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O QUE É UMA ESTÓRIA?

É uma narração por quaisquer meios, de um evento, incidente, testemunho; enfim, de


algum fato real ou imaginário. Ou seja, em outras palavras, uma estória é uma
“informação”. Preste atenção, “por quaisquer meios” é bem abrangente. Os homens das
cavernas, quando pintavam seu dia-a-dia nas paredes das cavernas com pigmentos,
narravam seus acontecimentos. Eles “contavam sua história”. Um amigo que narra um
acidente de trânsito que presenciou não é diferente. A diferença fica na maneira usada. Os
homens das cavernas usaram de representação gráfica, isto é, desenhos. O amigo usou
ferramenta verbal, ou seja, falou.

As ferramentas são inúmeras. Um comercial de tv é informação – portanto, estória –


sendo narrada através de uma ferramenta áudio-visual. E isso condiz muito com o
conceito de roteiro, pois é através de certas ferramentas que um roteiro é construído.

Como vemos na imagem, a informação é intercambiável com a ferramenta. Você não


pode passar uma informação sem algum meio, no caso, uma ferramenta, seja ela qual for.
Quando escrevemos uma fala, uma cena, quando um personagem faz algo, não deve ser
gratuito. Deve-se ter uma razão dentro da estória, ou seja, que faça parte da linha
narrativa principal, para que acontecimento x ou y se faça presente. Deve-se despejar na
estória uma informação que ajude, contribua para a estória ir para a frente, evoluir. Caso
contrário, tudo que estará fazendo é o famoso “encher linguiça”.

Se você escreveu uma cena e/ou diálogo em particular e acha maravilhoso o que criou, de
nada adiantará se não ajudar a levar a estória a uma progressão. É nessa hora que o
racional deve-se sobrepor ao emocional. Quando escrevemos, lidamos com o conceito de
espaço-tempo – como veremos em uma aula mais adiante – e usar idéias que em nada
acrescentam à sua estória, é comer esse espaço-tempo que temos para contá-la. Em outras
palavras, o maior prejudicado não será seu público, mas você mesmo.

Se algo em uma estória que esteja escrevendo em nada acrescenta à sua trama, descarte
sem dó nem piedade. Apagar algo é o maior aliado de um roteirista/escritor. Você apagou
por algum motivo? Reescreva. O roteirista/escritor que não passa pelo processo de
reescrita não é um roteirista/escritor. É muito melhor apagar algo que você pode
reescrever e, dessa vez, dando uma informação, dando um sentido para aquilo e particular
que você imaginava do que deixar o emocional ser mais forte, incluir aquele trecho que
não serve pra nada e comer o espaço-tempo que tem para contar sua estória e ainda
abusar da paciência de seu público, isso sem falar em insultar a inteligência deles.
Resumindo, nada, absolutamente nada em uma estória deve ser gratuito. Tudo deve ter
um porque. Se algo não tem um objetivo, são como folhas ao vento que não tem direção
nenhuma.

Pensando assim, você deve-se perguntar quando tem uma idéia para uma cena, diálogo
ou qualquer outra coisa: “O que isso contribui para minha estória?”. Não fique achando
qualquer razão só para incluir algo em particular que, por alguma razão emocional, você
gosta. Pense. Analise. Reflita. Cruze informações. Só dê o veredito final quando tiver
certeza de sua decisão, caso contrário, uma decisão equivocada por prejudicar você em
momentos posteriores. Como? Vamos dizer que você incluiu algo que acha legal em
determinado momento e que ponderou adequadamente sobre a utilidade desse algo para a
estória. Aí, mais pra frente, você quer/precisa escrever algo na sua estória que vai criar
um caminho sensacional para desenvolvê-la. Aí, percebe, tarde demais, que aquilo que
incluiu antes vai atrapalhar você de colocar a idéia sensacional que teve agora. As duas
idéias agora estão em contradição. Formam um buraco no roteiro. Não fazem sentido
juntas, na mesma estória. E agora?

Viu como é problemático?

É uma fala? É uma ação? É um acontecimento? Um personagem fez/decidiu fazer algo?


Não importa, qualquer que seja a coisa, precisa passar uma informação, ser útil para sua
narrativa evoluir. Não é? Descarte. Simples assim.

QUAL É SEU ASSUNTO?

Toda estória tem uma informação-mestra, aquela que dita toda a narrativa, todo o
desenvolvimento daquilo que você escreve. Mas e sobre que informação será sua estória?
Em outras palavras, qual é o assunto? Quando essa pergunta é feita, fica muito fácil
perder-se numa avalanche de idéias e sugestões, fazendo com que seja difícil até começar
a escrever uma estória. A pior parte de escrever é saber o que escrever. Se você – a
estória é sua – não sabe, quem vai saber?

O ato de escrever uma estória, estabelecer sua linha narrativa principal, seu personagem
principal, entre outros detalhes, é algo altamente pessoal. Não há uma maneira certa,
perfeita, de obter uma idéia. Elas parecem estar ao vento ou escondidas a partir do grande
inconsciente coletivo.; ou a partir do seu lado negro; ou a partir da miríade de
informações que você recebe todos os dias. Você pode ter uma idéia, uma imagem ou
algo que simplesmente não sai da sua cabeça. Você pode ler sobre um evento em um
livro de história ou em um jornal ou diário. Ou algo aconteceu com você ou com alguém
próximo que renderia uma boa narrativa. Talvez haja uma figura histórica que sempre
exerceu fascínio em você que possa ser inspiração para algo. Como pode notar, as
possibilidades são infinitas.

Ninguém pode escolher sua estória por você, mas nem todas as idéias são fortes o
suficiente para se tornar algo comercial, vendável ou digno da atenção de um público.
Essa sensação de algo que serve e não serve veremos depois, em futura aula. Vamos nos
concentrar agora em um processo que ajudará esse conceito mais tarde.

Esse processo é o “processo do resumo”.

Existe uma regra fundamental que é, resumir em uma frase ou parágrafo, sua principal
linha narrativa. Como? Exemplos:

:: um jovem torna-se mosqueteiro depois de impedir uma conspiração contra o rei da


França da Era Vitoriana – “Os Três Mosqueteiros”.

:: um médico excêntrico desafia os métodos tradicionais de tratamento com métodos nem


um pouco ortodoxos, como o bom-humor, a comédia e o amor ao próximo – “Patch
Adams – O amor é contagioso”.

:: ao tentar resgatar soldados do exército americano com alguns companheiros, um oficial


se depara com uma ameaça na forma de um caçador alienígena – “O Predador”.

:: uma mulher morre e todas as provas apontam para seu marido, que na verdade é
inocente. Vendo que será erroneamente condenado, o homem decide fugir e tentar provar
sua inocência capturando o verdadeiro assassino – “O Fugitivo”.

:: detetive é contratado por viúva para saber a procedência de um perturbador filme de


sexo amador achado após a morte de seu marido – “Oito Milímetros”.

:: advogado que contraiu HIV luta por seus direitos após ter sido preconceituosamente
demitido – “Filadélfia”.

:: um frio assassino profissional aceita o pedido de ajuda de sua vizinha, cuja família foi
morta por policiais corruptos – “O Profissional”.

Uma boa estória começa a ser construída com um bom assunto. Se você não souber o
assunto de sua estória, quem vai saber? A criação de personagens, as situações, os
problemas que os cercam, as cenas, tudo será criado a partir de um bom assunto.

Muitas pessoas tem idéias para estórias, mas como se desenvolve um assunto? Como
surge um bom assunto?

Em “Um Dia de Cão”, o assunto é: “um homossexual resolve assaltar um banco para
financiar a operação de mudança de sexo de seu companheiro”. E o assunto surgiu a
partir de um evento real, que foi noticiado com interesse nacional nos EUA. E como seu
assunto pode surgir? De qualquer lugar. Um artigo em uma revista ou jornal. Em uma
conversa entre amigos. De qualquer lugar pode surgir um bom assunto, algo que possa
ser resumido em uma frase ou parágrafo. Só deixe que a coisa seja natural a você.
Outro detalhe importante é o que chamamos de “enfoque”. Vamos supor que você já tem
sua linha narrativa principal, que você já tem sua frase ou parágrafo bem determinados.
Qual será seu enfoque?

O enfoque nada mais é a maneira como sua estória será tratada. O seu assunto receberá
qual abordagem? Será terror? Aventura? Policial? Qual é a informação que você quer
passar com seu assunto de maneira que escolha o enfoque mais apropriado?

Na versão da Disney do clássico “Tarzan”, recontaram a célebre estória do homem-


macaco na forma de uma animação cuja mensagem nada mais é do que “nada é mais
importante do que sua família”.

O próximo passo é expandir o assunto. Isso faz-se com pesquisa. Todos os


roteirista/escritores pesquisam muito antes de escrever sequer uma linha. Você não pode
escrever sobre algo que não sabe ou sabe muito pouco. Como escreverá uma estória que
depende muito de mitologia celta se você não sabe nada de mitologia celta? Todo texto
exige pesquisa e toda pesquisa é reunir informação. Procure na internet. Vá em
bibliotecas municipais. Converse com professores universitários da área. Faça o que for
preciso pra ter as informações que necessita de maneira a contar uma estória com
credibilidade. Quanto mais você souber sobre determinado assunto, mais fácil contará sua
estória. Mais uma vez, a parte mais difícil de escrever é saber o que escrever. Se você não
souber, quem saberá?

Como pode ver, tudo começa com uma simples frase ou parágrafo.

Tendo isso em mente e tendo colocado no papel, olhe para o que escreveu e comece um
jogo de perguntas a si mesmo, respondendo o mais honestamente possível.

1 – O que eu encontro de diferente nessa estória? O que me atrai nela? O que essa estória
significa pra mim? Seja o mais específico possível. Ela não tem que ser profunda, mas
tem que haver alguma coisa, alguma justificativa que fará você se envolver com ela pelos
próximos dias, semanas, meses ou até anos. Tem que haver boas respostas que dêem
razão a todo o esforço que você desprenderá para essa estória virar realidade.

2 – Existe uma imagem visual específica envolvida? Seja em uma tela ou papel ou até na
mente de seu público, uma imagem forte ajuda a dar consistência à sua estória. Não
convém agora discutir se as leis da física estão certas ou erradas na cena em que
Superman volta no tempo para salvar Lois em “Superman – O Filme”, mas é uma cena
forte o suficiente que ajuda a dar peso à trama do filme?

3 – Existe um herói ou heróis, em uma situação insustentável, com vários obstáculos em


seu caminho? Qual é o problema que o herói tem a resolver? Eu posso resolver isso de
uma forma nunca antes vista?

4 – Existe pelo menos uma personagem que eu possa me identificar e que tenha a
possibilidade de passar por grandes mudanças? É a personagem principal uma pessoa
comum que abraça situações extraordinárias ou uma pessoa extraordinária destinada a
transformar o mundo ao seu redor? Posso identificar a personagem principal de forma
precisa, compreendendo bem suas motivações e que tenha uma personalidade profunda?

5 – Existe alguma parte nessa estória que é sobre mim? Será que eu serei capaz de manter
uma distância para permitir aos personagens que sejam quem são e ao mesmo tempo ficar
inserido tão profundamente nele de modo que eu possa “capturar a voz” da personagem,
fazendo-a convincente?

6 – Eu sou capaz de escrever essa estória? Eu sei o suficiente sobre o mundo que estou
escrevendo? Fiz toda a pesquisa pertinente? Se não fiz, estarei disposto a isso? Escrever
essa estória forçará meus limites como escritor ou é um gênero que tenho facilidade pra
escrever? Se esse território não me é semelhante, estarei pronto para algo que nunca fiz
antes?

7 – Essa estória já foi vista antes de alguma forma? Se tiver, tem alguma coisa na minha
versão que seja um novo jeito de contá-la? O que é especial e único sobre a minha visão
dessa estória?

Após ter definido sua frase ou parágrafo de sua linha narrativa principal, responda essas
perguntas sinceramente e sem pressa em um caderno ou no seu editor de texto preferido.
Não importa o tamanho das respostas. Quando terminar, terá uma noção dos problemas
que terá que resolver para contá-la e quais serão seus pontos fortes ao lidar com ela.