Antônio Martins da Rocha Junior, Mario Roque e Napoleão Ferreira com os quais tive a oportunidade e o prazer de aprender.

Gostaria de agradecer a toda a comunidade Poço da Draga, na pessoa do Seu Aluízio, líder comunitário, pela receptividade e exemplo de força.

Ao programa de bolsa PROBIC financiado pela Universidade de Fortaleza, por todos esses anos de financiamento ao grupo de pesquisa: Entre o Concebido e o (não) Construído: Planos Urbanísticos Propostos para a Cidade de Fortaleza. A todos os funcionários da Universidade de Fortaleza, por terem contribuído no meu dia-a-dia, auxiliando-me em tarefas simples, porém de grande valia.

Aos colegas Vinicius Ricardo, Carla Sales e a todos que contribuíram com desenvolvimento desse projeto.

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Área de Preservação Permanente Banco Nacional de Habitação Centro Dragão do Mar de Arte e

Área de Preservação Permanente

Banco Nacional de Habitação

Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura

Caixa Econômica Federal

Companhia de Habitação

Estudo de Impacto Ambiental

Fundação da Casa Popular

Fundo de Garantia por Tempo de Serviço

Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza

Habitar Brasil BID

Institutos de Aposentadoria e Pensões

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Indústria Naval do Ceará

Programa de Aceleração do Crescimento

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APP

BNH

CDMAC

CEF

COHAB

EIA

FCP

FGTS

HABITAFOR

HBB

IAPs

IBGE

INACE

PAC

Plano Diretor Participativo do Município de Fortaleza

PDPFor

Planos Estratégicos Municipais de Assentamentos Subnormais

PEMAS

Plano Nacional de Habitação

PNH

Programa Minha Casa Minha Vida

PMCMV

Região Metropolitana de Fortaleza

RMF

Serviço Federal de Habitação e Urbanismo

SERFHAU

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Devido

à

sua amplitude,
sua
amplitude,

dentre os diversos aspectos do

problema

da

urbanização

de

Fortaleza,

gostaríamos

de

destacar a questão habitacional.

Este

trabalho.

é

o

tema

do

presente

Com efeito, a política pública habitacional de interesse social atual, que supostamente deveria atender às demandas da população residente em moradias precárias, possui diversas lacunas. Dentre elas, predomina a forma dissociada por meio da qual os trabalhos propostos são realizados. Em geral, as ações de suporte social não são pensadas de modo complementar em relação às intervenções físicas. Assim, ocorre a incompatibilidade entre as diferentes etapas do trabalho. Em consequência, as reais

necessidades das comunidades concernidas não chegam a ser tratadas de maneira eficiente.

Além disso, constatamos que outra falha importante da política pública habitacional de interesse social atual reside no fato de que, na maioria dos casos, medidas uniformizadoras ou massificadoras são realizadas em comunidades inteiramente distintas, desprezando, assim, suas particularidades e diferenças. Deste modo, na busca da solução mais rápida, frequentemente se procedem reassentamentos em áreas muito distanciadas dos equipamentos necessários à moradia digna.

Para uma pessoa que não mora na favela, a expansão de áreas de ocupação irregular em Fortaleza corresponde ao aumento dos fatores de degradação ambiental, das áreas insalubres, dos antros da violência urbana. De um ponto de vista externo,

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portanto, a favela apresenta todos os estigmas da exclusão social.

Em grande medida, isso se

deve

ao

fato

de

que,

historicamente,

não

em

Fortaleza, mas em todo o Brasil, as

políticas

à

construção de casas. Iniciativas no

sentido

a

outros tipos de moradia, como o

aluguel

a

toda uma série de bens que está

vinculada à moradia, por exemplo,

públicas

de

habitação

restringem-se

de

historicamente

o

bem

acesso

como

ampliar

subsidiado,

os

meios

de

transporte,

a

educação, o trabalho, o lazer e

a

saúde, ainda não chegaram a sair do papel.

Em virtude da ineficiência das políticas públicas habitacionais, as áreas de habitação irregular multiplicam-se, conforme registra, de forma alarmante, o relatório de 2012 da ONU-Habitat, que situa Fortaleza entre as capitais mais desiguais do Brasil no que concerne a habitação.

Parece-nos, portanto, clara a necessidade de pôr novamente em questão a concepção e a execução das políticas habitacionais em Fortaleza. Nesse sentido, torna-se necessário questionar, sobretudo, a maneira pela qual os projetos habitacionais vêm sendo implementados, ou seja, por que motivos esses projetos, na maioria dos casos, não satisfazem as necessidades reais da população por ele concernida.

Por

outro lado,

o

rigor

da

investigação científica

exige

que

esse

questionamento

 

seja

precedido

por

uma

análise

dos

instrumentos

ideológicos

de

justificação

da

ineficiência

das

políticas

públicas

de

habitação

existentes.

 

Assim, este trabalho consiste em uma tentativa de abordar, de forma crítica, o saber e as práticas de gestão da habitação popular, tentando escapar dos modelos prontos, veiculados pelas

políticas

de

habitação

popular

vigentes

no

Brasil

e,

especialmente,

na

cidade

de

Fortaleza.

Nosso

objetivo

geral

é

elaborar um projeto físico de intervenção na favela do Poço da Draga, diferente dos tradicionais projetos de habitação e de urbanização de favelas que veem sendo atualmente executados.

Consequentemente, nossos

ser

objetivos

específicos

podem

formulados do modo seguinte: (a) desmistificar os entraves das políticas públicas habitacionais; (b) realizar um estudo sobre as políticas públicas de habitação

popular, no contexto brasileiro, com ênfase em suas diretrizes e formas de intervenção; (c) identificar os erros na concepção e na execução dos projetos elaborados nessas, especialmente, na cidade de Fortaleza, através de estudos de caso; (d) realizar estudo de referência que sirva de

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suporte para a elaboração de um projeto físico; (e) desenvolver a análise e a caracterização da área em estudo; (f) elaborar diretrizes para a concepção de um projeto urbanístico; e (g) elaborar um projeto físico de intervenção urbana na favela do Poço da Draga.

que concerne à

metodologia, de início, realizamos pesquisa bibliográfica e revisão de literatura acerca da questão da habitação popular, para síntese e análise do referencial teórico e do levantamento histórico.

No

Em

teórica

foi

seguida,

a

discussão

pelo

complementada

estudo de caso da comunidade do

Poço da Draga também conhecida como “comunidade do Baixa Pau” –, localizada no Bairro do Centro, em Fortaleza. A escolha desse local deve-se, em primeiro lugar, ao fato de que se trata da área de habitação irregular mais antiga de Fortaleza já identificada na primeira planta de ordenamento

físico da cidade, feita por Silva Paulet ainda no início do século XIX (Castro, 1994). Em segundo lugar, ressalta o fato de que, desde então, tal comunidade vem sendo alvo de diversas tentativas de remoção e de urbanização, bem como tem levantado o interesse do mercado imobiliário, no entanto, seus moradores vêm resistindo, historicamente, a todo tipo de pressão para tirá-los dali.

da

comunidade em questão exige uma consideração abrangente de seus diferentes aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais, que devem ser compreendidos como partes integrantes de uma totalidade. Sem essa visão de conjunto, não é possível

compreender, a rigor, a questão habitacional tal como ela se apresenta naquele lugar em particular.

Desse

modo,

o

estudo

Ressalta-se,

trabalho

de

campo

ainda,

que

o

pela

passou

coleta de dados, através de entrevistas com moradores da comunidade. A sistematização desses dados mostrou-se decisiva para a definição das diretrizes específicas a serem seguidas na elaboração do projeto urbanístico.

A primeira metade deste trabalho foi concebida de modo a servir de base teórica para a proposta física de intervenção na

favela do Poço da Draga que é desenvolvida na segunda metade. A motivação que as animas é a mesma, a saber, tentar atender às necessidades específicas desta comunidade de modo mais efetivo e

suas

tendo em vista

particularidades. Ademais, pensamos que isto tem de ser feito através de sua integração à cidade

de Fortaleza, por meio de um projeto concreto de urbanização não só do espaço ocupado pela comunidade, mas também de seu entorno.

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Neste capítulo, fazemos uma breve abordagem dos entraves que pensamos impossibilitar o planejamento, a elaboração e a execução de projetos habitacionais e propostas de urbanização de favelas aptas a atender a população de forma eficaz.

tecemos

da

noção de ideologia e analisamos em

início,

considerações

De

gerais

acerca

que

soluções propostas para a questão

justifica-se

das

medida

a

ineficácia

habitacional

ideologicamente.

as

o

sistema

produção de habitações sociais no

contexto

isso,

da

contradições

Em

seguida,

que

expomos

marcam

de

financiamento

do

capitalismo

contemporâneo.

Com

evidencia-se

que

a

manutenção

irresoluta

do

problema

da

habitação

deriva

de

interesses

muito escusos e da politicagem.

Por fim, examinamos os motivos pelos quais pensamos que a desconsideração da estética da favela, nos processos de produção habitacional, bem como de urbanização de favelas, cria espaços descaracterizados, com os quais a população não pode se identificar nem, muito menos, deles se apropriar.

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Antes de abordar a questão da habitação social propriamente dita, é preciso discutir certas questões
Antes de abordar a questão da habitação social propriamente dita, é preciso discutir certas questões

Antes de abordar a questão da habitação social propriamente dita, é preciso discutir certas

questões de fundo relativas ao que podemos chamar de ideologia do

problema

da

habitação.

É

importante,

portanto,

de

início,

definir

o

que

se

entende

por

ideologia,

para, posteriormente,

associar

este

conceito

ao

de

habitação.

Em A ideologia alemã (1998),

Marx

ideologia corresponde, em primeiro lugar, a uma falsa consciência, a uma representação do mundo em

que

invertida, ou seja, uma representação na qual as ideias determinam o real. Em segundo

realidade encontra-se

a

e

Engels

afirmam

que

a

lugar, esse conjunto de ideias, essa representação invertida da realidade cumpre um papel de justificação da ordem social e de manutenção da dominação de classe. Em suma, podemos dizer que ideologia é um conjunto de ideias que serve como instrumento de dominação social.

Nesses termos, tendo em vista a problemática habitacional, nossas perguntas de partida são:

existe uma falsa verdade na questão habitacional? Se existe tal falsa verdade, onde ela se encontra? Para responder a essas perguntas, entendemos ser necessária uma explicação preliminar das condições em que vive o homem com problemas habitacionais, isto é, o sujeito habitacional.

Villaça

(1986,

habitação surge com a invenção do

elemento

necessário ao modo de produção

“homem

da

Conforme

p.

6),

Flávio

o

problema

livre”,

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capitalista. Ao contrário do que ocorria no modo de produção escravista, no qual os homens eram obrigados a trabalhar; no capitalismo, o trabalho é realizado por sujeitos livres. Entretanto, o homem livre trabalhador, muitas vezes, não têm condições econômicas de pagar por uma habitação, vindo a morar em comunidades carentes, localizadas em terrenos públicos ou privados, conhecidas como “favelas”.

Geralmente, essas comunidades são áreas de degradação urbana, com carência de infraestrutura básica, serviços urbanos e equipamentos sociais. Tais comunidades constituem áreas degradadas ambientalmente, cujas habitações apresentam diferentes graus de precariedade. As populações aí residentes tentam como podem se estabelecer como cidadãos, para assim terem direito a habitar a cidade na qualidade de participantes de uma coletividade política, que lhes garante direitos e

Figuras 1.1 e 1.2: autoconstrução informal comum nas favelas das grandes metrópoles brasileiras. Fonte: Produzir

Figuras 1.1 e 1.2: autoconstrução informal comum nas favelas das grandes metrópoles brasileiras. Fonte: Produzir casas ou construir cidades? Coordenador João Sette Whitaker Ferreira. São Paulo : LABHAB ; FUPAM, 2012.

Sette Whitaker Ferreira. São Paulo : LABHAB ; FUPAM, 2012. deveres. No entanto, eles se encontram

deveres. No entanto, eles se encontram à margem da sociedade, incapazes de exercer plenamente a cidadania. A favela passa então, a ser a opção de abrigo para esse público que existe à deriva nas grandes cidades e nas metrópoles (figuras 1.1 e 1.2). Essas características fazem da favela não só um marco visual nas cidades brasileiras, mas, sobretudo, um estigma para a sociedade contemporânea.

Visualizar a questão

uma

diversas

o

homem livre está inserido, esconde, no entanto, a raiz do problema.

Com

“a questão

habitacional é um problema muito

fundo,

impossível de

1986, p. 3). Ocorre então, o que se pode chamar de naturalização da questão habitacional, isto é, o processo pelo qual somos levados a

resolver” (Villaça,

complexo, difícil e,

acreditar que

isso, a sociedade pode

situações-problema,

habitacional somente rede complexa de

como

nas

quais

no

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acreditar que uma questão histórica, a da habitação, que se desenvolveu ao longo de vários séculos, é um fenômeno natural e, como tal, não pode ser modificado. O problema da habitação surge, assim, como um problema insolúvel.

A naturalização da questão

habitacional fornece, de fato, a justificativa de que a classe dominante necessita para explicar, ao homem livre com problemas habitacionais, ao sujeito habitacional, o motivo pelo qual seus problemas não podem ser resolvidos. Villaça (1986, p. 3) mostra que conceber a habitação como um “problema” nos leva a acreditar que o problema “sempre existiu e sempre existirá”, o que decorre de um erro de definição

que esconde a verdadeira realidade.

Em suma, crer que a habitação

social é um problema sem solução equivale a crer em uma falsa verdade, isto é, crer na ideologia do

problema da habitação.

Pensamos, ao contrário, que o mais importante é compreender

que todos os aspectos definidores do que se considera como uma favela podem ser transformados em condições adequadas de moradia. Ou seja, tais aspectos não são naturais, portanto, não fazem da questão da habitação um problema insolúvel. Trata-se, pelo contrário, de um desafio urbanístico e econômico, a ser enfrentado pela via de um pensamento e de uma prática de transformação.

via de um pensamento e de uma prática de transformação. Com o surgimento do capitalismo, os
via de um pensamento e de uma prática de transformação. Com o surgimento do capitalismo, os

Com

o

surgimento

do

capitalismo,

os

bens

de

toda

espécie passam a ser produzidos visando a um objetivo principal: o lucro. Em busca da maior lucratividade possível, o capitalismo transforma tudo em mercadoria, em especial, a força de trabalho, o elemento humano, que gera o valor. Em tese, através da venda de sua força de trabalho, o trabalhador teria condições de adquirir os bens necessários para viver e se reproduzir, tornando-se, por conseguinte, livre. Na prática, porém, o homem livre, produzido pelo capitalismo, ao contrário do que a burguesia tenta mostrar, não deixa de ser explorado, apenas passa a ser explorado de forma diferente daquela que valia para o homem feudal. A exploração capitalista dá-se sob a forma do controle através do trabalho. O trabalhador livre tem a necessidade de comprar os bens que possibilitam sua subsistência e, para isso, precisa trabalhar. Neste contexto, é importante notar que o trabalhador também é responsável

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pela aquisição da “casa própria”

(Villaça,

1986,

p.

6),

o

que

constitui

um

imperativo

a

ser

cumprido,

seja

com

economias

próprias

(poupança,

FGTS

etc.),

seja com ajuda de algum programa

público

de

financiamento

da

habitação.

Muitos

produtos

que

em

outras sociedades e em outras épocas não eram considerados mercadorias, encontram-se hoje nas “prateleiras do capitalismo”:

entre eles, a habitação. A constatação é, portanto: a habitação é uma mercadoria. No entanto, trata-se de uma mercadoria de difícil venda e difícil aquisição se comparada a outros bens produzidos pelo capitalismo. Como afirma Villaça (1986, p. 7):

“Há razões estruturais que impedem o modo capitalista de produção de oferecer habitação decente a todos os membros da sociedade”. Tais razões estruturais, pelas quais o sistema

capitalista dificulta a compra da casa própria, são as seguintes. De

Figura 1.3: exemplo de construção feita pelas construtoras para segmento de quatro a três salários mínimos. Fonte: Produzir casas ou construir cidades? Coordenador João Sette Whitaker Ferreira. São Paulo : LABHAB ; FUPAM, 2012.

início, há o problema do vínculo da habitação à terra, o que dificulta sua produção em larga escala e impossibilita sua ágil distribuição, como acontece com outras mercadorias. Em segundo lugar, há o fato de que a propriedade privada

da

terra aumenta excessivamente

o

preço do produto casa. Em

virtude disto, a população que não

tem condições financeiras de pagar por uma habitação é obrigada a morar em áreas mal localizadas, sem equipamentos urbanos básicos, sem infraestrutura, ou seja, sem condições básicas de moradia. Em terceiro lugar, acresce o fato de que a habitação, por mais singela que seja a construção, exige muito tempo para ser produzida e mais tempo ainda para ser consumida. Isto foge, por completo, da lógica capitalista de uma rápida rotação

do capital para obtenção de mais

lucro. Finalmente, o fato de que não é lucrativo investir na qualidade

de vida do trabalhador, pois quanto

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menos isso for feito maior será o valor da riqueza social que sobrará para gerar lucro. Tudo isso somado, pode-se reafirmar que a transformação de habitação em mercadoria é extremamente difícil.

É relevante acrescentar a

esses

itens

citados

por Villaça

(1986),

a

incompatibilidade da

habitação social

capitalismo a seu mercado

consumidor (figura 1.3). A população de baixa renda não tem condições financeiras de arcar com parcelamentos para a compra da casa própria. Muitas vezes, pessoas desse segmento da população não têm sequer o suficiente para as despesas básicas com energia, água e

prática

pelo

oferecida

alimentação, etc. Daí, a corriqueira do “gato”,

é

conhecido popularmente o desvio de

energia e água

Com efeito, em sua grande maioria,

trata-se de trabalhadores informais, sem carteira assinada nem garantias trabalhistas,

como

da rede pública.

trabalhadores cujos rendimentos não são regulares e que são, portanto, incapazes de efetuar o pagamento de parcelas mensais fixas. Seria necessário que os salários em questão se elevassem, ao menos, na mesma proporção em que se eleva a taxa de juros, isto é, seguindo a inflação; mas não é o que ocorre.

Por não ser capaz de garantir as elevadas expectativas de lucro dos capitalistas, a habitação social não encontra lugar entre os objetivos do sistema capitalista, sempre pautado por padrões de máxima lucratividade. De modo geral, pode-se dizer que o capitalismo tem dificuldades e, por conseguinte, desinteresse em transformar a casa popular em mercadoria. Como diz Villaça (1986, p. 6): “o capitalismo não tem a possibilidade de oferecer a todos os membros da sociedade as mercadorias que ele tem condições de produzir e que os consumidores teriam condições de consumir. Em

outras

palavras,

o

capitalismo

condições

econômicas

dos

seus

precisa

de

escassez

para

mutuários.

sobreviver”. Assim, mesmo que a

iniciativa

estimulada

pelo governo a produzir milhares de

privada

seja

casas

populares

por

ano,

a

demanda

jamais

poderá

ser

plenamente satisfeita. Com efeito, a lógica do capital opera conforme

um

regime

de

escassez,

que

mantém

os

preços

e,

de escassez, que mantém os preços e, consequentemente, as relações de quais o compra e venda,
de escassez, que mantém os preços e, consequentemente, as relações de quais o compra e venda,

consequentemente, as relações de

quais o

compra e venda, sem as

próprio

capitalismo

deixaria

de

existir.

A produção de habitação social enfrenta, portanto, sérios problemas para contornar o sistema financeiro ao qual nossa sociedade está submetida. Pensamos que isso, todavia, não impossibilita e nem justifica a sua não execução. Uma solução razoável para essa questão seria a criação de um Sistema Financeiro de Habitação que viesse a colocar seriamente em questão as reais

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Em 1948, a habitação torna-

se um direito de todo cidadão

(figura 1.4), conforme assegura a

Declaração Universal dos Diretos

Humanos(1) que, em seu artigo 25,

diz:

Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de

Figura 1.4 : Charge de Miguel Paiva Fonte: O Estado de São Paulo, 05.10.1988 (1)_

Figura 1.4: Charge de Miguel Paiva Fonte: O Estado de São Paulo, 05.10.1988

(1)_ Adotada e proclamada na resolução 217 A-III da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Paris, em 10 de dezembro de

1948. Disponível

<

em:

(2)_ O artigo 6º da Constituição Federal de 1988 indica: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” (Redação dada pela Emenda Constitucional n° 26, de 14-2-2000). [grifo nosso]

desemprego, doença, invalidez,

viuvez, velhice ou outros casos de

perda dos meios de subsistência

fora de seu controle. [grifo nosso].

O direito universal à

habitação é, portanto, inserido em

um contexto bastante amplo, em

que habitação corresponde à

moradia adequada, o que vai muito

além de uma simples casa de tijolos

com teto e quatro paredes,

incluindo localização adequada,

boas condições de acesso a

serviços e a bens públicos,

infraestrutura, energia elétrica,

sistema de esgoto e coleta de lixo,

de modo a garantir todo o conjunto

dos aspectos que constituem uma

vida digna.

A proclamação do direito à

habitação

pela

Assembleia

Geral

das

Nações

Unidas

e

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posteriormente sua incorporação

na Constituição Brasileira de 1988,

em seu artigo 6° (2), fez com que o

tema passasse a ocorrer, de modo

cada vez mais frequente, no

discurso político-oficial. Promessas

de construção de casas e de

criação de programas de

financiamento para a aquisição da

“casa própria” tornaram-se

frequentes na propaganda de

partidos das mais diferentes

colorações políticas. A questão

habitacional retorna tantas vezes

no discurso político que, a esta

altura, era de se esperar que a

mesma já estivesse resolvida.

Este, todavia, não é o caso.

Villaça

escreve: “O mais importante é desvendar e entender a ação real do governo, porque na maioria dos casos ele procura escondê-la,

A

esse

respeito,

esconder as consequências daquilo que faz, esconder seus reais objetivos” (1986, p. 9). Com efeito, o essencial é perceber a diferença entre a política anunciada e a política implementada, uma vez que os governos, na maioria dos casos, não formulam de maneira clara e objetiva o que pretendem fazer.

exemplo,

frequentemente, o Estado anuncia medidas visando à construção de casas populares para propiciar a retirada de contingentes populacionais de áreas de risco, enquanto o verdadeiro objetivo de tais medidas é estimular a acumulação de capital no setor da construção civil. Tal estímulo constitui, na maioria das vezes, uma contrapartida pelos investimentos feitos por empresas dessa área em campanhas políticas. Assim, em face de uma proposta de política habitacional, é sempre pertinente questionar:

esta proposta é realmente política, isto é, tem efetivamente cunho

Por

social, ou é apenas uma proposta de cunho econômico, cuja finalidade exclusiva é a promoção do setor da construção civil?

Outro exemplo a ser considerado é o caso da utilização do problema da habitação como estratégia eleitoral. Neste caso, as promessas de construção de casas populares se dirigem a um segmento populacional altamente suscetível de ser influenciado pelo discurso político, a saber, famílias que se encontram em áreas de habitação degradada. Ora, essas mesmas famílias, apesar de sua pobreza, representam farta quantidade de votos, a ser arrebanhada por qualquer candidato que se apresente como um “arquiteto do povo”. Uma vez eleito, tal candidato, embora conte com todas as condições de as implementar, não pode cumprir suas promessas de campanha, pois, se o fizer, perderá votos que comporiam sua base em eleição posterior. Assim, vemos emergir

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um discurso que explica não ter

sido possível construir a totalidade

das casas necessárias, mas apenas uma restrita parcela, ficando o restante a ser feito em um novo mandato. Este exemplo mostra claramente que os representantes do poder público, de modo geral, não têm real interesse de resolver o problema habitacional, uma vez que uma solução definitiva deste representa uma estratégia eleitoral ruim.

Em muitos casos, portanto,

o problema não é resolvido

simplesmente porque existe um

mecanismo ideológico que dissimula

o interesse, seja político, seja econômico, de manter as coisas como estão. Com efeito, a manutenção do problema

habitacional é interessante tanto

do ponto de vista das estratégias

político-eleitorais quanto do ponto de vista da promoção dos

interesses da classe economicamente privilegiada. Torna-se, assim, central a tarefa

de

econômico está, de fato, por trás

de determinada proposta de

a

ênfase real de uma medida de

política habitacional recai em outro aspecto que não o social, a habitação acaba por ser provida de

modo

e ineficiente,

sendo incapaz de atender de forma

política habitacional.

identificar que interesse

Quando

inadequado

eficaz às necessidades da comunidade concernida.

inadequado eficaz às necessidades da comunidade concernida. O quadro teórico a partir do qual, neste trabalho,
inadequado eficaz às necessidades da comunidade concernida. O quadro teórico a partir do qual, neste trabalho,

O quadro teórico a partir do qual, neste trabalho, abordamos a

problemática

habitacional

não

estaria

completo

se

não

tratássemos

da

questão

da

estética da favela, à qual já fizemos referência.

Na contemporaneidade, a estética parece ter perdido sua unidade. A estética se dissipou, dividindo-se em várias correntes, cada uma veiculando uma concepção própria do que é “estético”. Em maior ou menor medida, diferentes áreas do conhecimento incorporaram essa pluralidade de concepções estéticas, desvinculando-se do modelo clássico, que passou a ser alvo de duras críticas. O saber arquitetônico, todavia, manteve-se ligado a um racionalismo cartesiano que, em última instância, impõe a estética clássica como padrão. Ainda hoje, a maioria dos arquitetos e urbanistas possui uma visão estética estreita, que os impossibilita de reconhecer como conteúdo estético qualquer coisa que se desvie desse padrão. Pensamos, no entanto, que há algo de estético na arquitetura desviante da favela.

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Por certo, a arquitetura vernácula presente na favela difere da arquitetura formal, tradicionalmente ensinada nas universidades e praticada pelos arquitetos e urbanistas. A dinâmica própria do espaço da favela não cabe no espaço projetual conhecido pelos arquitetos e urbanistas. A principal distinção entre a arquitetura vernácula e a arquitetura formal erudita é exatamente de ordem estética, ou seja, nesta há conteúdo estético, naquela, não há. Por conseguinte, arquitetos e urbanistas, de modo geral, entendem que não há uma

estética na favela.

Com isso, de maneira paradoxal, o “direito à urbanização” acaba por se tornar uma imposição ao favelado. A intervenção urbana formaliza o espaço da favela de tal modo que sua identidade se perde por completo. Deixa de haver meios para o favelado identificar-se com o espaço que habita ou dele se apropriar. A esse respeito, Paola

Jacques toca emum ponto crucial para este trabalho:

Por que não assumir de uma vez a estética das favelas sem as imposições estéticas, arquitetônicas

e urbanísticas dos atuais projetos

de urbanização, que acabam provocando a destruição da arquitetura e do tecido urbano original da favela para criar novos espaços sem identidade própria, dos

quais, muitas vezes, a população local não se apropria, e que ficam rapidamente deteriorados? Por que o modelo do bairro é sempre o exemplo

a ser seguido em detrimento do

inventivo e rico, tanto cultural

quanto formalmente, processo espacial das favelas? (Jacques, 2011, p. 18).

Para que a dimensão estética da favela possa ser reconhecida pelos arquitetos, é necessário que a concepção estética em que se baseia a própria arquitetura seja revirada. Só assim será possível outro tipo de intervenção, capaz de respeitar a favela de um ponto de vista estético, isto é, capaz de levar em consideração como dado

estético seu tecido arquitetônico original. Sem dúvida, isso implicaria também a produção de uma concepção renovada dos processos de urbanização. É isso o que encontramos numa instigante obra

intitulada Estética da Ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica (2011). A

concepção de uma estética da favela desenvolvida, nessa obra, pela Paola Jacques, apoia-se em três conceitos básicos: Fragmento, Labirinto e Rizoma.

De início, Jacques utiliza o conceito de Fragmento (figura 1.5) para descrever o barraco, o abrigo criado pelo favelado para proteger a si e à sua família. Barracos são construídos com materiais coletados de forma aleatória, de qualquer lugar, muitas vezes, do lixo. Esse tipo de construção, feita com restos, sobras, materiais colhidos aqui e ali, é fragmentada e fragmentária (figura 1.6) (Jacques, 2011, p. 27). Jacques descreve o

27

(figura 1.6) (Jacques, 2011, p. 27). Jacques descreve o 27 Figura 1.5 : Barracos na favela

Figura 1.5: Barracos na favela do Poço da Draga (fragmento) Fonte: acervo pessoal

Figura 1.6: Colcha de Retalhos Fonte: http://rodrigobiasi.wordpress.com/

da Draga (fragmento) Fonte: acervo pessoal Figura 1.6 : Colcha de Retalhos Fonte: http://rodrigobiasi.wordpress.com/
Figura 1.7 : Labirinto mais difícil do mundo Fonte : http://www.dementia.pt/o-labirinto-mais-dificil-do- mundo/ Figura

Figura 1.7: Labirinto mais difícil do mundo

Figura 1.8: Imagem aérea da favela do Poço da Draga Fonte: Google Earth

aérea da favela do Poço da Draga Fonte: Google Earth processo pelo qual um barraco (Jacques,

processo

pelo

qual

um

barraco

(Jacques, 2011, p. 28). De modo

perde

seu

aspecto

formal

muito intenso, a favela encontra-se

fragmentado

deixar

seguintes termos:

À medida que o abrigo vai evoluindo,

os pedaços menores vão sendo substituídos por outros maiores e o aspecto fragmentado da construção

vai ficando cada vez menos evidente.

O último estágio da evolução de um

abrigo precário a casa de alvenaria,

sólida já não é formalmente tão fragmentado, muito embora não deixe de ser fragmentário: a casa continua evoluindo. Os barracos são fragmentados porque se transformam continuamente. A construção numa favela e, consequentemente, a própria favela jamais ficam concluídas. (Jacques, 2011, p. 28).

A incompletude que marca o aspecto formal dos barracos de uma favela se revela no fato de que as construções dos favelados não têm projeto preliminar nem fim predeterminado. Quando não há projeto, a construção não possui uma forma final preestabelecida

fragmentário, nos

sem,

entretanto,

de

ser

28

em

formação,

transformação.

um

processo

eterno

deformação

de

e

Se nos elevarmos da escala do barraco (unidade básica) para a escala do conjunto de barracos, becos e ruelas, teremos o que Jacques chama de Labirinto (figura 1.7 e 1.8). O processo urbano labiríntico das favelas, compreendido através da noção de percurso e, consequentemente, da experiência do espaço urbano espontâneo, é muito diferente do espaço desenhado por urbanistas. Assim como o barraco, o labirinto não tem um autor específico, não existe um arquiteto, nenhum projeto foi pensado para esse labirinto (Jacques, 2011, p. 69). A esse respeito escreve Paola Jacques:

É

labiríntico, tal é o emaranhado dos

efetivamente

um

espaço

caminhos internos.

Como

não

sinalização,

placas,

nomes

ou

números, qualquer pessoa de fora ali se perde facilmente. Mas visto de longe ou de fora, o labirinto não é percebido como tal: a pessoa só se dá conta do que ele é e sempre de maneira fragmentária quando nele entra (Jacques, 2011, p. 69).

Apesar da mudança de escala da unidade para o conjunto de barracos, o aspecto fragmentário continua a ser o ponto chave para o entendimento da estética da favela. Nesse ponto, somos levados a questionar uma das certezas da concepção estética clássica, em que se baseia a arquitetura formal, a saber, o preconceito contra o fragmento. Seria a incompletude característica dos processos espaciais fragmentários da favela necessariamente algo negativo? Não poderíamos ver, nessa incompletude, um aspecto positivo, a ser levado em consideração no momento da elaboração da proposta de intervenção urbana? Esta teria de ser, em todo caso, uma proposta,

ao mesmo tempo, viável, do ponto de vista arquitetônico-urbanístico, e respeitosa do ponto de vista da estética da favela.

Por fim, o conceito de Rizoma (figura 1.9), diz respeito ao crescimento aleatório das favelas, que se assemelha muito a como cresce o mato. Os labirintos (conjuntos de barracos) crescem como redes, formando novos territórios, comunidades desterritorializadas, ou seja, desviantes (ou deformadas) em relação ao planejamento urbano da cidade dita formal (Jacques, 2011, p. 109). Paola Jacques explica o processo rizomático de formação das favelas fazendo uso de uma comparação entre a “cidade- árvore” e a “cidade-arbusto”:

A complexidade espacial das favelas se mescla à temporalidade. Trata-se também de uma diferença de enraizamento. A cidade projetada a cidade-árvore, como a árvore e o pensamento em árvore está fortemente enraizado num sistema

29

raiz, imagem da ordem; a cidade não completamente projetada, a cidade- arbusto, funciona como um sistema-

radícula mais complexo; a favela, a cidade sem projeto, a cidade-mato, segue o sistema-rizoma (Jacques, 2011, p. 111).

agrupamento dos

labirintos, que, com seus barracos,

invadem a cidade dita formal, é um rizoma. Diz-se que o crescimento da favela ocorre de maneira rizomática porque nasce discretamente para logo espalhar- se por toda a cidade formal. Assim como nos conceitos mencionados acima, o caráter fragmentário também se faz presente no rizoma. A fragmentação está na incompletude da ampliação e do “espalhar-se” da favela pelo tecido urbano, que nunca cessa de crescer, que nunca tem fim e que, muitas vezes, não se pode saber onde começou.

O

Em suma, assim como a entre o habitante e o espaço ideologia, o capitalismo e

Em

suma,

assim

como

a

entre

o

habitante

e

o

espaço

ideologia, o

capitalismo

e

a

habitado.

 

desconsideração favela entrava a

resolução do problema da habitação

social. Os maiores são os projetos

de habitação, intervenções

as

que

desprezam os elementos estéticos

“politicagem”, a da estética da

bem

como

em

favelas,

presentes

na

própria

favela,

criando

espaços

descaracterizados, com os quais a

população não pode se identificar

nem,

muito

menos,

deles se

apropriar.

É

até

mesmo

desnecessário lembrar

que

a

comunidade concernida precisa criar um vínculo com o espaço projetado, tornando-o seu. Do

contrário, será impossível evitar a evasão das pessoas beneficiadas e a consequente formação de novas

favelas.

Por

certo,

o

desenvolvimento

 

de

uma

sensibilidade,

por

parte

do

arquiteto-urbanista, para ver o que

há de estético na favela favoreceria

a construção do vínculo autêntico

Figura 1.9: Favela Campo do América no Bairro da Aldeota em

31

Este capítulo apresenta um estudo de referência que serve de parâmetro para a concepção de uma intervenção leve em consideração a estética da favela no processo de planejamento e execução. A descrição e explicação deste caso objetiva comprovar a viabilidade de projetos de habitação que sejam atentos em relação à estética da favela sem, no entanto, negligenciar aspectos fundamentais para a execução de projetos de habitação social, como a questão do custo de construção.

O estudo apresentado a seguir foi escolhido porque propõe uma forma diferente de produção habitacional,
O estudo apresentado a seguir foi escolhido porque propõe uma forma diferente de produção habitacional,

O estudo apresentado a seguir

foi escolhido porque propõe uma forma

diferente de produção habitacional, na medida em que deixa uma parte da

obra a encargo dos moradores beneficiados.

Dentro de um programa do

Ministério da Habitação Social chileno, que concede um subsídio de 7.500 dólares por família carente para financiar a construção de suas casas,

a empresa Elemental, associada à

Pontifícia Universidade Católica do Chile e à Companhia de Petróleo do Chile (Copec) desenvolve estudos na busca de soluções eficientes e baratas tanto para a questão habitacional quanto para a integração da população à cidade. Segundo afirma a Elemental:

O problema é desenhar de tal forma que a residência aumente de valor no decorrer do tempo. É algo desejável do

ponto de vista do patrimônio familiar e é um indicador de que essa família está menos pobre, porque pode investir em sua casa e não gasta toda sua renda para sobreviver” (Fernandes 2008, p. 48).

Um grande desafio em todo projeto de habitação popular é a escassa verba disponibilizada para a compra de terrenos, trabalhos de urbanização e arquitetura. Segundo os dados da Elemental, para a execução do projeto proposto, a verba fornecida só permitia a construção de cerca de 30m². Tal restrição impossibilitava a construção completa da casa, por isso ficava o questionamento de qual parte da habitação era mais importante construir. Para solucionar essa questão, a Elemental resolveu construir a parte considerada por ela mais “difícil” para a família construir sozinha, ou seja, banheiros,

33

para a família construir sozinha, ou seja, banheiros, 33 Figura 2.2: Habitação de Interesse Social com

Figura 2.2: Habitação de Interesse Social com posterior intervenção dos moradores. Fonte: http://www.elementalchile.cl/viviendas/quinta- monroy/quinta- monroy/

Figura 2.1: Habitação de Interesse Social Desenvolvida pela empresa chilena Elemental. Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

Habitação de Interesse Social Desenvolvida pela empresa chilena Elemental. Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.
Figura 2.4: Planta Baixa Inferior Duplex Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008. Figura 2.3:

Figura 2.4: Planta Baixa Inferior Duplex Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

Figura 2.3: Planta Baixa Térreo Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

Baixa Térreo Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008. cozinha, escadas e muros intermediários. A

cozinha,

escadas

e

muros

intermediários.

A

outra

parte,

considerada mais “fácil”, ficava sob a

responsabilidade das

que

poderiam ampliar suas casas até o

famílias,

máximo de 72m² (Fernandes 2008, p.

49).

de

recursos, acabou surgindo uma solução dinâmica, que vence a

monotonia dos conjuntos

habitacionais

desenvolvidos em blocos padronizados (figura 2.1). O arquiteto Alejandro Aravena, responsável pelo projeto, avalia essa questão da seguinte forma: A segunda metade, construída pelas famílias, customiza e personaliza a resposta, de forma que a monotonia inicial pode ser a única maneira de fazer com que a diversidade não signifique

geralmente

Do

problema

da

falta

deterioração(Fernandes, 2008, p. 49) (figura 2.2).

do

programa, localizado na cidade de

Iquique, no deserto do Chile, foi

concluído em 2004. Havia

necessidade

de

a

assentar 100

O

primeiro

projeto

34

famílias que ocupavam ilegalmente um terreno de 4mil m². O preço do terreno era três vezes maior do que o valor que o programa para habitação social podia pagar. Dessa forma, para reduzir custos, a tipologia adotada foi pensada de forma a atingir uma densidade suficiente para que se pudesse comprar o terreno. A solução foi a construção de edifícios com dois pavimentos, divididos em quatro grupos, já estruturados para a futura ampliação. Cada edifício é composto de duas casas, uma no nível térreo (figura 2.3) ampliável em um quintal aos fundos e no espaço abaixo da laje que separa os dois níveis e um apartamento duplex (figura 2.4 e 2.5) com espaço para crescer ao lado. No primeiro nível, a residência é entregue com 6 m x 6 m,

área que pode crescer dentro do

lote de 9 m x 9 m. Já no segundo,

m,

ampliável em mais 3 m para o lado.

a

área inicial

é

de

3

m

x

6

"Hoje

essas

casas

valem

três

vezes mais

do

que

o

seu

custo.

Isso é desenhar a moradia social

como investimento mais do que como um gasto público, que é o ponto central da Elemental", diz Aravena.

Percebemos que esses lugares, a medida que vão sendo modificados pelos moradores, adquirem uma dinâmica urbana e uma estética própria, uma estética fragmentária, uma “estética da favela” (Jacques 2001, p. 17), com características peculiares e muito distintas das da cidade dita formal. Parece-nos que praticamente a totalidade dos trabalhos, tanto teóricos quanto práticos, já desenvolvidos sobre o tema negligencia essas características estéticas. E isso porque, os arquitetos, na maioria formados com base em uma noção demasiado cartesiana da arquitetura, acabam cegos” em relação à arquitetura muito especial dessas comunidades; eles simplesmente não conseguem ver a estética da favela.

eles simplesmente não conseguem ver a estética da favela. Figura 2.5: Corte AA Fonte: Revista AU,
eles simplesmente não conseguem ver a estética da favela. Figura 2.5: Corte AA Fonte: Revista AU,

Figura 2.5: Corte AA Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

35

Figura 2.4: Planta Baixa Superior Duplex

Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

Superior Duplex Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008. Figura 2.6: Corte BB Fonte: Revista AU,

Figura 2.6: Corte BB Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

Figura 2.7: Antes e depois da ocupação Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008. 36

Figura 2.7: Antes e depois da ocupação Fonte: Revista AU, n° 172, Julho, 2008.

36

Pensamos que o projeto do Alejandro Aravena, apesar de promover modificações significativas no tecido urbano da comunidade, rompe com esse paradigma e consegue não descaracterizar completamente a área de intervenção. O fato de deixar que uma parte da casa seja construída pelo próprio morador torna possível a construção de uma identidade e realimenta a estética própria da favela. Trata-se de uma prática da arquitetura que não impõe ao espaço de intervenção os conceitos do belo e do feio que os arquitetos têm de aprender na faculdade. Por isso, podemos dizer que o projeto de Aravena tem no melhor sentido da palavra, a cara da favela.

37

Neste capítulo, faz-se breve reconstrução histórica da questão habitacional no contexto brasileiro. Com efeito, um estudo das transformações que levaram a questão habitacional a seu estágio atual de desenvolvimento é de importância fundamental para a compreensão global deste processo e, consequentemente, para o posterior dimensionamento

da proposta de urbanização da

favela do Poço da Draga.

De início, estudamos como as políticas higienistas trataram o surgimento da questão

seguida,

habitacional.

analisamos a produção de

habitação no governo populista, nos anos de chumbo do regime militar,

e no período da chamada

redemocratização.

fim,

Em

Por

questão

habitacional no Brasil dos dias atuais; sempre procurando diagnosticar os entraves contidos

investigamos

da

nesse processo histórico.

38

Existem muitas formas de definir “favela”. Certos atributos, entretanto, estão sempre presentes: adensamento,
Existem muitas formas de definir “favela”. Certos atributos, entretanto, estão sempre presentes: adensamento,
Existem muitas formas de definir “favela”. Certos atributos, entretanto, estão sempre presentes: adensamento,

Existem muitas formas de definir “favela”. Certos atributos, entretanto, estão sempre presentes: adensamento, ilegalidade da posse, pobreza e insalubridade. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010, p. 28), por exemplo, define “favela” da seguinte maneira:

Aglomerado subnormal (favelas e

similares) é um conjunto constituído

de, no mínimo, 51 unidades

habitacionais, ocupando ou tendo

ocupado até período recente,

terreno de propriedade alheia

(pública ou não), dispostas de forma

desordenada e densa, carentes, em

sua maioria, de serviços públicos

essenciais.

De todos os atributos presentes nesta definição, o único comum a todas as favelas é a ocupação ilegal do solo. Sem entrar no mérito da definição acima, nem no que nela há de problemático, a história nos conta que, já na última década do século XIX, precisamente em 1897, como resultado direto da explosão demográfica, surgiram as primeiras “favelas”, nos morros da Providência e de Santo Antônio, na cidade do Rio de Janeiro (Benchimol, 1990) (figura 3.1). Durante o governo do Presidente Rodrigues Alves (3), o Rio de Janeiro, bem como outras cidades atravessou significativo processo de expansão, passando a enfrentar

39

significativo processo de expansão, passando a enfrentar 39 Figura 3.0: Favela Morro do Pinto, Rio de

Figura 3.0: Favela Morro do Pinto, Rio de Janeiro

(1912)

(3)_Francisco de Paula Rodrigues Alves foi

presidente do Brasil durante o período de

1902 até 1906.

novos problemas sociais e estruturais, decorrentes do crescimento rápido e desordenado da população. Com o fim do

trabalho escravo e com a abertura

de horizontes gerada pela

universalização do trabalho assalariado, a cidade do Rio, então

capital federal do Brasil, registra considerável crescimento populacional. Isso se deve, de um lado, à inclusão dos antigos escravos no mercado de trabalho e, de outro, à chegada de imigrantes oriundos da Europa e de outras partes do mundo. Ora, a industrialização da economia, o advento do progresso tecnológico e o estímulo à imigração tornaram oportuno o surgimento do que, de acordo com

a terminologia atualmente

empregada pelo IBGE, podemos

designar como “aglomerados subnormais”. Trata-se, simplesmente, das favelas, que pulularam na cidade do Rio de Janeiro, bem como em outras cidades brasileiras, a partir da virada do século XIX para o século XX. Nasciam, assim, os desconfortos urbanos das metrópoles brasileiras (Pequeno, 2008, p. 5). No Brasil, as primeiras iniciativas governamentais a se ocuparem diretamente da questão

habitacional estiveram intimamente ligadas ao pensamento social e político dos higienistas. Estes forneceram, ao longo de quase toda

a primeira metade do século XX, o

suporte científico com base no qual

o poder foi exercido no tocante à questão habitacional. Como ilustração do pensamento dos

40

higienistas, convém citar a chocante descrição das condições de vida da população brasileira elaborada pelo médico sanitarista Belisário Pena na primeira década do século XX:

¾ dos brasileiros vegetam miseravelmente nos latifúndios e nas favelas das cidades, pobres párias que, no país do nascimento, perambulam como mendigos estranhos, expatriados na própria pátria, quais aves de arribação de região em região, de cidade em cidade, de fazenda em fazenda, desnutridos, esfarrapados, famintos, ferreteados com a preguiça verminótica, a anemia palustre, as mutilações da lepra, das deformações do bócio endêmico, as devastações da tuberculose, dos males venéreos e da cachaça, a inconsciência da ignorância a cegueira do tracoma, as podridões da bouba, da leishmaniose, das úlceras fragedêmica, difundindo sem

peias esses males (apud Bomeny,

2003, p. 26-27). [grifo nosso]

Depreende-se daí que, na concepção dos higienistas, a política sanitarista eficaz dependia de uma intervenção física nas áreas de habitação coletiva e nas moradias de aluguel no centro urbano. Tal intervenção passava pela demolição dos cortiços e demais residências consideradas insalubres, pelo alargamento de ruas para melhoria da circulação, por obras de saneamento e de abastecimento de água e pela vacinação(4) da população para controle de doenças. As políticas higienistas tinham como prioridade intervir nas áreas de ocupação irregular, uma vez que a população ali residente era vista como uma espécie de “doença social”, que comprometia a saúde da cidade.

Do ponto de vista jurídico, em

virtude de se constituírem em

áreas ocupadas indevidamente, as

favelas eram consideradas uma

transgressão às leis da cidade. As

ocupações irregulares

transgrediam não só a legislação

referente ao uso do solo, mas

também

Posturas. Dessa forma, não lhes

restava outro estatuto, senão o da

marginalidade. A esse respeito,

escreve o arquiteto e urbanista

Renato Pequeno (2008, p. 5):

À medida que cresceram e se consolidaram, estes assentamentos, ditos subnormais, passaram a se constituir em verdadeiros incômodos urbanos: como barreira física, impedindo a expansão do sistema viário; como agentes da degradação ambiental, dada a falta de saneamento; como foco de insalubridade, devido às precárias condições de moradia; como antros de marginais, fazendo da favela o lócus da exclusão social.

o

Código

de

Obras

e

41

favela o lócus da exclusão social. o Código de Obras e 41 Figura 3.1: Interior de

Figura 3.1: Interior de um cortiço, Rio de Janeiro

(1906)

(4)_Em 1904 a população se revoltou contra o projeto que tornava a vacinação antivariólica compulsória para todos os cidadãos.

(5)_Francisco Pereira Passos foi um engenheiro nomeado por Rodrigues Alves, então Presidente da República, para governar a cidade do Rio de Janeiro. Seu governo durou de 1902 até 1906.

(6)_Famosa intervenção urbana que demoliu vias estreitas, resultantes ainda da época medieval, e abriu grandes boulevards a fim de organizar o espaço urbano de Paris. Tal reforma tinha como principal objetivo promover o embelezamento, melhorias na circulação e, em especial, a higienização da cidade.

(7)_Conhecido como Barão Haussmann, foi responsável pela reforma urbana de Paris, na época em que foi prefeito da cidade, entre os anos de 1853 e 1870.

Ao longo do período do surgimento das favelas, uma série de reformas urbanas como a desenvolvida a partir de 1903, pelo então Prefeito do Rio de Janeiro Francisco Pereira Passos(5) foi executada sob influência direta da Reforma de Paris(6), realizada pelo célebre político e urbanista francês Eugène Haussmann(7). As reformas urbanas realizadas no Brasil promoviam as ideias da modernização e do embelezamento (Benchimol, 1990), na forma em que eram defendidas pelo higienistas. Com efeito, nessas reformas higienistas, promovia-se o novo que já traz em si sua própria negação: a cidade era negada à população pobre, que era expulsa de suas casas, em nome da modernização e do embelezamento, isto é, em nome do bem estar comum. Tendo em vista reestabelecer o equilíbrio da cidade, segundo as reformas urbanas higienistas, a demolição dos imóveis

42

“subnormais” (cortiços) (figura 3.2) era vista como a solução mais rápida e eficaz, única capaz de remover em definitivo o “incômodo” causado pelas habitações populares (Benchimol, 1990). A população expulsa de suas casas acabava sem ter aonde ir, uma vez

Estado não se

responsabilizava por seu reassentamento. Desprovidos de suas casas, qualquer abrigo lhes servia. No Rio de Janeiro, essa população, em geral, permanecia perto do local de demolição ou procurava abrigo nos morros adjacentes. Uma pequena parcela, que tinha remuneração estável para gastos com transporte, podia tentar morar em locais mais afastados (Benchimol, 1990).

que

o

Em síntese, durante o

período das políticas higienistas, a

população pobre, aquela que vivia

nas piores condições financeiras,

era privada de suas moradias em

nome do bem comum, da ordem

pública e da limpeza social,

utilizados como justificativa

ideológica para se livrar da questão

habitacional que começava a

despontar. Por trás da

preocupação com o embelezamento

da cidade, estavam, com efeito, o

interesse da classe dominante, o

desejo de que a riqueza acumulada

por meio da exploração, não fosse

contaminada pelo povo pobre que

permanecia por perto.

fosse contaminada pelo povo pobre que permanecia por perto. No fim da República Velha, após o
fosse contaminada pelo povo pobre que permanecia por perto. No fim da República Velha, após o

No fim da República Velha,

após o golpe de 1930 houve uma

ruptura na forma de intervenção do

Estado na economia e na

regulamentação das relações entre

o capital e o trabalho. O poder

público, que antes era apenas um

representante da economia, passa

a ter influência direta sobre as

atividades econômicas utilizando

como base para legitimação do seu

poder as massas populares

urbanas. A incorporação da mesma

em um cenário político

institucionalizado foi possível com a

criação do Ministério do Trabalho e

das agências de bem estar social

(Bonduki, 1994, p. 716). Bonduki

destaca essa mudança na

abordagem do governo sobre a

questão habitacional afirmando

que:

“Embora continuasse presente, a questão sanitarista passou para o segundo plano nos debates sobre a habitação social e surgem novos

43

temas, condizentes com o projeto nacional desenvolvimentista da era Vargas: primeiro, a habitação vista como condição básica para a reprodução da força de trabalho e, portanto, como fator econômico na estratégia de industrialização no país; segundo, a habitação como elemento na formação ideológica, política e moral do trabalhador, e, portanto decisiva na criação do ‘homem novo’ e do trabalhador- padrão que o regimento queria forjar, como sua principal base de sustentação política.” (Bonduki, 1998, p. 73).

O governo populista deu nova orientação a política de seguro social, marcando a produção de conjuntos habitacionais pelo Estado com a criação, em 1937, das carteiras prediais dos Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs), seguida pela instituição da Fundação da Casa Popular (FCP), em 1946. Essas medidas representaram que os

Figura 3.2: Vista Geral do Conjunto Fonte: http://www.archdaily.com.br/12832/ Figura 3.3: Vista do bloco Habitacional

Figura 3.2: Vista Geral do Conjunto Fonte: http://www.archdaily.com.br/12832/

Figura 3.3: Vista do bloco Habitacional Fonte: http://www.archdaily.com.br/12832/

Habitacional Fonte: http://www.archdaily.com.br/12832/ investimentos seriam equacionados privado, investimentos

investimentos

seriam

equacionados

privado,

investimentos

contrário do que ocorria antes da

O estado não

assumiu

concorrente da iniciativa privada, e

sim o de ocupar o espaço deixado

iniciativa

privada,

congelamento

alugues (lei do inquilinato) (Bonduki,

1994, p. 724).

do

dos

pelo

de

também,

questão

habitacional

setor

na

não

apenas

no

requerendo

públicos,

ao

década de 1930.

aqui

o

posto

desinteresse

em

dos

da

virtude

preços

É relevante falar que antes

dessa iniciativa de financiamento, o

poder público praticamente não

realizou nada em termos de

habitação social, como foi exposto

no tópico anterior, e apesar de não

podermos afirmar que no período

populista foi formulado uma política

habitacional articulada e coerente,

Nabil Bonduki (1994, p. 727)

44

discorre sobre conceitos

inovadores e modernos aplicados na

produção habitacional realizada

pelos institutos como, por exemplo,

a introdução de um padrão de

blocos de apartamentos

multifamiliares, soluções

arquitetônicas como pilotis, o uso

da coberta para atividades

recreativas e a implantação do

edifício de modo racional e

cartesiano. Além disso, Bonduki

enfatiza a qualidade e solidez das

obras, bem como o tamanho em

termos de dimensões das unidades

habitacionais.

dos maiores ícones

brasileiros da arquitetura desse

período é o Conjunto Residencial

Prefeito Mendes de Moraes,

conhecido como Pedregulho (figura

3.3). No projeto de Affonso

Um

Eduardo Reidy é possível perceber alguns conceitos citados por Bonduki e a influência direta de Le Corbusier na utilização do espaço (figura 3.3, 3.4, 3.5).

A política habitacional desenvolvida no período populista foi relevante, principalmente, por introduzir novos conceitos da arquitetura moderna no Brasil. Mas em termos de produção habitacional, esta não teve significativa importância se levarmos em consideração o déficit habitacional brasileiro na época. Além disso, como já mencionamos a população desempregada era relegada a morar na periferia, em conjuntos habitacionais de qualidade duvidosa, que não levavam em consideração os aspectos, estéticos e culturais do local onde

tal

anteriormente.

população

morava

do local onde tal anteriormente. população morava Figura 3.4: Plantas do Conjunto Pedregulho Fonte:

Figura 3.4: Plantas do Conjunto Pedregulho Fonte: http://www.archdaily.com.br/12832/

45

Após o período em que o tratamento político da questão habitacional caracterizava-se pelo simples despejo
Após o período em que o tratamento político da questão habitacional caracterizava-se pelo simples despejo

Após o período em que o tratamento político da questão habitacional caracterizava-se pelo simples despejo das populações de baixa renda de suas casas seguido pelos programas populistas de habitação, passa a haver uma preocupação mais expressa com o local a que essa população, expropriada de suas residências, seria destinada. Iniciam-se as medidas de remoção e reassentamento da população pobre, que é deslocada para conjuntos habitacionais. Abre-se, assim, um novo capítulo na história da questão habitacional no Brasil. Esse novo período tem, incontestavelmente, a cidade do

Rio de Janeiro

de

modo

brasileiras viriam se espelhar em

cidades

como a principal

pioneira (Valladares,

1978),

que

outras

seu exemplo.

O governo militar criou o Plano Nacional de Habitação (PNH) com a finalidade de comandar a política habitacional no país. Juntamente com ele foi criado o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (SERFHAU) tomando a frente da coordenação das políticas urbanas. O Banco Nacional de Habitação (BNH) assumiu a responsabilidade de operacionalizar o Sistema Financeiro de Habitação (SFH) que se estruturou com os recursos gerados pela criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

46

A criação do SERFHAU e do BNH representou, pelo menos em nível de discurso, a intenção do governo de romper com a política habitacional populista do período anterior e promover uma política habitacional em moldes “empresariais” para setores de baixa renda. Assim, a estratégia de investimento maciço em habitação popular permitia ao regime militar emergente obter a simpatia de grande parte da população, de forma a angariar maior legitimidade e apoio político (Aragão, 2010, p. 24).

BNH incluía a

construção em massa de habitação (figura 3.6 e 3.7) para os moradores, bem como o desenvolvimento de um sistema de crédito para as classes baixas e médias, para o financiamento da casa própria. Tinha como objetivo solucionar o déficit habitacional

A política do

daquele período atendendo com ênfase a população de baixa renda.

Garantir o apoio político era essencial para que o Estado conseguisse convencer a população a participar voluntariamente dos processos de remoção e reassentamento. Em obra notável,

intitulada Passa-se uma casa, a

socióloga Lícia Valladares (1978, p. 47) afirma que: “A remoção de uma favela é um processo longo, que consta de várias etapas, desde os preparativos para a evacuação dos barracos e a relocação de seus habitantes nos conjuntos habitacionais, até sua inserção no Sistema Financeiro da Habitação”. Os conjuntos habitacionais novos, criados para o reassentamento da população favelada, eram financiados pelo BNH e pela

Companhia de Habitação Popular (COHAB), que tinha também a função de administrá-los.

O BNH criou um programa de acesso à casa própria que não levou em consideração as características socioeconômicas da população de baixa renda a ser contemplada pelo programa. Valladares (1978, p. 108) enumera os requisitos exigidos pelo BNH de seus mutuários: (a) querer sair da favela e ter acesso à casa própria; (b) comprometer-se a passar no mínimo 15 anos pagando as parcelas de sua casa própria; (c) dispor-se a comprometer 25% da renda familiar mensal em gastos com habitação; (d) ter capacidade financeira para arcar com essa dívida; e, finalmente, (e) deixar as favelas em direção a conjuntos

47

Figura 3.5: Produção Massificadora e impessoal do período BHN Fonte: http://www.archdaily.com.br/12832/

Figura 3.6: Conjunto habitacional da Pavuna, Rio de Janeiro, 1976. Fonte:http://www.exposicoesvirtuais.arquivonacional.g

Rio de Janeiro, 1976. Fonte :http://www.exposicoesvirtuais.arquivonacional.g ov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=134

habitacionais

administrados

pela

COHAB.

Ora, tais requisitos não poderiam ser satisfeitos pela maioria de seus destinatários. Em face das diversas exigências ditadas pelo SFH, a população mostrou-se desinteressada quanto à aquisição da casa própria. O desinteresse dos destinatários da política habitacional explica-se pelo agravamento de sua condição financeira, uma vez que os mutuários eram obrigados a passar, no mínimo, 15 anos despendendo 25% de sua renda mensal com o pagamento da parcela da casa própria, o que era inteiramente impraticável do ponto de vista de alguém que na favela, na maioria dos casos, não pagava aluguel. Ademais, os gastos com

moradia não se restringiam ao pagamento da parcela. A partir daí, todo o sistema habitacional estava regularizado, entretanto, havia gastos adicionais com água e luz, o que ultrapassa por demais os 25% previstos para gastos com moradia. Assim, a mudança para conjuntos habitacionais representava para essa população despesas adicionais insustentáveis. Além disso, como geralmente os conjuntos habitacionais eram construídos longe do centro das cidades, acresciam ainda os gastos com transporte, gastos esses que, na favela, eram bem menores (Valladares, 1978).

As imposições mencionadas geraram um sentimento de insatisfação generalizada. Em consequência, grande parte da

48

população contemplada pelas políticas habitacionais da “casa própria” acabava por vender suas casas, mudar-se para terrenos de preços mais acessíveis e, finamente, retornar à favela (figura 3.8). A esse respeito, escreve Valladares (1978, p. 112):

Em certo nível, as remoções criaram

mais problemas do que resolveram, traduzindo-se este fracasso pela

volta ou pela vontade de voltar para

a favela, como aconteceu com

inúmeras famílias. Os residentes tiveram que se adaptar a uma operação que não correspondia às suas possibilidades, nem tampouco às suas aspirações. Viram-se obrigados a procurar os meios para enfrentar a nova situação.

Inaugurada essa nova forma de tratamento da questão habitacional, o governo impôs as operações de remoção, embora a

urbanização fosse a solução esperada pelos moradores. Pelas próprias características de uma urbanização adequada, que inclui a reforma ou a recuperação de algumas casas, esta poderia ter sido, inclusive, uma solução mais econômica do que a construção integral de habitações em outros locais.

Valladares (1978, p.113) também comenta os motivos pelos quais o governo priorizou a remoção em lugar da urbanização. De início, há motivos de ordem econômica: as favelas, em muitos casos, ocupavam terrenos particulares, ou seja, terrenos de interesse para a especulação imobiliária e para empresas da construção civil. Esses setores, como mencionado anteriormente, exercem a prática dos

investimentos em candidaturas, e até em mandatos, em troca de certos favores. Esses investimentos foram, e são, muitas vezes, convertidos, na remoção de populações carentes de áreas de interesse especulativo. Em seguida, Valladares (1978, p. 133) alude motivos de ordem política:

não interessava à classe dominante ter, nas proximidades do local em que ela própria habitava, contingentes de população pobre, pois esta é considerada perigosa e violenta. Além disso, há ainda motivos de ordem estética: as expressões culturais e artísticas, a “estética da favela” (Jacques, 2011 p. 18) é vista como inapropriada, como algo que “enfeia” a cidade. Interessava, portanto, à classe dominante enfraquecer, de todos os modos, o

49

à classe dominante enfraquecer, de todos os modos, o 49 Figura 3.7: Capa do livro Passa-se

Figura 3.7: Capa do livro Passa-se uma Casa: analise do programa de remoção de favelas do Rio de Janeiro. Fonte: Acervo pessoal

potencial de ação da comunidade unida. Mesmo controlada, essa população continuava a representar uma ameaça à ordem estabelecida.

Tratava-se, em resumo, de um processo de manipulação ideológica, em que a propaganda do governo, difundida pela mídia, apresentava os benefícios da compra da casa própria. Tal propaganda objetivava esclarecer à população de que era preciso ter uma “casa própria”, pois só assim alguém podia se tornar um cidadão. Ter a casa própria era, por assim dizer, um requisito da cidadania. A propaganda ajudava, assim, o governo a fazer com que a população pobre saísse espontaneamente de suas casas nas favelas, para ingressar no SFH.

No fim das contas, o BNH em pouco contribuiu para o enfrentamento concreto do problema habitacional. Tal fato deve-se, em parte, ao programa rígido e centralizado desenvolvido pelo órgão, o que era típico durante o período em que o Brasil era governado por um regime militar. Por outro lado, sua implementação beneficiou sobremaneira o setor da construção civil, que pôde contar, durante 22 anos período de funcionamento do BNH (entre os anos de 1964 e de 1986) com a garantia de financiamento público mais ou menos fixo para a construção civil.

da

questão habitacional no Brasil, ao

Portanto,

a

história

longo dos chamados

anos

de

chumbo, época das

políticas

de

50

reassentamento, foi movida pelos interesses da especulação imobiliária, enquanto as necessidades da população carente, assim como na época das políticas higienistas, não chegavam a se tornar um objetivo concreto. Embora o foco dos discursos fosse a transformação radical, para melhor, das condições de vida das pessoas, a prioridade efetiva era o interesse dissimulado das classes dominantes. O cerne, com efeito, era a manutenção do sistema de dominação de classe.

em 1985, acarretou a extinção, em 1986, do BNH. A Caixa Econômica O fim do
em 1985, acarretou a extinção, em 1986, do BNH. A Caixa Econômica O fim do

em

1985, acarretou a extinção, em

1986, do BNH. A Caixa Econômica

O fim do regime militar,

Federal

passou

a

ser

o

órgão

financeiro

do

SFH.

A

regulamentação

 

do

crédito

habitacional

passou

a

ser

Conselho

Monetário Nacional. Essa medida

levou

crédito, dificultando e limitando a

do

reponsabilidade

do

a

um

maior

controle

construção

de

habitações

populares.

A

redução

das

prestações para compra da casa

própria

regime militar levou a uma redução do investimento em habitação, de

modo

do

em

relação

à

época

que

os

problemas

habitacionais agravaram-se. Diante desse quadro, impôs-se a necessidade de recorrer a financiamentos oriundos de outras origens. O arquiteto e urbanista Nabil Bonduki afirma que: “ Municípios e Estados, além da própria União lançaram programas habitacionais financiados com fontes alternativas, em particular recursos orçamentários, adotando princípios e pressupostos diversos dos adotados anteriormente” (Bonduki, 2012, p. 77). A política nacional de habitação, antes comandada pelo BNH, foi fragmentada e passou a ser gerida pelos municípios e pelos estados, que adotaram estratégias e modelos habitacionais mais específicos, direcionados para cada caso. Com efeito, esse período foi marcado pela heterogeneidade e

51

pela diversidade das iniciativas (Bonduki, 2012, p. 77). Bonduki discorre sobre essa nova postura de enfrentamento da questão habitacional, nos seguintes termos:

Nesta fase, surgem, ao lado de intervenções tradicionais, programas que adotam

pressupostos inovadores como desenvolvimento sustentável, diversidade de tipologias, estímulo a processos participativos e autogestionários, parceria com a

sociedade

reconhecimento da cidade real, projetos integrados e a articulação com a política urbana. Esta postura diferenciava-se claramente do

modelo que orientou a ação do BNH e com estes pressupostos emergem programas alternativos, como urbanização de favelas e assentamentos precários, construção de moradias novas por mutirão e autogestão, apoio à

organizada,

autoconstrução e intervenções em cortiços e em habitações nas áreas centrais (Bonduki, 2012, p. 77-78).

Em oposição ao passado recente, no qual predominava a implantação de grandes conjuntos habitacionais longe da cidade, iniciam-se, aos poucos, os programas de urbanização de favelas, que foram assumindo destaque nas intervenções urbanas promovidas pelo Estado. Certo cunho social passa a predominar e a adoção de práticas populares tradicionais entre os mais pobres, como o mutirão, torna-se frequente. A permanência da população favelada na área ocupada passa a ser considerada uma opção, na medida em que é patente a redução dos custos das obras. Com essa nova prática, buscava-se garantir ao morador das áreas

urbanizadas o acesso pleno à cidade. Acerca dessa fase do processo de urbanização, de forma contundente, afirma Pequeno

(2008, p. 5): “

características coincidem com a maior intensidade da ocupação do solo, maior densidade, a presença de famílias conviventes num mesmo lote e a auto verticalização, trazendo maior grau de dificuldade para a execução de projetos”.

Entretanto, estas

a

concepção que viemos expondo, a

e

implica

informalmente

que

assentamentos precários

urbanização

Em

resumo,

de

áreas

segundo

favelas

as

assentadas

sejam

gradualmente

melhoradas,

formalizadas

e

incorporadas à vida da cidade. Isto

não envolve apenas a intervenção

física,

mas

todo

o

acesso

a

 

52

serviços econômicos, sociais, institucionais e comunitários que, de modo geral, supostamente estão disponíveis aos demais moradores da cidade, isto é, a todo cidadão. Tais serviços são de natureza legal (posse da terra), infraestrutural (saneamento básico, transportes), social (educação, segurança) e econômica (empregos). As medidas de urbanização devem ser realizadas pelos governos locais, tanto Municípios quanto Estados, e devem contar com participação ativa de todos os atores concernidos: moradores, grupos comunitários, empresas, técnicos, em parceira com o Poder Público. Com efeito, cabe notar que, movidos por essa concepção, os processos de urbanização chegaram a promover a

regularização de ocupações e a concessão do direito de propriedade dos terrenos aos moradores de áreas irregulares.

tenham

representado, sem dúvida, renovação relevante, as alterações

no tocante ao enfrentamento da questão habitacional, através de um tratamento mais humano do problema da moradia, não chegaram, porém, a alavancar concretamente uma nova política habitacional. Pelo contrário, é preciso reconhecer que tais políticas geraram uma série de novos problemas, que restam como desafios em aberto, ainda por serem enfrentados.

Embora

Em

primeiro

lugar,

muitos

dos

problemas

ligados

à

urbanização

de

favelas

e

ao

assentamento de seus moradores decorrem da dificuldade de compatibilização entre as ações dos diversos atores envolvidos no processo. Lamentavelmente, o que prevalece é uma lógica da dissociação entre intervenção física e o suporte social. A cooperação entre os diversos atores concernidos é, no entanto, um aspecto crucial para a viabilização dos projetos de urbanização.

segundo lugar, um

desafio a ser enfrentado pela política urbana é o de promover a coesão da comunidade, tendo em vista encontrar soluções que atendam às suas necessidades efetivas. Isso impede um tratamento massificador das comunidades. Comparadas entre si, favelas não são homogêneas, mas

Em

53

diversas, diferentes. Observadas internamente, são compostas por interesses múltiplos e, por vezes, divergentes. Do ponto de vista da viabilidade prática, todos esses interesses deveriam ser levados em consideração na concepção do plano urbanístico: e não há outra maneira de fazê-lo, senão através de um processo de deliberação negociado, em que todos os interesses, em sua diversidade específica, tenham vez.

Em paralelo ao surgimento dos processos de urbanização como uma nova postura de enfrentamento da questão habitacional, surgem as Cartas de Crédito Individual que se responsabilizam pelo financiamento habitacional. Esse programa, criado durante o governo Fernando

Henrique Cardoso, passou a absorver uma grande quantidade dos recursos do FGTS. A estratégia da ação governamental concentrou os financiamentos para a obtenção da casa própria entre pessoas com faixa de renda acima de 5 salários mínimos, aumentando dessa forma o déficit habitacional entre as pessoas com renda inferior a 2 salários mínimos que já concentravam a maior porcentagem do déficit habitacional do pais. Bonduki fala que: “Entre 1991 e 2000, a população favelada cresceu 84%, enquanto a população geral teve uma elevação de apenas 15,7%, mostrando que não se sente nenhum impacto da ação governamental, do ponto de vista da redução das necessidades habitacionais.” (Bonduki, 2009, p.xx)

Foi criado também um programa voltado para suprir as necessidades de infraestrutura das áreas precárias direcionados para famílias que não precisam necessariamente de uma nova moradia, mas de condições adequadas no seu entorno. Esse fato mostra um aspecto importante dos processos de urbanização que é preciso pensar a questão habitacional, não somente como um oferecimento de unidades habitacionais como foi feito na época do regime militar. (Bonduki, 2012, p. 87).

regulamentavam seus mecanismos de ação urbanística, portanto, em muitos casos, continuaram sendo executadas práticas de remoção e reassentamento.

Nesse

período

apesar

da

urbanização

de

favela

se

caracterizar

como

uma

iniciativa

pioneira

no

enfrentamento

da

questão

habitacional,

ainda

não

existiam

as

leis

que

54

Vivemos, entretanto, uma nova fase da história da política habitacional e urbana no Brasil. Os
Vivemos, entretanto, uma nova fase da história da política habitacional e urbana no Brasil. Os

Vivemos, entretanto, uma nova fase da história da política habitacional e urbana no Brasil. Os processos de urbanização despertaram a formulação de instrumentos de planejamento do solo urbano que garantissem a permanência das famílias nas aéreas ocupadas. A aprovação do Estatuto das Cidades (figura 3.9), em 2001, depois de 13 anos de tramitação, ainda no governo de FHC, foi o primeiro passo para o surgimento de uma nova fase de tratamento da questão habitacional. Posteriormente a criação do Ministério das Cidades, em 2003 e do Sistema Nacional de Habitação (SNH) (lei 11.124 de

2005) trouxe a oficialização desses novos instrumentos. Essa mudança de cenário também está diretamente ligada ao aumento do volume de recursos destinados à produção habitacional de baixa renda, através de programas como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o programa Minha Casa, Minha vida. Mecanismos de regularização fundiária, instrumentos de combate à especulação imobiliária, procedimentos participativos no planejamento e na gestão da cidade passam a ser difundidos e aplicados nos novos processos de urbanização (Pequeno, 2008, p. 7).

nos novos processos de urbanização (Pequeno, 2008, p. 7). Figura 3.8: Capa da Cartilha do Estatuto

Figura 3.8: Capa da Cartilha do Estatuto da cidade Fonte:http://www.em.ufop.br/ceamb/petamb/cariboost _files/cartilha_estatuto_cidade.pdf

A garantia de permanência nas favelas é atendida através de instrumentos de regularização

55

fundiária, complemento natural da urbanização (Maricato, 2003, p. 83). A partir dessa regularização jurídica, é

fundiária, complemento natural da urbanização (Maricato, 2003, p. 83). A partir dessa regularização jurídica, é possível reconhecer os moradores dessas áreas como cidadãos, como componente de uma coletividade política, que lhes garante direitos e deveres, direitos esses supostamente, já garantidos aos demais moradores da cidade. A arquiteta e urbanista Herminia Maricato fala da importância de assegurar a posse da terra para esses moradores informais:

O endereço oficial é um elemento

fundamental para a qualidade de vida

e para a satisfação pessoal. Ele

confere dignidade aos moradores,

além de facilitar a recepção de

correspondência, a busca de

trabalho ou até mesmo a entrega de

bens adquiridos no comércio. Um

documento de posse ou propriedade

também dá ao seu possuidor mais

56

Figura 3.9: Brener, J. Jornal do Século XX. São Paulo: Moderna, 1998, p. 229.

segurança e tranquilidade. Apenas

quem viveu uma situação instável em

relação à moradia pode aquilatar sua

real dimensão (2003, p. 83).

O Estatuto da Cidade institui o Plano Diretor como principal instrumento de organização do crescimento da cidade. É estabelecido que toda cidade com mais de 20.000 habitantes deve elaborar seu Plano Diretor afim de que as regras do estatuto da cidade sejam aplicadas. As normas de uso e ocupação do solo que serão usadas em cada parte do município serão definidas de acordo com o modelo de cidade que se deseja construir. As Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), garantida pelo Estatuto da Cidade, delimitada e aplicada pelo Plano Diretor são áreas reservadas, na cidade, para abrigar

a moradia popular. Esse

instrumento veio como uma forma de assegurar terras bem localizadas e providas de infraestrutura para o uso dos mais pobres. As ZEIS devem reservar terrenos ou edificações vazias para moradia popular, facilitando dessa

forma a regularização de áreas ocupadas. O Estatuto da Cidade

traz também a possibilidade de

aplicação do usucapiçao especial de

imóvel urbano, instrumento já inserido na Constituição Federal de 1988, para áreas coletivas, onde existem mais de uma família morando. Em seu Art. 10 o Estatuto da Cidade estabelece que:

Art. 10. As áreas urbanas com mais

de duzentos e cinqüenta metros

quadrados, ocupadas por população

de baixa renda para sua moradia, por

cinco anos, ininterruptamente e sem

oposição, onde não for possível

identificar os terrenos ocupados por

cada possuidor, são susceptíveis de

serem usucapidas coletivamente,

desde que os possuidores não sejam

proprietários de outro imóvel urbano

ou rural.

Essa nova possibilidade de utilização do usucapião tem a intenção de facilitar, e tornar menos burocrático, os processos de regularização fundiária de loteamentos ilegais e de áreas de favela em que há a dificuldade de demarcação de lotes individuais (Maricato, ano, p.85).

déficit

habitacional foi lançado, em 2009,

pelo governo federal o principal programa desse período: o Minha Casa Minha Vida (figura 3.10 e 3.11), cuja finalidade era criar

atender

Para

o

57

3.10 e 3.11), cuja finalidade era criar atender Para o 57 Figura 3.10: Publicidade oficial do

Figura 3.10: Publicidade oficial do programa “Minha Casa Minha Vida” Fonte:http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arqui

Figura 3.11: Foto aérea do Conjunto Habitacional Joaquim Zarpellon, na cidade de Irati, no Paraná.

ga-de-residencias-do-minha-casa-minha-vida- acontece-nesta-sexta-feira,9060.html

mecanismo de incentivo à produção e à aquisição da casa própria, compreendendo uma faixa de renda de zero até dez salários mínimos (Ferreira, 2012, p. 39). O programa se propõe, portanto, a atender famílias com diferentes faixas de renda. Dessa forma, se distingue dois cenários, o primeiro propõe subsidiar habitações, exclusivamente, para a faixa de renda mais baixa de zero a três salários mínimos. Nesse caso, os municípios participariam fornecendo uma demanda com cadastros dos beneficiários. Esse processo seria operacionalizado pela Caixa Econômica Federal. O segundo cenário seria o atendimento às faixas de renda média, no caso entre quatro e dez salários mínimos. O financiamento seria feito através de recursos

Fundo de Garantia por

Tempo de Serviço (FGTS), e com

taxas de

vindo do

juros reduzidas a uma maior facilidade de acesso ao crédito. O segmento de zero a três salários mínimos é o mais urgente no tocante a habitação, dada a significativa concentração do déficit habitacional nessa faixa, a saber, em torno de 5,6 milhões de domicílios (Ferreira, 2012, p. 41). Apesar de, propor-se a incentivar à produção da casa própria, o verdadeiro objetivo era a necessidade de investir nas atividades de construção civil, a fim de aquecer o mercado abalado pela crise econômica de 2009 (Ferreira, 2012, p 39). Mais uma vez, é lançada uma política habitacional que se propõem a minimizar os

58

danos causados pela falta de habitação, mas por trás dessa

proposta existe o interesse político

e econômico de uma classe

dominante, de modo que, os conjuntos habitacionais

desenvolvidos por esse programa,

em muitos casos, ainda recaem na

mesma lógica da política higienista.

59

59

59

Este capítulo realiza um rebatimento das noções obtidas na análise da questão habitacional brasileira sobre a cidade de Fortaleza, através de três estudos de caso.

Desse modo, de inicio,

descrevemos rapidamente o

processo de surgimento dos assentamentos informais e as intervenções nos períodos do IAPs e da Fundação da Casa Popular. Neste períodos, as informações disponíveis mostraram-se insuficientes para o embasamento de um estudo de caso.

Em seguida, estudamos o período BNH, através do caso particular do Conjunto Habitacional Esperança. Com relação ao período da redemocratização, optamos por estudar Conjunto Maravilha.

das

políticas habitacionais em Fortaleza

foi concluída por meio do exame da urbanização da Lagoa do Urubu, que serviu como exemplo do tratamento atual da questão.

Por

fim,

a

análise

60

No início do século XX, devido, de um lado, às corriqueiras secas no sertão cearense
No início do século XX, devido, de um lado, às corriqueiras secas no sertão cearense
No início do século XX, devido, de um lado, às corriqueiras secas no sertão cearense
No início do século XX, devido, de um lado, às corriqueiras secas no sertão cearense

No início do século XX, devido, de um lado, às corriqueiras secas no sertão cearense e, de outro, ao emergente processo de industrialização econômica, inicia- se intenso êxodo da população rural em direção à cidade de Fortaleza. Com isso, torna-se urgente, para o Estado, a adoção de instrumentos de planejamento e de gestão urbana, a fim de ordenar a expansão da cidade, controlando o uso do solo e as formas de ocupação do território. A história do enfrentamento da questão habitacional no contexto do processo de urbanização de Fortaleza remonta, portanto, ao

início do século XX. Todo esse tempo nos levaria a imaginar, com razão, que muito já foi feito nesse sentido. Entretanto, se olharmos, retrospectivamente, para aquilo que foi realizado, até os dias atuais, em favor da moradia da população carente em Fortaleza, constataremos a total ineficácia dos instrumentos empregados e a ausência de capacidade de gestão ativa. Com efeito, de modo geral, pode-se dizer que o processo de urbanização de Fortaleza, foi executado de forma desorganizada e desigual.

a

problemática habitacional foi relegada à condição de prioridade menor. É o que se constata já no início do século XIX, quando a primeira planta de ordenamento

Historicamente,

61

físico da cidade de Fortaleza foi elaborada pelo engenheiro Silva Paulet, precisamente em 1818 (Muniz, 2006, p.112). Nesse tocante, uma das causas mais relevantes da ineficácia das primeiras intervenções urbanas realizadas em áreas precárias de Fortaleza foi, por certo, a demora do reconhecimento oficial dessas áreas como formas de moradia. Somente a partir de 1963, com a elaboração do Plano Diretor da Cidade de Fortaleza pelo arquiteto e urbanista Hélio Modesto, essas áreas passaram a ser consideradas como tais. É no Plano Diretor de Hélio Modesto que se encontra, com efeito, a primeira tentativa efetiva de realização de um planejamento habitacional para a cidade de Fortaleza (Modesto, 1963). Anteriormente, as medidas

adotadas eram simplesmente: a remoção e o reassentamento, embora o último ocorresse raramente. A população residente nas áreas precárias era abertamente ignorada pelos gestores e acabava expulsa de suas casas, sem chegar a receber tipo algum de apoio por parte do Poder Público. Em muitos casos, essa população se encarregava pela busca de novos locais para morar, próximos ou distantes do local de expulsão. Por vezes, os próprios moradores tinham de assumir a construção de novas moradias. Mais recentemente, após o Planejamento Habitacional de Hélio Modesto (1963), a questão da habitação viria, ainda, a ser retomada pelos diversos planos urbanísticos elaborados para Fortaleza.

As primeiras propostas de habitação social consistentes, mesmo que ainda não houvesse um plano oficial para Fortaleza, ocorreram a partir da década de 1930, decênio em que foi promovida uma política que já vinha sendo adotada nacionalmente, com financiamento dos Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAPs) e da Fundação da Casa Popular (Aragão, 2010). No caso de Fortaleza, a indústria em fase de consolidação exigia mão de obra qualificada, de modo que era exígua a quantidade de pessoas que tinham emprego formal. Com efeito, a maioria da população de Fortaleza não se enquadrava no novo perfil do mercado de trabalho.

Pela pouca expressão da indústria na época, estreito campo de trabalho formal na capital e o problema

62

habitacional insurgente na cidade, a produção dos IAPs foi direcionada para associados de baixa renda. Vale lembrar que apesar dessa parcela da população ser considerada baixa renda, sua condição de estar inserida no circuito formal de trabalho já imputava certa distinção entre estes e uma massa pauperizada de trabalhadores que habitavam a município (Aragão, 2010, p. 78).

O baixo poder aquisitivo da população beneficiada pelo programa foi um dos principais pontos levados em consideração para a elaboração do projeto de intervenção, bem como para a localização do mesmo. A fim de garantir os baixos custos das obras, grande parte dos empreendimentos promovidos pelos IAPs foram construídos fora da malha urbana. No que concerne à

Fundação da Casa Popular, houve apenas uma intervenção que promoveu a construção de 456 unidades habitacionais próxima à Avenida General Osório de Paiva (Aragão, 2010, p. 82). Assim como os conjuntos promovidos pelos IAPs, esse também se localizava longe do centro da cidade e, consequentemente, distante dos serviços urbanos, que na época restringiam-se ao centro. O mapa ao lado produzindo por Aragão especifica a localização desses conjuntos.

pela

produção habitacional dos IAPs e da FCP construiu unidades habitacionais que, além de serem extremamente periféricas, não davam suporte à população beneficiada, tanto em relação ao

O

período

marcado

beneficiada, tanto em relação ao O período marcado Figura 4.0: Localização dos Conjuntos produzidos pelos

Figura 4.0: Localização dos Conjuntos produzidos pelos IAPs e pelo FCP Fonte: Aragão, 2010, p.82

63

aspecto infraestrutural (saneamento básico, transportes), quanto no tocante aos aspectos social (educação, segurança) e econômico (empregos).

social (educação, segurança) e econômico (empregos). Durante a década de 60, Fortaleza passou
social (educação, segurança) e econômico (empregos). Durante a década de 60, Fortaleza passou
social (educação, segurança) e econômico (empregos). Durante a década de 60, Fortaleza passou

Durante

a

década

de

60,

Fortaleza

passou

por

uma

intensificação

do

processo

de

industrialização que

atraiu

para

suas proximidades,

vários

conjuntos executados nessa época.

A industrialização, de certa forma,

do

amenizaria o problema

desemprego

e

da

renda

da

população

retirante,

vinda

para

Fortaleza em

virtude

das

corriqueiras secas e em busca de

novas oportunidades de trabalho.

A política de habitação social daria

suporte a estratégia de constituição

de frentes de trabalho e incentivo ao

setor da construção civil, barateando ainda os custos com a reprodução da força de trabalho para ser absorvida também pela indústria insurgente e assim produzir vantagens comparativas em termo de custo salarial. As obras para a implantação de grandes conjuntos habitacionais absorviam parte da mão-de-obra desqualificada aquecendo o mercado da construção

civil e gerando recursos para a população que impulsionava a economia local (Aragão, 2010, p.

84).

a

consolidação do Distrito Industrial

Enquanto

ocorria

64

de Macaranaú, construído em 1964, a localização de alguns conjuntos produzidos com os recursos do Banco Nacional de Habitação (BNH), foi reforçada no eixo oeste da cidade, prioritariamente, próximo a indústrias. Os dois conjuntos habitacionais produzidos na década de 1960 foram localizados na zona industrial da Barra do Ceará (Aragão, 2010, p. 84). Isso se deve, de um lado, à necessidade de mão-de-obra para trabalhar na indústria, e de outro, ao fato de que os terrenos próximos ao setor industrial eram desvalorizados, e consequentemente, mais baratos.

A partir da década de 1970, a fim de garantir o funcionamento do distrito industrial, agora inteiramente consolidado, foram

implantados imensos conjuntos habitacionais no sentido sul e sudoeste da cidade em direção ao distrito industrial. Esses conjuntos localizados quase nos limites de municípios vizinhos, como Caucaia e Maracanaú, formaram eixos de expansão da malha urbana, iniciando um tímido processo de conurbação. A localização periférica dos conjuntos (figura 4.2) quase na fronteira do município influenciou, mesmo que lentamente, a produção de infraestrutura no trecho entre o centro e os novos conjuntos (Aragão, 2010, p. 87). Os terrenos vazios foram aos poucos se valorizando produzindo, dessa forma, uma dinâmica fundiária ao mesmo tempo em que alimentava o setor imobiliário. É possível dizer que esses conjuntos periféricos produziram um espraiamento da

esses conjuntos periféricos produziram um espraiamento da Figura 4.1: Localização dos Conjuntos produzidos no

Figura 4.1: Localização dos Conjuntos produzidos no período BHN Fonte: Aragão, 2010, p.89

65

Figura 4.2: Localização do Conjunto Esperança no Município de Fortaleza Fonte: Google Earth, modificado pela

Figura 4.2: Localização do Conjunto Esperança no Município de Fortaleza Fonte: Google Earth, modificado pela autora.

malha

Fortaleza.

urbana

da

cidade

de

Durante a década de 80, o BNH continuou com a produção de grandes conjuntos periféricos (figura 4.2) e massificadores. Porém, nesta década a maior parte das unidades foi concentrada ao redor do distrito industrial de Maracanaú, totalizando 17.046 unidades habitacionais em seis conjuntos. Mesmo tentando solucionar o déficit habitacional, em especial no setor de baixa renda, o BHN mostrou sua ineficiência à medida que essa parcela da população só aumentava. Em virtude disso, os movimentos sociais criaram sistemas de autogestão, utilizando processos de autoconstrução, bem como apresentando ao governo

66

propostas de urbanização das comunidades. Esse já seria um insipiente processo que introduziria a urbanização de favelas como alternativa para a questão habitacional (Aragão, 2010).

 

Os

conjuntos

produzidos

nessa

época

possuíam

Um

Conjunto

Esperança, pois caracteriza bem o

bom

características

semelhantes.

é

o

exemplo

período BNH, tanto no tocante a

periferização,

quanto

a

padronização

massificadora.

A

escolha

desse

estudo

se

deu

também,

em

virtude

do

mesmo

possuir

uma

proposta

mista

de

casas e apartamentos.

O Conjunto Esperança foi entregue, em 1981, já nos últimos anos do BNH. Está localizado no bairro do Modubim, próximo aos

limites da cidade, em sua porção sul (figura 4.3). Ao todo, consta de 2.039 unidades habitacionais divididas entre unidades unifamiliares de apenas um pavimento e unidades multiFamiliares de dois pavimentos (figura 4.4 e 4.5). Há, ao todo,

quatro tipologias diferentes. Existe uma tipologia de edifício de apartamentos com sala, cozinha, banheiro e três quartos somando um total de 1.072 unidades. As casas estão divididas em três tipologias diferentes (figura 4.4) a primeira possui sala, banheiro, cozinha e dois quartos constituindo um total de 952 unidades. A segunda possui sala, banheiro, cozinha, um quarto e uma varanda, somando um total de 952 unidades. A terceira e ultima

cozinha, banheiro e

possui sala,

uma pequena varanda, somando ao todo 952 unidades. Em todas essas unidades, havia uma faixa de terreno livre que permitia, posteriormente, sua ampliação. Além disso, havia alguns equipamentos de apoio, por exemplo, escola e posto de saúde (Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012). No caso do Conjunto Esperança, além das unidades residenciais, foi construída uma pequena área de lazer com quadra de futebol, porém o espaço destinado para essa atividade é irrisório comparado ao tamanho do conjunto.

levantamento das

modificações ocorridas na planta baixa (figura 4.6), desde a entrega do conjunto até os dias atuais, mostra várias modificações na

Um

67

até os dias atuais, mostra várias modificações na Um 67 Figura 4.3 e 4.4: Tipologia original

Figura 4.3 e 4.4: Tipologia original das unidades unifamiliares e multi-familiares. Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012.

Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012. Figura 4.5: Croqui da tipologia de apartamentos modificada

Figura 4.5: Croqui da tipologia de apartamentos modificada pelos moradores. Fonte: Pesquisa própria.

Batista, 2012. Figura 4.5: Croqui da tipologia de apartamentos modificada pelos moradores. Fonte: Pesquisa própria.
Figura 4.6: Unidades Residenciais Multifamiliares Originais Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012 Figura
Figura 4.6: Unidades Residenciais Multifamiliares Originais Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012 Figura
Figura 4.6: Unidades Residenciais Multifamiliares Originais Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012 Figura
Figura 4.6: Unidades Residenciais Multifamiliares Originais Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012 Figura

Figura 4.6: Unidades Residenciais Multifamiliares Originais Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012

Figura 4.7: Unidades Residenciais Multifamiliares Modificadas pelos Moradores Fonte: Arquivo Pessoal

Figura 4.8: Unidades Residenciais Unifamiliares Original Fonte: Alencar, Cavalcante, Benevides, Batista, 2012

Figura 4.9: Unidades Residenciais Unifamiliares Original Fonte: Arquivo Pessoal

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a antiga tipologia de apartamentos. Percebemos que os moradores, modificaram tanto a disposição do espaço interno como a fachada e o átrio entre um bloco e outro. Um primeiro motivo para tais modificações está no fato de que, nesse projeto, não foi pensado uma área pra expansão da edificação, portanto os moradores acabaram fazendo uma expansão improvisada. Pensamos que um segundo motivo seria a descoberta de uma identidade própria dentro de um espaço massificador.

A partir do estudo do conjunto esperança, fica claro que houve pouca evolução na produção de habitação social. A mesma lógica seguida no período dos IAPs e da FCP, continua fazendo parte do projeto político de arrecadação de

votos, e dos anseios econômico de

capitalização financeira dos

setores da construção civil. Dessa

forma, a população continuou sem

os suportes básicos que garantem

uma moradia digna.

sem os suportes básicos que garantem uma moradia digna. longo da década de 90, a política
sem os suportes básicos que garantem uma moradia digna. longo da década de 90, a política

longo da década de 90, a política

habitacional implantada na Região

Metropolitana de Fortaleza teve

como principal característica a

construção de conjuntos

habitacionais pequenos e médios,

localizados na periferia da cidade

(Aragão, 2010, p. 92), assim como

acontecia no período do BNH. A

crise habitacional resultante do fim

do BNH desencadeou a produção

privada da habitação de interesse

social pelo Programa de Ação

No

período

da

Imediata para Habitação (PAIH) (8),

redemocratização, apesar

da

que adensou, ainda mais, a zona de

mudança política, ainda

uma

conurbação de Fortaleza com os

continuidade da produção

de

municípios vizinhos. Essa produção

grandes conjuntos

porém nessa época, na cidade de

Fortaleza, houve

habitacionais,

redução

dessa produção. As intervenções

habitacionais foram, em sua grande

maioria, de porte reduzido.

Ao

uma

privada concentrou-se em bairros

periféricos da capital.

Ainda na década de 1990, o

Programa Habitar Brasil BID (HBB)

foi criado pelo governo do

69

(8)_Programa criado pelo então presidente da República, Fernando Collor de Melo

Presidente

Fernando

Henrique

Cardoso,

com

a

finalidade

de

elaborar

Planos

Estratégicos

Municipais

de

Assentamentos

Subnormais (PEMAS). Os PEMAS

faziam

assentamentos

organizando-os

prioridade de intervenção. No caso

dos

precários,

de

levantamento

em

ordem

de

Fortaleza,

a

execução

da

primeira

obra

com

os

recursos

desse

programa

beneficiou

a

comunidade ribeirinha da Lagoa do

Opaia,

colocação

pelos PEMAS. O principal motivo

que levou à intervenção na Lagoa

do Opaia

assentamento

na

elaborado

nona

que

do

estava

ranking

na

e

não

à

intervenção no

estava

que

primeira colocação do ranking, foi

localização em uma rota de

turismo da cidade. A comunidade

sua

fica

próximo

ao

terminal

de

embarque

e

desembarque

do

Aeroporto

Internacional

Pinto

Martins.

Havia

o

interesse

em

retirar da paisagem do visitante a

visão

do

desagradável

assentamento precário. Houve, ainda, outras intervenções da Prefeitura de Fortaleza planejadas com os recursos do HBB como, por exemplo, a da Favela Maravilha, que apesar de deter o 16° lugar, também estava no percurso entre o aeroporto e a orla da cidade (Aragão, 2010, p. 96-97). A intervenção na Favela

Maravilha será utilizada para

ilustrar as ações do governo, no

que diz respeito à Habitação de

Interesse Social no período da

redemocratização. Essa

intervenção foi escolhida, por ser

uma das mais significativas desse

período. De início, é preciso

registrar que, apesar do recurso

financeiro para a obra ter sido

liberado já na década de 1990, a

ordem de serviço para sua

construção só saiu na primeira

metade da década de 2000. Essa

protelação para o inicio da obra é

70

de 2000. Essa protelação para o inicio da obra é 70 Figura 4.10: Localização da Favela

Figura 4.10: Localização da Favela Maravilha no Município de Fortaleza Fonte: Google Earth, modificado pela autora.

Figura 4.11: Implantação dos setores Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza.

Google Earth, modificado pela autora. Figura 4.11: Implantação dos setores Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza.

prova de que existe um interesse político na manutenção da questão habitacional.

O projeto Maravilha está localizado no Bairro São João do Tauape, às margens da BR-16 (figura 4.10). Ao todo, o conjunto consta de 606 unidades habitacionais divididas em três setores. O setor 1, o setor 2 e o setor 3 são predominantemente residências, tendo ainda, cada um, uma sala comercial comunitária e pontos comerciais individuais. Para esse setor residencial, foram desenvolvidas duas tipologias de apartamento (Figura 20), a planta tipo 1 possui: sala, cozinha, área de serviço, um banheiro e dois quartos, e a planta tipo 2 possui:

sala, cozinha, área de serviço, um banheiro e três quartos. Houve,

ainda, a criação de mais 3 setores. O setor 4 consta de 11.071m², divididos em campo de futebol, quadra de vôlei, playground, praça de lazer e equipamentos de skate. O setor 5 possui 2.538m², divididos em equipamentos institucionais como a creche comunitária para 200 crianças, a escola de ensino fundamental para 500 crianças e o centro comunitário com 30 m². Esse setor é o único que ainda não foi concluído. E, finalmente, o setor 6 também possui equipamentos de lazer como uma pequena praça e 6 pontos comerciais.

Percebemos que as poucas intervenções feitas nesse período foram marcadas pela priorização dos interesses de terceiros, em especial, o mercado imobiliário,

71

de terceiros, em especial, o mercado imobiliário, 71 Figura 4.12 e 4.13: Tipologia das Unidades Habitacionais

Figura 4.12 e 4.13: Tipologia das Unidades Habitacionais Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza

imobiliário, 71 Figura 4.12 e 4.13: Tipologia das Unidades Habitacionais Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza
Figura 4.14: Favela Maravilha antes da Urbanização Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR). Figura 4.15:
Figura 4.14: Favela Maravilha antes da Urbanização Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR). Figura 4.15:

Figura 4.14: Favela Maravilha antes da Urbanização Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR).

Figura 4.15: Favela Maravilha depois da Urbanização Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR).

Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR). Figura 4.16: Blocos Habitacionais Fonte: Prefeitura

Figura 4.16: Blocos Habitacionais Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR).

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deixando de lado, mais uma vez, as reais necessidades dos principais concernidos, no caso, a população de baixa renda abrangida pelo projeto. Em geral, como mostram as imagens, os conjuntos descaracterizavam por completo o tecido urbano da favela, assim como as características culturais e estéticas presentes na mesma. Eles se configuravam, em sua grande maioria, como conjuntos massificadores, destituídos de identidade própria.

A ultima versão do Plano Diretor de Fortaleza, antes da revisão consequente das novas diretrizes
A ultima versão do Plano Diretor de Fortaleza, antes da revisão consequente das novas diretrizes

A ultima versão do Plano Diretor de Fortaleza, antes da revisão consequente das novas diretrizes estabelecidas pelo Estatuto da Cidade foi entre a Câmara Municipal de Vereadores em 2004, porém devido ao uso de uma metodologia participativa de caráter duvidosa, o mesmo foi rejeitado pela população civil. Com a posse, em 2005, da Prefeita Luiziane Lins, houve o inicio da elaboração de um novo Plano Diretor, desta vez, contando com audiências públicas, fóruns, conferências e conselhos (Aragão, 2010, p. 98-99).

um

enfrentamento direto da população

com o setor da construção civil em

torno da disputa por

terra

urbanizada. As Zonas Especiais de

Passou

a

haver

Interesse Social (ZEIS), de acordo com os movimentos sociais, deveriam ser utilizadas para regularização fundiária, dando às comunidades consolidadas a posse da terra, bem como os vazios urbanos presentes no centro deveriam ser transformados em ZEIS destinadas à construção de moradias de interesse social. Essas ideias confrontavam os interesses do setor da construção civil. “A reserva de terras constituída pelo capital imobiliário estava desta forma ameaçada, enquanto a possibilidade de remover comunidades inconvenientes estaria da mesma forma impedida” (Aragão, 2010, p.

99).

O novo Plano Diretor foi sancionado somente em 2009, prevendo as ZEIS como instrumento de garantia do direito à cidade. Porém, é preciso dizer que para serem regulamentadas, é necessário que haja uma legislação própria, um plano de regularização

73

e um Comitê Gestor. Nenhuma das ZEIS existentes foi, até hoje, regulamentada (Brasil, 2012, p. 10). Era de se esperar que a adoção de tais instrumentos, modificasse o panorama da questão habitacional, porém, não é isso que se observa. Ao longo da ultima década, o processo de localização continuou a se concentrar na periferia da Região Metropolitana, bem como teve prosseguimento a construção de conjuntos habitacionais, ao invés da urbanização de favelas, que é, quase sempre, o desejo dos moradores, tendo em vista que essa intervenção possibilita a permanência deles no mesmo local de origem. Um exemplo da ineficiência dos novos instrumentos fica claro quando percebemos que a ZEIS 3 - Zona Especial de Interesse Social de Vazios - possui diversos terrenos vazios centrais, que não podem ser utilizados para construção de habitação social, pois a legislação que regulamenta

Tabela 4.17: Produção Habitacional da Gestão PT para população com renda de zero a três

Tabela 4.17: Produção Habitacional da Gestão PT para população com renda de zero a três salários mínimos. Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza (HABITAFOR).

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essa lei ainda não foi estabelecida. Percebemos, dessa forma, que continua não havendo dialogo entre a política urbana e a política habitacional.

No período da gestão do

Partido dos Trabalhadores (PT) na

Prefeitura de Fortaleza, que durou

8 anos (2005-22012) , houve

grande aumento na quantidade de

famílias aten